0 notas 0% acharam este documento útil (0 voto) 299 visualizações 22 páginas (SANCHEZ GAMBOA, 2007) Epistemologia Da Educação Física (CAPÍTULO)
Epistemologia Da Educação Física
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu,
reivindique-o aqui .
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF ou leia on-line no Scribd
Anterior no carrossel Próximo no carrossel
Salvar (SANCHEZ GAMBOA, 2007)Epistemologia Da Educação Fí... para ler mais tarde INTRODUGAO
Neste volume estao reunidos alguns textos, como ja indica seu
titulo, dedicados a reflexao critica sobre a problematica da epistemologia
da Educacao Fisica.
A epistemologia, no campo da Educagao Fisica se refere a: “os
pressupostos tedrico-filosdficos presentes nos diferentes projetos de
delimitagao da Educagdo Fisica como um possivel campo académico-
cientffico (...) os fundamentos tedricos balizadores dos distintos
discursos da Educagao Fisica (...) como interroga¢a4o constante dos
saberes constitufdos’®. Entretanto, a pretensao desta publicacao é mais
modesta e se localiza na fronteira de uma epistemologia geral que busca
as inter-relagées nas fronteiras eldsticas dos diversos campos do saber
cientifico, daf o subtitulo, que indica o partilhar de problematicas
comuns dos novos campos epistemoldgicos que buscam a constitui¢ao
de estatuto cientifico proprio, a construgao de objetos e centralidades,
de métodos e de abordagens apropriados na tentativa de ganhar
identidade e reconhecimento na historia das ciéncias contemporaneas.
A constituigao de um campo prdprio na cartografia das ciéncias nao é
privilégio apenas da Educagio Fisica, outras areas como a pedagogia, a
politica, a ética, por indicar apenas alguns campos de conhecimento
que centralizam seu olhar sobre a agéo humana se debatem, afirmando
suas especificidades e independéncias nas fronteiras movedigas dos
conhecimentos sistematizados.
A compreensio da epistemologia geral se refere ao estudo da
natureza do conhecimento, a sua justificagao e seus limites (AUDI, 2004),
focalizando as controvérsias acerca da possibilidade, das fontes, da esséncia
* Tomado da ementa do Grupo de Trabalho: Epistemologia do Colézio Brasileiro de Ciéncias do
Esporte — CBCE. (hetp//iwww.cbce.org.br/combrace/index2003).16 Silvio S4nchez Gamboa
e dos critérios de validade dos conhecimentos. No caso do conhecimento
sistematico (Zpisteme) que por ter o imperativo de explicitar e justificar
seus métodos, ou caminhos percorridos para a elaboragdo dos seus
resultados, se diferencia dos saberes fundados nas tradigdes e senso comum
(Doxa) e na razio mitica e nas religides (Mitus). Na literatura filoséfica
moderna (final do século XIX), sob a influéncia do positivismo, 0 termo
“epistemologia” ressurge significando literalmente Teoria da Ciéncia,
delimitada a um tipo especifico de conhecimento, que conota a redugao da
Teoria do Conhecimento (Gnosiologia) a uma parte desse conhecimento, o
cientifico. Tal redugao indica o esvaziamento da Gnosiologia, a ruptura das
relacdes entre a Filosofia (Sofia e a ciéncia ( Epistemé e o desaparecimento da
tensao critica entre a Teoria do Conhecimento (0 geral) e “conhecimento
cientifico” (0 especifico). Com o propésito de recuperar essa tensdoe de reatar
os nexos entre filosofia e ciéncia, durante o século XX, se desenvolve a
epistemologia, reconhecida também como metaciéncia em geral, ou o estudo
que vem depois da ciéncia (segundo nivel) e que tem por objeto a propria
ciéncia e a maneira como ela estuda os seus objetos (primeiro nivel),
interrogando-a sobre seus principios, seus fundamentos, seus métodos, suas
condigées de validade e seus resultados. Nessa perspectiva varios cientistas e
filésofos, dentre eles Bachelard (1983), Piaget (1967) e Habermas (1982)
propdem uma recuperacio do sentido e do contetido da “Epistemologia”, como
um campo de tensio entre a ciéncia e a filosofia.
Bachelard (1983) propée o caminho da reflexao sobre as Filosofias
implicitas nas praticas explicitas dos cientistas. Isto é, “dar as ciéncias a
Filosofia que elas merecem” e coloca como fungio essencial da Filosofia, a
construcgao de uma epistemologia aberta que vise 4 produgao dos
conhecimentos cientificos sob todos os seus aspectos, ldgico, ideologico e
historico. Para Piaget (1967), os termos Epistemologia e Teoria do
Conhecimento sao sin6nimos. Piaget considera que o conhecimento, tanto
no que respeita 4 evolucdo da ciéncia como ao desenvolvimento do
individuo, constitui-se progressivamente sem atingir um estado definitivo.
Piaget define a Epistemologia como o estudo da constituigao dos
conhecimentos validos (PIAGET, 1973, p. 15). Habermas (1982) nas suas
pesquisas sobre a reconstrugao da génese do positivismo detecta os rastros
perdidos de uma reflexao sobre as ciéncias que esqueceu seu entrelagamento
com 0 processo histérico da sociedade. Tal esquecimento levou a redugioEPISTEMOLOGIA DA EDUCAGAO FISICA: 17
as inter-relagdes necessérias
da teoria do conhecimento (geral) 4 teoria da ciéncia (particular). Para
superar esse reducionismo, Habermas propde duas teses programaticas: a
teoria do conhecimento como teoria da sociedade e da evolugdo e a teoria
dialética da sociedade como re-introducao dos fundamentos
epistemoldgicos do materialismo historico. A relacao entre a Filosofia e a
Ciéncia se reconstrdi “critica e reflexivamente’ na epistemologia dialética,
entendida esta, como o estudo sistematico que encontra na Filosofia
Materialista seus principios e na produgio cientifica seu objeto. Nesse
sentido, “A Filosofia preserva-se na ciéncia enquanto critica” (HABERMAS,
(982. p.77). Na reflexao critica sobre o conhecimento cientifico, a dialética
materialista, como “Ldgica e Teoria do Conhecimento” (KOPNIN, 1978),
apresenta uma perspectiva de unidade na anilise da ciéncia em seus aspectos
internos (ldgicos, gnosiolégicos e metodolégicos) e externos (histérico
sociais). Nesse sentido a dialética materialista desenvolve a idéia da unidade
entre Epistemologia e a Teoria do Conhecimento nas condigées materiais
2 histéricas da produgiio do conhecimento.
Tendo como horizonte compreensivo essa tensao entre a ciéncia e
a filosofia, e tomando como objeto, a produgao cientifica no campo da
Educacao Fisica e como referéncia os pressupostos filoséficos sobre o
conhecimento (gnosiologia) e os critérios de validade cientifica, assim
como, as concep¢ées de método e teorias, elaboramos uma série de estudos
que hoje copilamos nesta publicagaéo, embora elaborados em diferentes
momentos e apresentados em diversas oportunidades da vida académica,
tém por unidade a problematica epistemolégica da Educagao Fisica.
O primeiro estudo foi publicado em 1994 por ocasido de um
numero especial sobre pesquisa em educacao fisica’. Os editores
argumentaram na oportunidade a necessidade de uma contribuigao vinda
de uma 4rea préxima, a pesquisa educacional, que também estava
submetida ao conflito dos paradigmas epistemoldgicos e era permeada
pelos vieses das tendéncias teérico-metodoldgicas e colocava em risco
os critérios de cientificidade que asseguravam os graus de qualidade da
pesquisa produzida nos cursos de pés-graduacio.
7 Escudo publicado como, SANCHEZ GAMBOA, S. Pesquisa em Educacdo Fisica: as incer-relacdes
necessarias, In: Motrivivincia. Florianépolis, ano 5. 0.5.6.7, dez., 1994, p. 34-46.18 Silvio Sanchez Gamboa
O segundo estudo também se localiza no numero tematico sobre
teoria e pratica da revista Mocrivivéncia’. Na perspectiva das filosofias
do conflito, a relagdo entre teoria e pratica nao é entendida como situagdes
separadas, ou duas caras de uma mesma moeda, como disjuntivas ou
facetas separadas, a pratica é uma, a teoria é outra. Tal perspectiva do
distanciamento, leva a pretensao da aproximagao, gerando o ajuste ou
equilibrio entre a teoria, o projeto ou plano e a pritica, a realizagdo ou
sua execugao. Na perspectiva do conflito, teoria e pratica se encontram
numa unidade de contrarios, em vez de ajuste entre elas, suscita-se uma
permanente tenso que gera transformacées permanentes do pensar e
do fazer. Quando essas concepgées se referem as teorias pedagdgicas e as
pedagogias do movimento e suas relagdes com as praticas educacionais
revelam os conflitos entre as diversas concepsées de educagao fisica ea
cémoda situagao de “ciéncias aplicadas” fica insustentivel. A construgao
de novas perspectivas para a Educagéo Fisica exige repensar a sua
condigéo de ciéncia aplicada, dependente de saberes cientificos ja
constituidos e se definir como um campo de conflitos em que a agio, a
pratica e o movimento sao pontos de partida ede chegada de um circuito
em permanente transformacao.
O terceiro e quarto estudos foram elaborados na tentativa de
contribuir com o debate dos pressupostos filoséficos e epistemoldgicos da
producao cientifica no contexto da historia da Educacao Fisica. Por ocasiéo
do I Encontro de Historia da Educagao Fisica e do Esporte, realizado na
Unicamp, em 1994 apresentei como texto de um dos debates sobre as
tendéncias das escolas da historiografia nas ciéncias humanas, a polissemia
que o conceito tempo ganha quando por conta de ser ou no considerado,
ou ser concebido como um dado a mais, como duragéo de um evento,
como caracteristica essencial ou atributo dos fenémenos diferencia as
diversas escolas histéricas e as diferentes concepcées de realidade. No V
Encontro de Historia do Esporte, Lazer e Educac&o Fisica apresentei um
balango das tendéncias da historiografia da area tomando como amostra,
as pesquisas apresentadas nos eventos anteriores. O estudo posteriormente
* SANCHEZ GAMBOA, 5. (1995), Teoria e Pratica' Uma relagao dindmica e conwraditoria. InMowivivénda ,
Floriandpolis, ano 6.1.8, dez. 1995, p. 8-20.EPISTEMOLOGIA DA EDUCACAO FISICA: 19
as inter-relages necessarias
foi atualizado e re-escrito, incluindo a produgao desse V Encontro para
ser apresentado no VI Congreso de Educacdo Fisica e ciéncias do deporte
dos paises de lingua portuguesa e VII Congreso Galego de Educacién Fisica,
La Coruiia, Espanha, em julho de 1998 e publicado na Revista Episteme da
Universidade Bandeirante de Sao Paulo’.
O quinto trabalho foi apresentado nos encontros comemorativos
dos 25 anos da Faculdade de Educagao Fisica da Universidade Estadual
de Londrina’®. O debate sobre as alternativas da pesquisa em Educagao
Fisica leva aum falso dualismo entre técnicas quantitativas e qualitativas
que escondem um falso dualismo epistemoldgico entre as correntes
fundadas nas concepgées empirico-analiticas a as tendéncias subjetivistas,
de cunho fenomenolégico. Tal dualismo légico exclui outras tendéncias
(terceiras excluidas) e reduz as alternativas da pesquisa apenas a seus
aspectos técnicos e instrumentais, silenciando a problematica complexa
das teorias do conhecimento e das visées de mundo (ontologias) implicitas
nas diversas formas ou concep¢des de fazer ciéncia.
Osexto estudo resultou da andlise sobre as condigées da produgio
da pesquisa em Educago Fisica, inserida no contexto dos programas de
pos-graduacao e submetidas a estruturas curriculares, prazos e protocolos
denominados areas de concentragao. A superagao dessas condigées exige
a acumulagao de uma massa critica sobre os limites da segmentagao e
divisao dos saberes em disciplinas e estruturas curriculares e a busca de
novas condigoes da produgao do conhecimento, pautadas pela
interdisciplinaridade e a centralidade nos problemas e nado mais nas
disciplinas e areas de conhecimento. Tal problematica sobre as mudangas
de eixo desdobra-se em controvérsias sobre os limites da ciéncia analitica
eas possibilidades das perspectivas das abordagens compreensivas e dos
paradigmas da complexidade'.
> Publicado sob o titulo: Historiografia, Esporte, Cultura e Sociedade: os encontros brasileiros de
Historia do esporte, Lazer e Educacio Fisica (1993-1997). In: Episteme, Sio Paulo, v. 2, n. 2, jul/
dez, 1997. pp. 67-86.
"© Publicado no Ciclo de Palestras: Educagao Fisica — UEL 25 anos, p. 49-64, 1999, sob o titulo de
“Pesquisa em Educacio Fisica: a questo da quantidade e da qualidade” e atvalizado para esta
publicacao.
"Esse estudo foi apresentado como conferéncia no Simpésio Internacional sobre formacio de
Professores e Intercimbio Cientifico & Tecnologico na area da Educacio Fisica/Ciéncias do Esporte,
realizado pela LEPELUFBA/UFAL,em outubro de 2002.20 Silvio Sancher Gamboa
O sétimo estudo se refere aos resultados de uma analise da
producdo cientffica em Educagao Fisica no nordeste do Brasil’. Na
ocasiao tive a oportunidade de orientar a experiéncia de uma pesquisa
matricial que gerou diversos estudos e focos de aprofundamento, dentre
eles, as andlises realizadas pela professora Marcia Chaves que apresentou
como tese de pés-doutorado na Universidade Federal da Bahia (UFBA),
eos estudos de dissertacdo de mestrado de Joelma Albuquerque na mesma
universidade e cinco pesquisas mais em nivel de Iniciagao Cientifica e
defendidos como Trabalhos de Concluséo de Cursos na Universidade
Federal de Alagoas (UFAL) e ainda, trés trabalhos defendidos como
monografias de cursos de especializagao na UFBA. O significado desse
trabalho coletivo anuncia o potencial da pesquisa em redes de
intercambio e a heuristica das linhas de pesquisa, anunciada no capitulo
sexto e desenvolvida no estudo sobre a produgdo no nordeste. Os
resultados apontam tendéncias diferentes as encontradas em estudos de
abrangéncia nacional sobre a produgao dos programas de pés-graduagao
e denuncia as desigualdades regionais, a concentragao de recursos e de
condig6es em outras regides da federacio e a falta de politicas que
superem essas desigualdades. Apesar dessas dificuldades, é significativa
e relevante a producao de pesquisa em Educacao Fisica, mesmo sem
existir nenhum programa de pés-graduagao strictu senso nos Estados do
nordeste. O estudo indica o potencial que a regido tem de consolidar os
grupos de pesquisa e desenvolver as redes de intercambio em nivel local,
regional, nacional e internacional, assim como gerar experiéncias
inovadoras de articulacdo da pesquisa com as atividades de extensdo e
ensino, realizando, na pratica uma nova concepcao de universidade de
articulacdo da teoria e a pratica em torno dos problemas significativos
que centralizam os esfor¢os cientificos e académicos, além de propiciar
uma formagao profissional diferenciada que ultrapassa os limitantes das
demandas do mercado do trabalho e consegue graus expressivos de
formagao politica dos pesquisadores visando atender as demandas de
um projeto histérico da transformagao da sociedade brasileira. Essa
perspectiva vem alterando as tendéncias epistemologicas da pesquisa
desenvolvida na regiao, priorizando abordagens histérico-compreensivas
Trabalho apresentado no X Congresso de Ciéncias do Desporto e de Educacao Fisica dos Paises
de Lingua Portuguesa, Universidade do Porto ~ Portugal, 2004EPISTEMOLOGIA DA EDUCACAO FISICA: 21
as inter-relagées necessdrias
e considerando a praxis pedagdgica e polftica como critério de
cientificidade e de confiabilidade do conhecimento elaborado, nas
condigoes restritas de uma regiao discriminada na alocagao de recurso
para a pesquisa.
Espera-se que esta recuperacao de estudos sobre a problematica
epistemolégica da Educacao Fisica contribua para o desenvolvimento da
pesquisa na area, na medida em que convide para a afirmacao da“ vigilancia
epistemoldgica’ sobre a pratica cientifica e incentive a polémica necessaria
ao desenvolvimento da massa critica que poderd potencializar mudangas
na qualidade da produgao de conhecimentos na area. Dado os desafios
comuns eos pontos de referéncia do desenvolvimento histérico da pesquisa
educacional, a recuperagao das inter-relacOes entre a pesquisaem Educagao
Fisica e outras areas do conhecimento, somente poderd enriquecer as
controvérsias necessarias para a geracao de conhecimentos que atendam
aos desafios histdricos da sociedade brasileira.1
PESQUISA EM EDUCAGAO FISICA:
as inter-relagdes necessarias
A Educacao Fisica e outros campos do conhecimento, como a
Pedagogia, a Educacao Artistica, a Politica, a Etica, etc. encontram-se num
patamar de desenvolvimento préximo & definicio de seus campos
epistemolégicos no quadro geral das ciéncias. Todas as ciéncias hoje
reconhecidas pelos estatutos da Academia tiveram seu desenvolvimento
préprio no contexto das formagées e transformagées da sociedade na qual
tém significado e da qual obtém os insumos necessdrios para seu crescimento
e sua independéncia em relagdo a outros campos do conhecimento,
particularmente da Filosofia, e das denominadas “disciplinas mies”.
Dificilmentea historia se repete, segundo o hipotético processo de gestagao,
maturidade e independéncia. A histéria das ciéncias de cada uma das areas,
hojecom estatuto epistemoldgico proprio, nao obedeceu ao artificio analitico
de dividir as areas em sub-dreas, nem essas sub-dreas, uma vez consolidadas,
adquiriram independéncia, ganhando o reconhecimento da comunidade
cientifica, numa cerim6nia formal na qual teria sido entregue o diploma de
maturidade epistemoldgica a cada ciéncia nova, o que lhe teria permitido
abrir um espaco no controvertido e interesseiro campo da academia.
Essas ciéncias hoje “constitu{das”, sem diivida, conseguiram esse
patamar de reconhecimento no contexto das necessidades e prioridades que
odesenvolvimento das sociedades requer. As condigées materiais histéricas
que propiciaram sua gestagao, crescimento e independéncia nao se repetem,
so inicas, Daf a dificuldade de pensar que algumas 4reas do conhecimento,
que hoje se consolidam como campos epistemoldgicos, precisam repetir 0
mesmo percurso que outras areas percorreram para solucionar os conflitos24 Silvio Sanchez Gamboa
de identidade epistemoldgica e conseguir a definigo de seu estatuto
epistemologico. De igual maneira, ¢ dificil admitir que essas ciéncias tenham
se emancipado e desenvolvido sem a pesquisa, sem o aprimoramento dos
processos de produgao dos conhecimentos esem a sistematizacao permanente
e criteriosa de seus resultados. Sem pesquisa cientifica nao existe ciéncia,
Obvio, e sem a reflexdo critica e a vigilancia epistemoldgica sobre seus
procedimentos e resultados é dificil sua evolugao e sua sobrevivéncia como
campo na estreiteza da Academia"*.
A Educagao Fisica, assim como outras areas que se encontram numa
fase de definigao epistemological progridem na medida em que clareiam
seus campos nos intersticios do tecido atual dos saberes e na correlacao de
forgas da conjuntura do desenvolvimento do mundo das ciéncias, mas, isso
nao é possivel sem a pesquisa cientifica, a acao privilegiada nesse campo, e
sem 0 exercicio costumeiro da critica rigorosa dos procedimentos e dos
resultados que, na linguagem particular do mundo das ciéncias, é relacionado
a Epistemologia’'. Nesse sentido, esclarecer 0 campo de forgas onde se
consolidam as novas areas, compreender as pesquisas nelas desenvolvidas
exige de forma mais intensa essa reflexao critica, que tem como uma de suas
fontes a Epistemologia. As possiveis articulagdes no campo de forcas em que
se encontram as novas areas de conhecimento e as condigdes especificas, e
bem como as orientagGes das pesquisas que vém sendo desenvolvidas e que
impulsionarao seu crescimento sugerem abordar a problematica da pesquisa
especifica em Educacao Fisica nas inter-relagGes que o referido campo de
forcas exige.
Assim, esta modesta contribuigéo apresenta em primeiro lugar
algumas apreciagGes sobre a questao da identidade epistemoldgica da area,
para, logo, tecer algumas consideragées sobre as condicées e as orientagSes
da pesquisa em Educacao Fisica e, finalmente, a modo de conclusées,
colocam-se algumas sugestes visando alargar os horizontes da discussdo
°” Bachelard em Le RacionalismeAplique, utiliza 0 conceito de" Vigilindia Episcemologica "para identificar
a postura que todo cientista deve ter fase na rotina do trabalho cientfico. Essa vigilancia tem trés
graus: a atengao ao inesperado, a vigilincia a aplicacao do método e a vigilancia sobre o proprio
método,
'* A Epistemologia, conhecida também como Teoria ou Filosofia da Ciéncia, situa-se na inter-relacao
antre a ciéncia e a flosofia. Seu objeto é a producio cientifica nos varios campos do saber e toma,
como referencial analitico,algumas categoria filos6ficas, relacionadas com as Teorias do Conhecimento,
a Oncologia e a EticaEPISTEMOLOGIA DA EDUCACAO FISICA: 25
as inter-relagbes necessirias
sobre a problematica da produgo do conhecimento nesse novo campo
epistemoldgico que se consolida.
1. Os novos campos epistemoldgicos
Na recente preocupagio com a definigdo dos pressupostos
epistemolégicos com que opera a drea da Educagao Fisica/Cigncias do Esporte
(BRACHT, 1992, p. 111), algumas questGes basicas podem ser explicitadas:
primeiramente, as relacionadas com as flutua¢6es do predominio das varias
sub-areas, ora das disciplinas fundadas nas ciéncias naturais, ora nas ciéncias
sociais e humanas, que orientaram o recente crescimento da pesquisa, ou do
predominio ideoldgico que sobrepée o politico ao académico; em segundo
lugar, as relativas a classificacdo das ciéncias ea localizagéo nesse quadro dos
novos campos epistemoldgicos; e em terceiro lugar, as questdes sobre a
natureza da Educacao Fisica.
1.1. A flutuagao epistemolégica
Oolhar sobre a produgao recente do conhecimento na area, no Brasil,
tem identificado, segundo Bracht (1992), a flutuacao do predominio das sub-
areas das ciéncias naturais (Fisiologia, Antropometria, Medicina Esportiva), a
partir de 1980 e das sub-areas das ciéncias humanas e sociais (Pedagogia.
Sociologia, Antropologia, Filosofia) e nos anos 90, o surgimento do interesse
pelas matrizes tedricas e as concepydes de ciéncia que orientam a produce do
conhecimento na Area. Ora, essa preocupaco pelo diagnéstico do predominio
de uma ou outra disciplina, oriunda seja das ciéncias naturais, seja das ciéncias
humanas ou sociais, e mais o interesse pelas matrizes tedricas indicam uma fase
salutar da pesquisa, quesignifica o avango na passagem das questées instrumentais,
técnicas e metodolégicas para as tedricas e epistemolégicas.
Pesquisar a problematica em Educagao Fisica nao consiste apenas
em utilizar instrumentos, realizar procedimentos, aplicar algumas teorias e
método ja desenvolvidos em outras areas, especialmente nas denominadas
“disciplinas maes” (Fisiologia, Biomecanica, Psicologia, Sociologia, etc).
Pesquisar implica a elaboracao de referenciais tedricos especificos e do
delineamento de op¢des epistemoldgicas condizentes com a natureza da
rea. Isto é, pesquisar nao consiste em tomar emprestadas técnicas, métodos
teorias para descrever ou explicar os problemas vinculados ao campo da26 Silvio SAncher Gamboa
Educacao Fisica. Parece ser necessario definir pontos de partidae de chegada
dos processos do conhecimento, de caminhos, das articulagdes entre
processos e horizontes compreensivos, que fogem das receitas cientificas e
de paradigmas prontos e consolidados em outras areas, por serem campos
epistemoldgicos novos. Dai porque adquirem destacada importancia as
questGes sobre a identidade epistemoldgica da area, a busca da especificidade
do objeto, a redefinicdo de conceitos e a criagio de novas denominacdes
para identificar novas abordagens, ou mesmo, propor uma nova ciéncia
(SERGIO, 1989; SANTIN, 1987).
A preocupagao com as questées tedricas e epistemoldgicas expressa
a busca de uma nova forma de fazer pesquisa, ultrapassando a fase de “ciéncia
aplicada” caracterizada pela apropriagdo simples de métodos e referéncias
desenvolvidas em outras 4reas e pelo “tomar emprestado”, como vem
acontecendo quando se consolidam novas areas de conhecimento, como,
por exemplo, a Sociologia, a Psicologia, que tomaram emprestado da Fisica,
da Biologia eda Matematica seus métodos e mesmo sua linguagem. Hoje 60
caso da|Pedagogia, que, por falta ainda de um estatuto prdprio, recebe o
socorro da Psicologia, da Sociologia, da Economia, etc.
Asemelhanca de outras 4reas, a Educaciio Fisica sofre as flutuacdes
do denominado “colonialismo epistemolégico” das ciéncias maes. A Educagao
Fisica torna-se um campo colonizado onde sao aplicados os métodos e as
teorias dessas ciéncias-m4e, denominando-se, por exemplo, Psicologia da
Aprendizagem Motora, Sociologia do esporte, Fisiologia do esforco etc.
Essas flutuagoes, tal como afirma Orlandi (1983), se referindo a relagao
do saber pedagogico com as ciéncias que lhe prestam socorro, como a Psicologia,
a Sociologia ea Economia, significam “a adesdo pré-critica do saber pedagdgico
aestruturas conceituais limitadas pelos interesses das varias teorizagGes epréticas
Aumanas centradas em seus objetos especificos” (p. 24).
Essas flutuagdes expressam 0 circuito simples do saber. O ponto de
partida e 0 ponto de chegada sao as teorias socioldgicas, psicoldgicas,
fisioldgicas e nao a Educagao Fisica, que funciona como campo de passagem.
Isto , o ponto de partida esta nos referenciais tedricos ja constituidos
das varias ciéncias, que sao aplicados aos fendmenos da Educacao Fisica, na
tentativa de explicd-los e retornam a matriz disciplinar confirmando suas
hipdteses. Estabelece-se assim um circuito em que os fendmenos da Educa¢aoEPISTEMOLOGIA DA EDUCACAQ FISICA: 27
as inter-relagdes necossarias
Fisica so pontos de passagens das elaboragGes cientificas, caracterizando
um processo de “co/onialismo epistemoldgico’ sobre um campo aberto a
diversas apropriacoes.
A superacao da fase de “ciéncias aplicadas” e conseqiientemente das
flutuagGes e do colonialismo epistemoldgico poderd acontecer coma reversao
do circuito do conhecimento. Nesse caso, toma-se como ponto de partida e
de chegada, a Educagao Fisica e, como instrumental explicativo ou
compreensivo, as tedricas oriundas das diversas disciplinas.
Isso implica a articulagéo de um campo interdisciplinar que tem
como eixo, a natureza e a especificidade da Educagao Fisica que articula a
contribuigao das varias teorias cientifica, e elabora explicagdes e
compreensdes mais ricas e complexas na medida em que tece, em torno de
fenémenos concretos, interpretagdes tencionadas por um eixo central, seja
este, a motricidade humana, as acdes e reacdes da corporeidade, a conduta
motora, ou acultura corporal. Tais assergdes remetem-nos a outras questGes
relacionadas com a especificidade dos novos campos epistemolégicos ecom
anatureza da Educaco Fisica.
Essa problematica é discutida a partir de diversos enfoques.
Destacamos aquele que considera a motricidade humana, o movimento do
corpo humano, a educagao motora a comunicagao corporal ocomportamento
motor “o homem movendo-se, no tempo e no espago”, (SERGIO 1980, p.
154), em sintese, o movimento, a pratica e a agao do corpo humano
(motricidade) como eixo da sistematizacao cientifica. Nessa perspectiva, 0
circuito do conhecimento parte do fendmeno da motricidade, do movimento
do corpo humano, da pratica esportiva, da danga, do jogo, da ago recreativa,
das atividades de lazer, das condutas motoras, das forcas, das ages e reacdes,
das tensdes do corpo humans, ete... E as teorias cientificas oriundas da
Psicologia, Fisiologia, Sociologia, Biomecanica contribuiraéo com suas
hipdtese, teses e abstra¢Ges na explicagdo e compreensdo desses fendmenos.
Dessa forma, as diversas disciplinas sio convidadas a oferecer seus ricos
elementos explicativos para a elaboragéo de um conhecimento da
motricidade, das aces e reacdes, dos movimentos da corporeidade humana,
etc. O circuito continua na volta aos fendmenos, explicando-os,
compreendendo-os e ponderando critérios para a sua modificagao, alteragao,
aprimoramento, ou transformagio. Cria-se um movimento cognitivo dos
fenémenos para os fenédmenos. Uma volta rica em explicagées e28 Silvio Sanchez Gamboa
compreens6es que tencionam a agao transformadora, e articula estreitamente
a pratica-teoria-pratica.
Na virada que os novas campos epistemoldgicos da Educacao Fisica
estdo realizando, o circuito se reverte, o ponto de partida vem sendo os
fenémenos da Educacao Fisica, na forma concreta da aco e da pratica, do
movimento, da motricidade humana e da cultura corporal.
O circuito passa pelas teorias, as sistematizagdes, as abstracdes,
voltando suas contribuig6es para a explicagéo e compreensio das acdes €
praticas dos movimentos préprios dos fenémenos da Educagio Fisica.
‘Nessa linha de raciocinio, a Educagao Fisica, assim como outros novos
praxis, respeitando suas especificidades, desafiam as atuais classificagdes das
ciéncias, divididas em basicas e aplicadas, naturais e humanas. Desse modo,
a Educacao Fisica ou as Ciéncias do Esporte podem ser consideradas fora da
classificacao tradicional (ciéncias basicas ou aplicadas; naturais ou humanas)
ja_que nao é facil sustentd-las como ciéncias bdsicas, e, pelas razdes, do
"colonial = > — =
manté-las como ciéncias aplicadas. De igual maneira, por tratarem de
fenémenos que sao fisicos e humanos ao mesmo tempo nao pederiam, esses
novos campos epistemoldgicos serem enquadrados apenas nas ciéncias fisicas
ou nas ciéncias humanas, ou flutuar, passando do predominio de uma para
aoutra. Precisamente apontamos as flutuagdes como um dos indicadores de
sua indefinigao epistemoldgica. Daf a necessidade de procurar uma nova
categoria classificatéria para localizar nela as especificidades desses novos
campos epistemolégicos.
1.2. Os novos campos epistemoldgicos
Tentando respostas para essas questdes, e considerando que esses
Novos campos epistemoldgicos tém a acaoe a pratica como ponto de partida
e de chegada da produgao de conhecimentos, e utilizam registros,
sistematizacées, elaboragdes explicativas e compreensivas, seus estatutos
cientificos se definem melhor sendo entendidos como ciéncias praticas ou
da ag&o. Dessa forma, a Educago Fisica, ou as Ciéncias do Esporte perfilam-
se como ciéncias com especificidades e objetos proprios, tais como: a
motricidade humana, as agGes € reagdes, os movimentos do corpo humano,
as praticas desportivas, as condutas motoras, a cultura corporal, etc.EPISTEMOLOGIA DA EDUCACAO FISICA: 29
as inter-relagdes necessdrias
Nesse caso, como em outros em que a pratica e a a¢do sao o alvo da
elaboracao cientifica, é possivel, segundo Schmied-Kowarzik (1988), a
superagao da tradicional divisdo das ciéncias entre basicas e aplicadas, criando-
se uma nova categoria para as novas ciéncias tais como a Pedagogia, a Politica
ea Etica’®, Na sua especificidade, a[Pedagogia] por exemplo, como teoria da
educacao pretende nao apenas compreender a pratica educativa, mas se voltar
sobre essa pratica, sinalizando sua transformacao. E uma ciéncia da e para a
aco educativa, e como tal, busca sistematizar a reflexdo critica dos processos
educativos. Nesse sentido, reclama para si o estatuto de ciéncia, portanto, um
espaco privilegiado entre as Ciéncias da Educacéo.
De igual maneira, a Educagao Fisica na transigdo da pré-ciéncia (cf.
SERGIO, 1993, p.101) paraa ciéncia (Ciéncia da Motricidade Humana), por
definir como ponto de partida e de chegada, fendmenos fundamentalmente
caracterizados pela agao, a pratica, o movimento, a motricidade, inserem-se
também nesse tipo de ciéncias da pratica e da acaéo com as implicagées
epistemoldgicas e filosdficas e os desafios que a constituigdo desses novos
campos apresentam no quadro atual do desenvolvimento cientifico. Esses
desafios vam sendo assumidos como provam as publicagGes recentes sobre
essa problematica e que significa“... antes de tudo, a garantia de uma drea de
atuacao dos profissionais em motricidade humana’ (SERGIO, 1993, p. 101).
1.3. A natureza da Educacao Fisica
A definigao da Educacao Fisica como uma das ciéncias da pratica e
da agao nao se fundamenta apenas por ter como ponto de partida e de chegada
amotricidade, o movimento humano, a corporeidade, ou a cultura corporal,
mastambém pela natureza da propria Educacio Fisica. Se partirmos do termo
basico da Educacao. podemos argumentar com Saviani, quando define a
natureza da educacao como trabalho nao material, na medida em que 0
produto nao se separa do ato de produzir e quando “o ato de produzir eo ato
de consumo se imbricam (SAVIANI, 1991, p.20) e, se levarmos em conta
que a educacdo como um fenémeno humano passa pela compreensao da
'S Ciéncias que tém como objeto 0s atos, 0 ato pedagdgico, 0 ato politica © ato moral. Nessa nova
divisdo das ciéncias.a Pedagogia.a Politica ea Etica se aproximam.na medida em que os atos pedagogicos
também sio atos politicos e atos morais e, em conseqiééncia, os atos politicos, so também atos
morais © pedag6gicos,etc.30 Silvio Sanchez Gamboa
natureza humana, a especificidade da educacdo, de todo e qualquer tipo de
educagao esta vinculada a esse tipo de trabalho nao material que produz no
homem asua natureza humana, a partir da natureza biofisica, que constitui
algocomo uma segunda natureza. Trabalho necessdrio & constituigdo humana
do homem, natureza humana que nao estd pronta na natureza biofisica.
Portanto, o que nao é garantido pela natureza tem que
ser produzido historicamente pelo homem; e af se incluem
os préprios homens. Podemos, pois dizer que a natureza
humana nao é dada ao homem, mas ¢ por ele produzida
sobre a base da natureza biofisica. Conseqientemente, 0
trabalho educativo é 0 ato de produzir, direta e
intencionalmente, em cada individuo singular, a
humanidade que é produzida histérica e coletivamente
pelo conjunto dos homens (Saviani, 1991, p. 21).
Anatureza da Educagao Fisica, como um tipo especifico de educagao,
éum trabalho néo material cujo produto se da no mesmo processo da atividade,
do exercicio, do fazer, da realizagao da motricidade, nos atos de correr, jogar,
nadar, dangar, competir, brincar, etc. Atividades e processos que desenvolvendo
a natureza biofisica do homem, também desenvolvem fundamentalmente
sua natureza humana. Atos e processos complexos em que é impossivel separar
as “duas naturezas” porque se imbricam mutuamente, constituindo uma
unidade concreta na aco humana direta e intencional dos homens (trabalho)
que transforma a natureza biofisica em natureza humana.
A Educagao Fisica, diferentemente de outros tipos de educacao, situa-
se na fase mais prdxima dessa imbricacao, dessa articulagao basica das “duas
naturezas”, inseparaveis e dinamicas constitutivas do fendmeno humano"’. A
Educagao Fisica constitui-se no /écusprivilegiado de todo processo educativo,
por abordar as situa¢Ges basilares, onde se constitui ese desenvolve o humano,
a partir das condi¢ées naturais e sociais imbricadas entre si. Condigdes basicas
que potencializam a produgao social da existéncia dos homens.
2. Pesquisa e interdisciplinaridade
Asanteriores consideragGes sobre a questao epistemologica da Educagao
Fisica nos levam a pensar em alguns desdobramentos para a pesquisa na area. A
pesquisa nessa disciplina encontra-se no mesmo patamar de desenvolvimento
de outras areas préximas, como a pesquisa em Ciéncias da Educacao e dai a
'S Naturezas apenas separaveis pelos artificios das teorias reducionistas ou na divisio artificial dos,
abjetos cientificos, uns localizados no Ambito das ciéncias naturais e outros nas ciéncias humanas,EPISTEMOLOGIA DA EDUCAGAO FISICA 31
as inter-relagdes necessarias,
importincia de um olhar mtituo entre esses campos epistemoldgicos como
sugerem, Bracht (1994), Taffarel (1993) e Faria Junior (1991).
Aconstrucao do conhecimento através da sua forma mais qualificada,
a pesquisa cientffica, estara atrelada 4 questao fundamental da Educacao
Fisica, qual seja a produgao da natureza humana. A natureza humana é
constitufda como uma segunda natureza com base num arcabougo biofisico
natural a partir do qual se projeta em forma intensa rica e imprevisivel a
humanidade através de outras formas de educagao (cf. SAVIANI, 1991, p.
15-30). Nesse sentido, a pesquisa e a producao do conhecimento na area se
afirmam em algumas categorias basilares. Uma delas¢é aconcepgao de homem
que se torna uma categoria-chave na definigao dos modelos de pesquisas,
ou como definimos em anteriores trabalhos, das abordagens tedrico-
metodolégicas da pesquisa (SANCHEZ GAMBOA, 1987, 1989 e 2002). As
diferentes abordagens, além de se diferenciarem pelas formas diversas de
conceber e articular os elementos constitutivos da pesquisa tais como as
técnicas, os métodos, as teorias, os critérios de cientificidade, no campo da
educagao, e particularmente de Educacao Fisica, se diferenciam pelas
concepgdes de homem, corpo e corporeidade que estao em jogo.
A Educagio Fisica encontra seu fundamento basico no
antropologico, mas esse antropolgico nao ¢ fornecido pelas teorias
antropoldgicas, nem pelas teorias sociol6gicas, nem pelas teorias
psicol6gicas, mas pelo proprio homem, ou mais precisamente,
pelo HUMANO. E chumano que sustenta ealicerga a Educagao
Fisica. Eno homem diretamente que a Educagio Fisica encontra
sua razdo de ser (SANTIN, 1987, p.25).
Nao podemos pensar numa pesquisa em Educagao Fisica que nao
tenha como uma das categorias basilares as concepcdes de homem que
delineiam o horizonte interpretativo das elaboragées e sistematizagdes dos
objetos-alvo de suas andlises. Dada a natureza dos fendmenos estudados,
tais como, a motricidade humana, a corporeidade, a conduta motora e a
cultura corporal, a dimensdo humana esté presente e se exprime necessaria
em concepgées de homem. As concep¢ées de homem sao categorias ou
pressupostos de carter ontoldgico, com abrangéncia ampla e geral, das quais
se desdobram outros conceitos que constituem o horizonte interpretativo
da pesquisa (cf. SANCHEZ GAMBOA, 1994). Nas pesquisas dedicadas &
problematica da educagao, as concepgdes de homem sao referéncias32 Silvie S4nehez Gamboa
necessarias para explicitar, tanto as concepgdes de educagéo, como para
caracterizar as principais abordagens da pesquisa, como podemos constatar
nas consideragées a seguir.
Silva (1990), analisando as pesquisas produzidas nos cursos de Pés-
Graduagao em Educacao Fisica, identifica essas diferengas, a partir da
concepgao predominante, diferengas essas vinculadas aos paradigmas
empirico-analiticos. A partir da concepgio de homem, entendido como
“mdquina controlada por cadeias lineares de causa e efeito” (visio oriunda
do cartesianismo que fundamenta esse tipo de abordagem cientffica)
desdobram-se as concepgdes de Educago Fisica, apresentadas nessas
pesquisas. O homem é tomado como individuo isolado “ser bio/égico que
possui caracteres que podem variar de acordo com o sexo, idade ou raga ...
portador de habilidades, tais como forca, velocidade, resisténcia, flexibilidade
e outras...” (p.171). Na seqiiéncia légica, a Educagio Fisica é reduzida aos
“efeitos andtomo-fisioldgicos que a atividade fisica provoca nos individuos...
Tal concepeao de Educagio Fisica de base biologicista funda-se em critérios
antropométricos e fisioldgicos e aponta para a necessidade da classificagao
dos individuos segundo esses critérios’ (p.102). A Educacao Fisica é
“entendida ainda como meto de educagéo, como parte integrante do sistema
educativo brasileiro e como elemento de integragéo social que tem como
responsabilidade o desenvolvimento harménico, global e equilibrado do
individuo.... do trabalhador do futuro, ou do homem de amanha” (p.189).
Desdobram-se também concepgées de Esportes associadas ao alto
rendimento, a primazia da técnica e da andlise biomecinica do movimento,
4 manutengdo ou melhoria da satide, através da melhoria da aptidao fisica.
O movimento ¢ entendido como “resultante de fenémenos fisicos ou
fisiolgicos ao resultado de contragées e descontrages, ou do deslocamento
do corpo ou de seus segmentos no espago” (p.192).
Outras tendéncias como a fenomenologia, ainda nao encontrada na
amostra analisada por Silva, mas que ja tem uma trajetéria recente na
producao de pesquisa na area apresenta outras concep¢ées de homem. Santin,
propondo uma abordagem filosdfica da corporeidade (1990) assim expressa
essa concepca
Ohomem ¢ corporeidade, como tal, ¢ movimento, é gesto, &
axpressividade, é presenga (...) O homem 6 movimento, o
movimento que se torna gesto, o gesto que fala, que instauraaEPISTEMOLOGIA DA EDUCACAO FISICA: 33
35 inter-relacdes necessirias
presenga expressive, comunicativae criadora, aqui justamente,
nesse espago, esté a Educagao Fisica. (SANTIN, 1987, p. 26)
Ainda apontando paraa interdisciplinaridade necessaria nos estudos
sobre 0 corpo humano como instrumento de comunicagao e gerador de
sentidos, afirma “o tema do corpo esté vinculado a muitas 4reas do saber
Aumano. O corpo néo é objeto especifico de uma ciéncia” (SANTIN 1990,
p-47). Desdobra-se da definigao do homem como um ser que se move, 0
conceito de corporeidade ou movimento humano que nao pode ser reduzido
a deslocamentos fisicos a articulagdes motoras ou a gesticulagées. “Nao &
apenas o corpo que entra em ado pelo fenédmeno do movimento. Eo homem
todo que age, que se movimenta’ (p.77). Interessantes desdobramentos sobre
a harmonia, o Idico, o movimento humano como linguagem. como
expressdo e manifestagao, como unidade, superando, o dualismo matéria-
espirito, mente-corpo, presentes nas concep¢ées predominantes nas
abordagens empirico-analiticas.
Com o surgimento de novas abordagens de pesquisa, fundadas nas
visdes antropoldgicas, culturalistas ou filosdficas e com o predominio das
metodologias fenomenoldgico-hermenéuticas, a discussio em torno da
pesquisa em educagao tende a se polarizar entre modelos comportamentalistas
e modelos humanistas, entre o positivismo eo humanismo (cf. LABORINHA,
1991), entre a concepgiio segmentada e atomizada de homem e a visio
totalizante e holistica (GOBBI, 1991), entre a Educagao Fisica conservadora e
emancipaténia, ou transformadora (cf. MAZO E GOELLNER, 1993; MEDINA,
SOARES E TAFFAREL, 1993). Essa polarizagio pode levar a dualismos e
controvérsias, semelhantes & polémica paradigmas quantidade-qualidade que
marcaram a pesquisa, especialmente na Ultima década (cf. SANCHEZ
GAMBOA, 1994), Essas polarizagdes, embora oportunas, na quebra da
hegemonia dos paradigmas analiticos e positivistas, podem reduzir as
possibilidades da pesquisa a um falso dualismo, obedecendo a légica doterceiro
excluido, fechando 0 espago a outras (terceiras) opgdes.
Outra tendéncia que comega a ganhar espaco na Educacao Fisica,
apontada por Faria Junior (1991), Silva (1990), Taffarel (1983 e 1993) se refereas
abordagens critico-dialética que tem como matriz epistemolgica o Materialismo
Histérico ea Filosofia da Praxis. Nessas tendéncias, as concepgdes de homem se
aproximam da compreensao historica de sujeito social transformador da natureza34 Silvio Sanchez Gamboa
e da sua prépria natureza, ator, construtor de seu destino, tencionado pelos
interesses emancipatérios da luta por maiores niveis de vida e de liberdade e
procurando encontrar e produzir o que, na complexidade, lhe permite unidade
e realizacao. “O homem éum processo, precisamente o processo das seus atos”
(SERGIO, 1993, citando a Gramsci, p.82).
O homem como ser praxico, segundo o mesmo autor tem,
acesso a uma experiéncia englobante, agente e promotor de
cultura, projeto originario de todo o sentido, meméria do
mundo e ser axiotrépico (que persegue, apreende, cria e
realiza valores). Nao ¢ ao nivel do puramente animal, mas
do intrinsecamente cultural, que o homem conhece e se
conhece, transforma e se transforma (SERGIO, 1993. p. 83).
Os desdobramentos dessas concepgdes de homem levam a entende-lo
como ator, transformador, sujeito que constréi sua natureza humana pela
interagao coma natureza e com outros homens nas condigoes materiais histéricas,
em que essa constru¢ao esta limitada pelo reino da necessidade e pelos interesses
dominantes e o jogo do poder de cada sociedade. Dai porque pensar a Educagao
Fisica desse homem construido socialmente deve considerar essas condi¢Ges
materiais histéricas e a dinamica das sociedades nas quais esse homem se constitui
como humano. Nas sociedades divididas em classes, essas condi¢gdes sao
caracterizadas, por privilégios, marginalidade, exploracao, alienagao, violéncia,
lutas de classes, mecanismos de controle, domesticacao, submissao etc., condicSes
essas, que determinam formas de Educagao que na conjuntura de manter ou
superar essas condigées, reproduz oconflito que pretende, ou reproduzir 0 status
quo ou se engajar nos processos emancipatérios transformadores.
A partir desse referencial, a pesquisa dos processos educativos exige
uma compreensio da complexidade das condigdes sScio-histdricas concretas
nas quais se produz a educagao. Para tanto é necessaria uma articulagdo de
diversos saberes em torno do eixo da ago educativa. Nesse sentido, a pesquisa
se desenvolve, evitando a segmentacgdo dos saberes, através da
interdisciplinaridade, da capacidade de dialogar e articular com outras ciéncias
sem os preconceitos originados na divisdo das ciéncias naturais ou humanas e
buscando sinteses que ajudem a sistematizar os conhecimentos sobre 0
movimento humano, a motricidade humana ou a cultura corporal na sua
multiplicidade de expressdes. Movimento, motricidade ou cultura corporal queEPISTEMOLOGIA DA EDUCACAO FISICA: 35
as inter-relagdes necessarias
s6 tem sentido como formas de construir o humano no homem a partir da sua
natureza biofisica. Para compreender essa complexidade é preciso 0 concurso
de diversas disciplinas e, a partir dessa compreensao, potenciar formas de atuacao,
visando a construcgio do humano em cada homem, através da interagao social
entre os homens nas mais diversas situagGes em que a motricidade, o movimento
do corpo humane, ou a cultura corporal contribuem para essa construcéo e
desenvolvimento do humano, no esporte, na gindstica, no jogo, na danga, na
recreacao, na competicao, no clube, na academia, no time, na equipe, no
campeonato, na escola e na relacao pedagégica professor-aluno.
3. Alguns apontamentos, a modo de sugest6es para o debate
Na superacdo da fase de “ciéncias aplicadas” a Educacao Fisica como
novo campo epistemoldgico que tem como objeto de suas pesquisa os atos, as
aces, a motricidade humana, acultura corporal constitui-se como uma ciéncia
pratica, ciéncia da e paraa pratica da motricidade humana, ou da cultura corporal,
por exemplo, e, como tal, junto com outras novas ciéncias como a Pedagogia, a
Politica ea Ftica, formam um novo campo no atual desenvolvimento cientifico,
¢ num futuro préximo, um novo espago na organizacéo das universidades e
centros de formagao cientifica e profissional, e possivelmente formando
agrupamento de unidades diferentes ao atual modelo de Jnstitucos (referidos as
ciéncias basicas) e Facu/dades(referidas as ciéncias aplicadas) ”.
A proximidade da problematica abordada pela Educagao Fisicacom
as ciéncias da educacdo e fazendo jus ao termo genérico de Educagao, as
inter-relacées prioritarias apontam para o campo das ciéncias da Educacao.
Assim, asinter-relagdes da pesquisa em Educacio Fisica, referidas ao campo
epistemoldgico, podem ser desenvolvidas quando recuperamos os nexos,
com o campo que por definicdo é mais abrangente, isto é: a Educacao. De
forma semelhante aos conflitos de indefinicao epistemoldgica das ciéncias
da educagao, que tém como ponto de referéncia, a problematica da agao
educativa e a pratica pedagégica, a Educagao Fisica também de depara com
“a centralidade de seu olhar com a pratica e a acdo. Dai a possibilidade de
valiosos intercémbios no campo da pesquisa com a Pedagogia, a Didatica, ¢
as Praticas de Ensino.
" Tais unidades académicas poderio ser denominadas, por exempio, Centros das Ciéncias da Acio,
Centros de ciéncias da Pritica, Centro de Cultura Corporal, etc.36 Silvio Sénchez Gamboa
Tanto as ciéncias da Educagéo como a Educacao Fisica tem como
identidade o compromisso da formagao da natureza humana dos homens, a
partir da natureza biofisica, num continuum em que a Educagio Fisica tem
Prioridade nessa formago da natureza humana, por estar mais préxima das
articulagdes do biolégico e o humano nas suas inter-relagdes individuais e
sociais, compromisso complementado pelas outras formas de educa¢ao, objeto
de pesquisa de outras ciéncias préximas como a Pedagogia, a Etica ea Politica.
Uma vez aceita a especificidade da Educagio Fisica como um campo
epistemol6gico vinculado a praxis, a ago, a pratica, a motricidade humana
ou a cultura corporal, as abordagens da pesquisa na 4rea deverdo priorizar
como referéncias tedrico-metodoldgicas aquelas que por sua légica se
aproximam melhor dessas categorias. Tanto as tendéncias empirico-
analiticas, fenomenoldgico-hermenéuticas como as critico-dialéticas tém
referéncias, no pragmatismo, na fenomenologia da acao, ou na teoria da
praxis, categorias essas que contribuem no desenvolvimento donovocampo
epistemol6gico da motricidade humana ou da cultura corporal. Porém, as
especificidades de cada abordagem dificultam ou propiciam a compreensao
da dinamica e da riqueza da agao e da pratica na sua complexidade humana
esocial. Os instrumentais oferecidos pela hermenéutica ea dialética parecem
ser ricos em desdobramentos e apontam para uma heuristica mais promissora.
A dialética, particularmente, por ter como referéncia central 4 praxis, oua
articulag&o pratica-teoria-pratica oferece um referencial que articula
diretamente a compreensao da e paraa pratica transformadora da Educagao
Fisica, nesse sentido as abordagens dialéticas oferecem um potencial maior
de compreensao, uma vez que partem da unidade contraditéria entre teoria
e pratica, como veremos no capitulo a seguir.