0 notas0% acharam este documento útil (0 voto) 313 visualizações20 páginasMENEGAT, Marildo. A Crise Da Modernidade e A Barbárie PDF
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A Crise da Modernidade e a Barbarie
MARILDO MENEGAT*
RESUMO,
Este ensaio procura analisar os impasses na fundamentacio da
eticidade na modernidade. Parte do pressuposto que os autores clés-
sicos do Huminismo viam nesse problema uma ameaca para o futuro
da sociabilidade. Marx teve o mérito de articular o tema com as bases:
objetivas da estrutura social. O século XX presenciou a tragicidade
desta condigo como um destino da Humanidade. A partir de Ador-
no-Horkheimer, procura-se analisar os desdobramentos dessa condi-
go na chamada cultura pés-modema. A hipétese defendida € que a
crise da modemidade, na auséncia de alternativas radicais para sua
superago, se manifesta como um lento emergir da barbérie. Em pou-
cas palavras: 0 desenvolvimento do capitalismo (e sua l6gica cultural)
no apenas produz a barbérie, como esta the € necesséria para sua
continuidade.
Palavras-chave: Razdo-racionalidade; fetichismo da mercadoria;
barbirie,
* Doutorando em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Bolsista do CNPG.
PHYSIS: Rev, Saude Coleriva, Rio de Joncira, 1011): 197-216, 2000197Marildo Menegat
ABSTRACT
The Crisis of Modernity and Barbarism
This essay intends to analyse the deadlocks in setting up the
foundations of ethicity in modernity. It is based on the assumption
that the classic authors of Illuminism considered this problem a
threat to the future of sociability, Marx had the merit of having
articulated this subject with the objective bases of the social
structure. The twentieth century has witnessed the tragedy of this
condition as destiny of mankind. Grounded on Adorno-
Horkheimer’s work, we intend to analyse the developments of this
condition in the so-called post-modern culture. Tt defendes the
hypothesis that the crisis of modernity, for lack of radical
alternatives that could overcome it, manifests itself as a slow
emergence of barbarism. In a few words, not only the development
of capitalism (and its cultural logic) produces barbarism, but also the
barbarism is necessary for its continuity.
Keywords: Reason-rationality; fetishism of merchandise; barbarism.
RESUME
198
La Crise de Ia Modernité et la Barbarie
Cet essai prétend analyser les impasses dans les fondements de
Veticité dans la modernité. L*hypothése que pour les acteurs
classiques de I’Illuminisme ce probléme-la a été considéré comme
une menace pour le futur de la sociabilité en constitue le point de
départ. Dans ce sens, Marx a eu fe mérite d’articuler ce sujet avec
des bases objectives dans la structure sociale. Le XX** sitcle a
assisté 2 la teagicité de cette condition comme un destin de
Vhumanité. A partir de oeuvre de Adorno-Horkheimer, on prétend
analyser l'accomplissement de cette condition dans Ja culture
“postmoderne”. L’hypothdse avancé c'est que la crise de la
modernité, dans le manque d’une alternative radicale pour son
dépassement, se manifeste comme une lente irruption de la barbarie.
Autrement dit: le développement du capitalisme (et sa logique
PHYSIS: Rev. Saiide Coletiva, Rio de Janeiro, 10(1): 197-216, 2000A Crise da Moderidade e a Barbarie
culturelle) ne produit pas seulement la barbarie, mais celie-ci est la
condition nécessaire pour sa continuité,
Mots-clé; Raison-rationalité, fétichisme de la marchandise, barbaric.
Recebido em 20/12/99.
Aprovado em 2/5/00.
PHYSIS: Rev. Sauide Coletiva, Rio de Janeiro, 10(1): 197-216, 2000199Marildo Menegat
Introdugio
O conceito de razio no Ocidente, desde a tradigao grega, estd implicado
em trés elementos constitutivos: o conhecimento cientifico, 0 estético e 0
ético. A razio na modernidade viu esses elementos se desenvolverem de
forma auténoma e, em diversos aspectos, opostas. O Iluminismo, ou melhor
— aceitando a observagiio de Habermas a respeito —, 0 seu projeto, for-
mulou conscientemente esta oposi¢’o, como nas antinomias de Kant, osci-
Jando entre uma tendéncia afirmativa destas, como um dado imprescindivel
de uma determinada “natureza humana”, ou vendo-a com ceticismo, mas
nao acreditando na possibilidade de outra configuragio do mundo social.
A Escola de Frankfurt, principalmente Adorno e Hokheimer, & luz da
critica marxista A configuragio desse mundo social, elaborou uma critica &
concepgiio coisificada — isto é, dominada pelo fetichismo das relagdes
sociais — da razao iluminista, na qual hd a prevaléncia do conhecimento
cientffico (devido ao dominio dos interesses individuais articulados em tomo
da busca do lucro, que tem no desenvolvimento das forgas objetivas do ser
humano um dos seus pontos centrais). Este dado instaura nio apenas 0
dominio da ciéncia como critério de racionalidade, mas a prépria ciéncia
passa a.ser dominada por uma concepgdo instrumental do seu uso.
Diante dos impasses na constituigdo de uma critica ao projeto iluminista,
impasses estes que se desdobram como fatos que marcam a histéria nos
iltimos 150 anos, os aspectos céticos presentes em alguns momentos do
Iluminismo comegam a se tornar evidentes, 0 que, por si sé, nio é uma
novidade. Mas tornam-se alarmantes na medida em que estes impasses tém
revelado uma impoténcia do projeto iluminista, no que ele tinha de mais
emancipatério.
A hip6tese que pretendo desenvolver neste ensaio é a de que a tendéncia
afirmativa do Iluminismo, identificada com o Positivismo na atual configura-
¢ao do mundo social, passa a servir como substrato de uma cultura que
prenuncia um paradoxo: o surgimento de uma razao barbara.
A retomada dos impasses do Iluminismo — do seu projeto emancipatério
— serd feita em trés perspectivas: 1) a andlise da insuficiéncia deste
projeto; 2) a afirmagao da sua superagdo, feita pelo que se tem chamado
de tendéncia pés-moderna da cultura contemporanea; 3) a critica a ambas,
estabelecida nos marcos da Escola de Frankfurt, que podera nos dar
elementos para uma conceitualizagao critica do lento emergir dessa razdo
barbara.
200 PHYSIS: Rev. Saiide Coletiva, Rio de Janeiro, 10(1): 197-216, 2000A Crise da Modemidade © a Barbirie
Os Impasses do Iluminismo
& possivel perceber os impasses do Iuminismo, através da elaboragao do
que poderiamos chamar de suas duas tendéncias. Creio haver uma relagdo
que, apesar das imimeras declaragées de fé otimistas de Kant, o liga
tematicamente a Rousseau, deixando transparecer os tragos céticos deste.
A critica de Rousseau & civilizagiio moderna — ¢, é sempre bom repeti
apesar de sua adesio a ela — se dé pela constatagiio da impossibilidade,
pela forma de ser do mando social, de produzir “espontaneamente” uma
agfio virtuosa dos individuos associados. As contradigdes da sociedade civil
e a sua forma de legitimagao, através das leis de mercado, impedem que
haja um apelo ético que possa mediar e governar estas agdes para um fim:
a emancipagao humana. Porém, por outro lado, as relagdes da sociedade
civil permitem um desenvolvimento impressionante das forgas objetivas da
Humanidade, criando um progresso material que € imprescindivel a esta
mesma emancipag&io humana. A contradig&o entre meios e fins € 0 ponto
central das antinomias do Iluminismo.
A elaboragio kantiana pretende fornecer, através de sua concepgio da
ética centrada nos imperativos categéricos, um programa que, sem impedir
o desenvolvimento dos meios (isto é, do progresso das forgas objetivas do ser
humano), possa preparar ética ¢ politicamente 0 mundo para a realizagdo da
emancipacdo. Esse micleo, que estou chamando de cético — tendo consciéncia
que esta nao era, em momento algum, a intengdo desses pensadores —, é um
momento de consciéncia aguda de que este nao seria o melhor dos mundos
possiveis caso nfo houvesse a agao de uma razo critica que procurasse rever-
ter seus aspectos mais desagregadores — ou instrumentais.
A articulagao conceitual de tal programa pode ser estraturada a partir da
concepgao de esclarecimento, entendido como um movimento pelo qual as
sociedades ocidentais — ao menos as do Hemisfério Norte -- passam a
pautar sua conduta por critérios racionais, isto é, légico-cientfficos, e nao
mais pela fé (Cf. Kant, 1974). A ciéncia se desenvolveu suficientemente
para explicar o mundo objetivo sem a intermediagio de uma forga
transcendental de tipo divino. As técnicas de produgiio também se desenvol-
veram ao ponto de permitir uma verdadeira revolugao produtiva. O esclareci-
mento, como disse Kant, era a maioridade do homem, a realizagao estrita de
suas potencialidades, sem a dependéncia de forcas sobrenaturais. A determina-
¢%o do destino do homem em sociedade dependia exclusivamente da obedi-
éncia as razdes da ordem natural, na qual se inseria a cultura do esclare-
PHYSIS: Rev. Saude Coletiva, Rio de Janeiro, 10(1): 197-216, 2000 201,Marildo Menegat
cimento como manifestagao da natureza humana e sua busca de progresso.
Em Idéia de uma historia universal de um ponto de vista cosmopo-
lita, essa perspectiva assume claramente a nogéo de progresso, ¢ este como
sendo os desfgnios da ordem natural que apontam para um fim emancipatério,
em que a Humanidade se reunird consigo mesma como um fim em si. Esta
proposicao € a realizagio do terceiro imperativo categérico da Fundamen-
tagdo da meiafisica dos costumes, em que Kant afirma que o homem nado
deve servir de meio para a realizagao dos fins de outrem. Porém, o que liga
a realizag&o do esclarecimento com os fins da emancipagao € a agao bu-
mana marcada por sua maioridade, ou seja, uma aco marcada pela funda-
mentagao de uma razao pura pratica centrada na nogdo de dever ser. Ora,
a metafisica dos costumes é o termémetro a indicar que os fins também
devem estar claros no concepgdo dos meios. No entanto, 0 progresso implica
a livre manifestagio dos interesses individuais como um meio para o desenvol-
vimento da Humanidade!. Meios e fins sio contraditérios, o que € evidente por
si mesmo, porém isto implica a intervenco da vontade guiada por maximas. Os
principios da subjetividade devem buscar a compatibilizagdio, uma vez que 0
homem fenoménico, deixado espontaneamente no fluxo de sua natureza
insacidvel — em que pese ser esta uma condigaio para os fins necessdrios da
emancipagio —, é incapaz de realizé-la enquanto tal.
Num tempo de ténue manifestagio das conseqiiéncias de uma sociedade
civil baseada na livre concorréncia, € natural que o dever ser seja apenas
um guia da conduta moral, isto é, € ydlido universalmente mas deve ser
obedecido estritamente de forma individual. 6 possivel também que um tal
conceito esteja marcado pela nado compreensao do fetichismo das relagoes
sociais, como o demonstra a contradigéo entre meios e fins. Porém, para
além dessas questées — que por certo nao so menores — o dever ser €
um conceito que guarda uma carga critico-ut6pica contra 0 desenvolvimento
do progresso pelo progresso. E aqui reside um ponto da antinomia do
Tluminismo que se choca com as justificagées positivistas da realidade, prin-
cipalmente na época do capitalismo dos monopélios.
Para Hegel, o dever ser nfo passava de sermao moralista, 0 que até
certo ponto € correto. Na sua perspectiva, as relagdes entre subjetividade e
objetividade nao poderiam ser marcadas, sob risco de serem irreais, por
+ “Q homem quer a concérdia, 1nas a natureza sabe mais o que é melhor para a espécie, ela
quer a discérdia, Ele quer viver cOmoda ¢ prazerosamente, mas a natureza quer que ele
abandone a indoléncia € © contentamento ocioso ¢ se lance ao trabalho ¢ & fadiga, de modo
a conseguir os meios que ao fim o livrem inteiramente dos ditimos” (Kant, 1986: 14).
202 PHYSIS; Rev, Saside Coletiva, Rio de faneira, 1O(1): 197-216, 2000‘A Crise da Modernidade a Barbérie
dicotomias que transformassem a objetividade em algo distante do controle
dos homens em sociedade. Alias, a vida social, como um elemento intrinseco
da cultura humana, produz formas de eticidade — e nao de moralidade, como
pensava Kant — que sio compativeis com o desenvolvimento do espirito e,
conseqiientemente, do mundo objetivo. Uma determinada forma ou nivel de
progresso implicaria necessariamente uma forma similar de subjetividade. Em
outras palavras, 0 homem fenoménico, na busca de seus fins, dependia do
desenvolvimento dos meios compativeis para tal. Assim, a eticidade, que € um
imperativo coletivo, dado como manifestagdo do espirito, no é obedecida
estritamente de forma individual, mas desobedecida de forma individual.
A perspectiva hegeliana parte de uma fundamentacao da totalidade. Porém
esta pode perder sua tessitura, tornando tanto a objetividade como a subje-
tividade pontos sem ponte — quer dizer, elos de um mundo social em que
a eticidade nado condiz mais com a medida da agdo dos individuos. Nesse
contexto, o dever ser toma novas proporgdes, nao mais a de imperative
categ6rico que serve de guia da conduta virtuosa dos individuos, mas de um
imperativo coletivo da sociabilidade. As potencialidades da objetividade de-
vem prevalecer em relagio as suas tendéncias autodestrutivas. Esta é a
situag3o no capitalismo da livre concorréncia dos monopélios.
No século XIX, apés a morte de Hegel, o tiltimo grande representante
desse niicleo do Huminismo, e principalmente apés a grande derrota das
revolugdes de 1848, desenvolveram-se duas vertentes do Iluminismo: o
Positivismo, em diversas versdes, e as criticas & Ilustragdo, principalmente
as de Marx e Nietzsche. Para o Positivismo, valia insistir no progresso e na
necessidade dos imperativos da ordem, assim como elevar a ciéncia ao
centro do modelo de racionalidade. O Positivismo nao € uma invengio ori-
ginal, ele é apenas o desenvolvimento de um pélo das antinomias do projeto
iluminista. Ele se articula com a perda do conceito de totalidade da razio
ilustrada. Nao ha mais uma raz4io, mas apenas uma racionalidade cientifica.
A importancia deste debate reside nos princfpios do Positivismo, este
entendido como uma tendéncia do Iluminismo, que surgiu num determinado
momento histérico, como resposta ao aprofundamento concreto das antinomias.
© triunfo do Positivismo se deu por sua, digamos, operancia objetiva, em
meio a uma conjuntura em que se manifestava politicamente a critica a
certos aspectos do projeto iluminista, principalmente sua concepgao acritica
do progresso. Nesse sentido, a legitimidade da sociedade civil — isto é, da
esfera econdmica — e do Estado moderno se concentrava na justificativa
dos meios desse progresso: 0 desenvolvimento das forgas objetivas da
PHYSIS: Rev. Saude Coletiva, Rio de Janeiro, 10(1): 197-216, 2000 203Marildo Menegat
Humanidade. A autonomia da ética e da politica passaram a ter inimeras
dificuldades para justificarem seus preceitos, que, no limite, implicavam uma
intervencdo no desenvolvimento econémico do mundo social.
Marx e 0s Impasses do Iluminismo
A critica de Marx as antinomias do uminismo concentram-se no tema
do fetichismo — e da alienagio, nas obras da juventude. Nao cabe nos
limites deste ensaio expor com mais detalhes o tema*. A questo pertinente
neste contexto é que, para Marx, a causa objetiva das antinomias se encon-
trava na propria Iégica da estrutura e do desenvolvimento da sociedade
burguesa. Assim, o dominio da objetivagio das faculdades humanas sobre a
constituicdio da universalidade da espécie apenas poderia ser modificado
através da propria transformagio dessas formas de objetivagao. Em outros
termos, para Marx 0 dominio privado das forgas materiais, imprescindiveis
para © progresso e, conseqiientemente, para a emancipagio humana no
pensamento iluminista, era na verdade o dominio da servidao, caso seus
preceitos no fossem superados.
Na obra de Marx existiriam, como que concordo com Agnes Heller (1986),
duas vertentes acerca da andlise do tema. O ponto de diferenciagao entre clas
esté na necessidade, na primeira delas, da intervengio de uma forga subjetiva
— isto é, constituida em toro de uma nova visio do mundo social, na qual a
razdo se concentraria principalmente no conhecimento ético e estético — para
superar as formas atuais de objetivagéo, Ou, na segunda vertente, se esse
desenvolvimento da objetividade nao teria, em sua 6gica interna, inscrito um
telos cujo esgotamento seria a propria realizagao da emancipagdo humana.
Nos Grundrisse encontramos Marx mais preocupado com a primeira
hipétese. A interveng&o é um dever ser. A superagio da sociedade burguesa
e de suas antinomias implicaria uma ago de regaste do projeto emancipatério
do Iluminismo —- evidentemente apenas no seu compromisso de emancipa-
cao —, que apenas seria possivel através de uma intervencdo coletiva para
modificar as “leis do progresso”. Anos depois, ao escrever O Capital, Marx
teria apresentado uma sensivel mudanga em sua posigao. Mais proximo a
concepgao hegeliana do desenvolvimento do progresso, ele acreditaria numa
Para mais esclarecimento sobre ¢ tema, envio o leitor a minha dissertacdo de mestrado, O
Otho da Barbérie, defendida no Departamento de Filosofia da UFRJ, em 1996, sob orien-
tagio do prof, Luis Bicca (Menegat, 1996).
204 PHYSIS: Rev. Satide Coletiva, Rio de Janeiro, 10(1): t97-216, 2000A Crise da Modemidade © a Barbérie
certa inevitabilidade de uma crise terminal do desdobramento légico do capital
e, neste sentido, de sua superacio. Nesta segunda hipétese, o papel de uma agdo
coletiva adere ao curso do desenvolvimento da objetividade, procurando sempre
intervir no sentido de preparar e antever uma situagao que lhe parece inexordvel.
Pode-se observar, entéo, que Marx também ficou preso as antinomias.
Isto talvez explique parte dos impasses do marxismo no século XX, que
oscilou entre uma absorcao do Positivismo e uma critica contundente a ele.
A recuperagio do tema do fetichismo como elemento central da critica
de Marx a sociedade burguesa, iniciada por Lukacs, teve na Escola de
Frankfurt um momento fundamental. Poderiam ser destacados dois aspectos
da elaboragao dos frankfurtianos para demonstrar sua importancia. Primeiro,
na atualizagio do conceito de fetichismo, ou seja, a compreensio de seu
papel estrutural na forma de ser da sociedade burguesa; mas, para além
disso, das suas diversas formas histérico-conjunturais de manifestagao. O
fetichismo na cultura dos anos 20 e subseqiientes, do nosso século, tinha
caracterfsticas diversas daquela da segunda metade do século XIX. Em
segundo lugar, Marx o havia elaborado como um ponto da sua critica &
economia politica. Os frankfurtianos, seguindo as pistas de Lukacs, perce-
beram seu espraiamento a todas as tnanifestagdes da vida social.
E em meio a esses pontos de ligagio e continuidade a esta critica da
sociedade burguesa contempordnea que analisaremos a possibilidade da hi-
potese exposta na introdugdo deste ensaio.
A Crise da Modernidade
A partir da metade dos anos 70 iniciou-se um debate acerca da supera-
¢4%o0 — ou nfo — da modernidade enquanto projeto da Ilustragao. Os argu-
mentos desenvolvidos desde entdo por pensadores como Lyotard, Vattimo &
outros, é que vivemos na emergéncia de novos paradigmas da teoria, nao
mais com o cardter totalizante, hierdrquico e com bases ontolégicas como
era o Iluminismo, A nova abordagem do paradigma, que rapidamente
influenciou as mais diversas esferas do saber, surgiu, ainda segundo esses
pensadores, juntamente com um novo tipo de sociedade: a pés-industrial.
Que transformagées ocorreram desde os anos 70 que poderiam levar a
tais conclusdes? As transformagées teriam sido tao profundas que modifi-
caram 0 ponto de tens&o das antinomias expostas pelo Iluiinismo ¢ suas
criticas? Em esséncia, as modificagdes da sociedade burguesa foram de tal
forma profundas que o tema do fetichismo nio faria mais sentido?
PHYSIS: Rev. Sadde Coleuva, Rio de Janeiro. 10(1): 197-216, 2000208Marildo Menegat
A Dialética da Modernidade
O retorno 4 andlise da Escola de Frankfurt (Adorno e Horkheimer) se
deve justamente 4 clarividéncia de sua elaboragio do curto-circuito da
modernidade. A proximidade de Adorno com Benjamin tornou-o muito aten-
to ao tema da barbaric. Partindo da centralidade do conceito de decadéncia
da cultura burguesa pés-1848, formulado por Lukacs (¢ também por Benjamim
e Bloch, de diferentes pontos de vista), Adomo aceita a tese do fildsofo
huingaro de que, nessas condigées, o conceito de falsa consciéncia se transmuta
em falsidade de consciéncia, o que implica duas premissas. A primeira, 0
dominio asfixiante das relagdes de produgio sobre as possibilidades de cons-
tituigao de um campo de relagées sociais livres. Em outros termos, a tese,
um dos momentos da dialética hegeliana, se transforma na constituigdo da
permanéncia do irracional; seja na forma do welfare state do pés-Segunda
Guerra (a sociedade administrada) — seja na forma anti-hegeliana do Es-
tado totalitério. A segunda premissa € o papel que as forgas produtivas
passam a desempenhar dentro das relagées de produgio, isto é, de fonte do
progresso em forgas de dominio — com um crescente papel destrutivo. Esta
condigéo Adorno (1971) chamou de socializagao total.
A perspectiva adorniana nao reside na formulagao da sua filosofia como
uma critica aos erros de Kant, Hegel ou Marx, mas em atualizd-los através
da critica, o que est4 implicito na relagao entre filosofia e histéria, ou, como
pensava Benjamin, no cardter efetual da modernidade. O que separa Adorno
do pensamento precedente é que a positividade se manifesta, no seu tempo,
como cristalizago das antinomias. Subjetividade e objetividade nao estio
mais apenas estranhadas, mas vivem numa verdadeira fratura, 0 que em
outros termos significa a supressdo da categoria de contradig&ao, que era
essencial para os pensadores anteriores. A objetividade estranhada nao
reconhece mais nem sequer os critérios da critica; como diria Hamlet, “a
razdo (Ihe) parece louca”.
O conceito e a objetividade fetichizada se fundiram na naturalizagao de
sua manifestago. Numa leitura dialética isto quer dizer, segundo Adorno,
que a autoconsciéncia dos trés momentos do seu pér-se no mundo realiza
apenas os dois primeiros: o ser-em-si e 0 ser-para-outro. A socializagao total
€a impossibilidade da autoconsciéncia — determinada pela forma de ser da
objetividade, na qual ela se reconhece —, de retornar para-si. O real se
torna sistema do irracional. O momento da raz4o é eclipsado (cf. Horkheimer,
1962) porque tudo se transforma em meio-em-si, corolério da produgiio pela
206 PHYSIS: Rev. Saiide Coletiva, Rio de Jeneira, 10(1): 197-216, 2000‘A Crise da Modernidade e a Barbérie
produgao. Portanto, trata-se de entender as formas pelas quais o fendmeno
se manifesta como esséncia da decadéncia da civilizagao burguesa. Para Adorno,
o segredo est4 na prépria estrutura auto-explicativa ¢ autogerativa da moderi-
dade, a qual esconde a sua vontade de dominio presente na sua objetividade
como um dado natural ¢ anistérico. Os princfpios da raziio iluminista se tornariam
insuficientes para a sua autocompreenso (cf. Adomo, 1978).
Esta posig&o € a compreensio de que as relagées de produgio — “pro-
dugio da vida material” —, que ocupam o espaco da produgdo material da
vida social, destroem a constituigdo da vida social em qualquer dimens4o que
va além dos lagos do contrato estabelecido pelas trocas da sociedade civil.
Nao se produz uma experiéncia de comunidade nas formas estruturais. da
modernidade. A cultura (a Bildung, em sua descaracterizagio) somente se
realiza como um momento reprodutor da civilizagio’, isto é, das relages de
produco. O homem se funde ao conceito de forga produtiva justamente no
momento em que ele € desnecessdrio como tal. Esta fusio tem o sentido de
organizar a distribuigao e o consumo nas mesmas formas da produgao; nesses
momentos, 0 valor de uso, assim como o trabalho concreto, so subsumidos pelo
valor de troca e o trabalho abstrato. A isto se soma a organizagio de setores
irracionais da produgio — como o de armamentos — para a manutengdio
do funcionamento equilibrado do todo. O individuo se torna a marca das vias
que se cruzam em sua existéncia. Ele mesmo se transforma numa forga
destrutiva sob o dom{nio irracional e submerge no que Adorno (1972) cha-
mou de semicultura, que caracteriza a cultura de massas.
Benjamin (1985) dizia que depois de 1848 todo monumento jd nascia
como ruina. O mundo se produzia em sua incontida destrutividade. Adorno,
ao pensar a semicultura como o gosto comum, a opinido na modernidade do
século XX, buscou no conceito de mal-estar da psicandlise um ponto de
aprofundamento para a compreenstio desse quadro. O ponto central pensado por
Freud (1960) em Mal-Estar na Civilizagdo € a contraposigio entre o principio
de realidade e a menoridade do individuo. Para Adomo e Horkheimer (1991),
esta condi¢&o nao se colocava apenas como insuficiéncia do Ilaminismo, mas
também como a revelacéo do seu sentido mais arcaico: mitico. Assim, num
mundo em rufnas a vida era danificada a priori (Adomo, 1994). Ao individuo
nao estaria interditado apenas 0 uso da razio — em oposigiio a racionalidade
* Parto da diferenciago que a cultura alema faz entre civilizagio e Bildung. Em Marx esta
diferenga se expressa nos conceitos de forcas produtivas (civilizagao) ¢ relagées sociais
(cultura, cticidade). Ver sobre isso a conhecida passagem do Manifesto Cumunista, cf.
Menegat (1996).
PHYSIS: Rev. Saiide Coleriva, Rio de Janeito, 10(1): 197-216, 2000 207Marildo Menegat
da ciéncia —, mas também a maioridade de sua estrutura de personalidade.
Essa condigio humana da modernidade, cujo sentido se encontra na
irracionalidade de sua racionalidade, se reproduz através da indiistria cultu-
ral, que € um conceito no qual se fundem essas tendéncias. A industria
cultural transforma a légica da vida econdmica em légica da cultura, e a
cultura numa extensao da vida econdmica. A socializagao total é a peste de
Camus que, de modo invisivel, vai ocupando todos os espagos da existéncia
humana. A mediag&o, que é uma categoria fundamental da dialética da
raz&o (conforme a entendiam Kant e Hegel, com a fungao insubstitufvel do
juizo reflexivo, no qual o individuo produzia em comunidade a representagao
desta e © seu lugar dentro dela), € assumida pelos artefatos da indiistria
cultural e desaparece da vida social. O indivéduo ndo se individualiza, a vida
nao vive e a razio sucumbe A irracionalidade da ordem social.
Para a Escola de Frankfurt, na modernidade a barbdrie se insinua como
uma estrutura. Em alguns momentos se manifesta abertamente, em outros
se dilui; mas em esséncia est4 sempre presente. O projeto da emancipagao
niio é mais a luta contra o obscurantismo da f€ e do absolutismo politico, mas
a luta contra a transfiguragao da velha barbérie na sua nova configuragio.
Nao se compreende a modernidade apenas pela idéia que esta faz de si, mas
também pela manifestagio de sua positividade.
Do Retorno a Barbarie
O filésofo italiano Giambatista Vico formuiou conceitualmente 0 perfodo
que segue a queda do Império Romano, no século IV, como sendo a barbarie
retornada (Cf. Croce, 1962}. O conceito frankfurtiano de barbarie € a com-
preensdo da sua atualidade na era moderna, como o definiu Incidamente
Rosa Luxemburgo. Essa tendéncia se realizou no perfodo das duas grandes
guerras do século XX e, parcialmente, nas bombas sobre Hiroshima e
Nagasaky, na Guerra do Vietnd e nos Gulags soviéticos. Sao referéncias de
catdstrofes que, como no conceito frankfurtiano, demonstram a tenséo de
sua constante insinuagdo. O desafio pata pensar o conceito na
contemporaneidade esté na avaliacao das profundas transformagées da época.
Uma novidade, neste sentido, na filosofia pés-Segunda Guerra, é a filo-
sofia analftica. Uma interpretagdo possfvel para ela é a sua leitura como uma
guinada do Positivismo em busca de lucidez apés a experiéncia dos retornos
a barbarie. O welfare state era uma trégua que deveria ser consolidada. No
mesmo caminho da filosofia analftica se encontrava a fenomenologia
208 —_-PHYSIS: Rev. Sade Coletiva, Rio de Saneiro, 10(1): 197-216, 2000A Crise da Modemidade ¢ a Barbérie
husserliana, com o seu conceito de mundo da vida. Em ambas nfo se tratava
apenas de aceitar 0 conceito de decadéncia, mas em salvar parte da mobilia
da modernidade. Neste cendrio, a perspectiva frankfurtiana se poderia manter,
mas o seu radicatismo deveria passar por um enfraquecimente conceitual
para poder encontrar aliados e evitar 0 que nao € mais uma impostagio de
um estilo de vida intelectual, mas uma realidade latente. Esse movimento
permitiria produzir uma estratégia de aco sob um terreno universal que
fosse ao mesmo tempo uma critica & barbarie ocidental, assim como &
oriental. Esta pode ser uma interpretagdo da guinada pragmatica de Habermas,
© mais reconhecido dos herdeiros da Escola de Frankfurt.
A mudanga fundamental de Habermas est4 no reconhecimento de que o
projeto emancipatério da modernidade pode ser recuperado contra a
positividade de sua manifestagdo — e isto implica uma diferenga com Adomo
e Horkheimer quanto ao conceito de esclarecimento e de praxis, entre
outros. Esse projeto seria um campo comum de referéncias de uma tradigao
que, bem ou mal, se produziu nesta época. Habermas, nesse sentido, retorna
para um momento anterior 4 conclusao da Escola de Frankfurt; porém, o seu
movimento nao pretende ser uma capitulacZo, mas uma esperanga de que
& possivel uma politica positiva contra 0 retorno definitivo da barbarie.
Mantendo da Escola de Frankfurt 0 conceito de critica, Habermas in-
corpora & formulagio analitica da linguagem 0 conceito de mundo da vida
de Husserl. Diante da tese de Adorno, de socializagao total, Habermas
(1990) procura um espago da vida social que é anterior a0 momento ana-
lisado pelo primeiro, concebendo elementos positives de uma socializagao
que se furtariam ao dominio. Os atos de fala ilocuciondrios, que estéo na
base do agir comunicativo, guardariam o telos do entendimento, ou seja,
estariam A margem do agir instrumental, cuja sustentagdo da vida social
seria impossfvel sem a existéncia de sua dimensao. Com isso, Habermas se
afasta tanto da dialética negativa, como também da interpretagio critica da
modemidade, que se reduz A critica das relagdes de produgdo. Na sua
propria formulagao, trabalho e interagdo se desdobram em momentos ana-
liticos distintos do processo de socializag&o (Habermas, 1974).
Para além de uma possibilidade interpretativa inscrita na filosofia da
modernidade, a estratégia de Habermas est4 de fato diante de uma grande
questio do capitalismo tardio, que € 0 seu impressionante desenvolvimento
técnico-cientifico e o papel cada vez mais importante dos setores “ndo-
produtivos” da economia. Recuperando 0 discurso de Agnes Heller, 0 que
se coloca em jogo nessas condigdes é 0 emergir de outra forma de valori-
PHYSIS; Rev, Sade Coletiva, Rio de Janeiro, 10{1): 197-216, 2000 209Marildo Mencgat
zagio das relagées humanas, cujo conceito de tempo livre é a sua possibi-
lidade positiva. Na formulagdo de Adorno e Horkheimer, este se integra na
reprodugio de capital. Para Habermas, este permitiria tragar uma estratégia
comunicativa de democratizagio da sociedade.
A pressuposta esclerose do paradigma do conceito de produgao (Cf.
Habermas, 1992) é incorporada também pela sociologia pés-moderna, que
cunhou 0 conceito de sociedade pés-industrial, sem no entanto nele incorpo-
rar uma estratégia de democratizacdio da sociedade, mas afirmando-o como
a prépria democratizagio desta. O fenédmeno é percebido também pela
filosofia p6s-moderna como sendo a dissolugio de uma estrutura que per-
mitiria a aproximagio a um ponto de niilismo que foi anunciado por Nietszche
e Heidegger como sendo a superagio da cultura metafisica (Cf. Vattimo,
1991). Assim, este € um tema que apenas se poderd avaliar a partir da
compreensio da positividade em desdobramento desde os anos 70.
Das Mudangas Estruturais do Capitalismo Tardio
Num trabalho exaustivo dos anos 50, intitulado Autommazione, F. Pollock
fez um recenseamento das transformagdes que a automagdo colocava &
industria. As criagdes da eletrénica permitiriam uma elevada poupanga de
forca de trabalho e, segundo Pollock, isso produziria um desemprego estru-
tural no seio do Estado de pleno emprego, que apenas poderia evitar as suas
conseqiiéncias imediatas e por um tempo nao muito longo, investindo maci-
gamente na industria de armamentos. A descrig&o desse processo aponta
para a realizagao do que Marx chamou de general intellect (Marx, 1973:
593). Porém, a mobilizacao militar de parte da populagao e o desenvolvimen-
to sem precedentes da indtistria de armamentos sio os desvios que esta
possibilidade (expressa como esperanca utépica no conceito de Marx) ex-
perimenta — sendo também a exata medida de como as tensdes da moder-
nidade tendem a ser solucionadas e positivadas.
Como previu Pollock, o financiamento desse arranjo social nao resistiu
aos anos sessenta. No inicio dos setenta o (des)actimulo polftico, econémico
e (sub)cultural das relagdes de producgio dominantes se impée como uma
saida as crises de financiamento do welfare state, desconstruindo-o em
nome da sobrevivéncia de seu telos. A desregulamentagao dos direitos sociais
ea flexibilizago do mundo do trabalho permitiram a continuidade da revo-
lugdo tecno-cientifica (contra o pleno emprego), mantendo todos os seus
tragos de irracionalidade da produgdo destrutiva. Uma corrente de alta in-
210 PHYSIS: Rev. Sade Coletiva, Rio de Janeiro, 10(1): 197-216, 2000A Crise da Modernidade © a Barbérie
tensidade percorre degrau por degrau as necessidades do fenémeno. Do
desemprego estrutural ao esvaziamento dos clos de solidariedade — sob os
quais se constituiram o grande aciimulo positivo da critica as relagdes de
produgao ¢ a identidade de uma comunidade do mundo do trabalho como
parte da sociedade modema, as vezes a ela oposta, as vezes a ela integrada,
mas fundamentalmente identificada no seu destino comum — se vai produ-
zindo uma nova topologia do mundo social que, @ luz de uma relativa nor-
malidade, acumula camadas crescentes de barbarie.
O dominio do capital na sua expansdo abertamente predatéria comega a
se constituir na critica de seus préprios fandamentos. A mercadoria, anali-
sada por Marx (1985) como a unidade de todo 0 processo de manifestagio
da objetividade fetichizada, perde sua centralidade para o seu equivalente —
© dinheiro —, que adquire o estranho poder de se reproduzir sem se mate-
rializar — fendmeno que obriga a sua leitura a partir das categorias da
filosofia da religido! A financeirizago da economia e a sua organizacaéo em
nivel global séio, por certo, a nova forma de equilibrio da irracional racionalidade
que Adomo denunciava no perfodo anterior. A capacidade que esse sistema
terd de contornar suas crises dependerd tanto do quanto estas coloquem em
jogo os centros de seu poder, como também da capacidade de acomodar as
diferengas dos setores que dentro dele se digladiam. As disputas entre os
oligopélios ¢ o fundamentalismo terrorista parecem ser as tinicas formas
admissiveis de oposicdo desse perfodo. Assim sendo, parece que viveremos
de fato num mundo de crises sem fim, cuja superagdo dependera da imagem
que essa época faz de si mesma, ou seja, da sua capacidade critica.
Diversamente das grandes crises ¢ depressées de épocas anteriores, 0
sistema da globalizagao permite a distribuigao dos ciclos econdémicos sobre (e
sob) 0 tapete do mundo. Os pafses centrais acomodam entre si o papel das
recessées e das retomadas do crescimento — Japao, Estados Unidos e
Comunidade Econémica Européia —, enquanto as economias que se enqua-
dram na categoria de mercados emergentes passam por ciclos de milagres
econémicos — cada vez menos espetaculares, como o demonstram os ciclos
da economia brasileira, mexicana etc. — e recessdes que se confundem com
depressdes localizadas — como ocorre hoje em alguns dos tigres asidticos.
E este sistema que deve ser organizado politica e culturalmente.
Pés-modernidade
‘A desconstrugao dos conceitos universais, em seu referimento obrigatério
PHYSIS: Rev. Sade Coletiva, Rio de Janeiro, 10(1): 197-216. 2000211Marildo Menegat
ao Humanismo como base intransponfvel das relagdes humanas e do ser
humano com a natureza, nado obedecem apenas ao esgotamento e as impos-
sibilidades que as bases conceituais impuseram A realizagdo do particular,
mas sao também a continuidade das realizagGes daquele universal, que nao
admitia o patticular e que agora o admite para exclui-lo. Toda critica ao
universal que ndo procure a sua reelaboragio — isto €, a aceitagao da
contradi¢do como um momento da sua constituigao ¢ o particular como um
dos seus momentos positivos — é um elogio as formas da positividade do
novo retorno barbarie.
A anilise do esgotamento simbélico, pensada pelos pés-modernos como
sendo o esgotamento da estrutura cultural da modernidade ¢ a criagdo de
uma nova cultura, no mais referida 4 imposigao de simbolos mas ao fluxo
criativo dos signos (Cf. Canevacci, 1994), descuida do detalhe que os sim-
bolos podem ser constitufdos como identidades nao impositivas, mas criadas em
processos dialégicos de referimentos comuns, e que a cria¢o de signos, na
época atual, depende essencialmente do dominio dos mecanismos de sua criagio
e posse. Além disso, os signos transformaram-se em mercadorias, cujo fetichismo
se impée na imaterialidade de uma economia dominada pelas relagGes financei-
ras. Séo os signos que permitem o suporte de relagdes de produc&o num
mundo em que seus beneficios j4 nao podem mais ser universalizados (nem
mesmo enquanto ideologia). O seu dominio obedece & forma de ser da
distingdo social e da aceitagio da imposicao dos seus limites.
Baudrillard (1998) observa que o fenémeno se relaciona com o que tem
sido um conceito extremamente operacional da desconstrugdo pés-moderna,
que é o virtual. Em sua definigdo, dada por Borradori (1998), o virtual é um
campo de forgas em que algumas forgas se impdem e outras silenciam. Para
além da concep¢ao “cléssica” de espago, no espago virtual o real se sobrepde
ao possivel. O tempo futuro, que guardava a categoria do possivel como algo de
diverso do jogo de forgas do presente, se confunde com o presente, tornando o
possivel desnecess4rio, por comportar uma compreensao metatemporal do tem-
po ou, em outras palavras, para além do previsivel. Percebe-se com isso quais
so as forgas que silenciam (Cf. andlises de Pollock, acima).
O sentido mais obscuro que descansa 4 sombra dessa formulacio
categorial 6 a produgdo de uma nova compreensao do principio de realidade.
Da classica contradigéo do individuo com as formas da cultura (como
emanagées do universal), que se sustentava no realismo de um sistema
comum de necessidades (€ certo que nunca realizado como sistema comum,
mas sempre referido pela ideologia como um universo comum), produz-se
212 PHYSIS: Rev. Sadde Coletiva, Rio de Janeiro, 10(1}: 197-216, 2000A Crise da Modcrnidade e a Barbérie
agora a justificagéo da naturalidade de distintas dimensdes do real. O mal-
estar se resolve na mitologizacéo do consumo, como uma forma de ser em
que as dimensdes mais insuportaveis dessa contradig&o sao substituidas por
rituais estetizantes (como o do consumo) ou pela ingestdo de pilulas que a
asticia da psicofarmacologia “descobriu” como sendo a cura para as ma-
nifestagées “organicas” de um corpo que nao se rende as novas formas de
ser da cultura. Tudo se efetua num deixar-se levar pelo fluxo, como se este
fosse a “realizagio suprema da diferenga”. Nao por acaso, a psicandlise
vive uma crise profunda de seus fundamentos. Como afirma Joel Birmam
(1997), seres mutantes nao tém pulsdes.
A nova Antropologia (Cf. La Cecla, 1998) curiosamente dedica uma
parte considerével do seu esforgo para estudar o que ela tem chamado de
neofetichismo, que seriam as relagdes particulares do consumidor com a
mercadoria. Em outros termos, segundo a nova Antropologia, existe um ato
cultural que transcende o valor de uso de uma mercadoria (!}, que € a
propria cultura do consumo, na qual se realizam formas de identidade nao
concebidas no uso dado a elas pela indtistria (Cf. La Ceca, 1998; Colombo,
1998). Tem-se a impressiio de que a separagdo do valor e do valor de uso
se consuma na prépria separagdo, no individuo, entre as suas necessidades
ea imposicao sublimada de outras necessidades que poderiamos compreen-
der como a tealizagao da famosa metafisica da goma de mascar sugerida
por Horkheimer ha muitos anos.
A formulacdo conceitual de boa parte da autoproclamada cultura pés-
moderna procura elaborar as novas condig6es da experiéncia. Contudo, seu
pressuposto é a aceitagiio dessas condigdes. Neste quadro sao significativas
as formulagées de Lyotard e do coletivo italiano que assinaram, na primeira.
metade dos anos 80, os ensaios do livro que os define como HI pensiero
debole. O conceito de postmodernita de Lyotard (1979) € 0 ponto de
partida para a reconstrugao da visio que essa época tem de si mesma. A
continuidade da andlise é dada pela formulagao das moralidades pés-moder-
nas e pelo cardter das novas experiéncias de tempo ¢ espago que se se-
guem. A curiosa aproximag3o dessa cultura ao que ela acusa de barbaro,
assim como aos momentos de barbarizacéo do mundo social (que em
Canevacci & expresso por um “fa mal al cuore”, e em Lyotard por “cela
n'est pas bien”) nos permite a constatagio da inconsisténcia regressiva a
que as ciéncias humanas foram submetidas pela hegemonia das novas con-
cepgdes. Pode-se deduzir de tal quadro 0 quanto a compreensao do sentido
dos fenémenos se combina com uma accitagdo passiva destes. Se acima
PHYSIS: Rev. Satide Coletiva, Rio de Janeiro, 10(1): 197-216, 2000213,Marildo Menegat
dizfamos que a nova ordem econémica exigia uma nova cultura, podemos
dizer agora que a cultura pés-moderna se formulou para este fim. A exem-
plo do estoicismo, a luz das rufnas anunciadas do Império Romano, esta
cultura pretende a mesma fung’o, sem ao menos nos oferecer as boas
contribuigdes tedricas da primeira.
Habitus ¢ Sensologia
Tanto o conceito de habitus, desenvolvido por Bourdicu (1984), quanto
o de decadéncia da esfera piblica, de Habermas (1981), permitem uma
leitura dessa cultura como uma pritica social que tende a sedimentar lentamen-
te as transformacées do capitalisme tardio como uma deformacao que inviabiliza
qualquer sentido da vida social que va além da permanéncia do dominio do valor
de troca. FB possivel, a partir desses conceitos, a compreensao dos movimentos
de renovagio das classes sociais e das implicag6es culturais dessas mudangas
nos Ultimos anos. Também é possivel apreender as formas pelas quais as ruinas
das relagGes humanas sao assimiladas nas relagdes de produgao e, dessa forma,
como sio transformados os horizontes de expectativas hist6ricas anteriormente
produzidos. O abandono ou a readequago de valores, que perdem 0 seu con-
texto de criagio e suas estruturas de referéncia, sio formulas pelas quais
as camadas de barbarie se tornam naturais.
Num plano mais microscépico, o conceito de “sensologia” de Perniola
(1991) permite a aproximago do conceito de socializago total de Adorno
ao de habitus, em que tais camadas de barbaric se consolidam, abrindo vias
de compreensao do destino das mediagées sociais na pés-modernidade. Para
Perniola, a socializacao no final do século XX passa pela socializagao dos
sentidos. Diferente da ideologia, que pretendia dominar a natureza humana,
e da burocracia, que dominava as formas de pensamento independente, a
“sensologia” seria o dominio social pelos sentidos, cuja manifestagdo € a
sensagio comum do “jé sentido”. E certo que as separagées rigidas que o
autor faz entre ideologia e burocracia sio pouco pertinentes. E melhor,
analiticamente, compreendermos a falsa consciéncia como algo em mutacio,
mas dentro-de uma estrutura histérica ainda nao ultrapassada. Se assim é,
a sensologia é 0 grau de redugao a que chegou a ideologia em nosso tempo.
© dominio pela produgio mediética da atual pobreza da experiéncia dos
individuos coloca duas novidades, se comparada ao perfodo anterior. Em
primeiro Ingar, o espaco e a importincia que ocupam as formas de comu-
nicagdo de massa. Elas sto um elo virtual de coesio social. Segundo, a nova
214 PHYSIS: Rev. Saiide Coletiva, Rio de Janeiro, 10(1): 197-216, 2000A Crise da Modemidade © a Barbarie
descapitalizagao da subcultura produzida pela industria cultural, que apela
cada vez mais abertamente aos instintos primdrios. A dessublimagio da
cultura e dos meios de socializagdo se produzem como um espetéculo digno
do fim deste breve século.
Retornando a Habermas, & guisa de uma conclusio precdria, poderfamos
perguntar se o agir comunicativo pode de fato prescindir de uma estratégia
articulada com 0 mundo das necessidades — como chama Heller a socia-
lizag3o do mundo do trabalho. O caminho que se aprescnta, produzido na
soleira da naturalizagao da barbdrie, esté no reconhecimento de que esta se
coloca entre a tensdo de uma socializagao total e um mundo da vida e das
necessidades, permanentemente danificados pelo seu telos, que, na auséncia de
outro, se impde com um determinismo de dar inveja a todos os prognésticos
positivistas. Em resumo, a barbdrie nos coloca diante da questo que nenhuma
dimensio utépica pode ser reduzida a uma positividade unilateral, mas que
também nenhuma utopia pode prescindir dos lacos do mfnimo divisor comum das
suas promessas a partir do presente e seus limites para a praxis. Enquanto esses
nés nao s&o desatados, a vida social se vai asfixiando ao som de um réquiem
que se ouve sair das janelas dos apartamentos — a mdsica finebre da vida
danificada diante de televisdes, 4 qua! nao faltam “analistas simbélicos” para
Ihe dar um signo cult. Dizem que os perus pressentiam o seu fim na véspera
do Natal. Bem, mas esses cram outros tempos...
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