Copytight © 1995 by The University of Chicago Press, Chicago
‘Tiulo do original em inglés:
How “Natives” Think: About Captain Cook, for Example
‘Dados Interacionais de Catalogagio na Publicagi (CIP)
(Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Sahlins, Marshall David, 1930
‘Como Pensam os “Nativos”: Sobre o Capito Cook, por exemplo / Marshall Sahlins;
ladugio Sandra Vasconcelos. ~ Sao Paulo: Editora da Universidade de Sd0 Paulo, 2001
= (Clissicos: 20)
Thulo original: How “Natives” Think,
Bibliograia
ISBN 85-314-0521-1
1. Cook, James, 1728-1779 2. Einologia—Havaf 3. Biologia ~ Polinésia 4. Havat
= Historia Até 1893—Historiografia 5. Mitologia havaiana 6. Obeyesekere, Gananath
‘The apotheosis of Captain Cook 1. Titulo, I, Série
99-2898 CDb.996.90072
co {Indices para catdlogo sistemstico:
1. Hava: Hist6ria :Investigagao histrica 1996,90072
Direitos em Lingua Portuguesa reservados &
Edusp ~ Eaitora da Universidade de Si Paulo
Ay, Prof. Luciano Gualberto, Travessa J, 374
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Printed in Brazil 2001
Foi feito 0 depésita legalINTRODUGAO
Ele era um homem de qualidades conflitantes, mas a pior delas levou a
melhor sobre ele. Civilizador famoso ¢ aterrorizador secreto, Prospero e Kurtz,
© capitio Cook cedeu cada vez mais espago ao seu lado mais escuro durante
sua terceira viagem de descoberta no Pacifico. E isso, argumenta 0 antropélo-
go Gananath Obeyesekere numa obra recente, finalmente levou Cook & sua
derrocada em maos havaianas, em fevereiro de 1779. Supondo que, como
natural de Sri Lanka, ele tem uma percepgio privilegiada quanto ao modo
como os havaianos pensavam, Obeyesekere pdde defendé-los contra os mitos
imperialistas que desde entao thes foram impostos. Ele afirma que, ha muito
tempo, os estudiosos ocidentais enganam-se a si mesmos e a outros com a
idéia de que os povos indigenas, enquanto vitimas do pensamento magico e de
suas proprias tradigdes, nada podiam fazer além de receber seus “descobrido-
res” europeus como deuses. Cook nao foi o inico; Cortés foi outro. A famosa
versio desse mito colonial referente a Cook afirma que os havaianos o perce-
beram como uma manifestagiio de seu deus Lono, e que os rituais nos quais ele
esteve entdo enredado tiveram um papel central em sua morte. O lado nefan-
do da “missio civilizadora” ocidental, esse desprezo pelo Outro, continua vivo
na teoria académica. E embora se pudesse pensar que, entre eles, Michael
Taussig, James Clifford e Francis Ford Coppola houvessem condenado morte
a metafora tipo coragio das trevas, Obeyesekere também faria agora um servi-
co a maneira de Kurtz em relagéio aos meus préprios textos sobre 0 capitio
IsCOMO PENSAM OS “NATIVOS
Cook. Segundo ele, esses textos acrescentam novas dimensées de arrogancis:
a0 mito europeu da irracionalidade do povo indigena.
Desse modo, nas paginas do livro de Obeyesekere, The Apotheosis of
Captain Cook: European Mythmaking in the Pacific (1992), sou visto como
alguém que compete favoravelmente com Cook pelo titulo de principal vilao.
Este panfleto é minha resposta a honraria. Inicialmente, admito, parecia desne-
cessario responder, levando-se em conta as provaveis conclusdes do leitor sério
quanto ao raciocinio antropolégico de Obeyesekere e sua ma utilizagao de
documentos histéricos (sem falar em suas invengdes acerca do meu trabalho
sobre 0 Havaf). Mais importante, quando Obeyesekere acabou de fazer conces-
sdes ad hoc aos dados histéricos sobre a divindade de Cook, nao restava quase
nada da tese de que foram os europeus, € nao os “nativos”, que o deificaram
A despeito de todas as suas afirmagées sobre como os havaianos eran
racionais demais para conceber Cook como um de seus prdprios deuses.
Obeyesekere reconhece que isso no os impediu de deificar 0 navegador bri
tanico depois de mata-lo. O povo da ilha do Havai, diz ele, fez entdo de Coo
um “verdadeiro deus” (akua maoli), no mesmo sentido e pelos mesmos rituais
com que tratavam os ancestrais reais. Além disso, ele diz que, durante os pri-
meiros dias de convivéncia com Cook, eles 0 empossaram como chefe havaia
no dos mais altos tabus. Possuidores de “sangue divino” (waiakua), esses che
fese“partilhavam da divindade”, Obeyesekere novamente reconhece: eri
“sagrados” e tinham “qualidades divinas” (Obeyesekere 1992:86, 93, 197)
De fato, sera facil demonstrar que, em palavra e ato, os havaianos receberan
Cook como um retorno de Lono. Contudo, ja se poderia perguntar 0 que acon:
teceu com a idéia de que a divindade de Cook foi uma invengio ocidental ¢ ni
uma concepgio nativa, porque os havaianos aferravam-se demais a realidade
empirica para desse modo iludirem-se a si proprios. Infelizmente, a julgar pel
maioria das reagées a The Apotheosis of Captain Cook, 0 que restou & una
politica retérica to atraente quanto seus argumentos académicos deficientes
Eu havia esquecido a adverténcia de Borges de que “ndo existe 0 homem que.
fora de sua propria especialidade, no seja crédulo”. Dai esta resposta.
Primeiro uma palavra sobre a historia da controvérsia. O modo como
Obeyesekere a narra tem 0 mesmo ar quixotesco que seu argumento de que «
divindade de Cook constitui um certo tanto de ideologia ocidental. Tudo come
1, aqui em diant
referéncias de pag
‘em citagdes entre parénteses, a abreviatura “Ob.” seguida por um nimero indica
a Obeyesekere 1992.
16INTRODUGHO
ou, diz ele, quando sua “ira” foi provocada por uma conferéncia que dei sobre
Cook em Princeton, em 1987:
5 leitores devem estar curiosos para saber como cu, um natural de Sri Lanka e um antro-
pologo que trabalha numa universidade norte-americana, interessei-me por Cook. Foi, de fato,
exatamente a partir dessas situagdes existenciais que meu interesse por Cook se desenvolveu &
floresceu. A apoteose de James Cook ¢ 0 tema do trabalho recente de Marshall Sahlins [...] Ele
emprega para demonstrar e desenvolver uma teoria estrutural da hist6ria, Sou simpatico 4 teo-
ria; foi o exemplo ilustrativo que provocou minha ira
Quando Sahlins expds sua tese em um dos Seminérios Gauss da Universidade de
Princeton, em 1987, fiquei completamente surpreso com sua afirmagiio de que, quando Cook
chegou a ilha do Havai, os natives acreditaram que ele era seu deus Lono ¢ o chamaram de Lono,
Por que isso? Naturalmente, minha mente retornou minha experiéneia como natural do Sri
Lanka e sul-asidtico, Nao consegui pensar em nenhum exemplo paralelo na longa historia de
contato entre estrangeiros e os naturais do Sri Lanka ou mesmo indianos [Ob. 8]
As conferéneias Gauss que proferi em Princeton em 1983 (e niio 1987)
nao diziam respeito & apoteose do capitiio Cook. Eram sobre a Guerra Polinésia,
de 1843-1845, entre os reinados Bau ¢ Rewa em Fiji, Obeyesekere deve ter
comegado a sentir sua ira desde 1982, quando apresentei, em Princeton, uma
versio da conferéncia Sir James Frazer ~ “Captain James Cook; or the Dying
God”, Em 1987, a conferéncia Frazer ja estava em circulagiio havia dois anos,
publicada como um capitulo de Islands of History (Sahlins 1985a). Esse capi-
tulo era um desenvolvimento das paginas dedicadas a Cook e as festas havaia-
nas do Ano Novo (Makahiki) em Historical Metaphors and Mythical Realities
(Sahlins 1981), Talvez seja ingrato de minha parte dizer que Islands of History
¢ Historical Metaphors and Mythical Realities nio sio, entretanto, “dois livros
de vulto sobre esse assunto [da apoteose de Cook]”, que ¢ como Obeyesekere
os descreve (Ob. 202 n, 12). A conferéncia Frazer sobre a vida e morte de Cook,
como uma manifestagio de Lono, era apenas um dos cinco eapitulos de Islands,
enquanto em Historical Metaphors, um livro de vulto de 84 paginas ao todo,
bem menos da metade é dedicada a esse tpico.
Ao elevar estes textos ao status de obras de vulto, as criticas de Obeyesekere
nao dao atengao suficiente, ou nao dio nenhuma atengao, aos outros artigos que
eu havia escrito, que sio extremamente relevantes as objegGes que levanta. Esses
trabalhos por ele negligenciados mostram que nao ha nada de basicamente novo
no debate entre nés. Em 1988, eu havia discutido uma tentativa semelhante de
atribuir-me a brilhante idéia de que a historia ¢ governada pela reprodugio
7COMO PENSAM OS “NATIVOS”
impensada de cédigos culturais (Sahlins 1988, Friedman 1988). Obe
no faz referéncia Aquela discusséio. Um ensaio que apareceu no ano sti)
te, “Captain Cook at Hawaii” (Sablins 1989), é a mais ampla e bem doc:
da argumentagio que publiquei sobre Cook como uma efetivacio de
Obeyesekere quase néio toma conhecimento desse trabalho, ¢ mesmo gi
faz, o faz somente de modo confuso. Ele deixa de mencionar que se trata «
resposta sistematica a uma série de criticas iguais as dele que haviam sic)
riormente levantadas por um grupo de estudiosos dinamarqueses (Berse
Hasagar e Henriques 1988). Eles também achavam que os havaianos ni
riam ter cometido o “erro” elementar de confundir Cook com seu propri
Lono; que nao poderia haver correspondéncia detalhada entre os eventos «
ta de Cook e as cerim6nias do Ano Novo (Makahiki), porque esta festa do 1
so de Lono, tal como a conhecemos, é uma invengao posterior; e que a id
recepgfio de Cook como um deus havaiano ¢ um mito de inspiragdo oci:
promovido em grande parte por missiondrios cristios e seus principais con)
dos depois de 1820. Assim, prossegui ¢ mostrei, por exemplo, as correspo
cias detalhadas entre os eventos da visita de Cook, tal como foram descrii:
documentos contemporaneos, e relatos etnogrificos classicos da tes!
Makahiki, escritos por intelectuais havaianos no comego do século
Obeyesekere considera essa demonstragdo empirica como sendo a supos
absurda, de minha parte, de que o Makahiki nao havia se alterado desde |
1779. Do mesmo modo, observagées especificas neste trabalho que parece
requerer refutaciio conseqtiente sio simplesmente obstruidas por Obeyesc!
A depender dele, nunca se saberia que certos rituais a que Cook foi subme
por sacerdotes havaianos correspondem, com exatidiio e em detalhe, ais des
Ges etnogrificas padrao das ceriménias de boas-vindas 4 imagem de Lon:
Ano Novo. Tais omissdes pelo menos sao coerentes com sua confianga hab)
na falacia légica de converter uma falta de evidéncia na evidéncia de uma
se 0s britinicos (com algumas honrosas excegdes) nao dizem explicitamente
os havaianos receberam Cook como Lono, isso deve significar que cle nav
Lono. Mas haverii mais do que um nimero razoavel de ocasides para discuti
propensées académicas de Obeyesekere nas paginas que se seguem. Mais i
ressante é a antropologia mais ampla de suas criticas?.
Para voltar ao momento original da contenda, também falta algo a
para satisfazer a ira, ou, pelo menos, a irritago original de Obeyesekere ps
2. Sahlins 1977 e Sahlins 1985b sio outros artigos relevantes 4 discussio do Makahiki e da apoteos.
‘Cook que também no sio considerados por Obeyesekere.
Wwce histérica e antropologicamente submotivada. Ele nao conseguiu se lembrar,
diz ele, de um tnico caso de deificagdo sul-asiatica de um europeu, pre mor-
fem ou post-mortem, embora seja possivel que funcionarios coloniais fossem
as vezes tratados “exatamente como chefes nativos”(Ob. 8). Poder-se-ia de
modo sensato questionar se a comparagao é ou nao antropologicamente perti-
nente, quanto mais causa suficiente para ofensa. Nao ha razio a priori para
supor que as culturas e cosmologias dos sul-asidticos propiciem um acesso
especial as crengas e priticas dos polinésios. Se tanto, os falantes indo-euro-
peus do sul da Asia estio historicamente relacionados de modo mais intimo
aos antropdlogos ocidentais nativos do que aos havaianos. E por que as reagdes
dos povos sul-asidticos aos colonos europeus ~ sul-asiiticos que tém lidado
com estrangeiros exéticos ¢ variados por milénios ~ deveriam ser a base para
© conhecimento dos polinésios que, por um periodo igualmente longo, haviam
sido isolados de experiéncia semelhante? A tese subjacente ¢ grosseiramente
nao-historica, uma nog&o nao muito implicita de que os assim chamados nati-
vos (pelos europeus) sfio semelhantes, mais especificamente naquilo que tém
de motivo comum para ressentimento.
Essa antropologia do “nativo” universal é realmente uma nogao explicita —
eum apelo moral. Poder-se-ia dizer que Obeyesekere no é nenhum Tucidides por
um sem-ntimero de razdes, inclusive a de que seu livro nao tinha intengao de ser
um tesouro para todos os tempos, mas foi de fato “planejado para satisfazer 0
gosto de um piiblico imediato” (Pelop. War 1.22). Mais de uma vez, Obeyesekere
invoca sua experiéncia nativa, tanto como pratica tedérica quanto como virtude
moral, afirmando levar vantagem, em ambos os casos, sobre 0 “antropélogo-out-
sider” (Ob. 21-22). Vé-lo-emos interpretando conceitos havaianos de divindade
pelas memérias de infaincia de um natural do Sri Lanka. Apoiando-se em tais per-
cepgoes, ele aceita 0 papel de defensor de nativos havaianos pré-alfabetizados,
que nao poderiam de outro modo falar por si mesmos, contra os eruditos forne-
cedores da ilusio imperialista de que eles teriam se prostrado diante do Homem
Branco como se estivessem diante de deuses. Mas exatamente de onde vem a
idéia de que isso era degradante? A ironia produzida pela combinagao de uma
antropologia dabia e uma moralidade da moda reside precisamente no fato de que
ela priva os havaianos de sua propria voz, Incorrendo, sem nenhuma moderagao,
em petigdo de principio, quase todas as vezes que se registra um havaiano dizen-
do ou sugerindo que Cook era uma manifestagzio de Lono, Obeyesekere atribui o
relato ao Homem Branco que o fez; ou entao a outros Haole (Homens Brancos),
como os missionarios, que supostamente puseram a idéia na cabeca dos ilhéus.
Desse modo, os havaianos aparecem no palco da histéria como bonecos de ven-
19COMO PENSAM OS “NATIVOS
triloquos Haole. Entretanto, essa nao € a maior ironia de um livro que finge de-
fender os havaianos contra os estudiosos ocidentais etnocéntricos, dotando-os da
maior proporgao de racionalidade burguesa.
Se o argumento subjacente é que todos os “nativos” se assemelham, 0
argumento sobreposto é que todos mantém uma relagio saudavel, pragmatica,
flexivel, racional e instrumental com as realidades empiricas. Refletindo racio-
nalmente (e de modo transparente) sobre a experiéncia sensorial, eles sdio capa-
zes de conhecer as coisas como elas realmente so. Dado este realismo nao pa
sivel de anulagio, os havaianos jamais chegariam @ conclusio objetivamente
absurda de que um capitdo britanico poderia ser um deus polinésio. De acordo
com Obeyesekere, tal “racionalidade pritica” é uma propensio humana univer-
sal — com a excegio de mitdlogos ocidentais, evidentemente. De fato, ¢ uma
capacidade fisiolégica da espécie, Dai se segue que, com base numa humani-
dade comum e num senso compartilhado de realidade, Obeyesekere tem a pos-
sibilidade de compreender imediatamente os havaianos, sem levar em conside-
ragao quaisquer particularidades ou pressupostos culturais, Presumivelmente,
entio, ele nao precisaria ter recorrido a suas experiéncias no Sri Lanka, Em
principio, ele poderia ter apelado diretamente para os europeus cristianizados
para refletir sobre a evidente faldcia de supor que Deus pudesse aparecer na
Terra sob forma humana. Se foram realmente os missiondrios cristaos que fize-
“ram com que os havaianos pensassem que Cook era Lono, isso teria requerido.
como pré-requisito histérico, que os ilhéus aceitassem como verdade sobre
Jesus Cristo aquilo que nao podiam acreditar espontaneamente sobre o capitio
Cook. Mas ento, apesar de todo seu bom senso empirico, os havaianos sozi-
nhos haviam adorado certas imagens antropomérficas — com a aparéncia de
havaianos comuns, mas ao mesmo tempo estranhamente diferentes deles — que,
eles deveriam saber, eram simplesmente feitas de madeira, jé que eles proprios
haviam entalhado e erigido esses deuses, Seus idolos eram “até mesmo a obra
de mios humanas, tém bocas ¢ nao falam; olhos tém e niio véem”. Qual é a
grande diferenca, em termos de raziio empirica, entre adorar tais imagens e con-
ceder honrarias divinas a0 capitio Cook’?
3. Digo “honrarias” deliberadamente pensando no belle pensée de Lévi-Strauss no sentido de que, embor
‘os espanhis considerassem os indios menos do que humanos, os indios consideravam os espanhois dev
ses, colocando assim a questi de quem deu mais crédito & raga humana. E por que apenas os ocidentais
deveriam ter tal “véu de idéias” diante de seus olhos? Apesar de tudo o que diz a respeito da univers:
dade da assim chamada racionalidade pritica, a erer em Obeyesekere, os europeus foram ineapazes de
reconhecer empiticamente sua propria humanidsde simples na visio dos indios (ou dos havaianos), dc
‘mesmo modo que eles simplesmente no estavam preparados para ver os indios como humanos
20InTRODUGAO
Todavia, a alegada divindade de Cook parecer uma calinia se seguirmos
Obeyesekere na sua redugio do veridico 4 objetividade do instrumental. O
apelo nao é simplesmente ao nosso senso moral, mas ao nosso bom senso, A
“racionalidade pratica” de Obeyesekere é uma variedade comum da epistemo-
logia sensorial ocidental classica: a mente como espelho da natureza. Acontece
que sua defesa das capacidades racionais havaianas — como a habilidade deles
de perceberem que Cook era apenas um homem e que a Gri-Bretanha nao
ficava no céu — constitui um antietnocentrismo afetado que acaba por subsu-
mir suas vidas em dualismos ocidentais classicos de Jogos e mito, razio empi-
rica e ilusdo mental.
Distinguindo 0 pritico do mitico, do mesmo modo que o observavel dife-
re do ficcional, essas oposigées sio tao estranhas ao pensamento havaiano
como sfio endémicas ao habitus europeu. Para os havaianos, a nog&o de que
Cook era uma efetivagdo de Lono dificilmente poderia ser considerada uma
proposigo itrefletida, ndo-empirica. Foi construida a partir de, e enquanto,
relages percebidas entre a cosmologia dos havaianos e a historia de Cook. O
pensamento havaiano nao difere do empirismo ocidental por uma falta de aten-
¢do ao mundo, mas sim pela premissa ontolégica de que a divindade, e de
modo mais geral a subjetividade, pode ser imanente nele. De sua parte, num
momento psicanalitico fantasioso, Obeyesekere observa que a politica de
Cook de distribuigao intermitente de bebida alcoslica a sua tripulagao opera-
va com 0 significado simbélico da bebida fermentada enquanto “o leite do
pai” (Ob. 45). Isso certamente nio é menos notavel do que a valorizagdio que
os havaianos faziam de Cook como Lonomakua, “Pai Lono”, a forma particu-
lar do deus de Ano Novo. Também “o leite do pai” ndo se assenta menos numa
logica empirico-significativa, ainda que inconsciente, como Obeyesekere
implicitamente supe ao falar de certos andlogos de disciplina ¢ 0 trocadilho
perceptivo de que o “leite nos torna grogues”,
Esses pensées sauvages, como quase todo antropélogo sabe, exigem uma
disposigao empirica disciplinada. Eles implicam uma reflexdo sistematica,
intensiva e imaginativa sobre a experiéncia, sobre as propriedades e relagdes
das coisas, Mas, apesar de tudo isso, eles ndo constituem a experiéncia do
mesmo modo em toda a parte, de acordo com os ditames de uma racionalida-
de pratica universal. Obeyesekere, porém, fala em teoria da mistura, em eren-
cus de qualquer povo, de bom senso natural e pressuposto cultural. Este ultimo
presumivelmente abre a possibilidade de que eles mergulhariio no pensamen-
to mitico. No entanto, nao nos ¢ fornecido o principio tedrico que explica
quando uma ou outra dessas disposigdes contraditérias assumira 0 comando,
2COMO PENSAM OS “NATIVOS
mas apenas a demonstraco pritica de que elas podem ser invocadas depen-
dendo da conveniéneia do analista.
Talvez isso ndo tenha muita importineia, ja que a antitese entre razio e
costume nos convida a abandonarmos a antropologia do final do século XX por
certos avangos filos6ficos do século XVII. Francis Bacon também vira no
empirismo a redengdo do erro de se inclinar perante falsos idolos, como 0 cos-
tume e a tradigo, cujo poder sobre a mente humana representava as conseqiién-
cias intelectuais do pecado original. Obstdculo ao uso correto dos sentidos,
inculeado por babas, professores e pregadores (da religido errada), 0 costume
continuou a ser, para famosos empiricistas ingleses, uma interferéncia social
indesejada na aquisi¢ao do conhecimento. Alguém imbuido de crengas “roma-
nistas” desde a infancia, disse Locke, estava preparado para engolir toda a dou-
trina da transubstanciagao, “nfo apenas contra toda probabilidade, mas até
mesmo contra a clara evidéncia de seus sentidos” (Essay IV xx.10)8. Desse
modo, ao contrario de Obeyesekere, poder-se-ia ter imaginado constituir-se
alguma evidéncia de progresso na sensibilidade antropologica o fato de que,
desde Locke, os pressupostos culturais exticos de outros poves adquiriram
uma certa respeitabilidade epistemolégica. Nao me refiro simplesmente ao
papel da concepeao cultural na percep¢do sensorial: 0 olho que vé enquanto um
Srgdo da tradigdo, Na medida em que o conhecimento cultural é uma relagdo de
intuigdes empiricas com proposigdes locais, mais do que com objetos enquan-
‘Yo tal, era preciso conferir ao costume algumas afirmacoes relativas de verda-
de. Mas agora vem a oposigiio regressiva que Obeyesekere estabelece entre
uma razio empirica universal e construgdes culturais particulares. Mesmo nao
levando em conta o tratamento que os havaianos deram a Cook, a coexisténcia
dessas disposiges opostas transforma a existéncia comum deles num grande
embarago. Da perspectiva de uma racionalidade pratica, a deificagio de Cook
estaria longe de ser o pior erro empirico deles. Um escdndalo muito maior
acompanha suas relagdes pragmaticas cotidianas com a natureza. Pois, do
ponto de vista havaiano, muitas coisas naturais, incluindo os alimentos que pro-
duzem e consomem, so “corpos” (kino) de deuses diversos, Lono inclusive.
4, Em Am Essay Concerning Human Understanding: “A grande obstinagio, que se pode encontrar em
homens que acreditam firmemente em opinides bastante contririas, embora muitas vezes igualmente
absurdas, nas varias s da humanidade, sto provas tio evidentes quanto so uma conseqiiéneia
inevitavel desse modo de raciocinio a partir de principios tradicionais herdados. De tal modo que 0s
homens desacreditardo seus proprios olhos, renunciarlo a evidéncia de seus sentidos e negaro sua pri
pria experiéneia, em vez de admitir qualquer coisa que entre em desacordo com esses principios sagra-
dos” (Locke, Essay IV, xx.10)INTRODUGAO
Com olhos para ver, cérebro para pensar e estmagos para alimentar, como
podiam acreditar ni
Em iiltima anilise, o antietnocentrismo de Obeyesekere vira um etnocen-
trismo simétrico e inverso, com os havaianos consistentemente praticando uma
sacionalidade burguesa ¢ os europeus incapazes, por mais de duzentos anos, de
fazer qualquer coisa além de reproduzir o mito de que “os nativos” os conside-
ram deuses. Digo “racionalidade burguesa” porque, como logo veremos, desde
século XVII, a filosofia empirista em questéo pressupds um certo sujeito uti-
lista — uma criatura de caréncia infinita contraposta sobretudo a um mundo
puramente natural. O senso de realidade que brota do processo pereeptivo no
se refere somente a objetos, mas as relagdes entre os atributos dos objetos e as
satisfagdes do sujeito. A objetividade implica uma certa subjetividade. Nas ver-
sdes hobbesiana e iluminista, que ainda tém validade hoje, a objetividade era
mediada pelo senso de prazer e dor por parte do corpo. Dai a relagdo estreita,
também reconhecida pela versio de Obeyesekere, entre o que ele chama de
“racionalidade pritica” e utilidade econémica. Mas enquanto os naturais do Sri
Lanka e os havaianos sao capazes de alcangar esse senso burgués de realidade,
os ocidentais presumivelmente foram incapazes de libertarem-se dos mitos de
sua propria superioridade. Neste aspecto, eles representariam suas proprias
pardédias arcaicas da “mentalidade pré-ldgica”. Comegando com missionarios
cristdos e apélogos coloniais, uma longa linhagem de europeus que refletiram
insensatamente sobre a morte de Cook reiteraram a tradig¢do arrogante de sua
divindade. Mesmo aqueles que, por profissiio, procuram fazer verificagdes da
realidade — os historiadores e antropdlogos académicos ~ demonstram ser pri-
sioneiros do mito. Desse modo, a inversiio de “nativo” e burgués esta comple-
ta. Em nome do antietnocentrismo, dotam-se os havaianos da forma mais alta
de mentalidade ocidental, ao passo que estudiosos ocidentais, submissos, repe-
tem as crengas irracionais dos seus ancestrais. Esta é a visio critica central do
livro de Obeyesekere’.
Resultado irénico de uma inspirag&o moral irrepreensivel, essa visio cri-
tica, aplicada consistente e implacavelmente, tem efeitos académicos igual-
mente paradoxais, equivalendo a uma antiantropologia. Ao negara particulari-
0?
Evidentemente, essa é uma visio polémica, desenvolvida para 0 propésito imediato, As nogies de rea-
lidade e ilusio, ou do Ocidente ¢ do resto, em The Apotheasis of Captain Cook nfo sto as mesmas que
as de The Work of Culture (Obeyesekere 1990:65-69, 217 et passim). Porém, 0 carater e tom de The
Apotheosis parecem repetir alguns comentarios de Obeyesekere a respeito de estilos de debate intelec-
tual no Sri Lanka (Obeyesekere 1984:508),
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