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Aparicao de Vergilio Ferreira, Um Livro Que Poderia Ter Escrito Clarice Lispector

O documento discute como o romance Aparição de Vergílio Ferreira contém elementos da escrita de Clarice Lispector. Aponta trechos do romance que descrevem estados de espírito semelhantes aos descritos nos escritos de Clarice, como um estado de graça onde a pessoa se sente totalmente real. Também discute como a obra explora a ideia de deixar de falar e pensar para alcançar tal estado.
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Aparicao de Vergilio Ferreira, Um Livro Que Poderia Ter Escrito Clarice Lispector

O documento discute como o romance Aparição de Vergílio Ferreira contém elementos da escrita de Clarice Lispector. Aponta trechos do romance que descrevem estados de espírito semelhantes aos descritos nos escritos de Clarice, como um estado de graça onde a pessoa se sente totalmente real. Também discute como a obra explora a ideia de deixar de falar e pensar para alcançar tal estado.
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Apario de Verglio Ferreira, um romance que poderia ter escrito

Clarice Lispector
ou Entre persona e pessoa
ou Por que os animais no falam?
H vrios momentos lispectorianos no romance Apario de Verglio Ferreira. Um
deles poderia ser aquele quando o menino chamado Bexiguinha reflete sobre
como seria se ele fosse galinha, aquele animal esquisito com quem tantas
vezes empatizam as protagonistas da brasileira. Tambm poderia se comear por
uma das conversas entre o protagonsita principal e sua aluna Sofia, onde a
relao mestre-aluna adquire vrias e riqussimas camadas simblicas. Mas
talvez o lugar mais lispectoriano do livro inteiro seja o trecho a seguir:
Senti-me embrutecido, atordoado em todo o corpo. Era espanto e fria e
terror. Era essa indizvel e total suspenso em que a absurda evidncia nos
esmaga pela absoluta impossibilidade. Sei e recuso. Uma violncia iluminada
incha-me no crebro, estala-me o crnio como uma massa solar. Pensar,
reflectir, como?, como? Apenas vejo, apenas vejo, fascinado, imvel. (57)

Queria deter-me um pouco neste trecho. curioso com que vaga preciso ele
poderia se referir s sensaes do leitor perante a escrita de Clarice Lispector.
Mas, antes de mais nada, devemos dizer que, evidentemente, trata-se de uma
aproximao textual do estado de esprito do protagonista. um estado peculiar,
que esquiva descries e foge s anlises. Tambm no se sobmete a uma
identificao clara com um nome concreto. O narrador-protagonista tenta dar
conta da sua vivncia atravs da conjuno de tais categorias como espanto,
fria e terror, porm logo ele constata que no se trata bem de uma simples
mistura desses sentimentos conhecidos e nomeveis. Acontece l algo mais, algo
indizvel e absurdo. Uma das poucas caratersticas certas dessa vivncia a sua
intensidade. Outra consiste em deslocar o acento desde o pensar e compreender
at o ver e sentir com o corpo. Estamos, portanto, assistindo uma
regonfigurao do aparato cognitivo que se afasta do racional para se voltar ao
sensual. Estamos assistindo, para empregar o termo de Benedito Nunes, a uma
epifania. Ou para empregar o termo da prpria Clarice, a um estado de graa.
Na crnica do Jornal do Brasil do dia 6 de abril de 1968 ela escreveu: O estado
de graa de que falo no usado para nada. como se viesse apenas para que
se soubesse que realmente se existe. Nesse estado (...) sem esforo, sabe-se.
1

(124) Apenas nada poderia se aproximar mais do esprito contido na Apario,


onde o grande escritor portugus medita sobre a evidncia cida do milagre que
sou.
Um dos mais perfeitos exemplos desse estado na escrita de Clarice podemos o
encontrar em A ma no escuro. O protagonista da obra, acha-se no meio dum
descampado no que se descreve assim:
No sei mais falar, disse ento para o passarinho (...) Perdi a
linguagem

dos

outros,

repetiu

ento

bem

devagar

(...)

Estava

serenamente orgulhoso, com os olhos claros e satisfeitos. | Ento o


homem se sentou numa pedra, ereto, solene, vazio (...). Porque alguma
coisa estava lhe acontecendo. E era alguma coisa com um significado. |
Embora no houvesse um sinnimo para essa coisa que estava
acontecendo. | (...) Vagamente ele conhecia isso. No seu antigo
apartamento s vezes tivera esse incmodo misturado com prazer e
ateno (...). Nunca o sentira, verdade, com essa nitidez final do
descampado. No que era ajudado pela prpria sombra que o delimitava
sem equvocos no cho. Aquela coisa que ele estava sentindo devia ser,
em ltima anlise, apenas ele mesmo. (32)
A revelao que observamos a-lgica. Ela se produz fora do logos no sentido
em que esse termo encerra o raciocnio e a palavra: a propriedade humana de
pensar com linguagem. O estado de Martim , na verdade, consequncia de uma
prolongada experincia, tambm no sentido de experimento, que ele tem
executado nas ltimas duas semanas. A experiencia que consiste em recusar a
linguagem e o pensamento lgico. O romance introduz a figura de Martim, no
meio de sua, bastante abstrata, fuga, na peregrinao pelo descampado que vai
marcando o processo da animalizao do protagonista. Ele desce pela janela
como um macaco, se torna mais indefeso que um coelho, atento e
inutilmente feroz, com as mos avanadas para o ataque e guia-o a suavidade
dos brutos, a mesma que faz com que um bicho ande bonito. Ao mesmo tempo
vai-se operando a progressiva anulao do pensamento lgico a medida que o
protagonista abraa um modo corporal, direto, poderia dizer-se, orgnico, de
realcionar-se com o entorno. Afinal, em duas semanas aprendera como que
um ser no pensa e no se mexe e no entanto est todo ali. Esse no entanto
est todo ali sintetiza a vivncia central dessa fuga. Mas isso s pode ser
atingido graas a deixar de falar e deixar de pensar. O gesto de deixar de falar e
2

deixar de pensar muito importante para Lispector. So etapas de um


experimento que traz mente as instrues dos ascetas da mstica espanhola do
sculo XVI, quem tentavam descrever o processo de se aproximar de Deus por
meio de um gradado procedimento espiritual, que passava fundamentalmente
pelo silncio. Baste evocar a figura de Santa Teresa de vila e o estabelecimento
das ordens contemplativas. Promovia-se l a orao individual em silncio como
meio mais certeiro para atingir as moradas mais claras e puras da alma, mais
prximas de Deus, que por sua natureza constitui algo inexprmivel.
Uma associao parecida deve ter tido o j referido crtico de Clarice Bendito
Nunes quando punha como epgrafe do seu trabalho dedicado a ela O drama da
linguagem, a seguinte cita de Fray Luis de Len:
No alcanza la lengua al corazn, ni se puede decir tanto como se siente, y aun
esto que se puede, no se dice todo, sino a partes... y la pasin con su fuerza y
con increble presteza le arrebata la lengua y el corazn de un afecto en otro: y
de aqu son sus razones cortadas y llenas de obscuridad.

O aspeto mstico da escrita de Clarice torna-se surprendentemente prximo das


preocupaes do protagonista de Apario, quando ele confessa:
E, todavia, como difcil explicar-me! H no homem o dom perverso da
banalizao. Estamos condenados a pensar com palavras, a sentir em palavras,
se queremos pelo menos que os outros sintam connosco. Mas as palavras so
pedras. Toda a manh lutei no apenas com elas para me exprimir, mas ainda
comigo mesmo para apanhar a minha evidncia. A luz viva nas frestas da janela,
o rumor da casa e da rua, a minha instalao nas coisas imediatas
mineralizavam-me, embruteciam-me. Tinha o meu crebro estvel como uma
pedra esquadrada, estava esquecido de tudo e no entanto sabia tudo. Para
reparar a minha evidncia necessitava de um estado de graa. Como os
msticos1

em

certas

horas,

eu

sentia-me

em

secura.

Fechei

os

olhos

raivosamente e quis ver. (38)

Assinalei h pouco a questo da animalizao do protagonista de A ma no


escuro como caminho epifania ou ao estado de graa. No casual pois o ser
animal para Clarice uma das maiores preocupaes literrias, alis ela
1 Aqui diverge da verso de Clarice: No nem de longe o que mal imagino
deva ser o estado de graa dos santos. Esse estado jamais conheci e nem sequer
consigo adivinh-lo. apenas o estado de graa de uma pessoa comum que de
sbito se torna totalmente real porque comum e humana e reconhecvel.
3

escreveu algumas crnicas magistrais dedicadas explcitamente animalidade,


onde confessou entre outras coisas: No ter nascido bicho parece ser uma de
minhas secretas nostalgias. Mas interessa ainda mais o que escreveu na j
referia crnica dedicada definio do estado de graa. Lemos l:
No sei por qu, mas acho que os animais entram com mais freqncia
na graa de existir do que os humanos. S que eles no sabem, e os
humanos percebem. Os humanos tm obstculos que no dificultam a
vida dos animais, como raciocnio, lgica, compreenso 2. Enquanto os
animais tm a esplendidez daquilo que direto e se dirige direto.
Eis a tragdia do ser pensante: s pode atingir o estado de graa , franquear as
suas limitaes, desistindo do nico instrumento que lhe permitiria acompanhar
e se dar conta desse franqueamento. Esse o sentido da experincia, do
experimento de Martim que consiste em deixar de falar e depois deixar de
pensar.
Nesse momento acho oportuno introduzir a oposio entre duas palavras:
persona e pessoa.
Persona aparece pelo menos duas vezes nos escritos de Clarice. A primeira na
crnica intitulada justamente assim: Persona 3. Ela faz referncia ao filme de
Ingmar Bergman que acho que interessa referir no s pelas razes (cuja
complexidade no caberia nesta breve exposio), que explicita Clarice no seu
pequeno texto. O filme narra, por excelncia, o gesto de deixar de falar. A
protagonista, atriz Elisabet Vogler cala no meio do espetculo e decide de l em
diante permanecer muda. O momento mais lispectoriano do filme a dignose da
mdica. Cito imperfeitamente:

2 Ser que sejam dispositivos no sentido de Agamben? Dispositivos


convertidos em mquinas? Na concepo do filsofo italiano, a realidade pode se
dividir em duas partes: a vida animada e os dispositivos. No contato entre os
seres vivos e os dispositivos que eles usam pode surgir a subjetividade. Mas
tambm pode ocorrer a dessubjetivizao. Talvez a concepo de Agamben
esteja perto da de Clarice: o uso dos dispositivos como ato trgico: serve mas
separa. O dispositivo fruto proibido.
3 uma crnica brilhante em que se enxergam ecos ou avisos de tantas obras
magnas, como A imitao da rosa, Os restos de caranaval ou A paixo segundo
G.H.
4

Eu entendo voc muito bem. O seu fatal desejo de ser. No fingir mas
ser. Em todo momento consciente e atenta. (...) Cada palvra mentira,
cada gesto falso, todo sorriso apenas uma careta. (...) Ento voc no
quer mover, no quer falar. Pelo menos voc no mente.
Na luz dessa citao no parece casual a escolha da palavra persona numa muito
importante frase de A paixo segundo G.H. Quando sua protagonista fica sentada
de frente uma barata e observa-a prolongadamente, num instante ela diz:
At o momento de ver a barata eu sempre havia chamado com algum nome o
que eu estivesse vivendo, seno no me salvaria. Para escapar do neutro, eu h
muito havia abandonado o ser pela persona, pela mscara humana. Ao me ter
humanizado, eu me havia livrado do deserto. (73)

Persona, equivale por tanto, construo lingstica da mscara humana.


Persona , como poderiamos dizer em termos de Giorgio Agamben, a
subjetividade que emerge no contato do ser vivo com os dispositivos. Os
dispositivos otorgam subjetividade mas tambm separam o ser vivo da vida nua.
Os dispositivos neste caso so os que Clarice enumerou na crnica sobre o
estado de graa: raciocnio, lgica, compreenso. O devir persona portanto
uma metamorfose trgica.
A adquisio da fala poderia ver-se nessa perspetiva como a consumio do
fruto proibido da rvore do conhecimento do bem e do mal. O comeo do
pensamento lgico e o surgimento da linguagem significa o comeo da histria
do ser pensante como sujeito mas ao mesmo tempo significa o degredo do
paraso. O degredo da condio animal.
Queria introduzir agora o termo oposto persona, aquele de pessoa e logo dizer
que Fernando Pessoa no tem nada a ver com tudo isso. Antes bem, hemos de
nos dirigir novamente Verglio Ferreira. Em Apario encontramos vrias
passagens em que o termo pessoa mesmo central.
Um deles a conversa do protagonista principal com o rapaz apelidado
Bexiguinha. Este ltimo postula vrios experimentos, que poderiam interessar no
contexto de nossa anlise mas refiro apenas este:
Fazer assim: pr-me bem no centro de mim e ver-me, sentir-me bem de dentro
para fora, descobrir a pessoa que est em mim.

Mas a pessoa no s est em seres humanos. Aqui retorna a questo animal pois
o protagonista narra uma histria muito importante sobre um cachorro que
outrora tivera e que lhe inspira reflexes sobre as diversas espcies.
Sempre a vida me fascinou, sim. Mas nas vibrteis lagartixas, cujas caudas
cortadas remexem ainda frenticas, nas vvidas doninhas, nos ratos estrepitosos,
nos pssaros, eu no sentia seno confusamente uma forma total de vida, a
mesma fora universal repartida pelos bichos, esse modo de ser em que o
comeo e o fim no so um limite mas elos de uma continuidade. Ora no co eu
pude sentir obscuramente uma pessoa.

Mais tarde, quando j se torna evidente que o bicho vai morrer, o protogonista
perguntar: Como podia o co morrer? Como podia morrer a sua pessoa?4
A tenso entre pessoa e persona a tenso entre humanidade e animalidade
entendidas de forma nada ortodoxa. Ela poderia se compreender melhor se
lembrarmos do famoso conto de Kafka Um relatrio para a Academia. A obra
narra a histria do macaco Peter, quem aprendera a ser humano. Ele aprendeu a
se comportar como ser humano e a falar como um ser humano. No entanto essa
aprendizagem teve como consequncia a total separao de Peter do seu
passado animal. Ele o esqueceu. O caso do macaco falante certifica que um
sujeito s pode tornar-se humano recusando a prpria animalidade, a prpria
pessoa. Pois a racionalidade humana certamente uma instncia absolutista,
que desterra com violncia outros modos de se aproximar da realidade. S a
grande custo possivel subverter a sua hegemonia. O macaco Peter na sua
narrao apresenta a imagem da grande porta que no incio o separava do seu
passado animal. Ela foi-se tornando cada vez mais pequena at se convertir
numa passagem estreitssima pela qual apenas passa um soprinho delicado que
enfresca os calcanheres do ex-macaco. A nostalgia dos protagonistas de Verglio
Ferreira e de Clarice justamente dar volta atrs atravs dessa nfima passagem,
esse tambm o sentido do gesto de Elisabet Vogler, o gesto dos msticos a

4 Lispector vai narrar a sua histria de co tambm. Na crnica Bichos ela vai
escrever sobre o cachorro Dilermando que adquiriu em Npoles. A cara dele
lembra a Clarice a de um mulato-malandro brasileiro. Ela no fala em focinho
mas em cara. Ela de modo muito semelhante a Ferreira pressente no co uma
pessoa. A escritora polonesa Olga tokarczuk, por sua parte, escreveu em O
momento do urso que sempre presentira que as caras dos animais fossem
apenas mscaras que ocultam uma outra vida, vida pessoal.
6

certas horas: o esforo por deixar de falar e deixar de pensar para tornar-se
pessoa em vez de persona.
Para concluir mudando um pouco de enfoque, e fazendo honra ideia central do
congresso, talvez possa se reparar que um dos mritos da literatura lusfona do
sculo XX o mesmo que da prpria lngua portuguesa: aquele de transformar
persona em pessoa.

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