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Artigo BOSI de Pádua - A Reciclagem Organização Capitalista

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Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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UNIVERSIDADE E SOCIEDADE

Ano XIX - Número 45

Janeiro 2010

Universidade e Sociedade
É publicada pelo Sindicato Nacional dos Docentes
das Instituições de Ensino Superior - Andes-SN

Brasília Semestral

Univ. Soc. Brasília ano XIX nº 45 p. 8-233 jan. 2010

UNIVERSIDADE E SOCIEDADE DF, ano XIX, nº 45, janeiro de 2010 - 1


UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
Editorial
UNIVERSIDADE E SOCIEDADE é uma publicação semestral do ANDES-SN:
Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior.

Os artigos assinados são de total responsabilidade de seus autores.

Todo o material escrito pode ser reproduzido para atividades sem fins lucrativos, mediante citação da fonte. Aqueles de nós que vivenciamos o cotidiano de nossas universidades públicas, neste ano de 2009, prova-
CONTRIBUIÇÕES para publicação na próxima edição: veja instruções na página 4.
velmente, não nos surpreenderemos com o conteúdo dos quatro primeiros artigos deste número de nossa Revista.
Afinal, stress, sentimento de não-pertença ou, por outro lado, a alienação docente, em busca, exatamente, do re-
ASSINATURAS e pedidos de números avulsos: utilize o cupom da página final.
conhecimento dentro das atuais regras do jogo, e a qualquer custo, são fenômenos cada vez mais recorrentes nas
salas e nos corredores da academia. É neste contexto que o desvelamento destes fenômenos e a reflexão quanto
Conselho Editorial Coordenação GTCA Edição de Arte e Editoração às suas causas se tornam importantes, como tarefa típica dos pesquisadores, que todos somos.
Antônio Candido; Antônio Ponciano Bezerra; Edmir Terra, Francisco Carlos Duarte Vitória, Dmag Comunicação (11) 5542.6745
Carlos Eduardo Malhado Baldijão; Décio Laudenir Antônio Gonçalves, Marcone Antô- A tomada de consciência é o primeiro passo para a ação, bem o sabemos. E a sensação de “normalidade” –
Garcia Munhoz; Luiz Henrique Schuch; Luiz nio Dutra. Capa e Ilustrações
“é assim mesmo”; “não tem jeito” –, que o cotidiano inspira, como bem nos alerta um dos artigos que vem em
Carlos Gonçalves Lucas; Luiz Pinguelli Rosa; Doriana Madeira (11) 9515.3530
Márcio Antônio de Oliveira; Maria Cristina Editoria Executiva deste número Tiragem: 1400 exemplares seqüência, é o primeiro dos muitos obstáculos a ser transposto. Outro artigo desperta nossa atenção para o fato
de Moraes; Maria José Feres Ribeiro; Marina Bartira C. Silveira Grandi, Joel Moisés Silva Pi- de que o “consenso”, que vem tomando conta da sociedade – novamente, “estamos no único caminho possível”
Barbosa Pinto; Newton Lima Neto; Osvaldo nho, Lighia Brigitta Horodynski Matsuhigue Redação e Assinaturas
de Oliveira Maciel (in memoriam); Paulo (Coordenadora), Maria Cecília de Paula Silva, ANDES-SN/ESCRITÓRIO REGIONAL SÃO PAULO
– pode ter inspiração em recomendações e intervenções de um grupo de pessoas não tão numeroso, se bem que
Marcos Borges Rizzo; Renato de Oliveira; Ro- Zuleide Fernandes de Queiroz Rua Amália de Noronha, 308, Pinheiros - extremamente influente. A história é boa conselheira e deveria ser levada em devida conta, como nos ensinam
berto Leher; Sadi Dal Rosso. SÃO PAULO - SP, 05410-010 pelo menos dois outros artigos que se debruçam sobre o verdadeiro compromisso com as transformações radicais:
Revisão metodológica e apoio adminis- Fone (11) 3061-3442
Encarregatura de Imprensa e Divulgação trativo e editorial Fone/Fax: (11) 3061-0940 é preciso ampliar a parcela da intelectualidade que se assume como classe, na defesa dos interesses sociais da
Manoel Luís Martins da Cruz Iara Yamamoto E-mail: [email protected] imensa maioria dos habitantes deste planeta - explorada e espoliada em seus direitos mais fundamentais.
De forma contundente, outros quatro artigos nos alertam sobre o quanto o atual caminho tomado pelas
reformas na Educação Superior já nos afastou dos verdadeiros objetivos. Embora focando a pós-graduação em
uma área específica, quem não reconhece, num dos artigos, os traços fundamentais das mazelas que assolam
praticamente todas as áreas? Qual é a instituição que ainda se sente à vontade com o rumo que o Ensino à
Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior - ANDES-SN
Distância está tomando? Como não enxergar os estragos do REUNI, e de outras expansões sem o devido fi-
Setor Comercial Sul (SCS), Quadra 2, Edifício Cedro II, 5º andar, Bloco “C”
CEP 70302-914 - Brasília-DF - Fone: (61) 3962-8400 e Fax: (61) 3224-9716 nanciamento, nas universidades públicas? Como não ficar indignado com os verdadeiros propósitos do dito
e-mail: [email protected] “mestrado profissional”?
www.andes.org.br
Promover a reflexão sobre estas temáticas continua sendo a opção do nosso Sindicato, o ANDES-SN, e a re-
vista Universidade & Sociedade, em particular o presente número, é um dos instrumentos para tal propósito.
Propósito este tão mais importante quanto mais forças, não tão ocultas assim, tentam calar sua ação, para que
o caminho no rumo de um ensino público massificado, sem qualidade, voltado para os interesses privados, e
Universidade e Sociedade / Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições
de Ensino Superior - Ano 1, nº 1 (fev. 1991) não para os interesses da população em geral, seja aplainado. A contraposição firme é tão mais necessária nesta
Brasília: Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior. época, em que a crise, ao contrário do anunciado, muito provavelmente ainda não se encerrou.
1991
v. ilust. 22cm Na seção “Debates Contemporâneos” temos, pois, mais um artigo que, de forma muito didática, nos desvenda
mais alguns aspectos da presente crise, ao tempo em que, na mesma seção, outro texto nos mostra a face oculta
Títulos anteriores: O Sindicato, 1991
do cooperativismo, como uma das maneiras de precarização do trabalho, mecanismo também empregado pelo
Semestral setor mercantil da Educação Superior, conforme denunciado em número recente desta nossa U&S.
ISSN 1517 - 1779
Por fim, mais um “Dossiê” contundente, desta vez denunciando a Minustah (Missão das Nações Unidas
1. Ensino Superior - Periódicos. 2. Política da educação - Periódicos. 3. Ensino para a Estabilização do Haiti), que, ao não ser retirada com o fim do governo provisório, continua agindo como
Público - Periódicos. I. Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de
Ensino Superior força de pressão a favor de interesses privados, contrários aos da maioria do povo haitiano.
CDU 378 (05)
Os Editores

2 - DF, ano XIX , nº 45, janeiro de 2010 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE UNIVERSIDADE E SOCIEDADE DF, ano XIX, nº 45, janeiro de 2010 - 3
OBJETIVOS E NORMAS DA REVISTA UNIVERSIDADE E SOCIEDADE

UNIVERSIDADE E SOCIEDADE está aberta à colaboração de docentes e profissionais interessados(as) na


área e que desejam compartilhar seus estudos e pesquisas com os(as) demais.
Sumário
Objetivos 3 Editorial
Constituir-se em fórum de debates de questões que dizem respeito à educação superior brasileira tais como: estru-
tura da universidade, sistemas de ensino, relação entre universidade e sociedade, política universitária, política edu- Reforma da educação e trabalho docente
cacional, condições de trabalho etc.;
Oferecer espaço para apresentação de propostas e sua implementação, visando à instituição plena da educa-
9 Trabalho intensificado na universidade pública brasileira
João dos Reis Silva Júnior; Valdemar Sguissardi e Eduardo Pinto e Silva
ção pública e gratuita como direito do cidadão e condição básica para a realização de uma sociedade humana e
democrática; 27 Alienação no trabalho docente? O professor no centro das contradições
Divulgar trabalhos, pesquisas e comunicações de caráter acadêmico que abordem ou reflitam questões de ensino, Denise Lemos
cultura, artes, ciência e tecnologia;
Divulgar as lutas, os esforços de organização e realizações do ANDES-SN;
39 Universidade e precarização: considerações sobre o processo de trabalho dos
servidores da UFF
Permitir a troca de experiências, o espaço de reflexão e a discussão crítica, favorecendo a integração dos docentes; Emilly Pereira Marques e Marina Barbosa Pinto
Oferecer espaço para a apresentação de experiências de organização sindical de outros países, especialmente da
América Latina, visando à integração e à conjugação de esforços em prol de uma educação libertadora. 51 Capitalismo organizacional e trabalho – a saúde do docente
Francisco Antonio de Castro Lacaz

Instruções gerais para o envio de textos


61 Ensino à Distância no Brasil: aspectos da realidade para estudantes e docentes
Os artigos e resenhas enviados a Universidade e Sociedade serão submetidos à Editoria Executiva e a conselheiros Claudio Antonio Tonegutti
ad hoc. Universidade e Sociedade reserva-se o direito de proceder a modificações de forma e sugerir mudanças para
adequar os artigos e resenhas às dimensões da revista e ao seu padrão editorial. 73 A pesquisa em ciência da computação e suas interrelações com o ensino e a formação
do profissional
Maria do Carmo Nicoletti
1- Os textos devem ser inéditos, observadas as seguintes condições:
1.1 – Os artigos devem ter uma extensão máxima de 15 páginas (cerca de 40 mil caracteres), digitados em Word, 85 “Vamos ganhar dinheiro à beça”: farsa e tragédia na política do governo Lula para a
fonte Times New Roman, tamanho 12, em espaço 1,5, sem campos de cabeçalhos ou rodapés, com margens fixadas Educação Superior
em 1,5 cm em todos os lados; as resenhas devem conter no máximo 2 páginas, contendo um breve título e a referên- José Rodrigues
cia completa da obra resenhada – título, autor(es), edição, local, editora, ano da publicação e número de páginas;
1.2 - O título deve ser curto, seguido do nome, titulação principal do(a) autor(a), bem como da instituição a que
93 A crise mundial e seus reflexos na educação superior
Olgaíses Cabral Maués
está vinculado(a) e de seu e-mail para contato;
1.3 - Após o título e a identificação do(a) autor(a), deve ser apresentado um resumo de, aproximadamente, 10 linhas 103 Repensando a universidade: algumas notas para análise
(máximo 1.000 caracteres), indicando os aspectos mais significativos contidos no texto, bem como o destaque de Ernâni Lampert
palavras-chave;
1.4 - As referências bibliográficas e digitais devem ser apresentadas, segundo as normas da ABNT (NBR6023 de
113 A “noite da desatenção” na cidade do conhecimento: os significados ético-políticos
do produtivismo no cotidiano acadêmico
ago. de 2002), no fim do texto. Deverão constar apenas as obras, sítios e demais fontes mencionadas no texto. As Erlenia Sobral e Samya Rodrigues Ramos
citações, em língua portuguesa, também devem seguir as normas da ABNT (NBR 10520 de ago.de 2002);
1.5 - As notas se houver, devem ser apresentadas, no final do texto, numeradas em algarismos arábicos. Evitar notas 125 Reformas educacionais e trabalho docente: itinerários contemporâneos para a
extensas e numerosas; alienação do trabalho intelectual?
Alexandre Antônio Gíli Náder e Rosa Maria Godoy Silveira
2 - Os conceitos e afirmações, contidos no texto, bem como a respectiva revisão vernacular são de responsabilidade
do(a) autor(a); 131 Estratégias da formação humana para o consenso
3 - O(a) autor(a) deverá apresentar seu mini-currículo (cerca de 10 linhas), no final do texto e informar endereço Cezar Luiz de Mari e Marlene Grade
completo, telefones e endereço eletrônico (e-mail), para contatos dos editores;
4 – O prazo final de envio dos textos antecede, em aproximadamente três meses, as datas de lançamento do re- 143 Projetos hegemônicos: a propósito da crise
Edmundo Fernandes Dias
spectivo número da Revista, que sempre ocorre durante o Congresso ou o CONAD, em cada ano. A Secretaria
Nacional do ANDES-SN envia, por circular, as datas do período em que serão aceitas as contribuições, bem como Debates contemporâneos
o tema escolhido para a edição daquele número; 161 A atual crise do capitalismo e suas perspectivas
5 - Todos os arquivos de textos deverão ser encaminhados como anexos de e-mail, utilizando-se o endereço Marcelo Dias Carcanholo e Juan Pablo Painceira Paschoa
eletrônico: [email protected];
6 - Os artigos que tenham sido enviados em disquete (acompanhados ou não da respectiva cópia impressa) e que
175 A indústria da reciclagem: a organização capitalista do trabalho dos catadores
Antônio de Pádua Bosi
não forem aceitos para publicação não serão devolvidos;
7 – Artigos publicados dão direito ao recebimento de cinco exemplares e as resenhas a dois exemplares. 193 Dossiê Haiti - “Por um Haiti Livre”

4 - DF, ano XIX , nº 45, janeiro de 2010 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE UNIVERSIDADE E SOCIEDADE DF, ano XIX, nº 45, janeiro de 2010 - 5
Diretoria do Sindicato Nacional dos Docentes
das Instituições de Ensino Superior - ANDES-SN
Gestão 2008 - 2010
EXECUTIVA NACIONAL 1º Tesoureiro: Carlos Alberto Anaruma (ADUNESP)
Presidente: Ciro Teixeira Correia (ADUSP) 2º Tesoureiro: Paulo Jorge Moraes Figueiredo (ADUNIMEP)
1º Vice-Presidente: Antônio Lisboa Leitão de Souza (ADURN) Regional Sul
2º Vice-Presidente: Rodrigo de S. Dantas M. Pinto (ADUNB) 1ª Vice-Presidente: Bartira C. Silveira Grandi (APUFSC)
3º Vice-Presidente: Marco Antônio Sperl de Faria (ADUNIMEP) 2º Vice-Presidente: Hélvio Alexandre Mariano (ADUNICENTRO)
Secretária Geral: Solange Bretas (ADUFU) 1ª Secretária: Magaly Mendonça (APUFSC)
1º Secretário: Manoel Luís Martins da Cruz (Maneca) (APROFURG) 2ª Secretária: Milena Maria C. Martinez (APUFPR)
2º Secretário: Evson Malaquias de Moraes Santos (ADUFEPE) 1º Tesoureiro: Denny Willian da Silva (ADUNICENTRO)
3ª Secretária: Cláudia Alves Durans (APRUMA) 2º Tesoureiro: Sirley Laurindo Ramalho (SINDUTF-PR)
1º Tesoureiro: José Vitório Zago (ADUNICAMP) Regional Rio Grande do Sul
2º Tesoureiro: Alberto Elvino Franke (APUFSC) 1º Vice-Presidente: Fernando Molinos Pires Filho (ADUFRGS)
3º Tesoureiro: Hélio Cabral Lima (ADUFERPE) 2º Vice-Presidente: Francisco Carlos Duarte Vitória (ADUFPEL)
Regional Norte I 1ª Secretária: Elaine da Silva Neves (ADUFPEL)
1º Vice-Presidente: Adilson Siqueira de Andrade (ADUNIR) 2ª Secretária: Maristela da Silva Souza (SEDUFSM)
2º Vice-Presidente: Leandro Roberto Neves (SESDUF-RR)
1ª Secretária: Roseanie de Lyra Santiago (SESDUF-RR)
1ª Tesoureira: Laura Souza Fonseca (ADUFRGS)
2º Tesoureiro: Henrique Andrade Furtado Mendonça (ADUFPEL)
Reforma da Educação e Trabalho Docente
2ª Secretária: Maria do Socorro C. de Albuquerque (ADUFAC)
1º Tesoureiro: José Alcimar de Oliveira (ADUA) ENDEREÇO DA SEDE E DAS SECRETARIAS REGIONAIS
2º Tesoureiro: Antonio José V. da Costa (TONZÉ) (ADUA) Sede Nacional
Regional Norte II Setor Comercial Sul (SCS), Quadra 2, Edifício Cedro II, 5º andar, Bloco “C”, 70302-
1ª Vice-Presidente: Maria Socorro dos S. Aguiar (ADUFPA) 914, Brasília - DF.
2º Vice-Presidente: André Rodrigues Guimarães (SINDUFAP) Telefones: (61) 3962-8400 e Fax: (61) 3224-9716
1º Secretário: José Augusto C. Araújo (SINDUEPA) E-mails:
2º Secretário: Marcelo Luiz Bezerra da Silva (SINDUEPA) Secretaria - [email protected]
1ª Tesoureira: Maria Isabel Duarte Rodrigues (ADUFPA) Tesouraria - [email protected]
2ª Tesoureira: Adélia Benedita Coelho dos Santos (ADFCAP) Imprensa - [email protected]
Regional Nordeste I
1º Vice-Presidente: Antônio Sérgio Luz e Silva (ADUFC) Escritórios Regionais
2º Vice-Presidente: Marcone Antônio Dutra (APRUMA) ANDES-SN/ESCRITÓRIO REGIONAL NORTE I
1ª Secretária: Zuleide Fernandes de Queiroz (SINDURCA) Rua 7, casa 79, conj., 31 de março, bairro Japiim I, Manaus – AM, 69077-080
2º Secretário: Ayrton Vasconcelos Lima (SINDCEFET-PI) Fone: (92) 3237-5189
1º Tesoureiro: Cristiano Matias Neto (ADUFPI) E-mail: [email protected]
2º Tesoureiro: Franquiberto dos Santos Pessoa (ADUFC) ANDES-SN/ESCRITÓRIO REGIONAL NORTE II
Regional Nordeste II Av. Augusto Correia, nº 1 – Guamá, Campus Universitário da UFPA – Setor de
1º Vice-Presidente: João Wanderley Rodrigues Pereira (ADURN) Recreações – Altos, Caixa Postal 8603, Belém – PA, 66075-110
2º Vice-Presidente: Evenildo Bezerra de Melo (ADUFEPE) Fone/fax (91) 3259-8631
1º Secretário: Marcos Aurélio Montenegro Batista (ADUFPB) Fones: (91) 3082-0500 / 3269-2836
2º Secretário: Luciano Mendonça de Lima (ADUFCG) E-mail: [email protected]
1º Tesoureiro: Levy Paes Barreto (ADUFERPE) ANDES-SN/ESCRITÓRIO REGIONAL NORDESTE I
2º Tesoureiro: Zacarias Marinho (ADUERN) Rua Tereza Cristina, nº 2266, salas 105 e 106, Benfica, Fortaleza – CE, 60015-141
Regional Nordeste III Fone/Fax: (85) 3283-8751
1ª Vice-Presidente: Maria Cecília de Paula Silva (APUB) E-mail: [email protected]
2º Vice-Presidente: Cristiano Lima Ferraz (ADUSB) ANDES-SN/ESCRITÓRIO REGIONAL NORDESTE II
1ª Secretária: Maslowa Islanowa Cavalcante Freitas (ADUFS-Ba) Rua Dr. José Luiz da Silveira Barros, 125– ap. 02, Espinheiro - Recife- PE, 52020-160
2º Secretário: João José P. Walpole Henriques (SINDESP-Extremo Sul-BA) Fone/fax: (81) 3421-1636 /Fone: (81) 3222-9507
1ª Tesoureira: Oneize Amoras de Araújo (ADUFS) E-mail: [email protected]
2º Tesoureiro: Menandro Celso de Castro Ramos (APUB) ANDES-SN/ESCRITÓRIO REGIONAL NORDESTE III
Regional Leste Av. Presidente Vargas, 60, Sala 101/Barra Center - Salvador - BA, 40140-130
1º Vice-Presidente: Hélcio Queiroz Braga (SINDCEFET-MG) Fone/fax: (71) 3264-2955 /(71) 3264-3063
2º Vice-Presidente: José Antonio da Rocha Pinto (ADUFES) E-mail: [email protected]
1º Secretário: Roberto Alves Braga Junior (ADUFLA) ANDES-SN/ESCRITÓRIO REGIONAL LESTE
2ª Secretária: Viviana Mônica Vermes (ADUFES) Av. Afonso Pena, 867 - salas 1012 a 1014, Belo Horizonte – MG, 30130-002
1º Tesoureiro: Joaquim Batista de Toledo (ADUFOP) Fone: (31) 3224-8446 /Fax: (31) 3224-8982
2º Tesoureiro: Elton José de Lourdes (ADUNIMONTES) E-mail: [email protected]
Regional Rio de Janeiro ANDES-SN/ESCRITÓRIO REGIONAL PLANALTO
1º Vice-Presidente: Luis Mauro Sampaio Magalhães (ADUR-RJ) Alameda Botafogo, nº 68, qd. A, lt. 05, casa 03 – Centro- Goiânia - GO, 74030-020
2º Vice-Presidente: Waldyr Lins de Castro (ADUFF) Fone: (62) 3213-3880 /Fax: (62) 3213-1445
1ª Secretária: Cláudia March Frota de Souza (ADUFF) E-mail: [email protected]
2ª Secretária: Janete Luzia Leite (ADUFRJ) ANDES-SN/ESCRITÓRIO REGIONAL PANTANAL
1º Tesoureiro: André Elias Fidelis Feitosa (ADUFF) Av. Alziro Zarur, 338, sala 03- Cuiabá - MT, 78068-365
2ª Tesoureira: Susana Moreira Padrão (ASDUERJ) Fone/fax: (65) 3627-7304 e 3627-6777
Regional Pantanal E-mail: [email protected]
1º Vice-Presidente: Laudenir Antônio Gonçalves (ADUFMAT-ROO) ANDES-SN/ESCRITÓRIO REGIONAL SÃO PAULO
2º Vice-Presidente Edmir Ribeiro Terra (ADUFDOURADOS) Rua Amália de Noronha, 308, Pinheiros - São Paulo - SP, 05410-010
1º Secretário: Carlos Roberto Sanches (ADUFMAT) Fone (11) 3061-3442 - Fone/Fax: (11) 3061-0940
2º Secretário: Hajime Takeuchi Nozaki (ADLeste) E-mail: [email protected]
1º Tesoureiro: Pedro de Assis e S. Filho (ADUFMAT) ANDES-SN/ESCRITÓRIO REGIONAL RIO DE JANEIRO
2º Tesoureiro: Wilson Brum Trindade Junior (ADUEMS) Av. Rio Branco, 277, sala 1306 – Centro- Rio de Janeiro - RJ, 20047-900
Regional Planalto Fone: (21) 2510-4242
1º Vice-Presidente: Joel Moisés Silva Pinho (APUG) Fax: (21) 2510-3113
2ª Vice-Presidente: Simone Perecmanis (ADUnB) E-mail: [email protected]
1º Secretário: Cláudio Lopes Maia (ADCAC) ANDES-SN/ESCRITÓRIO REGIONAL SUL
2ª Secretária: Suely dos Santos Silva (ADCAJ) Rua Emiliano Perneta, 424, Conj. 31, Edifício Top Center Executive – Centro -
1º Tesoureiro: Wilson Mozena Leandro (ADUFG) Curitiba - PR, 80420-080
2º Tesoureiro: Adriano Sandri (ADUCB) Fone/Fax: (41) 3324-3719 e Fone (41) 3324-6164 e (41) 9941-9658
Regional São Paulo E-mail: [email protected]
1º Vice-Presidente: Milton Vieira do Prado Junior (ADUNESP) ANDES-SN/ESCRITÓRIO REGIONAL RIO GRANDE DO SUL
2ª Vice-Presidente: Lighia Brigitta Horodynski Matsushigue (ADUSP) Av. Protásio Alves, 2657 Sala 303 - Bairro Petrópolis - Porto Alegre - RS, 90410-002
1ª Secretária: Raquel de Aguiar Furuie (ADUNIFESP) Fone: (51) 3061-5111
2º Secretário: Marco Aurélio de C. Ribeiro (ADUNIMEP) E-mail: [email protected]

6 - DF, ano XIX , nº 45, janeiro de 2010 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE UNIVERSIDADE E SOCIEDADE DF, ano XIX, nº 45, janeiro de 2010 - 7
Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

Trabalho intensificado
na universidade pública brasileira1
João dos Reis Silva Júnior
Professor da Universidade Federal de São Carlos
E-mail: [email protected]

Valdemar Sguissardi
Professor aposentado da Universidade Federal de São Carlos e professor da Universidade Metodista de Piracicaba
E-mail: [email protected]

Eduardo Pinto e Silva


Professor da Universidade Federal de São Carlos
E-mail: [email protected]
Reflito! Sei não estar louco
Imerso nesta sociedade doente
Confesso! De quando em quando
Deliro com um bem para todo ser humano.2

Resumo: O objetivo deste texto é compreender o processo de mercantilização da universidade estatal públi-
ca brasileira e de sua identidade institucional. Busca-se compreender este evento tal qual um processo de
racionalização social, com origem no Estado reformado e como parte da herança do século XX, articulado
com a internacionalização do capitalismo, que terminou como alvo da naturalização do sequestro do fundo
público pelo capital, resultando em reformas das instituições republicanas brasileiras. A universidade, não
sem a contraposição de movimentos sociais, políticos e sindicais e de intelectuais que ainda resistem, está
sendo transformada em instituição tutelada pelo capital e pelo Estado, tendo o mercado como mediador. A
racionalidade mercantil tornou-se o núcleo da Política, quando deveria ser a administração pública voltada
para o ser humano, com conseqüências perversas para: o governo popular democrático, que se distancia de sua
origem; o pensamento intelectual mais crítico; a esquerda partidária; a pesquisa sobre as políticas públicas de
educação superior; e, sobretudo, o objeto aqui examinado - as atividades e a formação do professor pesquisador
das universidades estatais públicas, em geral. Enfim, procura-se mostrar que o processo de racionalização
em sua forma histórica atual, tem como essência, também histórica, a racionalidade da formação social no
capitalismo, e, em razão disso, mostra, indiretamente, as orientações do processo em discussão.

Palavras-chave: Reforma do Estado; Educação Superior; Trabalho Docente; Formação Docente; Alienação
no Trabalho Docente; Ontologia no Trabalho Docente.

8 - DF, ano XIX , nº 45, janeiro de 2010 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE UNIVERSIDADE E SOCIEDADE DF, ano XIX, nº 45, janeiro de 2010 - 9
Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

Introdução: construindo uma hipótese O que isto significa, dito de forma mais direta? é significativa, um ano após a derrubada do Muro de transformação radical no trabalho imaterial superquali-

E
m artigo intitulado Riqueza concentrada e traba- Que a ciência, a tecnologia e as inovações tecnológicas Berlim – cujos fragmentos foram, e ainda são, ven- ficado, ambos no contexto da acumulação flexível3.
lho em excesso, Márcio Pochmann (2008), pro- tornam-se imprescindíveis no momento atual para a didos como souvenir a turistas – e mostra de forma Esse segundo eixo, a que já aludimos anteriormente,
fessor da Universidade Estadual de Campinas e “potencialidade renovada de fantástica ampliação da solar o caráter ideológico daquele evento histórico: a articula-se à reforma das instituições republicanas. Esta
presidente do Instituto de Pesquisas Econômicas, dis- riqueza a partir da base industrial consolidada pela vitória do capitalismo liberal, da democracia e da re- nova taxonomia institucional, legalizada pelo novo
corre sobre as modificações nas formas de produção estrutura produtiva existente” (POCHMANN, 2008). pública burguesa. ordenamento jurídico, colocaria em curso no país um
de valor pelas modificações ocorridas, e a ocorrer, em Isto impõe, para o centro das mudanças a que assistimos Isto nos está posto, há quatro décadas, em nível extenso e intenso movimento de reformas, com o ob-
face da nova proporção entre a renda com origem no nos últimos 40 anos no mundo, e a partir da década planetário, e, há três décadas, para o Brasil. Em de- jetivo de produzir um novo pacto social pragmático
trabalho material e no trabalho imaterial, bem como de 1980 no Brasil, que a sociabilidade seja alterada na corrência deste movimento, tornamo-nos o país e nova sociabilidade reducionista e coisificante, a
suas conseqüências. Segundo o economista, para cada direção de uma “sociabilidade produtiva”. Para isto, das reformas, na década de 1990, com o objetivo de “sociabilidade produtiva”. A ciência, a tecnologia e a
“R$ 1 de riqueza gerada no mundo a partir do es- de um lado, as instituições escolares – que são o lugar mudança da nossa sociabilidade para a produção de inovação tornaram-se meios de produção, mudança
forço físico do trabalho do homem, em 2006, havia privilegiado da educação básica – são chamadas para uma “sociabilidade produtiva e reducionista”, para o que produziu a mercantilização das instituições federais
R$ 9 de responsabilidade do trabalho de natureza o lugar central no processo de construção desta so- que são centrais a esfera educacional, a instituição es- de ensino superior (IFES) e alterou qualitativamente o
imaterial” (POCHMANN, 2008). Sua ciabilidade; de outro, as universidades colar e a universitária, mas, sobretudo, o trabalho do trabalho do professor-pesquisador, um trabalho ima-
afirmação considera “a composição do A ciência, a tecnologia e são postas no centro do processo de professor. terial e superqualificado. Em acréscimo, o resultado
PIB (Produto Interno Bruto) acrescido as inovações tecnológicas formação de professores e de produção Com base em pesquisas de longo prazo sobre do trabalho do professor-pesquisador colocará em
do conjunto de ativos financeiros em tornam-se de ciência, tecnologia e inovação tecno- emprego e desemprego no capitalismo e com uma movimento, por meio das reformas da educação bá-
circulação no planeta, que permite asso- imprescindíveis no lógica, modificando profundamente a visão particular da esfera educacional, sica, a constituição de um novo tipo de
ciar o trabalho imaterial às atividades momento atual para natureza da instituição universitária, das Pochmann (2008) toca em pontos im- Tornamo-nos o país professor, que formará novas gerações
terciárias da estrutura de produção de a “potencialidade instituições escolares da educação básica portantes para o entendimento das mu- das reformas, com o segundo o pacto social que se pretendia
riqueza” (POCHMANN, 2008). Para renovada de fantástica e, também, a do trabalho do professor. danças nesta esfera de formação humana construir. Imbricada a essa mudança, está
objetivo de mudança
ele, portanto, ainda que se considere Voltemos ao excelente artigo de Po- – a Educação – e para as profundas al- a emergência dos espaços midiáticos, as
ampliação da riqueza a da nossa sociabilidade
esta proporção, a produção do valor chmann: em 2006, “a cada dois ocupados terações que já se estão realizando no células de fabricação e a terceirização
partir da base industrial para a produção de uma
encontra-se no setor industrial, num no mundo, um encontrava-se relacionado trabalho do professor. Acrescentamos e, com ela, a exigência de um processo
hibridismo com as muitas formas de ex-
consolidada pela ao trabalho material, enquanto em 1950 “sociabilidade produtiva
outros traços às boas análises feitas, para cognitivo do trabalhador, cujo trabalho
ploração do trabalho imaterial na acu- estrutura produtiva eram três em cada quatro que trabalhavam. compreendermos as mudanças nas ins- e reducionista”, para o está muito mais próximo do trabalho
mulação flexível. existente”. Isto impõe Nas economias capitalistas avançadas, só tituições escolares de educação básica e que são centrais a esfera imaterial, adequado à reestruturação
O autor acrescenta que em “1950, que a sociabilidade seja um a cada três ocupados desenvolve tra- nas instituições universitárias no Brasil. educacional, a instituição produtiva, tendo como paradigma a
por exemplo, a cada R$ 10 de riqueza alterada na direção balho material” (POCHMANN, 2008). A compreensão das mudanças da escolar e a universitária, acumulação flexível.
gerados no mundo, somente R$ 4 pro- de uma “sociabilidade A demanda intensificada do trabalho identidade da instituição escolar – lugar e o trabalho do Destacam-se, ainda, o aumento da
vinham do trabalho imaterial. Em menos produtiva”. imaterial constitui-se uma contradição, da prática da educação básica –, da ins- expectativa de vida do trabalhador, a
professor.
de três décadas, a riqueza associada ao dado que pressupõe um real crescimento tituição universitária e do trabalho do desconcentração de plantas industriais,
trabalho imaterial cresceu quase 10%, em média, ao da economia por meio de investimento de capital pro- professor (cujo trabalho é imaterial e superqualificado) o trabalho domiciliar e outras reformas relativas ao
ano, enquanto a do trabalho material aumentou a me- dutivo, ainda que amalgamado ao capital financeiro, deve ocorrer por meio da análise das consequências trabalho, que diminuem os direitos sociais sobre o
tade disso” (POCHMANN, 2008). Disto decorre uma que se põe na condição de macrogestor da economia das ações, segundo dois grandes eixos, dentre outros: trabalho, requerem a necessidade de qualificação
profunda mudança no processo de circulação de mer- mundial e das mudanças que vêm sofrendo a classe tra- o primeiro, consiste na reforma do Estado, posta em continuada pela vida toda e, novamente, reforçam a
cadorias e realização do valor, com conseqüências para balhadora e o trabalho material e imaterial. movimento em 1995 e em curso até os dias atuais; o produção científica pragmática e o aumento do tra-
o trabalho imaterial. Isto é, contrariamente à época de No entanto, no pólo antitético a este apresentado, segundo, relaciona-se às mudanças na produção e balho imaterial e produtivo. Tudo isto modifica a
Marx, é, cada vez mais, factível de o trabalho imaterial surge uma demanda reformista posta pela própria valoração do capital. identidade das IFES, as relações entre o Estado e as
tornar-se produtivo. “Nesse sentido, o PIB dos países substância histórica do capitalismo. No plano da eco- O primeiro realiza-se por meio das reformas das instituições, mas, sobretudo, o trabalho do professor-
torna-se mais leve e com elevada produtividade, tendo nomia, há necessidade de contínuo processo de ensino instituições republicanas, da reorganização da sociedade pesquisador, como se pôde observar no livro tomado
o trabalho imaterial como principal força geradora de e aprendizagem, como se pode observar no centro civil e da mudança da sociabilidade do ser humano, como referência para este artigo, Trabalho Intensificado
riqueza no mundo. O que exige, em contrapartida, am- da Declaração mundial sobre educação para todos, neste momento do capitalismo; o segundo tem como nas Universidades federais.
plos e constantes investimentos em infra-estrutura, em aprovada na Conferência de Jontiem, promovida pela principais orientações, de um lado, a reestruturação De modo mais abrangente, por meio de pesquisas
ciência e em tecnologia aplicada” (POCHMANN, Organização das Nações Unidas para a Educação, a produtiva, que teve seu início sistematizado, no Brasil, empíricas na maioria dos setores empresariais, Antu-
2008). Ciência e a Cultura (UNESCO), em1990. Esta data na primeira metade da década de 1980, e, de outro, a nes (2006) já havia mostrado como se verificaram as

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

transformações para a exploração do trabalho, mate- resumo, um trabalho que já de-pendia da subjetividade no século da social-democracia. por um processo de mercantilização ancorado na
rial ou imaterial, no Brasil, e como a acumulação fle- produtiva [o do professor] do trabalhador resulta, no O consenso produzido com base nas teorias key- privatização/mercantilização do espaço público e sob
xível o intensificou e o precarizou. O aumento da atual processo de estratégias de mudanças no trabalho nesianas reproduzia o capital e a força de trabalho por o impacto de teorias gerenciais próprias das empre-
possibilidade de exploração do trabalho abstrato na produtivo, em profunda sujeição da subjetividade do meio do fundo público. Em razão disto, as políticas sas capitalistas imersas na, suposta autonomia ou,
condição de acumulação flexível consiste no “acú- artista [professor] aos meios e controles do capital. colocavam o Estado no lugar da classe trabalhadora, na real heteronomia do mercado, isto é, do capital. Es-
mulo dos modos de produção servis pré-capitalistas” (COLI, 2006, p. 317) condição de consumidor dos bens da classe operária. tas teorias estão orientando o Estado, pois a ele só
(LAZZARATO, 1997, p. 11) e leva ao limite da au-to- Talvez resida aí eventual chave de leitura, que Por outro lado, em maior magnitude colocavam o restou abocanhar o fundo público e acentuar a ideo-
exploração o trabalhador, orientado pela nova sociabi- todos os textos da coletânea citada anteriormente, fundo público a serviço do capital. Esta é a chave de logia de mercado, hoje coordenado por organismos
lidade produtiva. Esta é a novidade mais profunda da por formas diferentes, nos indicam: o fenômeno do leitura para compreendermos o início do processo multilaterais, que agem em toda extensão do planeta.
acumulação flexível. “queimar-se de dentro para fora”, o burnout no caso que tornou o capital industrial produtivo e o capital Quando titular do Ministério da Reforma do Estado
No âmbito objetivo das relações sociais, a mais- da educação básica e, contraditoriamente, no caso da financeiro uma massa amalgamada sob hegemonia e da Administração Federal (MARE), Luiz Carlos
valia “se esconde sob a ilusão de uma sociedade de educação superior, que professores, em condições de do último. Diante da necessidade de Bresser Pereira assim argumentava so-
produtores independentes de mercadorias, uma so- se aposentarem, não o fazem. Alguns, quando rece- aumento da produtividade, em face O capital movimentou bre a necessidade de uma “nova admi-
ciedade de vendedores de trabalho materializado. Uma bem a comunicação da aposentadoria compulsória, de crise iminente, pesquisas têm seu todos os seus nistração pública”:
sociedade sem vendedores de força de trabalho, posto sofrem e chegam a adoecer; há os que se aposentam e foco voltado para as inovações sobre representantes na A abordagem gerencial, também conhecida
que o contrato de compra e venda de força de trabalho continuam trabalhando, como voluntários ou em ou- o trabalho e ganham grande espaço, direção de reformas como “nova administração pública”, parte do
está metamorfoseado num contrato de fornecimento tras instituições públicas ou privadas. no âmbito do Estado, aquelas voltadas reconhecimento de que os Estados democráticos
do Estado, pelo mundo
de mercadorias”4 (LAZZARATO, 1997, p. 34) Em para o trabalho, tendo-se escrito muito contemporâneos não são simples instrumentos
todo, colocando a
acréscimo, “A exploração do aspecto intelectual do A reforma do Estado, o capital e o fundo público sobre este movimento que resultou na para garantir a propriedade e os contratos, mas
A universidade estatal pública brasileira passa por
instituição reformada
trabalhador, no capitalismo contemporâneo, é uma reestruturação produtiva. Porém, o que, formulam e implementam políticas públicas
um processo de mercantilização de sua identidade ins- até agora há pouco, se tem explorado a seu serviço, isto é,
afirmação da existência de uma ‘subjetividade produ- estratégicas para suas respectivas sociedades,
tiva’, relativamente diferente da ‘subjetividade operá- titucional, em função da naturalização do sequestro deste nó górdio é o resultado ideológico alterando de forma tanto na área social quanto na área científica
ria’ (LAZZARATO, 1997, p. 104). do fundo público5 pelo capital, fenômeno que, de deixado pelo Estado de bem-estar so- radical o fundo público e tecnológica. E para isso é necessário que o
Neste sentido, Coli (2006) em “Riqueza e Miséria imediato, leva à intensificação e precarização do tra- cial. na direção de seu Estado utilize práticas gerenciais modernas,
do trabalho no Brasil”, coletânea organizada por Ri- balho e, para o que aqui nos interessa, do trabalho O pólo antitético da reestruturação benefício. sem perder de vista sua função eminentemente
cardo Antunes, mostra que o processo ideológico torna do professor-pesquisador das universidades públicas produtiva é a naturalização do sequestro pública (1996, p. 7).
velado o fetichismo da mercadoria força de trabalho e do país. Este processo de racionalização social, com do fundo público por parte do capital, que movimentou O ex-ministro estabelece aí a matriz teórica, polí-
a negação da intensificação humana, ao analisar o tra- origem no Estado reformado, constitui-se articulação todos os seus representantes na direção de reformas do tica e ideológica da reforma do Estado e das institui-
balho dos cantores do coro do Teatro Municipal de da herança do século XX (o século da social-demo- Estado, pelo mundo todo, colocando esta instituição ções republicanas, buscando produzir, por meio das
São Paulo, imaterial e aproximado ao tipo de trabalho cracia e do Estado de bem-estar social), com a reformada a seu serviço, isto é, alterando de forma políticas públicas e das instituições, um pacto social
do professor. E, ainda, nos possibilita refletir sobre a mundialização do capital, reitera-se, e foi alvo da radical o fundo público na direção de seu benefício. pragmático. É com base nessa análise da realidade,
condição do professor-pesquisador a partir do trabalho naturalização do sequestro do fundo público pelo Isto demandou uma reforma de todas as instituições que contextualiza as políticas públicas recentes, em es-
imaterial do artista, quando afirma que: capital, que resultou em reformas das instituições republicanas, especialmente a instituição universitária pecial as políticas sociais, e é na reflexão exigida pela
No contexto do trabalho imaterial, o contrato traba- republicanas brasileiras. A universidade, não sem a e a Educação, de forma geral, em face da necessidade de materialidade histórica, que envolve tanto a contradição
lhista não estabelece uma relação imediata entre “pro- contraposição de movimentos sociais, como a Asso- alterar todo o processo de racionalização social quando público-privado quanto a dimensão central e mercantil
dutividade” e “improdutividade”; ao contrário, estabe- ciação Nacional de Docentes do Ensino Superior – os governos social-democratas faliram literalmente e se do Estado moderno, que se pode compreender me-
lece novos parâmetros para a exploração da força de Sindicato Nacional (Andes-SN), ou de intelectuais viram obrigados a aderir aos fundamentos econômicos lhor a racionalidade político-administrativa dos go-
trabalho vivo, que hoje é redimensionado por novas que ainda resistem, como os professores Francisco de de Hayek (1988). A reforma do Estado brasileiro e da vernos FHC e Lula. Este processo realizou-se nas es-
formas de controle do capital, essencialmente a partir de Oliveira, José Luiz Fiori, Maria Cristina Paoli, Cezar educação superior, que está em processo desde 1995, feras federal, estadual e municipal, no primeiro caso,
sua subjetividade criativa e participativa no processo de Benjamin, dentre outros, está sendo transformada em ganha consistência de análise nestes fundamentos. por meio dos governos FHC e, no segundo e terceiro
produção. Em dimensão não inédita, no caso do artista instituição tutelada pelo capital e pelo Estado refor- Neles também se encontram elementos para se com- (acentuadamente no último), pelos governos do Parti-
em geral [e do professor em particular], altamente qua- mado, para que o capital se apodere do fundo público preenderem as radicais e profundas mudanças no tra- do dos Trabalhadores (PT).
lificado, isso se aprofunda por meio de elementos como sob a eficiente ideologia do mercado. balho do professor-pesquisador da universidade estatal
a intensificação do trabalho, a precarização das relações Assim, vale fazer uma breve visada analítica destes pública e suas conseqüências para o ser humano que é, O financiamento da instituição universitária
de produção (carreira, prestação de serviço etc.) no in- processos de racionalização no capitalismo, no período antes de ser, o concreto professor. pública e a composição do fundo público
terior das instituições às quais prestam serviços. Em recente, quando o fundo público se faz mais explícito: As políticas públicas passam, no país e no exterior, A racionalidade mercantil tornou-se o núcleo da

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

Política (que deveria ser a administração pública vol- mais escassas e, como herança do século XX, como já se estabelece relações entre a pós-graduação, a pesquisa, avaliação. Por outro lado, as notas atribuídas aos pro-
tada para o ser humano e não reduzida na direção do fez referência, o Estado transfere sua responsabilidade a publicação, o financiamento e as condições objetivas gramas instituem uma concorrência pelos recursos
crescimento econômico), com conseqüências perver- pelo financiamento educacional ao processo de se- em que isto se faz, segundo o modelo Capes6 de ava- financeiros, instaurando verdadeira competição entre
sas para o governo popular democrático, que se dis- questro do fundo público pelo capital. Não é difícil, liação. Neste modelo, além de financiar e induzir a os pesquisadores de uma mesma área e acirrando a
tancia de sua origem, para o pensamento intelectual pois, perceber o outro pólo da contradição, em que se organização dos programas de pós-graduação, esta pressão sobre eles, seus orientandos no doutorado, no
mais crítico, para a esquerda partidária, para a pesquisa vai constituindo a hipótese que aqui se quer construir: agência estatal também os avalia, criando um sistema mestrado e na iniciação científica (afetando aí os alunos
sobre as políticas públicas de educação superior, mas, as atividades e a formação do professor-pesquisador. de controle e regulação de cada um deles e do espaço da graduação que, eventualmente, pretendem seguir
sobretudo, para o objeto que aqui interessa examinar, social que eles compõem, no Brasil, e induzindo a a carreira acadêmica) e sobre a própria coordenação,
as atividades e a formação do professor-pesquisador O professor-pesquisador no contexto das reformas formação de uma suposta elite de intelectuais ges- além de propiciarem uma verdadeira “caça às bruxas”,
das universidades estatais públicas, em geral, sob os Hoje, a reforma do Estado apresenta sua horrenda tores que, entre outras decorrências, perpetuam-se internamente aos programas. Novamente, aqui, o
governos Fernando Henrique Cardoso (FHC) e Luiz nudez sem mediação alguma, como se pôde observar em associações e órgãos semelhantes, depoente mostra a pseudoformação do
Inácio Lula da Silva. no âmbito da educação superior: ela se instituídos pelo governo, relacionados Vigora a racionalidade professor-pesquisador, do graduando
Na introdução deste artigo, esboça- As verbas destinadas torna naturalizada pelo capital, em meio à pesquisa e à pós-graduação. Tal fato mercantil no âmbito de iniciação científica, do mestrando
mos a construção de uma hipótese e à Educação ficam cada às diferentes formas de fundo público, e torna, cada vez mais, constritor o con- ou doutorando, envoltos no ardil que
do Estado (a regulação
a constituição de alguns elementos altera o trabalho imaterial e intelectual, texto institucional da pós-graduação, o se tornou o produtivismo acadêmico
vez mais escassas e do mercado), que, no
mediadores para uma indagação que provocando a alienação dos professores, que, segundo o docente entrevistado, induzido pelo Ministério de Ciência
o Estado transfere âmbito da educação
poderá ser objeto de uma próxima pes- concretizada, especialmente, por doen- levaria a um alto nível de estresse. Ao e Tecnologia e pelo Ministério da
quisa; por esta razão, lançamos mão de
sua responsabilidade ças psicossomáticas, dentre outras for- comentar a diferença entre a graduação superior, Educação, especialmente na figura da
alguns dados que podem ajudar nessa pelo financiamento mas, mesmo que os professores, contra- e a pós-graduação, analisa: apresenta-se como Capes, por financiamentos estatais-
empreitada. Dentre esses elementos, educacional ao processo ditoriamente, pareçam orgulhar-se de Eu digo o seguinte: na pós-graduação Estado gestor, ao mercantis, nas formas de parcerias pú-
vale destacar o estudo de Pinto (2005), de sequestro do fundo seus trabalhos. Tal fato aparece com o trabalho é muito mais pesado que na estabelecer instrumentos blico-privadas, fundos setoriais, lei de
que mostra que, enquanto os Encargos público pelo capital. freqüência em conversas com colegas e graduação [...] Por quê? Na hora que jurídicos para a inovação, (estratégias jurídico-legais por
Financeiros da União evoluíram de na grande maioria dos depoimentos co- você admite um pós-graduando, você conformação da meio das quais o capital se banqueteia do
4% do PIB, em 1995, para aproximadamente 10%, lhidos durante a pesquisa de campo, realizada para a está celebrando com ele praticamente fundo público) etc..
identidade universitária
em 2002, com manutenção desta tendência até o ano produção do livro Trabalho Intensificado nas Federais: um contrato de que, se não houver Observem-se os jovens que se dou-
e avaliar, regular e
2005, a rubrica de Manutenção e Desenvolvimento da pós-graduação e produtivismo acadêmico (SGUIS- sucesso, o fracasso é dos dois. Então, a toraram depois da vigência do atual sis-
Educação oscilou em torno de 1% do PIB, com leve SARDI e SILVA JÚNIOR, 2009), referência principal
controlar a liberdade
orientação implica essa responsabilida- tema de avaliação da Capes, implantado
tendência de queda no mesmo período. Isto permite deste artigo, que produziu relevante questão para ser de [...]. O aluno de pós-graduação
acadêmica, essencial às a partir de 1997: hoje, parecem muito
inferir muito sobre o que se anuncia desde o início investigada. Esta nos leva a indagar sobre o sentido do também é um agoniado e isso ele trans- atividades e à formação adaptados ao produtivismo acadêmico, à
deste texto. trabalho do professor-pesquisador das universidades mite para o orientador. [...] Você está do professor-pesquisador competitividade. Além de estarem sendo
Esse ponto de partida fortalece-se, ainda mais, se, estatais públicas. fazendo um contrato de convivência das universidades induzidos pela suposta elite de “intelec-
paralelamente a isso, observarmos a composição da No plano político, vigora a racionalidade mercantil mútua e muita responsabilidade na estatais públicas. tuais gestores”, parecem continuar sua
receita da União. Ainda segundo Pinto (2005), de 1995 no âmbito do Estado (a regulação do mercado), que, condução de um processo complexo formação de pós-graduando, isto é, o
a 2003, as contribuições sociais, como a Contribuição no âmbito da educação superior, apresenta-se como por cinco anos. A questão do financiamento: você “aluno de pós-graduação também é um agoniado”.
Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), Estado gestor, ao estabelecer instrumentos jurídicos realmente trabalha apertado [...], você é pressionado É perceptível a expansão do número de doutores
agora não mais existente, saltaram de um patamar para a conformação da identidade universitária e avaliar, pelas agências, pressionado pelo aluno, e pressionado desta geração com esse perfil, processo que acentua
de aproximadamente 9% para próximo de 15% do regular e controlar a liberdade acadêmica, essencial às por você mesmo, porque cada aluno em geral é sua res- a formação do professor-pesquisador “produtor de
fundo público, nesse mesmo período. Sabendo que atividades e à formação do professor-pesquisador das ponsabilidade (informação verbal). resultados”, de estudos e pesquisas, efêmeros – a ele
apenas um percentual dos impostos, parte do fundo universidades estatais públicas. Isto é suficiente para Cabe observar, neste ponto do depoimento, a forma interessa sua posição dentro da área de investigação,
público do Estado, é destinado ao financiamento da deslocar o equilíbrio psíquico e psicossomático deste como o modelo de avaliação da Capes, já mencionado, que é medida de forma quantitativa.
Educação, fica claro como estão orientadas as políticas trabalhador, induzindo a grande maioria ao estresse modifica qualitativamente o trabalho do professor, que O mesmo colega continua seu relato, acentuando o
de financiamento da educação superior no Brasil, isto e às doenças psicossomáticas daí decorrentes, como se mostra subordinado aos seus meios e controles, ao modelo Capes e avaliando que não seriam as ativida-
é, elas são parte do processo de naturalização do se- observado nos muitos depoimentos colhidos na pes- concordar que “é sua responsabilidade”. Outro ponto des de ensino que preocupariam os professores, mas a
questro do fundo público pelo capital, concretizado quisa (SGUISSARDI e SILVA JÚNIOR, 2009). relevante refere-se à natureza exógena da avaliação pressão realizada por este modelo.
graças às reformas das instituições republicanas. Leia-se um excerto do depoimento de um dos imposta à organização do programa avaliado, o qual Nós temos três professores que preferiram sair, e
As verbas destinadas à Educação ficam cada vez colegas entrevistados para essa pesquisa, no qual ele terá, ou não, financiamento diante do resultado desta tinha uma colega minha que falou assim: “eu mantenho

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a disciplina”. Ela dá duas disciplinas da pós-graduação. Num recente comentário na revista Nature, dois pes- vitória de Fernando Henrique Cardoso em 1998 e com acima. Por outro lado, a própria instituição universitá-
“Mas eu quero ser colaboradora porque eu não quero quisadores da Universidade de Cambridge relataram isso, a continuidade das mudanças institucionais que se ria pública se reestruturou. No plano administrativo,
mais orientar.” Porque ela não agüenta o estresse e a que cerca de uma dezena de seus colegas admitiram o vinha fazendo, marcadamente a partir de 1995, quando o docente entrevistado afirma que àquela época (2007)
pressão, parece sofrer muito. Então, eu tenho três pro- uso regular de drogas como Adderall, um estimulante, se institucionaliza a reforma do Estado brasileiro, e, exercia todas as atividades: graduação, pós-graduação,
fessores na pós-graduação que chegaram a esse acordo e Provigil, que promove o estado de vigília, para me- com isto, garantir-se-ia a forma hiperpresidencial, que atividades de pesquisa, atividades administrativas, e
de manter as disciplinas. “Não tem problema nenhum, lhorar seu desempenho acadêmico (11 mar. 2008). continuaria até pelo menos o sétimo ano do segundo detalhava: “porque eu faço parte de vários conselhos:
vou lá, dou as minhas aulas.” Aliás, são excelentes Outro depoente, dos muitos colegas que gentilmen- mandato do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2006, conselho do departamento, conselho da pós-gradua-
professores de pós-graduação, mas não querem mais te se dispuseram a colaborar conosco, correndo o ris- p. 70). ção, sou vice-presidente da comissão permanente de
orientar (informação verbal). co de, se identificados, serem estigmatizados na acade- E acrescentam, de maneira enfática, que: pessoal docente, e tenho agora sete alunos de pós-
O prazer da docência na pós-graduação é um fa- mia (traço cultural dissimulado, mas ainda presente Em outras palavras, enquanto ao crescimento do total de graduação e graduação”. Destacamos, aqui, que a
tor a ser destacado e, eventualmente, por meio da na cultura acadêmica), teve toda sua trajetória profis- matrículas na educação superior privada correspondeu formação dos graduandos em iniciação científica, bem
docência, o sentimento de pertença a um programa sional na mesma instituição, onde até hoje se encon- um aumento bastante próximo do total de funções do- como a dos pós-graduandos, no mestrado e no dou-
de pós-graduação fornece elementos de certo posicio- tra, e mostra a consciência sobre a intensificação e a centes, na educação superior pública, o crescimento torado, sob responsabilidade do docente, ainda que
namento acadêmico dentro da área, num contexto de precarização de seu trabalho, bem como sobre as do total de funções docentes foi inex- com a consciência que ele afirma ter
competitividade e concorrência. “Mas eu quero ser co- perversas conseqüências desta reforma na instituição pressivo ou ínfimo (6%) para um au- das mudanças institucionais, está sendo
A partir de 1997, o
laboradora porque eu não quero mais orientar”. Por universitária. Depois que expusemos os principais mento significativo das matrículas feita segundo a racionalidade que se
trabalho do professor
um lado, o não querer orientar sugere não se expor objetivos da investigação, ele relatou: (78%, ou 13 vezes maior). Isto impli- impôs, desde a reforma do Estado, em
aos perversos mecanismos de regulação e controle Fui credenciado, acredito, que em 1997, primeiro para
foi, paulatinamente,
ca dizer um real adensamento da car- 1995, ao seu trabalho e a toda instituição
da Capes, à competitividade na área, “porque ela não o mestrado e só em 2000 para o doutorado, e agora ga de trabalho dos docentes da IES, se intensificando, no republicana. Tendo consciência do pro-
agüenta o estresse e a pressão, parece sofrer muito”. exerço todas as atividades: graduação, pós-graduação, controlado pelos mecanismos da âmbito acadêmico e cesso, sentindo as mudanças e suas
Por outro lado, quer apossar-se do que há de positivo atividades de pesquisa, atividades administrativas, por- avaliação institucional, com base no administrativo. No plano conseqüências, contraditoriamente, o
no programa de pós-graduação: a docência em seu que eu faço parte de vários conselhos: conselho do de- Planejamento de Desenvolvimento acadêmico, o docente docente quer fazer seu trabalho e con-
campo específico de pesquisa, a própria pesquisa (sem partamento, conselho da pós-graduação aqui da CPG Institucional e no Projeto Pedagógico. foi credenciado para o tinua formando, segundo esta raciona-
financiamento ou com financiamento privado, isto [de sua área de conhecimento], sou vice-presidente da Isto se acentua quando se considera a mestrado e, em seguida, lidade, a próxima geração, nos três
põe-se, na condição de fundo público, a serviço do comissão permanente de pessoal docente, e tenho agora [...] expansão da pós-graduação havi-
para o doutorado, níveis citados. Não é de espantar que
capital no segundo caso) e publicações sem a “espada sete alunos de pós-graduação e graduação. Então, tudo da nos últimos dez anos pós-LDB, encontremos alunos da graduação que
num processo de veloz
de Dâmocles” do Instrumento Anual Coleta Capes e, isso que vocês falaram eu concordo plenamente, a gente posto que os dados sobre os quais necessitam ansiolíticos para irem para a
expansão da pós-
sobretudo, ao final do triênio, a avaliação do programa. só vai acumulando atividades (informação verbal). trabalhamos são predominantemente universidade e narcolépticos para dormir.
Trata-se de uma defesa consciente de si, em relação aos Antes de tudo, é necessário demarcar que o ano graduação no país.
relativos à educação superior na esfera Evento ainda raro, mas que já existe.
mecanismos citados. em que o depoente entrou para a pós-graduação coin- da graduação (SGUISSARDI; SILVA Voltando ao trabalho de Sguissardi, Silva
Mas, não se deve creditar toda esta negatividade cide com a implantação do atual modelo Capes de JÚNIOR; HAYASHI, 2006, p. 73, grifos nossos). Júnior e Hayashi (2006), destacamos o ponto em
ao demiurgo “modelo Capes de avaliação”; a cultura avaliação. Por outro lado, em trabalho desenvolvido São significativas estas duas conclusões sobre a que é feita a síntese de sua análise sobre a educação
dos programas alterou-se e as disputas políticas den- para o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas mudança estrutural da educação superior, pois nos superior no Estado de São Paulo, mas observando
tro dos programas de pós-graduação acentuaram- Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Sguissardi, Silva ajudam a compreender a situação dos docentes, em que, ainda que com algumas especificidades, esta era
se. A luta dentro da esfera da microfísica do poder, Júnior e Hayashi observam que: geral, mas especificamente na esfera estatal pública e a tendência na Região Sudeste e no Brasil. Os autores
esta, articulada com uma espécie de síndrome do po- O ano de 1997, segundo o censo da educação superior na educação superior. Pode-se indicar que, a partir de afirmam que:
der pequeno, tem realizado a destruição de pactos no período de 1991 a 2004, é o momento em que há uma 1997, o trabalho do professor, depoente para nossa Os 14 pontos aqui elencados para realizar a síntese
institucionais e de pessoas, levando-as ao divã do inflexão no número de instituições, de cursos, de vagas, pesquisa, foi, paulatinamente, se intensificando, no como indicado inicialmente permitem afirmações
psicanalista ou às drogas lícitas e ilícitas. É interes- mas também, o de uma relativa redução das funções do- âmbito acadêmico e administrativo. No plano aca- bem arrazoadas de que houve um largo processo de
sante, a propósito do que se está a analisar, citar o de- centes, de funcionários técnicos administrativos, desta- dêmico, o docente foi credenciado para o mestrado e, expansão, ao lado de extenso e intenso processo de
bate sobre o uso de estimulantes e narcolépicos por cadamente no setor público7. Um fato na esfera educa- em seguida, para o doutorado, num processo de veloz mercantilização da educação superior, chegando a pon-
pesquisadores e colegas da Universidade de Cambrid- cional é, sem dúvida, a promulgação da Lei 9.394/96, em expansão da pós-graduação no país. Neste período, to de reconfigurar toda esfera deste nível de ensino,
ge, segundo a notícia “‘Doping’ acadêmico vem à to- dezembro [de 1996], que se tornou um guarda-chuva teve seu trabalho qualitativamente modificado, posto especialmente no setor privado, cuja inferência que se
na na universidade” divulgada no Jornal da Ciência jurídico à sombra do qual o Poder Executivo pôde fazer que: 1) a organização do programa de pós-graduação pode tirar é a do esgotamento de seus fundamentos
da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência - a re-configuração da educação superior no Brasil. No modificou-se em razão da avaliação; 2) a cultura do organizativos. Quanto à esfera pública, existe uma
SBPC. Neste boletim informativo, pode-se ler: entanto, isto somente dar-se-á em razão da presumível programa também se modificou, como já apontamos acentuação das funções docentes e, em vez de expansão

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

do número de IES públicas, levantamos a hipótese de sua formação humana pelo Estado. É um Estado que mo um todo. Descontando a queda verificada entre pelo mercado, bem como a formação de profissionais
aumento de vagas por meio da educação à distância. deveria regular o processo econômico global e, de fato, os anos de 1997 e 1999, o aumento das instituições nos cursos de graduação e pós-graduação. Contudo,
Em acréscimo, a existência de uma exploração do tra- realiza o inverso: a racionalidade mercantil regula as de educação superior públicas, no período de 1995 a quando se observa o Gráfico 2, este mostra que, no
balho docente como resultado de políticas públicas atividades políticas deste próprio Estado, num pro- 2004, na Região Sudeste, é da ordem de 15%, como se setor público, pelo menos na Região Sudeste, isto não
para a educação superior quanto à carreira docente e cesso mediado e contraditório, em que o capital na- pode observar no Gráfico 1. aconteceu: no período de 1995 a 2004, o número de
à avaliação, com graves conseqüências para a própria turalizou a pertença do fundo público. Contudo, focando agora, especificamente, nas uni- professores em regime de tempo integral, regime em
saúde mental dos trabalhadores na educação superior, versidades públicas, muito mais impressionante foi o que se encontram todos ou quase todos os professores-
incluindo aí, como foi visto, os funcionários técnico- Alguns dados sobres as IFES e sua relação com a crescimento das matrículas na graduação, no Brasil, pesquisadores das universidades estatais públicas,
administrativos. Se as razões de tal quadro, no qual não precarização do trabalho docente como um todo, e, também, na Região Sudeste, durante apenas aumentou de cerca de 23 mil professores para
se pode concluir sobre democratização, podem ser cre- No início deste texto, adiantamos a hipótese de o período enfocado. No caso do Brasil, como um aproximadamente 26 mil, portanto, teve um aumento
ditadas às políticas do governo Lula, mais acentuada que as mudanças na identidade institucional da univer- todo, entre 1995 e 2004, as matrículas na graduação das muito abaixo do crescimento das matrículas, que, na
deve ser a crítica ao governo FHC. Outrossim, tal qual sidade estatal pública se inseriam num processo de universidades públicas aumentaram em 71% (INEP, região, correspondeu aos já citados 44%.
se busca mostrar no texto, há uma cultura pragmática e racionalização social específico, datado e localizado. 2009a), portanto, houve um grande esforço de amplia- Mais dramática se torna a situação quando são fo-
profissionalizante [e caritativa] que, originada no início No entanto, o processo racional a que se aludiu con- ção das vagas nas instituições já existentes. Na Região calizadas as funções técnico-administrativas, nas IES
do século XX, se faz presente nos dias atuais e orienta siste no processo de racionalização social do capitalis- Sudeste, houve, igualmente, um aumento significativo públicas, na Região Sudeste: segundo dados do INEP/
as reformas institucionais em geral e as mudanças na mo, que é movido a reformas institucionais com ori- do número das matrículas nas universidades públicas: MEC, estas sofreram um decréscimo10 de mais de 30%,
educação superior no período de 1991 a 2004 (SGUIS- gem no Estado. Deste modo, para um entendimento de 202.677, em 1995, para 291.575, em 2004, (INEP, no período 1995 a 2004.
SARDI, SILVA JÚNIOR e HAYASHI, 2006, p. 75). mais consistente do que acontece, não basta a simples 2009b), o que corresponde a um crescimento de 44%; Uma hipótese imediata é a de que os mesmos
Estas mudanças, observadas por meio dos indicado- apresentação dos dados, mas, em face do espaço deste total, em 2004, aproximadamente metade, ou funcionários tenham seu trabalho intensificado.
res financeiros e, no cotidiano das universidades, por deste texto, é necessária uma breve análise de seu sig- seja, 143.325 matrículas estavam nas universidades fe- Outra hipótese consiste na mudança do perfil deste
meio dos depoimentos de nossos colegas, mostram nificado. derais, da mesma região, que cresceram em 39%. No funcionário, dadas as tecnologias inseridas nas novas
situação de profunda ansiedade e inegável sofrimento Tomando, aqui, dados de sete IFES8, situadas na caso das sete universidades federais, selecionadas na formas de gestão das universidades estatais públicas.
do professor-pesquisador diante das imposições colo- Região Sudeste, como exemplo didático, discutiremos amostra do estudo (SGUISSARDI e SILVA JÚNIOR, Os novos sistemas administrativos, servidos por espa-
cadas sobre sua cabeça, de buscar pesquisas e con- o seu significado. 2009), um crescimento ligeiramente menor (26%) foi ços tecnológicos midiáticos, operam novas relações
tatos com pesquisadores de outros países, fazendo do Iniciamos, fazendo uma comparação entre todas verificado9. dos técnico-administrativos com os professores.
financiamento o grande indutor da intensificação do as Instituições de Ensino Superior (IES) públicas, no Esta expansão significativa das matrículas nos faria Muitas funções de competência daquela categoria
trabalho deste professor e estimulando o autofinan- Brasil, e aquelas situadas na Região Sudeste. supor um correspondente aumento de professores em foram repassadas para o professor, com ênfase para o
ciamento das universidades – uma lógica muito perver- Percebe-se que a tendência geral na Região Sudeste tempo integral, para manter o mínimo da produção professor-pesquisador. Três exemplos, dentre muitos
sa. Estes são mecanismos do controle do indivíduo, de não difere muito daquela observada para o Brasil, co- de pesquisas, publicações, tão exigidas pelo Estado e que se poderiam citar: 1) os muitos pareceres emitidos
Gráfico 1 – Evolução das taxas de crescimento das IES públicas – Brasil e Sudeste –1995-2004 Gráfico 2 – Evolução do número de docentes no período 1995 a 2004 em regime de trabalho
de tempo integral - Universidades públicas e privadas - Região Sudeste
% de crescimento das IES públicas Brasil e Sudeste - 1995-2004
Regime de trabalho - Tempo Integral
15,0
5.000
10,0 40.000
35.000
5,0 30.000
25.000

0,0 20.000
1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 15.000
10.000
-5,0
5.000
0
-10,0 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004

BR Público SE Público Total geral Total privada Total pública

Fonte: INEP (2006, p. 41) Fonte: INEP (2006)

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são feitos diretamente, via eletrônica, vagas, o que resultou no significativo recursos do Tesouro Nacional alocados para a manu- Outros elementos, que podem ilustrar a hipótese
com agências de fomento ou com re- Os novos sistemas crescimento de matrículas verificado, tenção do Sistema Federal de Educação Superior. Há em construção, referem-se aos gastos com pessoal e
vistas, dispensando o trabalho dos fun- administrativos, servidos da ordem de 40%, apenas na graduação, uma redução de 30% (em ordem de grandeza) do fi- encargos sociais de todas as IFES brasileiras e das sete
cionários técnico-administrativos; 2) por espaços tecnológicos conforme já comentado. Em particular, nanciamento estatal para as instituições da amostra, da Região Sudeste, no período 1995-2005 (com valores
o preenchimento de planilhas de notas no conjunto das sete IFES da amostra com exceção da Universidade Federal de Juiz de a preços de janeiro de 2006, corrigidos pelo IGP-DI
midiáticos, operam
de avaliação de alunos on-line; e 3) a isto correspondeu, no mesmo período, a Fora (UFJF) e da Universidade Federal do Estado da FGV), que mostram a mesma tendência apresentada
novas relações dos
apresentação do programa da disciplina um aumento de 29% nas matrículas, na do Rio de Janeiro (Unirio), cuja ordem de grandeza em relação ao financiamento total, na Tabela 1. Tam-
on-line, por meio de formulários ele-
técnico-administrativos graduação, e de impressionantes 112%, da diminuição oscilou em torno de 15%. Não é difícil bém nestes valores há uma redução de 29% na rubrica
trônicos que “obrigam” o professor a com os professores. na pós-graduação. Neste considerável inferir, destes dados, a situação que decorre desta re- das IFES, no período de 1995 a 2005. Quando é con-
apresentar com rigor seu objetivo e es- Muitas funções de empenho em prol da sociedade, as ma- dução de financiamento: a necessidade de siderada a amostra da pesquisa, com as
tratégias para o curso que ministrará. competência daquela trículas, na amostra das sete IFES, em busca pelos gestores da IFES de formas A situação que IFES do Sudeste, a tendência se repete,
Para completar a apresentação dos categoria foram 1995, chegaram a, respectivamente, alternativas de financiamento, entre as decorre da redução porém com uma redução em média su-
dados problemáticos, neste texto, a Tabe- repassadas para o 84.119 e 14.865, nos dois níveis. O quais talvez a primeira consista, de um de financiamento é a perior a 30% (SGUISSARDI; SILVA
la 1 mostra a involução do financiamento professor, com ênfase Programa REUNI, que praticamente lado, na mudança e/ou intensificação necessidade de busca JÚNIOR, 2007).
estatal para cada uma das sete IFES que obrigou as IFES a substantivos aumentos do trabalho do professor dessas univer- pelos gestores da IFES Estes dados revelam a tendência ao
para o professor-
constituem a amostra da pesquisa (que adicionais, com apenas 20% de recursos sidades por meio da prestação de servi- de formas alternativas fortalecimento da mercantilização e do
pesquisador.
resultou no livro referência deste artigo), a mais, muito contribuiu, em tempos ços, das parcerias público-privadas, empresariamento da educação superior,
de financiamento, entre
em comparação com o total dos recursos mais recentes, para o, ainda maior, dos fundos setoriais, da inovação tec- no contexto de naturalização do se-
as quais a mudança e/
financeiros destinados a essas instituições, da Região descompasso, entre a expansão das matrículas e a do nológica; de outro, em programas sociais questro do fundo público do Estado pelo
de caráter compensatório, como: o da
ou intensificação do capital. Revelam, ainda, que o professor-
Sudeste e ao conjunto de IFES do país. financiamento, hoje vivenciado.
É clara a informação que se extrai da Tabela 1: Ao observarmos a característica das séries numé- Universidade Aberta do Brasil (UAB) trabalho do professor pesquisador, para viver na condição do
houve, entre 1995 e 2005, um decréscimo da ordem de ricas representativas do financiamento nas três esferas e outros programas de Educação a Dis- dessas universidades por regime em tempo integral e dedicação
um terço no financiamento de cada uma das sete IFES (cada instituição da amostra, o total da amostra e tância; o Programa Universidade para meio da prestação de exclusiva, vê-se compelido a sujeitar-se
da amostra, do conjunto delas e do todo das IFES o total do país), vemos que, embora haja significa- Todos (ProUni), agora associado ao serviços, das parcerias às novas faces da educação superior no
brasileiras. Na contramão desta realidade, conforme tivas diferenças entre as instituições tomadas indivi- Fundo de Financiamento ao Estudante público-privadas, dos Brasil. Isto permite inferir que se está
já apresentado, todo sistema federal e, dentro dele, a dualmente, é nítida a semelhança entre as tendências. de Ensino Superior (Fies); o Programa fundos setoriais, da vivendo um radical processo de mudança
Região Sudeste, fez um grande esforço para expandir Isto é, é revelada uma significativa diminuição dos de Expansão e Reestruturação das Uni- inovação tecnológica. do ser social professor-pesquisador. Ele
versidades Federais (REUNI), inspirado deve, neste contexto, adaptar-se à nova
Tabela 1
Evolução dos recursos totais de todas as IFES e de sete IFES da Região Sudeste no Processo de Bolonha e imposto de forma persuasiva, instituição universitária e ao novo pacto social, que
(amostra da pesquisa) - Todas as fontes - 1995-2005 - Valores de janeiro de 2006, e por pressão financeira, somente às IFES, em 2007, se inspira grandemente no pragmatismo que se vem
corrigidos pelo IGP-DI da FGV, em R$ milhões e que, entre outros dispositivos, dobra o número de construindo desde os governos de Fernando Henrique
vagas, nestas; a Escola de Gestores, especialmente etc.. Cardoso, com fiel continuidade nos dois governos de
Anos UFES UFF UFJF UFMG Unifesp Unirio UFU Total 7 IFES Total IFES
É necessário informar que tais inferências se de- Luiz Inácio Lula da Silva.
1995 322 767 215 914 485 144 372 3.219 16.155
1996 281 699 208 839 490 138 341 2.996 14.558
vem, também, a outros dados e análises, que não Continuando com exemplos que podem ilustrar o
1997 261 668 206 822 416 141 309 2.823 14.302
se apresentam neste texto, mas fazem parte de ou- impacto causado no trabalho dos professores e em sua
1998 266 655 205 785 384 150 313 2.758 14.050
tros estudos e pesquisas dos autores Silva Júnior e formação humana, em geral, mas, em particular, no dos
1999 254 687 200 779 308 130 325 2.683 13.753 Sguissardi (2001), que já demonstravam a existência professores-pesquisadores, citamos, explicitamente,
2000 237 573 200 726 271 115 310 2.432 12.964 de uma reforma da educação superior “a conta- a questão salarial. Segundo a Secretaria de Recursos
2001 219 522 176 670 255 112 308 2.262 11.863 gotas” desde 1995, em cujo centro se encontrava, Humanos do Ministério de Planejamento, Orçamento
2002 221 551 189 673 244 113 291 2.282 12.063 dentre outras tendências, a redução do papel do Es- e Gestão (SRH/MPOG)11, o salário do professor,
2003 193 485 166 591 233 101 259 2.028 10.707 tado brasileiro no financiamento das instituições de titular doutor em regime de dedicação exclusiva, re-
2004 219 507 176 658 311 124 283 2.278 11.851 educação superior, ao lado de um incentivo velado à duziu-se de R$ 10.092,96, em 1995, para R$ 7.830,13,
2005 216 506 176 649 294 125 276 2.242 11.465 privatização e internacionalização desse nível educa- em 2007 - em valores corrigidos pelo IGP-DI da FGV,
1995/2005 -33,0 -34 -18 -29 -39 -13 -26 -30 -29 cional, resultado da racionalidade da reforma do a preços de janeiro de 2008. Houve, pois, no período
Δ (%) Estado que possibilitou legalmente a utilização do em questão, um decréscimo de aproximadamente 25%
Fonte: Amaral (2006) fundo público, predominantemente pelo capital. dos proventos do professor, num verdadeiro furto

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

perpetrado contra o professor-pesquisador das IFES, narcolépticos, sacrificarem seu tempo contribui para nossa formação humana
tendência que se fez presente também nas universidades livre, trabalhando nos finais de semana, O único modo de e esquecemos que, quando avançamos
estatais públicas, em geral. não saírem um mês completo em férias, resistência (resistência para além deste ponto, nossas atividades
não fazerem uso de licenças-prêmio que foi verbalizada e se voltam contra nós. Nossa falta de
À guisa de conclusão ou sabáticas por entenderem que não consciência e a ausência de coletivos
negada, mostrando
Considerando as atuais condições mercantis de teriam o que fazer. Aqui, põe-se a alie- a que possamos ter um sentimento de
a naturalização da
trabalho do docente na universidade pública e o que nação, mas não somente ela: põe-se pertença, e que tenham condições de
apresentamos sobre o financiamento e as mudanças também, mesmo que de forma não-
“sociabilidade produtiva nos defender deste mal invisível, fazem
jurídico-institucionais indicadas – que constituem o consciente, a possibilidade de resolução e reducionista”) torna-se com que nós mesmos nos levemos ao
horizonte de possibilidades institucionais para a rea- da contradição na direção da formação a doença, mental ou máximo de nossos esforços huma-
lização do trabalho cotidiano e da formação do pro- humana mais intensa. Um dos colegas, somatizada. nos: o único modo de resistência (re-
fessor-pesquisador na universidade estatal pública–, a quando indagado sobre suas licenças- sistência que foi verbalizada e negada,
tendência de sua formação direciona-se, em geral, para prêmio, respondeu: mostrando a naturalização da “sociabilidade produ-
uma reprodução institucional mercantil e pragmática, Eu nunca tirei uma licença, nunca! Licença prêmio, tiva e reducionista”) torna-se a doença, mental ou so-
que nega a liberdade acadêmica, a autonomia univer- licença sabática, qualquer coisa que você pensar, eu nunca matizada.
sitária e, conseqüentemente, a identidade da instituição tirei uma licença. [...] Porque o que eu vou fazer em casa O salário, por sua vez, é a mediação do professor-
universitária. Constrói-se, assim, uma contradição: por durante uma licença-prêmio? O que é que eu vou fazer? pesquisador com o mundo. O salário pode ser a
um lado, a instituição contribui para a consolidação do Licença sabática [...]. Sim, mas viajar pra onde? [...] e gra- medida do tamanho de sua capacidade de acesso à
pacto social e para o crescimento eco- pesquisador é contraditória. Por um na também, não tenho (informação verbal). cultura necessária à sua formação como ser humano e
nômico do país; por outro, deveria exer- Por um lado, a lado, o valor útil de seu trabalho imaterial Outra colega nos mostra a intensificação do tra- como professor-pesquisador, dimensões indissociáveis.
cer a função social da crítica institucional instituição contribui e intelectual é historicamente humano balho e o desenvolvimento de uma “sociabilidade Mostra, também, a potência institucionalmente criada
de seu tempo histórico e, sobretudo, de para a consolidação e o leva a uma dimensão humana mais produtiva e reducionista”, por naturalizarmos em para a adaptação do professor-pesquisador às mudanças
seus próprios objetivos. O processo de intensa. De outro lado, o valor de troca nosso cotidiano os valores que já constituem a cultura na universidade reformada, a universidade caritativa e
do pacto social e
mercantilização e de absorção do fun- de seu trabalho acadêmico, sendo o guia institucional mercantilizada e internacionalizada: neo-profissional, assim constituída e transformada pe-
para o crescimento
do público no âmbito da instituição do processo de sua socialização, traz Ah sim! Eu acho que depois... Eu já tive por causa do los programas que é impelida a adotar e pelos novos
universitária tende a enfraquecer o
econômico do país;
consigo, neste movimento, a potência trabalho, do estresse do trabalho eu tive uma gastrite he- papéis que é obrigada a desempenhar, como assinalado
equilíbrio histórico, liberal, desta con- por outro, deveria ontológica da formação humana mais morrágica e uma pneumonia junto, e só fiquei afastada anteriormente. O trabalho do professor-pesquisador
tradição, fortalecendo o primeiro de exercer a função social intensa. Isso pode ser visto nos itinerários 20 dias e foi por estresse, e foi exatamente por essa lou- e suas atividades mercantilizadas, articuladas com seu
seus pólos, enquanto debilita o segundo. da crítica institucional dos depoimentos de nossos colegas. cura. E a partir daí a única coisa que eu faço é que eu salário arrochado, como apenas indicamos, somente
Daí, dizer-se que a dimensão ontológica de seu tempo No início, eles nos pareciam em- tiro, pelo menos, meia hora pra sair pra almoçar, isso eu pode ser compreendido no contexto em que o capital
do ser social professor-pesquisador, na histórico e, sobretudo, polgados e orgulhosos de seus traba- faço! Tiro meia hora, 45 minutos. É aqui próximo, e eu fica com a maior parte do fundo público, obrigando a
direção do humano, é, aí, negada. de seus próprios lhos, orientados pelo produtivismo saio pra almoçar, porque antes teve uma época que eu intensificação do trabalho do professor para a manu-
No entanto, se a dimensão ontológi- objetivos. O processo acadêmico; no entanto, quando conti- já nem almoçava, entendeu? Eu fazia, comia um lanche tenção, tanto de um padrão minimamente digno de vida
ca é negada, por mercantilizar o trabalho nuávamos as indagações, forçando o aqui e ia direto. Tem muitos professores, eu não sou a quanto da própria universidade.
de mercantilização
do professor-pesquisador, tornando com pólo sobre o qual, conscientemente ou exceção, tem vários professores que seguem essa daqui,
e de absorção do
isso, em muitos casos, o produto de sua não, os professores não se expressavam, e tem gente aqui do andar que, por exemplo, chega mais Notas
pesquisa uma mercadoria (por exemplo,
fundo público no a tomada de consciência parecia se cedo do que eu (informação verbal).
uma patente ou um uma metodologia âmbito da instituição fazer presente. No plano empírico, este O trabalho imaterial, de maneira geral, tem um 1. Este artigo tem como referência o livro Trabalho Intensificado
para construção de projetos-políticos universitária tende a movimento fica mais claro. Ainda que limite pouco perceptível para o trabalhador e isto é
nas Federais: pós-graduação e produtivismo acadêmico (São Pau-
lo: Xamã Editora, 2009) de autoria dos professores Valdemar
pedagógicos para escolas da educação enfraquecer o equilíbrio tomando consciência da contradição, especialmente verificado em se tratando de trabalho Sguissardi e João dos Reis Silva Júnior.
básica), estas quase mercadorias põem histórico, liberal, pretendem continuar seu trabalho, imaterial superqualificado e que nos dá prazer. Torna-se
2. Fala do personagem de Lima Barreto no filme A volta de Lima
em movimento relações sociais, por desta contradição, contraditoriamente, querem continuar verdadeira droga lícita e legítima às nossas consciências, Barreto.
meio do valor de troca, mas somente o fortalecendo o primeiro fazendo o trabalho do mesmo jeito, ape- prenhes da ideologia do mercado, internacionalizada.
3. A acumulação flexível condensa as formas “pretéritas” e atuais
fazem tendo como materialidade o valor de seus pólos, enquanto sar de verem suas famílias desfeitas, de Frente ao enfraquecimento dos sindicatos e das as- de exploração do trabalho, atualizadas por novas e eficientes
útil do trabalho mercantilizado. prejudicarem sua saúde por meio do sociações científicas, em nossa defesa, não temos formas de controle  e valorização do capital. Nisto consiste a
debilita o segundo.
A formação humana do professor- uso de ansiolíticos, anti-depressivos, discernimento sobre até que ponto nosso trabalho grande e mais relevante inovação do capitalismo para manter sua

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

produtividade, diminuindo seu custo (o trabalho vivo) e con- autoria dos professores Valdemar Sguissardi e João dos Reis Silva PEREIRA, Luiz Carlos Bresser. Crise econômica e reforma SILVA JÚNIOR, João dos Reis; SGUISSARDI, Valdemar. As
seqüentemente realizando o desemprego e a reorganização do Júnior. do Estado no Brasil: para uma nova interpretação da América novas faces da educação superior no Brasil: reforma do Estado
mercado de trabalho material e imaterial e a desorganização das Latina. São Paulo: Editora 34, 1996. e mudança na produção. São Paulo: Cortez, 2001.
9. É interessante consultar detalhes nas tabelas de 23 a 29 e o
formas de representação da classe trabalhadora. Isto, ao lado da
resumo dos dados nas tabelas 22 e 30 da referência-base deste PINTO, José Marcelino de Resende. Os números do SGUISSARDI, Valdemar; SILVA JÚNIOR, João dos Reis.
assunção do poder de segmentos ditos progressistas, pode ser uma
artigo (SGUISSARDI e SILVA JÚNIOR, 2009). Entre 1995 e financiamento da educação no Brasil. Revista Proposições, Trabalho intensificado nas federais: pós-graduação e
chave de leitura para anomia intelectual e política, que hoje se põe
2004, o crescimento na amostra das sete IFES da região Sudeste Campinas, v. 85, n. 95, 2005. produtivismo acadêmico. São Paulo: Xamã Editora, 2009.
com muita intensidade na história recente da América Latina.
foi de 25,6% em matrículas da graduação e de 99% nas de pós-
POCHMANN, Márcio. Riqueza concentrada e trabalho em SMITH, ADAM. Do Rédito do Soberano ou da Comunidade.
4. Este autor e sua contribuição teórica e empírica sobre o trabalho graduação. A amostra escolhida abarca, com um total de 81.938
excesso. Folha de S. Paulo, São Paulo, p. 3, 21 mar. 2008. Em: Riqueza das nações. V. II. Lisboa : Fundação Calouste
imaterial ganhou visibilidade a partir de 1970. O tema veio à tona matrículas de graduação, em 2004, mais da metade das matrículas,
Gulbenkian, 1993.
na década de 1960, no âmbito do debate da sociologia do trabalho, nas IFES da região. SGUISSARDI, Valdemar; SILVA JÚNIOR, João dos Reis;
na França, e encontrou eco na Itália no que ficou conhecido como HAYA-SHI, Carlos Roberto Massao. Educação superior UFMG. Disponível em: <http://www.ufmg.br/proplan/
10. Ver Tabela 7, à p. 73 do livro Trabalho Intensificado nas
neomarxismo e operaísmo. Apesar das simetrias que encontramos brasileira - São Paulo – 1991/4. In: RISTOFF, Dilvo; GIOLLO, relatorios_anuais/relatorio_anual_2005/evolucao_qualificacao_
Federais: pós-graduação e produtivismo acadêmico (São Paulo:
com Lazzarato e Negri, esta corrente parece manter um diálogo Jaime (Org.). Educação superior brasileira 1991-2004. Brasília, docente.htm>. Acesso em: 15 mar. 2008.
Xamã Editora, 2009) de autoria dos professores Valdemar
crítico com os autores que tomam a materialidade econômica para 2006.
Sguissardi e João dos Reis Silva Júnior.
análise da reprodução social, tal qual entende György Lukács. A
reprodução social tem autonomia relativa, dada a materialidade 11. Disponível em: <http://www.servidor.gov.br>. Acesso em: 29
da economia, ainda que esta forma de nos formarmos na condição fev. 2008.
social – a reprodução social – jamais possa historicamente ser re-
duzida à economia. Mas, para tais autores, tudo parece indicar
Referências
que, com o debate sobre a produtividade do trabalho imaterial, a
tese marxista sobre a centralidade da categoria trabalho, tornada AMARAL, Nelson C. 1995-2005: execução orçamentária do
muito clara por Lukács em sua Ontologia do ser social, é algo governo federal. Brasília, DF, 2006. Disponível em: <http://
criticável, sugerindo certo conservadorismo. Os autores parecem www.camara.gov.br>. Acesso em: 26 jun. 2006.
compreender o trabalho imaterial embasados no espaço midiático
ANTUNES, Ricardo. (Org.). Riqueza e miséria do trabalho no
e mediador entre o trabalhador e os meios de produção, o que
Brasil. São Paulo: Boitempo, 2006.
faria grande parte da força de trabalho ser imaterial e produtiva.
Em razão das simetrias em relação a Lazzarato e de nossa posição COLI, Juliana. A precarização do trabalho imaterial: o caso do
mais próxima de Lukács, aceitamos o argumento do espaço cantor do espetáculo lírico. In: ANTUNES, Ricardo. (Org.).
midiático e a exigência de caráter mais imaterial, bem como a pró- Riqueza e miséria do trabalho no Brasil. São Paulo: Boitempo,
pria desconcentração de plantas industriais que contribuiriam para 2006. p. 98-141.
a acentuação da exploração do trabalho, o material produtivo,
HAYEK, F. A. The fatal conceit – the errors of socialism.
no contexto da acumulação flexível. Mas, enfatizamos que a
Chicago : The University of Chicaho Press, 1988.
existência destes tipos de trabalho é uma linha de continuidade
na economia, que é a esfera fundamental da reprodução social da INEP. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais
vida humana e das relações sociais de produção. Em razão disto, Anísio Teixeira. Educação Superior Brasileira: 1991-2004.
procuramos usar a expressão “sociabilidade produtiva”, em vez de Brasília, 2006. (São Paulo) Disponível em: <http://www.
“subjetividade produtiva”, posto que aquela seria construída pela publicacoes.inep.gov.br>.Acesso em: 10 mar. 2008.
prática social, na qual os valores e alternativas que se movimentam
______. Censo da educação Superior: 1995-2007. Brasília.
numa atividade humana constroem a subjetividade em cada prática
Disponível em: <http://www.inep.gov.br/superior/
que o ser humano realiza. Portanto, não há uma subjetividade fixa
censosuperior/sinopse>.Acesso em: 17 nov. 2009a.
do ser humano, ela é sempre movimento, em cada prática social,
em cada atividade humana. ______. Censo da educação Superior: 1995-2007. Brasília.
Disponível em: <http://www.inep.gov.br/superior/
5. O fundo público é constituído por toda arrecadação de recursos
censosuperior/sinopse/1995/4.1Sudeste.htm >. VerTabela 4.1.
públicos, especialmente todo tipo de tributo, nas três esferas de
Acesso em: 17 nov. 2009b.
governo. Isto é próprio do Estado, desde sua consolidação. Ver
(SMITH, 1993, especialmente, “Sobre os Gastos do Soberano) JORNAL DA CIÊNCIA. Brasil: Sociedade Brasileira para o
Progres-so da Ciência, 11 de março de 2008. Disponível em:
6. Capes: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
<http:www.jor-naldaciencia.org.br/detalhe.jsp?id=54782>.
Superior.
Acesso em: 29 mar. 2008.
7. Esta análise tem como objeto predominantemente o nível de
LAZZARATO, Michel. Trabalho imaterial. Rio de Janeiro:
graduação, não sendo analisada, portanto, de forma direta, a pós-
DP&A, 1997.
graduação e o impacto que sua expansão teve no período estudado
quanto a aumento de cursos, matrículas, vagas, funções docentes, ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A
regime de trabalho e funções técnico-administrativas. EDUCAÇÃO, A CIÊNCIA E A CULTURA. Declaração
mundial sobre educação para todos: satisfação das necessidades
8. Ver o livro Trabalho Intensificado nas Federais: pós-graduação
básicas de aprendizagem. Jomtien: Unesco, 1990.
e produtivismo acadêmico (São Paulo: Xamã Editora, 2009) de

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Alienação no trabalho docente?
O professor no centro das contradições
Denise Lemos
Pesquisadora do CRH/UFBA
E-mail: [email protected]

Resumo: O objetivo geral do estudo é analisar o processo de trabalho docente no âmbito da Universidade Fe-
deral da Bahia, no contexto das transformações operadas à luz das políticas neoliberais do Estado, buscando
identificar se existe a configuração de um processo de alienação do trabalho docente, a despeito de este ser um
trabalho cujo objetivo é emancipar o ser humano. Caracteriza-se o processo de flexibilização e precarização
do trabalho, que está ocorrendo a partir da implantação progressiva dessas políticas no ensino superior, que
atingem de forma significativa o papel da Universidade de produtora do conhecimento. O estudo demonstra
que o professor da UFBA se encontra no centro da contradição da crise universitária no momento em que se
percebe com plena autonomia e, por outro lado, não percebe os mecanismos crescentes de controle institucional,
configurando a alienação no trabalho docente.

Palavras-chave: Trabalho Docente; Alienação; Autonomia; Flexibilização e Precarização do Trabalho.

1. Introdução modelo de Universidade emancipadora, voltada para o

A
Universidade brasileira vive, hoje, um momento atendimento das necessidades sociais.
muito especial no que diz respeito à definição da Essa crise, vivida pela Universidade pública, é vi-
sua finalidade social. Por um lado, percebe-se um sível, inclusive, pelos títulos dos livros publicados nas
processo de privatização e de orientação da produção últimas décadas, a exemplo de: “Universidade dilace-
do conhecimento a partir da racionalidade do mercado, rada: tragédia ou revolta?”, de Luis Humberto Pinheiro
e por outro, a luta e a resistência do movimento do- (2004); “Universidade em ruína”, de Hélgio Trindade”
cente que, embora não tenha conseguido impedir a im- (2001); “Universidade sitiada”, de Luiz Carlos Menezes
plementação de algumas regras de cunho neoliberal na (2000); “Pesquisa alienada e ensino alienante”, de Silvio
educação superior, obteve algumas vitórias decisivas Botomé (1996); “Universidade em ritmo de barbárie”,
na luta para impedir a perda de direitos dos docentes e de José Giannoti (1986); entre outros. Essa literatura,
a privatização completa da instituição, defendendo um na sua grande maioria, preocupa-se com a progressiva

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

perda da autonomia universitária, suca- tanto nos graus de ensino quanto nos da no cotidiano do trabalho docente na Universidade Fe- central: “É possível identificar dimensões alienantes
teamento das Instituições Federais de Emerge a necessidade carreira. A fragmentação entre ensino deral da Bahia. do trabalho docente, mesmo considerando que a sua
Ensino, desqualificação do público e de investigar o trabalho e pesquisa está relacionada à cultura função é a emancipação das capacidades humanas?”
avanço da ideologia neoliberal aplicada docente, por ser, na da especialização e da competência, e 2. O processo de trabalho docente Foram analisadas as condições, a organização, as
à educação. sua essência ou na sua a sua reunificação se dá por critérios O exame das atividades do professor universitário, relações, com o foco nas categorias conceituais da
Diante desse quadro, emerge a definição clássica, um extrínsecos, de eficácia e rendimento. hoje, pode lançar luzes sobre a questão da sua identi- alienação e autonomia no trabalho. A amostra inten-
necessidade de investigar o trabalho trabalho a serviço da A separação entre decisão e execução dade no trabalho, assim como sobre as transformações cional foi estruturada a partir das classes na carreira,
docente, por ser, na sua essência ou na conduz à administração burocrática, ca- operadas ao longo do tempo, a partir das mudanças de titulação, área científica de atuação, década de ingresso
emancipação humana,
sua definição clássica, um trabalho a racterizada pela hierarquia funcional, rumo da Universidade pública. O termo docência tem na UFBA e cargos administrativos exercidos. Foram
do desenvolvimento
serviço da emancipação humana, do de- que fragmenta a tarefa, impedindo uma sido, tradicionalmente, usado para expressar o trabalho realizadas 30 entrevistas, distribuídas em todas as áreas
senvolvimento das capacidades huma- das capacidades visão de conjunto. do professor, mas existe um conjunto de funções que ul- do conhecimento: Ciências Humanas, Ciências Exatas,
nas, da crítica da realidade, da produção humanas, da crítica da A partir dessa fragmentação hierár- trapassam o exercício da docência. Hoje, oficialmente, a Ciências da Saúde, Letras e Artes.
do conhecimento para transformação da realidade, da produção quica, o modelo gera uma separação Universidade atribui aos professores quatro funções: o Existem diferentes percepções entre os professores
vida social. do conhecimento para entre os dirigentes das instituições uni- ensino, a pesquisa, a administração e a extensão. No que entrevistados a respeito das atividades docentes, sepa-
transformação da versitárias e o corpo de professores diz respeito à extensão, esta parece ser uma função pouco radamente, e da indissociabilidade entre elas. Um
1.1. A Universidade brasileira: retrato vida social. e alunos. Embora este dirigentes se- clara e pouco visível embora se defenda, reiteradamen- professor entrevistado da área da Saúde Coletiva, com
atual jam, também, professores, terminam te, a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, uma atuação intensa no âmbito da extensão, por meio
A Universidade, hoje, não consegue cumprir exercendo o papel de agentes do Estado dentro da como funções da Universidade, até porque, assim cons- de projetos de cooperação técnica, opinou que essas
totalmente a sua finalidade política, a de exercer o Universidade, com o objetivo de controlar e impor as ta da Constituição Brasileira e da LDB. três atividades não teriam que estar juntas, necessa-
pensamento crítico-criativo, nem ser plenamente uma diretrizes definidas em órgãos hierárquicos superiores, Cunha (1998) considera um desafio a busca por riamente, em função da existência de diferentes vo-
instituição direcionada para formar habilidades práticas representantes dos interesses do governo, que deter- esclarecer, clarear o que significa, exatamente, essa cações. Segundo ele, “existem professores que são
requeridas pelo mercado. Situa-se, aparentemente, minam a natureza do trabalho a ser executado. indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, ótimos pesquisadores e péssimos docentes e outros
numa “terra de ninguém”, mas altamente cobiçada pelo Tanto os documentos do governo de Fernando uma vez que não existe um acordo conceitual sobre o são ótimos para a cooperação técnica (denominação
poder econômico dominante, uma vez que representa, Henrique Cardoso (FHC) quanto os do governo Lula sentido, nem uma reflexão sistemática sobre o tema. A atribuída à atividade de extensão no Instituto de
cada vez mais, um negócio de alta lucratividade. Por da Silva defendem um outro tipo de autonomia da insistência atual em avaliar o ensino tem colocado esse Saúde Coletiva) e péssimos pesquisadores. Para ele,
ouro lado, termina sendo considerada pelo Estado Universidade, fundamentada na lógica do mercado, conceito no centro do debate, ora para qualificação uma Universidade plural tem que contemplar dife-
como um custo muito pesado, que deve ser adminis- significando, certamente, liberdade para a captação das instituições como Universidades, ora sendo ques- rentes vocações”. Trata-se de um professor titular, de
trado o mais rápido possível, o que explica as inúmeras de recursos no setor privado centralmente. Baseia-se tionado à luz do modelo americano, que discrimina as expressiva produção científica, inclusive em nível in-
intervenções realizadas pelos últimos governos, ao ainda em parâmetros de qualidade, produtividade e instituições universitárias entre aquelas que ensinam e ternacional.
introduzirem mudanças estruturais que conduzem a competência à moda empresarial, aferidas por um sis- aquelas que ensinam e pesquisam. Segundo a autora, No que diz respeito à atividade de pesquisa, existe
uma formatação da Universidade voltada para o aten- tema de avaliação quantitativa como condição para ob- a maior parte da comunidade universitária considera uma preocupação especial por parte do professor, pelo
dimento das necessidades do capital, abandonando tenção da dotação orçamentária. que há indissociabilidade quando o professor faz ensi- fato de ser a função que confere mais status acadêmico
assim o seu sentido clássico de produtora autônoma do A Universidade Federal da Bahia, como todas as no e tem projetos próprios de pesquisa e extensão, e visibilidade, provavelmente porque a prática da pes-
conhecimento, para se transformar na “Universidade outras instituições, sofre o impacto dessas mudanças havendo horários e compartimentos específicos para quisa representa um fator essencial na definição da ins-
neoliberal”. de forma significativa, perde 23,7% do seu quadro cada uma dessas funções. A idéia de indissociabilidade tituição de ensino como Universidade, como também
Como afirma Chauí (2001), “a Universidade está docente e sofre um processo de degradação física e se concretizaria pelo trânsito de experiências e conhe- na obtenção do apoio financeiro e reconhecimento
estruturada segundo o modelo organizacional da acadêmica sem precedentes, como consequência da cimentos que o professor leva aos alu- por parte das agências de fomento e
grande empresa, isto é, tem o rendimento como fim, política de restrição de recursos e congelamento de nos, como resultado de suas vivências Pergunta central: dos pares. Segundo uma professora de
a burocracia como meio e as leis do mercado como salários pelo MEC. Por outro lado, é possível tam- acadêmicas. “É possível identificar Educação Física, “muito professor só
condição”. Isso significa que é um equívoco reduzir bém visualizar esse impacto quando essa realidade é Com o objetivo de analisar o trabalho dimensões alienantes se sente valorizado pelo outro se esti-
a articulação Universidade-empresa às questões de confrontada com a sua concepção inicial, cuja carac- docente em suas dimensões fundamen- do trabalho docente, ver atrelado a um programa de pós-gra-
financiamento, uma vez que, além de participar da terística central foi a ênfase na dimensão cultural, tais, no contexto das transformações ope- mesmo considerando duação ou se ele for um pesquisador. A
divisão social do trabalho, que separa trabalho intelectual artística e nas humanidades, assim como a busca da radas à luz das políticas neoliberais do Es- que a sua função é Universidade perdeu um pouco o in-
e manual, ainda divide internamente o trabalho inte- integração do modelo ensino-pesquisa-extensão, na tado foi desenvolvida uma pesquisa de a emancipação das teresse pela questão da educação”. Essa
lectual em: atividade docente, administrativa e de gestão do Prof. Edgar Santos, nas décadas de 50 e 60. doutorado, no âmbito da Universidade professora encontrava-se no início da
capacidades humanas?”
pesquisa. A fragmentação ocorre em todos os níveis, Passamos então a analisar o impacto desse contexto Federal da Bahia, tendo como pergunta sua carreira como pesquisadora.

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Por outro lado, os professores entrevistados rela- prometendo a qualidade dos resultados acadêmicos. realmente, num momento em que para dar conta de tudo pesquisadores que são professores medíocres, quer
taram, na sua maioria, ter uma maior satisfação com Botomé (1996) especifica: o professor precisa ser um isso é difícil. Eu vivo num nível de excesso de trabalho, seja pela utilização de uma linguagem complexa e
a atividade de ensino, de sala de aula, apesar de alguns especialista num campo de trabalho, mas, também, realmente, inacreditável, para mim mesma. Isso significa, pouco accessível, quer seja pela dificuldade de rela-
apresentarem restrições ao ensino na graduação, pela precisa ser competente como pesquisador em uma que trabalhando nessas condições, não há férias regulares, cionamento com os alunos, ou pelas aulas muito cen-
dificuldade de lidar com os estudantes, de obter a sua área do conhecimento. Já temos aí duas profissões, não há lazer regulado, não há nada. O trabalho está me tradas no conteúdo, sem preocupação com a forma
atenção, motivação e valorização do conhecimento. mas existem outras exigências: ele precisa ser um invadindo, está exigindo uma capacidade física, que eu de comunicação etc.. Inclusive, algumas vezes, não
Algumas expressões foram usadas para definir essa professor de nível superior, capaz de ensinar e preparar não tenho para dar” (depoimento de uma professora da há conexão entre o conteúdo de sala de aula e aquele
percepção: “é bom ver os alunos crescerem”, “é bom ver profissionais, para realizar as tarefas mais complexas da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, em março oriundo da pesquisa.
o brilho nos olhos deles”, “adoro vê-los vibrando”. sociedade. E, além disso, precisa estar apto para ser um de 2006). Segundo Zabalza (2004), ambas as funções, pes-
Com relação à atividade de administrar órgãos administrador, pois vai defrontar-se com a necessidade Além do aspecto da sobrecarga decorrente das múl- quisa e ensino, necessitam de uma formação. A
universitários, a percepção de quase todos os entre- de gerenciar projetos de pesquisa e de ensino, coordenar tiplas funções, Mancebo e Franco (2003) ressaltam que, pesquisa é contemplada nos cursos de mestrado e
vistados é que se trata da função menos gratificante, grupos de trabalho e órgãos da estrutura administrativa no processo de flexibilização do trabalho, algumas doutorado, já a docência é um processo mais desa-
um sacrifício, perda de tempo, sendo que muitos dos universitária, como departamentos, cursos etc.. Precisa mudanças operadas afetam o docente, gerando uma companhado e irregular: “enfrentamos sozinhos,
professores entrevistados não gostariam de voltar a ainda ser um escritor razoável... perda de identidade, pela transfiguração das atividades apenas com nossas forças, um grupo de alunos, muitas
exercê-la. É possível compreender essa Uma das conseqüências das múlti- do ensino e da pesquisa. O ensino, flexibilizado pelos vezes, pouco tempo antes de acabar o curso, sem
aversão em função das dificuldades en- A atividade de plas atividades do professor, dessa po- cursos de curta duração, ensino a distância, “aligeira- nenhuma preparação específica para fazê-lo” (ZA-
contradas pela ausência de condições administrar órgãos livalência, é a sobrecarga de trabalho, mento” de currículos, insere-se num BALZA, 2004, p.155). Alunos esses
adequadas ao trabalho: falta de recursos universitários é que, por sua vez, gera a necessidade de processo, em que a mercadoria produzida Na prática, o que se cada vez mais contestadores, e que, com
financeiros, de apoio administrativo, com- percebida por quase trabalho no tempo de lazer, com conse- deve ser entregue de forma rápida e de observa é a existência, facilidade, colocam-se numa posição de
plexidade de procedimentos e do processo quências em termos de desgaste físico acordo com critérios de eficiência e pro- muitas vezes, de embate, de contraposição ao professor.
todos os entrevistados
decisório. Outro fator que dificulta esta e psíquico, assim como dificuldades na dutividade. E acrescentam que, nesse excelentes pesquisadores Esse desafio torna-se mais complexo
como uma função
atividade são as atitudes individualistas relação familiar. Quase todos os profes- contexto, a dimensão interrogativa e quando pensamos na heterogeneidade
menos gratificante, que são professores
por parte de parcela dos professores, que sores entrevistados relataram estarem crítica do trabalho docente, própria crescente dos estudantes universitários,
um sacrifício, perda medíocres, quer seja
quer fazer prevalecer, muitas vezes, os submetidos a uma sobrecarga de trabalho, ao espaço universitário, é subtraída, que possuem diferentes experiências
seus interesses individuais. de tempo, sendo que ausência de lazer e contato com a cultura, “retirando a formação e a prática profis- pela utilização de uma
anteriores de aprendizagem, com dife-
Botomé (1996) considera um equívo- muitos dos professores consequentemente, a um isolamento da sional, assim como a produção de co- linguagem complexa e rentes condições econômicas, que geram
co a existência do tripé ensino, pesquisa entrevistados não realidade social. De acordo com uma nhecimento, do campo da política e da pouco accessível, quer possibilidades desiguais de aquisição de
e extensão. Acredita que a função social, gostariam de voltar professora entrevistada, torna-se difícil ética”(MANCEBO; FRANCO, 2003). seja pela dificuldade livros, materiais didáticos e diferentes
a própria identidade da Universidade a exercê-la. conciliar as múltiplas atividades: de relacionamento disponibilidades de tempo para estudar.
realiza-se por meio da pesquisa e do Eu sou vice-diretora de um Centro, que é uma 4. A formação docente e a atividade com os alunos. De acordo com Dias Sobrinho (2001),
ensino, melhor concebidos e gerenciados do ponto atividade essencialmente acadêmica, mas que tem todo de ensino a retórica do conceito de qualidade,
de vista de sua contribuição social. Para o autor, se um gerenciamento na direção administrativa, que toma Em função das características estruturais descritas usada no âmbito educacional, é oriunda do Banco
a pesquisa for delineada de tal forma que melhore muito tempo da gente. Estou na vice-direção de um acima a controvérsia básica da formação docente gira Mundial, que opera um deslocamento, associando-a
a relação das pessoas com sua realidade, elevando outro Centro e, até o ano passado, eu estava na direção em torno da dupla orientação: ensino e pesquisa. O sempre à noção de “eficiência” que, em sua forma
a qualidade de vida, e se o ensino, por sua vez, for da SBCS. Hoje, eu sou da ANPOCS e da Revista Bra- que tem sido avaliado nos concursos de ingresso e ótima, se chama “excelência”. Essa “qualidade máxi-
planejado de forma a problematizar a realidade exis- sileira de Ciências Sociais também. Mas, para militar promoção são os méritos das pesquisas, o que os ma” deve ser quantificada, avaliada e comparada, es-
tente, e desenvolver-se no sentido de mudá-la, na di- nessas diversas áreas, eu tive que me aposentar, minha professores tendem a priorizar, por causa dos efeitos timulando a competição entre as instituições pelos
reção de superar os aspectos prejudiciais, geradores de aposentadoria no fundo foi quase uma contingência econômicos, uma vez que, o destino prioritário dos parcos financiamentos. A insistência na “excelência”
sofrimento e alienação, então, dessa forma, a neces- para eu poder expandir minha carreira, fora da Bahia; se investimentos para a formação do pessoal acadêmico visa selecionar os melhores, os mais dotados, para ti-
sidade da extensão deixaria de existir. você fica presa a um departamento, o nível de encargos é orientado principalmente para a formação em pes- rá-los do suposto marasmo geral e disponibilizar os
na graduação é de tal monta que, para você fazer pes- quisa. Isso faz com que, contraditoriamente, a do- melhores meios. Quando, então, se fala em um “novo
3. A multiplicidade de atividades – o professor quisa e participar dessas redes de trabalho externas, é cência transforme-se em uma atividade marginal dos perfil” que oriente um programa de formação docente,
polivalente impossível. docentes. A partir daí, desenvolve-se a crença de que, emerge o modelo de competência, amplamente na
Para ser um professor universitário brasileiro é E quando indagada sobre o seu lazer acrescenta: para ser um bom professor universitário, é necessário “moda” nas empresas hoje. E, quando se examina que
necessário o desempenho de uma multiplicidade de [...] não há uma divisão de tempo. Trabalho praticamente ser um bom pesquisador. Entretanto, na prática, o que “competências” seriam essas, surgem características
papéis que muitas vezes entram em contradição, com- todos os dias, sábado, domingo e feriados. Eu estou, se observa é a existência, muitas vezes, de excelentes voltadas para a personalidade do profissional, tal como

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

propõe Masetto (2003): adaptabilidade mente do movimento estudantil e outros uma grande dificuldade com os relatórios” (onde o radicalmente contra este tipo de visão, considerando
ao novo, criatividade, autonomia, comu- As Universidades movimentos sociais, e os estudantes de mesmo conteúdo tem que ser expresso de forma di- que, quem paga, define a direção do trabalho. Segundo
nicação, iniciativa e cooperação. Segundo públicas, à medida hoje. Afirmou ser necessário, uma li- ferente, para diferentes agentes de fomento e para a um professor entrevistado, o problema central é saber
o autor, “profissionais intercambiáveis, que são privatizadas beração de energia, um investimento Universidade). Essa parafernália de prazos, que se su- quem vai se apropriar dos resultados do trabalho dessa
que combinem imaginação com ação”. por dentro e, pessoal muito grande no estabelecimento perpõem, o deixam “praticamente escravo” de um tipo pesquisa, na sociedade e no interior da universidade,
Esse modelo proposto, aliado à racio- de um diálogo em sala de aula. Esse pode de rotina, que, muitas vezes, o desvia daquilo que a assim como, indagar sobre a origem dos recursos que
concomitantemente,
nalidade da meritocracia, termina por ser mais um fator que, provavelmente, “atividade de pesquisa pode ter de mais interessante, irão financiar o estudo.
adotam o modelo
se constituir numa outra “moda empre- está motivando os professores mais an- que é a atividade-fim”. É importante assinalar que, mesmo nos convênios
da produtividade
sarial”, que é o empreendedorismo, o tigos a se afastarem da graduação. É possível que, esse novo papel, por um lado, re- com instituições públicas, nos quais o beneficiário é
e da rentabilidade sulte na possibilidade de desenvolvimento de um re- a maioria da população, a questão da autonomia de
qual está intimamente relacionado com O professor universitário encontra-
a questão da empregabilidade. empresarial, também se, então, no centro de uma contradição: levante projeto de pesquisa e extensão acadêmica, mas, gestão do processo e a utilização dos resultados são
Parece, então, ser esse o perfil ade- demandam professores é consagrado pelo diploma de mestre, por outro, signifique uma distorção dos objetivos es- dimensões a serem analisadas, na relação com os
quado para adaptar o professor ao flexíveis, capazes de mas, na prática, é questionado em re- senciais da Universidade, fomentando um processo de agentes do Estado, tendo-se em perspectiva os objeti-
processo de flexibilização do trabalho, adaptar-se rapidamente lação à sua competência para ensinar; privatização por dentro. E, aí, pode se estabelecer uma vos essenciais da Universidade e as necessidades da po-
conforme descrito por Mancebo e aos cursos relâmpago, é formado em pesquisa, mas tem que contradição: ao mesmo tempo em que a Universidade pulação.
Franco (2003), no qual as Universidades avaliações quantitativas captar recursos para pesquisar, o que precisa relacionar-se com os diversos setores da socie-
públicas, à medida que são privatizadas demanda tempo para atender à burocra- dade, essa mesma relação pode significar um processo 6. A autonomia no trabalho: as diversas óticas e
por produção, prazos
por dentro e, concomitantemente, ado- cia administrativa; é demandado em ter- de alienação, no momento em que o produto do tra- dimensões
reduzidos e resultados
tam o modelo da produtividade e da mos de mudança na forma de ensinar balho é apropriado pelo capital, e não pelo Estado, em 6.1. A perda progressiva do financiamento da União
de aplicação imediata. benefício da maioria da população. Americano da Costa (2002) considera que o uso
rentabilidade empresarial, também de- pelos alunos, mas seu salário depende
mandam professores flexíveis, capazes de adaptar-se do número de publicações e outras atividades, que não Americano da Costa (2002) chama atenção para o constante de adjetivação desqualificadora do conjunto
rapidamente aos cursos relâmpago, avaliações quan- incluem o resultado efetivo na sala de aula. fato de que algumas dessas iniciativas, como a cobrança dos docente, ao nominá-los corporativos, ultrapassados,
titativas por produção, prazos reduzidos e resultados por atividades desenvolvidas pela Universidade, já estão antigos, não é capaz de esconder a realidade, causa
de aplicação imediata. Essa visão pode ser claramente 5. O professor “business” – o novo papel ferindo o princípio constitucional da gratuidade do fundamental da problemática, ou seja, a evolução do
deduzida, por exemplo, de algumas linhas de ação Além do ensino, pesquisa e extensão, na visão de en-sino (Art. 205-IV), ratificado pela LDB (Art.3-VI), financiamento da União para as Universidades Fe-
propostas por Masetto (2003): formação profissional Zabalza (2004), atualmente, novas funções agregam- restrito, agora, para cursos acadêmicos de graduação derais, que vem decrescendo ao longo dos anos, como,
simultânea com a formação acadêmica, por meio de se a estas, as quais tornam mais complexo o exercício e pós-graduação (mestrado e doutorado). Além disso, por exemplo, o corte do orçamento específico para
um currículo dinâmico e flexível, que integre teoria e profissional. Trata-se do “business”, ou seja, a busca ficou instituída a cobrança geral pela prestação de ser- a manutenção da pós-graduação e da pesquisa, que
prática; desestabilização dos currículos fechados, aca- de financiamento, negociação de projetos e convênios viços, via fundações privadas. Segundo a autora, na existiu até o final da década de 80. Segundo a autora, o
bados e prontos. com empresas e instituições, assessorias, participação, medida em que critérios e objetivos, padrões e prazos que restou cobre, deficitariamente, a folha de pessoal,
Por outro lado, o aluno também está submetido a como especialista, em diversas instâncias científicas. É são definidos pelos clientes e não pelos pesquisadores, despesas de manutenção e algumas necessidades da
essa complexa teia de tensões e contradições e, tam- necessário, ainda, fomentar as “relações institucionais” a autonomia universitária se transforma em heterono- graduação. Para ela, concomitantemente, a demanda
bém, encontra dificuldades de compreender e ser com outras Universidades, empresas e instituições, mia. E acrescenta que as conseqüências são: “a quebra espontânea de temas de pesquisa começa a perder es-
compreendido pelo docente. Suas principais percep- buscando reforçar o caráter teórico e prático da for- do princípio constitucional de gratuidade do ensino paço para a demanda estimulada, por meio da qual, as
ções: “o professor sabe muito, mas não sabe ensinar; mação e, em alguns casos, seu caráter internacional. nos estabelecimentos oficiais, a quebra do princípio da agências definem os campos e as áreas que serão fi-
o professor é um profissional competente em sua O autor acrescenta que, dentro desse conjunto de ati- iso-nomia salarial e a perda da autonomia universitária, nanciadas prioritariamente, em especial, os “Centros de
área, mas dá aula para ele mesmo; o professor reclama vidades, o ensino deixou de ser a prioridade para as pelo atrelamento das suas atividades à lógica do mer- Excelência”, via os correspondentes programas (PRO-
que ganha muito pouco e, por isso, não se dedica ao instituições de ensino e para os próprios professores cado e aos interesses privados”(AMERICANO DA NEX). A existência de fundos setoriais, que demarcam
magistério como deveria; o professor não se dedica só e a docência sofreu importantes transformações, ao COSTA, 2002). os campos do conhecimento e as linhas de pesquisa a
à sala de aula, então, falta, negligencia e comenta, fre- longo do tempo. Sevcenko (2000, apud MANCEBO; A maioria dos professores entrevistados na pes- serem financiados, estreitou ainda mais a possibilidade
qüentemente, que tem coisas mais importantes para FRANCO, 2003) considera essas atividades que fo- quisa concorda com as pesquisas encomendadas por de as universidades, autonomamente, seguirem suas
fazer; o professor é autoritário, tanto na ação docente ram agregadas, essa polivalência, como facetas da flexi- instituições públicas ou privadas, desde que sejam sub- vocações científicas, artísticas e culturais.
quanto na avaliação” (LEITE et al., 2003, p.62). bilização do trabalho. metidas a uma avaliação ética. Um professor opinou Mancebo e Franco (2003) argumentam que o
Uma professora de Letras argumentou que exis- Segundo um professor entrevistado, a atividade de que o que existe é pouco, que deveriam existir mais objetivo do governo é estimular uma dinâmica de
te uma distância cultural muito grande entre os pro- pesquisa é para ele uma “imposição”, não por causa encomendas, motivadas pela necessidade de resolver “competição administrada”, na qual é conveniente que
fessores, que, enquanto estudantes, participaram ativa- da atividade em si, mas, em função, segundo ele, “de problemas sociais concretos. Alguns professores foram Departamentos e Institutos concorram entre si pelas

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

verbas e pelo sucesso, “o que significa professores e depende das decisões da área econômica. Um outro são definidas externamente. Os programas de pós- queremos chegar com a formação dele (depoimento de
estudantes disputando as bolsas, as migalhas, as va- órgão importante na condução da política do ensino graduação obedecem a uma avaliação de desempenho uma professora da Faculdade de Educação, em maio
gas nas salas das instituições públicas”. Segundo as superior é o INEP, cuja função, historicamente, era a que os classifica de acordo com o mérito, segundo de 2006).
autoras, nesta situação, a competição é o motor do de desenvolver pesquisas e reflexões sobre a educação, critérios extrínsecos. Os próprios pesquisadores tam- Um outro aspecto é que se trata, de uma forma
desempenho coletivo e que é conveniente, de certo mas que teve seu papel cada vez mais ampliado, no bém são classificados de acordo com a sua produ- geral, de uma percepção restrita ao cotidiano do tra-
modo, “que todos sejam mal aquinhoados, para sen- sentido de produtor de dados, realizando censos dos tividade científica, medida a partir de critérios defini- balho, sem a consideração dos outros âmbitos de
tirem, na devida medida, a importância da disputa” diversos níveis educacionais, inclusive, criando no- dos extrinsecamente. E, acima de tudo, foi criado o determinação institucional. A grande maioria dos pro-
(MANCEBO; FRANCO, 2003, p.194). vos mecanismos de avaliação, a exemplo do Exame SINAES (Sistema Nacional de Avaliação do Ensino fessores entrevistados desconhecia o processo pro-
Dessa maneira, vai se configurando outra contra- Nacional de Cursos e outros mais recentes, como o Superior) e a CONAES (Comissão Nacional de gressivo de perda da autonomia docente, no âmbito
dição que é, de um lado, a necessidade de o professor ENEM e o ENADE. O CNE é um órgão que fun- Avaliação do Ensino Superior). Assim, a autonomia financeiro, assim como também não foi possível, para
buscar a integração do ensino com a pesquisa e, assim, ciona de forma autônoma, podendo criar políticas relativa do docente vai se restringindo cada vez mais eles, perceber a progressiva introdução de mecanismos
legitimar-se diante dos colegas e da Instituição, fugindo para o ensino, mas depende da chancela do Ministro. e, até, se transformando numa “ilusão de autonomia”, de avaliação e de controle pelo Estado, principalmente,
do rótulo de mero “reprodutor do conhecimento”, e, O processo funciona da seguinte maneira: o CNE como opina uma professora entrevistada, da área da na década de 90. Muitos deles desconhecem, inclusive,
por outro lado, a imposição de se inserir na competição emite um parecer sobre determinada matéria, que Engenharia de Transportes. a natureza desses mecanismos, enquanto que outros os
por recursos internos e externos, para a qual não foi é encaminhado ao MEC; se for homologado, passa percebem como legítimos, necessários e desconhecem
habilitado. E o mais central, que é, mui- a se constituir numa resolução, com 6.3.A percepção do professor sobre a sua autonomia as propostas emancipadoras geradas dentro da pró-
tas vezes, a migração para temas de pes- O objetivo do governo força de lei; se há uma demora na res- A temática da autonomia vai se pria Universidade. Há também os que
quisa estranhos à sua vocação, mas que é estimular uma posta do MEC, o CNE fica legislando configurando a partir da percepção Os programas de pós- legitimam a busca de recursos na ini-
têm recursos financeiros alocados. dinâmica de “competição temporariamente (SOARES, 2002). dos professores, como a principal graduação obedecem ciativa privada como alternativa de fi-
administrada”, na Se a essa estrutura acrescentarmos contradição vivida, na perspectiva da a uma avaliação de nanciamento da Universidade.
6.2. O trabalho docente sob controle qual é conveniente o Ministério da Fazenda, o do Planeja- análise da alienação no trabalho do- desempenho que os Em síntese, há um nível geral de de-
A questão do financiamento, interno que Departamentos e mento e a Casa Civil (Órgãos partici- cente. Essa contradição é expressa de classifica de acordo sinformação sobre aquilo que tem sido
e externo, é uma forma importante pantes da elaboração do Projeto de Lei diversas formas: de um lado a autono- com o mérito, segundo produzido, tanto pelo sindicato, que
Institutos concorram
de controle da produção do trabalho da reforma universitária), verificamos mia é valorizada como o aspecto mais representa a grande maioria dos pro-
entre si pelas verbas critérios extrínsecos. Os
docente, mas ainda existem outros a existência de uma complexa teia de fundamental na motivação para o tra- fessores das IFES, quanto pela própria
e pelo sucesso, “o que próprios pesquisadores
mecanismos acionados por órgãos relações institucionais, uma superestru- balho, mas essa mesma autonomia gera Universidade, em termos de análises e
significa professores e também são classificados propostas para o sistema universitário
acadêmicos, que visam outro tipo de tura de gestão do ensino superior, em um não cumprimento, por parte de al-
controle: o desempenho acadêmico. estudantes disputando especial das IFES. A conseqüência é guns, das regras coletivas, que, por sua de acordo com a sua e para o trabalho docente. Dessa forma,
Do ponto de vista da estrutura do as bolsas, as migalhas, um aumento do controle, que se torna vez, também não estão claras. Se, de produtividade científica, a contradição invisível é o fato de que
Estado, três órgãos interferem mais dire- as vagas nas salas das cada vez mais efetivo, como é possível um lado, a autonomia implica liberdade medida a partir de o grau de autonomia percebido pelos
tamente na gestão das IFES: a SESU (Se- instituições públicas”. vislumbrar na “ampliação” das funções na definição do conteúdo do trabalho, critérios definidos professores não corresponde ao grau
cretaria de Ensino Superior do MEC), da SESU e do INEP, que passam, pro- esse mesmo exercício isola e impede o extrinsecamente. de autonomia existente, quando se con-
o CNE (Conselho Nacional de Educação) e o INEP gressivamente, a exercer um papel controlador, no docente de conhecer o trabalho do ou- sidera todos os âmbitos da vida institu-
(Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos). Cabe à geral, e, em específico, no nível didático-científico. Fi- tro, o que gera, possivelmente, conflitos de saber e po- cional, ou seja, a autonomia percebida pelo professor é
SESU a formulação de políticas que, quase sempre, são cam, portanto, as IFES sendo regidas, em parte, por der. É como percebe uma professora: muito maior do que a autonomia que, de fato, é pos-
referendadas pelo Ministro, sendo que, nos últimos um conjunto de órgãos internos e por um conjunto Eu tenho ampla, total, completa e absoluta autonomia, sível exercer.
anos, sua atividade se expandiu, passando a produzir de órgãos externos, muitas vezes, a partir de diferentes sinto-me autônoma e democrática. Eu faço meu traba-
decretos e portarias, que direcionam os rumos do en- conceitos e referências. Todo esse aparato estrutural lho com muita autonomia, mas gosto de dividir, eu que- 7. A participação decrescente no movimento
sino superior, como, por exemplo, o credenciamento termina por gerar uma sobrecarga de demandas para a ro conhecer o que as outras pessoas fazem. Cada um docente – o surgimento do “militante de
de instituições, autorização e reconhecimento de instituição e para o docente. fica no seu gueto, no seu canto, na sua sala e não divide. conteúdo profissional”
cursos, sendo responsável, conseqüentemente, pelo Uma das conseqüências dessa superestrutura de Eu quero saber como usar melhor as novas tecnologias Existe uma gama muito variada de posições dos
estabelecimento do padrão de qualidade que as IFES controle é a perda progressiva da autonomia docente da educação, mas preciso que alguém me ensine, diga- docentes em relação à percepção do movimento do-
devem atender. Por outro lado, o orçamento das IFES sobre o seu objeto de trabalho, sobre o fazer acadêmico. me o que fazer. Eu gosto da autonomia, mas não gosto cente e em relação à sua própria participação. Essas
é também submetido à SESU, o que origina pressões A entrada (ENEM) e saída (ENADE) dos alunos da do isolamento. Isso aqui é uma faculdade de Educação, posições vão desde a rejeição à discussão política, como
por aumento de recursos por parte das IFES, às quais graduação são avaliadas por instâncias extrínsecas mas que não tem integração. Não temos um objetivo, comenta uma professora de Física - “você não pode
a SESU não tem autoridade para ceder, uma vez que à Universidade. As diretrizes curriculares também não temos resposta para o aluno que pergunta onde nem abrir a boca para dizer nada, se falar em greve,

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DCE, você é um dinossauro, é um xingamento, essas dividualistas, preocupados apenas com a sua carreira e diminuição de prazos de conclusão das para a pesquisa (por meio de recursos e
instituições perderam a função, estão sendo apagadas não com a instituição universitária. teses, prestação de serviços às empresas. Todos os níveis recompensas), transformando o ensino
da Universidade” -, até o assumir um papel político na Na procura por explicações emerge a percepção É o conhecimento sendo tratado como institucionais exercem em algo menos importante, até mesmo
condução da aula, da pesquisa ou da extensão. Poucos de que a busca pelo título de doutor, condicionado, mercadoria, numa Universidade cada um tipo de controle aversivo para alguns professores; quando
são os professores que possuem uma militância efetiva num plano mais objetivo, pela obtenção de um melhor vez mais neoliberal. sobre a sua vida na por meio do financiamento individual
num órgão de classe ou num partido político. Um salário, pela viabilização de pesquisa e publicação, e, O professor, dentro desse processo, academia, do Presidente externo e do sistema meritocrático é es-
conceito que emerge desse debate é uma concepção de no plano da subjetividade, pela visibilidade como vai ficando progressivamente impren- da República ao aluno. timulada a competição, que gera o esga-
militância política dentro da Universidade, a partir do docente e pelo reconhecimento de mérito, é um dos sado por uma superposição de contra- çamento do vínculo social e conflitos
O professor reage a esse
exercício crítico no campo profissional específico em fatores responsáveis pela despolitização do profes- dições que chegam até ao cotidiano interpessoais, criando, muitas vezes, um
supercontrole, isolando-
que o professor atua. sor. Uma professora entrevistada argumentou que a do seu trabalho. Todos os níveis insti- clima de trabalho desfavorável à integra-
Um professor entrevistado, do curso de Ciências “meritocracia universitária é a garantia da emprega- tucionais exercem um tipo de controle se, reproduzindo o ção do conhecimento.
Sociais, afirmou que desenvolveu durante muito bilidade do docente”. sobre a sua vida na academia, do Pre- modelo autoritário,
tempo uma atividade política muito intensa, mas que, A partir desse envolvimento com o processo de sidente da República ao aluno. Ele rea- inserindo-se na corrida Referências
hoje, não o faz mais, que apenas exerce a atividade qualificação permanente, instala-se um cotidiano per- ge a esse supercontrole, isolando-se, pela titulação e AMERICANO DA COSTA, N. M. A. da.
acadêmica; entretanto, continua ligado politicamente meado por inúmeras atividades e uma sobrecarga de reproduzindo o modelo autoritário, publicação, competindo Reflexões e propostas: universidade com autonomia.
Proposta elaborada para a postulação ao cargo de
a algumas pessoas, que demandam que escreva artigos demandas, que terminam por isolar o docente, em inserindo-se na corrida pela titulação e com os pares, enfim, Reitora da UFBA. Salvador, 2002.
e prepare intervenções. A posição de um professor alguns casos, na sua própria casa. A conseqüência publicação, competindo com os pares, criticando algumas BOTOMÉ, S. P. Pesquisa alienada e ensino
de outra área também denota essa concepção de é, cada vez mais, a extinção da prática interativa, da enfim, criticando algumas dimensões,
dimensões, mas lutando, alienante. Rio de Janeiro: Vozes, 1996..
“militância de conteúdo profissional”. associação com o outro, para fins cole- mas lutando, dirigindo suas energias CHAUÍ, M. Escritos sobre a universidade. São
A conseqüência é, cada dirigindo suas energias
Pela trajetória dos professores en- tivos. Vai se perdendo o sentido da coo- na busca da sua inserção no modelo Paulo: Ed. UNESP, 2001.
vez mais, a extinção da na busca da sua inserção CUNHA, M.I. O professor universitário – na
trevistados foi possível verificar que peração e da solidariedade. proposto. E esse esforço, essa busca são
uma parcela significativa foi militante prática interativa, da Segundo Pinheiro (2004), as caracte- permeados de contradições: a carreira no modelo proposto. transição de paradigmas. São Paulo: JM Editora,
1998.
do movimento docente, em outros associação com o outro, rísticas históricas construídas pelo mo- não o desenvolve como professor e sim DIAS SOBRINHO, J. Concepções de Universidade e de avaliação
sindicatos, ou de algum partido de es- para fins coletivos. Vai vimento docente nacional, a partir da como pesquisador; para pesquisar precisa acionar a institucional. In: TRINDADE, H. Universidade em ruínas – na
querda, mas a partir da década de 90 se perdendo o sentido década de 70, eram a combatividade, habilidade de captador de recursos, para a qual não foi república dos professores. Petrópolis: Vozes, 2001.
deixaram de sê-lo. E, ao se afastarem da cooperação e da a perspectiva classista, a autonomia, a habilitado; quando consegue recursos externos, corre FILGUEIRAS, L. Faculdade e indústria, parceria possível e necessária.
Gazeta Mercantil, São Paulo, p.2., 10 jun. 1998.
da militância, buscaram construir um solidariedade. discussão de idéias, a organização por o risco de ser visto como possuindo uma “vida dupla”;
GIANOTTI,J.A. A universidade em ritmo de barbárie. São Paulo:
papel como professor, que pudesse se local de trabalho, a decisão pela base, se não consegue recursos, sente-se desprestigiado e Brasiliense,1986.
aproximar desse papel de militante. Essa aproximação por meio de assembléias e congressos. A reestrutu- revoltado por possuir uma alta qualificação profissional LEITE, D; BRAGA, A M; FERNANDES, C. et al. A avaliação
inclui a dimensão de ser um “observador crítico”, um ração do trabalho acadêmico, o esvaziamento material e uma precária condição de trabalho. E, a despeito de institucional e os desafios da formação do Docente na Universidade
“apoiador da decisão coletiva da greve” e a “assessoria e cultural da Universidade pública, a diferenciação e todo esse esforço, muitas vezes é colocado no papel de pós-moderna. In: MASETTO (Org.). Docência na Universidade. São
Paulo: Papirus, 2003.
a organismos sociais, por intermédio de uma visão hierarquização dos docentes, enfim, a ofensiva neoli- “bode expiatório” do sistema universitário, quando é
MANCEBO, D.; FRANCO, M. E. D. P. Trabalho docente: uma
crítica da realidade”. Por outro lado, as assembléias, beral impôs, na década de 90, a desmobilização, o recuo percebido como “sem compromisso”, inclusive pelos análise das práticas intelectuais em tempos de globalização. In:
Congressos e Encontros contam com um número cada defensivo do movimento docente. Em contraposição, próprios pares. DOURADO, L. F.; CATANI, M.; OLIVEIRA, J. F. (Orgs.). Políticas
vez mais reduzido de professores para a deliberação cresceu a burocratização, o autoritarismo, o dirigismo A alienação no trabalho docente vai se configurando e gestão da educação superior. Goiânia: Alternativa, 2003.
sobre o rumo do movimento docente, o qual termina centralizado e o assistencialismo na esfera sindical. no momento em que a consequência do encadeamento MASETTO, M (org). Docência na universidade. São Paulo: Papirus,
2003.
sendo criticado por aqueles que não comparecem às dessas contradições opera no sentido de transformar
MENEZES, L.C. Universidade sitiada. São Paulo: Fundação Perseu
atividades políticas do movimento. 8. A alienação no trabalho docente? o produto do trabalho intelectual, progressivamente, Abramo, 2000.
Com relação aos novos professores, que entraram A análise apresentada vai configurando um quadro em mercadoria a ser apropriada, pelas empresas ou PINHEIRO, L.H. Universidade dilacerada: tragédia ou revolta?
nos últimos anos, “os novos doutores”, muitos de- que apresenta a Universidade e o ensino superior pelo Estado, que, cada vez mais, definem a demanda, Edição do próprio autor, 2004.
les jovens, sem história de militância política, sem como submetidos à mesma lógica da reestruturação retirando do professor essa prerrogativa. A alienação SOARES, M. S. A. Os principais atores da educação superior no
Brasil. In: SOARES, M. S. A. Educação superior no Brasil. Brasília:
uma experiência anterior, principalmente no ensino, a produtiva que se deu no mundo do trabalho, dentro se aprofunda quando, dentro da própria instituição CAPES, 2002.
percepção dos professores antigos em relação a estes das empresas. De um lado, a fragmentação do conheci- universitária, a sua direção se identifica e age de TRINDADE, H. A universidade em ruína – na república dos
é de que eles já entram na universidade pública num mento e a limitação da capacidade de decisão, do outro acordo com as demandas externas, aprofundando a professores. Petrópolis: Vozes, 2001.
nível de condicionamento quanto aos valores neoli- a flexibilização dos contratos de trabalho, dos cursos fragmentação entre planejamento e execução, pensar ZABALZA, M. A. O ensino universitário – seu cenário e seus
berais muito mais significativo, o que os torna mais in- (curta duração), da metodologia (ensino à distância), e agir; na medida em que o Estado orienta a carreira protagonistas. Rio Grande do Sul: Artmed, 2004.

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Universidade e precarização: considerações sobre
o processo de trabalho dos servidores da UFF
Emilly Pereira Marques
Assistente Social graduada pela Escola de Serviço Social/UFF.
E-mail: [email protected]

Marina Barbosa Pinto


Professora da Escola de Serviço Social/UFF
E-mail: [email protected]

Resumo: Este trabalho apresenta uma reflexão sobre as repercussões da reestruturação do Estado brasileiro,
com recorte nas universidades públicas, para a saúde dos servidores nelas lotados. Compreendemos que o
Estado brasileiro, nas duas últimas décadas, passa a ter seu funcionamento organizado a partir da lógica
gerencial, o que produz alterações estruturais nos serviços públicos, exigindo um novo perfil de servidor.
Estas exigências, somadas à ressignificação do caráter público da universidade, produzem uma condição de
adoecimento destes trabalhadores. Nosso estudo empírico se dá no Serviço de Prevenção e Apoio Sócio-fun-
cional da Universidade Federal Fluminense, localizado no Departamento de Desenvolvimento em Recursos
Humanos, que atende aos servidores técnico-administrativos lotados na universidade.

Palavras-chave: Ensino Superior; Contrarreforma do Estado; Trabalho; Serviço Público.

Introdução trarreformista em curso, sendo esta mais um campo

N
a conjuntura atual vivenciamos um duro proces- para empresariamento e lucratividade do capital.
so de desmonte do Estado e de seus serviços A elaboração deste trabalho objetivou relacionar
públicos, determinado pelo projeto neoliberal o presente processo de desmonte na universidade, e
e pelas estratégias do capital. Neste cenário a classe seus determinantes, com os impactos nas condições
trabalhadora está diante de um retrocesso de seus di- concretas de trabalho dos servidores, na Universidade
reitos e conquistas sociais, percebido, por exemplo, no Federal Fluminense (UFF).
ataque às políticas setoriais e nas desregulamentações Debater as condições de trabalho nos serviços pú-
das relações de trabalho. blicos e, neste artigo, especificamente no ambiente
Analisar a universidade em meio a estes determi- universitário, é relevante para desconstruirmos a idéia
nantes é entendê-la como partícipe do processo con- destes como espaços ideais de trabalho seguro e estável.

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Ao contrário, eles têm sofrido um grande impacto da O Brasil havia vivenciado um processo de redemo- contrarreformas neoliberais, articuladas pelos orga- que é consolidá-los como mais um campo lucrativo
lógica gerencial, própria do sistema capitalista, dentro cratização, na década de 80, que abalou as estruturas nismos financeiros internacionais, pelos empresários para os capitalistas.
do qual a fronteira entre o público e o privado está burguesas, devido ao grande potencial organizativo vinculados ao grande capital e pela burocracia estatal Lula da Silva assume, em 2003, a presidência do país,
cada vez menos delineada. dos trabalhadores, em busca, não somente, de eleições a eles associada. Como demonstrado por Abramides e que esteve por quase uma década nas mãos do grande
Nossa pesquisa realizou-se pela análise das ex- diretas, objetivando o término do período ditatorial, Cabral (2003), a implantação da ofensiva neoliberal no capital, especificamente, dos seus setores parasitário-
periências de atendimento do Serviço Social aos ser- mas, também, de melhorias concretas para suas con- Brasil vem imprimindo: financeiros. Os princípios norteadores da contrarre-
vidores da UFF, no Serviço de Prevenção e Apoio dições de vida. A ofensiva burguesa dos anos 90, que se uma política monetarista com ajustes econômicos efe- forma do Estado, implantada no país pelo paradigma
Sócio-funcional (SPSF), vinculado ao Departamento seguiu, impôs novas bases às relações sociais, norteadas tivados com base na oferta monetária, na privatização bresseriano4, permanecem e aprofundam-se no Go-
de Desenvolvimento de Recursos Humanos da univer- pela mercantilização, descoletivização e despolitização de estatais e de serviços públicos rentáveis, no corte verno Lula, dando continuidade ao “reformismo” e
sidade, que tem por objetivo atender prioritariamente de direitos. nos gastos sociais, até com demissão de trabalhadores ao Estado gerencial baseado na eficiência, controle de
aos servidores técnico-administrativos e acompanhar as A política neoliberal com suas estratégias de en- em serviço público, na transferência de renda e de resultados e flexibilização, complementando as inicia-
questões conflituosas que envolvem o corpo funcional frentamento da crise por meio de propostas ma- patrimônio público para o setor do capital privado, tivas de seu antecessor na presidência, FHC.
da universidade. croeconômicas e contrarreformas estruturais3, espe- na quebra de monopólios com a entrada do capital Netto definirá esta continuidade como “herança
cialmente para os países periféricos, passa a ser consi- estrangeiro, na privatização de setores estratégicos maldita”, ressaltando porém que a “política proposta
Reestruturação do Estado Brasileiro: um novo derada a saída para os problemas de crescimento e associada à internacionalização (petróleo, telecomuni- pelo segmento parasitário-financeiro do grande
modelo de gestão estabilidade econômica. cações, siderurgia, mineração), na capital é a partir de então conduzida,
A década de 90 foi marcada por uma A nova ofensiva do Este ideário neoliberal sustenta a pro- sobrevalorização da taxa cambial, na O Estado brasileiro em seu conteúdo determinante, por um
reestruturação no processo produtivo capital para superar gramática capitalista contemporânea mercantilização de políticas sociais, vem seguindo as governo à frente do qual encontra-se um
em âmbito internacional que trouxe pro- a crise foi fortalecer o e objetiva a formação de uma cultura acompanhada da refilantropização na medidas de ajuste partido que, até sua posse, encarnava
fundas transformações no capitalismo,
mercado, por meio de
anti-estatal, na qual é difundida a tese área da assistência, nas políticas sociais macroeconômico, sua negação” (2004, p.15). O governo
ainda recente, no Brasil. Estas, centradas quanto à crise do Estado interventor e a compensatórias, em substituição a polí- discriminadas na agenda Lula da Silva assume, pois, a prática
desregulamentações e
numa grande onda de desregulamentações necessidade de mudanças do seu papel, ticas sociais de caráter universal; na das contrarreformas neoliberal que combateu e a aprofunda,
nas diferentes esferas da economia, do
privatizações; portanto, a fim de alcançar o progresso e o de- privação de direitos sociais (educação, resgatando do discurso de FHC a defesa
as políticas neoliberais neoliberais,
trabalho e das políticas sociais, seguem o senvolvimento econômico. É marcado saúde, previdência, assistência) e na da estabilidade econômica.
que se desenvolveram articuladas pelos
receituário neoliberal definido no Con-
1
pelo pensamento privatista e pela tentativa desregulamentação de direitos sociais e O eixo de nossa reflexão fundamenta-
nos anos 80 tiveram, e organismos financeiros
senso de Washington. de constituição do cidadão-consumidor trabalhistas (p. 8). se na premissa de que as transformações
Chesnais (1996) aponta que estamos continuam tendo, por e para “aqueles que não conseguem O projeto político-econômico do internacionais, pelos iniciadas no final da década de 80
diante de um regime de acumulação ren- objetivo desmantelar conquistar seu espaço de consumidor, governo Fernando Henrique Cardoso empresários vinculados afetaram profundamente os serviços
tista e parasitário, predominantemente organizações e resta a solidariedade da sociedade-civil, (FHC) modificou o Estado brasileiro ao grande capital e públicos e conseqüentemente atingem
financeiro, estando o poder centralizado instituições que sejam já que o indivíduo não é mais concebido e resultou numa notável minimização pela burocracia estatal diretamente as condições de trabalho
nas próprias instituições financeiras in-
obstáculos à lógica de
como pertencente a uma classe social e, dos princípios Constitucionais de 1988, a eles associada. dos servidores e indiretamente as classes
ternacionais. Este autor denomina esta sim, como “indivíduo-cidadão”, que age transformando a esfera pública em lugar populares, usuárias destes serviços, pois,
valorização do capital.
atual etapa do sistema capitalista de responsavelmente na ordem burguesa secundário, objetivando a desarticulação da coletividade como descrito por Francisco de Oliveira, o Brasil
“mundialização do capital”, configurada, e em sua democracia” (PINTO, 2005, e a naturalização do estado de mercadoria da classe possui uma “estrutura de serviços muito diversificada
na esfera da produção, pela reestruturação produtiva p.166). Concordamos com a argumentação de Oliveira trabalhadora, fragmentando-a e negando os conflitos numa ponta, quando ligada aos estratos de altas ren-
e, na política, pelo neoliberalismo. Este novo período (2000) de que a privatização do público não se reduz existentes entre as classes, para abafar seu discurso rei- das, a rigor, mais ostensivamente perdulários que
começou a se desenvolver no marco de uma profunda às privatizações das empresas estatais, mas constitui-se vindicativo e reforçou a exploração capitalista. sofisticados; noutra extremamente primitiva, ligada
crise de superprodução, na década de 70, quando efetivamente em “uma privatização da esfera pública, A mudança do modelo de gestão do próprio Es- exatamente ao consumo dos estratos mais pobres”
ocorreu a queda das taxas de lucro do capital. sua dissolução, a apropriação privada dos conteúdos do tado e de seus serviços, segue a lógica do setor privado, (OLIVEIRA, 2003, p. 133).
A nova ofensiva do capital para superar a público e sua redução, de novo, a interesses privados” com diferentes formas de contratação, avaliação e Neste contexto apresentamos a Universidade Fe-
crise foi fortalecer o mercado, por meio de desre- (OLIVEIRA, 2000, p. 58). Portanto, o atual processo financiamento. Se, anteriormente, os serviços públicos deral Fluminense, demonstrando os impactos que a
gulamentações2 e privatizações; portanto, as polí- de acumulação do capital está ligado à privatização do eram entendidos como aqueles que a administração contrarreforma do Estado e da educação pública vêm
ticas neoliberais que se desenvolveram nos anos 80 público ou, ideologicamente, a uma experiência subje- pública presta à comunidade para atender as suas ne- ocasionando no ambiente de trabalho e nos serviços
tiveram, e continuam tendo, por objetivo desman- tiva de desnecessidade, aparente, do público. cessidades, efetivando seus direitos, o atual estágio de prestados pela universidade, devido à precarização de
telar organizações e instituições que sejam obstá- O Estado brasileiro vem seguindo as medidas de acumulação do capital traz uma nova lógica de orien- sua infra-estrutura, assim como da complexificação
culos à lógica de valorização do capital. ajuste macroeconômico, discriminadas na agenda das tação dos serviços, para atender aos seus interesses, das relações de trabalho.

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Repercussões da lógica gerencial a ingerência e primazia do interesse do mercado na Portanto, as políticas neoliberais 4.064 funcionários.
na universidade pública definição de orientações acadêmicas; a redução do in- hegemônicas, ao negarem a atuação
A ampliação e maior Na Reitoria localizam-se as pró-rei-
Considerando que, na corrida pela lucratividade, o vestimento público nas universidades, redundando em estatal e os investimentos públicos na abrangência da área torias, superintendências, órgãos auxi-
campo do ensino superior é um elemento decisivo para progressiva privatização; a quantificação das tarefas co- esfera pública, provocam profundas al- de Recursos Humanos liares, complementares e os conselhos
a competitividade, a lógica mercadológica instituída mo critério de avaliação; a flexibilização dos cursos; a terações nas instituições públicas que, segue a lógica das universitário e de ensino e pesquisa,
nas universidades se apóia nos argumentos, inerentes fragmentação dos trabalhadores (p. 18). com restrições orçamentárias, diferentes transformações do que regulamentam e orientam a política
à contrarreforma do Estado, que são, centralmente, Analisando tais eixos, entendemos que a con- vínculos empregatícios, escassez de re- mundo do trabalho educacional do ensino, da pesquisa e da
a racionalização, a produtividade e a flexibilidade, trarreforma do ensino superior público é um braço cursos, provocam agravos na saúde do e da introdução de extensão na universidade, sendo o Con-
visando à sua adequação às exigências da nova ordem da contrarreforma gerencial do Estado, que tem bene- trabalhador, insatisfação no ambiente selho Universitário a instância máxima
novas tecnologias de
mundial globalizada, expandindo a privatização do ficiado o empresariado do setor educacional, sendo os organizacional e, por conseguinte, pres- de deliberação.
gestão, cuja ênfase é
público, o que afeta as condições do exercício pro- governos Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva tação de serviços públicos de baixa Com a expansão das novas políticas
fissional dos servidores técnico-administrativos, dos signatários destas propostas (LIMA, 2005).
dada ao investimento
qualidade, o que afeta a população tra- de administração, em 2003 instituiu-se
docentes e a formação acadêmica dos discentes uni- Percebemos que, por meio de um discurso usur- balhadora usuária de tais serviços. nas pessoas, com a a Superintendência de Recursos Hu-
versitários. pador das bandeiras de luta dos movimentos sociais Estas medidas atingem o conjunto das finalidade de cooptar os manos (SRH), reorganizando a estru-
Ana Amoroso Lima ratifica que a realidade con- e ressignificado, usado competentemente pelo poder Instituições Federais de Ensino Superior trabalhadores a fim de tura administrativa, renovando os pro-
temporânea da universidade, especialmente das Insti- instituído, instaura-se um duro cenário de con- (IFES), mas o campo de observação de restabelecer a harmonia gramas e redistribuindo as atribuições
tuições Federais de Ensino Superior (IFES), é um trarreforma do ensino superior. Diante deste ce- nossa análise será a Universidade Federal institucional, tornando- dos departamentos. A ampliação e
reflexo da esfera pública brasileira contemporânea e nário, repensar a universidade brasileira tem sido Fluminense. os “colaboradores” e maior abrangência da área de Recur-
de suas características, pois “acometidas preocupação permanente dos movi- sos Humanos segue a lógica das trans-
“pseudo-participantes”
pela contrarreforma bresseriana, exi- Portanto, as políticas mentos sociais e, principalmente, dos Universidade Federal Fluminense: formações do mundo do trabalho e da
da filosofia institucional.
bem hoje uma configuração híbrida, neoliberais hegemônicas, movimentos internos, sindicais, dos expressão da nova lógica em curso introdução de novas tecnologias de ges-
meio equipamento do Estado, meio ao negarem a servidores das universidades (docentes A Universidade Federal Fluminense foi criada, tão, cuja ênfase é dada ao investimento nas pessoas,
shopping center – em qualquer caso, atuação estatal e e técnico-administrativos) e do movi- pelo Decreto nº 3.848 de 13 de dezembro de 1960, com a finalidade de cooptar os trabalhadores a fim
insuficientemente públicas e democrá- mento estudantil. com o nome de Universidade Federal do Estado do de restabelecer a harmonia institucional, tornando-os
os investimentos
ticas” (LIMA, 2006, p. 148). Por outro lado e em outra direção, Rio de Janeiro (UFERJ), passando a denominar-se “colaboradores” e “pseudo-participantes” da filosofia
públicos na esfera
A educação, assim como a saúde e com projetos distintos, o governo e o Mi- Universidade Federal Fluminense (UFF), pelo Decreto institucional (MARQUES, 2009).
pública, provocam nistério da Educação, articulados com as
a cultura no Brasil, a partir da década nº 4.831 de 05 de novembro de 1965, sediada em Ni- As ações da Superintendência de Recursos Humanos
de 1990, por meio da implantação do profundas alterações propostas dos organismos internacionais terói. Uma de suas características é a descentralização da UFF são efetivadas por departamentos, que agregam
Plano Diretor da Reforma do Estado, nas instituições públicas para a educação dos países periféricos, e interiorização de seus campi, possuindo pólos espa- três grandes dimensões relacionadas às políticas de
elaborado por Bresser Pereira, foram que, com restrições também repensam a educação superior. lhados pelo Estado do Rio de Janeiro. gestão de pessoas: administração, desenvolvimento e
classificadas como serviços não-exclusi- orçamentárias, De acordo com Leher (2007): Possui uma estrutura organizacional marcadamente assistência. Num destes, o Departamento de Desenvol-
vos do Estado. diferentes vínculos A América Latina foi reposicionada na eco- complexa, com uma hierarquização muito forte e vimento em Recursos Humanos (DDRH), é também
Neste contexto, as universidades empregatícios, nomia-mundo de modo que o modelo europeu relações verticalizadas. A particularidade da descen- implementada uma nova frente de trabalho, a princípio
sofrem alterações administrativas que escassez de recursos, de universidade pública, gratuita e referenciada tralização da UFF ainda requer maior esforço ad- como Programa Sócio-funcional, que posteriormente
reconfiguram a sua função social, aten- no princípio da indissociabilidade entre o en- ministrativo, além do que, se, por um lado, as diferentes adquiriu o status de Serviço, passando a denominar-se
provocam agravos na
dendo prioritariamente à lógica do sino e a pesquisa- deixou de ser um objetivo, localidades em que está presente tornam seu alcance Serviço de Prevenção e Apoio Sócio-funcional (SPSF),
saúde do trabalhador,
mercado, em detrimento dos interesses convertendo-se em obstáculo à modernização social mais efetivo, por outro, tende a estabelecer-se instituído pela Portaria nº 36.525, de 27/02/2007, com
científicos atrelados à proposição de
insatisfação no ambiente do ensino superior: [...] a universidade deixa de uma relação política com o poder local, estando a uni- o objetivo de intervir em situações que interferiam no
alternativas para os problemas da maio- organizacional e, por ser congruente com o tempo histórico trans- versidade sujeita ao partidarismo e ao politicismo. A trabalho dos servidores, aplicando uma velha idéia com
ria da população brasileira. conseguinte, prestação formado por uma suposta revolução cientifíco- descentralização facilita também a desarticulação de novas roupagens: restaurar a coesão institucional.
Pinto (2000) aponta os eixos que de serviços públicos tecnológica, impulsionada pela “globalização”, servidores e estudantes, podendo repercutir na frag- A equipe do Serviço é formada por assistentes
caracterizam este desmantelamento da de baixa qualidade, o por estar enredada em uma trama de corporati- mentação de sua organização e lutas. sociais e psicólogos e sua população usuária é com-
universidade pública na conjuntura atual: que afeta a população vismo e burocracia característicos das institui- Segundo dados fornecidos pela universidade, posta majoritariamente pelos servidores técnico-ad-
formação como preparação para o tra- trabalhadora usuária ções estatais. A alternativa neste sistema de atualizados em 20075, esta possui em seu quadro ministrativos, mas também, em menor número, por
balho; a reprodução de conhecimentos; pensamento, é diluir seus vínculos com o Es- permanente um corpo docente formado por 2.287 docentes, e por servidores aposentados em processo
de tais serviços.
a redução da formação ao ensino [...]; tado [...] ( p.12). professores e um corpo técnico-administrativos com de reversão de aposentadoria.

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

O SPSF tem por função assessorar o Departamento universidade as principais transformações que, a partir
de Recursos Humanos e intervir tecnicamente em áreas daí, se fazem necessárias, deve ser a principal função
da universidade que solicitam ou são apontadas como do Serviço, tendo em vista que o atendimento clínico Comparativo
Comparativo por
DOS motivos de motivos
Inserçãode
noInsercão
ProgramanoSócio-funcional
locais onde ocorrem situações que demandam análise e não é sua finalidade, nem seu objetivo. De fato, as
intervenção, possibilitando a elaboração de diagnóstico demandas estão sempre relacionadas à dinâmica das
D
institucional, a fim de subsidiar novas propostas para relações de trabalho, portanto a análise das tarefas, dos 20 A Abandono emprego

as políticas de RH. Destacamos a contradição deste ambientes e condições de trabalho e dos desvios de B Absenteísmo
18
trabalho, pois se, por um lado, pode efetivar melhorias função existentes na universidade devem constituir o C Condições trabalho
R D Conflito chefia
nas condições de trabalho do servidor, para a instituição cerne da atuação do SPSF. 16
D Q E Conflito pares
tem a finalidade conservadora de tornar as relações Em 2007 e 2008, o maior número de atendimentos R
14
F Conflito usuários
“mais harmônicas”. estava relacionado a conflitos com as chefias e situações O

12 G Depend. química
A principal frente de trabalho do Serviço é o relacionadas à gestão, como desvios de função e
L H Doença ocupacional
Programa Sócio-Funcional (PSF), que atende a uma condições de trabalho. Gestões não-democráticas in- N PQ
10 I Estágio probatório
grande variedade de situações apresentadas, tanto fluenciam diretamente o desempenho funcional e a E N
M J Exercer ativ. inerentes ao cargo
pelos usuários quanto pelos gestores. Os saúde dos servidores, resultando nos 8
L O
L Inadapt. setor/função
servidores apresentam-se espontanea- Em 2007 e 2008, altos índices de absenteísmo e na solici- B
6 M Limitação atividade
mente ou são inseridos no programa, o maior número de tação de mudança de setor. G
B P
Mudança setor
A C E G M N
encaminhados pela chefia, pelo Depar- atendimentos estava Com relação à lotação de origem dos 4
O Problemas familiares
C
tamento de Administração de Pessoal relacionado a conflitos servidores que buscam o SPSF, no ano 2 I
F H J
P Questões pessoais
H
(DAP) ou pelo Departamento de Assun- com as chefias e de 2008, registrou-se que 27% estavam J
A
Q Saúde Física
F I
tos Comunitários (DAC). lotados no Hospital Universitário An- 0
situações relacionadas Quant. em 2007 Quant. em 2008
R Saúde mental
Em 2003, ano inicial de atendimento, tônio Pedro, sendo que por dois anos
à gestão, como desvios
a maior demanda recebida pelo PSF (2006 e 2007) este número chegou a 50%
advinha de situações relacionadas à de- de função e condições dos atendimentos. Percebemos que o
Fonte: Banco de Dados do Serviço de Prevenção e Apoio Sócio Funcional

pendência química dos servidores, uma de trabalho. Gestões maior índice de adoecimento ou de fatores dos de suas condições de trabalho e das relações de destes trabalhadores.
das múltiplas manifestações da questão não-democráticas estressores, como conflitos com a chefia, poder instituídas no âmbito universitário, além de O trabalho no SPSF enfrenta sérios entraves admi-
social, que muitas vezes é analisada influenciam diretamente está entre os próprios profissionais da outros fatores originados em distintos espaços de so- nistrativos e políticos, pois o serviço não possui poder
isoladamente, correndo-se o risco de cul- o desempenho funcional saúde, que visivelmente estão trabalhando ciabilidade, como a família, por exemplo. decisório, podendo apenas assessorar, indicar medidas,
pabilização do servidor. Porém, pude- e a saúde dos servidores, sem a infraestrutura necessária para seu O gráfico informa que, tanto com relação ao ano de acompanhar, relatar e documentar situações ocorridas
mos notar que tal demanda, na maioria resultando nos altos processo de trabalho. 2007 quanto ao de 2008, as queixas prevalentes referem- no âmbito universitário. Para alcançar seus propósitos,
das vezes, não aparecia sozinha, estando O gráfico a seguir demonstra os se a conflitos com a chefia e à saúde do servidor, em o SPSF, além da necessária capacidade de decifrar a
índices de absenteísmo
vinculada a outros fatores sociais, como motivos de inserção dos trabalhadores especial a saúde mental. realidade, precisa construir propostas de trabalho e
e na solicitação de
inadaptação ao setor, questões pessoais e no Programa Sócio-funcional. Cabe Após a implantação e divulgação do Serviço, novas enfatizar a urgência de transformações nas relações
conflitos com a chefia.
mudança de setor.
destacarmos que o número de atendi- demandas surgiram, mudando o quadro de motivos de trabalho estabelecidas e na infraestrutura fornecida
Portanto, o principal esforço dos assistentes sociais mentos em 2007 e 2008 foram, respectivamente, 71 e de inserção. Entretanto, continuamos a perceber um pela universidade, o que se torna mais complexo num
e psicológos do Serviço constitui-se em apreender, 73, porém o servidor, ao inserir-se no programa, ge- maior número de atendimentos relacionados ao âmbito contexto no qual o Estado vem priorizando o inves-
de forma diferenciada, as demandas que chegam ao ralmente apresenta mais de uma queixa, portanto os da saúde do servidor, muitas vezes ligados às condições timento nas instituições privadas, via programas
Serviço, relacionando as manifestações aparentes com números relacionados no gráfico (um total de 125 de trabalho e conflitos com a chefia, sendo uma das como o PROUNI, por exemplo, e incentivando a
as dificuldades encontradas no cotidiano funcional do queixas, em 2007, e de 113, em 2008) são superiores à principais expressões a saúde mental. É um cenário arrecadação de fundos para a universidade pública
servidor, de forma estrutural e conjuntural, evitando quantidade de atendimentos. de atendimentos ligado intrinsecamente ao cotidiano por meio de parcerias com empresas e outros setores
uma classificação superficial que as define, comumente, Os dados contabilizados mais recentemente institucional e às relações de trabalho desenvolvidas na lucrativos, além do fortalecimento das fundações, ditas
como desânimo, desestímulo, incapacidade, o que terminam no final do ano de 2008, tendo em vista universidade. de apoio.
transfere a culpa por seu desempenho funcional aos que os relatórios de atendimento do serviço são Podemos avaliar que o aumento de inserções, a Os profissionais do SPSF atuam dentro das correla-
próprios servidores. emitidos anualmente. A partir destes atendimentos, complexificação das demandas e as transformações ções de forças e dos embates institucionais cotidianos
Produzir este tipo de análise, assim como apontar, verificamos que o processo de adoecimento mental e/ ocorridas na universidade formam um cenário que e podem, com sua intervenção, dar direcionamentos
por meio de dados e relatórios de atendimento, para a ou físico dos servidores possui determinantes advin- exige análises e sistematizações, articuladas com a luta políticos diferenciados dos estabelecidos previamente

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

pela instituição, dentro das possibilida- carga de trabalho e à inexperiência, pode trabalho nas universidades, inseridos por concursos
des conquistadas. A situação agrava-se, trazer conseqüências graves. públicos. Apesar do governo Lula ter realizado alguns
Destacamos que os dados analisados pois estes trabalhadores, Segundo dados do MEC/INEP/ concursos, as vagas disponibilizadas atualmente estão
referem-se somente aos servidores pú- principalmente os DEED, em 2007, o número total de longe de cobrir o passivo constituído nas últimas dé-
blicos efetivos, pois este Serviço da temporários - devido funcionários técnico-administrativos em cadas.
universidade não abrange o extenso à falta de recursos exercício no ensino superior brasileiro Pesquisa, recentemente publicada sobre emprego
quadro de trabalhadores contratados. humanos - precisam era 288.442, porém tais funcionários di- público, realizada pelo Instituto de Pesquisa Econô-
Sendo assim, além da precarização das cobrir as lacunas videm-se entre universidades, centros mica e Aplicada (IPEA, 30 mar.2009), ratifica a con-
condições de trabalho na universidade, universitários, faculdades integradas, clusão de que a máquina pública brasileira não está
existentes com
ainda ocorre a fragmentação e diferen- faculdades, escolas e institutos, Centros inchada. Comparada às de países desenvolvidos e com
rapidez, não lhes
ciação entre os trabalhadores, em de- de Educação Tecnológica e Faculdades as de outros países da América Latina, a proporção
corrência dos diferentes vínculos e di-
sendo oferecido um de Tecnologia, no âmbito público (fe- de servidores públicos, na faixa da população econo-
reitos atribuídos a cada trabalhador. período de adaptação deral, estadual e municipal) e privado micamente ativa, é uma das menores (10,7%), segundo
O Sindicato dos Trabalhadores da e treinamento, o que, (particular, comunitário e confessional/ dados computados em 2005. O pesquisador do Ipea,
UFF (SINTUFF), por meio de entrevista, somado à sobrecarga filantrópica). A tabela abaixo demonstra Fernando Mattos, afirma que o resultado da pesquisa
realizada em 28 de maio de 2009, com de trabalho e à a divisão entre o número de servidores mostra a necessidade de ampliação do acesso da
Lígia Regina Antunes Martins, destacou inexperiência, pode públicos e o de trabalhadores da esfera população aos serviços públicos e, por conseqüência,
a diversidade dos vínculos empregatícios trazer conseqüências privada: da ampliação do quadro de pessoas que realizam esses
existentes na universidade: graves. Percebemos que o número de fun- serviços6.
Existem os trabalhadores temporários, cionários das IES na esfera privada,
estes são concursados, mas só ficam durante um pe- em 2007, já era superior ao do setor público e é Considerações finais
queno tempo, enquanto a validade do contrato durar. certo que este número já deve ter crescido bem mais, As mudanças no processo produtivo rebatem sobre de suas instituições. O novo modelo de acumulação
A maioria é jovem, primeiro emprego. Possuem a diante do aumento de instituições de ensino supe- a reprodução social dos trabalhadores e o Estado, capitalista introduz ideologicamente a “cultura” de
carga de trabalho maior (40 horas), sem adicional de rior na esfera privada; porém, quando separamos a que deveria ser o principal responsável pela garantia ineficiência da “coisa pública”, justificando a redução
insalubridade, nem benefícios como auxílio-creche, categoria universidade, percebemos que na esfera de tal esfera, desresponsabiliza-se. Com o advento do do investimento estatal em seus serviços, impactando
vale-transporte, não são sindicalizados. Até quatro pública o número de funcionários é maior. Isto ocorre neoliberalismo, em fins da década de 70, e a sua con- as condições de trabalho dos servidores, a qualidade
anos atrás mais ou menos, ainda havia em grande provavelmente porque muitas IES, na esfera privada, solidação na década de 90, o Estado, suas políticas e as dos serviços prestados, afetando diretamente a comu-
quantidade os cooperados, sem nenhuma garantia, sem não atingem a qualificação de universidade. Na Tabela relações sociais passam a ser regidas pela soberania do nidade usuária de tais serviços.
registro, sem folha de pagamento. Estes não existiam 1 também percebemos a diferença, no censo, entre o mercado. O SPSF trabalha com as demandas
para a universidade. Alguns trabalharam aqui por 10 número total de servidores e o número de servidores A desresponsabilização do Estado Um novo paradigma institucionais e as demandas dos usuários,
anos. Tinha assistente social, maqueiro, vigilante, to- em exercício. e a cobrança de um novo perfil de pro- instaurou-se nos serviços nas suas inter-relações. As normas ins-
dos cooperados. Até que ocorreram denúncias no Mi- Podemos pontuar que no serviço público há uma fissional, adequado para os moldes ge- públicos, uma titucionais impactam diretamente a
nistério do Trabalho e a universidade começou a optar necessidade iminente de recursos humanos, com di- renciais, vêm gerando metas de produti- contrarreforma está atuação profissional, porém não podem
pelos temporários. Mas ainda existem cooperados reitos trabalhistas assegurados e condições dignas de vidade, aumento da competitividade nos em curso, impactan- engessá-la. Percebemos que este Serviço,
que recebem de três em três meses, Tabela 1 setores, terceirizações, perda de direitos, assim como outros, foi instituído pela
do as relações e os
ganham por dias trabalhados, ou seja,
Recursos Humanos das Instituições de Ensino Superior (IES) reafirmando que um novo paradigma administração para atender os casos de
processos de trabalho,
feriado, carnaval, ganham menos. Es- 2007 instaurou-se nos serviços públicos, funcionários que trariam dificuldades e
tes são lotados principalmente nas bi- Funcionários Técnico-Administrativos em exercício e afastados uma contrarreforma está em curso, im-
precarizando os recursos conflitos para a concretização do trabalho
bliotecas (informação verbal). pactando as relações e os processos de necessários, aumentando institucional, sendo uma medida paliativa
Unidade Pública Privada
A situação agrava-se, pois estes tra- IES no Brasil 120.361 173.109 trabalho, precarizando os recursos ne- a desigualdade entre os no atendimento a servidores que, diante
balhadores, principalmente os tem- Universidades 110.023 71.352 cessários, aumentando a desigualdade trabalhadores, de um cenário conjuntural de desmonte
porários - devido à falta de recursos Funcionários Técnico-Administrativos em exercício entre os trabalhadores, fragmentando- fragmentando-os e do serviço público e precarização de
humanos - precisam cobrir as lacunas Unidade Pública Privada os e reduzindo ou limitando sua poten- reduzindo ou limitando suas condições de trabalho, enfrentam
existentes com rapidez, não lhes sendo IES no Brasil 117.780 170.662 cialidade para o trabalho. sua potencialidade sobrecarga de trabalho e adoecem.
oferecido um período de adaptação e Universidades 107.606 70.151 Tais metamorfoses implicaram mu- Porém destacamos que, na correla-
para o trabalho.
treinamento, o que, somado à sobre- Fonte: Censo da Educação Superior - MEC/INEP/DEED danças profundas no papel do Estado e ção de forças institucional, mais um

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

espaço se ampliou para atender os servidores e suas abordada por Francisco de Oliveira, ao expor que: “[...] a ten- Brasileira e o Sistema Universitário Federal - A ética deformada OLIVEIRA, Francisco de. Privatização do público, destituição
dência à formalização das relações salariais estancou nos anos do patrimônio. Tese de doutorado. Rio de Janeiro: ESS/UFRJ, 2006. da fala e anulação da política: o totalitarismo neoliberal. In:
demandas e pode, a depender desta correlação de
1980, e expandiu-se o que ainda é impropriamente chamado de OLIVEIRA, Francisco de e PAOLI, Maria Célia (Orgs.). Os
forças, colaborar estrategicamente com a ampla luta da LEHER, Roberto. A problemática da universidade 25 anos após
trabalho informal. Entroncando com a chamada reestruturação sentidos da democracia: políticas do dissenso e hegemonia global.
a ‘crise da dívida’. Universidade e Sociedade, ano XVI, n. 39.
classe trabalhadora e, particularmente, dos servidores produtiva, assiste-se ao que Castel chamou de “desfiliação”, isto é, 2. ed. São Paulo: Vozes, 2000.
ANDES- SN, Brasília, 2007.
públicos, por melhores condições de vida e trabalho. a desconstrução da relação salarial, que se dá em todos os níveis e
______. Crítica à razão dualista – O ornitorrinco. São Paulo:
setores” (OLIVEIRA, 2003, p.142). MARQUES, Emilly Pereira. A Universidade e seus
O SPSF pode tornar-se um espaço de articulação, Boitempo, 2003.
trabalhadores: apontamentos sobre as condições de Trabalho e
juntamente com os outros serviços de atendimento aos 3. As características destas propostas estão centradas na “integração
Saúde dos servidores da UFF. Trabalho de conclusão de curso. PINTO, Marina Barbosa. A subordinação do trabalho docente
mundial acima e além dos Estados nacionais, a globalização, acom-
servidores, entre as demandas dos trabalhadores e a alta Niterói: Escola de Serviço Social/UFF, 2009. à lógica do capital. Outubro - Revista do Instituto de Estudos
panhada da desestruturação e reestruturação da produção capitalista
administração, buscando construir coletivamente uma Socialistas, nº 4. São Paulo, 2000.
e da redefinição do papel do Estado” (PINTO, 2005, p.32). MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Censo do Ensino Superior.
política interna de atenção, prevenção e atendimento às INEP, 2008. Disponível em <http://www.inep.gov.br/superior/ ______. Os movimentos sociais e a construção da cidadania.
4. A estratégia de Bresser Pereira para a gestão do setor público
necessidades dos trabalhadores. Este trabalho depende censosuperior/>. Acesso em: 16 mar. 2009. Tese de Doutorado. Instituto de Ciências Humanas e Filosofia,
brasileiro foi descrita por ele: “Escolhido para o cargo de ministro,
Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2005.
da intencionalidade dos técnicos, da participação dos propus que a reforma administrativa fosse incluída entre as re- MOTTA, Ana Elizabete. Cultura da crise e seguridade social: um
trabalhadores e dos movimentos internos de luta, as- formas constitucionais já definidas como prioritárias pelo no- estudo sobre as tendências da previdência e da assistência social UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE. A UFF em
vo governo – reforma fiscal, reforma da previdência social e eli- brasileira nos anos 80 e 90. São Paulo: Cortez, 2005. 3ª edição. números. Disponível em: <http://webproplan.uff.br/catalogo
sim como das possibilidades que se abrem no con- principal/numeros.htm>. Acesso em: 01 dez. 2009.
minação dos monopólios estatais. E afirmei que para podermos
traditório espaço institucional, sem menosprezar a NETTO, José Paulo. A conjuntura brasileira: o Serviço social
ter uma administração pública moderna e eficiente, compatível
posto à prova. Revista Serviço Social e Sociedade, nº 79, São
relevância de uma política nacional para respaldar e com o capitalismo competitivo em que vivemos, seria necessário
Paulo: Cortez, 2004.
garantir tais ações. flexibilizar o estatuto da estabilidade dos servidores públicos de
modo a aproximar os mercados de trabalho público e privado
Apontamos, também, a necessidade de sistemati- (BRESSER PEREIRA, 1996, p.22).
zação e divulgação do trabalho que vem sendo reali-
5. Dados estatísticos sobre a universidade encontram-se em seu
zado. As equipes contam com excelentes profissio- site, na sessão “A UFF em números”. Ressaltamos que estes dados
nais, muitos comprometidos com a luta mais ampla foram atualizados em 2007, e já se modificaram em virtude dos
da classe trabalhadora, com uma análise crítica do tra- concursos realizados nos últimos dois anos.
balho e, estando numa universidade, espaço de ensino, 6. Ver a Reportagem de Letícia Nobre, do Correio Braziliense:
pesquisa e extensão, podem contribuir por meio de “Estudo desmente inchaço da máquina pública: Número de
servidores no Brasil está abaixo do de países desenvolvidos e
grupos de estudo, elaboração de pesquisa e publicações
emergentes”. Disponível em: <http://www.correiobraziliense.com.
de artigos, o que aumentaria o suporte para o debate br/html/sessao_1/2009/03/30/noticia_interna,id_sessao=1&id_
sobre a necessidade de uma política nacional eficaz, a noticia=93724/noticia_interna.shtml.
partir do conhecimento e divulgação da situação atual
de saúde dos servidores. Referências
Enquanto o trabalhador não possuir as condições de ABRAMIDES, Maria Beatriz Costa; CABRAL, Maria do
trabalho necessárias e todos os trabalhadores do serviço Socorro Reis. Regime de acumulação flexível e saúde do
público não possuírem os mesmos direitos, o quadro trabalhador. São Paulo: Perspectiva, v. 17, n.1., 2003. Disponível
em: <http://www.scielo.br>. Acesso em: 12 dez. 2008.
atual manter-se-á. Enquanto o trabalho, ao invés de
produzir a emancipação humana, produzir lucro para BRESSER PEREIRA, Luiz Carlos. Gestão do setor público:
estratégia e estrutura para um novo Estado. In: PEREIRA, Bresser
o capital - inclusive no setor de serviços públicos, cada
e SPINK, Peter (orgs.). Reforma do Estado e Administração
vez mais empresariados - esse permanecerá atrelado ao Pública Gerencial. São Paulo: FGV, 2006. 7ª edição. (p. 21-38).
processo de adoecimento e exploração, cada vez mais CHESNAIS, François. A mundialização do capital. São Paulo:
intensificado, dos trabalhadores. Xamã, 1996.

CORREIO BRAZILIENSE. “Estudo desmente inchaço da


Notas máquina pública: Número de servidores no Brasil está abaixo do
1. Motta define o neoliberalismo como “ideário econômico e de países desenvolvidos e emergentes”. Publicada em 30 de março
político, expresso nos princípios da autonomia do mercado, da de 2009. Reportagem de Letícia Nobre. Disponível em: <http://
regulação estatal mínima, e na formação de uma cultura em que www.correiobraziliense.com.br/html/sessao_1/2009/03/30/
a liberdade política é derivada da liberdade mercantil” (MOTTA, noticia_interna,id_sessao=1&id_noticia=93724/noticia_interna.
2005: 90) shtml.>. Acesso em: 02 abr.2009.

2. A desregulamentação das relações trabalhistas difundida é LIMA, Ana Maria Costa Amoroso. Administração Pública

48 - DF, ano XIX , nº 45, janeiro de 2010 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE UNIVERSIDADE E SOCIEDADE DF, ano XIX, nº 45, janeiro de 2010 - 49
Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

Capitalismo organizacional e trabalho –


a saúde do docente
Francisco Antonio de Castro Lacaz
Professor da Universidade Federal de São Paulo
E-mail: [email protected]

Resumo: O artigo discute como a impregnação da lógica capitalista e da reestruturação produtiva neoliberal,
identificada como capitalismo organizacional e acadêmico, nos espaços da Universidade pública produzem
a precarização das condições e processos do trabalho docente. Como desdobramento desta nova forma de
trabalhar, que impõe a competição, o individualismo, a captação, no mercado, do financiamento de pesquisas,
o produtivismo etc., ocorrem repercussões na saúde dos trabalhadores, especialmente na esfera psicoafetiva.
Estas repercussões são identificadas, de forma genérica, por um conjunto de sintomas e sinais, provocados pela
tensão e estresse crônicos. Tal situação é denominada Síndrome de Burnout, que se caracteriza pela desperso-
nalização, desmotivação e desinteresse pelo trabalho e a sensação de frustração extrema. A atuação sindical,
na perspectiva de empoderar aos trabalhadores docentes, é um elemento central para o enfrentamento destas
realidades de trabalho e de sua repercussão para a saúde dos professores.

Palavras-chave: Capitalismo Organizacional; Síndrome de Burnout; Trabalho Docente; Neoliberalismo.

1. Introdução e pela Saúde Pública (LAURELL, 1991 e 1993; LA-


1.1 Reflexões teórico-metodológicas sobre a relação CAZ, 1996). Tal abordagem permite aprofundar
Trabalho e Saúde/Doença o conhecimento de tais relações por incorporar os

P
ara se refletir sobre as relações entre Trabalho conceitos de processo e organização do trabalho, na
e Saúde, de forma abrangente e crítica, será aqui busca por apreender o duplo caráter do trabalho, em
discutida a abordagem proposta pelo campo Saúde sua relação com a saúde (GARCIA, 1983): trabalho
do Trabalhador (ST)1, um espaço de práticas e saberes concreto, produtor de valores de uso, e trabalho abstra-
que vem sendo constituído pelas contribuições da Me- to, produtor de valores de troca2, conforme apontado
dicina Social Latinoamericana, pela Saúde Coletiva por Marx (1989).

50 - DF, ano XIX , nº 45, janeiro de 2010 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE UNIVERSIDADE E SOCIEDADE DF, ano XIX, nº 45, janeiro de 2010 - 51
Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

Conceitual e didaticamente, a organização do traba- área. Trata-se de conceitos que permitem avançar no co- 1.3 Capitalismo organizacional nas Instituições especialização, sincronização e de centralização que
lho trata, segundo Dejours (1987), de aspectos do tra- nhecimento das especificidades dos processos de trabalho Públicas de Ensino Superior configuravam e alicerçavam a estruturação do processo
balho que se relacionam com efeitos psicossociais, po- no setor da prestação de serviços, em sua relação com a A (re)organização neoliberal do Estado, com a produtivo. No lugar da produção padronizada, surge
dendo ser citados os seguintes: saúde dos trabalhadores que aí atuam. penetração dos princípios empresariais na gestão a produção flexível que requer [...] trabalhadores
• a divisão técnica e social do trabalho; dos serviços (BLANCH & STECHER, 2009), vem polivalentes e altamente qualificados, com alto grau de
• o conteúdo das tarefas; 1.2. Processo de Trabalho e Saúde no setor de alterando profundamente o processo de trabalho na responsabilidade e autonomia (TEIXEIRA, 2008, p.
• a hierarquia, formas de comando, relações de serviços esfera pública nas últimas décadas, especialmente no 114-115).
poder e controle; Embora Educação e Saúde constituam, indubitavel- que se refere às políticas de educação e de saúde, como Mais ainda,
• os horários (turno, duração da jornada etc.); mente, direitos sociais fundamentais da pessoa humana, já apontava no início dos anos 90 do século passado ... esta nova forma de produção de mercadorias engendra
• a sobrecarga e sub-carga de atividades. sua efetivação também depende, quase sempre, da Navarro (1993), a propósito da área sanitária. outros métodos de produção […]. Com a diferença de
Assim, as formulações do campo ST fornecem a intervenção dos trabalhadores envolvidos com cada Saliente-se que isto tem ocorrido, em particular, que, agora, o poder do capital é substituído pelo poder
base teórico-conceitual (e metodológica) para entender uma destas áreas. A maneira como esta prestação de ser- também nas Instituições Públicas de Ensino Superior e impessoal do mercado. Poder que não mais se identifica
a saúde, também, dos trabalhadores docentes, nos dias viços se dá, isto é como ela é concebida, pelo Estado, se materializa por uma série de iniciativas: flexibilização com a administração de uma empresa particular, mas,
que correm, a qual se situa nos marcos da (re)orga- pelas instituições responsáveis pela oferta e pelo pró- do trabalho; desregulamentação de di- sim, com a necessidade abstrata que obriga
Esta forma de
nização do trabalho, de cunho neoliberal, cuja lógica prio trabalhador, fará a diferença entre caracterizá-la reitos; privatização e mercantilização, a todos a se submeterem à racionalidade do tra-
tem “colonizado” a gestão de serviços e bens públicos, como direito social ou como um serviço, no sentido partir das chamadas fundações de apoio; organização do trabalho balho abstrato: trabalhar [...], sem se importar
como universidades e hospitais, tendo como marca um mercadológico. cobrança por cursos de pós-graduação relaciona-se ao que se com a natureza do trabalho, o lugar em que é
... novo paradigma [...] de reorganização flexível do Dado que, no processo de trabalho em serviços, o lato senso; retórica do produtivismo , 3 denomina gerencialismo realizado e como deve ser efetivado (TEIXEI-
trabalho. [...] iniciado nos anos 80 como resultado do resultado do processo é consumido ao mesmo tempo da competitividade; busca, no mercado, (PAULA, 2005) e está RA, 2008, p. 131).
projeto político neoliberal e de suas máximas de des- em que é produzido, sendo colocados em contato direto de financiamento de pesquisas, fator ligada à “contaminação” Em relação às universidades pú-
regulamentação, liberalização e privatização, [o que] trabalhador e consumidor, conforma-se a chamada co- que, em algumas destas instituições, é da gestão pública blicas, Blanch et al. (2007) trazem im-
implicou na colonização mercantil de diversas organi- presença (ORBAN, 2005), o que pode exercer pressão utilizado, inclusive, como critério para o por estratégias da portante contribuição, no âmbito da
zações (hospital, universidade etc.) tradicionalmente no tempo de produção dos serviços, como se observa credenciamento e descredenciamento dos micro-política, para se apreender os
administração privada,
autônomas em relação à economia política de mercado, na fila dos caixas de bancos ou dos serviços de saúde. docentes que buscam oferecer orientação efeitos da flexibilização do trabalho, em
particularmente
à ética do negócio, à pragmática da gestão flexível do Numa revisão sobre o conceito de serviços, Meirelles de mestrado e doutorado, nos programas especial, os seus efeitos psicossociais,
naquilo que se refere também sobre as relações intersubjetivas
trabalho, à retórica da produtividade, competitividade (2006) aponta que, segundo estudos empíricos, a de pós-graduação senso estrito.
e rentabilidade, ao cálculo de custo-benefício e à noção de simultaneidade pode ser uma ferramenta Em síntese, esta forma de organização à precarização das que se estabelecem, particularmente en-
axiologia da livre concorrência, da qualidade total, do importante para se abordar o trabalho na prestação de do trabalho relaciona-se ao que se relações e dos vínculos tre os docentes e os servidores admi-
lucro individual e do negócio privado (BLANCH & serviços, em especial na sua relação com a saúde. Daí denomina gerencialismo (PAULA, 2005) de trabalho, ao elevado nistrativos.
STECHER, 2009, p. 1, grifos nossos, tradução nossa). deriva outro conceito importante para se pensar aquela e está ligada à “contaminação” da gestão turn-over (alta taxa Do ponto de vista da explicação teó-
De certa forma, são os reflexos da dinâmica da relação, o de co-produção (ORBAN, 2005), já que, na pública por estratégias da administração de rotatividade no rica, este contexto pode ser situado nos
produção flexível sobre a subjetividade dos traba- produção flexível o que importa não é mais a produção privada, particularmente naquilo que se emprego), à ausência de marcos do chamado capitalismo acadê-
lhadores que Blanch et al. (2007) buscam apreender em escala, característica do fordismo/taylorismo, mas, refere à precarização das relações e dos mico, inicialmente “diagnosticado”
direitos sociais etc.
quando investigam os efeitos psicossociais observados, sim, a produção acoplada às demandas dos cidadãos, vínculos de trabalho, ao elevado turn- nos Estados Unidos, em meados dos
na Espanha, em docentes universitários, conseqüentes reduzidos, atualmente, a clientes, situação esta que, no over (alta taxa de rotatividade no emprego), à ausência anos 1970, e, posteriormente, nos de-
da colonização pela lógica de gestão calcada na rees- caso dos serviços, depende basicamente da postura do de direitos sociais etc. (LACAZ et al., 2008). mais países anglo-saxões (SLAUGHTER & LESLIE,
truturação produtiva neoliberal, que ocorre em vários cliente/consumidor. Ademais, nos serviços, interfere Ao mesmo tempo, esta nova realidade de gestão do 1977 apud BLANCH & STECHER, 2009), como
países, inclusive no Brasil. sobremaneira a emoção e sua “administração”, o que traz trabalho, embutida na reestruturação produtiva, tenta conseqüência da reestruturação da educação supe-
A propósito desta discussão, um dos desafios atuais importantes efeitos para a saúde mental no trabalho. caracterizar-se por uma “consciência apologética” que rior, o que foi interpretado como uma resposta, de
mais importantes, colocados aos estudos no campo ST, Frise-se que a co-produção tem como “sub-produto” decreta inspiração neoliberal, aos desafios colocados pela glo-
é como utilizar a categoria processo de trabalho, seu o auto-serviço, em que o consumidor age no processo ... o fim das relações antagônicas entre capital e trabalho, balização (BLANCH & STECHER, 2009; LIRIA &
principal marco (teórico) referencial, aplicando-o aos de trabalho, trazendo como consequência a diminuição que estão sendo substituídas por relações de cooperação GARCIA, 2009). Esta tendência atinge seu apogeu
estudos do trabalho no setor terciário ou de serviços. Aqui, de postos de trabalho. Eis uma aproximação do que e de amizade entre parceiros. [...] acredita[-se] que a quando universidades passam a formar quadros para
há importantes contribuições de uma certa sociologia ocorre, hoje, na área do ensino e que se assemelha com reestruturação da economia está a criar novas formas de uma empresa, em particular, como é o caso da “Ham-
do trabalho que aponta para elementos conceituais que a co-produção: é a chamada educação à distância, que organização e gerenciamento do processo de trabalho, burger University”, (BLANCH & STECHER, 2009).
poderão desamarrar os nós que atam os estudos nesta prescinde da presença do professor! que não lembram mais os princípios de padronização, Neste sentido, observa-se que a penetração da lógica

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

de gestão empresarial na universidade converte o que de pensar, sentir e atuar com relação a si mesmo, às Condições para influir positivamente nesta realida- A carga elevada da demanda assistencial e a pressão
foi uma instituição societal numa organização gerida demais pessoas e ao mundo. Consiste, [...], naquela di- de são apontadas, entre as quais se situam: que isto gera, tanto na área da Saúde quanto na da
pelo mercado (IBARRA, 2003 apud BLANCH & nâmica pela qual cada indivíduo torna-se (é constituído a) a valorização de condições de trabalho materiais Educação, são também apontadas como prejudiciais
STECHER, 2009; PAULA, 2005) ou se constitui) um tipo particular de sujeito através (a) e tecnológicas e a crítica à sobrecarga e à excessiva du- à saúde dos trabalhadores, porque exigem que se faça
Mesmo considerando que o conceito de capitalismo de sua sujeição, inserção e submissão a um específico ração do trabalho; muito mais, num tempo limitado, e esta realidade de
acadêmico (COLADO, 2003) seja um interessante ordenamento sócio-simbólico, isto é, a uma particular b) a valorização de relações de trabalho horizontais, trabalho é vivenciada com tensão (CERVANTES,
referencial para embasar pesquisas empíricas que configuração histórica de relações de saber-poder; mas entre pares, com crítica às relações verticais estabele- 2009). Tal situação provoca estresse crônico, que é
iluminem a especificidade de processos de reformas também (b) de sua atividade (individual e coletiva) de cidas pela direção das instituições de ensino superior acompanhado de ansiedade, preocupação, sensação
políticas em determinadas realidades, a adoção do apropriação reflexiva, resignificação, desestabilização (BLANCH & STECHER, 2009); de impotência, frustração, mau humor, ou seja, um
conceito de capitalismo organizacional ajuda a dar e resistência em relação às determinações que o cons- c) a luta pela Qualidade de Vida no Trabalho – mal-estar difuso: situações estas não enquadradas co-
conta de outros aspectos, como os processos de ob- tituem como ser social e em cujo horizonte está inscrito QVT (LACAZ, 2000). mo doenças, mas que devem ser valorizadas como
jetivação e subjetivação pelo trabalho em Universida- ... (BLANCH & STECHER, 2009, p. 9, grifo nosso, Quando se procura articular QVT com questões rela- indicadores de sofrimento mental em decorrência do
des públicas, na perspectiva da psicologia social do tradução nossa). cionadas à gestão do trabalho, assumem relevância as exercício do trabalho.
trabalho, quando se analisa a reorganização de tais Ou seja, a construção das subjetividades, às quais tecnologias e seu impacto para a saúde; o bem estar no Desdobramentos desta tensão crônica e da sobre-
espaços sob a influência do novo modelo o trabalho acadêmico reorganizado dá trabalho que se relaciona diretamente com o nível salarial; carga de trabalho são a auto-medicação, a busca de um
de gestão “da coisa” pública (BLANCH A construção das lugar, caracteriza-se por formas parti- a criatividade, a autonomia, ou seja, o grau de controle e sobre-esforço de adaptação e as formas sutis de resis-
& STECHER, 2009). subjetividades, às quais culares de pensar, sentir e agir com re- poder que o coletivo de trabalhadores tem sobre as con- tência, ativa ou passiva, tais como: auto-dosagem de
Do ponto de vista teórico, o que o trabalho acadêmico lação a si mesmo, às demais pessoas e ao dições, ambientes e organização de seu próprio trabalho trabalho, não ultrapassagem do horário de trabalho
para Blanch et al. (2007) é chamado de reorganizado dá lugar, mundo; cada indivíduo se sujeita, insere (SATO, 2002). A isso se soma a possibilidade de ges- previsto pelo regulamento, ou não inteirar-se das
capitalismo organizacional, Lacaz et caracteriza-se por e submete às relações saber-poder ou se tão participativa real a qual está vinculada a espaços tarefas encomendadas ou prescritas (BLANCH &
al. (2008) denominaram gerencialismo, formas particulares de rebela e resiste a esta realidade. negociais entre trabalhadores e gestores; à discussão STECHER, 2009).
termos que significam a “colonização” Ao se debruçar sobre os marcos democrática e coletiva visando superar a abordagem de Em recente estudo realizado pelo Departamento
pensar, sentir e agir com
da administração pública pela lógica da teóricos de pesquisas nesta área, ao lado cunho individual dos programas de qualidade de vida no Intersindical de Estudos e Pesquisas de Saúde e dos
relação a si mesmo, às
gestão privada e do mercado (BORÓN, da noção de objetivação, que envolve a trabalho e a gestão participativa de iniciativa da gerência Ambientes de Trabalho (Diesat)4, em parceria com
demais pessoas e ao
2000; PAULA, 2005). própria institucionalização das novas ligada à intensificação do trabalho; à precarização dos o Sinpro/RGS, junto a professores de universidades
Para melhor entendimento do que se
mundo; cada indivíduo formas de gestão do trabalho, em vá- contratos, relações e direitos no trabalho. (LACAZ et privadas do Rio Grande do Sul, foi observado que, de
está falando, e atualizar a temática central se sujeita, insere e rios níveis e espaços da administração al., 2009) uma amostra de cerca de 1800 docentes, em torno de
do objeto que se pretende discutir, con- submete às relações pública, os estudos de Lacaz et al., (2008) Tendo, como exemplo, a gestão do trabalho em 50% usavam algum tipo de medicação psicotrópica,
forme propõem Blanch et al. (2007), é saber-poder ou se e de Blanch et al. (2007) buscam abordar saúde no SUS e sua relação com a QVT, alguns sem a própria indicação por
necessário apontar o que é objetivação, rebela e resiste a esta a idéia da resistência, a qual foi mais di- ganha importância o estatuto dos Planos Os principais elementos receita médica (CAMPOS, 2009) 5.
ou seja, a realidade. retamente analisada e discutida no estu- de Carreiras, Cargos e Salários (PCCS), estressantes são: Os principais elementos estressantes
... ‘institucionalização’ do novo do de Lacaz e col. (2008) a partir do os quais preconizam: a capacitação e sobrecarga quantitativa citados no estudo relatado por Campos
modelo empresarial (a materialização operativa pelo questionamento da estratégia gerencial educação permanente; mesas de nego- - muita coisa para fazer, (2009) são: sobrecarga quantitativa -
New Management de um conjunto de dispositivos, (PAULA, 2005) e da possível luta dos trabalhadores ciação para subsidiar o processo decisório em pouco tempo; mas, muita coisa para fazer, em pouco tempo;
códigos, normas, regras, procedimentos, tecnologias para reverter a tendência observada. e de representação; formas de contratação também, exigência mas, também, exigência qualitativa me-
e práticas estruturais da organização) e, por outra, sua e ingresso, progressão, fixação e critérios qualitativa menor do nor do que as possibilidades potenciais
naturalização (construção pelo discurso gerencial do 2. Efeitos psicossociais da reorganização do de avaliação de desempenho que sejam (underload), o que ocorre quando se
que as possibilidades
novo modelo de organização como pertencente à ordem trabalho neoliberal participativas (LACAZ et al., 2008). executa atividades não estimulantes ou
potenciais (underload),
da natureza e, portanto, como realidade necessária, Os efeitos psicossociais relacionam-se, de modo Trazendo o debate para a realidade do pouco desafiadoras, que não exigem
imutável e inquestionável). (BLANCH & STECHER, especialmente intenso, à realidade do trabalho que trabalho docente, trata-se de superar as o que ocorre quando se criatividade, são monótonas e repetitivas.
2009, p. 9, grifos dos autores, tradução nossa) implica a co-produção, isto é, a produção de serviços relações de trabalho que se dão por meio executa atividades não A isto se somam os conflitos de papéis e
Por outro lado, entende-se subjetivação como acoplada às demandas da “clientela” consumidora. Ao do contrato precário ou temporário, na estimulantes ou pouco responsabilidades, na medida em que,
... um conjunto de processos de construção de sub- lado disso, está também implicada a intersubjetividade, medida em que docentes sob esta forma desafiadoras, que não no trabalho, somos amigos, membros
jetividade, pelos quais a experiência de trabalho em que exige uma grande mobilização da emoção, com de contrato valorizam menos os aspectos exigem criatividade, são de clubes, de entidades, de sindicatos e
universidades e hospitais reorganizados empresarial- importantes efeitos na esfera psicoafetiva e da saúde acima mencionados do que aqueles com monótonas e repetitivas. não cumprimos bem tais papéis, simul-
mente dá lugar nos trabalhadores, a particulares formas mental. vínculo duradouro e estável de trabalho. taneamente. Ademais, a falta de controle

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

sobre a própria situação de trabalho - ou xa realização pessoal repercute numa desgaste da saúde e de precarização da qualidade do 31/07 e 01/08/2009 em São Paulo, inaugura uma fase
seja, outros decidem o que fazer, on- A exaustão emocional auto-avaliação negativa, na infelicidade trabalho (LACAZ, 2000). importante na luta pela melhoria das condições e pro-
de, como, inclusive com quais ritmos, é expressa pela falta consigo mesmo, na insatisfação com o A possibilidade de prevenção destes distúrbios cessos de trabalho e em defesa da saúde docente.
velocidades - é outra condição que pro- ou carência de energia, próprio desenvolvimento profissional. envolve a busca de maior controle dos trabalhadores Desdobramentos deste Encontro têm acontecido
move desgaste mental. de entusiasmo, e Em geral, na área da Educação, a sobre seu próprio trabalho, pela solidariedade entre em vários estados do Brasil, mobilizando Associações
Finalmente, a falta de apoio social, pelo sentimento síndrome acomete pessoas do sexo mas- pares e pela superação da lógica mercantil, que hoje Docentes das Instituições de Ensino Superior, tanto
isto é, ausência de solidariedade por par- de esgotamento culino, com idade abaixo de 40 anos, que impregna o trabalho docente nas universidades pú- Federais quanto Estaduais, trazendo uma perspectiva
te de chefias e dos próprios colegas de são mais idealistas e entusiastas com a blicas, caracterizada pela ideologia presente na valo- estratégica de enfrentamento orgânico desta perversa
de recursos. A
trabalho, é mais um aspecto que também profissão e o trabalho, que se relacionam rização exclusiva dos índices de produtividade, pela realidade, hoje vivida, no que se refere ao trabalho na
despersonalização
contribui para o comprometimento da mais com alunos e sofrem mais com o necessidade de captação de recursos no mercado, pelo carreira docente, dentro das instituições públicas de
esfera psicoafetiva.
está associada ao conflito de papéis. Por outro lado, os individualismo, pela competição fratricida etc.. ensino superior.
A conseqüência mais conhecida des- tratamento de alunos, que têm maior experiência de trabalho Enfim, são aportes como os aqui apontados e a Em grande medida, esta estratégia resgata lutas
tas situações e realidades de trabalho é a, de colegas e da são menos acometidos. idéia de inter(trans)disciplinaridade, que farão avançar históricas, apontadas a partir dos Congressos do
assim chamada, Síndrome do Burnout , 6 instituição como Contribuem, também, para o surgi- o conhecimento no campo Saúde do Trabalhador ANDES-SN quando assinalam a importância central
caracterizada: pela evolução lenta, meros objetos. mento da síndrome a desvalorização (ST) e que, por seu turno, devem pau- do ativismo, a partir da relação dialética
com piora progressiva e severa; e por da profissão docente, quando se atua tar os estudos conduzidos por este
A possibilidade de entre a base e a direção, na perspectiva
passar desapercebida, no início, devido demais em tarefas burocráticas; a falta campo, mesmo levando em conta que prevenção destes de integrar as partes com o todo, o es-
à negação de que algo de errado está ocorrendo nas de autonomia e de participação nas definições das necessariamente demandarão maior distúrbios envolve a pecífico com o geral.
relações de trabalho (CARLOTTO, 2002; VIEIRA, políticas de ensino; a inadequação salarial; a falta de tempo de maturação, execução e publi- busca de maior controle E, entende-se que o motor dessa arti-
HERNANDEZ & FERNANDEZ, 2008). oportunidade de promoções; o isolamento social e a cação, portanto, numa perspectiva de dos trabalhadores sobre culação, ora em concretização dentro de
Esta síndrome, em linhas gerais, pode ser reconhe- baixa solidariedade; o baixo envolvimento associativo- investigação científica contrária à lógica seu próprio trabalho, um plano estratégico de ações pela saúde
cida por alguns “indicadores”: sindical; as precárias e inadequadas condições físicas e do produtivismo acadêmico! pela solidariedade entre no trabalho docente, é algo mobilizador
Insatisfação com o trabalho, diminuição da implicação materiais; o relacionamento com familiares de alunos Para se obter tal avanço é esta a forma e crítico para articular o local com o
pares e pela superação
pessoal com o mesmo, deslocamento, abandono da pouco implicados no processo de ensino-aprendiza- de abordar as relações Trabalho–Saúde nacional e o global.
da lógica mercantil,
profissão ou desejos expressos de fazê-lo, absenteísmo gem, e a cada vez maior cobrança da sociedade quanto que se impõe, apesar da pressão por re- Assim, a luta pela defesa da saúde dos
que hoje impregna o
laboral, esgotamento, cansaço físico, ansiedade, [...], aos resultados do trabalho docente. sultados de curto prazo e do ambiente trabalhadores e por crescente melhoria
sentimentos de culpa, alguns tipos de neuroses e de- competitivo que, hoje, caracteriza a
trabalho docente nas nas condições do trabalho docente,
pressão [...] desde referências pedagógicas (ESTEVE, 3. Considerações finais produção acadêmica, em função dos universidades públicas, hoje tão degradadas e precarizadas - de-
1987). Associado a tais idéias surge um sofrimento As imposições trazidas pelas mudanças estruturais padrões mercantilistas que norteiam as caracterizada pela gradação e precariedade, estas, expressas
identificado por indicadores como: insônia, perda de no modo de produção capitalista na contemporanei- investigações científico-acadêmicas (LI- ideologia presente na nas doenças e/ou distúrbios, ainda não
memória, dor nas costas, angústia e desinteresse sexual. dade, caracterizadas pela reestruturação produtiva RIA & GARCIA, 2009). valorização exclusiva reconhecidos como tal, aqui apontados
(MARTINEZ, VALLES & COHEN, 1997) (ANTUNES, 1999), como foi apontado, refletem-se Frise-se que os resultados das pesqui- dos índices de e, por isso mesmo, objeto de denúncia
Assim, a Síndrome do Burnout está associada a também nas Instituições Públicas de Ensino Superior sas desenvolvidas com esta abordagem produtividade. - deve ter como preocupação central o
sintomas relacionados à exaustão mental, emocional, por meio do chamado capitalismo organizacional o poderão ser utilizados como elemento “docente coletivo”, principal razão de
fadiga e depressão. São sintomas comportamentais e que implica a ocorrência de alterações importantes no instrumental para o desenvolvimento de uma estratégia ser e existir de um sindicato de abrangência nacional e
mentais, e não apenas físicos, e relacionam-se ao tra- processo de trabalho, as quais redundam, dentre outros em defesa da humanização do trabalho, conforme construído desde a base, e que, por isso mesmo, deve
balho. Tais sintomas acometem pessoas “normais” aspectos, na hegemonia da ideologia do produtivismo preconizado pelo campo ST. sempre estar atento, na ausculta dos anseios que dela
e associam-se à queda do desempenho no trabalho, acadêmico e na descaracterização da natureza do No campo político, é preciso esclarecer a sociedade despontam, no seu cotidiano.
causada por posturas e comportamentos negativos. As trabalho docente, e vêm aumentando os índices de quanto ao caráter nefasto do processo em curso e
dimensões da síndrome envolvem exaustão emocional, adoecimento na categoria. organizar a luta necessária para reverter o quadro que Notas
despersonalização e baixa realização pessoal no traba- Tal situação tem como manifestação para a saúde se apresenta. Entende-se que o ANDES - Sindicato 1. Frise-se que o campo Saúde do Trabalhador busca alcançar a re-
lho. A exaustão emocional é expressa pela falta ou ca- dos trabalhadores, em especial, a Síndrome do Bur- Nacional, ao empreender a discussão da temática, humanização do trabalho, na perspectiva de resgatá-lo como espaço
de criatividade e desenvolvimento das potencialidades humanas na
rência de energia, de entusiasmo, e pelo sentimento nout, nome genérico de uma série de distúrbios rela- como aconteceu no Encontro Nacional sobre Saúde sua relação com a natureza e com os outros homens, numa relação
de esgotamento de recursos. A despersonalização está cionados à esfera psicoafetiva, em estreita relação com do Trabalhador: “Educação Submissa à Lógica do dialética para transformá-la e a si próprio (LAURELL & NORIEGA,
associada ao tratamento de alunos, de colegas e da os processos de trabalho docente, impregnados pela Capital: da precarização do trabalho docente à Saú- 1989).
instituição como meros objetos. Por seu turno, a bai- lógica mercantil, sendo um importante indicador do de do Professor: os desafios atuais”, realizado em 2. Em Marx, trabalho abstrato é a forma de trabalho característica

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

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do Capital: da precarização do trabalho docente à Saúde do Professor: Saúde Coletiva) - Faculdade de Ciencias Médicas, Universidade
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6. A Síndrome do Burnout é também conhecida como “Mal-estar Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 5, n. 1, p. 151-161,
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58 - DF, ano XIX , nº 45, janeiro de 2010 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE UNIVERSIDADE E SOCIEDADE DF, ano XIX, nº 45, janeiro de 2010 - 59
Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

Ensino à Distância no Brasil: aspectos da


realidade para estudantes e docentes
Claudio Antonio Tonegutti
Professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR)
E-mail: [email protected]

Resumo: Este artigo traça um breve panorama estrutural do EAD no ensino superior brasileiro, tomando
como referência o ano de 2007. Sugere-se, a partir desse panorama e também de estudos de outros autores,
que um número significativo de estudantes cursando EAD, no Brasil, deveria estar sendo atendido pelo ensino
presencial público. Quanto ao trabalho docente, conclui-se que na modalidade EAD, vinculada tanto a IES
públicas quanto a privadas, há um nível de precarização muito maior do que o verificado no ensino presencial,
considerando como indicador o regime de trabalho exercido pelo docente. Essas constatações levantam grandes
preocupações com respeito a políticas públicas que visam à ampliação do acesso ao ensino superior, em grande
extensão, mediante a utilização do EAD.

Palavras-chave: Política Educacional; EAD; Ensino Superior.

Breve introdução histórica estudos para os adultos engajados no mercado de tra-

A
s origens do ensino à distância (EAD) remontam balho ou nos afazeres domésticos, que não possuem o
a mais de duzentos anos atrás e, durante todo tempo necessário às atividades de frequência obriga-
esse período de tempo, o tema vem refletindo as tória em um curso presencial, ou, mesmo, residem em
transformações ocorridas no mundo, principalmente localidades de difícil acesso para que possam, com ra-
as decorrentes dos avanços da tecnologia. zoável eficiência, se deslocar para o local da escola.
O EAD surge em decorrência da necessidade da Nos Estados Unidos da América (EUA) registrou-
classe trabalhadora (ou, mais geral, da sociedade) de ter se o primeiro curso por correspondência em taquigrafia,
acesso à educação, o que não era possível, na maioria no ano de 1728, na cidade de Boston (KATZ, 1973, p.
das vezes, pelos meios tradicionais. Em muitas situa- 6-7) e, no início do século XIX, com a ampliação dos
ções, o EAD possui um papel complementar à escola serviços postais, esta forma de ensino já estava razoa-
presencial e, por vezes, é a única oportunidade de velmente difundida, naquele país, em cursos técnicos e

60 - DF, ano XIX , nº 45, janeiro de 2010 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE UNIVERSIDADE E SOCIEDADE DF, ano XIX, nº 45, janeiro de 2010 - 61
Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

de extensão. No ensino superior, a difusão desta moda- A análise tomará como limite o ano de 2007 por ser
Tabela 1
lidade de ensino se dá, principalmente, com a fundação este a última referência1 para os dados numéricos por IES que ofertaram ensino presencial e EAD em 2007, BRASIL
da Open University (Universidade Aberta) no Reino ocasião da elaboração deste texto.
Unido (UARU), no final dos anos 1960. Do total de 4,9 milhões de matrículas no ensino Universidades Centros Fac. Integradas Fac. Esc. e CET e
No Brasil, considera-se como marco inicial do superior brasileiro, em 2007 (INEP/MEC, 2008), a Universitários Institutos FaTec

EAD a criação, por Roquete-Pinto, entre 1922 e 1925, participação do EAD é de 7,6% sendo os restantes Ensino Presencial

da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro e de um plano 92,4% referentes ao ensino presencial (dos quais 7% Federal 55 0 0 4 47

sistemático de utilização da radiodifusão educacional do total são matrículas nos cursos tecnológicos). Con- Estadual 35 0 0 28 19

como forma de ampliar o acesso à educação. Algumas siderando o aumento exponencial, prenunciado pelos Municipal 6 4 4 47 0
Públicas - Total 96 4 4 79 66
iniciativas governamentais foram desenvolvidas mi- dados apresentados no Gráfico 1, esta relação já deve
Privadas - Total 87 116 122 1569 138
nistrando aulas pelo rádio. A primeira instituição total- ter se modificado consideravelmente, a favor do EAD,
Oferta de EAD
mente devotada ao ensino à distância (também aqui, neste ano de 2009. Como não há previsão de duração
Federal 35 0 0 0 4
então, chamado de ensino por correspondência), no dos cursos por EAD, não há informação no Censo do
Estadual 9 0 0 0 0
Brasil, parece ter sido o Instituto Universal Brasileiro, Ensino Superior do ano de 2007 que permita analisar
Municipal 1 0 0 0 0
instituição privada, criada em 1941, para a oferta de a relação entre ingressantes e concluintes, na série his-
Públicas - Total 45 0 0 0 4
cursos profissionalizantes. Durante o século XX, vá- tórica, para se aferir a taxa de conclusão (ou a de evasão
Públicas - % IES que
rias iniciativas, públicas e privadas, foram realizadas e retenção).
ofertam EAD 46,9 0,0 0,0 0,0 6,1
no país, com maior ou menor êxito, ganhando impulso O número de vagas oferecidas em 2007 quase dobrou
Privadas - Total 24 9 0 10 2
mais significativo a partir de meados dos anos 1990, em relação ao ano anterior (crescimento de 89,4%), Privadas - % IES que
por conta da difusão da internet e da TV via satélite, mas boa parte das vagas ofertadas não são ocupadas, fi- ofertam EAD 27,6 7,8 0,0 0,6 1,4
bem como pelo reconhecimento do EAD, na Lei de cando a relação de oferta/procura em 0,35 candidatos
Fonte: INEP/MEC - Microdados do Censo do Ensino Superior de 2007.
Diretrizes e Bases da Educação – LDB, em 1996. por vaga ofertada. Esta baixa relação candidato/vaga
Neste artigo, pretendemos discutir brevemente o deve propiciar toda a sorte de problemas no que se Para efeito de comparação, das 4.160 IES existentes normalmente, cursos de graduação de 2 anos. Entre as
EAD em seu aspecto estrutural e enfocar suas implicações refere ao acompanhamento pedagógico dos cursos, nos EUA, no ano acadêmico 2006-07, cerca de 65,4% privadas, prevalecem as IES privadas sem fins lucrativos
para a política educacional e para o trabalho docente. tanto por parte dos alunos como também por parte delas (2.720) ofereciam EAD, conforme pode ser visto com cursos de 4 anos. É interessante notar, por outro
dos sistemas de tutoria. na Tabela 3. lado, que tais relações não se mantém quando são con-
O Ensino à Distância no Brasil - atualidade A participação das Instituições de Ensino Superior Das IES que oferecem EAD, nos Estados Uni- siderados os números de matrículas: destas, mais de
No Brasil, o EAD ganha impulso na oferta de cursos (IES) na oferta de EAD, em 2007, por organização acadê- dos, mais da metade são públicas e, mais de um terço, dois terços se concentram no setor público e o terço
de graduação a partir do início dos anos 2000, conforme mica e administrativa, é indicada na Tabela 1, adiante. públicas do tipo Community College, que oferecem, restante distribui-se, igualmente, entre IES privadas
pode ser visto na evolução dos números de matrículas e A participação na oferta de EAD em cursos de gra-
de concluintes apresentados no gráfico 1 abaixo: duação esteve restrita, em 2007, a 4% das IES existentes, Tabela 2
ocorrendo predominantemente em universidades, com Matrículas em cursos de graduação - Brasil 2007
Gráfico 1:
a participação expressiva das públicas (quase o dobro). Dependência Presencial Presencial EAD EAD
Evolução do EAD no Brasil – 2002 a 2007
A maior participação das universidades na oferta Administrativa 1º semestre 2º semestre 1º semestre 2º semestre
400000
de EAD é esperada, em vista da necessidade de uma Federal 615.013 610.132 25.552 38.253
infra-estrutura mais complexa. A participação maior
350000 Estadual 482.639 470.604 67.275 66.939
do setor público certamente está associada às políticas
300000 Municipal 142.612 139.040 1.382 2.487
dos governos federal (principalmente por meio da
250000 Total - Público 1.240.262 1.219.776 94.209 107.679
Universidade Aberta do Brasil – UAB) e, também,
200000 Matrículas de alguns Estados na ampliação da oferta de vagas em Particular 2.257.321 2.253.008 183.906 207.701

150000 Concluentes
cursos superiores pelo EAD. Comunitária, confessional

100000 Por outro lado, a distribuição das matrículas na gra- e filantrópica 1.382.092 1.329.101 91.651 114.586

50000 duação ofertadas por EAD segue um perfil contrário Total - Privado 3.639.413 3.582.109 275.557 322.287

0
ao das IES credenciadas, pois as mesmas estão con- Total Geral 4.879.675 4.801.885 369.766 429.966
2002 2003 2004 2005 2006 2007
centradas nas IES privadas, conforme pode ser visto Nota: não foram considerados os cursos sequenciais de formação específica e de complementação de estudos.
Fonte: INEP/MEC: Censo do Ensino Superior do ano de 2007 na Tabela 2. Fonte: INEP/MEC - Microdados do Censo do Ensino Superior de 2007.

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

Tabela 3 destinado a um público de faixa etária mais elevada. nossos objetivos, estamos considerando os estudantes
Dimensão do EAD nos EUA, por tipo de curso, por organização acadêmica e administrativa Como reforço deste ponto, é oportuno registrar com idade acima de 30 anos com suficiente experiência
Tipo de IES Total de Total de Matrículas Matrículas em EAD (%) a posição de Fétizon & Minto (2007) em defesa do de vida para se adequarem, com maior facilidade, a um
IES com Matrículas em Cursos EAD Cursos EAD Outros cursos
ensino presencial, em artigo publicado nesta mesma estilo de estudo independente e, portanto, mais propen-
EAD EAD (milhares) On-line (%) híbridos on-line (%) EAD %
revista, do qual trazemos aqui a seguinte passagem: sos a adotarem a abordagem mais aprofundada.
TN GR PG TN GR PG TN GR PG
[...] o estímulo à observação, à formulação de hipóteses, Da comparação entre os gráficos 2.1 e 2.2, observa-
Todos 2720 12153 77 63 14 12 9 3 10 8 2
à desestabilização, à equilibração, à reelaboração de con- se que a faixa típica de idade para o ingresso é bastante
Públicas 2anos 1020 4844 80 80 na 10 10 na 9 9 na
ceitos – estímulo esse impregnado por aspectos afeti- distinta entre as modalidades presencial e EAD, fican-
Privadas sem fins
vos e solidários – é um desafio constante no processo do, majoritariamente, em até 24 anos (61%) para a
lucrativos 2 anos 30 11 100 100 na # # na # # na
educacional. Processo este que é permeado pelo brilho- educação presencial e acima dos 30 anos (56%) para
Privadas com fins
opacidade dos olhares, pela ginga dos que buscam, o EAD. A faixa de 25 a 30 anos é aproximadamente
lucrativos 2 anos 80 72 96 96 na 3 3 na # # na
pelo sorriso maroto dos que encontram, pela fruição equilibrada para ambas as modalidades.
Públicas 4 anos 560 3502 70 54 17 15 11 4 15 11 4
individual e coletiva do apreendido, resultando na aqui- Se, por um lado, o perfil etário de ingresso no EAD
Privadas sem fins
lucrativos 4 anos 790 1854 74 46 28 13 8 5 13 7 6
sição, pelos estudantes, de autonomia para formular corrobora o esperado para um alunado mais maduro
Privadas com fins
leituras de mundo e atuar como sujeitos históricos, e, (acima de 30 anos), por outro lado, não deixa de ser
lucrativos 4 anos 240 1869 87 56 31 12 4 7 1 1 1 pelos professores, de efetivação do seu compromisso preocupante constatar que existe um contingente mui-
Legendas: TN = Todos os níveis; GR = Graduação, PG = Pósgraduação, na = não se aplica, # = porcentagem inexpressiva ou inexistente.
profissional, mas também humano. Tal dimensão é to significativo de estudantes ingressando no EAD
Fonte: Parsad & Lewis (2008). intrínseca ao ensino presencial e estaria descartada no que deveria (exceto por questões extraordinárias) ser
sem e com fins lucrativos, ambas ofertando cursos de 4 e conveniência (ao invés de freqüentar aulas em ho- EAD, assim como, em tese, também estariam sendo atendido pelo ensino presencial (pelas questões peda-
anos. rários pré-estabelecidos). Mas, isto, só funciona razoa- descartados os próprios professores ( p.102). gógicas já mencionadas).
A maior concentração de matrículas em EAD, nos velmente para os estudantes que possuem maturidade Tendo isto em conta, é importante, então, verificar Esta preocupação vem ao encontro daquelas ex-
EUA, está, pois, nos Community Colleges de 2 anos, para estabelecerem hábitos apropriados ao estudo a distribuição, no Brasil, do alunado, por faixa etária, pressas por Kember (2007) na análise dos sistemas de
sendo muito baixa a oferta pelo setor privado, neste independente, o que está relacionado, em geral, com a entre o ensino presencial e o EAD no ensino superior, EAD em prática em alguns países em desenvolvimento,
tipo de curso. Entre os três tipos de oferta discrimina- idade do estudante. o que é feito no gráfico abaixo, considerando a idade principalmente no sudeste asiático. Numa discussão
dos, a oferta totalmente on-line é prevalente em todos Em um trabalho de revisão da literatura sobre abor- dos ingressantes, em 2007. sobre a importância, para a aprendizagem, do contato
os setores e tipos de cursos. Chama a atenção a alta dagens de aprendizagem, Richardson (1994) analisou O corte, acima e abaixo de 30 anos, foi arbitrário, “face a face”, entre o estudante e o professor e entre
porcentagem de matrículas na pós-graduação, espe- que existem duas abordagens de estudo dicotômicas mas as faixas etárias seguem as adotadas pelo Censo o estudante e seus colegas, ele nota que, devido a esta
cialmente no setor privado, na modalidade totalmente adotadas pelos estudantes na educação superior: 1) uma do Ensino Superior de 2007 do INEP/MEC. Para os importância, há uma tendência, em sistemas de países
on-line. abordagem de nível superficial, associada à aprendiza-
Gráfico 2
Observa-se, assim, também, nos EUA, a participação gem reprodutiva; e 2) uma abordagem de nível pro-
Ingressantes no ensino superior em 2007- distribuição por faixa etária.Ensino Presencial (1) e EAD (2).
expressiva das IES públicas, o que, de modo análogo, fundo, quando o estudante consegue selecionar, in-
é o resultado de políticas de expansão do acesso ao tencionalmente, dentro do conteúdo do material de
ensino superior por meio do EAD, levadas a efeito aprendizagem, os aspecto principais daquilo que o
Presencial % Até 18 EAD %
anos
pelos governos de vários estados daquele país, nas duas autor deseja dizer, por exemplo, sobre um problema Acima Até 18 2% De 19
de 30 anos a 24
últimas décadas. A pequena participação de matrículas ou conceito científico, e se apropria da sua essência. 14%
anos anos
em cursos híbridos ou associados (definidos como Então, para os estudantes mais jovens, a intervenção 20% 20%
aqueles em que uma parte do ensino é realizada por mais direta do professor e a adoção de metodologias de
EAD), verificada frente àquela em cursos ofertados ensino que despertem a sua motivação para a adoção
totalmente em EAD, em todos os casos, sinaliza, na da segunda abordagem são imprescindíveis para uma
prática, que a associação entre as modalidades, pre- aprendizagem significativa.
sencial e à distância, não é uma prática tão comum co- Esta dicotomia pode estar associada a vários fatores, De 25 Acima
mo geralmente se pensa. mas há evidências consistentes (Richardson, 1994) de que a 29 De 19 de 30 De 25
anos a 24 anos
Um aspecto importante, que é normalmente as- a abordagem de nível profundo é mais comumente ob- a 29
19% anos 56% anos
sociado ao EAD como característica peculiar, é a fle- servada nos estudantes com maior maturidade do que 47% 22%
(1) (2)
xibilidade do estudante em organizar seu tempo e nos mais jovens. Este é um fato chave que, inclusive,
horários de estudo, conforme a sua disponibilidade permite associar o EAD como preferencialmente Fonte: INEP/MEC – Microdados do Censo do Ensino Superior de 2007.

64 - DF, ano XIX , nº 45, janeiro de 2010 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE UNIVERSIDADE E SOCIEDADE DF, ano XIX, nº 45, janeiro de 2010 - 65
Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

em desenvolvimento que se baseiam no modelo da vagas, em particular no sistema público, corrobora Tabela 4
Funções docentes associadas à atuação em EAD, por regime de trabalho - Brasil 2007
UARU, em desenvolver uma extensiva infra-estrutura essa análise. Em 2007, no sistema presencial a média
para fomentar o contato “face a face”. candidato/vaga nos processos seletivos de ingresso Sem Graduação Graduado Especialista Mestre Doutor Total % por
em IES públicas brasileiras ficou em 7 candidatos por Regime
Estudantes e docentes – a realidade do EAD no Brasil vaga (e 1,8 candidato/vaga considerando todas as IES), IES públicas
A maioria dos estudantes que procuram programas enquanto no sistema EAD foi de apenas 0,35 candi- Tempo Integral 0 221 290 790 837 2138 69,9

de EAD da Open University britânica, o fazem por dato/vaga. Tempo Parcial 0 184 208 229 129 750 24,5

conta de serem estudantes maduros com obrigações fa- Pode-se concluir, assim, que está havendo um des- Horista 0 26 61 70 15 172 5,6

miliares e de trabalho que os impedem de freqüentar compasso entre os esforços dispensados, principal- Total 0 431 559 1089 981 3060 100,0

um curso em tempo integral. Situações semelhantes mente pelo governo federal por meio do programa % por Titulação 0 14,1 18,3 35,6 32,1 100,0

são verificadas em outros países da Europa. Estas obri- “Universidade Aberta do Brasil” (UAB), na ampliação
IES Privadas
gações devem também criar um grau de impedimento de cursos e vagas pelo EAD e a real ocupação das
Tempo Integral 0 32 191 377 151 751 24,3
na extensão em que os estudantes podem atender a tu- mesmas. E, mais preocupante, é a possível distorção
Tempo Parcial 0 57 278 284 67 686 22,2
toriais ou outras atividades presenciais. Em vista disso, gerada pela disparidade entre a falta de vagas no sis-
Horista 0 233 537 654 229 1653 53,5
de forma consistente, a Open University mantém a tema presencial público e a sobra que se verifica no
Total 0 322 1006 1315 447 3090 100,0
sua extensa rede de suporte, atuando de EAD, que acaba induzindo muitos
% por Titulação 0 10,42 32,6 42,6 14,5 100,0
forma intensa em favorecer as atividades Em 2007, no sistema jovens a procurarem esta modalidade
Fonte: INEP/MEC - Microdados do Censo do Ensino Superior de 2007.
“face a face”. E, é bom registrar que os presencial a média como única alternativa (que, como vis-
estudantes de ensino superior no Reino candidato/vaga nos to, é uma via de aprendizagem em geral
Desta forma, pretendemos manter um posiciona- discussão, é a característica do corpo docente e as con-
Unido se valem da experiência prévia processos seletivos de inadequada a seu perfil) viável de acesso
mento firme contra a idéia de que o EAD possa se cons- dições de trabalho a que os mesmos estão submetidos
num sistema de ensino médio que lhes ao ensino superior, já que este lhes está
ingresso em IES públicas tituir em um veículo efetivo para a democratização do nas atividades de EAD.
permite adquirir habilidades valiosas fechado pela via convencional.
brasileiras ficou em 7 acesso à educação superior, como proposto por alguns Na Tabela 4 apresentamos a distribuição das fun-
para o desenvolvimento de estudos inde- Defendemos, com veemência, que,
pendentes (KEMBER, 2007).
candidatos por vaga para a garantia de uma boa formação do
educadores, a serviço de interesses governamentais ime- ções docentes das IES associadas à atuação na EAD,
(e 1,8 candidato/vaga diatistas. E, em particular, contra a sua utilização, com 2007, segundo o regime de trabalho e também a titula-
Ao contrário, os sistemas EAD de estudante, o EAD não deva ser consi-
considerando todas finalidades políticas, para justificar o cumprimento da ção (notar que um mesmo docente pode ocupar mais
países em desenvolvimento acolhem derado, em grande extensão, como uma
as IES), enquanto no meta prevista no Plano Nacional de Educação, de que, de uma função docente, em IES distintas).
muitos estudantes jovens que não via de oferta de vagas públicas para a
até 2011, tenhamos 30% dos jovens de 18 a 24 anos Das 334.688 funções docentes nas IES, registradas
conseguiram obter uma vaga numa sistema EAD foi de formação inicial, em qualquer nível, e,
matriculados no ensino superior. em 2007, 6.150 delas estavam associadas à atuação (total
universidade convencional. Eles pos- apenas 0,35 em particular, certamente não deve ser
Outro aspecto, não menos importante para esta ou parcial) em EAD (1,8%). Até pela comparação
suem menos restrições para atender a candidato/vaga. considerado uma alternativa para jovens
tutoriais, por obrigações familiares e na faixa etária propícia ao atendimento
Tabela 5
da vida social. Muitos, provavelmente, trabalham, mas pela universidade convencional, por cursos ofertados
Funções docentes por regime de trabalho nas universidades brasileiras (2007)
isto em geral não os impediria de atender cursos em em período integral, ou mesmo em período parcial,
Universidades Total % do total Tempo Tempo Tempo Tempo Horista Horista %
tempo parcial, como os cursos noturnos p. ex., se es- como é o caso dos cursos noturnos.
Integral Integral % Parcial Parcial %
tivessem disponíveis. De todo o modo, o EAD inevi- Por outro lado, o EAD nos parece uma opção
Públicas + Privadas 178128 100,0 100483 56,4 37133 20,8 40512 22,7
tavelmente proporciona menos contato “face a face” do importante para a educação continuada, pois, neste
Total Públicas 102241 5 7,4 79651 77,9 17337 17,0 5253 5,1
que o ensino convencional e Kember (2007) apresenta caso, tendo interiorizado conceitos e técnicas básicas
evidências conclusivas, no caso do ensino superior de de sua área de atuação, o estudante teria a capacidade Federais 56833 31,9 47888 84,3 7657 13,5 1288 2,3

Hong Kong, de que muitos dos estudantes ingressam no de adicionar ao seu arsenal as novas informações e Estaduais 41202 23,1 30296 73,5 8507 20,6 2399 5,8

sistema mais por conta da facilidade de ingresso (acesso técnicas disponibilizadas, avaliando-as criticamente, Municipais 4206 2,4 1467 34,9 1173 27,9 1566 37,2
aberto) do que por desejarem estudar por EAD. mesmo sem uma intensa interação professor-aprendiz. Total Privadas 75887 42,6 20832 27,5 19796 6,1 35259 46,5
O confronto entre os cerca de 44% de estudantes O EAD, com a utilização competente das tecnologias Particulares 25421 14,3 7924 31,2 6039 23,8 11458 45,1
ingressantes no sistema EAD brasileiro na faixa etária de Informação e Comunicação (TIC) modernas, já é Comunitárias* 50466 28,3 12908 25,6 13757 27,3 23801 47,2
abaixo de 30 anos, e principalmente dos cerca de 22% na empregado, em situações específicas e como comple-
faixa até 24 anos, que seriam os candidatos mais naturais mentação, inclusive na educação presencial, nas univer- Fonte: INEP/MEC - Sinopse Estatística do Ensino Superior - 2007
a estarem num curso presencial, e a disponibilidade de sidades públicas que dispõem de recursos para tanto. * Inclui Confessionais e Filantrópicas

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

Tabela 6
lucrativos no Brasil possuem um índice
Funções docentes nas IES dos EUA por regime de trabalho (setembro a novembro de 2005)
próximo para as posições em tempo
integral (31,2%) quando comparadas com
IES com graduação Total % do total Tempo Tempo Tempo Tempo aquelas de fins não lucrativos (25,6%),
de 4 anos integral integral % parcial parcial% enquanto nos EUA as com fins lucrativos
Públicas + Privadas 916996 100 554443 60,5 362553 39,5 possuem um índice muito menor (14,3%)
Públicas 486691 53,1 339058 69,7 147633 30,3 do que as com fins não lucrativos
Total das Privadas 430305 46,9 215385 50,1 214920 49,9
(57,3%). Disso, conclui-se que no Bra-
Privadas - com fins lucrativos 72392 7,9 10339 14,3 62053 85,7
sil a precarização do trabalho docente,
Privadas - sem fins lucrativos 357913 39,0 205046 57,3 152867 42,7
em termos de vínculo empregatício, que
Fonte: Snyder, Dillow & Hoffman (2008).
é bem mais acentuada no setor privado
com a participação do EAD no total de matrículas precarização e as privadas (comunitárias, confessionais do que no público, é similar entre os
(7,6%), percebe-se que a atual forma de utilização do e filantrópicas) a maior precarização. Trilhando o ca- dois tipos de instituições (com e sem fins
EAD está focada na economia de recursos humanos minho contrário, de baixo para cima nesta mesma lucrativos), enquanto nos EUA as ins-
e, possivelmente, também de recursos materiais, pelo tabela, notamos que, de modo consistente, o trabalho tituições sem fins lucrativos possuem um
menos, em médio prazo. De fato a relação matrículas docente na, inadmissível, função horista decresce a perfil com tendência que o aproxima ao
em EAD, em 2007, no Brasil, frente às funções docentes partir dos vergonhosos números, de quase 50% de observado nas IES do setor público.
declaradas para a modalidade, dá o impressionante participação no total, no setor privado, para pouco Focando no EAD, uma pesquisa rea-
valor de 60 estudantes por função docente, quatro ve- mais de 2% nas IES federais. lizada entre docentes pela Accrediting
zes a razão que foi reportada pela mesma fonte para a A tendência de um menor porcentual de tempo Commission for Senior Colleges and Uni-
graduação presencial. integral em funções docentes associadas ao EAD po- versities for the Western Association of
A natureza precária do trabalho, aferida pelo deria significar uma maior precarização do trabalho Schools and Colleges (WASC), verificou
vínculo empregatício dos docentes envolvidos com docente em relação ao ensino presencial acontecendo que 90% deles tinham pelo menos um
o EAD, é acentuada pelo grande índice de horistas no interior das próprias IES, o que mereceria estudos outro emprego e, deste total, apenas 25%
(53,5%) nas IES privadas. adicionais para sua compreensão. afirmaram que a posição de trabalho na
Como, no Brasil, as IES envolvidas com EAD são Para comparação, apresentamos na tabela 6 acima, WASC era o emprego principal (LEFE-
em sua grande maioria, universidades, é interessante o perfil docente nas IES, dos EUA, que ofertam cursos BVRE, 2008).
verificar o regime de trabalho dos docentes que efeti- de graduação de quatro anos (que são as IES daquele Sobre a natureza do trabalho docente
vamente são vinculados às mesmas, o que foi mostrado país que apresentam o melhor termo de comparação dentro do EAD, essa pesquisa de Lefebvre
na Tabela 5. com o conjunto das universidades brasileiras). (2008) apontou que 82% do tempo estava tres), sugere que o esforço principal está focado nas
Um confronto entre as Tabelas 4 e 5 mostra que Em termos comparativos, as Tabelas 5 e 6 informam destinado a tarefas de ensino e o restante à pesquisa, atividades de ensino.
proporção, (69,9%), de funções docentes em tempo que, em relação ao total de funções docentes, o por- ao desenvolvimento profissional e a Outra questão que se aplica ao caso
integral, associadas ao EAD, nas IES públicas, é menor centual de funções docentes ligadas às universidades atividades administrativas. Dentro das Mesmo que se considere das IES públicas, é o financiamento
do que a correspondente ao perfil geral nas Univer- públicas brasileiras (57,4%) é pouco maior do aquele tarefas de ensino estavam o planejamen- a importância do do pessoal dentro do sistema UAB
sidades públicas para esse regime (77,9%); para o caso nas equivalentes IES dos EUA (53,1%). Contudo, o to estratégico, delineamento e desen- (que é o principal consórcio de IES
envolvimento de
das IES privadas, os perfis são mais próximos (24,3% porcentual do total que se encontra em instituições volvimento de curso, mas a maior parte ofertando EAD na esfera pública) ser,
pós-graduandos nas
em EAD e 27,5% no geral), e muito inferiores aos das particulares (que é a classificação adotada pelo INEP do tempo era destinada à implementação fundamentalmente, realizado por meio
IES públicas, tanto para o ensino presencial quanto para as IES com fins lucrativos) é quase o dobro, no atividades de ensino de
e avaliação de curso (85%). Não é do de bolsas (Lei nº 11.273 de 06 de fevereiro
para o EAD. Brasil, daquele verificado nos EUA. Na realidade, nosso conhecimento que hajam estudos graduação, a utilização de 2006), sendo um campo propício ao
Assumindo-se que a “porcentagem de docentes este é apenas mais um aspecto que mostra a distorção quanto à natureza do trabalho dos do- desse mecanismo em envolvimento dos estudantes de pós-gra-
em tempo integral” é um bom indicador do nível de representada pelo desproporcional número de IES centes atuando em EAD no Brasil, larga escala pode duação (como alternativa à escassez das
precarização do trabalho docente nas universidades, mercantis, no Brasil. em relação à tríade “ensino-pesquisa- resultar em distorções bolsas ofertadas nos programas de pós-
então temos uma clara indicação de que a precarização A média geral brasileira para os docentes em tempo extensão”, bem como a qualidade do que terão reflexos graduação). Mesmo que se considere a
aumenta à medida que percorremos a Tabela 5 de cima integral (56,4%) é próxima da média das instituições ensino daí decorrente. A titulação tí- negativos na carreira importância do envolvimento de pós-
para baixo (em função da dependência administrativa), equivalentes nos EUA (60,5%), mas no setor privado pica da força de trabalho (composta graduandos nas atividades de ensino de
docente.
sendo que as universidades federais apresentam a menor há uma curiosa inversão: as universidades com fins principalmente por especialistas e mes- graduação, a utilização desse mecanismo

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

em larga escala pode re- mento conveniente den- INEP/MEC, 2008. Censo do Ensino Superio do ano de 2007. PARSAD, B. & LEWIS, L. Distance Education at Degree-
sultar em distorções que tro dos marcos de reor- Disponível em:<www.inep.gov.br>. Acesso em 11 nov. 09. Granting Postsecondary Institutions: 2006–07. National Center
for Education Statistics, Institute of Education Sciences, U.S.
terão reflexos negativos denamento da política LEFEBVRE, L. A. Demographics, Employment, Motivations,
Department of Education. Washington, DC, 2008.
na carreira docente. de ensino superior, nos and Roles of Part-Time Faculty at Virtual Universities. New
Ainda sobre as con- governos Fernando Directions for Higher Education, p. 37-44, 2008. RICHARDSON, J. T. Cultural specificity of approaches to
studying in higher education: A literature survey. Higher
dições de trabalho, des- Henrique Cardoso e LIMA, K. Educação à distância ou à distância da educação.
Education , p. 449-468, 1994.
tacamos um recente estudo Lula da Silva (que vem Universidade e Sociedade, Brasília, ano XVI, n.39, p.81-91, fev.
2007. SNYDER, T. D., DILLOW, S. A., & HOFFMAN, C. M. Digest
de caso sobre o EAD, no se caracterizando pela
of Education Statistics 2007. National Center for Education
Brasil (MILL, SANTIA- crônica insuficiência do MILL, D. R., SANTIAGO, C. F., & Viana, I. d. Trabalho
Statistics, Institute of Education Sciences, U.S. Department of
Docente na Educação à Distância: Condições de Trabalho e
GO, & VIANA, 2008); financiamento público, o Education. Washington, DC, 2008.
Implicações Trabalhistas. Revista Extra-Classe, p. 56-76, 2008.
selecionamos alguns dos estímulo a medidas que
pontos levantados pelos acentuam a privatização
autores sobre as condi- das IES públicas e a im-
ções de trabalho no EAD: posição da lógica empre-
• a carga horária é alta, realizada como segunda jornada sarial na educação) já foram objeto de uma excelente
de trabalho, sendo parte do trabalho executado à noite análise, publicada recentemente nesta mesma revista
ou em horários de folga do trabalho principal (as famílias (LIMA, 2007), em que é salientado o papel do EAD
normalmente encaram as atividades como “bico” para dentro dessa política.
complementação da renda familiar); Os aspectos aqui levantados nos conduzem a
• os contratos de trabalho no EAD, quando existem, apontar a grande preocupação quanto à qualidade da
são temporários, de tempo parcial e, às vezes, pagos na educação dentro do sistema EAD brasileiro, tanto em
forma de bolsas de trabalho (o que evita a criação de seu aspecto mais geral decorrente da precarização do
vínculo empregatício e dispensa a obrigatoriedade de trabalho docente, que está no bojo das políticas edu-
benefícios como 13º salário); cacionais adotadas nas últimas décadas, quanto num
• os ganhos salariais são, em média, baixos demais para aspecto mais específico que decorre da expressiva par-
configurar a principal fonte de renda do grupo familiar ticipação de um alunado no EAD que deveria estar
e há despreocupação do empregador com as despesas sendo atendido pela educação presencial. Esta mesma
do trabalhador com equipamentos e serviços, o que gera preocupação deve se fazer presente na discussão das
con-dições de trabalho inadequadas; políticas públicas de ampliação do acesso ao ensino su-
• há falta de uma legislação trabalhista mais adequada às perior, em todos os espaços em que ocorram.
especificidades do tipo de atividade.
Assim, as questões levantadas neste breve artigo Nota
dão concretude a algumas das preocupações, de ordem 1. O Censo da Educação Superior 2008 somente veio a público em 27
mais geral, sobre as premissas que direcionam a política de novembro de 2009, quando este artigo já havia sofrido o processo de
educacional brasileira nas últimas décadas, em particular diagramação.
as orientações advindas de organismos internacionais,
como o Banco Mundial (BM) e a Organização das Na- Referências
ções Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura
FÉTIZON, B. A., & MINTO, C. A. Ensino à Distância:
(Unesco), com respeito às estratégias para a ampliação equívocos, legislação e defesa da formação presencial.
do acesso ao ensino superior, bem como aquelas que Universidade e Sociedade, Brasília, ano XVI, n.39, p.93-105, fev.
pretendem abrir espaços de negócios transnacionais na 2007.
área educacional, como as propostas pela Organização KATZ, H. H. A state of the art on the independent private School
Mundial do Comércio (OMC). industry in the state of Illinois. Advisor Council on Vocational
A distorção da utilização das Tecnologias de Infor- Education, p. 6-7, 1973.
mação e Comunicação (TICs), não como complemen- KEMBER, D. Reconsidering Open & Distance Learning in the
to à formação do trabalhador, mas, sim, como instru- Developing World. Routledge. London. UK, 2007.

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Reforma da Educação e Trabalho Docente

A pesquisa em ciência da computação e


suas interrelações com o ensino e
a formação do profissional
Maria do Carmo Nicoletti
Professora da UFSCar
E-mail: [email protected]

Resumo: Este artigo aborda algumas das muitas dimensões que caracterizam o trabalho de pesquisa em Com-
putação, buscando identificar o conjunto de influências e pressões associadas à condução de pesquisa na área.
Discute criticamente vários dos problemas envolvidos, com ênfase naqueles associados à produção intelectual
direcionada por números. Particularmente, aborda a pesquisa em Computação no contexto universitário e
analisa suas interrelações com o ensino superior e a formação do profissional em Computação e, em especial,
com a formação de novos pesquisadores.

Palavras-chave: Pesquisa em Computação; Formação de Pesquisadores; Avaliação de Pesquisadores; Produ-


ção Intelectual centrada em Números.

1. Introdução Muitas das relações anteriormente intermediadas

A
s últimas décadas têm testemunhado uma expan- por humanos foram e estão sendo substituídas por
são, diversificação e penetração da Computação sistemas computacionais. Caso essa tendência seja
e de recursos computacionais de maneira exce- mantida, as modernas sociedades vão se tornar, cada
pcionalmente rápida, contínua e definitiva. Enquan- vez mais, dependentes de recursos computacionais e
to que trinta anos atrás computadores estavam confi- dos avanços tecnológicos subjacentes. Tais avanços,
nados apenas aos centros de processamento de dados entretanto, só poderão ser bem sucedidos se o trabalho
de universidades e grandes empresas, hoje estão na de pesquisa na área computacional for eficientemente
mesa e são portavelmente carregados, sendo parte in- conduzido, com vistas a soluções de inúmeros pro-
tegrante do dia a dia de um número cada vez maior de blemas e, também, se o sistema educacional cuidar de
indivíduos. formar profissionais competentes e capacitados, bem

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

como promover e incentivar a formação de novos pes- em declínio, especialmente para mulheres. Enquanto o fundamentada, são atrativas apenas de trabalho produz, como resultado,
quisadores. percentual de homens com intenções de fazer graduação para poucos. O baixo número de can- Carreiras voltadas para uma intensa euforia e uma grande preo-
O principal objetivo deste artigo é discutir criti- em Computação não está menor que em meados dos didatos que contemplam esse perfil é o ensino e a pesquisa, cupação entre os alunos, desde o primeiro
camente o trabalho de pesquisa em Ciência da Com- anos 90, o número de mulheres com graduação em Com- ainda, subsequentemente, minado pe- que essencialmente ano de curso, na busca e identificação
putação, como parte do contexto de ensino e de for- putação atingiu um mínimo histórico (2005, p. 25). la profunda influência que exercem priorizam a formação de oportunidades de estágio, aliadas a
mação de profissionais na área, e identificar suas muitas Ainda com relação a gênero, no Brasil, a situação não as diretrizes, muitas vezes ambíguas, salários atrativos, com vistas ao futuro
competente e
interrelações, interferências e problemas. Portanto, as é muito diferente, como discutido em Osava (2009). de Departamentos de Computação emprego. O efeito colateral desse entu-
É fato que as universidades brasileiras estão rece-
responsável, o estudo,
considerações, reflexões e análises descritas neste artigo de universidades públicas. Por um siasmo todo, muitas vezes, se reflete
têm por foco essencialmente universidades e têm por bendo anualmente um percentual razoável de alunos lado, querem enfatizar o ensino e a
a reflexão e a análise na crescente cultura, junto a alunos de
base o pressuposto que, em universidades, quando com formação incompleta e deficitária em muitas pesquisa, dado que são os ideais uni- crítica fundamentada, graduação, da inutilidade do acompa-
existente, a pesquisa está intimamente ligada ao ensino áreas críticas, muitos deles exibindo deficiências em versitários e, de certa forma, a principal são atrativas apenas nhamento e aprendizado do conteúdo
e à formação profissional. Consequentemente, uma leitura/escrita e compreensão de texto, bem como justificativa para a existência de uni- para poucos. O baixo das disciplinas básicas de um curso de
discussão sobre a situação corrente de problemas e falta de habilidades relacionadas ao pensamento versidades e seus departamentos: um número de candidatos Computação, particularmente as que
perspectivas futuras da pesquisa, e particularmente da formal (ENADE, 2006). Esse problema tem sido departamento que privilegia a pesquisa que contemplam priorizam a sistematização, o formalismo,
pesquisa em Computação, deve levar em consideração também detectado em outros países; um exemplo é o é bem visto e respeitado no ambiente esse perfil é ainda, a abstração, o raciocínio lógico e o rigor.
a relação bidirecional existente entre pesquisa e ensino/ relato feito por Parham (2003), com foco em alunos universitário e um potencial candidato a Além disso, frequências às salas de aula,
subsequentemente,
formação profissional e as influências e consequências da Universidade de Montana, nos EUA. É inegável verbas disponibilizadas por agências de acompanhamento das disciplinas e, prin-
minado pela profunda
dela advindas. que muitas das deficiências impactam e interferem fomento e outros órgãos, alguns deles cipalmente, estudo formal, sistemático
no aprendizado durante os cursos de graduação, com
influência que exercem
Este artigo está organizado em mais quatro seções internos à própria universidade. Por e acumulativo passam a ser secundários,
interrelacionadas,cadaumadelastecendoconsiderações, consequências óbvias na capacitação do profissional outro lado, entretanto, departamentos as diretrizes, muitas quando não supérfluos, em face aos atra-
expressando opiniões, listando problemas e analisan- formado. também visam à inserção rápida de seus vezes ambíguas, tivos do mercado de trabalho que, visto
do algumas de suas possíveis fontes e, em alguns casos, Docentes envolvidos com o ensino em nível de gra- alunos no mercado de trabalho uma vez de Departamentos sob a ótica inexperiente e cientificamente
sugerindo soluções. São focalizados e discutidos o en- duação sabem que um grande contingente de alunos de que, presentemente, um departamento de Computação de imatura de muitos alunos, não requer tais
sino e a formação profissional em Computação em cursos de Computação não tem interesse em pesquisa bem sucedido é também medido por tais universidades públicas. conhecimentos.
universidades, a pesquisa em Computação e vários e/ou estudo mais aprofundado de qualquer tema – estão números. Com esse objetivo, alunos são Contribuem, para acentuar a tendên-
dos parâmetros utilizados na avaliação do trabalho mais interessados em uma formação básica e no título, continuamente submetidos a uma cultura que vem cia do desinteresse no estudo formal e sistemático,
do docente/pesquisador e a relação entre pesquisa e com vistas a um emprego e independência econômica. sendo desenvolvida ao longo dos anos pelos departa- professores altamente tolerantes (por várias razões)
ensino/formação profissional em Computação. As O apelo do mercado de trabalho, o assédio contínuo mentos, que veementemente promove os estágios, as à ausência em sala de aula e relutantes com relação à
conclusões são apresentadas ao final, com ênfase nos por parte de empresas com ofertas de emprego, as di- cooperações com empresa, as visitas, os centrinhos aplicação de uma medida de desempenho do apren-
principais tópicos abordados no artigo. ferentes opções de carreira e os salários atrativos da prestadores de serviços, as palestras de representantes dizado, bem como a flacidez das regras que gerenciam
área, mesmo para recém-formados, enfatizam ainda de organizações interessadas em mão de obra etc.. o desligamento/jubilação de alunos não interessados
2. Sobre ensino e formação básica em computação mais a tendência. Assim, os departamentos passaram também a atuar em estudo, que acumulam contínuas reprovações em
É fato que o interesse em formação universitária A evidência disso está no baixo número de egres- como agências de emprego. disciplinas.
em Computação por parte de jovens motivados e com sos dos cursos de graduação em Computação de Face à promoção constante e excessiva de encontros É importante apontar, entretanto, que o processo
aptidão tem declinado, não apenas no Brasil, mas em universidades públicas que estão interessados na dedicados a inúmeros dos muitos assuntos e tendências de avaliação de desempenho de alunos em algumas
outros países também. Dados com relação a essa ten- continuidade de seus estudos. Soma-se a isso o fato técnicas em Computação, e a ênfase em inúmeras ou- disciplinas de cursos de Computação pode ser uma
dência podem ser consultados em várias publicações, que, entre os que pleiteiam mestrados, vários não tras atividades periféricas e/ou modismos, alunos de atividade bastante árdua e demorada. Tais avaliações
tais como Takahashi (2009), Lenox et al. (2008), Carter demonstraram, durante a graduação, um perfil de de- cursos de Computação geralmente têm uma agenda requerem, por parte do docente, um considerável in-
(2006), Patterson (2005) e ENADE (2006). Se gênero sempenho acadêmico que os recomende favoravel- repleta de atividades sendo que, entre elas, raramente vestimento em tempo e dedicação detalhista, muitas
for levado em consideração na análise dos números, a mente. Muitos dos candidatos interessados em con- o estudo é contemplado. Essa situação provoca parte vezes indisponíveis, face ao número de alunos e às
situação é ainda bem mais drástica, dada a tendência tinuidade de seus estudos vêm de universidades priva- do desinteresse e da falta de tempo e motivação pa- outras atividades a serem cumpridas além do ensino,
mundial de mulheres não estarem ingressando em cur- das, as quais, com algumas notáveis exceções, não têm ra dedicação com vistas ao aprendizado e ao bom com alta prioridade para as que produzem um aumento
sos de Computação (ver, por exemplo, Carter (2006) e, qualquer tradição e/ou investimento em pesquisa. desempenho em disciplinas, por parte de alunos de nos números pelos quais o docente é avaliado.
mais recentemente, Klawe et al. (2009)). No contexto Carreiras voltadas para o ensino e a pesquisa, que graduação. O processo de avaliação de alunos em disciplinas
americano, Patterson comenta: essencialmente priorizam a formação competente Obviamente a exagerada atenção em preparar os de cursos de graduação em Computação mereceria
Claramente, a formação em Computação nos EUA está e responsável, o estudo, a reflexão e a análise crítica alunos para suprir as tendências efêmeras do mercado estudo e investigação de per se. Particularmente, a

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

avaliação de desempenho de alunos em disciplinas de opiniões. Parte do interesse se deve ao menor es- vam pesquisa e acabam sendo ‘forma- maioria das vezes, do comprometimento
que envolvem programação, presentes em grande forço na preparação e condução das aulas relativas a dos’ em ‘modismos computacionais’ A comunidade da qualidade do próprio trabalho como
número na grade curricular, está se tornando cada disciplinas com tal perfil, bem como ao pouco esforço passageiros. científica, nas muitas docente e orientador e do comprome-
vez mais complicada e difícil de ser realizada, em requerido na avaliação (quando uma avaliação é ado- áreas de pesquisa, timento da reputação do indivíduo co-
razão do volume de código disponível via Web. A tada) de alunos de tais disciplinas. 3. Sobre a pesquisa em computação está tão completa mo pesquisador. A leitura do currículo
preocupação com relação à implementação de um É preciso lembrar, entretanto, que muitas vezes o Algumas das características inerentes e eficientemente de professores/pesquisadores nas mais
processo de avaliação eficiente e justo tem gerado dis- interesse do docente em minimizar o tempo/esforço à área de Computação acentuam cer- catequizada com variadas áreas de conhecimento, focali-
cussões em relação à caracterização precisa do que direcionado ao ensino é também motivado pela pres- tas tendências e outras provocam um relação à importância zado em números, provoca uma grande
se constitui o plágio de código fonte, como é o caso são na obtenção dos números contabilizados para a conjunto de dificuldades a serem supe- interrogação: ou o indivíduo em questão
de números que tais
da pesquisa conduzida junto a acadêmicos de várias sua avaliação. Negligenciando o ensino por meio de radas por pesquisadores na área. A Com- tem habilidades físicas/cognitivas além
excessos, totalmente
instituições de nível superior da Inglaterra, descrita uma alocação mínima de tempo e de esforços a ele de- putação pode ser caracterizada como das humanas ou muitos dos números
por Cosma e Joy (2008). A alta ocorrência de plágio em dicados, o docente/pesquisador consegue uma dedi- uma área em que (1) a volatilidade está questionáveis e irreais necessariamente provocaram o efeito re-
programas computacionais tem, também, motivado o cação quase que exclusiva apenas às atividades que im- presente em muitos dos conceitos, fato como evidência de sidual de produção com qualidade bem
desenvolvimento de ferramentas computacionais para plicam aumento dos números que o avaliam. que contribui para acentuar, em muitos competência, são aquém da proclamada. A comunidade
a sua detecção, como as descritas em Joy e Luck (1999) Em geral, nota-se que o ensino tradicional/aprendi- aspectos, a natureza não-acumulativa de vistos com admiração científica, nas muitas áreas de pesquisa,
e Rosales et al. (2008), por exemplo. zado em áreas altamente técnicas por meio de aulas- alguns dos conhecimentos na área; (2) e como modelos a está tão completa e eficientemente cate-
A avaliação de software confeccionado por alunos, estudo-resolução de exercícios-avaliações está sendo o volume de informações e de técnicas serem imitados, quando quizada com relação à importância de
com relação à aderência às especificações, confiabili- substituído por projetos (a serem realizados por grupos disponibilizadas aumenta rapidamente; deveriam, na melhor das números que tais excessos, totalmente
dade, robustez, resultados obtidos etc., é uma tarefa de alunos), seminários e discussões (grande parte delas (3) é praticamente impossível manter questionáveis e irreais como evidência de
hipóteses, ser olhados
extremamente árdua de ser bem conduzida pelo do- opinativas apenas); isso de certa forma promove um uma atualização constante na área como competência, são vistos com admiração e
com profunda apreensão
cente da disciplina. Somam-se a essa dificuldade o ambiente hostil ao aprendizado formal, à resolução um todo e, com raras exceções, em quase como modelos a serem imitados, quando
número, invariavelmente alto, de avalia- de problemas de maneira sistemática e à todas as suas subáreas.
e como indicativo de deveriam, na melhor das hipóteses, ser
ções a serem realizadas, bem como a aquisição de conhecimento técnico ne- A natureza dinâmica e volátil da problemas. olhados com profunda apreensão e como
É notório o crescimento
agilidade com que devem ser feitas com cessário ao desenvolvimento de autono- área de Computação favorece o contí- indicativo de problemas.
do interesse de
vistas a um retorno rápido, de maneira a mia científica. nuo aparecimento de pesquisas em novas áreas de Particularmente na área de Computação, a ênfase em
docentes em ministrar
promover o aprendizado. Dependendo A graduação em Computação, pe- intersecção e de novas tendências. Tais áreas, por serem números tem provocado a proliferação de conferências
da especificação do problema, do volume
disciplinas de conteúdo ríodo de tempo durante o qual alunos incipientes e novas, oferecem um amplo campo para o (e similares, i.e., congressos, simpósios, workshops
do software e do número de sistemas geral e/ou periférico, deveriam estar voltados ao estudo, desenvolvimento de pesquisas e, infelizmente, também etc.), bem como de revistas técnicas especializadas,
computacionais a serem avaliados, a ava- particularmente as preparando-se por meio da aquisição para a pesquisa oportunista. tendência que está se acentuando cada vez mais, dada a
liação criteriosa dos alunos de uma classe que não envolvem de conhecimentos específicos e desen- Esse artigo advoga que existe um equívoco por diversificação e a penetrabilidade da Computação em
pode levar semanas. conhecimento técnico e volvimento de habilidades técnicas parte da comunidade científica e, particularmente, de praticamente todas as áreas de conhecimento.
O esforço requerido em ministrar que são mais voltadas essenciais ao bom desempenho pro- agências de fomento, na leitura de: O contexto todo de pressões por números e cor-
disciplinas com conteúdo altamente téc- à discussão e exposição fissional futuro, não está cumprindo • número de publicações; rida às publicações é tremendamente benéfico às
nico, característica presente na maioria das de opiniões. Parte o seu papel. A mensagem ambígua • número de alunos orientados; editoras comerciais que vêem na situação mais uma
disciplinas de um curso de Computação, de Departamentos de Computação • número de projetos de pesquisa; oportunidade mercadológica para lucros. Como
do interesse se deve
bem como as dificuldades e o tempo a responsáveis por tais cursos, aliada à • soma dos valores financeiros associados a conseqüência, elas estão contínua e rapidamente au-
ao menor esforço na
ser investido no processo de avaliação, pressão por ´eficiência´, aferida por nú- projetos de pesquisa; mentando o número de veículos disponíveis à publi-
fazem com que disciplinas fundamentais
preparação e condução meros, sofrida por tais departamentos, • número de comissões etc., cação (e, obviamente, do número de itens disponíveis
na formação do profissional sejam pre- das aulas relativas a contribuem pesadamente para a promo- pelos quais um docente/pesquisador é avaliado. Tal à venda) e participando, cada vez mais, na confecção
teridas por outras que não exigem tanto disciplinas com tal perfil, ção de uma formação incompleta, fa- equívoco gera a falsa ilusão de que números podem de anais de conferências e similares. A produção aca-
do docente. É notório o crescimento bem como ao pouco lha, equivocada e, infelizmente em ser facilmente traduzidos em maior/melhor qualidade dêmica focalizada em números, e o grande equívoco
do interesse de docentes em ministrar esforço requerido na muitos casos, oportunista. Um grande em pesquisa/resultados e na formação de um maior provocado por essa abordagem, é assunto de inúmeras
disciplinas de conteúdo geral e/ou pe- avaliação (quando uma percentual de alunos termina seu curso número de indivíduos competentes, tecnicamente ca- publicações que analisam essa tendência mundial e que
riférico, particularmente as que não en- avaliação é adotada) de de Computação sem o lastro técnico e pacitados e autônomos. apontam inúmeros problemas, bem como muitas das
volvem conhecimento técnico e que são alunos de tais disciplinas. a maturidade científica necessários ao A ênfase em tais números tem provocado uma corri- conseqüências nefastas que advêm do foco no número
mais voltadas à discussão e exposição prosseguimento de carreiras que envol- da da comunidade buscando aumentá-los à custa, na e da ignorância do conteúdo.

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

Lindsay Waters (2006), editor da Harvard Univer- Particularmente, com relação a revistas na área de revistas nem sempre respondam apropriadamente, co- publicam repetições triviais e inócuas de resultados
sity Press, em seu livro, analisa os problemas asso- Computação, Bergstrom (2001, p. 196) comenta: mo apontado na revista Nature (EDITORIAL, 2004, anteriores; em contrapartida, entretanto, aumentam
ciados à produção acadêmica voltada a números (par- Em novembro de 1999, após negociações não bem p. 1). Todo um exemplar da revista IEEE Transactions significativamente os números, tão relevantes na ava-
ticularmente com relação à área das humanidades) e sucedidas com a Elsevier Press sobre o preço de assi- on Education (2008) foi dedicado à análise das causas liação do docente/pesquisador envolvido.
comenta: naturas para bibliotecas, o corpo editorial da Journal of do plágio e a maneiras de neutralizá-las. Existe, entre pesquisadores, a propensão para a
O problema dos artigos ridículos publicados pelos Logic Programming renunciou e deu início a uma nova O plágio é apenas uma entre as muitas condutas fragmentação de algum bom resultado obtido em pes-
estudiosos das humanidades foi em parte resultado do revista, Theory and Practice of Logic Programming, impróprias relacionadas à pesquisa. Martinson et quisa, de maneira que cada fração desse resultado possa
grande aumento no número de publicações que se espera publicada pela Cambridge University Press. A organi- al. (2005, p. 737) comentam que, com o objetivo de ser publicada em um veículo distinto, com o objetivo
que eles próprios (e todos os acadêmicos) perpetrem zação profissional patrocinadora, Association of Logic proteger a integridade da ciência, “devemos olhar único de atender à pressão dos números pelos quais são
em papel ou despejem uns sobre os outros, na forma Programming, renunciou ao patrocínio da JLP e adotou além das falsificações, fabricações e plágios, para uma avaliados. O resgate do bom resultado implica a sua
de comunicações em congressos. Esse quadro mostra a TPLP como sua única revista oficial. Na época da faixa mais ampla de práticas de pesquisa reconstituição por meio da composição
um mundo todo errado, mas o problema não se limita decisão, a revista da Elsevier custava $973 para cerca de questionáveis”. Com esse objetivo os O trabalho de revisão de suas partes disponibilizadas em diver-
às humanidades. [...] Agora é hora de 1.100 páginas. A nova revista, que irá aparecer em autores apresentam uma tabela com 16 não é remunerado, é sas publicações.
parar e entender o quanto essa explosão São comuns as 2001, foi cotada a $301 para aproximadamente caracterizações de comportamentos im- voluntário e, muitas O processo de revisão de artigos sub-
é inimiga da vida da mente, porque o publicações que trazem o mesmo número de páginas. Em resposta, próprios, que foi usada na condução de vezes, realizado por metidos, tanto a congressos quanto a
ensino e a escrita sérios tiveram de ser conceitos definidos de a Elsevier trocou o nome da sua revista para uma pesquisa junto a uma comunidade pessoas inexperientes revistas, nem sempre é conduzido com
postos em posição secundária quando maneira equivocada (ou Journal of Logic and Algebraic Programming científica dos EUA, procurando evi-
e tecnicamente não
rigor e delimitado por critérios bem
as publicações, por si mesmas, foram errada), as repetições ad e reduziu seu preço para $7011. denciar os tipos mais freqüentes de tal definidos. O trabalho de revisão não é
preparadas ou, então,
glorificadas (2006, p. 24). nauseam dos mesmos A urgência na contabilização de nú- comportamento e em qual ocasião (co- remunerado, é voluntário e, muitas vezes,
A comercialização, cada vez maior, de meros por parte de pesquisadores e as meço ou meio) da carreira científica tal não preparadas realizado por pessoas inexperientes e
temas (experimentos, para uma avaliação
conferências pode ser notada, também, muitas ofertas no mercado, promovidas comportamento foi adotado. tecnicamente não preparadas ou, então,
com apenas pequenas consistente e justa.
por meio do crescente aumento na taxa pelas editoras, têm provocado uma Particularmente em Computação, não preparadas para uma avaliação con-
variações) e artigos São comuns pareceres
de inscrição, aumento do número de queda na qualidade e originalidade das muitas das publicações em anais de con- sistente e justa. São comuns pareceres
conferências e eventos colaterais a elas excessivamente vagos publicações, bem como um aumento ferências têm erros crassos, omissões de revisores que de revisores que refletem um total des-
associados, bem como na intensa pro- e/ou incipientes. substancial no número de publicações si- que afetam o conteúdo, tentativas de refletem um total conhecimento do texto, que aprovam
moção do aspecto turístico associado São facilmente milares. São comuns as publicações que formalização frágeis e insustentáveis, desconhecimento do (ou rejeitam) o artigo sem sequer terem
ao local (cidade/arredores etc.) do encontrados, também, trazem conceitos definidos de maneira notação conflitante, não padronizada e
texto, que aprovam lido o conteúdo todo, que refletem um
evento. Com relação ao aumento no textos mal redigidos e equivocada (ou errada), as repetições ad inconsistente. Em suma, são trabalhos
(ou rejeitam) o artigo
total desconhecimento do assunto, que
valor de assinaturas de periódicos cien- descaso na escrita de nauseamdosmesmostemas(experimentos, que provocam desorientações e múltiplas se limitam a comentar apenas a forma
sem sequer terem
tíficos e similares a situação não é muito algoritmos, com erros e com apenas pequenas variações) e artigos interpretações, decorrentes da dubieda- do artigo, sem qualquer referência ao
diferente. As diferenças nos preços pra- excessivamente vagos e/ou incipientes. de e do formalismo mal especificado, lido o conteúdo todo, conteúdo etc. O trabalho de revisão de
indefinições que, além que refletem um total
ticados por editoras comerciais e por São facilmente encontrados, também, colaborando com a divulgação de con- artigos, quando bem conduzido, além de
de possibilitarem um desconhecimento do
editoras universitárias de revistas na textos mal redigidos e descaso na escrita ceitos equivocados, com diferentes ser bastante desgastante intelectualmen-
entendimento incorreto, assunto, que se limitam
área de Economia, por exemplo, foram de algoritmos, com erros e indefinições interpretações. Para aqueles que têm te, envolve um tempo considerável.
cuidadosamente analisadas em Bergs- contribuem para a que, além de possibilitarem um enten- conhecimento técnico sobre o assunto a comentar apenas a É difícil, consequentemente, agrupar
trom (2001). Como comentado por este continuidade (via citação dimento incorreto, contribuem para a tratado, muitas dessas publicações trazem forma do artigo, sem profissionais com conhecimento téc-
autor: e referências futuras) continuidade (via citação e referências fu- um grande desconforto e contribuem qualquer referência ao nico sobre o assunto (da conferência e/
A diferença no preço não reflete dife- à perpetuação do turas) à perpetuação do equívoco/erro. para acentuar o preconceito com relação
conteúdo etc. ou revista) que se disponham, volun-
rença em qualidade. As seis revistas de equívoco/erro. O autoplágio é também comumente ao caráter oportunista e equivocado que tariamente, a investir tempo e esforços
Economia mais citadas no Social Science encontrado. Autores, em inúmeras oca- é o de uma publicação visando números. em uma atividade exaustiva, sem retorno financeiro.
Citation Index são revistas que não visam lucros, cujos siões, repetem grandes porções de seus próprios textos É facilmente observável, também, a tendência cres- Lawrence (2003) descreve e analisa o processo de
preços de assinatura para bibliotecas ficam em torno já publicados, na composição de um suposto ‘novo’ cente na criação de novas conferências/simpósios/ avaliação e publicação de artigos científicos, bem como
de $180 por ano. Apenas cinco das vinte revistas mais artigo. workshops com o objetivo único de viabilizar um os problemas envolvidos, com o objetivo de proteger
citadas pertencem a editoras comerciais e a média de O plágio em artigos, bem como a sua detecção, veículo para o escoamento dos resultados incipientes a qualidade da pesquisa. Comentando porque o nome
preço de assinatura dessas cinco revistas está por volta tem sido uma constante preocupação da comunidade de alguns dos envolvidos na criação/organização de uma revista científica passou a ser mais relevante do
de $1.660 por ano (BERGSTROM, 2001, p. 183). científica, muito embora tanto universidades quanto de tais eventos. Na maioria das vezes, tais eventos que o conteúdo do artigo nela publicado, Lawrence

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

(2003, p. 259) afirma: acadêmico e com perfil inquisitivo e crítico, que prio- são rigorosas e tampouco exigem
[...] ao invés de avaliar a própria pesquisa, aqueles que rizam e valorizam o estudo e a investigação. muito tempo de estudo, dado que
distribuem o dinheiro e posições agora avaliam cientistas Em razão do forte incentivo à IC, tanto por parte de são cumpridas juntamente com
por indicadores de performance (é muito mais fácil universidades quanto de agências de fomento, alunos, outras da graduação.
somar alguns números do que pensar seriamente sobre outros, que não apenas aqueles com inclinação e perfil A trilha pode ser considerada
o que uma pessoa conseguiu realizar). Administradores adequados à pesquisa, e, principalmente, alunos com uma contra-reação departamental
estão roubando o poder de cientistas e construindo um desempenho acadêmico bem aquém do desejado, aos seus próprios esforços para
uma cultura de contabilidade que “objetiva o mais acabam sendo premiados com uma bolsa de IC e uma colocar seus alunos, o mais rapi-
perfeito controle administrativo da vida institucional e pesquisa a ser desenvolvida. Como seria esperado, tais damente possível, no mercado
profissional” (O’Neill, 2002, p. 34). O resultado é uma alunos geralmente repetem na condução do projeto de trabalho e, como tal, uma ati-
“sociedade auditora” (Power, 1997, p. 18) na qual cada de iniciação o mesmo desempenho acadêmico que os tude contraditória, que busca
indicador é investido com uma precisão especiosa e que caracterizava antes. reter alguns alunos, oferecendo
acaba se tornando um fim em si próprio. O volume, nível de abstração e a complexidade téc- a possibilidade de um mestrado
O aumento contínuo no número de conferências nica do conhecimento e dos conceitos relacionados à mais rápido e, de certa forma, fa-
e revistas, e a necessidade de cada uma delas ter um Computação, e às várias áreas de conhecimento que a cilitado.
conjunto de revisores, bem como a subsidiam (particularmente Matemática Um aspecto que merece um
pressão por números, está provocando Este artigo defende que e Estatística), tornam a formação sólida profundo estudo por parte das
um aumento substancial no volume o estudo para aquisição na área computacional, com vistas à universidades e dos órgãos gover-
de submissões. Isso, de certa forma, e refinamento de pesquisa, inviável em um tempo curto. namentais ligados à educação e
acaba sobrecarregando aqueles que se conhecimentos técnicos, A situação se torna ainda mais crítica em à formação superior diz respeito
dispõem voluntariamente a trabalhar áreas interunidades que requerem, além à maneira como a avaliação da
reflexão, leitura,
sem remuneração como revisores, com daqueles conhecimentos, os específicos à qualidade da pesquisa realizada
resolução de exercícios,
interferências óbvias na qualidade da ava- área em questão. durante os cursos de mestrado
liação produzida. Como comenta Apt
desenvolvimento Este artigo defende que o estudo e de doutorado é conduzida.
(2001, p. 25), “A publicação científica é de habilidades para aquisição e refinamento de conhe- Oficialmente, essas avaliações
o único ramo da indústria que depende de programação cimentos técnicos, reflexão, leitura, re- envolvido, e maior o número obtido acontecem em duas instâncias du-
de massivo trabalho voluntário”. e aprendizado solução de exercícios, desenvolvimento (seja de indivíduos formados, ou seja, O que efetivamente rante tais cursos: exame de qualificação
de linguagens de habilidades de programação e apren- de artigos publicados), maior é o mérito se pretende, em e defesa da dissertação, no caso do mes-
4. Sobre a interdependência entre computacionais requer dizado de linguagens computacionais dos envolvidos. termos de pesquisa, trado, e exame de qualificação e defesa de
pesquisa e ensino tempo. Não apenas requer tempo. Não apenas tempo para A estratégia denominada trilha vem em Computação? tese, no caso do doutorado. Na maioria
No contexto dos cursos de gradua- aquisição, mas, também, tempo para ao encontro do propósito de incentivar Competir em número das situações, tanto qualificações quanto
tempo para aquisição,
ção em Computação, como discutido an- amadurecimento, organização e estabe- a rapidez na formação e foi introduzida de publicações com defesas têm sido abordadas apenas como
mas, também, tempo
teriormente, a massificação da Iniciação lecimento de conexões e relações entre em alguns programas de mestrado essa ou aquela processos burocráticos e pro forma;
para amadurecimento,
Científica (IC) pode ser considerada um os vários conhecimentos aprendidos. com o objetivo de tentar motivar os isso fica ainda mais evidente quando
organização e universidade famosa
equívoco, dado que, para muitos bolsis- Um mestrado (ou doutorado) apressado alunos de graduação a prosseguirem da indignação e surpresa, por parte do
estabelecimento de no exterior? Conduzir
tas, IC representa apenas dinheiro extra e e/ou acelerado não forma pesquisador os estudos, engajando-os provisoria- aluno, ao serem apontados problemas
quase nenhuma responsabilidade. conexões e relações algum ou, pelo menos, não colabora mente no programa de mestrado assim seriamente um trabalho e/ou inconsistências e/ou plágios em
Um projeto de iniciação científica entre os vários para a formação de um pesquisador com que iniciam o último ano da graduação. de pesquisa, aliado a seu trabalho. Uma outra tendência a ser
(e a correspondente bolsa de estudos) conhecimentos um lastro técnico sólido, bem funda- Durante o ano de trilha os alunos cur- um ensino com lastro notada é a da banca convenientemente
deveria ser um prêmio ao trabalho, à aprendidos. mentado, com visão crítica e com au- sam a disciplinas de pós-graduação, conceitual-técnico, com negligenciar a leitura cuidadosa do
vontade de estudar e de aprender e ao in- tonomia científica para a condução de suas juntamente com as de graduação. Essa vistas à formação de documento que está sendo avaliado e
teresse incipiente em pesquisa de um aluno, aliados à próprias pesquisas. Essa perspectiva, entretanto, não é situação pode ter várias leituras, inclusive indivíduos tecnicamente adotar, como certificação da qualidade do
dedicação e empenho na formação científica por parte compartilhada por órgãos governamentais, agências de as de que: (a) as disciplinas do curso de competentes trabalho, artigos produzidos e publica-
do orientador. A IC é um trabalho extra de ensino/ fomento e universidades, que se baseiam essencialmente graduação não estão bem distribuídas e dos, sem qualquer questionamento/
e socialmente
aprendizado, envolvendo orientador/aluno com vistas em números para aferição de conhecimento e aferição balanceadas entre os anos do curso; (b) leitura de tais publicações, bem como
responsáveis?
à iniciação na pesquisa daqueles com bom desempenho de formação profissional. Quanto menor o tempo as disciplinas do curso de mestrado não avaliação da qualidade dos eventos.

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

Considerando os problemas envolvidos e, particu- burocráticos e desinformados? Formar um número Publicações, 2006. em< http://ipsnews.net/news.asp?idnews=37344>. Acesso em: 08
larmente, os listados anteriormente, é urgente que cada vez maior de mestres e doutores, mesmo que isso mar. 2009.
IEEE Transactions on Education, vol. 51, no. 2, 2008.
os procedimentos vigentes para a avaliação de teses implique uma formação deficitária, como, por exemplo, PARHAM, J. R. An assessment and evaluation of computer
JOY, M.; LUCK, M. Plagiarism in programming assignments.
de doutorado e dissertações de mestrado, particular- pesquisadores matematicamente analfabetos? science education. Journal of Computing Sciences in Colleges,
IEEE Transactions on Education, vol. 42, no. 2, 1999, p. 129-
vol. 19, no. 2, 2003, p. 115-127.
mente aqueles que gerenciam como as bancas são A ênfase em números e a avaliação da academia, 133.
constituídas e como os trabalhos são avaliados, se- pautada por eles, provocam, entre outros, uma corrida PATTERSON, D. A. Restoring the popularity of Computer
KLAWE, M.; WHITNEY, T.; SIMARD, C. Women in
Science. Communications of the ACM, vol. 48., no. 9, 2005, p.
jam revistos e mudados. Esse artigo defende que a para a formação de um número, cada vez maior, de Computing – Take 2. Communications of the ACM, vol. 52, no.
25-28.
composição da banca deveria ser de competência de alunos e de pesquisadores (com os problemas que o 2, 2009, p. 68-76.
comitê externo ao programa, a partir de um conjunto excesso em número causa na formação), produção de POWER, M. The Audit Society: Rituals of Verification. Oxford
LAWRENCE, P. A. The politics of publication, Nature, vol. 422,
University Press, 1997.
de nomes associados à área de conhecimento do tra- um número, cada vez maior, de artigos publicados 2003, p. 259-261.
balho, previamente cadastrados junto a alguma agência (com as implicações que o excesso em número causa ROSALES, F.; GARCIA, A.; RODRÍGUEZ, S.; PEDRAZA,
LENOX, T. L.; WORATSCHEK, C. R.; DAVIS, G. A.
J. L.; MÉNDEZ, R.; NIETO, M. M. Detection of plagiarism in
de fomento. no conteúdo) e participação, no maior número pos- Exploring declining CS/IS/IT enrollments. Information Systems
programming assignments. IEEE Transactions on Education,
sível, de projetos simultâneos (cujos temas e partici- Education Journal, vol. 6, no. 44, 2008, http://isedj.org/6/44/
vol. 51, no. 2, 2008, p. 174-183.
5. Conclusões pantes acabam sendo, geralmente, recorrentes). A se MARTINSON, B. C.; ANDERSON, M.S.; DE VRIES, R.
TAKAHASHI, F. Matemática e ciências da computação têm alta
O trabalho de pesquisa em Computação e suas inter- prosseguir por este caminho, o resultado dessa corrida Scientists behaving badly. Nature, vol. 435, 2005, pp.737-738.
taxa de abandono. Folha de São Paulo, São Paulo, abr. 2009.
relações com o ensino e a formação do profissional é um por números só pode ter como consequência, o fim O’NEILL, O. Question of Trust. Cambridge University Press,
WATERS, L. Inimigos da esperança. Tradução de Luiz Henrique
assunto bastante vasto, com um volume alto de variáveis, da universidade de qualidade, que deveria primar, na 2002.
de Araújo Dutra, (título original: Enemies of promise). São Paulo:
bem como inúmeros desdobramentos que merecem área do ensino, pela formação de profissionais com OSAVA, M. (2009) Brazil: Women turning backs on information Fundação Editora da UNESP (FEU), 2006.
considerações e análises específicas. Embora este arti- conhecimento amadurecido e organizado, com visão technology studies. Inter Press Service, New Agency. Disponível
go tenha procurado evidenciar e discutir alguns dos ampla e capacidade de crítica, na área em que estão se
problemas mais críticos, muitos outros não foram se- formando, aptidão para o enfrentamento e solução de
quer abordados (e.g, o impacto e os objetivos da camada problemas e, na área da pesquisa, pelo compromisso
administrativa das universidades no ensino e na pesquisa, com a pesquisa de qualidade, original, socialmente re-
os cursos lato-sensu, a relação de reciprocidade em pre- ferenciada.
miações em congressos, a importância do chamado
‘networking’ na escalada acadêmica e na produção e pu- Notas
blicação de artigos, a produção intelectual direcionada 1. Os preços de assinaturas institucionais anuais para 2009 são:
pelo Qualis-CAPES etc.). JLAP: US$1.356 e da TPLP: US$ 540.
Em universidades, o ensino e a pesquisa nas várias
áreas do conhecimento e, particularmente, em Com- Referências
putação, são assuntos que merecem investigação e
APT, K. R. One more revolution to make: free scientific
análise bastante cuidadosas por parte dos órgãos pú-
publishing. Communications of the ACM, vol. 44, no. 5, 2001,
blicos e da comunidade, bem como muita reflexão e p. 25-28.
respostas sinceras, com justificativas convincentes, a
BERGSTROM, T. C. Free labor for costly journals? Journal of
muitas perguntas vitais. O que efetivamente se pre- Economic Perspectives, vol. 15, no. 3, 2001, p. 183-198.
tende, em termos de pesquisa, em Computação?
CARTER, L. Why students with an apparent aptitude for
Competir em número de publicações com essa ou Computer Science don’t choose to major in Computer Science.
aquela universidade famosa no exterior? Conduzir Proceedings of the 37th SIGCSE Technical Symposium on
seriamente um trabalho de pesquisa, aliado a um Computer Science Education, Houston, Texas, USA, 2006, p.
ensino com lastro conceitual-técnico, com vistas à 27-31.

formação de indivíduos tecnicamente competentes e COSMA, G.; JOY, M. Towards a definition of source-code
socialmente responsáveis? Produzir um número assus- plagiarism. IEEE Transactions on Education, vol. 51, no. 2, 2008,
p. 195-200.
tadoramente alto e humanamente inviável de artigos
‘originais’ (e similares), que pouco dizem e que mais EDITORIAL, Complacency about misconduct. Nature, vol. 427,
se repetem, mesmo que certificados pelas editoras- no. 6969, 2004, p. 1.

estrelas e admirados por comitês e revisores ingênuos, ENADE 2005 – Relatório síntese da área de computação. INEP

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“Vamos ganhar dinheiro à beça”:
farsa e tragédia na política do governo Lula
para a Educação Superior
José Rodrigues
Professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense
E-mail: [email protected]
http://www.uff.br/neddate/jose_rodrigues.htm

Resumo: O presente artigo analisa criticamente a política de educação superior do governo Lula da Silva,
particularmente quanto à pós-graduação e, em especial, em relação aos chamados mestrados profissionais.
Para tal, analisa a entrevista do presidente da Capes, publicada em 21 de junho de 2009, em O Globo, e a
portaria nº. 07/2009, do MEC, que regulamenta o mestrado profissional.

Palavras-chave: Governo Lula; Política de Educação Superior; Mercantilização da Educação Superior;


Privatização.

Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância
na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar:
a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa (KARL MARX, 1997,
O 18 Brumário de Luís Bonaparte).

O
empresariamento da educação, em particular da de educação-mercadoria e mercadoria-educação (RO-
educação superior, não é propriamente novidade DRIGUES, 2007).
no cenário nacional1. Tampouco é desconhecido De qualquer forma, mesmo após outras ações na
daqueles que acompanham as propostas, os discursos direção supracitada, não deixa de chamar a atenção
e a política educacional do governo Lula da Silva a perspectiva do governo Lula da Silva, explicitada
que, pelo menos desde julho de 20042, é francamente por meio da entrevista de Jorge Almeida Guimarães3,
favorável à conversão da educação em uma mercadoria, presidente há seis anos da Capes4. No mínimo, o
naquele processo que, em outro momento, denominei que se pode dizer da entrevista é que Guimarães,

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referendado pelo ministro Fernando Haddad do MEC qualquer investigação que se pretenda científica. No que tange à produção teórica, foram realizadas a “demanda enorme” provém das instituições de edu-
e, obviamente, ambos garantidos pelo presidente Contudo, como pôde ser verificado pela leitura do duras e consistentes críticas à base teórica desta política cação superior privadas, ou seja, aquelas cuja principal
Lula da Silva, traduz de maneira clara e direta a visão trecho acima da entrevista, para o presidente da Capes, educacional – a chamada teoria do capital humano6 - que finalidade é, sem dúvida, o provimento do mercado
“pragmática” do governo brasileiro sobre a educação esta etapa é praticamente um estorvo à formação de não só sustentou a reforma universitária, mas, também, com a educação-mercadoria. Senão, vejamos:
superior e o papel da ciência. Segundo o presidente da mestres “profissionais”. Talvez devamos concluir que e principalmente, a política da profissionalização com- De onde vem a demanda para o mestrado profissional?
Capes, a (re)criação e expansão dos chamados mes- - para Jorge Almeida Guimarães – os pesquisadores pulsória do 2º grau7. Dermeval Saviani corrobora esta GUIMARÃES: Sobretudo do segmento privado. Que-
trados profissionais é, doravante, uma “política de Es- em formação nos programas de pós-graduação (cursos visão: remos atrair para o sistema as universidades privadas
tado”. Mas, qual seria a política de Estado traçada pelo de mestrado e doutorado) não se preocupam em resol- Embora implantada segundo o espírito do projeto militar que têm um bom nível. No contexto da pós-graduação
governo Lula da Silva para a pós-graduação? ver problemas, ou melhor, talvez estejam apenas inte- do “Brasil Grande” e da modernização integradora do acadêmica, 20% das instituições são não públicas.
Embora a entrevista seja rica em contradições, desta- ressados em criar problemas... Talvez ele tenha razão. país ao capitalismo de mercado associado-dependente, Quando eu comecei (há seis anos atrás), eram 10% e
camos apenas alguns pontos, os quais comentaremos Pensar, de fato, cria muitos problemas. a pós-graduação se constituiu num espaço privilegiado passamos a 20%. Ou seja, não há preconceito, tem que
sumariamente com o fito de completar as lacunas do para o incremento da produção científica e, no caso, ter qualidade. No mestrado profissional, porém, é meio
não-dito no discurso governamental. Criando problemas da educação, também para o desenvolvimento de uma a meio. E cresce mais no privado.
Como talvez seja sabido, os programas de pós-gra- tendência crítica que, embora não predominante, ge- Se há ainda alguma dúvida, cabe, então, transcrever
Sobre a natureza da pós-graduação duação se expandiram fortemente durante a chamada rou estudos consistentes sobre cuja base foi possível for- o seguinte trecho, no qual o presidente da Capes
Ao ser questionado, pelo jornalista Demétrio Ditadura Militar, particularmente, após a chamada mular a crítica e a denúncia sistemática responde a Demétrio Weber sobre o
Weber, sobre as supostas diferenças en- Reforma Universitária de 1968 (Lei da pedagogia dominante, alimentando Hoje conhecida como funcionamento do “novo modelo”:
tre o mestrado, dito “acadêmico”, e o Desde pelo menos o 5.540/68) e sob os auspícios da Capes. um movimento de contra-ideologia OSCIP (Organização O mestrado profissional passa a ser por edital,
mestrado apelidado de “profissional”, século XVIII, a produção Curiosa e contraditoriamente, pelo (2005, p.37). da Sociedade Civil de aberto a todas as áreas que se sintam atraídas.
Guimarães nos ensina: sistematizada do menos no campo educacional, a produção Em outras palavras, de maneira con- Interesse Público), Hoje temos um aplicativo na internet, mas muita
Até o momento são duas diferenças conhecimento é voltada científica originada neste contexto lo- traditória, a crítica à política governa- ou simplesmente OS, gente não fica sabendo. Com a chamada pública,
básicas: o perfil do candidato e o foco. para a “resolução de grou analisar precisa e criticamente a mental surgiu dali onde se esperaria, tal- pode ser que um hospital excelente em ortopedia,
este tipo de instituição
O mestrado profissional tem um foco política educacional governamental. vez, o seu apoio8. como este aqui do Distrito Federal (Sarah Kubi-
problemas”, como sabe é peculiar porque é
específico de resolução de problemas. No que tange à educação superior, a A comunidade acadêmica está, hoje, tschek9), diga: “Nós temos cinco doutores nisso
qualquer iniciante do herdeira do patrimônio
O acadêmico, não: nesse caso, é preciso política era voltada ao estabelecimento em posição e disposta a dar combate e temos dez dos melhores cirurgiões. Vamos
fazer levantamento de literatura a
mundo da ciência, seja estrutural de uma dualidade na educação às atuais medidas de subordinação da público, financiada montar um mestrado profissional, vamos ganhar
respeito, acompanhar o que está ele pesquisador júnior, superior brasileira. A idéia posta em educação e da produção do conheci- pelo poder público, dinheiro à beça.” Hoje precisa ser todo mundo
acontecendo no mundo etc. (Grifos de ensino médio, jovem prática era, relativamente, tão simples mento à lógica mercantil? mas administrada doutor (Grifo nosso, JR.).
nossos, JR.) graduando, em iniciação quanto perversa. De um lado, existiriam privadamente, por meio O exemplo dado por Guimarães não
Ora, na verdade, desde pelo menos o científica, mestrando poucas instituições universitárias – Ganhar dinheiro à beça ou a política dos chamados “contratos é casual. Com efeito, provavelmente, a
século XVIII, a produção sistematizada ou doutorando. públicas e gratuitas - voltadas para a de Estado para a pós-graduação de gestão”. Associação das Pioneiras Sociais – en-
do conhecimento é voltada para a “reso- formação de quadros superiores, alta- Mas, a respeito de nossas interroga- tidade gestora da Rede Sarah de Hospi-
lução de problemas”, como sabe qualquer iniciante mente qualificados, para a produção científica e para a ções, Jorge Almeida Guimarães explicita precisamente tais de Reabilitação – é a pioneira na privatização dos
do mundo da ciência, seja ele pesquisador júnior, de extensão. Nestas, em geral, as vagas seriam (e o foram!) por que o governo Lula, por intermédio do Ministério serviços públicos.
ensino médio, jovem graduando, em iniciação cien- ocupadas por estudantes pertencentes às camadas mé- da Educação, resolveu “investir” nos chamados Com efeito, em 1991, pela Lei 8.246, Collor de
tífica, mestrando ou doutorando5. Imediata (pesquisa dias da população e também pela própria burguesia. Já, mestrados profissionais, transformando-os em alvo de Mello (tendo à frente do Ministério da Saúde Alceni
aplicada) ou mediatamente (pesquisa básica), os pes- de outro lado, houve a expansão descontrolada (isto uma “política de Estado”: Guerra) cria um tipo de instituição peculiar, símile
quisadores contemporâneos procuram respostas às é, promovida pelo governo) de instituições de ensino Por que o governo tomou a decisão de investir nos às entidades do chamado Sistema S (Senai, Senac,
perguntas postas pela humanidade para os problemas superior (IES) privadas, as quais eram voltadas apenas mestrados profissionais? Senat, Sesi, Sesc e Sest), hoje conhecida como OSCIP
humanos. para o ensino de graduação, em geral considerado de GUIMARÃES: Porque há uma demanda enorme. Este (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público),
Para construir tais respostas e para que seja evitada baixa qualidade. Não por acaso, as vagas (pagas) de ano o ministro (Fernando Haddad) me chamou e disse: ou simplesmente OS. Este tipo de instituição é peculiar
qualquer nova tentativa de (re)inventar a roda, toda graduação destas IES foram, em grande parte, ocupadas “Vamos transformar o mestrado profissional em política porque é herdeira do patrimônio público, financiada
pesquisa começa – obviamente - pelo “levantamento por pessoas oriundas das camadas trabalhadoras. En- de Estado, fazer um modelo diferente.” Batemos o mar- pelo poder público, mas administrada privadamente,
da literatura a respeito”. Ou seja, antes de começar a fim, a política de educação superior, no período da telo: vamos transformar o mestrado profissional em por meio dos chamados “contratos de gestão”.
pesquisa, é preciso verificar ou “acompanhar o que chamada Ditadura Militar, constitui um sistema de modelo de indução. (Grifo nosso, JR.) Para aqueles que acompanham cotidianamente a
está acontecendo no mundo” – é a etapa preliminar de educação superior dual. Como fica claro em outras passagens da entrevista, política estadual do estado do Rio de Janeiro (governo

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

Sérgio Cabral, PMDB), assim como a municipal ca- resenha apologética da portaria ministerial. damente, os artigos 3º e 4º, ficam claras o capital busca a autovalorização, onde
rioca (prefeito Eduardo Paes, PMDB), as OS estão na Tal qual a entrevista do presidente da Capes, a por- as intenções do Ministério da Educação Analisando-se, mesmo cada uma dessas perspectivas são faces de
“agenda” destes governos. Com efeito, ambos estão taria do ministro Fernando Haddad é rica em aspectos para com o novo mestrado profissional: que rapidamente, os uma mesma moeda, ou seja, formas sob
em um célere processo de privatização dos serviços elucidativos das orientações política, pedagógica e uma preparação técnico-científica da artigos 3º e 4º, ficam as quais a mercadoria se materializa no
públicos, precisamente por meio da entrega das redes ideológica do governo Lula da Silva para a educação força de trabalho qualificada em nível claras as intenções do campo da formação humana.
públicas (educação, saúde, cultura) às chamadas OS. superior. Contudo, diante da natureza deste breve tex- superior – calcada nos interesses imedia- Ministério da Educação Note-se que encontramos - ao lado de
“Vamos ganhar dinheiro à beça”. Este é o lema to, optamos por destacar apenas alguns aspectos. tos do parque produtivo brasileiro. noções, interesses, objetivos e finalidades
para com o novo
proferido pelo presidente da Capes, que deverá nortear Já em seu artigo 1º, a Portaria nº 7/09 anuncia a in- Destacam-se aqui as noções de “inova- do discurso burguês-industrial (na fase
mestrado profissional:
a criação e o funcionamento dos chamados mestrados tenção da Capes em “regular a oferta” dos cursos de ção”, “competitividade”, “produtivida- da acumulação flexível14) – significantes,
profissionais, onde, para ele, revisão de literatura, mestrado profissional, assim como a sua avaliação. de”: léxico mágico do discurso neodesen- uma preparação técnico- outrora, situados em outro campo polí-
pesquisa básica e doutores-pesquisadores são um ver- Sobre isto, basta dizer que se, por um lado, os volvimentista aplicado à educação, to- científica da força de tico-semântico. Senão, vejamos o artigo
dadeiro estorvo. defensores da regulação da vida humana via mercado, mada como o velho capital humano11. trabalho qualificada 4º da portaria ministerial:
Fechando a entrevista, Jorge Almeida Guimarães em particular na área da educação, justificam suas ações Art. 3º O mestrado profissional é defi- em nível superior – Art. 4º São objetivos do mestrado profissional:
dá mais um passo na explicitação cínica, isto é, pelas demandas de mercado – como, por exemplo, a nido como modalidade de formação pós- calcada nos interesses I - capacitar profissionais qualificados para o
“pragmática”, do papel do conhecimento na sociedade criação dos mestrados profissionalizantes -, por outro graduada stricto sensu que possibilita: imediatos do parque exercício da prática profissional avançada e
capitalista, seja ele produzido ou não às expensas das lado, parecem não confiar, tanto assim, à pródiga “mão I - a capacitação de pessoal para a prática produtivo brasileiro. transformadora de procedimentos, visando
verbas públicas: invisível mercado” a responsabilidade de condução de profissional avançada e transformadora atender demandas sociais, organizacionais ou
Destacam-se aqui as
O camarada passa um período numa empresa, como seus próprios negócios. Sim, é preciso sempre a mão de procedimentos e processos aplica- profissionais e do mercado de trabalho;
noções de “inovação”,
consultor. Ele está fazendo mestrado profissional e nem firme do Estado (burguês) a orientar e disciplinar as dos, por meio da incorporação do II - transferir conhecimento para a sociedade,
é empregado daquela empresa. Essa consultoria contará forças de mercado. método científico, habilitando o pro-
“competitividade”, atendendo demandas específicas e de arranjos
(pontos). A empresa vai dizer se valeu a pena. Contará Além disso, ameaça-se sempre com a mão pesada fissional para atuar em atividades “produtividade”. produtivos com vistas ao desenvolvimento na-
pontos e até pode ser a própria defesa final (em vez de da avaliação. Mão esta que, até o momento, tem técnico-científicas e de inovação; cional, regional ou local;
dissertação). Se for assunto de sigilo industrial, pode ser sido dura com alguns programas de pós-graduação II - a formação de profissionais qualificados pela apropria- III - promover a articulação integrada da formação
uma defesa sigilosa. Tem que ter um trabalho final, só (particularmente com aqueles que vêm resistindo à ção e aplicação do conhecimento embasado no rigor me- profissional com entidades demandantes de naturezas
que o trabalho não precisa ser a tese clássica. Pode ser produção em série de dissertações e teses) e bastante todológico e nos fundamentos científicos; diversas, visando melhorar a eficácia e a eficiência das
uma patente, uma consultoria, um conjunto de artigos suave com as faculdades de fim-de-semana, com as III - a incorporação e atualização permanentes dos avanços organizações públicas e privadas por meio da solução
na imprensa (Grifos nossos, JR.). universidades de faz-de-conta, que, volta e meia, estão da ciência e das tecnologias, bem como a capacitação para de problemas e geração e aplicação de processos de ino-
Esta resposta põe claramente no lugar de mercadoria presentes nas páginas da imprensa. aplicar os mesmos, tendo como foco a gestão, a produção vação apropriados;
o conhecimento: o “sigilo industrial”. Por coerência Na mesma ambivalência, segue o artigo 2º da Por- técnico-científica na pesquisa aplicada e a proposição de IV - contribuir para agregar competitividade e aumentar
à lógica mercantil, para proteger o conhecimento, taria Ministerial, que anuncia aos futuros estudantes inovações e aperfeiçoamentos tecnológicos para a solução a produtividade em empresas, organizações públicas e
produzido a partir de todo o acervo cultural humano, que se tranquilizem, pois o Estado irá garantir seus di- de problemas específicos. (Brasil, Portaria do MEC, nº 7, privadas.
a “defesa sigilosa” e a patente são itens indispensáveis. reitos de consumidores: de 22 de junho de 2009. Grifos nossos. JR.). Parágrafo único. No caso da área da saúde, qualificam-
De fato, desde a revolução industrial inglesa, em mea- Art. 2º O título de mestre obtido nos cursos de mestrado O artigo supracitado explicita o deslocamento “para se para o oferecimento do mestrado profissional os
dos do século XVIII, o conhecimento deixou de ser profissional reconhecidos e avaliados pela CAPES e cima” da dualidade que marca a educação brasileira, programas de residência médica ou multiprofissional
meramente contemplativo, compreensivo, para se credenciados pelo Conselho Nacional de Educação - em particular a educação superior. Assim, como hoje devidamente credenciados e que atendam aos requisitos
converter em aplicação prática, tão-somente. CNE tem validade nacional e outorga ao seu detentor os temos dois tipos de graduação (a dita tradicional e os estabelecidos em edital específico. (Brasil, Portaria do
mesmos direitos concedidos aos portadores da titulação atuais cursos superiores de tecnologia)12, a Portaria MEC, nº 7, de 22 de junho de 2009 (Grifos nossos,
A portaria ministerial de Haddad nos cursos de mestrado acadêmico. 07/2009 formaliza a nova dualidade no plano da pós- JR.).
No dia seguinte à publicação da entrevista de Jor- Contudo, os aspectos mais ricos em contradições graduação13. Aliás, como já indicara, (RODRIGUES, Enfim, a educação, as instituições públicas, a produção
ge Almeida Guimarães, efetivamente, foi assinada a são, sem dúvida, a confrontação, de um lado, dos artigos 2005) este deslocamento “para cima” da dualidade já do conhecimento devem ser guiadas pelos mesmos
portaria ministerial que normatiza o “Mestrado Pro- 3º e 4º - que traçam, respectivamente, a definição e os estava previsto no Decreto 5.154/04. princípios e interesses que governam as atividades pri-
fissional”, em todo o país10. objetivos do mestrado profissional - com o inciso II, De fato, conforme já havíamos interpretado (RO- vadas, empresariais. Em outras palavras, há uma sutil
De fato, a portaria confirmou toda a entrevista con- do artigo 7º, de outro lado, o qual indica que a duração DRIGUES, 2007), só existem duas formas básicas da metamorfose, de um horizonte democrático-popular
cedida por Guimarães, ou melhor, a entrevista, que fora do curso de mestrado profissional será de, no mínimo, burguesia - isto é, do capital - encarar a educação escolar: (burguês) para o télos economia competitiva, erigido pe-
publicada em uma edição dominical de um dos maiores um ano e no máximo, dois anos. Senão, vejamos. educação-mercadoria ou mercadoria-educação. Cada lo discurso industrial (burguês), na virada do padrão de
jornais brasileiros, funcionou, na verdade, como uma Em primeiro lugar, analisando-se, mesmo que rapi- uma dessas perspectivas liga-se diretamente à forma como acumulação fordista para a acumulação flexível15.

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

No caso desta portaria, fica claro que, de um lado, os que um dia foi sagrado, hoje é, contínua e francamente, Notas Referências
artigos 1º, 3º e 4º procuram garantir a conversibilidade profanado e imolado no altar do Deus-Mercado. 1. Ver Neves (org.) 2002; Silva Jr.; Sguissard (2001); Reis; Rodrigues BRANDÃO, Marisa. Metamorfose dos cursos superiores de
da educação-mercadoria em mercadoria-educação. Em outras, palavras, (2006); Rodrigues (2008). tecnologia no Brasil: política de acesso ao ensino superior em
um Estado burguês. Niterói: UFF, 2009. (Tese de Doutorado em
Ou seja, de um lado, a portaria acena aos eventuais A burguesia despojou de sua auréola todas as atividades 2. Refiro-me explicitamente à publicação do decreto 5.154/04, o
Educação).
interessados em adquirir o título de mestre profissional até então reputadas como dignas e encaradas com piedoso chamado decreto da reforma da educação profissional. Cf. Rodrigues
(2005). CURY, Carlos Roberto Jamil. Quadragésimo ano do parecer CFE n°
que seus certificados e diplomas terão validade no respeito. Fez do médico, do jurista, do sacerdote, do 977/65. Revista Brasileira de Educação. Rio de Janeiro: Anped, n° 30,
mercado do trabalho complexo . De outro lado, indi-
16
poeta, do sábio seus servidores assalariados (MARX & 3. Cf. O Globo. Caderno Boa Chance, 21/06/2009, p.7. A entrevista foi
pp. 113-118, set/out/nov/dez. 2005.
conduzida pelo jornalista Demétrio Weber.
ca aos empresários (consumidores da mercadoria- ENGELs. op.cit. p.42). FRIGOTTO, Gaudêncio. A produtividade da escola improdutiva.
4. Órgão do Ministério da Educação cuja atribuição fundamental é a
educação) que o produto que estes adquirirão, como Ou seja, temos hoje uma política de Estado que Um (re)exame das relações entre educação e estrutura econômico-
elaboração e implementação da política de educação superior, inclusive
insumo à produção, terá a qualidade necessária ao seu tem como pressuposto a apropriação privada do co- social capitalista. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1984.
atuando na avaliação da pós-graduação brasileira.
empreendimento. nhecimento produzido coletivamente e financiado por 5. Estas são as “categorias” estabelecidas e apoiadas pelo Conselho
HARVEY, David. Condição pós-moderna: Uma pesquisa sobre as
origens da mudança cultural. (5ª ed.). São Paulo: Loyola, 1992.
Em tempos democrático-burgueses, verbas públicas. Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico para a formação
os mecanismos de subordinação da edu- Efetivamente, devemos encarar sere- MANACORDA, Mario. História da educação: Da antiguidade aos
De um lado, a portaria de pesquisadores. <http://www.cnpq.br/bolsas/index.htm>.
nossos dias. São Paulo: Cortez/ Autores Associados, 1989.
cação e da produção de conhecimento acena aos eventuais namente que - sob o modo de produção 6. Grosso modo, a teoria do capital humano preconiza uma relação
direta e mecânica entre o crescimento econômico e social e os índices de MARX, Karl. O 18 Brumário e Cartas a Kugelmann. Rio de Janeiro:
não precisam ser de caráter repressivo- interessados em capitalista - a ciência está subjugada à
escolaridade da população. Para uma análise crítica, ver FRIGOTTO Paz e Terra, 1997.
policial, isto é, coercitivo. Simplesmente, “lei do valor” e que, portanto, só pode
adquirir o título de (1984).
MARX, Karl; Engels, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista.
se convence a comunidade acadêmica que existir no movimento contínuo, auto-
mestre profissional 7. Refiro-me à Lei 5.692/71. São Paulo: Boitempo, 2002.
a adoção das regras de mercado, além de expansivo, traduzido, por Marx, na fór-
inevitável, lhe será útil. Por isso, alguns
que seus certificados mula D-M-D’.
8. Sobre esta discussão, ver Cury (2005). NEVES, Lúcia. (org.). O empresariamento da educação: novos
contornos do ensino superior no Brasil dos anos 1990. São Paulo:
pesquisadores-empreendedores parecem e diplomas terão Ou seja, no capitalismo, a educação, o 9. Cf. Lei 8.246/91 <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8246.
Xamã, 2002.
htm> e o próprio site da Rede Sarah <http://www.sarah.br/>, acessos
dizer, durante as reuniões dos colegiados validade no mercado conhecimento, a saúde, a verdade são meras em 23/06/09. NEVES, Lúcia; PRONKO, Marcela Alejandra. O mercado do
dos programas de pós-graduação: “A Capes do trabalho complexo. Mercadoriasque sópodemexistir se entrarem conhecimento e o conhecimento para o mercado. Rio de Janeiro:
10. Portaria nº 7 de 22 de junho de 2009, do Ministério da Educação,
EPSJV-FIOCRUZ, 2008.
somos nós, nossa força e nossa voz”. De outro lado, indica no processo de valorização do Dinheiro que “Dispõe sobre o mestrado profissional no âmbito da Fundação
aos empresários inicialmente investido para, unicamente, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - O GLOBO. Rio de Janeiro, 21 jun.2009, Caderno Boa Chance, p.7. A
entrevista foi conduzida pelo jornalista Demétrio Weber.
A política deles e a nossa (consumidores da convertê-lo em mais-D’inheiro. CAPES”. In: Brasil. Diário Oficial da União. Seção 1. Brasília, DF.
Faz mais de 150 anos que Marx e O governo Lula da Silva não se opôs a nº 117, 23 de junho de 2009. p.31 <http://www.in.gov.br/imprensa/ REIS, Ronaldo Rosas; RODRIGUES, José. Universidade shopping
mercadoria-educação) visualiza/index.jsp?jornal=1&pagina=31&data=23/06/2009>. center. Revista Universidade e Sociedade, ano XV, n. 37, pp. 73-79,
Engels, por solicitação dos camaradas da tal diretriz, ao contrário, vem – sempre que
que o produto que estes 11. Com raro senso de oportunidade, por cima da decisão de seu
2006.
Liga Comunista, escreveram: pode – procurando aperfeiçoar as políticas
adquirirão, como insumo Conselho Universitário, em junho, antes da portaria em tela ser RODRIGUES, José. O moderno príncipe industrial: o pensamento
Essa subversão contínua da produção, esse sociais, particularmente a educacional, na publicada, o Reitor da Universidade Federal Fluminense converteu a pedagógico da Confederação Nacional da Indústria. Campinas:
abalo constante de todo o sistema social,
à produção, terá a direção da lógica mercantil. Esta, por- Pró-reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa (Propp) em Pró-reitoria de Autores Associados, 1998.
essa agitação permanente e essa falta de qualidade necessária ao tanto, é a política “deles”. Pós-Graduação, Pesquisa e Inovação (Proppi).
______. Ainda a educação politécnica: o novo decreto da educação
segurança distinguem a época burguesa seu empreendimento. Infelizmente, diversos setores da classe 12. Sobre o tema, ver Brandão (2009). profissional e a permanência da dualidade estrutural. Trabalho,
Educação e Saúde. v.3, n.2, pp.259-282, 2005. Disponível em: <http://
de todas as precedentes. Dissolvem-se trabalhadora (ou não as compreenderam 13. Sobre a dualidade educacional, ver Manacorda (1989).
www.revista.epsjv.fiocruz.br//include/mostrarpdf.cfm?Num=109.>
todas as relações sociais antigas e cristalizadas, com o seu ou) apóiam conscientemente tais políticas. 14. Sobre a acumulação flexível, ver Harvey (1992).
______. Os empresários e a educação superior. Campinas: Autores
cortejo de concepções e idéias secularmente veneradas; as Contra isso, nos cabe seguir fazendo a “nossa” 15. “O télos é fundamentalmente uma construção de caráter Associados, 2007.
relações que as substituem tornam-se antiquadas antes política: utilizar o “pessimismo da inteligência” para econômico que forma o núcleo de um padrão de sociedade [burguesa]
______. Simulacro, shopping center e educação superior.
de se consolidarem. Tudo o que era sólido e estável se analisar e denunciar todas as formas de exploração e a ser alcançado. O seu caráter fundamentalmente econômico acaba por
Sinais Sociais. v.3, n.7, pp.68-95, 2008. Disponível em:
emprestar a todos os outros conceitos e propostas a ele subordinados
desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado e os dominação perpetradas pela burguesia contra o con- http://www.sesc.com.br/main.asp?ViewID=%7B892636C2-DC13-
também um caráter fundamentalmente econômico. O pensamento
4773-93A5-A50989BAAEBD%7D&Mode=1&u=u
homens são obrigados finalmente a encarar sem ilusões a junto da classe trabalhadora e, ao mesmo tempo, nos pedagógico da Confederação Nacional da Indústria, nessas seis últimas
sua posição social e as suas relações com os outros homens apoiar no “otimismo da vontade” para dar combate décadas, comporta três télos fundamentais: nação industrializada, país SAVIANI, Dermeval. A política educacional no Brasil. In: CÂMARA
desenvolvido e economia competitiva.” (Rodrigues, 1998, p.131). BASTOS, Maria Helena, STEPHANOU, Maria (orgs.). Histórias e
(MARX; ENGELS, 2002, p.43. Grifo nosso, JR.). político organizado às ações burguesas e de seus alia-
memórias da educação no Brasil - v. III, séc. XX. Petrópolis: Vozes,
Talvez nos falte serenidade para encarar as mani- dos, em todos os espaços sociais. 16. Sobre o tema “formação para o trabalho complexo”, ver Neves &
p. 30-39, 2005.
Pronko (2008).
festações públicas e desavergonhadas de apreço à mer- Assim, até que a noite se torne dia, qualquer ciência, SILVA Jr., João dos Reis; Sguissard, Valdemar. Novas faces da
cantilização da educação, do conhecimento, da cultura, educação, cultura ou modo de vida que pretenda con- educação superior no Brasil: reforma do Estado e mudança na
da saúde, da vida, enfim. frontar as velhas práticas dominantes, só poderá existir produção. (2ª ed. rev.). São Paulo: Cortez, 2001.

Mas, sem dúvida, não nos falta a certeza que tudo o como prática social evanescente: centelha.

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A crise mundial e seus reflexos
na educação superior
Olgaíses Cabral Maués
Professora da Universidade Federal do Pará – UFPA
E-mail: [email protected]

Resumo: Defendendo a tese de que a atual crise do capital não acabou, ao menos para os trabalhadores, o
texto discute as conseqüências derivadas para a educação superior e as tendências observadas nas políticas
na área, no Brasil.

Palavras-chave: Crise do Capital; Avaliação e Indução pela OCDE; Capital Humano; Políticas
Educacionais recentes; Educação Superior.

Introdução baixo, levou à adoção de medidas que contribuíssem

E
ntre o final do século XX e o início do século XXI para a recuperação das taxas de lucro e da produtividade
já tivemos pelos menos duas grandes crises no do capital.
sistema capitalista. A última delas manifestou-se Nesse contexto de instauração de uma nova fase
mais agudamente a partir de setembro de do capitalismo, visando à saída da crise,
Nesse contexto
2008, quando o capitalismo, em mais uma a educação, sobretudo a superior, é vista
de instauração de
das suas crises cíclicas, foi aparentemente por alguns organismos internacionais
uma nova fase do
empurrado para a crise pelo estouro da como um instrumento capaz de con-
“bolha” do mercado imobiliário norte- capitalismo, visando tribuir para o cumprimento desse ob-
americano, formada por capital fictício. à saída da crise, a jetivo.
Sabe-se, pela própria natureza do educação, sobretudo O papel do mercado, tão valorizado
modo de produção, neste sistema que a superior, é vista por pelas políticas neoliberais, começa a
a não realização da mais-valia e a perda alguns organismos ser questionado e o Estado ganha pro-
de rentabilidade do capital levam ne- internacionais como porções salvacionistas, no socorro de-
cessariamente à quebra do ciclo “vir- um instrumento capaz mandado pelas instituições financeiras e
tuoso” da acumulação e lucro, objetivo pela indústria.
de contribuir para o
do capitalismo. A necessidade de supe- Nesse contexto, a importância de se
cumprimento desse
ração dessa crise estrutural, que trouxe analisar o papel da educação superior, a
desemprego, crescimento econômico
objetivo. partir das recomendações internacionais

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

e da posição brasileira, se faz fundamental, tendo como produção da mais-valia, implica a realização da mer- que a crise afetou a renda real dos trabalhadores e isso utilizado como indicador do capital humano, quer di-
objetivo identificar os rumos que esse nível de ensino cadoria via ampliação do consumo. Mas, como o dificulta o acesso ao alimento, em quantidade e qua- zer do nível de competência da população e da mão
pode tomar a partir dessa “nova” visão redentora dos espírito é produzir, sem levar em conta a capacidade lidade suficientes. de obra.
problemas criados pelo sistema capitalista. de consumo da sociedade, isso acaba gerando a super- Pode ser, pois, que a crise tenha acabado para os A questão da educação superior (terciária) aparece
É este o escopo do presente artigo que procurará produção. Para se recompor, o capital passa a criar o banqueiros e os industriais, não para a população no documento como sendo a senha para o emprego
identificar as possíveis mudanças na elaboração das desemprego, a destruição das forças produtivas, o assalariada. Os fatos apresentados parecem demonstrar e para maiores salários. Em uma análise detalhada, o
políticas de educação superior, considerando a crise aumento da exploração dos trabalhadores por meio da isso. Ou seja, os dados indicam que a crise pode ter documento informa que as pessoas do sexo masculino
estrutural do capitalismo dos anos 2000. diminuição do custo do trabalho, com o objetivo de acabado, mas, certamente, as suas consequências, não! titulares de diplomas de nível superior gozam de uma
aumentar a mais-valia e, conseqüentemente, a taxa de Consideramos que não se tem ainda elementos vantagem salarial, que, no caso do Brasil, por exemplo,
A crise do capital lucro. suficientes que possam nos indicar as consequências chega a 100% em relação às pessoas que têm apenas
Nos últimos doze meses bastante se tem escrito Na atual crise, diferentemente daquela que marcou maiores, que ainda terão efeito na vida dos trabalha- o nível médio (OCDE, 2009, p. 148). Já as mulheres,
sobre a crise do capital. Inúmeras análises têm sido feitas as décadas de 1970 e 1980, não se culpou o Estado, mas dores. Mas sabe-se que os reflexos se farão sentir refletindo a diferença da renda entre os gêneros, têm
procurando explicar as causas e mostrando as possíveis se buscou nele o socorro necessário para dela sair. Os também sobre o serviço público e, neste, sobre as polí- também uma diferença menor.
saídas. Por vezes, os menos avisados se perguntam como Estados injetaram muitos bilhões/trilhões para ajudar ticas sociais, que poderão sofrer contingenciamento Apesar desse reconhecimento, e ao contrário do que
o fato de alguém não poder saldar suas dívidas com um os capitalistas a se recuperarem. Os recursos públicos, de recursos, já historicamente insuficientes para fazer se poderia deduzir a partir das loas à educação superior,
banco pode afetar o sistema financeiro mundial. Para que poderiam ser aplicados em políticas sociais, fo- face as suas necessidades. a Organização de Cooperação e Desenvolvimento
essas pessoas não há compreensão clara ram desviados para os banqueiros e in- Nesse cenário, a educação superior Econômico não dá ênfase à importância
de que o capitalismo gera suas próprias Na hora do lucro, o dustriais. Com isso há uma diminuição não está imune e o seu papel pode ser O Canadá, a Coréia e os de que os países, por meio dos governos,
crises, tendo em vista que seu objetivo é mercado era o grande dos recursos, que são finitos, para aten- alterado de acordo com as exigências Estados Unidos e, entre de fato, invistam na educação superior.
o aumento constante da taxa de lucro e a regulador, na hora do der aquilo que deve ser o real papel de que a ela forem feitas, em função da im- os países “parceiros”, Ao contrário, a responsabilização do
acumulação e quando estas não se dão, um governo, o bem-estar social. portância que possa representar para a Israel, consagram entre indivíduo é bem estimulada. “A van-
prejuízo, o setor público
o problema está posto. Há sempre, nas Os homens de negócio, que, até diminuição do impacto da crise sobre o tagem pecuniária que proporciona a
é chamado para dividir a 1,8% a 2,9% de seu
crises do capital, um problema de super- então, vinham defendo o liberalismo Estado capitalista. elevação do nível de formação incita
conta. Mészaros (2009) PIB ao ensino superior
produção, isso é inerente ao modelo econômico, a partir da crise de 2008 os indivíduos a fazer este investimento
e essa acontece pelo fato de não haver denomina esse fato passaram a se posicionar em favor de
e, ademais, estão entre
A crise e a educação para o futuro; retardar a compra de
planejamento. Na última crise não foi de nacionalização da uma maior participação do Estado na Um comunicado feito pelo secretário os países nos quais o bens de consumo”. É apresentada uma
diferente. bancarrota do capital. economia. Na hora do lucro, o mercado geral da OCDE, em setembro de investimento privado, metodologia de análise que considera
Como, hoje, vivemos a mundialização era o grande regulador, na hora do pre- 2009, preconiza mais investimentos na para esse nível, é o mais vários dos investimentos feitos pelo
do capital (CHESNAIS, 2009) esse fato, o estouro juízo, o setor público é chamado para dividir a conta. educação superior e diz que “para sair elevado (OCDE, 2009). indivíduo, que precisa pagar pelos seus
da “bolha” imobiliária nos Estados Unidos, vai ter Mészaros (2009) denomina esse fato de nacionalização da crise econômica global, é preciso mais estudos, considerado os custos diretos,
repercussões violentas no mundo inteiro. Para esse da bancarrota do capital. do que nunca um maior investimento na educação as mensalidades escolares, e os custos indiretos, por
autor a mundialização “trata-se de um espaço livre de Os reflexos da crise ainda estão se processando, universitária”. exemplo, a diminuição de ganhos durante os estudos.
restrições para a operação do capital, para produzir e apesar de haver já uma manifestação eufórica de que, No editorial do documento Regards sur l’éducation. A análise demonstra que o rendimento social de
realizar mais-valias, tomando este espaço como base no caso, o Brasil já haveria superado esse momento. O Indicateurs de l’OCDE1, de 2009, cujo título é “Inves- uma formação terciária é claramente mais elevado
e processo de centralização de lucros à escala verda- Ministro da Fazenda, em uma declaração a um órgão tir em Educação para Retomar a Economia”, a ques- do que aquele de uma formação secundária. A partir
deiramente internacional” (idem, p.3). da imprensa (Globo Economia, 2009), afirmou que tão da crise é abordada com uma justificativa de que daí, conclui o documento, que os indivíduos devam
Marx (2008) apresenta, nos seus escritos, o fato de o “saímos da crise com a cabeça erguida, não destroçada, não é possível ainda avaliar o impacto desta no sis- encarregar-se de uma maior parte do investimento
capitalismo gerar suas próprias crises como sendo um como no passado”. tema de educação, mas é apresentado um conjunto material para se qualificarem (idem, p. 171).
processo inerente à sua natureza. Esta estaria marcada Apesar da euforia das autoridades brasileiras, o Cor- de indicadores que poderá ajudar o debate relativo à A importância do ensino superior continua sendo
pelo caráter cíclico do processo de desenvolvimento, reio Brasiliense, de 08 de setembro de 2009, informa que forma pela qual os investimentos no capital humano analisada no documento Regard sur l’éducation 2009
alternando fases de prosperidade com outras de de- a “América Latina levará 10 anos para reduzir a fome podem contribuir para a retomada da economia. e uma informação interessante é trazida: o Canadá, a
pressão, representadas por ciclos parciais ou gerais, ao nível anterior à crise”. Os números a respeito do O documento, que traz dados dos países membros Coréia e os Estados Unidos e, entre os países “par-
quando então se apresentariam as crises, significando assunto são alarmantes. A mesma reportagem do jor- da Organização de Cooperação e Desenvolvimento ceiros”, Israel, consagram entre 1,8% a 2,9% de seu
estas um colapso de reprodução do sistema. O que nal informa que existem 190 milhões de crianças que Econômico (OCDE) e de alguns países “parceiros”, PIB ao ensino superior e, ademais, estão entre os países
Marx quer dizer é que o modo de produção capitalista, sofrem de desnutrição crônica na América Latina. Os dentre eles o Brasil, referentes a 2007, ressalta que o nível nos quais o investimento privado, para esse nível, é o
que se baseia na acumulação de riqueza por meio da especialistas da ONU que fizeram o estudo informam de formação da população adulta é freqüentemente mais elevado (OCDE, 2009). Já o Brasil destina aos

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

estabelecimentos de ensino superior uma parte do PIB centes, indicando a necessidade de esses serem mo- vem se caracterizando pela ampliação 1.673.823) se encontra em instituições
que é inferior a média da OCDE (idem, p. 224), e, apesar tivados com planos de carreira e salários, enfim, com de vagas no setor privado, com recursos Do total de 3 milhões isoladas, ou seja faculdades, escolas su-
de destinar à educação básica recursos acima da média condições de trabalho para o melhor exercício pro- públicos e, nesses últimos anos, com a de vagas oferecidas, periores ou institutos, sem vivência do
dos países que compõem a pesquisa desse organismo, fissional. intensificação do trabalho docente. Por mais de 88% são de IES clima universitário, e, praticamente a
o total fica bem abaixo da média correspondente. Para se preparar para participar da Conferência isso, na minha avaliação, as políticas privadas. O aumento totalidade delas, privadas. Nas institui-
Outro dado a ser considerado é a informação de Mundial, o Brasil, por meio do Conselho Nacional de terão continuidade, pois elas já foram de vagas públicas ções isoladas apenas 9,2% do corpo do-
que, entre 2000 e 2006, o Brasil aumentou o número Educação, realizou o Fórum Nacional de Educação concebidas no sentido de respaldar o correspondeu a apenas cente têm o título de doutor e 63,2%
de matrículas em 47% - sem explicitar em qual esfera Superior, cujas ênfases recaíram: na democratização do capital e de atender aos interesses pri- dos professores estão submetidos às
4,5%, pois, se houve
pública ou privada; em contrapartida, diminuiu o gasto acesso e na flexibilização dos modelos de formação; na vados, não havendo necessidade de mu- condições precarizadas dos contratos
acréscimo de 9,3% nas
por aluno na ordem de 16%. elevação da qualidade e na avaliação; e no compromisso dança de rota. por hora-aula.
Além da OCDE, outras manifestações em nível com a inovação. Além das manifestações já detalhadas Alguns dados extraídos do Censo da
IES federais (IFES), No período de FHC pode-se dizer
internacional têm se apresentado, destacando a im- em outros documentos, o Conselho reiterou a questão Educação Superior 2008 (INEP, 2009) houve crescimento bem que a marca da educação superior foi a
portância do investimento em educação superior. A da educação como direito social e universal, e como são reveladores e respaldam a avaliação menor nas estaduais da privatização. Já no governo Lula da
Conferência Mundial sobre a Educação Superior, ocor- bem público. Não se encontram nos relatos sobre de que o rumo das políticas para educação (IEES) e decréscimo nas Silva, além da continuação da expansão
rida em julho de 2009 na sede da UNESCO em Paris, este Fórum posições mais claras sobre a questão da superior não mudará em conseqüência municipais (IMES). pela via privatista, com programas
cuja temática foi La nueva dinámica de la educación necessidade de maior investimento na educação su- da crise: existem 2.252 instituições de como o PROUNI, a ampliação do
superior y la investigación para el cambio social y el de- perior pública. educação superior, sendo que dessas 236 são públicas2 FIES, a ênfase também recai na quebra da fronteira
sarrollo ressalta que: Retornamos às posições apresentadas pela OCDE e 2.016 privadas. Dessas, apenas 183 são universidades, entre público e privado, com repasse de recursos
Em nenhum outro momento da história tem sido no documento já mencionado Regard sur l’éducation, sendo 97 públicas e 86 privadas. Em relação ao número públicos para o setor privado, a mercantilização e o
mais importante que agora o investimento nos estudos 2009, no qual há um destaque significativo sobre a de cursos presencias, a configuração não se modifica, empresariamento, com a transformação da educação
superiores, por sua condição de força primordial para a importância, a relevância do papel da educação, in- do total de 24.719 cursos, existem 6.772 (27,39%) nas de direito público inalienável para o vago conceito um
construção de sociedades de conhecimento integradora clusive para a saída da atual crise mundial do capital. A instituições públicas e 17.947 nas instituições privadas bem público.
e diversa para fomentar a investigação e a criatividade. partir das afirmações desses organismos internacionais, (INEP, 2009). Em relação à educação superior, a efetivação dessa
A experiência da década passada demonstrou que a tanto a OCDE quanto a UNESCO, promotora da De modo ainda mais dramático, aparece a concen- direção política do atual governo, vem ocorrendo por
educação e a investigação contribuem para erradicar Conferência Mundial de 2009, nos indagamos sobre tração das vagas nos cursos presenciais no setor pri- meio da contrarreforma da educação superior, assim
a pobreza, para fomentar o desenvolvimento, para as formas como o Brasil vem se posicionando acerca vado (INEP, 2009): do total de 3 milhões de vagas chamada pelos movimentos sociais, traduzida, dentre
sustentar e avançar na consecução dos objetivos de de- desse nível de ensino. oferecidas, (precisamente, 2.985.137), mais de 88%, outras medidas: no PL no 7.200 de 2006, encaminhado
senvolvimento acordados no plano internacional, entre Os tópicos que compõem este artigo procuram fazer ou seja, 2.641.099, são de IES privadas. Governos, pelo Executivo ao Congresso Nacional; no REUNI-
outros. Os Objetivos do Desenvolvimento do Milênio uma análise de algumas políticas de educação superior tanto o federal quanto vários estaduais, têm feito um Programa de Reestruturação e Expansão das Ins-
(ODM) e a Educação para Todos (EPT). Os programas que estão em curso no país, buscando identificar os propaganda quanto ao esforço em aumentar as vagas tituições Federais de Educação Superior, cujos ob-
mundiais de educação deveriam refletir estas realidades caminhos indicados pelo governo brasileiro no sentido públicas. Contudo, de 2007 para 2008, o aumento de jetivos são de expandir o número de matrículas, sem
(UNESCO, 2009, tradução nossa). de realizar a expansão da educação superior pela via vagas públicas correspondeu a apenas 4,5%, pois, se garantia de financiamento compatível; nas Parcerias
A Conferência Regional de Educação Superior pública. houve acréscimo de 9,3% nas IES federais (IFES), Público-Privadas, que tornaram as universidades hete-
na América Latina e Caribe, realizada em 2008, como houve crescimento bem menor nas estaduais (IEES) rônomas; pela proposta de desestruturação da carreira
etapa preparatória à Conferência Mundial de Educação As políticas de educação superior e decréscimo nas municipais (IMES). Como as vagas dos docentes. É preciso salientar, que entre outros
Superior de 2009, coloca a educação superior como Apesar da propalada importância da educação privadas, apesar de apresentarem mais de 50% de problemas, o REUNI foi responsável pela introdução
um direito humano e um bem público social, devendo superior, no Brasil a expansão desse nível de ensino ociosidade, cresceram em 5,9%, portanto acima da ex- do contrato de gestão, orientado por metas numéricas,
os Estados garantirem esse direito. O Plano de Ação vem sendo feita pela via privada. A reestruturação da pansão das vagas públicas, a desproporção continua se nas IFES, totalmente estranho ao verdadeiro fazer aca-
decorrente dessa Conferência explicita algumas dire- educação superior está vinculada a um projeto pri- ampliando, a favor da oferta privada. dêmico.
trizes nas quais está presente a necessidade de expansão vatista, cujo aprofundamento se inicia no governo de O total de matrículas (INEP, 2009) correspondeu, No caso do PL no 7.200 de 2006, a concepção de
da educação superior, apontando uma meta de 40% Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e tem con- em 2008, a pouco mais de 5 milhões (5.080.056), tendo educação superior como “bem público”, e que tem
para ser atingida pelos países da América Latina e tinuidade no governo de Luiz Inácio Lula da Silva crescido 4,1% em relação a 2007; destas, ao redor de uma “função social”, (art.3º.) está presente no docu-
Caribe, até o ano de 2015. As questões da Avaliação e (2003-2010). um quarto (1.273.965) se encontram no setor público, mento. Essa linguagem parece estar bem nos mol-
da Qualidade dessa educação também são apontadas As políticas que serão definidas após a crise de 2008 estando aproximadamente metade destas últimas des preconizados por Bresser Pereira (1997), quando
como sendo importantes. Há também explícito, nas dificilmente mudarão essa rota, tendo em vista as ações (643.101) nas IFES, em 2008. Um aspecto grave é afirma que é:
diretrizes desse Plano, uma questão voltada aos do- em curso e a defesa desse modelo expansionista que que, deste total de matrículas, um terço (ou seja, Público aquilo que está voltado para o interesse geral [...]

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

está claro que o público não pode ser rentemente das Instituições Privadas, que do trabalho docente, com o aumento das atividades, “tendência”, presente hoje das Universidades Federais
limitado ao estatal [...] e que associações O censo relativo ao obtém a taxa de 55,3%. Ao ampliarmos mais turmas por professor, salas mais cheias, maior e que poderá se aprofundar com a implantação do
não voltadas para a defesa de interesses ano de 2008 informa essa análise para o indicador relativo às demanda sobre o docente, ocasionando o que os es- REUNI, tendo em vista o Acordo de Metas que as
corporativos, mas para o interesse geral que, sobre a totalidade vagas ociosas, a situação é ainda mais tudos já vêm comprovando, o chamado “mal estar IFES firmaram com o MEC. O não cumprimento do
não podem ser consideradas privadas. do ensino superior, o significativa: o número de vagas ociosas docente” - depressão, stress, problemas de voz; dis- Acordo significará o não repasse de verbas, como é
Assim, as instituições particulares, em número médio de alunos nas Universidades Federais foi de 7.387 túrbios mentais e outros males, (há uma vasta litera- caracterizado em um contrato de gestão.
especial, aquelas ditas sem fins lucrativos por professor, é de enquanto que nas instituições privadas tura sobre o assunto, inclusive textos neste mesmo O objetivo de trazer à discussão, novamente, o
são consideradas públicas, nessa acepção, 15,8, sendo, contudo, foi de 1.442.593 (INEP, 2009, p. 17). número da Revista U&S); 2. prejuízos à qualidade do REUNI está ligado ao fato de que o governo federal
e, como tal, podem receber recursos pú- Relativamente ao outro objetivo do ensino. Com a obrigatoriedade de que haja 90% de está sinalizando às Universidades Federais que, em
composto a partir do
blicos. REUNI, que é o aumento do número concluintes, possivelmente, estará instituída, também 2010, haverá uma repactuação das metas, o que trará
índice de 10,4 para as
Outro aspecto que merece destaque médio de alunos por professor, o censo no nível superior, a “promoção automática”. Isso já a questão novamente à tona. Sabe-se do processo tu-
na contrarreforma e está explicitado no IFES e 18,2 para as IES relativo ao ano de 2008 informa que, ocorreu na Educação Básica e sabemos quais foram multuado pelo qual se deu a aprovação do REUNI
referido Projeto de Lei é a possibilidade privadas. Conhecendo-se sobre a totalidade do ensino superior, os resultados: estudantes na quinta-série sem saber ler; nos Conselhos Superiores, na grande maioria das Ins-
de a educação superior poder ter co- a realidade do trabalho esse índice é de 15,8, sendo, contudo, pessoas entrando na educação superior sem saber re- tituições Federais de Educação Superior.
mo sócio o capital estrangeiro, na or- do professor nestas composto a partir do índice de 10,4 digir, com problemas de ortografia, pontuação; sem O outro ponto levantado na análise do REUNI,
dem de 30%. Embora, na legislação últimas, com classes para as IFES e 18,2 para as IES privadas. ordenamento lógico das idéias, dentre outros. diz respeito à qualidade do ensino. Ora, as exigências
atual, não haja referência alguma a esta de até 120 alunos, Conhecendo-se a realidade do trabalho Ao analisar o Acordo de Metas n . 010, celebrado de um índice muito alto, 90%, de conclusão de curso
o

possibilidade, configurando uma inse- será esta a condição do professor nestas últimas, com classes entre o MEC e a Universidade Federal do Pará, “para podem ter uma influência nefasta sobre a qualidade
gurança jurídica, estaria, então, aberto de até 120 alunos, será esta a condição os fins que especifica o Decreto 6.096 de 2007”, do ensino, na medida em que os professores serão
pretendida também para
em definitivo esse nível de ensino para pretendida também para a maioria das pode-se já constatar a questão da intensificação do pressionados a atingir a meta, para que a instituição
a maioria das IFES?
a especulação internacional, numa res- IFES? Esclareça-se que a metodologia trabalho do professor. Com referência à matrícula, o possa obter os recursos financeiros vinculados. Com
posta às recomendações e decisões da adotada no Censo utiliza a relação alunos por função referido Acordo indica, entre os anos de 2007 a 2012, as turmas lotadas (o aumento da matrícula, sem o
Organização Mundial de Comércio (OMC), portanto docente, o que significa que o mesmo professor pode um crescimento de 61%3. Em relação ao aumento no correspondente aumento do corpo docente, como
dentro de um projeto político do capital. ser computado mais de uma vez, na medida em que número de professores, no mesmo período, constata- já demonstrado), a exigência de aprovação poderá
Além do envio de uma proposta de lei ao Congresso trabalhe em mais de um lugar. Levando em conta se que este será de apenas 28,8%4 se tornar um fator decisivo para o ali-
Nacional, o governo federal tem legislado por meio de que, nas instituições públicas federais, além das aulas, (ADUFPA, 2009). Ao cruzarmos os da- Em decorrência, esses geiramento, a flexibilização do ensino
Decretos, com destaque ao conjunto baixado em abril com, já hoje, cerca de 50 alunos na classe e dos cerca dos, pode-se constatar que o número de objetivos do REUNI e a conseqüente perda da qualidade
de 2007, dentre eles o de número 6.096 que cria o já de 10 orientandos, incluindo Iniciação Científica, matrículas crescerá quase três vezes mais representam dois necessária para que se forme um cidadão
citado Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Orientandos de Cursos de Mestrado e Doutorado, do que o número de professores. Ora, grandes problemas: e um profissional que venha atender as
Expansão das Universidades Federais (REUNI), cujos que cada docente atende, ele executa, diuturnamente, isso é um forte indicador da sobrecarga 1. a intensificação demandas da sociedade.
objetivos centrais são: aumentar a relação do número outras tarefas de pesquisa, extensão e administração, o docente, que ocorrerá na medida em que do trabalho docente, O objetivo, nesse texto, é dar
de alunos por professor; e elevar para 90% a taxa professor certamente está sobrecarregado, mesmo nas a UFPA terá um crescimento vertiginoso destaque àquelas políticas que mais
com o aumento das
média de conclusão de curso. Na lógica do Decreto, condições atuais. Destaque-se que para a efetivação do de alunos, sem o correspondente número diretamente poderiam, na lógica go-
atividades, ocasionando
esses dois objetivos redundariam em considerável cálculo, além dos aspectos já citados, deveriam, pois, de professores. O trabalho do professor vernista, estar contribuindo para a ex-
aumento das vagas e matrículas, na medida em que
o que os estudos já
ser computados outros, tais como as horas dedicadas já está precarizado e flexibilizado, so- pansão da educação superior e, assim,
seria aumentado o número de alunos em sala de aula, a atividades de pesquisa, extensão, administração, bretudo para aqueles que atuam nos vêm comprovando, o para a lógica explicitada pela OCDE de
ao mesmo tempo em que haveria aumento do número participação em comissões, que as metas do REUNI Programas de Pós-Graduação. A inten- chamado “mal estar que o investimento nesse nível de ensino
de alunos concluintes, permitindo com isso que novas não consideram. Outro grande prejuízo ao futuro sificação do regime de trabalho, em docente”; poderá ajudar os países a superarem a
vagas pudessem ser ofertadas no vestibular. das IFES é que os estudantes de pós-graduação não função, tanto da diminuição numérica 2. prejuízos à qualidade crise. O Brasil tem um atraso histórico
Em relação a esses dois principais objetivos do são, em princípio, considerados no cômputo da meta do corpo docente, por falta de concursos, do ensino. Com a em relação à educação superior, repre-
REUNI, os dados do Censo da Educação Superior do REUNI, sendo aquinhoadas com um “desconto” quanto do aumento da carga horária real obrigatoriedade de que sentado tanto pela implantação tardia
2008 (INEP, 2009) também nos ajudam na análise. basicamente apenas aquelas universidades com pro- em classe e extraclasse, além da amplia- haja 90% de concluintes, desse nível de ensino no país, quanto
As Instituições Federais de Educação Superior gramas de doutorado consolidados pela avaliação Ca- ção da natureza das atividades que esses pela baixa oferta pública de vagas, o que
possivelmente, estará
(IFES) apresentaram, em 2008, uma taxa de 67% de pes (notas 6 e 7). profissionais passam a desenvolver a par- fez com que, no início do século XXI, se
instituída a “promoção
concluintes, o que significa um índice muito próximo Em decorrência, esses objetivos do REUNI repre- tir de uma nova lógica gerencialista, são tenha cerca de 24% de matrícula líquida
ao alcançado pela maioria dos países da OCDE, dife- automática”.
sentam dois grandes problemas: 1. a intensificação alguns dos aspectos que caracterizam essa (jovens de 19 a 24 anos).

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

Em função desse índice, que destoa da grande maio- e o aligeiramento da qualidade da educação. presente na agenda de desenvolvimento econômico e superior, regula a educação superior no sistema federal de ensino,
altera as Leis nos 9.394, de 20 de dezembro de 1996; 8.958, de 20 de
ria dos países da América Latina, o governo federal O ANDES-SN, em reunião de diretoria ocorrida social dos países desenvolvidos e em desenvolvimento,
dezembro de 1994; 9.504, de 30 de setembro de 1997; 9.532, de 10 de
vem estimulando a oferta de cursos de graduação à em setembro de 2009, se manifestou a respeito da a implementação efetiva das ações continua ocorrendo dezembro de 1997; 9.870, de 23 de novembro de 1999; e dá outras
distância (por Ensino à Distância – EAD). Os dados conjuntura mundial e nacional e explicitou a posição massivamente pela via privada com a utilização do di- providências. Disponível em: <http://www.abmes.org.br/Textos/
Manuais/Reforma_Universitaria/PL_7200_com_EMPs.pdf>. Acesso
do Censo 2008 indicam que houve um crescimento da entidade em relação ao assunto, ratificando que o nheiro público por meio de programas como, no caso
em: jul 2006.
significativo da matrícula nesses cursos. Em 2008, o governo Lula da Silva, consoante com a perspectiva do brasileiro, o PROUNI. Já o REUNI pode servir como
ADUFPA-SS. Acordo de Metas no. 010, que entre si celebram a
número de matrículas nessa modalidade de ensino foi capital, de negação da educação como direito inalienável parâmetro de uma expansão pela via pública, por meio União, representada pelo Ministério da Educação, por intermédio da
de 727.961. Nas instituições públicas foram 278.988 dos indivíduos, mantém um projeto político, que tem da intensificação do trabalho docente e da perda da Secretaria de Educação Superior, e a Universidade Federal do Pará,
(55.218 nas IFES; 219.940 nas Instituições Estaduais se manifestado por meio de leis, portarias, decretos, qualidade da educação. para os fins que especifica o Decreto no. 6.096 de 24 de abril de 2007.
Disponível em: <http://observatorio.adufpa.org.br/arquivos/File/
e apenas 3.830 nas Municipais). Já nas Instituições e vem, de fato, caracterizando a reforma fatiada da A mercantilização da educação e o seu empresaria- acordo_demetas_n_10.pdf>. Acesso em: jul 2008.
Privadas o número de matrículas nesse período foi educação superior. O Sindicato continua na luta, no mento estão intimamente ligados à criação de uma socie-
BRASIL. Decreto nº 6.096, de 24 de abril de 2007. Institui o
de 448.973, ou seja, 61,67% do total. Como diferença sentido da resistência e da mobilização do conjunto dade do conhecimento para servir de apoio à nova etapa Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das
mais notável, em relação ao ensino presencial, pode- da categoria docente, para realizar articulações com os da internacionalização do capital. Daí que, ao mesmo Universidades Federais- REUNI. Disponível em : <http://www.
se notar a relação muito baixa, 0,41, entre candidatos demais protagonistas da educação superior, técnico- tempo em que o governo brasileiro tem interesse em planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007> . Acesso em: maio 2007.

e vagas (INEP, 2009). Assim, das 1,7 milhões de va- administrativos e estudantes, além da sociedade civil, expandir a educação superior pelo que ela representa BRESSER PERREIRA, L.C.B. A Reforma do Estado dos anos 90:
Lógica e Mecanismos de Controle. Ministério da Administração
gas em EAD oferecidas, menos de um para, de forma organizada, conseguir para esse escopo, o seu desenvolvimento deve ser vol-
quarto (430.259) corresponderam, efeti- A matrícula no EAD já modificar o atual quadro político. tado aos interesses das grandes empresas, alterando
Federal e Reforma do Estado. Cadernos do MARE da Reforma do
Estado, 1997. Disponível em: <http://www.preac.unicamp.br/arquivo/
vamente, a ingressos. representa 14,3% do Apesar das recomendações emana- substancialmente as funções das Universidades Públi- materiais/bresser_reforma_do_estado.pdf> Acesso em: jan. 2004.
A matrícula no EaD já representa total das matrículas das da OCDE, da UNESCO, das cas. No caso da crise atual, essa configuração não se CHESNAIS, F. O capitalismo tentou romper seus limites históricos
14,3% do total das matrículas globais globais da graduação. Conferências Regionais, não se têm modifica e esse nível de ensino, com exceções, vem e criou um novo 1929, ou pior. Agência Carta Maior, jan. 2009.
Disponível em: <www.cartamaior.com.br.../materialMostrar>. Acesso
da graduação. Chamamos a atenção de Chamamos a atenção indicações quanto à vontade política cumprindo esse papel.
em: jan 2009.
que o número de matrículas via ensino à de que o número de efetiva para o aumento de recursos, de A alteração dessa situação, na atual conjuntura,
ÉPOCA Negócios. Brasil sai de crise de cabeça erguida, diz Mantega.
distância quase duplicou entre o ano de matrículas via ensino forma mais impactante para a educação não se dará sem o protagonismo dos movimentos or- Disponível em: <epocanegocios.globo.com/Revista>. Acesso em: set.
2007 e 2008, continuando a ampliação, superior, visando à melhor remuneração ganizados. O Sindicato dos Docentes da Educação 2009.
à distância quase
praticamente exponencial, iniciada em dos profissionais que atuam nesse ní- Superior ANDES-SN tem um importante papel a INEP/MEC RESUMO TÉCNICO – Censo da Educação Superior
duplicou entre o ano
2004 (INEP, 2009, p. 30), o mesmo não vel de ensino e à adequação da infra- desempenhar nessa conjuntura de mais uma crise do 2008. Disponível em: <http://www.inep.gov.br/imprensa/noticias/
ocorrendo com a educação presencial. de 2007 e 2008, estrutura para acomodar, com qualida- capitalismo, lutando por uma educação que possa estar censo/superior/news09_05.htm>. Acesso em: 28 nov. 2009.

O barateamento dos custos, a pouca continuando a de, o aumento do número de vagas a serviço da transformação social. JORNAL O IMPARCIAL. América Latina levará 10 anos para
exigência de professores qualificados, ampliação, praticamente ofertadas pelas Instituições Federais de reduzir a fome ao nível anterior à crise. Disponível em: <www.
oimparcialonline.com.br/noticias>. Acesso em: out. 2009.
os currículos enxutos, em particular via exponencial, iniciada Ensino. O que se pode perceber, é que, Notas
MARX, K. O Capital. Crítica da Economia Política. Rio de Janeiro:
EAD, estão despontando como mais em 2004. como na década de 1990, a expansão 1. OCDE é a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Civilização Brasileira, 2008.
uma política de expansão sem a devida das vagas para a educação superior Econômico.
MÉSZÁROS, I. A crise em desdobramento e a relevância de Marx.
qualidade. continua sendo implementada majoritariamente pela 2. Houve em relação ao ano de 2007 uma diminuição de 5,2% no Disponível em: <http://resistir.info/meszaros/meszaros_nov08_p.
iniciativa privada e, dentro dessa, em grande parte por número de instituições públicas e de 0,8% em relação às instituições html>. Acesso em: jan 2009.
Finalizando meio das Faculdades e com um corpo docente sem a privadas. O fato foi justificado no documento do INEP em função
OCDE. Regards sur l’éducation 2009 Les Indicateurs de L’OCDE.
de fusões ou compras no caso das privadas e em relação às públicas
A crise de 2008 serviu para desvelar o papel do qualificação em nível de doutoramento. O crescimento Disponível em: <www.oecd.org/.../0,3343,fr_2649_39263238_4359750
a explicação apresentada se refere à criação dos IFETs a partir da 2_1_1_1_1,00.html> . Acesso em: set. 2009.
mercado e do Estado frente aos interesses do capital e explosivo das matrículas em EAD, principalmente no fusão dos CEFETs.
desmistificar o discurso neoliberal. A avaliação que se setor privado, mas também no público, pode ser um UNESCO. Conferencia Mundial sobre la Educación Superior -
3. O Acordo de Metas da UFPA informa que em 2007 eram 25.300 2009: La nueva dinámica de la educación superior y la investigación
faz é que, sem uma mobilização forte e consciente da fator a mais para rebaixar a qualidade social do ensino o número de matrículas; para 2012 a projeção é de 40.740. para el cambio social y el desarrollo. Disponível em: <www.unesco.
sociedade civil, à frente professores e estudantes, ela ofertado, principalmente quando atinge o cerne mesmo 4. O corpo docente ajustado (professores com equivalência org/education/WCHE2009/comunicado_es.pdf> Acesso em: ago.
vai trazer um aprofundamento ainda maior da trans- da Educação, a formação de seus agentes fundamentais, adicionado aos professores com Dedicação por Integração da Pós- 2009.

ferência de recursos públicos para o setor privado, os professores da Educação Básica. Esse é o atual qua- Graduação) em 2007 era de 1.750,55 e a projeção é de 2.255,55 em UNESCO. Declaração da Conferência Regional de Educação
uma diminuição dos recursos para a educação superior dro, cujos dados, apresentados no documento do INEP 2012. Superior na América Latina e no Caribe. Disponível em: <www.
iesalc.unesco.org.ve/docs/wrt/declaracaocres_portugues.pdf>. Acesso
(hoje parada no patamar de menos de 1% do PIB), a (2009) não permitem a visualização de uma educação Referências
em: nov 2008.
flexibilização dos direitos trabalhistas, e, em especial pública, gratuita, laica e com uma qualidade social. Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior - ABMES.
nas universidades, a intensificação do trabalho docente Assim, a despeito de a questão educacional estar Projeto de Lei 7.200 de 2006. Estabelece normas gerais da educação

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Repensando a universidade:
algumas notas para análise
Ernâni Lampert
Professor da Universidade Federal do Rio Grande
E-mail: [email protected]

Resumo: O trabalho é um recorte do projeto de pesquisa “Re(criar) a Universidade na América Latina”, em


que o autor do presente texto mostra a necessidade urgente de se re-criar administrativa e pedagogicamente
a universidade, dentro do atual contexto político, econômico, social, tecnológico e cultural. No presente ar-
tigo, analisam-se alguns aspectos da estrutura administrativa que, historicamente, tem gerado polêmicas e
concepções divergentes entre o governo, a sociedade civil organizada e a academia. Numa primeira instância
e de forma sinóptica, situa-se a problemática, destacando algumas questões: “expansão, massificação, mercan-
tilização e qualidade”. Na segunda parte, à luz de López Segrera (2006), que, dentre outros, salienta a missão,
a gestão, a autonomia, o financiamento e a avaliação como alguns aspectos que necessitam ser reiventados na
universidade, o autor do presente texto analisa estes componentes, apontando algumas possibilidades de redi-
mensionamento.

Palavras-chave: Universidade; Estrutura Administrativa; Avaliação Institucional.

Situando a problemática análise acurada do governo, da sociedade civil orga-

M
uito se tem discorrido sobre a temática “edu- nizada e, principalmente, da academia.
cação superior”. Do surgimento da primeira Na sociedade hodierna, a universidade, como as
universidade no mundo ocidental, em 1088, à demais instituições religiosas, econômicas, financei-
contemporaneidade, a problemática tem intrigado ras, culturais, educacionais, políticas e sociais, está
diferentes segmentos sociais, além da academia. A passando por uma variada gama de transformações.
partir dos anos 80, com as fortes restrições econô- Se, sob um ângulo, a educação superior é indispensável
micas impostas pela política neoliberal, em pratica- ao desenvolvimento econômico, político, social, cul-
mente todos os países do mundo ocidental, a questão tural, educacional e à manutenção do status quo, por
da reestruturação da universidade veio à tona e tem outro prisma, com algumas, exceções, a universidade
ocupado espaço nos periódicos especializados, na aca- não consegue mais atender às demandas, às exigências,
demia, na tribuna dos políticos e na imprensa em geral. às expectativas, às necessidades de uma sociedade
No século XXI é um tema desafiador, que merece uma cambiante, cada vez mais exigente, competitiva, indivi-

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

dualista, pragmática e consumista, que é a sociedade deteriora a natureza, produz a atomização dos indi- adotado essencialmente os mesmos componentes da sidera, como sua missão essencial, a adaptatividade às
pós-moderna. A propósito do assunto, López Segrera víduos, que perdem sua identidade, tornando-se ob- política neoliberal geral e os têm introduzido em suas demandas do mercado. “A universidade atua em um
(2006) assinala que: jetos manipulados e dominados pela máquina. dinâmicas internas. Os serviços têm-se convertido contexto de complexidade e incerteza, onde são exigidas
Estamos assistindo à crise da universidade não somente A expansão quantitativa, o crescimento da privati- em produtos para o mercado; os beneficiários trans- novas interfaces com a sociedade, visando capturar
em seus aspectos de gestão, financiamento, avaliação e zação, a grande diversificação institucional, a restrição formaram-se em clientes; as relações entre servidores suas necessidades e demandas” (AUDY, 2006, p. 68).
currículo, mas é a própria concepção de universidade do gasto público e as inadequadas políticas públicas e usuários transformaram-se em oferta e demanda; a O foco da instituição deve estar voltado à melhoria
que devemos adequar a um contexto que, por outra são alguns aspectos desta crise, que merecem análise. legitimação centrada no Estado e nas instituições foi das condições de vida da população e não atender
parte, mostra mudanças radicais nas identidades e A expansão quantitativa e a massificação do sistema transladada para o mercado; as práticas internas de unicamente aos interesses de determinados grupos
suportes básicos [...]. O desafio consiste em construir universitário nem sempre têm sido acompanhadas do produção e circulação de conhecimentos estão sendo hegemônicos, que objetivam tão somente o lucro.
uma nova universidade – em reinventá-la - neste cli- melhoramento da qualidade. Grosso modo, a qua- associadas com qualidade, pertinência, eficiência, Além disso, cabe à universidade a formação de cidadãos
ma de incertezas, evitando a vitória da anomia e do lidade do ensino tem declinado em praticamente todo flexibilidade e oportunidade, no contexto de mercados críticos, éticos, comprometidos com a transformação
pessimismo (tradução nossa). o mundo, mas este desenrolar é uma das características elásticos. Nunes (2006b), analisando a da realidade circundante. Esses são os
Seguindo esta linha de pensamento, Santos (2009) marcantes da educação superior, nos países emergentes. expansão do ensino superior no Brasil e Analisando a expansão grandes desafios e, certamente, serão
afirma que: “Na maioria dos países em desenvolvimento, a edu- verificando as conseqüências desta trans- do ensino superior no o diferencial das instituições de ensino
O atual estágio do ensino superior não atende às cação superior tem mostrado grandes deficiências, formação, assinala que as instituições superior no século XXI.
Brasil e verificando as
necessidades da sociedade. A evolu- que são agravadas pela expansão do de ensino superior, para sobreviverem, A universidade deve estar a serviço da
Grosso modo, a conseqüências desta
ção social está a exigir uma nova uni- setor” (ARAÚJO CASTRO, 2006, precisam se reestruturar rapidamente, sociedade, que lhe confere legitimidade
qualidade do ensino transformação, assinala
versidade para o terceiro milênio. p. 120). No que concerne ao Brasil, sem perder de vista seu foco, o cliente. e credibilidade. Utilizando-se de um
Uma universidade pós-moderna, de tem declinado em Hermida (2006), ao analisar as ações Dentro dessa lógica, educar se trans-
que as instituições plano político-pedagógico-estratégico
excelência, que privilegie relações de praticamente todo afirmativas e a inclusão educacional, as- formou em sinônimo de não perder o de ensino superior, acurado, deve encaminhar, de forma
gênero, com habilidades de compreen- o mundo, mas este sinala que também houve uma regressão aluno. Historicamente, não contrariar para sobreviverem, concreta, projetos e atividades com
são do contexto sociopolítico, capa- desenrolar é uma das na qualidade da educação no sistema o cliente é um dos mandamentos mais precisam se reestruturar abordagem interdisciplinar, transdisci-
cidade de gerenciar a complexida-
características marcantes de educação superior do Brasil. Borón importantes para qualquer empresa que rapidamente, sem plinar e multidisciplinar para solucio-
de, a variabilidade, a incerteza, a (2004), na palestra “Reformando las queira sobreviver no mercado. No caso perder de vista seu nar ou amenizar os gritantes problemas
da educação superior,
transitoriedade, e capacidade para a ‘reformas’: transformaciones y crisis do ensino superior privado no Brasil, foco, o cliente. Dentro que afligem a sociedade (violência,
nos países emergentes.
mobilização do potencial humano e en las universidades de América Latina esse andamento ganha cada vez mais cen- dessa lógica, educar pobreza material e espiritual, fome,
compromisso social (p.4).
“Na maioria dos países y el Caribe”, proferida no Congresso tralidade, uma vez que a concorrência enfermidades, intolerância, imediatis-
em desenvolvimento, se transformou em
Portanto, reafirmando as idéias Universidade 2004, em Havana, aponta tende a aumentar. mo, competição, exclusão social, anal-
a educação superior sinônimo de não perder
de Lampert (2008a), a universidade, que, no Brasil, são muitos os fatores fabetismo, deteriorização do meio
principal gestora de ciência, não poderá tem mostrado grandes que explicam esse lamentável retrocesso: Repensando a universidade: algumas o aluno. Historicamente, ambiente, contaminação do ar, das
ocultar a complexidade da sociedade, dos deficiências, que falta de qualificação dos professores, notas para reflexão não contrariar o cliente águas, do solo). A universidade so-
paradigmas múltiplos e complementares. são agravadas pela contratação de docentes com contratos A universidade, instituição antiga, é um dos mandamentos mente recuperará o seu status de ou-
Precisa, com urgência, repensar suas expansão do setor”. de trabalho precários, expansão quan- além da docência e da pesquisa, fun- mais importantes para trora se realmente estiver a trabalho da
convicções para conseguir saídas viáveis titativa e crescente massificação do ções historicamente assumidas, deve qualquer empresa que sociedade e prestando um bom serviço,
e confiáveis, admitindo a pluralidade ideológica e sem corpo estudantil. Para Borón, “grande parte da res- empenhar-se na transformação social, queira sobreviver ajudando, por meio de ações práticas,
fechar a porta para nenhuma modalidade de entender ponsabilidade pelo declínio qualitativo é devido ao sis- lutando por um mundo sustentável, no mercado. a reintegrar os excluídos na força do
o mundo. Com visão crítica, deverá estudar novos tema privado de ensino superior, que pouco ou nada se mais humano, igualitário e justo, onde trabalho, recuperando sua dignidade,
modos de pensar, ler o mundo, gerenciar e conduzir preocupa em fazer com que as universidades cumpram o homem seja sujeito-cidadão. Nessa direção, López sua força de vontade, e se encarar a realidade com o
o processo ensino/aprendizagem. Dentro desta nova com a função social que a deveria caracterizá-las” Segrera afirma que “a definitiva razão de ser da uni- intuito de transformá-la para uma sociedade mais
visão de mundo, precisa estar aberta às inovações e (BORÓN, 2004, tradução nossa). versidade é a transformação da sociedade e para isso justa, igualitária, menos agressiva, violenta e mais hu-
contradições que a tríade ciência/tecnologia/indústria A orientação meramente para o mercado faz com ela deve participar ativamente na solução dos principais manitária. Além disso, cabe à universidade engendrar
desenvolve. A universidade não poderá ser uma torre que muitas instituições tenham apenas um crescimento problemas locais, regionais, nacionais e universais” novos paradigmas para criar uma sociedade voltada
de marfim, obsoleta, dirigida somente para o passado. quantitativo. López Segrera (2006) vem ao encontro (2006, p. 29, tradução nossa). à paz, à solidariedade, em que esteja excluída toda a
Deve considerar a bipolaridade como forma de analisar dessa idéia, afirmando que muitas universidades se Posto isso, cabe à universidade engajar-se na solu- forma de exploração e de discriminação. Deve pro-
o desenvolvimento que, de um lado, traz benefícios, convertem em empresas, cujo principal fim é produzir ção dos problemas sociais, ambientais e culturais, em mover a cultura da paz e a perspectiva de aprender a
conforto e bem-estar a poucos, e, por outro prisma, lucros. Para Vizcaíno (2006), as universidades têm qualquer âmbito, e opor-se à tese neoliberal que con- viver com os diferentes e uns com os outros, de forma

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pacífica e civilizada. A universidade, necessita das universidades. zelar pela qualidade, e a universidade deve responder car o apoio para o desencadeamento de seus projetos
além do ensino e da pesquisa, deve ter A idéia de mudança Ao se repensar a universidade, ca- ante a sociedade pelo bom uso dos recursos públicos de ensino, de pesquisa e de extensão. Não se podem
uma responsabilidade social, não assis- intrínseca pode be fazer menção a uma preocupação e assumir uma autonomia responsável. De acordo descartar os recursos oriundos da iniciativa privada,
tencialista. Ela deve ouvir a comunidade ser sintetizada na histórica, que vem acompanhando a com López Segrega (2006), a autonomia não exime a pela negociação de projetos de ponta, geralmente de
e, na medida do possível, atendê-la. Este necessidade de mudar o instituição ao longo de sua trajetória, universidade do compromisso social. E a instituição aplicação imediata, porém deve-se ter o cuidado com
deverá ser o diferencial de se repensar a paradigma educacional, ou seja, a autonomia. De uma estru- tem a obrigação de prestar contas à sociedade. esse tipo de recurso, no sentido de haver preocupação
universidade. tura simplificada e homogênea, a uni- Quanto à gestão e ao financiamento, há a neces- ética e social. É oportuno frisar que há praticamente
partindo-se de um
De acordo com Mora (2006), a mu- versidade passou a ser uma instituição sidade de serem revistos alguns sistemas arcaicos, aris- consenso entre os gestores, docentes e discentes sobre a
modelo baseado, quase
dança de contexto para a educação su- cuja complexidade e heterogeneidade tocráticos e burocráticos de administrar a universidade. falta de recursos e investimentos e, como conseqüência
que exclusivamente, É indispensável para as lideranças e para os gestores dessa realidade, afirmam que pouco se pode realizar em
perior (sociedade global, sociedade do são marcantes, na contemporaneidade.
conhecimento e universalidade) exige a no conhecimento para A rígida estrutura administrativa e pe- que estejam convencidos de que o modo adequado de termos concretos para a melhoria de vida da população
realização de reformas no sistema edu- outro, fundamentado na dagógica, a inflexibilidade, o autorita- governar a universidade é pela via da participação e não e do entorno. Contrapondo-se a essa idéia, Neciosup
cativo para responder aos novos desa- formação integral dos rismo e o excessivo controle, a excessiva da imposição. A governabilidade da universidade se La Rosa (2006), em seu estudo “La educación superior
fios. As mudanças devem ser de dois indivíduos. legislação e a própria burocracia são constrói mediante participação, negociação, argumen- virtual: un reto para la universidad latinoamerica”,
tipos: intrínsecas (modelo pedagógico) fatores que entravam a autonomia e, tação, pontos de vista convergentes/divergentes e enfatiza que:
e extrínsecas (modelo organizacional). A idéia de conseqüentemente, sua capacidade inovadora de convencimentos. A participação supõe que toda a Existe uma moda neoliberal de fazer da educação uma
mudança intrínseca pode ser sintetizada na necessidade realização e de empreendedorismo, indispensáveis em comunidade universitária seja consultada e, por meio mercadoria. A universidade pública latino-americana
de mudar o paradigma educacional, partindo-se de um uma sociedade dinâmica. Percebe-se que as instituições de diferentes formas, possa expressar seus pontos de deverá assumir o compromisso de que é possível fazer
modelo baseado, quase que exclusivamente, no co- particulares estão se adaptando de maneira mais veloz vista, quer de forma presencial ou virtual. Os pontos educação de qualidade e direcionada à erradicação da
nhecimento para outro, fundamentado na formação às mudanças que a sociedade globalizada exige. Nos de vista divergentes, comumente conflituosos numa pobreza, ainda que com os escassos recursos financeiros
integral dos indivíduos. É indispensável que os sis- últimos anos, a universidade pública também está fa- primeira instância, se bem encaminhados, serão extre- de que dispõe. O principal recurso já se tem: são os
temas de educação superior dediquem especial aten- zendo um esforço para adaptar-se ao modo de ser, mamente benéficos para a oxigenização próprios docentes e estudantes universitários
A necessidade de
ção para o desenvolvimento das habilidades “sa- viver e agir da sociedade. Kerr, citado por Clark (2006), e crescimento da instituição. latino-americanos, que com criatividade de-
avaliar as instituições
ber ler, saber falar e escrever, saber pensar e saber enfatiza que somente as universidades autônomas estão No que diz respeito ao financiamento, verão encaminhar a universidade pública e
continuar aprendendo, aprender a relacionar-se e em condições de se mover rapidamente em tempos o Estado deve ser o principal provedor,
superiores provém reatualizar a liderança acadêmica que já teve
entender o mundo do trabalho, além de desenvolver de mudanças e fazer frente à crescente concorrência. pois a educação superior é de sua respon- de vários fatores: a algum dia (p. 316, tradução nossa).
os conhecimentos de caráter prático que facilitem a Dessa forma, faz-se necessária uma autonomia ativa, sabilidade, porém, devido aos ajustes crescente massificação Partindo-se da tese de que toda a
aplicação dos conhecimentos conduzida por um ponto de fiscais ocorridos nos últimos anos, o de matrículas, atividade humana precisa ser avaliada,
teóricos” (MORA, 2006, vista empreendedor. Estado tem reduzido os investimentos principalmente a partir a avaliação institucional, produto do
p. 140). A mudança ex- A universidade, como nas universidades públicas federais. Em de 1970, em muitos capital avançado e do mundo globali-
trínseca refere-se ao mode- instituição capaz de valori- relação a essa problemática, Chaves países do continente zado, deve constituir-se em parte inte-
lo organizacional das insti- zar a cultura local/universal, (2006) assinala: grante da agenda da universidade. Em
africano, australiano,
tuições de educação superior, produzir e disseminar o As políticas de ajuste fiscal implemen- direção a esta idéia, Holgado Sánchez
asiático, americano e
que deve estar orientado para conhecimento, mediante a tadas no Estado brasileiro pelos su- e Lampert (2002) assinalam que a ne-
europeu; o aumento
o aumento de flexibilidade pesquisa, a docência e a ex- cessivos governos neoliberais, es- cessidade de avaliar as instituições
do sistema, em um sentido tensão, deve ter autonomia. pecialmente de Fernando Henrique e
das instituições privadas superiores provém de vários fatores,
temporal (facilitando a edu- No entanto, esta deve ser Luis Inácio, promoveram o gradativo que oferecem ensino construídos historicamente. Entre eles
cação ao longo de toda a vi- acompanhada de mecanis- afastamento do estado da manutenção superior, constituindo- se destacam: a crescente massificação de
da) e operativo (facilitando mos, de autocontrole e de do sistema público de ensino superior se muitas vezes, em matrículas, principalmente a partir de
a passagem do sistema acompanhamento externo, e do financiamento da pesquisa no estabelecimentos 1970, em muitos países do continente
educativo ao mercado de para harmonizar a autono- País, agravando a crise vivida pelas uni- heterogêneas em africano, australiano, asiático, americano
trabalho e entre programas mia, pois a instituição uti- versidades públicas federais (p.99). relação às universidades e europeu; o aumento das instituições
dentro do sistema educati- liza-se de recursos públicos Além desses recursos federais, a privadas que oferecem ensino superior,
públicas; os insuficientes
vo). Em síntese, a mudança e faz parte de um sistema universidade deve, por intermédio dos constituindo-se muitas vezes, em estabe-
recursos destinados às
resume-se a abrir as portas à nacional de educação. Cabe diferentes órgãos de fomentos locais, re- lecimentos heterogêneas em relação às
gionais, nacionais e internacionais, bus-
universidades públicas. universidades públicas; os insuficientes
sociedade e escutar o que ela ao Estado acompanhar e

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

recursos destinados às universidades públicas, o que e legitimidade, deve ser o resultado de uma construção construção de um sistema de
afeta a estrutura administrativa/pedagógica, obrigando coletiva de todas as pessoas que integrem a universidade. avaliação nacional, de um lado, é
a instituição a buscar recursos do setor privado; o Portanto, a avaliação é um processo democrático, par- indispensável para uniformizar
aumento das exigências em relação às universidades, ticipativo e construído historicamente (p. 224, tradução procedimentos, manter a qua-
em função de um mercado de trabalho mais restrito e nossa). lidade e a credibilidade no sis-
competitivo, o que faz com que as instituições sejam A avaliação institucional ocorre em uma entidade tema. Por outra perspectiva, a
competitivas na busca dos escassos recursos do setor viva, que tem sua história composta por seres vivos, extensão territorial, as peculia-
produtivo; e, ainda, a adoção da política neoliberal. heterogêneos e em contínuo processo de crescimento. ridades regionais, a falta de
Diferentes autores, Segenreich (2005), Gatti Constitui-se em uma realidade, subjetivamente cons- recursos para a implantação e
(2006), Nunes (2006a), Souza (2006) e Ribeiro (2009) truída e compartilhada socialmente pelo grupo. A o acompanhamento, a grande
enfatizam a importância da avaliação institucional instituição é o conjunto dos elementos culturais (va- gama, heterogeneidade e diver-
como processo que deve ser desenvol- lores, ideais e símbolos). Por sua vez, sidade de instituições, são en-
vido de maneira permanente e global, Avaliar, nesta os membros da organização têm sua traves quase intransponíveis.
utilizando-se da avaliação interna e ex- perspectiva, não trajetória de vida, experiências, modos A construção de um sistema
terna e considerando o contexto em significa mais de ver e sentir. É imprescindível, tan- avaliativo nacional que con-
que a instituição está inserida. Além to na avaliação interna como externa, temple todas estas variáveis é
inspecionar, controlar,
disso, o processo avaliativo deve envol- considerar o contexto político, econô- um grande desafio, mas tam-
buscar dados parciais,
ver diferentes atores sociais, abarcar mico, social, cultural, a história e a missão bém uma perspectiva a ser
desconexos e pouco
uma variada gama de metodologias, da instituição, pois cada instituição é perseguida. Por fim, deve-se
assessorar-se de especialistas, com o
confiáveis. Avaliar única e é necessário levar em conta as refletir se vale a pena tanta
objetivo de rever e aperfeiçoar o projeto consiste em analisar, de dinâmicas e os contextos internos e os preocupação com o sistema
político-pedagógico, considerando a forma contextualizada, externos às instituições. de avaliação nacional, sem que
pertinência e a relevância das atividades os dados qualitativos Portanto, a avaliação institucional, haja uma reversão deste quadro
desencadeadas, na dimensão pedagógica e quantitativos, em sua essência, deve substituir o mo- político, econômico, social, os dados estatísticos que impressionam a população.
e administrativa. identificando as delo puramente classificatório, pontual cultural caótico, neste país industrializado, corrupto,A universidade deve se opor a essa tese e priorizar a
A avaliação institucional, que é um potencialidades e fragmentado, por uma avaliação com enormes disparidades sociais, no qual as políticas qualidade, em todos os níveis de ensino, nas suas in-
processo extremamente delicado, deve mais completa, global, abrangente, in- públicas, comumente, não são prioridade. A quem mais vestigações, nos projetos, nos programas, nas ativi-
e fragilidades,
ser feita com muita cautela, tanto em sua tegradora, sistemática, participativa, interessa um sistema nacional de avaliação? Ao capital dades de extensão e serviços à comunidade.
permitindo conhecer a
realização técnica como no que concerne rigorosa, em que a flexibilidade estará avançado na aldeia planetária ou à Nação Brasileira, A universidade, para retomar seu status e manter-
realidade, dos cursos presente. Avaliar, nesta perspectiva, não se viva, com utilidade social, científico-tecnológica,
às implicações pessoais, pois, em geral, soberana, mas dependente dos países centrais e do
gera situações de conflito e insegurança
e da instituição, com o significa mais inspecionar, controlar, mundo globalizado? de produção e disseminação do conhecimento, deve
entre as pessoas e a instituição. A objetivo, se for o caso, buscar dados parciais, desconexos e manter uma estrutura administrativa e pedagógica fle-
forma de conduzir o processo é tão de redimensionar ou pouco confiáveis. Avaliar consiste em Algumas considerações finais xível, em que a consulta e a participação coletiva se-
importante quanto a coleta de dados. A reforçar o processo. analisar, de forma contextualizada, os O Estado tem a obrigação de oferecer o ensino jam uma premissa. A autonomia é indispensável para
busca dos melhores e menos dolorosos dados qualitativos e quantitativos, iden- superior, não podendo renunciar ao que a universidade consiga atender às
A quem mais interessa demandas de uma sociedade mutante,
caminhos deve ser a preocupação da instituição e tificando as potencialidades e fragilidades, permitindo seu compromisso social. A educação
dos especialistas. Os interesses da instituição não são conhecer a realidade, dos cursos e da instituição, com superior, patrimônio da humanidade, é
um sistema nacional e a inovação, em todas as dimensões,
suficientes. É necessário o compromisso de todos os o objetivo, se for o caso, de redimensionar ou reforçar um direito do cidadão e não pode ser de avaliação? deve partir da universidade e não dos
membros e de todos os segmentos, com a participação o processo. Este olhar crítico, porém não punitivo, confundida com um bem de importação Ao capital avançado governos.
dos envolvidos nas diferentes etapas: pensar, elaborar tem como objetivo auxiliar a universidade a encontrar ou de exportação, que se adquire. A na aldeia planetária Há a necessidade de a universidade
e executar. Em relação a essa problemática, Lampert e a sua missão, de forma dialógica, à luz de caminhos universidade é uma instituição de ensino ou à Nação Brasileira, ajudar na substituição do paradigma da
Holgado Sánchez (2001) afirmam que: viáveis, dentro do atual contexto político, econômico, superior que deveria preparar o homem soberana, mas modernidade, voltado exclusivamente
O processo de avaliação tem que ter a participação dos social e cultural. para a vida e não pode ser concebida dependente dos países para o processo de desenvol-vimento,
diferentes setores, categorias profissionais, alunado, Lampert (2008b), no artigo “Avaliação Institu- como uma empresa rentável, com fins pelo do desenvolvimento humano susten-
centrais e do mundo
tanto na discussão e no planejamento como na execução cional: qual a ideologia subjacente a este processo lucrativos. Para a ideologia neoliberal, tável, que: coloca os seres humanos no
globalizado?
do processo avaliativo. A avaliação, para ter credibilidade na educação superior brasileira?”, salienta que a o importante é o lucro, a quantidade, centro do processo; considera o desen-

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Por fim, cabe à universidade contribuir para o de- educacional en Brasil. In: LÓPEZ SEGRERA, Francisco.
senvolvimento sustentável e melhorar as condições Escenarios mundiales de la educación superior: análisis global
de vida da sociedade como um todo. Por meio de suas y estudios de casos. Buenos Aires: Consejo Latinoamericano de
Ciencias Sociales - CLACSO, 2006, p. 193-228.
funções básicas, deve buscar um equilíbrio entre: ciên-
cia e tecnologia; inovação e conservadorismo; formação HOLGADO SÁNCHEZ, María Adoración; LAMPERT,
Ernâni. Evaluación de la Universidad de la Experiencia: desafíos
técnica e humanismo; formação profissional e educação
y perspectivas para el siglo XXI. Salamanca: Publicaciones
permanente; conhecimento científico e cultura po- Universidad Pontificia de Salamanca, 2002.
pular; economia e ecologia; medicina e terapias al-
LAMPERT, Ernâni.; HOLGADO SÁNCHEZ, Maria
ternativas; globalização e localidade; indivíduo e Adoración. La creación de cultura de evaluación institucional.
sociedade; pesquisa e ensino; graduação e pós-gra- Anales de Pedagogía, Múrcia, n. 19, p. 221-240, 2001.
duação; qualidade e quantidade; desenvolvimento e LAMPERT, Ernâni. Posmodernidad y universidad: una reflexión
sustentabilidade. Isto tudo, tendo sempre presente necesaria? Perfiles Educativos, México, v.30, n.120, p. 79-93,
que somente por intermédio de uma formação huma- 2008a.

nizada ter-se-á um homem humano, condição para re- ______. Avaliação institucional: qual a ideologia subjacente a este
dimensionar a sociedade. processo na educação superior brasileira? Evidência, Araxá, n.4,
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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

A “noite da desatenção” na cidade


do conhecimento: os significados ético-políticos
do produtivismo no cotidiano acadêmico
Erlenia Sobral
Professora da UECE
Email: [email protected]

Samya Rodrigues Ramos


Professora da UERN
Email: [email protected]

Resumo: Boa parte da literatura que, hoje, se ocupa do trabalho docente na universidade trata das condições
precárias e das mediações próprias das transformações societárias que impactam o cotidiano acadêmico. No
presente artigo, levantamos alguns elementos problematizadores dos significados ético-políticos, visíveis ou
ocultos na cotidianidade, particularmente na tão comentada cultura produtivista. Realizamos estas reflexões a
partir de autores que tratam das contradições desta cultura e da literatura que fundamenta o entendimento do
cotidiano e sua reprodução. Nossa experiência cotidiana, como docentes da universidade pública (cidade do
conhecimento), e nosso compromisso com sua qualidade, também, nos envolvem nesta temática e nos alertam
para a necessidade de despertar os olhos, mentes e braços, acostumados a esse cotidiano.

Palavras-chave: Trabalho Docente; Universidade Pública; Cotidiano; Ética; Política; Produtivismo.

Introdução como o ser humano se identifica com o ambiente que

K
arel Kosic (1989), ao refletir sobre a categoria do o circunda e com aquilo que lhe cai nas mãos, com
cotidiano, a apresenta com a bela e significativa aquilo que manipula e que lhe é ontologicamente mais
expressão “a noite da desatenção”. Assim, ele nos próximo, a sua própria existência e a sua compreensão
alerta que a reprodução da cotidianidade se realiza se tornam, para ele, algo de remoto e muito pouco
por olhos e braços acostumados. Kosik reforça esta conhecido. A familiaridade é um obstáculo ao co-
análise da condição da vida cotidiana, afirmando que, nhecimento. Fazendo esta análise a partir da ótica

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

lukacsiana, Costa (2000) lembra que a maior mobili- ma de se apresentar há pelo menos três décadas. Tais da presentes, hoje se verifica significativa adesão dos Antonio Cunha, Gaudêncio Frigotto, entre outros,
dade do indivíduo nas diferentes esferas sociais, o transformações têm se expressado em três fenômenos, professores ao processo de produtivismo e pragma- que fazem referências à modernização conservadora
aumento do número de novos interesses, postos no a saber: a mundialização com dominância financeira, tismo na academia, que se reitera na reprodução co- e sua versão neoliberal na universidade) quanto fe-
cotidiano, e a pressa própria da vida urbana levam a a reestruturação produtiva e o neoliberalismo. Na tidiana e fortalece o afastamento dos docentes do nômenos expressos no cotidiano do professor uni-
uma despreocupação com a causalidade dos processos literatura que debate o tema estão expressas as duas debate coletivo e coloca, ainda, em seu lugar uma versitário, tratado por outros autores como Cristiano
constituintes da ordem social. O ser humano do coti- frentes de luta do capital que se colocam nitidamente, -racionalização individualizante e competitiva dos Ferraz, Maria de Lourdes Fávero, dentre outros. Al-
diano é fundamentalmente aquele que dá respostas neste momento de crise: 1) a redução dos encargos processos de trabalho, onde o docente assume no gumas destas investigações são resgatadas neste artigo,
imediatas às demandas práticas. sociais diretamente ligados ao custo do trabalho, a conjunto das atividades acadêmicas o papel de cap- pois evidenciam que há uma alteração no cotidiano do
No presente artigo buscamos refletir sobre a re- ampliação da mais-valia relativa (nova dinâmica nos tador de recursos. Este tipo de intelectual que se he- trabalho do docente do ensino superior público, que
produção cotidiana da atividade intelectual docente processos de trabalho) e da mais-valia-absoluta (inten- gemoniza e se reproduz no cotidiano universitário repercute nas relações interpessoais na esfera do am-
(tratada como trabalho improdutivo1), no atual con- sificação da jornada de trabalho); e 2) o processo surge a partir de que mediações? A que ele se destina? biente acadêmico, que aqui chamamos de cidade do
texto de transformações societárias que atingem, crescente de privatização do fundo público, como ex- Que valores são reproduzidos nesta cotidianidade conhecimento. Com base nestas, iremos problematizar a
também, o complexo da Educação e a Universidade pressa a parceria público-privado, as privatizações e a que se assenta na ideologia neoliberal? dimensão ética e política do trabalhador
pública, em particular. No presente contexto, da mercantilização dos serviços sociais. Se pesquisar, escrever e socializar são a despeito das docente, hoje, e sua reprodução cotidiana.
já reconhecida crise sistêmica, há claros indícios de Este quadro de mudanças societárias manifesta- elementos fundamentais e políticos da resistências ainda As condições de trabalho docente
interesse do capital em intensificar me- se de forma heterogênea no cotidiano práxis acadêmica, também é inegável presentes, hoje se contemporâneas são elencadas como
canismos de uso lucrativo do trabalho A familiaridade é de todos os indivíduos, consoante sua a importância de se inquirir sobre as fortalecedoras de um processo de pre-
verifica significativa
improdutivo, como uma das formas para um obstáculo ao condição de classe social. Em particular, condições, processos e destinos de carização, via: achatamento salarial; di-
adesão dos professores
a saída da crise. Neste processo, haveria conhecimento. A a classe trabalhadora e o conjunto dos nossa produção, no atual contexto da minuição dos recursos do ensino e da
ao processo de
uma conotação de mercantilização de maior mobilidade do que vivem da venda da força de tra- crise estrutural e da sanha acumulativa pesquisa; exigências de produtividade
setores como a saúde e educação públicas, balho têm experimentado profundas do capital, a se reproduzir em todas as produtivismo e quantitativista; maior ritmo e dinâmica
indivíduo nas diferentes
que traria nova dinâmica para estas áreas, modificações nas suas condições mate- esferas. São questões que o presente pragmatismo na nos trabalhos em grupos de pesquisa,
esferas sociais, o
reforçando ainda mais a condição das riais de existência e sofrido intensos re- texto toca, apontando a necessidade de academia, que se como células de produção, submetidas
aumento do número
mesmas como objetos estratégicos de batimentos em sua dimensão subjetiva aprofundar a reflexão sobre o tema. reitera na reprodução aos “capatazes”- agências de fomento
de novos interesses,
disputa entre capital e trabalho. (componentes morais, políticos e inter- cotidiana e fortalece - via critérios dos editais; necessidade
Na atual conjuntura de fortalecimento postos no cotidiano, pessoais). O desemprego de longa du- O cotidiano da Universidade no constante de atualização do Currículo
o afastamento dos
da racionalidade liberal, o cotidiano e a pressa própria da ração, o empobrecimento das classes contexto atual: breves reflexões sobre Lattes; além da intensificação da jornada,
docentes do debate
apresenta um ethos acadêmico que vem vida urbana levam a médias, a compressão da massa salarial, a mercantilização e o produtivismo com a necessidade de trabalhos extra,
coletivo e coloca,
se modificando via lógica do mercado, uma despreocupação o alongamento e intensificação das acadêmico para complementação salarial.
ainda, em seu lugar
por meio das noções de competitividade, com a causalidade dos jornadas de trabalho, o desmantelamento Croso Silva (2008), na sua análise Do ponto de vista dos impactos na
uma racionalização
flexibilidade e excelência - noções que processos constituintes dos organismos de classe e o ataque sobre as concepções do Banco Mundial saúde do professor universitário, algu-
atrelam a práxis docente ao conceito de ideológico contra qualquer ideário para o desenvolvimento e a educação, individualizante mas pesquisas já indicam problemas de
da ordem social.
produtividade, num contexto contra- emancipatório sinalizam um quadro de afirma que a educação é encarada, pelo e competitiva dos estresse, cansaço, síndrome de Burnout,
ditório de deterioração salarial e precarização das crise, que atinge o âmago da classe trabalhadora. referido banco, como a prestação (pública processos de trabalho. estafa, dentre outras, que já se expressam
condições de trabalho. Este processo fragiliza as Pela intervenção de várias mediações, esse processo ou privada) de um serviço e não como em números de licença e afastamentos
funções históricas da universidade e determina um co- crítico atinge os servidores públicos, em particular os um direito de todos à transmissão e troca de saberes, por adoecimento.
tidiano para o professor universitário cada vez mais docentes das universidades públicas, mormente pela culturas e valores. Nessa direção, a educação deve ser Silva (2008), no trato sobre as implicações na saúde
heterogêneo (polivalente) e alienado. Isto, em si, já crescente precarização das condições do exercício avaliada com base no desempenho dos professores em mental do professor, destaca que
aponta a necessidade de se descortinar as conexões entre de sua função histórica, vocacionada à transmissão e fornecer o mais eficiente serviço aos seus clientes, os a precarização do trabalho, com o direcionamento,
a crise de acumulação do capital e a reconfiguração da crítica do patrimônio científico e cultural, produzido responsáveis pelo seu financiamento. Revelam-se, nas praticamente unilateral, para o produtivismo, tem
educação superior, tendo em vista que o ajuste atual socialmente e acumulado ao longo da história. Ain-da políticas dos organismos internacionais, indicações impingido à pessoa trabalhadora relações perversas
do capitalismo criou um contexto de novas exigências que uma classe de composição heterogênea, o pro- estratégicas de mercantilização da educação. permeando o espaço laboral. Isso implica como conse-
para a sociedade e para a educação. fessorado da universidade pública tem se colocado Uma breve revisão da literatura sobre a universidade, qüência, o surgimento de crescente número de pessoas
Existe um consenso no campo acadêmico e cientí- como uma categoria historicamente crítica e resistente, hoje, traz à tona tanto a reflexão da malha sistêmica que manifestam o adoecimento psíquico, verificável por
fico em torno da tese de que o capitalismo mundial conforme bem simbolizam alguns períodos históricos determinativa (textos de estudiosos como Roberto meio da discussão dos dados provenientes de investi-
tem engendrado transformações profundas na sua for- no Brasil. Entretanto, a despeito das resistências ain- Leher, Marilena Chauí, Maria de Fátima Paula, Luis gações científicas disponíveis, a quem possa interessar-

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se, nos bancos de dados das instituições competentes conselheiros editoriais, organização de eventos para dar hoje a ideologia neoliberal é reiterada no cotidiano liação humana, o conjunto de todas as relações,
(p.139). vazão aos trabalhos resultantes das pesquisas (p.152). acadêmico, por via dos processos de naturalização das produtos, ações, idéias etc. sociais que promovem
O quadro atual anuncia, ainda, como demonstra Comungando desta análise, Castiel e Sanz-Valero privatizações dos cursos pagos de pós-graduação, da o desenvolvimento da essência humana no estágio
a pesquisa de Silva (idem), que ocorre um impacto (2007) apresentam dados e refletem sobre a dimensão condição do professor como captador de recursos, histórico tomado em consideração” (HELLER,
importante sobre as relações interpessoais, particular- mercadológica da atividade científica, explicitando da racionalidade das avaliações quantitativistas e da 1989, p.78). Para Heller, os valores promovem o de-
mente no que diz respeito à dimensão moral. As exi- alguns elementos sobre a produção do conhecimento hierarquização das universidades, da parceria público- senvolvimento da essência humana, enquanto os des-
gências e a intenção de acompanhá-las fazem com que no ambiente universitário, hoje. Tratando o assunto em privado, do Estado como avaliador, da produção do valores impedem esse desenvolvimento.
o nível de competitividade se agrave e passe a comandar termos críticos, os autores fazem referências a aspectos conhecimento a serviço das empresas etc., põe em Os valores são construções sociais próprias da práxis
novas relações entre os indivíduos, isoladamente morais deste processo como: o “escambo autoral” evidência que os sujeitos da universidade fazem parte humana. Embora as escolhas orientadas por valores
ou na relação entre os grupos. Há relatos de falta de (inclusive o crescimento do número de autores por da reprodução deste processo. Os professores não tenham uma dimensão individual, subjetiva, singular,
ética na produção dos artigos, como o roubo literal artigo); a ciência “salame” (fatiar os artigos, publicar fogem à regra, ao contrário, sofrem e tem em suas elas são influenciadas pela inserção dos sujeitos em
da produção do outro, o clientelismo, várias vezes o mesmo artigo, apenas atividades a predominância da burocratização das processos coletivos, nos quais comparecem múltiplas
como a troca de favores e nomes nos com modificações cosméticas); a prática, atividades (preenchimento de relatórios, participação vontades, escolhas e valores. Nesse sentido, Semeraro
artigos para constar em publicações e À medida que os hoje mais facilitada, de plágios; relações na concorrência de editais etc.), a exi- (1999) argumenta que, para Gramsci,
Ao pensarmos na
eventos, a não divulgação de seminários, recursos disponíveis de influência e jogos de poder e a busca gência da polivalência, encurtando o é na vinculação consciente e voluntária a orga-
cursos, concursos e editais, para não do investigador em tornar seu objeto dimensão moral própria
para a pesquisa são tempo de estudos e de envolvimento nas nizações sociais e políticas que o indivíduo
potencializar a concorrência e a hosti- de estudo interessável ao mercado de atividades mais coletivas. da reprodução das
canalizados para define os valores de sua personalidade e a
lidade na convivência entre os grupos, publicações; atuação dos líderes dos práticas do trabalhador configuração ética da sua existência. É no
áreas consideradas
fortalecendo a dificuldade da convivência grupos como sujeitos de negócios na A dimensão ética do trabalho docente docente, no contexto interior das diversas dinâmicas associativas
rentáveis, eles são
com o diferente. busca das fontes de financiamento; o no contexto da reprodução de (des) de uma universidade – articuladas politicamente a um projeto
usados privativamente,
Outras investigações também já en- currículo como um relatório de balanço valores, na sociabilidade do capital pragmática (produtivista democrático de sociedade – que se forma uma
saiaram a apresentação de dados, mais dentro da própria comercial. As ações humanas são influenciadas e precarizada), temos vontade coletiva e se desenvolve o senso crítico
imediatos, reveladores das modificações instituição - laboratórios, De acordo com a análise de Bosi por diversas categorias de valor e os de indivíduos que progridem até a formação
que compreender como
na práxis acadêmica, a exemplo das computadores, (2006), outro aspecto importante das diferentes tipos de valores operam di- duma concepção de mundo coerente e unitária
os valores ou desvalores
problematizações de Bianchetti (2008), salas, auditórios relações dentro da universidade, neste ferentemente nas dimensões sociais. capaz de ultrapassar as reivindicações parciais
se realizam e como e
que também retoma as implicações éti- e equipamentos, cenário, é o uso privativo dos recursos: Vale ressaltar que, na sociabilidade do e os limites duma ética individual, e de se
cas do produtivismo acadêmico: à medida que os recursos disponíveis porque isto se reproduz
construídos a expensas capital, a dimensão econômica tem uma projetar para a transformação da sociedade e
As estratégias para responder a es- para a pesquisa são canalizados para centralidade determinante no desen- na vida cotidiana –
do dinheiro público e em a elevação sócio-política das grandes massas.
ta demanda induzida passaram a áreas consideradas rentáveis, eles são volvimento das várias expressões de desvalor compreendido, Nesse processo as rupturas com ´blocos` éti-
parcerias com empresas
abranger um leque, que vai, de uma usados privativamente, dentro da pró- valores e na orientação das atividades aqui, como aquilo que, co-políticos vazios e ultrapassados são inevi-
- e passam a ser de uso
situação desejável - a importância e a pria instituição - laboratórios, com- humanas. Assim, ao pensarmos na di- direta ou indiretamente, táveis, assim como é decisiva a afirmação da
exclusivo de grupos,
necessidade de publicar-, até aquelas putadores, salas, auditórios e equipa- mensão moral própria da reprodução rebaixe ou inverta o autonomia das classes subalternas, a elabora-
que arranham a ética acadêmica. Sem
núcleos e centros de mentos, construídos a expensas do das práticas do trabalhador docente, nível alcançado no ção de valores e práticas sociopolíticas mais
dúvida passou a haver uma maior so- pesquisa. dinheiro público e em parcerias com no contexto de uma universidade prag- avançadas que permitam a construção duma
desenvolvimento da
cialização da produção, mas como empresas - e passam a ser de uso exclu- mática (produtivista e precarizada), te- nova hegemonia (p. 168).
essência humana.
não havia muita prática de se expor, sivo de grupos, núcleos e centros de mos que compreender como os valores Assim, é que, historicamente, os tra-
via artigos-publicações, e os meios para sua veiculação pesquisa. Resta aos demais professores, desenvol- ou desvalores se realizam e como e porque isto se balhadores, organizados politicamente, tentam definir
eram poucos, na implementação dessa prática e na verem suas próprias condições de trabalho. reproduz na vida cotidiana – desvalor compreendido, e elaborar, mesmo em meio à ofensiva ideológica do
criação de meios, foram forjadas saídas questionáveis Segundo Leher (2008), o trabalho intelectual é aqui, como aquilo que, direta ou indiretamente, rebaixe capital, valores, escolhas e práticas políticas que re-
como é o caso de: apropriação de trabalhos de alunos, contraditório à lógica do capital, pois seu tempo não ou inverta o nível alcançado no desenvolvimento da forcem os interesses de sua classe social, no processo
proliferação de coletâneas, excesso de trabalhos em co- pode ser enquadrado na lógica produtivista, que é essência humana, pensada como construção social e de construção de uma nova hegemonia. Esse processo
autoria, publicação do mesmo trabalho com pequenas um claro parâmetro capitalista. Mas, é notório que histórica. de construção é permeado pelas determinações da
modificações (requentados) em mais de um meio de o capital encontrou formas de mensurar e adequar o No desenvolvimento histórico do ser social, as sociabilidade capitalista, sendo perpassado por con-
veiculação, pagamentos de edições de livros por parte trabalho docente à sua lógica, abrindo possibilidade várias expressões de valor constituem mediações para tradições e conflitos, que se reproduzem no cotidiano
de seus autores, criação desenfreada de periódicos, com de expropriação do saber docente e de afastamento a materialização das escolhas e ações. Considera- de suas vivências individuais e coletivas. Não se pode,
arranjos (eu publico o teu artigo e você o meu) entre os da função social da universidade. As formas como mos “valor objetivo, ou seja, independente da ava- portanto, discutir a possibilidade de afirmação de

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

valores emancipatórios, sem levar em tornado retrógrado e embaraçoso, e se chegue Os momentos característicos3 da conduta e do
conta a inserção dos sujeitos na ordem Não se pode, portanto, ao homem-coletivo através de uma fase de pensamento cotidianos imprimem uma conexão ne-
burguesa, fundamentada em desvalores. discutir a possibilidade desenvolvimento da individualidade e da perso- cessária entre si. Dentre eles, destacam-se: a hierar-
A sociabilidade capitalista é marcada por de afirmação de valores nalidade crítica é uma concepção dialética di- quia, a imitação, a espontaneidade, a probabilidade,
profundos antagonismos, contrapondo- emancipatórios, sem fícil de ser compreendida pelas mentalidades o pragmatismo, os juízos provisórios e a ultragene-
se os interesses do capital aos interesses levar em conta a esquemáticas e abstratas (2000, p.289). ralização. Tais características, quando levadas ao ex-
do trabalho, permanecendo os interesses inserção dos sujeitos Ao contrapor individualismo à in- tremo e absolutizadas, agudizam o processo de alie-
do capital materializados de forma dividualidade, a concepção de indiví- nação. Nesse aspecto, adverte Heller (1989) que a vida
na ordem burguesa,
hegemônica. duo defendida por Gramsci é que ele cotidiana, de todas as esferas da realidade, é aquela
fundamentada
Deste modo, toda a vida dos indivíduos, é um “sujeito dotado de consciência e mais propensa à manifestação da alienação4.
em desvalores. A responsabilidade que é capaz de auto-
em todas as suas manifestações é de A alienação das relações sociais na vida cotidiana
algum modo, colocada sob a ótica do
sociabilidade capitalista determinar-se, mas nunca é pensado fora contemporânea é uma das formas peculiares da socia-
capital. Desde o trabalho propriamente é marcada por do seu contexto socioeconômico com o bilidade sob o capitalismo tardio (NETTO, 1989),
dito, até as manifestações mais afastadas profundos antagonismos, qual interage constantemente, ainda mais que ao preencher e penetrar todas as dimensões da
dele, como a religião, os valores morais contrapondo-se os numa sociedade complexa e diversificada vida social, reinventa suas formas de aprisionar e arre-
e éticos, a afetividade e as relações interesses do capital aos como a moderna” (SEMERARO, 1999, fecer a existência humana, tornando-a algo banal,
pessoais [...] Esta afirmação significa, interesses do trabalho, p.161). numa sociedade que ostenta o sentido pragmático e
apenas, que nenhum aspecto da vida No cotidiano do contexto socioeco- descartável dos objetos, mas também dos indivíduos e
permanecendo os
social e individual, hoje, deixa de ser nômico capitalista, reproduzimos inú- de suas relações sociais.
interesses do capital
perpassado pelos interesses do capital meros desvalores e o âmbito universitá- Essa alienação manifesta-se em diversas dimensões
materializados de forma
(TONET, 1999, p.102). rio não está imune a isso. e atividades no cotidiano, embora existam espaços
Tendoporbaseaalienaçãoeexploração
hegemônica. mais propícios para a possibilidade de superá-la. A
dos trabalhadores e o desenvolvimen- Cotidiano universitário: espaço entre a vida cotidiana constitui-se uma arena de tensão entre
to dos diversos fetichismos constitutivos da práxis alienação e a possibilidade da sua superação dialética alienação/desalienação, mostra-se como heterogênea, posta na vida cotidiana sob a sociabilidade do capital.
capitalista (BIHR, 1999), disseminam-se, nesta socia- A vida cotidiana como produto histórico (KOSIK, imediata, espontânea e, desconsiderando a intercone- Ganham destaque elementos do cotidiano do trabalho
bilidade, desvalores que contribuem para garantir, 1989) configura-se como a vida de todos os indivíduos, xão entre os fenômenos singulares, encobre a totali- docente que revelam contradições e tensões no pro-
no âmbito moral e ideológico, essa dominação. A ou seja, todos os seres humanos se produzem e re- dade social e a consciência humano-genérica e de classe cesso de crítica a esta forma societária.
sociabilidade capitalista tem um sustentáculo moral e produzem na cotidianidade. Trata-se do espaço- (MONTAÑO, 2002). O produtivismo acadêmico no atual contexto ex-
ideológico, pautado na reprodução de desvalores, tais tempo de constituição-produção-reprodução do ser O cotidiano não deve ser identificado como pressa, no cotidiano universitário, um processo de
como: o individualismo, a competitividade, o egoísmo. social, é nesse espaço que os indivíduos se põem em mero espaço de alienação, dominação, nem como alienação, característico da sociabilidade capitalista sob
Nesta sociabilidade, a tendência a acumular lucros e movimento com todos os seus sentidos, capacidades e âmbito imaculado da desalienação, a hegemonia neoliberal, que intensifica
o culto ao dinheiro constituem “o terreno propício potencialidades2. da emancipação. A cotidianidade é, O produtivismo saídas individualistas, despolitizadas e
para que nas relações entre os indivíduos floresçam o Isso porque a vida cotidiana é marcada, sobretu- portanto, uma arena de disputas, tan- acadêmico no atual competitivas.
espírito de posse, o egoísmo, a hipocrisia, o cinismo e do, pela heterogeneidade, tanto no que se refere ao to individuais, pontuais, setoriais e contexto expressa, no Hoje percebemos uma rede político-
o individualismo exacerbado [...] Tal é a moral indivi- conteúdo e significado das ações, como sobre a rele- imediatas, como de lutas sociais, clas- ideológica de hegemonia neoliberal5,
cotidiano universitário,
dualista e egoísta que corresponde às relações sociais vância das atividades que o indivíduo se propõe a rea- sistas e estruturais. Assim, “as lutas que se assenta no cotidiano universitário
um processo de
burguesas” (VAZQUEZ, 1989, p.36). lizar. Para tal, atua em suas objetivações cotidianas, desenvolvidas na sociedade civil e, par- e que consegue a adesão de boa parte dos
pondo-se como homem inteiro – mas apenas no terreno
alienação, característico professores ou, no mínimo, coloca uma
Um dos desvalores mais internalizados na sociabili- ticularmente, na sua cotidianidade, são
dade capitalista é o individualismo, que está presente, da singularidade, fixado que está na experiência, na absolutamente necessárias num pro- da sociabilidade condição de vulnerabilidade para todos
nas mais diversas instâncias e relações. Gramsci, re- busca de conceder respostas imediatas às diferentes cesso de efetiva transformação social, capitalista sob a os docentes. Segundo Ferraz (2008),
fletindo sobre a diferença entre individualismo e a in- atividades. a caminho da emancipação humana” hegemonia neoliberal, há um produtivismo despolitizador
dividualidade, argumenta que A vida cotidiana, marcada pela heterogeneidade e (MONTAÑO, 2002, p.264). que intensifica saídas que não problematiza as condições
luta contra o individualismo é luta contra um determinado imediaticidade, requisita de cada indivíduo respostas Nossa intenção é refletir sobre as individualistas, de trabalho e que não relaciona a pro-
individualismo, com um determinado conteúdo social, funcionais, que se referem ao somatório dos fenô- arenas de disputas e suas possíveis con- despolitizadas e dução científica com o cenário po-
e precisamente contra o individualismo econômico [...] menos que aparecem, desconectados entre si, em cada tribuições para a construção de possi- competitivas. lítico em que se realiza. O resultado é
Que se lute para destruir um conformismo autoritário, situação concreta. bilidades de ruptura com a alienação, um individualismo privilegiador de

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

projetos pessoais, dissociados, muitas vezes, dos in- Isto se realiza, ainda que encontre as heróicas re-
teresses coletivos ou de classe. A ideologia da meri- sistências, num cotidiano alienado que fortalece a
tocracia é incorporada. Esta indução à lógica de aceitação e o conformismo. Alguns setores, outrora
mercado pode alterar, profundamente, a natureza da resistentes, sucumbiram a esta lógica e consideram que
práxis acadêmica, associando a instituição pública a não é possível o contra-ponto com mudanças radicais,
uma cultura organizacional de empresa, pela linha mas apenas algumas medidas para atenuar o curso da
da quantidade e dos resultados e da competência in- mercantilização e, neste caso, ainda que se discorde, não
dividual. Isto já pode ser observado no próprio uso da há como se contrapor à lógica do empreendedorismo.
linguagem específica do mundo empresarial, tal como:
organização, produtividade, otimização, excelência, Considerações finais
dentre outros termos. A atual configuração do trabalho docente sofre,
Neste sentido é que se altera a cria- hoje, claros rebatimentos, na verdade
ção intelectual, tendo em vista que o A atual configuração tem ligação intra-uterina, com as tenta-
profissional do ensino superior vai do trabalho docente tivas de modernização conservadora
sendo transformado em uma espécie sofre, hoje, claros da universidade brasileira, sempre fun-
de empreendedor individual, cuja pro- rebatimentos, na damentadas pelo argumento artificioso
dução é mensurada por critérios e indi- de que é instituição improdutiva. Há
verdade tem ligação
cadores que demarcam a sua trajetória uma densa cadeia de mediações, postas
intra-uterina, com
acadêmica: entre esses processos de racionalização
Os critérios e indicadores que supos-
as tentativas de e os dilemas que sofrem os professores
tamente asseguram o valor acadêmico modernização na inserção da lógica produtivista, que
de uma determinada produção es- conservadora da conforma um dado modo de trabalho
tão imbricados em mecanismos pro- universidade brasileira, intelectual, no contexto contemporâ-
dutivistas como a GED, as bolsas de sempre fundamentadas neo, tão bem expresso nas exigências
produtividade, o sistema qualis, o scie- pelo argumento quantitativistas das agências de fomen-
lo, etc. Se por um lado argumenta-se artificioso de que é to à pesquisa.
que esses são necessários á avaliação e
instituição improdutiva. Isto se reproduz de forma irracional no
à conformação a padrões internacionais cotidiano contraditório de precarização e outras dimensões, na precarização do trabalho; no en- consciência humano-genérica.
(que não são neutros, expressando a correlação de produtivismo. O resultado é expresso no dilaceramento fraquecimento da identidade coletiva destes sujeitos, A formação da consciência humano-genérica é um
forças na batalha das idéias), por outro, ao avaliar e ao da vivência acadêmica coletiva; no enfraquecimento subjugando-os à vivência da pura particularidade de processo complexo. Na interpretação gramsciana, há
conformar os referidos critérios, impõem padrões que do conceito de esfera pública e na despolitização dos cada um. Ressalte-se, entretanto, que este não é mo- indicações sobre os diversos momentos do processo
devem ser acatados caso o professor queira prosperar debates, resultando numa vulnerabilidade de docentes vimento unilateral, sem adesões conscientes ou de de elaboração da consciência política coletiva, ou seja,
em sua trajetória acadêmica junto ao aparato de CeT inseridos no circuito do imediatismo e do mercado resistências, posto que a universidade ainda contem- o grau de autoconsciência e de organização alcançado
externo a universidade. O risco de adotar lentes que (via fundações), imperando a competitividade e o in- pla uma diversidade de seres e disputa de saberes. pelos vários grupos sociais. A formação da consciência
mais deformam do que contribuem para tornar pensável dividualismo. Conforme já comentado, isto é, repro- Lembrando, também, que a reprodução se constitui a humano-genérica implica, portanto, “a consciência de
a realidade do país é obviamente muito grande (LEHER, duzido, ainda, na competição entre os grupos de pes- partir de uma complexidade de processos e contradições que os próprios interesses corporativos, em seu de-
2008, p.22). quisa, trabalhando como “células de produção”, em e que, portanto, não é linear e nem determinista. senvolvimento atual e futuro, superam o círculo cor-
Neste contexto, ganha espaço a nova relação público- atendimento aos “capatazes da produção” (agências de O atual contexto aponta para uma descaracterização porativo, de grupo meramente econômico, e podem e
privado, evidenciada nas fundações que potencializam fomento). do que, historicamente, se tentou construir como devem tornar-se os interesses de outros grupos subor-
a venda de serviços e de produtos universitários no Por conseqüência, o docente acaba por vivenciar um docência na universidade pública voltada para um com- dinados” (GRAMSCI, 2000, p.41).
mercado e que, consequentemente, tornam realida- cotidiano no qual se manifesta, ainda mais, a alienação promisso social, causando um retrocesso nesta ação As classes sociais, que Gramsci chama de grupos
de dois elementos, reproduzidos na cotidianidade do da sua atividade, fortalecendo as determinações de uma profissional, na medida em que alimenta e fortalece a sociais, no desenvolvimento de suas lutas, devem con-
professor, que merecem reflexão: 1) o controle sobre a cotidianidade subjugada à heterogeneidade, efemeri- condição de essa docência se voltar essencialmente para solidar alianças que superem o plano corporativo, na
autonomia do trabalho do professor universitário; e 2) dade, ao imediatismo e superficialidade, expressões o mercado e para a reprodução de uma cotidianidade perspectiva de atingir um plano “universal” e criar, no
as dificuldades para mobilização coletiva na defesa da típicas de um cotidiano reificado pelas determinações presa em si mesma, manifesta na singularidade de ca- terreno sócio-político-cultural, a hegemonia de um
universidade pública, gratuita e de qualidade. atuais da ordem burguesa. Isto se expressa, dentre da um, obstacularizando, assim, a formação de uma grupo social fundamental sobre uma série de grupos

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

subordinados. Nesse ponto, com o grau de auto-cons- (1989, p. 17 a 41). LEHER, Roberto; LOPES, Alessandra. Trabalho docente, NETTO, José Paulo. Para a crítica da vida cotidiana. In:
ciência que os grupos sociais alcançam, é possível efe- 4. Exemplos corriqueiros deste processo de alienação ocorrem carreira e autonomia universitária e mercantilização da Cotidiano: Conhecimento e Crítica. São Paulo: Cortez, 1989.
educação. Disponível em: <http///www.fae.ufmg.br/estrado/
tivar a ruptura com o corporativismo e empenhar-se quando a hierarquia é levada ao extremo, gerando a inflexibilidade; SEMERARO, Giovanni. Cultura e Educação para a
quando a imitação é exagerada, cerceando a captação do novo; cdrom-seminário-2008/texto/ponencia/Roberto Lerh>.PDF.
na busca da universalidade. Democracia: Gramsci e a sociedade civil. Petrópolis, RJ: Vozes,
quando nossas ações são demasiadamente pragmáticas, reforçando Acesso em: 20 de nov. 2008.
1999.
No pensamento gramsciano, o desenvolvimento a padronização ou quando a ultrageneralização é absolutizada, MESQUITA, Maryluce; RAMOS, Sâmya e SANTOS, Silvana.
da dimensão ético-política é um momento necessário SILVA, Guacira Araújo Gonçalves Campos. Sob aparente
formando-se os pré-juízos, que resultam em preconceitos. Contribuição à crítica do preconceito no debate do Serviço
desistência, docentes sofrem com a síndrome de Burnout. In:
ao processo de constituição da consciência coletiva 5. Outro mecanismo de complementação de renda poderoso Social In: MUSTAFÁ, Alexandra M. (org.) Presença Ética vol.1
Revista Universidade e Sociedade, ano XVII, n. 41, jan. 2008.
dos grupos sociais. Dessa forma, objetiva-se uma foi possibilitado pela lei no. 10.973, de dezembro de 2004, de- -Anuário filosófico-social do GEPE-UFPE. Recife: UNIPRESS
Gráfica e Editora do NE, 2001. TONET, Ivo. Educação e concepções de sociedade. In: Revista
perspectiva de classe, na medida em que, ao romper nominada Lei de Inovação Tecnológica. Dentre outros aspectos,
Universidade e Sociedade, v. 9, n.19, maio/ago, 1999.
ela faculta aos docentes o recebimento de incentivos financeiros, MONTAÑO, Carlos. Terceiro Setor e Questão Social: crítica
com o corporativismo, a consciência ético-política
ao desenvolverem projetos em parceria com empresas, assim ao padrão emergente de intervenção social. São Paulo: Cortez, VAZQUEZ, Adolfo S. Ética. Rio de Janeiro: Civilização
conquista a unidade e universalidade, apresentando como autoriza o afastamento de docentes de suas atividades aca- 2002. Brasileira, 1989.
propostas políticas e valores éticos, na construção de dêmicas para se dedicarem às suas inovações, o que certamente
uma nova hegemonia. lhes renderá outros ganhos (LEHER, 2008, p.15).

O processo de construção da consciência da classe


trabalhadora, visando à materialização de projetos Referências

políticos críticos à sociabilidade do capital é bastante BARROCO, Lúcia. S. Ética e Serviço Social: fundamentos
ontológicos. São Paulo: Cortez, 2001.
complexo e sofre, dentre outras, determinações de or-
dem: econômica, política, cultural, ideológica, social BIANCHETTI, L. Pós-graduação em Educação: processo e
resultados de uma “indução voluntária”. Revista Universidade e
e profissional. Esse processo requisita a ruptura com
Sociedade, ano XVII, n. 41, jan. 2008, p. 143-164.
diversos entraves, postos no cotidiano, tais como: o
BIHR, Alain. Da grande noite à alternativa: o movimento
corporativismo, a despolitização, o individualismo, a
operário europeu em crise. São Paulo: Boitempo Editorial, 1999.
apatia, o comodismo. A ruptura com esses entraves
BOSI, Antonio de Pádua. Precarização do trabalho docente no
torna-se possível, desde que a consciência política
Brasil: novas e velhas formas de dominação capitalista (1980-
avance para níveis coletivos e seja internalizada por 2005) In: Revista Universidade e Sociedade n. 38, p.46-59, 2006.
uma quantidade significativa de indivíduos sociais.
CASTIEL, L.D. e SANZ-VALERO, J. Entre o fetichismo e
As resistências à lógica mercadológica e produtivis- sobrevivência: artigo científico é uma mercadoria? Caderno
ta, no âmbito educacional, passam, necessariamente, Saúde pública, v.23, n.12. São Paulo, dez. 2007.
por lutas, sobretudo do segmento docente, que apon- COSTA, Lúcia Cortes. A estrutura da vida cotidiana: uma
tem para a ruptura com a dimensão econômico-cor- abordagem através do pensamento lukacsiano In: Revista
porativa e com os desvalores, amplamente dissemina- Emancipação. UFPG, 2001.

dos na sociabilidade do capital. Essas lutas coletivas CROSO SILVA, Camila; GONZÁLEZ, Marina; BRUGIER,
devem se gestar na perspectiva da elaboração de uma Yana. OMC em foco: a comercialização da educação na América
Latina In: HADDAD, Sergio (org.) BANCO MUNDIAL,
consciência ético-política, na direção da construção de OMC E FMI: o impacto nas políticas educacionais. São Paulo:
um projeto de emancipação humana. Cortez editora, 2008.

FERRAZ, Cristiano Lima. Trabalho docente, precarização e a


Notas nova hegemonia do capital. Revista Universidade e Sociedade,
ano XVII, n. 41, jan. 2008.
1. A perspectiva apresentada é que trabalho produtivo é o trabalho
assalariado que produz mais-valia para o capitalista, que reproduz GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Volume 3 –
seu valor e um novo valor, supera o equivalente recebido como Maquiavel: notas sobre o Estado e a política. Tradução de Luiz
salário; o assalariamento é condição para o capital produtivo. En- Sérgio Henriques, Marco Aurélio Nogueira e Carlos Nelson
tretanto há trabalhadores assalariados que não são produtivos. Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
Além do próprio trabalho e sua reprodução, o trabalhador pro-
HELLER, Agnes. O Cotidiano e a História. Tradução de
dutivo tem que gerar excedente.
Carlos Nelson Coutinho e Leandro Konder. Rio de Janeiro: Paz
2. Sobre a discussão da vida cotidiana cf. Mesquita, Ramos e San- e Terra, 1989.
tos (2001).
KOSIK, Karel. Dialética do concreto. Rio de Janeiro: Paz e
3. Para a compreensão de cada um desses momentos característicos Terra, 1989.
do comportamento e do pensamento cotidianos, conferir Heller

122 - DF, ano XIX , nº 45, janeiro de 2010 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE UNIVERSIDADE E SOCIEDADE DF, ano XIX, nº 45, janeiro de 2010 - 123
Reforma da Educação e Trabalho Docente

Reformas educacionais e trabalho docente:


itinerários contemporâneos para a
alienação do trabalho intelectual?
Rosa Maria Godoy Silveira
Professora aposentada da UFPB
E-mail: [email protected]

Alexandre Antônio Gíli Nader


Professor da UFPB
E-mail: [email protected]

Resumo: Este artigo, de modo breve, busca visualizar as Reformas Educacionais contemporâneas com base
numa abordagem que tem seu ponto de partida na dinâmica (mudanças e permanências) do papel social do
conhecimento ao longo da modernidade ocidental, iniciada com o fim da Idade Média e ainda persistente
nos dias atuais. Nessa perspectiva, tenta investigar os aspectos introduzidos nessa dinâmica pela globalização
capitalista em vigência, bem como os seus desdobramentos sobre as práticas sociais educativas formais- as
ditas reformas-, com ênfase naquilo que diz respeito às alterações que elas trazem para o trabalho docente.
Busca-se, ainda, numa primeira aproximação, caracterizar tais reformas como iniciativas capitalistas para a
alienação do trabalho intelectual.

Palavras-chaves: Reformas Educacionais; Trabalho Docente; Trabalho Intelectual; Alienação; Conhecimento.

Introdução se no espaço da contemplação, como dádiva de Deus

A
o nosso ver, dentre os elementos simbólicos mais aos homens, para que esses pudessem, em êxtase,
fortemente instituintes da transição - ruptura - en- maravilhar-se frente à obra divina. Desse modo, o
tre o medievo e a modernidade, com intensivas re- conhecimento, do mesmo modo que essa obra, seria
percussões no campo da materialidade, está a mudança eterno, imutável, a-histórico, portanto. Tal percepção é
do papel social atribuído ao conhecimento (NÁDER, nitidamente explicitada por Santo Agostinho, em “As
2004). Confissões”, na, assim chamada, Doutrina da Ilumi-
No período medieval, o conhecimento situava- nação (PESSANHA, 1996).

124 - DF, ano XIX , nº 45, janeiro de 2010 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE UNIVERSIDADE E SOCIEDADE DF, ano XIX, nº 45, janeiro de 2010 - 125
Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

A modernidade institui, e é instituída, numa pers- formulação de algumas reflexões extremamente im- belecida a predominância que a segunda percepção nessas reformas, por seu viés (neo)tecnicista, uma
pectiva de circularidade ou até mesmo de alternância portantes para a caracterização das articulações que, de tem assumido, de modo cada vez mais intenso, sobre forte componente destinada a destituir os docentes
dialética entre causa e efeito, um outro significado acordo com o título deste tópico, pretendemos estabe- a primeira. de sua condição de trabalhadores intelectuais, em ter-
para o conhecimento: aquele de instrumento, feito lecer. Nessa mesma linha, ainda, é preciso que se perceba mos de sua atuação como sujeitos produtores e so-
pelos e para os homens, de intervenção sobre o real, Em primeiro lugar, cabe registrar o papel central as- que a inserção do conhecimento no mundo das mer- cializadores do conhecimento, buscando caracterizá-
na busca do atendimento das suas necessidades, das sumido pela Escola como instituição eminentemente cadorias é fator de intensa corrosão da singularidade los, sobretudo, como gestores de situações nas quais
mais diversificadas naturezas1. Nesse sentido, o co- moderna, tomando o lugar que, na Idade Média, era de sua historicidade. Por meio dessa inserção, o ocorre a circulação da mercadoria conhecimento,
nhecimento incorpora os atributos de secularidade e ocupado pela Igreja. Mais ainda, o próprio ato edu- conhecimento teria por historicidade um reflexo, com possibilidades diversificadas. Afinal, a adoção da
provisoriedade, ganhando, desse modo, inequivoca- cativo formal, que tem ocorrência na instituição esco- mecanicista, mesmo, daquela associada à instância visão de conhecimento como mercadoria2 implica, ne-
mente, uma dinâmica e, pour cause, uma historicidade lar, é alçado, na modernidade, a um patamar social e econômica. E, desse modo, seria corroída, de forma ir- cessariamente, a reintrodução (atualizada3, evidente-
própria: condicionada, mas não determinada completa- epistemológico de extremo destaque. É por seu inter- reversível, aquilo que Gramsci (1982) tão bem designa mente) da busca de similaridades entre escola e fábrica.
mente, pelas injunções de outros fatores presentes no médio, potencialmente, pelo menos, que todos os de autonomia relativa do conhecimento, fundamento Basta pensarmos nas peculiaridades dos níveis de en-
contexto em que ele é produzido/socializado. integrantes da espécie poderão alcançar a condição indispensável, inclusive, para a argumentação em de- sino, educação básica e educação superior, nas dos di-
No início da modernidade (o período didaticamente de sujeitos do conhecimento sistematizado, parcela fesa da autonomia universitária. versos métodos e modalidades educacionais, nas dos
designado como História Moderna), em presença significativa do saber acumulado pela humanidade e Na perspectiva apontada acima, uma reforma segmentos sociais que se fazem presentes, isoladamente
dos demais elementos que a instituem/constituem, o indispensável, na(s) sociedade(s) ocidental(is) moder- educacional é um acontecimento, cujos e em conjunto, em cada caso, e, para a
principal conflito a respeito do conhecimento ocorria na(s), para a participação qualificada na(o) disputa/ sujeitos promotores têm, em geral, co- É possível identificar educação superior, nas características
tendo como foco a consolidação dessa nova percep- exercício pelo/do poder. Aliás, é exatamente esta última mo uma das principais componentes de nessas reformas, uma próprias dos três tipos de atividade por
ção frente às resistências, inerciais, sobre- afirmativa que configura o motivo pelo suas intenções ou propósitos, uma incul- forte componente ela abrangida, o ensino, a pesquisa e a
tudo, à sua prevalência. Já a duração que
Na História qual - e para que - a potencialidade da cação de ordem ideológica, visando extensão. De todo modo, em todas es-
Contemporânea, a destinada a destituir os
caracteriza o triunfo moderno, traz para Escola não se efetive, plena e abrangente- ao fortalecimento de uma particular sas possibilidades, há um denominador
grande questão está docentes de sua condição
o centro das atenções um outro embate, mente. concepção do papel social do conheci- comum: a apartação, tanto quanto seja
situada no âmbito de trabalhadores
previamente existente, ainda que, até Além disso, como decorrência do mento e, assim, da prática social da possível, do docente em relação ao seu
então, latente e eclipsado por aquele da amplitude da embate acima caracterizado, sobre a am- educação. Não é diferente o caso das intelectuais, sujeitos objeto de trabalho, o conhecimento4. E,
anteriormente mencionado, embora am- socialização dos plitude da socialização dos benefícios recentes e atuais reformas educacionais. produtores e nessa apartação, estranhamento, mesmo,
bos tenham aparecimento simultâneo. benefícios trazidos do conhecimento, fica estabelecido um O que as classes sociais dominantes e socializadores de pensamos ser possível localizar o início
Na duração de vigência da dita História pelo conhecimento e outro, relativo à compreensão assumida hegemônicas desejam forjar por meio conhecimento, buscando de um itinerário na direção da alienação
Contemporânea, na qual ainda nos encon-
de seu controle.
a respeito da natureza da prática social dessas reformas, intensivamente e por caracterizá-los como do trabalho docente, intelectual. Se
tramos, a grande questão está situada no da educação. Para os que se acostam à uma imposição escamoteada, travestida gestores de situações verdadeiras as reflexões desenvolvidas, é
âmbito da amplitude da socialização dos benefícios visão do conhecimento como patrimônio da espécie, como consenso, é a adoção, como parte nas quais ocorre a preciso tomar consciência da gravidade
trazidos pelo conhecimento e de seu controle. De a educação é, sobretudo, direito universal dos inte- integrante do cimento da formação da situação com que nos deparamos5. Até
circulação da mercadoria
um lado, aqueles que propugnam uma socialização grantes do gênero humano, uma vez que é por seu social contemporânea (tomando-se esta então, a despeito dos esforços do capital,
conhecimento.
irrestrita do direito de acesso, na significação mais intermédio que se torna possível, para todos - ainda como o atual bloco histórico, de acordo por meio das ações de sua representação
abrangente possível, ao conhecimento, tomado como que essa virtualidade tenha sua concretização usual- com os enunciados de Gramsci (1984)), da percepção social, tínhamos o trabalho intelectual, se não no todo,
patrimônio da espécie. Do outro, aqueles que, em mente interditada por ação dos detentores do poder–, mercadológica do conhecimento e da educação. mas em grande parte, como um bastião de resistência
acordo com a racionalidade associada ao modo de pro- a apropriação do conhecimento já acumulado e o A maior parte das implicações daí advindas sobre frente à alienação. A análise acima indica que essa si-
dução capitalista, também por nós considerado co- exercício da condição de produtor do conhecimento. o trabalho docente – precarização, desqualificação, tuação pode ter se alterado. Indica, ainda, para aqueles
mo um dos marcos que estabelecem a modernidade, Para aqueles adeptos da lógica derivada da visão de sofrimento/adoecimento do trabalhador (síndrome partidários do conhecimento como patrimônio univer-
tentam enquadrar o conhecimento como uma mer- mundo capitalista, a educação é, antes de tudo, o ne- de burn-out) – tem sido objeto de diversos trabalhos sal da espécie e da educação como direito de todos, a
cadoria, mesmo que dotada de particularidades que a gócio que insere a mercadoria conhecimento na e reflexões. Gostaríamos, na sequência, de deter-nos, necessidade de refletir e atuar no sentido de reverter os
singularizam, com todos os desdobramentos que daí circulação capitalista. Não é difícil perceber que, embora sem a pretensão de um maior aprofundamento perversos efeitos aqui anunciados. Como?
possam decorrer. na dinâmica histórica realmente ocorrida, na qual se e apenas como reflexões deflagradoras de uma primeira
dá, em grandes linhas, mesmo que com intervalos de abordagem, sobre um aspecto nelas contido que nos Que fazer? Um início de conversa...
Escola, reformas educacionais e atenuação, o avanço do capitalismo, principalmente chama particularmente a atenção. O enfrentamento da situação identificada e carac-
contemporaneidade: nexos a explicitar aquele ocorrido a partir do início da globalização ora Associada às demais implicações, algumas delas terizada acima irá, sem dúvida, requerer um conjunto
O conjunto dos fatores arrolados acima permite a em curso, par e passo com o referido avanço, é esta- já mencionadas, ao nosso ver, é possível identificar de procedimentos que se desdobram em várias verten-

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

tes, mutuamente articuladas. Para nós, somente a atua- considerações sobre a vertente mais associada aos as- quela já implantada no trabalho manual, será, acima de docente, que ocorrem no âmbito da educação superior, visando a
uma homogeneização diluidora dos conteúdos, nos currículos dos
ção intensa em cada uma delas, tendo em mente, de pectos tático-estratégicos. Esses aspectos dizem res- qualquer dúvida, de longo prazo. Mesmo que ocorram
cursos de licenciatura e na formação continuada. Homogeneizadora,
forma permanente, o quanto as referidas articulações peito, principalmente, à necessidade, já mencionada, mudanças localizadas e parciais ao longo da trajetória a na perspectiva de buscar de todos uma mesma forma pasteurizada
recíprocas são indispensáveis, poderá ampliar as possi- de ampliar a divulgação do ideário proposto e, a partir ser percorrida – e elas devem ser buscadas-, o processo, de atuação, independente de seu ramo específico de conhecimento.
Diluidora de conteúdos, para induzir, ainda mais, a apartação entre
bilidades de êxito, no sentido da reversão do quadro daí, angariar adesões no espaço societário - integrais como um todo, deve ser dimensionado em sua extensa
o docente e o conhecimento. Veja-se, por exemplo, o reforço propos-
delineado. Sem a pretensão de esgotar a temática, gos- ou mesmo parciais, desde que não descaracterizem seu duração temporal. to à separação, concreta e de finalidades, entre os bacharelados e as
taríamos de apresentar um conjunto de reflexões, de ca- núcleo de consistência. Ou seja, em outras palavras, Assim, não nos é facultada a ingenuidade de acre- licenciaturas e a caracterização adotada por muitos dos cursos de li-
cenciatura, em suas estruturas curriculares, dos conceitos de contex-
ráter preliminar, relativas a algumas dessas vertentes. localizam-se no campo da dinâmica própria de um ditar nas soluções imediatistas, nem de curto ou ainda
tualização (um presentismo pragmático e temporalmente achatado) e
Num primeiro momento, gostaríamos de destacar, processo de construção de alianças, agenciamentos e médio prazo. Muito pelo contrário, nosso olhar para de interdisciplinaridade (com caráter muito mais de justaposição do
como vertente inicial a ser trabalhada, aquela que desig- apoios. É preciso reconhecer, nesse caso, o quanto é elas deverá, em princípio, ser portador da marca da des- que de articulação aprofundada), com base nos Parâmetros Curricu-
naremos como relacionada às questões de conteúdo. indispensável a avaliação precisa de cada situação, em confiança, mesmo. Sob pena de desvios de rumo, ainda lares Nacionais (PCN).
5. Consideramos merecedora de registro, aqui, a antecipação dessa
Nessa vertente, em nossa percepção, a grande questão presença, e dos sujeitos nela envolvidos, protagonistas que bem intencionados, certamente fragilizadores de
questão, ainda que numa perspectiva ligeiramente diferenciada, feita
a ser abordada, envolvendo simultaneamente produção e coadjuvantes. Sem essa precisão, por um lado, corre- nossa atuação no sentido visado. por Ricardo Antunes (2000), em sua contestação à visão de Habermas,
e divulgação – tão ampla quanto seja possível - de um se o risco de, ainda que portadores de princípios clara- Longe de se configurar como justificativa para que, ao propor a idéia de ciência como força produtiva, subdimensiona,
equivocadamente ao nosso ver, o papel desempenhado pelo processo
conjunto de argumentos substanciosos, é o combate a mente justos e defensáveis, sermos (inclusive, auto) uma paralisia frente ao desafio posto, o que estamos
de trabalho, intelectual e manual, na produção contemporânea.
uma visão naturalizadora, socialmente predominante, sitiados numa situação de extremo isolamento. Por afirmando é que a paciência histórica, sobretudo, é
6. É preciso que se perceba, entretanto, que esse embate de sentidos,
do status quo. De fato, aqui se trata de um embate pela outro, de nada adiantará a superação do isolamento se integrante sine qua non de nosso instrumental nesse aqui proposto, não tem nada de estruturalista, pós-estruturalista, nem
produção de sentidos para os elementos que caracte- ela se der às expensas da perda de princípios. No en- embate. Afinal, somos daqueles que, a partir das lições pós-moderno, uma vez que ele tem a experiência existencial dos inte-
grantes da espécie, em suas vivências nas respectivas classes sociais,
rizam o contexto contemporâneo mais geral, bem co- tanto, com todos esses cuidados, tendemos a ver co- trazidas pela experiência vivida pelo gênero humano
como ponto de partida e de chegada/ retorno (cf THOMPSON 1981,
mo aquele mais particular do(a)conhecimento/educa- mo imperiosa, no presente momento, a ocupação de sobre o planeta, temos uma outra certeza que se asso- 1987). Isto é, ele considera, como base das condições de produção
ção6. Cabe delimitar esse contexto como construção espaços na perspectiva da ampliação da penetração so- cia a essa trazida pelo(a)debate/ação propostos: a da dos discursos na sociedade, os distintos, ou mesmo antagônicos, des-
histórica consistente com o exercício da hegemonia cial dessas idéias. É claro que, nos espaços atualmente infinitude da história. dobramentos produzidos pela questão em foco sobre a atuação de ca-
da uma das classes fundamentais em presença.
em vigor e, como tal, passível de superação, por meio disponíveis, encontram-se sujeitos antagônicos a essas
7. Consideramos, aqui, como parte integrante da proposição feita, a
de uma transformação social radical. Como condição idéias, em situação de força, na maioria dos casos. Mas Notas defesa inarredável da prevalência de uma lógica própria nos processos
necessária, embora não suficiente, para a construção o desenvolvimento e a apresentação de uma argumen- 1. O vínculo assim estabelecido entre conhecimento e trabalho justifica e espaços de produção e socialização do conhecimento, ou seja, de
da superação mencionada, consideramos urgente e tação consistente por seus partidários – inclusive, num a menção anteriormente feita às intensivas repercussões- recíprocas- sua autonomia e das instituições onde elas, produção e socialização,
entre a esfera simbólica e a material (cf WEBER, 1996). se dão.
indispensável a atuação nos espaços de produção e so- exercício praxista do possível, por meio da formulação
2. Aí se encontra, ao nosso ver, o fundamento para dois fenômenos
cialização do conhecimento, visando, neles, à intensi- de propostas com poder, mesmo que limitado, de Referências
observáveis nas reformas/políticas recentes. Em primeiro lugar, o uso
ficação da presença daqueles que constituem as classes intervenção sobre a realidade – poderá ser fator de al- da designação tutor, e não mais professor, no ensino a distância. Além
ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho?. Campinas: Cortez-
subalternas da nossa sociedade, em sua complexidade teração, nos campos simbólico e material, da atuação disso, a troca de nome, adotada, por exemplo, em diversas instituições
Edunicamp, 2000.
da Rede Federal de Educação Profissional, de divisões organizativas
interna atual, na perspectiva de ampliar e aprofundar as de outros sujeitos em presença: aqueles que, ainda que GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura.
institucionais: várias delas, de coordenação, passaram a gerência.
contradições, ou seja, as configurações explicitadoras integrantes dos grupos sociais subordinados, não se Uma outra evidência da mercantilização do conhecimento têm sido
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.
de conflitos de que esses espaços são portadores7, posicionam ou não estabelecem vínculos dessa questão casos de plágios acadêmicos, que se relacionam ao encurtamento dos _________. Concepção dialética da história. Rio de Janeiro:
prazos para a realização de mestrados e doutorados e com a corrida Civilização Brasileira, 1984.
devidas à sua localização na arena social. Só assim, na com a sua condição de subalternidade, de modo claro,
competitiva, muitas vezes, destrutiva, para “adensar” os currículos NÁDER, Alexandre A. G. 2004. Tempo e conhecimento. Tese
nossa ótica, será possível resgatar a subjetividade dos sendo, assim, alvo de disputa pelos pólos antagônicos. e melhorar a produção dos cursos de pós-graduação. Pois essa mer- (Doutorado em História). Universidade Federal de Pernambuco.
subalternos frente ao conhecimento, num primeiro cantilização trata a elaboração de trabalhos científicos como se fosse Recife, digitalizada.
momento, potencialmente, e buscando, de modo Algumas considerações finais fabricação de salsicha.
PESSANHA, José Américo M. Santo Agostinho- vida e obra.
3. O foco aqui adotado permite visualizar o recurso ao ensino a In: Santo Agostinho. São Paulo: Nova Cultural, 1996, pp. 5-23.
constante, a produção solidária de mecanismos para As questões mencionadas no item imediatamente
distância, já mencionado na nota anterior, tão valorizado nas atuais (Coleção “Os Pensadores”)
a sua efetivação; para todos. Só assim, também, será anterior, vinculadas às dimensões de conteúdo e táti- reformas e políticas educacionais governamentais, a ponto de ser desig-
THOMPSON, Edward P. A miséria da teoria. Rio de Janeiro:
possível (re)colocar, no horizonte de expectativas da co-estratégicas, tendo em mente o tratamento a elas nado como educação a distância, também como uma manifestação
Zahar, 1981.
humanidade, a plenitude da condição de intelectuais, conferido, deixam, ao nosso ver, uma certeza, pelo dessa aproximação atualizada: se existe produção sem fábricas ou
com fábricas virtuais (veja-se, por exemplo, o caso da marca NIKE ____________________ A formação da classe operária inglesa.
que, na percepção do conhecimento como patrimônio menos. de produtos desportivos), por que não educação sem escolas ou com Petrópolis: Vozes, 1987. 3 v..
universal e instrumento humano para a produção de O processo de ampliar as possibilidades de- e alcan- escolas virtuais? WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São
Paulo: Pioneira, 1996.
novas realidades, se conforma como a mais radical das çar- transformações radicais que revertam a situação 4. Vale, aqui, ainda, lembrar como se articulam, para potencializar o
efeito mencionado, no caso da educação básica, as reformas educa-
negações da alienação. identificada de uma incursão capitalista implementado-
cionais propriamente ditas e as reformas nos processos de formação
Além disso, gostaríamos de tecer algumas breves ra da alienação do trabalho intelectual, nos moldes da-

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

Estratégias da formação humana para o consenso


Cezar Luiz de Mari
Professor da UFVJM/MG
E-mail: [email protected]

Marlene Grade
Professora da UFOP/MG
E-mail: [email protected]

Resumo: Este artigo trata de algumas indicações do Banco Mundial sobre a formação humana, pinçadas de docu-
mentos oficiais e discursos do presidente da Agência, James Wolfensohn, entre os anos 1995 e 2005. À educação
está reservado um papel especial de produção de consenso social, diante dos riscos postos pelo aumento da
pobreza global. Compreende-se, aqui, a formação no seu amplo aspecto, vertido pelos discursos oficiais como
formação para a cidadania, para o aprender a aprender e para a adaptabilidade. Concluímos que a produção do
consenso compõe a estratégia internacional para a manutenção da assimetria entre os países centrais e periféricos
e, em última análise, para o equilíbrio necessário à governança global, diante das contradições sociais. Para tanto,
se faz necessário uma reforma no “pensamento prevalente”, isto proposto entre outras alternativas, via reformas
educacionais.

Palavras-chave: Formação Humana; Consenso; Pobreza; Reforma Educacional; Banco Mundial.

Introdução superior: lecciones derivadas de la experiencia (1995),

E
ste estudo procura abordar os discursos sobre a po- Educación superior en los países en desarrollo: peligro
breza produzidos durante o período (1995-2005) - y promesas (2000a) e Construir sociedades del conoci-
em que James Wolfensohn esteve à frente do Ban-co miento: nuevos retos para la educación terciária
Mundial (BM) -, articulados com as orientações para a (2003a). Partimos dessa base empírica para demonstrar
formação humana vindas deste mesmo Banco. Foi um que as formulações sobre a pobreza se estruturam ar-
dos mais ativos presidentes desta Agência, nas últimas ticuladas com os processos de implementação de po-
décadas, e com sua liderança inseriu na agenda do líticas neoliberais nos países periféricos, objetivando
Banco Mundial o debate sobre a pobreza. A pesquisa reformas no Estado, tornando-o mais flexível à entrada
está baseada nos discursos anuais do presidente e de capital internacional. Neste artigo enfocamos mais
também em documentos oficiais produzidos pela detidamente a reforma na educação superior e seu lugar
Agência, especialmente os documentos: La enseñanza estratégico na formação humana para o consenso.

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Concluímos que esses discursos acompanham deci- por sua vez, dependeria do conjunto de parcerias que - UNICEF, que, ao exigirem uma face ca do BM que conjuga crescimento eco-
sões políticas nos países perífericos e produzem efeitos viriam a se somar aos processos de aproximação en- mais humana da Agência, contribuem
A contradição entre nômico com políticas exógenas para
reformistas, com impactos sobre os direitos sociais. tre democracia, ciência, tecnologia e conhecimentos. para a incorporação do discurso so- o discurso de alívio à alívio à pobreza. Stiglitz procurou inau-
Compreendemos que o problema da pobreza, em razão Vemos, nos mecanismos de reformas, a estratégia de bre a pobreza. Soma-se a esse fato a pobreza e o investimento gurar um “novo consenso” ou “Pós-
dos processos tendenciais de exclusão característicos formação humana para o consenso, cujo fim é a per- elaboração de relatório interno pelo em países ricos ficava consenso de Washington”, baseado nos
do capitalismo, emerge nas formas discursivas como petuação do sistema liberal. economista do Banco, Willi Wapenhams, mais uma vez explícita. princípios da economia sustentável. De
sendo fruto de responsabilidades individuais, adminis- conhecido como Informe Wapenhams O estopim que ocasionou acordo com Fiori (2001, p. 89):
trações incapazes, subdesenvolvimento e outros. Essa A administração de James Wolfensohn: (1992), que aponta a cifra de 37% de a renúncia de Joseph a palavra chave do “novo consenso” deveria ser,
é a inversão apresentada nas formulações do Banco mudar para manter fracassos nos projetos orientados pelo Stiglitz foi esse. A segundo Stiglitz: sustentabilidade, democracia
Mundial e de seu presidente, ao referir o problema dos A escolha do presidente Wolfensohn, em junho Banco. Também o Relatório de Allan e equidade. E a nova estratégia deveria come-
renúncia de Kanbur
desequilíbrios sociais à pobreza. de 1995, para a direção do Banco Mundial teve forte Meltzer (2000b) revela que 70% dos in- çar por uma redefinição completa do papel do
ocorreu pelos mesmos
É importante observar que o discurso da Agência influência nas mudanças dos discursos da Agência, vestimentos do Banco vão para países Estado e dos governos como agentes regulado-
fortalece o caráter ideológico da pobreza como algo quando comparados com a atuação histórica da insti- não pobres.
motivos; questionou a res e co-responsáveis pelo provimento de infra-
estranho às relações históricas entre países centrais e tuição. Os novos discursos não implicaram mudanças Outras críticas internas e dissidên- ortodoxia econômica, estrutura e pela implementação de políticas
periféricos. Com esses argumentos justifica o processo decisivas na estrutura global de desenvolvimento, mas cias, como a do economista-chefe Jo- orientadora das políticas ativas de desenvolvimento tecnológico e in-
de abertura de mercado e a suposta contribuição dos ao que tudo indica, a reorientação estratégica fora seph Stiglitz, em novembro de 1999, de ajustes estruturais dustrial.
países clientes para a democracia. A estratégia ideoló- empreendida em função das críticas, que partiram da e do vice-presidente Ravi Kanbur, para países periféricos. Esse “novo consenso”, conforme
gica é elaborada à medida que o Banco entra em cena sociedade civil, sobre a atuação do Banco nas décadas Chefe de Redação de Informes sobre Fiori (2001) e Campodónico (2004), não
como “protetor dos pobres”, porém, tendo como ra- precedentes. o Desenvolvimento Mundial, em junho de 2000, supera as premissas econômicas do “velho consenso”,
zão final a barganha nas negociações de reformas e O que ocasionou a mudança de discurso?2 Na evidenciaram as contradições das políticas do BM e isto é, ele constitui o reconhecimento de que a “mão
controle da segurança geopolítica. perspectiva de Wolfensohn (2001), o Banco precisava motivaram mudanças na imagem do mesmo. Podemos invisível do mercado” não é suficiente para estancar o
A pauta dos valores da democracia liberal no aproximar-se dos clientes, porém só o faria reorga- conferir em Fiori (2001) e Campodónico (2004) crescimento da pobreza. A opção de Wolfensohn foi de
Banco Mundial (2000a) surge coroando uma série nizando sua estrutura de atuação. A ação correspon- que a saída de ambos do Banco deveu-se a posições um caminho menos ortodoxo para implementação da
de manifestações de James Wolfensohn sobre o risco dente para solucionar essa problemática foi a criação da econômicas divergentes, resultantes das pressões do política de investimento em capital humano (educação
de instabilidade política, decorrente do aumento estrutura de informação, via WEB3, que disponibilizou FMI. A crise da economia asiática, em 1997, ameaçava e saúde), revestido de uma feição mais humanizada,
da pobreza no planeta, pressionado que foi pelas dados e documentos sobre a atuação do Banco, em o sistema financeiro internacional e deflagrou um sem romper com os princípios, mas apenas com
reações da sociedade civil contra a globalização e o todo o mundo, para qualquer usuário que desejasse processo de intervenção do FMI, dos governos dos a ortodoxia da operação. Para tanto, Wolfensohn
capitalismo, manifestadas em intensos conhecê-los. Juntamente com o projeto Estados Unidos e da União Européia, investindo mais (1998, p.3) decreta o início de “novo consenso” em
questionamentos aos projetos do gru- A pauta dos valores da da WEB, Wolfensohn (2001) apresentou de 117 milhões de dólares nessa economia, apenas na- seu discurso anual: “em Santiago, depois de um dia e
po dos oito países mais ricos, o G8 . 1
democracia liberal surge a proposição de reforma da estrutura quele ano. A contradição entre o discurso de alívio meio de conversações, se estabeleceu claramente que
Essa construção conceitual subsidia a coroando uma série de gerencial dos programas da Agência, à pobreza e o investimento em países ricos ficava o Consenso de Washington já havia acabado e que se
argumentação sobre a necessidade das manifestações de James espalhados por todos os continentes. En- mais uma vez explícita. O estopim que ocasionou necessitava de um consenso de Santiago”5. Decretar a
reformas na educação superior, cum- Wolfensohn sobre o risco tre as modificações propostas encontra- a renúncia de Joseph Stiglitz foi esse. A renúncia de superação do “velho consenso” não foi suficiente para
prindo, segundo o discurso, um papel se a descentralização operacional, que Kanbur ocorreu pelos mesmos motivos. Ao redigir o neutralizar a hegemonia das políticas neoliberais.
de instabilidade política,
fundamental no tocante à produção de permitiu aos funcionários atuarem Informe del Desarrollo Mundial (2000c) questionou A análise feita por Stiglitz sobre os efeitos perversos
decorrente do aumento
uma cultura democrática, de cidadania, dentro dos países clientes por meio de a ortodoxia econômica, orientadora das políticas de dos receituários econômicos, sociais e políticos reco-
de respeito aos valores culturais, reli-
da pobreza no planeta, agências ali instaladas. ajustes estruturais para países periféricos, e propôs mendadas pelo Consenso de Washington estava cor-
giosos, de raça e de cor, fortalecendo a pressionado que foi pelas Segundo o Grupo del Banco Mun- maior aproximação entre crescimento e eqüidade de reta, porém, segundo Fiori (2001, p. 90), “[Stiglitz]
sociedade civil e a meritocracia. A uni- reações da sociedade civil dial (2001)4, com a presidência de oportunidades para as políticas de desenvolvimento. negligencia o papel da distribuição desigual do poder e
versidade constituir-se-ia como espaço contra a globalização Wolfensohn, a mudança de discurso Ambos os economistas citados se confrontavam da concentração internacional do capital no bloqueio
privilegiado da liberdade, podendo e o capitalismo, tem como temática central a redução com a corrente econômica hegemônica dentro da do crescimento e na fragilização das democracias dos
contribuir eficazmente com a tarefa da manifestadas em intensos da pobreza. As críticas, segundo o Agência, elaborada no Consenso de Washington, que se países mais atrasados”. Essa dualidade entre diagnóstico
investigação e interpretação das questões questionamentos aos texto, procedem de organismos in- orienta pelos princípios do livre mercado e por ajustes e operacionalização será a tônica da gestão do presidente
éticas, morais, políticas, e com a cidadania projetos do grupo dos ternacionais como a Organização In- neoliberais como caminho de crescimento econômico, James Wolfensohn. Apesar das insatisfações com o
ilustrada, traços determinantes de qual- ternacional do Trabalho - OIT e o Fun- desenvolvimento e bem estar social. Wolfensohn, ao pensamento hegemônico das políticas coordenadas
oito países mais ricos.
quer democracia liberal. A reforma, do das Nações Unidas para a Infância escolher Stiglitz, aproximava-se da corrente econômi- pelo BM, ele continua dominando o cenário das polí-

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ticas econômicas internacionais. Os discursos de Pobreza e instabilidade: a formação do consenso O discurso sobre a democracia é um importante Em 2003, na Conferência Internacional sobre Estra-
Wolfensohn, em defesa das políticas da “economia via pacotes sociais componente da coesão social, sobretudo quando aliado tégias para a Redução da Pobreza, Wolfensohn (2003)
sustentável”, soam dúbios quando, na prática, a O Banco Mundial fortalece a produção ideológica à idéia de aquisição do conhecimento. Democracia explicita o medo das classes dominantes em reconhe-
política do Tesouro dos Estados Unidos mantém as na medida em que reforça o caráter da pobreza como e conhecimento passam, então, à posição central cer que a paz mundial está em risco. Caracteriza essa
determinações das políticas econômicas ortodoxas. algo estranho às relações históricas de domínio entre da formação para o consenso, diante do risco de frente como uma força estratégica fundamental para os
Também falseiam as relações entre o BM e os países países centrais e periféricos. destabilização e convulsões resultante da pobreza. países desenvolvidos. Reduzir a pobreza não é só um
periféricos, apresentando-o com uma aparente face Em 1999, o presidente Wolfensohn apresentou, aos A pobreza, configurada como um quadro trágico, imperativo moral, mas também econômico e social. O
humana, sob a qual escondem a impossibilidade de gerentes e funcionários da instituição, a nova estrutura é destacada por James Wolfensohn (1997, p. 5), aumento do número de pobres é sempre citado como
resolver os problemas por ele anunciados. Entre as organizacional do Banco Mundial, em Washington, quando diz: “devemos reconhecer que vivemos com um dos quadros de desequilíbrio global, no sentido de
propostas de mudanças de Wolfensohn encontram- pelo Plano Estrutural de Desenvolvimento Global, uma bomba-relógio e que, se não adotarmos medidas ameaça aos países ricos, pois, segundo o autor, “nos
se a pretensão de transformar o Banco em Banco do conhecido como Quadro Geral para o Desenvol- agora, poderá explodir nas mãos de nossos filhos”. próximos 25 anos, 50 milhões serão acrescentados à
Conhecimento, apresentando projetos para alívio à vimento. Não é possível, segundo ele, operar o de- Seu discurso quer mostrar aos países centrais que população dos países ricos. Cerca de um e meio bilhão
pobreza, reforma da educação, combate senvolvimento somente nas dimensões desconsiderar esse problema significa comprometer o serão acrescentados aos países de baixa renda [...] Um
à corrupção e a luta contra a AIDS. A atuação do Banco macroeconômicas, sem considerar as futuro das próximas gerações. Isso porque a população número crescente deixará seu país natal em busca de
Segundo Kruppa (2000, p. 227), o está fundamentada na dimensões sociais e humanas: “os go- mundial aumenta a cada ano e os riscos de desagregação trabalho. A migração se tornará uma questão crítica”
BM, ao reestruturar-se, “tem como capacidade de organizar vernos são responsáveis pela prepara- social são iminentes. (WOLFENSOHN, 2003, p. 3).
estratégia formar com os dirigentes a formação para o ção geral de uma revisão abrangente de Wolfensohn (1997) entende o combate à pobreza Porém, a tensão expressa nos discursos do pre-
dos países pobres um determinado consenso, como agência todos os elementos necessários para o como uma questão de combinação sidente encontraria sua solução no âm-
A pobreza, configurada
pensamento”. Desta forma, a Agência do “convencimento”, sem crescimento e para o alívio à pobreza” entre o mercado e o social, faces de uma bito dos acordos estabelecidos entre os
monta uma nova arquitetura de atua- (WOLFENSOHN, 1999, p.1). Espe- mesma moeda, e que o crescimento é como um quadro trágico, países ricos para o protagonismo do
por isso suprimir o valor é destacada por James
ção, baseada em três elementos meto- cialmente nos países periféricos, em importante para a redução da pobreza, alívio à pobreza mundial. Conforme
prático do condiciona- Wolfensohn quando diz:
dológicos: 1. a passagem do investi- que os riscos dos investimentos po- mas não é suficiente. Emerge, então, o autor (2003, p. 4), “há três anos, os
mento em estruturas físicas para o in-
mento dos empréstimos. a agenda fragmentária do Banco no “devemos reconhecer líderes mundiais reuniram-se na cúpula
dem causar desordens irreversíveis, é
vestimento em estruturas internas aos Wolfensohn é, sem fundamental o tratamento articulado do campo social, no qual o conhecimento que vivemos com uma do milênio para avaliar o futuro. Com-
processos de desenvolvimento, como dúvida, o personagem desenvolvimento econômico com o alí- seria a infra-estrutura para o combate bomba-relógio e que, se prometeram-se em reduzir a pobreza
políticas e programas, via “Empréstimos articulador dessa nova vio à pobreza. às desigualdades, estas produzidas pelas não adotarmos medidas até 2015”. Os compromissos, do lado
Programados e Adaptáveis”- APL e estratégia que une Parte da estratégia humana e social diferenças nos campos étnico, racial,
agora, poderá explodir dos países ricos, articularam-se em um
de “Empréstimos de Aprendizagem e ações programáticas deve ser realizada pela educação, à qual social e de gênero:
nas mãos de nossos
pacote com indicações de ajuda para
Inovação”- LIL; 2. a atuação de forma com a disseminação de são atribuídas as funções de desenvolver [...] se quisermos combater a desigual- saúde, educação, meio ambiente. Do la-
filhos”.
regional/local e mundial, articulada em ideologia pelo Banco e difundir o consenso. No conceito dade, devemos ajudar os pobres a do dos países periféricos, traduziram-se
rede; 3. a visão holística, que articula em de democracia do Banco Mundial ob- acumular ativos, inclusive educação, saúde e terras. em compromissos políticos, que originaram a agenda
Mundial.
rede os órgãos de formulação de políticas servamos tais atribuições, na medida Devemos levar infra-estrutura e conhecimento às neoliberal da década de 1990. De acordo com as pa-
e de avaliação. O estudo de Kruppa (2000), mesmo em que a educação superior é vinculada à propagação áreas pobres, rurais e urbanas. Devemos combater as lavras do mesmo:
que assinale a atuação holística da Agência, procede de valores democráticos, supostamente embasados na desigualdades arraigadas, superando divisões baseadas os países em desenvolvimento se comprome-
com mais eficácia na análise do item correspondente revolução do conhecimento: em gênero, etnia, raça ou condição social. Devemos teram em fortalecer a governança; criar um
aos empréstimos, pelos quais reconhece as estruturas A democracia, por exemplo, se tem difundido pelo proteger os pobres contra perdas de colheitas e desastres clima positivo de investimento; construir siste-
de produção de consenso. mundo ao mesmo tempo em que a revolução do naturais, crime e conflito, doença e desemprego (WOL- mas jurídicos e financeiros transparentes; e
Do nosso ponto de vista, a atuação do Banco está conhecimento cobra maior velocidade. A democracia FENSOHN , 1997, p. 5). combater a corrupção. Os países desenvolvidos
fundamentada na capacidade de organizar a formação está baseada em preceitos claramente estabelecidos Wolfensohn (2000, p. 1), no discurso Construindo concordaram em esforços, aumentando o re-
para o consenso, como agência do “convencimento”, e amplamente praticados de virtude cívica, como um mundo eqüitativo, faz uma chamada decisiva forço institucional, prestando mais assistência
sem por isso suprimir o valor prático do condiciona- também no conhecimento, que permite a participação sobre a segurança e a pobreza: “a luta contra a pobreza e abrindo seus mercados ao comércio (WOL-
mento dos empréstimos. Wolfensohn é, sem dúvida, o do conjunto da comunidade na condução da sociedade. é a luta pela paz e a segurança mundial”. Em discurso FENSOHN, 2003, p. 4).
personagem articulador dessa nova estratégia que une Valores que podem ser analisados e propagados nas na cidade de Washington, em 2002, enfatiza também Portanto, a questão da democracia é abordada
ações programáticas com a disseminação de ideologia instituições de educação superior mais eficazmente do a necessidade de diminuir a pobreza como condição via estratégia de flexibilização comercial e do alívio à
pelo Banco Mundial. que tem sido até agora, na sociedade em geral (2000a, para melhorar a segurança mundial. A violência é ata- pobreza, via pacotes nos campos da sáude, educação.
p. 23). cada como resultante da pobreza. Wolfensohn (2003) usa, também, a expressão “coope-

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

ração”, cujo peso simbólico remete às go da década de 1990 aos dias atuais, devendo contar com a participação ativa dos alunos, se aos processos de aprendizagem, os quais devem
A argumentação
relações democráticas. Na verdade, tem compõem também a macro-estratégia de para que estes possam ser promovidos pela educação ao voltar-se para elementos do cotidiano e para a resolução
o sentido de um duplo condicionamento: direciona-se no sentido segurança dos países centrais. Incluem- longo da vida. Para o Banco Mundial (2003a, p. 34-35), de problemas concretos, por meio das metodologias
o primeiro, de fazer os países periféricos de mostrar como se nesses projetos a educação como a educação ao longo da vida deve ser compreendida na do aprender a aprender e do enfoque na aprendizagem
e semiperiféricos buscarem mais finan- a educação e o componente central de operação, nas perspectiva dessas novas exigências de aprendizagem. continuada, ao longo da vida, o que nos remete às
ciamentos, como alternativa orçamen- conhecimento são contradições da exclusão. Ao contribuir Hoje o processo de aprendizagem tem que se funda- reflexões de Duarte (2001). O método do aprender
tária, o que implica em vínculo político elementos essenciais com a coesão social, respeito às dife- mentar cada vez mais na capacidade de busca e acesso ao a aprender, como característica das pedagogias da
e econômico, não em condições de para o capital humano, renças étnicas, de religião e de classe, a conhecimento e em sua aplicação e solução de proble- competência, aproxima-se das ilusões produzidas
igualdade, mas numa condição de subal- tendo na transferência de educação estaria construindo uma na- mas. Aprender a aprender, aprender a transformar a in- pela “sociedade do conhecimento” e da defesa de
ternidade; e, o segundo, refere-se às ção melhor e mais equitativa. Trata-se formação em novo conhecimento e aprender a tradu-zir seus pontos de vista. Nesta dimensão, encontra-se a
conhecimento
reformas sugeridas nos acordos, agiliza- da receita sustentável de Wolfensohn, o novo conhecimento em aplicações, são habilidades superioridade daquilo que o indivíduo aprende por
um alto negócio para
das na medida em que se efetivam as propondo a união de políticas sociais e mais importantes que a memorização. si, sendo o método de construção de conhecimento
promessas de empréstimos.
os países clientes. de mercado. As tecnologias da informação são um grande auxílio considerado mais importante do que o conhecimento
Concluindo, compreendemos que No desenrolar do discurso sobre o para fortalecer este método. Os investimentos também socialmente produzido.
a questão da pobreza está inserida em um campo Quadro Geral (WOLFENSOHN, 1999), constatamos são mais baixos e o custo por aluno é reduzido em até Como segunda observação: a atividade do aluno
discursivo de produção de consenso, uma vez que a articulação da tese do conhecimento com a dimensão um terço (1/3), como é o caso do custo dos alunos é educativa quando se pauta em suas necessidades e
as demandas econômicas dos países centrais pode- da educação, no requisito formação humana. A argu- egressos da Universidade Aberta da Inglaterra8. interesses, passando a ser delegada ao campo educa-
riam ser mediadas por projetos direcionados a essa mentação direciona-se no sentido de mostrar como a Outro impacto incide sobre a figura do professor, cional a função de prepará-lo para um mundo em
problemática. Da mesma forma, a educação é orientada educação e o conhecimento são elementos essenciais visto como pertencendo a uma profissão em mudança. constante mudança. Tal pedagogia está voltada à
nessa perspectiva, como veremos a seguir. para o capital humano, tendo na transferência de co- Segundo o Banco Mundial (2003a), à medida que o preparação dos indivíduos para a sociedade na qual
nhecimento um alto negócio para os países clientes. modo on-line é mais flexível, é possível que a profissão se aprende por conta própria, para a convivência pa-
Reformas na educação para a cultura liberal Com isso a escola primária precisa ser universalizada, o não precise existir nos moldes estabelecidos até então cífica com as condições vigentes, por meio do de-
Como parte da estratégia de consenso, insere-se a ensino secundário e superior organizados na forma de e, talvez de uma forma mais radical as instituições senvolvimento de suas capacidades adaptativas.
educação superior, cumprindo um papel fundamental sistemas abertos e competitivos. Há a apresentação de possam contratar professores, independentes de qual- A nova estrutura institucional pensada pelo BM
no tocante à produção de uma cultura democrática, de um programa de como deve ser orientada a educação, e quer universidade, para implementar cursos de acordo para o ensino superior detém-se na perspectiva do
cidadania, de respeito aos valores culturais, religiosos, as novas tecnologias, no mercado. A receita é proposta com as necessidades. mercado. Disso resulta a necessidade da flexibilização
de raça e de cor, fortalecendo a sociedade civil e a me- aos países periféricos, para que se tornem países in- “Isto significa que estamos no fim das universidade e da diversificação institucional, de parcerias e
ritocracia. É definida como espaço privilegiado da dustrializados. Eis a receita: tradicionais?” A compreensão do Banco é que a trans- vínculos estreitos com os negócios. A sobrevivência
liberdade, podendo contribuir eficazmente com a ta- construir escolas, elaborar currículos modernos, orien- formação radical do tempo e do espaço colocaram da educação, conforme assinalado no documento,
refa da investigação e interpretação das questões éti- tados para a nova era tecnológica e para as necessidades em xeque a hegemonia da universidade vigente. As atrela o conhecimento ao movimento de adaptação aos
cas, morais, políticas, e com a cidadania, aos moldes da reais do mercado local emergente, proporcionar efetiva universidades tradicionais não perdem o seu valor, negócios, uma vez que este é uma commodity.
democracia liberal . 6
formação e supervisão de professores. Tudo isso con- porque a pesquisa e a investigação continuam sendo A universidade é considerada tradicional quando
A tese do BM é a de que o desenvolvimento dos tribui para o êxito dos programas educacionais. A edu- seu centro, no entanto, elas sofrem cada trabalha com teorias tomadas como
Os processos de
valores democráticos está vinculado às necessárias cação de adultos, a alfabetização e o aprendizado ao vez mais as pressões das tecnologias de desnecessárias para o mundo dos
aprendizagem devem
reformas na educação superior. A reforma, por sua longo da vida deve combinar-se com o reconhecimento informação e das demandas pragmáticas. negócios e que, por isso, devem ser
vez, dependeria do conjunto de parcerias que viriam
voltar-se para elementos
fundamental de que educar mulheres e meninas tem po- A diferenciação institucional forja um abandonadas. O ilustrado, como diz
a se somar aos processos de aproximação entre sição central no processo de desenvolvimento ( WOL- novo modelo de universidade, “in- do cotidiano e para a o BM, só é importante na medida em
democracia, ciência, tecnologia e conhecimentos. Se- FENSOHN, 1999, p. 5). cluindo o surgimento de uma grande resolução de problemas que soma na compreensão da cultura
gundo o próprio Banco Mundial (2003b, p. 113) : Quanto aos métodos pedagógicos e processos quantidade de alianças, nexos e asso- concretos, por meio local, ou seja, enquanto contribui com o
por meio de alianças eficazes com outras instituições de aprendizagem em uso, o BM (2003a) assume as ciações, não somente no sentido de das metodologias do processo de coesão social, pela via cul-
multilateriais, governos nacionais, ONG’s e o setor críticas dos documentos anteriores (2000 e 1995), instituições terciárias, mas entre uma e aprender a aprender tural10.
privado, o Banco Mundial aspira aplicar seus financia- considerando-os tradicionais, porque estão centrados outra instituição e incluindo mais além e do enfoque na A discussão sobre a formação hu-
mentos e ampliação da base de conhecimento, em um na memorização. Propõe a superação destes por mé- do setor da educação terciária” (BAN- manística retorna no documento do
aprendizagem
empenho cada vez maior, nos setores da educação ter- todos que dêem ênfase aos processos de construção CO MUNDIAL, 2003a, p. 48) . 9
Banco Mundial (2000a), em virtude
continuada, ao
ciária7. do conhecimento, ou seja, que estejam voltados para a A indicação do documento suscita das críticas ao documento de 1995, que
longo da vida
Os projetos de alívio à pobreza, aplicados ao lon- aplicação do conhecimento a problemas do cotidiano, algumas questões. A primeira direciona- simplesmente negligenciava tal dimen-

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

são formativa. O capítulo VI inicia com a frase de retorno rápido e prático, com prejuízos às questões de contribuição de Wolfensohn incidiu sobre a estrutura Neste momento, arriscando uma síntese, podemos
Alvin Tofler falando que os iletrados do futuro não base, aliado à suposição metodológica de que pesquisa de comunicação e a descentralização da Agência, concluir que: a educação e a universidade, em termos
serão os que não sabem escrever ou ler, mas os que se faz fazendo. Estas são algumas questões presentes renovação das tecnologias organizacionais, mostrando de estratégia global, são planejadas aos moldes liberais,
não aprenderam a aprender, desaprender e reaprender. na formação universitária atual. A formação técnica a capacidade de adaptação desta em lidar com novos abertas às pedagogias aplicadas em função de práticas
Este capítulo versa sobre a necessidade da educação e profissionalizante, enfatizada nas orientações do campos de produção de consentimentos. Teve grande de mercado e de perspectivas pragmáticas e utilitárias.
humanística, enfocando a preparação do indivíduo BM, expressa forte tendência de penalização das áreas eficácia no tocante a penetração nos países periféricos, Sendo assim, podemos caracterizar o Banco Mundial
para tempos flexíveis, no qual a área das humanidades humanas na formação superior. É confirmada, também, pela descentralização das operações de projeto e pela como Agência de formação humana para o consenso,
tem seu papel a cumprir, qual seja, a educação geral pela ampliação dos índices de formação em campos natureza dos projetos, agora com perfil humanístico. lançando mão de projetos sociais articulados em redes
constituiria um excelente meio de preparação para técnicos, via Master of Business Administration - Embora a parceria, do ponto de vista financeiro, seja entre países centrais e periféricos. A formação proposta
carreiras flexíveis, baseadas nos conhecimentos que MBA. Portanto, no campo propriamente pedagógico, limitada, a operacionalização permite à Agência cons- é para a adaptação, controle e consenso social, aspectos-
dominam cada vez mais os extratos superiores da força o discurso do BM pressupõe o método do aprender a truir uma imagem democrática e tolerante de si 11. chave para a sobrevivência da democracia liberal.
de trabalho moderna. aprender, como referência para a pesquisa do cotidiano, Sobre a atuação do BM, em relação à pobreza,
Para o BM (2003a), a educação humana e social não é a formação humanística e profissional para fortalecer Leher (1998) explicita a idéia de como a Agência Notas
um privilégio dos países centrais, ela poderá contribuir a coesão social. fez a passagem da ideologia do desenvolvimento 1. O G8 foi criado em meados da década de 1970 com seis países:
na formação da demanda feminina, Em seu aspecto estratégico, a educação para a da globalização. O autor não concorda com a França, EUA, Grã-Bretanha, Alemanha, Japão e Itália. Em 1976 se

prejudicada com o enfoque maciço na A universidade é compreendida como campo de alívio à idéia de que o BM estabeleça dominação apenas por junta o Canadá, em 1994 a Rússia se aproxima do grupo e é assumida
como membro em 1998. O objetivo é fazer política diplomática para
formação masculina, fortalecendo a entra em crise, pobreza: “a contribuição da educação intermédio dos empréstimos econômicos, tese com a garantir os interesses monetários, políticos (segurança e terrorismo).
compreensão dos valores éticos e sociais, desenvolve, superior para os recursos humanos é qual estamos de acordo. Desenvolve, em suas análises, Esse grupo, que se caracteriza como uma espécie “clube de amigos”
tem sido objeto de críticas de parte da sociedade civil pelo elitismo
como a tolerância. O documento não tendencialmente, a muito ampla. As universidades, nes- a perspectiva política, centrada nos EUA, de que são
diplomático de cúpula sem dar respostas às questões sociais emergentes
usa meias palavras, indicando a educação formação de te subsetor, podem influir de maneira produzidas condicionalidades, via BM e agências co- no mundo. Os Fóruns de Porto Alegre (1999-2004) e as manifestações
humanística para poucos, ou seja, para pesquisadores que importante no crescimento econômi- irmãs, com base em processos de coerção, mediante antiglobalização, a criação do “G6B” (Grupo dos seis bilhões
guerras e intervenções políticas. O alívio à pobreza representando os habitantes do planeta, criado em 2002 em Calgary
os mais inteligentes e especialmente dissociam os campos do co de um país” (BM, 1995, p. 17). À
no Canadá) são alguns dos movimentos mundiais que procuram fazer
preparados para o processo da direção. universidade é reservado o papel for- e a globalização são reconhecidos pelo autor como
ensino e da pesquisa, resistência e pensar saídas diante do quadro global.
Apesar de o mercado não ter interesse mador do respeito às pluralidades, con- ideologias produzidas pelo Departamento de Estado
a fragmentação da 2. Entre os vários autores da literatura brasileira que analisam essa
nela, é fundamental que seja mantida, tribuir na formação do consenso sobre os norte-americano para resolver as crises do capitalismo, mudança encontram-se: Kruppa (2000), Leher (1998), Siqueira (2001a,
em razão de sua colaboração para a pesquisa, o investimento novos interesses econômicos, adaptar-se no pós-II Guerra Mundial, embora, já na primeira 2001b, 2003, 2004), Silva Jr. e Sguissardi (2001), Sguissardi (2002, 2004a,
igualdade de acesso e pelos resultados em campos de retorno às novas exigências tecnológicas e pro- guerra, houvesse a idéia da incorporação dos pobres, 2004b).

na formação humana, importantes à rápido e prático, mover a produção e divulgação dos co- mas pelo desenvolvimento. Essa ideologia tem o seu 3. Com a criação de um portal do BM na WEB, em 1996, abriu-se
um dos maiores centros de dados sobre a atuação da instituição e de
formação de uma elite que mantenha com prejuízos às nhecimentos. esgotamento na década de 1980, sendo substituída pela
instituições co-irmãs. O site do BM pode ser acessado em várias línguas
domínio sobre as questões culturais e de questões de base. A tarefa da universidade é a formação ideologia do alívio à pobreza. Ou seja, na década de e contém todas as informações sobre os projetos já realizados e sobre
valores. dos novos profissionais a serem lança- 1990, quando os países industrializados perceberam aqueles em processo. Em português, pode ser encontrado na página
<www.obancomundial.org/banco/> em inglês <www.worldbank.org/
Tal discussão remete ao debate empreendido por dos no mercado: engenheiros, gerentes científicos a incapacidade de absorver os excluídos no sistema,
bank> Apresenta divisões por setores, por áreas de atendimento, por
Chauí (2001), quanto à relação entre a formação e técnicos e, sobretudo, na formação humana para a criam uma nova estratégia de segurança inserida nos países e por continentes.
humanística e as mudanças metodológicas e pedagó- adaptabilidade. projetos pontuais para os países periféricos. Esta 4. Apesar da semelhança do nome, não se trata do próprio BM, mas
gicas, no texto O mal-estar na universidade: o caso das questão é recorrente nos documentos do BM e nos de um grupo que veicula artigos que analisam as políticas do BM.
humanidades. A autora afirma que há uma mudança no Item conclusivo discursos de James Wolfensohn e, também, confirma Disponível no site: <www.observatoriodadeuda.org>.

papel da universidade, em particular das ciências sociais Como dizíamos no início deste artigo, a mudança de a nossa tese de que os mecanismos de produção de 5. O Encontro de Santiago em março de 1997, no Chile, conhecido
consenso da Agência não se aplicam apenas por meio como “Consenso de Santiago” se propunha a fazer o contraponto
e humanas, diante do impacto dos câmbios tecnológicos discurso do Banco Mundial, quando James Wolfensohn
ao “Consenso de Washington” na elaboração de propostas menos
no modo de produção capitalista contemporâneo. A assumiu a presidência, reforçou a continuidade das das condicionalidades, como também afirma Leher, ortodoxas para a ordem mundial. Contou com a participação de 39
universidade entra em crise no campo da investigação, condições e posicionamentos dos países centrais de pois remeteriam somente à idéia de coerção, mas por países. A declaração deste encontro firma o acordo de redobrar esforços
frente às mudanças metodológicas e técnicas, da in- acordo com sua importância econômica, política meio da elaboração de estratégias de “convencimento”, de uma pauta em torno de temas como AIDS, direitos sexuais e equidade
de gênero. Wolfensohn vê aí aliados em favor de uma política econômica
terdisciplinaridade, do desaparecimento de campos e militar, em âmbito mundial. A metamorfose da que produzem o consenso. menos ortodoxa. Porém, as condições reais da política externa do FMI
de pesquisa e do surgimento de novos. Desenvolve, Agência cumpre exatamente o papel da construção de O objetivo deste artigo foi introduzir a discussão não coadunavam com esta proposta. Os efeitos do encontro foram
tendencialmente, a formação de pesquisadores que consensos. O fato de pronunciar discursos e apresentar sobre a formação humana presente nos discursos e frustrados, pois a direção econômica internacional continuou sendo
operada por economistas conservadores.
dissociam os campos do ensino e da pesquisa, a frag- projetos relacionados à pobreza não significa que tenha documentos de Agentes e Agências oficiais do BM,
6. O Banco toma cuidado para criar um clima de envolvimento dos
mentação da pesquisa, o investimento em campos de tornado a Agência mais humana. A rigor, a grande tema que suscita debates e questões permanentes.

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

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Anais. 8 a 11 out. 2001. de Janeiro: Autores Associados, n. 26, maio/ago. de 2004.
o tema, Cf. Jameson e Zizek (1998), Ahmad (2002).
FIORI, José Luís. 60 lições dos 90: uma década de neoliberalismo. Rio
11. Basta uma rápida olhada no site do BM para verificarmos o conjunto
de Janeiro, São Paulo: Record, 2001.
de projetos espalhados por todos os continentes. A variedade de ações
locais de penetração microsocial tem um impacto positivo no ideário GRAMSCI, Antonio. Introdução ao estudo da filosofia. A filosofia
dos governos subalternos, promovendo o que Gramsci compreende de Benedetto Croce. Vol I. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.
como a ligação orgânica da “vontade coletiva” com os homens simples.
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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

Projetos hegemônicos: a propósito da crise

Edmundo Fernandes Dias


Professor de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (aposentado),
Coordenador Nacional da Associação Brasileira de Educadores Marxistas
E-mail: [email protected]

Resumo: O presente artigo pretende debater a questão da política do ponto de vista dos subalternos. Examina
a possibilidade de constituição de um discurso dos subalternos para fazer frente ao mecanismo de captura da
subjetividade antagonista praticada pela burguesia. Para tanto procura abordar a questão da totalidade das
formações sociais e da ligação umbilical entre teoria e prática.

Palavras-chave: Classes; Estado; Hegemonia; Subjetividade de Classe; Intelectuais.


Os economistas têm uma maneira de proceder singular. Só existem para eles dois tipos de instituição,
as da arte e as da natureza. As instituições feudais são instituições artificiais, as da burguesia são ins-
tituições naturais. [...] Ao afirmar que as relações atuais – as relações de produção burguesas – são
naturais, os economistas fazem entender que aí estão relações nas quais se cria a riqueza e se desen-
volvem as forças produtivas em conformidade com as leis da natureza. De onde estas relações são
elas próprias leis naturais independentes da influência do tempo. São leis eternas que devem sempre
reger a sociedade. Assim, houve história, não há mais (MARX, 1972, p. 129).

O
que hoje chama fortemente a atenção do analista lógica, sem cuja decifração repetir-se-á o já conhecido
ou do simples indivíduo que quer entender a e recalcar-se-ão os elementos que permitam aos subal-
sociedade em que vive e suas conjunturas – de ternos construírem a sua resposta à crise.
prazos, significados e gravidades distintas – é a crise A crise atual confirma, pela enésima vez, a afirmação
capitalista produtora de fortes impactos, que vão da de Marx segundo a qual o capitalismo é a contradição
chamada estrutura econômica até o mais profundo em processo. Sob a ordem do capital não há – e nem
momento das individualidades, culturas, perspectivas pode haver – soluções para as crises produzidas pe-
dos indivíduos e classes sociais. Muito já se falou lo enorme fosso existente entre produção social e
sobre isso. Falta uma análise teórica que localize as apropriação privada. É absolutamente claro que a
possibilidades de resolução da crise, sem repetirmos construção social da riqueza tem seu solo matriz na
monotonamente as surradas respostas capitalistas. eliminação da possibilidade da distribuição da riqueza,
Neste artigo pensamos a questão da dominação ideo- das possibilidades de acesso à cultura, à saúde, ao ócio

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

necessário para a recomposição da capacidade pro- modernização é a pura conservação. Do período pós- pelo qual os subalternos pensam, agem e vivem no possibilidade revolucionária esterilizada ao ter sido
dutiva das classes trabalhadoras, das classes subalter- revolucionário francês aos nossos dias, o processo é o interior do modo de vida dos dominantes. Trata-se de visto como se fosse meramente produto da crise final
nas. Nessa ordem a totalidade das classes subalternas da revolução passiva. impossibilitar que os subalternos produzam e vivam do capitalismo ou como sinônimo de planificação e
está submetida ao permanente processo de exploração- O capitalismo, desde o seu início, vive a necessidade seus projetos autônomos. Considerar, p. ex., a crise estatização. Tanto na linguagem popular, quanto na
opressão. Tudo isto pode parecer uma obviedade, co- objetiva de uma reestruturação, dita produtiva. Li- capitalista apenas pelos efeitos destruidores sobre a eco- teórica, produziu-se uma naturalização do real para
mo seguramente dirão os que, críticos do marxismo, quidou, tão logo lhe foi possível, o controle que os nomia, esquecendo-se ou tratando secundariamente das tornar esse processo inaudível e invisível aos olhos
nos consideram conservadores, antiquados, contra a artesãos tinham sobre o processo de trabalho e criou condições de vida imediata dos trabalhadores, olhá-la dos subalternos. Quando se fala em cidadania, em
modernização. o moderno operário, o trabalhador coletivo por exce- apenas no plano da materialidade imediata – por mais igualdade perante a lei, como se não existissem opres-
Sob este último ponto de vista (ser contra a mo- lência. Destruiu formas culturais, modos de vida, clas- que isto seja absolutamente decisivo e essencial – signi- sores e oprimidos, dominantes e subalternos, como se
dernização), terão seguramente razão. O pressu- ses sociais. Eliminou os direitos consuetudinários, os fica aprisionar as classes trabalhadoras em um círculo todos fossem unidades de uma mesma humanidade
posto da modernidade era o da liberdade de saber, direitos locais, os direitos das gentes, substituindo-os infernal: para elas inexiste qualquer solução sob a ordem indiferenciada, esse processo fica muito mais claro.
pensar, expressar nossas convicções. A ciência foi, por um direito positivado, baseado em uma suposta do capital. O uso de uma linguagem não rigorosa permite uma
inúmeras vezes, apontada como libertadora, como natureza humana, eterna e imutável. O capitalismo Para enfrentar a crise é necessário fazer a crítica da anfibologia, um deslizar de um significado para outro
possibilidade de eliminar o sacrifício físico na produ- criou a abstração máxima do indivíduo, do cidadão economia e da política burguesas, atuar no sentido da por vezes totalmente oposto. Falamos em desenvol-
ção. A desigualdade e a opressão não estavam ausentes, com direitos e deveres iguais perante a lei sem declarar invenção de sociabilidade socialista. O grau de maior ou vimento econômico, escamoteando que é um processo
mas esse campo era demarcado por inúmeras lutas de que esta era a sua lei e não uma manifestação da ra- menor abalo sobre a sociabilidade capitalista decorre da classista, como se ele não refletisse as classes, suas
resistências, que tratavam de impor limi- zão meta-histórica que o legitimava e maior ou menor presença dos seus anta- lutas e suas contradições. Esta ideologia
tes a essa apropriação. Marx classificou O capitalismo, desde o legitima ainda hoje. Codificou, disci- gonistas históricos: as forças do trabalho, Na e pela crise todas as (leitura constituidora do real) autorizou
essas lutas como a primeira vitória da o seu início, vive a plinou, educou, preferentemente pela o conjunto das classes subalternas. Nada contradições, fissuras e vem autorizando identificar as soluções
economia do trabalho sobre a economia necessidade objetiva de forma ideológica; quando isto não era há de eterno ou natural nesse processo. e fraturas de uma capitalistas para a crise como as únicas
do capital. A modernidade criou uma no- uma reestruturação, dita possível, usou a repressão baseada na A caracterização gramsciana de que “o estrutura determinada possíveis.
va forma de existir, de pensar, de sentir, produtiva. Liquidou, tão sua lei ou na violência aberta, pura e sim- velho morre, mas o novo não consegue se clarificam. Mesmo Partidos que se dizem e se pensem
de viver, enfim, um novo modo de vida. plesmente. nascer” (GRAMSCI, 1975), nos mostra nas situações ditas como de esquerda reproduzem esse dis-
logo lhe foi possível, o
Não temos nenhuma ilusão quanto ao O processo aqui descrito é um ele- que se trata de um processo mais global: normais - isto é, sem curso. Professam, aparentemente, uma
controle que os artesãos
significado mais global desse processo. mento decisivo para que se compreenda a questão da hegemonia, a luta entre con- linha marxista, mas praticam a velha e
tinham sobre o processo a manifestação clara
A afirmação do Manifesto Comunista de sua dominação: trata-se da captura da servação e revolução. surrada cantilena capitalista como se fora
de trabalho e criou o da permanente crise
que a burguesia era revolucionária, não subjetividade dos antagonistas. Tudo A própria idéia de crise tem que da Ordem do Capital não houvesse saída,
moderno operário, o ser trabalhada. O pensamento burguês
do capital -, essas ou sequer vida inteligente. Aceitam, na
significava identificá-la com a liberdade e todos estavam e estão submetidos a
para os subalternos, para as classes trabalhador coletivo este processo de naturalização, de des- sempre afirmou que crise é sinônimo diferenças e contradições imensa maioria, as práticas institucionais
instrumentais (GRAMSCI, 1975). A por excelência. Destruiu historicização. A vida é a vida burguesa, de caos, desordem. A perspectiva so- são brutais, apesar de vigentes como o único possível, chegan-
burguesia não podia mais existir sob formas culturais, modos como burguesas são a família, a escola cialista contradita essa visão. Crise aparecerem como que do mesmo, em casos limites, a considerar
as condições anteriores, mas análises de vida, classes sociais. e o trabalho, lugares privilegiados de etimologicamente significa criação, ocultas. Na crise, elas os críticos do capital como xiitas2. A
marxianas (em especial a contida em O socialização, onde os subalternos são transformação; ela é sempre um mo- se revelam e é por esse diferença dos efeitos da crise sobre as
Dezoito Brumário) demonstraram que essa revolução moldados. Tenta-se permanentemente construir a mento heurístico significativo. Na e revelar-se que temos o classes não apenas desaparece, mas for-
só podia ser passiva. impossibilidade dos subalternos falarem. Processo pela crise todas as contradições, fissuras mapa da mina. talece o poder que dizem combater.
A burguesia não rompeu radicalmente com a no- que encontra, pela ação destes, resistências imensas, e fraturas de uma estrutura determinada Contrariamente à opinião de muitos,
breza: na Inglaterra aliou-se e construiu com ela novas mas que, apesar disso, tornou-se senso comum dos se clarificam. Mesmo nas situações ditas normais - um maior desenvolvimento econômico capitalista tem
formas de poder político, social e econômico; na França, subalternos ao longo dos dois últimos séculos1. A isto é, sem a manifestação clara da permanente cri- como correlato uma capacidade menor dos dominados
pela brutal resistência da antiga ordem feudal-clerical, história que se ensina é a história dos vencedores. A se do capital -, essas diferenças e contradições são de romper o círculo da pobreza e da miséria. Recen-
a burguesia foi muito além do que desejava. Com o economia, a medicina, o direito que se ensinam são brutais, apesar de aparecerem como que ocultas. Na temente, o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplica-
corso Bonaparte ela instalou sua ditadura de classe. aqueles necessários e adequados à ordem do Capital. crise, elas se revelam e é por esse revelar-se que temos das3 publicou que a desigualdade social diminuira entre
Esse processo criou uma ditadura ainda mais brutal É exatamente pelo processo acima, brevemente o mapa da mina. A ação crítico-prática torna-se assim os trabalhadores. Ao não tocar a questão do fosso entre
sobre os trabalhadores. Ao invés da modernidade, descrito, que o discurso dos dominantes (que também mais inteligível – pensável e praticável - aos olhos das capital e trabalho ficou, sem qualquer pudor, a imagem
o projeto burguês era o da modernização pela qual tem contradições) acaba por apagar ou interditar o classes e de seus intelectuais. de que diminuira a pobreza.
o futuro é apenas a atualização do já existente. Se a discurso dos subalternos. Considera-se, do ponto O socialismo – único projeto capaz de conduzir Mantidas as relações sociais capitalistas não é possí-
modernidade era a ruptura – ainda que relativa – a de vista burguês, um processo hegemônico aquele as classes subalternas à sua emancipação – teve sua vel a qualquer programa assistencialista romper a jaula

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de ferro da miséria ou da pobreza, impossibilidade tentativa de construção de uma hegemonia burguesa; da natureza, e não aos retrocessos na organização da so- capitalismo – afirmavam tanto a social-democracia,
criada pela contradição essencial entre capital e tra- não podem, portanto, resolver as graves questões so- ciedade (BENJAMIM, 1993, p. 227). quanto a direção stalinista - seria fatalmente seguida por
balho. Esses programas podem, no máximo, abrandar ciais. A aparência social-democrática é, como dizem Marx uma marcha triunfal e irreversível rumo ao socialismo.
muito levemente as brutais contradições sociais, A questão das direções, dos intelectuais, está colo- e Gramsci, uma aparência necessária. Essa aparência, A identificação de socialismo com planificação e es-
o que não impede a resposta dos subalternos mais cada. A tarefa dos intelectuais das classes subalternas é essa leitura “mítica” de um passado classista, requer tatização tornou invisível a revolução passiva em
empobrecidos, em favor do establishment, e, a mídia, construir com elas, e não sobre elas, a inteligibilidade do bases materiais. Para sua maior eficácia praticam-se curso nos países do socialismo realmente inexistente
de falar das virtudes do governo. Os capitalistas não real, a crítica aos mitos imobilizantes, a possibilidade as chamadas políticas públicas que nada mais são do já desde os anos 30, ocultando a lenta restauração do
podem, a um só tempo, acumular e da elaboração de projetos e práticas de que políticas governamentais (DIAS, 2007a, pp. 43– capitalismo aí ocorrida. O resultado concreto foi to-
A tarefa dos intelectuais 46), forma pela qual os governos pretendem impor
redistribuir renda, na medida das ne- transformação social. Se, pelo contrário, talmente diverso do que os deterministas afirmavam.
cessidades dos subalternos. das classes subalternas essas direções se recusam a elaborar e tra- sua visão de mundo, seu projeto de dominação. Isto A social-democracia, vencida a brutal experiência
Despejar bilhões de dólares em em- é construir com elas, tam de repetir ad nauseam os discursos vi- atualiza o clássico: “decifra-me ou te devoro”. Decifrar nazi-fascista, permitiu o chamado estado de bem-
presas e no sistema financeiro, criadores e não sobre elas, a gentes, aprofunda-se o desconhecimento a estrutura da dominação significa criar as condições estar social que, se garantiu melhores condições
da própria crise, além de não resolvê-la, inteligibilidade do do real, fortalece-se a crise capitalista. O de iniciar o processo de libertação. E coloca para nós de vida e de trabalho para uma pequena parcela das
estimula o domínio, a impunidade e a real, a crítica aos mito de um desenvolvimento industrial a tarefa de construir políticas públicas socialistas que classes trabalhadoras em alguns países da Europa,
truculência do capitalismo. Este só pode mitos imobilizantes, como portador da emancipação humana encaminhem as necessidades reais do conjunto das eliminou em grande medida o projeto socialista, tor-
sobreviver ampliando sistematicamente foi proclamado pela social-democracia e classes subalternas e preparem a sua emancipação: nando as direções socialistas objetivamente aliadas
a possibilidade
a exploração e a opressão sobre os do- pelo próprio stalinismo como uma fata- acelerar o futuro na linguagem gramsciana. do capitalismo em crise. Domesticou-se o conjunto
da elaboração de
minados4. Decisivo nesse processo é a lidade. Sobre isto é sempre salutar a lei- A política, sob a Ordem do Capital, aparece como das lutas sociais, governou-se o Estado burguês para
projetos e práticas de
crença socialmente difundida de que tura das Teses sobre o conceito de histó- universalizadora e uniformizadora dessa sociedade. o capital e realizou-se não o projeto marxiano, mas
transformação social. Ao propor a igualdade jurídica formal — a cidadania a vertente social-democracia reformista. A perda do
o capitalismo é a única (não apenas a ria de Walter Benjamim, em especial sua
melhor) forma social. Isto não impede, Se, pelo contrário, undécima tese: — como padrão da atividade social e ao mostrá-la co- projeto emancipador atuou poderosamente no sen-
contudo, manifestações patogênicas, de- essas direções se O conformismo, que sempre esteve em seu ele- mo algo “natural”, escondem-se as cisões, fissuras, tido de reforçar as classes trabalhadoras como su-
vido à adoção das práticas capitalistas. recusam a elaborar e mento na social-democracia, não condiciona contradições, lutas. Cada indivíduo, sendo igual aos balternas. A referência internacional de uma classe
Recente pesquisa afirma que 45% dos tratam de repetir ad apenas suas táticas políticas, mas também suas demais, acaba por transformar-se em parceiro. A con- proletária portadora da revolução era proclamada dis-
residentes na região metropolitana de nauseam os discursos idéias econômicas. É uma das causas do seu tradição e a luta metamorfoseiam-se em harmonia. cursivamente, mas negada na sua prática concreta.
São Paulo sofreram “algum transtorno vigentes, aprofunda-se colapso posterior. Nada foi mais corruptor A luta de classes é, então, apresentada como algo de- Outro mito ainda ativo e que necessita ser combatido
mental ao longo da vida” (SILVEIRA, para a classe operária alemã que a opinião de moníaco, inventada pelos que querem destruir a vida é a visão do socialismo meramente como um regime
o desconhecimento do
2009). Ressalte-se que nesta pesquisa do que nadava com a corrente. [...] Daí só havia social. Basta examinarmos mais de perto a cena política político que possui uma versão à esquerda do modo
real, fortalece-se a crise
Instituto de Psiquiatria do Hospital das um passo para crer que o trabalho industrial, para ver o que o proposto diálogo entre parceiros se de fazer a economia5. Ignora-se assim a profunda ar-
capitalista. realiza entre a guilhotina deles e o nosso pescoço.
Clínicas foram “excluídos moradores de que aparecia sob os traços do progresso técni- ticulação de institucionalidade-produção. Além das
rua, pessoas que vivem em instituições e presos” (Idem). co, representava uma grande conquista política. A As ideologias dos dominantes nunca são apresen- lutas cotidianas de preservação da possibilidade de
Ansiedade, estresse pós-traumático, fobias específicas, antiga moral protestante do trabalho, secularizada, tadas como ideologias e sim como projetos, teorias; as existência das classes subalternas, o projeto socialista
transtornos de pânico são típicas da sociedade capita- festejava uma ressurreição na classe trabalhadora alemã. dos antagonistas são sempre malditas, nunca projetos. requer o grande embate ideológico para que se torne
lista, em especial na sua fase atual. Revelador é a ob- O Programa de Gotha já continha elementos dessa Inversão altamente esclarecedora. O embate de projetos concreta a possibilidade de uma nova sociabilidade
servação do Ministério da Saúde segundo a qual “as confusão. Nele, o trabalho é definido como “a fonte é apresentado como um choque entre a verdade (dos para além, e contra, a ordem do capital.
prevalências dessas doenças no Brasil seguem as taxas de toda riqueza e de toda civilização”. Pressentindo o dominantes) e o erro (dos antagonistas) ou mesmo Esse conjunto articulado de relações sociais e as suas
mundiais” (Idem). “O capitalismo mata” não é, por- pior, Marx replicou que o homem que não possui outra como uma guerra entre o bem e o mal. A esquerda, contradições se materializam naquilo que Gramsci e
tanto um slogan esquerdista. propriedade que a sua força de trabalho está condenado ao viver o modo burguês, perdeu seus referencias Trotsky chamam de modo de vida, forma pela qual essa
As classes subalternas devem colocar na ordem do a ser o “escravo de outros homens, que se tornaram [...] classistas, tornando-se, ela própria, burguesa. A cida- totalidade se transforma em cotidiano, locus especial
dia a reconstrução das políticas que as interessam. As proprietários”. Apesar disso, a confusão continuou a dania de campo de luta passa a ser defendida como da luta de classes. Cada modo de produção dominante,
questões agrárias, previdenciárias, de educação e de propagar-se, e pouco depois Josef Dietzgen anunciava: construtora de consensos, sendo assim uma das formas em uma formação social determinada, gera um tipo de
saúde públicas requerem políticas realmente públicas. “O trabalho é o Redentor dos tempos modernos [...]”. privilegiadas de subalternizar os trabalhadores, as clas- “homem”. Aquilo que ironicamente muitos socialistas
As classes subalternas devem combater as políticas Este conceito de trabalho, típico do marxismo vulgar, ses instrumentais, que se pensam como iguais aos seus atacavam (o homo œconomicus) nada mais é do que
governamentais de privatização, terceirização e liqui- não examina a questão de como os seus produtos po- dominantes. a representação mítica do tipo de individualidade ca-
dação dos direitos sociais. Aquilo que se apresenta dem beneficiar trabalhadores que deles dispõem. Seu O mito determinista tornou a ação das classes an- pitalista e do mercado, usado na ideologia capitalista
normalmente como política pública não é senão a interesse dirige-se apenas aos programas de dominação tagônicas uma desnecessidade: a decomposição do como padrão de racionalidade. O mercado é o conjunto

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articulado das relações sociais capitalistas. O operário, histórico à repetição nauseante de pequenos aconteci- pela qual os subalternos garantem a chamada go- institucionalidades tratam permanentemente de cap-
no interior desse modo de produção, se ele não se mentos sem significado maior. O que está em jogo é, vernabilidade. O fato de termos como presidente um turar a subjetividade antagonista, mantendo ou criando
rebela, está condenado a reproduzir o conjunto das na realidade, uma luta não declarada entre as classes ex-operário permite uma identificação das classes su- a subalternidade dos trabalhadores.
relações capitalistas (técnicas, políticas, ideológicas). sociais. Para essa preservação é essencial que política balternas com o eventual governante. A crise destas É subalterno aquele que não tem projeto, fala, or-
Decifrar os conceitos da sociabilidade capitalista torna e economia sejam consideradas esferas separadas e au- classes se vê reforçada pelo fato de que suas direções ganicidade. O Estado é o instrumento que constrói,
possível revelar as práticas sociais que ela corporifica tônomas do processo como um todo. A economia é foram e são, em sua grande maioria, decapitadas e sua estrutura e potencia o poder dos dominantes, dando-
e oculta. apresentada como manifestação a-histórica e universal subjetividade antagonista capturada. lhes organicidade. Já a característica dos subalternos é
A grave crise do capitalismo, que vem subordinando de forças naturais. A economia é, mesmo neste sentido, Para responder à crise da chamada economia há a sua não-organicidade, a ausência de instrumentos de
a vida das sociedades no momento atual, demonstra uma macro-política determinada por um equilíbrio que re-estabelecer seu eixo de intervenção ao custo de construção dos seus projetos. O mito de um Estado
liminarmente o que viemos discutindo. Os práticos racional exterior ao mundo. Já a política aparece como transferências globais de capital para os capitalistas. para todos é uma necessidade para o exercício do po-
do capitalismo, investidos em nosso país dos poderes o reino das contingências, do movimento de indivídu- Esta política regressiva de ampliação der na Ordem do Capital. Esse Estado
A luta de classes, como
executivos, formulam a situação de modo burlesco: os (seus interesses, desejos, ideias) que se entrechocam da expropriação do já expropriado é a para todos, independentemente das suas
dizia Gramsci, não está
tratar-se-ia ora de um “tsunami”, ora de “marolinha”, sem, necessariamente, possuir uma meta-racionalida- forma clássica de resposta burguesa à posições objetivas se faz senso comum,
conforme o maior ou menor peso aparente da crise. Ou de, reduzindo-se a jogos de exercício de poderes não crise. As formas de intervenção estatal, sendo proposta pelas por exemplo, na idéia do sindicato-ci-
seja: ela é natural, não decorre das formas tão racionais. tal como as implementadas pelo governo forças do trabalho, dadão. O que nos permite entender co-
de realizar a materialidade do capital, nem A economia é A imagem da mão invisível permane- Obama, demonstram que, por exemplo, mas é imposta mo e porque, apesar do peso da crise
de suas formas políticas. Berlusconi, o apresentada como ce, ainda que sem o vigor de outrora, diante do perigo, mesmo as mais fortes exponencialmente pelo capitalista, tudo se passa no nosso país
capo da direita italiana, “tratou” a questão manifestação a-histórica apesar de muitos economistas e práticos contradições no interior do pensamento capital. A luta contra como se nada houvesse. Primeiro a crise
de forma similar, tanto na caracterização do sistema financeiro reconhecerem que burguês (livre mercado x ação do Estado) essa correlação de forças era dos outros, depois passou a ser uma
e universal de forças
quanto na “solução”. A técnica da o automatismo do mercado não é real. são respondidas não pelo purismo ideo- não é uma alternativa, marolinha, avolumou-se na idéia do
naturais. A economia é,
descaracterização da crise funcionou As sucessivas e permanentes crises do lógico, mas pelo sagrado pragmatismo de Tsunami para dissolver-se magicamente
mesmo neste sentido, mas uma necessidade
(bolha imobiliária, por exemplo), quan- capital, em especial as do século passado, classe. em um rápido recompor da economia,
uma macro-política radical. Aqui, como
do o efeito apareceu como se fosse a obrigaram a que os teóricos e práticos A solução capitalista passa pelo in- segundo o discurso estatal. Se antes o
causa. Alguns teóricos da esquerda e determinada por um do capital buscassem soluções. As polí- cremento da barbárie. Direitos sociais são
antes, o papel da estado aparentemente assistencialista
intelectuais orgânicos do capital vive- equilíbrio racional ticas postas em práticas pelo capital - do mais e mais atacados, salários mais e mais imensa maioria das permitia administrar tensões com a
ram essas formas que expressam, por exterior ao mundo. keynesianismo às políticas de ajuste es- comprimidos. A luta de classes, como burocracias sindicais e substituição de políticas de geração de
um lado, uma incompreensão do movi- Já a política aparece trutural - visam resolver contradições dizia Gramsci, não está sendo proposta partidárias adapta-se postos de trabalho pela generalização
mento real do capital, e, por outro, in- como o reino das inter e intra-burguesas. Quando os pelas forças do trabalho, mas é imposta voluntariamente ao de um estado de bem-estar social do jei-
dicam claramente a concepção de que o burgueses individualmente ou como exponencialmente pelo capital. A luta combate à sua própria tinho tupiniquim (o chamado estado de
contingências, do
capitalismo é inexorável e que passará Estado, se defrontam com movimentos contra essa correlação de forças não é classe em benefício do mal-estar social), hoje isso passa a ser
movimento de indivíduos
por mais essa crise. Não é aleatório que sociais fortes, têm que ser colocadas em uma alternativa, mas uma necessidade Capital (e de seu gerente essencial para mistificar as massas pela
(seus interesses,
os movimentos sociais sejam alvo das ação algumas formas compensatórias, radical. Aqui, como antes, o papel da propaganda política8.
desejos, ideias) que coletivo, o Estado).
políticas capitalistas: é uma necessidade chamadas por eles de políticas públicas imensa maioria das burocracias sindicais Na Ordem do Capital é impossível
para a ordem capitalista a captura da sub- se entrechocam sem, (entre outras, o bolsa- família e o fome- e partidárias adapta-se voluntariamente ao combate à resolver a questão da opressão/exploração. Séculos e
jetividade antagonista e a incorporação necessariamente, possuir zero), políticas que tentam implementar sua própria classe em benefício do Capital (e de seu séculos de prática social burguesa demonstram que esta
das lógicas vigentes que não podem per- uma meta-racionalidade, a hegemonia burguesa. Políticas elabora- gerente coletivo, o Estado). só pode existir pela permanente expropriação subjetiva
mitir seu questionamento estrutural. Essa reduzindo-se a jogos de das para tornar intocáveis as formas de Mitos como o da cidadania, que não têm significado e objetiva das classes trabalhadoras. Estas têm, portan-
captura produz um efeito de estabilização exercício de poderes não gestão da economia e do governo dos real e efetivo de liberdade para os subalternos para além to, uma luta de classes crucialmente sobredeterminada.
do real, é uma necessidade radical para tão racionais. homens. da retórica, atuam nesse sentido. Veja-se a forma de O combate não pode ser dado apenas no plano da ma-
preservarem a ordem vigente. Porque os Essas políticas, mesmo apresentando tratar as contradições colocadas aos subalternos6. Mais terialidade imediata. Ele exige fundamentalmente a
burgueses precisam naturalizar a realidade? Trata-se “benefícios” para parcelas das classes subalternas, não do que nunca a relação essência-aparência funciona: não luta ideológica. Deslegitimar a Ordem do Capital sig-
de um mecanismo decisivo para impedir que os subal- resolvem – e nem o poderiam – o problema central da é preciso que essa cidadania exista de fato, basta que os nifica acima de tudo organizar a possibilidade de uma
ternos tenham a clara percepção do que está em jogo. adequação entre o modo de governo das massas e o subalternos acreditem. Não temos porque estranhar a nova sociabilidade. Aceitar seus conceitos, práticas e
Outros mecanismos ideológicos se fazem necessá- modo de governo da economia. Elas têm que ser ade- presença de ex-dirigentes sindicais no governo7. Eles institucionalidade significa permanecer preso umbili-
rios aos dominantes: o combate à concepção teórica quadas ao movimento geral do capital, produzindo a são necessários para controlar as massas, para impedir calmente à subalternidade. O escravo, porque via sua
das classes, da lei do valor, a redução do largo processo vantagem extra de promover uma aliança de classes que elas se ponham em movimento. Burocracias e situação com os olhos do senhor, percebia sua situação

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como natural e, portanto, eterna. A sua fala era a fala sobre-trabalho é decisiva na decifração do mistério da pelo contrário, é exercida clandestinamente, para a para a tentativa de construção da hegemonia dos do-
do senhor. É preciso romper com o olhar e a fala dominação, das formas e das estruturas a partir das maioria da população: é a forma pela qual os hábitos, minantes.
naturalizadoras, é preciso afirmar que a escravidão quais é possível construir a inteligibilidade do real. A os saberes, os costumes dos dominantes assumem Algumas considerações devem ser acrescentadas,
é histórica e, assim, como ela nasceu também pode Teoria do Valor, ao demonstrar a unidade indissolúvel o caráter de horizonte ideológico. É no cotidiano, no como a mudança da base social da universidade e
morrer. O mesmo vale para o capitalismo e para o exploração-opressão, marca a forma mais geral do an- aqui e agora, que radica o espaço em que as formas de dos aparelhos técnicos de governo, seja político, seja
conjunto das classes trabalhadoras. Estas só poderão tagonismo das classes. vida dos dominantes são passadas para os dominados econômico. Embora essas instituições classistas pos-
afirmar-se como autônomas se elas olharem com seus As classes são criadoras e criaturas dessas relações. como as únicas formas possíveis de pensar, agir, sentir, suam nos seus corpos elementos burgueses, o núcleo
próprios olhos, afirmando seus projetos, sua sociabi- O antagonismo não é uma invenção criada por seres elaborar conhecimentos e estratégias. O domínio de central é formado pelos estratos intermediários, pela
lidade, historicidade e cultura. O determinismo é o ópio que buscam introduzir conflitos no real, como afirmam uma classe (e de seu bloco de poder) determina o que classe do excedente, como fala Martin Nicholaus (1967).
do militante e seu modo de realização é o sectarismo. os capitalistas: é produzido pelo desenvolvimento pensar, o que estudar e até mesmo como amar. Atua, aí, na mesma linha, a ausência de um projeto
Recusar o sectarismo e desenvolver a inteligibilidade desse mesmo modo de produção. Não é uma figura Exemplar disso é a ação do mais brutal aparelho de nacional da burguesia. Quando o movimento social
do real são condições absolutamente necessárias para de ficção perversa e pervertida dos contrários à or- hegemonia e poderoso construtor de subordinação: a cresce essa classe tende a colocar-se em uma perspectiva
construir o projeto socialista, a nova sociabilidade. Esta dem, mas, elemento central dessa mesma ordem. O televisão. Pensemos o caso das novelas. Lá, em quase próxima da transformação social. Na ausência do pro-
tarefa é exatamente a construção dos intelectuais dos simples ato de produzir marca, não apenas as merca- todos os capítulos se processa a aparente crítica das jeto de transformação, essa classe, tendencialmente,
subalternos. Vale dizer da possibilidade de pensar seu dorias produzidas, mas, a própria existência das clas- formas dominantes. Os burgueses são apresentados, volta para a conservação do status quo.
próprio projeto. ses (figuras centrais da sociabilidade da Ordem do normalmente, como oportunistas, violadores dos va- A investigação da realidade supõe construir a
Entender como se constitui o real, para além das Capital). Estas existem, apesar de serem negadas no lores morais (sempre se busca enganar o outro, da “unidade na diversidade”. Vale dizer: ir além das
idéias-forças com que se pretende manietá-lo, só é plano jurídico-estatal vigente e se consubstanciam em relação erótica às formas de apropriação da riqueza). aparências. Uma das facetas da construção da domi-
possível pela análise dos movimentos das classes, das relações sociais. Esta é a cena da novela. Contudo o que permanece nação, como vimos acima, é, nada mais nada menos,
suas lutas, das suas formas-projetos de construção de As relações sociais, enunciadas acima, determinam são valores burgueses: o fundo da cena. Afirma-se, que a transformação do projeto político vigente em
uma sociabilidade. O real, para os marxistas, é a atua- as estruturas e o conjunto de relações que as confor- entre outras determinações, um consumo que à mas- horizonte ideológico onde se movem as classes em
lização permanente das relações de força e das con- mam. Falamos aqui das formas contraditórias pelas sa da população é interditado. Na dialética entre ne- confronto. Se o atual é o único verdadeiro, fica vedada
junturas no interior de uma determinada formação quais as classes se apropriam das mercadorias e das cessidade e desejo, realçam-se os desejos e recalcam-se a própria possibilidade de superação da realidade
social. É necessário ter sempre presente a afirmação possibilidades materiais: as relações sociais de consumo. as necessidades. classista, torna-se impossível pensar a emancipação
de Marx (em O Dezoito Brumário), segundo a qual Estas determinam formas particulares de inserção Os dominados compartem o horizonte subjetivo dos trabalhadores (BOBBIO, 1986). Mordenti (2007)
os homens fazem a história, mas o fazem a partir de das classes na totalidade social, tanto pelo consumo dos dominantes, sem terem a menor chance de vi- coloca, a nosso juízo, uma questão essencial: pode o
condições determinadas. O real é, assim, o produto de bens supérfluos, quanto daqueles extremamente vê-lo no cotidiano: quadros vitais aparentemente subalterno falar? O debate que ele propõe, a partir
das lutas de classe que determinam os movimentos necessários à vida das pessoas, como saúde, educação, inconciliáveis, mas, soldados pela ideologia da de Gramsci, é exatamente o da supressão da fala, das
históricos. A história é, portanto, um precioso labo- informação. As contradições classistas têm aqui um igualdade e do mérito, onde tudo é possível. Isto é historicidades, das experiências, das classes subalter-
ratório para a construção do novo. Não podemos, in- momento e uma forma particular de existência. Se ocultado e não se resolve em conflito aberto graças nas. Quando, por exemplo, alguém fala em “dar voz a
felizmente, nos limites deste texto, examinar elemen- no plano da produção material não há espaço para a um discurso universal, que vai do “sempre foi quem não tem voz”, não apenas nega que os subalternos
tos fundamentais desse processo, como ONGs, ter- a igualdade (mesmo que puramente formal), aqui, assim” até o “tem que ser assim”, a partir do qual o possam e devam se expressar enquanto sujeitos, com
ceiro setor, economia solidária etc.. no reino da circulação, esse fetiche da igualdade ga- que é violência simbólica e física vira padrão eterno e identidades próprias, mas vai mais além: dá a sua voz.
Toda formação social é um conjunto articulado de nha uma principalidade na vida das pessoas. Ao pri- universal de comportamento que busca transformar Isto é, substitui a possibilidade dos subalternos se
estruturas contraditórias, que é necessário conhecer. vilegiar sua ação no plano da circulação, a esquerda conflito em harmonia, em parcerias. Chamamos a constituírem como sujeitos históricos de emancipação,
A primeira delas (a mais abstrata) refere-se ao modo distributivista desloca a luta do plano da produção isso conformação de um modo de vida, predispondo lhes é negado o direito à revolução. “Dar voz”, apesar
próprio pelo qual as condições materiais de existência, onde o conflito pode ser mais claramente detectado. as classes trabalhadoras à servidão voluntária. das aparências, é o supra-sumo do autoritarismo.
as formas de vida, se produzem e reproduzem. Na O que é vulgarmente entendido como política, aí Isto é fatal? Não, não é. Romper com essa estrutura A matriz da dominação capitalista está, no plano
sociedade capitalista a relação de produção produz e compreendidos os aparelhos privados de hegemonia, orgástico-consumista exige, contudo, uma enorme teórico, explicitada na “invenção da tradição” (DI-
reproduz as classes e seus antagonismos. O chamado ancora-se em um cotidiano e usufrui abundantemente capacidade crítica e um projeto de nova sociabilidade. AS, 2007b). Os teóricos liberais transformaram em
Capítulo Inédito de O Capital demonstra que o fun- do fetiche da igualdade de possibilidades entre todos O mesmo se poderia dizer do aparato escolar e da verdades universais e imutáveis o que era historica-
damental é a produção e reprodução das relações os indivíduos de uma sociedade determinada. vida fabril. Em todos esses âmbitos constrói-se uma mente determinado. Os procedimentos políticos e
sociais capitalistas, isto é das classes. A totalidade se A luta de classes não é, como muitos fantasiam, o sociabilidade ao mesmo tempo em que se captura a econômicos da prática mercantil-burguesa foram
expressa em uma contradição entre a produção socia- encontro de dois exércitos classistas (e seus aliados) em subjetividade do antagonista. Essa captura se revela plasmados como natureza humana, como algo ine-
lizada e a apropriação privada dos resultados do tra- uma planície, representação mítica de uma totalidade como impedimento da construção do saber dos rente ao ser humano. Nesse processo apagaram-se as
balho humano. A forma pela qual se dá a extração do abstrata, onde ocorreria o encontro fatal. Essa luta, oprimidos, dos dominados. Esse é o primeiro passo diferenças, obviamente. No plano mais visível — e

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repetido ad nauseam — afirma-se que “todos os ho- faturing Consent) para termos clareza da estratégia concedendo ao outro a centralidade da questão, se dicalizar-se. A isso acrescente-se a destruição universal
mens são iguais perante a lei”. Marx, em 1843-1844, de “conquista de corações e mentes”, pela qual os descaracteriza e não constrói seu próprio campo, sub- da legislação trabalhista, em nome da globalização,
demonstrou, nos Anais Franco-Alemães, a falsidade dominantes “dão sua voz a quem não tem voz”. A metendo seus intelectuais à pulverização das idéias e da ampliação dos postos de trabalho, da liberdade do
dessa assertiva (DIAS, 2007c). Para ele era vital a dis- captura da subjetividade antagonista é, pois, elemento conceitos. Acabaria, assim, prisioneiro do discurso do mercado, a precarização. Produz-se assim a falsificação
tinção entre o bourgeois e o citoyen. Nessa separação decisivo para o exercício da dominação. A linguagem é adversário. da diminuição da classe trabalhadora. Para além disso
marcava-se a diferença entre o bourgeois como aquele fundamental. É nela e por ela que se passa das grandes É preciso reconhecer que quem determina a per- lembremos a forma do trabalho escravo, amplamente
que exercia o comando da vida social e o citoyen como elaborações ideológicas ao saber das massas. gunta, em grande medida, determina o campo de pos- generalizada hoje em dia. As formas pretéritas tornam
aquele que estava submetido à lei do bourgeois. O pólo opositivo do subalterno é evidentemente o poder sibilidade das respostas. Esse embate hegemônico é possível uma brutal extração da mais-valia. A mais-
A reivindicação moderna da cidadania é a forma [...], e como ´subalterno´ é ausência de palavra, assim decisivo, pois ao aceitar a questão do outro pode-se valia absoluta sob o comando da mais-valia relativa
de subordinação sem violência da maioria à minoria. ´poder´ é também [...], poder de linguagem e de palavra, perder o horizonte estratégico. O marxismo não é atua pesadamente neste sentido. Por fim, temos a in-
A igualdade abstrata proclamada serve, serviu e ser- o poder hegemônico de articular um discurso auto- apenas mais uma interpretação do mundo; quer ser a tervenção da tecnologia, poupadora de trabalho vivo.
virá, para ocultar a desigualdade concreta. Todo esse legitimante, de instituir (em vantagem própria, exclusiva) matriz de inteligibilidade das práticas de transformação A história do trabalho aparece como história da técni-
processo de construção da “igualdade” revela-se pro- um sentido, de dar sentido às coisas (ou melhor: de impô- desse mundo. O discurso crítico é radicalmente ne- ca, vista agora como a força produtiva por excelência.
duto de uma abstração formal, sem historicidades, sem lo) e de impor tal narrativa política como ´senso comum´ cessário; o discurso polêmico é, normalmente, fonte O fetichismo da tecnologia substitui a perspectiva de
determinações. A desigualdade real expressa, contudo, das massas. E Gramsci nos ensina que a luta hegemônica de confusões ideológicas. Lembremos, por fim, o um sujeito revolucionário antagonista ao capital.
uma negação dessa opressão classista apresentada co- entre as classes se desenvolve precisamente em torno ao tempo e a energia que se gastou para Romper com o pensamento domi-
mo “natureza humana” e como “regra do jogo”. A ´senso comum´: é hegemônico quem encontra, controla, “rebater” a celebremente falsa questão As aparências da nante requer dos intelectuais das
ideia de “natureza humana” é decisiva. Por ela calam- gere o sentido comum; por isto tal narrativa política da perda da centralidade do mundo do sociedade capitalista, classes subalternas a recusa de todo
se as historicidades reais, concretas; cala-se a voz do compartilhada é o lugar da hegemonia, um órgão dela, trabalho, ao invés de afirmar-se o dis- entendidas aqui como e qualquer determinismo, seja ele de
subalterno. uma articulação decisiva dela. [...], curso estratégico necessário: o da liqui- necessárias, respaldam tipo economicista, seja politicista. O
Construir a inteligibilidade do processo significa É chegado o momento no qual os revolucionários as- dação do capitalismo. Isto não impede, a racionalidade determinismo é acima de tudo a reifica-
decifrar a esfinge classista. Como admitir em sã cons- sumam o problema da construção do sentido como o pelo contrário, que se trabalhem as ção do real, a comprovação da leitura
dominante e dissolvem
ciência a idéia da harmonia social e da igualdade for- mais decisivo dos problemas. Senão nos termos da pro- questões dos outros autores/críticos/ capitalista: a verdade existe e é exterior
a totalidade: a crise
mal? Podemos nos comparar (os não proprietários dução de uma narrativa oposta e especular em relação debatedores. Mas é a partir do método às classes. Ela está dada desde sempre.
dos instrumentos básicos da produção) com os que
real do capital aparece
à narrativa do poder (este é o grande, complicado tema marxista que se deve intervir no debate. A história é transformada em um ane-
dominam nossa sociedade? Pode o “Zé Ninguém”, do ´contra-poder´, de que não é possível discutir aqui e Dissolver-se no enfrentamento das ques- como crise do trabalho. dotário de pequenos eventos (que os
como diria Reich, ser comparável aos multibilionários agora) ao menos nos termos da capacidade de criticar a tões de outras racionalidades significa, Suas famosas seqüelas pós-modernos chamam de fragmentos
associados ao capital financeiro mundializado? Segu- narrativa do poder com a finalidade de subtrair-se a ela de imediato, impedir-se de pensar suas - dessindicalização, do cotidiano) ou, por outro lado, a vida
ramente, ao fazermos essa pergunta, veremos um (MORDENTI, 2007). próprias práticas. precarização, diminuição e os conflitos concretos de homens e
sorriso irônico e amargo no rosto do oprimido. Mas Construção do sentido, construção da voz e Pensemos a questão da chamada da classe trabalhadora mulheres são apenas “astúcias da razão”,
a repetição constante dessa afirmação faz com que as do projeto. Temos, contudo, uma diferença com perda da centralidade do trabalho co- etc. - aparecem como de uma razão que lhes é superior e ex-
pessoas acabem aceitando esse “modo de pensar” como a formulação de Mordenti sobre o contra-poder, mo definidora da sociabilidade. Esta comprovação empírica. terior. Cotidiano, visto como uma des-
o seu modo. Sabemos o quanto se gasta nos meios de que encontramos em vários teóricos sob a forma da “constatação”, vista como verdade, re- crição muitas vezes pitoresca do dia a
São provas plantadas.
comunicação de massa e nos projetos de propaganda contra-hegemonia. Não se trata, a nosso ver, de um sume fragmentária e arbitrariamente o dia dos indivíduos e dos grupos. Con-
para vender, por exemplo, a imagem segundo a qual o contra, mas de um novo. E não nos cobrem que isto real contraditório do processo de trabalho, além de trariamente a isto, nós o pensamos como o lugar da
presidente da república “é um brasileiro igualzinho a é uma mera questão de palavras pouco importante na ignorar a relação processo de valorização/processo luta, não da convivência harmônica, das conjunturas
você”. ação prática, no agir político. Essa questão se refere de produção. As aparências da sociedade capitalista, como atualizadoras de estruturas. O que é inaceitável,
Marx afirmou que o capitalismo é a contradição em ao fato de que ao falar “contra” algo estamos presos entendidas aqui como necessárias, respaldam a racio- do nosso ponto de vista, é o fato de que intelectuais
processo e que o segredo da dominação está na forma às questões colocadas pelo outro. Sobre isso se veja nalidade dominante e dissolvem a totalidade: a crise ditos “progressistas”, de “esquerda”, “da classe tra-
pela qual se extrai o sobre-valor. Ora é exatamente Macherrey (1969). Quando se responde às questões real do capital aparece como crise do trabalho. Suas balhadora” etc. assumam como científica a forma de
sobre esses dois pontos que os capitalistas mais atuam colocadas pelo outro, corre-se o risco da dissolução famosas seqüelas - dessindicalização, precarização, di- determinismo tecnológico, tradução atualizada das
ao formular suas ideologias, que não são um “modo do discurso crítico. É preciso não confundir discurso minuição da classe trabalhadora etc. - aparecem como vertentes positivistas que aliam liberalismo político,
de fazer a cabeça” dos dominados, mas uma podero- crítico com discurso polêmico. O marxismo recusa-se comprovação empírica. São provas plantadas. No caso liberalismo econômico e cientificismo. Determinismo
síssima arma de captura da subjetividade antagonista, a ser um discurso polêmico porque se quer crítico, da dessindicalização, os teóricos do fim do trabalho esse que vai do ingênuo “o mundo caminha para o so-
de conformação da disciplina/obediência. Vale a pena porque ao responder, ponto a ponto, as ponderações sintomaticamente esquecem que grandes empresas cialismo” até formas mais sofisticadas: relembremos
ver o vídeo produzido por Noam Chomski (Manu- do pensamento que o nega, perderia sua identidade, como a Wallmart proíbem a seus trabalhadores de sin- aqui as críticas de Gramsci e de Lukács a Bukharin.

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

Para nós, seguindo a perspectiva supõe a necessidade da construção das Henry Ford estão aí para quem quiser
gramsciana, o marxismo é ortodoxo por novas individualidades. O cenário é O contrário do comprovar como os capitalistas negam a
bastar-se a si mesmo. Ele não necessita de amplo: das relações familiares às mais di- determinismo é, para os luta de classes: ou seja, buscam eliminá-la
uma epistemologia externa, como aquelas versas formas de afetividade são aqui e subalternos, a afirmação no nascedouro. O curioso é que, embora
praticadas pelas leituras neokantianas do agora o grande desafio. Individualidades de um novo projeto aos marxistas seja feita a acusação de
final do século XIX ou as do individualismo que se querem democráticas e, portanto, construído sobre as destruição da família, o fordismo acaba
metodológico, entre outras, no final do recusam o individualismo, produto da determinações concretas por fazer isso pela socialização de toda a
século XX. Se correta, a tese gramsciana matriz do pensamento economicista, da formação social. classe (homens, mulheres e jovens), pela
compreende a atualidade, real e determinada, da concepção de natureza humana his- inculcação sagaz (ou pela força) de novos
É pelo conhecimento
do campo teórico-epistemológico marxista toricamente indeterminada, levada ao má- hábitos. Em Americanismo e Fordismo,
(de classe) das
como práxis (unidade articulada de teoria ximo da contraposição inter-individual e Gramsci sugere que também o stalinismo
e prática transformadoras). E é a partir inter-classista. Torna-se imprescindível determinações sociais o fez, ao “recriar” a classe trabalhadora
dessa concepção que ele se defronta com romper com as formas positivistas de ler que podemos decifrar russa destruída pelas guerras civis e pela
os problemas colocados pela luta de classe o marxismo, que fossilizaram as práticas o “mistério” do intervenção externa.
nas suas diversas manifestações (por exem- das classes subalternas na reificação do capitalismo. A construção Isso significa que a luta de classes
plo, classes e suas formas da organiza- famoso conflito capital x trabalho, to- dos intelectuais e da tenha que permanecer “clandestina”?
ção, processo do trabalho e suas formas, mado como uma abstração vazia que teoria (revolucionária) é, Obviamente, não. Mas para isso é
construção dos intelectuais, análise das con- dá razão a todo e qualquer movimento portanto, obra urgente, preciso que as classes subalternas
junturas e estruturas, gênero, etnia, questão das classes, sem a compreensão das suas construam os seus intelectuais e o seu
ou então, resta aceitar
nacional etc.). múltiplas determinações. E que nega a saber, projetem estrategicamente a no-
a barbárie. Esta é
Falamos em construção da identidade conjuntura como síntese contraditória va sociabilidade. Um dos lances mais
de classe. Isto é decisivo porque permite e transitória das lutas, recusando a tese
a nossa tarefa. importantes desse processo para os su-
subtrair o conjunto dos trabalhadores leninista de que “a alma do marxismo balternos é o permanente trabalho de
— assalariados ou não — ao domínio do é a análise concreta de situações concretas”. A luta escapar à captura da sua subjetividade antagonista.
capital. Fundamental é a construção dos pelas consciências é uma das formas superiores da luta Quando os intelectuais de uma classe — mormente os
intelectuais da classe. Entendidos estes não de classes. O tempo todo, fora os períodos de crise da subalterna — se passam ao campo da outra, o que
como eruditos possuidores de diplomas orgânica, a cultura dos dominantes trata de pautar ocorre é uma decapitação da direção do movimento.
universitários, mas como aqueles que os subalternos e, em especial, aos seus intelectuais. Esta é a famosa crise de direção.
pensam as questões e as práticas de sua O que significa pautar e ser pautado? Para as classes Por fim, encerrando esta brevíssima síntese, a
classe, elevando-se da imediaticidade Essa separação permite disponibilizar subalternas, assumir o discurso e as práticas dos do- construção do saber sobre o real como produto das
à construção da racionalidade. Só para Fundamental é sua capacidade de formulação face à minantes implica perder a capacidade de formular as classes sociais revela a necessidade da articulação pai-
termos clareza das dificuldades do pro- a construção dos contraditoriedade das classes domi- perguntas, de saber o que é decisivo para seu processo xão/vontade/projetos. O contrário do determinis-
cesso, lembremos que os intelectuais das intelectuais da classe. nantes e destas com a totalidade social. emancipatório. mo é, para os subalternos, a afirmação de um novo
classes dominantes são construídos ao Entendidos estes Os intelectuais das classes subalternas É no modo de vida que o jogo se dá. Aí se formam projeto construído sobre as determinações concretas
longo de décadas, por um esquema de não como eruditos, são construídos na academia cotidiana as subjetividades e vontades. O fordismo demonstrou da formação social. É pelo conhecimento (de classe)
escolaridade prolongada e continuada, da luta (movimentos sociais, sindicais, isso na prática. Para Henry Ford, os trabalhadores pre- das determinações sociais que podemos decifrar o
possuidores de diplomas
voltada sempre para a implementação da partidários), para fazer frente aos dis- cisavam ser disciplinados, acostumados à moralidade “mistério” do capitalismo. A construção dos intelec-
universitários, mas como
ordem vigente, entendida como natural cursos polêmicos (desconstrução dos protestante, para serem bons trabalhadores. A Família tuais e da teoria (revolucionária) é, portanto, obra
aqueles que pensam as discursos, das práticas, das classes tra-
e, portanto, única. Sua racionalidade é Ford é a socialização, tanto fabril quanto ético-po- urgente, ou então, resta aceitar a barbárie. Esta é a nossa
basicamente econômica. Aqui se encon-
questões e as práticas balhadoras e que terminam por afirmar lítica, dos “seus” trabalhadores. Era preciso quebrar a tarefa. “Desafinar o coro dos contentes” (Torquato
tra a chave do destaque dos grandes in- de sua classe, a racionalidade opressiva das classes “anarquia” — ou seja, a autonomia e a independência Neto), “afinar o coro dos descontentes” (Itamar Assun-
telectuais em relação ao conjunto das elevando-se da dominantes). Aqui, não pode haver, sob desses trabalhadores — para submetê-los ao ritmo ção) é a síntese poético-musical da construção da no-
classes. imediaticidade pena de absoluta neutralização, a sepa- das máquinas, das cadências, sem deixar tempo livre va sociabilidade para além e contra o capital.
Eles se apresentam como desenrai- à construção da ração, o fosso entre os intelectuais e as para o perigoso hábito operário de pensar. Uma É preciso responder uma pergunta que atormenta
zados (Mannheim), quando, na realidade, racionalidade. classes trabalhadoras. preciosa visão gráfica deste processo é mostrada no o cérebro dos combatentes pelo socialismo: Pode o
são intelectuais classistas, saibam ou não. Um projeto de transformação social filme Tempos Modernos de Chaplin. As obras de subalterno falar? Pode e deve. O que significa a fala

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Reforma da Educação e Trabalho Docente Reforma da Educação e Trabalho Docente

do subalterno? Significa que ele constrói seu projeto. Referências Edu-nioeste, Cascavel. Paris: Editions Sociales, 1972.
O subalterno ao construir a sua inteligibilidade do real BARCELONA, Pietro. Diario Politico. Il vento di destra e le MACHERREY, Pierre - “Lire ‘Le Capital’”, in VVAA - Le MARX, Karl, “Anais Franco-Alemães”, in Karl Marx & Friedrich
demonstra duas coisas: a) somos todos intelectuais e ragioni della sinistra, DataNews, Roma, 1994. Centenaire du “Capital”. Mouton, Paris-La Haye, 1969. Engels, Opere (1843-1844), vol, 3, Roma, Editori Riuniti, 1976.
que falar com sua voz, olhar com seus olhos, significa a BENJAMIN, Walter. Teses sobre o conceito de história, In. Obras MANNHEIN, Karl. Ideologia e Utopia, Editora Globo, Porto MORDENTI, Raul. Homo faber: para uma antropologia filosófica
revolução e b) a efetivação do projeto socialista, único escolhidas, vol, 1: Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Alegre, 1954. gramsciana. Publicado no sítio: <www.gramscitalia.it/html/
Editora Brasiliense, Xamã, 1993. mordenti.pdf>. Acesso em: 20 set. 2007.
capaz de criar uma nova sociabilidade para além e con- MARX, Karl. Le 18 Brumaire de Louis Bonaparte, Éditions
tra o capital. BOBBIO, Norberto. O Futuro da Democracia. Rio de Janeiro: Sociales Internationales, Paris, 1928. NICOLAUS, Martin. “Proletariat and middle class in Marx:
Paz e Terra, 1986. Hegelian choreography and the capitalist dialetic”, Studies on the
______. El Capital. Crítica de la Economia Política, Fondo de
Left, New York, 1967.
Notas BOUKHARINE, Nicolas. La théorie du matérialisme historique. Cultura Económica, México-Buenos Aires, 1959.
Manuel Populaire de Sociologie Marxiste, Éditions Anthropos, SILVEIRA, Juliane. “45% da Grande São Paulo já manifestou
1. Sobre isso ver KOHAN, Nestor. 2007. ______. El Capital, Libro I, Capítulo VI (Inédito). Ediciones
Paris, 1967. transtorno mental”. Folha de São Paulo, São Paulo, 7 nov. 2009. C6.
Signos, Buenos Aires, 1971.
2. Nos anos 50 e 60 do século passado a acusação era de pressa CANZIAN, Fernando. “Taxa de desemprego supera 10% nos TCHAKHOTINE, Serge. Le viol des foules par la propagande
pequeno-burguesa. ______. Misère de la Philosophie. Réponse à la Philosophie de la
EUA”. Folha de São Paulo, São Paulo, 7 de novembro de 2009. politique, Éditions Gallimard, Paris, 1952.
Misère. Réponse à la Philosophie de la Misère de M. Proudhon.
3. Na nota “Achatamento da ´classe média´ reduz desigualdade B9.
no Brasil”, a Agência DIAP, 7-8-2009 afirma: “A deterioração do CHÂTELET, François. Conferência. Les Cahiers du Centre d’
mercado de trabalho, com alta do desemprego nos setores mais Études Socialistes, nº 20, 15 de outubro de 1962.
qualificados e o aumento da informalidade, produziram um efeito
_______. Dialética, diálogo y discusión, Preguntas y Réplicas,
colateral aparentemente contraditório: a diminuição do número de
México, Fondo de Cultura Económica, 1989.
pobres no País. Na verdade, com o achatamento da ´classe média´ e
a melhora do salário mínimo, ao lado dos programas assistenciais, _______. O Livro I do Capital de Marx (Le Capital, Livre I.
houve um nivelamento por baixo do mercado de trabalho brasileiro. Marx), Textos Didáticos, nº 4, IFCH-Unicamp, Campinas,
[...] O próprio presidente do IPEA, Márcio Pochmann, disse que agosto, 2ª edição ampliada, julho de 1996.
a redução da desigualdade se deu apenas entre os trabalhadores” CHOMSKI. Noam. Manufaturing Consent. Vídeo.
(DIAP, 2009).
DIAS, Edmundo Fernandes. Políticas públicas sob o
4. Uma clara indicação do que afirmamos pode ser evidenciada pelo neoliberalismo? In. Revista da ADUNESP- Seção Sindical, agosto
aumento da taxa de desemprego nos Estados Unidos que atinge o de 2007a.
índice de 10,2% em outubro deste ano. Só em outubro perderam-se
_______. “O liberalismo e a invenção da tradição”. In
190 mil postos de trabalho (contra a taxa 9,8% de desemprego nas
LOMBARDI, José Claudinei, SANFELICE, José Luis (Orgs).
seis principais regiões metropolitana em setembro) e a afirmação de
Liberalismo e Educação em Debate. São Paulo: Autores
uma continuidade de pelo menos 22 meses consecutivos. “O índice
Associados, 2007b.
geral poderia ter sido ainda maior se 31 mil pessoas não tivessem
deixado de procurar trabalho em outubro” (CANZIAN, 2009). _______. Dinheiro, fetichismo e política: L´homme et le citoyen. O
Apesar do aumento do de-semprego nos EUA, o PIB cresceu a debate nos Anais Franco-Alemães, Novos Rumos, n. 47, jan.-mar.
uma taxa anual de 3,5% sem a criação de novos empregos o que se 2007c.
deve ao aumento da produtividade de 9,5% anual. Produtividade: _______. A Liberdade (im)possível na ordem do capital, 2ª edição
leia-se da super-exploração dos que permaneceram. revista e ampliada, Textos didáticos, nº 29, Setembro de 1999,
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp.
5. Sobre isso examine-se o stakhanovismo russo, variante do
fordismo, e, como este, um aprisionador da subjetividade dos tra- DIAP - Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar.
balhadores a uma política da qual foram excluídos. “Acha-tamento da ´classe média´ reduz desigualdade no Brasil”.
In: Agência DIAP, 7 ago. 2009. Disponível em: <http://.diap.org.
6. A criminalização, generalizada, dos movimentos sociais, assim
br/index.php/agencia-diap/10212-ipea-achatamento-da-classe-
como o “caveirão”, nos morros cariocas, é a presença constante
media-reduz-desigualdade-no-brasil>. Acesso em: 13 out.2009.
do Estado. Não nos esqueçamos que as tropas enviadas ao Haiti,
pretensamente para garantir a paz e a estabilidade naquele país é um FORD, Henry. Os Princípios da Prosperidade. Rio de Janeiro:
poderoso estágio de formação para militares destinados ao com- Editora Brand, 1954.
bate de movimentações populares, patrocinado pelo governo auto- FRIEDMAN, Milton. Capitalismo e Liberdade. São Paulo: Nova
proclamado democrático e popular. Cultural, 1988.
7. Este fenômeno não é apenas brasileiro. Para situação semelhante, GRAMSCI, Antonio. Quaderni del carcere, Giulio Einaudi
na França, ver Châtelet (1989). Editore, Turim, 1975. p. 311.

8. Sobre isso ver Tchakhotine, 1952. KOHAN, Nestor. Gramsci e Marx: Hegemonia e poder na teoria
marxista, Tempos Históricos, Volume 10, 1º semestre de 2007,

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Debates Contemporâneos

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Debates Contemporâneos Debates Contemporâneos

A atual crise do capitalismo e suas perspectivas


Marcelo Dias Carcanholo
Professor da UFF

Juan Pablo Painceira Paschoa


Doutorando em Economia - University of London, analista do Banco Central

Resumo: Este trabalho procura discutir a atual crise do capitalismo a partir do funcionamento cíclico da
acumulação de capital, mostrando que as suas características provem do desenvolvimento das contradições
próprias da etapa anterior de crescimento. Em específico, argumenta-se que a lógica do último ciclo de acu-
mulação do capitalismo contemporâneo pode ser entendida pela categoria capital fictício. Em conseqüência
disso, são feitos alguns apontamentos sobre as perspectivas do capitalismo atual.

Palavras-chave: Capitalismo; Crises; Teoria do Ciclo; Formas autonomizadas do Capital ; Capital fictício;
Desregulamentação e Flexibilização.

A
atual crise pela qual passa o capitalismo contem- de acumulação de capital, a sua trajetória cíclica. Isto
porâneo, do ponto de vista do embate teórico, tem é, sempre após uma fase de crescimento advem um
algumas serventias. Em primeiro lugar, ao atestar momento de crise e, ao mesmo tempo, posteriormente
o caráter meramente apologético das interpretações a épocas de crise, o capitalismo consegue reconstruir
teóricas hegemônicas que caracterizam estes tempos novas bases para um novo processo de acumulação
neoliberais, permitiu que estas passassem de uma fa- de capital. Do ponto de vista teórico-ideológico, isto
se de extrema arrogância para outra em que se en- coloca a descoberto duas concepções muito comuns:
contram relativamente na defensiva. Isto significa (i) aquela que acreditava (acredita) que é possível
que o neoliberalismo, quando se apresenta hoje em resolver os problemas do capitalismo com uma mera
dia, tem, no mínimo, que se desculpar por continuar operacionalização correta dos instrumentos de política
defendendo idéias, políticas, práticas que, de alguma econômica, de forma que as crises só ocorrem por falhas
maneira, levaram a economia mundial ao ponto em nesta última, e que, se bem administrada, poderíamos
que se encontra. viver em um capitalismo pós-cíclico, como alguns o
Em segundo lugar, a atual crise serve para relembrar chamam; (ii) aquela que aguarda, pacientemente ou
os esquecidos que, faz parte da natureza do processo não, a crise terminal do capitalismo, a partir da qual

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Debates Contemporâneos Debates Contemporâneos

todos os sonhos socialistas se realizariam, como em desenvolvidas dentro do mesmo que, intensificadas, maior demanda consiga realizar o crescente valor pro- 0,2% em 1975 (MENDONÇA, 1990, p. 44).
um passe de mágica. Ao contrário destas visões, uma levaram, em última instância, à crise atual. duzido. O que constrói essas barreiras e, portanto, Os anos de 1976 e 1977 mostram uma aparente
interpretação teórica correta do capitalismo tem que Sendo assim, voltemos brevemente ao capitalismo se constitui a causa das crises é a contradição entre o recuperação da economia mundial, sendo que “a
reconhecer sua natureza cíclica. dos anos 60/70 do século passado. Antunes (2000, caráter social da produção e a característica privada da inversão das tendências começa a produzir-se já no
Uma teoria do ciclo deve, portanto, explicar duas p. 29-30) enumera as características da grande crise apropriação capitalista3. final de 1975 e acentua-se nos anos de 1976 e 1977.
coisas. Inicialmente, ela deve fornecer uma explicação capitalista dessa época: Desta forma, as crises capitalistas se definem como No final deste último ano, os níveis de produção an-
dos pontos de inflexão, isto é, do ponto de ruptura que (1) forte redução das taxas de lucro, em virtude da uma superacumulação, isto é, uma superprodução de teriores à crise haviam sido atingidos e até mesmo
leva à crise e da retomada do crescimento econômico. elevação do preço da força de trabalho (custo salarial), capital incapaz de continuar obtendo seus níveis de ultrapassados” (MENDONÇA, 1990, p. 55).
Em segundo lugar, a teoria deve mostrar como se dá o conquista obtida no período do Welfare State2; lucratividade anteriores. Superprodução de capital e re- Entretanto, a economia mundial volta a se retrair
processo cumulativo que propaga os efeitos das duas (2) esgotamento do padrão de acumulação taylo- dução da taxa de lucro são características das crises de em 1980, quando ainda não tinha se recuperado da
inflexões, tornando-os atuantes durante certo período. rista/fordista de produção; superacumulação de capital. Além do mais, essas duas crise de 1974, tendo os seus efeitos alastrados durante
Brevemente, uma teoria para se enquadrar na tradição (3) hipertrofia da esfera financeira; características, dado o processo de concorrência inter- a primeira metade dos anos 80.
do ciclo deve explicar os pontos de inflexão e mostrar (4) aumento da concentração de capitais (fusões e capitais, provocam uma expansão da concentração/ Esse período de crise, nos anos 70, tanto no biênio
porque a economia leva algum tempo para chegar ao aquisições), o que tende a aumentar a pressão sobre a centralização do capital, que se transforma em um 1974-1975 como na crise iniciada em 1980, mostra
outro ponto de inflexão, isto é, porque a crise le-va taxa de lucro; crescimento da composição orgânica média do capital duas especificidades em relação às crises clássicas da
algum tempo até chegar à depressão e porque a pas- (5) crise do Welfare State e, em específico, crise fis- (produtividade média), reforçando o efeito de redução economia capitalista mundial. Por um lado, a inflação
sagem desta para a retomada também leva tempo. cal do Estado; da taxa de lucro do sistema. mantém-se e acentua-se, mesmo nos
Não bastasse isto, há uma outra exigência1 para (6) privatizações, desregulamentação e flexibilização As crises cíclicas do modo de produ- Desta forma, as períodos de recessão. Por outro lado, a
uma teoria do ciclo. O fornecimento dos processos produtivos e dos merca- ção capitalista têm esse comportamen- crises capitalistas se recuperação dentro da crise cíclica não
de uma explicação para os pontos de Só é possível entender a dos. to. Apesar de alguns analistas terem definem como uma se processa mais nos moldes tradicionais,
inflexão é uma condição necessária, mas natureza da crise, pela Nessas características misturam-se considerado superado esse movimento superacumulação, isto em específico, o desemprego não para
não suficiente. Além disso, é preciso qual passa atualmente formas de manifestação da crise, res- em meados do século passado , foi exa-
4
é, uma superprodução de aumentar, mantendo o seu caráter
que o ponto de inflexão seja uma o capitalismo, a partir postas do capital a essa crise, assim como tamente isso o que voltou a ocorrer, com crônico. A taxa de desemprego na Co-
de capital incapaz de
conseqüência necessária dos efeitos elementos explicativos de seu apare- certa força, no final dos anos 60 e início munidade Econômica Européia era de
das características (re) continuar obtendo
provocados pela inflexão imediatamente cimento. dos 70. apenas 3,2% em 1970, passa para 5,4%,
construídas por este para seus níveis de
anterior. Mais claramente, podemos As crises cíclicas do capitalismo são o Embora algumas das principais em 1975, mantém esse valor, em 1977,
exemplificar dizendo que a retomada
sair da sua última grande resultado do desenvolvimento das suas economias da acumulação mundial já lucratividade anteriores. sobe para 6,4%, em 1981, e atinge 8,2%,
deve ser explicada através dos efeitos crise, a saber, a crise que próprias contradições. São o momento de sinalizassem retrações antes, o biênio Superprodução de em 1983.
provocados pela crise, e esta última se abateu na economia irrupção da contradição entre a produção 1974-1975 é claramente o momento capital e redução da Assim, tanto em 1974-1975 como
deve ser conseqüência dos efeitos do mundial no final dos de capital em todas as suas formas (capital- culminante da crise, onde as economias taxa de lucro são em 1980 são repetidas as características
crescimento econômico induzido pela anos 60 e início dos 70 dinheiro, capital-produtivo e capital-mer- passam a apresentar, inclusive, taxas características das crises da crise: forte redução da produção e
retomada. Esta exigência metodológica do século passado. cadoria) e a realização/apropriação dos negativas de crescimento. Quatro des- de superacumulação do investimento, aliada ao aumento
é que define a existência do ciclo como valores produzidos e, ao mesmo tempo, taques nesse movimento devem ser de capital. da inflação e do desemprego. Entre-
algo regular e necessário. de recomposição da unidade contraditória entre os realizados. Em primeiro lugar, Estados tanto, a crise dos anos 80 mostra uma
dois pólos, produção e realização (apropriação – cir- Unidos, em 1970, e Alemanha Ocidental, em 1971, já especificidade, em relação à de 1974-1975: a recu-
As crises cíclicas como leis de funcionamento do culação). A recomposição da unidade é justamente o mostravam fortes retrações econômicas. Em segundo peração não ocorreu mais de forma rápida como em
capitalismo e a crise dos anos 70 restabelecimento das condições de valorização, a partir lugar, a principal economia do centro da acumulação 1976-1977. Os anos 80 são iniciados com uma crise
Se o anteriormente apresentado faz algum sentido, das próprias conseqüências da crise e, portanto, o que capitalista, os Estados Unidos, apresentaram taxas ne- que mostra uma forte tendência de estagnação da
só é possível entender a natureza da crise, pela qual passa fornece à crise uma característica cíclica. gativas de crescimento nos dois anos (1974 e 1975). economia capitalista mundial.
atualmente o capitalismo, a partir das características Sendo assim, as mesmas leis de funcionamento do Em terceiro lugar, o Reino Unido apresentou a mais Como se deu a resposta do capital? De que forma a
(re)construídas por este para sair da sua última grande modo de produção capitalista levam a uma produção abrupta retração em 1974 (-7,0%), depois de apresen- lógica mundial de acumulação capitalista foi reposta?
crise, a saber, a crise que se abateu na economia mundial ilimitada de valor, no impulso de acumulação amplia- tar um (aparente) forte crescimento no ano anterior Viu-se que a crise dos anos 70-80 apresentou as
no final dos anos 60 e início dos 70 do século passado. da, a um consumo (demanda) abundante, na medida (7,6%). Por último, merece destaque a forte retração no características de redução nas taxas de lucro e superpro-
Estas características permitirão entender, não apenas a em que sua expansão leva consigo à expansão dos conjunto dos países da Organização para Cooperação dução do capital. A resposta à primeira característica
forma como o processo de acumulação de capital se mercados, e à constituição de barreiras à realização e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que cresceu teve um duplo aspecto. Em primeiro lugar, como os
processou após isto, mas, também, as contradições do valor produzido. Essas barreiras impedem que a 6,0% em 1973, apenas 0,7% em 1974 e retrocedeu investimentos não eram expandidos em função da baixa

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lucratividade, conforme a argumentação convencional riferia para as matrizes no centro7. Já a expansão dos ding no início do século XX8. portador de juros.
e de algumas mais heterodoxas, tratava-se de garantir mercados está inserida na pressão pela abertura co- A autonomização/substantivação das formas do O capital portador de juros emerge quando, se-
a recomposição dessa lucratividade, em três frentes. mercial, principalmente dos mercados periféricos, em capital, dentro do seu processo mais global de circulação, gundo Marx, o capital, enquanto capital, se torna
Por um lado, era necessário reduzir os custos salariais, processos como o NAFTA e a ALCA. faz parte da própria lógica de seu funcionamento, isto é, mercadoria, isto é, quando o dinheiro, enquanto a
consideravelmente elevados nos tempos de Welfare Assim, enquanto o processo de reestruturação o processo de acumulação do capital total requer, para forma por excelência de manifestação do valor-capital,
State. Por outro lado, demandou-se a redução da produtiva se encarregou da rotação do capital, o a efetivação de suas características, a autonomização adquire um valor de uso adicional – além daqueles
tributação sobre investimentos, ou melhor, sobre os neoliberalismo, como aspecto político, ideológico e de suas formas. É daí, por exemplo, que surge o capital próprios do dinheiro, enquanto mera mercadoria – ou
rendimentos que podem financiar investimentos, os econômico, teve o papel de garantir as condições de comercial como a substantivação das funções do capital, seja, o valor de uso de funcionar como capital11. Assim,
lucros. Adicionalmente, implementou-se um processo lucratividade interna (desregulamentação e flexibili- especificamente na fase da circulação de mercadorias. surge a possibilidade de que o proprietário de um
de reestruturação produtiva, baseado na aceleração zação dos mercados – principalmente o de trabalho) Nesta última, o capital inicia seu processo comprando dinheiro, com a potencialidade de entrar no processo de
da rotação do capital, de forma que, para um mesmo e externa (pressão por desregulamentação e abertura mercadorias (meios de produção e força de trabalho) circulação do capital, abra mão de exercer essa poten-
período, fosse possível a ampliação da produção do dos mercados comerciais e financeiros). Na verdade, que, após o processo produtivo, propiciarão como cialidade, mas empreste esse valor-capital, em potência,
excedente, mantendo-se o volume de capital aplicado, reestruturação produtiva e neoliberalismo são duas resultado uma nova mercadoria, acrescida de mais- para outro indivíduo que, de fato, ingresse com o vo-
o que eleva as taxas de lucro nesse período5. Por faces de uma mesma resposta do capital à sua própria valia, que precisa ser vendida/realizada, novamente, lume de dinheiro necessário, obtido no empréstimo,
isso, a resposta do capital a esse primeiro aspecto de crise, nos anos 70. no processo de circulação de mercadorias. Justamente no processo de circulação capitalista. O proprietário
sua própria crise foi: (i) pressão por A resposta encontrada para a crise por isso, o capital comercial se autono- do dinheiro (mercadoria-capital) lança
desregulamentação e flexibilização dos A resposta encontrada dos anos 70 perpassa, pois, a década de miza pelas formas características da A autonomização/ na circulação o seu capital portador de
mercados, em especial do mercado de para a crise dos anos 80 e atinge seu ápice nos anos 90: neo- circulação, mercadorias e dinheiro, substantivação das juros, uma vez que estes constituirão o
trabalho; (ii) política tributária regressiva, 70 perpassa, pois, a liberalismo, expansão do capital fictí- constituindo o capital de comércio de formas do capital, dentro preço definido na transação entre o ca-
desonerando os altos rendimentos; e (iii) década de 80 e atinge cio, transferência do excedente produ- mercadorias (responsável basicamente do seu processo mais pitalista-proprietário (prestamista) e o
redução do tempo de rotação do capital. seu ápice nos anos zido na periferia para o centro (em es- pelo processo de realização do valor- global de circulação, faz capitalista-em-função (emprestador),
O outro aspecto da crise, a super- 90: neoliberalismo, pecial para os EUA), são as marcas da mercadoria do capital global) e o capital tornando o capital uma mercadoria.
parte da própria lógica
produção de capital, significava que existia expansão do capital década de 90. E, tais marcas se mantêm de comércio de dinheiro, responsável Isso acaba definindo um mercado
de seu funcionamento,
um excesso de capital que não conseguia neste início de século. pelas funções técnicas do dinheiro, como específico, onde essa mercadoria-capi-
fictício, transferência do isto é, o processo de
valorização nos moldes “tradicionais”, realizar pagamentos, responsabilizar-se tal é comercializada com base nos juros
excedente produzido na acumulação do capital
isto é, por meio da produção crescente de Categoria e Dialética do Capital por recebimentos - inclusive no papel definidos nessa transação. Os capita-
periferia para o centro total requer, para a
valores, com posterior venda/realização, Fictício de cobranças de dívidas – funcionando listas monetários (proprietários da
em mercados também crescentes. Era (em especial para os Dentro do conjunto de fatores que como uma verdadeira “tesouraria” do efetivação de suas mercadoria-capital) ofertam, por assim
preciso encontrar outra esfera para que EUA), são as marcas da constitui a resposta do capitalismo à sua capital industrial .
9
características, dizer, essa mercadoria especial, enquanto
esse capital produzido em excesso conse- década de 90. E, tais própria crise dos anos 70 é fundamental Esse capital de comércio de dinheiro, a autonomização os capitalistas, que funcionarão como
guisse valorizar-se. Não é por acaso que marcas se mantêm neste destacar a expansão do capital fictício. conforme passa a reunir grandes montan- de suas formas. industriais, demandam esse dinheiro. A
os processos de desregulamentação, início de século. Isto basicamente por duas razões. Em tes de capital-dinheiro, que necessita partir disso, duas conclusões são impor-
abertura e internacionalização das fi- primeiro lugar, porque o processo de realizar aquelas funções específicas do comércio de tantes para nossos objetivos aqui.
nanças tenham sido acelerados nesse momento. A desregulamentação, a abertura e a liberalização dos dinheiro, adquire a propriedade de reunir uma massa Em primeiro lugar, note-se que – como todas as
expansão do capital fictício, dentro do que alguns mercados financeiros fizeram com que se acelerasse a de dinheiro tal que se abre a possibilidade do comércio outras formas autonomizadas do capital (que não o
chamam de financeirização, em busca da apropriação formação de novas formas de capital fictício, elevando a de crédito, isto é, do empréstimo de determinada capital produtivo em si), como o capital de comércio de
financeira, cada vez menos baseada no processo direto participação deste no capital global. Em segundo lugar, quantidade de dinheiro. No momento do pagamento, mercadorias, capital de comércio de dinheiro, capital
de produção de mercadorias, é a resposta do capital a e como conseqüência do primeiro, a característica esse valor-dinheiro traz consigo a cobrança de uma bancário – o capital portador de juros não participa
esse outro aspecto de sua própria crise6. principal do capitalismo contemporâneo tem sido jus- quantia adicional, na forma de juros. Assim, nesse sen- diretamente do processo produtivo e, portanto, não
A partir dos anos 80, a tentativa de recuperação da tamente a lógica do capital fictício. tido, o desenvolvimento/desdobramento dialético do produz diretamente mais-valia12. Entretanto, são
acumulação em escala mundial ganhou esses contornos. Em primeiro lugar, é preciso destacar que a catego- capital de comércio de dinheiro dá origem ao capital formas específicas de capital e, consequentemente,
A transferência de recursos da periferia para o centro ria capital fictício, desenvolvida por Marx no livro III bancário, responsável por esse comércio de crédito, de movidas pela forma D – D´, isto é, têm, em sua natu-
ganhou maior roupagem com a crise da dívida externa de O Capital, não pode ser confundida – de forma forma que “tomar dinheiro emprestado e empresta- reza, o objetivo final de auferir mais-valor ao final de
nos países periféricos, crise esta que se alastrou nos alguma – com a noção corriqueira do que se conven- lo torna-se seu negócio especial” (MARX, 1988, p. seu processo, em relação ao montante inicial. Assim,
anos 90, e com a remessa de lucros e dividendos que cionou chamar de “capital financeiro”, ou ainda com 287). Ao mesmo tempo, o capital bancário10 pode ser essas formas autonomizadas do capital não produzem
os capitais transnacionais realizavam, das filiais na pe- a categoria capital financeiro, desenvolvida por Hilfer- entendido como uma passagem lógica para o capital diretamente mais-valia, mas participam do processo

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de apropriação da mais-valia, globalmente produzida global, funções que um conjunto grande de pequenos se um montante de capital por intermédio daquilo lo pode ser revendido inúmeras vezes, a partir da
pelo capital. A elevação da fração do capital global volumes de capital monetário não conseguiria exercer, que se chama capitalização. Um exemplo ajuda a en- mesma taxa de juros, formando várias propriedades
inserida nessa lógica implica uma parcela crescente de sem essa centralização. tender. Um determinado capital monetário de US$ (direitos de participação), com base em apenas um
capital que não produz diretamente mais-valia. Esse De onde vem o capital emprestável para o capital 500, aplicado periodicamente a uma taxa de juros de montante de capital inicial, que pode nem completar
movimento disfuncional - para utilizar algum termo bancário, a sua “matéria-prima”? Segundo Marx, 5% por período, apropriar-se-á, por período, de um o seu processo de circulação. Por isso, do ponto de
representativo da idéia – redunda na redução da taxa quatro seriam essas fontes: (i) capital monetário, que montante de juros igual a US$ 25. A generalização vista do capital global, trata-se de capital fictício. Já,
média de lucro do sistema, pois uma mesma massa de todo produtor/comerciante mantém como fundo dessa lógica faz com que qualquer indivíduo que do ponto de vista individual, trata-se de capital para
mais-valia terá que ser agora distribuída (apropriada) de reserva, ou que recebe como pagamento (função perceba um rendimento periódico de US$ 25 apareça seu proprietário, uma vez que este, de fato, possui o
por uma massa de capital maior. Por outro lado, essas típica do capital de comércio de dinheiro, reunir o como proprietário de um capital no valor de US$ 500, direito de apropriação sobre a mais-valia produzida.
formas autonomizadas liberam capital produtivo, que valor-dinheiro); (ii) depósitos dos capitalistas mone- ainda que esse capital, de fato, não exista. Isso porque, Na eventualidade do detentor do título não querer
antes deveria gastar tempo nas funções, especificamente tários (capital-propriedade), para empréstimo; (iii) realmente, uma renda de US$ 25, capitalizada a uma esperar o fim do prazo de maturidade do título, ou
de comércio e financiamento, ao mesmo tempo em rendimentos, oriundos de aplicações, (novamente) taxa de juros de 5%, é igual a um montante de US$ 500, simplesmente desejar repassar esse direito, ele pode,
que reduzem o tempo de rotação do capital global, depositados nos bancos; e, (iv) pequenas somas (de todas uma vez que 25 / 5% é igual a 500. Mas, efetivamente, de modo usual, revendê-lo no mercado de títulos
permitindo, indiretamente, uma maior produção as classes sociais, inclusive trabalhadoras!) na forma de o rendimento de US$ 25 não provém da remuneração (capitais), transformando em dinheiro o seu capital
de mais-valia por capital aplicado. Esse movimento depósitos/poupanças, que não têm a capacidade de de um capital já existente, que só se constituiria se esse fictício, e repassando este para terceiros. Assim, se o
(funcional para a acumulação de capital global) permite atuar como capital portador de juros, por si sós. Deve- rendimento fosse capitalizado13. Esta é capital é fictício, do ponto de vista global,
a elevação da taxa média de lucro. A se ressaltar, desde já, que grande parte a base categorial do capital fictício, um Note-se - embora a ele é real para o seu proprietário e, além
substantivação das formas do capital é, A apropriação de uma desse capital monetário é depositada nos desdobramento dialético e, por isso, tentação possa ser quase disso, sua lógica interfere na dinâmica da
como sempre, um processo dialético, parcela da mais-valia, bancos em troca de pagamento de juros com autonomia categorial, em relação irresistível - que o capital acumulação global.
funcional e disfuncional, ao mesmo na forma de juros, e, portanto, seus proprietários auferem ao capital portador de juros, que por sua portador de juros não é Essa interferência é, como a própria
tempo, para o processo de acumulação é a lógica do capital um valor para o qual não tiveram ne- vez, já era um desenvolvimento dialético dinâmica capitalista, contraditória, dia-
capital fictício, ainda que
de capital global. monetário (portador nhuma contribuição direta em sua pro- do capital bancário e do comércio de lética. A dialética do capital fictício está
possa ser encontrado,
Em segundo lugar, com o desen- dução; é uma apropriação de mais-valia, dinheiro. Esses rendimentos periódicos, relacionada a sua (dis)funcionalidade
de juros), de forma no primeiro, o germe
volvimento do sistema de crédito e do que não foi diretamente produzida. Se o base para o capital fictício podem provir para o processo de acumulação de capi-
que o seu proprietário da lógica do último. Isso
capital bancário, os proprietários do sistema de crédito vai redirecionar esse de várias fontes, como títulos de crédito, tal. Como todo o processo de autono-
capital-mercadoria não precisam se “rela-
pode auferir juros capital monetário, ou não, para o finan- porque o capital portador
ações, e mesmo salários, ou melhor, a mização das formas do capital, o capital
cionar” diretamente com os demandan- periodicamente pelo ciamento do capital-função (aquele parcela deles que é aplicada na forma de de juros tem uma relação fictício apresenta uma funcionalidade
tes desse financiamento. Esse sistema simples fato de conceder que efetivamente procura produzir capital monetário. direta com o capital para a acumulação de capital. A sua cen-
de crédito, constituído e ampliado no o uso (efetivo, produtivo) mais-valia), trata-se de uma autonomia Note-se - embora a tentação possa produtivo, de forma que tralização por parte do capital bancário
capital bancário, faz essa intermediação de seu capital relativa, adquirida pelas formas do capi- ser quase irresistível - que o capital sem o seu financiamento, pode permitir o funcionamento de ativi-
entre o verdadeiro prestamista (capital- para outrem. tal, que complexifica ainda mais o seu portador de juros não é capital fictício, dades produtivas que, de outra forma,
este último, que constitui
proprietário) e o emprestador (capital- desenvolvimento contraditório. ainda que possa ser encontrado, no teriam que esperar muito tempo para
capital real, nem poderia
função) do capital monetário. Define-se o negócio Dessa forma, a apropriação de uma parcela da mais- primeiro, o germe da lógica do último. serem implementadas. Isso permite a
propriamente do capital bancário (tomar dinheiro valia, na forma de juros, é a lógica do capital monetário
se concretizar.
Isso porque o capital portador de juros maior acumulação global de capital, a re-
emprestado e emprestá-lo a outrem). Evidentemente, (portador de juros), de forma que o seu proprietário tem uma relação direta com o capital produtivo, de dução do tempo de rotação do mesmo e, portanto, o
por não acessar diretamente o processo produtivo (de pode auferir juros periodicamente pelo simples fato forma que sem o seu financiamento, este último, que aumento da taxa de lucro por período.
mais-valia), o lucro deste negócio consiste, em geral, de conceder o uso (efetivo, produtivo) de seu capital constitui capital real, nem poderia se concretizar. O Todavia, o capital fictício possui uma “disfunciona-
em tomar emprestado a juros mais baixos do que para outrem. O desenvolvimento e a complexificação capital fictício diz respeito a títulos de crédito que, se lidade” que não pode ser negligenciada. O capital
aqueles a que empresta. Ainda que não contribua, di- dessa lógica faz com que todo rendimento obtido por um lado, têm suas cotações oscilando com relativa fictício, do ponto de vista individual, por si só não é
retamente, para a produção de mais-valia, o capital a partir de uma determinada taxa de juros apareça independência do capital originário (quando este exis- capaz de produzir valor excedente, mais-valia, pelo
bancário, que se especializa no comércio de dinheiro e como o resultado da propriedade de um capital, isto te), de forma que o seu valor total pode superar em simples fato de que não entra no processo produtivo.
no gerenciamento/intermediação do capital monetário é, da propriedade de um capital portador de juros. muito o valor do capital industrial que lhe deu origem, O que ele faz é possibilitar/facilitar o financiamento
(capital portador de juros), centraliza toda a massa de Do ponto de vista do indivíduo, trata-se realmente de por outro lado, especulam com o que pode ocorrer do capital produtivo, em alguns momentos específicos.
capital monetário, permitindo ganhos de escala para capital para o seu proprietário, dado que ele consegue no futuro, uma vez que a base de sua remuneração é A sua lógica diz respeito à apropriação do excedente
o sistema, de forma a financiar maiores volumes de um rendimento em determinado período. A partir des- a participação em lucros/rendimentos futuros, que (via juros), não à sua produção, embora ele contribua
capital-função e diminuir o tempo de rotação do capital sa remuneração, para uma certa taxa de juros, obtém- podem nem se realizar. Além do mais, o mesmo títu- indiretamente – via rotação do capital global – para

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o aumento da acumulação. Assim, se volume de dinheiro, emprestado ori- A crise atual e suas conjunturas recentes em última instância, da economia mundial, teve como
a lógica da apropriação de mais-valia é Por um lado, a ginalmente ao Estado, em função de Esse movimento dialético do capital fictício, re- base esse processo, em uma espiral “virtuosa” riqueza
alastrada/expandida, em detrimento da funcionalidade do gastos realizados no passado. Como forçando a processualidade cíclica própria da economia (imobiliária)-consumo-produção-emprego-renda-
produção do excedente, uma parcela cada capital fictício permite o próprio Estado não financiou esses capitalista, é que nos ajuda a entender as conjunturas riqueza-consumo...
vez maior do capital global procurará o prolongamento da gastos, naquele momento, foi obrigado recentes, tanto de alta no mercado de crédito interna- Entretanto, já no momento de alta do ciclo perce-
apropriar-se de um valor que está sendo fase ascendente do a lançar títulos de dívida pública. Trata- cional (2002-2007), quanto de crise generalizada, que bia-se o caráter especulativo do processo auto-expan-
produzido cada vez menos. O resultado ciclo, possibilitando se de capital fictício, pois os títulos se desdobra a partir do mesmo mercado de crédito sivo, uma vez que a elevação dos preços dos imóveis
final é a redução da taxa de lucro e o a redução do tempo representam capital (gasto) passado; internacional, a partir de 2007. permitia a ampliação dos empréstimos para novas
aprofundamento do comportamento a soma emprestada originalmente ao Enquanto a funcionalidade do capital fictício para compras de imóveis, que voltavam a elevar os preços
de rotação do capital
cíclico da crise. Estado, quando da compra do título, a acumulação mundial de capital prevaleceu, esta dos imóveis, e assim por diante. Enquanto o ciclo de
global e a elevação
Por um lado, a funcionalidade do já não existe. A segunda forma clássica apresentou uma relativa consistência, no período alta na liquidez e no crédito internacionais permitia e
capital fictício permite o prolongamento da taxa de lucro. Por de capital fictício são as ações, que entre 2003 e 2007, conforme a tabela 1. Entretanto, chancelava os problemas conjunturais de liquidez dos
da fase ascendente do ciclo, possibili- outro lado, quando sua representam direito sobre a apropriação justamente a partir de 2007, essa fase de relativo tomadores de empréstimos, essa bolha especulativa
tando a redução do tempo de rotação lógica individual de futura da mais-valia que, por ventura, crescimento da economia mundial cessa, apresentou esse caráter “virtuoso” pa-
do capital global e a elevação da taxa de apropriação se expande, seja produzida pela empresa em questão. em razão do estouro da crise que ora O alto crescimento das ra a economia americana e mundial,
lucro. Por outro lado, quando sua lógica a fase descendente Ora, no longo prazo, em termos de seu vivenciamos. concessões de hipotecas dentro de um processo, como visto, de
individual de apropriação se expande, a (crise) do ciclo também objetivo originário, a ação se constitui A atual crise internacional teve sua no mercado subprime e funcionalidade do capital fictício para a
fase descendente (crise) do ciclo também é aprofundada. A sobre a perspectiva (expectativa/espe- irrupção no mercado imobiliário norte- o aumento do fluxo de acumulação do capital total.
é aprofundada. A “disfuncionalidade” do
“disfuncionalidade” do culação) de um lucro (dividendo, para americano, sobretudo, no segmento capital de investidores Mas, a partir de 2004, os limites desse
capital fictício amplia as potencialidades ser mais exato) futuro, que pode não denominado de subprime, e o movimen- estrangeiros mais que processo começaram a se manifestar, de
capital fictício amplia as
da crise. A dialética do capital fictício, ocorrer. Ainda assim, no curto prazo, to cíclico não só desse mercado em contrabalançaram alguma forma, com o inicio do processo
potencialidades da crise. de alta da taxa de juros americana. As-
com sua (dis)funcionalidade, comple- o valor desses papéis oscila em função específico, mas também da economia
o efeito deste inicial
xifica/amplia a tendência cíclica do pro- das flutuações das taxas de juros de mundial nos últimos anos se relaciona à sim mesmo, o alto crescimento das
aumento da taxa de
cesso de acumulação de capital. curto prazo, sendo que, geralmente, a cotação dessas lógica do capital fictício. concessões de hipotecas no mercado
As formas clássicas do capital fictício, analisadas por ações é superior ao valor do capital produtivo, em A expansão nesse mercado imobiliá-
juros, sob as condições subprime e o aumento do fluxo de capi-
Marx em O Capital, são a dívida pública e as ações14. que foi transformado o dinheiro, e oscila com relativa rio se dá, basicamente, pelo crescimen- gerais de crédito na tal de investidores estrangeiros mais que
A primeira diz respeito a títulos que representam um independência (especulativa) frente a ele. to na captação de empréstimos bancá- economia americana. contrabalançaram o efeito deste inicial
rios via crédito hipotecário . O cres-
15 Além disso, o caráter aumento da taxa de juros, sob as condi-
Tabela 1
cimento do mercado imobiliário, com previsível da tendência ções gerais de crédito na economia ame-
Taxas de crescimento real do PIB: 2001-2007 (em %) base nesse tipo de financiamento, de subida da taxa de ricana. Além disso, o caráter previsível
Região/país 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 propiciou a elevação dos preços dos da tendência de subida da taxa de juros
juros americana também
Mundo 2,5 2,8 3,6 4,9 4,4 5,0 4,9 imóveis, o que, por sua vez, e em um americana também contribuiu para ate-
contribuiu para atenuar
Países desenvolvidos 1,2 1,6 1,9 3,2 2,6 3,0 2,7 efeito auto-expansivo, possibilitou nuar os efeitos.
- Alemanha 1,2 0,0 -0,3 1,1 0,8 2,9 2,5
os efeitos.
o refinanciamento das hipotecas de Em meados de 2006, o processo come-
- EUA 0,8 1,6 2,5 3,6 3,1 2,9 2,2
uma forma que o montante refinanciado de recursos ça a emitir os seus primeiros sinais de esgotamento,
- Japão 0,2 0,3 1,4 2,7 1,9 2,4 2,1
permitia tanto o pagamento dos débitos anteriores com a redução da taxa de crescimento do crédito ao
- Área do Euro 1,9 0,9 0,8 2,1 1,6 2,8 2,6
quanto recursos adicionais utilizados para novas consumo e o leve aumento da inadimplência, que afe-
Países em desenvolvimento 3,8 4,7 6,2 7,5 7,1 7,8 7,9
aquisições de imóveis, impulsionando ainda mais taram negativamente a tendência do preço dos imóveis.
- África 4,9 6,1 5,3 6,5 5,7 5,9 6,5
o efeito auto-expansivo de elevação dos preços dos O aumento da inadimplência é explicado em grande
- América Latina e Caribe 0,7 0,4 2,1 6,2 4,6 5,5 5,6
imóveis, o crescimento do mercado hipotecário, e parte pelo reajuste das taxas de juros do financiamento
- Brasil 1,3 2,7 1,1 5,7 3,2 3,8 5,4
sua implicação de elevação do endividamento dos to- para taxas de juros de mercado, que ocorre, exatamen-
- México 0,0 0,8 1,4 4,2 2,8 4,8 3,3
madores desses empréstimos. Esse processo implicava te, no momento em que as taxas de juros básicas dos
Ásia 5,8 6,9 8,1 8,6 9,0 9,6 9,7
o crescimento do consumo das famílias americanas, EUA estavam subindo. Com isso, a eclosão da crise do
- China 8,3 9,1 10,0 10,1 10,4 11,1 11,4
- Índia 3,9 4,6 6,9 7,9 9,1 9,7 9,2
em função do acúmulo de riqueza em função da alta setor imobiliário era uma questão de tempo.
do mercado imobiliário, expressa nos maiores preços O momento de alta no ciclo de liquidez/crédi-
Fonte: FMI, World Economic Outlook Database, 2008. dos imóveis. O crescimento da economia americana e, to internacional começou a mostrar sinais de retra-

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ção, o que acaba (e acabou) elevando as taxas de ju- passa a dominar todas as esferas do capitalismo con- de suas contradições, o que possibilita excessivamente nos últimos tempos?
ros, aumentando o peso do serviço das dívidas dos temporâneo, de forma que, quando passa predominar ao ser humano tomar consciência de A conclusão é clara: a Procura-se preservá-lo o máximo
tomadores de empréstimo, o crescimento da inadim- o caráter de disfunção do capital fictício para o capital sua necessidade de transformação. Se saída do capital para a possível. Esse é o significado do neo-
plência16, induz a resposta do mercado imobiliário, global – o que se manifesta na redução das taxas de ela ocorrerá ou não, só a história nos sua própria crise é fazer reformismo que se constrói. Mas esse
retração da oferta de crédito imobiliário, redução dos lucro -, isto perpassa todas as formas autonomizadas contará. com que a maior parte é o “melhor” dos casos. E, se o marco
preços dos imóveis, da riqueza que, por sua vez, expande do capital, ainda que de forma desigual. Assim, não Em segundo lugar, quais são as for- da conta seja paga pelos regulatório não contiver a lógica es-
a inadimplência e, com isso, o caráter “virtuoso” do é propriamente que a crise financeira tenha contami- mas ensaiadas para a saída desta crise? peculativa, o que parece mais provável?
trabalhadores.
processo se transforma, em razão da mesma lógica, em nado o lado real da economia. Este último já estava O capitalismo, como sempre, já está Permanece a lógica do capital fictício,
Se estes não construírem
“vicioso”. O caráter disfuncional da lógica do capital integralmente inserido na lógica do capitalismo con- ensaiando sua “nova” reconfiguração. sua massa permanecerá se valorizando
fictício se manifesta com toda sua força, e o processo temporâneo, a lógica do capital fictício. A crise se tor-
e impuserem a sua
Do ponto de vista da manifestação mais de maneira fictícia, jogando toda a sua
riqueza (imobiliária)-consumo-produção-emprego- na – porque sempre foi – geral para todo o capital, e imediata da crise, a desvalorização do própria saída, desvalorização para frente e em maior
renda-riqueza-consumo volta a operar, só que com mundial, em maior grau para aquelas economias que capital fictício, o que os governos de é isto que veremos nos escala. “Controla-se” a crise hoje para
o sinal invertido. Essa crise se manifestou primeiro17 mais se acoplaram a essa lógica. quase todos os países fazem é entregar próximos anos, postergá-la, e em maior intensidade.
no segmento do mercado com mais risco, que é uma quantidade enorme de recursos até com uma Mas esta é a saída do capital para a
aquele representado por tomadores Apontamentos para o desenrolar monetários – em grande parte saídos da certa aparência de sua crise, apenas do ponto de vista de
com histórico de inadimplência. Deto- Não é propriamente da crise própria arrecadação fiscal – para suavizar sua circulação. Qualquer que seja sua
“consentimento social”.
nada a crise, o seu processo de expansão que a crise financeira Quais serão os novos desdobramentos essa enorme desvalorização do capital conotação político-ideológica (mais
e contágio se dá pelo fato de que, ao tenha contaminado o conjunturais da crise? Quando ela ter- fictício. Isso, na prática, significa sancionar as posições conservadora, ou mais reformista), a proposta capi-
aumentar a inadimplência, os credores lado real da economia. mina e, portanto, quando começa uma especulativas que foram tomadas, com a advertência talista para a crise terá que passar pelo aumento na
passam a sofrer também com problemas Este último já estava nova fase de crescimento? É possível es- de que essa lógica não seria mais permitida, em função produção do excedente (mais-valia). E como se obtém
de liquidez e solvência, uma vez que integralmente inserido ta nova fase? Em caso negativo, o que de um novo marco regulatório para esses mercados. isso? A elevação da taxa de mais-valia significa que, do
os ativos que eles tinham a receber são na lógica do capitalismo virá depois, o socialismo? Se essa regulamentação for construída, e se mostrar valor produzido no processo produtivo, uma maior
desvalorizados e, portanto, seus com- Qualquer resposta mais completa, relativamente eficiente, o significado social dessa “al- fração é apropriada pelo capital e, portanto, uma menor
contemporâneo, a lógica
promissos financeiros podem não ter além de apressada, se torna indevida, no ternativa” será compactuar com o que foi feito até fração pelos trabalhadores. A conclusão é clara: a saída
do capital fictício. A
mais garantia de pagamento. Com isso, sentido de que reconhecer a natureza agora, prometendo um novo controle para o futuro. do capital para a sua própria crise é fazer com que a
esses credores (no caso específico da
crise se torna – porque cíclica da acumulação capitalista não E quanto ao capital fictício, acumulado e valorizado maior parte da conta seja paga pelos trabalhadores.
crise do mercado subprime, os bancos sempre foi – geral é sinônimo de determinar a priori os Se estes não construírem e impu-
financiadores das hipotecas e detentores para todo o capital, e momentos exatos das reversões, nem serem a sua própria saída, é isto
de derivativos imobiliários), são obri- mundial, em maior grau tampouco o tempo de suas durações. que veremos nos próximos anos,
gados a vender (parte de) seus ativos para aquelas economias Ainda assim, algumas coisas podem até com uma certa aparência de
em troca de dinheiro para, com este, que mais se acoplaram a ser apontadas. Em primeiro lugar, sus- “consentimento social”.
saldar suas obrigações. A securitização essa lógica. tentar que esta crise é mais uma das crises
dos empréstimos imobiliários amplifica estruturais do capitalismo não pode Notas
ainda mais o processo. Esse movimento de venda significar que este último será derrocado em função
1. É preciso que fique claro que estas
de ativos provoca a redução dos seus preços e reforça disso. O capitalismo não acaba naturalmente por exigências são de ordem metodológica.
a pressão pela alta da taxa de juros18, cobrada pe-las conta de suas crises econômicas. Trata-se de uma crise Uma teoria do ciclo deve ser internamente
instituições financeiras, agravando ainda mais a crise. estrutural porque coloca em xeque a lógica (estrutura) consistente, já que trata de um fenômeno
especial, com uma lógica própria.
Como se percebe, a primeira manifestação da cri- da acumulação de capital que ele vinha constituindo
se ocorre em um segmento específico do mercado fi- até então. Assim, para uma nova fase de acumulação 2. Não se pode esquecer também da
nanceiro, notadamente em um dos que apresentam ele terá que (re)inventar novas formas de acumulação. tendência capitalista a elevação da produ-
tividade, por impulso concorrencial, que
grande componente especulativo. Isto poderia sugerir Quanto à sua transformação em outro tipo de socia- se transforma, nos termos de Marx, em
uma natureza exclusivamente financeira para crise. bilidade, isto só será possível se quem constrói a uma crescente composição orgânica do
Entretanto, esta concepção, muito comum, não per- história assim se propuser, ou seja, se o ser humano capital, que força a redução da taxa de
cebe a diferença entre a natureza das crises e suas construir, de fato, essa nova forma de sociabilidade. A lucro (MARX, 1988, vol. IV, capítulos 13
e 14).
formas específicas de manifestação. Pelas razões já única coisa que o próprio capitalismo faz é, nos seus
apontadas anteriormente, a lógica do capital fictício momentos de crise, explicitar, ao menos, grande parte 3. Maiores detalhes sobre a interpretação

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Debates Contemporâneos Debates Contemporâneos

de Marx para o fenômeno das crises podem ser encontrados em enquanto capital se torna mercadoria” (MARX, 1988, vol. IV, p. DUMENIL, G.; LEVY, D. O Imperialismo na Era Neoliberal. MARX, K. O Capital: crítica da economia política. 5 vol., São
Marx (1988, vol.IV, cap. 15), assim como uma tentativa de delimitar 241). Crítica Marxista, n. 18, Ed. Revan, maio 2004. Paulo: Abril Cultural, 1988.
conteúdo, causa e formas de manifestação do fenômeno é feita em
Carcanholo (1997). 12. Muito embora contribua para a aceleração da rotação do capital FMI - World Economic Outlook: Housing and the Business MENDONÇA, A. A Crise Econômica e a sua Forma
e, com isso, do crescimento da taxa anual de mais-valia, o que pos- Cycle. Washington, DC: International Monetary Fund, abr. 2008. Contemporânea. Lisboa: Editorial Caminho, 1990.
4. Curiosamente, no início deste século, quando a economia mundial sibilita a ampliação do processo de acumulação de capital. Karl
apresentava taxas de crescimento relativamente sustentáveis, não Marx, op. cit., volume IV, seção V. HILFERDING, R. O Capital Financeiro. São Paulo: Ed. Nova MULS, L.; CARCANHOLO, M.D. Revolução Tecnológica e
foram poucos os que também vaticinavam o pretenso fim da era Cultural, 1985. Acumulação de Capital: capitalismo sem trabalho? Anais do XXV
das instabilidades na economia capitalista. 13. “Toda a conexão com o processo real de valorização do capital Encontro Nacional de Economia, Anpec. 1997.
se perde assim até o último vestígio, e a concepção do capital como
5. A relação entre a rotação do capital e a taxa de lucro pode ser en- autômato que se valoriza por si mesmo se consolida” (MARX,
contrada em Muls e Carcanholo (1997). 1988, vol. V, p. 5).

6. A categoria capital fictício é tratada mais adiante. Desde já, uma 14. Hoje em dia o número de instrumentos financeiros, criados
análise mais aprofundada de sua dinâmica e atualidade pode ser dentro do processo de inovações financeiras, que caracterizou a fase
encontrada em Marx (1988, seção quinta do livro III) e Carcanholo da mundialização financeira (como ficou conhecida) do capitalismo
e Nakatani (1999). contemporâneo, é extremamente vasto. Pode-se, em uma primeira
aproximação, destacar os derivativos financeiros e os bônus cor-
7. Os dados apresentados em Dumenil e Levy (2004) demonstram porativos, instrumentos que jogaram papel central no “estouro” da
que, em 2000, “a renda financeira que os EUA retiraram de suas crise atual.
relações com o resto do mundo foi superior ao conjunto dos lucros
de suas próprias sociedades em território americano” (p.24). Os 15. O crédito hipotecário se define pela tomada de empréstimos
mesmos dados mostram que essa proporção é crescente desde 1950 tendo como garantia os próprios imóveis adquiridos.
e acelera seu crescimento no final dos 70 (início dos 80), justamente
quando o neoliberalismo se aprofunda, e que a América Latina tem 16. Dessa forma, o que seriam apenas problemas de liquidez perfeita-
um papel de destaque nesse processo. mente refinanciados por um mercado de crédito imobiliário em
expansão, com a retração deste mesmo mercado, se transformam
8. A categoria capital financeiro - conforme sua formulação original em problemas de insolvência e inadimplência.
- procurava dar conta da unificação/fusão do capital produtivo com
o capital bancário, sob a hegemonia deste último, e seria uma das 17. Os primeiros sinais da crise financeira, a partir do estouro da
formas preponderantes do capital na sua fase imperialista clássica bolha no mercado subprime americano, surgem no início de 2006,
(HILFERDING, 1985). A noção corriqueira de capital financeiro quando o preço dos imóveis registra uma desaceleração na sua taxa
(“financeirizado”) costuma se referir ao capital remunerado basi- de crescimento. Mas é desde junho de 2007 que os seus efeitos sobre
camente com ganhos especulativos na esfera financeira, além da os mercados financeiros, especificamente sobre os bancos que
remuneração derivada dos juros. Como se verá, trata-se de uma possuíam ativos com maior exposição aos títulos dessas hipotecas,
concepção pouco rigorosa, e que perde conteúdo categorial-ana- se espalham pela economia americana e européia. Em junho de
lítico para explicar o capitalismo contemporâneo. 2007, Bear Stearns anunciou o fechamento de dois fundos de hedge
sob sua gestão.
9. Vale ressaltar que a categoria de capital industrial não pode ser con-
fundida com a noção corriqueira de indústria. Por capital industrial 18. Em tempos normais existe uma relação inversa entre a taxa de
Marx concebia a totalidade dos capitais que se valorizassem ven- juros e o preço dos ativos de capital em geral. Em outras palavras,
dendo as mercadorias produzidas por um valor superior (mais- uma queda da taxa de juros aumenta o preço dos ativos de capital.
valia) àquele valor de compra das mercadorias necessárias para o
processo de produção, independente do conteúdo material (ou até Referências
imaterial) do que fosse produzido, na agricultura, nos serviços, e até
na indústria (MARX, 1988). ANTUNES, R. Os Sentidos do Trabalho: ensaio sobre a
afirmação e a negação do trabalho. São Paulo: Boitempo Editorial,
10. Mais uma vez, não se pode confundir a categoria capital bancário 3a. ed., 2000.
com os bancos enquanto instituições concretas específicas. A
primeira diz respeito à função autonomizada do capital total que CARCANHOLO, M.D. Formas, Conteúdo e Causa: uma
desenvolve o sistema de crédito, tanto na expansão do comércio proposta de interpretação marxista do fenômeno crise. Leituras
de dinheiro como na administração do capital portador de juros, de Economia Política, Campinas, n. 5, 1997.
como se verá a seguir. Que esta função seja, ou não, cumprida por
CARCANHOLO, R.A.; NAKATANI, P. (1999) O Capital
instituições propriamente bancárias trata-se de uma eventualidade
Especulativo Parasitário: uma precisão teórica sobre o capital
da conjuntura histórica.
financeiro, característico da globalização. Anais do IV Encontro
11. “Seu valor de uso consiste aqui justamente no lucro que, uma Nacional de Economia Política, Sociedade Brasileira de
vez transformado em capital, produz. Nessa qualidade de capital Economia Política, Porto Alegre. Disponível em: <http://sites.
possível, de meio para a produção de lucro, torna-se mercadoria, uol.com.br/carcanholo>.
mas uma mer-cadoria sui generis. Ou, o que dá no mesmo, o capital

172 - DF, ano XIX , nº 45, janeiro de 2010 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE UNIVERSIDADE E SOCIEDADE DF, ano XIX, nº 45, janeiro de 2010 - 173
A indústria da reciclagem: a organização
capitalista do trabalho dos catadores1
Antônio de Pádua Bosi2
Professor da Universidade Estadual do Oeste do Paraná
E-mail: [email protected]

Resumo: O objetivo deste artigo é mostrar e discutir o funcionamento da rede de produção e comercialização
de materiais recicláveis no Brasil. Sustentando a indústria da reciclagem no país estão cerca de 1 milhão de
catadores que são responsáveis pelo recolhimento e triagem do material reciclável para grandes empresas do
setor. Por esse motivo, tais empresas têm interesse na organização de cooperativas de trabalho como forma de
acessar papéis, plásticos, alumínio etc., que são descartados diariamente. Com o objetivo de gerar renda para
trabalhadores desocupados, o governo federal, em parceria com essas empresas, patrocina cursos de formação
de catadores e estimula a criação de cooperativas. O resultado disso indica um processo, ainda inacabado, que
normatiza a informalidade como solução para a desocupação, e que é fundamental para o funcionamento da
rede de produção de material reciclado no país.

Palavras-chave: Indústria da Reciclagem; Trabalho informal; Catadores; Cooperativas de Trabalho.

Um mundo de fragmentos. mexem o lixo nas ruas, procurando materiais reciclá-

S
ão Paulo: Diariamente Fabiana separa o lixo inor- veis, a fim de vendê-los para um sucateiro que recolhe
gânico em sacolas plásticas que embalaram as com- o resultado desse trabalho. São dez horas diárias de
pras do supermercado. Vasilhames de PET, latas trabalho percorrendo lojas, supermercados e residên-
de alumínio, plástico e outros objetos descartáveis cias. No final do dia, tudo que cabe no carrinho em-
são guardados para a coleta seletiva, realizada às quin- purrado por ele e o filho é guardado ao lado de um
tas-feiras. Esta rotina é paga simbolicamente por um viaduto, onde moram “provisoriamente”. Outros ca-
sentimento que toma toda a família de Fabiana, intei- tadores que dividem espaço com João Vitor formam
rada de uma consciência ecológica cujo discurso é dis- cooperativas informais, sediadas sob os viadutos que
seminado na escola dos filhos, em forte propaganda cruzam o bairro da Liberdade, e também negociam
midiática e em valores que vão consolidando o modo com o mesmo aparista.
de vida das classes médias. Foz do Iguaçu: Alojados em oito barracões situa-
Noutra parte da cidade, João Vitor e seu filho re- dos em bairros periféricos estão cerca de cento e oiten-

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Debates Contemporâneos Debates Contemporâneos

ta trabalhadores organizados numa coo- negociado com os atravessadores. Além vessadores (depósitos). Passando pelo controle de Tabela 1
perativa de trabalho; recolhem, selecio- Os catadores disso, devido à preocupação e prática pequenos, médios e grandes atravessadores, este ma-
integram uma cadeia Evolução do Consumo de Papel Usado
nam, limpam e prensam os mesmos ti- demonstradas com o uso alternativo dos terial é então revendido às fábricas de reciclagem, que
pela Indústria de Reciclagem
pos de materiais separados por Fabiana produtiva que refugos e o reaproveitamento de ma- realizam também a extração da mais-valia na sua forma
Ano 1.000 toneladas Evolução Anual (%)
e procurados por João Vitor. Neste caso, movimenta alguns teriais recicláveis, tais empresas adquirem relativa, amparadas na utilização do trabalho industrial
1998 2.295 5,29
a maior parte desse material é composta bilhões de dólares o selo de “responsabilidade social”, o e de tecnologia intensificadora de trabalho. Tais indús-
1999 2.416 5,28
de papel, papelão e latas de alumínio, e por ano. que pode lhes render ainda algum tipo trias finalizam assim o processo que transforma noutro
2000 2.612 8,11
vêm das ruas. Tudo isso vai para as mãos de isenção fiscal e uma boa imagem que tipo de mercadoria todo material descartado que os ca-
2001 2.777 6,33
de um único atravessador que atua na cidade. esperam ter relativamente ao “consumidor”. tadores fazem renascer, cotidianamente, como valor
2002 3.017 8,66
Brasília: cento e sessenta trabalhadores ocupam um Essas são diferentes situações que traduzem o de troca. Significa dizer que, apesar dos catadores não
2003 3.005 -0,42
galpão de mil metros quadrados na Vila Estrutural, complexo mundo dos trabalhadores envolvidos no venderem diretamente sua força de trabalho para as 2004 3.360 11,83
onde selecionam, limpam e prensam papel, alumínio, setor da reciclagem. Talvez Fabiana e João Vitor não indústrias recicladoras (a forma clássica da exploração 2005 3.438 2,31
e plástico de copos descartáveis. Três caminhões co- saibam, mas eles estão envolvidos e articulados por re- capitalista do trabalho), o resultado de seu trabalho é 2006 3.497 1,71
letam este material nos Ministérios que firmaram con- lações sociais que alimentam uma vigorosa indústria de transformado em mercadoria, à medida que é vendido 2007 3.643 4,18
vênio com a cooperativa, atendendo aos apelos do reciclagem mundial. e integrado ao circuito de valorização do capital na Fonte: BRACELPA (Associação Brasileira de Celulose e Papel)
próprio governo federal e de uma Organização Não No caso do Brasil, diariamente, milhares de catadores condição de “trabalho formalmente subordinado” Organização do autor.
Governamental especializada na promoção de “renda e recolhem materiais para esta indústria. Embora não o (MARX, 2004). (CEMPRE, 2005c). No caso da reciclagem de latas de
cidadania”. Uma forte parceria com o Planalto anima o vendam diretamente para essas empresas, os catadores Apesar dessa realidade, nenhum dos catadores alumínio, o índice verificado no Brasil gira em torno
trabalho desses catadores que, apesar da denominação, integram uma cadeia produtiva que movimenta alguns tem algum tipo de relação de trabalho formal com as de 95% (2007), o maior do mundo. De acordo com a
não catam mais recicláveis. Todo o material prensado bilhões de dólares por ano. Pode-se dizer que a cata de empresas de reciclagem ou com os atravessadores. A Associação Brasileira do Alumínio, somente em 2004,
é vendido para um aparista que o transporta por meio recicláveis é também a expressão de um aspecto da rea- justiça brasileira tende a vê-los como “trabalhadores foram recicladas aproximadamente nove bilhões de
de uma gigantesca caçamba deixada no próprio galpão lidade do tempo presente que expõe as formas mais autônomos”, já que as poucas ações trabalhistas im- latinhas (CEMPRE, 2005a). O faturamento no setor
da cooperativa. atualizadas da organização capitalista do trabalho, petradas por catadores contra prefeituras, que rece- de papel reciclado, no ano de 2002, ultrapassou os três
Em grandes cidades existem muitas lojas e super- ligando milhares de trabalhadores empobrecidos a beram o resultado de seu trabalho e o repassaram bilhões de reais (CEMPRE, 2003).
mercados retêm embalagens descartáveis para vendê- empresas oligopônicas que fabricam e reciclam papel, para atravessadores, foram julgadas improcedentes. Contudo, por trás desses significativos números
las diretamente aos depósitos de recicláveis. Em al- PET, plástico e alumínio. Nesse processo é realizada a Talvez motivados e convencidos por esta estão milhares de catadores.
guns casos, a renda obtida consegue manter a folha extração da mais-valia na sua forma absoluta, escorada compreensão, os poderes públicos têm Nenhum dos catadores No ano de 2007, foram reciclados
de pagamento dos jovens trabalhadores cuja função unicamente no trabalho dos catadores, que coletam, estimulado a criação de cooperativas tem algum tipo de 45% do papel consumido no país (BRA-
é organizar prateleiras e preparar o material que será selecionam e vendem os materiais recicláveis para atra- como forma de constituição legal dessa relação de trabalho CELPA, 2008, p.40). Oito anos antes o
mão-de-obra, desonerando a imensa formal com as empresas índice era de 35%.
Processo de Produção de Materiais Reciclados no Brasil
rede de atravessadores que existe no país de reciclagem ou com os A estruturação do setor de recicla-
e, principalmente, as indústrias de reci- gem no Brasil, desde o seu início, ope-
Limpar, triturar e transformar atravessadores. A justiça
Catadores clagem de qualquer encargo trabalhista, rou a partir dos catadores porque não
brasileira tende a vê-los
como tentarei argumentar ao longo deste encontrou uma solução mais barata de
como “trabalhadores recolhimento e seleção dos materiais reci-
artigo.
autônomos”, já que cláveis. Para que a reciclagem pudesse se
A Indústria de Reciclagem no Brasil. as poucas ações estabelecer sem a presença dos catadores
Compradores: Indústrias
Cooperativas
Atravessadores de
Outras Reciclar é um negócio altamente lu- trabalhistas impetradas teria sido necessário que a separação
de Catadores Indústrias
Aparistas Reciclagem crativo para o capital. Considerando ape- por catadores contra de resíduos fosse realizada por meio de
nas a reciclagem de materiais plásticos, prefeituras, que uma coleta seletiva de lixo, em ampla es-
no ano de 2003 (CEMPRE, 2005), a receberam o resultado cala. Cada família e empresa deveriam
quantidade reciclada no Brasil (16,5%) só se conduzir como Fabiana, separando
Proprietários de seu trabalho e
de Lojas, foi menor do que na Alemanha (31,1%) previamente os materiais recicláveis dos
Empresas,
Selecionar, prensar, pesar Produzir novas mercadorias o repassaram para
etc.
e/ou vender (embalagens, latas de alumínio, etc.) e na Áustria (19,1%). Com relação à resíduos orgânicos. Além disso, os mu-
atravessadores, foram
reciclagem de plásticos, o faturamento nicípios precisariam contar com mão-de-
julgadas improcedentes. obra para processar os recicláveis.
Fonte: Organização do Autor. superou 1,22 bilhão de reais, em 2004

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Debates Contemporâneos Debates Contemporâneos

Diversas tentativas de criação de Usinas de Triagem observarmos os baixos índices de reciclagem de resíduos (UnB, 2005). É importante frisar que e de baixo custo, isto é, realizada por
e de Compostagem3 públicas não têm logrado êxito orgânicos, [setor em que] o país continua incipiente: essa força de trabalho está presente em A reciclagem só se trabalhadores cuja remuneração com-
porque são consideradas demasiadamente caras. Embo- menos de 1,5% é reutilizado na produção de fertilizantes quase todas as cidades do país. Recente tornou possível quando pensasse investimentos de tecnologia pa-
ra a instalação da primeira Usina de Compostagem date e 8% dos resíduos sólidos urbanos são reciclados, bem pesquisa, divulgada pelo Ministério das o recolhimento e a ra o surgimento do setor de produção de
do ano de 1969 (BANCOR, 2009), sua generalização abaixo, por exemplo, dos Estados Unidos da América Cidades, referente ao ano de 2004, in- separação dos resíduos material reciclado. Qualquer que fosse a
não aconteceu. Marcelino Gonçalves (2006) sintetizou que reciclam 59,3% (p.18). dica que existem catadores de materiais mostraram-se uma organização desse tipo de trabalho, sua
as razões do fracasso dessas iniciativas: Diferentemente do Brasil, há registros sobre a re- recicláveis em aproximadamente 85% taxa de lucro deveria competir com pre-
tarefa viável e de baixo
[...] além de uma série de gastos previstos nos projetos ciclagem de embalagens descartadas ter começado no das cidades que compuseram a amos- ços determinados pelo mercado mundial
custo, isto é, realizada
e nas propagandas dos que vendiam essas estruturas, final dos anos 1960 em países onde o consumo popular tragem estudada (BRASIL, 2006). O responsável por derivados de petróleo
era proporcionalmente maior. A esse respeito, nos Es-
por trabalhadores
outros dispêndios, como a manutenção e reposição crescimento dessa força de trabalho foi (PET, PVC e demais embalagens plásti-
de peças, o consumo de energia elevado e custos com tados Unidos, as latas de alumínio começaram a ser bastante intenso nos últimos 20 anos. cuja remuneração cas), pela produção de alumínio e de ce-
a formalização e a remuneração da força de trabalho, recicladas em 1968, cinco anos após a sua introdução Se considerarmos, por exemplo, que no compensasse lulose, por exemplo.
e mais a concorrência dos catadores carrinheiros que no mercado (CEMPRE, 2005b). Entretanto, a dispo- ano de 1999 existiam cerca de 300 mil investimentos de Nestes termos, explica-se porque essa
pegam o resíduo reciclável nas ruas antes da coleta rea- nibilidade de tecnologia para o reaproveitamento do trabalhadores envolvidos com a cata tecnologia para o força de trabalho apareceu composta de
lizada pelos caminhões das prefeituras, acabaram por alumínio proveniente de latas (refrigerante, cerveja, de recicláveis, o aumento percebido em surgimento do setor de trabalhadores sem contrato de trabalho e
inviabilizar ou tornar muito caro o funcionamento des- sucos etc.) não garantiu a reciclagem do total das 2005 foi superior a 240%. O surgimento produção de material com uma produtividade que pudesse ser
sas estruturas ( p.104). embalagens descartadas naquele país. Em números e o crescimento dessa força de trabalho reciclado. definida pelo pagamento por produção:
Mas há outros condicionantes para a política que absolutos, os Estados Unidos reciclam mais alumínio encontram paralelo noutros países da uma população desancada do mercado
influenciam a mercantilização da reciclagem: (i) a do que o Brasil, mas, enquanto aqui já se consegue re- América Latina. Na Argentina, existem cerca de 30 de trabalho e sem atributos para retornar às ocupações
produção e assimilação de um novo comportamento ciclar mais de 95% das latas descartadas, lá este índice mil catadores somente na cidade de Buenos Aires formais. Estes fatores garantiram, em grande parte, o
diante do lixo (o que tem sido chamado de “consciência não ultrapassa 55%. (GORBÁN, 2004). Na Colômbia, estima-se apro- crescimento do setor de reciclagem de modo a tornar
ecológica”), (ii) o desenvolvimento de uma legislação Tabela 2 ximadamente 300 mil catadores espalhados pelo país os preços dos materiais reciclados mais atrativos que as
ambiental voltada para tal questão que estimule e pre- Índice de Reciclagem de Latas de Alumínio (%) (RODRÍGUES, 2002). matérias primas não provenientes de recicláveis, o que
mie a reciclagem como atividade econômica e (iii) o País 2003 2004 2005 2006 2007 Além desses números que mostram a relação entre efetivamente pôde ser verificado nos últimos anos da
investimento, em todo o país, para estruturar a coleta Argentina 80 78 88,1 89,6 90,5 a indústria de reciclagem e os catadores, também cabe década de 1990. Aliás, se é possível algum prognóstico
seletiva (seja como serviço público ou por meio de ca- Europa 48 48 52 57,7 - ressaltar que não é razoável determinar a composição relativamente à disseminação de um modelo de reci-
tadores) (VON ZUBEN, 2005). EUA 50 51,2 52 51,6 53,8 dessa força de trabalho pela existência de tecnologias clagem mundial, a experiência brasileira, sustentada
Os programas pioneiros de coleta seletiva datam de Brasil 89 95,7 96,2 94,4 96,5 disponíveis para a reciclagem de materiais descartados em catadores, tende a predominar, considerando a
meados da década de 1980, mas não se generalizaram Média 66,7 68,2 72 73,3 80,2 diariamente em toneladas. Tais tecnologias já estavam crescente relevância de catadores em países ditos de-
antes de meados dos anos 1990. Mesmo quando tais Fonte: Associação Brasileira do Alumínio. Organização do autor. disponíveis no mercado (talvez não do ponto de vista senvolvidos, devido ao empobrecimento crescente de
programas foram disseminados, a maioria tendeu a do custo-benefício do investimento a ser realizado). parte da classe trabalhadora no planeta.
estruturar-se a partir do trabalho dos catadores, prin- A tabela 2 indica a superioridade brasileira e ar- Havia, desde a década de 1970, know-how para a re- É sobre esta população de trabalhadores que muitas
cipalmente os catadores organizados em cooperativas. gentina sobre a Europa e os Estados Unidos na reci- ciclagem (em grande escala) de papel, papelão e de empresas, como a Klabin, a Suzano e a Votorantim, têm
Portanto, o estabelecimento das indústrias de recicla- clagem de latas de alumínio. A hipótese que explica resíduos plásticos, fundamentalmente embalagens estruturado sua produção de papel reciclado no Brasil.
gem no país não foi possível antes do ingresso de esta diferença não acena para uma maior consciência plásticas, PET e PVC (NETO e et al., 1999; FARIA e Juntas à Champion, à Ripasa e à Ibéria, elas produzem
milhares de trabalhadores na cata de recicláveis. Sua ecológica entre os países latinos, mas reside na dispo- FORLIN, 2002). No caso do alumínio e dos plásticos quase 6 milhões de toneladas de papel por ano (ZIGLIO,
proeminência fez-se notar ao longo dos anos 1990, nibilidade de trabalhadores para o recolhimento das no Brasil, é verdadeiro que só houve o que reciclar 2002). Parte considerável desse produto é reciclado e
quando começou a assumir papel de des- latas descartadas. Enquanto na Europa após, principalmente, a substituição de vasilhames de vendido sob o selo “responsabilidade social”.
taque na reciclagem de papel, alumínio, No ano de 1999 e nos Estados Unidos grande parte vidro pelos confeccionados de PET e de alumínio, o A relação entre tais empresas e os catadores não é
PET e outros plásticos, materiais com existiam cerca de 300 do recolhimento se realiza por meio que ocorreu em meados da década de 1980. Porém, os de todo ocultada. De modo diferente, ela é reivindicada
forte apelo no mercado. Contudo, como mil trabalhadores de programas de coleta seletiva, Brasil recursos técnicos e tecnológicos para a transformação como uma benesse, quase religiosa, praticada em favor
já alertou Varussa (2005). envolvidos com a cata de e Argentina escoram seus índices em desses tipos de resíduos em matéria-prima para novos dos catadores que, pela existência de tais indústrias,
[...] os ‘campeonatos’ vencidos pelo centenas de milhares de catadores. vasilhames já existiam. encontraram um meio digno de sobrevivência. Nesse
recicláveis, o aumento
Brasil não são em todas as áreas da re- Estima-se que, no ano de 2005, a po- Assim, a reciclagem no Brasil só se tornou possí- contexto, a própria companhia Suzano reconhece sua
percebido em 2005 foi
ciclagem, voltando-se para as áreas mais pulação de catadores no Brasil tenha ul- vel, em grande escala, quando o recolhimento e a se- relação com o trabalho de catadores (SUZANO, 2008):
superior a 240%.
rentáveis, como pode ser concluído se trapassado 1 milhão de trabalhadores paração dos resíduos mostraram-se uma tarefa viável Composto de 75% de aparas pré-consumo e 25% de

178 - DF, ano XIX , nº 45, janeiro de 2010 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE UNIVERSIDADE E SOCIEDADE DF, ano XIX, nº 45, janeiro de 2010 - 179
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aparas pós-consumo - adquiridas diretamente de coope- essa empresa garante que está: Secretaria de Economia Solidária (BRASIL, 2005). Um empresas no mercado mundial de caixas como a Car-
rativas de catadores de material reciclável - o Reciclato® estimulando a participação e contribuição do consumidor desses programas previu financiamento para “qua- tocor, na Argentina e Giusti, na Itália. Além de atender
contribui para o aumento real da renda de mais de 3,7 final para o Movimento Cooperativas de Catadores de lificação de trabalhadores beneficiários de políticas de ao mercado de fabricantes de caixas independentes,
mil cooperados, que vendem mensalmente toneladas de Material Reciclável, do Instituto Ecofuturo. Para permitir inclusão social” e disponibilizou um orçamento de 131 nossos produtos são também utilizados por importantes
papel para a companhia. Hoje, são mais de 13 mil pes- o crescimento exponencial da produção nestes anos, das mil reais para o ano de 2003 (Idem). players integrados como International Paper, Smurfit-
soas beneficiadas diretamente. três cooperativas associadas à Suzano no início do projeto, Numa interpretação atualizada de Gramsci (1978) Kappa, Mondi Packaging, Portucel, VPK, Emin Ley-
Mas essas empresas não se locupletam apenas da que envolviam 150 catadores e 600 pessoas diretamente trata-se de fabricar um novo tipo de trabalhador para dier, DS Smith, Prowel - Alemanha, Hosmann Group
engenhosa iniciativa geradora de renda para milhares beneficiadas, a companhia passou a atuar com mais de 75 uma nova rede de produção. Embora ainda não existam - França, Envases Impresos (Grupo CMPC - Chile)
de pessoas que antes se batiam contra a desocupação. cooperativas, envolvendo 4 mil cooperados e 14 mil be- muitas experiências similares a esta, a iniciativa da Su- entre outros.
Seus produtos reciclados são anunciados como mar- neficiados indiretamente (SUZANO, 2008). zano surpreende pela sintonia demonstrada com um Grande parte do papel ondulado produzido pela
cas indeléveis de um compromisso inalienável com Na percepção da Suzano, não se trata de lucro, mas modo de produção bastante flexível. Havendo demanda Klabin advém de papel reciclado. Sua dependência
a natureza e o ser humano. Por óbvio, que todo esse de contribuir com o “Movimento Cooperativas de de papel reciclado, o pagamento pelo resultado do tra- de material reaproveitado parece ser representativa e
esforço deve ser recompensado com um preço di- Catadores de Material Reciclável” e com a ocupação balho dos catadores é realizado. Todavia, frente ao me- vai além do papel. Ela informa que é uma das maiores
ferenciado, acima do cobrado pelas mercadorias com- de 4 mil trabalhadores cooperados. Quanto ao “Insti- nor sinal de abalo na demanda ou nos preços do papel, recicladoras mundiais de embalagens Tetra Pak (para
postas de material comum. Quando se compra uma tuto Ecofuturo”, uma de suas linhas principais de fi- a compra é suspensa e a ociosidade dos catadores não produtos “longa vida”), para quem fornece papel
resma de folhas confeccionadas de papel reciclado nanciamento, o “Programa Investimento Reciclável”, adiciona nenhum custo à contabilidade cartão com exclusividade no Brasil e
se adquire, a depender do consumidor, um produto prioriza “o apoio financeiro e cursos de formação para da Suzano. No mais, frente a períodos Havendo demanda no Mercosul. Sua própria narrativa
distinto, com mais valor agregado (mesmo que seja a profissionalização de material reciclável”. Para os de visível aquecimento do mercado de papel reciclado, não deixa dúvidas sobre seu esforço
somente simbólico, já que o que é reciclado é “poli- agentes dessa Organização de Sociedade Civil de Inte- de reciclados, tomados por sinceros o pagamento pelo em transformar material descartado
ticamente correto” e “chic”), ou uma in- resse Público, sentimentos de dívida relativamente à em valiosa matéria-prima (KLABIN,
resultado do trabalho
dulgência, face ao bombardeio midiático Os produtos reciclados [...] o objetivo é que os cooperados adquiram empresa que lhes ofereceu uma ocupação, 2009):
dos catadores é
contra o comportamento individual são anunciados como confiança na sua capacidade de gestão. À medida os catadores entregam a ela todo o re- Com capacidade anual de 28 mil toneladas
realizado. Todavia,
nefastamente poluidor do meio em que marcas indeléveis de um que as cooperativas forem devolvendo os valores sultado de seu trabalho. De parte da de embalagens longa vida, esse processo é
vivemos. É também nesse contexto his- Suzano, todo compromisso e nenhum
frente ao menor sinal de realizado na unidade de Piracicaba, em São
compromisso inalienável recebidos, outras organizações poderão receber
tórico que precisamos posicionar os compromisso, ao mesmo tempo! abalo na demanda ou Paulo, onde as embalagens são recicladas, com
com a natureza e o ser esses recursos, ampliando as possibilidades de fi-
produtos reciclados. nanciamento e inclusão de novas cooperativas”. A Klabin, outra poderosa produtora nos preços do papel, a aproveitamento integral das fibras de celulose.
humano.
A marca Reciclato® offset, conforme [...] “A importância do projeto é promover a in- de papel e celulose, também vem inves- compra é suspensa e a O resíduo desse processo – plástico e alumínio
a própria indústria divulga, foi lançada clusão social por meio da geração de trabalho e renda para tindo significativamente em produtos re- ociosidade dos catadores – é encaminhado para EET (Environmental
inicialmente para mercados específicos, “promocional, populações excluídas do mercado de trabalho a partir da ciclados. Sua receita bruta total declarada não adiciona nenhum Edge Technology), uma usina de reciclagem
editorial e corporativo”. Seu produto “conquistou redução de resíduos produzidos nas cidades, um dos para o ano de 2008, atingiu 3,7 bilhões custo. também em Piracicaba, que permite separar
parceiros” como o Banco Real, Natura, Bradesco, grandes problemas ambientais do País (ECOFUTURO, de reais. De sua receita líquida, 28% o alumínio e o filme de polietileno com o uso
Tilibra, Aços Villares, Credicard, Gradiente, Philips, 2009). dizem respeito a produtos exportados. Esta empresa da tecnologia a Plasma. A unidade tem capacidade para
Nestlé, Tam e Telefônica. Ao utilizar papel reciclado Com uma modesta quantia de 320 mil reais, o que se auto-denomina “como a maior recicladora de recuperar uma tonelada de plástico e alumínio por hora
em suas correspondências, essas empresas (muitas delas Instituto tem apostado na formação de catadores papel do Brasil”, diz possuir uma “capacidade anual – o que equivale à reciclagem de 32 mil toneladas de
multinacionais) buscaram aliar suas imagens à ideias como forma de “incluir” socialmente no mercado tra- para reciclar 325 mil toneladas de resíduos de papéis” embalagens longa vida por ano. Anualmente, a unidade
de “desenvolvimento sustentável”, “responsabilidade balhadores desocupados. É certo que tal inclusão se e produzir “17% do papel reciclado utilizado na bra- chega a produzir cerca de 6,4 mil toneladas de parafina e
social”, “responsabilidade sócio-ambiental”, e ou- fará em termos informais, sem vínculo empregatício sileira de papelão ondulado” (KLABIN, 2009). É a 1,6 mil toneladas de alumínio.
tros neologismos associados ao comportamento poli- entre os catadores e a Suzano. Mais do que isso, esta própria empresa que ressalta a importância de seus Utilizando o que a Klabin chama de “tecnologia
ticamente correto. O passo seguinte foi massificar prática tende a reforçar um modelo que visa estruturar, produtos reciclados vendidos para o exterior (KLA- preservadora do meio ambiente”, a planta produtiva,
o produto para um círculo de consumo mais amplo, naturalizar e normatizar o trabalho informal como BIN, 2009): instalada na cidade de Piracicaba/SP, tem um custo es-
que demandasse papel no formato sulfite, embalado meio da empresa se abastecer de materiais recicláveis. Os mais exigentes fabricantes de embalagens e de timado de 40 milhões de dólares a serem investidos em
chapas de papelão ondulado, em diversos países nos sociedade com as multinacionais Alcoa Alumínio e
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em pacotes de 100 e de 500 folhas. Nessa escalada para E o melhor, como uma entidade sem fins lucrativos,
cinco continentes, utilizam a linha de papéis Klabin. Tetra Pak , e a TSL Ambiental . A indústria, erguida
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fomentar o consumo de papel reciclado (vendido mais a Organização da Sociedade Civil de Interesse Público
caro do que o papel comum), a Suzano estendeu a dis- (OSCIP) da Suzano pode recorrer aos programas de Os nossos produtos de fibra virgem KlaLiner e Kla- a partir de 2005, especializou-se na separação do pa-
tribuição para papelarias e supermercados. Conven- apoio à economia solidária e geração de renda susten- Liner White e os papéis reciclados EkoFlute (Miolo) e pel, plástico e alumínio, contidos na formação das em-
cida de seu protagonismo na “eco-sustentabilidade”, tados pelo governo federal, muitos deles alocados na EkoLiner (Testliner 2) são consumidos por importantes balagens tipo “longa vida”. Com tecnologia exclusiva

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(a “Thermal Plasma Technology”7), a Environmental por exemplo, empregou aproximadamente 67 mil tra- Condições históricas do surgimento bens de consumo. Os serviços e artigos
Edge Technology (EET) tem capacidade para processar balhadores no ano de 2007, despendendo cerca de 1,39 dos catadores no Brasil. Um processo violento produzidos por esse tipo de trabalhador
8 mil toneladas de plástico e alumínio extraídos de bilhão de reais em salários diretos e 803 milhões de reais A existência de pessoas que vivem do de empobrecimento encontravam mercado entre trabalhado-
aproximadamente 32 mil toneladas de embalagens lon- em encargos sociais (BRACELPA, 2008, p.6-7). Parte lixo não é recente no Brasil. Elas estiveram das classes res assalariados e de emprego fixo, co-
ga vida usadas (PACKAGING, 2009). desses trabalhadores processa o material reciclado que presentes no registro do poeta Manuel trabalhadoras assolou laborando de modo indireto para o au-
Sua ligação com essas duas poderosas multinacionais é recolhido por centenas de milhares de catadores, or- Bandeira, em 1947, quando escreveu “O grande parte do planeta mento da taxa de mais-valia (PRANDI,
(Alcoa e Tetra Pak) evidencia a complexidade das rela- ganizados ou não em cooperativas. Bicho”, denunciando o fato de pessoas nos anos 1970, 1980 1978). Contudo, não foram essas as ca-
ções produtivas e comerciais estabelecidas em torno Provavelmente João Vitor ignora o fato de que a viverem “catando comida entre os de- racterísticas que definiram a existência
e 1990 e se fez sentir
da reciclagem. Operando fisicamente no Brasil, apro- caixa de leite longa vida, duramente recolhida num tritos” (BANDEIRA, 1993, p. 222). dos catadores de recicláveis como força
principalmente na
priando-se e experimentando uma tecnologia desen- dia de trabalho, depois de ser vendida para o atra- Entretanto, os personagens de Bandeira de trabalho numericamente expressiva
destruição de empregos
volvida com recursos públicos (Universidade de São vessador, é processada na “Environmental Edge não eram catadores de recicláveis. Eles em meados da década de 1980.
Paulo), a base para o funcionamento desta “joint ven- Technology”, a partir da utilização da “Thermal reviravam o lixo à procura de comida e formais. Quando os catadores fizeram-se vi-
ture” depende de milhares de catadores que recolhem Plasma Technology”. Talvez nem desconfie que esta não de material descartado que pudesse síveis, nas grandes cidades, era possível
embalagens longa vida. tecnologia possivelmente tenha sido desenvolvida ser reaproveitado como mercadoria. Cerca de trinta quantificá-los em milhares. Suas trajetórias ocupacionais
O negócio, extremamente lucrativo, de reaprovei- com recursos públicos, dentro de um laboratório de anos depois, o dramaturgo Plínio Marcos retomaria evidenciam perdas sistemáticas e sequenciadas de em-
tamento de papel, alumínio e plástico é feito principal- uma universidade estadual, e provavelmente com o a denúncia de Bandeira, escrevendo a peça de teatro pregos. É representativa, nessas biografias, uma escala
mente como uma promessa de preservar o meio fito de proporcionar alguma melhoria social com sua “Homens de Papel” (MARCOS, 1978). Nela, salientou histórica que vai do emprego formal à desocupação de
ambiente. A cadeia produtiva iniciada no trabalho aplicação. João Vitor sabe menos ainda que tudo isto os conflitos entre Berrão, que comprava e revendia papel longo prazo, acompanhada da subtração das posses
dos catadores é controlada por poucas e gigantes em- foi apropriado e privatizado e que, atualmente, per- para reciclagem, e diversos catadores que recolhiam o em alguns casos (moradia, bens de locomoção, móveis
presas, que buscam associar-se entre si de maneira a tence a um grupo de multinacionais que depende de material em sacos. Na rotina diária da catação de papel, etc.). Estamos falando de um processo violento de em-
fortalecer a natureza oligopônica desse negócio. Seus seu trabalho precário, informal e barato. Mas tem co- os catadores tentavam disputar com Berrão o controle pobrecimento das classes trabalhadoras, que assolou
principais dividendos ainda vêm de matérias-primas nhecimento sobre seu trabalho e sua condição, e isto sobre o trabalho. grande parte do planeta nos anos 1970, 1980 e 1990, e
consideradas virgens, mas os investimentos em inova- certamente têm peso na constituição de sua identidade Os catadores mencionados por Plínio Marcos já que se fez sentir principalmente na destruição de em-
ções tecnológicas para o reaproveitamento de mate- como sujeito coletivo. atuavam como trabalhadores, pois recolhiam materiais pregos formais. Afora a importância das mudanças
riais descartados parecem ocupar, cada vez mais, um Fabiana, apesar do status de classe média, não é menos recicláveis para outra pessoa que os revendia para as havidas no trabalho, já bastante acentuadas pela lite-
lugar prioritário na vida dessas empresas. esclarecida a respeito dessa realidade. Certamente ela recicladoras. Porém, ainda não tinham se espalhado ratura (reestruturação produtiva, terceirização, sub-
Nesse novo contexto, elas também combinam se compraz com o sentimento de alívio proporcionado por todo o país. Concentravam-se nas grandes cidades, locação e realocação do trabalho, flexibilização das re-
relações de trabalho formais com “informais”, estas pela participação num programa de coleta seletiva que restringindo-se à cata de papel, de garrafas de vidro e lações trabalhistas etc.), a dimensão mais diretamente
últimas representativas dos catadores. Tal concerto lhe assegura envolvimento direto na preservação do de sucata de metal, estando longe de se constituírem relacionada aos catadores diz respeito à leitura que
revela como estas cadeias de produção são flexíveis, meio ambiente. A educação conferida aos filhos pos- como uma das populações trabalhadoras mais nume- organismos estatais vêm impingindo a essas mudanças
ao menos num sentido estrito, quando articulam sui esse ingrediente como um valor importante para rosas da atualidade do mundo do trabalho. Sua presen- econômicas e sociais, alterando a contabilidade dos nú-
determinadas dimensões e aspectos vantajosos, que as recentes gerações que têm sido convencidas de que ça parecia ser percebida apenas pelos poetas e drama- meros do mundo do trabalho, de modo a adequar as
são identificados e explorados em diferentes países. a razão da diminuição da camada de ozônio é o com- turgos. Nos anos 1970, as pesquisas acadêmicas não estatísticas à configuração predominante das classes
O resultado dessa amálgama é vendido sob uma bustível gasto no velho e anti-ecológico automóvel da os tinham ainda capturado como objeto de estudo. trabalhadoras, marcadamente informalizada.
nova embalagem que envolve valores de recente senhora de terceira idade do apartamento 703 (talvez As parcelas desocupadas da força de trabalho (ou pre- Assim, a heterogeneidade observada em situações
construção e internalização que “asseguram” tratar- uma lembrança de seu companheiro), ou o cigarro que cariamente ocupadas) foram apresentadas como um de emprego e desemprego tem sido naturalizada e
se de mercadorias com grau baixíssimo ou nulo de o professor universitário fuma incondicionalmente, fator complementar ao capitalismo brasileiro e não normatizada de modo a assimilar, como padrão, deter-
transformação de recursos naturais “virgens”. Argu- apesar dos apelos inscritos nas placas de “proibido fu- compunham, como hoje, mais da metade da população minados casos antes considerados “marginais” ou
menta-se então que florestas, nascentes, rios e recursos mar” espraiadas nos corredores da faculdade. economicamente ativa do país. Eram trabalhadores que “residuais”, tais como a sobrevivência contingente a
minerais esgotáveis estão sendo preservados. Se já Identificadas e compreendidas a dinâmica e as ca- atuavam no custo da alimentação e em bens e serviços partir de “bicos”. Tratar esse tipo de situação como
não é tão difícil evidenciar que o modo de produção racterísticas da expansão do setor de produção de re- propriamente urbanos, tais como quaisquer tipos de uma “zona cinzenta” (de difícil definição) não ajuda a
dessas fábricas continua sendo responsável pela po- ciclados no Brasil, e sua dependência de uma força de serviço autônomo que ajudassem na reprodução da esclarecer o que está sendo perdido no mundo dos tra-
luição do planeta8, menos custoso é mostrar como trabalho fundamental no recolhimento e seleção dos força de trabalho empregada, no sentido de barateá- balhadores. Como notou Jerôme Gautié (1998):
eles se ancoram em ocupações precárias e informais, materiais recicláveis, cabe discutir, de maneira mais la (OLIVEIRA, 1976). Eram sapateiros, técnicos em Deve-se recordar aqui que, segundo a definição esta-
como o trabalho dos catadores. aprofundada, o surgimento dessa força de trabalho eletrônica, vendedores ambulantes de utensílios do- tística do Bureau International du Travail (BIT), aceita
O setor de produção de papel e celulose no Brasil, no Brasil. mésticos e todo tipo de trabalhadores que reparavam pelo conjunto dos países, é preciso, para ser classifi-

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cado como desempregado, não ter trabalhado uma estratagema recusado no Brasil, e isto pode ser confir- neira a ceder espaço à ideia de “desocupação”. Mas no ano de 1985, organizados numa associação de ca-
única hora no curso da semana da pesquisa, procurar mado pelo acompanhamento da população carcerária. esse processo não pode ser considerado como uma tadores. De acordo com Paulo L. Domingues Júnior
ativamente um emprego e estar imediatamente dispo- Mas há evidências de que o controle da pobreza é mais simples alteração estética, de natureza léxica. Alterar (2006),
nível. Pode-se criticar o arbitrário inevitável de tal barato e eficiente fora do cárcere. Ao menos, é o que a concepção de “desemprego” teve (e continua tendo) Formada a cooperativa, estabeleceram-se uma diretoria
definição, da qual alguns critérios são notadamente indicam os programas ditos sociais. Além de serem implicações sociais e econômicas de enorme repercussão eleita por todos, aplicação dos princípios cooperativos,
frouxos (o que significa procurar “ativamente” um funcionais aos clientelismos eleitorais, cabe considerar na vida das classes trabalhadoras, principalmente numa propriedade e gestão coletiva, divisão dos lucros de mo-
emprego ou estar “imediatamente” disponível?). Mas que num país em que metade da população trabalhadora época em que os trabalhadores têm vivido experiências do igualitário (Rios, 1987), (Maia, 1985) (Rech, 1996). A
o problema se coloca mais particularmente quando vive de “bicos” é difícil (senão um despropósito) que de destruição de empregos formais. ONG forneceu uma assistente social e uma secretária
numerosos sem emprego não são contabilizados en- se exija dela que comprove a busca por um posto de É neste marco histórico que ações “afirmativas” es- para auxiliar na contabilidade. No começo da década de
tre os desempregados: é, especialmente, o caso dos trabalho como contrapartida pela participação em tatais e privadas, que pretendem a geração de emprego 90, a cooperativa cresceu graças ao apoio fornecido pela
desempregados “desencorajados”, que desistiram de algum programa social. ou renda, naturalizam e normatizam a informalidade, então prefeita Luíza Erundina (1989-1992), que cedeu
“procurar ativamente”, sem esperanças de encontrar um Talvez este raciocínio ajude a explicar porque mui- os “bicos”, as “estratégias de sobrevivência” das clas- verbas e um terreno extenso para a cooperativa, que pas-
emprego decente, e que, consequentemente, recorrem a tos desses programas no país não têm sua área cir- ses trabalhadoras, assimilando e estimulando todos os sou a ter 52 catadores de materiais recicláveis.
outros meios de subsistência (p. 78). cunscrita somente às situações de desocupação, mas modos e relações de trabalho localizados nessa “zona Embora esta seja uma interpretação, realizada
Como a população de informais com baixa renda contribuem para composição de uma “renda proletária” cinzenta” e tornando residual a referência ao empre- no tempo presente, que busca narrar a primeira expe-
(a junção de dois novos conceitos na- que permite a prática de baixíssimos sa- go livre, “protegido” e estável. Mais riência de organização dos catadores,
turalizados) não para de crescer, políticas A informalidade deixou lários. Nesse sentido, podem integrar importante do que esta constatação é o Ações “afirmativas” sua importância reside naquilo que ela
compensatórias ocupam mais espaço na de ser apenas funcional esse mecanismo de controle político, fato de que a formalização de políticas estatais e privadas, tenta selecionar, projetar e explicar como
vida das classes trabalhadoras, ajudando e complementar ao diversas políticas públicas voltadas para públicas, que concretamente lidam com que pretendem a sendo relevante no surgimento da coo-
a compor uma força de trabalho barata capitalismo e tornou-se habitação, renda mínima e educação, tais a naturalização e normatização da in- geração de emprego perativa. São dois dados: (i) a natureza
para o capital. Esta dinâmica histórica, sistêmica e o termo como Programa de Habitação Popular, formalidade e de condições de trabalho ou renda, naturalizam alternativa da organização do trabalho
presente no Brasil desde o final dos anos “geração de renda” foi Bolsa Família, Bolsa Escola, Auxílio precárias, tende a construir uma “cultura e normatizam a na forma cooperada, e (ii) os agentes que
1980, continua sendo corroborada por Gás etc. e, obviamente, seus similares do trabalho adaptada ao desemprego, ao apoiaram sua criação, ou seja, uma ONG
cada vez mais utilizado, informalidade, os
Programas ditos Sociais que, com certa nos estados e municípios9. risco e à insegurança” (SILVA, 2002, ligada a Igreja católica e um governo do
em substituição a “bicos”, as “estratégias
diferença relativamente a outros países, “Bolsa Família”, o principal desses p.101). Partido dos Trabalhadores.
têm sido definidos oficialmente como
“geração de empregos”. de sobrevivência” das
programas, pode pagar até 182 reais É também a partir deste marco his- Atualmente, a COOPAMARE é
mecanismos de transferência de renda A palavra “desemprego” mensais, desde que os pais comprovem tórico que devemos analisar, para além classes trabalhadoras, formada por 56 cooperados e compra
que não condicionam a participação das foi sistematicamente pobreza e mantenham as crianças e ado- dos objetivos traçados nas políticas pú- tornando residual a material reciclável de aproximadamen-
pessoas a algum tipo de vínculo com fustigada de maneira a lescentes frequentando a escola, além blicas de geração de emprego e renda, os referência ao emprego te 250 catadores que trabalham avulsa-
o mundo do trabalho. Nos Estados ceder espaço à ideia de de cumprirem os cuidados básicos em resultados alcançados. Assim, cabe sali- livre, “protegido” mente (2009). É considerada uma expe-
Unidos, por exemplo, o acesso aos “desocupação”. saúde, como o calendário de vacinação, entar esta última dimensão a partir de al- e estável. riência que deu certo e, em alguma
programas assistenciais exige que as pes- para as crianças entre 0 e 6 anos, e a gumas políticas públicas voltadas para a medida, resulta também de uma atua-
soas não descansem da busca por uma ocupação no agenda pré e pós-natal para as gestantes e mães em formação e organização dos catadores como força de ção política de setores militantes que constituíram o
mercado de trabalho (NEWMAN, 2000). É um valor fase de amamentação. Grosso modo, contribui para trabalho. PT, incluídas algumas pastorais e comissões da Igreja
estruturante daquela sociedade, desde, pelo menos, manter a taxa de mortalidade infantil baixa e diminuir Católica. Muitas cooperativas criadas ao longo dos anos
Benjamin Franklin e sua crença na virtuosidade moral o crescimento vegetativo do analfabetismo. Portanto, A organização capitalista do trabalho dos 1990 e 2000 também contaram com a ajuda da Igreja e
do trabalho, mas só funciona se houver empregos apesar de ser oficialmente considerado um programa catadores: a expansão das Cooperativas de do PT. É o caso de uma das principais cooperativas do
em oferta. Caso contrário, quando a demanda por de “inclusão social”, ele não promove nenhuma ação Trabalho. país, a Associação dos Catadores de Papel, Papelão e
trabalho começa a sufocar a oferta, a resposta do Es- “afirmativa” de geração de emprego ou renda. Para A primeira cooperativa de trabalho de catadores Material Reaproveitáves (ASMARE), sediada em Belo
tado dá-se prioritariamente pelo sistema prisional isso, há outros programas e políticas. do Brasil, a Cooperativa de Catadores Autônomos de Horizonte, com cerca de 250 associados (ASMARE,
(WACQUANT, 2008). No Brasil dos anos 1970, 1980 e 1990, quando a Papel, Aparas e Materiais Reaproveitáveis (COOPA- 2009).
Como já notou Loïc Wacquant (2007), as ações informalidade deixou de ser apenas funcional e com- MARE), foi criada em 1989, agregando catadores A “descoberta” desses novos sujeitos sociais foi
afirmativas, nesse contexto, têm sido quase todas car- plementar ao capitalismo e tornou-se sistêmica, o ter- que moravam nas ruas da cidade de São Paulo. Com precedida de uma atuação dessas duas instituições,
cerárias, segregando a população trabalhadora, de mo “geração de renda” foi cada vez mais utilizado o apoio da Organização do Auxílio Fraterno (OAF), a Igreja Católica e o PT, relacionada ao crescimento
maneira a conservar a ordem. E este sistema, na sua em substituição a “geração de empregos”. A palavra uma ONG ligada a Igreja Católica, fundada em 1951, do número de moradores de rua nas grandes cida-
avaliação, tem alcançado também a Europa. Não é um “desemprego” foi sistematicamente fustigada de ma- esses catadores começaram a trabalhar coletivamente des. Portadora de ricas trajetórias ocupacionais, essa

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população sem teto e sem emprego tem sido produ- tornaram administradores de ricas cooperativas e, barrinhas de cereais”, “sabão, sabonetes e produtos de subversão de toda a ordem capitalista, a partir da ex-
zida pelas dinâmicas de acumulação de capital e de mais tarde, de robustos Fundos de Pensão, cujas divi- limpeza ecológicos” e “artesanato” (ITCP, 2009). Ao pansão de imensas redes interligadas de produção e de
reorganização do trabalho, responsáveis pela dimi- sas passaram a interferir diretamente na economia que parece são experiências que, efetivamente, criaram consumo assépticas ao lucro, ou seja, uma revolução
nuição das ocupações formais. Sem conseguir uma ati- financeira mundial por meio do controle de ações uma alternativa de sobrevivência autônoma para os econômica sem uma revolução política. É uma ques-
vidade regular, muitos homens e mulheres passaram a de mercado. Mas o que Thompson reconheceu deve associados a estas cooperativas, principalmente porque tão difícil de ser deslindada de um ponto de vista abso-
sobreviver da cata de recicláveis, ganhando visibilidade servir como parâmetro histórico nas análises sobre as seu trabalho não depende do grande capital. Nem a lutamente especulativo, o que não impede que seja
nas cidades. É neste contexto que esses trabalhadores cooperativas. Elas atuam sob pressões do principal produção e a venda do resultado do trabalho, referente discutida à luz de experiências concretas. É o que po-
desempregados começaram a ser interpretados nos modo de produção que articula as demais formas de aos casos registrados acima, se faz na dependência demos tentar, analisando o caso dos catadores.
termos de uma “exclusão social” (OLIVEIRA, 2001), trabalho nas sociedades capitalistas. Desconhecer ou do capital. Por outro lado, é uma experiência que se Diferentemente de uma cooperativa que vende
embora integrados aos circuitos de acumulação de ca- desprezar isto é superestimar o potencial de uma no- desenvolve limitada pelo modo de produção domi- para o consumidor direto (conforme pressuposto no
pital ligados ao setor de reciclagem. va racionalidade contra o capital10. Mais adequado é nante, realizando-se, portanto, como qualquer ou- modelo de economia solidária desenhado por Singer),
Sem dúvida, organizá-los em cooperativas traduzia tomar as cooperativas de trabalho de catadores como tra relação mercantil de compra e venda de valores o trabalho dos catadores adquire outra configuração,
a intenção de uma política de recuperação social e mo- uma organização ambígua, que carrega elementos de de troca. Paul Singer não desconhece essa realidade, à medida que se trata de um trabalho dominado pelas
ral de uma massa de trabalhadores que, sem opção, negação do capitalismo, mas que, também, os repro- mas vê aí um novo processo histórico que pode levar grandes indústrias de reciclagem. São essas indústrias,
mergulhava cada vez mais na clandestinidade. Essa duz, no interesse dos proprietários de depósitos de a uma gradual superação da economia tipicamente ca- organizadas oligoponicamente, que determinam o
pretensão tem sido orientada pelos valores intrínsecos materiais recicláveis e das indústrias de reciclagem. pitalista. Em texto oficial da Secretaria de Economia preço do material reciclável e, com isso, as condições
ao cooperativismo surgido do movimento operário Nesse contexto, a trajetória dessas duas primeiras Solidária, Singer (2004) valoriza as diversas lutas dos de trabalho e de reprodução dos catadores11.
inglês do século XIX. “Auto-gestão”, “autonomia”, cooperativas de catadores criadas no país evidencia trabalhadores que reivindicam trabalho, e conclui que Assim, não é apenas o trabalho informal de milha-
“mutualismo”, “solidariedade” e “economia moral” são a importância do apoio de setores da Igreja e do PT elas sinalizam “transformações estruturais” do capi- res de catadores que passou a ser apropriado pelas
alguns dos principais valores inspirados nas experiências na estruturação dessa experiência. Ao longo dos anos talismo. indústrias de reciclagem, mas também o trabalho de
do movimento de cooperativas de consumo, havidas, 1990, surgiram muitas cooperativas, espraiadas nas Estas lutas marcam transformações estruturais, como a outros milhares de homens e mulheres que têm sido
inicialmente, na região de produção têxtil de Yorkshire, capitais e grandes cidades. Logisticamente, os resul- substituição dum vasto proletariado industrial, detentor “qualificados” para esta ocupação. Consideradas nesse
Inglaterra. No entanto, o que foi interpretado como tados das primeiras iniciativas foram, de certo modo, de direitos conquistados em longas lutas, por uma enquadramento, tornam-se representativos desse tipo
um ensaio de uma prática e cultura revolucionária concentrados em Incubadoras de Cooperativas que massa de produtores autônomos, organizados coletiva de iniciativa muitos cursos que visam não somente
terminou convertendo-se em instituições engrenadas podem ser vistas como “organizações que prestam ou individualmente, sem os referidos direitos mas com os catadores, mas “trabalhadores informais”. Como
às formações sociais capitalistas, prestando serviços serviços de assessoria” (CUNHA e MELCHIOR, potencialidades para desenvolver direitos sucedâneos anunciado recentemente pelo Ministério do Trabalho
importantes aos trabalhadores. É Edward Thompson, 2005, p.90-91). É o caso da “Incubadora Tecnológica sob a forma de fundos coletivos e sistemas solidários de e do Emprego (MTE, 2006),
autor da noção de “economia moral”, quem analisa de Cooperativas Populares da Universidade de São seguros. Isso significa que a economia, que almejamos Os cursos pretendem aumentar a cidadania e a renda
as razões do fracasso da dimensão contestadora das Paulo (ITCP-USP)”, criada em 1998, em parceria que se desenvolva, deixa paulatinamente de ser capi- dessas pessoas e vão orientar não apenas a direção
cooperativas frente ao status quo: com a CNM/CUT (Confederação Nacional de Meta- talista (ao menos no sentido marxista clássico duma técnica, para ele saber escolher e separar os materiais
Os trabalhadores, ao fortalecerem sua posição com a lúrgicos), que iniciou suas atividades ofertando e rea- sociedade de duas classes antagônicas) para se tornar como metais, plásticos e vidro. São também para que
organização nos locais de trabalho, mais se tornaram lizando cursos sobre cooperativismo. No link “Nossa cada vez mais mista. Nela poderão conviver empresas elas aprendam a organizar a contabilidade e recebam
relutantes em aderir a quixotescos tumultos que poderiam História”, a ITCP (2009) ressalta que capitalistas de todos os tamanhos, cooperativas de orientações nas áreas de saúde e meio ambiente.
comprometer ganhos acumulados com tanto custo. [...] desenvolveu 20 cursos de introdução ao cooperati- produção, de compras e vendas, de crédito, clubes de Nessa mesma direção, incubadoras de cooperativas
Cada afirmação da influência da classe trabalhadora no vismo e, posteriormente, acompanhou os grupos for- troca e associações de consumidores ‘conscientes’, ao têm aumentado a oferta de cursos desta natureza,
interior da máquina do Estado democrático-burguesa mados. Nestas parcerias, foram envolvidos mais de 600 lado de empreendimentos públicos e privados que não centrados na “formação de catadores de materiais re-
simultaneamente os implicava como sócios na direção da trabalhadores e as atividades expandiram-se para o Vale visam lucros, nos quais trabalham, ombro a ombro, vo- cicláveis”. A ITCP da COPPE/UFRJ, por exemplo,
máquina (ainda que como sócios antagonistas). Mesmo do Paraíba, o Vale do Ribeira e a Praia Grande, onde luntários e profissionais, autônomos e assalariados, do direcionou um desses cursos para um público de tra-
os índices do vigor da classe trabalhadora – os recursos catadores com o apoio da ITCP-USP em parceria com setor público e do privado (p. 4-5). balhadores bem mais amplo do que aquele consti-
financeiros dos sindicatos e das cooperativas – estavam o poder público municipal criam uma cooperativa de Não há que se duvidar que o trabalho coletivo em tuído por catadores. Na ficha de inscrição, dentre as 16
seguros apenas sob a custódia da estabilidade capitalista reciclagem. cooperativas seja capaz de produzir ou estimular práti- perguntas feitas, cinco eram relacionadas à trajetória
(2001, p.143). À época, coordenada pelo atual responsável pela cas e valores que expressem solidariedade de classe e, ocupacional, admitindo grupos de trabalhadores deso-
É claro que se tratava de uma classe operária que Secretaria de Economia Solidária/Ministério do Traba- até mesmo, sentimentos anti-capitalistas. Mas, é pouco cupados que não fossem catadores.
alcançou conquistas sociais e salariais jamais iguala- lho e do Emprego, Paul Singer, a incubadora investiu provável que tais experiências possam soterrar a lógica Por outro lado, quando tais cursos são pensados
das pela trajetória do operariado brasileiro. Tal clas- na qualificação e organização de diversas atividades capitalista da economia (mesmo que parcialmente) e como exclusivos aos catadores, o plano de formação
se estava referida aos poderosos sindicatos que se informais em cooperativas, tais como “fabricação de fundar outra (mesmo que gradualmente). Implicaria a embutido neles não é diferente da maioria dos cur-

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sos de qualificação ou “reciclagem” profissional. aos seus direitos e deveres. A pesquisa também detectou vidade que lhe proporciona lucro e (cooperados, associados, avulsos etc.)
Aprender ou aperfeiçoar as técnicas de separação dos um aumento da eficiência das cooperativas. Os dados que participa de um processo essencial A razão da reciclagem das indústrias de recicláveis.
materiais recicláveis são ações que atendem à racio- apurados sobre a gestão operacional demonstraram para a vida urbana: a reciclagem. Já os é capitalista. A criação De qualquer modo, resta inquestio-
nalidade da produção como qualquer outro ensino que houve aumento do material coletado (20,6%), do catadores associados são aqueles que de cooperativas neste nável o fato de que as cooperativas de
técnico-profissionalizante. A ampliação desse univer- material processado (25,5%) e da capacidade de pro- simplesmente vendem o seu material na contexto pode dissimular catadores, resultantes de incubadoras
so de aprendizado para novas áreas consideradas cessamento instalada. Coopamare (grifo do autor). a exploração capitalista ou não, com maior ou menor grau de
demasiadamente especializadas ou técnicas, como a Evidentemente que esta situação não tem paralelo Informações de catadores cooperados autonomia face às instituições políti-
e reforçar a taxa média
contabilidade, também não altera necessariamente a ló- com a rotina de catadores avulsos que trabalham nas indicam que o preço pago pelas coope- cas, religiosas e ao próprio Estado, re-
geral de exploração
gica de produção mercantil dos recicláveis controlada ruas ou nos lixões. Mas isto não referenda nem sinaliza rativas que adotam tal prática é superior presentam uma importante forma de
sobre o trabalho, já que
pelas indústrias de reciclagem. Pode-se falar que do- qualquer processo de construção de uma lógica anti- ao preço pago pelos depósitos, e isto de sobrevivência para milhares de homens
tar os catadores de um domínio maior ou mais extenso capitalista, conforme preconizada por Singer. De fato é verdadeiro para uma série de si- a renda e os direitos e mulheres que perderam seus empregos
sobre as atividades e as tarefas que compõem o trabalho modo diferente, essa pesquisa do BNDES pode ser tuações. Contudo, essa operação não sociais são inferiores ou sequer chegaram a tê-los, num mundo
realizado por eles torna-os aptos para o processo perfeitamente confundida com um relatório do setor elimina o atravessador, que reaparece relativamente às que tem tornado o trabalho protegido
produtivo inteiro, previsto e executado nas coope- de recursos humanos de alguma multinacional, tema- neste tipo de operação como comprador ocupações formais. cada vez mais residual. Não obstante
rativas. É certo que muitos catadores conseguirão ca- tizado sobre a situação de seus “colaboradores”. Esse do material preparado pelas cooperativas. isso, é também verdadeiro que a razão
pacitar-se para uma atuação em diferentes lugares da tipo de modelagem de uma cooperativa à estrutura e Em alguma medida, difícil de ser precisada em termos da reciclagem é capitalista. A criação de cooperativas
produção, incluindo o setor administrativo, ou terão lógicas empresariais não está restrito às experiências percentuais, essas cooperativas se apropriam de parcela neste contexto pode dissimular a exploração capitalista
instrumentos para entender e acompanhar o processo de catadores. Sobre isso, já se fez notar a respeito de do trabalho desses catadores avulsos numa relação que, e reforçar a taxa média geral de exploração sobre o
produtivo. Numa hipótese otimista, a gestão técnico- cursos desenvolvidos por Incubadoras de Cooperativas embora não pretenda ser de exploração direta, reproduz trabalho, já que a renda e os direitos sociais são infe-
administrativa das cooperativas poderá ser assumida (incluindo a ITCP da COPPE/UFRJ), que: o padrão mercantil presente na cadeia de produção riores relativamente às ocupações formais. Como pro-
por catadores, solucionando um problema apontado Parece prevalecer nessas assessorias o cunho de capacita- dos reciclados: a cooperativa como compradora e os curei discutir, trata-se de um negócio, que alimenta
em alguns estudos ao desfazer-se de uma dependência ção instrumental-técnico-legal necessário para a formação catadores associados como vendedores. Aliás, este é o catadores, atravessadores, multinacionais e agentes
por quadros técnico-burocráticos que não sejam cata- e sobrevivência de uma cooperativa como empresa com- sentido inequívoco atribuído pela Coopamare à função públicos, cujo funcionamento e controle assumem
dores (MAGERA, 2003). Mas, como já ficou evidente, petitiva no mercado capitalista vigente. [...] há um processo desses catadores “associados” que “simplesmente ven- formas flexíveis, algumas contraditórias entre si, mas
isso não modifica necessariamente a lógica à qual estão de “ajustamento” ao longo dos treinamentos através do dem o seu material” para a cooperativa. todas apoderadas pelo capital. Da combinação destas
integradas as cooperativas e, por seu turno, o trabalho qual as leis do “mercado livre” definem os limites e as pos- Uma última observação sobre o encadeamento das complexas relações de trabalho se constitui a produção
dos catadores a elas associados. sibilidades da ação cooperativa. As contradições entre as cooperativas de trabalho de catadores com as indús- de recicláveis voltada ao lucro, sendo, este último, o
Não se pode, contudo, é desconsiderar que esses lógicas da cooperação (que se pretende regendo interna- trias de recicláveis põe em relevo as repercussões sentido principal que ordena essa cadeia produtiva.
cursos funcionam como programas de recrutagem e mente a instituição) e da competição (que se espera no causadas pelas oscilações dos preços internacionais
treinamento de força de trabalho. As iniciativas go- mercado externo) não chegam a ser problematizadas no que, por sua vez, pendulam por uma série de fatores Notas
vernamentais, apoiadas ou não em ONGs e OSCIPS, processo de incubação (DUTRA, 2003, p.95-96). dentre os quais ganharam importância recorrente a re- 1. Este artigo divulga resultados da pesquisa “A organização ca-
têm sido profícuas neste caso. Em pouco tempo, os Além do mais, à medida que as cooperativas lação cambial entre Real e Dólar, e o fluxo da própria pitalista do trabalho informal”, financiada com recursos do CNPq
de catadores se estruturam, são criados limites para produção industrial. Assim, quando o valor do Real se e da Fundação Araucária/PR, e desenvolvida como parte do Pós-
resultados referentes à educação e promoção de uma
doutorado em curso na Universidade de São Paulo. Agradeço a
força de trabalho eficiente, disciplinada e estável, não a absorção de novos associados (fato que confere às aproxima do Dólar é comum haver uma diminuição interlocução crítica e enriquecedora de Osvaldo Coggiola. Tam-
são desprezíveis, ao menos nas cooperativas que fo- cooperativas o perfil de uma “sociedade limitada”), o dos preços dos recicláveis ou uma baixa na procura bém registro minha dívida com Edmundo Fernandes Dias que pa-
que não impede que sejam estabelecidas “novas” re- por estes materiais, tornando mais atrativa a compra cientemente tem contribuído para a solidez e clareza de algumas
ram alvo de políticas públicas e de investimentos do
ideias presentes neste artigo.
BNDES. Em pesquisa realizada no mês de março de lações de trabalho com catadores não-associados. A dessas matérias-primas no mercado estrangeiro. Foi o
2. É professor Adjunto nos cursos de Graduação e Mestrado
2009, consultados 59% dos 2.032 catadores que tra- Coopamare (2009), por exemplo, diz abrigar atual- que aconteceu ao longo de todo o ano de 2005, quando
em História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Foi
balham em cooperativas apoiadas pelo BNDES (2009), mente o dólar girou em torno de R$1,60. Quanto à produção Presidente da ADUNIOESTE-S.Sind. (2002-2004) e 1º Tesoureiro
as respostas indicaram melhora [...] duas categorias de catadores: o cooperado e o as- industrial, é certo que a sua diminuição faz-se sentir do ANDES-SN (2004-2006).
[...] no relacionamento familiar (82%); nas condições sociado”. [...] ser cooperado significa poder reestrutu- imediatamente sobre o trabalho dos catadores. É 3. A Triagem reside na separação do lixo inorgânico. A Compostagem
de higiene dos cooperados (79,6%); na alimentação dos rar seu modo de vida e ter uma oportunidade de rein- o caso atual motivado pela crise iniciada no final de transforma os resíduos orgânicos presentes no lixo em adubo, e seu
ob-jetivo é reduzir o volume destinado aos aterros.
cooperados e da sua família (78,85%) e no conforto das tegração à sociedade. Através de cursos de capacitação 2008, que tem abalado o mundo todo. Para o setor de
profissional, esportes, lazer, reuniões festivas, atualização reciclagem, tal crise traduziu-se numa queda em torno 4. Alcoa Aluminum é uma empresa multinacional de origem
moradias (69,3%). Outros avanços evidenciados foram
norte americana criada em 1888. Conforme consta em seu site, a
a melhoria no ambiente de trabalho e no relacionamento escolar, alfabetização, assistência social e psicológica, o de 50% a 60% na procura por recicláveis. Tais situações Alcoa é líder mundial na produção de alumínio. Seu desempenho
entre os cooperados, bem como na consciência em relação cooperado encontra suporte para desenvolver uma ati- reafirmam a dependência do trabalho dos catadores foi fertilizado pela Primeira Guerra Mundial, quando começou a

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Debates Contemporâneos Debates Contemporâneos

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Liberdade de Organização Popular

DOSSIÊ HAITI - “Por um Haiti Livre”

192 - DF, ano XIX , nº 45, janeiro de 2010 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE UNIVERSIDADE E SOCIEDADE DF, ano XIX, nº 45, janeiro de 2010 - 193
Dossiê Haiti Dossiê Haiti

Por um Haiti
Ilustração: Lauri Eduardo dos Santos

livre e soberano
N
o dia 15 de outubro de 2009, dia do Professor no Brasil, o
Conselho de Segurança da Organização das Nações Uni-
das – ONU -, com a aquiescência do Brasil, renovou por
mais um ano a permanência das tropas estrangeiras que ocupam
o território haitiano.
Isto, a despeito dos depoimentos colhidos, tanto de haitianos
quanto de membros de delegações brasileiras, que expressam a
convicção de que o que existe no Haiti, há mais de seis anos, é,
na verdade, uma ocupação militar efetivada pelos Exércitos de
vários países da América Latina, África e Ásia, sob o comando de
tropas brasilei­ras. Estas tropas agem neste território, a pedido dos
EUA, desde o governo George W. Bush. Neste sentido, a situação
pode ser considerada próxima ao que, hoje, ocorre no Iraque, no
Afeganistão e em terras Palestinas.
A Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti,
conhecida, por sua sigla francesa, como Minustah, possui um
objetivo “propagandeado” pelos governos que patrocinam a ocu-
pação do território haitiano, qual seja, o de pacificação do Haiti
por meio da utilização de forças de paz.
Ao contrário, como dão conta os depoimentos que apresen-
tamos neste Dossiê, entre eles os de dois colegas, um professor
haitiano e o representante do ANDES-SN/Conlutas, feitos na
Audiência Pública realizada no Senado brasileiro, no dia 17 de
junho de 2009, neste período de ocupação das tropas militares
no Haiti, as condições de vida do povo se deterioram ainda mais.
Muitos trabalhadores vivem com menos de U$1 por dia. O estado
de miséria atinge oito entre dez haitianos. Metade da população
ainda é analfabeta.
As tropas da Minustah transformaram a vida cotidiana dos
haitianos num caos, ao ocuparem bairros – com os canhões dos
tanques apontados para as áreas habitadas -, proibirem mani-
festações, coibindo a livre expressão em defesa dos direi­tos e de
melhores condições de vida. O fato destas cenas serem parecidas

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Dossiê Haiti Dossiê Haiti

com outras, patrocinadas por nosso Exército, nas favelas do Rio de Janeiro, só aponta para a raiz comum: a re-

Conlutas
pressão violenta contra o desespero da pobreza. E, para isso, já foram gastos milhões e milhões de dólares.
Este Dossiê, ora apresentado pelo ANDES-SN, busca chamar a atenção da população brasileira, dos
sindicatos, estudantes e organizações sociais, para fortalecer a campanha pela Imediata Retirada das Tropas
Bra­sileiras do Haiti.
Selecionamos uma série de documentos, com o intuito de mostrar aos nossos leitores alguns dados e fatos,
não divulgados pela imprensa oficial, daquilo que vem ocorrendo no Haiti. A parte inicial compõe-se de dois
artigos de jornalistas, um de brasileiros e, outro, de haitiano, este artigo inédito, historiando desde o duro passado
do povo daquela ilha até os acontecimentos, recentes, da rebelião de 2009. Seguem três relatos prestados à
Audiência Pública já citada. Para finalizar, dois depoimentos de advogados brasileiros que estiveram no Haiti,
em 2005 e 2007, ambos sob forma de entrevista, uma prestada à própria U&S e, outra, ao “Jubileu Brasil”. Para
completar, apresentamos um acervo imagético com charges de artistas brasileiros, expressando sua percepção
em relação à situação no Haiti e fotos ilustrativas. O manifesto popular, exigindo ação, e o literário, em forma de
poesia, fazem o fecho deste libelo.
Consideramos estes documentos importantes elementos para potencializar o debate e a luta pelo respeito
à soberania dos haitianos, muito embora tenhamos clareza de que ele se constitui uma pequena parte dessa

O Brasil deve renovar o


histórica luta por um Haiti Livre!
Rosewelt Pinheiro/ABr

comando da missão de
paz no Haiti?1
Brasileiros, “go home!”
Sergio Kalili e Sandra Quintela2

N
este mês, a jovem mãe de 20 e poucos anos Esterlin Marie Carmelle, solitária em seu cubículo em
Cité Soleil, uma das maiores favelas de Porto Príncipe, capital do Haiti, deveria se lembrar de Jean-
Jacques Dessalines, um ex-escravo que liderou, em outubro de 1802, a guerra para a expulsão dos
colonizadores franceses da ilha. Dessaline, logo depois, em 1804, proclamou a independência do país.
O Haiti se tornou assim a primeira nação latino-americana livre, a primeira do mundo liderada por
negros (no período colonial) e a única a ganhar a independência por meio de uma rebelião de escravos.
Mas Carmelle e seus vizinhos hoje não pensam em comemorar a luta de Dessaline. Neste mês, mais
do que nunca, ela tem em mente a presença incômoda de soldados brasileiros da Minustah, a Missão das
Nações Unidas para a Estabilização do Haiti. No dia 15, contra a sua vontade, o Conselho de Segurança
da ONU deve renovar o mandato de permanência da Minustah em seu país. Carmelle tem a marca dessa
missão de estabilização sob comando militar brasileiro. Durante uma das muitas operações do Exército em
apoio à polícia violenta do Haiti em Cité Soleil, Carmelle perdeu o filho de dois anos, atingido na cabeça

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Dossiê Haiti Dossiê Haiti

Conlutas
Em 2006, apesar da repressão e das fraudes, o candidato apoiado por Aristide, René Préval, elegeu-se
presidente. Mas, com a Minustah, Préval acabou com poderes limitados. Cinco anos de Minustah, e o Haiti
continua o país mais pobre do Ocidente. Ocupa o 153º lugar no IDH da ONU, com 80% da população abaixo
da linha da pobreza e 80% do povo desempregado. Poucos são os programas sociais e os recursos destinados
ao povo. Do orçamento da missão, 85% vai para militares e a polícia civil. A Minustah garante a estabilidade
para a implantação de projetos econômicos que agradam mais aos países vizinhos e à elite doméstica do
que ao povo. No ano em que foi eleito, Préval iniciou privatizações de portos, aeroportos, dos sistemas de
telefone e saúde. Dezoito zonas de livre comércio surgiram para transnacionais, como as têxteis americanas.
Além da miséria, a violência continua. Manifestações são reprimidas e operações violentas se repetem em
bairros pobres. Recentemente, soldados da Minustah foram acusados de matar mais um jovem durante
uma manifestação. Por tudo isso, haitianos tem protestado diante do quartel general da ONU, em Porto
Príncipe, para pedir aos membros da missão que voltem para casa.

Fotos: Conlutas

dentro de casa, enquanto dormia abraçado com ela. Mais de 20 países participam da missão, entre eles,
Argentina, Bolívia, Chile e Uruguai. Desde o início, em 2004, as tropas são acusadas de cometer massacres,
assassinatos, estupros e outras violações, sobretudo contra a população mais pobre. Em novembro de
2007, o Sri Lanka deixou a missão depois que 108 de seus soldados foram acusados de abusar sexualmente
de mulheres e crianças.
Ao apoiar as ações da polícia e do governo, integrantes da Minustah acabam por facilitar a repressão
a opositores, líderes comunitários e movimentos sociais. A bala que matou o filho de Carmelle talvez ti-
vesse outro endereço. Nos bairros pobres e miseráveis, vivem ou viviam muitos dos seguidores do ex-
presidente haitiano Jean-Bertrand Aristide, expulso do país em 2004, após outra intervenção americana.
Gerhard Latortue, representante dos militares, de ultradireita, assumiu o poder com apoio americano.
Tropas da ONU substituíram os marines no país, após a aprovação da Minustah pelo Conselho de
Segurança. Nos primeiros anos da missão, a violência foi intensa. Em fins de agosto de 2004, duas pes-
soas foram mortas próximas a Cité Soleil. Em 30 de setembro, dez manifestantes foram executados. Na 1. Artigo publicado originalmente na Folha de S. Paulo, no dia 10 de outubro de 2009, na Seção Tendências e Debate.
madrugada de 6 de julho de 2005, 300 soldados, sobretudo brasileiros, mataram mais de 60 haitianos nos 2. Sergio Kalili é jornalista, documentarista e pesquisador da ONG Justiça Global e Sandra Quintela é economista, membro da
coordenação continental da Rede Jubileu Sul.
bairros pobres de Cité Soleil e Bois Neuf.

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Dossiê Haiti
Ilustração Cáo Cruz Alves Dossiê Haiti

Para compreender o papel da


Minustah no Haiti1
Franck Seguy2

O
Haiti, de 2004 para cá, vem ocupando um espaço nas discussões das esquerdas latino-americanas.
Até porque alguns analistas acham que no Haiti está em jogo o futuro da América Latina. Talvez tal
afirmação seja um pouco exagerada. Mas, o certo é que atualmente, no Haiti, há uma situação à qual
os/as lutadores/as latino-americanos/as devem prestar maior atenção para compreendê-la – considerando
que compreender é o primeiro passo para agir.

1. Tradução de Maria Cecília de Paula Silva.


2. Franck Seguy é jornalista e militante da Asosyasyon Inivèsitè ak Inivèsitèz Desalinyèn – ASID, do Haiti. Participou da delegação
contra a Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (Minustah).

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Dossiê Haiti Dossiê Haiti

Foto: Conlutas
Parece-nos imprescindível relatar, em grandes linhas, a história do Haiti, por duas razões, pelo menos.
A primeira é que não há como compreender os acontecimentos, de 2004 para cá, isto é, a invasão do país
pelas forças armadas dos países latino-americanos (menos a Venezuela), sem levar em consideração
a trajetória histórica que levou o país a esta situação. A segunda razão, complementar à primeira, é que,
baseando-nos em nossas experiências, temos descoberto um desconhecimento recíproco entre o Haiti e
os seus povos vizinhos, latinos. Talvez essa ignorância seja ainda mais forte no Brasil.
Lembrei-me que, em agosto de 2008, o professor cubano, Luís Suárez Salazar ministrou um mini-
curso, na UFPE, cujo tema era: “Revolução, reforma, reformismo, contra-reforma e contra-revolução na
nossa América”. Na abertura do mini-curso, o professor tinha declarado que a chave para captar a relação
dialética entre esses conceitos se encontra na Revolução Haitiana (1790-1804). No intervalo, um grupo de
doutorandas aproximou-se de mim esclarecendo que, depois desta tão brilhante introdução do professor
sentia vergonha de perguntar, em frente a todos, a localização geográfica do Haiti, preferindo aguardar o
intervalo para perguntar pessoalmente.
Conto esse fato para comprovar a necessidade de, antes de chegar à invasão do país, apresentar sua
situação histórica. Numa carta, escrita em 11 de setembro de 2009, de Montevidéu, Eduardo Galeano resu-
miu a situação do Haiti da seguinte maneira:
[...] Poucas pessoas, infelizmente, recordam-se que o Haiti foi o primeiro país verdadeiramente livre das Américas,
livre do poder colonial, livre igualmente da escravidão. Hoje, ainda, as enciclopédias dizem que a Inglaterra foi a
primeira nação a abolir este infame tráfico de carne humana, e as enciclopédias mentem: a primeira foi o Haiti. E
o Haiti pagou caro: durante uma eternidade, o país pagou à França uma gigantesca indenização por ter cometido
esta ofensa ao exército de Napoleão Bonaparte, e a Europa nunca perdoou a humilhação sofrida. Atualmente, o Mesmo Bolívar, que fora procurar ajuda no Haiti para seu próprio combate, preferiu se conformar à política
Haiti, país pobre entre os mais pobres, digno entre os mais dignos, sofre as conseqüências desta longa guerra de dos Estados Unidos, que, à ocasião do Congresso do Panamá, impediram a presença de haitianos. Assim, o
libertação, da monocultura de açúcar que, no interesse exclusivo da França, arruinou as suas terras durante séculos. Haiti teve que esperar o acordo com o rei Charles e o reconhecimento da sua independência pela França,
E [ainda] sofre com os peritos internacionais arrasadores do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial antes de se beneficiar do reconhecimento de outras nações. Contudo, os Estados Unidos, que mantiveram
que recentemente têm destruído todas as proteções que o Estado haitiano oferecia à sua produção de arroz e às atividades comerciais com o Haiti desde os primeiros dias da Independência, demoraram até 1864 (39 anos
outras produções nacionais, condenando [assim] os camponeses à mendicidade ou a deixarem o país em “barcos depois da própria França) para oficialmente estabelecerem relação diplomática com o Haiti.
de sorte” (“boat-people”). Assim, fica claro que o Haiti, desde o início, ainda no berço, era considerado um “bebê não desejado”.
A partir de 1794, quando os revolucionários e as revolucionárias haitianos/as constrangeram os repre- Um exemplo a não ser reproduzido. E, para ter certeza de que ninguém teria a tentação de reproduzir
sentantes franceses da ordem colonial moderna em reconhecer oficialmente a abolição da escravidão, o Haiti uma segunda revolução como a haitiana, as grandes nações imperialistas internacionais investiram todas
passou a ser o inimigo público mundial a ser eliminado. Uma primeira vez, em 1802, Napoleão Bonaparte, todo as forças.
poderoso, mandou seu exército restabelecer a escravidão no Haiti. Lá, encontrou um exército revolucionário É muito longa a lista das pilhagens por parte dos países imperialistas (Alemanha, Inglaterra, Espanha,
encabeçado por Jean-Jacques Dessalines. Dele, um dos generais franceses disse: “É o único homem capaz de França, Estados Unidos...) no Haiti, durante o século XIX. Essas pilhagens culminaram com a primeira inva-
fazer a guerra na colônia, somos apenas alunos de quinto grau com referência a ele... 3”. Esse Dessalines levou são militar do país pelas tropas norte-americanas, em julho de 1915. Durante 19 anos (1915-1934), os Esta-
as suas tropas à vitória e proclamou a independência do Haiti, dia 1º de janeiro de 1804. dos Unidos transformaram sistematicamente o Haiti em um deserto. Além de saquear o Banco Central da
Dois anos depois, Dessalines foi assassinado por seus próprios generais por ter expressado o desejo de que República do Haiti, os ianques roubaram as terras dos camponeses e os expulsaram do campo. Estes foram
as riquezas do país fossem partilhadas equitativamente, enquanto os generais quiseram se apoderar de tudo. mandados, posteriormente, para as fábricas açucareiras na República Dominicana. Isto, porque o racismo
Deste assassinato (17 de outubro de 1806) nasceu um novo Estado, que não somente se posicionou contra norte-americano tinha decidido que a mão de obra haitiana, por ser negra, era a mais rentável e menos
as massas, mas que chegou até a negociar com o rei Charles X, da França, o pagamento da Independência. O custosa. Enquanto isso, nas terras roubadas, as empresas norte-americanas passaram a cultivar borracha e
dinheiro deste pagamento foi saqueado durante o século XIX das veias abertas dos camponeses. sisal para as necessidades das suas indústrias de automóvel e têxtil.
É preciso destacar que nenhum país reconheceu a independência do Haiti quando esta foi realizada. O nosso propósito não é analisar as conseqüências desta primeira ocupação. Não bastaria um artigo
3. Citado por Jean FOUCHARD. Les marrons de la liberté. Port-au-Prince: Editions Henri Deschamps, 1988, p. 433. para isso. No entanto, cabe destacar que o êxodo massivo dos camponeses, do campo para a as cidades e

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Dossiê Haiti Dossiê Haiti

Foto: Conlutas
- a missão de liderar essa terceira invasão foi imputada ao exército brasileiro, enquanto 17 outros países
completaram a composição das tropas. Entretanto, as mídias, tanto as haitianas como as brasileiras, e as
demais, se deleitaram; uma verdadeira corrida, a vestirem essa invasão com uma camisa de cooperação
Sul-Sul. Um resumo, diário, do último mês de junho sobre a atuação das forças de invasão, mal nomeadas,
Missão das Nações Unidas pela Estabilização do Haiti (Minustah), pode ajudar a captar a natureza desta
cooperação.
1- Depois de muitas mobilizações do setor operário e popular, em geral, a Câmara dos Deputados e
o Senado adotaram, por voto, uma nova lei reajustando o salário mínimo de 70 para 200 gourdes
(42 gourdes = 1 dólar);
2- A Associação dos Industriais Haitianos (ADIH), no dia 13 de maio, promoveu uma conferência,
colocando claramente que está pronta para fazer tudo a fim de impedir que o presidente da
República publique esta lei no jornal oficial do Estado. No mesmo momento, os industriais man-
daram os parlamentares reexaminarem seu voto. O mês de maio serviu para ambos os campos
(os burgueses e os trabalhadores) mobilizarem suas forças;
3- Segunda-feira, dia 1º de junho, os estudantes da Faculdade de Ciências Humanas (FASCH, em
francês) da Universidade Estatal do Haiti (UEH) fizeram um acampamento na Avenida Christophe
para chamar o presidente a respeitar suas obrigações legais, de cumprir a nova lei;
4- Quarta-feira, dia 3 de junho, os estudantes fizeram uma grande manifestação nas ruas da capital.
A Minustah começou aí sua operação de balas;
5- Quinta-feira, dia 4, outra manifestação maior saiu pelas ruas. A Minustah continuou atirando.
para outros países, se inicia nesta ocupação. E, sabemos que, desde 1980, a Organização Internacional do
Prendeu 40 pessoas, das quais 24 eram estudantes. Numa igreja, perto à Universidade, uma
Trabalho – OIT havia reconhecido que a única expressão suscetível para traduzir a situação dos trabalhadores
criança morreu sufocada sob o efeito do gás lacrimogêneo, com o qual a Minustah aspergiu todas
haitianos nas plantações de cana da República Dominicana era a de “escravidão moderna”.
as ruas da Cidade Universitária. Um jovem de 20 anos foi atingido na cabeça por uma bala. As 40
Hoje em dia, essa escravidão moderna de haitianos se realiza no seu próprio país, com a ajuda das
pessoas presas não puderam receber nem mesmo visita ou comida dos familiares, pois foram
tropas dos países latino-americanos. Para melhor entender o papel destas tropas, é preciso saber que o
impedidas pela policia;
Haiti passou por um segundo processo de ocupação militar em 1994. Essa segunda ocupação decorreu do
6- Entretanto, na segunda-feira, dia 8 de junho, o governo aproveitou-se da situação para anunciar
Golpe de Estado contra o governo popular, eleito em 1991. Durante os três anos deste golpe, os militares
a privatização das telecomunicações públicas haitianas;
haitianos usaram de uma repressão tão forte que o povo tinha chegado a acreditar que o exército era
7- Terça-feira, dia 9, os estudantes não tiveram tempo de sair. A Minustah fechou o bairro de manhã
o seu único inimigo. A maioria dos militantes mais avançados, que entendiam o verdadeiro papel dos
cedo;
militares, como pelegos da burguesia, foi assassinada durante o regime de terror estabelecido entre 1991
8- Terça-feira, dia 9, alunas e alunos de escolas secundaristas públicas realizaram uma manifestação
e 1994. Aqueles, que não foram assassinados, fugiram do país. Após três anos de mobilização popular, o
bem maior que as dos estudantes universitários. Resultado: a Minustah aspergiu com um gás
presidente voltou para continuar seu mandato. Porém, já era outra pessoa. Aceitou, como um capacho,
lacrimogêneo sufocante, muito tóxico, o Hospital da Universidade Estatal do Haiti – HUEH. Até
todas as condições impostas pelos Estados Unidos, entre as quais a privatização da economia do país.
os médicos foram embora, deixando os doentes sozinhos. Esse hospital é freqüentado somente
Entretanto, para melhor iludir o povo, dissolveu o exército; mandou os militares embora; criou uma força
por pessoas muito pobres. Perto do HUEH, chamado Hospital Geral, morreu um idoso sufocado. A
policial civil.
Minustah prendeu várias pessoas e continuou prendendo pessoas até a madrugada;
Isto é, quando, em 2004, uma forte mobilização nas ruas de Porto-Príncipe ajudou a tríade Canadá-
9- Quarta-feira, dia 10 de junho, a Minustah invadiu duas faculdades da Universidade Estatal do
França-Estados Unidos a caçar, por uma segunda vez, o governo de Jean-Bertrand Aristide, já não
Haiti - UEH: a Faculdade de Etnologia e a Faculdade de Ciências Humanas (FASCH). Na Faculdade
existiam mais militares locais para cumprir a tarefa de reprimir o povo. Era necessário importar tropas de
de Etnologia, os estudantes descobriram um jovem com armas. Esse jovem testemunhou que foi
outros países. As duas experiências de ocupação realizadas pelos Estados Unidos tinham deixado clara a
mandado lá para fazer um trabalho com arma. Mas, no momento de seu testemunho, a Minustah
incapacidade de militares ianques a silenciarem o povo haitiano. Aproveitando-se de um fato afetivo – os
atirou e aspergiu gás e todo mundo acabou correndo. E a Minustah foi embora com este jovem,
haitianos, sendo torcedores do futebol brasileiro, já tinham a bandeira do Brasil presente nas suas casas
prendendo, ao mesmo tempo, outros estudantes;

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Dossiê Haiti Dossiê Haiti

Fotos: Conlutas

Foto: Rosewelt Pinheiro/ABr


c- este jornalista concedeu entrevista a uma rádio (Radio Metrópole), explicando o acon-
10- Quarta-feira, dia 10, à tarde, um estudante foi baleado na cabeça e acabou morrendo. O nome
tecido. Sophie Bouteaud de la Combe, porta-voz da Minustah, ordenou ao diretor da
dele é Emmanuel Jean-François;
televisão estatal a demissão deste jornalista, culpando-o por ter testemunhado a respeito
11- Segunda-feira, 15 de junho, a Minustah descarregou uma granada fragmentária na Universidade
do seu esforço para salvar um jovem, que estava morrendo por ter sido baleado pelos sol-
Estadual do Haiti, precisamente no Centro de Treinamento de Professores, denominado em fran-
dados brasileiros.
cês École Normale Supérieure (ENS). Pelo menos, dois estudantes ficaram feridos;
19- Quinta-feira (18/06), quadros civis da Minustah abandonaram, na Rua da Reunião (Rue de la Réu-
12- Terça-feira, dia 16 de junho, a Minustah prendeu várias pessoas no Champ-de-Mars - Praça dos
nion), um carro 4x4 Nissan Patrol branco, que tinha as letras UN - United Nations (Nações Unidas),
Heróis da Independência, por terem gritado contra as tropas que estavam tentando entrar na
deixando as portas abertas. Alguns minutos depois, o carro explodiu, ferindo transeuntes;
Faculdade de Etnologia;
20- Sexta-feira (19/06), os estudantes da Faculdade de Medicina foram aspergidos com gás lacrimo-
13- No mesmo dia 16 de junho, os soldados prenderam três jovens moradores de rua. São jovens que
gêneo até às 21 horas. Mesmo o campo de futebol, situado a alguns metros, foi atingido pelo gás,
sobrevivem da lavagem de carros, numa praça contígua à Faculdade. Os soldados acusam-nos de
no momento de uma partida entre o Haiti e Panamá.
alertar os estudantes, a fim de se esconderem toda vez que se aproximam as tropas;
Esse relato de três semanas de luta apresenta uma idéia do nível e da qualidade que a repressão da
14- Quarta-feira, dia 17 de junho, as tropas usaram balas e gás lacrimogêneos para dispersarem uma
Minustah desempenha no Haiti. A situação descrita acima se estendeu até setembro, quando o presidente
passeata dos estudantes. Dois estudantes (Leroy e Israel) ficaram feridos;
e seus parlamentares, cães de guarda mais fiéis da ordem do capital, decidiram fazer uma nova votação,
15- No mesmo dia 17, alguns jornalistas foram ameaçados por parte da Minustah, que os repreende
arrochando o salário mínimo de 200 para 125 gourdes.
por acompanharem, com reportagens, as manifestações estudantis. Alguns foram aspergidos
Mas, foi necessário esperar o mês de outubro para entender que toda essa repressão por parte das
com gás lacrimogêneos no momento em que estavam exercendo a sua profissão;
tropas brasileiras, especialmente, não atende apenas às necessidades dos capitalistas locais. Satisfaz,
16- Em outro evento, no mesmo dia 17 de junho, um jornalista foi ferido pela Minustah, no momento em
prioritariamente, as necessidades de empresários brasileiros.
que os estudantes da Faculdade de Medicina estavam reclamando contra a presença das tropas;
Uma missão de empresários brasileiros foi ao Haiti, com o objetivo de identificar lugares para implantar
17- Na feira pública Salomon - Mache Salomon, em crioulo haitiano - os soldados brasileiros prenderam
maquiladoras4, isto é, fábricas de têxteis. O motivo é que, além da mão de obra mais barata – 125 gourdes (42
20 jovens. Sem nenhuma razão, nem explicação;
gourdes = 1 dólar), o Haiti oferece outra vantagem: trata-se da lei chamada Haitian Opportunity for Economic
18- Quinta-feira (18/06), na catedral de Port-au-Prince (Porto Príncipe, capital do Haiti) houve o en-
Enhancement - HOPE. Essa lei permite aos produtos industriais fabricados no Haiti chegarem aos Estados
terro do Padre Gérard Jean-Juste, personagem muito conhecida no Haiti e no mundo. Durante o
Unidos sem tributação de impostos. Isto é, a Minustah tinha reprimido as lutas estudantis e operárias, em
evento, a Minustah, precisamente, quatro soldados brasileiros se aproximaram da catedral, onde
prol do reajuste do salário mínimo, porque os empresários brasileiros estão investindo no Haiti. Precisam de
uma multidão de simpatizantes estava lamentando a perda do seu mentor. Um grupo foi até falar
mão de obra barata, além da oportunidade de venderem suas mercadorias sem taxas aos EUA.
com os soldados para lhes explicar que a presença de tropas de ocupação não era bem-vinda,
Ou seja, a invasão do Haiti em 2004 pelas tropas latino-americanas não se configura, apenas, como
numa circunstância como aquela. Os soldados brasileiros se exasperaram e acabaram disparando
sendo a invasão do Haiti. É também um golpe contra as classes trabalhadoras de outros países, como a
contra a multidão:
classe trabalhadora brasileira. Por isso, a solidariedade para com o povo haitiano não é somente necessária,
a- um dos jovens, baleado, morreu instantaneamente. Ao menos duas televisões filmaram
senão, também, uma condição para a emancipação da nossa América Latina do julgo do capital, cada vez
o ato, que foi retransmitido ao vivo.
mais abominável.
b- um jornalista da Televisão estatal (TNH), que assistiu os tiros, procurou a Cruz Vermelha,
4. Maquiladoras são indústrias estrangeiras que se instalam em um país para aproveitar a mão-de-obra mais barata, trazendo todos os
mas não houve tempo para socorrer o jovem. insumos mais caros do país de origem. Os EUA instalaram muitas maquiadoras no México, por exemplo.

206 - DF, ano XIX , nº 45, janeiro de 2010 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE UNIVERSIDADE E SOCIEDADE DF, ano XIX, nº 45, janeiro de 2010 - 207
Dossiê Haiti Dossiê Haiti

Ilustração: Lauri Eduardo dos Santos


Em especial, a denúncia dos haitianos se refere a que os militares estrangeiros da Missão das Nações Unidas
para a Estabilização do Haiti – Minustah - agem no Haiti para reprimir movimentos sociais, praticar sequestros
e, até, violência sexual contra mulheres e crianças. Argumentam, com razão, que não existe a necessidade das
chamadas “tropas de paz” no Haiti, pois o país não está em guerra. Afirmam, baseados na história pregressa
de intervenções estrangeiras no país e na análise da atual conjuntura, que o verdadeiro objetivo das tropas é
silenciar a população e privá-la de seu direito de reivindicar condições dignas de vida.
Em meio a uma luta permanente pelo Haiti Livre, o povo haitiano reage, apesar da repressão imposta e da
violência externa, armada para silenciá-los. Nas vésperas da visita da delegação haitiana ao Brasil, em junho de
2009, aconteceram mobilizações importantes no Haiti pelo reajuste do salário mínimo, duramente reprimidas,
num primeiro plano, pela própria polícia do país, mas reprimidas, desta vez mais explicitamente, também pela
Minustah, a dita “força de paz”. Não haveria motivo mais justo para as reivindicações.
O salário mínimo atual no Haiti (U$ 1,7 diários = R$ 3,30) se encontra congelado desde 2003. Nunca é
demais lembrar que as forças da Minustah estão no país desde 2004. Na década de 80 o salário mínimo era de
cerca de U$ 3 diários. Em abril, foi aprovada uma lei, depois de 2 anos de discussão, que reajustava o salário
mínimo para cerca de U$ 3,50. O governo, junto com as organizações patronais, se negou a cumprir a lei. Este
fato dá consistência à análise de que o objetivo primeiro da presença das tropas da ONU, comandadas pelo
Brasil, é, de fato, ajudar a manter a escravidão moderna, neste país, como fonte de mão-de-obra barata para a
exploração pelo capital.
A representação brasileira que esteve no Haiti, organizada pela Conlutas, participou das manifestações
referentes ao Primeiro de Maio, ocasião em que um dos eixos de luta já era, exatamente, este reajuste do salário
mínimo. Nesta oportunidade, a delegação, que, entre outros, contou com um representante do ANDES-SN, presenciou
repressão policial e da Minustah, com balas de borracha e gás, frente a um movimento pacífico. As mobilizações
se estenderam durante todo o mês, culminando com uma grande manifestação no dia 4 de junho, ainda mais
violentamente reprimida, com prisões de estudantes, vários feridos e um estudante baleado na cabeça. Além disso,
as tropas invadiram a Faculdade de Medicina da Universidade do Haiti, o que é proibido pela lei do país.
A campanha de denúncia, no Brasil, desta insustentável situação contou com o intercâmbio de represen-
tantes brasileiros da Conlutas e de representantes do Haiti. Foram realizadas palestras e entrevistas em diversas
capitais e cidades, com o propósito de ampliar a resistência a este ataque à liberdade do povo haitiano. O
percurso pelo território nacional foi assim realizado: Didier, da Batay Ouvriye, percorreu Goiás, Minas Gerais
e São Paulo; Carole, da SOFA, foi à Bahia, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro; Franck, da PAPDA,
Rio Grande do Norte, Pará, Pernambuco, Ceará e Maranhão. O roteiro foi finalizado em São Paulo, no dia 26 de

Haiti URGENTE
junho de 2009, com avaliação da ação e planejamentos para a continuidade da campanha.
Nos dias 16 e 17 de junho os companheiros haitianos estiveram em Brasília, em reunião preparatória para a
audiência com o Itamarati. No dia 17, houve uma Audiência Pública no Congresso Nacional, com a participação

I
ncentivados pela visita de uma delegação de sindicalistas e representantes de movimentos sociais brasileiros de várias entidades e movimentos sociais.
ao Haiti, por ocasião dos festejos de Primeiro de Maio de 2009, uma delegação de haitianos esteve no Brasil, Transcrevemos, neste Dossiê, o depoimento do haitiano Didier Dominique, que foi feito na Audiência
em junho do mesmo ano, para denunciar o aumento da repressão aos movimentos sociais, organizações Pública no Senado Nacional1, bem como as falas de dois companheiros, que estiveram no Haiti durante o
sindicais e ao povo em geral, naquele país. O jornalista haitiano Franck Seguy, membro da Plataforma Haitiana período de ocupação, e se manifestaram publicamente neste mesmo evento.
em Defesa de um Desenvolvimento Alternativo (PAPDA), a professora universitária Carole Pierre Paul-Jacob, 1. Audiência Pública que constou da segunda parte da Reunião Extraordinária da 20ª Comissão de Relações Exteriores e Defesa Na-
cional, do Senado Federal, da 3ª sessão legislativa ordinária da 53ª legislatura, realizada no dia 17 de junho de 2009, atendendo ao re-
dirigente da organização Solidariedade das Mulheres Haitianas (SOFA) e Didier Dominique, membro da Central querimento do Senador José Nery, aprovado no dia 6/11/2008. Este requerimento foi fruto da intervenção da Conlutas, da Rede Jubileu
Sindical Popular Batay Ouvriye, fizeram parte desta delegação. Sul e de outros movimentos sociais brasileiros.

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Dossiê Haiti Dossiê Haiti

ajudar, numa missão de paz. Portanto, vou tentar definir o que quer dizer “ajudar” e o que quer dizer “Haiti”.
Numa assembléia plenária, no Senado brasileiro, tentei explicar o grande problema pelo qual passou
esse ramo capitalista norte-americano, principalmente, e canadense também, chamado indústria da “agulha”.
Não é apenas têxtil, são também bolas de beisebol, de tênis, de futebol, que são feitas com agulha. Essa
indústria, depois da Segunda Grande Guerra (que dizem ter sido mundial, mas que foi a segunda guerra inter-
imperialista), esse ramo da indústria capitalista nunca conseguiu mecanizar-se, nem ao menos informatizar-
se. Então, começou a perder, pouco a pouco, sua mais-valia, diminuíram seus ganhos. Obviamente, para
resolver esse problema, teriam de ir para aqueles lugares onde pudessem obter o máximo de mais-valia em
relação a seus ganhos e, principalmente, no que diz respeito à mão-de-obra. Primeiro, foram para o México,
depois para o restante da América Latina, para a América Central, para o Caribe, e agora estão indo para a
Índia, Taiwan, Camboja, China etc., sempre em busca de mão-de-obra barata.
Nos anos de 1980, uma comissão instituída pela presidência do Senhor Reagan disse claramente,
num documento chamado CBI, Caribbean Basin Initiative (Iniciativa para a Bacia do Caribe) e, mais especi-
ficamente, para o Haiti, que os países dessa região, exceto Cuba, deveriam ser transformados em fontes de
mão-de-obra barata. Disseram isso, preto no branco. Então, no Haiti, iniciou-se a matança a todos os porcos
dos camponeses, justificada por uma suposta “gripe suína”, que depois descobriram que não existia. Eles
simplesmente mataram os porcos. Todos nós sabemos como os porcos são importantes para os camponeses.
Quando alguém fica doente, quando alguém morre, quando há uma catástrofe, eles vendem um porco.
Quando mataram todos os porcos, primeiro houve, nos anos 1970, 1980, 1985, uma enorme migração,
que provocou uma desestruturação muito séria do mundo rural. Houve uma enorme migração para as ci-
dades, para a vizinha República Dominicana, para Miami e para a Bahamas. Eram os boat people haitianos.
Foto: Conlutas Esta ação foi planejada, não foi coincidência.

Todas as roupagens da mentira1


Depois acabaram com o açúcar. Antes, o Haiti exportava açúcar, hoje importa 100% do que consome.
Compraram todos os engenhos e depois os fecharam. Em outras ocasiões, simplesmente os destruíam,
como aconteceu no norte, num engenho chamado Welch, que foi completamente arrasado. Recentemente,
Didier Dominique2 com o dumping - como sabem, vendem mais barato - estão destruindo a agricultura. Estão acabando com
o arroz haitiano. Agora está no país a Jumbo Rice, a Lucky Rice, a Chaco Rice, entre outras empresas de arroz

L
embro-me de que, recentemente, um dos responsáveis norte-americanos tinha a pretensão de definir norte-americanas. Desta forma, ocorre, no momento, uma migração enorme para as cidades como Cap
a Amazônia como patrimônio da humanidade e que os Estados Unidos estavam dispostos a vir aqui Haitien, Porto Príncipe e Bonaire, principalmente.
para organizar as coisas, porque têm mais meios e capacidade para fazê-lo. Lembro-me, também, de Por fim, entre 2004 e 2006, num documento chamado Convenção Quadro Interina de Cooperação, a
que um dos responsáveis brasileiros – não sei se era o Embaixador ou um dos ministros – respondeu que CCI, dizem claramente que já alcançaram a situação desejada e que falta construir as Zonas Francas. Essa
o dia que Manhattan fosse considerada da humanidade, e que qualquer ser humano pudesse viver em mão-de-obra - a mais barata da América e uma das mais baratas do mundo - está à disposição, e agora es-
Manhattan, então estariam dispostos a compartilhar a Amazônia. tão construindo as Zonas Francas.
Não vou tratar das intervenções, permitidas ou não, pela ONU, pois como explica Aderson Bussinger, O vice-presidente da República do Brasil, José Alencar, há pouco tempo atrás, enviou seu filho para
Conselheiro da OAB-RJ, “em 2004, quando intervieram as diferentes forças, não havia um acordo estabelecido”. realizar visitas às Zonas Francas no Haiti. Isto, porque o vice-presidente do Brasil é dono da fábrica têxtil
Sabemos, também, que quando os norte-americanos invadiram o Iraque, o Conselho de Segurança da mais importante no país. Aqui, também há mão-de-obra barata para que se aumente a mais-valia na pro-
ONU tinha dito não a princípio, porque a investigação não estava terminada. Eles entraram da mesma forma. Vou dução do mesmo têxtil. Agora também é possível entender outros tipos de relações, não sei se posso cha-
repetir as palavras da estimada Senhora Comissária que disse que as forças da Minustah foram para o Haiti para má-las de “humanitárias”.
A pergunta que fazemos é:
1. O conteúdo deste texto foi parcialmente apresentado na Audiência Pública da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional Por que o Haiti, após uma revolução extraordinária que se expandiu pela América Latina, está passando
do Senado Federal, no dia 17 de junho de 2009 e traduzido pelo tradutor oficial do evento.
2. Haitiano, professor universitário, arquiteto e urbanista, sindicalista e representante do Movimento Batay Ouvriye. por isso?

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Dossiê Haiti Dossiê Haiti

Paradoxalmente, é por causa da própria revolução. Por que foi a única só de negros e que, em toda a outra vez, o mesmo projeto de exploração.
América – do Norte, Central e do Sul -, expulsou até os colonos. Em todas as demais independências, foram Os levantes populares de três a oito de abril do ano de 2007 revelaram uma população haitiana que
os colonos nativos que se separaram da metrópole. Os Estados Unidos se separaram da Inglaterra, o Brasil está quase comendo terra, de tanta pobreza. Levantaram-se para dizer que estavam com fome. E foi uma
de Portugal, o Paraguai e a Venezuela da Espanha etc. No Haiti, até os colonos foram expulsos pela força das primeiras repressões abertas da Minustah. Nas ruas, nos bairros, nas fábricas onde mobilizávamos as
da revolução dos escravos. Mas, essa façanha tão extraordinária deixou um país completamente destruído, pessoas, agora, há policiais da Minustah. Recentemente, mesmo, com as mobilizações de Primeiro de Maio,
com uma dívida com a França e sob bloqueio. com as mobilizações dos estudantes por um salário mínimo ridículo, se comparado com o da América
Apesar de ter a ajuda do Bolívar, Miranda e José Martí, que saíram do Haiti para começar todas as Latina; se comparado com o da Europa então, nem pensar! Um aumento muito pequeno, já votado pelo
ondas independentistas na América Latina, no I Congresso da OEA no Panamá, não tinha representante do Parlamento Haitiano, foi bloqueado pelo Executivo e pela burguesia têxtil.
Haiti. Era o I Congresso dos Estados Livres da América e os Estados Unidos, que ainda possuía escravos em E por que a Minustah não disse, por exemplo, que estava de acordo com o salário-mínimo? Por que,
sua democracia, não aceitaram a presença do Haiti. Os demais cederam à pressão norte-americana e ainda ao contrário, bloquearam o protesto dos trabalhadores e dos estudantes?
deram início a um embargo contra o Haiti que durou até 1864, depois da Guerra de Secessão nos Estados A Minustah entrou nas universidades, nas fábricas, nos hospitais e jogaram bombas de gás lacrimogêneo
Unidos. contra todos os que protestavam.
Essa revolução haitiana, tão extraordinária, deixou uma formação social muito vulnerável e frágil e No momento, o projeto da suposta ajuda ao Haiti se resume às forças militares, que trabalham para as
que, agora, depois de 200 anos, é a mais destruída. Está assim por sua incapacidade natural de nação classes dominantes haitianas e para o imperialismo, com um projeto que eu chamaria de criminoso. Eles
incipiente, mas também pelas sucessivas invasões norte-americanas. Em 1915, por exemplo, durante a trabalham para um projeto de super-exploração.
primeira ação norte-americana, outros países também foram invadidos, e permaneceram sob domínio É uma missão de paz?
norte-americano por três ou quatro anos. Já o Haiti, esteve submetido por vinte anos. Entre 1915 e 1934, Sim, é uma missão de paz.
todas as estruturas incipientes do país foram destruídas e a agroindústria norte-americana foi imposta, Mas é uma paz de cemitério, para um projeto de super-exploração, totalmente criminoso.
com a Chada, a Asco etc. Bloqueou-se o desenvolvimento do país. Saíram, deixando governos lacaios a seu Essa é a lógica por trás da institucionalização no Haiti.
serviço e uma Guarda Nacional, um exército, uma polícia, também de lacaios. Mas que instituição?
Recentemente, o Presidente Clinton, dos Estados Unidos, foi nomeado “Governador”, como costuma- Em defesa de que projeto?
mos dizer, mas informalmente o chamam de “Ajudante”, para o Haiti. Em seu relatório, diz claramente Devido à sua debilidade social crônica, histórica, o Haiti parece precisar de ajuda, como ele próprio
que a exploração da mão-de-obra barata, em outras palavras, as Zonas Francas, é o projeto que deve ser prestou a outros países latino-americanos para que lutassem por suas independências. Isso é verdade.
apoiado, com a mão-de-obra mais barata, a formação social mais vulnerável, o país mais destruído e as Mas as pessoas podem vir para o Haiti para ajudar o povo ou para ajudar as classes dominantes, a
classes dominantes mais incapazes. São mantidas incapazes pelo bloqueio inicial e pela destruição, dita burguesia, que é uma das mais reacionárias e atrasadas do continente, vale mencionar. Podem vir explorar
humanitária, mas, na realidade, de exploração, resultado da ação do imperialismo. essa mão-de-obra, tão barata e tão pobre, e é isso que está acontecendo. As forças militares apóiam o
Outra intervenção poderia estar apoiada nos desmandos da Minustah. Um deles, muito importante, projeto de exploração mais terrível que existe.
foi a recente expulsão de cento e oito soldados do Sri Lanka, comprovadamente responsáveis pelo estupro A Minustah demonstra claramente, e cada dia mais, que veio para reprimir os movimentos sociais, as
de meninas entre 8 e 12 anos. Foram expulsos do Haiti e não houve mais nada. A companheira Carole Pierre mobilizações dos trabalhadores e dos estudantes. No meio rural, numa recente reforma agrária mínima, que
Paul-Jacob, de uma organização de mulheres no Haiti, tem um Dossiê completo de todos os desmandos da está sendo feita no norte, no Cabo Haitiano, os donos de terras não aceitaram a proposta feita pelo governo.
Minustah. E, de novo, temos a ação da Minustah, como força principal de repressão dos trabalhadores, dos estudantes
A lógica da presença da Minustah faz parte do projeto imperialista burguês da indústria têxtil, do e no meio rural. Atua, cada vez mais, em apoio às forças mais reacionárias e mais arcaicas. É a opção clara
qual o Brasil também participa. Isto pode ser visto nos documentos nos quais se planeja e se propõe a das multinacionais e dos norte-americanos, num projeto já escrito, preto no branco. Eles têm que vir para cá
destruição da formação social, da agricultura e da indústria incipiente haitiana, para ter à disposição a mão- para realizar esse projeto de exploração e destruição da identidade e da dignidade do povo haitiano.
de-obra mais barata e para manter a exploração mais descarada. A repressão ao povo é obrigatória e, ainda pior, a miséria generalizada é uma situação forçada, se
No ano de 2005, quando, de certa forma, acabaram com os grupos armados, o fizeram espalhando um pensarmos bem sobre o assunto.
terror enorme nos bairros populares. Há provas de que houve disparos contra igrejas, contra escolas e contra Quem, além das maquiadoras3, está melhor? Quem trabalha nas maquiadoras? É preciso estar em
maternidades. Quando Duvalier deixou o poder com os Tontons Macoutes, os bairros populares ficaram uma situação pior do lado de fora para ir pedir trabalho nas maquiadoras. Por isso que nunca, nenhum dos
abandonados e os grupos armados ocuparam esse espaço. Para acabar com esses grupos armados, foi programas para acabar com a miséria que existem, conseguirão acabar com a mesma. Os programas são
preciso estabelecer outro tipo de controle. A Minustah o fez pelo terror. Essa é a lógica também. Agora, ela 3. Maquiadoras são indústrias estrangeiras que se instalam em um país para aproveitar a mão-de-obra mais barata, trazendo todos os
está por todo o país, por todas as cidades, formando a polícia nacional. No entanto, continuam defendendo, insumos mais caros do país de origem. Os EUA instalaram muitas maquiadoras no México, por exemplo.

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Dossiê Haiti Dossiê Haiti

mentirosos!
Por isso, o título deste artigo: “Todas as roupagens da mentira”.
A miséria é uma situação obrigatória para o projeto das classes dominantes no Haiti. Por isso o
Presidente Préval não se preocupa.
Em relação à presença das tropas estrangeiras e, em especial, à presença de tropas brasileiras, que
chefiam a Missão da Minustah no Haiti, se o governo de Luiz Inácio Lula da Silva realmente desejasse, retiraria
as tropas do Haiti imediatamente, como fez o primeiro-ministro espanhol Zapateiro, que prometeu, durante
sua primeira candidatura, retirar as forças espanholas do Iraque e do Haiti. Ele realmente as retirou.
Assim, temos ciência de que qualquer país pode sair do dia para noite, de uma Missão que é, por si só, Fotos: Conlutas
mentirosa: que apregoa uma missão de paz e age numa ofensiva de guerra contra a população haitiana.
Mas esta retirada das tropas brasileiras do Haiti não depende apenas de suas contradições internas, Formalmente, legalmente, a polícia não tem direito de proibir uma manifestação. No último Primeiro
dos movimentos sociais e mobilizações que pressionem esta saída. O drama pelo qual passamos é que de Maio, quando veio o Presidente Lula, queríamos fazer várias manifestações. Fomos proibidos.
o Presidente Lula, assim como o Presidente Evo Morales e toda essa esquerda latino-americana, que, Não queremos dizer que a Missão seja a culpada dessa situação. Absolutamente! É um problema de
supostamente se constituiu a partir de movimentos populares, de partidos de trabalhadores, de partidos muito antes, é uma questão estrutural. A Missão não cria essa situação. Claro que não! Seria falso dizer isso.
de esquerda, do movimento sindical, parece que se esqueceram disso. São eles que estão ocupando o O que dizemos é que a Missão ajuda a estabelecer uma nova etapa da situação, que é a etapa da
Haiti, ainda que sob o comando norte-americano. exploração da mão-de-obra, que a mesma lógica ajudou a criar.
Atualmente, a presença de Clinton polariza ainda mais a situação. Nós duvidamos que o ex-presidente A burguesia tem, por exemplo, uma sugestão para o Estado e diz, outra vez, preto no branco, que
dos Estados Unidos, Bill Clinton, venha para receber ordens do Embaixador do Brasil ou de homens da a vantagem comparativa do Haiti, sua vantagem no jogo de deslocalização da indústria têxtil, que co-
ONU. Acreditamos que será o “governador” dessa Missão. É preciso esclarecer isso muito bem. nhecemos, é a oferta de mão-de-obra mais barata.
Para finalizar, gostaria de destacar um ponto ainda pouco debatido, com a seriedade devida, e que Mas essa frase anódina é muito cruel, porque a vantagem comparativa da burguesia haitiana é a mão-
merece a atenção de todos: a relação Brasil x Haiti. Vou tratá-la a partir das duas visitas que o Presidente de-obra mais barata, que deve continuar sendo mais barata!
Lula fez ao Haiti e da reação do povo haitiano, nos dois momentos. Para isso, há um salário mínimo mais barato, sempre. Para isso, há a repressão anti-sindical. Porque os
Quando o presidente Lula foi ao Haiti pela primeira vez (com a seleção brasileira), em 2004, foi recebido sindicatos existem e, se pudessem protestar, o salário mudaria.
com muita festa. A identidade cultural entre o Brasil e o Haiti é muito grande, retratada especialmente pela Destaco, mais uma vez, um fato que nos chama a atenção e preocupação: foi publicado em um jornal
identificação no futebol, o que aumenta a responsabilidade brasileira em relação aos haitianos. Contudo, haitiano que, recentemente, o filho do vice-presidente do Brasil, dono da indústria têxtil mais importante
esta relação amistosa, calorosa e de país irmão, vem sendo ofuscada em razão da ocupação militar. no país, visitou a Zona Franca do Haiti, visando implantar um pólo de sua indústria lá. Isto nos impressiona
Não se entende como uma missão que tenha começado com propósito de ajudar o país, pensada mais ainda por ser mais um fato que possa contribuir para a permanência das tropas brasileiras no Haiti.
por governos de partidos de esquerda, democraticamente eleitos e reeleitos, tenha se transformado em A questão da proteção de indústrias estrangeiras no país continua sendo utilizada como um dos
instrumento de repressão e violência contra o povo e os trabalhadores haitianos. Na segunda visita de argumentos, uma das justificativas, para a ocupação militar no Haiti.
Lula, em 28 de maio de 2008, a cidade estava silenciosa, o povo não estava na rua, o que, se, por um lado, Não é sem razão que o Banco Mundial tem financiado a construção de zonas francas no território
denuncia a falta de apoio do povo haitiano ao governo brasileiro, explicita a conscientização do povo sobre haitiano.
seus agressores. Esta situação é reveladora de uma denúncia que precisa ser feita e reforçada constantemente: que a
No entanto, nem mesmo as forças de resistência e os movimentos sociais e sindicatos puderam ir às ocupação das tropas estrangeiras no Haiti foi construída pelo imperialismo norte-americano e não, conforme
ruas denunciar o massacre do povo haitiano pelas Tropas de Ocupação da ONU, chefiadas pelo Exército apregoam, pela necessidade do povo, que necessita, sim, de ajuda, mas de uma ajuda humanitária e não
brasileiro, pois havia forte presença da Minustah na cidade. As polícias haitianas, junto com as tropas de de uma ocupação desmedida e violenta.
ocupação, não permitiram que a Batay Ouvriye4 e outras três organizações entregassem a Lula um manifesto Agora, as máscaras da ocupação estão caindo, pois há este vício de origem que deve ser explicitado.
sobre a situação de repressão no Haiti (Carta abierta al sr. Ignácio Lula da Silva, presidente de Brasil). O vício da dominação.
Nós queríamos entregar a ele, formalmente, uma carta. Não deixaram. Queríamos fazer uma manifes- Vício este refletido também nas ações da Minustah.
tação para demonstrar nosso repúdio. Não deixaram! Este vício tem que ser denunciado.
4. A Batay Ouvriye é a entidade que integra categorias de operários, movimento campesino, trabalhadores artesãos, da construção civil, Por um Haiti livre!
associações de bairros, estudantes e professores.
Fora as Tropas de Ocupação!

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Dossiê Haiti Dossiê Haiti

Extrato da ata da 20ª reunião extraordinária da Em relação ao que nós vimos, eu não preciso aqui reiterar o que a imprensa sempre vem divulgando,
que todos são unânimes em reconhecer, a situação de extrema miséria que perdura no Haiti. No Haiti, a
Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, maioria da população não tem luz, não tem água, há um quadro extremo de miséria, e isso já é fato notório,
da 3ª sessão legislativa ordinária da 53ª legislatura, internacionalmente, todos sabem disso.

realizada no dia 17 de junho de 20091. Depoimento. O que nós podemos verificar, do ponto de vista específico, no que diz respeito à intervenção militar
no Haiti, a presença da Minustah no Haiti, do quadro que está colocado?
Sr. Aderson Bussinger 2 1- A par das várias reuniões que tivemos com os sindicatos, as entidades, muitas denúncias de repressões
ao movimento social no Haiti; nós, da comitiva, estivemos em várias entidades sindicais, em assembléias
Rosewelt Pinheiro/ABr
Bom dia, Sr. Presidente, aqui cumprimento de trabalhadores; destaco aqui trabalhadores têxteis, que nos colocaram que, toda vez que se realiza uma
a todos presentes. Eu quero, inicialmente, escla- greve no Haiti, tenta-se organizar uma resistência aos baixos salários, um movimento, a Polícia Nacional do
recer que a minha exposição, aqui, é em nome Haiti age e a Minustah, o Exército Brasileiro, agem de que forma? A polícia à frente, na repressão direta, e a
do Conselheiro Aderson Bussinger. Não é uma Minustah, quando há mobilizações sindicais, atuando como retaguarda disto, no constrangimento, atuan-
exposição em nome da instituição OAB que, em- do dessa maneira.
bora esta esteja discutindo o assunto; inclusive, Esse é o primeiro aspecto. Tivemos várias denúncias, eu inclusive, Sr. Presidente, quero passar aqui às suas
a última Conferência Nacional, em um de seus mãos o relatório que nós encaminhamos à OAB Federal e que trata dessas denúncias e também um livro
que nós escrevemos, junto com o jurista João Luiz Duboc Pinaud, a respeito dessas denúncias.
painéis, debateu o tema. Também a Comissão de
Relações Exteriores da OAB Federal, que também 2- Demissões. No Haiti, um quadro, no aspecto trabalhista. O pouco trabalho que se tem é um trabalho
está acompanhando, não tem ainda uma posição Mercado ao ar livre em Cité Soleil, um dos bairros mais pobres muito precarizado e, quando das demissões, demissões sem pagamento de indenizações, um quadro de
definitiva, não obstante condenar todo e qualquer e populosos da capital haitiana. super-exploração, tanto no trabalho quanto nas dispensas.
desrespeito a Direitos Humanos, em qualquer lugar,
assim também no Haiti. Então, faço esse esclarecimento, falo aqui como Conselheiro da Ordem, da OAB do 3- Atos anti-sindicais no Haiti: isso foi recorrente, foi frequente a denúncia de sindicalistas se queixando,
Rio de Janeiro, e como Secretário Geral de um Instituto de Defesa de Direitos Humanos, IDDH, e à época, denunciando o quanto é difícil a atuação sindical no Haiti, o quanto os dirigentes sindicais são reprimidos,
quando estive no Haiti, era Secretário Geral da Comissão de Direitos Humanos da OAB do Rio. são demitidos, são presos. Esse é um quadro geral. Eu estive com dirigentes sindicais, me mostraram marcas
de agressões, durante greves. E isso não é de tempos atrás, mas de greves recentes. Estive, em 2007; falava-
Nessas condições, nós estamos aqui, fazendo essa colocação. Estivemos lá entre 27 de junho de 2007
se de situações em 2006, 2005... Denúncias a respeito de desaparecidos no Haiti, desaparecidos desde a
a 02 de julho.
saída do ex-presidente Aristide e o ingresso das forças da ONU. Há várias denúncias, no Haiti, de cidadãos
Agradeço ao convite que nos foi feito e passando à exposição, eu estive no Haiti nesse período do final
haitianos que estão desaparecidos desde aqueles conflitos, desde aquela intervenção. Observe-se aqui que
de junho, início de julho, nomeado pela OAB Federal, pelo Presidente César Brito, que me nomeou para
todos os relatos que eu obtive do movimento social no Haiti, dos contatos que obtive, me diziam o seguinte:
participar de uma comitiva de sindicatos, de entidades do movimento social, entidades populares, o Jubileu
que Aristide teria sido retirado à força do Haiti pelas forças americanas, ainda naquele momento sem
Sul - que está aqui representado - e várias outras entidades, uma comitiva da sociedade civil brasileira, que autorização da ONU, quando os soldados americanos ingressaram no Haiti e o retiraram. Naquele momento,
foi ao Haiti acompanhar todas as denúncias havidas e toda a situação no país. Nessa condição, o presidente sem autorização. Logo após a esse fato, é que o Conselho de Segurança se reúne e que há autorização para
da OAB Federal me nomeou, enquanto Conselheiro do Rio de Janeiro, para essa atividade. o ingresso da Missão. Ou seja, a intervenção, o início da intervenção, que acaba depois, em consequência,
A nossa presença no Haiti, as nossas atividades, elas se desenvolveram em dois planos: nós tivemos gerando a participação do Brasil na Minustah, ela já tem essa característica de entrar sem autorização.
um primeiro plano de contatos com as autoridades do Haiti, com o Sr. Presidente do Haiti, com Ministros,
4- A situação das penitenciárias no Haiti; eu não consegui ingressar na penitenciária principal de Porto
com representantes da Minustah, com representantes do Exército e, bem, como posso falar, o Estado do
Príncipe, mas todos os relatos que obtive são absurdos, em termos das condições dos presos no Haiti. Isso
Haiti - a superestrutura do Haiti, a Minustah e o governo do Haiti; e, num segundo plano, que era a ênfase
está constando também nos relatórios de outras entidades de Direitos Humanos.
da Comissão, o contato com as entidades do movimento social do Haiti, sindicatos, entidades de Direitos
Humanos, enfim, com os trabalhadores, o povo do Haiti. Esse foi o nosso plano de atuação. 5- Exploração de mão-de-obra. Eu estive naquelas zonas de produção, que são as Zonas Francas, Codevi,
na fronteira com a República Dominicana, eu observei ali as condições em que são tratados aqueles
1. Secretaria de Comissões; Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado Federal.
2. Representante da OAB/ RJ. trabalhadores. Nós não conseguimos ingressar na fábrica, nós ficamos do lado de fora, onde eles almoçam,

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Dossiê Haiti Dossiê Haiti

fazem as refeições. Eles para almoçar, são 30 minutos de almoço e eles saem e almoçam do lado de fora, um com repressão ao movimento sindical. Esse é um dos aspectos que eu queria ressaltar aqui.
lugar ao lado do esgoto, a céu aberto, um quadro, assim, muito de super-exploração, salários de um a dois Depois, acho que vou ter oportunidade para perguntas, eu poderei explicar mais, mas essa é minha
dólares por dia, esse era o tipo de relato que nós tínhamos lá. Nós tivemos, inclusive, nas Zonas Francas, avaliação, que está colocada nesse documento que fizemos; e terminaria dizendo o seguinte, que o Brasil
muita dificuldade de fazer contato para obter mais dados dessas empresas porque há toda uma contenção, deveria se retirar imediatamente do Haiti. A presença militar no Haiti não ajuda os trabalhadores do povo
muito grande, da Polícia Nacional do Haiti. Muitas denúncias de exploração de mão-de-obra infantil no do Haiti. Essa é minha convicção. Enviem agrônomos, médicos para o Haiti, professores... Agora, não enviem
Haiti, nós recebemos muitas denúncias, muitas denúncias. Muitas denúncias. armas, não enviem soldados, que, a meu ver, só estão a manter uma situação de típica ocupação. Obrigado
6- A situação geral, na questão da segurança, vejam só, eu não verifiquei uma situação de distúrbios, pela atenção de todos.
que havia quando do ingresso das Forças Armadas. Evidente, não se vê hoje, não vi, ao tempo que estivemos
lá. Embora, atualmente, isso vá ser parte também do meu relato, das informações que já obtive - após sair Extrato da ata da 20ª reunião extraordinária da
do Haiti, em relação ao Primeiro de Maio que houve lá, houve repressão, mas nós observamos, eu observei,
quando estivemos lá, um quadro de muito constrangimento militar, de um assédio da presença das Forças
Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional,
Armadas, nos bairros. da 3ª sessão legislativa ordinária da 53ª legislatura,
Como acontece isso? Os bairros são cercados - as suas entradas - por veículos do Exército, tanques,
todos os equipamentos! Aquilo fica permanentemente ali com os canhões apontados para os bairros. realizada no dia 17 de junho de 20091.
Eu estive nesses bairros, nessa circunstância, e não vi nenhuma situação de distúrbio e nem de tumulto,
que justificasse, nesses bairros, um cerceamento tão grande. Eu, inclusive, estive numa assembléia de Sr. Antônio Lisboa Leitão de Souza2
trabalhadores, em Cité Soleil, em Porto Príncipe e, que, durante essa assembléia de trabalhadores, com Foto: Conlutas

cerca de 120 trabalhadores, eu pude observar uma movimentação de blindados, ali por perto, uma coisa Bom dia a todos. Sr. Presidente, Senador
Geraldo Mesquita, que preside essa Sessão, em
assim, que não tinha outra explicação senão uma atitude, a meu ver, deliberada, de constrangimento a toda
nome de quem eu cumprimento a todos os de-
e qualquer mobilização do povo do Haiti. Essa é minha convicção do que vi lá. Um quadro permanente de
mais Srs. Senadores. Inicialmente, gostaria de
uma pressão, psicológica, moral, um quadro que, ainda que com toda legalidade (o arcabouço jurídico foi
saudar essa Comissão pela iniciativa que oferece
aqui colocado); mas um quadro, de fato, de uma ocupação, de um militarismo exacerbado, a meu ver, uma
para estarmos discutindo um assunto que deveria
presença militar muito ostensiva no Haiti, que não tem nada a ver, a meu ver, com missão humanitária.
ocupar um lugar muito maior na sociedade bra-
Eu, inclusive, estive com o comandante das forças militares à época, e perguntei: “General, e as
sileira, pela gravidade e pela importância que tem,
obras assistenciais aqui no Haiti...” Ele me falou: “Ah, uns poços que eles furam de água...” Uma descrição
no que diz respeito ao papel do Brasil no cenário
muito pequena frente àquela presença militar toda que nós observamos lá, que eu chamaria de um internacional.
constrangimento permanente. Não pretendo ocupar os dez minutos, deixar
Evidente que, quando a imprensa vai estar presente lá, quando os órgãos oficiais perguntam à um pouco mais de tempo para o companheiro
população, num quadro desses, ninguém vai dizer... “Ah, eu...” Mas, nos contatos, que essa Comissão, que do Haiti, que pretende falar em nome dos outros dois também, que estão aqui, e das organizações que
esteve no Haiti, da qual fiz parte, com os trabalhadores, fora da presença constrangedora da polícia ou da representam, até porque os colegas, que me antecederam, já deram conta um pouco do que é a outra visão
Minustah, lá, os relatos que nos fizeram são muito contundentes em relação a: primeiro, a que há um setor que a sociedade civil brasileira, através de diferentes entidades, tem acerca do que representa a Minustah,
da população bastante grande, que não concorda com a presença militar da Minustah; e, segundo, que se do que representam as tropas brasileiras no Haiti.
sente constrangido. Eu estive, este ano, no Haiti, passei lá oito dias, do final de abril até o dia 04 de maio, e tive oportunidade
Vamos ter oportunidade de responder às perguntas. Eu vou encerrar dizendo o seguinte, a minha de vivenciar, no dia primeiro de maio, uma situação extremamente semelhante à que tem ocorrido nos
convicção, inclusive, houve essa discussão no painel da Conferência Nacional dos Advogados, da OAB, últimos 15 dias, no Haiti, e sobre a qual, lamentavelmente, nós não temos encontrado uma única linha na
agora – e nesse painel discutiu-se a substituição da presença militar por uma missão civil humanitária. Teve imprensa brasileira, dando conta do que se passa lá.
essa discussão, por quê? Porque é colocada uma situação no Haiti de que há uma missão humanitária. Mas, E, para mim, foi uma experiência extremamente gratificante porque eu pude acompanhar de perto e
o que se vê de fato, é uma ocupação militar, com todo esse arcabouço jurídico. Isso é o que acontece. E, ter mais clareza sobre o significado da Minustah e o significado que o Brasil poderia ter, no cenário inter-
na verdade, como as condições de trabalho são de super-exploração, essa presença militar acaba sendo o nacional, se a sua presença fosse diferente, naquele país.
sustentáculo, acaba sendo o apoio para que os empresários, setores, inclusive estrangeiros, no Haiti, que 1. Secretaria de Comissões; Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado Federal.
2. Primeiro Vice-presidente do ANDES-SN – 2008-2010, representante da Conlutas na delegação brasileira nos eventos do Primeiro
estão explorando mão-de-obra lá, possam fazê-lo de maneira mais permissiva, como tem acontecido. E de Maio de 2009.

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Dossiê Haiti Dossiê Haiti

No dia Primeiro de Maio, nós tivemos quatro tipos de manifestações no Haiti; quatro manifes- inquestionável. Qualquer entidade, qualquer pessoa, qualquer turista que consiga chegar ao Haiti, vai
tações distintas, com percursos distintos, com organizações distintas. perceber que o peso, que essa missão está apresentando, tem se restringido a altos custos, à dimensão
Uma primeira manifestação, organizada pelos empresários, que estava numa grande praça, na Praça militar, para resolver um problema que não é de ordem militar, é de ordem político-econômico-social.
do Panteon, que promovia uma feira de alimentação, de comidas, com resultados de produtos agrícolas Se nós ouvimos falar em Estado mínimo, ali nós temos um exemplo concreto, de fato, de Estado
etc. Por contraditório que isso pareça, uma feira de alimentos para uma população que não tem grana para mínimo. Mínimo, no sentido de que ele não existe. O colega, [Bussinger] aqui, teve dificuldades de se referir
comprar alimentos. Passa fome, literalmente. ao Estado. Ele se referiu a uma estrutura, porque o Estado não existe, naquilo que nós concebemos como
Uma segunda manifestação, organizada pelo Governo haitiano, um desfile de máquinas agrícolas, Estado moderno, um Estado que viabilize servidores públicos de educação, de saúde, de transporte... Que
tratores, passando pelas principais avenidas, demonstrando que, com isso, o Governo estaria investindo no organize as finanças públicas, que tenha um regime de tributação. A economia do país é quase que 100%
desenvolvimento econômico, através da agricultura, do desenvolvimento agrícola. informal. Não existem trabalhadores com carteira assinada, o comércio... Quer dizer, existem trabalhadores
Uma terceira manifestação, de iniciativa dos protestantes, com um perfil bastante disciplinado, quase com carteira assinada sim, mas não na sua maioria. O comércio é informal, às margens das ruas, nas calçadas
que militarizado, que, com marchas bem organizadas, com carros de som e longas filas percorreram, da e, com isso, é difícil para aquele governo desenvolver programas sociais. O que nós precisaríamos ter, e aí a
periferia ao centro da cidade, acompanhadas por batedores militares, com carros da ONU, carros da polícia Conlutas, a que estou representando aqui e o sindicato de que eu faço parte, o ANDES-SN - nosso Sindicato
local. E o final desta terceira concentração foi também na Praça do Panteon, onde ocorreram manifestações Nacional - tem a compreensão de que o papel do Brasil poderia ser diferente se, ao invés de uma atuação
artísticas, com shows musicais etc. militar, se tivesse uma atuação civil, uma atuação de cooperação, como tem feito, por exemplo, um Estado
E uma quarta manifestação, da classe trabalhadora, a única que foi reprimida e vou explicar por quê. muito mais pobre, mas que está ao lado do Haiti, que é Cuba. Ao invés de mandar soldados, Cuba mandou
Alguns movimentos e organizações sociais, os quais estão representados aqui pelos três companheiros, médicos, mandou educadores, mandou assistentes sociais. São profissionais que estão desenvolvendo
entre outros que também lá estão, procuraram fazer a sua manifestação para reivindicar a implementação programas para tentar atender, o mínimo, a uma população que é extremamente carente, em todos os
de uma lei que se insiste em não ser implementada, o governo insiste em não implementá-la, que era sentidos, não só da alimentação, mas carente de serviço de atendimento público.
passar o salário mínimo para 200 gourd. E essa manifestação foi impedida à força de chegar, de passar da Nós poderíamos estar presentes e, aí, ocupar um papel diferente no cenário internacional, se nós
metade do percurso por onde ia, também, até a praça onde estava havendo a concentração. desenvolvêssemos uma cooperação, seja bilateral, ou seja, trilateral, ou mesmo através das Nações Uni-
Nós tivemos que enfrentar gás lacrimogêneo, nós tivemos que enfrentar bala de borracha, nós tivemos das, para promover, de fato, o desenvolvimento social e econômico, e não garantir, através da força re-
que enfrentar a força bruta da polícia local e, no momento da repressão era a polícia, não eram os carros da presentada pela Minustah, a permanência ou a conservação de um governo que não tem resultado no
ONU, mas, quando nós nos dispersamos e conseguimos chegar até a Praça do Panteon, percebemos que lá desenvolvimento social. Nós entendemos que o projeto político, no qual o Haiti está inserido, faz parte de
estava o comando da Minustah, dando a orientação para que a repressão fosse feita. um grande acordo internacional, que atribui a uma periferia, não urbana, mas uma periferia econômica,
E, finalmente, quando chegamos, de forma dispersa, à praça, outro grupo de jovens universitários um papel determinado de exploração econômica, e não de desenvolvimento econômico. Porque se há
tentou organizar, dentro da praça, uma marcha cantando o “rá rá”, que é um canto que faz parte da tradição o interesse dos grandes empresários locais em impedir que a execução da lei seja uma efetividade, cer-
cultural religiosa haitiana, que fala da justiça divina. Mesmo assim, o canto, que tem uma representatividade tamente há o interesse para que a exploração econômica continue.
social muito grande, e é utilizado hoje em todos os atos e manifestações públicas no Haiti, foi reprimido lá Se nós pensarmos que o Haiti tem o salário mínimo mais baixo do mundo ou a pior situação social
dentro do parque, agora sim, pelas forças da Minustah, não pela polícia. das Américas, basta nós pensarmos como uma pessoa consegue viver com 1,7 dólares por dia, durante
Quer dizer, nós não tivemos condições de mostrar para a sociedade o nosso protesto. 24 dias, porque eles não têm direito de receber 1,7 dólares nos outros seis dias. Então, é uma situação, de
Digo nosso, porque nós estávamos lá, ao lado dos trabalhadores. Nós estávamos lá, ao lado dos movimentos fato, difícil, não se justifica a presença militar, porque, pelo primeiro acordo internacional, que foi feito, a
sociais organizados, que gostariam de mostrar outra leitura, outra celebração do Primeiro de Maio. Minustah estaria lá para um governo de transição. E esse governo de transição já passou, nós estamos em
E o que é que isso nos revelou? Revelou-nos algo que nós já tínhamos observado ao longo da semana. outro governo. Não é verdade que não exista outro projeto para o desenvolvimento nacional; há várias
Eu tive oportunidade de ir visitar algumas zonas francas, alguns quarteirões de fábrica, que são espécies de entidades, organismos internacionais que têm discutido outro modelo de desenvolvimento social, e está
condomínios fechados, e pude observar, conversando com vários trabalhadores que lá estavam, a drástica na hora de o Brasil inverter a sua presença. Ao invés de gastar 700 milhões de reais com a presença militar,
situação de vida pela qual passa o povo haitiano. Eu conversei com mulheres, com jovens, com crianças ele poderia gastar o mesmo, se está sobrando dinheiro, para gastar com as políticas sociais no Brasil,
que trabalham com meio dólar diário na Cité del Soleil. Caminham sete quilômetros a pé para ir e mais sete poderia gastar o mesmo com políticas sociais no Haiti. Por que é que não se pensa um PAC para o Haiti?
para voltar. Porque, se forem pagar transporte, os desestruturados transportes públicos que existem, esses Por que é que não se pensa num projeto de recuperação da estrutura mínima necessária ao atendimento
centavos de dólar não seriam suficientes para pagá-los. E o máximo que se ganha chega a um dólar e meio, social? Eu tive oportunidade de percorrer o país, de norte a sul do país, e não vi um quilômetro de estrada
1,7 dólar por dia. Com uma diferença, em relação a nós, brasileiros, ainda, pois eles não conseguiram o recuperada, nem de uma ponte recuperada.
direito ao descanso remunerado e só ganham por 24 dias no mês! Então, fica difícil a gente entender a justificativa, com base na argumentação das Nações Unidas, de
Esta é uma situação a se pensar e me fez pensar um pouco: qual é a dimensão humanitária que a que há uma dimensão humanitária, de que há uma dimensão de recuperação do país e de reconciliação
Minustah está desenvolvendo? Quer dizer, a presença dela é majoritariamente militar-policial e isso é política. Mas não há. Nós não podemos perceber isso, uma reconciliação política; há uma vontade política

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Dossiê Haiti Dossiê Haiti

muito grande da sociedade organizada do Haiti a ter o controle do seu próprio governo.
E eu acho que, se nós pensarmos claramente no significado que tem a autodeterminação dos povos, Haiti de hoje e sua nova Lição
de Independência1
nós não iríamos admitir que o Brasil fosse ocupado ou tivesse uma intervenção direta, como nós já tivemos
em outros momentos de nossa história. Por mais contraditório ou cínico que isso pareça, a primeira colônia
européia que conseguiu se libertar do colonizador, no caso, da França, é hoje o último país do continente,
eu diria, do mundo, que vive uma situação de intervenção militar, como a que o Haiti vive. Depoimento à organização Jubileu Brasil por João Luiz Duboc Pinaud2 (19/10/09)
Então, nesse sentido, eu gostaria de propor, ainda, sugerir que o Brasil poderia dar o primeiro passo, o
primeiro sinal. Assim como ele tem a autonomia e a soberania para dizer que concorda, que quer fazer parte É lamentável saber que aquela forte Nação ainda é afetada
por 80 % de desempregados. Em tal contexto, parece esperável que aconteça
das ações de cooperação das Nações Unidas, ele também tem autonomia e a soberania para chegar até as
a “criminalização” dessa massa humana.
Nações Unidas e dizer: “achamos que não é mais momento de continuar, está na hora de nos retirarmos e,
a partir de hoje, nós não faremos mais parte da ação militar, queremos desenvolver outra ação”. E os outros
países, que tem crédito com o Haiti, poderiam também estar perdoando a dívida externa do Haiti. Acho Atualmente, após alguns anos de contatos, através de ligações mantidas com o povo haitiano, estamos
que seria o primeiro grande passo, a primeira grande iniciativa dos países, e o Brasil poderia puxar essa informados da não melhoria do quadro anteriormente encontrado, em 2005 e 2007. É lamentável saber
discussão, fazer o perdão da dívida externa daquele país, que o Haiti não tem absolutamente condição de que aquela forte Nação ainda é afetada por 80 % de desempregados. Em tal contexto, parece esperável que
pagar. Assim, quem sabe, nós estaríamos oferecendo condições mais objetivas para que houvesse o início aconteça a“criminalização”dessa massa humana, acentuando-se que dela ainda são retiradas, externamente,
de um desenvolvimento social naquele país e que o discurso da inclusão social não seja uma falácia e seja as alternativas concretas de superar o que podemos chamar de comportamentos famélicos.
algo efetivamente encontrado lá. Muito obrigado. Vale anotar, neste ponto, o concomitante crescimento do lucro de empresas estrangeiras. A empresa
“Levi’s” (que, na ocasião de nossa visita, defensivamente, impediu a entrada da Missão Internacional, man-
tendo trancados seus portões e posicionando guardas), pode ser citada como ótimo exemplo desse injusto

Mais Depoimentos... lucro auferido sobre o esmagamento de seus trabalhadores. Para não alongar o quadro empresarial dessa
exploração, vale lembrar que as “indústrias de agulhas”3, plenas e produtivas, não podem, concretamente,
prescindir da mão-de-obra humana nessas tarefas básicas e, no mesmo vórtice, precarizam as vidas
Antes, mesmo, da situação do Haiti ter se agudizado a ponto de ter chamado a atenção dos meios de co- humanas, obtendo seu lucro graças ao trabalho conseguido mediante salários vis.
municação brasileiros, duas visitas sucessivas foram organizadas, em 2005 e 2007, contando com a participação Como você explicaria o êxito comercial de 14 (quatorze) zonas francas senão pela exploração indigna de
de dois advogados brasileiros, João Luiz Duboc Pinaud e Aderson Bussinger. A primeira delas foi apoiada em mão-de-obra? Seria obrigado a admitir que o capital, inumanamente, remunera (que palavra inadequada!)
ampla rede de movimentos sociais, a segunda foi promovida pela OAB-RJ; ambas cumpriram, embora sepa- com menos de 60 dólares mensais?
radamente, semelhante trabalho de investigação e solidariedade ao Haiti. A primeira delas foi também integrada Difícil avaliar - no condicionamento internacional e cruel que sufoca o Haiti - o que é mais grave. Mas
por entidades representativas da sociedade civil de vinte países, da América Latina, do Caribe, América do Norte o correlativo daquele trabalho explorado, se inscreve – como em todos os outros lugares de exploração –
e da África, sendo coordenada pela Rede Jubileu Sul, Pastorais Sociais, Igrejas, MST/Via Campesina, entre outras no constante e crescente esmagamento do trabalhador-vítima. Dentro desse empenho, necessariamente
organizações sociais1. A segunda, da OAB-Seccional RJ, resultou em estudos diferenciados, reunidos em pequeno mutilador (capital contra as mãos que trabalham), se explica a repressão militar violentíssima contra os mo-
livro: “Haiti, das trevas à luz” 2. vimentos sindicais ou qualquer outra manifestação libertária. Foram essas, nunca outras, nunca as verdadeiras
Nesta parte do Dossiê apresentamos os depoimentos, feitos recentemente, pelos dois advogados que mãos – as do trabalhodor haitiano - que reprimiram violentamente os movimentos do último 1º de Maio. Na
acompanharam estas visitas, de 2005 e 2007, relacionando a vivência anterior com os acontecimentos do ano data símbolo do trabalhador, a presença armada, não simbólica, da repressão ao seus direitos!
de 2009. Não caberia, nem poderíamos, minudear as “vis necessidades” na formação e atuação da Minustah. Bas-
O primeiro depoimento é do advogado de Direitos Humanos João Luiz Duboc Pinaud, feito ao Jubileu Brasil, ta, ao nosso ligeiro comentário, lembrar esta temida força, superiormente armada, também de brasileiros,
por ocasião dos acontecimentos relacionados ao Primeiro de Maio de 2009, quando se deu a brutal repressão tão odiada e temida pelo povo haitiano, com seu real nome: Missão das Nações Unidas para a Estabilização
do Haiti, que completa agora cinco longos anos de nociva permanência.
aos movimentos sociais, no Haiti.
Por último, é lamentável a presença do Brasil, como tropa militar de ocupação, não voltada para o
O segundo depoimento foi estruturado em forma de entrevista, concedida ao próprio ANDES-SN, em fins
benefício do povo haitiano, frente ao caminho que a coragem deste, historicamente, marcou: luta negra
de 2009.
e escrava pela própria independência. E atualmente, apesar da exploração capitalista que agudamente
1. A delegação brasileira à primeira Missão Internacional ao Haiti foi constituída por: bispo Adriel Maia, presidente do Conselho Bra-
ainda o asfixia, ele construirá sua passagem, das trevas à luz da igualdade e da liberdade!
sileiro das Igrejas Cristãs – CONIC; deputado Walmir Assunção, pelo MST/Via Campesina; economista Sandra Quintela, pelo Jubileu 1. Texto adaptado do site www.jubileubrasil.org.br/nao-a-guerra. Acesso 8/12/09
Sul – Campanha contra ALCA); Lucélia Santos, ativista e triz; advogado João Luiz Duboc Pinaud. 2. O advogado de Direitos Humanos João Luiz Duboc Pinaud esteve no Haiti em duas visitas (2005 e 2007).
2. PINAUD, João Luiz Duboc; BUSSINGER, Aderson. HAITI. Das Trevas a Luz. Rio de Janeiro: Documenta Histórica Editora, 2007. 3. Nome genérico das indústrias têxteis no Haiti

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Dossiê Haiti Dossiê Haiti

Foto: Conlutas
A - repressão às manifestações populares, sejam elas de que natureza forem; basta serem de protesto
contra o governo ou a Minustah;
B - os sindicalistas (os poucos e abnegados  homens e mulheres que se dedicam a organização sindi-
cal no Haiti) reclamaram  bastante da presença constrangedora da Minustah,  juntamente com a Polí-
cia Nacional do Haiti, em suas greves e concentrações,  conforme relatos que recebi, especialmente, dos
trabalhadores têxteis das zonas francas, as quais estivemos visitando, mas fomos impedidos de entrar nas
instalações das empresas;
C - em 2007, havia ocorrido um recente  enfrentamento entre a polícia do Haiti,  com a retaguarda
da Minustah, e trabalhadores têxteis demitidos de uma empresa, que chegaram a conseguir uma sentença
judicial, determinando o pagamento de suas verbas indenizatórias, e, ainda sim, não foram atendidos e
acabaram, ainda, reprimidos em uma passeata, sendo que cheguei a conversar com uma senhora que teve
os dentes quebrados neste episódio;
D -  encontramos, no Haiti,  do ponto de vista das denúncias  sobre  violações de direitos  fundamentais, 
vários relatos de desaparecimentos de  pessoas, desde a deposição do ex-presidente Bertrand e a ocupação
dos Marines, que antecedeu a Minustah. Mães reclamam pelos corpos de filhos, até hoje, sem qualquer
notícia, sabendo-se apenas que teriam sido presos durante os conflitos de rua que  ocorreram no período

O Haiti se tornou uma grande prisão


inicial da ocupação, conforme, inclusive, foi muito noticiado pela imprensa de todo mundo, que procurou
caracterizar os enfrentamentos como “lutas de gangues e para-militares”, mas que foram conflitos mais

a céu aberto
amplos, devido ao descontentamento pela intervenção  internacional no país, que, como sabemos, não é 
a primeira de uma série de  dezenas, desde  os espanhóis, passando pelos franceses, americanos e, agora,
a Minustah.  
Entrevista com Aderson Bussinger Carvalho1
por Maria Cecília de Paula Silva e Najla Passos2 U&S- Fale-nos sobre o papel das forças da Minustah e dos militares brasileiros.
Em primeiro lugar, é preciso que se diga que não se trata de uma missão humanitária, de natureza assistencial
ao povo haitiano. Há uma missão de natureza militar no Haiti, cujo contingente é majoritariamente militar
U&S- Quando o senhor visitou o Haiti, há dois anos, qual era a situação daquele país, já sob a ocupação da
e de combate.
Minustah, comandada pelas tropas brasileiras?
Já tive a oportunidade de esclarecer, à OAB Federal , assim como no Senado, que o operativo repressivo
Estive no Haiti, em junho de 2007, enquanto representante da OAB Federal, em uma missão de solidariedade tem duas mãos: uma mão - a polícia do Haiti - vai  na frente da operação repressiva, abrindo caminho, re-
ao povo haitiano, organizada pela Conlutas, na qual, assim como a OAB, participaram diversas outras primindo.  A segunda mão é brasileira e também dos demais países que integram a Minustah, sendo o
entidades sindicais de trabalhadores, como: o Sindicato de Servidores Públicos Federais de São Paulo; o Brasil o comandante, sendo que seu papel é de retaguarda militar, apoio logístico, e, se for necessário,
Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos; o SINDISPREV-RJ; Químicos - São José dos Campos, intervenção direta, como ocorreu no Primeiro de Maio haitiano, quando a Minustah se colocou frontalmente
além de representantes de dois partidos políticos, o PSTU e o PSOL.  Encontramos  no país um quadro de contra a  passeata organizada pela oposição.
profunda miséria, com a maioria absoluta da população desempregada e subnutrida; casas sem luz; ausência Este contingente exerce um grande constrangimento sobre os haitianos, com seus equipamentos bélicos
do mais elementar sistema de esgoto ou distribuição de água, enfim, um quadro muito  desolador. constantemente apontados para os populares; os tanques, posicionados na entrada dos bairros; os solda-
U&S- Do ponto de vista dos Direitos Humanos, a partir da legislação internacional que versa sobre o tema, dos, em  permanente patrulhamento das ruas, em comportamento sempre beligerante, impedidos de se-
quais são as principais irregularidades cometidas pela Minustah? quer falarem com a população, para, tão somente, desempenhar tarefas militares. O Haiti se tornou uma
Tive oportunidade de me reunir com centenas de trabalhadores; entidades sindicais e de direitos humanos, grande prisão, a céu aberto, e é impossível alguém  pretender negar o constrangimento social, psicológi-
tanto na capital, Porto Príncipe, como nas viagens que fizemos para o interior. Em todas as reuniões, sem co, humano, que tudo isto causa à população,  que recebe a seguinte mensagem, através do aparato bélico:
exceção,  recebemos denúncias de  violações de direitos humanos, quais sejam: não reajam!
Do ponto de vista jurídico, especialmente do Direito Internacional, estas missões possuem o respaldo jurídico
1. Conselheiro da OAB-RJ (2007/2009), Membro da Comissão de estudos sobre marco regulatório/Pré-sal da OAB Federal. Mestre em
Ciências Jurídicas e Sociais pela UFF, advogado sindical. das resoluções da ONU, as mesmas que  foram condescendentes com a ocupação militar do Afeganistão e

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Dossiê Haiti Dossiê Haiti

Foto: Conlutas
do Iraque. É a mesma ONU, cujo Conselho de Segurança, como também sabemos, é integrado pelos EUA
e pelas principais potências. Embora não seja especialista em Direito Internacional, tenho a opinião que 
tais missões são ocupações, de fato, sob o manto jurídico de Missão das Nações Unidas, as quais, pelo seu
conteúdo belicista, intimidador, cerceador da organização popular, constituem uma negação da própria
Declaração Universal dos Direitos Humanos, especialmente dos  preceitos da  soberania  das nações e 
proteção aos direitos fundamentais e sociais.
U&S- A situação mudou, hoje, após a renovação da permanência da Minustah no país?
Sobre, se a situação mudou, após a viagem que realizamos,  posso dizer que durante todo este tempo tive
constante contato com haitianos, integrantes do movimento que resiste à ocupação, assim como Didier,
sendo que o relato é de agravamento da situação de violações de direitos humanos e  constrangimento ao
povo. Por exemplo, posso citar a repressão havida ao movimento sindical,  no último primeiro de maio, em
que os sindicatos  que, se opõem ao governo, tentaram organizar uma passeata como parte dos eventos do
primeiro de maio e foram violentamente reprimidos. Ao mesmo tempo, o governo e a Minustah permitiram
passeatas de igrejas, fiéis ao governo. O clima é de uma ditadura, sob a bandeira da ONU e do Brasil.
U&S- É possível afirmar que a presença da Minustah levou algum benefício ao Haiti?
A Minustah  assegura, militarmente, o suporte (que o Estado haitiano sabidamente não possui) pa-
ra  a  realização de um projeto econômico no Haiti. Este é  o centro da questão; o foco e a raiz da ocu-
pação militar, como o petróleo é o foco e também a raiz da ocupação no Iraque. E que projeto é este? Bem,
o Haiti  está fornecendo mão de obra de baixo custo (o menor nas Américas e no mundo), para as mul-
tinacionais americanas, francesas, dominicanas (por meio de sociedades com outros países), através da
instalação e produção de zonas francas, com salários de 1 dólar ao dia, sem direitos sociais elementares, o
dades da Minustah, que  devolvessem todo o Campus da Universidade, que, em parte, serviu de  abrigo
que é muito lucrativo. Há um depoimento perante a Comissão de Relações Internacionais da OAB Federal,
para os militares, ainda restando, em 2007, materiais bélicos no Campus, como tive a oportunidade de
em que o Didier, dirigente sindical do Haiti, explica muito bem a relação da indústria têxtil internacional
testemunhar.
com a  exploração da mão de obra  de seu povo e  o papel da Minustah, nesta operação, que movimenta
Ainda falando sobre a universidade, gostaria de registrar o apoio que tivemos dos professores universitários
milhões de dólares. Acrescente-se a isto o  interesse de empresários brasileiros, dentre estes,  o setor têxtil,
do Haiti, que, inclusive, conseguiram, junto à Universidade, um microônibus para que pudéssemos viajar
representado pelo vice-presidente Alencar, na produção das zonas francas, em sociedade com empresas
por todo território do Haiti.
brasileiras. Acrescente-se a tudo isto a  recente aprovação de legislação fiscal americana que  facilita a im-
portação de produtos têxteis haitianos, com  isenções,  procedimentos de  importação direta.  Onde entra U&S- Como o povo haitiano tem organizado sua luta contra a ocupação internacional?
a Minustah?  A resposta  faz parte do negócio: alguém, uma força militar efetiva, há de  conter/ dissuadir  O povo haitiano se organiza através de pequenos sindicatos como, por exemplo, nas empresas da Zona
aqueles que se revoltam, contra toda esta exploração econômica. Franca, bem como há uma organização por bairros, através da atuação de organizações anti-ocupação e
Quem? De preferência latino-americanos. Brasileiros.  Voltando à pergunta, a resposta sobre eventuais de esquerda, como o Batay Ouvriye, representada por Didier Dominique.
benefícios da Minustah é  negativa, pois este projeto que o Brasil, através de sua presença militar,  avaliza  Há  também movimentações estudantis. Tive a oportunidade de estar em uma escola que acabava de re-
e  mantém, na ponta da baioneta, como se costuma dizer, é  negativo para o povo haitiano e para o desen- ceber uma invasão da polícia do Haiti e os estudantes e professores aproveitaram nossa presença  para
volvimento de sua economia e soberania. denunciar e aglutinar os estudantes. Foi realizado, neste momento, um ato muito emocionante.
Serve apenas ao capital, que explora este povo sofrido, escravo por centenas de anos e, hoje,  mão de
U&S- Qual é a visão que o povo haitiano tem do Brasil e do povo brasileiro?
obra do sistema capitalista mundial, especialmente do seu setor têxtil. Sobre as realizações da Minustah
posso afirmar que o que pude ver foram quartéis e quartéis. Contingentes  que, inclusive, ocuparam uni- O povo haitiano tem extrema simpatia pelo brasileiro, pelo nosso futebol, e o exercito brasileiro, a Minustah,
versidades. procura  permanentemente valer-se desta empatia, bonita e  sincera, para validar sua atuação e interagir
Sobre isto, em reunião que tive com o Reitor da Universidade Estatal do Haiti, cujo nome não mais me re- com o povo,  com um verniz de país amigo. Ao lado disto, temos um povo comendo barro. Literalmente, é
cordo, bem como com professores,  recebemos um pedido para que  reivindicássemos, perante as autori- isto que ocorre e pude  testemunhar isto pessoalmente. 

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Dossiê Haiti Dossiê Haiti

Foto: Conlutas
U&S- Qual deveria ser o papel da ONU na solução dos conflitos mundiais, ressalvando o caso específico do
Haiti?
Há fissuras dentro do legislativo haitiano (deputados aprovaram, este ano, moções pela soberania), mas 
não  vejo nada de  substancial,  consistente, no sentido de uma efetiva reação por parte destes setores.  Há
um compromisso com o projeto econômico, ao qual me referi acima, das zonas francas, das privatizações
que foram feitas no Haiti, e este é o ponto de partida de todos estes setores, ainda que  haja algumas di-
vergências pontuais. Estive reunido com o presidente do Haiti e com vários ministros, que chegavam a
manifestar que, também, não desejavam a presença estrangeira, mas  que a julgavam, todavia, necessária,
para fins de segurança e desenvolvimento. 
Perguntamos: Desenvolvimento de quem, com salários de um dólar ao dia, sem luz e sem água? Segurança
de quem, com a Minustah constrangendo, permanentemente, o povo?
U&S- Como o povo brasileiro pode ajudar o povo haitiano, nessa luta contra a ocupação?
Como ajudar o povo haitiano? Há uma verdadeira  aliança da grande imprensa, do governo brasileiro,
da ONU, dos grandes partidos políticos, PMDB, PT, PSDB, DEMOCRATAS, PC do B, PDB, PSB, enfim, todos
apóiam, desta ou daquela maneira, a presença brasileira, sob os mais variados argumentos. A imprensa não
divulga nenhum contraponto. O papel da imprensa sindical é fundamental, dos jornais dos sindicatos
e de suas revistas, sites, de modo a  tornarem possível que  nossas denúncias, as denúncias e  pontos de
vista dos que são contrários à ocupação, sejam  divulgadas, externadas e discutidas. Foi o que falei também
no Senado, na Comissão de Relações Internacionais, propondo, inclusive, que, na próxima delegação do
Senado ao Haiti, fossem sindicalistas e membros do movimento contra a ocupação, para que pudesse
ser colocada a visão dos que  não concordam com a presença da Minustah no Haiti. É necessário enviar
novas missões ao Haiti, como fez o ANDES-SN - Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Mais uma do atual governo.  Os direitos  fundamentais, sociais, humanos, que estão consignados, no artigo
Superior, que este ano enviou um representante, cuja presença e testemunho são muito importantes. 5º e no artigo 7º da Constituição Federal Brasileira, são aqueles que são,  todos os dias, negados ao povo
U&S- Voltando à pergunta original, como o povo brasileiro pode ajudar o povo haitiano, nessa luta contra haitiano, sob os olhares vigilantes dos soldados brasileiros. Precisamos continuar lutando, aqui no Brasil e
a ocupação? no exterior,  em solidariedade efetiva ao povo haitiano, para que, além de  não convalidarmos a farsa da
Missão de Paz,  fazermos mais: ajudarmos a libertar o Haiti de mais esta ocupação odiosa. 
Com o dinheiro que se gasta com intervenção militar no Haiti, dever-se-ia, em seu lugar, enviar alimentos e
 A verdade virá á tona. É questão de tempo. Toda esta encenação de “Missão de Paz” não pode resistir por
remédios. Isto, sim, poderia ser uma ajuda humanitária, ainda que bem saibamos que o país necessita de uma
muito tempo. Será necessário, sobretudo, que o provo haitiano assuma  o seu papel histórico de  expulsar
mudança econômica, estrutural, que coloque um fim na exploração do trabalho, em sistema semi-escravo,
de seu país  mais uma ocupação, desta vez de capacetes azuis, com flâmulas verde-amarelas e apelos ao
como já tive a oportunidade de denunciar. Pessoalmente, como Secretário de Direitos Humanos da OAB,
futebol. Os movimentos de direitos humanos no Brasil, com exceções honrosas, também estão muito anes-
tive a oportunidade de  acompanhar trabalhos de   combate ao trabalho escravo e, nesta oportunidade,
tesiados com esta situação do Haiti e precisam também entender que, o que a Minustah está fazendo, é
sempre lembrei que não adianta  atuar contra o trabalho escravo no Brasil e  convalidar o trabalho escravo,
um laboratório, com práticas que são aplicadas nas favelas do Rio de Janeiro, por exemplo, sendo que, em
hoje praticado nas Zonas Francas haitianas.
conversa com o General comandante da Minustah, este me  confirmou que este trabalho de “laboratório”
 
é  real; que, inclusive, segundo ele, estavam fazendo progressos neste tipo de abordagem e cerceamento
U&S- Gostaríamos que comentasse um pouco sobre os novos acontecimentos políticos no Haiti, que resul-
de  bairros pobres.
taram em alteração dos quadros governamentais e sobre possíveis repercussões e desdobramentos. Estes
Espero que tenha contribuído para que os professores do ANDES-SN possam  entender melhor o que ocor-
novos fatos repercutem na situação do povo haitiano, agravada com a intervenção realizada pela ONU
re, de fato, no Haiti.
com as tropas de ocupação no Haiti,  país que não está em guerra?
Agradeço o espaço de divulgação desta causa e disponham  de mim!.
A República brasileira tem, como fundamento constitucional, o princípio da soberania e não-intervenção, o
que, no caso do Haiti, é rasgado todos os dias, através de nossa presença á frente da Minustah. Contradição. 2. Maria Cecília de Paula Silva é Professora da Universidade Federal da Bahia e membro da Comissão Editorial da Revista U&S.
Najla Passos é jornalista do ANDES-SN.

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Dossiê Haiti Dossiê Haiti

Ilustração: Menandro Ramos


Nesses cinco anos, não foram apresentados relatórios que informassem acerca de qualquer melhora nas
condições de vida dos haitianos; ao contrário, têm havido muitos registros de violações dos direitos hu-
manos por parte das próprias tropas estrangeiras que invadiram o país. Nós, movimentos sociais do Brasil,
estamos dispostos a ajudar em tudo o que o povo do Haiti solicite. Sabemos que o Conselho de Segurança
da ONU no dia 15 de outubro de 2009 terá que votar pela renovação ou não do mandato da MINUSTAH.
Por tudo o que afirmamos anteriormente, os abaixo assinados nos pronunciamos pela imediata retirada
das tropas brasileiras da MINUSTAH do território haitiano. E exigimos que as tropas da ONU ponham fim a
essa missão de ocupação e violação dos direitos do povo do Haiti.
Outubro de 2009
Assinam:
AMAR RJ – Associação de Mães e Amigos de Crianças e Adolescentes em Risco
APS – Ação Popular Socialista
ASPLANDE – RJ
Assembléia Popular RJ
Associação Americana de Juristas
Associação de favelas de São José dos Campos
Casa da América Latina
CMP – Central dos Movimentos Populares
Coletivo de Hip Hop LUTARMADA
Comitê Mineiro do Fórum Social Mundial – FSMMG
Conlutas
Conselho de Leigos da Arquidiocese de São Paulo
Direito para Quem?
Fórum de Meio Ambiente dos Trabalhadores
Grupo Cultural CLAM
GT Negros BH
Instituto da Cidadania Araranguá
Instituto dos Defensores dos Direitos Humanos - IDDH
Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul - PACS
Instituto São Paulo de Cidadania e Política
Instituto Tamoio dos Povos Originários

Carta aberta da população


INTERSINDICAL
Jubileu Sul Brasil
Justiça Global
Mandato Deputado Estadual Marcelo Freixo - PSOL RJ

brasileira ao Conselho de Mandato do Deputado Federal Chico Alencar – PSOL RJ


Mandato do Vereador Eliomar Coelho – PSOL RJ
MORENA – Movimento Revolucionário Nacionalista – Círculos Bolivarianos

Segurança das Nações Unidas Movimento Consulta Popular


Movimento Palestina para Todos
MPA - Movimento dos Pequenos Agricultores

N
MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
ós, o povo brasileiro organizado, movimentos sociais, sindicatos, partidos políticos, organizações so- MSTB – Movimento Sem Teto da Bahia
ciais e outras entidades, estamos envergonhados pelo triste papel que as tropas militares, através da MTST – Movimento dos Trabalhadores Sem Teto
NIEP- Marx- UFF - Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas Marx e o marxismo – UFF
Missão de Estabilização do Haiti -MINUSTAH- vêm desempenhando nesse país. Não se tem notícias Núcleo Socialista de Campo Grande
na história da humanidade que uma tropa de ocupação estrangeira tenha contribuído para melhorar as PCB – Partido Comunista Brasileiro
condições de vida de um povo. E muito menos para a sua libertação! PSOL – Partido Socialismo e Liberdade
PSTU – Partido Socialista dos Trabalhadores Unificadsos
A presença de tropas brasileiras no Haiti é inaceitável. Além da vergonha que sentimos como povo, fere gra- Rede Brasileira de Ecossocialistas
vemente a soberania do heróico povo do Haiti, que sofre todos os males de anos de exploração. Nosso apoio Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência
deve ser material, de intercâmbio educativo e cultural, jamais militar. A ONU está gastando (uns 600 milhões Rede Social de Justiça e Direitos Humanos
SINDEESS (Sindicato dos empregados em estabelecimento serviços de saúde)
de dólares anuais) para manter as tropas no Haiti. Essa quantidade é mais do que o necessário para resolver os SINPRO – Friburgo RJ
problemas fundamentais de seu povo, a falta de energia, alimentos, habitação, educação e emprego. União da Juventude Comunista

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Dossiê Haiti Dossiê Haiti

Fotos: Conlutas

Insurrecto Haiti Desarranjos


De um Brasil
Que invade povos irmãos
Deixem que eles ouçam
E destrói
Auscultem
A tolerante
Reclamem
Soberana
E busquem
População haitiana
A sua libertação!

Des - contexto
Deixem que eles construam
De um dês – Conexo país Brasis.
E transpirem
Os rumos
Des - governado
De sua rebelde
Como dês – naturalizado
chant de libération!
Barril... De pólvora.

E de novo
Um Brasil
Restaurem a luta
Que precisa se descobrir
Que grita
Negro, rebelde, de luta
Que explode, atrevida,
Pela solidariedade dos povos.
Contrária à escravidão!
E pela libertação
Do Brasil,
Futura
Do Haiti!

Presente

Erzili F. Dahomey
Passada

Que eu possa ver,


E sentir,
O grito
A cor
E o negro Contorno
Do Rebelde Haiti!

232 - DF, ano XIX , nº 45, janeiro de 2010 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE UNIVERSIDADE E SOCIEDADE DF, ano XIX, nº 45, janeiro de 2010 - 233
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45, julho dede
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SOCIEDADE

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