Questoes Comentadas II Fase FGV - Direito Penal
Questoes Comentadas II Fase FGV - Direito Penal
APOSTILA DE TESTES
W W W. P R OVA S DAOA B . C O M . B R
C A P T U LO 1
DIREITO PENAL
QUESTES DE SEGUNDA FASE
EXAME UNIFICADO
Instrues:
Sugerimos que tente respond-las sem a consulta aos gabaritos, servindo estes
apenas para conferncia e correo. Confira as respostas e revise as questes que por
ventura voc tenha errado, pois esta uma tima maneira de aprender e fixar os
contedos estudados.
Equipe ProvasdaOab.com.br
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C A P T U LO 2
IV EXAME DA ORDEM
UNIFICADO
Q U E S TO 1
RESPOSTAS
A) Sim. Ao se apropriar da quantia de R$ 4.000,00 (quatro mil reais)
que recebera da empresa em que trabalhava para efetuar um pagamento,
Jorge praticou o crime de apropriao indbita, previsto no art. 168 do
Cdigo Penal (apropriar-se de coisa alheia mvel, de que tem a posse ou a
deteno. Pena: recluso, de 01 a quatro anos, e multa), acrescido da
causa especial de aumento prevista no art. 168, 1o, inciso III, do mesmo
diploma legal (A pena aumentada de 1/3 se o agente recebeu a coisa: (...)
III em razo de ofcio, emprego ou profisso).
B) O candidato deveria responder que, na hiptese traada, alegaria
falta de justa causa para a instaurao da ao penal, pois a Denncia
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oferecida pelo Ministrio Pblico veio lastreada, exclusivamente, em
prova ilcita, porquanto obtida mediante violao ao sigilo de
correspondncia (art. 5o, XII, da CF). Tanto no plano constitucional (art.
5o, LVI), quanto no plano legal (art. 157, CPP) a prova ilcita considerada
inadmissvel, devendo ser expurgada dos autos, aps o incidente de
inutilizao (art. 157, 3o, CPP). Assim, a Defesa deveria pleitear a
rejeio liminar da Denncia, com base no art. 395, III, do Cdigo de
Processo Penal (falta de justa causa), uma vez que, excluda a prova
ilicitamente obtida, inexistiria suporte probatrio mnimo a autorizar a
instaurao de ao penal em desfavor de Jorge.
Q U E S TO 2
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Tribunal de Justia declarar a nulidade do julgamento por reconhecer a existncia de
nulidade processual? (Valor: 0,6)
RESPOSTAS
A) Sim, pois de acordo com o art. 598 do Cdigo de Processo
Penal, Nos crimes de competncia do Tribunal do Jri, ou do juiz
singular, se da sentena no for interposta apelao pelo Ministrio
Pblico no prazo legal, o ofendido ou qualquer das pessoas enumeradas
no art. 31, ainda que no se tenha habilitado como assistente de acusao,
poder interpor apelao, que no ter, porm, efeito suspensivo.
Dispe o pargrafo nico do referido artigo que O prazo para
interposio desse recurso Serpa de 15 (quinze) dias e correr do dia em
que terminar o do Ministrio Pblico. Esclarece-se que o art. 31 do CPP,
ao que se reporta o texto da norma acima transcrita, elenca o cnjuge,
ascendente, descendente e irmo como habilitados a intentar Queixa-
Crime ou prosseguir na ao. Confirmada a legitimidade da esposa da
vtima, convm ressaltar que o recurso a ser por ela interposto deveria se
fundamentar no art. 593, III, a e d, pois houve nulidade decorrente da
leitura, em plenrio, do acrdo que manteve a deciso de pronncia e
excluiu a qualificadora, o que expressamente vedado pelo art. 478, I, do
CPP, alm do que o veredicto dos jurados (absolvio) divergiu da prova
dos autos, notadamente da prpria confisso de Caio.
B) No. Se o recurso do Ministrio Pblico foi fundamentado
apenas no art. 593, III, d, do CPP (deciso manifestamente contrria
prova dos autos), no pode o Tribunal declarar,
de ofcio, a nulidade do julgamento com base no art. 593, III,
a (nulidade posterior pronncia). o que se encontra pacificado na
Smula 160 do STF: nula a deciso do tribunal que acolhe, contra o
ru, nulidade no argida no recurso da acusao, ressalvados os casos de
recurso de ofcio. Desse modo, no havendo meno acerca da referida
nulidade no recurso interposto pelo Ministrio Pblico, fica o Tribunal
impedido de reconhec-la.
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Q U E S TO 3
RESPOSTA
Trs nulidades resultam evidentes diante do que fora narrado na
questo. A primeira delas encontra-se prevista no art. 564, I, CPP e diz
respeito incompetncia absoluta do Tribunal do Jri da Justia Federal,
uma vez que o fato dos rus serem, poca do crime, deputados federais
no importa na fixao da Justia Federal como sendo a competente para
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o julgamento. A competncia da Justia Federal encontra-se inscrita, de
maneira taxativa, no art. 109 da CF e no h, no caso narrado, nenhuma
das hipteses nele previstas. O Juzo competente para julgar os rus, ex-
deputados federais, seria o Tribunal do Jri da Comarca onde se
consumou o crime, rgo da Justia Estadual.
Como consequncia dessa primeira nulidade, poder-se-ia alegar
tambm que o julgamento no respeitou o princpio do juiz natural (art.
5o, LIII, da CF), sendo, por isso, absolutamente nulo.
A terceira nulidade decorre do fato do depoimento da vtima ter sido
colhido em audincia na qual fora nomeado apenas um advogado para
efetuar a defesa de ambos os rus, mesmo havendo defesas conflitantes
entre eles. Tal modo de proceder por parte do Juzo Deprecado ofende o
princpio da ampla defesa, de matriz constitucional, e configura a
nulidade prevista no art. 564, IV, do CPP.
Q U E S TO 4
Joo e Maria, casados desde 2007, estavam passando por uma intensa crise
conjugal. Joo, visando tornar insuportvel a vida em comum, comeou a praticar atos
para causar dano emocional a Maria, no intuito de ter uma partilha mais favorvel.
Para tanto, passou a realizar procedimentos de manipulao, de humilhao e de
ridicularizao de sua esposa. Diante disso, Maria procurou as autoridades policiais e
registrou ocorrncia em face dos transtornos causados por seu marido. Passados
alguns meses, Maria e Joo chegam a um entendimento e percebem que foram feitos
um para o outro, como um casal perfeito. Maria decidiu, ento, renunciar
representao.
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RESPOSTAS
A) No. Observe-se que a hiptese narrada na questo envolve
violncia domstica praticada contra a mulher, nos termos do art. 7o , II,
da Lei 11.340/2006, que assim dispe: So formas de violncia domstica
e familiar contra a mulher, entre outras: (...) II - a violncia psicolgica,
entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e
diminuio da auto-estima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno
desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas aes,
comportamentos, crenas e decises, mediante ameaa, constrangimento,
humilhao, manipulao, isolamento, vigilncia constante, perseguio
contumaz, insulto, chantagem, ridicularizao, explorao e limitao do
direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuzo
sade psicolgica e autodeterminao;.
De acordo com o art. 16 da Lei 11.340/2006: Nas aes penais
pblicas condicionadas representao da ofendida de que trata esta Lei,
s ser admitida a renncia representao perante o juiz, em audincia
especialmente designada com tal finalidade, antes do recebimento da
denncia e ouvido o Ministrio Pblico. Em sendo assim, no pode haver
a renncia (ou a retratao, que tem o mesmo efeito) na instncia
inquisitorial, devendo o procedimento ser levado a Juzo para a
designao da referida audincia.
B) No. O art. 17 da Lei 11.340/2006 probe expressamente a fixao
de pena de prestao pecuniria para os delitos que envolvem violncia
domstica e familiar contra a mulher, vedando, tambm, a aplicao a
substituio da pena que importe pagamento isolado de multa.
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C A P T U LO 3
V EXAME UNIFICADO DA
ORDEM
Q U E S TO 1
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RESPOSTAS
A) No. Os Juizados Especiais Criminais tm competncia para
processar e julgar as chamadas infraes de menor potencial ofensivo,
que so aquelas com pena mxima prevista in abstrato de at 02 (dois)
anos (art. 61 da Lei 9.099/95). A pena mxima para o delito de calnia
(dois anos de recluso) aumentada em 1/3 (um tero) quando
praticado contra funcionrio pblico em razo de suas funes (art. 141,
II, do CP), o que leva a pena para um patamar superior aos dois anos
estabelecidos como limite para a competncia dos Juizados.
B) Sim. Caso preencha tambm os requisitos subjetivos, Antnio far
jus suspenso condicional do processo, prevista no art. 89o da Lei
9.099/95, pois a infrao cuja autoria lhe atribuda tem pena mnima
no superior a 01 (um) ano.
C) No, pois faltou dolo sua conduta. Observa-se, no caso descrito,
que Antnio foi imprudente ao levar adiante a notcia da prtica de crime
por parte do Defensor Pblica sem ao menos se certificar da procedncia
de tal acusao. Todavia, no existe calnia culposa e no pode Antnio
ser punido criminalmente a esse ttulo.
Q U E S TO 2
Joaquina, ao chegar casa de sua filha, Esmeralda, deparou-se com seu genro,
Adalton, mantendo relaes sexuais com sua neta, a menor F.M., de 12 anos de idade,
fato ocorrido no dia 2 de janeiro de 2011. Transtornada com a situao, Joaquina foi
delegacia de polcia, onde registrou ocorrncia do fato criminoso. Ao trmino do
Inqurito Policial instaurado para apurar os fatos narrados, descobriu-se que Adalton
vinha mantendo relaes sexuais com a referida menor desde novembro de 2010.
Apurou-se, ainda, que Esmeralda, me de F.M., sabia de toda a situao e, apesar de
ficar enojada, no comunicava o fato polcia com receio de perder o marido que
muito amava. Na condio de advogado(a) consultado(a) por Joaquina, av da menor,
responda aos itens a seguir, empregando os argumentos jurdicos apropriados e a
fundamentao legal pertinente ao caso.
a) Adalton praticou crime? Em caso afirmativo, qual? (Valor: 0,3) b) Esmeralda
praticou crime? Em caso afirmativo, qual? (Valor: 0,5)
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c) Considerando que o Inqurito Policial j foi finalizado, deve a av da menor
oferecer queixa- crime? (Valor: 0,45)
RESPOSTAS
A) Sim. Adailton praticou o delito de estupro de vulnervel, previsto
no art. 217-A do Cdigo Penal Brasileiro, que pune com pena de recluso
de 08 (oito) a 15 (quinze) anos aquele que mantm conjuno carnal ou
pratica outro ato libidinoso com menor de quatorze anos de idade.
B) Sim. Esmeralda tambm praticou o crime de estupro de
vulnervel, pois, na condio de me da vtima, atua como garante (art.
13, 2o, a, do CP) e tem o dever de impedir o resultado, tornando-se
responsvel por ele quando pode agir para evit-lo e no o faz.
C) No. De acordo com o art. 225, pargrafo nico, do Cdigo Penal
Brasileiro, a ao pblica incondicionada nos casos em que a vtima
menor de 18 (dezoito) anos ou pessoa vulnervel. Em sendo assim, quem
dever propor a Denncia o Ministrio Pblico, podendo a av da vtima
propor Queixa-Crime subsidiria apenas se, ultrapassado o prazo para a
Denncia (15 dias se o ru estiver solto e cinco dias se o ru estiver), o
Ministrio Pblico se mantiver inerte.
Q U E S TO 3
10
dia. Com base nos dados acima descritos, bem como atento s informaes a seguir
expostas, responda fundamentadamente:
a) Suponha que a acusao tenha se conformado com a sentena, tendo o
trnsito em julgado para esta ocorrido em 24/10/2006. A defesa, por sua vez, interps
apelao no prazo legal. Todavia, em virtude de sucessivas greves, adiamentos e at
mesmo perda dos autos, at a data de 20/10/2010, o recurso da defesa no tinha sido
julgado. Nesse sentido, o que voc, como advogado, deve fazer? (Valor: 0,60)
b) A situao seria diferente se ambas as partes tivessem se conformado com o
decreto condenatrio, de modo que o trnsito em julgado definitivo teria ocorrido em
24/10/2006, mas Jaime, temeroso de ficar mais uma vez preso, tivesse se evadido to
logo teve cincia do contedo da sentena, somente tendo sido capturado em
25/10/2010? (Valor: 0,65)
RESPOSTA
A) Na hiptese apresentada, deve-se ingressar com uma petio
dirigida ao Relator do recurso, suscitando a ocorrncia da prescrio da
pretenso punitiva estatal, na modalidade prescrio intercorrente (art.
110, 1o, CPP), pois entre a data da publicao da sentena condenatria
(18/10/2006) e a data estabelecida no enunciado (20/10/2010) j
passaram mais de quatro anos sem que fosse julgado o recurso da Defesa,
sendo certo que se a pena estabelecida na sentena foi de um ano, a
prescrio punitiva estatal consuma-se em quatro anos, conforme fixado
no art. 109, V, do Cdigo Penal Brasileiro. Outra sada seria ingressar com
Habeas Corpus, fundado no art. 648, VII, do CPP, objetivando, tambm, a
declarao da extino da punibilidade do ru em virtude da ocorrncia
da prescrio.
B) Sim. Se a condenao tivesse transitado em julgado no dia
24/10/2006, o Estado teria, em princpio, quatro anos a partir dessa data
para satisfazer sua pretenso executria (art. 109, V, do CP). Deve-se
destacar, entretanto, que sendo Jaime reincidente, o prazo da prescrio
executria aumentado em 1/3 (um tero), nos termos do art. 112, I, do
CP. Assim, o Estado teria 05 (cinco) anos e 04 (quatro) meses para
capturar Jaime e sujeit-lo ao cumprimento de sua pena. Como a
captura se deu no dia 25/10/2010, antes, portanto, do trmino do
prazo de cinco anos e quatro meses, no h que se falar em prescrio.
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Q U E S TO 4
RESPOSTAS
A) Inicialmente, convm fixar que no caso retratado na questo tem-
se a tipificao dos delitos de dano simples (163, CP) e injria (140, CP),
cujas penas mximas, somadas, no ultrapassam o limite de dois anos, o
que atrai a competncia do Juizado Especial Criminal. No rito dos
Juizados, o recurso cabvel da deciso que rejeita a Queixa-Crime a
Apelao (art. 82 da Lei 9.099/95).
B) O prazo para interposio da apelao de 10 (dez) dias (art. 82,
1o, da Lei 9.099/95)
C) O recurso deve ser endereado Turma Recursal (art. 82 da Lei
9.099/95)
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D) Na apelao, deve-se argumentar que o prazo para propositura da
Queixa-Crime de 06 (seis) meses a contar do dia em que a vtima soube
quem era o autor do fato (art. 38, CPP). Tal prazo tem natureza
decadencial, ou seja, de direito material e deve ser contado nos moldes
do art. 10
do Cdigo Penal Brasileiro: incluindo o primeiro dia e excluindo o
ltimo. A Queixa-Crime proposta por Joo tempestiva, porque proposta
no ltimo dia do prazo (18/07/2011).
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C A P T U LO 4
RESPOSTA
Levando em conta, como determinado, apenas os dados
mencionados no enunciado da questo, o nico argumento a ser
levantado em favor de Ricardo diz respeito aplicao do princpio da
consuno (ou da absoro) entre o delito previsto no art. 1o, I, da Lei
8.137/90 e o crime de falsidade ideolgica, previsto no art. 299 do Cdigo
de Processo Penal.
Os dispositivos legais em questo prevem o seguinte:
Lei n.o 8.137/90
I - omitir informao, ou prestar declarao falsa s autoridades
fazendrias;
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Cdigo Penal
Como se v, h um caso de conflito aparente de normas penais, pois
uma mesma conduta (ter declarado endereo falso perante a fiscalizao
tributria com o objetivo de reduzir tributo) , em tese, punida por dois
tipos penais diversos.
Todavia, como o Direito Penal repudia o bis in idem (=dupla punio
pelo mesmo fato), tal conflito pode ser facilmente resolvido com recurso
ao princpio da consuno ou da absoro, segundo o qual se Constitui
crime contra a ordem tributria suprimir ou reduzir tributo,
oucontribuio social e qualquer acessrio, mediante as seguintes
condutas:
Art. 299 - Omitir, em documento pblico ou particular, declarao
que dele devia constar, ou nele inserir ou fazer inserir declarao falsa ou
diversa da que devia ser escrita, com o fim de prejudicar direito, criar
obrigao ou alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante:
determinada conduta delituosa meio necessrio ou etapa normal para a
realizao de outro tipo penal, ela por este absorvido.
Em sendo assim, no caso apresentado, a falsidade ideolgica
constituiu etapa normal da execuo do crime contra a ordem tributria
confessado por Ricardo, razo pela qual no recurso interposto deve-se
pleitear a reforma da sentena, para que o ru seja incurso apenas nas
sanes do art. 1o, I, da Lei 8.137/90, mantendo-se a pena mnima fixada
pelo magistrado de 1o grau.
Q U E S TO 2
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Atualmente, Larissa est sendo processada pelo crime de trfico de entorpecente,
previsto no art. 33 da lei n. 11.343, de 23 de agosto de 2006. Considerando a situao
descrita e empregando os argumentos jurdicos apropriados e a fundamentao legal
pertinente, responda: qual a tese defensiva aplicvel Larissa? (Valor: 1,25)
RESPOSTA
A situao exposta no enunciado da questo diz respeito ao instituto
do erro de tipo essencial, previsto no art. 20 do Cdigo Penal Brasileiro,
que consiste na falsa representao que o agente tem acerca de um
elemento essencial do tipo penal incriminador.
Com efeito, no delito de trfico previsto na Lei 11.343/2006 um dos
elementos essenciais do tipo penal do art. 33 justamente droga e se o
agente incide em erro quanto ao fato de estar transportando droga,
imaginando, como no caso, que estaria transportando apenas uma caixa
de medicamentos, h a excluso do dolo (vontade consciente e livre de
praticar a conduta descrita no tipo penal). Nos termos do art. 20 do
Cdigo Penal Brasileiro:
Como no h a previso de modalidade culposa para o delito de
trfico de drogas, a nica concluso a que se pode chegar que o fato
atribudo Larissa atpico, em virtude do erro de tipo essencial, a
excluir o dolo de sua conduta, e da inexistncia de punio a ttulo
culposo para o crime em apreo. crime contra a ordem tributriaabsorve
os de falsidade ideolgica necessrios tipificao daqueles. (HC 84453/
PB, Rel. Ministro Marco Aurlio, Rel. para acrdo Ministro Seplveda
Pertence, julgado em 17/08/2004), o que evidentemente s se aplica em
casos semelhantes ao que foi discutido na questo, nos quais a
potencialidade lesiva da declarao falsa esgota-se no crime contra a
ordem tributria. Art. 20 - O erro sobre elemento constitutivo do tipo
legal de crime exclui o dolo, mas permite a punio por crime culposo, se
previsto em lei.
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Q U E S TO 3
A ) J o o c o m e t e u a l g u m c r i m e ? ( V a l o r : 0 , 6 5 )
B) Caso Maria viesse a sofrer leses corporais de natureza grave em decorrncia da
queda, a condio
jurdica de Joo seria alterada? (Valor: 0,60)
RESPOSTA
A) Joo no cometeu crime algum, pois o tipo previsto no art. 122 do
Cdigo Penal prev a aplicao de pena apenas quando o suicdio se
consuma ou quando do fato resulta leso corporal grave. Confira-se:
Art. 122 - Induzir ou instigar algum a suicidar-se ou prestar-lhe
auxlio para que o faa:
Pena - recluso, de dois a seis anos, se o suicdio se consuma; ou
recluso, de um a trs anos, se da tentativa de suicdio resulta leso
corporal de natureza grave
Assim, conforme explica GRECO (Cdigo Penal Comentado, 2008, p.
399):
Se, entretanto, ainda que induzida, instigada ou auxiliada
materialmente pelo agente, a vtima, tentando contra a prpria vida, no
conseguir produzir qualquer dano sua sade ou integridade fsica, ou
sendo as leses corporais de natureza leve, aquele no poder ser
responsabilizado pela infrao penal em estudo.
B) Sim. Conforme demonstrado no item a, havendo leses
corporais de natureza grave, o art. 122 do Cdigo Penal Brasileiro prev
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pena de recluso de 01 (um) a 03 (trs) anos para quem, como Joo,
instiga outra pessoa a praticar suicdio.
Q U E S TO 4
Joana resolvem permanecer por mais dois dias. Ao final da estada, Mauricio
contabiliza os gastos daqueles dias de prodigalidade, apurando o total de R$
18.000,00 (dezoito mil reais). Todos os pagamentos foram realizados em espcie, haja
vista que, na noite anterior, Maurcio havia trocado com sua me um cheque de R
$20.000,00 (vinte mil reais) por dinheiro em espcie, cheque que Maurcio sabia, de
antemo, no possuir fundos. Considerando apenas os fatos descritos, responda, de
forma justificada, os questionamentos a seguir.
RESPOSTAS
a) Maurcio praticou o crime de estelionato, previsto no art. 171,
caput, do Cdigo Penal Brasileiro, pois, utilizando-se de ardil, induziu sua
me a erro e assim obteve para si vantagem indevida. Ocorre que, apesar
de ter praticado um fato tpico, ilcito e culpvel, Maurcio no poder ser
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punido por ele, em virtude da existncia da escusa absolutria (ou
imunidade penal absoluta) prevista no art. 181, II, do Cdigo Penal
Brasileiro, que assim dispe:
I - (...);
J Maria no praticou crime algum, pois sequer houve conduta de
sua parte. Observe-se que a troca do cheque sabidamente sem fundos foi
feita exclusivamente por Maurcio, sem qualquer intervenincia ou
participao de Maria, a qual no teve qualquer envolvimento com a
prtica delitiva.
b) Caso Maurcio agido conforme descrito na letra b do enunciado
(invadisse a casa de sua me armado com pistola de brinquedo e a
ameaado, a fim de obter a quantia de R$ 20.000,00), sua situao
jurdica seria completamente diferente, pois no se estaria mais no
contexto do delito de crime patrimonial praticado sem violncia ou grave
ameaa (como o estelionato), mas sim diante de um crime de roubo,
previsto no art. 157, caput. E relativamente ao roubo o art. 183 do Cdigo
Penal dispe:
ttulo, em prejuzo
II - de ascendente ou descendente, seja o parentesco legtimo ou
ilegtimo, seja
civil ou natural.
Art. 183 - No se aplica o disposto nos dois artigos anteriores:
I - se o crime de roubo ou de extorso, ou, em geral, quando haja
emprego de
grave ameaa ou violncia pessoa;
Como se v, o fato do agente ser filho da vtima no interfere na
punio relativa ao delito de roubo, pois o legislador prev que a escusa
absolutria prevista no art. 181 no se aplica referida infrao.
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C A P T U LO 5
RESPOSTA
No caso apresentado, poderia ser alegada em favor de Lucile, em sede
de resposta escrita acusao (art. 396-A do CPP), a atipicidade do fato
descrito na Denncia, pois, conforme sedimentado na Smula Vinculante
n.o 24 do Supremo Tribunal Federal, No se tipifica crime material
contra a ordem tributria, previsto no art. 1o, incisos I a IV, da Lei
8.137/90, antes do lanamento definitivo do tributo.
Conforme mencionado no enunciado, o procedimento administrativo
de lanamento no havia sido ainda finalizado quando o Ministrio
Pblico resolveu propor a Denncia, e como somente ao final do referido
procedimento que o crdito tributrio estar definitivamente
constitudo, reputa-se juridicamente inadmissvel propor a ao penal
antes disso, porque ausente a prpria conformao tpica do delito,
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inexistindo o elemento tributo mencionado no art. 1o, II, da Lei
8.137/90.
Diante disso, dever-se-ia pleitear a absolvio sumria, fundada no
art. 397, III, do Cdigo de Processo Penal, o qual prev que o juiz dever
absolver o ru, aps a resposta escrita acusao, quando constatar que o
fato evidentemente no constitui infrao penal.
Q U E S TO 2
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estelionato do furto qualificado pela fraude, pois nesse ltimo crime o
agente utiliza-se de meio fraudulento para subtrair, sem a participao da
vtima, a res furtiva.
Q U E S TO 3
Joo e Jos foram denunciados pela prtica da conduta descrita no art. 316 do
CP (concusso). Durante a instruo, percebeu-se que os fatos narrados na denncia
no corresponderiam quilo que efetivamente teria ocorrido, razo pela qual, ao cabo
da instruo criminal e aps a respectiva apresentao de memoriais pelas partes,
apurou-se que a conduta tpica adequada seria aquela descrita no art. 317 do CP
(corrupo passiva). O magistrado, ento, fez remessa dos autos ao Ministrio Pblico
para fins de aditamento da denncia, com a nova capitulao dos fatos.
Nesse sentido, atento(a) ao caso narrado e considerando apenas as informaes
contidas no texto, responda, fundamentadamente, aos itens a seguir.
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A) Estamos diante de hiptese de mutatio libelli ou de emendatio libelli? Qual
dispositivo legal deve ser aplicado? (Valor: 0,50)
B) Por que o prprio juiz, na sentena, no poderia dar a nova capitulao e, com
base nela, condenar os rus? (Valor: 0,50)
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C) possvel que o Tribunal de Justia de determinado estado da federao, ao
analisar recurso de apelao, proceda mutatio libelli? (Valor: 0,25)
RESPOSTA: No, tendo em vista que conforme entendimento
sumulado do Supremo Tribunal Federal (Smula n.o 453), A razo de ser
da smula em questo que, caso fosse possvel a mutatio libelli em 2a
instncia, no haveria espao suficiente para dar vazo ao contraditrio,
ou seja, para discutir e provas os novos fatos trazidos pela acusao,
repercutindo, eventual julgamento sem o devido debate feito no 1o grau,
em supresso de instncia.
Q U E S TO 4
Joo foi denunciado pela prtica do delito previsto no art. 299 caput e pargrafo
nico do Cdigo Penal. A inicial acusatria foi recebida em 30/10/2000 e o processo
teve seu curso normal. A sentena penal, publicada em 29/07/2005, condenou o ru
pena de 01 (um) ano, 11 (onze) meses e 10 (dez) dias de recluso, em regime
semiaberto, mais pagamento de 16 (dezesseis) dias-multa. Irresignada, somente a
defesa interps apelao. Todavia, o Egrgio Tribunal de Justia negou provimento ao
apelo, ao argumento de que no haveria que se falar em extino da punibilidade pela
prescrio, haja vista o fato de que o ru era reincidente, circunstncia devidamente
comprovada mediante certido cartorria juntada aos autos.
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O fato que, pelo que se extrai do enunciado, temos uma sentena
com trnsito em julgado apenas para a acusao, j que somente a Defesa
recorreu. Em tais casos, a prescrio passa a ser regulada pela pena
aplicada na sentena condenatria, uma vez que no h mais
possibilidade de aumento dessa pena, em virtude da proibio da
reformatio in pejus em sede de recurso exclusivo da Defesa.
Como a pena estabelecida foi superior a um ano e inferior a dois, o
prazo prescricional passa a ser de quatro anos, nos termos do art. 109, V,
do CP. Ocorre que, entre a data da publicao da sentena e a data do
recebimento da Denncia (marco interruptivo anterior) j se passaram
mais de quatro anos, restando consumada a prescrio. No se aplicam
segunda instncia o Art. 384 e pargrafo nico do Cdigo de Processo
Penal, que possibilitam dar nova definio jurdica ao fato delituoso,
emvirtude de circunstncia elementar no contida, explcita ou
implicitamente, na denncia ou queixa.
25
C A P T U LO 6
IX EXAME DA ORDEM
UNIFICADO
Q U E S TO 1
26
assim garantir que Raimundo, no dia seguinte, pudesse lev-lo a um
comprador, para assim tornar segura a vantagem, o proveito do crime.
Q U E S TO 2
27
responderia pelo crime de homicdio doloso consumado, nos termos do
art. 121 do Cdigo Penal.
Q U E S TO 3
Mrio est sendo processado por tentativa de homicdio uma vez que injetou
substncia venenosa em Luciano, com o objetivo de mat-lo. No curso do processo,
uma amostra da referida substncia foi recolhida para anlise e enviada ao Instituto
de Criminalstica, ficando comprovado que, pelas condies de armazenamento e
acondicionamento, a substncia no fora hbil para produzir os
28
que inclusive poder se retratar da sua deciso, mas as razes so
endereadas ao Tribunal que ir julgar o recurso.
Q U E S TO 4
29
recursos especiais, caso configurada alguma das hipteses previstas em
lei.
30
C A P T U LO 7
QUESTES DE SEGUNDA
FASE EXAME UNIFICADO
2010.2
Q U E S TO 1 :
Jos da Silva foi preso em flagrante pela polcia militar quando transportava em
seu carro grande quantidade de drogas. Levado pelos policiais delegacia de polcia
mais prxima, Jos telefonou para seu advogado, o qual requereu ao delegado que
aguardasse sua chegada para lavrar o flagrante. Enquanto esperavam o advogado, o
delegado de polcia conversou informalmente com Jos, o qual confessou que
pertencia a um grupo que se dedicava ao trfico de drogas e declinou o nome de outras
cinco pessoas que participavam desse grupo. Essa conversa foi gravada pelo delegado
de polcia.
Aps a chegada do advogado delegacia, a autoridade policial permitiu que Jos
da Silva se entrevistasse particularmente com seu advogado e, s ento, procedeu
lavratura do auto de priso em flagrante, ocasio em que Jos foi informado de seu
direito de permanecer calado e foi formalmente interrogado pela autoridade policial.
Durante o interrogatrio formal, assistido pelo advogado, Jos da Silva optou por
permanecer calado, afirmando que s se manifestaria em juzo.
Com base na gravao contendo a confisso e delao de Jos, o Delegado de
Polcia, em um nico ato, determina que um de seus policiais atue como agente
infiltrado e requer, ainda, outras medidas cautelares investigativas para obter provas
em face dos demais membros do grupo criminoso: 1. quebra de sigilo de dados
telefnicos, autorizada pelo juiz competente; 2. busca e apreenso, deferida pelo juiz
competente, a qual logrou apreender grande quantidade de drogas e armas; 3. priso
preventiva dos cinco comparsas de Jos da Silva, que estavam de posse das drogas e
armas. Todas as provas coligidas na investigao corroboraram as informaes
fornecidas por Jos em seu depoimento.
31
Relatado o inqurito policial, o promotor de justia denunciou todos os
envolvidos por associao para o trfico de drogas (art. 35, Lei 11.343/2006), trfico
ilcito de entorpecentes (art. 33, Lei 11.343/2006) e quadrilha armada (art. 288,
pargrafo nico).
Considerando tal narrativa, excluindo eventual pedido de aplicao do instituto
da delao premiada, indique quais as teses defensivas, no plano do direito material e
processual, que podem ser arguidas a parti r do enunciado acima, pela defesa de Jos.
Indique os dispositivos legais aplicveis aos argumentos apresentados.
COMENTRIOS:
No plano do direito processual, as teses defensivas a serem
levantadas eram: a) a ilicitude da gravao feita pelo Delegado de Polcia,
que contamina as demais provas
obtidas (provas ilcitas por derivao); b) a impossibilidade de
infiltrao de agente policial sem autorizao judicial e sem a oitiva
prvia do Ministrio Pblico, o que igualmente faz com que as provas
obtidas a partir de tal infiltrao sejam consideradas ilcitas.
O examinando deveria mencionar, na fundamentao de sua
resposta, o art. 5o, LXIII, da Constituio Federal, que assegura ao preso
o direito ser informado de seus direitos, entre os quais o de permanecer
calado, sendo-lhe assegurada a assistncia da famlia e do advogado. No
interrogatrio do preso perante a Autoridade Policial devem ser
observadas as normas aplicveis ao interrogatrio judicial, conforme
prescreve o art. 6o, V, do Cdigo de Processo Penal, de modo que no h
qualquer espao para informalidade no momento da prtica do referido
ato. Assim, todo e qualquer dilogo mantido entre o preso e a Autoridade
Policial deve ser precedido do esclarecimento acerca do direito
constitucional ao silncio, sob pena de ilicitude de toda e qualquer prova
obtida com infringncia ao aludido direito fundamental.
A outra tese defensiva em matria processual diz respeito ilicitude
da infiltrao de agente policial em grupo criminoso, sem autorizao
judicial e sem a prvia oitiva do Ministrio Pblico, em clara afronta ao
que prescreve o art. 53, I, da Lei Lei 11.343/2006 (Art. 53. Em qualquer
fase da persecuo criminal relativa aos crimes previstos nesta Lei, so
permitidos, alm dos previstos em lei, mediante autorizao judicial e
ouvido o Ministrio Pblico, os seguintes procedimentos investigatrios: I
32
- a infiltrao por agentes de polcia, em tarefas de investigao,
constituda pelos rgos especializados pertinentes).
Em complementao a esses aspectos processuais, caberia ao
examinando mencionar que o art. 5o, LVI, da Constituio Federal,
considera inadmissveis, no processo, as provas obtidas por meio ilcito
(mandamento que repetido no art. 157 do Cdigo de Processo Penal) e
que, para dar efetividade a este comando constitucional, a doutrina e a
jurisprudncia incluem no rol de provas inadmissveis no s as
diretamente ilcitas (como a confisso do preso obtida sem o
esclarecimento sobre o seu direito ao silncio e a infiltrao de agente de
polcia sem autorizao judicial e prvia oitiva do Ministrio Pblico),
mas tambm aquelas que so obtidas a partir das provas ilcitas (as
chamadas ilcitas por derivao), como, no caso, a quebra de sigilo de
dados telefnicos, a busca e apreenso e todas as demais provas obtidas a
partir da confisso de Jos. A insero das provas derivadas das provas
ilcitas no rol de provas inadmissveis, inclusive, j encontra previso
legal no art. 157, 1o, do Cdigo de Processo Penal, que dispe: So
tambm inadmissveis as provas derivadas das ilcitas, salvo quando no
evidenciado o nexo de causalidade entre umas e outras, ou quando as
derivadas puderem ser obtidas por uma fonte independente das
primeiras (Includo pela Lei no 11.690, de 2008.).
A consequncia procedimental da ilicitude da confisso de Jos e da
infiltrao de agente de polcia e da ilicitude por derivao das demais
provas obtidas o desentranhamento de tais elementos probatrios dos
autos do processo, mediante deciso fundamentada do Juiz, com
posterior inutilizao, quando j preclusa a deciso acerca do
desentranhamento (art. 157, caput, c/c 3o, CPP).
J no plano do direito material, a tese defensiva a ser exposta pelo
examinando dizia respeito impossibilidade de acusao simultnea de
formao de quadrilha (art. 288, CPP) e associao para o trfico (art. 35
da Lei 11.343/2006). que ambos os delitos possuem um ncleo bsico
comum (estabilidade na comunho de aes e desgnios para a prtica de
crimes), de maneira que acusar uma pessoa da prtica simultnea de
formao de quadrilha e associao para o trfico configuraria bis in
idem. Apenas a ttulo de informao, note-se que a diferena entre
formao de quadrilha e associao para o trfico que este ltimo delito
33
contm um elemento especializante, que a associao para a prtica dos
crimes previstos no art. 33, caput, 1, e art. 34 da Lei n.o 11.343, ao passo
que a formao de quadrilha diz respeito unio para a prtica de
quaisquer outros crimes.
Q U E S TO 2
COMENTRIOS:
A questo exigia do examinando o conhecimento dos tipos penais
inseridos no Captulo de Crimes praticados por funcionrio pblico
contra a Administrao em geral e tambm dos tipos penais previstos na
Lei 8.137/90, que trata exclusivamente dos crimes contra a ordem
tributria.
Em princpio, a conduta de funcionrio pblico que, em razo de sua
funo, exige vantagem indevida, configura o delito de concusso,
previsto no art. 316 do Cdigo Penal Brasileiro. Todavia, para responder
corretamente pergunta I, o examinando deveria atentar para um
elemento especial contido no enunciado (exigir vantagem
para deixar de cobrar tributo devido). Para tal conduta, existe
norma especial que a criminaliza, qual seja, a norma do art. 3o, II, da Lei
8.137/90, que assim dispe: exigir, solicitar ou receber, para si ou para
outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da funo ou antes de
iniciar seu exerccio, mas em razo dela, vantagem indevida; ou aceitar
promessa de tal vantagem, para deixar de lanar ou cobrar tributo ou
contribuio social, ou cobr-los parcialmente. Pena - recluso, de 3 (trs)
a 8 (oito) anos, e multa.
Agora, na hiptese descrita no item II, ou seja, quando o funcionrio
desvia em proveito prprio a vantagem advinda da cobrana de tributos,
34
sua conduta se enquadra no tipo penal previsto no art. 316, 2o, do Cdigo
Penal Brasileiro ( 2o - Se o funcionrio desvia, em proveito prprio ou de
outrem, o que recebeu indevidamente para recolher aos cofres pblicos:
pena: recluso, de dois a doze anos, e multa).
Q U E S TO 3
Pedro, almejando a morte de Jos, contra ele efetua disparo de arma de fogo,
acertando-o na regio torxica. Jos vem a falecer, entretanto, no em razo do
disparo recebido, mas porque, com inteno suicida, havia ingerido dose letal de
veneno momentos antes de sofrer a agresso, o que foi comprovado durante instruo
processual. Ainda assim, Pedro foi pronunciado nos termos do previsto no artigo 121,
caput, do Cdigo Penal.
Na condio de Advogado de Pedro:
I. indique o recurso cabvel;
II. o prazo de interposio;
III. a argumentao visando melhoria da situao jurdica do defendido.
Indique, ainda, para todas as respostas, os respectivos dispositivos legais.
COMENTRIOS:
I - O recurso cabvel contra a deciso de pronncia o recurso em
sentido estrito (RESE), conforme previsto no art. 581, IV, do Cdigo de
Processo Penal. Para responder corretamente a esta questo, deveria o
examinando ter em mente que a deciso que pronuncia o ru pe trmino
primeira fase do procedimento do jri, mas no encerra todo o
processo, de modo que, em tese, o recurso cabvel seria o recurso em
sentido estrito (RESE), que o meio processual adequado para impugnar
decises interlocutrias em matria processual penal. Todavia, como
sabido que o recurso em sentido estrito somente pode ser utilizado nas
hipteses elencadas no art. 581 do
Cdigo de Processo Penal (salvo um ou outro caso em que se admite
interpretao extensiva), deveria ele, de posse da legislao, conferir se a
35
deciso de pronncia est ou no elencada no rol do mencionado artigo,
confirmando, assim, o cabimento do RESE.
II O prazo para interposio do Recurso em Sentido Estrito (RESE)
de cinco dias, de acordo com o art. 586 do Cdigo de Processo Penal,
contados da intimao do ru e de seu defensor (na verdade, da que
ocorrer por ltimo).
III O enunciado da questo trata de assunto relativo s concausas,
que se insere dentro da temtica maior do nexo causal e das relaes de
causalidade.
Rogrio Greco explica que causa tudo aquilo que interfere na
produo do resultado e que as causas podem ser absoluta ou
relativamente independentes (Curso de Direito Penal. Parte geral.
Niteri: Impetus, 2010, p. 213).
As causas absolutamente independentes so aquelas que produziram
o resultado criminoso e que teriam acontecido mesmo se no houvesse
qualquer conduta por parte do agente. Elas subdividem-se em
preexistentes (aconteceram antes da conduta do agente), concomitantes
(aconteceram simultaneamente conduta do agente) e supervenientes
(aconteceram depois da conduta do agente).
J as causas relativamente independentes so aquelas que se somam
conduta do agente para poder produzir o resultado criminoso. Tambm
podem ser preexistentes, concomitantes ou supervenientes.
Para saber se uma causa absoluta ou relativamente independente,
deve-se fazer a seguinte pergunta: o resultado criminoso teria ocorrido
mesmo se no houvesse a conduta do agente? Se a resposta for positiva,
trata-de se causa absolutamente independente; se a resposta for negativa,
ter-se- uma causa relativamente independente.
Como se v, o ponto chave da questo est em perceber que no foi o
disparo causado pelo ru que causou a morte de Jos, mas sim a dose letal
de veneno que o prprio Jos havia ingerido antes mesmo do disparo ter
sido efetuado. Ou seja, mesmo que no tivesse havido o disparo, a morte
teria ocorrido, pois sua causa foi absolutamente independente da conduta
do ru.
Fixada esta premissa, caberia ao examinando aduzir, como tese de
defesa, a desclassificao para o delito de tentativa de homicdio, eis que o
36
ru no pode responder pelo resultado a que no deu causa, mas apenas
pelo seu dolo.
Q U E S TO 4
COMENTRIOS:
O enunciado da questo traz uma clara hiptese de erro na execuo,
que diz respeito quela situao em que o agente, querendo atingir
determinada pessoa, erra na execuo e acaba atingindo pessoa diversa
da pretendida.
De acordo com o art. 73 do Cdigo Penal, Quando, por acidente ou
erro no uso dos meios de execuo, o agente, ao invs de atingir a pessoa
que pretendia ofender, atinge pessoa diversa, responde como se tivesse
praticado o crime contra aquela, atendendo-se ao disposto no 3o do art.
20 deste Cdigo.
A remisso ao art. 20, 3o do Cdigo Penal Brasileiro essencial ao
deslinde da questo. Segundo referido artigo, O erro quanto pessoa
contra a qual o crime praticado no isenta de pena. No se consideram,
neste caso, as condies ou qualidades da vtima, seno as da pessoa
contra quem o agente queria praticar o crime (sem grifo no original).
Com base nos dispositivos legais acima transcritos, a tese defensiva a
ser exposta pelo candidato era a da legtima defesa, uma vez que Aurlio
efetuou o disparo para defender-se de agresso perpetrada por Berilo e o
fato dele ter errado na execuo e atingido terceiro no desnatura a
37
legtima defesa, pois deve-se levar em considerao as condies da
pessoa contra quem o agente queria praticar o crime (no caso, Berilo, que
era um injusto agressor), e no da vtima real.
Q U E S TO 5
COMENTRIOS:
I O recurso cabvel das decises tomadas pelo Juiz em sede de
execuo da pena sempre o agravo em execuo, conforme previsto no
art. 197 da Lei 7.210/84.
II A Lei 8.072/90, que trata da temtica dos crimes hediondos e a
ele equiparados, como o caso do trfico de drogas, previa, em sua
redao original, que a pena dos condenados por tais delitos deveria ser
cumprida em regime integralmente fechado (art. 2o, I, da Lei 8.072/90).
Todavia, no julgamento do HC 82.959/SP, o Supremo Tribunal Federal
declarou, incidentalmente, a inconstitucionalidade de tal dispositivo, por
entend-lo em descompasso com o direito fundamental individualizao
da pena.
38
Com a declarao de inconstitucionalidade do art. 2o, I, da Lei
8.072/90, passou-se a entender que os condenados por crimes hediondos,
na falta de norma vlida que tratasse especificamente de sua situao,
deveriam se submeter s regras gerais de progresso de regime, que
fixam em 1/6 a frao para que se efetive a progresso.
Em 28/03/2007, entrou em vigor a Lei 11.464/2007, que fixou novas
fraes para a progresso de regime nos crimes hediondos: 2/5 para no
reincidentes e 3/5 para reincidentes.
Todavia, de se observar que a Lei 11.464/2007 prejudicial aos
rus, tendo em vista que aumentou a frao da progresso. E, como se
sabe, em matria penal as leis s podem retroagir se for em benefcio do
ru, e no em seu prejuzo.
Por essa razo, deveria o examinando argumentar que o juiz se
equivocou ao aplicar o disposto na Lei 11.464/2007 ao ru, pois o crime
foi praticado em 2006, portanto em momento anterior vigncia da nova
lei, que mais gravosa e no pode retroagir.
Deveria o juiz, como explicado, aplicar o frao geral de 1/6 para o
clculo da progresso e assim conceder o benefcio pleiteado pela Defesa.
39
C A P T U LO 8
QUESTES DE SEGUNDA
FASE EXAME UNIFICADO
2010.3
Q U E S TO 1
Jos da Silva foi preso em flagrante pela polcia militar quando transportava em seu
carro grande quantidade de drogas. Levado pelos policiais delegacia de polcia mais
prxima, Jos telefonou para seu advogado, o qual requereu ao delegado que
aguardasse sua chegada para lavrar o flagrante. Enquanto esperavam o advogado, o
delegado de polcia conversou informalmente com Jos, o qual confessou que
pertencia a um grupo que se dedicava ao trfico de drogas e declinou o nome de outras
cinco pessoas que participavam desse grupo. Essa conversa foi gravada pelo delegado
de polcia.
Aps a chegada do advogado delegacia, a autoridade policial permitiu que Jos
da Silva se entrevistasse particularmente com seu advogado e, s ento, procedeu
lavratura do auto de priso em flagrante, ocasio em que Jos foi informado de seu
direito de permanecer calado e foi formalmente interrogado pela autoridade policial.
Durante o interrogatrio formal, assistido pelo advogado, Jos da Silva optou por
permanecer calado, afirmando que s se manifestaria em juzo.
Com base na gravao contendo a confisso e delao de Jos, o Delegado de
Polcia, em um nico ato, determina que um de seus policiais atue como agente
infiltrado e requer, ainda, outras medidas cautelares investigativas para obter provas
em face dos demais membros do grupo criminoso: 1. quebra de sigilo de dados
telefnicos, autorizada pelo juiz competente; 2. busca e apreenso, deferida pelo juiz
competente, a qual logrou apreender grande quantidade de drogas e armas; 3. priso
preventiva dos cinco comparsas de Jos da Silva, que estavam de posse das drogas e
armas. Todas as provas coligidas na investigao corroboraram as informaes
fornecidas por Jos em seu depoimento.
40
Relatado o inqurito policial, o promotor de justia denunciou todos os
envolvidos por associao para o trfico de drogas (art. 35, Lei 11.343/2006), trfico
ilcito de entorpecentes (art. 33, Lei 11.343/2006) e quadrilha armada (art. 288,
pargrafo nico).
Considerando tal narrativa, excluindo eventual pedido de aplicao do instituto
da delao premiada, indique quais as teses defensivas, no plano do direito material e
processual, que podem ser arguidas a parti r do enunciado acima, pela defesa de Jos.
Indique os dispositivos legais aplicveis aos argumentos apresentados.
Comentrios:
No plano do direito processual, as teses defensivas a serem
levantadas eram: a) a ilicitude da gravao feita pelo Delegado de Polcia,
que contamina as demais provas obtidas (provas ilcitas por derivao);
b) a impossibilidade de infiltrao de agente policial sem autorizao
judicial e sem a oitiva prvia do Ministrio Pblico, o que igualmente faz
com que as provas obtidas a partir de tal infiltrao sejam consideradas
ilcitas.
O examinando deveria mencionar, na fundamentao de sua
resposta, o art. 5o, LXIII, da Constituio Federal, que assegura ao preso
o direito ser informado de seus direitos, entre os quais o de permanecer
calado, sendo-lhe assegurada a assistncia da famlia e do advogado. No
interrogatrio do preso perante a Autoridade Policial devem ser
observadas as
normas aplicveis ao interrogatrio judicial, conforme prescreve o
art. 6o, V, do Cdigo de Processo Penal, de modo que no h qualquer
espao para informalidade no momento da prtica do referido ato.
Assim, todo e qualquer dilogo mantido entre o preso e a Autoridade
Policial deve ser precedido do esclarecimento acerca do direito
constitucional ao silncio, sob pena de ilicitude de toda e qualquer prova
obtida com infringncia ao aludido direito fundamental.
A outra tese defensiva em matria processual diz respeito ilicitude
da infiltrao de agente policial em grupo criminoso, sem autorizao
judicial e sem a prvia oitiva do Ministrio Pblico, em clara afronta ao
que prescreve o art. 53, I, da Lei Lei 11.343/2006 (Art. 53. Em qualquer
fase da persecuo criminal relativa aos crimes previstos nesta Lei, so
permitidos, alm dos previstos em lei, mediante autorizao judicial e
41
ouvido o Ministrio Pblico, os seguintes procedimentos investigatrios: I
- a infiltrao por agentes de polcia, em tarefas de investigao,
constituda pelos rgos especializados pertinentes).
.
Em complementao a esses aspectos processuais, caberia ao
examinando mencionar que o art. 5o, LVI, da Constituio Federal,
considera inadmissveis, no processo, as provas obtidas por meio ilcito
(mandamento que repetido no art. 157 do Cdigo de Processo Penal) e
que, para dar efetividade a este comando constitucional, a doutrina e a
jurisprudncia incluem no rol de provas inadmissveis no s as
diretamente ilcitas (como a confisso do preso obtida sem o
esclarecimento sobre o seu direito ao silncio e a infiltrao de agente de
polcia sem autorizao judicial e prvia oitiva do Ministrio Pblico),
mas tambm aquelas que so obtidas a partir das provas ilcitas (as
chamadas ilcitas por derivao), como, no caso, a quebra de sigilo de
dados telefnicos, a busca e apreenso e todas as demais provas obtidas a
partir da confisso de Jos. A insero das provas derivadas das provas
ilcitas no rol de provas inadmissveis, inclusive, j encontra previso
legal no art. 157, 1o, do Cdigo de Processo Penal, que dispe: So
tambm inadmissveis as provas derivadas das ilcitas, salvo quando no
evidenciado o nexo de causalidade entre umas e outras, ou quando as
derivadas puderem ser obtidas por uma fonte independente das
primeiras. (Includo pela Lei no 11.690, de 2008.)
A consequncia procedimental da ilicitude da confisso de Jos e da
infiltrao de agente de polcia e da ilicitude por derivao das demais
provas obtidas o desentranhamento de tais elementos probatrios dos
autos do processo, mediante deciso fundamentada do Juiz, com
posterior inutilizao, quando j preclusa a deciso acerca do
desentranhamento (art. 157, caput, c/c 3o, CPP).
J no plano do direito material, a tese defensiva a ser exposta pelo
examinando dizia respeito impossibilidade de acusao simultnea de
formao de quadrilha (art. 288, CPP) e associao para o trfico (art. 35
da Lei 11.343/2006). que ambos os delitos possuem um ncleo bsico
comum (estabilidade na comunho de aes e desgnios para a prtica de
crimes), de maneira que acusar uma pessoa da prtica simultnea de
formao de quadrilha e associao para o trfico configuraria bis in
42
idem. Apenas a ttulo de informao, note-se que a diferena entre
formao de quadrilha e associao para o trfico que este ltimo delito
contm um elemento especializante, que a associao para a prtica dos
crimes previstos no art. 33, caput, 1, e art. 34 da Lei n.o 11.343, ao passo
que a formao de quadrilha diz respeito unio para a prtica de
quaisquer outros crimes.
Q U E S TO 2
Comentrios:
A questo exigia do examinando o conhecimento dos tipos penais
inseridos no Captulo de Crimes praticados por funcionrio pblico
contra a Administrao em geral e tambm dos tipos penais previstos na
Lei 8.137/90, que trata exclusivamente dos crimes contra a ordem
tributria.
Em princpio, a conduta de funcionrio pblico que, em razo de sua
funo, exige vantagem indevida, configura o delito de concusso,
previsto no art. 316 do Cdigo Penal Brasileiro. Todavia, para responder
corretamente pergunta I, o examinando deveria atentar para um
elemento especial contido no enunciado (exigir vantagem para deixar de
cobrar tributo devido). Para tal conduta, existe norma especial que a
criminaliza, qual seja, a norma do art. 3o, II, da Lei 8.137/90, que assim
dispe: exigir, solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou
indiretamente, ainda que fora da funo ou antes de iniciar seu exerccio,
mas em razo dela, vantagem indevida; ou aceitar promessa de tal
vantagem, para deixar de lanar ou cobrar tributo ou contribuio social,
43
ou cobr-los parcialmente. Pena - recluso, de 3 (trs) a 8 (oito) anos, e
multa.
Agora, na hiptese descrita no item II, ou seja, quando o funcionrio
desvia em proveito prprio a vantagem advinda da cobrana de tributos,
sua conduta se enquadra no tipo penal previsto no art. 316, 2o, do Cdigo
Penal Brasileiro ( 2o - Se o funcionrio desvia, em proveito prprio ou de
outrem, o que recebeu indevidamente para recolher aos cofres pblicos:
pena: recluso, de dois a doze anos, e multa).
Q U E S TO 3
Pedro, almejando a morte de Jos, contra ele efetua disparo de arma de fogo,
acertando-o na regio torxica. Jos vem a falecer, entretanto, no em razo do
disparo recebido, mas porque, com inteno suicida, havia ingerido dose letal de
veneno momentos antes de sofrer a agresso, o que foi comprovado durante instruo
processual. Ainda assim, Pedro foi pronunciado nos termos do previsto no artigo 121,
caput, do Cdigo Penal.
N a c o n d i o d e A d v o g a d o d e P e d r o :
I . i n d i q u e o r e c u r s o c a b v e l ;
I I . o p r a z o d e i n t e r p o s i o ;
III. a argumentao visando melhoria da situao jurdica do defendido. Indique,
ainda, para todas as respostas, os respectivos dispositivos legais.
Comentrios:
I - O recurso cabvel contra a deciso de pronncia o recurso em
sentido estrito (RESE), conforme previsto no art. 581, IV, do Cdigo de
Processo Penal. Para responder corretamente a esta questo, deveria o
examinando ter em mente que a deciso que pronuncia o ru pe trmino
primeira fase do procedimento do jri, mas no encerra todo o
processo, de modo que, em tese, o recurso cabvel seria o recurso em
sentido estrito (RESE), que o meio processual adequado para impugnar
decises interlocutrias em matria processual penal. Todavia, como
sabido que o recurso em sentido estrito somente pode ser utilizado nas
44
hipteses elencadas no art. 581 do Cdigo de Processo Penal (salvo um ou
outro caso em que se admite interpretao extensiva), deveria ele, de
posse da legislao, conferir se a deciso de pronncia est ou no
elencada no rol do mencionado artigo, confirmando, assim, o cabimento
do RESE.
II O prazo para interposio do Recurso em Sentido Estrito (RESE)
de cinco dias, de acordo com o art. 586 do Cdigo de Processo Penal,
contados da intimao do ru e de seu defensor (na verdade, da que
ocorrer por ltimo).
III O enunciado da questo trata de assunto relativo s concausas,
que se insere dentro da temtica maior do nexo causal e das relaes de
c a u s a l i d a d e .
Rogrio Greco explica que causa tudo aquilo que interfere na produo
do resultado e que as causas podem ser absoluta ou relativamente
independentes (Curso de Direito Penal. Parte geral. Niteri: Impetus,
2010, p. 213).
As causas absolutamente independentes so aquelas que produziram
o resultado criminoso e que teriam acontecido mesmo se no houvesse
qualquer conduta por parte do agente. Elas subdividem-se em
preexistentes (aconteceram antes da conduta do agente), concomitantes
(aconteceram simultaneamente conduta do agente) e supervenientes
(aconteceram depois da conduta do agente).
J as causas relativamente independentes so aquelas que se somam
conduta do agente para poder produzir o resultado criminoso. Tambm
p o d e m s e r p r e e x i s t e n t e s , c o n c o m i t a n t e s o u s u p e r v e n i e n t e s .
Para saber se uma causa absoluta ou relativamente independente, deve-
se fazer a seguinte pergunta: o resultado criminoso teria ocorrido mesmo
se no houvesse a conduta do agente? Se a resposta for positiva, trata-de
se causa absolutamente independente; se a resposta for negativa, ter-se-
uma causa relativamente independente.
Como se v, o ponto chave da questo est em perceber que no foi o
disparo causado pelo ru que causou a morte de Jos, mas sim a dose letal
de veneno que o prprio Jos havia ingerido antes mesmo do disparo ter
sido efetuado. Ou seja, mesmo que no tivesse havido o disparo, a morte
teria ocorrido, pois sua causa foi absolutamente independente da conduta
do ru.
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Fixada esta premissa, caberia ao examinando aduzir, como tese de
defesa, a desclassificao para o delito de tentativa de homicdio, eis que o
ru no pode responder pelo resultado a que no deu causa, mas apenas
pelo seu dolo.
Q U E S TO 4
Comentrios:
O enunciado da questo traz uma clara hiptese de erro na execuo,
que diz respeito quela situao em que o agente, querendo atingir
determinada pessoa, erra na execuo e acaba atingindo pessoa diversa
da pretendida.
De acordo com o art. 73 do Cdigo Penal, Quando, por acidente ou
erro no uso dos meios de execuo, o agente, ao invs de atingir a pessoa
que pretendia ofender, atinge pessoa diversa, responde como se tivesse
praticado o crime contra aquela, atendendo-se ao disposto no 3o do art.
20 deste Cdigo.
A remisso ao art. 20, 3o do Cdigo Penal Brasileiro essencial ao
deslinde da questo. Segundo referido artigo, O erro quanto pessoa
contra a qual o crime praticado no isenta de pena. No se consideram,
neste caso, as condies ou qualidades da vtima, seno as da pessoa
contra quem o agente queria praticar o crime (sem grifo no original).
Com base nos dispositivos legais acima transcritos, a tese defensiva a
ser exposta pelo candidato era a da legtima defesa, uma vez que Aurlio
efetuou o disparo para defender-se de agresso perpetrada por Berilo e o
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fato dele ter errado na execuo e atingido terceiro no desnatura a
legtima defesa, pois deve-se levar em considerao as condies da
pessoa contra quem o agente queria praticar o crime (no caso, Berilo, que
era um injusto agressor), e no da vtima real.
Q U E S TO 5
Comentrios:
I O recurso cabvel das decises tomadas pelo Juiz em sede de
execuo da pena sempre o agravo em execuo, conforme previsto no
art. 197 da Lei 7.210/84.
II A Lei 8.072/90, que trata da temtica dos crimes hediondos e a
ele equiparados, como o caso do trfico de drogas, previa, em sua
redao original, que a pena dos condenados por tais delitos deveria ser
cumprida em regime integralmente fechado (art. 2o, I, da Lei 8.072/90).
Todavia, no julgamento do HC 82.959/SP, o Supremo Tribunal Federal
declarou, incidentalmente, a inconstitucionalidade de tal dispositivo, por
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entend-lo em descompasso com o direito fundamental individualizao
da pena.
Com a declarao de inconstitucionalidade do art. 2o, I, da Lei
8.072/90, passou-se a entender que os condenados por crimes hediondos,
na falta de norma vlida que tratasse especificamente de sua situao,
deveriam se submeter s regras gerais de progresso de regime, que
fixam em 1/6 a frao para que se efetive a progresso.
Em 28/03/2007, entrou em vigor a Lei 11.464/2007, que fixou novas
fraes para a progresso de regime nos crimes hediondos: 2/5 para no
r e i n c i d e n t e s e 3 / 5 p a r a r e i n c i d e n t e s .
Todavia, de se observar que a Lei 11.464/2007 prejudicial aos rus,
tendo em vista que aumentou a frao da progresso. E, como se sabe, em
matria penal as leis s podem retroagir se for em benefcio do ru, e no
em seu prejuzo.
Por essa razo, deveria o examinando argumentar que o juiz se
equivocou ao aplicar o disposto na Lei 11.464/2007 ao ru, pois o crime
foi praticado em 2006, portanto em momento anterior vigncia da nova
lei, que mais gravosa e no pode retroagir. Deveria o juiz, como
explicado, aplicar o frao geral de 1/6 para o clculo da progresso e
assim conceder o benefcio pleiteado pela Defesa.
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