Categorias polticas no Isl contemporneo segundo
o Perenialismo
A natureza e os propsitos essenciais do isl, a mais
recente (1.400 anos), difundida (1,5 bilho de aderentes) e
influente (50 pases) das tradies espirituais da
humanidade, continuam desconhecidos do pblico
ocidental.
Entre as causas dessa desinformao esto a mera carncia
de dados doutrinais e histricos, diferenas de perspectiva
intelectual e moral entre ocidentais e muulmanos,
interesses velados e preconceitos.
O fato de o isl ser fonte cotidiana de notcias no muda
substancialmente esse panorama, pois a maioria
negativa. Um dos fatores a explicar isso a falta de
esclarecimento acerca de diferenas entre as vrias
correntes que se confrontam no prprio mundo islmico.
preciso transcender a dicotomia simplista e superficial
entre "moderados" e "extremistas". Ela no acurada e
escamoteia diferenas cruciais. Mesmo a diferenciao
entre sunismo e xiismo exposta de maneira vaga.
Outra fonte de desinformao deriva do fato de se
chamarem os terroristas de "fundamentalistas". O termo
em si significa algum que se apega a princpios, ou
"fundamentos". Mas os terroristas romperam com os pilares
do isl ao visarem civis no combatentes e ao operarem
com base em dio religioso contra cristos e judeus
--"povos do Livro", segundo o Coro.
Quanto aos wahabitas, eles se caracterizam por literalismo
e estreiteza. So eles os verdadeiros fundamentalistas, no
os terroristas. Os wahabitas esto longe de representar de
forma plena e integral o isl. Pelo contrrio, so refratrios
rica filosofia islmica, bem como sua mstica.
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O fato de que aderentes de trs das quatro principais
correntes polticas, listadas abaixo, serem chamados todos
de "fundamentalistas" causa obscurecimento de diferenas
reais.
Outro ponto: alguns vo se surpreender ao dizermos que
houve, no sculo 20, bons governantes e estadistas
muulmanos. Quem j ouviu falar do rei Idris, da Lbia, dos
mais sbios lderes da poca? Governante de 1951 a 69, ele
liderou a resistncia contra a ocupao italiana e foi
deposto num golpe liderado pelo ento coronel Gaddafi. E
de Abu Bakr Tafawa, primeiro-ministro da Nigria (1960-66),
ou Tunku Abdul Rahman, premi da Malsia (1957 e 70)?
Foram ilustres e competentes, mas quem se lembra deles?
Ao considerar os muulmanos de hoje, temos de distinguir
os "tradicionais" (ou espirituais) dos "revolucionrios",
incluindo os terroristas entre estes. E, igualmente
importante, distinguir os tradicionais dos fundamentalistas.
Seriam, ento, quatro categorias principais.
1. Lderes "tradicionais": os homens citados acima.
2. Wahabitas: os "fundamentalistas", esto longe de
representar a tradio islmica em sua plenitude.
3. "Revolucionrios islmicos": seguidores de Khomeini no
Ir ou de Gaddafi na Lbia, todos demagogos e coletivistas.
Os principais grupos terroristas esto nesta categoria. Eles
reivindicam o nome "isl", mas so de fato letais para ele.
Infelizmente, gente desse tipo que o pblico ocidental v
como "muulmano tpico".
4. Secularistas: inclui figuras como Assad, da Sria, e o
finado Saddam Hussein, do Iraque. So basicamente
antirreligiosos, portanto o termo "fundamentalista", no
sentido literal, inapropriado.
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Aqui, tratamos de categorias polticas e, portanto, no o
lugar de abordar o sufismo, a mstica islmica. No
obstante, em razo de sua importncia, conclumos com
uma palavra sobre ele.
(sobre o sufismo) Seus chefes se engajam na ao poltica
direta somente de forma secundria. Seu foco a
contemplao, no a ao, mas nem por isso deixam de ter
uma influncia positiva. Um exemplo foi o clebre emir
Abdel Kader (1808-1883), que, mesmo mstico, liderou a
resistncia contra o colonialismo francs.
WILLIAM STODDART, 87, islamlogo britnico e autor de
O Budismo ao seu alcance e What does Islam mean in
todays world?, entre outros livros, e MATEUS SOARES DE
AZEVEDO, 53, historiador de religies e autor de "Homens
de um Livro S e A Inteligncia da F: Cristianismo, Isl,
Judasmo, entre outros livros.
(Artigo originalmente publicado em Folha de So Paulo,
28/05/2013 )