Como o magnetismo e a eletricidade se relacionam?
Hoje, sabemos que eletricidade e magnetismo têm a
mesma origem: cargas elétricas estáticas geram um
campo elétrico e cargas elétricas em movimento, um
campo magnético. Mas, no tempo de Gilbert, os
cientistas não conheciam átomos, elétrons, correntes
elétricas etc.
DIVALDO PEREIRA FRANCO TRILHAS DA LIBERTAÇÃO
PELO ESPÍRITO MANOEL R DE MIRANDA
3 Trilhas da Libertação O mundo corporal é plasmado
pelo espiritual, onde a vida é pulsante, permanente,
original. Necessário ao processo de reencarnação, reflete
o estágio no qual se encontram aqueles que o habitam,
razão esta que torna o planeta terrestre um educandário
de provas e expiações. Verdadeiro laboratório onde se
operam transformações de comportamento moral do ser,
pelo fixar das experiências edificantes, sofre os inevitáveis
choques decorrentes das lutas que se travam nos círculos
que o compõem, da mesma forma que se beneficia com
as contribuições elevadas daqueles que trabalham em
favor do seu progresso. Na generalidade, tudo quanto
sucede na esfera física tem origem na realidade espiritual,
tornando-a um mundo de efeitos, no qual as ocorrências
se desencadeiam sob as mais variadas injunções. Como é
natural, sendo os seus habitantes atuais, na sua quase
totalidade, homens e mulheres que antes transitavam
pelas suas sendas, ora em busca de reabilitação dos
compromissos infelizes e das ações ignóbeis, aqueles que
não tiveram ensanchas de retornar continuam vinculados
a quem os prejudicou, dando prosseguimento a pugnas
odientas e insensatas, até quando lhes luza a misericórdia
de Deus, despertando uns e outros para mudança de
atitude. Nesse conflito que se estende, há milênios, em
face do primitivismo ainda predominante na maioria dos
seres humanos, destaca-se a providencial manifestação
do divino Amor, que se expressa mediante a abnegação,
o devotamento e o sacrifício dos Espíritos tutelares que
investem as suas mais expressivas e melhores conquistas
intelecto-morais para dirimir-lhes a infrene perseguição,
acalmar-lhes o ânimo e estabelecer acordos de paz.
Ainda por largo período permanecerão esses conflitos,
por se negarem os litigantes, vitimados por descabido
orgulho e primário egoísmo, a se entregarem ao perdão
das ofensas e à fraternidade recomendados por Jesus e
facultados pelo bom senso, pelo despertar da consciência
obscurecida. Enquanto não ocorre essa alteração de
conduta, tramas sórdidas, armadilhas hábeis, traições
infames são trabalhadas nas esferas inferiores contra as
criaturas que, inadvertidas e descuidadas, tombam nas
inumeráveis justas a que são empurradas ou que
defrontam pelo caminho de ação cotidiana. Espíritos
perversos que o sofrimento embruteceu, sicários da
sociedade que se não modificaram ante a derrocada pela
morte, dando-se conta do prosseguimento da vida,
continuam nas suas nefastas decisões de afligir e
infelicitar, comprazendo-se em imiscuir-se nos grupos
sociais, fomentando dissensões, ódios e guerras, que lhes
facultam embriaguez pelas energias que absorvem
vampirescamente em infindáveis fenômenos de obsessão
dolorosa. Dessa forma, o número de obsidiados é muito
maior do que se pode imaginar. Não mensurada ou
detectada com facilidade, a obsessão campeia
desarvorada, arrebanhando multidões de vítimas que se
deixam consumir, num como noutro plano de Vida.
Organizam-se, esses Espíritos mais cruéis, em grupos
hediondos, nos quais aprimoram métodos e técnicas de
que se utilizam para afligir, aprisionar e explorar aqueles
que têm o desar de ser-lhes vítimas. Qual ocorre na
Terra, e nesta em escala menor, as sociedades que
controlam o crime e o vício no Além são as responsáveis
pelas congêneres do planeta, sendo que alguns dos seus
chefes e condutores são procedentes das originais,
aquelas que permanecem na erraticidade inferior.
Atribuindo-se direitos e poderes que não lhes é lícito
usufruir, funcionam como braços de Justiça, que
alcançam os calcetas, os defraudadores, os hipócritas e
criminosos de todo porte que passam triunfantes no
corpo que ultrajam e degradam impunemente, como se
Deus os necessitasse para tal mister... Porque não podem
anular a consciência de culpa neles mesmos inscrita, ao
desencarnarem despertam na paisagem que lhes é
própria, com a qual sintonizaram, presas daqueles a
quem se vincularam. O Espiritismo prático, por meio das
sessões experimentais, de educação mediúnica ou de
desobsessão, rompeu o véu que ocultava essa triste
realidade, e de que se tinha notícia somente de forma
fragmentária, pela revelação dos santos e místicos que
visitaram essas comunidades expungitivas e
recuperadoras que a mitologia denominou como inferno,
purgatório, Hades, Averno etc. Compreensível que a fúria
dos seus mantenedores volte-se contra todos aqueles
que se dedicam ao bem, que lutam contra o crime e a
hediondez, particularmente os espíritas sinceros que têm
a tarefa de promover a sociedade, preparando melhores
dias para a humanidade do porvir. Da mesma forma
agem contra os médiuns, que são os instrumentos da
revelação desses antros de vergonha e horror, tentando
explorá-los psiquicamente, desmoralizá-los para, dessarte,
anularem o efeito das suas informações libertadoras. A
campanha sórdida contra a mediunidade dignificada e os
médiuns responsáveis, promovida pelas Entidades
obsessoras, é ostensiva e vem de longa data, incessante e
sem quartel, agressiva e sutil.
Não poucas vezes, esses irmãos profundamente infelizes
se atreveram a arremeter contra Jesus, que os submeteu
com a sua superioridade, advertindo-nos, desde então, a
respeito deles e das suas insinuações malévolas. Quando
um médium, ou outra pessoa qualquer, particularmente o
sensitivo, cai-lhes nas urdiduras, estuam de júbilo e se
creem fortalecidos para continuarem o louco afã, que
termina por enredálos, a eles próprios, obrigando-os ao
despertamento, à reencarnação... Para lidar com esses
cultivadores do mal, Espíritos nobres renunciam a
Estâncias superiores a que têm direito, a fim de
mergulharem nas sombras terrestres e mais ainda nos
pauis e crateras onde se homiziam, para esclarecê-los,
libertá-los, amá-los e socorrer aqueles que lhes padecem
a perseguição. Enfrentam-nos com misericórdia, mas com
austeridade, conhecendo-lhes a hipocrisia e a sandice,
utilizando-se, a seu turno, de recursos especiais que
desenvolvem, e que os indigentes não conseguiram
produzir, o que muito os surpreende e aturde. A presente
obra estuda algumas dessas técnicas e lutas pela
libertação dos seres, de si mesmos, de suas mazelas e
imperfeições, em experiências valiosas, e também como
forma de contribuição para o estabelecimento de uma
Medicina holística para o futuro, que considere o ser
humano como espírito, perispírito e matéria. Procuramos
traduzir inúmeras ocorrências que tiveram lugar em nossa
esfera de ação, a fim de advertir aqueles que estejam
interessados em apressar o próprio processo de
iluminação e de crescimento interior. Pelas trilhas da
libertação avançamos no rumo da grande Luz, até o
momento da plenificação que nos aguarda. O presente
trabalho não apresenta fantasias, nem novidades que o
estudioso do Espiritualismo em geral e do Espiritismo em
particular não conheça. Confirmando outras experiências
já narradas, convida à meditação, à conduta saudável, à
vivência dos postulados ético-filosófico-morais da
Doutrina Espírita e do Evangelho de Jesus. Feliz, por nos
havermos desincumbido da tarefa a que nos
propusemos, exoramos a proteção de Jesus para todos
nós, trabalhador incipiente que ainda me reconheço ser.
Manoel P. de Miranda Salvador (BA), 20 de setembro de
1995.
Medicina holística O cenário especial era um convite à
reflexão, uma superior mensagem de estesia. Em pleno
coração da natureza, recordava um anfiteatro grego, sem
as paredes circunjacentes, banhado pela tênue claridade
de um longo entardecer. Reuníamo-nos ali, alguns
milhares de ouvintes interessados nas conferências
hebdomadárias que estudavam e discutiam temas
pertinentes ao futuro da humanidade terrestre. Os
oradores eram convidados conforme suas especialidades
e abordagens dos assuntos, por isso mesmo eram
cativantes, arrebatadores. Naquela oportunidade, o
conferencista era o Dr. José Carneiro de Campos, médico
baiano que contribuíra grandemente para o
desenvolvimento e a prática do sacerdócio a que se
dedicara na condição de verdadeiro apóstolo. Enquanto
perfumada aragem perpassou no ar, Petitinga e nós
acomodamo-nos entre os muitos interessados e
aguardamos a alocução. Apresentado por venerando
benfeitor, em poucas palavras, sem as referências vazias e
desnecessárias, o amigo assomou à tribuna e, depois das
saudações cordiais, começou a sua oração: A perfeita
interação mente-corpo, espírito-matéria, constitui desde
já a base do atual modelo holístico para a saúde. A
anterior separação cartesiana desses elementos, que
constituem um todo, contribuiu para que a terapia
médica diante das enfermidades tivesse aplicações
isoladas, dissociando a influência de um sobre o outro,
com a preponderância dos efeitos de cada um deles na
paisagem do equilíbrio orgânico assim como da doença.
Cada vez mais se evidencia que na raiz de muitos males
está agindo a vontade do paciente, que se compraz na
preservação do estado que experimenta, negando-se,
consciente ou inconscientemente, à recuperação.
Multiplicam-se, por consequência, as técnicas da
autocura, e mediante estas são colocados à disposição
do enfermo os recursos que ele deve movimentar a
benefício próprio, liberando-se dos mecanismos de apoio
por meio dos quais mascara os conflitos, estresses e
desconfortos íntimos que lhe subjazem no cotidiano.
Fazendo uma pausa, para que pudéssemos apreender a
tese, logo prosseguiu com voz agradável: As tensões mal
direcionadas e suportadas por largo período, quando
cessam, são substituídas por moléstias de largo porte, na
área dos desequilíbrios físicos, dando gênese a cânceres,
crises asmáticas, insuficiência respiratória etc. Outras
vezes, propiciando estados esquizofrênicos, catatônicos,
neuróticos, psicóticos, profundamente perturbadores.
Quando afetam a área do comportamento moral,
conduzem à ingestão e uso de drogas aditícias,
alcoólicos, tabagismo, que representam formas de
enfermidades sociais, degenerando o grupo humano que
lhe padece a presença perniciosa. A influência da mente
sobre o corpo é de grande significação para a saúde,
pelo estimular ou reter da energia que a sustenta, e,
quando bloqueada pelo psiquismo perturbado, cede
campo à proliferação dos germes que se lhe instalam,
fomentando os distúrbios que se catalogam como
doenças. Da mesma forma, a ação da vontade, aplicada
com equilíbrio em favor da harmonia pessoal,
desbloqueia as áreas interrompidas, e a energia de
sustentação das células passa a vitalizá-las,
restabelecendo o campo de desenvolvimento propiciador
da saúde. Novamente fez oportuno silêncio, e logo adiu:
A causalidade do comportamento psicofísico do
indivíduo encontra-se no ser espiritual, artífice da
existência corpórea, que conduz os fatores básicos da
felicidade como da desdita, que decorrem das suas
experiências ditosas ou desventuradas, responsáveis pela
energia saudável ou não, que lhe constitui o organismo,
bem como pela vontade ajustada ou descontrolada, que
lhe assinala o psiquismo. O ser interior reflete-se no
soma, que somente se recompõe e renova sob a ação da
conduta mental e moral dirigida para o equilíbrio das
emoções e da existência. A ação da vontade, no
restabelecimento da saúde ou na manutenção da doença,
é de ponderável resultado, refletindo os estados de
harmonia ou os conflitos que decorrem da presença ou
ausência da consciência de culpa impondo reparação. Os
estresses e traumas prolongados desgastam os controles
retentivos do bem-estar e desatrelam as emoções que
geram a desorganização celular. Diante de quaisquer
problemas na área da saúde, a conscientização do
paciente quanto ao poder de que dispõe para a
autocura, desde que o deseje sinceramente, é de
primacial importância, facultando-lhe a visão de um
quadro otimista, que lhe propicia a restauração pessoal.
Há, em todos os indivíduos, quase uma tendência para a
autocompaixão, a autodestruição, a vingança contra os
outros em desforço inconsciente por ocorrências que lhe
são desagradáveis. Ante a impossibilidade de assumir
essa realidade exteriormente, transformam tal aptidão em
doenças, estimulando a degenerescência das células que
aceleram a sua multiplicação, formando tumores
cancerígenos, matando as defesas imunológicas e
abrindo-se às infecções, às contaminações que perturbam
a maquinaria orgânica e fomentam a instalação das
enfermidades. A assembleia silenciosa acompanhava-lhe
o raciocínio claro com encantamento. Dando maior
ênfase às palavras, prosseguiu: Não raro, pessoas
portadoras de neoplasia maligna e outras doenças,
quando recuperam a saúde sentem-se surpreendidas e
algo decepcionadas, tão acostumadas se encontravam
com a injunção mortificadora de que eram objeto. Por
outro lado, dão-se conta de que a família já lhes não
dispensa a mesma atenção e o grupo social logo se
desinteressa por suas vidas, despreocupando-se em
relação às mesmas. Sentindo-se isoladas desmotivam-se
de viver, criam recidivas ou facultam a presença de outras
mazelas com que refazem o quadro de protecionismo
que passam a receber, satisfazendo-se com a ocorrência
aflitiva. Uma terapêutica bem orientada deverá sempre
fundamentar-se na realidade do Espírito e nos reflexos
do seu psiquismo no corpo. Da mesma forma, diante dos
fenômenos perturbadores da mente, o conhecimento do
estado somático é de importância para aquilatar-se sobre
a sua influência no comportamento mental. Espírito e
corpo, mente e matéria, não são partes independentes
do ser, mas complementos um do outro, que se inter-
relacionam poderosamente por meio do psicossoma ou
corpo intermediário perispírito encarregado de plasmar
as necessidades evolutivas do ser eterno na forma física e
conduzir as emoções e ações às telas sutis da energia
pensante, imortal, então reencarnada. Sem essa visão da
realidade do homem, a sua análise é sempre deficiente e
o conhecimento sobre ele de pequena monta. Os
traumas, os estresses, os desconcertos psíquicos e as
manifestações genéticas estão impressos nesse corpo
intermediário, que é o modelo organizador biológico sob
a ação do Espírito em processo de evolução e irão
expressar-se no campo objetivo como necessidade moral
de reparação de crimes e erros antes praticados. Se
aquelas causas não procedem desta existência, hão de
ter sido em outra anterior. Igualmente, as conquistas do
equilíbrio, da saúde, da inteligência, do idealismo,
resultam das mesmas realizações atuais ou transatas que
assinalam o ser. A evolução é inexorável, e todos a
realizarão a esforço pessoal, embora sob estímulos e
diretrizes superiores que a Paternidade divina dispensa
igualitariamente a todos. A transitoriedade de uma
existência corporal, como a sua brevidade no tempo, são
insuficientes para o processo de aprimoramento, de
beleza, de felicidade a que estamos destinados. As
diferenças entre o bruto e o harmônico, o sábio e o
ignorante, o feliz e o desventurado, confirmam a boa e a
má utilização das experiências anteriores, como também
assinalam as maiores ou menores vivências mais ou
menos numerosas de uns e de outros. A reencarnação é,
portanto, processo intérmino de crescimento ético-
espiritual, facultando a aquisição de valores cada vez
mais expressivos na conquista da Vida. Seria irrisão
limitar a adição de títulos iluminativos ao Espírito
projetado na sublime aventura da evolução, tendo pela
frente a indimensionalidade do tempo que lhe está
destinado. Nesse contexto, a doença é acidente de
trânsito evolutivo de fácil correção, experiência de
sensação desagradável que emula à aquisição do bem-
estar e das emoções saudáveis, ocorrendo por opção
exclusiva de cada qual, e somente o próprio indivíduo
poderá resolver, corrigir e dela libertar-se. O interesse
geral era manifesto. Os rostos denotavam em todos a
satisfação. Passado breve tempo, deu curso à exposição:
Os processos degenerativos que se manifestam como
enfermidades dilaceradoras e de longo trânsito procedem
sempre do caráter moral do homem, com as exceções
daqueles que os solicitam para ensinar aos demais
abnegação, dignidade e sublimação. Originam-se nos
profundos recessos do temperamento rebelde, violento,
egoísta, e explodem como flores em decomposição nos
órgãos que se esfacelam, sem possibilidades de
recuperação. Pode-se dizer que esses mecanismos
ulcerativos sempre se apresentam nos déspotas, nos
sanguinários, nos ditadores, quando apeados do poder
ou ainda durante a sua dominação, refletindo os terríveis
contingentes de energias deletérias que veiculam
intimamente. Os seus estágios finais são caracterizados
por dores excruciantes e decomposição do corpo, em
vida, que ultrajaram com a mente perversa e insana.
Quando tal não ocorre, fogem do mundo por meio dos
suicídios covardes, que lhes demonstram a fragilidade
moral, ou partem da Terra vitimados por acidentes e
homicídios dolorosos. O mesmo ocorre com aqueles que
se utilizaram da roupagem física para o mercado do sexo,
das sensações grosseiras e vivem aspirando sempre os
tóxicos de potencial elevado de destruição vibratória. No
seu tormento, são destruídos pelo psiquismo que lhes
consumiu as forças e a capacidade de viver acima dos
baixos padrões morais aos quais se entregaram. E mesmo
quando, no cansaço dos anos e no desgaste da
vitalidade, resolvem-se por mudanças éticas, por assumir
nova compostura, não logram tempo para evadir-se aos
efeitos dos atos passados, tombando nas engrenagens
emperradas e esfaceladas do organismo escravo das
construções mentais viciosas. A mente, exteriorizando as
aspirações do Espírito, impõe à organização somática as
suas próprias aspirações e preferências, que se
corporificam, quando mórbidas, nas mais diferentes
dependências e patologias, responsáveis pela
desarticulação dos seus mecanismos. Assim sendo,
qualquer abordagem terapêutica não deve ser parcial, e
sim holística, atendendo a todas as partes construtivas do
ser. Em boa hora, a consciência médica confere atenção
às terapias alternativas que, na sua maioria, consideram o
homem um ser total e buscam-no essencial, imortal,
trabalhando sobre a sua realidade profunda, que é o
Espírito, a fonte de energia a manifestar-se no corpo.
Assim, mediante o novo modelo biológico, todo tentame
em favor do equilíbrio deve fundamentarse na
transformação moral do paciente, na sua recomposição
emocional, originada na mudança dos painéis mentais
para a adoção de pensamentos sadios e na vivência
concorde com os ideais de engrandecimento, que são
catalisadores das forças vivas presentes na natureza
sintonia ecológica que interagem na sua constituição
global. Eis por que as preocupações com o verde, a
harmonia do meio ambiente e a sua preservação fazem
parte do esquema de saúde social, mudando
completamente os conceitos modernos da agricultura
industrial para superprodução com os consequentes
danos que decorrem das aplicações químicas, bem como
as atuais alucinações imobiliárias que destroem a flora,
tanto quanto a poluição dos rios, lagos, ar e mares com
os detritos químicos das fábricas, com o mercúrio, nas
áreas de mineração, e todos os fatores que se
transformam em chuvas ácidas destruidoras, no aumento
das áreas desérticas e no efeito estufa avassalador... O
homem, desnorteado e ambicioso, destruindo a vida do
planeta, mata-se também, como quase elimina as suas
possibilidades futuras, na menor das hipóteses,
retardando-as. Qualquer modelo de saúde holística terá
que abranger o conjunto das necessidades humanas e
nunca deter-se, apenas, às suas partes isoladamente. O
homem é membro da Vida, tem vida integrada à
natureza e deve ser considerado globalmente, alterando
o tradicional modelo biomédico para uma visão mais
completa, na qual o amor, conforme a proposta de Jesus
Cristo, tenha prevalência, assinalando definitivamente as
atitudes e condutas de cada um. Enquanto a Medicina
não se unir à Psicologia, à Ecologia, à Agricultura e a
outras doutrinas afins para um mais amplo conhecimento
do ser, dando-lhe uma conduta holística, as terapias
prosseguirão deficientes, incapazes de integrá-lo no
contexto da realidade a que pertence, minimizando
somente as doenças sem as erradicar, atendendo às
partes sem maior ação no conjunto, assim permanecendo
incompleta, insuficiente portanto para a finalidade da
saúde global. Jesus Cristo, por conhecer profundamente
o homem, curavao, admoestando-o para evitar-lhe o
comprometimento negativo, de modo a associá-lo ao
bem geral, graças ao qual se poupava a males outros
maiores. Fazendo uma pausa mais demorada, concluiu: O
homem do futuro, após superar as suas deficiências
presentes, receberá mais amplo auxílio da Medicina,
adquirindo uma saúde integral, que será também
resultado da sua perfeita consciência de amor e respeito
à vida. O crepúsculo fora substituído suavemente pela
colcha escura da noite salpicada de estrelas fulgurantes, e
uma claridade de luar tomara todo o recinto que
respirava as emoções gerais. A reunião foi encerrada em
clima de paz.
Ampliando os conhecimentos À medida que a multidão
se dispersava, Petitinga propôs-me acercar-nos do orador
para cumprimentá-lo, ao que anuí com imenso agrado. A
sua volta formara-se um grupo de estudiosos da
Medicina em nosso plano de ação, que o interrogava
educadamente, buscando ampliar as informações nas
suas áreas específicas. Em face do que foi abordado,
compreendi interrogou um jovem médico presente que
as doenças físicas, em geral, são resultado de um
comportamento desequilibrado da mente. Assim sendo,
como ficam as injunções cármicas negativas em alguém
que mantivesse o equilíbrio psíquico? O orador,
gentilmente, esclareceu: Uma mente estúrdia,
desarmonizada, em desequilíbrio, é resultado do Espírito
doente, devedor. Seria incoerência encontrarmos em um
calceta ou em uma vítima da consciência de culpa um
estado mental harmônico. Essa distonia reflete os efeitos
da conduta deteriorada, fazendo-a instrumento dos
fatores degenerativos que se impõem no quadro da
saúde pessoal, na condição de enfermidades reparadoras.
Qual seria, então, o papel da Medicina holística, nesse
caso? insistiu o interessado. Trabalhar o paciente
globalmente elucidou. De início, demonstrar-lhe que a
doença é efeito, e somente atendendo-lhe às causas
torna-se possível saná-la. Logo depois, conscientizá-lo da
necessidade de modificação no comportamento moral,
mudandolhe o condicionamento cármico, por cuja
conduta adquirirá mérito para uma alteração no seu
mapa existencial.
Desse modo, as imposições reencarnacionistas, que
dependem das novas ações do ser, alteram-se para
melhor, a mente reajusta-se a uma nova realidade, e,
irradiando-se de maneira positiva, providencial, contribui
para o estado de bem-estar fisiopsíquico. O médico,
nesse programa, torna-se também conselheiro, sacerdote
que inspira confiança fraternal e dispensa ajuda moral,
ampliando a sua antes restrita área de ação.
Concordávamos plenamente com as colocações
apresentadas. A oficialização da Medicina, sem qualquer
crítica de nossa parte, tornou os seus profissionais
instrumentos quase automáticos de determinados
comportamentos aceitos, que veem no paciente apenas
um caso a mais, no variado número daqueles aos quais
conferem assistência, preocupando-se, só razoavelmente,
em propiciar-lhe suspensão dos efeitos as dores, a
ansiedade, o medo, a insegurança em vez de penetrar-
lhe mais profundamente as gêneses, trabalhando-as com
maior soma de atenção. O órgão doente reflete o
desconforto do Espírito, em si mesmo insano, que
manifesta naquela área a deficiência, a mazela que o
afeta. Não me pude deter em mais amplas reflexões,
porque uma senhora, ao nosso lado, indagou com
respeito: E o perispírito? Qual o seu papel no modelo da
Medicina holística? Sem demonstrar enfado ou
desatenção, o Dr. Carneiro esclareceu: Sabemos que o
perispírito, com a sua alta sensibilidade, é o veículo
modelador da forma, portador de inumeráveis
potencialidades, tais como: memória, penetrabilidade,
tangibilidade, elasticidade, visibilidade, que manipuladas,
conscientemente ou não, pelo Espírito, por meio da
energia psíquica, exteriorizam-se no corpo físico, nele
plasmando os implementos para ajudá-lo na evolução.
Assim, a irradiação mental agindo no campo perispiritual
alcança a organização fisiológica. Daí por que a mudança
do pensamento para uma faixa superior, a da saúde, por
exemplo, propicia que a energia desprendida sintonize
com as vibrações desse campo, alterando o teor de
irradiação que irá estimular o equilíbrio das células e a
restauração da saúde física. Da mesma maneira, a
reconquista do comportamento moral, trabalhando o
corpo, produzirá modificações na área do psicossoma,
que influenciará a conduta mental. A energia que provém
do psiquismo, pelo modelo organizador biológico,
alcança a matéria, assim como a conduta orgânica
disciplinada, pelo mesmo processo atinge o psiquismo,
imprimindo-se no Espírito. Os hábitos, portanto, os
condicionamentos vêm do exterior para o interior e os
anseios, as aspirações cultivadas partem de dentro para
fora, transformandose em necessidades que se impõem.
Multiplicavam-se as perguntas, que o eminente benfeitor
respondia com tranquilidade. Em determinado momento,
porque me olhasse expressivamente, como a estimular-
me à participação ativa nos diálogos, solicitei licença e
argui: No caso das obsessões, como se daria a assistência
holística? Sorrindo, amavelmente, ele expôs: Sabemos
que em todo processo de obsessão estão presentes dois
enfermos em pugna de desequilíbrio. De igual forma, não
ignoramos que a obsessão se torna possível graças à
ação do agente no campo perispiritual do paciente. A
consciência de culpa do hospedeiro desarticula o campo
vibratório que o defende do exterior e, nessa área
deficiente, por sintonia fixa-se a indução perturbadora do
hóspede. A essa consciência de culpa chamaremos
matriz, que facultará o acoplamento do plugue mental
do adversário. Não raro, a força de atração da matriz é
tão intensa por necessidade de reparação moral do
endividado que atrai o seu opositor espiritual, iniciando-
se o processo alienador. Em outras ocasiões, quando a
culpa é de menor intensidade, o cobrador sitia a usina
mental do futuro hospedeiro, que termina por aceitar a
inspiração perniciosa, tendo início o intercâmbio
telepático, que romperá o campo de defesa, facultando,
assim, a instalação da parasitose. Esta, graças à sua
intensidade, por meio do perispírito se alojará na mente,
gerando alucinações, pavores, insatisfação, manias,
exacerbação do ânimo ou depressão, ou se refletirá no
órgão que tenha deficiência funcional, pelo assimilar das
energias destrutivas que lhe são direcionadas e
absorvidas. Silenciou, por alguns instantes, como a
facultar-me tempo de assimilar o raciocínio, para logo
prosseguir: Modelo de terapia holística para a saúde
encontra-se muito bem delineado na Codificação Espírita,
especialmente pela abrangência que esta faculta ao
homem, que é um ser integral, importante em todos os
aspectos que o constituem, em particular quando o
analisa reencarnado. As recomendações espiritistas têm
em mente os valores do Espírito: morais, intelectuais,
comportamentais, trabalhando-os em conjunto com o
objetivo de propiciar a saúde, como decorrência da
reparação dos erros pretéritos, e a aquisição de recursos
positivos atuais para o pleno equilíbrio perante as leis
cósmicas. Na análise dos pacientes espirituais, a terapia
espírita não dispensa a de natureza psiquiátrica, seja nas
depressões profundas transtornos psicóticos maníaco-
depressivos seja nas exaltações esquizofrênicas e
paranoides... Impõe, entretanto, como primordial, a
renovação moral do paciente e a sua ação edificante,
assumindo o valioso concurso da praxiterapia,
especialmente direcionada para o bem, que lhe facultará
créditos a serem considerados no balanço moral da sua
existência. Especificamente, para atender-se obsidiados, o
modelo espírita, que é holístico na sua profundidade,
preocupa-se com o enfermo encarnado, mas também
com o desencarnado, não menos doente, procurando
demovê-lo do mal que pratica, porque esta nova atitude
lhe fará bem, tanto quanto preocupando-se com a
família da aparente vítima, o seu meio social e ambiental.
A transformação moral do grupo familial para melhor é
um efeito saudável da terapia desobsessiva, que se
expressa de maneira psicológica amorosa, abrindo
espaço social para o antagonizante, que então recebe o
aceno para a reencarnação. Não se detém, portanto, em
eliminar efeitos, ajudando o hospedeiro com desprezo
pelo opositor, às vezes, mais infeliz, em razão da mente
fixa no desar há muito sem ensejo de alívio, alucinado
pelo ódio, pelo ciúme, pela sede de vingança, pelo amor
atormentado... A obsessão é parasitose profunda e grave,
que deve ser atendida globalmente, arrancando-se-lhe as
raízes perigosas, que repontam com mais vigor se não
são extirpadas por meio da conquista plena do
adversário em perturbação. No caso de crianças obsessas
insisti, ampliando o curso do estudo como proceder, já
que as mesmas não dispõem de discernimento ou outro
qualquer recurso defensivo? O Amigo, gentilmente,
considerou: Não desconhecemos que a obsessão na
infância tem um caráter expiatório como efeito de ações
danosas de curso mais grave. Não obstante, os recursos
terapêuticos ministrados ao adulto serão aplicados ao
enfermo infantil com mais intensa contribuição dos
passes e da água fluidificada bioenergia bem como
proteção amorosa e paciente, usando-se a oração e a
doutrinação indireta ao agente agressor psicoterapia, por
fim, por meio do atendimento desobsessivo mediante o
concurso psicofônico, quando seja possível atrair o
hóspede à comunicação mediúnica de conversação
direta. A visão do Espiritismo em relação à criança
obsidiada é holística, pois que não a dissocia, na sua
forma atual, do adulto de ontem quando contraiu o
débito. Ensina que infantil é somente o corpo, já que o
Espírito possui uma diferente idade cronológica, nada
correspondente à da matéria. Além disso, propõe que se
cuide não só da saúde imediata, mas sobretudo da
disposição para toda uma existência saudável, que
proporcionará uma reencarnação vitoriosa, o que
equivale dizer, rica de experiências iluminativas e
libertadoras. Adimos a terapia do amor dos pais e demais
familiares, igualmente envolvidos no drama que afeta a
criança. Não desejando ser impertinente expliquei
desejaria propor ao generoso benfeitor mais uma
questão. Porque ele aquiescesse, voltei a este assunto
que muito me fascina, inquirindo: Na hipótese do ser
prejudicado perdoar o seu malfeitor, desapareceria a
possibilidade da obsessão. Como seria a análise da
injunção cármica reparadora, numa visão de saúde
espiritual holística? Sabemos que o perdão de uma dívida
não isenta o seu responsável da regularização por meio
de uma outra forma. Quem perdoa fica bem, porém o
desculpado permanece em débito perante a economia da
vida. Cumpre-lhe passar adiante o que recebeu,
auxiliando a outrem conforme foi ajudado. Assim no caso
em tela, a consciência de culpa do devedor faz um
mecanismo de remorso que se transforma em desajuste
da energia vitalizadora, que passa a sofrer-lhe os
petardos e termina por produzir, como não
desconhecemos, a auto-obsessão, ou engendra quadros
de alienação mental conhecidos na Psicopatologia sob
denominações variadas. A consciência culpada do Espírito
que se arrepende do mal que praticou, mas não se
reabilita, emite vibrações perniciosas que o perispírito
encaminha ao cérebro, perturbando-lhe as funções. A
terapia, no caso, será autorreparadora, concitando o
paciente a refazer o caminho, a dedicar-se à ação do
bem possível e trabalhar-se moralmente reajustando-se à
tranquilidade da recuperação. Silenciei, comovido,
considerando o quanto a Justiça de Deus está insculpida
na consciência do ser. Outras interrogações foram
apresentadas, sendo respondidas com simplicidade e
sabedoria, assim encerrando-se a proveitosa
oportunidade.
Perspectivas novas Dispúnhamo-nos a sair, Petitinga e
nós, quando o benfeitor chamou, nominalmente, o nobre
trabalhador de Jesus e aproximou-se cordial. Depois que
fui apresentado, já que ambos conheciam-se há muito
tempo, ele indagou-me generoso: O amigo tem interesse
no estudo das obsessões? Atrai-lhe o assunto? Sim
respondi canhestro. Interesso-me muito por esta
epidêmica alienação que avassala o mundo hodierno.
Petitinga, compreendendo a minha natural timidez,
completou: O nosso Miranda, desde quando se
encontrava reencarnado, dedicou-se à prática da
desobsessão e ao estudo dessa afecção espiritual. Desde
que aqui chegou, há quase cinquenta anos, prossegue
nas suas pesquisas, e vem, de quando em quando,
escrevendo para a Terra, qual repórter desencarnado, que
busca informar e esclarecer os companheiros da
experiência carnal, a fim de adverti-los e orientá-los
sobre o tema, desdobrando os ensinamentos e instruções
do emérito codificador do Espiritismo a esse respeito.
Assim sendo propôs-me com gentileza teria muito prazer
em convidá-lo a participar conosco de algumas
atividades dessa natureza, a iniciar-se amanhã à noite.
Somos também estudiosos da alienação por obsessão,
buscando penetrar a sua profundidade e multiplicidade
de aspectos, que nos facultam os mais amplos e variados
enfoques. Que me diz a respeito? Confesso respondi
interessado que me será de inestimável e providencial
valia, se puder participar de atividades e pesquisas dessa
natureza, embora reconheça os meus limites intelectuais
e técnicos diante dessa enfermidade soez. Muito bem
concluiu com um sorriso afável. Avisá-lo-ei com alguma
antecedência qual a hora da partida, a fim de realizarmos
a excursão à Terra com o objetivo específico de
examinarmos o problema. Despedindo-se com
amabilidade, deixou-nos a agradável expectativa do
próximo encontro para o mister enfocado. Não podendo
sopitar o júbilo espontâneo, comentei com o amigo
Petitinga: A experiência e o trato com os enfermos
espirituais têmme demonstrado que a interferência
psíquica de umas criaturas sobre as outras,
desencarnadas ou não, é responsável pela quase
totalidade dos males que as afligem, dentro,
naturalmente, das injunções cármicas de cada qual. A
ação mental de um agente sobre outro indivíduo, se este
não possui defesas e resistências específicas, termina por
perturbar-lhe o campo perispiritual, abrindo brechas para
a instalação de várias doenças ou a absorção de
vibrações negativas, gerando lamentáveis dependências.
Aí estão as ocorrências dos prazeres sexuais, dos amores
descontrolados, em que um dos parceiros mantém a
vampirização da vitalidade emocional do outro ou ambos
se exploram reciprocamente, tombando, em exaustão, no
entanto permanecendo insatisfeitos... A emissão da onda
mental invejosa, cobiçosa, inamistosa prende o emitente
ao receptor, transformando-se em uma forma não menos
cruel de obsessão. O agente não consegue desvincular-se
da vítima e esta, aturdida ou enferma, desequilibrada ou
desvitalizada, não logra recompor a paisagem íntima nem
a orgânica de bem-estar, alegria e saúde. Quantos
desencarnados pululam vinculados uns aos outros em
deplorável parasitose psíquica, a alongar-se por largos
períodos de infelicidade! Quantos outros que, sofrendo
as exigências mentais dos amores e desafetos terrenos
que continuam direcionando seus pensamentos com
altas cargas de tensões negativas sobre eles, incapazes
de libertar-se, tornam-se-lhes vítimas inermes, padecendo
atrozmente, sem conforto íntimo nem esperança,
atormentados pelos apelos que recebem e não podem
atender, bem como pelos ódios que os envenenam!
Escritores e artistas que optaram pela obscenidade, pela
violência, pelo açodar das paixões vis, tornam-se
escravizados aos que se lhes sintonizam e gostam das
suas obras, revivendo os clichês mentais que eles
compuseram, na Terra, e ora tornam-se-lhes fonte de
tormentos inimagináveis. Ainda consideremos a técnica
dos Espíritos obsessores mais impiedosos, que se utilizam
de intermediários para as suas cruéis reivindicações,
controlando-os mentalmente e induzindo-os à agressão
aos viajores carnais, e teremos um elenco expressivo de
obsessões que excedem o quadro tradicional da
perturbação mais conhecida e trabalhada, que é a de um
desencarnado sobre outro reencarnado. Certamente,
outros aspectos existem, sutis, aguardando penetração,
análise e terapia correspondente. Calando-me, por
instantes, Petitinga concordou com a exposição e
acrescentou: Comparemos o homem a uma árvore. As
suas raízes de sustentação e nutrição fincadas no solo
são o seu passado espiritual; o tronco é a existência
atual; os galhos e folhagens são as suas atitudes
presentes; as flores e os frutos serão o seu futuro. Se as
raízes permanecem em solo árido ou pantanoso, infértil
ou pedregoso, a falta de vitalidade para manter a seiva
termina por exterminar-lhe a vida, que se estiola
vagarosamente, mesmo que o ar generoso e a chuva
contribuam para a sua preservação. Somente por meio
da correção da terra, da sua adubação, é que as energias
vitais lhe correrão por toda a estrutura, levando-a ao
vigor, à florescência e à frutificação. Em caso contrário,
mesmo que consiga o desenvolvimento, este será
incompleto, frágil, e a produção mirrada. Assim também
somos nós, Espíritos em processo de crescimento. O
nosso passado moral torna-se-nos o terreno de
sustentação das raízes e tudo dependerá das ações
praticadas, que respondem pelas ocorrências em
desdobramento. No exemplo da árvore, com a presença
da erva parasita sugandolhe a seiva, ou de insetos
daninhos que a exploram, a morte por exaustão é
inevitável. Do mesmo modo ocorre conosco: ao
carregarmos parasitas psíquicos que nos debilitam,
interferindo em nosso comportamento, tal qual acontece
no reino vegetal, eles passam a ter controle e força sobre
a sua vítima, que se exaure e consome. As raízes do
invasor alcançam as sedes vitais do sustentáculo e, se são
extirpadas com violência, logo advém a morte do
receptor.1 A terapia dirigida ao paciente assemelha-se à
providência junto à árvore explorada: retirar o parasita,
sustentar o tronco e cuidar da seiva. Ao ser humano
deve-se oferecer recurso, a fim de que os plugues de
fixação (as raízes) se desloquem das tomadas por falta de
imantação e, lentamente, o agente estranho e explorador,
devidamente esclarecido (qual parasita vegetal da árvore,
podado) seja retirado sem maiores prejuízos para o
hospedeiro. Fez uma pausa mais expressiva e continuou:
Quando as criaturas nos conscientizarmos dos resultados
excelentes do equilíbrio mental, das ações nobres, da
conversação edificante, em últimas palavras, da vivência
das diretrizes do Evangelho de Jesus, a obsessão
desaparecerá do nosso mapa evolutivo por total
desnecessidade. Não obstante, enquanto houver
predomínio na natureza humana dos baixos níveis de
conduta, das aspirações brutalizadoras, o intercâmbio de
energias desse gênero produzirá afecções psíquicas
duradouras, com terríveis reflexos na saúde física. A
mente que se fixa sobre outra, sendo portadora de carga
predominante, sobrepor-se-á, passando ao comando. A
energia deletéria de que se constitui bloqueará o campo
de equilíbrio da vítima ou o destroçará, forçando a
instalação de germes e vírus destruidores ou
transmitindo, em outros casos, os sintomas das
enfermidades que levaram o hospedeiro à
desencarnação, atacando o órgão correspondente e
contaminando-o com a mesma doença. Essas obsessões
físicas, muitas vezes, tomam corpo mais amplo e
vigoroso em processos de cegueira, mudez, surdez,
paralisias diversas, por interferência de onda mental
prevalecente sobre o corpo debilitado. Nos inúmeros
atendimentos terapêuticos realizados por Jesus,
encontramos este tipo de ação perniciosa, e os
narradores evangélicos expressam que Ele destravou a
língua, abriu os olhos fechados e os ouvidos,
desenovelou as pernas impedidas, liberou da constrição
dominadora das forças que subjugavam os doentes e os
infelicitavam. De fato intervim Allan Kardec, ao estudar a
obsessão, no capítulo XXIII, de O Livro dos Médiuns,
comenta a experiência de um homem a quem os
adversários desencarnados, com o fito de o
ridicularizarem, agarravam-no pelos jarretes obrigando-o
a ajoelhar-se diante de jovens senhoritas e ele não se
podia furtar à situação vexatória. Quando na Terra,
conheci diversos casos de pessoas com tuberculose
pulmonar e laríngea provocada pela interferência de
inimigos desencarnados. As úlceras gástricas e duodenais,
além das gêneses acadêmicas conhecidas, alguns
distúrbios cardíacos e hepáticos, do aparelho digestivo
em geral, têm procedência nessa terrível, contínua
emissão de fluidos enfermiços que se infiltram nos
órgãos, que atacam e lhes descompensam o ritmo
celular, funcional, provocando-lhes degenerescência...
Concluímos obtemperou o companheiro quanto à
excelência da terapia preventiva, mediante a preservação
da saúde moral, do autoconhecimento, do cultivo e
vivência das ideias estimuladoras do progresso, da
harmonia e do bem geral, que mantêm a dinâmica do
equilíbrio, irrigando a vida com paz e sustentando-a em
níveis elevados. O indivíduo, pois, é responsável, próximo
ou remoto, por tudo quanto lhe sucede. Conforme aspira,
delineia, e de acordo com o que vitaliza, ocorre. Quando
nos despedimos e fiquei a sós, pus-me a reflexionar a
respeito das perspectivas novas ora em delineamento. A
visão holística da saúde considerei mentalmente possui
grande abrangência de temas. Nessa interdependência
de questões que predispõem à doença ou fomentam o
bem-estar, constata-se a necessidade de uma equilibrada
observância de itens de natureza ética em vários ramos
do conhecimento, contribuindo para a harmonia. O efeito
mais imediato não deve ser o único a receber
consideração e interrupção, pelo fato de ser, de alguma
forma, possível consequência de outros fatores que
permanecem ocultos. O terapeuta alarga, então, os seus
horizontes de ação e transita por diferentes métodos que
se ampliam desde as experiências psicológicas às
psicobiofísicas, aos acontecimentos ambientais,
ecológicos, sociais, morais e econômicos, assim
tornando-se um verdadeiro sacerdote do bem, e não
apenas um saneador de consequências. Sem o
conhecimento do Espiritismo, difícil lhe será distinguir se
uma enfermidade física resulta de uma indução
obsessiva, ou se uma alienação mental não é portadora
de típica psicogênese. O preconceito ancestral que
separava a Física da Metafísica esfacelouse, a Medicina
das Terapias Alternativas e das doutrinas psíquicas em
geral, e da espírita em particular, cede lugar a um
perfeito entrelaçamento para identificação correta do
homem e suas necessidades, assim como dos melhores
processos para a sua promoção, o seu equilíbrio humano,
espiritual e social. Não havia dúvida a respeito das
perspectivas em tela que me eram muito agradáveis e
convidativas, prenunciando-me expressivo
enriquecimento interior. Nesse comenos, olhei a Terra
próxima, envolta nas sombras da noite, diluídas pela
luminosidade das estrelas, e deixei-me dominar por uma
onda de gratidão à abençoada escola das almas,
acolhedora e incompreendida, que espera por nós.
Reflexões e expectativas No dia seguinte, à hora
convencionada, da qual eu fora informado pela manhã, o
Dr. Carneiro de Campos e outro Amigo vieram ter
comigo, a fim de seguirmos à cidade X..., que seria sede
das nossas atividades. Antes de iniciarmos a jornada, o
benfeitor que se responsabilizava pela tarefa apresentou-
nos, o seu acompanhante e nós, facilitando-nos imediato
intercâmbio de ideias e um saudável relacionamento. O
nosso Fernando esclareceu-me o médico baiano foi
dedicado espiritista, na Terra, havendo exercido o
ministério mediúnico com significativa abnegação.
Participa da presente jornada, a que está acostumado,
para cooperar com a sua faculdade colocada a serviço do
bem em próximas necessidades. Sem aparência de
preocupação para impressionar-me, portanto, com
naturalidade, porque chamado nominalmente à
conversação, ele explicou: Durante algumas décadas
entreguei-me ao serviço da mediunidade curativa,
embora a psicofonia e a clarividência me fossem
habituais. Por esse tempo, o preconceito contra o
Espiritismo e a mediunidade era muito forte, e não
obstante as pessoas procurassem os benefícios que
ambos proporcionam, mantinham suas ideias
equivocadas e prejudiciais. Apesar disso, pude atender ao
compromisso que assumira antes da reencarnação com
relativa facilidade. Àquela época, as pessoas que se
inclinavam à pesquisa mediúnica e ao estudo da Doutrina
Espírita afeiçoavam-se a ambos os misteres com espírito
de dedicação. Havia, certamente, menos recreios e
diversões, menos necessidade de espairecimento, e os
veículos de comunicação eram mais comedidos, não
estando no ar ainda os valiosos recursos da televisão. As
dificuldades, que eram muitas, qual hoje ainda acontece,
tornavam os interessados mais maleáveis à consolação e
à fidelidade doutrinária, à vivência dos postulados aceitos
e à ação da caridade ao próximo com maior entrega
pessoal. Houve, suponho, uma alteração de
comportamento psicológico cujas causas não vêm ao
caso examinar que parece haver tornado os indivíduos
mais instáveis, inseguros, áridos e ansiosos por
novidades. Com a escassez de tempo para
aprofundamento do estudo espírita, tendo-se em vista as
grandes exceções, observo que as adesões, apesar de
numerosas, são sucedidas por deserções expressivas e
variações de buscas espiritualistas e de prazeres que
impedem a autodoação, a dedicação. A mediunidade
vem-se tornando instrumento de autopromoção, a
prejuízo da qualidade ética e espiritual do fenômeno, e
diversos companheiros, impressionados com eles
mesmos, narcisisticamente arrojam-se às disputas, ao
campeonato da projeção pessoal, perseguindo o aplauso
da Terra, os primeiros lugares, as competições insensatas,
distantes dos sentimentos de renúncia, de vera
humildade, de legítimo amor. Interrompeu-se por alguns
instantes e deu prosseguimento aos seus oportunos
apontamentos: Naturalmente, no passado, ocorriam
também esses fenômenos, porém, em menor escala,
razão por que não devemos estranhar a sua atual
manifestação. Sucede que as frivolidades campeiam, os
disfarces e simulações aumentam nesta área, e a indústria
dos presentes, isto é, a retribuição aos favores
mediúnicos mediante doações de objetos e vestuário de
uso pessoal, vem--se tornando uma motivação sub-
reptícia para o envolvimento dos trabalhadores
distraídos, com esquecimento do carinho e devotamento
àqueles que os não podem recompensar e são, como é
óbvio, os mais necessitados. Não é do nosso interesse
censurar ou lamentar o fato, cuja responsabilidade é
individual e intransferível, senão examinar e advertir os
sinceros obreiros que, na mediunidade, encontram o
abençoado instrumento para o serviço da
autoiluminação, bem como a do seu próximo, tanto
quanto para expandir a Verdade entre os homens. Somos
daqueles que consideram úteis todas as religiões dignas
e filosofias espiritualistas, necessárias e portadoras de
elevadas contribuições para o bem da sociedade.
Entretanto, a viagem de retorno de um espírita a uma
outra denominação religiosa surpreende-me, ao tempo
em que lhe compreendo a conduta. A surpresa decorre
do fato de identificar no Espiritismo o Consolador
prometido por Jesus, a Ciência que abarca o
conhecimento sob diversos matizes, e a Filosofia
esclarecedora, lógica, otimista, que propicia uma vivência
ideal, seja sob o ponto de vista pessoal ou pelo inter-
relacionamento social que proporciona, não havendo
razão para quem a conhece desprezá-la. Sucede, porém,
que ela impõe, como é natural, uma vida saudável, sem
oferecer recursos para o escapismo insano, o que é um
compromisso grave. E compreendo a atitude daqueles
que desertam, por acreditar que eles preferem uma
religião que faculte menores responsabilidades, ou
filosofias espiritualistas que se mesclam umas nas outras,
apresentando propostas bizarras, variantes, compatíveis
com os modismos vigentes em toda parte. Todavia,
respeito toda forma de crença e de não crença, de
comportamento e de vida, buscando aprender com as
criaturas e suas experiências, vinculado, cada vez mais, à
Doutrina Espírita, que me concedeu paz e liberdade,
ocasião de trabalho renovador e mais amor ao meu
próximo. Quando o caro Fernando concluiu o seu
pensamento, dei-me conta de que também eu assim
reflexionava diante de muitos sucessos que acompanhava
no Movimento Espírita em particular, e, por extensão, na
sociedade em geral. O Espiritismo, pela sua simplicidade,
possui todas as condições propostas por Jesus a respeito
do Consolador, ao tempo que se fundamenta em uma
filosofia de excelente qualidade, cujos postulados têm
suas raízes no idealismo de Sócrates e Platão, sem entrar
em choque com o pensamento oriental antigo, do qual
se derivaram o Bramanismo, o Budismo, o Taoismo...
Considerando o homem um ser integral na sua
complexidade, faculta-lhe a conquista da plenitude
mediante o esforço pessoal, intransferível, acenando-lhe
sempre com a possibilidade de conquista de novos e
mais elevados patamares na escala da evolução que o
aguarda. Em nossas conversações frequentes com os
mentores, sempre lhes percebíamos a natural
preocupação com os companheiros encarnados,
portadores de responsabilidades na área espírita, que se
deixam distrair pelas querelas inúteis e debates
injustificáveis na defesa de pontos de vista doutrinário,
tomando rumos estranhos pelos desvios de rota,
descuidando-se do essencial em favor do secundário. Por
outro lado, observo que esse comportamento
apaixonado, na área espiritual e num grupo reduzido de
profitentes, torna-se mais expressivo e grave no
comportamento social que envolve as massas, e os jogos
de interesses assumem proporções imprevisíveis, levando
os indivíduos à agressividade, à violência, assim liberando
as altas cargas das paixões inferiores, filhas diletas do
egoísmo. A dedicação com fidelidade e firmeza de
caráter a qualquer causa é sempre um grande desafio ao
homem, especialmente por exigir-lhe vivência do ideal
esposado com tolerância para com todos quantos lhe
compartem ou não a opinião.
É de considerar-se, entretanto, que na atual conjuntura
do planeta, em face da paisagem moral daqueles que o
habitam, essa ocorrência se faça normal, até que o
próprio mecanismo do progresso impulsione as criaturas
pelo roteiro correto. O amigo Fernando, percebendo-me
as reflexões silenciosas, despertou-me, gentilmente, para
a hora que se aproximava, em razão de o Dr. Carneiro de
Campos já se dispor a dar início à excursão programada,
para a qual eu fora convidado. Do nobre benfeitor
ouvimos as referências sobre as atividades a desenvolver
e as instruções pertinentes. Iniciávamos, a partir daquele
momento, novas experiências e aprendizado, que nos
iriam enriquecer de conhecimentos para as realizações
futuras.
O médium Davi e o Dr. Hermann Grass A primeira fase
das nossas observações teria lugar em uma Sociedade
Espírita, na qual se realizavam cirurgias mediúnicas,
objetivando a ação da caridade em favor de enfermos
portadores de patologias variadas. Ao chegarmos, fomos
recebidos pelo respeitável mentor da Instituição que,
afável, nos conduziu à intimidade da ampla Casa, já
àquela hora repleta de pessoas ansiosas, bulhentas e
inquietas, assim como de Entidades viciosas, perturbadas,
zombeteiras, obsessoras, em lamentável promiscuidade
psíquica com os seus hospedeiros, exsudando miasmas
perniciosos que empestavam o recinto com altas cargas
de energia negativa. Percebendo-me a perplexidade, que
não pude dissimular, o irmão Vicente, nosso anfitrião,
como justificando a ocorrência, elucidou: Nossa Casa foi
fundada há mais de uma trintena de anos por abnegados
corações, que planejavam dedicar-se à vivência dos
postulados espíritas. Estabelecido o projeto e tendo-se
em vista a excelência dos propósitos acalentados, fomos
destacados para cooperar com esses amigos, de forma
que o programa se tornasse realidade. Naquela ocasião,
as dificuldades para a materialização da ideia eram
muitas, seja pelos preconceitos existentes na cidade, em
relação ao Espiritismo, seja pela inexperiência dos
membros do grupo. Todos, porém, uniram-se com
devotamento e deram início ao trabalho. Interessados em
aprofundar os conhecimentos da Doutrina, para mais e
melhor servirem, estabeleceram um roteiro de estudos e,
pouco a pouco, conseguiram uma casa de aluguel, que
viriam a adquirir mais tarde, reformando-a, por diversas
vezes, para que atendesse às necessidades de
crescimento, resultando no bem equipado edifício no
qual nos encontramos. Alguns dos fundadores já
desencarnaram e hoje cooperam conosco, tentando
preservar os objetivos iniciais que os emularam ao labor.
Sucede, porém, que no último ano, por distração, os
atuais administradores, muito preocupados com os
fenômenos mediúnicos em detrimento dos objetivos
essenciais da Doutrina, cederam às pressões psíquicas
dos Espíritos levianos, e, não obstante as nossas
incessantes admoestações e advertências, enveredaram
pelo sinuoso caminho das curas e cirurgias mediúnicas,
atraindo multidões de necessitados, portadores, porém,
de total desinteresse pela cura real, que transformaram o
recinto no tradicional pátio dos milagres impossíveis.
Diariamente, ou melhor dizendo, especialmente duas
vezes por semana, desde a noite de véspera, afluem
enfermos de todos os matizes, para a maioria dos quais a
doença ainda é a melhor terapêutica de iluminação,
desejosos, no entanto, da cura sem responsabilidade e da
saúde sem compromisso de elevação moral. Temos
redobrado esforços para deter a invasão dos Espíritos
perniciosos, sem faltar-lhes com a caridade fraternal;
todavia, a ambição do sucesso e do estrelismo tomou
conta dos companheiros encarnados, que assim nos
dificultam o auxílio a eles próprios. Esta a razão de
havermos solicitado a ajuda dos amigos que ora nos
visitam. Silenciando, deixou-nos a oportunidade para
observações mais cuidadosas. Sem dúvida, as construções
magnéticas de proteção à Casa e a algumas criaturas
permaneciam; entretanto, em razão do tumulto reinante
e das descargas mentais arrojadas quão destrutivas,
enxameavam as ideoplastias perturbadoras, e a psicosfera
predominante era caracterizada pelo baixo teor dos
fluidos tóxicos.
Obsidiados com profundas parasitoses espirituais
apresentavam enfermidades físicas, cujas causas estavam
nos distúrbios provocados pelos seus perseguidores,
misturando-se a portadores de cardiopatias graves,
paralisias, neoplasias malignas, doenças oculares e
respiratórias, numa variada e complexa gama de
problemas cármicos, sem possibilidade de solução por
motivos óbvios. A leviandade grassava à solta, ao lado da
simonia sob disfarce mal cuidado. Uma equipe de
encarregados da orientação aos pacientes vendia fichas
de atendimento, sob a alegação de que o material
utilizado nas cirurgias era de alto custo e o seu volume
sobrecarregava a Sociedade, sendo, portanto, justo que
os enfermos assumissem parte das despesas com o seu
tratamento. Todos anuíam com o absurdo, sem
preocupação ética, interessados, apenas, em resultados
que lhes parecessem favoráveis. Atraídos por uma bem
urdida propaganda e pela divulgação por meio da
televisão que acompanhara algumas das incursões
cirúrgicas e por depoimentos de pessoas que se
afirmavam curadas, de todos os lugares possíveis
chegavam aflitos em busca de solução para os seus
males físicos, mentais, espirituais e morais...
Paralelamente, amigos do médium eram saudados com
sorrisos e gentilezas, mimoseados com presentes pela
clientela habitual, que sempre trazia novos candidatos em
uma excêntrica mistura de ação social, caridade e
comercialismo vil. Nesse momento, no amplo salão
abarrotado, alguém assomou à mesa sobre um estrado e,
após despertar a atenção, pedindo silêncio, arengou: Está
chegando o momento, fazendo-se necessário preparar o
ambiente para as curas. Depois de enunciar algumas
palavras desconexas, à guisa de oração, e recitar, sem
qualquer emoção, o Pai-Nosso, que foi acompanhado em
coro, sem nenhuma participação do sentimento, abriu um
volume de O evangelho segundo o espiritismo, de Allan
Kardec. Ao fazê-lo, no entanto, percebemos que o irmão
Vicente encaminhou-lhe a mão, em um aparente gesto
casual, e ele leu o título da página: Os falsos profetas da
erraticidade.2 Notei-lhe a reação psíquica à oportuna
lição, que advertia sobre a interferência dos Espíritos
irresponsáveis na conduta dos homens invigilantes. Ele
havia captado a mensagem que o instrutor da Casa
levara-o, inconscientemente, a buscar. Superando o
desgosto momentâneo, leu-a de maneira indigesta, como
se estivesse a desobrigar-se de algo muito desagradável.
Entreteceu comentários que nada tinham a ver com a
leitura, procurando esclarecer os pacientes em relação ao
comportamento durante e depois das cirurgias
mediúnicas. Apelava para a dieta alimentar, com
proposital olvido daquela de natureza moral, e sobretudo
para a fé que dá merecimento... Ainda não terminara,
quando deu entrada no recinto o médium, cercado de
protetores encarnados, que o acolitavam com mesuras e
delicadezas perfeitamente dispensáveis. O grupo de
companheiros era assessorado por Espíritos semelhantes,
trêfegos e zombeteiros, que se compraziam tomando
parte no séquito inusitado. Aproximei-me do caro
Vicente que, compreendendo minhas interrogações
silenciosas, explicou: Sim, aquele é o nosso amigo Davi,
que se entregou à mediunidade, derrapando, todavia,
lamentavelmente, no personalismo doentio e na
presunção exacerbada, agora experimentando complexo
problema de obsessão com destaque na área da conduta
sexual. É o que sucede com frequência aos portadores de
mediunidade, que se obstinam em desconhecer a
Doutrina Espírita, que a todos propõe os programas
saudáveis da moral e da iluminação íntima. Mediunidade
sem Doutrina pode ser comparada a veículo sem freio
avançando na direção do abismo. A mediunidade é
sempre compromisso de redenção que o Espírito assume
antes da reencarnação, especialmente aquela que tem
expressão ostensiva, rica de possibilidades para a
edificação do bem nos indivíduos. O nosso amigo Davi é
consciente das responsabilidades que lhe dizem respeito
no exercício mediúnico. Todavia, corrompeu-se,
deixando-se subornar pelo dinheiro e presentes valiosos,
que lhe despertaram velhas chagas morais do passado,
então adormecidas, tais a vaidade, a soberba, a
ingratidão e outras... Após vincular-se psiquicamente a
hábil cirurgião desencarnado, porém antigo cidadão de
péssimos costumes, entregou-se aos tratamentos
mediúnicos, sem nenhum respaldo evangélico para
sustentar-lhe o comportamento ético. Vivendo a
psicosfera do companheiro afim e de outros comparsas,
vem tombando no abuso das funções genésicas,
asseverando que a mediunidade e a sua prática nada têm
a ver com os prazeres atormentados do sexo sem amor...
Detendo-se em breve reflexão silenciosa, prosseguiu: Há
muitos médiuns, enganados e enganadores, neste
momento tortuoso do mundo que, em vez de
moralmente disciplinarem-se, justificam a conduta
irregular, dissociando o medianeiro da pessoa, e
alegando que, após a desincumbência do ministério, são
criaturas iguais às demais, portanto com os mesmos
direitos, especialmente na conturbada expressão sexual.
Não discrepamos quanto aos direitos dos médiuns ou de
outras pessoas, porém não nos podemos esquecer dos
seus deveres de homens e mulheres probos, com
responsabilidades no campo espiritual, que não podem
ser conduzidas com ligeireza moral ou leviandade. A
conduta é muito importante, mental e física, seja de
quem for, porquanto é por meio dela que se mantém a
sintonia com os Espíritos, conforme também ocorre entre
os homens na esfera social. Quem conhece a verdade
assina compromisso com ela, e todo aquele que se
identifica com os postulados da imortalidade deve viver
de forma consentânea com essa crença, ou, do contrário,
a sua é uma aceitação falsa, destituída de fundamento e
legitimidade. O amigo Davi procede de experiências
reencarnatórias assinaladas por graves insucessos,
havendo investido muitos valores e a interferência de
abnegados mentores para lograr esta oportunidade que,
infelizmente, malbarata, atraindo consequências muito
dolorosas para ele mesmo. Quando se apresentou em
nossa Casa, pedia apoio para atendimento da
mediunidade de prova, que o aturdia muito. Portador de
promissoras faculdades de efeitos físicos, psicofonia,
clarividência e clariaudiência, que se manifestaram desde
a adolescência, produzindo-lhe compreensíveis aflições,
estas eram recursos que lhe ensejavam retificação de
hábitos e morigeração de conduta, convidando-o a
procedimentos saudáveis. Espírito rebelde, porém,
embora conduzido a uma Sociedade Espírita, permitiu-se
a indisciplina e o abuso nas atitudes mais simples.
Benfeitores espirituais programados para colaborarem
com ele, junto aos necessitados, foram lentamente
rechaçados nos seus propósitos superiores, por se negar
com frequência aos exercícios de educação moral e
emocional, sobrecarregando-se com o excesso de
alimentos portadores de altas doses de toxinas e,
sobretudo, cedendo espaço mental, de início, a vícios
danosos que o retêm na ação perniciosa. Com o tempo
adicionou alcoólicos às atividades normais, impedindo o
intercâmbio com aqueles nobres instrutores, que jamais o
abandonaram. Como os espaços de toda natureza nunca
permanecem vazios por muito tempo, não faltaram
companheiros desencarnados ociosos e vulgares para
acorrerem na sua direção preenchendo as suas
necessidades, destacando-se o Dr. Hermann Grass, que
exerceu a Medicina terrestre com atropelos morais e sem
a ética conveniente. Hábil cirurgião, preferiu dedicar-se
ao aborto criminoso, contraindo pesados débitos perante
a própria consciência e a Consciência Cósmica. Ao
desencarnar, sofrendo amargamente, tornou-se vítima
direta, que já o era indiretamente, de terrível verdugo da
Erraticidade mais inferior que o explorava desde antes,
fazendo-o mais infeliz. O processo de vampirização
alongou-se por vários anos, complicado pela presença
vingadora de algumas das suas vítimas. Depois de um
largo período de sofrimento, desvinculouse do
antagonista e passou a ligar-se ao médium Davi, em
quem encontrou recursos para reabilitar-se dos delitos
por meio das ações dignificantes que viesse a realizar. Os
mentores do médium viam na circunstância uma fórmula
feliz para que ambos se ajudassem, enquanto eles
próprios se dignificavam. No começo, o Dr. Hermann
encontrou estímulos para essa reabilitação, de que se foi
descuidando à medida que aumentava o número de
necessitados, e o caráter do médium se amolentava
diante dos resultados materiais obtidos. Detendo-se em
reflexão, e com um toque de bom humor, Vicente
continuou: O melhor amigo de todo médium, no seu
processo de evolução, é sempre a dificuldade, que o
impele ao bem, à oração, à meditação, conduzindo-o à
humildade... Não são poucos aqueles que soçobram nas
águas turvas da vaidade e da presunção, enxameando
por toda parte e tombando em sutis quão perigosas
obsessões que passam a experimentar. No caso em tela,
os Amigos espirituais, conhecendo-lhe as necessidades
emocionais, programaram a reencarnação de Adelaide,
antigo afeto a que se vinculava o médium,
providenciando-lhe o consórcio matrimonial, a fim de
que não experimentasse carência afetiva e pudesse, desse
modo, dedicar-se à mediunidade em regime de plenitude
relativa. Da união nasceram-lhe dois filhinhos, que são do
mesmo grupo familiar e que estão quase esquecidos pelo
pai, logo passada a novidade. Arrependido do
casamento, que considera a perda da liberdade pessoal,
ante as facilidades para o exercício do sexo em desalinho,
procura desincumbir-se do compromisso sem a seriedade
e a emoção que os deveres de esposo e pai lhe
impõem... Desse modo, em razão da auréola de
paranormal, que deslumbra os ociosos e simplórios,
passou à conquista de jovens e senhoras imprevidentes,
incidindo em outro gênero de delitos. Por consequência,
caminha a largos passos para uma tragédia que está
sendo urdida pelos seus adversários, os quais o induzem
aos deslizes constantes. Seguindo em direção a pequeno
cômodo ao lado da sala das sessões, o médium e sua
corte desapareceram dos olhos deslumbrados da
clientela que mal sopitava a ansiedade. O orador, que
havia interrompido a lenga-lenga, deu-lhe
prosseguimento, conclamando os interessados à
concentração e que se não esquecessem da doação da
espórtula para ajudar a manutenção das obras de
caridade da Casa. O pedido aberrante caracterizava o
baixo nível moral do solicitante, que via nas criaturas
presentes somente um meio acessível para a sistemática
exploração. Compreende-se o conceito que assevera:
Onde predomina o interesse pelo dinheiro escasseiam as
austeridades morais, particularmente onde deve viger a
gratuidade dos serviços, desde que se derivem da ação
mediúnica. A Sociedade Espírita é lugar de iluminação da
consciência, de enobrecimento moral e ação caridosa,
sem cujas vivências descaracteriza-se, mundaniza-se e
torna-se um clube onde predominam a insensatez, o
engodo, a exploração.
A convite do amigo Vicente adentramo-nos, os visitantes
e ele, no cômodo onde Davi se preparava para as
atividades mediúnicas. O recinto transpirava perturbação.
As mentes ansiosas impunham suas aspirações sobre o
médium, que se sentia inquieto interiormente, embora
demonstrasse jovialidade aos seguidores fascinados.
Ideoplastias negativas, clichês mentais e vibriões
psíquicos enxameavam no ambiente, tornando-o
irrespirável. Igualmente misturavam-se os Espíritos em
aturdimento constrangedor, alguns tentando interceder
pelos familiares enfermos, que aguardavam ajuda, outros
em promiscuidade de paixões, gerando um pandemônio
de difícil descrição. Subitamente a algazarra cessou, e
vimos entrar o Dr. Hermann Grass acompanhado pelos
auxiliares espirituais. Vicente apresentou-lhe o Dr.
Carneiro de Campos, Fernando e nós, informando que
nos houvera convidado, a fim de que participássemos
das atividades daquela noite. Elucidou que o Dr. Campos
havia sido médico, na Terra, e prosseguia com os estudos
nessa área, e que nós outros éramos, ambos,
interessados nas alienações mentais por obsessões. Não
ocultando um certo desagrado, agradeceu-nos a
presença, dizendo-se às ordens para quaisquer
esclarecimentos em torno do seu trabalho cirúrgico.
Compreendemos a gravidade da circunstância e do
momento, que o Dr. Campos contornou com delicadeza.
O nosso esclareceu é o interesse de aprendizes que
buscam aprimorar técnicas socorristas para melhor
atendimento das criaturas humanas, e é nesta condição
que aqui nos encontramos. Surpreendido com a
elucidação e atingido pela onda mental de simpatia do
benfeitor, ele desarmou-se emocionalmente, pedindo
licença para dar curso ao compromisso assinalado.
O desafio O médium Davi procurou concentrar-se,
tentando entrar em sintonia com o Amigo desencarnado.
A mente em desalinho, repleta de clichês sensuais,
impossibilitava-o de manter o pensamento numa faixa de
equilíbrio que lhe propiciasse a dilatação do campo
perispiritual, indispensável ao fenômeno da psicofonia e
do comando do centro dos movimentos pelo
desencarnado. As ideias vulgares cultivadas criavam um
envoltório de energia densa, negativa, que impedia a
exteriorização parcial do Espírito encarnado e a captação
da que provinha do cirurgião espiritual. Da área genésica
do médium em busca de harmonização íntima
exteriorizavam-se ondas escuras, saturadas de baixo teor
vibratório, traduzindo promiscuidade e cansaço das
células geradoras de vitalidade, que se debatiam em luta
vigorosa contra agentes psíquicos destruidores que
tentavam invadi-las, para desarticular-lhes a mitose
durante a prófase, dando início a processos patológicos
irreversíveis. Por outro lado, o Dr. Hermann acercou-se
do sensitivo e o envolveu com vigorosas vibrações que o
alcançaram, rompendo a camada sombria que lhe
impossibilitava o perfeito acoplamento psíquico. O
esforço conjugado de ambos resultou em bemsucedido
fenômeno mediúnico. Não obstante, observamos que o
receptor, em razão das barreiras a que a sua conduta
censurável dera lugar, convulsionou, projetando os olhos
um pouco para fora das órbitas e tomou uma postura
diferente da sua personalidade, traindo, desse modo, o
domínio do comunicante que lhe obnubilou quase
totalmente o centro da consciência. Abordando os
presentes com expressões afetuosas, apesar do seu estilo
rude, solicitou que lhe fosse trazido o primeiro paciente.
Nesse comenos, os trabalhadores espirituais da Casa, sob
o comando de Vicente, estabeleceram as defesas
vibratórias até então não conseguidas em razão da
perturbação reinante no recinto. Aproveitando-se do
momentâneo clima de expectativa geral, e de algumas
mentes que sinceramente se concentravam em Deus e
nas ideias superiores, esses laboriosos servidores
distendiam telas magnéticas que circundavam a sala,
enquanto uma lâmpada projetava irradiações
semelhantes ao laser, com potencial bactericida,
responsável pela assepsia, anestesia e hemóstase nos
pacientes durante a incursão cirúrgica. Simultaneamente,
outros Espíritos que haviam sido médicos na Terra,
acercaram-se do cirurgião-chefe, responsabilizando-se
por diferentes especialidades, já que o Dr. Hermann
preferia operar as neoplasias, especialmente as de caráter
maligno ainda sem metástases, o que lhe facultava dar
largas à presunção, apresentando ruidosos espetáculos
que divertiam a clientela e perturbavam alguns
facultativos convidados ou que, curiosos, acorriam para
acompanhar-lhe as demonstrações. O que deveria ser
realizado com unção e respeito, a pretexto falso de
comprovar a imortalidade da alma, convertia-se em
cenário para exibição teatral. A primeira paciente era
portadora de uma pequena tumoração da mama
(displasia), que a afligia sobremaneira. Atemorizada pelos
resultados da tomografia e do aconselhamento médico
para a pequena cirurgia, acreditava-se ludibriada,
receando tratar-se de um câncer, havendo recorrido, por
isso, ao auxílio espiritual. A pobre tremia, vitimada por
acentuado desequilíbrio nervoso, e notava-se-lhe a face e
os olhos congestionados por efeito das últimas noites
maldormidas e do choro contínuo. Mandando-a deitar-se
na mesa de curativos, ora transformada em cirúrgica, o
Dr. Hermann pediu à auxiliar que desembaraçasse a
paciente da blusa e sutiã, tocando a região afetada. De
pronto deu-se conta da quase nenhuma gravidade do
problema, o que lhe facultaria uma bela atuação
cirúrgica. Tomando de uma lâmina e sem desinfetá-la,
começou o trabalho, que se nos afigurava hábil e
grotesco, em face da introdução dos dedos com o
objetivo de separar os tecidos que envolviam o nódulo
displásico. Ante o temor da senhora, exortavaa,
rudemente, à fé em Deus e nele, conseguindo, em
poucos minutos, extirpar o pequeno tumor. Exibindo-o,
informou que se poderia fazer o estudo patológico e se
constataria a presença das células cancerosas. Ato
contínuo, atirou-o a um recipiente reservado à coleta das
peças extraídas. Uniu as bordas da incisão, da qual não
brotava sangue, colou esparadrapo, enfaixou com gaze a
operada e, todo sorrisos diante da aclamação geral,
mandou-a retirar-se, convocando outro paciente. O novo
cliente era portador de uma catarata que lhe ameaçava a
vista esquerda, tal a dimensão que assumira. Assistido
por jovem médico oftalmologista desencarnado e
membro da equipe, fez a remoção da película opacificada
e colocou um chumaço de algodão, preso por
esparadrapo sobre o olho, recomendando o curativo para
três dias depois. Desfilaram quase oitenta pacientes,
diferindo em pouco os problemas que os afligiam. A
maioria trazia perturbações psicossomáticas, enquanto
alguns outros portavam enfermidades diversas. Não
obstante, não fora realizada cirurgia alguma de grande
porte ou em órgãos essenciais e de difícil acesso, embora
tal incursão fosse possível. Eram somente tentames que
provocavam mais pasmo do que renovação moral,
ajudando na propaganda dos efeitos. O amigo Vicente,
percebendo-me a perplexidade e as mudas
interrogações, com discrição e respeito, veio-me em
socorro. O nosso Dr. Hermann disse com certa
melancolia poderia realizar um trabalho precioso em
favor do próximo, imprimindo dignidade ao fenômeno
mediúnico e à imortalidade da alma. Afim, moralmente,
com o instrumento de que se utiliza, quando constata
um grave problema de saúde, que não pode resolver,
apela para a informação de que se trata de carma e o
paciente deve recorrer à Medicina terrestre, como se não
o fossem todos os fenômenos afligentes que procedem
do passado remoto ou próximo... Certamente, a função
da mediunidade não é de promover curas, como
arbitrariamente supõem e pretendem alguns
desconhecedores da missão do Espiritismo na Terra.
Fossem eles vinculados à Doutrina e seria
incompreensível tal comportamento. Entretanto, em uma
Sociedade Espírita, a tarefa primacial é a de iluminação
da consciência ante a realidade da vida, seus fins, sua
melhor maneira de agir, preparando os indivíduos para a
libertação do jugo da ignorância, a grande geradora de
males incontáveis. Apesar disso, o amor de Deus permite
que nós também, os desencarnados, procuremos auxiliar
as criaturas humanas, quando enfermas, sem nos
entregarmos à injustificável competição com os médicos
terrenos, fazendo crer que tudo podemos... Silenciou por
breves minutos e logo prosseguiu: Os curados, qual
ocorreu ao tempo de Jesus, prosseguem como antes,
com raríssimas exceções, retornando quando adquirem
novas mazelas e mandando outros enfermos, que se
sucedem, em espetáculos lamentáveis. Não cuidam de
remover as causas morais das suas doenças mediante a
adoção de uma conduta correta, de um trabalho fraternal
de socorro, de educação pessoal, de modo que possam
entender os fundamentos da vida e, transformados
interiormente, contribuam em favor de uma sociedade
mais justa e mais feliz. Somente quando o homem
assumir suas culpas, delas reabilitando-se; suas
responsabilidades, aplicando-as numa vivência correta;
sua consciência, agindo com equilíbrio, é que ocorrerá a
sua integração plena na vida com saúde e paz.
Utilizando-se dos mecanismos escapistas a que se aferra
e escamoteando o dever, apenas logra adiar o
enfrentamento com os problemas que gera, com as
dores que desencadeia, portanto, consigo próprio.
Ninguém se evade indefinidamente da sua realidade.
Buscamos auxiliar estes labores que foram instalados em
nossa Casa, à nossa revelia, porque os necessitados,
embora ignoremos os problemas reais que os tipificam,
são credores de compaixão e amor, constituindo-nos
oportunidade para treinarmos paciência e caridade.
Acreditamos, porém, que, em face da conduta do pobre
médium, em breve teremos esses serviços interrompidos,
quando então retornaremos às bases do compromisso
que ficou esquecido. Permanecemos em reflexões
profundas, constatando a excelência e oportunidade dos
argumentos do amigo, considerando, sobretudo, a
transitoriedade do corpo, que sempre está sujeito a
alterações que decorrem da sua estrutura frágil e
complexa, invariavelmente vítima da condução irregular
que lhe impõe o Espírito reencarnado. O homem-espírito
é um ser eterno, e as suas experiências no corpo
constituem-lhe metodologia para aprendizagem dos
valores elevados e fixação deles no imo. Não me pude
deter em mais amplas reflexões, porque, nesse momento,
uma agitação e gritaria infrene tomaram conta do
pequeno recinto. Tratava-se de uma senhora de parcos
recursos econômicos, visivelmente mediunizada, em
largo processo de obsessão, que vinha trazida à força por
vários homens, simples e bulhentos. O suor lhes escorria
em bátegas, traduzindo o esforço de que se viam objeto.
A aturdida, desgrenhada, com os olhos um tanto fora das
órbitas, as mãos crispadas, a boca em rictos de
crueldade, pálida e anêmica pela demorada vampirização
que padecia, quando foi atirada na direção do Dr.
Hermann, gargalhou, zombeteira: Eu o conheço, charlatão
gritou com voz estentórica. Percebi que os dois
desencarnados viram-se, sem a necessidade do
instrumento ocular dos médiuns. O cirurgião acercou-se
e aplicou ruidosa bofetada na face da obsessa,
desculpando-se: Trata-se de um episódio histérico e este
é o melhor recurso disponível no momento. Notei que as
pessoas estavam estarrecidas, receosas. O obsessor,
indiferente ao golpe que a sensitiva sofreu, sem o temer,
voltou à carga, explodindo: Venho desmascará-lo e
demonstrar que você não tem força para afastar-me
daqui. Eu o conheço. Por isso, impedi que a trouxessem
antes, e ao aquiescer agora, resolvi enfrentá-lo... Vamos
expulse-me, se pode... A situação era constrangedora.
Irritado, o médico solicitou a uma das auxiliares que lhe
trouxesse determinado medicamento com alta dose
sonífera, e, amargando revolta, após recebê-lo, aplicou-o
no músculo da enferma espiritual. Contava com os
resultados favoráveis, o que não aconteceu, porquanto o
adversário blasonou: Eu consigo neutralizar a ação da
droga, e ela não ficará entorpecida. Foi então que o
aturdido cirurgião impôs aos auxiliares: Retirem essa
louca daqui e mandem interná-la para sonoterapia. A
sua alienação necessita de tratamento prolongado, o que
não pode ser feito em tais circunstâncias neste local. A
sofredora era literalmente arrastada por brutamontes e
conduzida para fora do recinto, enquanto o seu agressor
espiritual gargalhava... Todos se encontravam
desagradavelmente surpresos. O Dr. Hermann, porém,
dando mostras de hábil histrião, passou a desviar a
preocupação dos presentes, provocando riso e colocando
o lamentável incidente em plano secundário. Algum
tempo depois, o espetáculo estava encerrado e as
pessoas retornaram aos seus lares. O Dr. Carneiro
propôs-nos, então, acompanhar o médium.
Comprometimentos negativos Encontrava-me surpreso
diante do inesperado desafio de resultados infelizes. Ao
primeiro ensejo interroguei o sábio mentor a respeito do
acontecimento: Por que o Dr. Hermann não conseguiu
silenciar e afastar do recinto o atormentado obsessor que
o veio perturbar? Caro Miranda respondeu-me sereno
recordemos que o nosso médico, não obstante os seus
respeitáveis títulos como hábil cirurgião e generoso
trabalhador, ainda não adquiriu os requisitos honoráveis
da humildade e do amor, que credenciam o ser com
forças morais para tentames dessa natureza.
Mencionemos que Jesus, após retirar o Espírito imundo
que atazanava o jovem, cujo pai lhe solicitara ajuda ao
descer do Tabor, quando interrogado pelos discípulos
sobre a razão pela qual Ele o lograra, e não eles,
obtemperou com bondade: Porque para esta classe de
Espíritos são necessários jejum e oração, o que hoje
traduzimos como conduta reta e comunhão com Deus
em atos de enobrecimento. Não desconsideramos os
valores que exornam o caráter do nosso amigo, todavia,
a escada do progresso moral se caracteriza pela
infinidade de degraus e patamares, nos quais se
demoram todos aqueles que buscam a ascensão. Não
estamos em um templo espírita insisti com interesse de
aprender onde a presença do Bem, as vibrações da prece
e as bênçãos da caridade geram uma psicosfera superior?
Como se pôde adentrar nele o perturbador consciente?
Sem qualquer enfado, o orientador esclareceu:
52 O verdadeiro templo é o coração, de onde procedem
as boas como as más ações, parafraseando Jesus.
Entendamos aqui o coração como símbolo representativo
dos sentimentos. Se ele não se encontrar em harmonia o
lugar onde se esteja poderá criar condições para a paz,
não, porém, para impedir os tormentos de quem os tem.
Vejamos: um paciente com várias ulcerações, ao
adentrar-se em um hospital e demorar-se num recinto
assepsiado, frui de bemestar, sem dúvida, não se
liberando, entretanto, das feridas que carrega. Assim, a
Casa onde nos encontramos possui defesas e barreiras
magnéticas de proteção, mas estas não impedem que os
hospedeiros de obsessão carreguem os seus comensais e
lhes atravessem as áreas guardadas... Sabemos que as
fixações profundas nos centros mentais não são de fácil
liberação. Isto posto, embora os invasores, como no caso
em tela, logrem ultrapassá-las, sentem-lhes as constrições
impeditivas, no entanto são arrastados pelo ímã psíquico
das suas vítimas. Não seja, portanto, de estranhar esta
como outras ocorrências semelhantes. O que podemos
interceptar são as invasões dos assaltantes
desencarnados, quando investem, a sós ou em grupos,
sem o contributo da energia mental dos que lhes
compartem os interesses no corpo físico. Ademais, tenha
em mente que o nosso esculápio tem gerado problemas
psíquicos e éticos na Casa que Vicente tem tido
dificuldade para regularizar, mantendo os antigos níveis
de harmonia vibratória que eram comuns antes das suas
cirurgias. Por tais razões, desafiado e sabendo dos limites
das suas possibilidades morais, sem a humildade
necessária para a prece e a súplica a Deus com unção, a
fim de que fizesse o mais acertado para o momento, ele
fugiu para as atitudes descaridosas, agressivas e infelizes.
53 Agora, sigamos Davi e sua corte. Sentia-se, nas
pessoas que acompanhavam o médium invigilante, um
certo ar de arrogância decorrente do privilégio de
compartir-lhe a convivência. A dor generalizada em
derredor não as sensibilizava, pelo contrário, causava-lhes
enfado, até mesmo algum asco. Acostumaram-se àquele
espetáculo, no qual funcionavam como intermediárias
das negociações, capacitadas para conseguir consultas e
cirurgias, os ansiados milagres que não existem. Os
enfermos não atendidos tentavam alcançar o médium, à
sua saída, suplicando-lhe socorro em total desvario,
invertendo os objetivos da vida e esquecidos de Deus,
enquanto ele, embora gentil, desembaraçava-se dos que
lhe pareciam cansativos e desagradáveis. Fora das
defesas vibratórias da Casa encontrava-se uma
turbamulta constituída de desencarnados de vários
portes: doentes, perturbados, zombeteiros,
escarnecedores e obsessores em um pandemônio
ensurdecedor, em que não faltavam blasfêmias, motejos
e agressões. O tráfego na rua era igualmente confuso. As
duas esferas da vida misturavam-se, sem que os
encarnados se apercebessem da ocorrência, uns
atropelando aos outros. Quando o grupo atravessou as
fronteiras de defesa espiritual, as Entidades, à semelhança
do que acontecera antes com os encarnados,
praticamente assaltaram os descuidados, umas
arremetendo acusações insensatas, outras utilizando-se
de arengas e zombarias, diversas criticando, porém as
mais terríveis ameaçando com indisfarçável rancor,
prometendo desforços cruéis... O médium era o alvo
preferido, embora os seus aficionados não escapassem à
sanha geral. Ao se adentrarem nos automóveis, fizeram-
se acompanhar de
54 alguns Espíritos ociosos e de outros odientos que
passaram a compartir-lhes a convivência. Davi, porque
dotado de maior sensibilidade, experimentou a psicosfera
pestífera, e, ao absorver os fluidos de um adversário que
se lhe acercou, sentiu-se nauseado, ligeiramente aturdido.
Os amigos não lhe perceberam o palor da face, nem a
sudorese viscosa que subitamente o dominaram. O
fenômeno vinha-lhe ocorrendo amiúde e ele sabia que
algo estava em desajuste. Todavia, a fascinação de que
se via objeto e a prosápia que passou a fazer parte da
sua conduta não lhe permitiram reagir positivamente,
conforme deveria fazê-lo, seguindo a recomendação do
Evangelho a respeito da vigilância e da oração. No
silêncio natural que se fez no veículo, enquanto vencia as
distâncias, o médium começava a reflexionar, direcionado
por antigo benfeitor espiritual que o emulara à tarefa.
Lúcido, ele sabia dos gravames que colocava no
ministério, contudo se sentia hipnotizado pelo luxo e
prazer. A sua fora uma jornada rápida, desde o lar
modesto à mansão faustosa onde agora residia. Seus
negócios prosperavam, os investimentos davam lucros,
todos, no entanto, ou quase todos eram frutos ácidos da
simonia exorbitante a que se entregava. Assim mesmo
acreditava, ou esforçava-se para tanto, ser-lhe o sucesso
um sinal de apoio do Alto, pois que, do contrário, o êxito
material não o acompanharia. Confundia a ostentação e
o desperdício com o triunfo, que é sempre o do homem
sobre si próprio, manifestando-se como harmonia e
equilíbrio emocional. O Amigo espiritual, utilizando-se do
momento, acercou-se mais e insuflou-lhe ideias positivas,
afastando, psiquicamente, o adversário. Ele recordou-se
da genitora desencarnada, que foi atraída no momento e
antes o conduzira nos primeiros tentames da
mediunidade, e ela, tocando-lhe o centro da
55 memória, levouo a recordar-se das experiências
cirúrgicas iniciais, quando ele se havia comprometido à
ação da caridade com as mãos limpas no serviço do
Bem. Lentamente fora sendo vítima da bajulação e do
cerco da propaganda, derrapando, por fim, nos
comprometimentos... Com as lembranças ativadas por
sua genitora e por Ernesto, o Amigo referido, volveu ao
momento da primeira recompensa em dinheiro... Havia
terminado o socorro a uma jovem de família rica
recordou-se portadora de neoplasia maligna, que operara
com excelente resultado. Ao despedir-se dos seus
genitores, o pai, acostumado a tudo comprar, ofereceu-
lhe um cheque de alto valor. Tentando recusá-lo, foi
vencido pelo argumento cínico do pagante: Este valor
corresponde a algo mais do que você ganha em um
ano... Que não receba nada dos pobres, está certo;
porém, com este dinheiro, você terá tempo de atender
mais, sem necessitar esfalfarse no trabalho rotineiro que
lhe rende uma ninharia... Para mim não é nada, mas para
você... Que lhe parece? Adelaide, que acompanhava a
cena, com ansiedade e cupidez fez-se o voto de Minerva,
acatando o parecer do negociante: É justo! Quem pode,
retribui, a fim de que você se dedique de corpo e alma
aos que não podem recompensar. Frágil, na estrutura
moral, encontrou o argumento desculpa para a descida
espiritual. O caleidoscópio das recordações acionado pela
mãezinha e pelo mentor fê-lo titubear, desejando
retornar ao lar, livrar-se dos companheiros exploradores.
Quis orar, no entanto o automóvel chegara ao destino:
um hotel de luxo onde iriam jantar com algumas jovens
acompanhantes e seus amigos. Como se despertasse de
um letargo, sentiu-se estimular. Aguçado nos apetites,
atraiu novamente o parceiro espiritual,
56 vampirizador de suas energias, e saltou do carro
sacudindo a cabeça para liberar-se das lembranças. O Dr.
Hermann e seus cooperadores, embora não primassem
pelo equilíbrio espiritual e se sentissem na atividade mais
por dever, não concordavam, certamente, com os
disparates do médium e o ameaçaram, mais de uma vez,
de criar-lhe uma situação pública constrangedora caso
não adotasse uma conduta morigerada. O grupo,
recebido no saguão do hotel pelas moças de encontros
que já haviam iniciado o degustar de canapés e drinques
vários, foi envolvido pelo entusiasmo reinante e
entregou-se às sensações que o ambiente propiciava,
regalando-se no prazer. O Dr. Carneiro de Campos e nós
ficamos a regular distância da mesa comprida, na qual o
médium e os seus amigos se encontravam. Ernesto,
sentindo-se descoroçoado ante a reação de Davi, que lhe
não aceitou a indução mental para seguir à casa,
acercouse de nós e comentou: O triunfo mundano, sem
dúvida, é um terrível adversário do homem de bem e
grande empecilho para o seu progresso espiritual.
Constato que o médium, assoberbado por problemas e
dificuldades, sempre se dedica ao ministério com mais
fidelidade e renúncia. Por isso mesmo, não há como
negar que entre as grandes provações do mundo estão
incluídos o poder temporal, a fortuna, a beleza, a
inteligência, porque do seu uso depende o futuro do
Espírito. Reflexionando um pouco, asseverou: O nosso
descuidado Davi necessita de uma advertência mais
enérgica, embora desagradável, a fim de tentarmos
despertálo. Pedindo licença, afastou-se. Quase de
imediato, deu entrada na sala de refeições o Dr. Hermann
Grass. Ele relanceou o olhar pelo
57 ambiente repleto, em penumbra quebrada pelas velas
acesas sobre as mesas, e acercou-se do médium quando
este ingeria mais uma dose de alcoólico, abraçado a uma
moça atormentada pelo sexo, que já se encontrava
estimulada pela bebida, por sua vez, em lastimável
estado de parasitose obsessiva. Concentrando-se
fortemente, o cirurgião desencarnado chamou o médium
pelo nome. Este captou-lhe a onda mental e reagiu,
negativamente, objetando que aqueles eram os seus
momentos para refazer-se e desfrutar a vida. Afirmava-se
vivo e não desencarnado, portanto com necessidades
humanas... Simultaneamente a moça arrastou-o para a
pista de dança e, envolvendo-o em languidez, colou o
seu ao corpo dele. Os vapores alcoólicos tomaram a casa
mental do invigilante, e enquanto rodopiava com a
parceira, sentia aumentar a tontura que já o dominava.
Nesse momento, o Dr. Hermann condensou a energia
psíquica e apareceu-lhe, repreendendo-o com veemência
e disparando na sua direção uma onda vibratória que o
atingiu, produzindo-lhe uma forte excitação, após o que
ele deu um grito e tombou desmaiado. A ocorrência
chamou a atenção geral. Garçons e amigos correram
precípites e o carregaram para outro cômodo, enquanto
algumas pessoas, que não o conheciam, lamentaram a
cena com desdém: É o tal médium, famoso e desonesto?
Deve estar embriagado com o dinheiro das suas vítimas.
Por que não se cura a si mesmo? O infeliz despertou,
logo após haver vomitado, padecendo rude dor de
cabeça e sem recordação exata do que lhe havia
sucedido. Acalmado pelos amigos foi, de imediato,
levado para casa, enquanto comentaram sobre o lauto
jantar que não pôde ser concluído. No lar aguardava-o
uma outra surpresa: o filho Demétrio, febril,
58 estava quase delirante. Assim o encontrara Adelaide
ao retornar da reunião sem o marido, e, receosa de
alguma convulsão, preparava-se para levar a criança a
uma clínica especializada, providência que logo se
consumou com a chegada do pai. O pequeno era
portador de uma virose não definida e ficou internado
para observação. O benfeitor e nós aplicamos-lhe
recursos terapêuticos após a saída dos genitores, e fiquei
a meditar nos danos que a imprevidência moral provoca,
gerando consequências duradouras. O casal saiu da
clínica em discussão acalorada, recriminandose um ao
outro. O infortúnio tomava corpo numa família que fora
programada para a paz e o progresso, mas que a
insensatez e a perturbação esfacelavam.
59 Serviços de desobsessão O irmão Vicente tomou
conhecimento da ocorrência infeliz que envolvia Davi,
membro atuante da Casa por ele administrada
espiritualmente, encontrando aí o motivo de que
necessitava, além de outros, para a tomada de saneadora
decisão. Ao primeiro ensejo, durante a reunião mediúnica
da qual participavam vários diretores da Sociedade,
incorporando o médium que sempre utilizava, após
diversas considerações foi explícito: Para o bem de todos
nós, sugerimos que ainda este mês retornemos aos
trabalhos de origem que motivaram a criação da nossa
Instituição. Consideramos que a caridade das curas do
corpo é de grande relevância, mas o nosso compromisso
é com a saúde espiritual das criaturas. O nosso é o
programa de iluminação das consciências, a fim de que
nos não divorciemos da atividade primeira, que é a
transformação moral dos homens para melhor,
permanecendo nos socorros aos efeitos da inadvertência,
da desordem e do desrespeito às leis soberanas da vida.
Quem desejar cooperar conosco sob a égide de Jesus,
que também curava, mas não se detinha nesse exclusivo
mister, fá-lo-á por meio do programa da caridade plena
sem qualquer retribuição, direta ou indiretamente.
Amando todos, não teremos exceções, nem
exclusivismos. Avançamos para os níveis elevados de
libertação, e a nossa é a conquista dos altiplanos íntimos
e nobres da vida. Ao fazer silêncio, um dos beneficiários
das cirurgias mediúnicas, pedindo licença, interrogou o
Amigo: Teremos, então, que suspender os trabalhos
realizados por Dr. Hermann? E se ele não concordar?
60 Sem deixar-se inquietar, o bondoso Vicente
respondeu: Não pretendemos suspender qualquer
atividade, senão volver ao programa inicial que
abraçamos. As cirurgias continuarão, porém, de natureza
psíquica, no corpo perispiritual, sem alarde, sem a
presença dos pacientes, como sempre as houve, pois que
o amor de Deus jamais se eximiu de socorrer-nos,
mesmo quando a mediunidade ostensiva não realizava
essas atividades. Quanto ao amigo Hermann não
concordar conosco, ou o seu médium também discrepar,
certamente eles tomarão providências fora do nosso
recinto, que acataremos com prazer. Quando os dois
companheiros chegaram aqui, buscando ajudar e ser
ajudados, encontraram-nos a postos, de boa vontade,
sem objeção. Desse modo, a decisão será deles,
porquanto a nossa já está tomada. Sem perda de tempo,
o Diretor espiritual prosseguia esclarecendo a respeito
das novas metas a alcançar, enquanto diversos
companheiros encarnados, que não concordavam com
aquelas atividades cirúrgicas, sentiam-se aliviados,
exultantes. A vitória do Bem, por meio da paciência e do
amor para com os equivocados, tornava-se uma
realidade, evitando-se ulcerações nas almas, sem,
entretanto, anuências ambíguas, que denunciavam
conivência injustificável. O incidente da véspera com o
médium Davi ganhou corpo nos comentários maldosos,
gerando mal-estar e abrindo mais o fosso da separação
conjugal, porta alargada para mais lamentáveis
ocorrências futuras. Demétrio retornou ao lar no dia
seguinte, em processo de convalescença. A resolução do
irmão Vicente foi notificada ao médium do Dr. Hermann
pelo companheiro encarnado presente à reunião, que foi
infeliz na forma de expor a questão. O médium, tomado
de melindres, em vez de meditar a respeito da sábia
conduta,
61 supondo-se expulso da Instituição que o acolhera
com carinho e caridade, sintonizou na faixa da vaidade
ferida e aguardou o momento em que seria informado a
respeito. Por sua vez, o cirurgião desencarnado assumiu
postura equivalente à do médium e inspirou-o à
fundação de uma Entidade neutra, na qual pudessem
ambos agir sem controle nem observação de outrem.
Seriam os únicos responsáveis por ela em ambos os
planos da vida, e, em face do livre-arbítrio de que
dispunham, estabeleceram as bases para as realizações
futuras. Davi considerou, junto a alguns amigos a quem
convidou para o tentame, que dinheiro e cooperadores
não eram problemas... Não se recordou de referir-se à
condição essencial, em empreendimento de tal monta,
que é o respeito à vida em toda a sua magnitude, e este,
sim, faltaria com certeza. Desse modo, quando os
diretores da Casa notificaram ao amigo a decisão do
instrutor, foram surpreendidos pela sua arrogância e
impetuosidade, quase os desacatando e esclarecendo
que ali não mais retornaria. Ato contínuo, acompanhado
por alguns poucos colaboradores, afastou-se
ruidosamente, deixando os irmãos de crença aturdidos e
apiedados da sua decisão. Os responsáveis pela
Sociedade Espírita afixaram então um cartaz à sua
entrada, elucidando que, a partir daquela data, as
reuniões para tratamento cirúrgico estavam suspensas, e,
sem mais amplos esclarecimentos, a fim de serem
evitadas maledicências, informaram o mesmo nas
reuniões doutrinárias, encerrando a questão. A clientela,
conforme anunciara Davi, mudou de endereço, na sua
busca pelo miraculoso sem responsabilidade. Quando a
ocasião nos pareceu própria, inquirimos o Dr. Carneiro:
62 Qual será o destino do médium nessa nova Entidade?
O amigo sorriu, paciente, e respondeu: Conforme a
direção que dê aos próprios passos, será levado à paz de
consciência ou ao inferno das culpas. Cada caminho
conduz a um tipo de objetivo. A eleição é do viajante.
Caso, porém, persevere nas atitudes atuais, terá muitos
problemas à frente. E o adversário desencarnado que o
acompanhava? voltei a interrogar. Prosseguirá
aguardando oportunidade para a agressão esclareceu. Se
as forças mediúnicas fossem canalizadas para a ação da
caridade real, o exemplo moral do médium ajudaria o Dr.
Hermann a compreender melhor a finalidade do serviço
que realiza, adquirindo as virtudes que lhe faltam, qual
ocorre conosco, e estas envolvê-lo-iam em títulos de
enobrecimento que sensibilizariam o inimigo,
contribuindo para a pacificação de ambos. Não
ignoramos que somente o bem possui a força
indispensável para anular o mal. Por esta e outras razões,
a mediunidade é um instrumento que, colocado ao
serviço do amor, proporciona iluminação e sabedoria,
granjeando amigos para a eternidade. Dignificada, torna-
se escada de libertação; mal utilizada, converte-se em
poço de sombras e abismo de perturbação. Infelizmente,
para o nosso Davi, a sua tem sido a escalada para o erro,
deixando-se alucinar e algemando-se a compromissos
tenebrosos de difícil liberação. O seu último chamamento
ao dever não o despertou para a realidade sua
fragilidade e limitações pessoais. O médium, que se
permite enovelar em problemas dessa natureza, torna-se
vítima de obsessões que culminam, quase sempre, na
loucura, no suicídio ou no assassinato... Os seus sicários
utilizam-se das suas impulsividades e o arrojam aos
despenhadeiros da amargura de difícil retorno.
63 Cessadas as atividades de cirurgias mediúnicas, o
irmão Vicente e seus cooperadores deram início a
exaustivo trabalho de limpeza do ambiente,
desimpregnando-o das construções mentais do
desespero humano, das ideoplastias negativas, das
fixações de ansiedade, revolta e dor que já lhe
empestavam a psicosfera. Utilizando-se de aspiradores
que absorviam os fluidos semicristalizados que pairavam
no ar, preparavam o recinto para outros misteres de
elevação sem os riscos de desencarnações prematuras e
conflitos de outra natureza. Certamente, na fase anterior,
as medidas de preservação da higiene psíquica e da
harmonia não eram descuradas. Todavia, pela própria
razão do serviço, os atraídos ao pátio dos milagres
geravam desordens graves, em razão da irregular
conduta, como das companhias espirituais de que se
tornavam objeto. Agora se percebiam os evidentes sinais
de ordem e paz, que devem viger em todos os lugares
dedicados aos labores espirituais. Convidados
especialistas (desencarnados) em socorros à saúde, estes
anuíram em cooperar sem ruído ou estardalhaço, pois
que onde frondesce a árvore da caridade, as flores e
frutos da paz aí se multiplicam em abundância.
Acompanhando a renovação que se processava naquele
Núcleo de ação espírita, o Dr. Carneiro explicou-me,
espontaneamente: O Espiritismo é uma Doutrina que
sintetiza o conhecimento humano em uma abrangência
admirável. Nem poderia ser diferente, pois que foi
revelado pelos Espíritos que se tornaram pioneiros do
saber na Terra, e que, com a visão da vida ampliada no
Além, ofereceram tudo quanto se faz imprescindível à
felicidade dos seres. Tem a ver, portanto, com todos os
ramos da cultura em uma expressão holística da
realidade, que se faz indispensável para o entendimento
integral do homem e da vida. As doutrinas secretas
ressurgem nele desvestidas dos mitos e
64 rituais, facilitando o intercâmbio entre as inteligências
encarnadas e desencarnadas, ampliando o quadro de
informações por meio das Ciências, na sua faina de tudo
explicar e submeter. Com esse arsenal de instrumentos
próprios, o Espiritismo liberta as consciências das
sombras e as conclama às escaladas desafiadoras do
progresso. Por tal razão, a Casa Espírita avança para a
condição de Educandário, fornecendo os contributos para
o estudo e a análise das criaturas, libertando-as das
crendices e superstições, ao tempo em que lhes oferece
os recursos para a ação com liberdade sem medos, com
responsabilidade sem retentivas, perfeitamente lúcidas a
respeito do destino que lhes está reservado, ele próprio
resultado das suas opções e atitudes. Uma sociedade que
se conduza fiel a esses conceitos e determinações torna-
se justa, equânime e os membros que a constituam
serão, sem dúvida, felizes. Tudo marcha na direção da
Unidade, pois que dela partem todos os rumos. No afã
de penetrar a sonda da investigação no organismo
universal, os cientistas constatam a interdependência das
informações que detectam, umas em relação às outras,
tão interpenetradas estão. A análise de qualquer
conteúdo exige uma ampla malha de conhecimentos, a
fim de bem captá-lo. O homem, em razão do seu largo
processo de evolução, das suas vinculações ancestrais e
experiências, não deve ser examinado apenas por um dos
seus ângulos, seja físico, psíquico, emocional, social...
Cada faceta da sua realidade traz embutidos outros
aspectos e contributos que respondem pela manifestação
e aparência daquela focalizada. Assim, na área da saúde,
são muitos os fatores que respondem pelo equilíbrio ou
desarmonia do indivíduo, e, no que tange à de ordem
espiritual, mais complexos se fazem os fatores que lhes
dão origem ou os desarticulam. Nesse
65 painel, a consciência exerce um papel preponderante
por ser o árbitro da vida, a responsável por todos os
acontecimentos, o Deus em nós das antigas tradições de
nossos antepassados. Fazendo uma pausa oportuna, o
amigo relanceou o olhar pelo recinto da Instituição que
nos albergava e, ante a simplicidade de tudo, a ausência
de ganchos e bengalas psicológicas para a fé, arrematou:
O homem realmente livre é consciente das suas
responsabilidades, não necessitando de nada externo
para os logros elevados a que se propõe. Torna-se-lhe
condição essencial o conhecimento real, defluente da
meditação e da vivência dos seus estatutos para seguir a
marcha com a elevação indispensável à vitória.
Certamente foi esta a ideia de Jesus ao preconizar-nos
buscar a Verdade que nos torna livres. Começavam a
chegar os participantes da sessão mediúnica de
desobsessão da Casa, que se realizava
hebdomadariamente. Era a primeira atividade deste
gênero após os sucessos narrados e havia expectativa,
certa intranquilidade em alguns cooperadores dos
trabalhos. A sala reservada para o mister recebera
cuidados especiais: técnicos do nosso plano dispuseram
aparelhos próprios para o socorro desobsessivo em várias
partes do recinto. O irmão Vicente comandava a
programação conforme o fazia sempre. Agora, menos
preocupado que antes, em face da alteração realizada,
sentia-se feliz pelas possibilidades que se delineavam
para o futuro, sem os riscos desnecessários dos dias idos.
Conscientes dos deveres, os membros do grupo
mediúnico eram recebidos à entrada da sala pelo
presidente da Sociedade, o Sr. Almiro, um cavalheiro
tranquilo, de aproximadamente setenta anos, que
irradiava bondade espontânea e gentileza sem afetação.
Sorrindo com afabilidade, podíamos perceber-lhe o alívio
de que
66 era possuído com a alteração dos programas
espirituais que havia sido efetivada. Às 19h30 já se
encontravam presentes todos os participantes, em
recolhimento silencioso. A pontualidade era ali requisito
indispensável, já que constitui um dos fatores para o
êxito do cometimento. Tomando lugar à cabeceira da
mesa, em torno da qual sentavamse mais onze
companheiros e, nas cadeiras em frente, mais catorze
pessoas, o diretor começou a ler uma página de O Livro
dos Espíritos, de Allan Kardec. A leitura não se fazia
enfadonha, porque ele enunciava as perguntas, e uma
senhora, ao lado, as respostas. Logo após, quando foram
examinadas três ou quatro questões, os membros da
mesa apresentaram comentários complementares, fizeram
perguntas adicionais em tom de voz agradável, sem
entonação de discurso ou debate, procurando-se recolher
ensinamentos proveitosos e saudáveis. Posteriormente se
procedeu ao exame de O livro dos médiuns e de O
evangelho segundo o espiritismo, ambos também de
Allan Kardec, gerando uma psicosfera de paz e
receptividade. Percebi que as Entidades convidadas para
o intercâmbio da noite, ainda em sofrimento ou
perturbadoras, permaneciam entre as pessoas, isoladas
por barreiras vibratórias que, no entanto, lhes permitiam
escutar as leituras e os comentários. As que eram lúcidas
e trabalhadoras movimentavam-se com liberdade, e os
obsessores, alguns já vinculados aos médiuns pelos quais
se deveriam comunicar, a contragosto escutavam os
ensinamentos, recalcitrando e reagindo com blasfêmias e
grosserias. Espíritos familiares dos presentes também
permaneciam no recinto, em atitude digna, reflexionando
a respeito da tarefa e das comunicações, e os demais
cooperadores, os que transportam os
67 enfermos desencarnados, igualmente estavam a
postos. Tudo se encontrava em ordem, qual sucede em
um tratamento cirúrgico, quando a equipe aguarda o
sinal do chefe para o início da operação. Às 20h, o Sr.
Almiro formulou sentida oração a Deus, na qual
agradecia as bênçãos recebidas e suplicou-lhe a proteção
para as atividades que se iriam desenvolver. Ao terminar
a prece, uma suave auréola de tom solferino emoldurou-
lhe a cabeça, exteriorizando os sentimentos nobres que o
possuíam. De imediato, o irmão Vicente, por meio da
psicofonia sonambúlica de dona Armênia, deu as
instruções iniciais e nos preparamos para acompanhar o
desdobramento da reunião. Observei que cada médium,
assim como os demais participantes irradiavam claridades
que variavam desde os tons mais escuros e fortes aos
diáfanos e laranja. Alguns havia, entre o público, que não
apresentavam qualquer alteração, permanecendo como
um bloco inanimado. O Dr. Carneiro, que me
acompanhava a observação silenciosa, veio em meu
socorro, esclarecendo: São companheiros que não
conseguem arrebentar as algemas dos pensamentos
habituais: pessimistas, ansiosos, distraídos que, não
obstante interessados, aproveitam-se da penumbra para
dar curso aos pensamentos trêfegos e viciosos do
cotidiano ou ao sono anestesiante. Enquanto o indivíduo
não se esforce por educar a mente, substituindo os
temas agradáveis, mas prejudiciais, por aqueles de
elevação e disciplina, sempre que se veja sem atividade
física, emergem-lhe as ideias perniciosas que vitaliza,
produzindolhe uma cela sombria, na qual se encarcera.
Sempre dirá que se esforça para concentrar-se nas faixas
superiores, no entanto, não o consegue. E é natural que
tal aconteça, porquanto os rápidos
68 tentames, logo abandonados, não geram os
condicionamentos necessários à criação de um estado
natural de sintonia superior. Acostumado aos clichês
mentais mais grosseiros, escapam-lhe as imagens mais
sutis em elaboração. E os médiuns indaguei interessado
por que tão diferentes colorações? Denotam-lhes os
diferentes estágios de evolução? De certo modo, sim
respondeu generoso. No caso destes aqui presentes,
podemos observar que a nossa irmã Armênia é um
Espírito mais lúcido, mais experimentado neste tipo de
serviço, além do que transformou a existência em um
verdadeiro ministério do bem. Senhora pobre, casada
com um homem viciado em alcoólicos, conduziu a família
com sacrifício e estoicismo, ajudada pelos benfeitores
desencarnados, que lhe infundiam ânimo e vitalidade.
Não abandonou jamais os deveres espirituais, que abraça
há quase trinta anos, mesmo nos dias mais rudes e
doridos, havendo, por isso mesmo, granjeado respeito e
consideração dos seus mentores e amigos espirituais.
Outros há, entre nós, com expressiva folha de serviço no
culto dos seus deveres humanos e sociais, nas suas
atividades públicas e particulares, o que os torna homens
e mulheres de bem, aureolados, portanto, pelo
merecimento a que fazem jus. Diversos, todavia,
atravessam fases e experiências humanas diferentes, de
provas, de testemunhos para os quais ainda não se
encontram com os recursos amealhados, todos, porém,
dignos do nosso carinho, respeito e acatamento. Cada
criatura vale o que logra, não o que lhe falta. Após uma
breve pausa, prosseguiu: Os médiuns são criaturas
humanas como outras quaisquer, que se diferenciam,
apenas, pela aptidão especial que possuem para se
comunicar com os Espíritos. Não são santos, embora
69 devam caminhar pela senda da retidão, nem
pecadores, apesar dos seus deslizes naturais. Costuma-se
exigir-lhes muito, esperando-se que sejam modelos
perfeitos do que ensinam os mentores por seu
intermédio. Certamente, esta seria a condição ideal para
todos. Desse modo, somos pacientes com as suas
dificuldades e delíquios morais, de responsabilidade deles
mesmos, buscando, entretanto, auxiliá-los sempre, qual
fazemos com todas as demais pessoas. É da Lei que os
médiuns deverão aceitar para si as instruções de que se
fazem intermediários, antes de as considerar para os
outros... Como, porém, são frágeis, na sua condição de
humanidade, entendemos que todo aprendizado exige
esforço e tempo, cabendo-nos auxiliá-los sempre e sem
cessar. O nosso Davi não foi excluído da Casa, nem
deixará de receber assistência espiritual. Advertido
indiretamente por mensagens por meio dele mesmo,
culminou com a sua espontânea decisão de irse, pois que
a mediunidade pode ser exercida sob vários aspectos e
modalidades, não se cancelando, no seu caso, o socorro
a que se dedicava. Condenáveis eram e são-lhe os
métodos de que se vem utilizando, a forma bombástica e
a falsa propaganda de que pode tudo, em flagrante
desrespeito às leis de causa e efeito, como se sua fosse a
tarefa de impedir a morte, que um dia o visitará
também... Mesmo com a sua teimosia e imaturidade,
Ernesto e outros amigos do nosso plano continuarão
acompanhando e ajudando enquanto ele aprenderá com
a vida, qual ocorre com todos nós. Agora, observemos e
aprendamos.
70 Terapia desobsessiva Uma jovem frági1 e pálida,
sentada à mesa, chamou-nos a atenção. Percebíamos-lhe
o esforço para manter-se concentrada em ideias
otimistas, superiores, nos textos que foram lidos ou nos
comentários apresentados. A mente parecia fugir-lhe ao
controle, e, acompanhando-lhe atentamente a luta,
notamos que lhe assomavam do inconsciente atual os
conflitos psicológicos que a atormentavam. Deveria estar
com trinta anos, e uma grande amargura se lhe
desenhava na alma sensível. Repassava os seus sonhos e
aspirações de menina-moça, que lhe pareciam sempre
malogrados, e guardava no íntimo uma grande mágoa
pela solidão que experimentava. Ansiava por amar e ser
amada, no entanto sentia-se repelente, porque todos os
rapazes que dela se aproximavam, após os primeiros
contatos superficiais, afastavamse rapidamente, deixando-
a frustrada, decepcionada. Buscara o socorro do
Espiritismo, aconselhada por uma amiga, por sofrer de
terrível enxaqueca que a prostrava, especialmente no
período que precedia ao fluxo catamenial. Sentira-se bem
e, estudando a Doutrina, frequentando as reuniões,
adquirira alguma consolação e crença. Depois de
participar de um dos grupos de estudos, passou a tomar
parte nas tarefas de desobsessão, porquanto o Sr. Almiro,
tomando conhecimento dos seus sofrimentos, acreditou
tratar-se de uma faculdade mediúnica conflitada, com
certa dose de obsessão. Ela, porém, não tinha certeza
disso. Desejava acreditar e libertarse do problema, no
entanto titubeava na fé.
71 Por duas ou três vezes fora acometida de
incorporação psicofônica, todavia, porque ficasse
consciente, temia que o fenômeno se apresentasse mais
anímico do que mediúnico. Enquanto lhe
acompanhávamos as reflexões íntimas, percebíamos a
presença de taciturno Espírito, portador de uma face
marcada pelo ódio, que a inspirava negativamente. Ele
exercia grande controle emocional e psíquico sobre ela.
Observamos, também, que lhe roubava energias do
aparelho genésico, que se apresentava escuro, com
manchas negras e obstruções vibratórias em vários dos
seus órgãos. Ele parecia haver bloqueado com a mente
atormentada canais e condutos internos, produzindo-lhe
dificuldades orgânicas e, possivelmente, as cefalalgias no
período pré-menstrual: talvez isto lhe explicasse a palidez
e debilidade de forças... Acompanhamos o penoso
processo de vingança que exercia contra sua vítima,
interpenetrando a sua mente na dela. Destilando
amargura e escarnecendo-a, ele passou a controlar-lhe o
centro coronário, o cerebral e o cardíaco, produzindo-lhe
sudorese abundante e colapso periférico, seguidos de
alteração respiratória. Subitamente comprimiu-lhe com
força os ovários, como se desejasse estrangulá-los, e
gargalhou estentórico. A paciente perdeu o controle e
gritou, sendo logo dominada pelo sarcasmo que ele
injetava na perseguição implacável. Uma observação
superficial catalogaria o episódio como de natureza
histérica, tais as reações físicas e emocionais
apresentadas. Ela debatia-se atabalhoadamente e, mesmo
emulada pelo doutrinador a manter o controle, toda vez
que o invasor lhe comprimia a região, sensível e enferma,
ela sentia dores e estrugia em gritos, que misturava a
gargalhadas e quase convulsões nervosas.
72 A cena era constrangedora e dolorosa. Pacientemente,
o Sr. Almiro começou a doutrinar o perseguidor invisível
e consciente, advertindo-o quanto à responsabilidade
que assumia com aquela atitude e as demais de vingador
constante. A palavra calma do orientador mais o excitava
à vingança, prosseguindo nas atitudes de desforços e
maus-tratos. Aplicando energias saudáveis na médium e
fluidos dispersivos nos centros da fixação mediúnica, por
entender que a terapia deveria ser de longo curso, o
dirigente conseguia interromper a psicofonia
atormentada, enquanto o irmão Vicente induzia
psiquicamente o obsessor para o afastamento da vítima.
Semidesmaiada, fria e suarenta, ela retornava à
normalidade sob a ajuda bondosa do diretor, enquanto,
simultaneamente, recebia forças que lhe eram aplicadas
por especialistas de nossa esfera. A região genésica,
muito afetada, recebia vibrações dispersivas para
interceptar e destruir os bloqueios, ao tempo em que
ondas vibratórias calmantes lhe eram ministradas na área
cardíaca. O coração retomou o ritmo normal e ela
recompôs-se cansada. De imediato, começou a
interrogar-se: Teria sido uma crise histérica ou anímica?
Seria um fenômeno mediúnico? Deus meu, que haja sido!
Recordava-se de tudo, embora não pudesse controlar-se.
Esta é a nossa Raulinda informou-nos Dr. Carneiro.
Iremos estudar, no momento próprio, mais
acuradamente, o seu problema. Por enquanto, basta-nos
considerar o seu conflito psicológico sobre a
autenticidade do fenômeno mediúnico por seu
intermédio. Ela o aceita, quando se trata de outros
intermediários. Todavia, o fantasma do animismo
apavora-a. O animismo é hoje assunto muito comentado,
quando as pessoas se referem às sessões mediúnicas. De
tal forma, com as exceções naturais, veio a ser mais
considerado que o fenômeno
73 mediúnico. Diversos aprendizes e estudiosos espíritas
enfocam-no com tal frequência, que passaram a ter
quase uma sistemática prevenção contra o fenômeno
mediúnico, se este não for robusto, isto é, recheado de
provas, de autenticidade, como afirmam, como se nessa
área fosse possível colocar-se barreiras, fronteiras
delimitadoras entre uma e outra ocorrência. Como efeito
do exagero, belas florações mediúnicas em começo
experimentam injustificáveis conflitos e passam a sofrer
restrições, estiolando-as, nos iniciantes, ou bloqueando-
lhes as possibilidades em desdobramento. Em todas as
áreas do comportamento humano, o excesso é sempre
prejudicial. Muita exigência produz parcos resultados.
Certamente que não estimulamos a liberação dos
conteúdos do inconsciente a pretexto de mediunidade.
Porém, não estamos de acordo com as atitudes de
castração do animismo, por cuja liberação também
podemos alcançar o mediunismo. Calando-se por um
pouco, aduziu: No episódio da nossa Raulinda, as
expressões anímicas da sua comunicação foram
estimuladas pelo adversário desencarnado, que a utiliza
mediunicamente. Assim tivemos um fenômeno duplo
animismo e mediunismo com prevalência e
direcionamento do último sobre o primeiro. E o que lhe
ocorre, praticamente, no dia a dia da atual existência, em
que o perseguidor, afligindo-a, deprime-a,
desarticulando-lhe os centros do equilíbrio, fazendo-a
passar por portadora de histeria, a um passo de
transtorno psicótico maníaco-depressivo, a caminho da
autodestruição. De bom alvitre, portanto, que, no início
dos fenômenos de educação da mediunidade, os
candidatos se precatem das ocorrências anímicas, não,
porém, evitando as do intercâmbio espiritual. Muito
judiciosas as observações do benfeitor, porquanto, a
74 pretexto de não incorrer em erro, abandona-se a ação
edificante, receando-se resultados negativos... O médium,
genericamente, é todo aquele que se posiciona no meio
e torna-se intermediário de qualquer coisa.
Espiriticamente, é aquele que possui aptidão para
comunicar-se com os Espíritos ou a servir de instrumento
para que se comuniquem com as demais criaturas.
Entregar-se de boa vontade durante as reuniões
especializadas para educação e o intercâmbio mediúnico
é dever de todo aquele que deseja canalizar suas forças
parafísicas e faculdades espirituais. Agora, era Leonardo,
dedicado médium espírita, quem se entregava à
comunicação. Contorcendo o sensitivo, o que denotava o
deplorável estado espiritual em que se debatia, o
comunicante desferiu os golpes verbais que o
caracterizavam: Até que enfim vocês o expulsaram
daqui... Sem a proteção que ele aqui recebia, ser-nos-á
fácil acabar-lhe com a presunção e o prestígio... Este era
um dos nossos programas. Agora, estabeleceremos novas
metas que levaremos de vencida... Estou, pessoalmente,
feliz com o resultado do meu esforço, o que não indica
encontrar-me ditoso com a teimosa interferência de
vocês no reino dos mortos. Este lado de cá é nosso e
não admitimos que homens da Terra nos venham
perturbar... O Sr. Almiro, inspirado por Vicente, acercou-
se do médium e respondeu, calmo, ao interlocutor: Seria
o caso então de dizer-lhe que este é o nosso lado, e não
nos convém manter submissão ao amigo que está do
outro, não lhe parece? Claro que não reagiu porquanto é
sabido que os mortos sempre conduziram os vivos.
75 Certamente concordou o doutrinador conduzir não é
o mesmo que perturbar, injuriar, afligir, levar ao
desespero. Jesus é o nosso condutor e o faz para o
nosso bem, jamais para a nossa aflição. Ele é igualmente
o seu condutor, que talvez você não perceba por se
haver extraviado, enquanto Ele prossegue insistindo em
favor de sua recuperação e equilíbrio. Não estou
desequilibrado blasonou. Sou consciente e livre. Ajo,
porque sei o que é mais favorável e benéfico para mim.
Tenho créditos que estão em pendência e desejo-os.
Como o meu devedor tenta escapar-me à regularização
do compromisso, sigolhe no encalço. O meu problema é
com Davi, de início, e, por extensão, com os senhores...
Felizmente, expulsaram-no daqui e fizeram bem. Meu
amigo, você está equivocado ripostou-lhe, sereno, o
doutrinador. Ninguém expulsa ninguém da Casa do
Senhor. Sucede que ela tem regulamentos de amor, e
quem se nega atenção aos deveres exclui-se por sua
própria vontade. O nosso irmão Davi está
momentaneamente enfermo, qual acontece com você,
cada qual sofrendo uma enfermidade própria; no
entanto, encontra-se presente no carinho das nossas
preces e vibrações de saúde moral, qual ocorrerá com
você a partir deste momento. Assim, não o expulsaríamos
do hospital onde encontrava apoio e tratamento. Isto são
sofismas... O importante é que ele está por conta própria
e do seu triste dominador cirurgião, o qual, por sua vez,
está muito comprometido também com os Gênios...
Quando estes resolverem alcançá-lo, ele retornará à cela
de onde foi libertado. Ambos, o médico e o seu
enfermeiro, são foragidos da justiça e nós somos os
meirinhos, que os encontramos, podendo, não apenas
notificá-los, mas também submetê-los à disciplina, à
punição.
76 A única Justiça invariável é a que procede de Deus.
Essa, à qual o amigo se refere, é a da iniquidade, da
vingança, da loucura, que colhe nas suas malhas todo
aquele que se desrespeitou e assumiu delitos perante a
consciência. Ela funciona porque os homens,
lamentavelmente, optamos pela sua hediondez, como
efeito do primarismo no qual nos demoramos. Luz,
porém, já, o momento para o despertar e a consciente
submissão aos Estatutos do Amor, que educam,
aprimoram e plenificam. Desse modo, mesmo os Gênios
das Trevas, que se acreditam senhores do terror, serão
alcançados pelas vibrações da misericórdia do Pai e
sairão da infinita desdita a que se entregam para a
dignificação interior que os levará à paz que lhes falta, à
felicidade que atiraram fora, ao bem que esqueceram.
Isso, porém, não é importante agora. Você, sim, é o
investimento da Vida, neste momento. Desperte e lute
contra as paixões que o envilecem; torne-se forte, porém,
contra as suas debilidades morais; faça-se senhor da
própria vontade e não permaneça marionete movido por
outras mãos ou perseguidor submetido a outros
inditosos verdugos. Como se atreve interrompeu-o, com
gesto e voz bruscos a dizer-me tais mentiras e
barbaridades? Não sou eu quem lhas diz. A sua
consciência é que situa as minhas palavras nos seus
conflitos e necessidades imediatas. Desperte, pois, e viva.
Reconsidere as atitudes e ocorrências. Será que
perseguindo, você recupera o que perdeu? É claro que
não! Porém, fruirei o prazer de haver-me vingado. Não
seria melhor dizer justiçado? Pois que a vingança gera
futuros desforços na vítima atual. E quando essa roda de
insensatez deixará de girar? Quando passar o prazer, o
gozo da cobrança, que sempre é de curto prazo, e você
se encontrar vazio, desmotivado, já imaginou o caminho
a percorrer, o tempo
77 malbaratado, as complicações a resolver, os males a
sanear? Agora é o seu momento de liberdade. O dele
virá depois. Ninguém foge indefinidamente à consciência
nem às leis da Vida. Se eu desistir, outros que aguardam
vez tomarão o meu lugar ao lado dele. Não se preocupe
com isso. Não estamos aqui para isentar de culpas o
nosso médium invigilante. O nosso interesse é com você,
primeiramente, e, por extensão, com ele, com toda a
humanidade. Quando alguém se liberta do mal, o mundo
se libera da sombra, e quando se algema, a sociedade
também se aprisiona. Aproveite este momento, propôs
Jesus ao moço rico, que o buscou, porquanto, amanhã,
talvez, seja tarde demais. O rapaz recusou-se e perdeu a
mais excelente oportunidade da sua existência. Sequer
lhe pedimos que perdoe o seu devedor. Apenas
desejamos que desperte para a própria felicidade, e o
perdão virá depois. Havia tanta ternura e honesto
interesse na transformação do calceta, que este foi
envolvido pelas ondas de simpatia e bondade dos irmãos
Almiro e Vicente, deixando-se anestesiar. Agora durma
concluiu o amigo a fim de despertar em outro estado de
emoção. Esqueça, por enquanto, os ressentimentos e
abra-se ao amor de Deus, à possibilidade de ser feliz.
Durma em paz, meu irmão. O comunicante diminuiu a
tensão emocional e adormeceu no médium.
Desenovelando-o do instrumento delicado, os
cooperadores o desligaram e removeram para outro lado
da sala, de modo a recambiá-lo, logo depois, ao hospital
de refazimento, onde iria despertar e recomeçar as
experiências de iluminação. Percebendo-me a surpresa
em face do desfecho do diálogo entre o obsessor e o
dirigente, o Dr. Carneiro, que cooperava nas atividades,
aproximou-se e disse-me:
78 O amor é a força motriz do universo: a única energia
a que ninguém opõe resistência; o refrigério para todas
as ardências da alma: o apoio à fragilidade e o mais
poderoso antídoto ao ódio. Mais do que palavras, a
vibração amorosa do nosso Almiro confirmou-lhe os
conceitos de paz e renovação propostos ao sofredor. A
lógica e a razão constituem pilotis para o discernimento,
mas é o amor que luz soberano, conferindo segurança e
harmonia a quem vai dirigido. Quando vivenciarmos no
cotidiano, em pensamentos, palavras e atos, os
postulados do amor, facilmente atingiremos a meta que
a evolução nos propõe: a sintonia com o Pai. Até esse
momento, lapidemos os sentimentos, corrijamos a mente,
direcionemos a vontade no rumo do Bem, e lograremos
a harmonia que nada perturba, assim como o
conhecimento que tudo discerne e explica. Nesse ínterim,
indigitado obsessor tomou o médium Francisco e
indagou feroz: Quem me chamou? Você me chamou?
(Dirigindo-se ao Sr. Almiro.) Eu vim porque quis. Sou livre
e poderoso. Governo parte das Furnas, onde me acolho.
Sou obedecido e temido. Que quer de mim? Que me
recorde, não nos conhecemos. Ante o inusitado, vi
Fernando acercar-se do médium em transe e aplicar-lhe
energias amortecedoras, de modo que o furor do
comunicante não lhe afetasse a sensibilidade. O amigo
Fernando havia-se afastado de nós, dias antes, a serviço,
levado por interesses que não me cumpria indagar.
Agora chegava e se fazia presente no instante do
atendimento ao rebelde espiritual. Quando o doutrinador
se aproximou para o diálogo, foi Fernando quem o
inspirou mais diretamente. De alto significado, em
reuniões desta natureza, é a sintonia
79 mental, moral e espiritual entre aquele que a dirige no
plano físico e os responsáveis espirituais pela tarefa,
porquanto a identificação dos comunicantes e o diálogo
com eles muito dependem dessa afinidade. Qualquer
tentativa precipitada, sem uma clara percepção de
propósitos, põe a perder grandes esforços empenhados
até o momento, que é a parte final de dias e até meses,
para ser conseguida a remoção da Entidade do seu lugar
e trazida ao intercâmbio libertador. O Sr. Almiro era o
protótipo do médium-doutrinador, porque unia ao
conhecimento espírita os dotes morais de que era
investido, e muito sensível à inspiração dos mentores.
Com esses requisitos a sua palavra se impregnava de
força esclarecedora, capaz de conquistar os oponentes
naturais com os quais trabalhava. Sob a indução mental
de Fernando, ele respondeu ao interrogante: Sim, nós o
chamamos, porque necessitamos do amigo.
Reconhecemos-lhe a força magnética e sabemos que a
sua presença aqui é espontânea, tanto quanto,
respeitando-lhe a liberdade, sentimo-nos tranquilos para
este diálogo que nos é pessoalmente valioso. E que
deseja de mim? inquiriu com arrogância. Por que me
perturba a paz? O nosso desejo não é o de perturbação,
mas de entendimento. Quanto a mim, não sou alguém
importante. Como o amigo deve ter percebido, dedico-
me à terapia espiritual em favor dos que sofrem
perseguições e desequilíbrios. E que tenho eu com isso?
Administro a minha área com severidade, porque sou
justo, e quem deve é obrigado a pagar. Assim sendo,
somente vem para a minha região quem está incurso na
lei de sintonia. O Espírito atrasado é um animal; dessa
forma
80 será tratado, submetido pela força. O de que eu
disponho em quantidade é a força, que coloco a serviço
do meu poder. Nisso não concordamos, pois que o Ser
mais poderoso que já veio à Terra usou o amor como
instrumento de triunfo. Todos que se utilizaram da força
tornaram-se vítimas de si mesmos e da própria
impulsividade, certamente até hoje padecendo os efeitos
das suas arbitrariedades em regiões punitivas, onde não
luz a esperança, nem vigora a paz. Você está enganado!
estrugiu com violência, agitando o médium em transe e
golpeando o ar. Fui poderoso no mundo, e quando perdi
o corpo, graças à minha tenacidade fui convidado a
administrar as Furnas. O amigo foi convidado ou
arrastado pela lei de sintonia, para usar o seu próprio
pensamento? Não admito contestações à minha palavra
revidou quase espumejante. O semblante contraído do
médium era um símile perfeito da fácies do justiceiro que
o incorporava. Fortemente influenciado por Fernando, o
dirigente, sem receio ou desejo de afronta, respondeu: A
palavra do amigo tem o valor que você próprio lhe
atribui. Aqui, na Casa de Jesus, a palavra incontestável é a
dele, única a manter-se a mesma ao longo de quase
vinte séculos. Ademais, a sua é a força da paixão
primitiva, que atemoriza os fracos e perturba os
culpados, não a nós... Estamos, então, em campos
opostos de luta e eu sou um perigoso inimigo... Não o
creia. Tudo converge para Deus, até mesmo o mal
aparente, do qual a Vida extrai o bem que é permanente,
enquanto o outro é sempre transitório. Igualmente, não o
temos, nem jamais o consideraremos um inimigo. A
ignorância gera adversários e o
81 conhecimento da verdade produz irmãos. Convidamo-
lo a vir aqui, com o objetivo de intercambiarmos ideias,
porque é chegado o momento em que a luz penetrará a
treva e a agressividade será substituída pela concórdia,
prenunciadora da paz. Entidades que se santificaram no
amor descem às Furnas para dali retirarem as vítimas de
si mesmas, que momentaneamente permanecem sob o
cativeiro de outras, também desditosas. Não é o acaso
que nos põe frente a frente. É Cristo amor que nos reúne
convocando-o para retornar ao redil. Jamais! Somos
inimigos. O seu é o reino da mentira, do qual me
divorciei. Estou vinculado ao império da força, onde os
Gênios da guerra comandam os destinos. Como pode,
meu amigo, a sombra impossibilitar a claridade estelar, a
necessidade eliminar a fartura, a fraude empanar a
verdade, o crime ocultar a honradez, o desvario
desmerecer o equilíbrio? O herói da guerra carrega
muitas vidas ceifadas sob a sua responsabilidade e, se
agiu com desatino e crueldade, torna-se devedor em
relação à humanidade, mesmo que as lutas não
pudessem ter sido evitadas. Desse modo, os gênios, aos
quais o amigo se refere, são os impiedosos comandantes
bárbaros de ontem que dizimaram cidades e povoados
inteiros na loucura desmedida que os governava.
Sabemos que eles permanecem nas regiões de degredo
do planeta, aí retidos pela Soberana Vontade, de modo a
permitirem o progresso das criaturas, em cujo círculo
social não dispõem de meios para renascer... Ainda
asselvajados, se reencarnassem nesse ínterim,
conturbariam a sociedade e volveriam às paixões
desvairadas que ateiam o fogo da desgraça. Sem dúvida,
periodicamente, alguns grupos dessa ordem mergulham
no corpo para despertarem pela dor os que fogem do
amor e, ante o medo que aterroriza, voltarem-se para o
bem... Igualmente, os menos virulentos assomam em
corpos jovens e
82 formam bandos de aventureiros, de nômades, de
apátridas que as drogas consomem, as músicas
alucinadas estimulam, tresvariam e o sexo desvairado
exaure, quando não tombam nas urdiduras dos crimes
traumatizadores... Esta é a sua visão da vida reagiu
furibundo. Nós somos o braço longo da Divindade
violenta, disciplinando os que afrontam a ordem e se
ocultam na hipocrisia. Aqueles que vêm até nós, fazem-
no por vontade própria, erram espontaneamente... Ou
são induzidos por sua mente, além de outras que os
controlam a distância. Realmente, a lei de sintonia vige
em toda parte. Os semelhantes se atraem, vivendo o
mesmo clima e as mesmas aspirações. Aqui temos um
exemplo: em sintonia com Jesus atraímos o amigo a esta
comunicação, porque, intimamente, está desejoso de
libertar-se do labirinto no qual se perdeu... Talvez não
esteja consciente dessa necessidade, que logo se lhe
transformará em aspiração máxima. O mal cansa, tanto
quanto o prazer satura, e, quando este se deriva daquele,
sufoca. Fomos criados para o amor e direcionados para a
Grande Luz. A treva é a exteriorização do que ainda
somos, e o sofrimento é a terapia de restauração.
Ninguém, porém, está condenado para sempre. Por isso,
os reinos maléficos, seu e de outros, começam a
desmoronar. O fototropismo do bem vence toda treva, e
tudo conduz na sua direção. É inevitável. Pense nisso!
Queixar-me-ei aos meus superiores desafiou
esbravejante. Não me considere submisso. Voltaremos cá,
ele e eu, para o enfrentamento. Você não perde por
esperar. Cuide-se, porque nossos vigilantes o seguirão. O
que será muito bom concordou, pacífico, o amigo
porque iremos juntos na direção de Jesus Cristo. Esta
Casa está às suas ordens e de todos aqueles que estejam
cansados e necessitados de recomposição. Deus o
abençoe, meu irmão!
83 Vimos a Entidade contorcer-se no médium, embora
sob ação fluídica benéfica do nosso Fernando,
desligando-se com certa violência, o que provocou
alguns espasmos nervosos no instrumento humano, com
sensações penosas. Notei a satisfação íntima que
transparecia no rosto do companheiro que viera conosco
e trabalhara no sentido de acalmar o verdugo. Outras
comunicações tiveram lugar, não ultrapassando um total
de doze, quando soou a hora de encerrar os trabalhos,
oitenta minutos depois de iniciados. Passistas do grupo
aplicaram energias nos médiuns e demais participantes,
após as palavras e considerações finais do irmão Vicente
por intermédio de D. Armênia. Com sentida oração de
graças, havendo antes pedido por todos e realizado
vibrações intercessórias, o Sr. Almiro concluiu a sessão,
encerrando-a. Distribuída água magnetizada pelo mentor
aos membros da atividade, passaram a outra sala, onde
se detiveram por alguns minutos em agradável
convivência e comentários edificantes sobre as
ocorrências da reunião, seguindo, logo depois, aos seus
respectivos lares. Nós outros permanecemos no recinto,
participando das atividades complementares e
pertinentes aos desencarnados.
84 Os gênios das trevas O Dr. Carneiro, Fernando e nós
continuamos ao lado do amigo Vicente, mesmo quando
as atividades da Casa estavam encerradas no plano físico.
Sentindo-se tranquilo quanto aos resultados da etapa de
renovação que ora se iniciava, falou-nos o responsável:
Conforme os nossos queridos visitantes perceberam,
nossa Sociedade, graças à imprevidência de alguns
companheiros encarnados, aos quais não culpamos,
derrapava para a sintonia com Entidades perversas, que a
si mesmas se intitulam Gênios das Trevas. Nesta reunião,
que ora se encerrou, alguns Espíritos, subordinados à
comunidade de infelizes que eles dirigem, aqui estiveram.
Dando-se conta das novas diretrizes aplicadas, irão levar-
lhes notícias e, certamente, ao primeiro ensejo, seremos
visitados por alguns desses obsessores. O bom senso
induz-nos a tomar certas providências, especialmente por
meio de atendimento cuidadoso aos encarnados que se
lhes vinculam mais diretamente. Recordo-me aqui do
caro Davi que, por enquanto, elegeu a viagem mais
difícil, dos irmãos Raulinda e Francisco, que atuaram
mediunicamente, entre outros. Assim convidaria os
amigos a visitarmos Raulinda dentro de mais três horas
aproximadamente, deixando-lhes este período de tempo
para atividades que lhes aprouver. O Dr. Carneiro
concordou plenamente, com o apoio do nosso júbilo, e
convidou-nos a um passeio pela orla marítima em cidade
próxima. A noite respirava serenidade sob o lucilar das
estrelas. O
85 murmúrio das ondas em crescimento, no encontro
com as praias onde se quebravam, era a própria natureza
em movimento incessante. Poucos notívagos, alguns
pares em demonstrações afetuosas, encontravam-se ao
longo da balaustrada da área. Sentamo-nos em silêncio
diante do oceano, absorvendo o plâncton das águas, as
energias vivas. Fernando, com discrição, narrou-nos que
lograra atrair a Entidade que se comunicara por
Francisco, em razão de vínculos pessoais mantidos entre
ambos em existências passadas. Sabia onde encontrar o
companheiro e o acompanhou por alguns dias, conforme
solicitara o nosso benfeitor, até conseguir trazê-lo à
psicofonia. Dizia-se exultante com os resultados. O
planejamento se desenvolvia com excelentes frutos. Na
minha inexperiência, não me dera conta de que o súbito
desaparecimento do amigo que viera conosco prendia-se
a algum plano adrede estabelecido. Sem desejar tornar-
me curioso ou inoportuno, porém desejoso de aprender
sempre, indaguei-lhe: Além do interesse de esclarecê-lo
espiritualmente, há algum outro motivo que me possa
informar, sem ruptura do sigilo em que se devem manter
labores especiais como este? Foi o Dr. Carneiro de
Campos quem me respondeu: Ao convidar o caro
Miranda para esta excursão de trabalho, não lhe
quisemos detalhar o compromisso em tela porque muitas
dificuldades estavam em pauta, aguardando solução. A
fim de não deixá-lo ansioso, resolvemos esperar a ajuda
divina para inteirá-lo depois, qual ocorre neste momento.
Fazendo uma pausa breve, deu continuidade à narração:
Oportunamente, ao ser liberado das Regiões infernais
antigo comandante das forças do mal que reencontrou
em Jesus a
86 porta estreita da salvação graças aos esforços
sacrificiais e renúncias imensas de sua genitora, aqueles
que permaneceram no esquema da impiedade reuniram-
se para tomar providências em conjunto contra o que
denominam como os exércitos do Cordeiro, que
detestam. Estes seres, que se extraviaram em diversas
reencarnações, assumindo altíssimas responsabilidades
negativas para eles mesmos, procedem, na sua maioria,
de doutrinas religiosas cujos nomes denegriram com as
suas condutas relapsas, atividades escusas e cortes
extravagantes, nas quais o luxo e os prazeres tinham
primazia em detrimento dos rebanhos que diziam
guardar, mas que somente exploravam, na razão do
quanto os desprezavam. Ateus e cínicos, galgavam os
altos postos que desfrutavam mediante o suborno, o
homicídio, as perversões sexuais, a politicagem sórdida,
morrendo nos tronos das honras e glórias mentirosas,
para logo enfrentarem a consciência humilhada e, sob
tormentos inenarráveis, sintonizando com os sequazes
que os aguardavam no Além, serem reconvocados aos
postos de loucura, dispostos a enfrentar Jesus e Deus,
que negam e dizem desprezar... Após ligeira interrupção
e medindo bem as palavras, prosseguiu: As figuras
mitológicas dos demônios e seus reinos, os abismos
infernais e os seus torturadores de almas são relatos
inicialmente feitos por pessoas que foram até ali
conduzidas em desdobramento espiritual por afinidade
moral ou pelos mentores, a fim de advertirem as criaturas
da Terra, antros sórdidos que aqueles governam e onde
instalaram o terror, dando a equivocada ideia de que
naquelas paragens não há tempo a transcorrer, num
conceito absurdo de eternidade a que se aferram
diversas religiões, as quais mais atemorizam do que
educam.
87 Mártires e santos, profetas e escritores, artistas e
poetas de quase todos os povos e épocas, os que eram
médiuns, visitaram esses Núcleos terrificadores e
conheceram os seus habitantes, trazendo, na memória,
nítidas, as suas configurações, que as fantasias e lendas
enriqueceram com variações de acordo com a cultura, a
região e o tempo, presentes, portanto, na historiografia
da humanidade. Variando de denominação, cada
grupamento, como ocorre na Terra, tem o seu chefe e se
destina a uma finalidade coercitiva, reparadora.
Periodicamente esses chefes se reúnem e elegem um
comandante a quem prestam obediência e submissão,
concedendo-lhe regalias reais... As ficções mais
audaciosas não logram conceber a realidade do que
ocorre em tais domínios. Sandeus e absolutos, anularam
a consciência no mal e na força, tornando-se adversários
voluntários da Luz e do Bem, que pretendem combater e
destruir. Não se dão conta de que tal ocorre, porque
vivem em um planeta ainda inferior em processo de
desenvolvimento, onde aqueles que o habitam, também
são atrasados, padecendo limites, em trânsito do instinto
para a razão. Inobstante porém, luz, nesta época, o
Consolador, e em toda parte doutrinas de amor e paz
inauguram a Nova Idade na Terra, convidando o homem
ao mergulho interior, ao rompimento dos grilhões da
ignorância, à solidariedade, ao bem... A ciência dá as
mãos à moral, e a filosofia redescobre a ética, para que a
religião reate a criatura ao seu Criador em um holismo
profundo de fé, conhecimento e caridade, numa síntese
de sabedoria transcendental. Tudo marcha na direção de
Deus, é inelutável. A Grande Causa, a Inteligência
suprema, é o fulcro para o qual convergem todos,
mediante a vigorosa atração da sua própria existência. As
lutas de oposição desaparecem com relativa rapidez,
88 rompendo-se as barricadas e trincheiras que se
tornam inúteis. A trajetória do progresso é irrefreável. Só
o Amor tem existência real e perene, lei que é da vida,
por ser a própria Vida. Calou-se, novamente, e relanceou
o olhar pelo veludo da noite salpicado de gemas
estelares, dando prosseguimento: Na reunião que eles
convocaram naquela oportunidade, ficou estabelecido
que o novo substituto deveria ser impiedoso ao extremo,
sem qualquer sensibilidade, cuja existência execranda no
planeta houvesse espalhado o terror e cuja memória
inspirasse revolta e ódio... Após um mês voltariam a
reunir-se. Naturalmente, foram buscados os sicários mais
abjetos da humanidade, que fossilizavam nos antros mais
hediondos das regiões subterrâneas de sofrimentos, de
onde foram retirados temporariamente para apresentação
de planos, sua avaliação de possibilidades de execução e
logo votação. Difícil imaginar tais conciliábulos e
consequente escrutínio para a eleição de um chefe.
Recordando as reuniões de antigos religiosos, ontem
como hoje, cada representante se vestiu com as
roupagens e características do seu poder, e, acolitados
pelo subalternos, compareceram em massa, diversos
deles conduzindo os seus candidatos para o pleito
macabro e ridículo. A extravagância e o cinismo
ilimitados fizeram-se presentes nas figuras grotescas,
asselvajadas umas, animalescas outras, em um cenário de
horror, para o que seria o grande momento de decisão, a
conquista do mundo humano por tais assaltantes
espirituais. Mais de uma vintena de algozes da sociedade
foram apresentados ao terrível parlamento. Alguns
encontravam-se hebetados em padecimentos que se
autoimpuseram; outros pareciam desvairados, e um
número menor, com fácies patibular e olhos miúdos,
fuzilantes, chamaram mais a atenção dos
89 governantes e da turbamulta alucinada que repletava
as galerias daquele simulacro infeliz de tribunal de
julgamento e seleção. Nomes que faziam tremer a Terra,
no passado remoto como no mais recente, eram
pronunciados, enquanto, pessoalmente, eles se
apresentavam ou eram trazidos. Vários em estado de
loucura foram apupados, embora os seus defensores
prometessem despertá-los e colocá-los lúcidos para o
ministério que lhes seria delegado. A balbúrdia
ensurdecedora interrompeu várias vezes as decisões. Os
árbitros, porém, ameaçaram expulsar a malta, que foi
atacada por mastins ferozes, até o momento em que
assomou ao pódio um ser implacável, com postura
temerária, passos lentos, coxeando, corpo balouçante
com ginga primitiva, que, erguendo os braços para
dominar o cenário, com facilidade o logrou, graças ao
terror que expressava nos olhos fulminantes. Quem o
conduzia deu ligeira notícia do candidato, sem ocultar a
felicidade que o dominava: Tenho a honra de apresentar
o inexcedível conquistador que submeteu o mundo
conhecido do seu tempo, na Ásia, e esteve na Terra,
novamente, apenas uma vez mais. As suas façanhas
ultrapassaram em muito outros dominadores, graças à
sua absoluta indiferença pela vida e aos métodos que
utilizava para a destruição da raça humana. Fundou o
segundo império mongol, realizando guerras cruentas. A
sua existência corporal transcorreu durante o século XIV,
havendo renascido na Ásia Central, próximo a
Samarcanda. Informando descender de Gengis Khan, aos
cinquenta anos alargou seus domínios do Eufrates à
Índia, impondo-se ao Turquestão, Coraçã, Azerbajá,
Curdistão, Afeganistão, Fars. Logo depois, invadiu a
Rússia, a Índia, deixando um rastro de dezenas de
milhares de cadáveres, somente em Delhi, às portas da
cidade e nos seus arredores... Cruel até o excesso,
realizou alguns trabalhos
90 de valor na sua pátria, porém as suas memórias são
feitas de atrocidade e horror, por cujas razões, ao
desencarnar, mergulhou nas regiões abismais onde foi
localizado, nas Trevas... O narrador fez breve silêncio para
logo prosseguir: À medida que a arenga apaixonada
conquistava os eleitores triunfantes, o horror mais
humilhava os presentes, que silenciaram, diante do
certamente vencedor hediondo. Encerrada a apresentação
do candidato, foi ele aceito por quase todos os chefes e
aclamado como o soberano gênio das trevas que se
encarregaria de administrar os corretivos na humanidade,
a qual ele propunha submeter e explorar. Não ignoramos
que o intercâmbio de energias psicofísicas entre os seres
inferiores desencarnados e os homens é muito maior do
que se imagina. Legiões de dezenas de milhões de
criaturas de ambos os planos se encharcam de vitalidade,
explorando-se, umas às outras, mediante complexos
processos de vampirização, simbiose, dependência,
gerando uma psicosfera morbífica, aterradora. Somente o
despertar da consciência logra interromper o comércio
desastroso, no qual se exaurem os homens, e mais se
decompõem moralmente os Espíritos. Para sustentarem
tão tirânica interdependência, são criados mecanismos e
técnicas contínuas de degradação das pessoas, que
espontaneamente se deixam consumir por afinidade com
os seres exploradores, viciados inclementes, amolentados
secularmente na extravagante parasitose. Pululam,
incontáveis, os casos dessa natureza. Enfermidades
degenerativas do organismo físico, desequilíbrios mentais
desesperadores, disfunções nervosas de alto porte,
contendas, lutas, ódios, paixões asselvajadas, guerras e
tiranias têm a sua geratriz nesses antros de hediondez,
onde as Forças do Mal, em forma de novos Lucíferes da
mitologia, pretendem opor-se a Deus e tomar-lhe o
comando. Vão e
91 inqualificável desvario este do ser humano inferior! O
homem marcha, na Terra como nos círculos espirituais
mais próximos, ignorando ou teimando desconhecer a
sua realidade como ser imortal, Espírito eterno que é, em
processo de ascensão. Dando preferência à sensação, na
qual se demora espontaneamente, em detrimento das
emoções enobrecidas, jugula-se à dependência do
prazer, cristalizando as suas aspirações no gozo imediato
e retendo-se nas faixas punitivas do processo evolutivo.
Ante tal comportamento, reencarna e desencarna por
automatismo, sob lamentáveis condições de perturbação,
perplexidade e interdependência psíquica. As obsessões
que atravessam decênios sucedem-se. O algoz de hoje,
ao reencarnarse, torna-se a vítima que por sua vez, mais
tarde, dá curso ao processo infeliz até quando as
soberanas leis interferem com decisão. As religiões, por
meio dos seus sacerdotes, ministros, guias e chefes, na
maioria aferradas aos dogmas ultramontanos, preferem
não descerrar a cortina da ignorância, mantendo os seus
rebanhos submissos, pelo menos convencionalmente, em
mecanismos de rude hipocrisia, desinteressadas do
homem real, integral, espiritual. Sucede que grande
número desses condutores religiosos está vinculado aos
sicários espirituais, que os mantêm em dependência
psíquica, explorados, para que preservem o estado de
coisas conforme se encontra. Por tal razão, quando as
doutrinas libertadoras se apresentam empunhando as
tochas do discernimento, seus apologistas, membros
divulgadores e realizadores são perseguidos, cumulados
de aflições e tormentos, para que desistam, desanimem
ou se submetam aos mentirosos padrões dos triunfos
terrenos. O benfeitor calou-se por ligeiro espaço de
tempo e, lúcido, adiu: Pode parecer que o Pai
misericordioso permanece indiferente ao destino dos
filhos sob o domínio das sombras de si mesmos.
92 No entanto, não é assim. Incessantemente sua voz
convida ao despertamento, à reflexão, à ação correta,
usando os mais diversos instrumentos, desde as forças
atuantes do universo aos missionários e apóstolos da
Verdade, que não são escutados nem seguidos. Os
líderes da alucinação tornam-se campeões das massas
devoradoras, enquanto as vozes do bem clamam no
deserto. Milhares de obreiros desencarnados operam em
silêncio, nas noites terrestres, acendendo luzes espirituais,
em momentosos intercâmbios que são considerados, no
estado de consciência lúcida, no corpo, como sonhos
impossíveis, fantasias, construções arquetípicas, em
conspiração sistemática a favor das teses materialistas.
Essas explicações, algumas esdrúxulas, travestidas de
científicas, são aceitas, inclusive, pelos religiosos, que aí
têm seus mecanismos escapistas para fugirem aos
deveres e responsabilidades maiores. Desnecessário
confirmar que as nobres conquistas das ciências da alma,
inclusive as abençoadas experiências de Freud, de Jung e
outros eminentes estudiosos, fundamentam-se em fatos
incontestáveis. Algumas das suas conclusões merecem,
porém, reestudo, reexame e conotações mais modernas,
nunca descartando a possibilidade espiritualista, hoje
considerada pelas novas correntes dessas mesmas
doutrinas. Quando as criaturas despertarem para a
compreensão dos fenômenos profundos da vida, sem
castração ou fugas, sem ganchos psicológicos ou
transferências, romper-se-ão as algemas da obsessão na
sua variedade imensa, ensejando o encontro do ser com
a sua consciência, o descobrimento de si mesmo e das
finalidades da existência corporal no mapa geral da sua
trajetória eterna. Mais uma vez, o venerável instrutor fez
uma pausa, facultando-
93 nos assimilar o conteúdo das suas palavras, para logo
dar continuidade: Posteriormente informado das razões
que o elevaram ao supremo posto, representativo
daqueles grupos hostis, o Chefe pediu um prazo para
elaboração de planos, solicitando a presença de hábeis
conselheiros de períodos diferentes da História, a ele
semelhantes na estrutura psíquica, de modo a inteirar-se
das ocorrências no planeta. As reuniões sucederam-se
tumultuadas, violentas, sempre acalmadas pela
agressividade do Soberano, que, ciente das novas
revelações da Verdade na Terra, do advento do
Consolador e seu programa de reestudo e vivência do
Cristianismo, das incursões modernas do Espiritualismo
ancestral na sociedade contemporânea, todos formando
diques contra as águas volumosas da destruição, resolveu
escutar fracassados conhecedores do comportamento das
criaturas, tanto na área sexual como na econômica e na
social pois que nesses recintos transitam aqueles que se
comprometeram negativamente perante a Vida após o
que estabeleceu o seu programa, que ironicamente
denominou como as quatro legítimas verdades, em
zombeteira paráfrase ao código de Buda em relação ao
sofrimento: as quatro Nobres Verdades. Em reunião
privada com os chefes de grupos, explicitou o programa
que elaborara para ser aplicado em todas as suas
diretrizes e com pormenorizado zelo. Primeiro: o homem
redefiniu o novo Soberano das Trevas é um animal sexual
que se compraz no prazer. Deve ser estimulado ao
máximo, até a exaustão, aproveitando-se-lhe as
tendências, e, quando ocorrer o cansaço, levá-lo aos
abusos, às aberrações. Direcionar esse projeto aos que
lutam pelo equilíbrio das forças genésicas é o empenho
dos perturbadores, propondo encontros,
94 reencontros e facilidades com pessoas dependentes
dos seus comandos que se acercarão das futuras vítimas,
enleando-as nos seus jogos e envolvimentos enganosos.
Atraído o animal que existe na criatura, a sua dominação
será questão de pouco tempo. Se advier o
despertamento tardio, as consequências do compromisso
já serão inevitáveis, gerando decepções e problemas,
sobretudo causando profundas lesões na alma. O plasma
do sexo impregna os seus usuários de tal forma que
ocasiona rude vinculação, somente interrompida com
dolorosos lances passionais de complexa e difícil
correção. Segundo: o narcisismo é filho predileto do
egoísmo e pai do orgulho, da vaidade, inerentes ao ser
humano. Fomentar o campeonato da presunção nas
modernas escolas do Espiritualismo, ensejando a
fascinação, é item de alta relevância para a queda
desastrosa de quem deseja a preservação do ideal de
crescimento e de libertação. O orgulho entorpece os
sentimentos e intoxica o indivíduo, cegando-o e
enlouquecendo-o. Exige uma corte, e suas correntes de
ambição impõem tributários de sustentação.
Pavoneando-se, exibindo-se, o indivíduo desestruturase e
morre nos objetivos maiores, para cuidar apenas do
exterior, do faustoso a mentira de que se insufla.
Terceiro: o poder tem prevalência na natureza humana.
Remanescente dos instintos agressivos, dominadores e
arbitrários, ele se expressa de várias formas, sem disfarce
ou escamoteado, explorando aqueles que se lhe
submetem e desprezando-os ao mesmo tempo, pela
subserviência de que se fazem objeto, e aos
competidores e indomáveis detestando, por projetar-lhe
sombra. O poder é alçapão que não poupa quem quer
que lhe caia na trampa. Ademais a morte advém, e a
fragilidade diante de outras forças aniquila o iludido.
Quarto: o dinheiro, que compra vidas e escraviza almas,
será
95 outro excelente recurso decisivo. A ambição da
riqueza, mesmo que mascarada, supera a falsa
humildade, e o conforto amolenta o caráter,
desestimulando os sacrifícios. Sabe-se que o Cristianismo
começou a morrer, quando o martirológio foi substituído
pelo destaque social, e o dinheiro comprou coisas,
pessoas e até o Reino dos Céus, aliciando mercenários
para manter a hegemonia da fé... Quem poderá resistir a
essas quatro legítimas verdades? interrogou. Certamente,
aquele que vencer uma ou mais de uma, tombará noutra
ou em várias ao mesmo tempo. Gargalhadas estrepitosas
sacudiram as furnas. E a partir de então, os técnicos em
obsessão, além dos métodos habituais, tornaram-se
especialistas no novo e complexo programa que em
todos os tempos sempre constituiu veículo de desgraça,
agora mais bem aplicado, redundando em penosas
derrotas. Não será necessário que detalhemos casos a
fim de analisarmos resultados. Aprofundando reflexões, o
Amigo concluiu: Precatem-se, os servidores do Bem, das
ciladas ultrizes do mal que tem raízes no coração, e
estejam advertidos. Suportem o cerco das tentações com
estoicismo e paciência, certos de que o Pai não lhes
negará socorro nem proteção, propiciando-lhes o que
seja mais importante e oportuno. Ademais, não receiem
as calúnias dos injuriadores que os não consigam
derrubar. Quando influenciados pelos assessores dos
Gênios, mantenham-se intimoratos nos ideais abraçados.
A vitória tem a grandeza da dimensão da luta travada.
Este desafio, que nos tem merecido a mais ampla e
minudente consideração, qual ocorre com inúmeros
benfeitores do Mundo Maior, é uma das razões de nos
encontrarmos em atividade com o irmão Vicente e os
membros da Casa que ele dirige. Agora, sigamos ao
trabalho que nos espera. Havia no ar da noite silenciosa
a presença de bênçãos que
96 aspirávamos em longos haustos, enquanto nos
dirigíamos para a sede dos nossos labores.
97 Reflexões necessárias Não tive tempo de arregimentar
perguntas, tal o esfervilhar de pensamentos que me
agitavam a casa mental. A narração breve do instrutor
fornecia-me explicações para melhor entender vários
acontecimentos infelizes que pairavam agitando a
economia moral da sociedade, especial e particularmente
dos cristãos novos, dos espiritualistas modernos e dos
estudiosos da mente que, interessados nos padrões
éticos e superiores do comportamento, subitamente
naufragavam nos ideais ou os abandonavam, padecendo
graves ulcerações espirituais. Compreendia melhor a
irrupção do sexo desvairado a partir dos anos sessenta
deste século, o alucinar pelas drogas, a mudança dos
padrões morais e o crescimento da violência, o abandono
a que as gerações jovens foram atiradas, as falsas
aberturas para a liberdade sem responsabilidade pelos
atos praticados, a música ensurdecedora, a de metais, a
de horror, a satânica, e tantas outras ocorrências... Está
claro que o processo antropossociológico da evolução, às
vezes, deve arrebentar determinados compromissos para
abrir novos espaços experimentais, que irão compor o
quadro das necessidades evolutivas do homem e da
mulher. A moral social, geográfica, aparente, deve ceder
lugar à universal, à que está ínsita na natureza, àquela
que dignifica e promove, superando e abandonando as
aparências irrelevantes e desacreditadas. Verificava que a
transição histórica de um para outro período é
semelhante a um demorado parto, doloroso e complexo,
do qual nascem novos valores e a vida enfloresce. Não
seriam os períodos de convulsão danosa gerados por
98 mentes destruidoras sediadas no Além? Teriam
gênese, em programações semelhantes, as súbitas
alterações sociais que sacudiam até o desmoronamento,
nações e povos, abalando a humanidade? Partindo do
princípio de que a vida real e causal é a que tem origem
e vigência na erraticidade, no mundo espiritual, conforme
os acontecimentos, suas matrizes desencadeadoras estão
aqui e daqui partem por indução, inspiração e
interferência direta, por meio da reencarnação de
membros encarregados de perturbar a ordem geral.
Embora suponham estar agindo por vontade própria, ei-
los sob o Comando divino que os utiliza indiretamente
para despertar as consciências adormecidas para as
altíssimas finalidades da vida. Recordava-me de amigos
que haviam reencarnado com tarefas específicas e
nobres, para agirem com elevação e desdobrarem o
programa de iluminação espiritual, e que derraparam
lamentavelmente, alguns sendo retirados antes de mais
infelizes comprometimentos, e outros abraçando
esdrúxulas condutas, fazendo-se crer autossuficientes,
superiores, revoltados... Tinha em mente as tarefas
estabelecidas e aceitas com entusiasmo antes da
reencarnação ou ditadas mediunicamente, que produziam
impactos felizes, mas que logo pareciam perder o
significado para os seus responsáveis, que as
abandonavam ou as alteravam a bel-prazer para
seguirem noutros rumos... Observava sempre a facilidade
com que certos líderes carismáticos eram seguidos por
multidões hipnotizadas, e astros do desequilíbrio
galvanizavam as massas, aturdindo-as, fazendo-as adorá-
los, naturalmente sob controles espirituais poderosos das
Trevas. O caso Davi, mais especificamente, tornava-se um
exemplo concreto da consumação das quatro legítimas
verdades
99 perturbadoras. Todo o empenho de seus mentores e
de alguns amigos encarnados não resultou positivo,
intoxicado que estava pela presunção narcisista, atraído
pelo sexo irresponsável, fascinado pelo dinheiro e, no
íntimo, ambicionando o destaque, o poder... O labor de
Jesus, o Cordeiro sacrificado, é todo de abnegação e
renúncia, de amor e humildade, de persuasão afetuosa,
jamais de imposição arbitrária. Como efeito, creem os
apressados que vitórias são a da ganância, da força e do
brilho rápido das luzes da fama... Compreendia melhor, a
partir daquele momento, que as imperfeições da criatura
humana são as responsáveis pelo fracasso de bem
organizados planos, pelas perturbações que se
generalizam, pelas opções extravagantes, pelo desdobrar
das paixões asselvajadas, em razão do nível inferior de
consciência no patamar em que transita a maioria das
pessoas. Não obstante, estimuladas essas expressões
primárias em domínio ou ainda remanescentes no ser, é
fácil entender a loucura avolumada na Terra, a falência
dos padrões éticos e o anseio pelo retorno às
manifestações primevas do ser. Raciocinando sobre os
planos do soberano gênio das trevas, tornaram-se-me
lógicas as ocorrências que antes me pareciam absurdas,
quase impossíveis de acontecer. No momento em que a
cultura atinge as suas mais altas expressões; quando a
Ciência mais se aproxima de Deus auxiliada pela
Tecnologia, e o homem sonha com a possibilidade de
detectar vida fora da Terra, igualmente campeiam a
hediondez do comportamento agressivo; a excessiva
miséria de centenas de milhões de pessoas, social e
economicamente abandonadas à fome, às doenças, à
morte prematura; o erotismo extravagante em
generalização; a correria às drogas e aos excessos de
toda natureza,
100 tornando-se para mim um verdadeiro paradoxo da
sociedade. O homem e a mulher terrestres, ricos de
aspirações enobrecidas, ainda não conseguem desligar-se
dos grilhões dos instintos perturbadores, muitas vezes
amando e matando, salvando vidas e estiolando-as em
momentos de alegria ou de revolta. Essa visão aflige-me
como sendo um espetáculo inesperado no processo da
evolução. Aprofundando, agora, a reflexão nas paisagens
da obsessão dos grupos humanos e da procedência de
um programa de paulatina subjugação mental das
massas, melhor passei a entender a luta ancestral, quase
mitológica, do Bem e do Mal, das forças existentes na
natureza humana propelindo para um outro
comportamento. Observava, há algum tempo, a conduta
de pessoas dedicadas ao Espiritualismo, que se
apresentavam portadores de ideias materialistas-
utilitaristas, sempre usando a verruma, a acidez e a
zombaria contra os seus confrades, por pensarem de
forma diferente e não se lhes submeterem à presunção,
aos caprichos, ao comando mental. Pugnando sempre
contra, e atacando, descobrem erros em tudo e todos,
apresentando-se com desfaçatez como defensores do
que chamam a Verdade, somente eles possuindo visão e
interpretação correta do pensamento que vitalizam e
divulgam. É claro que sempre os houve em todas as
épocas da humanidade, porém agora são mais
audaciosos. Indaguei-me, naquele momento, se não
estariam a soldo psíquico de tais manipuladores de
obsessões ou se não seriam alguns membros desses
grupos ora reencarnados? Sem qualquer censura a esses
indivíduos, alguns certamente sinceros na forma de se
conduzirem, inquiri-me: por que não concederiam o
direito aos demais de serem conforme lhes aprouvesse,
enquanto eles seguiriam na sua maneira especial de
entendimento? Há, sem dúvida, muitas complexidades no
processo da evolução,
101 que se vão delineando e explicando lentamente à
medida que os Espíritos galgam degraus mais elevados.
Por isso mesmo, as revelações se fazem gradativamente,
dando, cada uma, tempo para que a anterior seja
digerida pelas mentes e aplicadas nos grupos sociais. A
Sabedoria divina jamais deixou a criatura sem os
promotores do progresso que vêm arrancando o ser da
ignorância para o conhecimento. Essas reflexões levaram-
me a uma melhor compreensão do próximo, ensejando-
me simpatia e amor pelos companheiros da retaguarda,
encarnados ou não, e maior respeito pelos nobres guias
da humanidade, sempre pacientes e otimistas, incansáveis
na tarefa que abraçam como educadores amoráveis que
são. Tem sido sempre crescente o meu afeto a Allan
Kardec, por ele haver facultado à mediunidade
esclarecida elucidar o comportamento humano e permitir
a penetração do entendimento no mundo espiritual.
Graças ao Espiritismo, novos descortinos e constantes
informações ajudam o ser humano a compreender a
finalidade da sua existência na Terra, as metas que lhe
cumpre alcançar por meio de contínuos testes e desafios.
Olhando a multidão ainda em movimento pelas ruas por
onde transitávamos na grande cidade, um sentimento de
ternura e compaixão amorosa assomou-me, levando-me
às lágrimas. Percebendo-me a emoção silenciosa, o Dr.
Carneiro de Campos enlaçou-me o ombro e falou: Há
muito por fazer em favor do nosso próximo, onde quer
que se encontre. Aqueles que já despertamos para a
compreensão da Vida, temos a tarefa de acordar os que
se demoram adormecidos, sem lhes impor normas de
conduta ou oferecer-lhes paisagens espirituais que ainda
não podem penetrar. Se alguns pudessem conhecer a
realidade que ora enfrentamos,
102 enlouqueceriam de pavor, se suicidariam, tombariam
na hebetação... O nosso dever induz-nos a ajudá-los a
elevar-se, pouco a pouco, identificando as finalidades
existenciais e passando a vivê-las melhor. Fazendo uma
pausa oportuna, continuou: Em nossa esfera de ação
encontramos, a cada instante, irmãos equivocados,
iludidos pelas reminiscências terrestres, defendendo os
interesses malsãos dos familiares e afetos, preocupados
com as querelas do corpo já diluído no túmulo,
negando-se à realidade na qual se encontram. Agimos
com eles paciente e amorosamente, confiando no tempo.
Ora, em relação aos encarnados, a questão faz-se mais
complexa, exigindo-nos maior cota de compreensão e de
bondade. O anestésico da matéria, que bloqueia muitas
percepções do Espírito, terá que ser vencido
vagarosamente, evitando-se choques danosos ao
equilíbrio mental e emocional dos indivíduos. Assim,
prossigamos confiantes, insistindo e perseverando, sem
aguardar resultados imediatos, impossíveis de ser
atingidos. Chegamos, por fim, ao núcleo das atividades,
onde outros deveres nos aguardavam.
103 Ensinamentos preciosos A sede terrestre para nosso
repouso após os trabalhos na Sociedade Espírita situava-
se em bairro próximo da capital de X... Era o lar de uma
afeiçoada trabalhadora da Doutrina Espírita que cultivava
o Evangelho e vivia-o intensamente. Não se havendo
consorciado matrimonialmente, superou o clima de
solidão tornando-se companheira dos que necessitavam
de apoio e de amizade. Portadora de aguçada
sensibilidade mediúnica, percebia a presença dos
Espíritos com os quais dialogava mentalmente. Dotada
de caráter diamantino, trabalhava em uma empresa de
grande porte, de onde retirava os recursos para a própria
manutenção, auxiliando, inclusive, alguns familiares e os
irmãos do Calvário com generosidade e júbilo. Contribuía
em favor da divulgação do Espiritismo mediante o seu
ensino, nos cursos ministrados na Sociedade que
frequentava. Discreta, era severa no trajar e no
comportar-se, inspirando simpatia e afeto. Retirava,
periodicamente, do seu tempo escasso, horas valiosas
para visitar e confortar os enfermos, especialmente os
internados na Colônia de hansenianos em cidade do
interior do estado, acompanhada por dois abnegados
amigos, José e Ângelo, também solteiros e dedicados à
Causa do Bem. Aos domingos, à noite, alguns amigos e
poucos convidados reuniam-se no seu lar para estudo do
Evangelho à luz do Espiritismo e vibrações intercessórias
pelos sofredores. Nesses momentos, abnegados
instrutores desencarnados, que se lhe afeiçoaram,
acorriam ao clima doméstico para auxiliar e conduzir, por
inspiração, os temas postos em discussão. A sua
mãezinha, em
104 Espírito, recepcionava as Entidades, desde o cair da
tarde, quando vinham participar do ágape espiritual.
Respirava-se, ali, desse modo, uma psicosfera saturada de
amor e de espiritualidade, rica de benefícios gerais. Por
isso, o Dr. Carneiro de Campos elegera o ninho
doméstico de Ernestina para nosso repouso durante as
atividades programadas. Quando lá chegamos, de
retorno do labor mediúnico, fomos recebidos pela
veneranda senhora Apolônia, a abnegada genitora da
nossa anfitriã, que nos explicou ser aquela a data
aniversária da filha devota. Ia-se comemorar o
quinquagésimo ano de vida física, e fora-lhe preparada
uma homenagem especial, em razão da sua conduta
moral e pelos relevantes serviços de amor praticados na
Terra. Muito jubilosos, aguardamos os acontecimentos
que se desenrolariam na sala de refeições, onde se
realizavam os labores dominicais dedicados ao
Evangelho. Convidados de ambos os planos
permanecemos tranquilos, quando deram entrada
Ernestina, parcialmente desligada do corpo, e a genitora
feliz. A aniversariante não ocultava a satisfação,
especialmente por ter em conta o alto significado
daquele evento. Havia flores nos vários recantos da sala e
guirlandas de mirtos enfeitadas com rosas adornavam as
paredes que suportavam o teto. A jovialidade sem
estardalhaço era a característica geral. Todos envolviam a
aniversariante em vibrações de ternura, augurando-lhe
felicidades durante as provas abençoadas no corpo físico.
A reencarnação é teste severo para aprendizagem
superior, assinalada por incontáveis riscos e desafios
constantes, que a podem pôr a perder de um para outro
instante. O véu carnal, que obscurece o discernimento da
realidade maior, impede, muitas
105 vezes, se a pessoa não é afeiçoada à reflexão, que se
adote o comportamento correto diante das inúmeras
pressões que confundem a razão e o sentimento,
gerando muitas dificuldades. Eis por que o hábito da
meditação, da análise cuidadosa antes de determinadas
decisões, senão de quase todas, tornam-se
indispensáveis. Pensar duas vezes antes de agir, como
assevera o refrão popular, é atitude de equilíbrio.
Estávamos dialogando quando deu entrada no recinto o
venerando Dr. Bezerra de Menezes, que viera atendendo
ao especial convite que lhe encaminhara a senhora
Apolônia. Saudando-nos com carinho e nobreza,
igualmente recebido com inexcedível alegria geral, mais
ainda pela homenageada que lhe beijou as mãos
acostumadas à ação do Bem, tornou-se o centro de
todas as atenções. Decorridos alguns minutos, foi-lhe
solicitado que fizesse uma oração gratulatória. Sem
delongas, ante o silêncio e a unção geral, o benfeitor
exorou ao divino Mestre: Senhor, Tu, que homenageaste
os nubentes felizes durante as suas bodas em Caná,
participa da nossa festa de ação de graças e
enriquecenos de paz. Agradecemos-te os anos que se
passaram, prósperos, para nossa querida Ernestina,
ensejando-lhe crescimento espiritual, abnegação e
iluminação da consciência. Sabemos como é áspera e
difícil a ascensão, e quanto é inçado de escolhos o
roteiro carnal. A cada momento, um novo encontro, ou
um reencontro de consequências imprevisíveis, pode
transformarse em tormentoso desencontro. Ciladas são
propostas por adversários inescrupulosos, e a sordidez
das paixões, que ainda predominam na natureza humana,
106 gera dificuldades de difícil superação, tentando
imobilizar aqueles que se afeiçoam ao bom combate.
Vícios, que remanescem no comportamento, ressumam,
arbitrariamente, e provocam desassossegos, constituindo-
se inimigos severos do progresso. Interferências psíquicas
negativas, que procedem da Erraticidade inferior, alteram
a visão dos acontecimentos, propelindo a desventuras e
insatisfações. No entanto, não faltam a inspiração
contínua dos Mensageiros do Bem, os convites da
natureza à harmonia, a dádiva dos amigos afetuosos, a
tua ajuda serena! Graças a esses contributos, a tua
servidora alcança a metade de um século, no corpo físico,
avançando sem ruído nem perturbação pela senda que
palmilhaste. Ampara-a nos futuros cometimentos e
defende-a do mal como e onde quer que se lhe
apresente. Agradecemos-te os júbilos desta hora, e,
louvando-te, entregamo-nos em tuas mãos para a
execução do programa da evolução a que nos
convocaste. Quando silenciou, ouvimos suave melodia
que dominou o ambiente, enquanto pétalas coloridas de
rosas perfumadas desceram sobre nós, desfazendo-se no
contato conosco, aromatizando-nos. Recordei-me que
também nós, na Terra, houvéramos ultrapassado os
cinquenta anos de idade corporal em plena atividade
espírita, e quanto nos haviam sido valiosos os janeiros
que se sucederam, ensinando-nos a entender a vida,
utilizando-nos de cada etapa com mais discernimento.
Interrogando-me a respeito das atividades em curso,
expliquei ao Dr. Bezerra sobre o novo projeto de amor,
direcionado aos gênios do mal e particularmente àqueles
que cooperam com o soberano gênio das trevas.
Gentilmente ele estimulou-nos ao prosseguimento da
empresa,
107 e, porque deveres imediatos o aguardassem,
despediuse de todos nós, seguindo para a
desincumbência das suas nobres tarefas. O Dr. Carneiro
acercou-se e convidou-nos, a Fernando e a nós, para que
retornássemos à Casa espírita, onde as realizações
mediúnicas de socorro teriam desdobramentos, estando
programadas para as duas horas da manhã, portanto em
breves minutos. Rumamos alegres para o novo
compromisso e vencemos a distância facilmente. Quando
lá chegamos, o irmão Vicente comandava os serviços
com presteza e ordem. Além dos Espíritos amigos, que
diligenciavam as tarefas, alguns dos médiuns encarnados
e assistentes, bem como o adversário espiritual de
Raulinda, aguardavam em silêncio. A jovem, também
parcialmente desdobrada, mantinha-se sob tensão, em
expectativa, algo lúcida. No semblante conturbado
notavam-se as marcas dos conflitos que a aturdiam.
Quando terminara a reunião e retornara ao lar, em vez
de manter o clima de otimismo do trabalho, voltara aos
pensamentos pessimistas, derrotistas. Anteriormente
diagnosticada como uma psicótica maníacodepressiva
por um psiquiatra, e por outro identificada como
histérica, aceitara as duas hipóteses, sem esforçar-se para
dar novo rumo à própria existência. Reconhecia que a
frequência aos labores espíritas faziam-lhe um grande
bem, no entanto não conseguia a harmonia íntima que
almejava. Apesar de crer nas manifestações espirituais,
supunha que o fenômeno, por seu intermédio, era
anímico, o que a levava a dúvidas atrozes.
Lamentavelmente, ainda viceja entre as pessoas que
acreditam
108 na reencarnação, conhecendo, portanto, a
causalidade dos sofrimentos humanos, uma ideia
equivocada quanto às próprias problemáticas. Parecem
anelar pelas soluções de fora, e, porque não chegam
conforme gostariam, entregam-se ao desânimo ou às
dúvidas. Nossa Raulinda não era exceção. Esperava que o
Espiritismo lhe resolvesse o problema de saúde
emocional e lhe brindasse um companheiro fiel, amoroso,
para sempre... Sonho esse, aliás, acalentado por muitas
pessoas do sexo feminino como do masculino, no
sentido inverso, resolvendo-lhes a questão basilar da
afetividade. Acercando-nos da moça, o Dr. Carneiro de
Campos comentou: Sem dúvida, como decorrência de
atitudes levianas do pretérito, nossa paciente apresenta
algumas síndromes do fenômeno histérico, associado ao
transtorno psicótico maníacodepressivo. O seu
perseguidor foi-lhe vítima da insensatez moral, que se
imprimiu nas tessituras sutis do perispírito e que ora se
manifesta como insatisfação, crises periódicas de
contrações, paralisias e nevralgia uterina... O fenômeno
fisiológico está intimamente ligado ao distúrbio
psicológico, derivado da consciência de culpa. Esta impõe
a autoflagelação e perturba as atividades nervosas
normais, dando surgimento aos estados de desequilíbrio.
Do ponto de vista médico, a opinião mais antiga a
respeito da histeria pertence a Freud, como recordamos,
que a considerava como de referência às emoções
sexuais que estão recalcadas no subconsciente desde a
infância, procurando ressurgir, assim dando lugar a
satisfações substitutas das anormais impelidas pelo eu.
Charcot, por sua vez, estudou-a detidamente, chegando a
conclusões hoje não aceitas por algumas escolas, após as
observações de Babinski e outros, que demonstraram ser
a histeria
109 o resultado de sugestões provocadas ou
autossugestões, denominando tais fenômenos como
pitiatismo. Outros estudiosos ainda, como Dupré,
afirmam que a histeria está muito vinculada à mitomania,
enquanto os professores Janet e Claude asseveram que a
mesma não passa de uma crise de nervos banal. Outros
mais, como o Dr. Dezwarte, conferem-lhe uma base
fisiológica...3 O importante é verificarmos que todas as
teorias abrem espaço para os conflitos que remontam à
reencarnação, que os nobres cientistas não estudaram. Se
o conflito histérico dorme no subconsciente desde a
infância, no conceito de Freud, seria de pensar-se na
possibilidade da sua preexistência ao berço, como
herança do Espírito para si mesmo. Na hipótese de ser
uma sugestão transmitida ou autossugestão, no conceito
de Babinski, verificamos que essa sugestão procede do
mundo espiritual, da vítima do gravame sofrido... Na
visão de Dupré, sendo a decorrência de uma organização
mitômana, encontramos as reminiscências morais
deficientes do caráter do enfermo, que procedem das
expe-riências transatas. Por fim, ante os conceitos de
Janet e Claude, tais crises nervosas são resultado dos
conflitos da consciência culpada, e, mesmo nos casos de
Dezwarte e outros que lhe conferem gênese fisiológica, o
psiquismo é fator preponderante para a sua
manifestação. O bondoso amigo silenciou por alguns
segundos, enquanto olhou a paciente, com um misto de
ternura e de piedade, logo concluindo: Seja qual for a
causa detectada pelos cientistas da Medicina, não
podemos dissociar o paciente da sua enfermidade.
Concluímos que os fenômenos perturbadores da nossa
irmã têm suas matrizes no perispírito, decorrentes da
conduta irregular de ontem e de severa obsessão atual,
conforme estudaremos. Somente uma visão holística na
área médica, examinando o
110 enfermo como um ser global Espírito, perispírito e
matéria poderá ensejar-lhe uma terapia de profundidade,
erradicando as causas preponderantes das enfermidades
e dos transtornos de comportamento. O ser humano terá
que ser estudado como um conjunto de vibrações que se
apresentam sutis, semimateriais e físicas. A análise de
uma parte da sua constituição, como matéria ou como
Espírito apenas, será sempre incompleta. Graças à Física
Quântica, à Biologia Molecular, à Psicobiofísica e outras
modernas ciências que estudam o ser integral, vão
tombando as muralhas do materialismo, que cede lugar
ao espiritualismo. Diante do universo desaparecem o
observador e o observado, conforme a equívoca visão da
Física newtoniana, já que aquele que observa é
observado por sua vez. Um não está lá e outro cá. Todos
fazem parte do mesmo conjunto, porquanto um somente
passa a existir para o outro quando é percebido, por sua
vez também percebendo. Pouco a pouco, luz,
entendimento novo da realidade, e as concepções
antigas de venerandas doutrinas espiritualistas de épocas
recuadas são trazidas à atualidade, sendo aceitas sob
modernas denominações. Porque fosse chegado o
momento da assistência espiritual programada, não pude
apresentar algumas interrogações ao sábio instrutor,
silenciando-as até oportunidade própria.
111 O caso Raulinda As alegrias saudáveis fazem parte
do processo da evolução. Os Espíritos participamos dos
momentos felizes dos homens e entre nós celebramos
inúmeros acontecimentos, qual ocorre na Terra, onde os
seus membros os materializam, recordando-se deles
antes do mergulho no corpo. Pode causar estranheza, a
alguns observadores superficiais da vida física, a
comemoração de acontecimentos humanos pelos
desencarnados. Da mesma forma que os Espíritos
perversos se reúnem para a execução de planos
macabros e vivências de prazeres sórdidos, de que não
se liberaram em relação aos homens, as Entidades
elevadas cultivam as emoções superiores, estimulando as
reuniões edificantes evocativas de ocorrências felizes.
Não somos, os Espíritos, seres indefinidos, insensíveis,
como algumas pessoas nos consideram, mas vibrações
inteligentes, idealistas, desdobrando todas as
potencialidades latentes de que somos constituídos e
buscando sempre novas conquistas dignificadoras. Desse
modo, como as dores dos seres amados nos pungem, as
suas vitórias nos alegram. Ao bom trabalhador é sempre
concedido um salário excelente. Agora, a sala onde se
realizara a atividade mediúnica de horas antes,
encontrava-se organizada para o prosseguimento do
trabalho espiritual. À cabeceira da mesa, em torno da
qual estavam sentados vários participantes, encontrava-
se, lúcido, o amigo Almiro. Após a prece proferida pelo
orientador Vicente, iniciou-se a reunião mediúnica.
112 Diversos desencarnados faziam-se presentes, assim
como alguns trabalhadores que estiveram na sessão
anterior. O ambiente, saturado de vibrações harmônicas,
convidava à reflexão, à prece. Raulinda apresentava-se
inquieta, como se percebesse a gravidade e o significado
daquele momento para o seu reequilíbrio psicofísico.
Buscava identificar com lucidez o que se passava, no
entanto sentia o raciocínio tardo e a memória algo
apagada. Como Vicente solicitara a ajuda do Dr. Carneiro
de Campos, pedindo-lhe que dirigisse o trabalho
especial, o bondoso guia convocou-nos à aplicação de
passes, com finalidade dispersiva dos fluidos
entorpecentes que anestesiavam a médium, o que
fizemos de imediato. Pouco a pouco, a jovem recuperou
o discernimento e compreendeu que se encontrava em
parcial desprendimento do corpo por meio do sono
físico. Olhou em derredor e acalmou-se, sentindo-se
amparada. O semblante asserenou-se e ela buscou
sintonizar o pensamento com as vibrações agradáveis.
Fernando foi destacado para conduzir à psicofonia o
atormentado perseguidor, que igualmente recobrou a
consciência plena e, hostil, com graves ameaças, foi
imantado ao perispírito da intermediária. A jovem
experimentou um choque nervoso como efeito da
assimilação dos fluidos do comunicante, congestionou a
face e tornou-se-lhe um verdadeiro símile, em perfeita
identificação psíquica. Agitando-se, perturbado, indagou,
sem ocultar a rebeldia: Por que a violência? Terão
desaparecido dos mansos e humildes de coração a
paciência e a bondade? interrogou com ironia mal
disfarçada. Até quando, ou desde quando, os bons se
utilizarão da força para atender aos seus objetivos? Não
há mais respeito pela liberdade individual?...
113 O Dr. Carneiro interrompeu-o, sem qualquer
aborrecimento, elucidando: As leis da Vida funcionam por
automatismos naturais para todos os seres. A princípio, a
liberdade do indivíduo leva-o a agir como lhe apraz,
inclusive mediante violência contra si próprio e o seu
próximo, qual vem ocorrendo com o amigo. E a utilização
errada do livre-arbítrio. Porque o mau uso dessa opção
complica o destino do imprevidente, este tomba no
determinismo inevitável, que o elege para a evolução,
conclamando-o, com amor ou por meio do sofrimento,
ao despertar da consciência. Desse modo, não nos
estamos utilizando de qualquer recurso de violência, mas
de uma terapia enérgica, objetivando a sua felicidade...
Uma gargalhada de mofa estrugiu, desconcertante, dos
lábios da médium. O doutrinador continuou, porém,
imperturbável: Compreendemos a alucinação que o
domina, e tendo-a em vista é que nos acercamos de
você com carinho. Considere-nos, portanto, como
amigos, que o somos, e que se compadecem do seu
problema, da sua aflição. Não sou eu, no entanto, quem
merece compaixão, mas ela que é uma criminosa... Eu
estou recorrendo à justiça do desforço a que têm direito
todas as vítimas. Infelizmente, a palavra justiça é usada
por muitos indivíduos de forma incorreta. Os criminosos
assumem postura de inocência e clamam pelo seu nome;
os perseguidores impiedosos e os vingadores
desalmados recorrem-lhe ao apoio, desfigurando-a. A
única justiça real, porém, é a que promana de Deus, que
a inseriu nos códigos do amor, em igualdade de
condições para todos... Eu sou-lhe a vítima. Não tenho
direito a reivindicar justiça? Certamente que sim, e a
justiça lhe será feita, não por você, que se encontra cego
da razão e, talvez, com responsabilidade
114 também nos infelizes acontecimentos em que foi
envolvido, mas pela Vida. Engana-se! Amei a desgraçada
com devoção, e entregueilhe a minha vida. Que me
ofereceu em troca, além do adultério, da traição e do
homicídio? Desconhecendo-lhe a pusilanimidade, confiei
e fui traído miseravelmente pela desleal que me
substituía por outros no leito, inclusive pelos servos, que
me censuravam às ocultas. Quando me dei conta e ela
percebeu-me a desconfiança, antes que a desmascarasse,
tramou e executou a minha morte, envenenandome. Será
que alguém pode avaliar o rio escaldante de lágrimas de
dor e revolta que tenho vertido? Não lhe desconhecemos
o sofrimento, e por isso aqui nos encontramos,
realizando uma tentativa de reverter o seu caudaloso
curso... Até este momento, desde que você a
reencontrou, tem--selhe transformado em algoz,
lentamente dominando-lhe a área do discernimento e
agindo diretamente no seu centro genésico, molestando-
a, enfermando-a. Sabemos que ninguém escapa da
correção, quando erra. Não é necessário, porém, que
outrem se lhe faça cobrador, tornando-se candidato, por
sua vez, a futuras reparações. Cada qual imprime na
consciência os próprios atos, e as leis se encarregam de
trabalhar a retificação dos incursos nos seus Estatutos.
Jamais a perdoarei!... Essa palavra tem significado muito
diferente nos Códigos da Vida. Amanhã, talvez, ela
represente-lhe perdão agora. Por que postergar a ocasião
de ser feliz, se para tanto basta modificar o rumo do
pensamento, canalizando as suas ideias para o próprio
bem? Não pode haver nada mais frustrante do que a
sensação de perda que sucede ao ato da vingança. O
falso prazer da vitória é de breve duração, seguido de
tempo infinito, que se apresenta sem
115 objetivo. Já examinou a hipótese de haver sido
corresponsável pelos funestos acontecimentos de que se
diz vítima? Como? Se eu a amava e cumpria com todos
os meus deveres, inclusive os conjugais? Refiro-me a
sucessos anteriores a essa existência. Ninguém sofre
imerecidamente. Não tinha ela o direito de ser
instrumento de cobrança, de dor, para o amigo, como
igualmente essa permissão hoje lhe é concedida. Não
acredito que lhe devesse nada, porquanto a amava. O
amigo usa o verbo amar como instrumento de
autodefesa e de acusação. O verdadeiro amor encontra-
se acima e além das conjunturas de tempo e lugar, sem
nada exigir, nem condicionar. É provável que você a
amasse, ou melhor dizendo, cobiçasse-lhe o corpo, a
companhia, as sensações, que não são mais do que o
desejo animalizado, herança do primitivismo... E quer, em
razão disso, que a perdoe? Eu, que a amava então?
Certamente que não... A infame utilizava-se da minha
posição e fortuna para desfrutá-las, sem sequer retribuir-
me com o mínimo de dignidade. Não é essa a questão
em análise. O que nos importa são os seus sofrimentos,
que devem cessar. Os anos sucedem-se. Já decorreram
mais de seis décadas desde aquelas ocorrências infelizes,
e chega o momento de alterar-lhes o rumo, libertando-o.
Não é a nossa irmã que está presa ao amigo, e sim o seu
pensamento, os seus interesses que se encontram fixados
nela. Como sabe o tempo que transcorreu? Conhecemos-
lhes o drama há algum tempo. Desejo maltratá-la, pouco
a pouco, conflitá-la, até mesmo levá-la à morte. E se me
conhece o drama, sabe que tenho razão. Morte, no
entanto, é vida. Imaginemos que você o conseguisse...
Com o sacrifício imposto, ela se depuraria e você a
116 perderia, ficando a sós, desestruturado, até quando?
Por que não seguir a diretriz da Vida, libertando-se do
ódio que o consome e desarvora, deixando-a por conta
de si mesma? Quando ela despertar, e isso ocorrerá em
breve, em relação a todos os erros praticados, empenhar-
se-á por recuperar-se, e é provável que lhe distenda
braços maternos acolhedores, a fim de que os
sentimentos se refaçam e se sublimem no amor.
Conceda-se tal oportunidade, pois dela você necessita. As
palavras do mentor estavam ungidas de ternura, e a sua
vibração, brindando esperança ao indigitado, nele
repercutiu poderosamente. Colhido de surpresa pelas
perspectivas desenhadas nas frases finais, inquiriu:
Renascer nos braços da assassina? Não, da mulher que
você diz que amou e que se converterá em mãe
abnegada, mesmo padecendo os efeitos das dissipações
que o organismo brevemente exteriorizará. Crucificada
nas dores excruciantes que estabeleceu por meio da
insensatez, buscará no filhinho querido o refúgio e o
lenitivo para redimir-se. Observe-a! Mais tarde ela
despertará no corpo físico com leves reminiscências do
que lhe parecerá um sonho, e, lentamente, ir-seá
conscientizando dos acontecimentos, de forma a
prepararse para o futuro. Com o seu afastamento, a fim
de ser equipado para a reencarnação, não lhe cessarão,
por efeito de mágica, as sensações desagradáveis que
experimenta e estão impressas nas tessituras sutis da
alma. Se o seu propósito é vê-la sofrer, mesmo
afastandose, as consequências dos desequilíbrios que ela
se permitiu permanecerão, porquanto assim é a Lei: toda
causa desencadeada produz um efeito equivalente. Não
sei, não sei! Estou aturdido, muito confuso. Nunca pensei
num desfecho desta ordem. Não sei...
117 O benfeitor dirigiu-nos uma onda mental específica,
e acorri com Fernando a aplicar energias calmantes no
Espírito que foi acometido de forte emoção, pondo-se a
chorar num misto de angústia e frustração. Prosseguindo
com o concurso de aplicação de energias, ele se foi
asserenando até que adormeceu, sendo retirado, para
receber assistência especializada em lugar próprio,
preparando-se para o futuro. Raulinda retornou à
consciência lúcida e percebeu o que houvera acontecido.
Fixando a atenção com desejos de recordarse, vieramlhe
à mente alguns clichês das infelizes experiências
passadas, identificando as causas dos seus atuais
conflitos e sofrimentos. O Dr. Carneiro acercou-se e
induziu-a às recordações, elucidando-a a respeito dos
delitos perpetrados, assim como das futuras
possibilidades de reabilitação. Embora as evocações
fossem pessoais, sintonizados com a sua onda mental
podíamos acompanhar o desenrolar dos fatos mais
graves, que culminaram no assassinato do esposo.
Incontinente, ante a expressão estarrecedora do
sucedido, ela começou a apresentar sinais de
desequilíbrio, que foram interceptados pelo Amigo
experiente, que a exortou à mudança de atitude
explicando: A recordação dos erros tem como finalidade
despertar a consciência para o conveniente resgate. No
passado de todos nós demoram-se muitas sombras
perturbadoras, que o amor de nosso Pai nos faculta
diluir. Desse modo, despertados para a realidade dos
objetivos da reencarnação, que têm caráter educativo,
reparador, devemo-nos propor o dever de nos
iluminarmos, auxiliando aqueles que deixamos tombados
na retaguarda. Assim, à queixa contumaz, à rebeldia
sistemática, sobreponhamos a paciência e a resignação
com irrestrita confiança em Deus, reabilitando-nos diante
de quem prejudicamos, a fim de
118 sermos felizes. Envolveu-a em vibrações de equilíbrio,
e convidou Fernando a trazer o pupilo à psicofonia de
Francisco, prosseguindo o labor interrompido com o
encerramento da sessão poucas horas atrás. A verdade é
que o amigo do Soberano das Trevas, após a
comunicação e a ameaça de que iria pedir providências
aos Gênios, não conseguiu evadir-se do recinto em razão
das barreiras vibratórias. Discretamente vigiado pelos
assessores do irmão Vicente, permaneceu ali tentando
sair sem o conseguir. Passando da revolta à
agressividade, e gerando tumulto no campo vibratório
em que permanecia ilhado, aguardou o momento para
novo diálogo, agora com maior profundidade.
119 Guillaume e Gérard Leonardo era médium
sonambúlico, dotado de belas faculdades propiciatórias
ao intercâmbio. De caráter nobre e sentimentos elevados,
tornara-se espírita em plena adolescência, quando os
fenômenos espirituais irromperam, levando-o a um
período de contínuas perturbações, que foram
confundidas, no princípio, como de natureza psicológica.
Após ser medicado mais de uma vez, alguém, amigo da
família, alvitrou a hipótese de tratar-se de distonia
espiritual. Conduzido pela genitora ao Núcleo Espírita e
recebendo conveniente assistência por meio dos passes e
da vinculação às atividades juvenis do Grupo,
amainaram-se-lhe os distúrbios. Compreendendo o
conteúdo da Doutrina, à medida que se desenvolvia,
passou a frequentar as reuniões práticas, nas quais deu
atendimento à mediunidade, educando-se e educando-a.
Nos anos seguintes, concluiu o curso de Odontologia e
consorciouse com Helena, jovem militante da Casa,
começando a edificação do lar, da família. Valorizando
com serenidade o ministério abraçado, dele se
desincumbia com elevada consideração. Nessa
oportunidade, contava vinte e oito anos, possuindo já
uma expressiva folha de serviços em favor dos
sofredores. Maleável à influência espiritual, logo que
Fernando mentalizou o seu pupilo, atraindo-o à
comunicação, a sua sensibilidade começou a registrar os
efeitos da sintonia psíquica, apresentando ligeiras
contrações faciais e tremor por todo o corpo. Nesse
comenos, deu entrada no recinto o Dr. Hermann Grass,
trazendo adormecido o médium Davi que foi colocado
entre os assistentes. O seu era um estado espiritual
deplorável. O cérebro encontrava-
120 se envolto por densa escuridão, que decorria dos
pensamentos vitalizados nos últimos tempos, emanando
vibrações de baixo teor. Da região genésica, como do
estômago, do fígado e do baço, irradiavam-se, em ondas
excêntricas, energias viscosas e enfermiças. O hábito dos
alcoólicos, nas reuniões sociais e noutros momentos, já o
vitimava pela dependência dos mesmos em instalação,
apresentando os primeiros sintomas para uma futura
cirrose hepática com atuais perturbações digestivas, altas
taxas de colesterol, hipertensão arterial, apesar da
juventude orgânica... Da área sexual também se
exteriorizavam fluidos densos, carregados do magnetismo
pernicioso deixado pelos parceiros encarnados, viciosos, e
pelos Espíritos de igual psiquismo, que se mesclavam nas
orgias elegantes a que o sensitivo se entregava.
Apurando a observação, podia-se constatar que as
vesículas seminais se encontravam comprometidas, como
resultado das vibrações que as estimulavam, e que das
gônadas jorravam energias sutis de qualidade inferior,
alimentadas pela mente de Davi e dos desencarnados
que a ele se associavam durante o desdobrar das paixões
sexuais. A próstata, em processo de aumento, denotava
desarmonia celular, avançando para futura neoplasia
maligna... Adormecido, produzia ruídos e espasmos,
característicos dos distúrbios de comportamento
psicológico que eram liberados, naquele período,
demonstrando uma situação aflitiva. Vendo-o assim e
considerando-lhe as admiráveis possibilidades de
realização, não me pude furtar a um sentimento natural
de compaixão acompanhado do desejo de auxiliá-lo, de
despertá-lo para a realidade profunda da vida, assim
como do valioso significado da atual reencarnação. O
médium Davi, porém, era responsável pelo que lhe
sucedia. Conhecendo a Doutrina Espírita e recusando-se
a viver-lhe a
121 moral, sabia da gravidade do compromisso
mediúnico; no entanto, preferira seguir pelos atalhos
perigosos da fascinação, da cegueira... Não lhe faltaram
advertências, insistentes convites ao retorno ao dever,
que recusava sistematicamente, caminhando agora, quase
a sós, por eleição pessoal, no rumo das companhias
inferiores, que desejavam arrastá-lo para a alucinação
total, o malogro da reencarnação. Aquele instante era-lhe
de magno valor, razão pela qual ali fora trazido. Liberado
do sono anestesiante pelo Dr. Grass, relanceou o olhar
em volta e atemorizou-se. A consciência de culpa estava
vigilante e ele temeu que estivesse desencarnado... A
criatura humana, via de regra, valoriza sempre o que
deixou de ter, o que ainda não possuiu, o que
desperdiçou. Na vida moral, o fenômeno é equivalente. À
aproximação da morte, ou em suspeita disso, formulam-
se planos de enobrecimento, de realizações superiores,
para logo abandoná-los, assim que passa o perigo,
voltando-se à insensatez com redobrada volúpia. Foi o
que observamos em Davi. O despertar em nosso plano
levou-o às lágrimas, e notamos que retorcia as mãos em
sinal de desespero, mas, para nossa surpresa, não o
vimos orar ou buscar elevar-se em pensamento a Deus,
como seria desejável. A falta de unção e seriedade moral
no trato com os desencarnados desalojara-lhe a mente
das atitudes corretas. O Dr. Hermann, ao seu lado,
tranquilizou-o com palavras gentis. O médico
apresentava-se severo, como de hábito, no entanto
deixava transparecer alguma humildade e submissão aos
desígnios superiores, compreendendo a magnitude do
momento e o alto valor das Entidades que ali se
encontravam dirigindo a atividade. À meia-voz, o
diligente médico explicou ao seu intermediário onde se
encontravam e para que ali estavam, facultando acalmálo.
122 Permanecia a psicosfera de harmonia, especialmente
à volta da mesa dos trabalhos. Incontinente, Leonardo,
incorporado, abriu desmesuradamente os olhos e acusou:
Não reconheço aqui ninguém com autoridade para
constranger-me à submissão. Sou independente. Embora
tenha amigos entre os Gênios, não faço parte do grupo.
A minha é uma ação solitária e com meta bem definida.
Realmente esclareceu o Dr. Carneiro de Campos não
possuímos qualquer autoridade sobre o amigo,
reconhecendo que a única que existe e nos direciona na
vida, é Jesus Cristo, a quem procuramos servir. Quanto
ao seu relacionamento com os Gênios do Mal não nos
preocupamos, porquanto cada um é livre para eleger as
companhias com as quais melhor se afina por identidade
de propósitos. Nesse sentido, o amigo é livre para agir e
colher os resultados da sua ação. O que nos interessa é a
sua felicidade, momentaneamente deslocada das
finalidades nobres para as paixões dissolventes, cujos
efeitos, de imediato, o amigo experimenta, gerando
aflições para o futuro. Tenho que interromper a farsa do
meu infame inimigo que ali está... E voltando-se, apontou
o dedo em direção ao médium Davi que estremeceu,
tornando-se lívido. Prosseguindo na agressão, explodiu: É
muito bom esse reencontro lúcido, porque desejo
refrescar a memória do bandido, que se traveste de
benfeitor dos ignorantes que o rodeiam em busca de
migalhas, a troco da bajulação, da sórdida propaganda
do seu nome. O infeliz está vendendo a própria alma a
Satanás, enriquecendo, a fim de tudo abandonar, quando
eu e outros consumarmos o plano que temos em mira...
123 Há somente um detalhe que não ocorreu ao amigo
advertiu o orientador que é a Providência divina. Ela não
interferirá, porque o próprio dissipador não o permitirá.
Odiento, é um poço de vaidade; frio emocionalmente, é a
personificação do egoísmo refinado. Qualquer socorro
que lhe seja dirigido, ele, comprometido como se
encontra, recusará, porque não está disposto a fazer
nenhuma concessão de referência a mudança de
conduta. Se duvida, pergunte-lhe, e ouça a resposta do
presunçoso. Somente pensa em acumular haveres que os
abandonará com o corpo, logo mais quando tudo estiver
consumado. É da Lei, que ninguém foge de si mesmo,
nem se impede o progresso, que é inexorável. A vítima
de hoje é o apoio do perseguidor amanhã, quando
permite que brilhe no íntimo o amor. Quando permanece
a animosidade, a vítima transferida para a posição de
algoz mais se infelicita, porque jamais alcançará o seu
final que seria a destruição do adversário. As vidas
encontramse tão mescladas, umas nas outras, que
sempre voltam aos mesmos sítios e pessoas até que se
superem por meio do amor, que arrebenta as algemas e
une os corações. Por isso, quem perdoa se eleva e se
fortalece, enquanto aquele que permanece no ódio,
rebaixa-se e desidentifica-se, por largo período, da
realidade superior. Pouco me importa o que me venha
suceder após vencer o covarde. Com certeza, não será
pior do que o ódio que me combure, há quase um
século ou pouco mais, já não o sei... Pois nós o sabemos.
Dê-nos a chance de recordar juntos, fazendo uma
necessária avaliação. Davi foi convidado a acercar-se do
médium Leonardo incorporado, obedecendo de imediato.
Uma tela de substância alvinitente aparecia na parede
fronteira
124 aos litigantes, enquanto o orientador propunha:
Recordem-se, recordem-se da batalha de Sedan (França).
Era o dia 31 de agosto de 1870 e a guerra franco-
prussiana chegava ao momento culminante. O marechal
Mac-Mahon está diante da volumosa cavalaria do
exército alemão do outro lado do rio Mossa... O medo
assalta os corações e aguarda-se com alta tensão a
ordem para atacar. A artilharia alemã, bem situada,
dispara com frequência contra os adversários. Ao
amanhecer de 1o de setembro, sob proteção da neblina,
os alemães programam e executam o ataque, sendo
rechaçados. No entanto, com a chegada do Sol,
tornando-se alvo exposto, o exército francês sofre
pesadas baixas, inclusive o seu comandante, e trava-se
encarniçada luta... À medida que o mentor foi delineando
os fatos, os opositores neles se concentraram, do que
resultou receber a tela vibrações delicadas, em
movimento contínuo, qual se atuassem sobre leve névoa
e dessem-lhe contornos. Começaram então a surgir as
cenas das lutas, ensejando-nos acompanhá-las, como
ocorre no cinema. Fixando mais o pensamento nas
evocações, as personagens produziam imagens em
terceira dimensão, que nos apresentavam o horror e a
loucura da guerra... Milhares de homens em retirada sob
o fogo pesado da artilharia, que provocava crateras no
chão e consumia vidas preciosas a cada explosão,
formavam um triste espetáculo. Simultaneamente a
cavalaria, avançando e subjugando os atrasados,
estripava os caídos sob a gritaria infrene da soldadesca
asselvajada, das vítimas exangues e do relinchar dos
animais atingidos ou estimulados ao prosseguimento
pela espora. No véu plúmbeo da fumaça sobre as
cabeças desorientadas, cenas de horror sucediam-se,
aberrantes. No fragor da luta surgem dois soldados
franceses que também fugiam, quando um deles,
alcançado por um petardo de obus, tomba, quase
fulminado. O outro, com visível risco de vida,
125 arrasta-o e logra salvá-lo... As cenas se misturaram, e
reapareceram apresentando uma área suburbana de
Paris. O enfermo convalescia na casa do seu salvador,
atendido por jovem mulher, que o cercava de carinho.
Era a esposa de Guillaume, o herói... Terminaram, fazia
pouco tempo, as lutas na capital, com a derrota total da
França, que pagaria alta soma em dinheiro a Bismark, e
perdia a Alsácia e uma parte da Lorena para os
germanos. Notava-se que uma afinidade muito grande se
estabelecera entre o enfermo e a sua benfeitora,
passando, logo mais, dos limites, quando o esposo não
se encontrava no lar. Posteriormente, via-se a descoberta
do adultério, a agressão de Guillaume enfurecido e sua
morte, em reação de desespero do amigo a quem
salvara... Desapareceram as cenas, e o desencarnado
exclamou: Salvei o biltre, para que ele me humilhasse,
indignificandome o lar e roubando-me a vida. Perdoá-lo?
Nunca! Não negamos a hediondez da ingratidão, que é
superlativa. No entanto, se recuarmos no tempo, iremos
detectar desalinhos do amigo, que produziram esse
golpe rude e macerador... Chega o momento de pormos
um ponto final na pugna. A Divindade uniuos como
amigos para que superassem antigas rixas, porém Gérard
não resistiu aos ímpetos da sua inferioridade,
descambando na alucinação. Cabe a você refazer o
caminho e abrir novas estradas para o futuro de ambos.
Nunca! A desgraçada, que com ele se homiziou,
traindome, é hoje a esposa recatada rilhou com ironia
que me pagará, no momento próprio. Primeiro ele,
depois o outro ajuste de contas. Pedindo licença para
dialogar, Davi/Gérard tentou justificarse: Foi em defesa
própria que cometi o crime. A Justiça
126 reconheceu-o. Você estava enfurecido... E não era
para tanto? Albergar a serpente no próprio lar, para ser
picado e por ela envenenado? A Justiça o absolveu,
porque aqueles, como estes, eram e são dias de
iniquidade, a mim cumprindo-me o direito de corrigir as
leis ignóbeis. Você diz que foi em defesa própria. A
traição, premeditada e executada, também o foi? Eu era
fraco... E prossegue o mesmo venal indivíduo, hoje pior,
após tanto tempo. O benfeitor acercou-se e interferiu,
silenciando Davi e aduzindo: Agora que as lembranças
são mais nítidas, repense os seus planos. Conceda-se
novas reflexões. Há tempo; no entanto, ele urge.
Adormeça, a fim de descansar um pouco... Aplicando-lhe
energias balsâmicas e repousantes, vimos Guillaume
asserenar-se, adormecendo profundamente. Bailavam na
minha mente inúmeras interrogações, que o momento
não me facultava apresentar ao mentor. Por que a
doutrinação fora interrompida? Teria havido, nesse
período, outras reencarnações dos implicados na trama
infeliz? Quais as providências a tomar, objetivando o
atendimento a Guillaume? Vê-lo-íamos novamente, ou
ele seguiria o próprio destino? As atividades, no entanto,
estavam em plena realização e não havia tempo para os
nossos diálogos. Aguardei, assim, ocasião própria,
prosseguindo, atento, nos serviços em execução.
127 Advertências salvadoras O sexo em desalinho, sob o
comando do egoísmo, responde por grande número de
aflições que atormentam a criatura humana.
Remanescente dos impulsos primitivos da reprodução
animal, escravizado às paixões do orgulho pessoal,
constitui uma herança pesada no processo da evolução
do ser humano. Enquanto prevaleça, dará curso aos
espetáculos hediondos, que denigrem a História, graças
às suas fixações nos caprichos sórdidos que geram a
infelicidade, o desar. A força sexual, à semelhança de
uma torrente impetuosa de água, deixada à solta, espalha
pânico e morte; canalizada, preserva a vida... Desse
modo, conduzi-la de forma segura para ser útil deve ser
o pensamento e desejo do ser inteligente, que assim vai
superando seus limites, mediante as sábias conquistas do
sentimento e da razão. O cenário dos serviços
mediúnicos prosseguia com as vibrações harmoniosas,
dispensadas pelos mentores espirituais e sustentadas
pelo Grupo de cooperadores adestrados. Não obstante as
tensões durante as comunicações referidas, era possível
preservar-se o equilíbrio da concentração mental, em
sintonia com as Forças Superiores. Raulinda e Leonardo
se haviam recomposto, e sob a assistência dos mentores
mantinham-se calmos. Agora era a vez de Francisco
oferecer a instrumentação mediúnica à psicofonia
atormentada, qual ocorrera durante a atividade de há
poucas horas. A mesma Entidade espiritual, que fora
trazida pelo amigo Fernando, incorporou-o, transpirando
azedume.
128 Davi, que se encontrava sob a assistência do Dr.
Grass, foi chamado nominalmente pelo sofredor
espiritual, e logo deu início à sua manifestação.
Informava que tinha orientação do Soberano das Trevas
para influir-lhe na conduta, contribuindo para a sua
desestruturação, assim como a do seu trabalho. Disse
mais, que o enfrentamento da Entidade zombeteira com
o Dr. Hermann já era parte do esquema, tanto quanto o
plano da expulsão do médium da Casa Espírita, em razão
do seu comportamento rebelde e insensato, objetivando
deixá-lo sem o concurso de amigos conhecedores do
exercício da mediunidade e os seus riscos, ficando
exposto a maior número de perigos na companhia dos
seus admiradores irresponsáveis. O médium, surpreso,
demonstrava perturbação no raciocínio, acostumado à
presunção e à autofascinação a que se entregava.
Tomado de receios injustificáveis, começou a chorar. O
Dr. Carneiro acercou-se mais e falou-lhe com ternura
paternal, enquanto o irmão Almiro dialogou com o
semeador de pânico. Davi a inflexão de voz infundia
ânimo, mas chamava à realidade, é necessário despertar
para os compromissos espirituais. A mediunidade é
faculdade cujo exercício deve ser realizado santamente,
com altas cargas de responsabilidade e respeito.
Ninguém aplica uma função destinada à elevação do ser,
de maneira irregular, que não venha a sofrer as funestas
consequências da atitude leviana. Ademais, você não
desconhece que exercitá-la para o Bem é um dever, e
que a amplitude dos fenômenos que lhe proporciona
tem por meta facultar-lhe a reabilitação moral. De
leviandade em leviandade, você mais tem agravado os
compromissos que lhe cumpre ressarcir. A oportunidade
de edificação passa rapidamente e é necessário
aproveitá-la. Calou-se, por um pouco, dando ensejo ao
companheiro para
129 assimilar-lhe o conteúdo, logo prosseguindo: A
simonia é crime catalogado nos códigos divinos. A vida é
muito valiosa em todas as expressões da natureza,
particularmente a humana, que você tem cuidado de
forma irresponsável. Você é saudável, conseguiu uma
profissão invejável, tem um lar rico de bênçãos. Por que
negocia com a faculdade mediúnica, cujos recursos lhe
são concedidos gratuitamente? Que tem feito da
consciência, além de anestesiá-la nas ilusões mundanas?
Você assumiu graves obrigações com a Vida, no que
tange à caridade, que deve esparzir com as mãos cheias
de amor. Não pense que o apoio cirúrgico do Dr.
Hermann, nos atos negociados, significa anuência ao
erro. Ele assim procede em respeito aos enfermos,
ludibriados pelos métodos ignóbeis que você estabeleceu
para chegarem até ele. Dando vazão ao seu mau
procedimento, quanto ganha o autor das atividades
socorristas, sem cujo concurso você nada pode? Como se
permite um comportamento execrando de tal porte, que
leva a outros extremos morais, desrespeitando o lar, as
concessões da saúde e a conduta mediúnica? Não pense
que aqui estamos somente para exprobrar-lhe o
comportamento. Nosso objetivo é ajudá-lo. Novamente
calou-se, ensejando ao aturdido ouvinte a bênção da
reflexão. Enquanto isso, o emissário do infortúnio
discutia, furibundo, com o irmão Almiro, que o atendia
com amor, sob a vigilância diligente do nosso Fernando,
interessado no diálogo e no destino do seu protegido.
Esta reunião deu curso aos esclarecimentos, entre outras,
tem como finalidade despertá-lo para a verdade e o
bem, desintoxicá-lo dos vapores morbíficos a que se
permitiu, quando transitando pelos antros morais, de
luxo, mas nem por isso menos perturbadores. Trouxemos
Guillaume, a fim de proporcionar-lhe a
130 paz e a compreensão dos perigos que o rondam.
Esta sua atual reencarnação é de resgate, de formosas
provações e não de licenças morais. Não está previsto
para você o mediumato, por enquanto, mas sim a
estrada redentora que o levará a esse labor elevado, caso
se submeta aos imperativos do dever. Hoje são muitos os
adversários que você tem granjeado pelo caminho, em
ambos os planos da Vida. Mentes encarnadas e
desencarnadas maldizem-no, vibram violentas na sua
direção, atingindo os sutis equipamentos da sua
mediunidade, que dá os primeiros sinais de falhas, de
erros lamentáveis. Não há médiuns irreprocháveis. A
Terra é planeta ainda inferior, porque nós que lhe
estamos vinculados somos Espíritos inferiores, salvo as
exceções compreensíveis. Recomece o trabalho do Bem,
nas bases ensinadas por Jesus e reconfirmadas por Allan
Kardec. Volte à simplicidade. Reparta o excesso, que lhe
chegou de forma equivocada, com os que padecem
carência. Ninguém consegue enganar-se a si mesmo por
muito tempo. Havia, na emoção do benfeitor, a vibração
de ternura, mas também de severidade, não dando
margem a interpretação errônea. Tratava-se de um apelo
último, como a significar que, a partir daquele momento,
a sorte estava lançada, facultando a Davi o apoio da
Espiritualidade ou o seu prosseguimento com outros
amigos desencarnados, que ele preferisse. Não esqueça
concluiu o sábio orientador que depois das alucinações
na França, você desencarnou, vitimado pela negligência
moral, reencarnando-se quase de imediato na Romênia...
Lá conheceu, mais tarde, o Dr. Grass, ajudando-o em
experiências nefastas com cobaias humanas, na condição
de seu enfermeiro, aferrados ambos ao mais cruel
materialismo. Passada a Primeira Grande Guerra e
desencarnando em grande indigência espiritual, um e
outro comprometeram-se a reparar os crimes
131 auxiliando vidas, diminuindo-lhes a aflição e
amparando os sofredores, o que hoje deveria ocorrer
com amplitude, conforme a proposta inicial, quando do
despertar da faculdade. O futuro você o escreverá,
conforme lhe aprouver. Abraçou-o com afeto, adindo,
emocionado: Que o divino Médico nos cure
interiormente! O Dr. Hermann Grass, visivelmente
comovido, abraçou o mentor e pediu licença para
expressar-se. Neste comenos, a palavra sábia do irmão
Almiro acalmou o comunicante infeliz, que Fernando
desligou do médium Francisco, levando-o ao sono
profundo para futuras terapias. Davi a sua voz era grave,
embora meiga, não há outra alternativa para nós, a partir
deste momento, senão a da edificação moral. Aliás,
nunca houve outra antes. Nós a tomamos com mãos
incapazes e lhe alteramos o rumo no passado, e os
efeitos danosos ainda remanescem em nosso mundo
íntimo. Estamos vinculados pelas ações negativas, e o
pranto, a dor, o desespero de muitas vidas que
amarguramos, limitamos e ceifamos, permanecem
clamando pela reparação. Jesus Cristo nos convidou à
retificação dos nossos delitos: a mim, pela condição de
verdugo do próximo; e a você, pela de comparsa
igualmente cruel. Eu prossigo médico, utilizando-me dos
seus órgãos físicos e manipulando-os, tendo-o como
auxiliar, que me deve ser maleável, acessível...
Começamos bem, com entusiasmo, atendendo aos
infelizes mais desventurados, porque, além das dores que
os dilaceravam, padeciam da injunção rude da miséria
econômica. Recebíamos os seus sorrisos ingênuos e
agradecidos, suas vibrações de amor e suas preces
intercessórias por nós, ensejando-nos o equilíbrio e a
saúde da alma. Como éramos felizes então! A emoção
embargou-lhe a voz. Conhecido pela forma rude com
que tratava a clientela, pelos
132 gestos bruscos e reações inesperadas, o Dr. Hermann
agora se desnudava... Certamente, sua habitual maneira
de apresentar-se era um mecanismo de autodefesa, um
cuidado para não revelarse. Mesmo em nossos círculos
espirituais, onde era respeitado, alguns de nós o
tínhamos como um companheiro áspero, desidentificado
dos sentimentos fraternos e do Evangelho. Era visto,
agora, na grandeza das suas expressões, lutando para
conduzir com amor o amigo invigilante, enquanto
argumentava com a lógica da razão e a vibração do
afeto. Mantendo o controle, prosseguiu: Perdemos o
rumo... Você e eu nos desviamos da senda. Vio tombar e
prossegui ao seu lado. Acompanhei as suas alucinações e
insisti, agindo por seu intermédio como se nada
houvesse acontecido, tal o meu desejo de servir,
necessitando da sua instrumentalidade. Adverti-o e
continuei. Silenciei observações por sabê-lo um adulto
lúcido, que deve ser consciente do que faz... Há pouco
tentei retirá-lo, quase à força, do ambiente sórdido para
onde correu após o nosso labor, buscando afogar-se no
lodo das paixões vis... Apiado-me de nós ambos, porém
muito mais de você. A continuar com a conduta nos
moldes atuais, já não terei campo no seu psiquismo
mediúnico para o nosso intercâmbio, sendo constrangido
a prosseguir onde, quando e conforme o Senhor me
facultar. Vejo-o, não poucas vezes, assessorado por seres
malfazejos que já se utilizam de você fingindo tratar-se
de mim... Porque a sua sensibilidade está ficando
embotada, não se dá conta da diferença das energias
deles e das minhas. A mistificação toma-lhe espaços
largos e os sinais de alarme são detectados: os pacientes
pioram; para alguns são receitados produtos
inadequados ao pósoperatório, às ocultas; outros
adquirem infecções depois da cirurgia; mais outros
sofrem riscos de vida... Quando você vai
133 parar? Agora é a sua existência física tornando-se
exposta. Você quase nada conhece do mundo dos
Espíritos onde estamos. Todo cuidado é pouco. Aproveite
este momento, Gérard... Houve um silêncio geral, no qual
se ouviam as vibrações do Bem que pairavam no ar. O
irmão Almiro encerrou a reunião com significativa oração,
agradecendo as messes recebidas e exorando proteção
para todos nós. O Dr. Hermann conduziu Davi ao corpo
em sono profundo. Os demais companheiros encarnados
foram encaminhados aos respectivos lares. Fernando e
outros auxiliares-enfermeiros da Casa estabeleceram
providências a respeito dos Espíritos que se haviam
comunicado, para posterior atendimento. Podia notar a
satisfação refletida na face do benfeitor, quando nos
convidou para seguir à sede que nos albergava. O
relógio da sala mediúnica assinalava às quatro horas da
manhã. As ruas da grande cidade estavam quase
totalmente desertas, visitadas por um ou outro veículo
apressado e algum noctívago atrasado ou sem rumo. O
céu límpido, naquela ocasião, adornava-se de pirilampos
estelares.
134 Diálogos esclarecedores Além dos benefícios
propiciados aos comunicantes desencarnados, a reunião
ensejou-nos material excelente para estudos e reflexões.
A primeira diz respeito ao amor do nosso Pai por todos
nós, facultando-nos o serviço de iluminação incessante,
graças ao qual o processo de ascensão faz-se mais suave
e enriquecedor, sem a aspereza das provas que elegemos
em consequência da rebeldia sistemática. Como não há
repouso significando ausência de realização, o trabalho e
a ação edificante permanecem constantes,
proporcionando a conquista de recursos preciosos.
Reflexionava desse modo, a respeito das atividades
parcialmente encerradas, quando a maioria dos obreiros
dormia, sendo alguns convocados ao prosseguimento
dos compromissos com a vida. Para grande parte de
homens e mulheres, que avançam descuidados pela
senda das lutas terrestres, existe uma ignorância total
desses misteres relevantes para o Espírito. Considerando
a vida como sendo apenas o automatismo biológico e a
fatalidade das ocorrências humanas, pensam
exclusivamente em desfrutar das oportunidades,
assinalados por terrível hedonismo. Mesmo entre muitos
espiritualistas, persiste o desconhecimento das
realizações fora do corpo, acreditando que as horas do
sono são apenas de refazimento para o organismo e a
alma. Não cessam, no entanto, os movimentos da vida,
assim como não param os labores espirituais. O vácuo
absoluto, o silêncio total e o repouso pleno resultam de
percepções nossas, inadequadas, limites do
conhecimento. Em toda parte o trabalho e o movimento
são incessantes, impulsionando o progresso ilimitado.
135 Possivelmente me acompanhando o desdobrar do
pensamento, o afável benfeitor veio em meu auxílio,
adindo: Tudo serve na natureza, obedecendo a
imperativos inalteráveis das leis cósmicas. Nas expressões
primeiras da vida, os automatismos da evolução propõem
crescimento e transformações incessantes. À medida que
a consciência adquire lucidez, mais se ampliam as
perspectivas de ação. O ser agigantase na direção de
outros e do ambiente, entregando-se às propostas de
trabalho com que promove aqueles que o cercam. Caso
houvesse o repouso, tudo volveria ao caos do princípio.
Assim, na atividade contínua, o Espírito transfere suas
metas para patamares mais altos e mais nobres, atraído
pela perfeição que anela. Aproveitando-me do silêncio,
que se fez natural, indaguei: Poderia depreender, em
razão das informações recémcolhidas, que a nossa irmã
Raulinda é uma obsidiada, não obstante as disfunções
ovarianas e os distúrbios assinalados pelos
neurotransmissores que a levam ao estado depressivo?
Como educador gentil que é, o Amigo respondeu: As
consequências das leviandades cometidas estão
impressas pelo Espírito nos seus equipamentos físicos,
caracterizando-a hoje como uma enferma do aparelho
genésico e vítima de transtornos psicológicos. Em face do
exposto, ela necessita de assistência ginecológica e
psiquiátrica. Todavia, porque se encontra assinalada pela
consciência de culpa, que gera a auto-obsessão, e pela
perseguição da sua vítima, em processo de perturbação
obsessiva, diagnosticamos uma parasitose espiritual. Os
dois distúrbios se mesclam, tornando-se difícil
estabelecer as fronteiras onde um começa e o outro
termina. Eis por que, em casos dessa natureza, em que se
misturam os fenômenos perturbadores, como na maioria
deles, os pacientes necessitam de uma terapia holística,
que engloba a participação das diferentes áreas da
ciência médica,
136 a que nos referimos, e espíritas: leitura educativa,
passes, água fluidificada, desobsessão e renovação íntima
aplicada ao bem. Recorreríamos, também, à contribuição
da Sociologia, amparando o grupo familial, indiretamente
envolvido na problemática. Alongando a análise,
buscaríamos a ajuda da Ecologia, em considerando o
envenenamento do ar que se respira; da Agricultura,
respeitando as técnicas naturais da adubação e
consequente diminuição dos agrotóxicos... Vemos a
aplicação desordenada de hormônios em aves e animais,
a fim de que se desenvolvam, alterando-lhes o ciclo
biológico de postura, de reprodução e de crescimento,
sem refletir nos danos que esses métodos e produtos
causarão ao organismo humano. Em uma sociedade
justa, realmente cristã, antes se pensará no ser
propriamente dito, do que nos lucros que se pretenda
obter dissociados do dever ético para com a vida.
Parecem ainda estar distantes os dias em que esses
comportamentos vicejarão. Oxalá logo cheguem.
Conquanto demorados, devemos empenhar-nos para
despertar as consciências e aclarar mais o discernimento
humano, que se devem voltar para essas cogitações
protetoras da vida. Não podemos negar os valiosos
contributos modernos da ciência e da tecnologia em
favor da saúde, do bem-estar. Entretanto, não ignoramos
a outra face da moeda, voltada para os interesses
subalternos, criminosamente egoístas... O homem marcha
para Deus. É inevitável essa fatalidade. O Espiritismo,
ensejando uma visão holística da realidade e dos
procedimentos saudáveis, é o bandeirante ímpar dos
novos tempos. Rogando escusas ao bondoso mentor,
indagaria se o afastamento do Espírito perturbador
propiciará a Raulinda a desejada recuperação da saúde?
137 Devemos ter em mente que a nossa irmã encontra-
se incursa em vários itens das leis que desrespeitou,
estando gravados em seu íntimo os imperativos da
necessidade de reparação. Ocorrendo a mudança de
comportamento do seu atual perseguidor, a atitude será,
para ele, salutar, por libertar-se da injunção do ódio, mas
para ela será apenas amenizadora dos sofrimentos, não
liberadora. Terá a carga de aflições diminuída, porém os
sintomas perturbadores permanecerão, desaparecendo à
medida que se submeta às terapias referidas. Os órgãos
citados encontram-se lesados no perispírito e no corpo
físico, requerendo assistência especializada, como é
natural. Pensa-se, com leveza, que o simples afastamento
do obsessor faculta a recuperação plena do obsidiado.
Em todo aquele que sofre perseguição espiritual,
encontramos os resíduos maléficos dos seus atos
desvairados, aguardando superação. Não se resgatam
dívidas somente com boas intenções. Elas são o primeiro
passo para as ações dignificadoras que liberam, não
porém suficientes para a sua quitação. O caminho de
quem deslustra o dever é estreito e difícil. Por isso, é
melhor atender as obrigações do que as defraudar.
Educar é fácil, mesmo com os empecilhos que se
apresentam; reeducar é mais complicado, corrigindo os
hábitos malsãos e instalando os dignificantes. Parecia-me
justo. Afinal, sem presunção de julgamento da minha
parte, o delito da amiga era grave, o que nos inspirava
compaixão para com o consorte, enganado e
assassinado, quanto para com ela, que os perpetrara...
Quando as criaturas assimilarem a ideia de que o mal é
pior para quem o pratique, evitá-lo-ão com energia.
Identificando que no universo não há privilégios para
ninguém, nem regimes especiais que distingam umas das
outras pessoas, exceto na sua hierarquia
138 moral, ter-se-á chegado a um período em que o
bem predominará, desaparecendo pouco a pouco as
chagas morais que decompõem o ser e afligem o
organismo social. O combate, portanto, ao egoísmo, deve
ser constante e de emergência, sem margem a
escapismos. Porque me parecesse ainda oportuno, voltei
a interrogar: Qual a razão de não se haver insistido na
doutrinação do adversário espiritual do médium Davi,
liberando-o antes de tê-lo conscientizado do erro que
pratica? Sem qualquer enfado ou cansaço, o Dr. Carneiro
de Campos esclareceu: O nosso objetivo, naquele
momento, era do despertamento moral do médium
leviano, não do seu antagonista. Esclarecido o último, e
permanecendo os desequilíbrios do primeiro, viriam
outros celerados afins e o problema mudaria apenas de
mãos, continuando inalterado. Ademais, Fernando e nós
temos interesse especial em relação ao nosso amigo, que
se diz pertencer ao grupo do Soberano das Trevas, assim
como aquele que desafiou o Dr. Hermann, de que nos
recordamos... Quanto a Guillaume, a experiência foi muito
proveitosa, por ensejar-lhe realizar uma catarse das
mágoas retidas na alma. A terapia surtir-lhe-á efeito
lentamente, preparando-o para a autocura. A sua
abnegação e aflição por Gérard credenciam-no à
libertação do ódio, desvinculando-se, assim, do amigo
ingrato e perdoando os dois que o atraiçoaram. Irá
meditar, renovando os conceitos e alterando as
disposições íntimas do desforço para o esquecimento do
mal. Os sentimentos nobres, quando feridos, cicatrizam
com facilidade, em razão da qualidade de que são
constituídos. Quando escasseiam, torna-se mais
demorada a remoção das mágoas e rancores
preservados. Em tudo e todos, o amor é o grande
gerador de soluções.
139 E Davi, ao despertar, recordará dos benefícios
auferidos? Na sua condição de médium adestrado, não
será mais fácil a recordação das ocorrências?
Inegavelmente, aqueles que têm uma vida psíquica e
mediúnica mais ativa podem recordar-se das experiências
extracorpóreas com mais facilidade que os outros. Não
obstante, em face da conduta a que se tem entregue o
amigo invigilante, os seus sensores psíquicos estão muito
impregnados dos interesses que vem cultivando e
fixando no inconsciente, a prejuízo das ideias e
pensamentos elevados. Assim sendo, apesar do susto
experimentado e das graves admoestações ouvidas,
assomarão à consciência apenas alguns vestígios das
ocorrências. Ele identificará o fenômeno como de
natureza mediúnica, por sentirse extenuado durante todo
o dia, porém, com os estímulos do corpo viciado e das
ambições em crescimento, buscará esquecê-lo. Darse-á
conta de estar em perigo, logo atribuindo-o a
perseguições de pessoas invejosas da sua faculdade e
fugas psicológicas outras... A afeição aos prazeres
perturbadores intoxica o psiquismo e o corpo da pessoa
que se torna dependente, fazendo lamentáveis quadros
de depressão e amargura quando não mais pode neles
exaurir-se. Da mesma forma, o nosso Davi vem-se
acostumando, por livre escolha, aos vapores
anestesiantes da luxúria, da concupiscência, do poder...
Embora o lamentemos, acreditamos que ele necessita de
uma terapia de choque mais forte, a que recorrerá por
opção pessoal, oportunamente... Depois de alguma breve
reflexão, o instrutor prosseguiu: Estamos muito
interessados, todos que nos movimentamos nas
atividades das terapias holísticas sob as luzes do
Espiritismo, e outros trabalhadores do Bem, no estudo
das Quatro legítimas verdades com que o Soberano das
Trevas denominou ironicamente suas estratégias de
perseguição às criaturas, por considerarmos de
140 alta gravidade a programação em pauta. É claro que
não o responsabilizamos pelo desbordar das paixões
asselvajadas que varrem a Terra em nossos dias, o que
seria atribuir-lhe demasiado valor e poder, que não
correspondem à verdade. Todavia, chama-nos a atenção
o volume dos despautérios que ora dominam as pessoas
vinculadas ao Espiritualismo. É como se essas criaturas
distraídas houvessem-no transformado em esporte para
as horas de saturação. Os conteúdos filosóficos e morais
são deixados de lado, sem qualquer pudor, entregando-
se à vida profana que justificam, às arbitrariedades, aos
engodos, às vulgaridades, aos desperdícios, com
tranquilidade, explicando que a vida física é oportunidade
de gozo e este está muito vinculado ao corpo, ao ego,
aos condicionamentos da época. Jamais se considerariam
obsidiadas por seres perversos e viciosos que com elas
convivem em regime de promiscuidade moral e mental.
Pelo contrário, ao serem informadas, zombarão,
escreverão diatribes contra, falarão de autoritarismos e
saudades de castrações, de pieguismos religiosos,
erguerão bandeira de liberdade e modernismo... De
nossa parte, nenhum interesse em impor-lhes normas de
conduta e ação. As nossas são experiências pessoais, que
narramos para os que estejam insatisfeitos com os
acontecimentos que os envolvem, e desejem outras
alternativas; não, porém, para aqueles que se refestelam
nas orgias e divulgam-nas; nem para outros que se
consideram inatingíveis pelos Espíritos perturbadores.
Conscientes como somos, de que todos desencarnarão, o
que não constatarem na Terra, logo mais encontrarão.
Reconhecemos, como já foi ventilado anteriormente, que
a inferioridade moral e o primitivismo, que levam as
criaturas aos extremos das paixões, são fase natural do
seu processo evolutivo. A nossa preocupação é com
aqueloutros que já deveriam ter
141 ultrapassado essa faixa e que nela se fixam, ou a ela
retomam com ardor indisfarçado. Por isso mesmo, não
cessaremos de abordar o tema, de divulgar as
informações que, por uns subestimadas e ridicularizadas,
noutros indivíduos encontrarão ressonância e abrigo,
ajudando-os na luta contra as sutis interferências
obsessivas, assim como na epidêmica situação a que
quase todos se encontram expostos. Assim sendo, além
da preocupação especial com Davi, há também a de
natureza geral com os demais envolvidos no surto que se
alarga entre as pessoas. Anuí completamente a tudo
quanto o benfeitor expôs, porquanto a evidência do
acerto das suas palavras está na alucinada descoberta do
sexo pela atual sociedade. Os descalabros morais são
crescentes, associados à volumosa onda de violência que
estarrece, ameaçando todas as construções éticas e
civilizadas das gerações passadas. Os transtornos mentais
decorrentes do estresse e dos vários fatores psicossociais,
socioeconômicos, demonstram que se vive, na Terra, um
período intermediário, prenunciador de grande renovação
pela dor. O esquecimento propositado das estruturas
éticas tem facilitado a morte de nobres conquistas
humanas através dos séculos: a monogamia, a família, o
amor aos filhos e a recíproca dos filhos para com os pais,
o respeito ao próximo, o equilíbrio sexual. Os ventos do
desespero e da anarquia sopram em todas as direções,
ameaçando de destruição tudo quanto encontram.
Concomitantemente, por efeito do desastre, aumenta o
egoísmo, e a solidão assinala as vidas; a tristeza e a
frustração se unem em clima de amargura; a fuga pelos
tóxicos se torna lugar comum; o suicídio multiplica-se
nas estatísticas; o desespero estiola preciosas florações
da vida humana; o aborto aumenta os seus índices...
142 Não esquecemos do heroísmo de milhões de seres
que se erguem para impedir o desastre, deter a onda da
alucinação, diminuir a miséria, encontrar terapias para as
enfermidades dilaceradoras, fomentar a paz entre os
indivíduos e as nações. Suas vozes, às vezes, parecem
soar nos desertos dos sentimentos. Eles, porém,
prosseguem. Juntamo-nos a esses construtores do
progresso, interessados em contribuir com as nossas
experiências do além-túmulo, chamandolhes a atenção
para o fenômeno psicopatológico das parasitoses por
obsessão, tão graves e cruéis quanto as outras que eles
já identificaram e combatem. Sob o vento frio do
amanhecer, chegamos à sede do nosso labor para breve
repouso. Sentíamo-nos reconfortados, confiantes, sob o
velário da noite com estrelas, quais se elas fossem olhos
de luz que nos acompanhassem a distância.
143 Prejuízos e conquistas espirituais A o amanhecer,
fomos com Fernando acompanhar o despertar de alguns
dos amigos que participaram das atividades espirituais
em parcial desprendimento, com objetivos de observação
e estudos. O Sr. Almiro apresentava-se bem-disposto e
otimista, recordando-se fragmentariamente dos
acontecimentos, o que lhe proporcionava imensa alegria.
Mais tarde, foi chamado ao telefone por Leonardo, que
narrou parte das lembranças que lhe perduravam na
memória, entretecendo considerações oportunas e
dizendo-se muito gratificado. Raulinda, não obstante a
ajuda que lhe foi dispensada, pelo hábito de fixar os
fatos desagradáveis em detrimento dos bons, acreditava
ter sido vítima de um cruel pesadelo, no qual era
perseguida por odiento adversário ameaçador, que a
exaurira durante a noite. Ressumava mal-estar e
pessimismo, embora luzisse na mente a ideia de que
poderia ter sido uma experiência socorrista na área da
mediunidade. Vacilante quanto aos próprios recursos,
não considerava os de origem superior colocados em seu
auxílio, e, algo queixosa dos sintomas habituais, iniciou o
seu dia sem esforço pela renovação íntima. Francisco
guardou algumas reminiscências das atividades, que
passaram a estimulá-lo para mais cuidadoso treinamento
e educação da mediunidade. O médium Davi despertou
com vivas impressões dos sucessos. Tentou concatenar as
ideias, dando ordem racional ao desdobramento, porém
não se interessou em aprofundar o conteúdo da
mensagem recebida. Acreditando ser um missionário
144 salvador de vidas, perdeu-se na presunção e supôs
que fora alguma trama para impressioná-lo. Sentindo-se
algo debilitado, em vez de admitir como sendo
consequência das suas leviandades, considerou o caso
como de origem espiritual, decorrente do sonho
desagradável. Recorreu a breves exercícios físicos,
olvidando-se da oração, e, prelibando o dia repleto de
compromissos promissores, procurou banir da memória
as lembranças positivas. Os demais membros não haviam
registrado nada de especial, nem mesmo D. Armênia, que
oferecia a instrumentalidade mediúnica ao irmão Vicente
nos labores normais da Casa. Como não trabalhara
diretamente, as impressões diluíram-se na memória física.
O hábito salutar da oração, da reflexão ao despertar
matinal, propicia o conscientizar das ocorrências
espirituais durante a noite, de modo a se incorporarem
ao patrimônio mental, favorecendo o enriquecimento da
emoção. Inquirido, por mim, a respeito dos registros
mentais, Dr. Carneiro de Campos, elucidou: A questão
que diz respeito à memória, à fixação dos
acontecimentos, é bastante complexa. Normalmente, a
memória é formada por experiências vivenciadas sob
diferentes aspectos: a) por meio dos sentidos, embora
não se memorize tudo, havendo uma seleção de
aspectos ou conteúdos que mais chamaram a atenção e
que permanecem; b) não se gravam as memórias de
maneira global, terminante, tornando-se acessíveis ou
não, após captadas as informações, sendo mais
facilmente evocadas aquelas mais recentes do que as
anteriores, dando-se um fenômeno de fixação logo após
o seu evento, pela transferência de uma faixa superficial
para outra de caráter permanente; c) as memórias podem
ampliar-se, acumulando novas informações após os
momentos iniciais em que adquiriram as impressões, às
vezes por
145 circunstâncias endógenas que têm lugar no
organismo, sob a ação da experiência, quais sejam a B-
endorfina, a adrenalina e outras; d) as memórias, em si
mesmas, são globais e não parciais; os fatores que as
trazem à evocação variam e respondem pela sua
fragmentação ou inteireza. Desse modo, o hábito de
registrar convenientemente as informações, por meio da
atenção, muito contribui para os resultados positivos. Os
demais elementos são de natureza orgânica,
encontrando-se no hipocampo e na amígdala. A memória
tem sido muito estudada, todavia os conhecimentos a
respeito dos seus mecanismos permanecem reduzidos,
como nos casos do armazenamento das informações, da
classificação de tipos, não sendo factíveis de momento as
investigações diretas. No entanto, as suas consequências
têm sido bem detectadas e catalogadas. O cérebro, onde
se arquivam, é o equipamento orgânico de maior
complexidade que se conhece, cujas funções múltiplas
deslumbram ainda os maiores conhecedores dos seus
mecanismos. Não apenas responde pela exteriorização da
vida mental, mas é responsável também por quase todas,
senão todas as manifestações e ocorrências físicas.
Resistente e delicado ao mesmo tempo, é o conjunto
eletrônico mais sensível e completo que o homem jamais
conheceu. Após uma pequena pausa para reflexão,
continuou: Não seja de estranhar que a superstição
popular, a princípio, e, mais tarde, larga fatia da
sociedade humana passaram a ver nos sonhos em geral
prenúncios de acontecimentos futuros, abrindo espaços
para os aventureiros que lhes exploram ainda a
credulidade. Amplamente estudados por Freud, Jung e
pelos psicanalistas em especial, refletem estados íntimos
profundos, distúrbios orgânicos, sexuais e outros, sendo
também um amplo capítulo para pesquisas pelas Ciências
Psicobiofísicas, como o
146 Espiritismo, por englobarem os estados parciais de
desdobramento do ser durante o sono natural. Muitos
estudiosos, assim como alguns charlatães, organizaram
todo um esquema de símbolos para interpretá-los,
apresentando significados hipotéticos, sem qualquer
sentido de realidade, porém muito do agrado da
ingenuidade. Não se nega, à luz da Psicanálise, o
conteúdo de muitos desses símbolos e sinais, que
respondem pela realidade do ser. A conscientização das
memórias espirituais, dos acontecimentos, na dimensão
extrafísica, decorre de disciplinas mentais, morais e do
desprendimento paulatino das paixões mais grosseiras,
aquelas que entorpecem as percepções do Espírito nos
equipamentos orgânicos. Quando o benfeitor silenciou,
pus-me a reflexionar, concluindo, mais uma vez, que o
cultivo da vida psíquica exige disciplina e educação
mental, de modo a possibilitar a vida em faixas
vibratórias compatíveis. Assim sendo, o ser fisiológico
cede lugar ao psicológico, cujas atividades têm
preponderância espiritual. A mediunidade, por isso
mesmo, em sua expressão orgânica, é faculdade do
Espírito, que se veste de células para permitir a
exteriorização dos fenômenos de origem espiritual. A sua
educação exige, entre outros fatores, a interiorização do
indivíduo, silenciando tormentos, para melhor perceber,
na interação mentecorpo, o que acontece a sua volta.
Sem o equilíbrio psicofísico muito dificilmente se captam
corretamente as paisagens e a vida fora da matéria. A
sensibilidade mediúnica encontra-se presente em todas
as criaturas que, vez por outra, apresentam pródromos
da faculdade, sem maiores consequências. No entanto, a
manifestação ostensiva é propriedade somente de alguns
organismos, que expressam necessidades do ser
reencarnado no processo de evolução. Em
147 razão disso, descortinamos variadíssima gama, assim
como graus, da percepção mediúnica. Acreditamos que, à
medida que o homem e a mulher deem atenção às suas
faculdades psíquicas, desenvolvendo-as com cuidado e
penetrando-as com atenção, desdobrá-las-ão,
favorecendo-se para o futuro, quando a mediunidade se
tornará normal, deixando a classificação de
paranormalidade para se fixar como um sexto sentido,
qual a denominou o professor Charles Richet. A criatura
humana do futuro será portadora consciente de mais
essa percepção, que hoje se lhe apresenta ainda envolta
em mistérios e superstições, mas que o Espiritismo aclara
e conduz com segurança. Assim pensando, já
encontramos generalizadas na sociedade a telepatia
inconsciente, a premonição, a intuição, a clarividência,
entre os fenômenos anímicos, e a obsessão, direta
quanto indireta, ensaiando a psicofonia, embora ainda
tumultuada. O processo de evolução é irreversível e a
conquista de valores enobrecedores é inevitável. À
medida que o ser evolui torna-se menos grotesco, menos
material, sutilizando as suas manifestações, que decorrem
das aspirações cultivadas. Retornamos, Fernando e nós,
ao lar de Ernestina, onde nos hospedávamos. Aquele era
o dia reservado ao estudo espírita do Evangelho no lar,
de alto significado para nossa anfitriã, para os
participantes habituais, quanto para nós outros também.
A partir das dezessete horas começaram a chegar os
desencarnados amigos, que se associavam ao formoso
labor. Procedentes de comunidades diferentes, o ensejo
facultava reencontros felizes, conversações agradáveis,
intercâmbio de experiências educativas, informações,
notícias de familiares e
148 afetos. A ocasião era propiciatória a muitos júbilos,
inclusive, em razão das vibrações refazentes que ali se
experimentavam. Verdadeiro santuário, o lar era o
protótipo dos futuros ninhos domésticos de onde se
irradiarão harmonias para a humanidade. A dimensão
física da sala de reuniões desaparecera, cedendo lugar a
um espaço amplo e acolhedor, onde quase uma centena
de Espíritos podíamos acomodar-nos sem atropelos,
embora os encarnados não devessem ultrapassar a vinte.
Às dezenove horas, deram entrada os primeiros
sofredores desencarnados, sob carinhoso amparo de
familiares zelosos, a fim de que se beneficiassem com a
psicosfera reinante, ouvissem os estudos, recebessem as
vibrações de paz e ânimo para o despertar, o prosseguir
em confiança. No passado da humanidade, no tempo em
que não havia a conscientização lúcida sobre a vida
espiritual, onde se encontrassem pessoas para ajudar, os
benfeitores se utilizavam dos cultos religiosos, quando se
reuniam com unção para orar, ou de lares nos quais a
presença de Jesus se fazia constante. Sem dúvida, nem
todos os religiosos, assim como seus pastores, eram
desonestos, irresponsáveis, tratando-se, muitas vezes, de
indivíduos afetuosos, nobres, verdadeiros exemplos de
dignidade e exemplificação. Em face da defecção de
alguns, não se pode generalizar o conceito negativo
contra religiosos e as religiões. É necessário separar uma
de outra expressão de vida e de criaturas, de forma que
se evitem as confusões e o pessimismo a respeito das
doutrinas religiosas, que não dispunham de recursos
filosóficos e científicos para promoverem os seus fiéis.
Essa tarefa coube à Doutrina Espírita que, não obstante,
ao ser praticada, encontra muitas dificuldades e
impedimentos. Ocorre que é comum, entre os indivíduos,
a tentativa de submeterem as mensagens, que dizem
seguir, à própria interpretação, impondo seus caprichos e
149 gerando dissídios, incompatibilizando-se uns contra
os outros em tristes espetáculos de exibição do egoísmo.
Vinte horas menos quinze minutos, chegaram
educadamente os membros da reunião. Joviais, Ângelo e
José apresentavam-se estuantes de alegria. Os amigos
aguardavam aquele encontro hebdomadário com certa
ansiedade, tais os benefícios que hauriam, assim como os
planos que formulavam para as atividades da semana. À
hora convencional, os convidados estavam sentados em
torno da mesa, e os Espíritos, igualmente acomodados,
aguardavam a abertura do evento. Dona Apolônia, num
gesto de cortesia e distinção, convidou o Dr. Carneiro de
Campos a dirigir os serviços espirituais da noite.
Acercando-se de Ernestina e inspirando-a com vigor, o
amoroso guia induziu-a à oração com palavras simples,
porém com elevado teor de sentimentos nobres que a
todos nos sensibilizou em ambas as esferas da vida. Logo
após, Ângelo foi convidado a abrir casualmente O
evangelho segundo o espiritismo, de Allan Kardec, no
Capítulo VII, item 12, na Instrução dos espíritos sobre o
Orgulho e a humildade, ditada por Adolfo, bispo de
Argel, em Marmande, 1862. A página, repassada de
sabedoria, convida à reflexão, em serena análise sobre a
pobreza moral de espírito nas criaturas, que recebem
com efusão o rico debochado, perdido de corpo e de
alma, dando-se o inverso, quando se trata de pessoa
necessitada de carinho e ajuda. Invectiva contra a
cupidez, o orgulho, a avareza, e conclama ao equilíbrio,
ao despertamento moral. Muito oportuna, faz um estudo
sobre as ocorrências do mundo material e do espiritual.
Terminada a leitura, José comentou-a sob visível
inspiração, analisando a transitoriedade do corpo e a
perenidade do Espírito,
150 demonstrando quanto são vãos os recursos
humanos, as glórias terrestres, as ambições materiais.
Trouxe à evocação alguns guerreiros temerários e
famosos, indivíduos que se celebrizaram pelo poder e
fortuna, que o túmulo consumiu no olvido, e outros que
se engrandeceram pelo amor, pela renúncia, pela
abnegação e pelos serviços à humanidade,
permanecendo modelos, exemplos dignos de ser
seguidos... Conclamou à vivência da Mensagem cristã e
espírita, abordando o significado da morte, cujo sentido
alcançou a plateia de recém-desencarnados ainda em
aturdimento, acenando com as esperanças e certezas da
imortalidade. Logo depois, a palavra foi franqueada, e
diversos participantes contribuíram com opiniões e
comentários bem urdidos, assim ampliando os conceitos
da página. Ao terminar, foram lidos os nomes dos
pacientes recomendados às orações e vibrações de
saúde, de paz, de equilíbrio. Os Espíritos visitadores, que
se utilizavam do momento para aplicarem energias nos
nomeados, dali retirando as forças para transfundilas nos
necessitados, deram início ao seu mister, em atividade
ordeira, silenciosa, responsável. Logo depois, na
agradável penumbra que foi propiciada, foram aplicados
passes nos presentes e procedeu-se à oração terminal, na
qual o mentor, quase incorporando Ernestina, expressou
a sua gratidão e a de todos nós ao supremo Doador.
Preservando o silêncio, os convidados transferiram-se de
sala para breves conversações, e, pouco a pouco,
demandaram os próprios lares, conservando as energias
e o conforto assimilados. Nada de lanches ou festividades
que se podem tornar a motivação para o encontro, em
detrimento dele mesmo. É necessário entender que a
alegria não se deve caracterizar pelas explosões ruidosas
de contentamento, nem os júbilos de receber amigos
com mesas fartas a qualquer hora... Cada atividade tem o
151 seu momento e o seu próprio significado.
Lentamente os visitantes espirituais voltaram aos seus
núcleos, levando os familiares e amigos que trouxeram,
despedindo-se de D. Apolônia. A sala permaneceu sem
presenças espirituais de sofredores, no entanto iluminada
suavemente e enriquecida pelas vibrações sazonadas.
152 Alcoolismo e obsessão Permanecíamos na sede das
nossas atividades, após a excelente reunião de estudo
evangélico, e comentávamos sobre os valiosos recursos
do amor direcionado ao Bem, quando o Dr. Carneiro de
Campos explicou: As criaturas terrestres aguardam que os
governos resolvam os magnos problemas das aflições.
Esperam soluções legais, sem darse conta daquelas de
natureza emocional. Para que a dor desapareça, o único
recurso é a transformação moral do ser para melhor,
assim ensejando a reforma dos estatutos que mantêm as
injustiças sociais e os conflitos que ressumam das
reencarnações passadas. Assim sendo, as soluções virão
do coração dedicado, alterando as paisagens humanas,
graças a uma consciência responsável. Observamos esse
valor, quando os apóstolos do Bem de todos os matizes
se entregam à ação da solidariedade, seja por meio da
Ciência ou da Fé, da Arte ou da Caridade, suportando
reveses e perseguições, no entanto permanecendo
inquebrantáveis nos seus ideais. Enfrentam obstáculos e
incompreensões com ânimo, sem ressentimentos, por se
colocarem acima das paixões geradas pelo egoísmo.
Mesmo quando enfermos ou enfraquecidos no
organismo depauperado, prosseguem resolutos e
atuantes até o fim. Não descoroçoam na ação, nem se
envenenam na emoção desequilibrada. Relanceando o
olhar pela pequena plateia que o escutava, concluiu:
Necessitamos sempre ter em mente que a posição, a
função que se exerça não torna digno aquele que nela se
encontra. O
153 fenômeno é contrário, porquanto são o homem e a
mulher que a farão correta ou pervertida. As
denominadas autoridades, os governantes, são pessoas
com as suas conquistas íntimas e os seus prejuízos,
assinalando as atitudes com os mesmos. Quando forem
justos, os seus atos serão probos e a sua contribuição à
sociedade, valiosa. As tentativas de trabalhar apenas nos
efeitos redundarão improfícuas, senão prejudiciais. Todo
o esforço pelo progresso e pela felicidade deve
concentrar-se nas causas, portanto na criatura em
processo de evolução, promovendo-a, equilibrando-a.
Silenciou, facultando que o assunto fosse ampliado
mediante os comentários gerais. Respirava-se um
ambiente de paz, quando se adentrou o irmão Vicente.
Discreto e humilde pediu licença para falar ao mentor
que, informado, convidou-nos, a Fernando e a nós, para
que os acompanhássemos. Logo saímos, e ele elucidou-
nos que se tratava do esposo de D. Armênia, a abnegada
médium por quem se comunicava o dedicado Vicente.
Aquele cavalheiro, em razão de vários desajustes
emocionais, e mais tarde, acuado por mentes perversas
da Erraticidade inferior, sucumbira aderindo aos
alcoólicos, tornandose contínua aflição para a esposa e
os filhos. Com facilidade exorbitava dos direitos que se
atribuía no lar, transformando-se em severo verdugo da
família. Com frequência, quando aturdido pela bebida,
era tomado pelos inimigos desencarnados, que se
utilizavam do seu desequilíbrio psíquico e emocional para
atormentarem a trabalhadora do Bem e, por extensão, os
demais membros do clã. Tudo começara poucas horas
atrás, quando ele chegara embriagado, o que já se fizera
habitual. Descontrolado, passou a
154 agredir a esposa verbalmente, em razão de encontrá-
la desperta, aguardando-o. As acusações multiplicaram-
se, descendo a níveis quase insuportáveis, e, porque ela
permanecesse silenciosa, ameaçou-a de morte,
intentando agredi-la fisicamente. Convidado diretamente
pela médium sofrida, Vicente acorreu em seu socorro,
também tentando amparar o tresloucado, que se armara
de uma faca e insistia em eliminar-lhe a existência física.
Nesse comenos chegara o filho Alberto, jovem de 22
anos, que se deu conta da gravidade do momento
acorrendo em defesa da genitora, que sabia vítima
sistemática do marido insano. Os demais irmãos,
menores, que despertaram, choravam ao lado da mãe!
Mais exaltado, o ébrio avançou contra o filho,
blasfemando e ameaçando-o, travando-se então uma luta
corporal, na qual o rapaz foi ferido repetidas vezes,
tombando exânime no solo. A pobre senhora não teve
outra alternativa senão gritar, pedindo socorro e
despertando alguns vizinhos, que vieram em seu auxílio.
As crianças, em desespero, agarravam-se à mãe
aturdida... Passada a fúria, o quase homicida tombou em
uma poltrona, adormecendo profundamente, quando os
comparsas desencarnados o deixaram, exausto... A
caminho, o Dr. Carneiro de Campos informou-nos: O
alcoolismo é um dos maiores inimigos da criatura
humana. É de lamentar-se que o seu uso seja tão
generalizado e, infelizmente, haja adquirido status na
sociedade. As reuniões, as celebrações e festividades
outras sempre se fazem acompanhar de bebidas
alcoólicas, responsáveis por incontáveis danos ao
organismo humano, à sociedade. Acidentes terríveis,
agressões absurdas, atitudes ignóbeis decorrem do seu
uso, além dos vários prejuízos orgânicos, emocionais e
mentais que acarretam. Verdadeiras legiões de vítimas se
movimentam pelas avenidas do mundo, como
enxameiam nos campos, permanecem nos
155 tugúrios da miséria ou nas celas sombrias dos
cárceres e dos hospitais, apresentando o triste espetáculo
da decadência humana. Milhões de lares sofrem os
infelizes lances da sua crueldade. No inquietante
momento em que o uso das drogas é responsabilizado
pela vigência de inumeráveis crimes hediondos, e se
levantam muitas vozes em protesto, buscando encontrar
as causas sociológicas, psicológicas e outras, para explicar
a avalanche sempre crescente e assustadora de viciados,
urge que se estudem também os problemas do
alcoolismo e suas consequências, não menos alarmantes.
Fez um oportuno silêncio, como a sintetizar ideias, e logo
expôs: O alcoolismo, ou dependência do uso exagerado
de bebidas alcoólicas, constitui-se um grave problema
médico, em face dos danos que causa ao organismo do
indivíduo e ao grupo social no qual este se movimenta. A
sua gravidade pode ser considerada pelo número dos
internados em hospitais psiquiátricos com desequilíbrios
expressivos. As recidivas, após o cuidadoso tratamento,
são numerosas, não se considerando que as suas vítimas
ultrapassam em grande número as outras toxicomanias.
Na antiguidade, o uso de bebidas alcoólicas tornou-se
comum e quase elegante, caracterizando uma forma de
projeção social ou de fuga ante os desafios. Acreditava-
se, no passado, que o álcool e seus derivados diminuíam
as angústias e tensões, posteriormente se afirmando ou
se justificando possuírem propriedades fisiológicas,
produzindo estímulo e vigor orgânicos. O alcoolismo
decorre de muitos fatores, entre os quais a personalidade
e a tolerância do organismo do paciente, variando com a
idade, o sexo, hereditariedade, hábitos e costumes,
constituição e disposição orgânica. Pode ser resultado de
causas ocasionais, secundárias, psicopáticas e
conflituosidade neurótica.
156 Experiências ocasionais, uso após problemas de
natureza orgânica e mental como na epilepsia, na
arteriosclerose cerebral, compulsão pela hereditariedade
e o condicionamento após o hábito, resultando na
conflituosidade neurótica. No começo, o indivíduo pode
experimentar euforia, dinamismo motor, porém vai
perdendo o controle, o senso crítico, tornando-se
inconveniente. Com o tempo, surgem outros distúrbios
orgânicos, tais as náuseas, os vômitos, a incontinência
urinária e, por fim, o sono comatoso, no estado mais
avançado. À medida que a dependência aumenta e o uso
se faz mais frequente, a bebida alcoólica afeta o sistema
nervoso, o trato digestivo, o aparelho cardiovascular. As
complicações que degeneram em gastrite e cirrose
hepática são inevitáveis, levando à morte, qual sucede no
câncer do esôfago e do estômago. Do ponto de vista
psíquico, o alcoólatra muda completamente o
comportamento, e suas reações mentais são alteradas, a
começar pelos prejuízos da memória, até culminar no
delirium tremens, sem retorno ao equilíbrio... Novamente
silenciando, concluiu: O alcoolismo (alcoolofilia) é,
portanto, uma enfermidade que exige cuidadoso
tratamento psiquiátrico. No entanto, porque ao
desencarnar o alcoólatra não morre, permanecendo
vitimado pelos vícios, quase sempre busca sintonia com
personalidades frágeis ou temperamentos rudes,
violentos, na Terra, deles se utilizando em processo
obsessivo para dar prosseguimento ao infame consumo
do álcool, agora aspirando-lhe os vapores e
beneficiando-se da ingestão realizada pelo seu parceiro-
vítima, que mais rapidamente se exaure. Torna-se uma
obsessão muito difícil de ser atendida convenientemente,
considerando-se a perfeita identificação de interesses e
prazeres entre o hóspede e o seu anfitrião. Desse modo,
o infeliz esposo de dona Armênia é um alcoólatra,
157 por enfermidade e obsessão. Naquele momento
adentramos o lar, que se encontrava em desalinho.
Tombado no solo e atendido por um vizinho diligente,
estava o rapaz ensanguentado. Aguardava-se uma
ambulância, chamada para conduzi-lo ao hospital. A sala
de refeições, onde se travara a luta, apresentava-se
desarranjada, com alguns móveis danificados e vidros
partidos pelo chão. O alcoólatra, em sono comatoso,
estava arriado em uma poltrona, com a respiração
alterada e tremores que lhe sacudiam o corpo com
frequência. Atendida por uma senhora conhecida, a
médium chorava, orando mentalmente. Ela dava-se conta
da extensão do drama: o filho quase morto e o marido
quase louco, ali extenuado. Nesse ínterim chegou a
ambulância e, logo depois, um carro da polícia. O jovem
foi conduzido, incontinente, ao hospital e, após ouvir
alguns depoimentos, os dois policiais indagaram de dona
Armênia se não seria conveniente internar o marido
embriagado, tendo-se em vista a gravidade da
ocorrência. A amiga que a confortava antecipou-se,
esclarecendo que as cenas domésticas repetiam-se com
muita frequência, perturbando o lar e a vizinhança,
acreditando que mais tarde, ao tomar conhecimento do
sucedido, ele voltaria à bebida. O Dr. Carneiro acercou-se
da esposa quase hebetada e aplicoulhe energias
dispersivas no centro cerebral, liberando-a da constrição
psíquica que quase a bloqueava. Depois vitalizou-a nos
centros coronário e cardíaco, reequilibrando-lhe a
circulação e o ritmo respiratório, arrancando-a do
amolecimento que a acometera e inspirando-a com vigor
na decisão a ser tomada no momento. Ela
158 concordou com o internamento do marido enfermo
em hospital psiquiátrico. A senhora amiga providenciou-
lhe um calmante, os vizinhos deixaram a casa, as crianças
foram deitar-se e, lentamente, a paz foi tomando o seu
curso após os danosos acontecimentos. Quando
amanheceu, nossa amiga deu prosseguimento às
atividades normais, pensando em visitar o filho, de
imediato, após o que se informaria do esposo.
Desincumbindo-se dos afazeres domésticos em relação
aos dois filhos menores, sob a influência do irmão
Vicente, que a inspirava, infundindo-lhe ânimo, dona
Armênia demandou o hospital do pronto-socorro. Horas
antes, enquanto o sono físico a prostrava, o Dr. Carneiro
de Campos desdobrava-a parcialmente, acalmando-a
durante o testemunho que lhe cumpria experimentar. A
certo momento, enquanto lhe falava, considerava: Todos
admiramos o estoicismo dos cristãos primitivos, a sua
abnegação e a coragem com que entravam na arena,
marchando para o martírio. Muitos de nós gostaríamos
de viver o holocausto que eles sofreram por amor a
Jesus. Preferiam a perda de tudo: dos bens materiais, da
liberdade, sendo enviados para exílio ou cárcere,
sofrendo o desprezo dos familiares, as perseguições mais
sórdidas e os martírios mais cruéis, a morte dolorosa,
mas não abjuravam a fé... Passaram-se os séculos,
alteraram-se os conceitos de vida e os direitos humanos,
porém os verdadeiros cristãos prosseguem
desconsiderados, perseguidos... Mudaram as formas de
perseguição, as arenas aumentaram as dimensões físicas,
e as feras multiplicaram-se em forma de paixões e vícios
devastadores... Conjugam-se, hoje como ontem, as forças
do mal, de um como do outro plano da Vida, em vãs
tentativas de apagarem a luz do
159 Bem, agredindo os seus vexilários e mantenedores.
Nessa batalha rude, utilizam-se de todos os meios,
mesmo os mais venais, descuidados de si mesmos. Não
percebem que se tornam, inadvertidamente, infelizes
instrumentos das leis, a fim de que resgatemos nossos
delitos e mais rápida e facilmente ascendamos. Após
ligeira pausa, adiu: Nos lúgubres acontecimentos de há
pouco, identificamos a presença de alguns sequazes do
Soberano das Trevas, que já se encontra receoso das
nossas incursões no que acredita serem os seus
domínios. Confie, filha, e avance tranquila! Da prostração
que a acometera, carinhosamente assistida, a dedicada
médium passou ao repouso refazente, o que lhe
propiciou renovação e paz. Os servidores do Bem devem
acostumar-se aos embates normais da vilegiatura carnal,
demonstrando a sua irrestrita confiança em Deus e
prosseguindo sem desânimo.
160 Cilada perversa A amarga experiência sofrida por
dona Armênia levou-me a largas conjecturas, que não
pude evitar. Um observador apressado e superficial,
diante da ocorrência, informaria que parece haver uma
tendência masoquista entre as pessoas portadoras de fé
religiosa em se atarem ao sofrimento, transformando a
Terra em um Vale de lágrimas. A verdade, no entanto, é
diversa. O sofrimento decorre do processo de desgaste
natural do corpo, das agressões sofridas pelo organismo,
da degenerescência celular, dos conflitos emocionais e
transtornos mentais... Todos eles porque os seres que os
padecem, em si mesmos ainda somos Espíritos
imperfeitos que nos equivocamos produzem efeitos
danosos, de que nos não liberamos senão por meio da
dor. Igualmente poder-se-ia lograr o mesmo resultado
por meio dos recursos do amor pela abnegação,
devotamento, fraternidade, perdão o que constituiria um
comportamento ideal. Como só raramente elegemos a
conduta edificante, somos surpreendidos pela colheita
afligente que resulta da nossa sementeira anterior,
arbitrária e danosa. Quando nos resolvemos pela
alteração das atitudes morais, tornando-as saudáveis, eis
que o sofrimento baterá em retirada e fruiremos
plenitude. Apesar de ainda se apresentar como planeta
de provas e expiações, a Terra é uma escola de bênçãos
onde aprendemos a desenvolver as aptidões e a
aprimorar os valores excelentes dos sentimentos; é
também oficina de reparos e correções, com recursos
hospitalares à disposição dos pacientes que lhes chegam
à economia social. Sem dúvida, é também cárcere para
os rebeldes e os violentos, que expungem o desequilíbrio
em processo de
161 imobilidade, de alucinação, de limites, resgatando as
graves ocorrências que fomentaram e praticaram
perturbando-lhe a ordem e a paz. Some-se a esses
fatores a incessante interferência dos desencarnados,
predominando a dos enfermos morais e agitados, e será
fácil compreender-se a vigência e avalanche das dores
entre as criaturas. Na raiz dos males que desabam sobre
os seres humanos, estão presentes o egoísmo esse
câncer cruel do organismo social a presunção e a
ignorância das leis que regem a vida. Prepotentes e
rebeldes, porque estagiam nos níveis primários do
pensamento e nos patamares sombrios da consciência,
os indivíduos dão preferência por direitos que lhes não
são devidos, em razão dos deveres que não atendem, ou
sequer lhes reconhecem valor. Permitem-se todas as
extravagâncias e concessões, revoltando-se quando
contrariados ou surpreendidos pela morte, que não os
aniquila, porém os reúne em grupos de perturbação,
prosseguindo com as vãs tentativas de dominação e
poder... Sendo o mundo físico um pálido reflexo do
espiritual, as ocorrências de um refletem-se no outro com
a mesma intensidade, em inevitável intercâmbio de ações
e reações. Somente com o estudo cuidadoso do
comportamento humano, sob a inspiração do
pensamento espírita, particularmente por meio da ótica
da reencarnação e da comunicação mediúnica dos
Espíritos, o ser pode entender com clareza a vilegiatura
carnal, suas implicações, possibilidades e metas.
Desequipado desses preciosos recursos, o observador
realiza conclusões inexatas, por deter-se apenas nos
efeitos dos acontecimentos, sem haver penetrado as
causas mais sutis que, no entanto, exercem predomínio
em inúmeras existências. Naturalmente, enquanto o Dr.
Carneiro e Vicente atendiam a
162 médium abnegada, Fernando e nós
acompanhávamos o jovem ao tratamento cirúrgico,
buscando impedir a interferência dos reais agentes da
lamentável agressão. Logo depois vieram os benfeitores,
que permaneceram no pronto-socorro, ajudando,
inclusive, outros pacientes, já que o amor de Deus luz e
ampara todos quantos se lhe fazem receptivos. Ao
despertar, o esposo, agressivo e alcoólatra, vendo-se
internado em hospital psiquiátrico, foi informado da ação
infeliz que patrocinara, e de que se recordava nebulosa,
vagamente, deixando-se resvalar pela revolta, a princípio,
depois pelo abatimento físico e moral. Atendido de
emergência e sendo cirurgiado imediatamente, Alberto
teve a vida poupada, passando à convalescença algo
agitada. À tarde do dia imediato, dona Armênia teve
permissão para visitar o filho, havendo deixado as
crianças com a mesma dedicada vizinha que a acudira,
logo que ficaram terminados os seus afazeres
domésticos. O encontro entre mãe e filho foi assinalado
pelas lágrimas e dores silenciosas. Após alguns instantes,
a genitora interrogou: Você já perdoou seu pai, Alberto?
O jovem sorriu canhestramente e respondeu: Papai é um
doente, mais digno de compaixão e tratamento, que
mesmo de perdão... Muito bem, meu filho! redarguiu-lhe
a genitora. Ele já se encontra internado para recuperação
da saúde, e confiamos em Deus que, logo mais, o
teremos no lar com novas disposições de saúde mental e
moral. Certamente, a cura de um vício, como das graves
enfermidades, demanda tempo, cuidados e muito esforço
pessoal.
163 Somando-se a esse problema a interferência
obsessiva, a questão se faz mais grave e, portanto, mais
demorada, naturalmente, exigindo contínuos contributos
especializados, bem como sacrifícios daquele que a
padece. No curso das obsessões, o seu período de
fixação é penoso, enraizando-se, as energias deletérias
do vingador, nos centros de força, perispírito a
perispírito, qual planta parasita que se assenhoreia da
seiva do seu hospedeiro e lhe rouba a vitalidade,
dominando-o. Habituado ao clima, ora psíquico, ora
físico, ou a ambos simultaneamente, o obsidiado
raramente resolve-se por uma mudança de
comportamento, qual ocorria com o paciente em tela.
Após cada carraspana arrependia-se, desculpava-se, fazia
promessas, o que constituía uma programação verbal
fácil, logo retornando às libações alcoólicas, nas quais
sentia prazer. Dessa última vez, porém, a sua embriaguez
extrapolou os limites do tolerável, por pouco não
roubando a existência corporal da esposa ou do filho,
vitimado por si mesmo e pela Entidade perversa a quem
facultava intercâmbio. Assim sendo, as expectativas de D.
Armênia, quanto à saúde do marido, provavelmente não
se tornariam realidade imediata após a terapia
convencional do hospital psiquiátrico. Ademais, como a
polícia fora acionada e houvesse acontecido a cena de
sangue, ele necessitaria explicar-se junto às autoridades,
logo recuperasse a lucidez e estivesse em condições para
depor. Para a senhora sensível esses fatos constituíam
áspera provação. Percebendo que o filho experimentava
desconforto motivado pelas dores da agressão, a
abnegada genitora recorreu ao auxílio da enfermagem,
enquanto orou em silêncio, dominada por grande unção.
Vicente, que a acompanhara até ali, utilizou-se do
momento e,
164 unindo-nos em um pensamento de amor, aplicou no
paciente energias calmantes e revitalizadoras, levando-o
ao sono reparador. A mãezinha, nada mais podendo
fazer, retornou ao lar, evitando visitar o marido, a
conselho médico, a fim de dar-lhe tempo para as
necessárias reflexões. Enquanto sucediam esses
pormenores, o indigitado obsessor dialogava com amigos
da mesma espécie: Na próxima oportunidade blasonava,
rilhando os dentes com ferocidade lograrei êxito, que
somente adiei de modo a deliciar-me com as demoradas
aflições da família. Sentindo-se projetado na malta onde
se exibia, prosseguiu: Temos instruções especiais para a
programação dos nossos ataques aos estúrdios cordeiros
do Evangelho. E estrugiu ruidosa gargalhada com
sarcasmo, ao enunciar a palavra cordeiro, logo dando
curso à arenga ridícula: Utilizar-nos-emos do relho e da
brida, isto é, da violência que irrompe inesperadamente e
alcança o alvo, desarvorando a todos e fazendo lavrar o
incêndio do ódio, levando tudo a arder. Ou então,
sutilmente trabalharemos os seus sentimentos,
despertando-os, e estimulando-lhes as áreas da emoção
com as quais somos afins, de modo a envolvê-los em
bem urdidos planos que fomentam o prazer e logo a
desgraça... Conduziremos até eles pessoas licenciosas e
sem escrúpulos, que se fascinarão com as suas ideias
objetivando outros interesses, que trabalharão sob nossa
indução até a eclosão de problemas perturbadores, de
escândalos ruidosos, de deserções contínuas, minando as
bases da sua decantada fraternidade. E não ficaremos aí,
porquanto dispomos de tempo e oportunidade para levar
adiante esta luta sem quartel, dela saindo vitoriosos. O
Soberano das Trevas superintende pessoalmente este
programa para o qual muitos de nós fomos convocados
165 convenientemente adestrados. Não faltará quem
acredite, diante da execução do nosso plano, que
defronta uma alucinação, fantasias mediúnicas,
perturbações e transtornos mentais, o que mais ainda
nos ajudará no cumprimento do nosso dever. Quanto
mais discussão acalorada, mais dúvidas e suspeitas, mais
acusações recíprocas entre eles, os cordatos, melhor para
nós, pois que contamos com esses resultados. A união
fortalece, a separação desagrega, como é sabido... Ele
prosseguiu com doestos e ameaças, enquanto
permanecemos em paz, aguardando os futuros
acontecimentos. Afinal, o grande desafio da evolução é a
forma de enfrentar as dificuldades e superá-las.
166 Vidas em perigo O médium Francisco reencarnara-se
com atividades estabelecidas, programado para uma
existência de renúncia e abnegação, colocado no serviço
do intercâmbio espiritual, em razão das inúmeras
possibilidades de crescimento interior mediante o bem
que viesse a distribuir. Portador de raciocínio claro e
mente lúcida, a mediunidade facultava-lhe mais ampla
identificação com a vida estuante e imortal. Graças ao
espírito de trabalho, desde quando os fenômenos
mediúnicos irromperam, exigindo educação e disciplina,
granjeara afeições espontâneas entre os benfeitores
espirituais que dele se utilizavam. Dedicado,
hebdomadariamente tornava-se instrumento dúctil para
as comunicações, particularmente aquelas que se
caracterizavam pelo sofrimento e pela perturbação,
sintonizando sem esforço com os Espíritos atormentados
e obsessores. Jovem, possuía uma aura de simpatia que
contribuía para ser estimado com facilidade, como
também para despertar sentimentos vulgares nas pessoas
insensatas e viciosas, acostumadas aos desatinos morais.
No seu mundo íntimo, no entanto, inúmeros conflitos
afligiamno, enquanto ele buscava superá-los no estudo e
vivência da Doutrina Espírita. Embora aparentasse calma
e segurança, não poucas vezes surpreendia-se agônico,
agitado, sob imperativos afligentes que o dilaceravam
por dentro. Nessas ocasiões nublavase-lhe o
entendimento, e, como se ardesse entre labaredas, não
lograva orar, de modo a restabelecer o equilíbrio, a
harmonia. De certo modo, era-lhe um calvário a viver,
qual ocorre com
167 expressivo número de criaturas humanas que
jornadeiam no mundo, crucificadas em madeiros
invisíveis. Sucede que o servidor do Evangelho procedia
de reencarnações malogradas, especialmente no campo
da fé religiosa, onde mais de uma vez se comprometera
gravemente. Em ocasião própria, no pretérito, passando
como pastor, vinculado ao clero romano, entregara-se a
lamentáveis práticas da luxúria e da sensualidade,
vivendo largo período de permissividade e hipocrisia.
Utilizando-se da religião, disfarçava as paixões inferiores
na sotaina, enquanto explorava moçoilas ingênuas e
viúvas angustiadas, que abandonava com indiferença,
após saciados os caprichos servis. Denunciado, várias
vezes, conseguia a peso de ouro prosseguir na carreira
infeliz, transferido de uma para outra paróquia, onde
dava continuidade às práticas perversas e imorais. A
desencarnação surpreendeu-o na meia-idade,
facultandolhe o reencontro com várias das suas vítimas
que o aguardavam entre ódios e promessas de vingança.
Reencarnando-se, por interferência de abnegado mentor,
volveu ao clero, a fim de reparar e elevar-se, não
conseguindo o êxito que dele se esperava. Insensato, deu
curso aos disparates morais, aumentando a carga de
aflições que o futuro lhe deveria cobrar... Largo foi o seu
trânsito no mundo espiritual entre remorsos sinceros e
dores acerbas, até que nova oportunidade lhe foi
concedida trazendo a faculdade mediúnica, para ensejar-
lhe o apaziguamento com muitos daqueles a quem
prejudicara, e que não conseguiram perdoá-lo porquanto
se fixaram nas paisagens da agonia e na falsa
necessidade do desforço. Graças à conduta irregular na
área sexual, que o corrompera antes, renasceu com
dificuldades e limites genésicos, que respondiam pelos
tormentos atuais. Frequentemente, ao
168 adormecer, assomavam do seu inconsciente
profundo as cenas do passado, as quais lhe produziam
pesadelos cruéis que o atormentavam, levando-o a
reviver o clima de morbidez que o intoxicara antes.
Nesses dias, as aflições tornavam-se-lhe ásperas,
levando-o à depressão, à insegurança, ao sofrimento.
Naturalmente, cultivando esses sentimentos, sintonizava
com os adversários, experimentando angústias de alto
porte. A sua problemática sexual expressava-se em forma
de timidez, de insegurança, de complexo de
inferioridade... Ninguém lhe conhecia a identidade
interior, que resguardava com dignidade, com pudor.
Tivera oportunidade de iniciar-se na tribuna espírita com
muito equilíbrio, sendo a sua palavra inspirada recebida
com avidez pelo público que acorria a escutá-lo com
frequência. À medida que se tornava conhecido, mais
pesado ônus íntimo eralhe exigido. As pessoas,
infelizmente, ainda necessitam de cultivar mitos, por
imaturidade psicológica, transferindo para os seus
modelos as próprias frustrações, os insucessos, deles
exigindo perfeição, poder, grandiosidade, olvidando-se,
dessa forma, da humanidade de que todos os indivíduos
são constituídos, cobrando-lhes conduta superior às
forças, conquistas excepcionais, elevação moral
irretorquível... Ao mesmo tempo que os assediam com os
seus dramas, recorrem ao seu socorro solicitando
privilégios, exigem, fiscalizam, entregam-se-lhes...
Reconhecendo as próprias deficiências, Francisco
recolhia-se, evitava o tumulto, as rodas excitantes da
frivolidade, acautelavase. Pouco a pouco, sua pessoa
passou a merecer destaque no Grupo, o que provocou,
por outro lado, a reação dos adversários desencarnados,
em especial, dos inimigos do Bem. Convidado a atender
enfermos e obsidiados, o médium entregou-se ao labor
com espírito de serviço, com a pureza de
169 sentimento exigível. Não obstante, gentil senhora
que lhe recebia a assistência espiritual e a bioenergia,
frustrada nas ambições conjugais e insatisfeita consigo
mesma, acostumada a uma conduta permissiva em moda,
começou a afeiçoar-se ao jovem trabalhador e, sem
policiar a distonia moral, terminou por apaixonar-se,
tornando-lhe a vida um verdadeiro pandemônio.
Telefonava-lhe insistentemente, adoecia com o objetivo
de ter-lhe a presença, cultivava ideias perturbadoras,
envolvia-o com vibrações e pensamentos de lascívia. A
princípio, Francisco se escusou, procurou esclarecê-la,
apelou para os deveres familiares a que ela se prendia,
sem resultados satisfatórios. Dando campo a vinculações
psíquicas levianas, tornou-se tormento incessante para o
seareiro espírita. De tal forma a dama se entregou ao
cultivo dos caprichos lúbricos que atraiu terrível obsessor,
vinculado ao Soberano das Trevas, o qual passou a
telecomandá-la, tendo em mente levar adiante a
programação daquela Entidade terrível que, por meio da
invigilante, pretendia gerar tumulto e desconcerto no
Grupo dirigido espiritualmente pelo irmão Vicente. Dessa
forma, sentindo-se gentilmente repelida e aspirando os
fluidos tóxicos do comparsa espiritual vingador,
transformou a paixão vulgar em meta essencial da
existência, chantageando o homem correto, que a
recusava... Altas horas da noite telefonavalhe, ameaçando
narrar o que dizia ser seu sofrimento ao marido,
suicidando-se depois e inculpando-o. Aturdido, Francisco
resolveu expor o problema ao dirigente da Casa, o amigo
Almiro, a fim de receber a orientação da sua experiência
humana, o conselho hábil para solucionar o problema em
agravamento. Aguardou ocasião própria e, solicitando ao
venerável amigo uma
170 entrevista, apresentou-lhe a situação na qual se via
envolvido sem o desejar, ampliando a conversação com a
apresentação das próprias dificuldades e sofrimentos. O
bondoso companheiro escutou, emocionado e atento,
toda a narração, envolvendo em simpatia e ternura o
consulente e companheiro de atividade espírita. Quando
os indivíduos se buscarem com respeito e confiança,
apoiando-se uns aos outros, abrindo o coração, muitos
desares e tragédias poderão ser evitados, ampliando os
horizontes da lídima fraternidade, especialmente quando
os membros de um mesmo ideal recorrem ao amparo e
à inspiração recíproca sob o apoio divino. Certamente,
por essa razão e necessidade, a recomendação de Jesus
constitui uma forma de psicoterapia, quando Ele
prescreveu: Confessai-vos uns aos outros. Habituado à
oração, que lhe constituía fonte inspiradora, Francisco
recolhera-se em prece antes do encontro com o
presidente da Casa, a fim de encontrar os recursos hábeis
para a exposição das dificuldades que atravessava, sem
queixas injustificáveis, nem desculpas dispensáveis.
Teleconduzido pelo abnegado instrutor, buscou ser fiel à
verdade dos fatos, relatando-os com franqueza e
apresentando os conflitos íntimos, em honesta busca de
reconforto e diretriz. Bom ouvinte, o Sr. Almiro deixou-o
exteriorizar as aflições em catarse feliz, após o que
passou à orientação compatível. Na raiz de todo
problema elucidou, inspirado pelo mentor encontramos a
presença do passado. No ontem situamse as causas,
como sabemos, positivas ou perturbadoras da nossa
caminhada no rumo do progresso. Equivocados e
renitentes, os devedores nos apresentamos jungidos à
canga dos débitos que a imprevidência e a presunção
nos levaram a contrair.
171 Particularmente, na área dos conflitos sexuais, assim
como da insegurança pessoal com todo o seu séquito de
tormentos, enfrentamos o ressumar da intemperança e
dos abusos de vária ordem que volvem do pretérito
espiritual. O apóstolo Paulo, escrevendo aos gálatas,
refere que Tudo o que o homem semear, isso também
ceifará,4 demonstrando a excelência da Justiça divina. Daí
resulta que a existência física é uma oportunidade feliz
de recomposição, em que o endividado se reedifica
interiormente mediante o aproveitamento das horas.
Aqueles que se consideram estigmatizados por esta ou
aquela limitação sexual estão sob disciplina retificadora
dos excessos que antes se exigiram, impondo-se-lhes a
necessidade de recuperação do equilíbrio. Fazendo ligeira
pausa, a fim de tornar claro o raciocínio, aduziu: Alguns
psicoterapeutas, vinculados ao pensamento freudiano,
recomendariam de imediato a sua entrega ao prazer, à
liberação da libido, ao comércio alucinante do sexo nos
intercâmbios heterodoxos ora em voga... Não nos
cumpre, porém, censurar-lhes a ótica de observação e
avaliação do comportamento do homem que reduzem à
simples expressão de animal sexual. Considerando, no
entanto, o ser, na sua totalidade, imortal na sua essência,
a visão dos problemas que lhe dizem respeito sofre
profunda alteração. É certo que a imposição de uma
conduta castradora, coibitiva das funções genésicas,
atenta contra a própria fisiopsicologia do indivíduo. De
acordo com o tipo de cada problemática, é indispensável
uma solução específica, equivalente, que lhe corresponda.
Assim, no campo das funções reprodutoras, a eleição do
parceiro pelo amor representa valiosa decisão, que lhe
faculta o núcleo familial no qual se caldearão as
expressões da conduta, surgindo o
172 equilíbrio mediante a entrega ao dever, ao amor...
Noutras expressões da manifestação sexual derivadas do
ontem, certamente essas solicitarão a canalização
condizente, dirigindo as energias genésicas para os
objetivos da beleza, da cultura, da fé religiosa, da ciência,
da tecnologia, que também proporcionam a plenitude. A
liberação ampla, que facilmente se transforma em
comportamento promíscuo, mais aflige e complica o
quadro do portador dos conflitos. Examinem-se os
campeões do prazer, e ver-se-á como se apresentam
instáveis, atribulados, insatisfeitos, derrapando nos
abismos das drogas, das alucinações variadas... É claro
que não pretendemos recorrer a imposições puritanistas
que ficaram nos dias idos. Somos de parecer que a
abstinência, a conduta saudável, mental e física, será
sempre o melhor processo psicoterapêutico para a
recomposição das paisagens emocionais e morais... Eis
por que, nas dificuldades em que você se vê envolvido,
as atividades bem orientadas têm-lhe constituído meio
seguro de autorrealização. Como ninguém consegue
transitar, no mundo, em clima de harmonia plena, isto é,
sem a presença dos desafios e das aflições, ditosos são
aqueles que podem olhar para trás sem anotar deslizes
que tornariam a própria situação mais conflitiva, mais
tormentosa. Dessa forma, por meio da reflexão, você
identificará os fatores de perturbação que o aturdem e
prosseguirá conduzindo o barco somático de forma
equilibrada, embora alguma carência que venha a
registrar. Novamente silenciando, volveu, de imediato, ao
esclarecimento: A mediunidade é-lhe campo formoso de
experiências iluminativas, em cujo aprimoramento suas
energias criadoras são utilizadas de maneira eficiente,
tranquilizando-o.
173 As comunicações mediúnicas exigem o combustível
das forças físicas e psíquicas do instrumento, a fim de se
tornarem factíveis. Prossiga, portanto, superando-se e, na
ação do amor ao próximo, transforme lubricidade em
afeto, sofreguidão em paz, e vício em virtude. Não raro, o
problema tem vinculações com os hábitos mentais
incorretos, que desarticulam a emoção. Corrigindo-se o
centro de posicionamento das ideias, estas fluirão em
harmonia, em paz. Outra vez, ordenando o pensamento,
fez breve intervalo, prosseguindo, inspirado: Quanto a
irmã enferma e obsessa, fazem-se necessárias redobrada
vigilância, oração e decisão imediata de interromper esse
nefasto processo. Sem dúvida, nossa infeliz cliente se
encontra sob indução espiritual perversa. Utilizando-se
dos seus hábitos mentais e morais licenciosos,
adversários dela como de nós outros açulamlhe os
apetites sexuais, alucinando-a. Porque se permite cultivar
as ideias e as aspirações subalternas, encontra-se em
faixa psíquica inferior, sendo estimulada à perversão que
pouco a pouco a desarvora. Enquanto as criaturas não se
conscientizarem de que a mente é dínamo gerador de
forças, e que, de acordo com a qualidade da onda
emitida, nessa frequência se sentirão, o problema em
pauta se transformará em tragédia do cotidiano, cada dia
mais cruel. Esse desbordar de paixões, durante as horas
de lucidez, arquiva no subconsciente os clichês dos
desejos não fruídos, que ressurgem à hora do repouso
físico como sonhos perturbadores, nos quais
intercambiam com os Espíritos obsessores. Dentre as
paixões primitivas que remanescem na criatura humana,
os apetites sexuais se tornam os mais terríveis verdugos,
cedendo espaço para as fugas espetaculares em variada
expressão
174 de vícios. O plasma psíquico do sexo da pessoa
cobiçada atormenta o inquieto e inconsequente, levando-
o à desarmonia e à loucura. Somente a decisão forte e
consciente para a libertação rompe esse círculo apertado
de desejo e insatisfação, de gozo e sede... Como se
procurasse escutar nos refolhos da alma a palavra do
irmão Vicente, que lhe dominava a mente, o Sr. Almiro
concluiu: Encerre imediatamente esse capítulo triste da
sua existência que você não está a desenhar. Colhido
pela irmã em desalinho, a quem busca ajudar, use de
franqueza sem agressividade e não volte a vê-la. Como
se despertasse para a reflexão decisiva, Francisco
interrogou: E se, induzida pelo mal que nela reside e pela
Entidade má com a qual se homizia psiquicamente, ela
vier a suicidar-se? O Sr. Almiro meditou, manteve-se
calmo e redarguiu: Seria profundamente lamentável essa
ocorrência inditosa para ela, como também para nós
todos. No entanto, a opção é dela. A pretexto de auxiliá-
la, sem que ela deseje ajudar-se, não é lícito que você se
perca e se desequilibre, sabendo, conforme cremos, que
você é somente um capricho a mais, um brinquedo nas
mãos levianas de uma pessoa inconsequente, bem como
de Entidades vingativas. Prosseguiram ainda em
comentários cuidadosos quão salutares, despedindo-se
com um amplexo fraterno, emocionados, pensando no
futuro.
175 Ocorrência grave Terminada a entrevista, Francisco
recuperou a serenidade e dirigiu-se ao lar, meditando a
respeito da conduta que lhe foi proposta em relação à
alienada moral, que se lhe fizera dura provação nos
últimos tempos. Portador de grande sensibilidade,
embora confiasse na divina ajuda que nunca falta,
receava um desfecho trágico, quando tomasse a iniciativa
de interromper o intercâmbio nefasto. Utilizando-me de
um momento disponível do amigo Vicente, interroguei-o,
objetivando discernir melhor em torno da pendência
inquietadora. Por que os médiuns inquiri interessado
normalmente se apresentam portando problemas graves?
No caso particular do nosso Francisco, tendo em vista a
sua existência correta, por que o desafio que ora o
inquieta? Com serenidade e sabedoria, o bondoso guia
esclareceu: Não são os médiuns, conforme sabemos,
criaturas especiais, destinados à galeria espiritual dos
eleitos, como seres venerandos. Normalmente são
espíritos muito comprometidos que dispõem das
faculdades medianímicas para mais servir, reequilibrando
o psiquismo desarmonizado ao impacto das ações
incorretas. Vitimados pela consciência culpada,
experimentam os conflitos que defluem das atitudes
exorbitantes que se permitiram. A faculdade propicia-lhes
ajudar aqueles a quem ofenderam e se demoram em
aflição, assim como a socorrer indiscriminadamente a
todos quantos se lhes acercam em carência de
esclarecimento e de segurança. Cada gesto de conforto e
toda ação de benemerência diminuem a carga de
desares, que se impuseram por meio dos
176 insucessos anteriores, e que se ofereceram antes da
reencarnação para expungir. Conhecendo que o nosso
caro amigo foi irresponsável no comportamento sexual,
seduzindo pessoas ingênuas e, logo depois,
abandonando-as, sofre hoje limitações na área genésica,
que se lhe transformam em terapêutica providencial a fim
de servir-lhe de disciplina corretora. Como a
mediunidade exterioriza energias específicas, que se
caracterizam por ondas de simpatia, qual ocorre em
diversas áreas humanas a vinculação do paciente com o
seu terapeuta, do cliente com o seu advogado, do
servidor com o seu administrador o que é quase normal,
muitas vezes degenera em uniões conflitivas,
extraconjugais, sem sentido, produzindo despertamento,
após passadas as labaredas da paixão, da dependência
emocional, em situações inamistosas, quando não em
tragédias lamentáveis. Nosso Francisco deverá
permanecer com seu espinho na carne, transformando as
energias criadoras do sexo em construções do Bem e da
Caridade. Haverá algum vínculo entre a senhora
perturbada e o nosso companheiro? Não
necessariamente respondeu gentil. Toda ação se
direciona ao equilíbrio cósmico, mantendo-o ou
desarticulando-o. Assim sendo, a recuperação dá-se em
relação às leis da Vida e não particularmente a cada
indivíduo que se sente prejudicado. Eis por que o perdão
oferecido pela vítima a ela mesma proporciona maior
bem, porquanto, desvinculando-se do ressentimento
gerador de muitos distúrbios, o ofensor, mesmo
desculpado, permanece devedor, até o momento em que
resgate o mal que praticou. Assim sendo, ocorrem
fenômenos negativos, nos quais acontecimentos de vária
ordem se transformam em títulos de
177 cobrança, que solvem os comprometidos que se lhes
submetem às injunções liberativas. Nossa irmã é acidente
natural de percurso, utilizada por mentes desencarnadas,
que a manipulam nos quadros da sua leviandade e que
pretendem dificultar o ministério do médium criando
perturbação e desídia em nossa Casa, fiéis ao programa
de desafio e agressão a que se propõe o Chefe, como
sabemos. Indiretamente ela se elege cobradora,
desnecessária à lei de harmonia, tornando-se, por sua
vez, vítima da própria luxúria. Se se mantivesse em outro
campo de conduta moral, provavelmente se sentiria
tocada pela simpatia do jovem, transformando-a em
amizade enriquecedora em vez de aflição degenerativa, o
que lhe faculta sintonizar com o comparsa desencarnado.
Haverá voltei a indagar perigo de uma ocorrência suicida,
conforme a sua ameaça com extravagante caráter de
chantagem? É imprevisível ripostou meditativo. As
criaturas insensatas reagem quando deveriam agir,
assumem posturas, quando contrariadas, as mais
extravagantes, porque são acionadas pelos instintos,
abandonando as diretrizes da razão. Não obstante,
estaremos buscando auxiliá-la com os recursos ao nosso
alcance, interessados como nos encontramos em ajudar a
todos, porém, não podemos violentar o livre-arbítrio de
criatura nenhuma. Quem pretende ascender, facilmente
recebe ajuda para erguer-se; da mesma forma, aquele
que prefere os pauis, com igual liberdade ali se demora.
A decisão, portanto, é de cada pessoa, conforme as luzes
do discernimento que possua. Silenciou por momentos e,
mudando a entonação de voz, propôs-me: Visitemos a
nossa querida irmã Raulinda.
178 O trânsito, da Casa Espírita até a residência da
médium instável e duvidosa, sucedeu em tranquila
reflexão de nós ambos. A noite respirava paz, e os
passantes eram escassos no bairro da cidade grande.
Quando chegamos ao quarto da moça, nos deparamos
com uma cena inesperada. Tomada de compulsivo
pranto, apresentavase agitada e envolta em densas
vibrações de sensualidade. O seu adversário,
desencarnado, agredia-a com inusitada violência,
blasfemando, acusando-a... O irmão Vicente, que
certamente conhecia a longa trajetória de ambos
litigantes, explicou-nos: Conforme já conversamos,
Raulinda debate-se no conflito acerca da sua
problemática de saúde, buscando entender-lhe a gênese,
se de natureza fisiológica ou mediúnica. Tratando-se com
um esculápio de formação moral vulgar, este incutiu-lhe
na mente que a sua enfermidade possui raízes histéricas,
e que somente por meio do relacionamento sexual
poderia ser solucionada. Acostumado à sedução, e
percebendo a insegurança, a inquietação da cliente, vem
encaminhando todas as conversações nesse sentido,
candidatando-se, ele próprio, à solução. Casado e pai de
família, porém leviano e inescrupuloso, hipnotizou-a com
a orientação e hoje, em pleno consultório, consumou a
terapia aviltante... Passado o momento do enlevo e da
sedução, ei-la que tomou consciência da invigilância e
arrependeu-se, tardiamente. Como o caro Miranda se
recorda, temos tentado auxiliá-la com esforço e
intensidade de amor em várias oportunidades. O
matrimônio estava na pauta da sua reencarnação, a fim
de que o adversário desencarnado lhe voltasse aos
braços na condição de filho, para que o amor santificado
resgatasse a loucura do passado. Desatenta e apressada,
resolveu aceitar as propostas infames
179 do médico e, conforme o imperativo das leis
soberanas, tornar-se-á mãe... Colhido pelo inesperado, e
atraído pelo fenômeno biológico da fecundação, o seu
inimigo percebe que se encontra já imanado ao ovo, em
razão de haver-se vinculado ao gameta masculino
mediante o processo automático do renascimento. Essa a
razão do seu desespero e agressividade ora exacerbados.
Tombou nas malhas magnéticas da própria armadilha. O
que aconteceria por amor, a imprevidência produziu pela
violência. Nossa presença aqui, neste momento, objetiva
diminuir as cargas de perturbação, que poderão crescer,
levando nossa Raulinda, desgostosa, a uma decisão mais
hedionda, qual o suicídio, por dar-se conta da gravidade
do acontecimento, não se encontrando com as
resistências morais hábeis para suportar os efeitos do
gesto impensado. Oremos. A irreflexão é responsável por
muitos males que afligem o ser humano, que passa a
sofrer danos que não se encontram programados na sua
ficha cármica. Fatalmente destinado à plenitude, a sua
jornada é feita, etapa a etapa, mediante o livrearbítrio,
que se torna o excelente direcionador do destino.
Quando a opção é correta acelera a marcha, e quando é
equivocada retarda-a, aprendendo, pela metodologia da
reeducação, a discernir o que deve fazer e como realizá-
lo, passando a agir com acerto. Não obstante, quando
gera dificuldades para si mesmo, sofrendo-as com
resignação e amor, elas se lhe tornam elementos vitais
para a libertação. Raulinda, deixando-se fragilizar pela
dúvida acerca das questões espirituais e estimulada pelo
passado à preservação das paixões primitivas, permitiu-se
tombar na cilada da insensatez. A ilusão do prazer sexual,
no entanto, sem o amor que lhe dá
180 harmonia, é qual incêndio voraz, sempre fugaz e
destruidor... O ser desperta dele insatisfeito, sob a carga
dos efeitos que lhe cumpre, então, conduzir, amargando
reflexões e, às vezes, revolta contra si mesmo.
Certamente, o médico leviano jamais assumiria a
paternidade, justificando-se e acusando-a, transferindo a
responsabilidade para outrem, como de hábito acontece.
É comum a queixa sobre a não proteção divina àqueles
que sofrem. Esta, porém, jamais falta, chegando sempre
antes da consumação do mal. Entretanto, quando a
invigilância desencadeia o drama, torna-se mais difícil
deter-lhe o volume, que é resultado das ações irregulares
do início. O caso Raulinda encaixava-se na tese da
proteção superior. Não lhe faltaram demonstrações de
afetividade de ambos os planos da vida, as evidências da
imortalidade, da interferência mediúnica na sua
existência. Optou, no entanto, espontaneamente, pelo
sinuoso caminho dos sofrimentos, que a poderão
beneficiar caso os aceite com elevação moral, mas que
não estavam delineados conforme passaria a vivê-los a
partir daquele momento. Nesse comenos, observei a
concentração do irmão Vicente no adversário espiritual
da nossa amiga e, acurando a atenção, pude também
captar o que se passava. O inimigo sentindo-se
aprisionado pelo zigoto, que dava continuidade ao
fenômeno da mitose celular, esbravejava, tentando,
mentalmente, romper o vínculo magnético entre ele e o
futuro corpo somático, para produzir a anulação da vida
física... Impossibilitado, começou a agir psiquicamente no
comportamento da paciente, aumentandolhe o
arrependimento, exprobrando-lhe a conduta, induzindo-a
ao suicídio como solução para a desonra a que se
entregara. Interferindo nas tardias reflexões da moça,
ampliava-lhe o pavor a respeito do futuro, das
dificuldades no lar que
181 desrespeitara, desconsiderando a confiança dos pais
e desse modo, ameaçandoa, atemorizava-a mais,
afirmando: Serei teu filho, sem o desejar. Cobrarei, nos
teus braços, o que me deves... Como se irrompesse um
vulcão, Raulinda, ouvindo-o e desarvorando-se, ia
precipitar-se porta afora, a gritar, quando o amigo
Vicente começou a libertá-la das energias perniciosas
que a envolviam, após o que lhe aplicou reforço
magnético de calma e confiança, levando-a a um torpor
benéfico como efeito da exaustão dos acontecimentos de
alto porte emocional. De imediato, passou a interferir no
processo da reencarnação do aturdido Espírito, que se
não dava conta daqueles sucessos e experimentava os
primeiros choques, resultantes da imantação ao ovo.
Nesse ínterim, deu entrada no recinto uma Entidade de
aspecto hediondo que ao nos encontrar deteve-se a
regular distância e, após ligeiro diálogo com o pré-
reencarnante dominado por incontida fúria, afastou-se
blasonando desforço e providências severas que seriam
tomadas pelo Soberano das Trevas. O benfeitor espiritual,
muito sereno, esclareceu-me a perplexidade: Miranda
falou-me atencioso na ocorrência que acompanhamos
podemos anotar inúmeros fenômenos, todos filhos do
desequilíbrio humano e da ligeireza da fé religiosa
quando não se estrutura na razão, fixando-se no
comportamento. Não pretendemos, com isso, censurar a
conduta da nossa Raulinda. Os nossos comentários
objetivam propiciar-nos reflexões profundas. De início,
desde os momentos que precederam à sua opção pela
autoentrega ao desfrutador inescrupuloso, a nossa amiga
não recorreu à oração, à comunhão com Deus, tornando-
se acessível à inspiração superior. Deixando-se perturbar
pelos apetites sexuais, não lhe ocorreu, sequer uma vez, a
providência da prece, que por certo a acalmaria,
ajudando-a a discernir melhor.
182 Continuando o desalinho do comportamento mental,
mesmo arrependida não pensou no recurso da
comunhão psíquica com o Pai, o que facilitou, na faixa
vibratória em que permaneceu, a presença do adversário
estimulando-a e, por sua vez, sendo vítima da própria
trama. A oração faculta claridade mental, ampliando a
capacidade do entendimento e acalmando as ansiedades
do coração. No entanto, são poucos aqueles que a
buscam nos momentos próprios e se deixam impregnar
pelas suas dúlcidas vibrações. Após uma pausa natural,
continuou solícito, compreendendo a minha necessidade
de aprendizado: A cena que teve lugar no consultório
médico foi brutal, sem qualquer envolvimento afetivo. O
explorador da ingenuidade alheia, sem qualquer emoção,
era apenas a sensação animal em busca de resposta.
Iludida e inexperiente, a jovem deixou-se arrastar pelos
estímulos vulgares, tornando-se objeto de uso, sem
nenhuma consideração. Não houve tempo para recuar,
porque as chamas das paixões infrenes são vorazes...
Passados os primeiros momentos do conúbio, o
constrangimento, a frustração e o choque fizeram-na
fugir de retorno ao lar. Sofrerá, agora e mais tarde, o
desencanto em torno do relacionamento afetivo,
trazendo um conflito que a atormentará, mas que
poderia ter sido evitado. Sintonizando mentalmente com
o Soberano das Trevas, o enleado nos fluidos da próxima
reencarnação pediu socorro, vindo vê-lo um dos
emissários do terrível chefe, conforme acompanhamos.
Prevendo a ocorrência, foi que cuidamos de mais imantá-
lo ao futuro corpo, evitando a interrupção da gestação
em começo. Poderia parecer que, talvez, fosse o fracasso
do tentame reencarnacionista a melhor solução para
Raulinda. Entretanto, se tal acontecesse, permaneceria a
pugna obsessiva com menor
183 possibilidade de futuro próximo, renascimento, em
razão do repúdio que lhe irá crescendo no íntimo em
referência a novas experiências sexuais... Agora cumpre-
nos confiar em Deus e acompanhar pacientemente os
acontecimentos, procurando auxiliar com bondade
sempre. Retornemos à nossa Casa, porquanto aqui nada
mais nos resta fazer. A mente esfervilhava de
interrogações e reflexões sobre comportamento e fé
religiosa, conduta e dever, ação e equilíbrio, porém
respeitei o silêncio do amigo e acompanhei-o meditativo.
Havia lições profundas e inumeráveis para assimilar.
184 Socorros de emergência Retornando ao centro das
nossas atividades, encontramos Dr. Carneiro e Fernando,
que se ausentaram antes para labores pertinentes a
socorro dispensando ao médium Davi, para quem todas
as exortações dirigidas permaneciam propositadamente
ignoradas, comprometendo-se cada vez mais com a
simonia, a sensualidade e os alcoólicos que passaram a
fazer parte do cardápio das lautas refeições que lhe eram
oferecidas... De tal forma irregular se lhe tomara a
conduta, que o próprio Dr. Hermann compreendeu a
dimensão do desequilíbrio do seu pupilo e médium. Não
poucas vezes advertira-o, sem conseguir os resultados
esperados. A descida aos porões do erro sempre faculta
acesso à marginalidade nas sombras morais. Aquele que
se corrompe, intoxicando-se com os vapores do triunfo
ilusório, torna-se soberbo, passando a ver o mundo por
meio de lentes distorcidas, de forma a preservar os
hábitos licenciosos, equivocados. Nesse descaminho do
homem alucinado, Adelaide, a esposa, igualmente
invigilante, cooperava com a sua venalidade e ambição
desmedida, estimulando-o a aplicar o tempo sob vultosas
recompensas materiais. Estranhava-lhe, de certo modo, o
comportamento no relacionamento íntimo e suspeitava a
respeito de aventuras extraconjugais. Quando o seu
ciúme o acoimava gerando discussões frequentes, ele
silenciava-a mediante presentes caros, que resultavam do
comércio nefário das faculdades mediúnicas. Diante da
gravidade do problema, o Dr. Hermann, antes
185 reacionário à presença do Dr. Carneiro no cenário
das suas atividades, recorreu-lhe à orientação, à ajuda,
razão por que o venerando amigo e Fernando voltaram a
acompanhar os atendimentos na novel sociedade que o
médium criara, após afastar-se da Casa Espírita, ali
encontrando o irmão Ernesto, igualmente preocupado
com o desenrolar dos fatos. Inamistoso e arrogante em
relação aos doentes pobres e malvestidos, que rotulava
de questões cármicas, qual se a problemática na área da
saúde dos ricos também não o fosse, Davi montara um
esquema de pessoas ambiciosas, que passaram a
assessorá-lo, explorando os incautos nos espetáculos que
produzia. A mediunidade responsável jamais subirá aos
palcos, estabeleceu o nobre codificador do Espiritismo,
sem consequências funestas para aquele que se deixa
arrastar pelo sensacionalismo, pela audácia. Sem a
presença dos Espíritos não ocorre o fenômeno
mediúnico, e, como os nobres não se submetem a tal
ridículo, não faltam os levianos e maus que se
comprazem com essas excêntricas demonstrações
espetaculosas, normalmente resultando, em face do mau
uso, em suspensão ou perda da faculdade. O padrão
vibratório do psiquismo de Davi se tornara tão instável e
inferior, que a comunicação do médico-cirurgião fazia-se
agora penosa para ambos, entre espasmos e ritos
nervosos, a fim de ser conseguida a sintonia, o
acoplamento perispiritual. Vigiado pelo sicário enviado
do Soberano das Trevas e estimulado ao prosseguimento
dos disparates comprometedores, por diversas vezes deu
acesso à comunicação de hábil mistificador, que se
passava pelo diligente esculápio benfeitor, ludibriando os
aficionados desatentos e fascinados que transitavam na
mesma faixa moral e psíquica. Logo depois começaram
os insucessos, principalmente por meio
186 de aplicação de antibióticos, quando terminadas as
cirurgias, as quais passaram a provocar dores nos
pacientes. Sucede que o desgaste das energias genésicas
de Davi nas noitadas de prazer vil, encharcando o
perispírito de vibrações perniciosas, produzia a
neutralização do conteúdo anestésico dos seus fluidos,
diluindo igualmente, mais tarde a ação bactericida,
mesmo quando outros benfeitores espirituais tentavam
intervir para manter a assepsia, retirar a dor... Alguns
desses amigos desencarnados ainda permaneciam
auxiliando, por amor, os clientes ingênuos e confiantes
que oravam, suplicando o apoio da Divindade nos
cometimentos a que se iam submeter quando ali
chegavam. O médium, sob terrível indução obsessiva, no
entanto, continuava a descida no rumo das paisagens
lúgubres. Sem saber como o que mais fazer, o Dr.
Hermann buscou apoio e diretriz, interrogando qual
providência seria tomada: se a interrupção ou a
supressão da faculdade, a fim de evitar o tombo final na
loucura moral. O sábio instrutor, após acompanhar a
nova e infeliz fase de Davi, estabeleceu que as
providências socorristas não cessariam, mas que em
razão da eleição do médium pelos comparsas inditosos,
já lhe definira o calvário. Sugeriu então ao Dr. Hermann
acompanhálo, aguardando quaisquer momentos
favoráveis para inspirá-lo, porém, não mais se
comunicando, desde que, mediante as afinidades de
gostos e interesses, ele fora substituído lamentavelmente
pelo adversário, que iria lançar o medianeiro invigilante e
presunçoso no caos para o doloroso despertar... Davi, em
razão da mudança de comportamento, passou a ter
grande aptidão para fazer inimigos. Sempre de mau
humor, exteriorizando cansaço e azedume, somente se
sentia estimulado e jovial quando a sua corte o cercava
de bajulação, e jovens
187 mulheres, igualmente irresponsáveis, adredemente
contratadas, apresentavam-se para as orgias nos hotéis e
bordéis da moda. Podia-se, na decadência moral do
homem imprevidente, encontrar algumas das regras
propostas pelo Soberano das Trevas, que lograriam
corromper os indivíduos que se lhes fizessem alvo de
cuidados e obstinado interesse destrutivo. Essa técnica,
ele assegurava, é mais valiosa, porque mais sutil e
apetecível do que a perseguição desenfreada. Deseja
conhecer alguém? expusera cínico, oportunamente
conceda-lhe liberdade, poder, fortuna! Depois retirem-lhe
tudo, caso ele não tombe na primeira fase. Não foi assim
que Satanás provou a Deus que Jó não o amava, apenas
desfrutava de tudo quanto lhe fora concedido? Em
realidade, a narrativa sobre Jó apresenta-o em três fases
distintas: na abundância com alegria, na miséria com
revolta e, por fim, na fartura multiplicada, após o
arrependimento, agora com louvor. De certo modo, a
opulência nos fracos morais torna-os avaros, indiferentes,
soberbos, assim como a miséria os faz agressivos e
impiedosos, violentos e perversos. Nos indivíduos
moralmente fortes, uma como outra circunstância não
lhes altera a conduta, conforme expressou o apóstolo
Paulo: Sei estar abatido, e sei também ter abundância;
em toda a maneira, e em todas as coisas, estou instruído,
tanto a ter fartura como a ter fome; tanto a ter
abundância como a padecer o necessário. 5 Alguém que
alcança esse nível de equilíbrio é imbatível, qual ocorreu
com o incomparável servidor de Jesus, que permaneceu
sempre o mesmo, desde que se conscientizou da
responsabilidade que lhe cumpria realizar, como
divulgador e exemplo do Evangelho. No exercício da
mediunidade iluminada pelo Espiritismo, a
188 renúncia aos destaques e às glórias humanas, a
humildade natural, espontânea, a ação no bem, a
gratuidade dos seus serviços, a honradez e seriedade
moral constituem características essenciais ao bom
servidor. Convidado o médium à autorreparação, à
autoiluminação, a sua meta não são os bens que deixa
ao desencarnar, mas os valores íntimos que sempre
conduzirá. Enganam-se todos aqueles que fazem o
contrário, ou estimulam, apoiam a insensatez, a ambição,
a vaidade dos médiuns, tornandose-lhes verdadeiros
inimigos do crescimento espiritual e moral, mesmo que
seu desejo seja outro. Não fazemos apologia do
sofrimento, no entanto não podemos igualmente ignorar
os benefícios que ele proporciona, quando compreendido
e enfrentado com elevação, com sentimentos nobres. Na
conversação que mantivemos com Fernando, a respeito
de Davi em perigo, o amigo relatou-me as dificuldades
morais em que o mesmo se encontrava, a par da cilada
que estava sendo urdida para pôr-lhe fim ao ministério,
criando uma situação embaraçosa para os seus amigos e,
de certo modo canhestra, para o bom nome do
Espiritismo. Como, porém, os escândalos são de breve
duração, logo sucedidos por outros, e a memória
terrestre é curta, os danos que o insucesso trágico
pudesse causar não seriam de grande monta. Utilizando-
se da psicosfera da Casa Espírita, o irmão Ernesto e o Dr.
Hermann pretendiam trazê-lo, ainda naquela madrugada,
para um diálogo oportuno e sério, como última tentativa
para despertálo, após o que, por livre opção, caso não
aceitasse os alvitres, ficaria entregue a si próprio. Para a
consumação do plano, nosso mentor iria consultar o
diretor da Instituição, o irmão Vicente, pedindo-lhe
licença para usar as instalações físicas e espirituais do
recinto dedicado aos
189 labores mediúnicos, em face das suas defesas contra
quaisquer agressões porventura premeditadas. Para o
projeto que fora proposto pelo irmão Ernesto, guia
espiritual de Davi, as providências estavam em curso com
cuidados especiais. Pude perceber no companheiro, que
me narrou a próxima programação, inusitada
preocupação, pois que ele sabia da complexidade do
caso, por envolver interesses do chefe mongol, desejoso
de desarticular as elevadas tarefas de libertação que cabe
ao Espiritismo em relação às criaturas humanas,
influenciando a sociedade do futuro na sua grande
transformação, quando o planeta passará à condição de
mundo de regeneração. Os Espíritos que o habitarão,
nessa oportunidade, já não serão inferiores, por haverem
superado os instintos mais grosseiros e as paixões vis.
Contra essa fatalidade evolutiva se obstinam, ainda, os
Espíritos perversos, exploradores das energias dos
homens que permanecem vinculados aos prazeres
asselvajados, em vampirismos cruéis, caracterizando a
dualidade do Bem e do Mal em luta. Ora, o mal são os
estados primitivos que conspiram contra a libertação do
ser, os quais, não tendo existência real, são, portanto, de
duração efêmera, porque Deus é o Bem Infinito...
Todavia, esse combate constitui meta prioritária da
ignorância que predomina nas consciências obscurecidas,
adormecidas para as altas percepções das finalidades
essenciais da vida. Quando o Dr. Carneiro nos convidou
para seguirmos à sala das atividades mediúnicas, o
relógio assinalava duas horas e vinte minutos, estando a
reunião programada para daí a dez minutos. Diversos
trabalhadores de nosso plano encontravam-se a postos,
circunspectos, embora tranquilos. É que a confiança
irrestrita em Deus convida à harmonia, mas também à
responsabilidade.
190 Enquanto aguardávamos a chegada dos participantes
da atividade em pauta, Fernando acercou-se-me, e
gentilmente entreteceu considerações valiosas. Quando
as criaturas encarnadas esclareceu buscarem sintonizar
conscientemente com as Esferas Superiores da Vida,
muitos dos problemas que as angustiam serão
solucionados, porquanto, ao retornarem ao corpo físico
após a comunicação com os seus guias e protetores,
guardarão lucidez da convivência e das instruções que
receberam. Normalmente, mesmo entre aqueles que se
dedicam aos estudos parapsíquicos e mediúnicos,
embora se considerem espiritualistas e espiritistas, o
comportamento é vinculado aos estratagemas e disfarces
do materialismo. A incerteza da interdependência do
Espírito ao corpo, o atavismo religioso mediante o qual
inúmeros crentes aceitam o céu, porém preferem
desfrutar a Terra, fazem que ao despertarem, em vez de
intentarem recompor as peças das lembranças, atirem-
nas ao calabouço sombrio do esquecimento, informando
tratar-se de sonhos, e, dessa forma, não merecendo
consideração. Outros apelam para as explicações
psicanalistas, bastante valiosas, mas não únicas, ou nem
sempre convincentes. A experiência que iremos viver
ficará impressa nos painéis da consciência de Davi, qual
ocorrerá com outros companheiros. Dependerão os
resultados da interpretação que lhes deem, a qual lhes
influenciará o comportamento a partir de então. O
exercício correto da mediunidade, a vivência dinâmica
dos postulados espíritas constituem recursos preciosos
para o trânsito seguro e lúcido entre as esferas física e
espiritual. Ernesto e o Dr. Hermann deram entrada no
recinto, conduzindo o médium adormecido, que exalava
odores pestilentos, resultado das libações alcoólicas e
dos excessos sexuais. Imantado ao seu perispírito,
identificamos um ser amorfo, lânguido, desagradável,
191 que se apresentava igualmente intoxicado. Em face
das interrogações mudas que eu formulava, Fernando
veio, presto, em meu socorro e elucidou-me: Trata-se de
Entidade viciada em bebidas alcoólicas e sexo promíscuo
que o companheiro encontrou num dos recintos de
luxúria e com quem se afinou. A marcha do amigo em
declive é dolorosa... Não pôde prosseguir, porque, nesse
momento, adentrou, teleconduzido pelo irmão Vicente, o
mistificador que ora se fazia passar pelo Dr. Hermann nas
cirurgias mediúnicas. Golpeando o ar com gestos de
extremada violência, agredia verbalmente Deus, os
Espíritos nobres, a Vida... A alucinação do ser o faz recuar
psiquicamente aos períodos primários da evolução,
quando o seu pensamento é primitivo, fisiológico...
Visivelmente adormecidos foram trazidos, também, o Sr.
Almiro, D. Armênia, Leonardo e Francisco, por abnegados
cooperadores da nossa esfera de ação. Após serem
colocados à mesa, foram-lhes aplicados recursos
magnéticos de dispersão fluídica, despertandoos
gentilmente. Habituados aos misteres mediúnicos, não
tiveram relutância nem dificuldade para readquirirem a
lucidez, dispondose, sem mais amplas explicações, para o
labor. O Dr. Carneiro foi convidado para assumir a
direção do trabalho. Não obstante a irritação do
adversário de Davi e de outros Espíritos trazidos à
atividade, pairava no ambiente uma psicosfera de
confiança e de paz. Ante o silêncio e a agradável
expectativa geral, o médico baiano, tomado por grande
unção, exorou a Deus: Pai Misericordioso! Criastes-nos
com a destinação do Bem, reservando-nos a plenitude
futura, que conquistaremos a esforço próprio sob vossa
192 inspiração. Ensejastes-nos a razão, a fim de
podermos discernir com acerto os meios e requisitos
para a vitória sobre nós mesmos. Concedestes-nos a
consciência, na qual inscrevestes vossas leis, de modo a
conduzir-nos no imo das percepções. Enviastes-nos
missionários do amor e da sabedoria, a fim de que nos
ensinassem o caminho e os meios de conhecer-vos.
Oferecestes-nos Jesus Cristo como modelo e guia, de
forma que não pudéssemos equivocar-nos sob
justificativas irreais. Não obstante tantas dádivas, temos
preferido a marcha sinuosa, os caminhos do egoísmo e a
manutenção das tendências primárias. Poucos têm
conseguido libertação, trabalhando-se e autoiluminando-
se. A expressiva maioria ainda permanece na retaguarda
do progresso, em teimosa rebeldia, em terrível
ignorância, em rude carência, por opção própria. Apiedai-
vos de nós! Nesta madrugada, que simboliza dia novo
em vitória sobre a noite densa, ajudai-nos a esclarecer e
a encaminhar-vos os companheiros que teimam na
irresponsabilidade e parecem comprazer-se na
ignorância, na rebeldia. Reconhecendo as nossas
limitações, apelamos para a vossa magnanimidade e
compaixão. Iluminai nosso caminho, Supremo Pai, e
conduzi-nos em paz! Ao silenciar, vibrações suaves
invadiam o recinto, envolvendonos em agradável
sensação de paz. O Dr. Carneiro acercou-se de Davi, e,
auxiliado por Ernesto, utilizando-se de recursos especiais,
despertou-o, deslocando o vampirizador desencarnado,
que, a ele acoplado, explorava-lhe e roubava-lhe
preciosas energias. A Entidade foi deitada em maca,
adredemente colocada sobre
193 uma mesa na sala, enquanto o sensitivo, relanceando
o olhar em volta, não teve dificuldade em dar-se conta
da ocorrência em desdobramento, apesar de encontrar-
se ainda um pouco entorpecido. O irmão Ernesto
explicou-lhe em rápidas palavras o objetivo da reunião
especial. Logo depois, o indigitado sequaz das Trevas foi
conduzido ao psiquismo da Sra. Armênia, e o vimos
quase fundir-se, perispírito a perispírito, na médium
abnegada que lhe cedeu o campo de energias para a
comunicação violenta. Sem delongas, deblaterou: Que
pretendem comigo? Eu sou apenas um funcionário
modesto, agindo no programa de preservação da Terra.
Admiro-me que os não violentos, os discípulos do
Cordeiro se utilizem da violência para atingirem os seus
objetivos nefastos. O Dr. Carneiro inspirou o Sr. Almiro
que, telecomandado, respondeu com afabilidade:
Pretendemos esclarecê-lo, libertá-lo de você mesmo,
daqueles que o exploram na ignorância e o subjugam na
perversidade. Não temos nada contra o amigo, somente
a favor. E desde que se trata de um funcionário,
esperamos, oportunamente, dialogar com o seu Chefe.
Igualmente não nos estamos utilizando da força, mas da
lei natural, que estabelece ligações por afinidades. Como
o amigo permanece mentindo por meio do médium Davi,
que lhe concede hospedagem psíquica, trazendo o
sensitivo, igualmente o conduzimos. Esse farsante não
escapará alardeou irritado. Poremos fim à sua exploração.
Qualquer providência agora é tardia. Ele e apontou o
médium surpreso não nos escapará, repito, pois que
optou espontaneamente por nós, concedendo-nos
guarida e expulsando vocês. Não é verdade? A verdade,
meu amigo, apresenta-se sob vários aspectos: a
194 sua, a minha e a legítima, que nem sempre
detectamos. Por isso mesmo, pior do que a mentira são
as meias-verdades, que apregoamos como únicas. Pelo
seu ângulo de observação, o raciocínio parecerá correto,
embora totalmente falso. Não era farsante o nosso
comum irmão Davi, até que, vitimado pelas imperfeições
que não vigiou, nem corrigiu, passou a sintonizar com
você e outros semelhantes, tornando-se, a partir desse
momento, desequilibrado e incorreto. O fenômeno
prossegue verdadeiro, a qualidade, sim, é negativa,
porque o agente do mesmo é inferior... Explorador, o
pobre médium o é, havendo derrapado nos crimes da
simonia e da usurpação de valores que, legitimamente,
não lhe pertencem, mas que deixará, qual acontece com
tudo que seja material. Quanto a providências tardias, a
alegação também é falsa, porque jamais faltaram
admoestações, chamamentos, lições e diretrizes ao
invigilante companheiro. Não há muito, em reunião
equivalente, foi-lhe levantada parcialmente a cortina do
passado, liberando-lhe lembranças esquecidas.
Infelizmente, no desequilíbrio que ora o domina, ele
optou pela sua e outras companhias menos felizes, o que
lamentamos. Agora nos reunimos aqui para corrigir,
esclarecendo o amigo, a fim de que mude de campo
moral vibratório e Davi retorne ao culto dos deveres para
o bem dele mesmo. Observe que a única realidade
existente é Deus, Causa do universo e de tudo. Como
fugir-lhe à presença, refugiando-se na fragilidade da
violência? Acompanhe, por um momento mental, a força
real das leis universais, no macro e no microcosmo. Dar-
se-à conta, então, do absurdo que é a sua e a rebelião
de outros pigmeus, que se revestem de fortes e
esmagadores dos mais ignorantes, dos mais débeis.
Dizemos-lhe: aproveite este momento para mudar de
diretriz,
195 porque, depois, será tarde demais... O que agora lhe
constituirá pequeno esforço, mais tarde impor-lhe-á
pesado ônus. Não me arrependo do que faço e
prosseguirei usando-o até o momento da consumação
do nosso plano. Qual plano? interrogou com
naturalidade. Matá-lo redarguiu com ruidosa gargalhada
de mofa. Ora, matá-lo! rebateu o Sr. Almiro, inspirado
fortemente. Ninguém morre. É irônico você dizer-nos que
seu chefe planeja matá-lo. Aqui estamos, todos imortais
em apresentações diferentes e vivos. Não será a morte
simples. Mas uma forma especial de arrebatá-lo do
corpo. Espicaçando-lhe a ira, o doutrinador interrogou:
Que importa a forma como se morre ou se desencarna?
O verdadeiro é a vida que não cessa... Assassiná-lo-
emos!... Se o nosso Davi desencarnar em condição de
vítima, terá ganho a existência... Levá-lo-emos a provocar
a cena de sangue, a fim de que seja culpado. Calar-lhe-
emos a arrogância, arrojando-o ao chão e o
aguardaremos... Alguns companheiros do comunicante,
que também vieram trazidos à reunião, aplaudiram-no
com a algazarra. A intempestiva interferência em nada
alterou a psicosfera reinante. O Dr. Carneiro aproximou o
doutrinador do comunicante e, tocando-lhe o chacra
coronário com forte indução magnética, ripostou,
esclarecendo: Tudo quanto nos acontece hoje, resultará
em futuro bem para nós mesmos. Se o nosso Davi, que
nos ouve, preferir retornar ao mundo espiritual assistido
pelo caro irmão e seus sequazes,
196 aprenderá inesquecível lição que o preparará para a
Grande Luz em definitivo. A opção será dele. Quanto a
nós, a decisão é prosseguir amando o companheiro
desatento e você, a quem convidamos ao sono, ao
repouso... Durma... Durma... À medida que o induzia com
palavras, aplicava-lhe energias entorpecedoras, que ele
assimilou, apesar de reacionário, adormecendo logo após,
algo agitado. A seguir, Francisco foi convidado a
sintonizar com a outra Entidade que viera com Davi e
cuja doutrinação ficou a cargo do irmão Vicente, que a
socorreu com palavras dignificantes, convidando o infeliz
ao despertamento para a sua realidade espiritual, na
condição de desencarnado indigente de paz e realização
interior. Outros Espíritos se comunicaram, inclusive o Dr.
Hermann, por meio de Leonardo, dirigindo-se a Davi e
admoestando-o com severidade, ao tempo que lhe
recordava os desmandos passados e o compromisso que
assumira para resgatá-los mediante a ação da caridade.
Tão profundas eram as suas palavras e tão grave a
situação, que o Mensageiro concluiu a comunicação
entre lágrimas de ternura e preocupação com o destino
do desatento, que acompanhou todas as cenas com
alguma indiferença. O entorpecimento moral a que se
entregara asfixiava-lhe o espírito, em face da ilusão do
mundo material... As entidades atendidas permaneceram
no recinto, quando a reunião foi encerrada com nova e
fervorosa oração de graças, enunciada pelo Dr. Carneiro
de Campos, e os reencarnados foram conduzidos de
volta... Indaguei a Fernando, no primeiro momento:
Mudará Davi de comportamento? O futuro dirá... As
entidades que se lhe vinculam aqui
197 permanecerão em repouso. Se ele voltar aos
desconcertos morais, atrai-las-á de volta e tudo seguirá
como antes... Em caso contrário, recambiá-las-emos a
nosso campo de socorro. E arrematando os comentários,
concluiu: Cada um escolhe e frui o que lhe parece
melhor, até o momento em que elege o lídimo amor e se
liberta, e se torna feliz.
198 Sexo e responsabilidade A o despertar, Davi
comentou com a esposa o pesadelo de que fora
acometido durante a madrugada, referindo-se à
consciência de culpa, a respeito das atividades
mediúnicas remuneradas que se permitia... Não há por
que você preocupar-se com isso acudiu a ambiciosa
consorte. Houvesse algum problema e o Dr. Hermann já
se teria manifestado negativamente. No pesadelo
elucidou o médium parecia-me escutar o médico
carrancudo, com expressões severas, admoestando-me...
O pior, porém, foram as ameaças que alguém me
direcionava com azedume e rancor. Certamente
prosseguiu ela são as vibrações de inveja de muita gente
despeitada ou talvez de alguns Espíritos perturbadores,
que nos querem atingir. Nós estamos sob a proteção de
Deus e nenhum mal nos acontecerá. Ademais, você
atende também os pobres gratuitamente, e que não são
poucos, aqueles que são socorridos duas vezes por
semana, cansando-se e exaurindo-nos. Temos muitos
compromissos sociais, filhos a educar, certo nível a
manter na comunidade... Tudo isto são despesas e elas
são pagas com dinheiro. Tire, portanto, essas sombras da
mente, e recorde-se que, à noite, você deverá atender
uma pessoa muito importante, com a qual nos
encontramos comprometidos. Desse modo, distraia-se,
faça exercícios na piscina, lembrando-se de que hoje é
sábado... Foi a ducha fria na consciência do leviano,
colocando a atividade espiritual na pauta dos pesadelos,
das ocorrências desagradáveis. Ouvíramos o diálogo ao
lado de Fernando, pois que nos
199 encontrávamos no dormitório da casa, a fim de
providenciarmos apoio, caso as instruções houvessem
recebido consideração e o companheiro em perigo
alterasse o campo mental por meio da sintonia com as
forças positivas. Lamentavelmente, nem sequer uma
oração ocorreu ao casal proferir... Após o desjejum,
chegaram alguns amigos e, horas depois, na piscina,
hóspedes e anfitriões entregavam-se aos prazeres do
whisky e dos salgadinhos... Fernando, que permaneceu
no lar, aguardando oportunidade para sustentar os
ânimos e inspirar os cônjuges, meneou a cabeça,
entristecido, e convidou-nos: Nada mais poderemos fazer
aqui. A opção está elegida. Voltemos às nossas outras
tarefas. Ainda nos não afastáramos do local, quando nele
se adentrou o sicário vinculado às Trevas, exultando e
esbravejando: Livre novamente! Salvo dos desgraçados
lobos em peles de ovelhas, que me desejavam reter. Eis-
me de volta. Tudo retorna ao normal. É assim que todos
queremos. Aleluia! Envolvíamos a família em ondas de
fraternidade e de paz, enquanto os alegres banhistas
divertiam-se, embriagando-se a expensas alheias. A
irreflexão responde por incontáveis males. Após as
nefastas experiências, quando a irresponsabilidade
alcança altos índices de desequilíbrios, queixam-se os
nela incursos quanto ao auxílio superior, que dizem não
haver recebido, entregando-se aos paroxismos da
rebeldia, da alucinação. Por meio dos pensamentos e das
ações, estamos programando sem cessar o nosso futuro.
Cada ser retrata hoje o comportamento anterior e
delineia, ainda, na atualidade, o que será no futuro. Esta
regra básica é chave e modelo para o entendimento da
reencarnação e da sua
200 finalidade ético-moral no processo da evolução.
Quando chegamos à Sociedade Espírita encontramo-la
em preparativos para a reunião da noite, dedicada aos
estudos e comentários da Doutrina. O Dr. Carneiro de
Campos informou-nos que o expositor programado seria
Francisco e o tema em pauta abordaria a questão do
sexo. Em face disso, ele próprio iria inspirar o sensitivo,
encaminhando as considerações para o aspecto saudável
das atitudes humanas em relação ao aparelho genésico,
ao tempo em que pretendia alcançar a senhora Augusta,
que se tornara motivo de perturbação para o trabalhador
espírita. A fim de evitar dificuldades previsíveis, ele iria
dar assistência, a partir daquela hora, ao expositor,
incumbindo-nos, a Fernando e a nós, de inspirar a
senhora atormentada e trazê-la para ouvir a palestra,
facilitando ao jovem o diálogo futuro, sugerido pelo Sr.
Almiro. Diante da programação proposta, nossa visita à
dama conflitada ficou estabelecida para as quinze horas,
de maneira a eliminar qualquer perturbação que a
pudesse impedir de comparecer à realização da noite.
Porque o tempo me fosse facultado, resolvi recolher-me
à nossa base de repouso, na residência da senhora
Ernestina. O seu lar era verdadeiramente um santuário.
Vibrações de paz envolviam-no e a psicosfera que se
respirava era de renovadoras energias, que beneficiavam
os corpos e os espíritos. Quando lá chegamos, a diligente
servidora do Evangelho recepcionava uma senhora,
visivelmente preocupada, em razão do quadro depressivo
que lhe atormentava a filha, moçoila de
aproximadamente dezesseis anos. D. Apolônia
acompanhava a conversação, inspirando a anfitriã.
Saudado com efusão pela veneranda amiga
desencarnada, ela
201 pediu-me cooperar no socorro às duas pessoas
presentes. Observando o transcurso do diálogo notei a
presença de um ser infeliz que transmitia fluidos
deletérios à jovem, pensamentos infelizes, ignorando a
situação de desencarnado. Recordei-me de lições
ministradas oportunamente pelo Espírito Dr. Bezerra de
Menezes, quando se referia às causas das depressões, no
capítulo dos transtornos psicóticos, afirmando que elas
poderiam ser endógenas e exógenas. As primeiras
vincularseiam à hereditariedade, às sequelas de várias
doenças, principalmente sífilis, câncer, tuberculose,
hanseníase, distúrbios do trato digestivo e,
modernamente, de viroses como AIDS etc... As exógenas
abarcariam os fatores psicossociais, socioeconômicos,
sociocomportamentistas... No entanto, o nobre mentor
incluía as psicogêneses obsessivas, vinculadas ao
pretérito espiritual dos envolvidos na trama, em processo
de ajustamento emocional e recuperação moral. Em
razão do vasto elenco de causas atuais e pregressas, a
depressão generaliza-se entre as criaturas, ampliando-se,
como circular ou bipolar, senil e, no capítulo dos
transtornos psicóticos, como demência e outras. Em
rápida análise, a jovem enfocada sofria um distúrbio
mediúnico, de caráter obsessivo simples, provocado,
inconscientemente, pelo desencarnado que a assessorava,
absorvendo-lhe a energia e intoxicando-a, por sua vez,
com os seus fluidos de pesadas cargas vibratórias. Sem
dúvida, havia problemática originária do passado a pesar
na economia da vítima, facultando-lhe esse doloroso
processo de despertamento para a realidade da vida
espiritual, desde que não existem efeitos sem causas
equivalentes. No imo do ser dormem as razões da vida,
com todos os elementos constitutivos da sua paisagem
histórica.
202 Acompanhei, então, a conversação. Ernestina
explicava que os problemas na existência terrena se
originam no ser profundo, no Espírito, e dele se inicia a
terapêutica, no caso das enfermidades, ou a solução,
quando são de outra natureza. Na questão em tela
afirmava o concurso médico faz-se indispensável, ao
mesmo tempo a terapia espiritista: passes, água
fluidificada, reuniões de esclarecimento, ao lado,
naturalmente, da inestimável cooperação do paciente. Ao
enfermo cabe o esforço maior, iniciando pela sua
renovação moral mediante a oração, os exercícios de
paciência, de humildade e de perdão, que terminam por
sensibilizar e esclarecer o agente da perturbação que,
conscientizado do mal que vem praticando, modifica-se e
liberta a sua presa, liberando-se também. Prosseguindo
nas explicações, sugeriu fosse, naquele momento,
realizada uma leitura, abrindo espaço para a aplicação de
passes, que iriam auxiliar a menina, posteriormente
encaminhada ao Culto Evangélico do Lar, que ali se
realizava aos domingos, e à Sociedade Espírita
especialmente dedicada a misteres dessa natureza.
Tomando de O evangelho segundo o espiritismo, de
Allan Kardec, abriu-o, casualmente, e leu a mensagem A
paciência, ditada por um Espírito amigo. O conteúdo da
lição penetrou os sentimentos das ouvintes que se
sensibilizaram. Depois de proferir uma oração, colocou-
se, receptiva, à disposição e, influenciando-a, aplicamos
energias dispersivas na enferma, revitalizando-a a seguir.
Ato contínuo, retiramos o doente espiritual da fixação no
perispírito da vítima, e Ernestina, ao terminar o labor,
ofereceu água magnetizada à mãe e à filha. Transpirando
e emocionada, sentindo-se normalizar, a moça chorou
um pouco e, confortada pela anfitriã, disse-lhe com débil
voz:
203 Sinto-me sair de uma espécie de camisa de força e
de uma nuvem escura que me dificultavam raciocinar.
Necessita, a partir de agora respondeu-lhe a terapeuta
espiritual, manter um bom estado de espírito, e quando
sentir tristeza substituí-la por um pensamento otimista. É
muito fácil superar os estados depressivos, não
cultivando as ideias negativas, pessimistas, fixando-se em
outras, as que geram bom ânimo, alegria e paz. Amanhã,
às dezenove horas e trinta minutos, esperamo-las aqui
para o estudo evangélico e nova terapia bioenergética.
Despediram-se, afavelmente, já sorrindo e prometendo
retornar. Ernestina, exteriorizando júbilo, quando a sós,
deteve-se em atitude de louvor e de agradecimento.
Encarreguei-me de conduzir o irmão adormecido à
Sociedade Espírita, para as providências compatíveis,
quando me fosse encontrar com Fernando, para a visita à
Sra. Augusta. D. Apolônia agradeceu a cooperação, e
entretecemos considerações variadas a respeito dos
distúrbios da depressão e da síndrome de pânico, que se
tornaram graves dramas na área do moderno
comportamento psicológico do ser humano. Conforme
pretendia Freud, afirmando que na raiz de toda neurose
há sempre um problema da libido, permitimo-nos
acentuar que o pensamento do pai da Psicanálise estaria
incompleto, aduzindo-lhe que, na raiz de todo distúrbio
da libido, encontramos um fator causal determinante que
responde pela distonia. Não iniciando o ser a sua história
na concepção, a sua origem perde-se nas remotas eras
da Criação, quando o psiquismo foi gerado e começou a
evoluir, atravessando os reinos mineral, vegetal, animal,
hoje hominal e amanhã angélico, em direção do porvir
sem limite.
204 A natureza, que gastou bilhões de anos na
elaboração das formas que a constituem, não gerou o ser
humano a golpes de acasos perfeitos e determinantes,
conforme pretendem algumas correntes materialistas,
simplistas e ingênuas. A vida narra, nas histórias
paleontológica, embriogenética, anatomofisiológica, todo
o processo da evolução fatalista do ser. Acima das causas
filogenéticas, transformistas, mesológicas, paira, no
entanto, a Causalidade Absoluta, que é Deus, seja qual
for o nome que se lhe dê, sempre de secundária
importância tal denominação, orientando o processo
transformador, evolutivo. Quando a criatura humana
aprofundar estudos e reflexões sobre as causas reais das
aflições, encontrará as terapias hábeis, preventivas e
curadoras, para as problemáticas que a afligem,
erradicando o sofrimento das suas paisagens terrenas.
Lentamente, porém, e com segurança, já estão sendo
colocados os paradigmas da nova Medicina, a holística, a
espiritual, portanto, a essencial. No momento próprio,
após algum repouso no lar de Ernestina, dirigimo-nos
para a atividade da noite, quando as primeiras pessoas
chegavam à Casa Espírita. Observei que o mentor
houvera convidado expressivo número de trabalhadores
desencarnados, lúcidos e joviais, que me informaram ser
cooperadores do Núcleo, durante as explanações
públicas, esclarecendo as companhias espirituais infelizes
dos encarnados, afastando as mais rebeldes e
encaminhando aquelas que se encontravam predispostas
à renovação. Tanto a palestra como o estudo
funcionavam na condição de psicoterapia coletiva para os
indivíduos e os Espíritos. Em razão de os encarnados
raramente manterem sintonia elevada, interesse superior
por muito tempo, eles se utilizavam da palavra do
expositor para centralizar-lhes a atenção e fazê-los
205 concentrar-se. Então agiam com dedicação e, ao
término, ainda sob a psicosfera saudável, realizavam
algumas cirurgias perispirituais, separando mentes
parasitas dos seus hospedeiros, refundindo o ânimo nos
lutadores, apoiando as intenções saudáveis dos que
despertavam, enfim auxiliando em todas as direções,
mediante também os recursos terapêuticos dos passes
individuais como coletivos. Realmente o repouso significa
pobreza de captação dos nossos sentidos. Em toda parte
estão o movimento, a ação, a vida... Nesse ínterim, o Dr.
Carneiro adentrou com Francisco, visivelmente
telecomandado. À hora regulamentar, o Sr. Almiro
proferiu a prece de abertura da reunião e, após alguns
avisos, passou a palavra ao jovem expositor. Nesse
momento, a Sra. Augusta, um tanto contrafeita, chegou à
sala, sentou-se a distância e observei que Fernando, ao
seu lado, a assistia. A pobre senhora encontrava-se
aturdida. A fixação no jovem, por viciação mental, e a
indução obsessiva que estabelecia um plano macabro,
afligiam-na. Sentindo-se frustrada nas tentativas do
prazer vulgar com o agente do seu interesse, via, no
Espiritismo, um adversário que, afinal, não existia. Dava-
se conta de que a conduta cristã do médium constituía-
lhe impedimento ao gozo e à futilidade, deixando-se
arrastar por surda antipatia ao código ético da Doutrina
Espírita. Depois das palavras convencionais, o médium,
fortemente inspirado, iniciou o tema, esclarecendo: O
sexo é departamento divino para a preservação da vida
na Terra. Ínsito em todas as criaturas, o mecanismo da
reprodução é comandado pela Mente suprema, que gera
automatismos iniciais até o momento da conquista da
razão, na humanidade, quando o
206 discernimento estabelece a ética do comportamento
saudável para a dignificação dos seres, arrancando-os
dos impulsos meramente instintivos para as eleições do
amor, em ascese transcendente. Em face das finalidades
elevadas a que se destina, quais a encarnação e as
reencarnações, a permuta de hormônios físicos e
psíquicos, a união dos sentimentos e a fixação dos afetos,
quaisquer desrespeitos às suas finalidades superiores
tornam-se fatores de desequilíbrios, de desajustes, de
perturbações, gerando ódios inomináveis, rudes embates,
sofrimentos dolorosos, sequelas espirituais demoradas...
No sexo encontram-se as matrizes de muitos fenômenos
que se transferem de uma para outra existência, atando
ou libertando os Espíritos conforme a pauta da utilização
que se lhe faculte. Dessa forma, quanto mais lúcido o ser,
mais responsável se torna pela função, conduta e
exercício sexual. Infelizmente, em razão do prazer que
proporciona, em todas as épocas e hoje, particularmente,
o sexo tem sido instrumento de viciações ignóbeis, de
explorações sórdidas, de crimes inimagináveis, tornando-
se veículo de promoção social, comercial, artística e
cultural, com graves e imprevisíveis consequências.
Combatido tenazmente pelos preconceitos religiosos
durante mais de mil anos, liberou-se enfim sob o
estandarte das conquistas humanas, porém envilecendo-
se, corrompendo-se, exaurindo vidas e se transformando
em fator essencial a que quase todos aspiram. Conduzido
corretamente e dignificado pelo amor, torna-se fonte de
alegria, gerando felicidade, harmonizando e produzindo
beleza ao lado das criações que proporciona. Fez uma
pausa na bela e oportuna análise, ante o auditório
absorvido pelas suas colocações. D. Augusta, porém, não
sopitava o mal-estar que experimentava. Desejou
abandonar o recinto, porém o amigo Fernando, vigilante,
207 aplicou-lhe energias calmantes, confortando-a com
vibrações de reequilíbrio. Vimos sair, praguejando, um
dos emissários do Soberano das Trevas, que tinha por
tarefa produzir o escândalo, envolvendo-a com o
médium dedicado. Logo depois, Francisco, mediunizado
pelo Dr. Carneiro, embora semilúcido, prosseguiu: A
verdadeira castidade e nobre conduta sexual não se
restringem ao não uso do aparelho genésico, mas sim à
atitude mental e ao comportamento emocional. A
simples abstenção física, acompanhada de tormento
interior, é somente uma fuga da realidade, uma
transferência no tempo. Faz-se indispensável considerar e
compreender que o sexo é departamento do corpo como
o estômago ou outro órgão qualquer uma sua função. A
conscientização deve caracterizarse pela disciplina mental,
verbal, superando-se as fantasias eróticas muito do
agrado das mentes viciosas. Habituando-se o indivíduo
aos pensamentos equilibrados, os apelos orgânicos são
facilmente bem dirigidos e tranquilizados. O importante
não é o exercício da sua função, o ato em si mesmo,
porquanto os ases do prazer normalmente se encontram
cansados do seu uso, nunca, porém, satisfeitos. Toda
função se expressa por meio do respectivo órgão, como
é evidente. Desse modo, não apenas mediante o
exercício funcional nos relacionamentos orgânicos,
indispensáveis à procriação, mas também na canalização
das forças genésicas para os ideais do bem, do belo e do
nobre a função sexual se expressa e enriquece o ser,
harmonizando-o e facultando-lhe amplas possibilidades
nas áreas psíquicas, emocionais e físicas. O seu
barateamento por meio da vulgaridade constitui grave
empecilho ao equilíbrio do ser humano, que arde em
falsas
208 necessidades e variações, distante do respeito por si
mesmo e pelo seu parceiro. Foi por essa razão que os
Espíritos nobres, respondendo à pergunta de Allan
Kardec, em torno do efeito que teria sobre a sociedade
humana a abolição do casamento, foram concisos,
esclarecendo que isto seria uma regressão à vida dos
animais, com o agravamento do uso da razão perturbada
e insaciável. 6 Novamente Francisco silenciou,
propiciando aos ouvintes melhor e mais ampla
assimilação dos conceitos emitidos, para depois
continuar: Nessa, como em outras áreas, e
particularmente nela, em razão dos seus hormônios
poderosos e suas vibrações no campo da emoção,
merece ser considerado o intercâmbio com os Espíritos,
respectivamente aqueles que se encontram aprisionados
nas faixas grotescas da animalidade, das paixões vis.
Atraídos pelas mentes encarnadas, fixam-se-lhes,
produzindo fenômenos obsessivos de longo curso e
vampirizando suas presas atormentadas. Vezes outras,
necessitados de prosseguir nas manifestações
tormentosas, inspiram os inadvertidos e passam a
utilizar-se deles, voltando a fruir o prazer voluptuoso,
enquanto o ser orgânico se sente frustrado, insatisfeito,
qual ocorre também no alcoolismo, no tabagismo, na
toxicomania etc. A morte não liberta aqueles que se
fizeram escravos, por livre opção, das paixões
degenerativas. Em qualquer circunstância, e
especialmente na análise desse fenômeno, como na ação
sexual, consulte-se o amor, e ele dirá que se não deve
fazer ao próximo o que não se gostaria que aquele lhe
fizesse. E quando for necessário dirimir qualquer
dificuldade, deve-se recorrer à oração, que é tônico de
vida e fio invisível de luz que liga o indivíduo aos
dínamos geradores de força vital e de paz.
209 Entreteceu outras considerações finais e silenciou
diante do auditório comovido. Muitos dos presentes
permaneciam reflexionando a respeito do profundo e
delicado tema, enquanto a reunião avançava para o
término. O diretor dos trabalhos preparava-lhes o
encerramento, quando observei os especialistas em
passes e socorros, que já vinham auxiliando os
encarnados e os Espíritos, unirem-se no centro da sala,
formando pequeno círculo, uns de costas para os outros,
e distenderem as mãos que derramavam energias
luminosas sobre os presentes, enquanto era proferida a
prece final. A psicosfera elevada caracterizava-se pela paz
e alegria, rica de bênçãos de saúde e de esperança.
210 Escândalo e paz Encerrada a reunião, e ainda
emocionado, Francisco foi cercado por pequeno grupo
de companheiros afeiçoados, que o saudaram,
sorridentes. O tema, bem cuidado, atingira muitos
corações, convidando a reflexões otimistas, que deveriam
ser incorporadas ao comportamento diário. D. Augusta,
entretanto, perturbada pelas emoções em desordem,
supôs que a palestra tratava de um ardil do jovem para
descartá-la das suas paisagens afetivas, quiçá por ser ela
mais idosa, enquanto ele preferia pessoas mais juvenis.
Assim raciocinando, aumentou o desequilíbrio interior, e,
ao término, vendo-o envolvido pela afabilidade e o júbilo
de vários amigos, permitiu-se envenenar pelo ciúme,
derrapando na cólera que não pôde dominar. A rejeição
sexual aos desequilibrados da emoção desvaira-os e os
torna capazes de qualquer alucinação, porque se
acreditam necessitados do plasma genésico, que pensam
não poder dispensar, quando, em realidade, trata-se de
capricho pessoal, de torpeza moral. À medida que via a
cena enriquecedora da fraternidade espontânea, mais se
lhe aumentou a ira, atraindo o comparsa espiritual que
passou a infundir-lhe mais rancor e estímulos para a
agressão. Causa estranheza, às vezes, que Entidades
perversas se adentrem em recintos cuidadosamente
preservados e dedicados à ação do Bem. Quando, porém,
são atraídas pelas mentes viciosas que as
211 preferem, não se pode evitar-lhes a presença. Já que
se trata de eleição pessoal, e como cada ser respira no
clima psíquico que lhe apraz, é inevitável essa comunhão
espiritual, tornando-se responsável o invigilante pelos
danos que se impõe, assim como por aqueles que
produz nas outras almas. Fernando, vigilante, insistia,
mediante o envio de ondas telepáticas sobre a senhora, a
fim de neutralizar-lhe a paixão desordenada, mas que
eram rejeitadas e tidas por covardia moral. Deixando-se
arder, foi tomada de inopino pelo adversário, que
encontrou perfeita sintonia, e, erguendo-se da poltrona,
avançou, desnorteada, na direção do grupo jovial,
irrompendo com azedume e agressividade na voz e nos
gestos contra Francisco: Hipócrita! Como se atreve a falar
de disciplina sexual, quando lhe sou vítima de galanteios
e convites perturbadores, sem qualquer consideração
pela minha posição de mulher casada, que tenho vindo a
este lugar em busca de orientação e conforto? O
inesperado da cena a todos tomou de perplexidade.
Lívida e espumejante, a tresvairada prosseguiu,
estentórica, ante o médium paralisado: Neguei, de
público, que me tem assediado, insinuando-se e
procurando perturbar-me com sua juventude e
masculinidade. Que pensa que sou, e que é isto aqui,
afinal, um bordel? Ia golpear o rapaz, quando o senhor
Almiro, atraído pela voz alterada, segurou-a com firmeza,
interrompendo a cena vulgar. Sacudiu-a com força e
deu-se conta da incorporação de que era vítima a
enferma da alma. Como já estivesse informado da
ocorrência, tentou retirá-la para sala próxima, de forma
persuasiva; porém, transtornada ao extremo, ela gritou
reagindo: Isto não ficará assim... Tenho que desmascarar
o farsante e esta súcia de hipócritas. Envergonhada,
depois disto, só há uma
212 solução para mim, que é o suicídio... E prorrompeu
em copioso e agitado pranto. As pessoas permaneceram
estarrecidas. O Dr. Carneiro de Campos, que prosseguia
ao lado de Francisco, falou-lhe na acústica da alma:
Recorde-se de Jesus e não se defenda. Pague pela honra
de ser fiel ao Bem. Mediunidade sem testemunho
assemelha-se a bela orquídea sem perfume e de efêmera
duração. Defender-se é acusála, e ela já está muito infeliz
para piorar-lhe a situação. Calma e oração. Trêmulo e
pálido, com lágrimas que lhe desciam dos olhos e se
originavam no coração, Francisco permaneceu imóvel,
desfigurado pelo choque horrendo, sem uma palavra. A
paciente foi afastada pelo presidente da Casa, levada à
sala de passes, onde este procurou aplicar-lhe a
terapêutica apropriada. Ao fazê-lo, a pobre senhora,
fixada nas paisagens da sensualidade e dominada pelo
verdugo desencarnado, repetia: Também o senhor,
apalpando-me o corpo? Que deseja? O respeitável
trabalhador, sob a inspiração do irmão Vicente,
prosseguiu, impertérrito, até o momento em que a
deslindou dos fluidos nefastos, afastando o obsessor, que
agora tombava na própria armadilha, ali ficando para
posteriores esclarecimentos. A insensata senhora
recobrou a lucidez e, arquejante a princípio, logo passou
a um estado de relaxamento físico e emocional,
deixando-se dominar por volumoso pranto... O escândalo
ocorrera, porém atenuado pela ação do amor vigilante.
Lentamente, o choque cedeu lugar aos comentários
variados. Alguns presentes lamentaram a cena, enquanto
outros, ainda inseguros deles mesmos, alfinetaram: Quem
diria? O Francisco, com aquele ar gentil, perturbando a
213 pobre senhora! Não se pode mesmo confiar em
ninguém. É certo que ela exagerou; no entanto, onde há
fumaça, aí também permanece o fogo em uma afirmação
cruel de culpa do jovem. O Sr. Almiro conversou
calmamente com a dama, infundindolhe ânimo e
esclarecendo-a. Explicou-lhe que se tratava de uma trama
infeliz para afligi-la e desestruturar o médium, gerando
suspeição a respeito da Casa, que se dedicava ao Bem e
ao Amor. Eis por que arrematou não tocamos em nossos
pacientes durante a terapia bioenergética, a fim de não
apenas respeitarmos as pessoas, como também, mesmo
inconscientemente, não lhes despertarmos sensações
perturbadoras. A aplicação da energia restauradora é
feita na aura e nos chacras, de onde se irradia para os
diferentes núcleos e órgãos físicos, assim como áreas
psíquicas. Deixou que D. Augusta se recompusesse,
acalmando-a quanto possível, e inspirou-a à conduta
reta, equilibrada. Antes de afastar-se, ainda agastada e
temperamental, ela retrucou, fingindo-se vítima: E agora,
como eu ficarei? Após um acontecimento tão
desagradável, como me apresentarei ao meu marido e
como suportarei a maledicência? Com a mesma
disposição com que a senhora deu início ao escândalo
injustificável ripostou, serenamente, o abnegado
dirigente. Isso servirá à amiga como advertência para o
restante dos seus dias, na sua atual e preciosa existência
carnal. E se eu suicidar-me? Pior para a cara irmã,
porquanto somente aumentará a sua carga de aflição,
sem qualquer lenitivo para as próprias angústias. Um erro
não elimina outro, sem lhe diminuir a intensidade de
danos. Somente a coragem que enfrenta desafios resolve
os problemas que criamos para nós mesmos.
214 Agora está na hora de a senhora retornar ao lar. O
tempo avança e faz-se tarde. Encerrava ali a conversação,
evitando o pieguismo e o revolver do assunto, que
deveria ser ultrapassado de imediato. Quando ela saiu, o
Sr. Almiro buscou o médium e estimulou-o ao
prosseguimento das tarefas com esquecimento do
incidente desagradável, sem conceder-lhe qualquer
consideração. As horas se encarregariam de anular as
impressões perturbadoras, desde que silenciando diante
de quaisquer comentários, desairosos, acusatórios ou
defensivos. A resposta do Bem é sempre por meio das
ações positivas com o esquecimento de todo o mal.
Depois que a sala voltou a esvaziar-se com o
afastamento das pessoas, o Dr. Carneiro de Campos e o
irmão Vicente não ocultaram o júbilo decorrente da
experiência da noite. Porque me apresentasse ainda
preocupado, Fernando explicoume: Nossa alegria resulta
do mal que não aconteceu, encerrando um capítulo que
poderia ter tido consequências funestas. Observamos o
bem operante, mas não avaliamos os males que
deixaram de ter curso. Esse desagradável acontecimento
breve passará. Francisco aprenderá a adquirir harmonia
no vendaval, prosseguindo no ministério mediúnico
responsavelmente, cada dia com mais cuidados. D.
Augusta, sentindo-se sem campo hábil para os seus
conflitos e paixões, logo se afastará; o mensageiro do
Soberano das Trevas será doutrinado, esclarecido e se
dará conta da perda de forças no primeiro embate.
Outros virão, como já está ocorrendo, e atingiremos
nossa meta, que é despertar as consciências adormecidas,
orientando os bons trabalhadores das hostes espiritistas,
a fim de que se mantenham vigilantes e fiéis.
Infelizmente, os nossos mais perigosos adversários
encontram-
215 se em nós próprios, que lhes damos guarida e os
sustentamos com nossos caprichos, orgulhos e
pequenezes. Pus-me a refletir e anuí com as explicações
do amigo. Somente anotamos o que acontece, sem nos
darmos conta de todo o mal que não sucedeu. Francisco
também compreendeu melhor a própria problemática
sexual, a timidez, e definiu-se pelo empenho espiritual,
prometendo-se exercer as funções psíquicas com grande
doação das energias genésicas. Seria essa a forma que
elegeria para a sublimação das suas potencialidades
físicas, entregando-se, mais e mais, ao exercício e prática
da mediunidade com Jesus. Recordei-me do caso
Raulinda com as suas consequências de longo porte,
vendo a reação de Francisco, que agora começava
realmente a própria ascensão, carregando a cruz invisível
das provas redentoras, que deveria transformar em asas
de luz para a libertação. A criatura sempre está a
construir o futuro mediante os próprios atos. Cada
decisão constitui-lhe roteiro a percorrer, que lhe facultará
o triunfo ou o recomeço da experiência em que malogre.
Quando os homens compreenderem e assimilarem a
ideia de que a Terra é um planeta de efeitos transitórios,
mais se equiparão de recursos hábeis, em espírito, para
uma trajetória carnal enriquecedora. A noite pulsava ao
ritmo das estrelas lucilantes. Novas atividades nos
aguardavam.
216 Últimas advertências O domingo de prazer, à borda
da piscina do lar de Davi e Adelaide, foi irrigado com
alcoólicos e exageros culinários, que levaram os anfitriões
ao repouso pela exaustão durante a tarde, após a saída
dos convidados e penetras habituais. Estava assinalado
para as vinte horas do mesmo dia o atendimento a uma
jovem paciente, vinda de outra cidade com os seus pais,
que aguardavam um verdadeiro milagre. O médium
negociara o socorro mediante alta soma, por meio de um
amigo de ambas as partes, recebendo-a
antecipadamente. Tratava-se de um esforço financeiro
alto para os clientes, uma verdadeira estafa, ao lado do
sacrifício para a criança de seis anos, numa viagem
penosa e dorida, considerando-se o depauperamento de
suas últimas resistências. Ernesto, o Dr. Carneiro,
Fernando e nós fomos participar do labor, a convite,
agora, do Dr. Hermann Grass, que se apresentava
gravemente abatido e preocupado com a sucessão de
loucuras praticadas pelo seu pupilo mediúnico. Antes,
era-lhe possível controlar-lhe a gula financeira e sexual,
aparecendo-lhe severo e ameaçador, repreendendo-o e
até tomando-o à revelia da sua vontade. Com o tempo, à
medida que ele se atirava ao desalinho moral e mental,
as faculdades mediúnicas ficaram-lhe bloqueadas, sem a
sensibilidade para a clarividência, e só com relativa
possibilidade para a incorporação, mesmo assim com o
mistificador desencarnado, que usurpara o lugar do
médium, graças à sintonia infeliz entre o comunicante e
o instrumento mediúnico. Compreendia, então, o
cirurgião desencarnado que também
217 contribuíra para o atual estado de ocorrências, por
haver sido imprevidente quão presunçoso, faltando-lhe
os valores morais, que são as bases inamovíveis para
qualquer tentame de enobrecimento. A vida não se
desenvolve ao acaso, havendo códigos de equilíbrio que
devem ser preservados, sob pena de se sofrerem as
consequências desastrosas, quando não respeitados ou
não tidos em conta. Ao retornarmos à residência rica,
lamentavelmente frequentada por Espíritos vulgares,
podíamos sentir a psicosfera densa, negativa, na qual
toda a família se movimentava, com prejuízo para a
saúde das crianças. Uma hora antes do compromisso o
casal despertou, com ressaca e indisposição própria, que
alguns medicamentos ingeridos deveriam resolver. Após
banharem-se e cuidarem da aparência, os cônjuges
desceram para ligeiro lanche enquanto aguardaram a
cliente, seus pais e o intermediário. Em sala reservada,
com alguns instrumentos cirúrgicos, álcool, éter, uma
mesa de exames, toalhas felpudas, lençóis, haviase
preparado o lugar para o tratamento combinado. Nesse
comenos, deram entrada no recinto o intrujão
desencarnado, que se passava pelo Dr. Hermann, e
alguns sequazes que lhe ofereciam cobertura vibratória.
O semblante patibular alterava-se-lhe em sucessivos
esgares de cinismo e crueldade, não permitindo a
exteriorização de sensibilidade moral alguma. Quedamo-
nos a reflexionar a respeito da leviandade humana e da
alucinação dos indivíduos que, embora reconheçam a
fragilidade orgânica, entregam-se a disparates e a
atitudes equivocadas, como se a sua existência física
fosse eterna, não
218 experimentando a velhice, as doenças, os infortúnios
morais, a morte, e fossem exceções únicas nos soberanos
códigos da Vida. O casal conversava trivialidades, sem a
menor consideração pelo compromisso grave que
assumira e do qual se iria desincumbir em breves
minutos, quando a campainha tocou e uma servidora
doméstica anunciou a chegada dos clientes. A criança,
carregada pelo pai, estava exausta, desfigurada.
Percebiam-se a dor, a ansiedade, a incerteza, no rosto
dos genitores. O amigo comum apresentou-os, após o
que foram convidados, sem delongas, ao arremedo da
sala cirúrgica, na qual o genitor colocou a criança sobre a
mesa, logo coberta por alvo lençol. Adelaide acercou-se
de um gravador e colocou uma música lamentosa, para
criar ambiente. As demais pessoas sentaram-se em
cadeiras ao lado da mesa, e o médium Davi, sem o
menor recolhimento, procurou sintonizar com o
zombeteiro espiritual. Não havia respeito algum pela vida
humana, nem seriedade no cometimento desvestido de
qualquer elevação. Os Drs. Carneiro e Hermann
acercaram-se da paciente e a examinaram com cuidado,
carinho e unção. Comentaram que se tratava de um
processo leucêmico mieloide, resultante da proliferação
dos elementos sanguíneos que se originam na medula
óssea, tais como os granulócitos, os basófilos, assim
como dos seus precursores, os mielócitos e mieloblastos,
tanto quanto por esplenomegalia, resistente às
terapêuticas convencionais. Inclusive, no momento, já não
faziam efeito as transfusões de sangue nem de plasma...
Tratava-se de um fenômeno cármico de grave
procedência, já em fase terminal. Febril e dorida, a
criança choramingava, movimentando-se na mesa em
tentativa inútil de encontrar uma posição menos
219 desconfortável. O quadro comovia. A mãezinha,
sofrida, chorava discretamente. O especialista
desenganara os genitores, já que, do ponto de vista
médico, não havia esperanças. As terapêuticas mais
avançadas que foram aplicadas redundaram inócuas...
Assim, eles recorriam a um milagre impossível de
acontecer, e onde não era factível solução alguma que
pudesse minorar o problema. O Dr. Carneiro concentrou-
se na pequena paciente e penetroulhe os arcanos
existenciais do passado, identificando a causa
degeneradora do lamentável processo orgânico. Após
alguns segundos, elucidou-nos preocupado: O tempo de
que dispõe a nossa pequena paciente é limitado. No
máximo sobreviverá por três dias, já que as suas forças
encontram-se minadas pelo processo avassalador.
Fazendo uma pausa oportuna, prosseguiu: Nossa
pequena Rosaly retornou ao lar do qual se evadira no
século passado por lamentável suicídio. Os seus genitores
atuais eram-no igualmente naquela ocasião, quando,
insubmissa, apaixonou-se por um jovem inescrupuloso,
contra o qual se voltaram os pais, proibindo-a de levar
adiante o romance impossível de alcançar um desfecho
feliz. Inexperiente e impulsiva, atritou com os genitores,
os quais, após demorados diálogos, resolveram interná-la
em um convento, na pressuposição de salvála do
explorador, que aguardava expressivo dote com a
intenção de abandoná-la, assim que se cansasse da
novidade. A solução, porém, foi malsucedida, porque a
jovem, apesar de vigiada, burlou os cuidados de que era
objeto e, subindo à torre da capela, de lá se atirou,
fraturando o crânio, danificando o pescoço e a medula, já
que se arrojou de cabeça para baixo... O golpe afetou os
pais terrivelmente, que lentamente sucumbiram ao peso
da amargura resultante da perda da filhinha
220 única. Ao retornarem à Espiritualidade e buscá-la,
tomaram conhecimento do calvário que ela padecia.
Empenharam-se em resgatá-la, conseguindo-o graças à
intercessão de veneráveis benfeitores. Comprometeram-
se a recebê-la novamente, embora soubessem que seria
por breve período, já que se fanaria na flor da infância...
Cercaram-na de carinho, temendo sempre perdê-la outra
vez. Silenciou, compungido, e pudemos notar-lhe os
olhos marejados de pranto. Enquanto isso, o médium
Davi agitava-se, estertorando sob a ação dos fluidos
perturbadores do carrasco espiritual. Tomado de
compaixão, o Dr. Carneiro transmitiu breve instrução ao
Dr. Hermann, acercou-se da mãezinha da enferma,
infundindolhe ânimo e inspirando-a. A senhora,
comovida, levantou-se e pediu: Oremos a Deus em favor
da minha filhinha. A entonação da voz era profunda,
sensibilizando a indiferente Adelaide e os demais
presentes que se recolheram em prece silenciosa.
Lentamente o ambiente passou a ser visitado por
vibrações de harmonia, que começaram a esbater as
sombras dominantes. O amigo Ernesto, mentor de Davi,
utilizando-se da mudança mental dos presentes, exortou
a Deus suas bênçãos e, dentre as suas palavras
repassadas de amor e fé, suplicou: Desde que não nos é
lícito alterar o quadro provacional da pequena enferma,
suplicamos permissão para minorar-lhe as dores,
suavizar-lhe o sofrimento, confortar os paizinhos. Ao
silenciar, emocionado, pairavam outras vibrações no
recinto. O Dr. Carneiro e o Dr. Hermann acercaram-se,
então, do médium em quase transe. Tornando-se visíveis
ao obsessor, o primeiro
221 ordenou-lhe com energia: Retire-se! Sua tarefa aqui
está concluída. Ordeno-lhe, em nome de Deus, que se
afaste. À medida que o exprobrava, exteriorizou uma
diáfana claridade que envolveu Davi; e a Entidade
perversa, tomada de espanto, como se houvesse recebido
uma descarga elétrica, deu um grito e afastou-se
aturdida. De imediato, o Dr. Hermann aproximou-se de
Davi e envolveu-o em fluidos, erguendo-o e
assenhoreando-se dos seus recursos mediúnicos como
ocorria no passado. Às primeiras palavras, Adelaide
reconheceu-o, percebendo a diferença das comunicações
anteriores. Não houve tempo, porém, para diálogo. O
Espírito, renovado e consciente das graves
responsabilidades, examinou a pequena enferma e,
tomado de carinho nele incomum, pôs-se a animá-la.
Explicou-lhe que lhe ia aplicar algumas agulhas na coluna
vertebral para estimular-lhe a circulação de energia e
diminuir-lhe as dores. Enquanto Adelaide saía em busca
do instrumento, ele recorria aos passes longitudinais
sobre a menina, após o que passou a colocar as agulhas
com regular distância uma da outra. A pequenina não
acusava a dor das picadas nem da introdução do metal,
que permaneceu ao longo das costas por vários minutos.
Buscou confortar os pais, sem os animar
demasiadamente, explicando que nem sempre se pode
curar todos os tipos de mazelas. Elucidou que a morte é
lei da Vida e que a sobrevivência é ato de amor do Pai
Criador. Exortou Adelaide ao despertamento e explicou
que estivera com Davi em experiência fora do corpo pelo
sono, confirmando-lhe as lembranças e anulando a falsa
hipótese de haver sido um pesadelo ou derivado.
222 O tempo urge disse enérgico e ainda se podem
modificar os programas maléficos em desdobramento,
por meio de radical transformação interior e alteração de
conduta. Colhem-se os frutos, doces ou amargos, das
árvores que se plantam. O triunfo do mal somente é
possível quando com ele as pessoas sintonizam,
negando-se ao bem que podem e devem realizar. Não se
creia, portanto, na supremacia, nem na vitória
permanente do crime, da insensatez, da perversidade. O
amor está em tudo e em toda parte, expressando as leis
da Vida. A opção para fruí-lo de imediato ou
posteriormente, é de cada criatura. O certo é que
ninguém dele se evadirá para sempre. Paciente, aguarda
o momento de expressar-se, senão com alegria ao
menos por meio da aflição que balsamiza. A criatura
humana está fadada à felicidade e reencarna com os
equipamentos necessários para o ditoso cometimento,
que terá seu momento próprio. Desejar gozá-la antes do
tempo é ilusão com a qual se troca a plenitude, sob o
domínio dos fugazes prazeres dos sentidos, que fazem
parte do corpo em processo de deterioração. Somente
por meio dos esforços de autocontrole e comedimento,
das atitudes corretas e dos deveres bem cumpridos, é
que se pode chegar ao fim proposto pela Vida. Os
servidores do Bem não necessitam empanturrar-se das
coisas transitórias que deixarão com a morte, mas, sim,
devem amealhar as moedas morais da coragem, da
abnegação, da confiança em Deus, do amor, com que
jamais lhes faltará na Terra e fora dela o necessário para
serem felizes. O mais são engodo, fuga alucinada,
abandono da realidade, sob os vapores da fantasia que
os deixam nas horas decisivas, quando perceberão as
mãos vazias... Os gregos antigos conceberam
mitologicamente Caronte,
223 conduzindo as almas na sua barca sobre as águas do
rio Estige, para depô-las no outro lado, o lado de cá. De
acordo com a posição social de cada viajante, era
colocada uma moeda entre os seus dentes, que
funcionava como pagamento cobre, prata ou ouro
facilitando ao condutor a escolha do lugar para onde o
conduziria. Esse arquétipo mitológico pode ser hoje
interpretado como a conduta de cada ser atos: virtudes
ou vícios que lhes servem de salvo-conduto ou
passaporte para a região que os aguarda. Ninguém se
engane, porque a consciência, por mais se demore
adormecida, sempre desperta, às vezes tardiamente, sem
chance de recuperação imediata. Ninguém foge de si
mesmo e é compelido a conviver consigo mesmo.
Retirou as agulhas da criança, que adormeceu como se
houvesse sido anestesiada, o que certamente aconteceu
mediante o magnetismo bem direcionado. Teceu palavras
de alento moral e despediu-se, retornando, jubiloso, ao
nosso convívio. Foi mais uma tentativa, no empenho da
caridade fraternal, a que todos nos devemos
comprometer. Davi despertou sem convulsões, sentindo-
se disposto, como decorrência dos fluidos hauridos no
intercâmbio saudável. Sorriu, espontâneo, e observou a
doentinha adormecida, bem como a tranquilidade dos
pais. Adelaide, embora alegre, deixava transparecer
alguma preocupação. Os visitantes despediram-se,
agradeceram, e carregando a filhinha voltaram ao veículo
que os trouxera, demandando o hotel... Quando ficaram
a sós, ainda na sala, Adelaide comentou com o esposo as
observações que anotara: O Dr. Hermann estava
diferente, volveu ao passado, aos
224 primeiros dias, porém afável e meigo, o que me
pareceu inusitado. Dissertou sobre vida e
responsabilidade, morte e sobrevivência... Ele sempre foi
de poucas palavras. Confesso que estou confusa...
Ouvindo-o, senti-me bem e preocupada, como se
pairasse sobre nós uma espada de Dâmocles, prestes a
romper o fio que a sustenta e cair sobre nossas cabeças.
Como você está se sentindo? Muito bem ripostou o
marido. Ele afirmou que o seu sonho anterior foi um
encontro espiritual, certamente alguma atividade em
desdobramento. Você recorda-se dos detalhes?
Vagamente. Mas que é isso? Você sempre tão lógica e
prática, que está desejando dizer-me? Receio que foi
alguma mistificação o que acabamos de ter, embora as
sensações agradáveis e o bem-estar proporcionado à
criança. Deixemos para lá. Pensaremos nisso depois.
Recorde-se do nosso compromisso com os amigos para
o jantar às vinte e duas horas no clube. Hoje haverá
leilão e desejo arrematar alguma coisa valiosa que a irá
agradar muito. Vamos trocar de roupas, porque o tempo
urge. Puxa! Você está repetindo as palavras que ele
enunciou, como a dizer que já não há tempo.
Coincidência, meu bem. Afinal essas palavras não são
exclusivas dele, verdade? E dando-lhe uma palmada de
carinho, abraçou-a, dirigindo-se ao quarto de vestir no
piso superior.
225 Noite de angústias O irmão Ernesto meneou a
cabeça contristado. Agora, o Dr. Hermann era tomado
por mistificador! Como as criaturas veem apenas o que
querem, o que lhes apraz e convém! Não se devendo
violentá-las, a fim de que despertem para a consciência
de si, a única alternativa é amá-las, deixando-as livres
para que aprendam mediante as próprias experiências.
No momento em que Dr. Carneiro de Campos,
utilizando-se da energia peculiar aos Espíritos nobres,
afastou o comensal da perturbação, surpreendendo-o,
Fernando o envolveu em contínuas descargas fluídicas,
impedindo-o de fugir do recinto. A mesma providência
foi tomada em relação aos seus acompanhantes, que se
sentiram aturdidos ante o inesperado, abandonando a
atitude de mofa e passando a exteriorizar significativo
receio na face. Tratava-se de Espíritos arregimentados
entre as hordas de ociosos e vadios da erraticidade
inferior, submetidos a imposições descaridosas dos
emissários do Soberano das Trevas, que deles se
utilizavam para tarefas de perturbação inconsequente,
enquanto os adestravam para investiduras mais graves,
de acordo com as características morais de cada qual. De
certo modo, eram intimidados por outros sicários que os
exploravam, ameaçando-os de punições cruéis nas
regiões inditosas. Periodicamente, eram levados a
acompanhar as disciplinas aplicadas naqueles que se
negavam à submissão ou não logravam realizar as tarefas
conforme lhes eram impostas. Vigorava entre eles o
regime do terror, da bajulação, da insegurança.
Ignorantes da realidade espiritual e destituídos de valores
226 morais, que não amealharam durante a
reencarnação, vagavam na inutilidade, esfaimados de
energias e enfermos, até serem arregimentados por
aqueles que os submetiam e exploravam. Colhidos na
própria armadilha, receavam os próximos acontecimentos
que desconheciam. O fenômeno biológico da morte, ao
libertar o Espírito das amarras carnais, apenas transfere-o
de uma para outra dimensão, preservando-lhe os valores,
positivos ou não, com os quais se houve no mundo.
Deparando-se com a própria realidade, permanece
errático, associando-se a outros com os quais se afina,
assim formando, qual ocorre entre os homens
encarnados, hordas e legiões perniciosas. Quando algum
se dá conta da própria situação, caindo em si e se
resolvendo pela mudança de comportamento, diligentes
benfeitores que o assistem, sem que o saiba, acorrem em
auxiliálo, recambiando-o para outro campo vibratório no
qual se reeduca, reconsidera atitudes, reprograma o
futuro. Permanecendo na rebeldia, na insensatez, na
ociosidade, além de perturbar-se em longo curso, torna-
se vítima de sicários mais impenitentes que o exploram,
que o utilizam para fins hediondos, até o momento em
que luz a divina misericórdia, e a expiação o reconduz ao
processo reencarnatório, depurador. Estefânio, o hábil
mistificador, recobrando-se do choque, começou a exigir:
Libertem-me. Sou peixe miúdo na sua rede. Não tenho
valor. Apenas cumpro meu dever, obedecendo ordens
superiores, poupando-me problemas. Muito calmo,
Fernando esclareceu: Bem o sabemos. Conhecemos
pessoalmente a organização a que você pertence e
temos interesse em contatar com os seus chefes,
especialmente com o Soberano.
227 Ocorre, porém, que nos encontramos investidos de
relevantes compromissos morais e não dispomos de
tempo para malbaratálos com irmãos iludidos, como
você, que se atribuem direitos a que não fazem jus,
estejam ou não a serviço de quem quer que seja. Desse
modo, encerraremos hoje estes capítulos de perturbação
e mentira que você tem experienciado. Mesmo que o
nosso Davi resvale na alucinação que vitaliza, e para a
qual o amigo contribuiu, não mais lhe terá acesso à
hospedagem mental nem acompanhará o desenrolar dos
acontecimentos em pauta. Momento chega, no qual
cessa o livre-arbítrio individual e se expressa a Lei. Toda
liberdade tem limite e este é a fronteira do direito, da
alheia liberdade, sem o que se abrem os fossos da
libertinagem, do desvario. Você e os nossos irmãos, seus
servidores, ficarão aqui detidos para posterior remoção
no momento hábil. Os esclarecimentos eram enunciados
em tom fraternal, mas sem margem a dúvida ou
pieguismo de falsa compaixão. Aquela seria uma longa
noite, uma noite de angústias, de incertezas e dores. A
única certeza que existe é a do incessante amor de Deus
por todas as suas criaturas. A arrogância de Davi e o seu
desequilíbrio alcançaram o patamar do absurdo quando
ele passou a armar-se, como providência contra
assaltantes ou inimigos, pelos quais se dizia perseguido.
Intentou e conseguiu autorização para portar revólver,
considerando as viagens que empreendia e os riscos a
que, segundo afirmava, estava submetido. Nessa noite,
após os cuidados com a aparência, tomou da pistola e
colocou-a no coldre, à cinta. Prelibando as sensações
porvindouras, desceu com a esposa ao térreo, tomou o
automóvel e seguiu ao hotel de luxo, onde encontraria
os amigos da sua estranha corte para o leilão e o jantar
228 extravagante. Após a saída do casal, porque nada
mais podíamos fazer ali, o Dr. Carneiro e o irmão Ernesto
assumiram a responsabilidade de conduzir os
companheiros equivocados e Estefânio para o nosso
posto operacional, onde a bondade do nobre Vicente
cedera as instalações a cooperadores hábeis para o
ministério em desdobramento. Naquela noite não havia
reunião normal, sendo-nos reservado o tempo para as
nossas atividades. Assim, instalamos os Espíritos que
conduzíramos, até que fossem providenciados os
socorros necessários ao seu reequilíbrio. Alguns,
temerosos de punições, crendo-nos mensageiros mais
poderosos e pertencentes a algum grupo adversário do
Soberano, prorromperam em pranto angustiante,
suplicando piedade e ajuda. Havia, em muitos deles,
sincero desejo de recuperação, o que facultou a
enfermeiros diligentes separá-los dos demais que os
menoscabavam com expressões chulas, a fim de prestar-
lhes conveniente assistência. Os outros aguardariam as
diretrizes compatíveis que lhes seriam sugeridas. Nesse
comenos, o abnegado Vicente recebeu informação de
que Raulinda, aturdida e magoada em si mesma, sob a
reação do adversário em processo de reencarnação e
sitiada psiquicamente por outros membros do clã do
Soberano, programava-se para o suicídio. O Dr. Carneiro
anuiu em acompanhá-lo, levando-nos, enquanto
Fernando, o Dr. Hermann e o mentor Ernesto ficaram
cuidando dos pacientes que trouxemos à Casa Espírita.
Quando chegamos ao lar da amiga estúrdia, deparamos
com um espetáculo deplorável. Tomada de pavor e
revolta consigo mesma, encontrava-se cercada por
Espíritos perversos e zombeteiros que a
229 crivavam de acusações cruéis, gerando um psiquismo
pestífero, venenoso. O reencarnante lutava para romper o
liame magnético que o atava ao zigoto. Ela ouvia
mediunicamente os reproches, sarcasmos e ameaças,
desequilibrando-se. Recordou-se de certa substância
venenosa que havia em casa para erradicar roedores e
predispôsse a tomá-la, induzida pelos adversários
impiedosos. Não recorrera à oração, embora convidada à
prece pela avó desencarnada que a assistia. Nessa
emergência, ante a ameaça do pior, a veneranda senhora
recorrera ao dedicado Vicente. Os bulhentos
perturbadores não nos perceberam a chegada e
continuaram no cerco infeliz. Quando as criaturas se
derem conta do intercâmbio, da interferência dos
Espíritos nas suas vidas, e, instruídos nas técnicas de
equilíbrio moral e emocional, agasalharem as ideias
superiores, que lhes serão psicoterapia excelente e
salvadora, mudarão a paisagem das aflições humanas
para melhor. Antes de resvalarem pela rampa da revolta
ou da depressão, do vício ou da violência, aprenderão a
precatar-se contra o mal e a vitalizar o bem, poupando-
se muitas dores que a sua invigilância lhes acarreta.
Enquanto o Dr. Carneiro passava a aplicar energias que
dissolvessem a tela vibratória sombria que a asfixiava, o
irmão Vicente punha-se em oração e lentamente fazia-se
visível, aureolado de safirina luz que se foi intensificando
até iluminar o cômodo. Os Espíritos perturbadores
ficaram confusos. Uns saíram em disparada, outros, ainda
vinculados aos hábitos religiosos do passado,
ajoelharam-se, exclamando: É um anjo de Deus!
Misericórdia! O sereno mentor, encerrando a súplica,
respondeu-lhes:
230 Sou apenas vosso irmão, que vos vem clarear as
trevas da ignorância e despertar-vos para as
responsabilidades esquecidas. Vede, a pobre jovem a
quem aturdis é nossa irmã que se inicia no sagrado
mister da maternidade. Certamente, não escolheu a
maneira ideal para isso, porém necessita alcançar o
cometimento para o próprio, como para o bem do
filhinho que irá renascer. Deixai-a e ide, vós também, em
paz. Havia tal vibração de amor e de ternura, que eles
suplicaram: Ajudai-nos e tende piedade de nós, anjo do
Senhor! Estamos perdidos, agoniados, em desespero. Que
fazer?! Orai, reconsiderai vossos atos por meio de sincero
arrependimento e abri-vos ao Bem. Emissários divinos
virão em vosso auxílio, tão logo permaneçais nos
superiores propósitos de elevação, de reequilíbrio. Ide e
confiai. Não vos faltarão socorros. Tende ânimo!
Comovidos, alguns a outros abraçados, os bulhentos
arrependidos abandonaram o recinto. Deus vos abençoe!
exclamou o venerável guia. Dei-me conta, naquele
momento, da elevação do irmão Vicente, que se nos
apresentava humilde e discreto. Os seus títulos de
enobrecimento eram relevantes, expressivos.
Característica essencial dos Espíritos nobres é a
humildade sem jaça, que nunca se ensoberbece,
tampouco se subestima ou se autodesconsidera. O ser
humilde assim o é, sem exaltar os dotes que lhe exibem
o que deveriam ocultar, não chamando a atenção. As
vigorosas energias do Dr. Carneiro de Campos, pouco a
pouco, romperam a estranha rede que apertava Raulinda
e foi dissipada, desaparecendo. A jovem respirou algo
aliviada e começou a reflexionar melhor. Deu-se conta do
perigo que a cercava. Correu ao banheiro e
231 derramou o conteúdo letal, libertando-se do crime
ameaçador. Pranto espontâneo dominou-a sem
desespero. O Dr. Carneiro dirigiu-se ao reencarnante em
tom paternal e admoestou-o com ternura,
demonstrando-lhe a providencial oportunidade para
reparação dos débitos, por parte da futura mãezinha, e
apaziguamento dos conflitos que o maceravam. Afinal,
todo perseguidor é alguém em si mesmo molestado,
infeliz, sem discernimento, envenenado pelo ódio sandeu,
sem rumo nem diretriz. Nesse momento, Raulinda
lembrou de O evangelho segundo o espiritismo, de Allan
Kardec e, depois de orar, abriu-o e o leu comovidamente.
Voltava à normalidade, desde o desagradável
acontecimento do consultório. Recobrava o ânimo, a
coragem para enfrentar os desafios resultantes do passo
equivocado, sem tombar em gravames maiores. O irmão
Vicente utilizou-se do momento em que ela se deteve a
meditar na página lida e inspirou-a, convidando-a à
reflexão, à mudança de atitude para melhor,
definitivamente. Ela captava nos refolhos da alma a
palavra segura e severa do mentor, predispondo-se a
uma nova conduta, reabastecida pelo potencial da fé,
que lhe cumpria acionar. Abria-se para a sua atual
existência um capítulo novo, libertador, conduzindo-a no
rumo da felicidade. O Bem atuante, aceito, venceu o mal
transitório desagregador. A sua e a existência próxima do
filhinho teriam agora o seu curso normal. É claro que os
últimos acontecimentos foram levados ao Soberano das
Trevas, que tomou novas e formidandas providências,
resolvendo-se por aceitar o repto da equipe dirigida pelo
Dr. Carneiro de Campos. A melhor maneira de realizar o
enfrentamento seria por meio de
232 quem mais facilmente lhe acolhesse as insinuações.
Fernando conseguira infiltrar-se nos seus labirintos,
tomara conhecimento das suas técnicas e armadilhas,
pois que para isso viera com o venerável esculápio
desencarnado. Sabíamos que não o poderíamos
defrontar, por enquanto, em razão dos desígnios divinos,
já que ele fazia parte do programa das provações e
expiações terrestres, pelo fato de ainda sermos inferiores,
aqueles que nos movemos no planeta, necessitando dos
espículos e das dificuldades do caminho para o processo
da evolução. Todavia, tínhamos como objetivo desbaratar
os planos mais extensos que ele elaborara, cooperando
com algumas vítimas em potencial, que estavam lutando
para conquistar o reequilíbrio, para se apaziguarem com
a própria, assim como com a Consciência Cósmica. E esse
mister estava sendo conseguido, embora o médium Davi,
por livre opção, resolvesse marchar com os próprios
frágeis equipamentos. A sua defecção não significaria
fracasso do nosso programa, mas insucesso dele mesmo,
o que muito lamentávamos por antecipação. Por isso
todos os investimentos possíveis lhe haviam sido
concedidos. Terminada a tarefa, retornamos ao Núcleo de
atividades onde nos aguardavam os demais amigos.
Passava da meia-noite quando se adentrou Daniel,
cooperador desencarnado da nossa Sociedade Espírita,
trazendo informações a respeito de Davi. Daniel fora
designado para acompanhá-lo, auxiliá-lo no
comportamento, tentando evitar-lhe as explosões
temperamentais, resultantes da soberbia, que lhe
poderiam gerar conflitos graves. Imediatamente seguimos
ao clube elegante, onde nos deparamos com uma cena
profundamente constrangedora. Pelo que nos relatou
Daniel, durante o leilão Davi interessouse por uma peça
antiga e resolveu-se por adquiri-la. Um oponente
233 natural dispôs-se a competir com ele. O preço
tornou-se muito alto e Davi arrematou-a, com júbilo e
estardalhaço. O opositor, revoltado, explodiu com
referências acusatórias: O seu dinheiro é ganho pelo Dr.
Hermann, e, portanto, em grande quantidade, como
charlatão e explorador da credulidade e da ignorância
generalizada. Eu, não. Ganho e vivo do meu trabalho.
Ouviram-se algumas gargalhadas. Sacudido pela
acusação intempestiva, Davi avançou, irado, e atirou-se
contra o adversário, engalfinhando-se os dois em luta
vulgar, até que alguns presentes e empregados da casa
os separaram, diante do constrangimento de todos. Não
cessara o burburinho, quando se iniciou o banquete. Davi
exorbitou na ingestão de alcoólicos, o mesmo
acontecendo com o outro. Profundamente perturbados,
olhavam-se a distância, rilhavam os dentes e ameaçavam-
se reparação. Necessário assinalar que o Soberano
retomara as rédeas da pugna, havendo destacado um
dos seus comandantes em pessoa, que, cientificado dos
detalhes do programa, veio definir a situação. Havia
planejado uma cena de sangue, que daria início a
sucessivos acontecimentos funestos. Fora ele quem
induzira o vencido, no leilão, a proferir a acusação
vexatória contra o médium invigilante. O irmão Ernesto,
de imediato, percebeu a gravidade do momento. Davi
encontrava-se possesso pelo ódio e semiincorporado
pelo adversário desencarnado. Técnico em obsessão, ele
seguia dominando os painéis mentais do sensitivo que se
encontrava sem o menor controle sobre os próprios atos.
Tudo sucedeu com rapidez. Subitamente, acionado por
um comparsa do obsessor, o oponente de Davi levantou-
se e, aproximando-se da mesa em que ele se encontrava,
golpeou-lhe a
234 face. Davi ergueu-se e sacou da arma. O irmão
Ernesto pôs-se em oração, irradiando sucessivas ondas
de amor e de paz. Os comensais petrificaram-se nas
cadeiras. O impacto da cólera, no entanto, foi de tal
natureza, e o choque tão terrível que, antes de acionar o
gatilho, Davi levou a mão ao peito, deu um grito e
tombou fulminado por violento, brutal enfarte do
miocárdio. A cena foi terrível. Gritaria, pessoas correndo,
providências de emergência, transporte do corpo inerte a
uma clínica especializada. Tarde demais. Davi
desencarnara. Felizmente, a sua impulsividade não gerou
danos mais graves, exceto os problemas para si mesmo.
O Dr. Hermann Grass encontrava-se comovido, quanto
nós outros. O irmão Ernesto e o Dr. Carneiro seguiram o
corpo, a fim de ministrarem a assistência compatível ao
recém-desencarnado. Encerrava-se de forma lamentável
uma existência que poderia ter sido coroada de bênçãos,
caso Davi houvesse trilhado outros caminhos aos quais
fora conduzido várias vezes, mas que, renitente, não quis
aceitar. Fernando e nós permanecemos no recinto,
repleto de exaltados em considerações frívolas e
apaixonadas, a maioria com acusações ao falecido.
Fernando desejava, porém, atrair a atenção de
Tucqtamich, que fora na Terra aliado, depois adversário
do atual Soberano das Trevas, agora a seu soldo, braço
da divina Justiça, conforme se considerava.
235 Novos rumos Sabíamos, graças a informações de
Fernando, que um dos objetivos da nossa excursão à
Terra era contatar com o cruel Tuqtamich, que vivera no
século XIV e desencarnara no começo do seguinte.
Havendo nascido na Sibéria, descendente de Gengis
Khan, foi senhor absoluto da região de Qiptchaq, quando
recebeu apoio de Timur Lang e devastou a Rússia.
Posteriormente, o seu aliado inimizou-se com ele e o
venceu, arrasando o seu reino e espoliando-o
terrivelmente. Desencarnou em desgraça por volta de
1406. A sua impiedade competia com a dos adversários,
cada qual mais cruento e sanguinário. Quando da eleição
do Soberano das Trevas, fez parte do séquito que o
apresentou, passando depois à condição de ministro do
seu reino de vandalismo espiritual. Na conjuntura
lastimável a que nos referimos, havia planejado o
homicídio do litigante, que sofrera indução de um dos
seus comparsas, no desafio e agressão a Davi. Vira-se
frustrado, graças ao providencial acidente orgânico do
médium, cuja saúde encontrava-se abalada pelos
excessos cometidos e falta de cuidados para com o
instrumento carnal. No momento da prece, em rogativa
de socorro, o irmão Ernesto, sabendo da deficiência
cardíaca do seu pupilo, exortou, sem palavras, a
interferência do Pai para evitar uma tragédia mais grave,
no que foi atendido. Com isso não pôde, o cruel inimigo
desencarnado, locupletarse dos fluidos do recém-falecido,
exaurindo-o e arrastando-lhe o Espírito para a região
onde se homiziava com a consciência tumultuada.
236 Por tal razão, os mentores acompanharam o corpo
do desencarnado, a fim de providenciarem o posterior
desprendimento do amigo invigilante. Era o início
também, para a ambiciosa Adelaide, de outro período
existencial, quando se daria conta do comportamento
leviano e da falência espiritual ao lado do esposo, e
começaria a expungir o passado leviano. De certo modo,
surpreso com o inesperado desfecho da discussão, o
títere siberiano ficou algo desconcertado, embora os seus
áulicos celebrassem o evento com ruidosa festa de
triunfo, aproveitando-se da desordem do ambiente, em
hospedagem vampirizadora nos indivíduos ali reunidos e
descuidados moralmente. Assim, utilizando-se do seu
insucesso, Fernando aproximouse do feroz guerreiro e o
saudou, respeitosamente: Aguardávamos a sua presença
disse com naturalidade. Seja, pois, bem-vindo a este
recinto, que não é lugar ideal para um diálogo, assim
como não o são as circunstâncias do momento.
Convocado diretamente e identificando a qualidade
moral do interlocutor, reagiu com enfado e furor: Sabe
com quem está falando? e tomou ridícula postura de
personalidade tribal dominadora. Sem dúvida redarguiu
nosso amigo. Falo com o velho Khan Tuqtamich, terror
de várias regiões do norte europeuasiático, que a morte
arrebatou e destituiu, reduzindo-o à sua significação de
pária espiritual. As palavras finais alcançaram-no como
uma chibatada. Ele congestionou o rosto, que assumiu
aspecto de máscara horrenda, com os olhos
esbugalhados, vermelhos e chamejantes, blasonando:
Posso fulminá-lo com meus poderes e minha vontade.
237 Cuidado, portanto! Embora aqui não seja o lugar
próprio, aceito o seu repto, por saber que não passa a
sua assertiva de bazófia para intimidar os incautos e os
medrosos, que se lhe submetem ao talante. O Khan
ergueu as mãos em atitude de quem se prepara para
disparar dardos magnéticos e fixou os olhos terríveis em
Fernando, que permaneceu impassível, concentrado e
aureolando-se de luz violáceo-alaranjada em todo o
corpo, que o defendia da irradiação negativa. Suando em
bagas e exalando forte odor a enxofre, ele bradou: Eu
sou um diabo! Ajoelhe-se diante de mim. Você viu o que
acabei de fazer com o outro. (Referia-se a Davi.) Não foi
a primeira vez que o enfrentei, bem como ao seu
médico, você sabia? Nosso companheiro, sem nenhuma
reação, respondeu: Sei sim e recordo-me da obsessa que
você conduziu ao Dr. Hermann... O irmão é Espírito
doente, e não lenda. A fantasia diabólica de que se utiliza
não me assusta, não me produz qualquer preocupação,
por ser fruto da sua imaginação perturbada, sem
estrutura nem realidade. Tampouco o amigo fez coisa
alguma significativa, além de inspirar o rebelde ao duelo
verbal estúpido, que culminou na luta insana... A sua
ação foi um fracasso, de que terá que dar conta ao seu
Chefe, que esperava e pretendia algo mais expressivo...
Eu o exorto, em nome de Deus este sim o Todo-
Poderoso a render-se ao Bem, a mudar de
comportamento, tomando rumo novo. São mais de
seiscentos anos de alucinação, de peregrinação perversa
no mundo inferior, longe da luz, da paz, do
discernimento, do amor. Aproveite, amigo-irmão. Este é o
seu momento grandioso de libertação das sombras e da
hediondez. Soa a sua hora de despertamento. O reino da
fantasia perversa chega ao fim.
238 Detenha-se! Jesus o espera para apresentá-lo ao Pai
Criador. Nunca! O meu reino é outro e o meu Chefe tem
nome diferente. A minha luta é a saga da destruição, do
ódio à humanidade e ao seu Cordeiro. Adeus! Uma
nuvem espessa circundou-o, como se originada de uma
explosão de pólvora, e ele desapareceu. Fernando ainda
afirmou-lhe: Voltaremos a nos encontrar, antes do que
você imagina. Os seus acompanhantes, diante do
acontecido, debandaram como soldadesca infrene sem
comando e deixaram o imenso salão do clube. Pouco a
pouco as pessoas se recompuseram, e o banquete logo
mais se encerraria sem brilho, como cenário de infelizes
sucessos. O oponente de Davi foi retirado às pressas,
visivelmente hebetado pelo álcool, pelos fluidos
deletérios aspirados e pelo choque nervoso ante a morte
do outro. Ato contínuo, retornamos ao Centro Espírita,
quase às duas horas da manhã. O Dr. Hermann Grass,
que acompanhara o diálogo de Fernando com o perverso
líder das sombras, ficou impressionado. As suas
experiências transcorriam em outra área, especificamente
no auxílio à reparação de peças orgânicas
desestruturadas, gastas, em decomposição... É claro que
sabia das forças em litígio no mundo espiritual, como no
físico, mas nunca se havia preo-cupado com elas, até o
dia em que fora desafiado, no passado, pela obsessa que
esbofeteara... Percebendo-lhe as interrogações que não
chegava a formular, fraternalmente Fernando explicou-
lhe: O mundo, que ora habitamos, é o causal, eterno,
real. O físico é uma pobre modelagem deste. Por isso,
importante em nosso labor é o ser profundo, o espírito.
O que não significa desvalor
239 para as ações de beneficência, de ajuda ao corpo,
que desempenha papel de vital importância na vida.
Preferencialmente, porém, o ser espiritual é o causador
das glórias e quedas a que se impõe por meio dos
pensamentos, palavras e obras. Inexoravelmente, a toda
ação corresponde uma reação semelhante. Os danos ao
organismo físico e psíquico podem ser reparados
mediante providências e técnicas especiais, mas somente
serão erradicados quando houver mudança nos seus
painéis de comando, pela transformação moral dos
próprios pacientes. E como a morte é fenômeno
inevitável da vida, sempre nos cabe a tarefa de preparar
o ser para a sua imortalidade. Fazendo uma pausa
oportuna, prosseguiu: O mundo espiritual é o grande lar,
de onde se sai em viagem experimental da iluminação e
para onde se retorna com os resultados insculpidos na
consciência... Compreensivelmente, aqueles que
fracassam buscam fugir da responsabilidade e
acumpliciam-se com outros semelhantes, em vãs
tentativas de escaparem de si mesmos e da Consciência
divina. Formam, dessa maneira, grupos alienados, que se
consideram justiceiros, arremetendo contra todos
quantos lhes inspiram inveja, antipatia, ciúme... Essa é
uma luta inglória, por certo, pois que efêmera, tornando-
se igualmente o tormento que os sevicia e os leva ao
despertamento. Quando esse não se dá espontâneo, as
leis da Vida os recambiam à reencarnação em expiações
libertadoras, dessa forma se lhes reajustando os
implementos morais, as forças espirituais. Assim, a morte
que os homens temem e nos pedem para impedi-la de
os arrebatar, para nós tem um sentido totalmente
diverso... No caso do nosso Davi, o lamentável é a perda
da oportunidade, que terá de reconquistar agora a duras
penas e em largo tempo, e não a desencarnação em si
mesma, mas nas
240 circunstâncias deploráveis em que ocorreu... O
benfeitor Vicente e os cooperadores que ali continuavam
deram atendimento possível aos irmãos que
conduzíramos para socorro oportuno, alguns dos quais
haviam sido encaminhados à nossa Colônia. Os que
permaneceram, iriam ser objeto de assistência mediúnica
por meio dos companheiros dedicados à psicofonia
atormentada, nas reuniões próximas, quando receberiam
conveniente doutrinação e apoio. Por enquanto,
demorar-se-iam sob custódia fraternal dos trabalhadores
espirituais ali sediados. Transcorridos alguns minutos,
chegaram o irmão Ernesto e o Dr. Carneiro, elucidando
que o corpo do nosso amigo estava sendo transferido
para a Morgue, cumprindo as exigências legais, e que ele,
embora vinculado aos despojos carnais, estava
convenientemente anestesiado, o que lhe impediria sofrer
as dores da necrópsia... Consideraram, os dedicados
guias, que apesar das últimas atitudes lamentáveis, sua
existência também fora assinalada por ações nobres e
caritativas no começo do ministério mediúnico, antes que
se permitisse perturbar pela empáfia, pela prosápia.
Portador de bons sentimentos, estes não lhe estavam
bem estruturados no íntimo, a fim de resistirem ao cerco
dos bajuladores, às calúnias dos invejosos, à perseguição
da má vontade, às incursões negativas dos
desencarnados infelizes. Sua dedicação inicial granjeara-
lhe simpatias, afetos e gratidões. Desse modo, muitos
Espíritos a quem ele beneficiara como médium autêntico,
ou aos seus familiares, encontravam-se em vigília,
acompanhando-lhe as últimas imposições terrestres e
orando em seu benefício. Nenhum bem que se faça, fica
sem resposta. Há sempre uma recompensa de amor, a
qualquer ato de amor, mesmo quando
241 inconscientemente ocorre essa atitude. Dirigindo-se
ao Dr. Grass, o benfeitor Ernesto adicionou: Milhares de
pessoas de ambos os planos da Vida rogam bênçãos a
Deus para o amigo, que as ajudou a diminuir sofrimentos
físicos e angústias morais. Outras tantas se interrogam
como ficarão agora, tendo em vista o afeto que devotam
ao nobre médico. Sinceramente tocado, o cirurgião
indagou, por sua vez: Como ficarei? Que farei? Bem sei
que Deus me sustentará, porém, encerrado este capítulo,
gostaria de prosseguir com uma visão diferente, no
entanto com o mesmo afã e a mesma dedicação. O Dr.
Carneiro envolveu-o em um amplexo afetuoso e
comentou: Ao bom trabalhador nunca falta oportunidade
de ação, especialmente no delicado campo da caridade
fraternal aos enfermos. Um especialista, com as
qualidades do querido irmão, é bem-vindo ao nosso
grupo de ação, exatamente neste momento em que as
doenças grassam desenfreadas e a dor se agiganta nos
corações aflitos. Tomaremos providências para que lhe
seja facultado um curso de aperfeiçoamento acerca do
perispírito e das suas funções, a fim de poder operar
nessa área complexa onde estão sediadas as matrizes de
muitos males. O período dos fenômenos mediúnicos
ostensivos, ruidosos, mesmo chocantes, vai cedendo
lugar às sutilezas do comportamento, à educação dos
pacientes, de modo a ser lograda a cura real, e a
mediunidade deixar o palco do exibicionismo, que a uns
convence, mas não os transforma intimamente para
melhor, e a outros, pelo seu aspecto agressivo, como no
caso em tela, provoca debate, suspeita, confusão mental...
Este é o momento da Doutrina Espírita acima da
manifestação mediúnica, não obstante a sua imensa
contribuição à causa do
242 Bem. Nesta Casa de amor e luz dispomos de
excelentes médiuns que poderão ser adestrados para a
atividade curativa, como já vem ocorrendo discretamente.
Unindo as palavras aos atos, o Dr. Carneiro expôs ao
irmão Vicente o que acabara de falar ao Dr. Hermann e
pediu-lhe permissão para que Leonardo fosse convidado
a colaborar com o nobre médico, no futuro,
prosseguindo o labor agora sob novo comportamento. O
Diretor espiritual não ocultou o contentamento,
comprometendo-se a levar ao mentor de Leonardo a
proposta edificante e convencionando que Fernando, que
exercera a mediunidade curativa na sua existência
anterior, encarregar-se-ia de adestrar o companheiro
encarnado, o qual teria os seus compromissos
mediúnicos aumentados com responsabilidade ampliada.
Testado por anos a fio, o candidato ao trabalho mais
específico havia superado empecilhos e problemas, sendo
fiel aos compromissos abraçados, particularmente os de
referência às atividades mediúnicas. Sendo esse um
campo espinhoso, seriam tomadas providências para que
as realizações ocorressem com discrição. O próprio Dr.
Hermann, no futuro, adotaria pseudônimo, de modo a
evitar as habituais romarias de necessitados em busca de
milagres. Novos rumos se delineavam, abençoados, para
o desdobramento das realizações espíritas. Os envolvidos
na programação aguardavam agora ocasião de ouvirem o
mentor de Leonardo, assim como ele próprio. Após as
aflições do processo de crescimento espiritual, surgiam
possibilidades de crescimento íntimo para todos,
particularmente com o ingresso do médico-cirurgião na
caravana conduzida pelo
243 Dr. Carneiro. Outras atividades aguardavam-nos, e os
desafios se tornavam mais próximos, convidando-nos ao
recolhimento e à gratidão a Deus.
244 O calvário de Adelaide A notícia da desencarnação
de Davi correu célere como um rastilho de pólvora aceso.
Às primeiras horas da manhã seguinte ao óbito,
familiares, simpatizantes e curiosos acorreram à
residência da viúva para apresentação de condolências,
solidariedade e apoio fraternal. Grande número de
beneficiários da sua faculdade lamentou o infausto
acontecimento, sinceramente tocados de emoção. Não
faltaram, porém, os comentários maldosos, o júbilo dos
invejosos, esquecidos de que se encontravam na mesma
frágil embarcação orgânica, da qual seriam retirados
oportunamente. A imprensa noticiou o fato de acordo
com a óptica de cada repórter, sem mais lamentáveis
consequências. Logo depois sucederiam no mundo
ocorrências mais chocantes chamando a atenção e
anulando o impacto das menores... Os filhinhos, embora
sem discernimento para entenderem a dimensão do fato,
prantearam o genitor desencarnado, ao lado da
mãezinha fundamente dorida. Angustiada e contida,
Adelaide repassava as cenas do seu namoro, noivado,
matrimônio e convivência com Davi, quando chegamos,
quase à hora do sepultamento. O ambiente espiritual
regurgitava: Entidades zombeteiras misturavam-se aos
exploradores das energias das vísceras e tônus dos
recém-desencarnados que não souberam conduzir o
carro da existência física; amigos devotados oravam e
benfeitores faziamse presentes. Os membros do clã das
Trevas não puderam acercarse, impedidos por vigilantes
servidores orientados pelo irmão Ernesto.
245 Pairavam no recinto vibrações de preces
intercessórias e de sentimentos de afeto puro como de
gratidão legítima. Apesar da insensatez a que se
entregara, Davi semeara simpatias e amizades, que agora
lhe eram úteis e retornavam como colheita de
esperanças. Por mais sombria se apresente a noite, a
madrugada feérica é inevitável. Voltar-lhe-ia outro
amanhecer rico de oportunidades felizes, que ele
aproveitaria com certeza. Estávamos ouvindo um dos
presentes ler uma página de consolação, assim impondo
silêncio aos maledicentes e levianos, que transformam os
velórios em clubes de vulgaridade verbal, de chacotas e
anedotário vil, quando deu entrada Guillaume
visivelmente aturdido. A expressão de surpresa estava-lhe
estampada na face. Ajoelhou-se, como fazia no passado
religioso do qual procedia, ao lado do esquife, e
prorrompeu em copioso pranto, quase chegando ao
desespero. O Dr. Carneiro aproximou-se dele e sussurou-
lhe ao ouvido: Bom ânimo, amigo. A Lei se cumpriu sem
necessidade da sua interferência. Ninguém foge aos
fenômenos da Vida nascimento, morte, renascimento. É
inevitável esse ciclo. O ir e vir é processo da evolução ao
qual estamos submetidos. Acrescentou-lhe palavras de
reconforto e sugeriu-lhe o bálsamo da oração, que a
ambos iria beneficiar. Do exterior chegava-nos o alarido
da malta de desocupados, de seres perversos que
frequentam os cemitérios, impedidos de adentrar graças
às defesas magnéticas que haviam sido providenciadas.
Alguns amigos do extinto, antes do sepultamento,
proferiram palavras de simpatia, e homenagens foram-lhe
prestadas, havendo sido transferido o ataúde para a área
externa verdejante onde seria inumado.
246 No instante em que o mesmo era baixado, Adelaide,
que permanecia impactada, tensa, pareceu despertar, e,
emitindo um grito rouco, qual rugido de uma fera
aprisionada, empalideceu, tombando inconsciente. A face
apresentou-se congestionada, as pernas e os braços
distenderam-se, a língua foi projetada para fora da
arcada dentária. A cabeça passou a mover-se de cima
para baixo freneticamente, e, logo depois, instalou-se a
fase clônica, o momento terrível da convulsão... Familiares
e amigos correram a segurá-la, porém os movimentos
rápidos, bruscos, tornavam difícil a tarefa. O Dr. Carneiro,
profundamente compadecido, envolveu a paciente em
fluidos calmantes, e disse-nos: Nossa irmã começa a viver
o seu calvário redentor. Tratase de uma crise convulsiva
de natureza epiléptica e é necessário aguardar-se o
estado de torpor, pois que providência alguma poderá
ser tomada em tal circunstância. Já houvéramos estudado
o problema epiléptico anteriormente em outra obra,
quando examinávamos a sua psicopatogênese, na qual
incluíamos as síndromes obsessivas.7 No quadro, diante
dos nossos olhos, não detectávamos interferência
espiritual negativa, responsável pelo desencadear da crise
convulsiva. Percebendo-nos o embaraço, e enquanto a
enferma, agora em torpor, era conduzida para sala
próxima, o Dr. Carneiro explicounos, didática e
pacientemente: A epilepsia é conhecida desde remotas
eras, particularmente na Antiguidade clássica, quando se
acreditava que Hércules fosse epiléptico, daí se derivando
a designação de morbus hercules. É também sabido que
as sacerdotisas experimentavam convulsões de caráter
punitivo, dando origem ao morbus divinus. Por muito
tempo acreditou-se na influência da lua como
desencadeadora de
247 crises, facultando a denominação de morbus
lunaticus e, por fim, entre outros nomes e causas, o
morbus demoniacus, por suposição de que os pacientes
eram possuídos por seres demoníacos. Nessa última
classificação, incluímos os episódios
mediúnicosobsessivos, que certamente alguns psiquiatras
e neurologistas não consideram legítimos. A história da
epilepsia é longa e tem raízes profundas nas sutis
engrenagens do Espírito, qual o caso da nossa Adelaide.
O estudo dos efeitos e da sua psicogênese necessita
avançar no rumo das estruturas originais do ser humano,
a fim de serem detectados os fatores desencadeantes
verdadeiros como veremos. Abandonando a hipótese
obsessiva, a ciência médica referese a epilepsias reflexas,
por traumatismos cranianos, por tumorações no sistema
nervoso central, endócrinas, tóxicas e emocionais... De
acordo com as síndromes conjunto de fatores etiológicos
que facultam o surgimento da forma sintomática,
acredita-se naquela denominada essencial ou idiopática,
que seria efeito de manifestações constitucionais, não
obedecendo às gêneses estabelecidas, porém derivada
de fatores hereditários. Silenciou por momentos e deu
curso às informações oportunas. A epilepsia não perturba
a inteligência, podendo encontrar-se pacientes idiotas
como intelectualizados. Lamentavelmente, como irrompe
de surpresa, leva sua vítima a complexos de inferioridade,
graças à insegurança em que vivem, não sabendo
quando pode ocorrer um episódio ou crise. Esse caráter
faculta-lhes reações inesperadas, mesmo em decorrência
de acontecimentos de pequena monta. Tal crise pode ser
precedida de uma aura psíquica, sensitiva, sensorial,
motora, mediante pequeno tremor, visões, percepções de
sons inexistentes, falsas sensações gustativas, olfativas,
tácteis, cenestésicas... Alguns pacientes, às vezes,
pressentem o ataque em razão de determinadas
percepções...
248 O epiléptico pode ser vítima de impulsos
inesperados, que o levam a atitudes criminosas e até
mesmo automutiladoras, qual ocorreu com Van Gogh,
que decepou uma orelha depois de acirrada discussão
com Gaugin. Há muitos outros fenômenos patológicos e
criminosos que decorrem da epilepsia desnecessário aqui
serem apresentados. Consideramos o caso da nossa
Adelaide incurso no quadro das epilepsias psicogenéticas,
cujos fatores desencadeantes são os atos pretéritos
perturbadores, a sua conduta irregular em relação ao
esposo traído e assassinado no passado, que lhe
insculpiu a consciência de culpa, responsável pela
disfunção de que foi objeto. Ora, esse tipo de episódio
resulta de emoções violentas, inesperadas, qual suportou
há pouco. Além delas, a sua tem sido uma conduta
agressiva, muitas vezes mascarada sob pressão da
suspeita de adultério do consorte, gerando-lhe contínua
ansiedade. Não suportando a pressão, que alcançou o
máximo, a crise foi uma forma de eliminação das tensões.
Por ter a sua gênese no comportamento fútil e criminoso
da existência pretérita, o seu tratamento irá exigir
cuidados psiquiátricos específicos e espirituais profundos,
a começar pela mudança de comportamento para
melhor, superando, por meio da ação do bem, os
grandes males que praticou e os estímulos negativos que
infundiu no companheiro na atual vilegiatura carnal. Todo
esse triste panorama poderia ser diferente, hoje, caso
houvesse encontrado ressonância no íntimo a proposta
iluminativa, amorosa, que o Espiritismo lhe concedeu. A
ambição exorbitante responde pelo despautério e
alucinação humanos, nos seus desregramentos. Vamos
vê-la. Na sala, onde se realizara o velório, atendida por
um médico e
249 familiares, ela recobrava a lucidez, ainda sonolenta e
sem qualquer ideia do que acontecera. Supôs haver sido
vítima de um desmaio sem maiores consequências. O Dr.
Carneiro aplicou-lhe energias para dispersar os miasmas
e a indisposição gerados pela convulsão, asserenando-a.
Inspirando o médico, esse propôs à amiga: Após estes
dias passe pelo meu consultório. Necessitamos de alguns
exames, a fim de verificar como se encontra, depois de
tão pesada carga de aflições. Não postergue muito. É
necessário e até mesmo urgente. A genitora sofrida
informou que lhe levaria a filha, logo fosse possível, pois
se encontrava muito preocupada com a ocorrência
inesperada que vinha somar-se aos demais problemas e
aflições. Dali mesmo foi conduzida de volta ao lar, ainda
sob os efeitos da convulsão violenta. Utilizando-me de
um momento do mentor, inquiri: Se Adelaide houvesse
adotado um comportamento saudável, inspirando e
estimulando Davi ao cumprimento correto da tarefa
mediúnica, agindo caritativamente junto aos sofredores,
ficariam ambos liberados do crime de adultério e do
homicídio contra Guillaume? Sem dúvida concordou o
benfeitor generoso. O propósito da Lei divina não é
punir, mas educar, corrigir, levar o faltoso à reparação.
Na prática do dever, em razão dos esforços e até mesmo
dos sacrifícios que são necessários para uma existência
correta, o ser expia, depura-se dos atavismos perniciosos,
corrigindo a visão a respeito da vida e as inclinações
perturbadoras que nele remanescem. Mas isto, somente,
não basta. É imprescindível a reparação. Não a podendo
direcionar à vítima, por esta ou aquela razão, encaminha-
a a outrem, igualmente criatura de Deus, desse modo
resgatando o mal que praticou
250 contra a ordem, o progresso, naquela ocasião
representados em quem se lhe tornou vítima. No bem
que hoje pratica, reconquista o equilíbrio que foi
perturbado, por meio de quem se lhe torna beneficiário,
entende? O compromisso é para com a Vida, e não com
pessoas que, de certo modo, são-lhe a representação. E
se a vítima não perdoar tornei a indagar por não haver
sido beneficiada com a ação do seu antigo algoz? A
questão muda de significado. Aquele que se sente lesado
e exige uma reparação que as circunstâncias não
facultam, permanecendo intransigente, torna-se credor
de compaixão, porque se transforma em cobrador
impiedoso, portanto, perseguidor... Chamemos, ao caso
que explicaremos, efeito bumerangue. Quando se pratica
um mal, atira-se algo na direção do futuro. Se são
tomadas providências nobres, estas eliminam os efeitos
da ação molesta, que perde o impacto para a volta. Em
caso contrário, o retorno é inevitável. Foi o que sucedeu
à nossa Adelaide. Porque não enviou outras melhores
ações, que diluíssem os males que direcionou
anteriormente pelo desvario das paixões asselvajadas, eis
que retornam os efeitos a que faz jus. No seu
inconsciente profundo encontram-se as marcas dos atos
ignóbeis, aguardando soluções que, não apresentadas,
expressam-se na catarse epiléptica. Na busca da
psicopatogênese em nossa irmã, aparelho algum
registrará os sinais da enfermidade e seus fatores
desencadeantes, sendo necessário que se recorra aos de
natureza genética, portanto, hereditários, ou de ordem
psíquica, derivados dos distúrbios emocionais. Dar-se-á
razão, desse modo, à causalidade próxima, por sua vez
efeito de outra anterior, de natureza moralespiritual. O
Espírito é sempre o arquiteto da sua vida, o formulador
do seu destino. Por entendê-lo dessa forma, Jesus, o
Psicoterapeuta Excelente, recomendava morigeração,
equilíbrio,
251 vida íntima saudável e, ao curar, propunha a terapia
preventiva do não voltar a pecar, a comprometer-se, a
fim de que não acontecesse nada pior. Assim sendo, o
amor cobre a multidão de pecados, a soma das boas
ações sobrepõe-se à das negativas, infelicitadoras.
Calando-se, deixou-nos material suficiente para largas
meditações. A lei de amor é universal, insuplantável,
porque é a mesma em toda parte, oferecendo ensejo de
felicidade a quantos a vivenciem e a difundam pelo
exemplo. O bem operante é recurso terapêutico holístico,
por irrigar todo o organismo de quem o aplica,
vitalizando-o com energias de equilíbrio, hauridas na
natureza o livro no qual a Divindade inscreveu os códigos
da ordem e da beleza. No que dizia respeito à
problemática de Adelaide, pus-me a pensar no que lhe
ocorreria, caso Guillaume não houvesse sido esclarecido
e a perseguisse naquela fase, aumentando-lhe a força da
convulsão por meio de suas energias deletérias e de seu
pensamento vingador. Provavelmente, ao ocorrer o surto
convulsivo, e ela desprender-se parcialmente do corpo,
na fase da inconsciência, defrontá-lo-ia com o aspecto de
crueldade e ódio, levando-a ao pavor. A repetição do
fato degeneraria em comprometimento mental com
agravantes sérios. No caso das percepções alucinatórias
durante a manifestação da aura epiléptica, consideramos
a viabilidade de um fenômeno alterado de consciência, e
não apenas de natureza patológica. Ocorre que no
processo pré-convulsivo dilatam-se as percepções
paranormais do paciente, e este penetra noutros campos
de ondas vibratórias de vida pulsante, registrando,
embora desordenadamente, visões e sonho do ali
existente. Confiamos em que a Psiquiatria e a Neurologia
do futuro,
252 prosseguindo suas pesquisas conforme vem
acontecendo, alcançarão o mundo transpessoal e
compreenderão que os biorritmos theta e delta não são
exclusivamente patológicos, mas também de natureza
paranormal. Antes de abandonarmos o recinto dos
velórios, o Dr. Carneiro informou-nos que o irmão
Ernesto ali permaneceria por algum tempo cuidando do
seu pupilo, a fim de desembaraçá-lo dos laços fortes do
perispírito imantado ao corpo... A noite chegava de
mansinho e, contrastando com o silêncio físico reinante,
a mansão dos mortos encontrava-se em agitada e febril
movimentação...
253 O enfrentamento Quando retornamos à Sociedade
Espírita, Fernando, o Dr. Hermann, o Dr. Carneiro e nós,
fomos recebidos pelo amigo Vicente, que se encontrava
com a sua equipe preparando as atividades mediúnicas
da noite. Por ele soubemos que Alberto, quase
totalmente recuperado, volvera ao lar, para alegria de D.
Armênia e dos demais filhinhos. O amigo espiritual
destacado para dar assistência ao senhor Frederico
informara que também ele encontrava-se em processo de
renovação. Tomara conhecimento da agressão que
perpetrara, e, lúcido, assumiu o propósito de mudança de
conduta. Sob tratamento médico, e assistido
espiritualmente, começou a pensar em Deus e a orar,
sinceramente arrependido, o que facilitou a tarefa de
manter, dele distantes, os adversários desencarnados.
Havia possibilidade de recuperação a médio prazo, pois
que, a cada dia, o seu ânimo era mais promissor.
Igualmente soubemos da boa disposição de Raulinda,
que ainda não se dera conta do processo de gestação,
havendo melhorado emocionalmente e se resolvido por
uma positiva alteração de conduta mental. Trabalhadores
dedicados encarregavam-se de fortalecer as redes de
defesas vibratórias, e aparelhos especiais eram dispostos
em pontos estratégicos da sala para eliminar as ondas
mentais, as ideoplastias e os vibriões que são
exteriorizados pelos Espíritos sofredores, pelos perversos,
pelos técnicos em obsessão. Fôramos informados antes,
que, naquela noite, teríamos o enfrentamento
programado com o ministro do Soberano das Trevas.
Assim, as diligências providenciais eram minuciosas.
254 Enquanto isso, vimos adentrar na sala principal do
edifício, onde se realizavam as palestras e estudos
públicos, Guillaume, ainda abatido. Sentou-se, alheio à
movimentação, e permaneceu em choro silencioso.
Porque houvesse tempo suficiente, dele me aproximei e
o envolvi em ondas de fraternidade. Reconhecendo-me,
externou sua consternação diante dos últimos sucessos
com Davi e Adelaide. Sentia-se em conflito, supondo-se
de alguma forma responsável pelas aflições que foram
desencadeadas sobre ambos. Sensibilizado com o seu
drama, intervim, esclarecendo: Somente nos acontece o
que é de melhor para o nosso progresso eterno, quando
sabemos disso retirar a boa parte. A desencarnação de
Davi foi providencial para ele e os familiares. Na
conjuntura em desdobramento, naquele instante, ele
poderia terse tornado um homicida ou haver sido vítima
de assassinato. Mediante o enfarte, tudo transcorreu sem
mais amplos nem significativos problemas, não gerando
futuros efeitos danosos para ninguém. Quanto ao drama
de saúde que se exterioriza em Adelaide, ei-la
expungindo os gravames do passado, sem a
responsabilidade negativa de qualquer cobrador. As
divinas conjunturas apresentamse em clima de paz,
felicitando os endividados com a oportunidade de
reparação pela dor, por se haverem negado à ação do
amor. Deixamo-lo absorver as ponderações por um
pouco, e logo prosseguimos: Quando da sua
comunicação, você foi aconselhado a não se transformar
em cobrador, porque essa é tarefa da Vida, e assim
sucedeu. Não há, pois, razão para lamentações inúteis ou
novas crises de consciência. Agora, será lícito crescer
espiritualmente para auxiliá-la, assistindo-a com os
recursos possíveis, e
255 minorarlhe as aflições por meio da inspiração
frequente e da doação de energias saudáveis. Para
consegui-lo, é necessário esforço e devotamento em
favor de você mesmo, autoiluminandose e aderindo a um
labor dignificante, no qual supere os impedimentos do
egoísmo, os melindres que se derivam das imperfeições,
ampliando a capacidade de amor e de serviço. Na razão
direta em que adquira valores éticos e títulos de
enobrecimento, mais poderá ajudar e assim retribuir o
mal de que foi vítima, com todo o bem que lhe cumpre
fazer. Guillaume escutou contrito, interessado, e
agradeceu, indagando como poderia começar o
programa de autorrenovação. Sugeri-lhe recorrer ao
irmão Vicente, em cujo Núcleo de ação sempre haveria
lugar para candidatos ao progresso. O relógio assinalava
vinte horas. Os membros habituais da reunião haviam
chegado sem bulício e se encontravam nos seus lugares
de sempre. Respirava-se uma psicosfera de paz. Lidas as
páginas consoladoras e educativas da Doutrina Espírita, o
presidente Almiro proferiu a prece de abertura das
atividades. Tomando a delicada aparelhagem mediúnica
de D. Armênia, o irmão Vicente entreteceu breves
considerações e apresentou as instruções a respeito dos
compromissos estabelecidos para aquela noite,
especialmente se referindo aos Espíritos que viriam à
psicofonia. A união de pensamentos, graças à identidade
de objetivos, permitia um clima psíquico superior,
condição indispensável ao êxito de tentame com tal
magnitude. A primeira comunicação ocorreu por
intermédio de Raulinda. Externando mágoa e rebeldia, o
adversário deblaterou, agressivo, ameaçando recuar no
processo da reencarnação, provocando o aborto
espontâneo. A médium, semiconsciente, enquanto
exteriorizava a
256 comunicação, tomava conhecimento da própria
gravidez. Inspirado pelo irmão Vicente, Almiro dirigiu-lhe
palavras de consolação e esperança. Observe, meu irmão
convidou sábio. O seu tem sido um problema de amor
fracassado, graças ao qual você se aferra a um plano de
vingança absurda. A Divindade, desejando regularizar a
ocorrência infeliz, coloca-o nos braços da mulher amada
para nova experiência, e você permanece revoltado. Não
é uma atitude racional. Nesse cometimento de amor
transcendente, a maternidade sublimará os deslizes da
afetividade perturbada de antes, e você terá ensejo de
receber todo o carinho e desvelo que lhe foram negados.
Silencie, por um pouco, o clamor do desequilíbrio e
detenhase a pensar no sacrifício da genitora, sem o
apoio do parceiro e quiçá sob o desgosto da família,
lutando para preservá-lo. Poderia ela, em um alucinado
gesto para manter a aparência de falsa dignidade,
providenciar um abortamento criminoso, produzindolhe
rude choque mediante nova desencarnação prematura...
O Sr. Almiro dava-se conta da gestação da médium que
não era casada e se tornava mãe em circunstâncias para
ela constrangedoras. Por sua vez, Raulinda compreendia
a ocorrência, tremendo de angústia e medo. Era
informada pelo reencarnante, que assim a desnudava
perante os amigos. Porque ali vigoravam a caridade
fraternal e o respeito à liberdade do próximo, certamente
os irmãos compreenderiam o seu drama e alguns sequer
se fixariam nele, preocupados antes em ajudá-la sem
vasculhar-lhe as causas das aflições. O comunicante
deteve-se em reflexão, amparado pelas cargas fluídicas
que Fernando lhe aplicava, quando, finalmente,
respondeu:
257 Serei filho sem pai, um réprobo na sociedade, por
deslize dela, que permanece leviana... Não é justo!
interrompeu-o o doutrinador. Sua futura mãe não agiu
levianamente. Você lhe ignora as circunstâncias da
concepção, não lhe sendo lícito julgá-la. O importante é
que lhe será mãe, e toda maternidade é abençoada. Se o
pai permanecer omisso o problema será dele, e a Vida se
encarregará de considerar a questão convenientemente.
Deixe um pouco o amor-próprio melindrado, o egoísmo
absurdo e pense nos testemunhos a que ela se
submeterá para desvincular-se com aprumo do dever.
Valorize-a e agradeça a Deus a bênção da reencarnação,
por que muitos anelam e não conseguem. Agora oremos
em louvor e reconhecimento. A entonação da voz e o
sentimento fraterno do Sr. Almiro magnetizaram o ex-
inimigo que se sentiu amparado e adormeceu, abraçando
a futura mãezinha. A médium recobrou a consciência
plena, sem convulsão ou choque, igualmente comovida.
Inspirada nas reflexões íntimas pelo Dr. Carneiro,
sensibilizou-se e, em prece silenciosa, entregouse a Deus
disposta a arcar com o ônus das consequências do passo
em falso... Súbita alegria a invadiu, levando-a a íntima
felicidade desconhecida. O amor encerrava, naquele
momento, mais um capítulo da tragédia do cotidiano
com perspectivas de ventura. Basta que a criatura se
disponha para o bem e este virá em seu socorro,
solucionando quaisquer dificuldades que se apresentem
como intransponíveis. A seguir, o Dr. Hermann ensaiou
uma tentativa psicofônica por intermédio de Leonardo.
Uma vez consultado a respeito das atividades futuras, o
seu mentor anuiu com muito empenho, considerando
que as intervenções fossem realizadas no campo
258 perispiritual, sem cortes físicos nem espetáculos
perigosos de exibicionismo desnecessário. Logo no início
da comunicação, os membros do grupo deramse conta
de qual Espírito se tratava em razão das suas
características. Fazendo rápida abordagem sobre a
mediunidade a serviço da saúde holística, integral, o
antigo cirurgião declinou o nome Hans e despediu-se.
Houve um sopro de alegria em ambas as esferas ali
interpenetradas, programando porvindouras realizações
enobrecedoras. A ação da caridade jamais cessa; nada a
impede e nunca desaparecerá, por ser a alma do Bem a
expressar-se no amor, iluminada pela fé. Imediatamente
Francisco entrou em transe, e veio à comunicação o
perturbador que estimulara D. Augusta à cena
constrangedora. Sem delongas, ele externou: Hoje
veremos quem manda neste arraial. Ouvimos estranhos
sons de trombetas e grande algazarra fora do recinto.
Ridículo cortejo apareceu, e, como se rompessem as
defesas, que foram franqueadas a propósito, pois eram
aguardados, estranho séquito e o seu reizete deram
entrada com fanfarras e tubas guerreiras. Observamos
que o Dr. Carneiro, Fernando e irmão Vicente se haviam
preparado para o enfrentamento, já que permaneciam
serenos, não obstante vigilantes, sérios. As barreiras de
acesso à sala foram imediatamente recompostas,
enquanto o indigitado comunicante prosseguiu: Eis aqui
meu Chefe imediato, aquele a quem dou conta das
minhas atividades. Notifiquei-o do acontecimento
passado que
259 envolvia o biltre de quem me utilizo e a sua
apaixonada. Estrugiu ruidosa gargalhada de zombaria. O
Sr. Almiro, sem qualquer precipitação, respondeu-lhe: Há
um tremendo equívoco na sua assertiva. Nesta Casa o
Chefe é Jesus Cristo, a quem todos devemos
consideração e respeito. Os outros, aqueles que
porventura se considerem como tal, estão enganados e
aos demais enganando. O irmão Vicente telecomandava
o orientador vigorosamente e ele captava-lhe o
pensamento com clareza e segurança. Refiro-me aduziu
ao nobre Khan Tuqtamich, governador... A governança
dele ficou com os despojos ora consumidos pelo tempo
interrompeu-o, a propósito, o gentil psicoterapeuta
espiritual... Como se atreve a ofendê-lo? Longe de mim o
desejo ou a intenção de ser desrespeitoso com quem
quer que seja. Sucede que, aqui, reconhecemos apenas
um poder, que é o do amor, sob cuja força todas as
potências se dobram. Você irá submeter-se à força
magnética do meu senhor aqui presente, após o que
iremos virar a mesa e demonstrar que a vitória será
nossa, conforme acentua o nosso Soberano. O visitante e
sua entourage são bem-vindos, mas não os tememos, o
mesmo em relação ao seu Soberano de reino nenhum. O
único Soberano imperecível é Deus, a quem apelamos
neste momento por sabedoria e amor, para reparti-los
com o amigo e os seus companheiros de engodo. A
súcia espiritual, vendo o chefete espumejar, golpeava o
ar, produzindo alarido ensurdecedor, objetivando quebrar
a harmonia psíquica do trabalho, para assaltar de
improviso os médiuns e levar pânico aos assistentes.
260 Haviam vindo com planos inferiores de violência e
atrevimento. No entanto, a equipe estava preparada para
a pugna com as armas da oração e da caridade que são
insuperáveis. Os participantes compreenderam a
magnitude do momento e mais se recolheram em
comunhão com os Espíritos nobres, mantendo a
harmonia do conjunto. O médium Francisco ergueu-se
sob a ação do galhofeiro ameaçador que aumentou o
volume de voz como querendo intimidar, no que foi
severamente repreendido. Sente o médium e comporte-
se. Não somos surdos, nem receamos falsas posturas
enxertadas de bravatas sem sentido. Ordeno-lhe que se
comporte. A emissão da voz fez-se acompanhada da
onda de energia vigorosa, e embora titubeasse, o
agressor eludiu, justificando-se: Sentarei, porque quero.
Ninguém me dá ordens, além do meu Chefe. Meu amigo,
reconsidere sua posição. Em verdade você teme aquele a
quem falsamente denomina como seu Chefe, por ser-lhe
servil e porque ele o submete ao seu talante, usando dos
velhos truques hipnóticos ou arremedos magnéticos. Este
é o momento de você libertar-se dele e dos seus
sequazes. Não tema! Aqui há segurança, onde ele jamais
o alcançará. Não só ele, mas seja quem for. Todos
entraram aqui por anuência dos nossos mentores, que os
aguardavam. O problema será conseguirem sair. Pense
nisso. E se duvida, permaneça observando os próximos
acontecimentos... Surpreendido com a altivez do irmão
Almiro, e observando o siberiano esbravejante, sem
qualquer perturbação nos trabalhos, ele pareceu vacilar,
gaguejou, enquanto o Diretor concluiu: Jesus o tem
esperado e o recebe com carinho. Por que preferir o
medo, a sombra, o ódio e o desgoverno, à paz, à luz, ao
amor e ao equilíbrio? Só você pode eleger. Compare o
que tem tido, com o
261 que lhe oferecemos, e decida-se. Agora, ou só muito
mais tarde, porquanto oportunidade como esta não se
repete com facilidade, e mesmo quando volte a ocorrer,
as circunstâncias serão outras, piores... Naquele instante,
os Amigos espirituais envolveram-no em diáfana
claridade que o reconfortou, asserenando-o como se fora
um bálsamo etéreo. Tomado de emoção inusitada, ele
baqueou, exclamando: Rendo-me! Não aguento mais
este cativeiro. Tenho ânsia de liberdade. Ajude-me, Deus!
Seja feliz e renove-se. Recomece e confie. O amanhã é
nosso. Iniciemo-lo agora sem receio. O Dr. Carneiro
envolveu-o em fluidos anestesiantes e ele foi retirado
entorpecido, em quase sono, a fim de ser transferido
depois para nossa Colônia em tratamento e renovação.
Incontinente, sob o aplauso da malta, não saberia dizer
se atraído pela exteriorização perispiritual de D. Armênia,
se impulsionado pelo irmão Vicente ou se por vontade
própria, o antigo Khan incorporou. Tomando ares de
importância, levantou a médium, olhou desafiadoramente
os membros da reunião, e tentando descarregar energia
perturbadora, qual ensaiara no encontro com Fernando,
falou com os dentes rilhados: Parece que encontrei
alguém com quem vale a pena lutar. Sempre receei não
encontrar opositor do meu quilate. Não que o tenha em
alta conta, porém o seu atrevimento me desperta
curiosidade, quanto o seu topete me chama a atenção.
Lutei contra guerreiros famosos e os venci. Arruinei
cidades e submeti povos, deixando os sinais da minha
passagem por onde estive: cadáveres e escombros,
miséria e dor......e morreu como qualquer um atalhou-o o
doutrinador
262 inspirado. A morte tomou-lhe da mão trêmula o
cetro de vergonha que o braço enfraquecido não mais
pôde deter, não é verdade? E chegou ao mundo
espiritual vencido, sem arrogância, odiado pelas
incontáveis vítimas que o não pouparam ao vandalismo
da desforra. Foi encarcerado nas furnas do horror que
vitalizou, espezinhado, arrastado como escravo, na vasa
fétida e pantanosa, sofrendo o corroer dos ácidos que o
penetraram, dilacerando as carnes da alma sem cessar.
Aquele que não poupa o seu próximo, não é poupado da
expiação a que se atira. Libertei-me, e aqui estou para
fazer justiça. Foi libertado por um semelhante, talvez mais
perverso, que o buscou para dar prosseguimento à
fantasia da força na qual finge apoiar-se. E não nos fale
em justiça, pois a palavra soa, na sua voz, de maneira
ultrajante. Acaba de exibir a estultice, arenga sobre a
impunidade que se atribui e nos vem abordar sobre a
justiça? Quem pensa que somos? O seu Soberano
subestima-nos, enviando-nos um bombástico
mensageiro, destituído de reais valores que valham a
pena ser examinados e discutidos. Aguardaremos, então,
que ele próprio nos apareça, o que nos dará imenso
prazer. Você não sabe o que eu posso fazer e qual a
razão da minha estada aqui. É claro que sabemos. É
resultado do fracasso dos planos mirabolantes de
destruição e anarquia, elaborados para combater Jesus e
os seus discípulos. Todos aqueles que, no mundo,
intentaram essa infame tarefa, sucumbiram vitimados em
si mesmos... E os réprobos do Além, que periodicamente
se levantam rebeldes como novos Lucíferes da mitologia
judaica, tombam derruídos e profundamente lesados nos
tecidos delicados da estrutura espiritual, sofrendo,
séculos afora, o processo de
263 recuperação. O seu Soberano é apenas mais um,
porém de pequeno significado. Nunca ouvíramos tanta
energia em um diálogo e tão elevada autoridade num
debate, qual ocorrera antes com o primeiro comunicante
e prosseguia com o Khan. Exijo consideração, tendo em
vista meu poder. O amigo não pode exigir nada, pois
que é destituído de direitos, tendo-se em vista o
execrável comportamento que se tem permitido. É
credor, isto sim, de nossa compaixão, a qual lhe
distendemos em nome da piedade cristã. Era demasiado.
O desafiante foi tomado de estupor, alterando a
organização mediúnica de D. Armênia, que parecia
próxima de um ataque de apoplexia. Espumando, ia
prosseguir com o propósito de vitimar a médium,
quando Fernando aproximou um aparelho vibrador, que
foi acoplado à cabeça da senhora, e descargas azuladas
envolveram o agressor que lentamente cedeu e derreou.
Delicadamente foi deslindado da médium e colocado
sobre uma mesa ao lado, que o aguardava. Ato contínuo,
os cooperadores do irmão Vicente atiraram uma rede
magnética com malhas luminosas sobre os apaniguados
do visitante, impedindo-os de escapar. A gentil
medianeira voltou à lucidez, e o clima de harmonia da
reunião foi refeito. O irmão Vicente, jubiloso, inspirou o
Sr. Almiro a encerrar a atividade mediante aplicação de
passes nos médiuns que foram objeto das comunicações
penosas, o que foi realizado por cooperadores
experientes no mister, e após vibrante oração de graças a
reunião terminou. Minutos depois a sala esvaziou-se, e os
colaboradores permaneceram em cômodo contíguo,
entretecendo considerações oportunas e edificantes
sobre as comunicações, de onde partiram
264 para os seus respectivos lares, inclusive Raulinda, que
solicitou ao Diretor uma entrevista para ocasião própria.
Lentamente o Núcleo ficou em silêncio, enquanto nós
outros prosseguimos em franca atividade.
265 A luta prossegue Atividades de grande porte exigem
Espíritos competentes, a fim de conduzi-las com
segurança. As incursões socorristas ao mundo espiritual,
lidando com seres equivocados e perversos, é um
capítulo do Espiritismo experimental muito delicado. Por
isso mesmo, a mediunidade responsável não se permite
aventuras insensatas, nem se faculta entusiasmos
descabidos. O labor de desobsessão é terapia avançada
que exige equipes hábeis de pessoas e Espíritos
adestrados nas suas realizações, de modo a se conseguir
os resultados positivos esperados. Não raro, candidatos
apressados e desaparelhados aventuram-se em tentames
públicos e privados de intercâmbio espiritual,
desconhecendo as armadilhas e a astúcia dos
desencarnados, procurando estabelecer contatos e
procedimentos para os quais não se encontram
preparados, comprometendo-se desastradamente com
aqueles aos quais pretendem doutrinar ou impor suas
ideias. Arrogantes uns, ingênuos outros, permitem-se a
leviandade de abrir portas mediúnicas a intercâmbio
desordenado, na pressuposição de que se podem fazer
respeitados, obedecidos, incorrendo em grande risco de
natureza psíquica. A vida espiritual é pujante, rica de
movimento e de ação, base para a formação da física.
Quanto se expressa na esfera corporal é pálida
condensação da realidade que vibra fora dos fluidos
materiais. Todo o cuidado, pois, nesse campo como
noutros, é sempre proveitoso para o principiante ou
mesmo para quem não possua os instrumentos morais
indispensáveis.
266 Frustração, revide, amargura, ciúme, inveja, ódio e
todo um elenco de paixões infrenes caracterizam
incontáveis seres em perturbação além do corpo
somático que a morte não consumiu. A sós ou em
grupos, submetidos a organizações cruéis ou
desarvorados, prosseguem vivos e pensantes,
perseguindo os propósitos infelizes que abraçam,
ameaçadoramente. Com certeza, contrapondo-se a essas
hordas asselvajadas, pululam os recursos do amor,
alcançando-as e defendendo-as umas das outras, assim
como às criaturas em ignorância dessa realidade
teimosamente desconsiderada ou posta em plano
secundário na viagem ilusória do mundo sensorial. Como
consequência, recorrendo à sua situação de seres
invisíveis, muitos Espíritos se aproveitam para realizar
conúbios perturbadores com os indivíduos invigilantes,
executar planos nefastos, recorrer a expedientes malsãos,
de forma que se refestelam nas sensações que neles
predominam. Dessa forma, utilizam-se dos presunçosos e
inadvertidos que pretendem manter contato com eles,
sem estrutura moral, sem conhecimentos próprios,
iniciando-se processos de obsessão de longo curso em
que se comprazem. Todos aqueles, portanto, que
desejam manter intercâmbio com os Espíritos, equipem-
se com valores morais e intelectuais, de modo a se
precatarem contra as surpresas e ciladas que lhes podem
ser apresentadas. Outrossim, busquem manter sintonia
com os seus guias, capacitados para os orientar e
conduzir em cometimentos de tal natureza.
Observávamos que terminada a atividade física, que fora
preparada com cuidados especiais, prosseguiam os
labores febricitantes de atendimento e socorro espiritual.
As Entidades que se comunicaram deveriam ser
removidas para Instituições competentes, na erraticidade,
dando continuidade à terapia que se
267 iniciara durante a psicofonia atormentada. Outras
requeriam cuidados específicos, e outras tantas
necessitavam receber auxílios próprios para os seus casos
particulares. Qual sucede em um hospital terrestre, são
variáveis as técnicas de socorro para a clientela, tendo-se
em conta a imensa complexidade e diversidade dos seus
problemas de saúde. O grupo que acompanhara
Tuqtamich e ficara retido em rede magnética
especialmente preparada, desesperava-se, produzindo
algazarra expressiva. Alguns dos Espíritos, que não
esperavam essa providência limitadora dos seus
movimentos, imprecavam por socorro, dizendo-se
inocentes; outros choravam amedrontados; diversos
blasfemavam, enquanto raros, caindo em si,
mergulhavam em ensimesmamento, taciturnidade. Cada
ser é um universo à parte. Isolando-se pela meditação,
mergulhando na reflexão ou deblaterando no desespero,
ultrapassa os limites da área em que se encontra, ou se
evade dela pelo pensamento, perdendo contato com o
tempo e o lugar momentâneos. O irmão Vicente, que se
acautelara para eventuais sortidas dos legionários do
Soberano das Trevas, orientava os seus assessores nos
procedimentos relevantes e prosseguia dirigindo o
ministério com ordem e serenidade. Fernando assistia o
Khan; o Dr. Hans examinava alguns pacientes sob o
auxílio do Dr. Carneiro, adestrando-se na percepção das
lesões espirituais, refletidas e fixadas no perispírito, a
sede das distonias e enfermidades que calcinam os
homens e enlouquecem os desencarnados irresponsáveis.
Ensinando-lhe a educação visual com a conveniente
concentração para penetrar além dos fulcros de força os
chacras que fixam o psicossoma ao soma, abria-lhe
perspectivas novas para o futuro terapêutico a que se
entregaria. Enfermeiros adestrados e magnetizadores
hábeis cooperavam na
268 manutenção da harmonia. A partir de uma hora
menos quinze minutos da madrugada, os companheiros
encarnados que cooperaram na reunião mediúnica
começaram a chegar, para o prosseguimento da mesma,
alguns acompanhados por membros da equipe e outros
pelos seus mentores pessoais. Notamos que D. Augusta,
completamente hebetada, também fora trazida, a fim de
receber ajuda, embora não se desse conta da providência
socorrista. Utilizando-me de um momento, enquanto era
organizado o mister espiritual, indaguei ao Dr. Carneiro
por que se fizera necessária a comunicação do Chefe
siberiano por meio da organização física da médium.
Mantendo a inalterável gentileza, elucidou-me paciente:
Estamos diante de um largo processo de auto-obsessão.
O nosso irmão enfermo padece de cruel hipnose aplicada
pelo seu controlador. Antes de destacá-lo para o
ministério que diz administrar, foi submetido a terríveis
processos de indução magnética para perder a vontade,
tornando-se um autômato, teledirigido pelo seu
comandante. Depois, por haver sido libertado da região
abissal onde expungia os crimes, foi condicionado à
gratidão para com aquele que atribui ser-lhe o benfeitor.
Ideias terrificantes, fantasias mitológicas foram-lhe fixadas
na mente, a fim de que se considerasse a personificação
desses absurdos, que lhe facultava assumir-lhes as
personalidades, apavorando suas vítimas e dominando
pelo terror, por encontrar no inconsciente de tais
seviciados as crenças e superstições que trouxeram da
Terra, facilitando a aceitação das induções punitivas. Tão
graves se fizeram essas construções ideoplásticas no
infeliz rufião, que ele se acredita como manifestação de
seres infernais. Na comunicação física, o perispírito do
médium encarnado
269 absorve parte dessa energia cristalizada, diminuindo-
a no Espírito, e ele, por sua vez, recebe o que
chamaremos um choque do fluido animal do
instrumento, que tem a finalidade de abalar as camadas
sucessivas das ideias absorvidas e nele condensadas.
Quando um Espírito de baixo teor mental se comunica,
mesmo que não seja convenientemente atendido, o
referido choque do fluido animal produz-lhe alteração
vibratória, melhorando-lhe a condição psíquica e
predispondo-o a próximo despertamento. No caso
daqueles que tiveram desencarnação violenta suicidas,
assassinados, acidentados, em guerras por serem
portadores de altas doses de energia vital, descarregam
parte delas no médium, que as absorve com pesadas
cargas de mal-estar, de indisposição e até mesmo de
pequenos distúrbios para logo eliminá-las, beneficiando o
comunicante, que se sente melhor com menos penoso
volume de aflições... Eis por que a mediunidade
dignificada é sempre veículo de amor e caridade, porta
de renovação e escada de ascensão para o seu
possuidor. E por que não se realiza o diálogo, Espírito a
Espírito, necessitando-se do médium? Porque a
incorporação, em face da imantação magnética de ambos
perispíritos, impede o paciente de fugir ao
esclarecimento, nele produzindo uma forma de controle
que não pode evitar com facilidade. No transcurso do
trabalho poderemos comprovar essa assertiva.
Aguardemos! Era uma hora da manhã e todos nos
encontrávamos preparados para dar prosseguimento ao
labor iluminativo. A prece foi proferida com unção pelo
Dr. Carneiro que suplicou o divino amparo para aquele
magno momento. Vimos uma claridade alaranjada descer
e envolver todo o recinto, como se fosse uma cobertura
protetora para a elevada
270 atividade. O Dr. Carneiro esclareceu que aquele era o
momento clímax da nossa excursão, cujo objetivo
essencial seria ali definido: a libertação do chefe
siberiano, com o fito de abalar a estrutura do império
dirigido pelo soberano gênio das trevas, que
oportunamente seria atendido conforme os desígnios
superiores. Voltando-se para a turba, o médico baiano
propôs silêncio, com a sua autoridade, e sintetizou: Aqui
estais para presenciardes um grande evento que vos
definirá os rumos futuros. Por enquanto permanecereis
sem liberdade, a fim de participardes dos próximos
acontecimentos. Depois sereis liberados para escolherdes
o caminho que desejardes palmilhar. Caístes nas malhas
da rede da perturbação por livre vontade, por
sintonizardes moralmente com aqueles que vos exploram,
levando-vos ao crime e à loucura. Vinculastes-vos
espontaneamente e cada dia mais vos comprometeis
porque abdicastes do uso da razão. Dentro em breve
modificar-se-vos-á a paisagem, podereis discernir e
eleger treva ou luz, sofrimento ou paz, desar ou
felicidade. A ninguém mais culpareis, nem acusareis,
porquanto a responsabilidade será, como tem sido,
exclusivamente vossa. Ficai atentos e tende calma! Os
passistas e magnetizadores espirituais aplicaram
coletivamente energias balsâmicas e confortadoras sobre
o grupo, que pouco a pouco, embora expectante,
asserenou. Fernando procedeu ao despertamento do
chefe siberiano e o aproximou de D. Armênia, perispírito
a perispírito, até que houvesse uma quase justaposição.
O da médium vibrava com suaves irradiações violáceas
claras, enquanto o do Espírito exteriorizava uma energia
densa, escura, quase pastosa, que diminuiu o tom das
ondas que absorvia e que pareciam diluir-lhe a
espessura, a vibração grosseira.
271 Subitamente despertou atônito, e interrogou: O que
está acontecendo? Que artimanha mágica foi essa
covardemente utilizada contra mim? Não se trata de
artimanha, nem de magia, meu amigoirmão respondeu o
Dr. Carneiro com serenidade, mas de recurso terapêutico
desconhecido por você. Não há como negar a
superioridade do Bem. Afinal a maldade é somente
alucinação, desvario. A força positiva é a geradora da
vida e das suas manifestações; a negativa expressa o uso
incorreto dos valores da energia, sendo, portanto,
impotente, ante a expressão maior. Que pretendem,
afinal, de mim? Desconhecem os meus objetivos? É claro
que lhe conhecemos os propósitos doentios, que nos
levaram a atraí-lo até aqui. Eis o que desejamos do
amigo: a sua mudança de comportamento, o seu
despertar para a realidade que se nega. Até quando,
perguntamos-lhe, permanecerá na obstinação do mal?
Será crível que a sombra anule a luz? Por mais se
sofisme, uma chispa na treva comprova a legitimidade da
sua potência. Sou ministro de um império... Império
sinistro interceptou-lhe a frase que se desdobra nos sítios
sórdidos do planeta, onde o grotesco e o animalesco
convivem em promiscuidade abjeta. O amigo referiu-se
às glórias vividas na Terra. Como pode submeter-se a
uma existência primária, asselvajada, na qual predomina
o terror, e as sevícias incessantes são os estímulos à
permanência no escuro paul? Já não se encontrará
saturado da bajulação dos fracos e das ameaças de cima,
dos equivocadamente fortes? Você está enganado. Eu
sou a força e a ninguém temo. Não é verdade.
Submetido pela violência, rasteja para agradar a Timur
Lang, seu superior e Soberano.
272 Não pronuncie esse venerando nome aqui. Ele faz
tremer o solo que pisa, dobra o dorso de quem o
defronta e fulmina com o olhar aquele que o desagrada.
Aqui não há clima para ser proferido o seu nome santo.
Que horror! Como você o teme... e o detesta! A
humilhação que ele lhe impôs, na Terra, derrotando-o na
guerra cruenta, não foi ainda superada no seu
sentimento. Você a bloqueou na memória, apagou a
lembrança para viver bem com ele, de quem tem pavor,
receando novo enfrentamento, no qual novamente
perderia. Não creia que ele o tenha ajudado, ao libertá-lo
das vítimas que lhe zurziam o látego no dorso e às quais
você hoje faz estorcegar. O seu limite ali se esgotara e
ele o sabia. Retirou-o de um cárcere para aprisioná-lo em
outro pior. Desperte! Ele anuloulhe a faculdade de
pensar, a fim de dominá-lo, o que vem conseguindo com
facilidade. A mim ninguém domina. Eu sou o diabo. Veja!
Imprimindo a força do ódio a si mesmo, vimo-lo
transformar-se; ideado, na personificação da figura
satânica, conforme a conceberam no passado. A face da
médium alterou-se, e ele, quase sobreposto à sensitiva,
transfigurou-se, assumindo as características
convencionais do ser infernal. A cauda, terminada em
lança, agitava-se, enquanto os detalhes gerais produziam
um aspecto aterrador. Pelas narinas eliminava vapores
com forte odor a enxofre, e faíscas elétricas completavam
o quadro formando uma figura horrenda. Os Espíritos da
sua hoste grosseira apavoraram-se e desencadearam uma
gritaria infrene, tentando romper as redes protetoras em
movimento desesperado de fuga. Era com arremetidas de
tal natureza que ele e os seus semelhantes se impunham
aos Espíritos ignorantes, perturbados, vítimas da
consciência culpada, os quais se lhes submetiam, para
273 serem punidos pelos crimes praticados, tornando-se-
lhes subalternos. Enquanto Fernando e alguns
magnetizadores acalmavam os aflitos e temerosos, o
benfeitor, sem qualquer alteração na voz e na emoção,
prosseguia: Você não me assusta! Conheço essa triste
fantasia na qual você se oculta. Ela é inócua para mim e
a ninguém aqui intimida. O diabo é uma figuração
concebida pelas mentes passadas, ignorantes e
temerárias. Surgida no período mágico do pensamento,
está totalmente ultrapassada, permanecendo somente na
imaginação que a agasalha e a incorpora. Aproximando-
se da médium em transe, o Dr. Carneiro começou a
aplicar passes longitudinais, depois circulares, no sentido
oposto ao movimento dos ponteiros do relógio,
alcançando o chacra cerebral da Entidade, que teimava
na fixação. Sem pressa e ritmadamente o benfeitor
prosseguia com os movimentos corretos, enquanto dizia:
Tuqtamich, você é gente... Tuqtamich, você é gente... A
voz tornou-se monocórdia, contínua, enquanto os
movimentos prosseguiram. Suas mãos despediam anéis
luminosos que passaram a envolver o Espírito. Pouco a
pouco, romperam-se as construções que o ocultavam,
caindo como destroços que se houvessem arrebentado
de dentro para fora. O manto rubro pareceu incendiar-se
e a cauda tombou inerme. Os demais adereços da
composição, igualmente, despedaçaram-se e caíram no
chão. Para surpresa nossa, a forma e as condições em
que surgiu o Espírito eram constrangedoras coberto de
feridas purulentas, nauseantes, alquebrado, seminu,
trôpego, o rosto deformado como se houvesse sido
carcomido pela hanseníase, inspirava compaixão, embora
o aspecto repelente.
274 Desejou falar, arquejante, e a voz desapareceu num
sussurro nasalado: Eis o que você me fez. Eu não sou
isso... Sim, meu irmão, você está assim por enquanto.
Encontrava-se sob disfarces para esconder sua realidade.
Agora Jesus irá medicálo, auxiliando-o a renovar-se. Eu
não o conheço. Você o conhece sim. Basta recordá-lo.
Iremos ajudá-lo no tentame. Desperte agora e mude de
atitude mental. O restante será fácil e o tempo resolverá.
O comunicante, quase sem voz, e visivelmente agônico,
tentou gritar, conseguindo somente emitir um som
disforme: Jesus... E tombou em pesado desfalecimento.
Fernando e o Dr. Carneiro desenfaixaram-no da médium
e o colocaram em repouso na mesa onde estivera até o
momento da comunicação. Voltando-se para os
membros da tropa perturbadora, o benfeitor completou:
Vistes e ouvistes. Agora sois livres para escolher vosso
caminho, vosso Chefe. Deus vos abençoe! As redes foram
recolhidas. Atabalhoados, sem saber que fazer e sem
fugir, deixaram-se ficar ali. Os trabalhadores espirituais os
convidaram a que seguissem à sala contígua onde teriam
oportunidade de se recompor e optar pelo que melhor
considerassem. D. Augusta, que acompanhara as
ocorrências, chorava assustada. O irmão Vicente acercou-
se e disse-lhe benevolente: Eis nas mãos de quem você
se encontrava sob domínio hipnótico para ser
instrumento de escândalo e crime. Agora se sentirá
liberada; todavia, a sua conduta mental e moral levá-la-á
275 outras sintonias, de acordo com o teor das
aspirações que acalentar. Nosso Francisco jamais se
atreveu a perturbar-lhe a emoção, procurando seduzi-la.
Recomponha-se interiormente e aproveitese do benefício
que decorre desta noite para reaparelhar-se na conquista
da felicidade possível. Não se esqueça de que o seu
futuro começa neste momento. Envolvendo-a em ondas
de simpatia fraternal, manteve-a presente até o instante
do encerramento, quando seria recambiada de volta ao
corpo. O Dr. Carneiro, sensibilizado, ergueu-se e orou
agradecendo a Deus as concessões do dia, enquanto
vibrações harmônicas dominaram o recinto e a todos
nós. Encerrada a reunião, os seus membros foram
reconduzidos aos respectivos lares. Havia ainda muito
por fazer e para atender.
276 Reflexões e aprendizado A azáfama socorrista
prosseguiu em clima de harmonia, sem qualquer pressa
ou atropelo perturbador. Embora fossem numerosos os
necessitados, cada cooperador, cônscio da própria
responsabilidade, movimentava-se em silêncio, auxiliando,
sob o comando disciplinado do mentor da Instituição. O
grupo recolhido, que acabara de participar da
psicoterapia iluminativa, apresentava diferentes quadros
de reação. Alguns participantes, que não eram
caracterizados pela perversidade e crueza, havendo sido
arrebanhados entre ociosos e erráticos, despertaram,
envergonhados, receptivos às novas diretrizes com que
se lhes acenavam; outros, mais afeitos à maldade e
assinalados por ações nefastas, arrependendo-se por
medo ou discernimento, começaram a experimentar
metamorfose na aparência, qual ocorrera com o
siberiano, e, desnudando-se perispiritualmente,
apresentavam-se ulcerados, com deformações
constrangedoras, punitivas; diversos assumiam fácies
lupina, aspectos horrendos, diferenciados. Aqueles que
permaneceram impenetráveis pelo bem, insensíveis ao
fenômeno que observaram, recuperando a lucidez
própria ao nível no qual estagiavam, esgueiraram-se a
blasfemar, revoltados... Cuidadosamente foram separados
uns dos outros para o conveniente encaminhamento
terapêutico, assessorados por enfermeiros e especialistas
dedicados, que deles cuidariam em nossa esfera de ação
permanente. Era a primeira vez que detectava o
fenômeno da alteração do corpo perispiritual em grupo
de seres infelizes. Olhando o irmão Tuqtamich em
deplorável aparência, adormecido entre esgares e
277 convulsões periódicas, não me pude furtar à
compaixão, reflexionando a respeito do mal que nos
fazemos a nós próprios, quando abandonamos o rumo e
avançamos enlouquecidos. O Dr. Carneiro, que o assistia,
retirou-me da faixa de depressão, na qual eu poderia
derrapar, explicando-me, oportuno: Nosso irmão está
sonhando, se é que podemos chamar tal pesadelo como
sonho... Os clichês infelizes, armazenados por vários
séculos no inconsciente profundo, nos depósitos da
memória, assomam e assaltam os centros das
recordações, em providencial catarse liberativa. Os atos
hediondos, arbitrários, fixaram-se indeléveis e agora
retornam, abrindo espaço para as futuras realizações. É
natural que ele sofra em virtude de o inconsciente
recordar as atrocidades praticadas, assim iniciando o
processo depurativo. Por muito tempo experimentará
esse assédio, que lhe negará repouso mental e
emocional, recebendo tratamento de nós outros, até o
momento em que retorne aos experimentos expiatórios
através de reencarnações penosas. São os frutos ácidos
da árvore venenosa que plantou para servir-lhe de
recurso protetor... Porque era má, a sua é uma dádiva
punitiva, e não salvadora. E ele terá períodos de lucidez,
despertando? indaguei interessado. É claro que sim
anuiu. No entanto, o despertar será assinalado pelas
dores comburentes do arrependimento, em razão das
vozes que o estarão acusando sem cessar na consciência:
os inumeráveis pedidos de clemência que negou; os
apelos de misericórdia que desprezou; os soluços
intérminos que lhe despertaram zombaria; as vozes
asfixiadas no sangue aos borbotões... Simultaneamente
voltarão as visões das cenas terríveis que se imprimiram
na alma e ficaram encobertas pelas nuvens da
indiferença, da insensibilidade... Todo esse suplício,
porém, terá o
278 seu término, que começa na disposição para reparar,
para conquistar a vitória sobre si mesmo, sobrepondo o
ser espiritual ao animal, ao selvagem interior. Chamou-
me a atenção aludi a transformação perispiritual por ele
sofrida. Já a houvera visto antes, entretanto repetiu-se
em vários dos seus acompanhantes. Como entendê-la?
Ele se apresentava com aparência antes normal, quando
odiento. Depois como se deu esse processo? Com
expressão jovial e bondosa, o Amigo sábio esclareceu: A
plasticidade do perispírito responde por essas
ocorrências. Maleável quase ao infinito, ele se comporta
sempre conforme a orientação da mente, portanto do
Espírito, que nele plasma todas as manifestações.
Descarregando ondas de energia específica nas tessituras
delicadas da sua organização sutil, elas expressam esses
conteúdos mediante contínuos fenômenos de
representação. Durante o diálogo que mantivemos, ele
assumiu a personificação demoníaca por ideoplastia,
valendo-se de impressos modeladores conscientes. Da
mesma forma, ao ser recolhido nas regiões inferiores,
após conveniente adestramento mental, ele logrou
recompor a aparência de quando se encontrava na Terra,
qual se aplicasse uma máscara trabalhada de dentro para
fora, que era mantida pela vontade consciente. Fazendo
uma reflexão, deu prosseguimento: Recorde-se de O
retrato de Dorian Gray, da autoria de Oscar Wilde. Todas
as ações de Dorian eram plasmadas no seu retrato até
que, ao desencarnar, o infeliz retrato recompõe-se, e o
corpo mostra as marcas degenerativas da conduta
reprochável do seu autor. Trata-se de uma bela
demonstração do perispírito e sua plasticidade que Wilde
desconhecia, mas que tão bem apresentou. Tuqtamich é
o que vemos. Aí estão impressos, os seus atos e
comportamentos, no Espírito rebelde em processo de
279 recomposição, qual ocorrera para dar-se a
degeneração... A aparência siberiana como a diabólica
eram máscaras trabalhadas pela mente agindo no
perispírito, e imprimindo-as conforme a ideação. Para tal
tentame é necessário grande controle mental, bem
orientado, isto é, conduzir o pensamento com vigor.
Depreendemos, portanto, com facilidade, o acerto do
conceito querer é poder. Desde que se queira com
firmeza, podese fazer o planejado... Disse Jesus: Se
tiverdes fé... A fé é o alinhamento da razão naquilo que
se crê. Nessa tônica agem hoje, na Terra, todas as
terapias da autoestima, ensinando os indivíduos a
aprender a correta condução da mente, das aspirações. É
claro que não se alterará a responsabilidade dos
indivíduos, se eles não se recuperarem, reparando os
males que antes praticaram. Na visão holística da futura
Medicina, o conhecimento da mente (Espírito) e do
perispírito, será fundamental para a compreensão do ser
humano, dos fenômenos das enfermidades e dos
processos da saúde. Silenciando, por breves instantes,
prosseguiu: O mesmo aconteceu aos demais irmãos,
vítimas dos mecanismos equivocados de fixação mental.
Alguns deles, que se tornaram usurpadores das energias
dos encarnados displicentes com os quais se afinam,
mantêm o pensamento de que são lobos humanos. Tal
ideia plasmou-lhes a forma degenerada, que ocultavam
sob as máscaras de ideoplastias vivas, sustentadas no
campo fluídico do perispírito maleável. O amor de Deus,
no entanto, que luz para todos, sempre alcança os
calcetas, os desertores, os ingratos, trazendo-os de volta,
porém pelos mesmos caminhos percorridos que se fazem
palmilhados mediante o recolhimento da urze e dos
destroços das construções arrebentadas que ficaram ao
abandono. É a lei de
280 justiça, igual para todos, pois que se fora diferente,
com regimes de privilégios e exceções, como pretendem
algumas doutrinas religiosas, qual a vantagem da ação
enobrecida, do caráter diamantino, do trabalho do bem?
Desse modo, todos somos os autores do nosso destino,
de acordo com os próprios níveis de evolução e de
responsabilidade que nos facultam as correspondentes
realizações. Nesse momento, o irmão Ernesto veio
solicitar auxílio para o desligamento pleno de Davi, cujo
processo de decomposição cadavérica avançava,
transmitindo-lhe compreensíveis sensações ao Espírito. O
Dr. Carneiro, o Dr. Hermann e nós acompanhamos o
zeloso guia ao cemitério. Chegando à campa onde foram
inumados os despojos carnais do médium, vimo-lo
entorpecido sobre a sepultura, um pouco agitado, e
observado, a regular distância, por terrível grupo de
galhofeiros desencarnados e usurpadores de energias. A
área que lhe dizia respeito estava defendida por diversos
Amigos espirituais, que se haviam prontificado a auxiliá-
lo. Observei alguns desencarnados orando ao lado do
túmulo, agradecidos ao amigo pelos favores que haviam
recebido, o que produzia ondas luminosas cobrindo-lhe o
pequeno espaço. As cenas que têm lugar nas necrópoles
sempre me são pungentes. Espetáculos dolorosos de
algozes e vítimas em pugnas intermináveis, ao lado de
afetos dedicados labutando por auxiliar no
desprendimento dos seres amados; vigilantes do amor,
cuidadosos, socorrendo; mensageiros conduzindo
correspondências dos que ficaram na Terra, que são
depositadas nos mausoléus e tumbas quais se fossem
postas-restantes, onde os destinatários vêm
periodicamente para recolher notícias. Ao
281 mesmo tempo, grupos de Entidades nobres
revezam-se no labor iluminativo, orientando os que
vagueiam errantes sem se poderem desprender do
recinto. Os doestos e crivos acusatórios contra o nosso
paciente recémdesencarnado multiplicavam-se entre
chacotas e ditos impiedosos. Havia uma lua pálida a
derramar débil claridade nos últimos vestígios da noite
que o dia venceria dentro em breve. O Dr. Carneiro
solicitou ao amigo Hermann que cirurgiasse o cordão de
prata, deslindando delicadamente os inúmeros fios de
que se constitui, preso ao chacra coronário.
Concomitantemente, desligou as fixações na área
umbilical, e, quando Davi pôde ser retirado, foram
aplicadas energias especiais para dispersar as emanações
fluídicas que se exteriorizavam dos órgãos em processo
degenerativo. Carregado carinhosamente pelo renovado
cirurgião, Davi foi conduzido ao nosso centro de
atividades para posterior remoção à nossa Colônia, onde
se hospedaria por largo período. O sono reparador que o
dominava era a providencial misericórdia do Amor, a fim
de diminuir-lhe as fortes impressões deixadas pelo
fenômeno biológico da morte. Chamou-me a atenção
uma cena confrangedora. Em uma sepultura coberta de
vasos floridos, um Espírito profundamente triste, em
pranto copioso, tocava violino, enquanto ao lado,
amargurada, padecendo convulsões contínuas, jovem
mulher gritava alanceada: Por que não vieste comigo?
Deixaste-me morrer e fugiste? Para onde foste,
desgraçado?! Ai de mim, nesta noite fria e solitária!
Parava um pouco e repetia as doridas interrogações,
inspirando compaixão. Por sua vez, o violinista
interrompia a música e, desesperado,
282 interrogava: Martina, responde. Onde te ocultas?
Matei-me para estar contigo para sempre. Quem te
arrebatou de mim? Ouve, é para ti que toco... Porque me
ocorresse o sentimento de solidariedade, indaguei ao
mentor o que poderíamos fazer por eles. Solícito, o
benfeitor deteve-se a observá-los, após o que redarguiu:
Nossos irmãos aqui chegaram por meio do suicídio. Pelo
que consigo detectar, ele era professor de violino da
jovem, mais velho do que ela 25 anos. A música uniu-os
e fez-se-lhes veículo de uma paixão violenta. Os pais da
moça, informados do desenvolvimento do drama,
repreenderam-na, buscando dissuadila de uma união
que, segundo eles, tinha tudo para ser um fracasso.
Interromperam as aulas e mandaram-na em viagem, o
que, conforme esperavam, lhe faria bem. O professor
descobriu e resolveu acompanhá-la sem que os genitores
da diva o soubessem. Descobertos, foram novamente
separados sob ameaças. Depois de demorada
conversação marcada pela paixão compulsiva, em
desespero, optaram pelo suicídio duplo por meio de
soníferos, simultaneamente... Aqui chegaram em
lamentável estado. A família sepultou-os em tumbas
separadas, distantes. Após sofrerem o torpor e a
alucinação a que se vêm arrastando há mais de dez anos,
imantados pelo duplo crime, encontram-se próximos e
não se veem, não se ouvem, não se descobrem. É-lhes
negado aquilo que desejaram pela violência do suicídio.
De quando em quando o desespero os alucina e partem
para a blasfêmia, as acusações recíprocas. O
arrependimento, porém, é insuficiente para mudarem a
faixa psíquica, a sintonia em que se demoram e
283 receberem conveniente auxílio. Depois de breve
reflexão, concluiu: Não se encontram, porém,
abandonados, à mercê da própria sorte. Estão
amparados, e os vampiros não conseguiram arrancálos
daqui, onde acompanharam e sofreram a transformação
celular. Queriam matar-se para estarem juntos, e se
separaram porque se mataram. O suicídio é crime
covarde, portador de consequências duras, imprevisíveis.
Cada um que nele tomba, sofre de acordo com a lucidez
e os fatores a que se apegou para a fuga impossível...
Retornemos ao Núcleo. Nada mais temos a fazer aqui,
por enquanto. As primeiras tintas da manhã diluíam as
sombras teimosas da noite. Colocado em padiola
especial, Davi foi conduzido à nossa Colônia, assim como
os demais Espíritos atendidos na atividade socorrista. O
irmão Vicente e seus auxiliares exultavam com os
resultados providenciais dos labores desenvolvidos. As
salas onde foram acolhidos Tuqtamich e seus
companheiros receberam conveniente assepsia, a fim de
serem retirados os resíduos psíquicos densos que eles
deixaram, portadores de baixo teor vibratório, de modo
que o programa normal da Casa tivesse curso tranquilo.
O novo dia seria preenchido com os serviços normais,
como atendimento fraterno aos encarnados, fluidoterapia
passes e água fluidificada trabalhos de apoio aos
necessitados economicamente: costuras para crianças e
idosos, enxovais para gestantes pobres, alfabetização e
sopa para os pobres. Ali a Caridade era mais do que um
lema. Tornara-se realidade cotidiana dirigida aos filhos
do Calvário, conforme nos denominara Jesus. Dinamismo
e trabalho sem alarde caracterizavam o seu
284 programa espírita. Adicione-se a esse ministério o
compromisso com a infância e juventude aos domingos,
na evangelização espírita, preparando as gerações novas
para o porvir. Ao lado das palestras públicas, duas vezes
por semana, não era descuidada a parte que diz respeito
ao estudo da Doutrina, por meio de cursos bem
organizados, iluminando as consciências. A parte
experimental sessões de educação mediúnica e de
desobsessão constituía o ponto alto da experiência
doutrinária. Foi em razão da estrutura bem firmada da
Instituição que os famanazes do Soberano das Trevas lá
se concentraram, objetivando abalar-lhe os alicerces,
gerando perturbações. Pelo mesmo motivo o Dr. Carneiro
elegera-a para base de operações, tornando-a modelo
para outras ainda não consolidadas. O carro do
progresso não para, nem o amor jamais será vencido.
285 Providências finais Durante a semana prosseguiram
os labores, carinhosamente atendidos. O Dr. Carneiro
desincumbia-se dos compromissos de forma impecável.
Sua sabedoria espelhava-se na bondade dos seus
elevados sentimentos e nos encontrávamos felizes,
Fernando e nós, pela oportunidade de privarmos da sua
constante influência. Nesse ínterim, Raulinda manteve o
encontro estabelecido com o Presidente da Sociedade
Espírita, quando expôs o drama que a estressava, antes
quase a levando ao suicído. Igualmente se referiu à
suspeita de gestação em começo, que seria confirmada
posteriormente. Sem autocompaixão, revelou força moral
para enfrentar as consequências do relacionamento
infeliz de que amargamente se arrependia. O bom amigo
aconselhou-a paternalmente, convidando-a a reflexões
que a fortalecessem para o enfrentamento das
dificuldades porvindouras, inevitáveis, conclamando-a à
vivência espírita, único recurso disponível para a
preservação do equilíbrio em tal circunstância. Ninguém
do Grupo demonstrou qualquer sentimento negativo
para com ela, após a comunicação anunciadora da sua
gravidez, qual se nada houvesse acontecido. Assim
procedem os verdadeiros espíritas, jamais se
transformando em vigilantes das defecções do seu
próximo, antes mantendo fraternidade em qualquer
situação e amparando-o quando se faça necessário.
Francisco, robustecido na fé, após haver superado o
constrangimento que lhe fora imposto por D. Augusta,
que não
286 mais retornara às reuniões, apresentava-se sereno,
procurando dirigir as forças genésicas para o equilíbrio,
continuando a expor a Doutrina sob evidente inspiração
superior. Candidatava-se ao ministério da Palavra,
consciente das responsabilidades e riscos inerentes a
compromisso de tal envergadura. Desenhava-se-lhe,
desse modo, um futuro espiritual rico de ação, de
renúncia, de sacrifício, mas também de paz interior, de
plenitude. O Sr. Frederico melhorava a olhos vistos.
Passando fins de semana em casa, com o objetivo de
reajustar-se ao convívio da família, buscou demonstrar ao
filho Alberto, sem palavras, o arrependimento e a
disposição de que se encontrava investido para
recomeçar. A esposa exultava e lia para ele páginas
consoladoras do Evangelho na interpretação espírita, o
que lhe dava sustentação para manter os propósitos
novos, inabituais, definidores de rumo. O Dr. Hermann,
que agora se comunicava sob o pseudônimo de Dr.
Hans, conforme vimos, mantinha constante intercâmbio
fluídico com Leonardo, preparando-o e preparando-se
para as próximas atividades caridosas e socorristas.
Aguardava o retorno da nossa Caravana à Colônia
espiritual, a fim de conosco, incorporado ao Grupo,
adentrar-se no estudo do perispírito e suas propriedades,
bem como adquirir nova técnica de ação cirúrgica em
padrões saudáveis, compatíveis com a ética espírita.
Adelaide, porém, a jovem viúva, não se refizera. O
conflito de consciência aturdia-a. A falta do marido,
inesperadamente desencarnado, afetou-a profundamente.
É certo que não se encontrava preparada para o
doloroso golpe, e, sem resistências morais-espirituais,
deixou-se invadir pela depressão. As crises epilépticas
voltaram-lhe, abatendo-a mais. Embora o neurologista
não lhe detectasse causa física, prescreveu
anticonvulsivos e recomendou-lhe repouso. O nobre
irmão Ernesto, mais vinculado a Davi e sua família,
287 solicitou ao Dr. Carneiro competente auxílio para a
desolada senhora. Dessa forma, em reunião íntima na
nossa Sede, foram tomadas as providências
correspondentes. À hora aprazada, estávamos, os
Espíritos, reunidos com alguns dos companheiros
reencarnados, para as atividades finais da nossa excursão
terrestre. Antes, fomos ao Culto Evangélico no lar de
Ernestina, agradecendo a D. Apolônia a hospitalidade,
assim como à filha, que durante a reunião manteve
contato psíquico com nosso instrutor, colaborador nas
realizações da noite. Irmão Vicente proferiu comovida
oração de abertura da sessão, explicou a sua finalidade,
e, nesse comenos, enfermeiros diligentes trouxeram Davi,
convenientemente amparado, para o completo despertar.
Acompanhava-o, cuidadoso e feliz, o genitor
desencarnado, que nos saudou com efusão de alegria.
Adelaide também veio, conduzida pelo Dr. Hermann e
auxiliares, logo sendo despertada. Circunvagou o olhar
pelo recinto, a princípio atordoada e depois consciente.
Ao ver o marido adormecido foi tomada de emoção,
sendo atendida pelo Dr. Hermann que a ajudou a
controlar-se. O paciente já tivera momentos breves de
lucidez, retornando ao sono reparador. Agora, no
entanto, deveria voltar à consciência para o recomeço...
Tratamento cuidadoso e específico lhe estava sendo
ministrado. Ele encontrava-se algo inquieto. A uma
sugestão mental do benfeitor, Fernando aplicou-lhe
passes dispersivos no chacra cerebral, logo depois
noutros núcleos e, quando ele se encontrava deslindado
dos vestígios corporais, o Dr. Carneiro convidou-o
persuasivo: Davi, já é hora de despertar. Davi, acorde
para a realidade.
288 Volte à consciência. Acorde... Acorde... Qual ocorre
no sono cirúrgico provocado, ele descerrou as pálpebras,
tentou identificar o recinto, quando o genitor lhe disse:
Davi, meu filho, recorda-se de mim? Papai! exclamou
com emoção na voz. Você aqui me visitando? Que
aconteceu? Estamos juntos, novamente, meu filho. A
desencarnação trouxe-o para cá... Eu me recordo da sua
morte, papai... Sim, mas eu me refiro à sua, ocorrida há
poucos dias no clube. Recorde-se, Davi. O importante é
que você está vivo; nós prosseguimos vivos, como você
acreditava... O espanto desenhou-se no rosto do médium
e ele agitou-se respondendo: Não posso morrer ainda. A
minha tarefa... Ninguém morre. Você voltou para casa,
filho, e, quanto à tarefa, o assunto será examinado
depois. Como ficarão Adelaide e meus filhos? Sempre se
fica bem, quando se está entregue a Deus. Os filhos que
lhe foram confiados, pois que são de Deus, e não seus,
prosseguem em paz e continuarão os compromissos
deles... Adelaide está aqui. Trouxemo-la para visitá-lo. O
Dr. Hermann acercou-se da senhora, que abraçou o
marido, chorando de dor, de saudade, de
arrependimento. O dedicado médico separou-os com
ternura e disse ao paciente: Vamos recomeçar outra vez.
Também eu irei dar novo rumo aos nossos trabalhos.
Serei suicida?! interrogou, pungitivamente. A minha
sandice levou-me à morte prematura? Foi o Dr. Carneiro
quem respondeu: Meu irmão, este é um momento de
respostas, e não de
289 interrogações. Asserene a mente. Haverá muito
tempo para os detalhes. O importante é tomar
consciência do retorno. Agora, o passado não tem muito
sentido, mas o futuro é a nossa grande oportunidade.
Refaça o ânimo, a fim de tranquilizar Adelaide que deve
retornar mais confortada. Aguçando a observação em
Davi, que estava com os olhos muito abertos, percebi
que ele refazia o caminho pela tela da memória,
recordando-se da existência encerrada, a iniciar-se do
ataque cardíaco no clube e retrospectivamente...
Abundante pranto lhe escorria dos olhos pela face pálida
como cera, sacudido, de quando em quando, por
verdadeiras convulsões em face das recordações mais
graves. Deixamo-lo asserenar-se, recobrar consciência até
o momento em que lamentou: Meu Deus! Perdi a
existência. E agora? Tudo se transforma afirmou-lhe o Dr.
Carneiro para recomeçar. Não existem o ponto final, o
repouso, o vazio. Surge dia novo acenando com
realizações, reparação. Mas eu sabia! Não se adentre pela
província das lamentações injustificáveis. Começa a
colheita e você não pode recuar no tempo, impedindolhe
os sucessos. Vamos orar. Tocando-lhe a testa, o mentor
exorou a proteção de Deus, enquanto irradiou energia,
que o enfermo debilitado absorveu, acalmando-se pouco
a pouco. O pranto prosseguiu volumoso, porém sem
agitação. No ar pairavam as suaves vibrações da
harmonia. Todos nos encontrávamos em prece, quando,
trazido pelo abnegado Ernesto, Guillaume foi conduzido
até Adelaide, agora lúcida e pacificada.
290 Ele trajava-se com as características da época em
que desencarnou. A viúva olhou-o, a princípio com
indiferença, para logo após identificá-lo com surpresa
expressiva. Gui... llau... me balbuciou. Guillaume sim; o
esposo traído e assassinado... A informação era natural,
sem ressentimento nem acusação. Você já me perdoou?
inquiriu assustada. No começo foi muito difícil...
respondeu com tristeza. Depois dei-me conta, orientado
pelos guias, que o melhor para todos nós era o
esquecimento do mal... Isto ocorreu há poucos dias,
quando os acontecimentos perturbadores recrudesceram
em torno de você e de Gérard. Gérard? perguntou
confusa. Sim, Davi. Ele é Gérard. Ó, meu Deus! Não é
possível. A vida restitui-nos o que semeamos, a fim de
aprendermos a selecionar o que vamos ensementar. Você
o perdoou? Deus é quem perdoa, proporcionando-nos
oportunidades de reparação. Não lhe guardo mais
ressentimentos. Pelo contrário, sinto hoje compaixão por
ele e buscarei, na minha indigência, auxiliá-lo, assim
como a você. Só o bem que fizermos a quem nos haja
feito o mal nos liberta da inferioridade. É o que estou
aprendendo e será minha forma nova de
comportamento. Dando ênfase à voz, conclui: Procure
manter-se em paz e trabalhe pela reabilitação. Há tempo
para recomeçar e ser feliz. Quando o Dr. Carneiro se
aproximou, Adelaide, com ansiedade, interrogou:
Perdoando-me o mal que lhe fiz, estarei exonerada de
débitos para com ele?
291 Para com ele sim ripostou o guia generoso. Para
com a própria e a Consciência divina, no entanto, os
gravames continuam. Você teve excelentes oportunidades
de servir e recuperar-se, eliminando do espírito as
calamitosas dívidas contraídas. Todavia, o desalinho
espiritual decorrente da cobiça levou-a a estimular o
companheiro a vários desconcertos morais, na área
mediúnica, abrindo espaço para interferências espirituais
infelizes que culminaram na sua desencarnação
precipitada. Não a culpamos, pois que tal não é a nossa
incumbência. Apenas aclaramos o seu entendimento, de
forma a ajudá-la a alterar a conduta a partir de agora. E
a epilepsia que se instalou em mim? volveu à
interrogação. Por um efeito natural prosseguiu o Dr.
Carneiro ela estava com suas matrizes instaladas no seu
perispírito, aguardando diluição por meio dos seus atos
de abnegação, amor e caridade para com os enfermos
que, afinal, não ocorreram. Com o choque sofrido,
aceleraram-se os fatores epileptogênicos e adveio a
primeira crise. Ficarei boa ou purgarei pelo resto da vida
essa expiação? Depende exclusivamente da irmãzinha
interromper o sofrimento, prolongá-lo ou complicá-lo. A
sementeira sempre aguarda... O que for plantado, sem
dúvida será segado. A qualidade da semeadura sempre
responderá pelo tipo da ceifa. Ame, portanto, e sirva
quanto possível. Como será o futuro de Davi? perguntou,
ainda, olhando, comovida, o marido em sono terapêutico.
Ele sofrerá muito? Deus é Amor concluiu o Médico
espiritual. O amor tem soluções de misericórdia para
todas as ocorrências. É prematuro o momento para
prognósticos de questões que fogem à nossa alçada.
Quando o amor cessa, ainda aí surge a misericórdia
auxiliando.
292 Assim posto, a alternativa é confiar, prosseguindo a
jornada com elevação, sem compromissos com o erro.
Agora volte ao lar e que Deus a abençoe! O dedicado
Ernesto aplicou-lhe recursos anestesiantes, enquanto a
induziu: Amanhã você recordará este saudável encontro
que lhe voltará à mente com suavidade. Neste momento
repouse em paz. Durma! A senhora relaxou e entrou em
sono tranquilo, sendo recambiada ao corpo físico pelos
abnegados trabalhadores espirituais da Casa. Com
precisão e equilíbrio, as últimas providências pertinentes
à excursão conduzida pelo Dr. Carneiro de Campos
chegavam ao término. Todos aqueles que haviam
participado dos compromissos espirituais encontravam-se
conscientes das suas responsabilidades futuras,
cumprindo-lhes a desincumbência feliz, clareados pelas
luzes do Evangelho e do Espiritismo. Nesse momento
começaram a chegar novos amigos do alémtúmulo,
quando o irmão Vicente nos convidou para que
passássemos ao salão das reuniões doutrinárias.
293 Considerações últimas O salão, adornado com
guirlandas de mirto e rosas, que caíam em festões bem
elaborados, estava repleto de trabalhadores da Casa e
seus amigos, assim como alguns amigos reencarnados
em desdobramento parcial pelo sono. Sobre o estrado,
na parte posterior à entrada, uma mesa e três cadeiras
compunham o cenário do lugar reservado aos
comentários, palestras e conferências espíritas. Respirava-
se simplicidade no ambiente arejado e agradável no qual
a harmonia se exteriorizava benfazeja. O irmão Vicente
convidou o Dr. Carneiro de Campos e Ernesto a
assomarem à mesa. Após breves considerações acerca do
evento, passou a palavra ao benfeitor baiano que se
levantou fazendo a saudação cristã, tomou de O
evangelho segundo o espiritismo, de Allan Kardec, e com
voz pausada leu: A mediunidade é coisa santa, que deve
ser praticada santamente, religiosamente. Se há um
gênero de mediunidade que requeira essa condição de
modo ainda mais absoluto é a mediunidade curadora. O
médico dá o fruto de seus estudos, feitos muita vez à
custa de sacrifícios penosos. O magnetizador dá o seu
próprio fluido, por vezes, até a sua saúde. Podem pôr-
lhes preço. O médium curador transmite o fluido salutar
dos bons Espíritos; não tem o direito de vendê-lo. Jesus e
os apóstolos, ainda que pobres, nada cobravam pelas
curas que operavam. Procure, pois, aquele que carece do
que viver, recursos em qualquer parte, menos na
mediunidade; não lhe consagre, se assim for preciso,
senão o tempo de que materialmente possa dispor. Os
Espíritos lhe levarão em conta o devotamento e os
sacrifícios, ao
294 passo que se afastam dos que esperam fazer deles
uma escada por onde subam.8 Fez uma pausa, enquanto
espraiou os olhos pela sala iluminada, e ante os
semblantes joviais, interessados, prosseguiu: A Medicina
holística, perseguindo a saúde integral, não poderá
dissociar do ser humano a importante realidade
espiritual. Os binômios mente-cérebro, espírito-matéria,
que alguns estudiosos examinaram individualmente e que
outros transformaram em uma unidade organicista,
devem receber novo enfoque, no qual o espírito,
perispírito e matéria estejam reunidos num trinômio, a
fim de facultarem o perfeito entendimento do complexo
humano. Como o Espírito foi criado por Deus
essencialmente simples e ignorante, a sua fatalidade é a
perfeição relativa que lhe cumpre alcançar etapa a etapa.
À medida que se conscientiza, estabelecendo os
paradigmas de comportamento saudável, desenvolve os
valores adormecidos no imo e avança com equilíbrio no
rumo do alvo que o aguarda. Identificando o indivíduo
atual como remanescente do seu próprio passado, todos
os atos pretéritos encontram-se-lhe insculpidos no
perispírito, de onde procedem as emanações geradoras
de harmonia ou desequilíbrio catalogado como tragédia,
insucesso ou enfermidade. A ação desenvolvida no soma,
mesmo quando lhe proporciona refazimento, este é de
breve duração, porque a causa geradora prossegue
emitindo ondas desorganizadas que afetam o conjunto
celular, produzindo recidiva ou desarticulando outros
implementos em áreas diferentes, porém, vinculadas
entre si. O conhecimento do perispírito e a terapia de
profundidade a mudança mental e comportamental do
Espírito reencarnado tornam-se o ponto-chave do
quesito binominal doença-saúde.
295 Silenciou por breve momento, a fim de facultar ao
auditório correta assimilação do seu pensamento,
prosseguindo: Em boa hora os terapeutas da autoestima
encaminham os seus pacientes para um trabalho de
interiorização psíquica, na tentativa do
autodescobrimento, onde se localizam os fatores básicos
da sua existência. Após esse autoencontro, torna-se
possível a identificação das causas reais dos distúrbios
que os afetam. Conhecidas as geratrizes do fenômeno
perturbador, mais factíveis se tornam as providências
para a sua erradicação e por via de consequência os seus
efeitos danosos. Adicione-se ao perispírito a problemática
das alienações mentais e patologias orgânicas que
decorrem da influência dos Espíritos enfermos, dos
obsessores, gerando distúrbios no campo da energia com
as lamentáveis decorrências em forma de doenças.
Impossível dissociarmos, dos problemas que afetam a
saúde, a presença da obsessão. O intercâmbio mental
entre os desencarnados e as criaturas humanas é belo
capítulo da Ciência Espírita, graças ao qual se
demonstram a imortalidade da alma, a reencarnação, a
Justiça divina e a gênese de muitas ocorrências terrestres.
O Espírito é o ser preexistente ao corpo e a ele
sobrevivente. O perispírito é o seu envoltório plástico
maleável, constituído de energia específica. E o corpo
físico é a condensação da energia primitiva elaborada
pelo Espírito. Aprofundando-se a sonda no âmago da
energia pensante, encontra-se a vida inteligente,
estuante, causadora do ser físico. Novamente fez uma
pausa oportuna, facultando-nos a compreensão do
assunto lógico. Ali estávamos, Espíritos de vária
procedência, e de níveis diferentes de compreensão,
como é óbvio. Logo deu curso à bela análise: O
reducionismo, que pretende tornar o ser humano um
296 grupamento de células que o acaso reuniu, vai
cedendo lugar à visão espiritualista, e esta à
compreensão espiritista. Assim sendo, quanto mais
avança a Física Quântica no campo das partículas e
subpartículas, mais detém os campos de energia,
detectando-a na sua forma primordial. O conhecimento,
portanto, do corpo, das suas necessidades e exigências,
leva à identificação do ser profundo que o aciona e o
comanda. Inevitavelmente esse holismo conduzirá à
aceitação do ser complexo e à solução dos seus
múltiplos desafios na sua viagem. Nestes dias de
convivência espiritual estudamos juntos, alguns dos
presentes, várias patologias físicas e psíquicas
holisticamente, tendo dado preferência ao fator
imortalista, mergulhados como nos encontramos no
sublime oceano da sobrevivência. Com essa
compreensão, recorrendo à Psicanálise reencarnacionista,
encontramos as matrizes determinantes das afecções,
aflições e comportamentos dos nossos assistidos,
trabalhando nas suas respectivas áreas, e os resultados
foram plenamente satisfatórios. Antevemos com júbilo o
momento em que o homem e a mulher holísticos serão
considerados plenamente, quando a paranormalidade se
lhes torne um natural sexto sentido, como o Prof. Richet
ao seu tempo definiu a mediunidade. Quando as
faculdades PSI se tornarem normais e o desdobramento
dessas potencialidades parapsíquicas e mediúnicas
alargarem os horizontes terrenos, as enfermidades
experimentarão terapias menos violentas, menos
amputadoras, todas trabalhadas no campo da energia.
Nesse sentido, a constatação da psiconeuroimunologia já
enseja a confirmação antecipada dessa perspectiva
abençoada. Outra vez permaneceu em rápida reflexão
silenciosa, continuando: Nesses próximos dias, a
mediunidade exercida com consciência
297 de responsabilidade oferecerá valioso contributo
para a compreensão do ser holístico. Esse exercício
mediúnico, porém, será com Jesus, não remunerado, não
exaltado, destituído de estrelismo, de exibicionismo.
Tomando cuidado com o dar de graça o que de graça se
recebe, o ínclito codificador do Espiritismo advertiu,
elucidando que a mediunidade nobre jamais subirá aos
palcos e a sua gratuidade, conforme lemos, é sempre
condição sine qua non para merecer respeito, confiança e
apoio espiritual relevante. Trabalhemos todos por esses
programados dias do amanhã, oferecendo a nossa cota,
na certeza de que logo chegarão, felicitando-nos, bem
como ao planeta que nos tem sido formoso lar-escola de
evolução. Calando-se e concentrando-se fortemente,
orou: Jesus, mestre incomparável: Aqui estamos, os teus
discípulos imperfeitos, pois que fazemos apenas e
desordenadamente o que nos foi recomendado.
Permanece em nós a aspiração de amar e servir mais e
melhor. Ajuda-nos a consegui-lo, não obstante os nossos
teimosos limites. Muitas vezes temos prometido renovar-
nos para ascender, mas apesar disso não nos dispusemos
a romper as algemas que nos retêm nos charcos das
paixões. Hoje, no entanto, brilha em nosso íntimo
diferente chama de entusiasmo e fé, apontando-nos o
rumo libertador. Desejamos agradecer-te, Senhor, a
incessante ajuda com que nos honraste durante estes
dias de atividade grave. Jamais nos faltaram inspiração,
apoio e discernimento para agir com equilíbrio. Se houve
dificuldades para os que as geraram, rogamos
misericórdia. Abençoa, Jesus, todos aqueles que
partilharam das nossas preocupações e tarefas,
infundindo-lhes ânimo superior e
298 disposição para o bem, especialmente naqueles que
saíram da treva e se dispõem à renovação. Tem piedade
deles, os irmãos recém-chegados da ignorância.
Compadece-te, também, daqueles outros que se
demoram na demência do egoísmo e da presunção,
esquecidos de ti. Roga a nosso Pai por eles e por nós, os
filhos do Calvário, que nos consideramos ainda. Despede-
nos em tua paz e prossegue conosco, pois que, sem ti, é-
nos impossível seguir com segurança na direção do porto
da paz. Ao terminar, tinha os olhos úmidos, tal como
todo o auditório, enquanto ele, nimbado de claridades
siderais, parecia um ser angélico momentaneamente
materializado diante de nós. Ondas perfumadas em
brisas contínuas varriam o recinto, ao tempo que, do
teto, caíam flutuantes flocos de substância luminosa
como pétalas de rosas, que ao nos alcançar se diluíam,
penetrando-nos, balsâmicos. Ninguém se atreveu a
quebrar o silêncio respeitoso que pairava no ambiente.
Foi ele quem se acercou mais do irmão Vicente e o
abraçou, comovidamente, agradecendo-lhe a estada no
seu Núcleo-Escola de bênçãos. Chegara o momento das
despedidas. Passaram-se dois meses, nos quais
excursionamos na busca do amor, tentando diminuir a
perseguição do soberano gênio das trevas que nos
despertava real comiseração. Quando concluímos, a
caravana estava acrescida com a participação do Dr.
Hermann Grass que iria estagiar em nosso Plano...
Amanhecia. O astro rei inundava a Terra com os
primeiros fulgurantes raios de ouro anunciando a aurora.
299 A distância, voltei-me e contemplei o planeta azul no
seu giro gigantesco, conduzindo bilhões de criaturas
humanas sob a proteção do divino Governador que o
construíra e o sustentava. Conselho Editorial: Antonio
Cesar Perri de Carvalho Presidente Coordenação Editorial:
Geraldo Campetti Sobrinho Produção Editorial: Renato
Nogueira Coordenação de Revisão: Mônica dos Santos
Capa, Projeto Gráfico e Diagramação: Paulo Márcio
Moreira Normalização Técnica: Biblioteca de Obras Raras
e Documentos Patrimoniais do Livro E-Book: Diego
Henrique Oliveira Santos Mantenha-se atualizado sobre
os lançamentos da FEB Editora, cadastrando-se no site
www.febeditora.com.br. FIM
300 Índice Trilhas da Libertação 3 Medicina holística 8
Ampliando os conhecimentos 16 Perspectivas novas 23
Reflexões e expectativas 30 O médium Davi e o Dr.
Hermann Grass 35 O desafio 44 Comprometimentos
negativos 51 Serviços de desobsessão 59 Terapia
desobsessiva 70 Os gênios das trevas 84 Reflexões
necessárias 97 Ensinamentos preciosos 103 O caso
Raulinda 111 Guillaume e Gérard 119 Advertências
salvadoras 127 Diálogos esclarecedores 134 Prejuízos e
conquistas espirituais 143 Alcoolismo e obsessão 152
Cilada perversa 160 Vidas em perigo 166 Ocorrência
grave 175 Socorros de emergência 184 Sexo e
responsabilidade 198 Escândalo e paz 210 Últimas
advertências 216 Noite de angústias 225
301 Novos rumos 235 O calvário de Adelaide 244 O
enfrentamento 253 A luta prossegue 265 Reflexões e
aprendizado 276 Providências finais 285 Considerações
últimas 293