Carbono Entrevista Cildo Meireles PDF
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que eu tinha feito em abril de 1970, a PETA tinha planejado uma ação contra
mim na conferência de imprensa lá por causa dessas galinhas, né? “A gente
teve informações que eles vão jogar tortas em você, enfim, vão invadir…” No
final não aconteceu nada.
Arte Física: Caixas de Brasília/Clareira – Cildo Meireles, 1969. Sequência de fotografias e mapas, três caixas de
terra. Fotografia: Pat Kilgore.
Do Corpo à Terra foi uma exposição pioneira. Cada artista tinha ganho
passagem daquele trem, o Vera Cruz, que foi antes do Trem de Prata. Tinha o
Santa Cruz que era RJ-SP, e o Vera Cruz que era RJ-BH. Era um padrão que não
existe e nunca existiu na Europa, quer dizer, eram dois passageiros por cabine,
beliche, mas cada cabine tinha pia, toalete, porta fechada… A gente tinha
acabado de fazer 22 anos, todo mundo era mais ou menos nessa idade. Tinha
o trem, lá você tinha hospedagem, hotel, tinha um per diem e o dinheiro pra
produzir um trabalho novo. Quer dizer, isso não existia nem na Europa e nos
EUA, era a Hidrominas que patrocinava. Foi inclusive antecipatória nesse
sentido. Porque mesmo essa exposição lá, Quando as Atitudes se Tornam
Forma, que tinha sido alguns meses antes, em Berna, na Suíça, eu estava
lendo a entrevista do Szeemann e ele dizia justamente que não tinha nenhum
dinheiro e os artistas foram muito solidários, cooperaram muito com o
projeto… Foi a primeira exposição sobre Arte Conceitual. Mas de tal maneira
que tinha um artista que morreu agora, há pouco, que é uma das minhas
inspirações, que é Walter de Maria. A Lynne Cooke durante muito tempo foi
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É… Quer dizer, tem um cara que gosto muito, volta e meia eu cito, Pierre
Teilhard de Chardin, que até a metade da vida era um arqueólogo e
paleontólogo muito conhecido. Ele era o chefe da expedição que descobriu o
homem de Pequim, que era um dos elos perdidos. Era um especialista no
primeiro homem, e aí a partir dali ele se tornou um teólogo conhecido, e
metade da produção dele até hoje está no index do Vaticano, o Vaticano não
deixa publicar. Mas tem vários livros publicados. Tem um chamado Fenômeno
Humano, que ganhei de uma amiga em 1968. E tem uma frase lá que já usei
como epígrafe do projeto Eureka/Blindhotland em 75, e volta e meia eu cito,
porque acho altamente lúcido e pertinente, sobretudo vindo de quem veio, de
um cara que era expert nessa coisa dos links: “O primeiro homem é sempre
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uma multidão.” Na verdade, o que existe são condições para num dado
momento aquilo pipocar aqui, ali… Eu acho que em matemática e ciência
acontece muito isso, o cara está lá trabalhando numa hipótese assim
absolutamente isolado de tudo, e, ao mesmo tempo, tem um cara na antípoda
chegando à mesma conclusão. Então, ele acha que existe uma espécie de
consciência global que vai maturando coisas que estão circulando, e vai
depurando até chegar a uma síntese, e são mais ou menos simultâneos,
entendeu? Eu acho que já no começo dos anos 1960 tinham artistas
trabalhando com ideias conceituais, aqui no Brasil mesmo tinha o Hélio
Oiticica, que tem um trabalho que eu gosto muito chamado Latas de Fogo, que
é uma apropriação que ele fez para o Jornal através de um comunicado, que é
de 64, 65… Naquele momento não existia formalmente a chamada Arte
Conceitual, mas já tinha essa coisa… Então, na verdade, o Szeemann recolheu
coisas que já estava vendo aqui e ali, e era o que chamamos de desvio de
padrão. Você não podia automaticamente enquadrar aquilo. Por exemplo,
quando o Rauschenberg, acho que nos anos 50 ainda, ganhou ou comprou um
desenho do De Kooning, e o trabalho dele foi pegar uma borracha e apagar o
desenho – isso é um procedimento conceitual. Antes disso, por exemplo,
o Yves Klein, que eu não me interesso tanto quanto, por exemplo, pelo Piero
Manzoni, que produzia coisas antecipatórias, se a gente considerar arte
conceitual, como o Marcel Duchamp, evidentemente… Mas, por exemplo, o
Yves Klein tem um trabalho que eu tiro o chapéu totalmente, que são
os Imaterais. Por cem mil dólares ou francos, na época deviam ser francos
porque a arte contemporânea não delirava em termos de preço. Mas vamos
considerar que fossem cem mil dólares. Ele vende pra um colecionador
esse Imaterial. O cara dá para ele uma maleta com cem mil notas de um
dólar. Então, ele tem essa maleta e tira dali o suficiente pra alugar um avião
durante duas horas. Aí sai do território francês, com essa maleta no avião, voa
uma hora em direção ao oceano atlântico, e, então, ele abre a mala e joga o
resto do dinheiro no oceano, e aí volta mais uma hora. Nesse mesmo
momento cronometrado, o comprador desse Imaterial rasga o certificado de
propriedade que o Yves Klein tinha assinado. É um belíssimo trabalho! Eu fiz
um trabalho que é uma homenagem ao Manzoni, um trabalho antigo dos anos
90, mas eu fiz em 2007. Eu ia fazer em 2001 na Finlândia no museu de Kiasma,
em Helsinki, mas na época a peça do Manzoni estava viajando, ela tinha sido
emprestada. É a Socle du Monde, base do mundo, que eu acho são os dois
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O Socle du Monde fica no lugar onde foi produzido. Que era uma fábrica de
camiseta nos anos 50, e esse cara comprou. Mas era um desses esses
empresários loucos através do qual a arte sempre avança, né? O apelido da
fábrica era The Black Factory, porque era toda escura. Primeira coisa, ele
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Arte Física – Cordas: Linha do Horizonte – Cildo Meireles, 1969. Nanquim, grafite, e colagem sobre papel
milimetrado. 32 x 45 cm. Fotografia de Pat Kilgore.
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Arte Física: Ação: Projeto Cravan – Cildo Meireles, 1969. Fotografia de Pat Kilgore.
O meu amigo Trudo quer executar uma dessas coisas de Arte Física, projeto
que era do fim dos anos 60. Porque eu fiz três, na verdade… Mutações é um
dos projetos de Arte Física, de fronteiras, no caso a fronteira Rio-São Paulo.
Mas tinha outros, por exemplo, alteração dos pontos extremos do brasil.
Diminuir um pouco o Oiapoque, ou o Chuí, ou acrescentar… Tem um projeto,
que era o único que eu queria fazer, eu ia fazer em 1997, mas acabou não
indo para frente, que era ligado às fronteiras verticais. Ainda bem que eu não
fiz. Todos esses projetos são de 1969, eu estava morando em Paraty quando
eu fiz os Volumes, o Ocupações e esse Arte Física. Que era um nome que
muitos amigos não gostam, mas são trabalhos que dependiam da fisicalidade
do corpo, quer dizer, de uma coisa que eu não teria condições de fazer. Eles
pressupõem, por exemplo, caminhadas, deslocamentos, você cavar, diminuir…
Tinha vários com cordas, desde coisa ligada ao arco íris, na praia, até espaços
de manifestações, tipo assim, cordas de blocos carnavalescos, ou comícios,
tinham vários. Eu fiz um, que era na minha escala, no litoral de Paraty, estado
do Rio, que eram os 30km de Fio Estendido e Recolhido. Mas tinha um que era
refazer a Tordesilhas, mas fisicamente, com uma linha que você saí lá de
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Paraná e seguia até o Amapá. Claro que eu não vou fazer isso hoje, mas o
Trudo falou que quer fazer. A que eu queria realizar era o Fronteiras Verticais,
que, quando eu projetei, em 1969 e tal, era o Pico da Bandeira, que era na
divisa entre Minas Gerais e Espírito Santo. Aí não fiz, foi passando o tempo.
Depois descobriram que esse não era o ponto mais alto do brasil, era Pico da
Neblina, em Roraima. Quando era no Pico da Neblina, em 97, apareceu o
convite com condições ideais pra fazer, eu comecei a me movimentar. Eu tinha
um primo, que foi assassinado agora em 2004, que era sertanista, o Apoena
Meireles. E o Apoena era piloto também. Estava passando pelo Rio quando eu
estava começando a produção, e aí ligou pra amigos dele que eram pilotos em
Manaus. Na época o acesso tinha que ser de helicóptero, senão demoraria
uma expedição de meses em território indígena. Eu queria diminuir um
centímetro o ponto mais alto e acrescentar um diamante de 2 centímetros,
pra ficar um centímetro mais alto. Mas ainda bem que eu não consegui fazer,
houve um desentendimento e eu abri mão de fazer. Porque depois
descobriram que o ponto mais alto do Brasil era o Caparaó. Há uns dois anos
ou três que não é mais no Pico da Neblina. Essas coisas do Brasil… (risos) Você
tem que esperar os caras: pô, decidam aí qual é ponto mais alto! Porque
senão…
Arte Física – Mutações Geográficas: Fronteira Vertical – Cildo Meireles, 1969-1998. Nanquim, grafite, e colagem
Arte Física: Cordões/30 Km de linhas estendidas – Cildo Meireles, 1969. Linha industrial, mapa, caixa de
Mas quando você fez esses projetos ‘Arte Física’ havia a ideia de realizá-los de
fato?
Claro, na medida do possível, porque também não tinha grana, né? Isso exige
uma infraestrutura.
O dinheiro é um material como qualquer outro?
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Olha, em alguns momentos que fiz projetos relacionados com dinheiro, era o
material mais barato que você encontrava no Brasil. Caía moeda no chão, e as
pessoas não se abaixavam pra pegar. Acho que nem mendigo se interessava
por moeda. Pra você ter uma ideia, fiz aquele trabalho, Missão Missões, em
1987, que também leva dinheiro: é uma piscina de moedas de um centavo.
São 600 mil moedas. Mas pra conseguir 600 mil moedas de 1 centavo no
banco só precisava trocar uma nota de 5 dólares americanos. Aquela piscina
são 5 dólares americanos na época. Aí você vê a relação de valor real e valor
simbólico na história, né? E no dinheiro me interessa exatamente essa
universalidade. Em vários trabalhos meus tem esta chamada matéria de
símbolos. E esse trabalho é exemplar nesse sentido, pois eu trabalho com
hóstia – que é uma coisa do ritual católico, mas a fisicalidade é trigo. Eu
trabalho com moedas, que em si, é símbolo, e ossos, símbolo ligado à morte e
à vida. Em vários momentos, eu procuro trabalhar com coisas que são
paradigmáticas, são simbólicas mesmo. Você imediatamente faz a leitura. E o
dinheiro, eu acho que permite isso.
Missão/ Missões ( Como construir catedrais) – Cildo Meireles, 1987. Detalhe moedas. Fotografia: Trudo Engels .
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Missão/ Missões ( Como construir catedrais) – Cildo Meireles, 1987. Aproximadamente 600.000 moedas, 800
hóstias, 2000 ossos, 80 pedras de pavimento e tecido negro. 235 x 600 x 600 cm. Fotografia: Trudo Engels .
O primeiro foi esse Árvore do Dinheiro. O segundo foi o projeto Cédula, das
Inserções em Circuitos Ideológicos, que começou com um texto. Eu estava no
Rio na época, minha mulher e um casal de amigos fomos pra prainha, onde a
gente sempre ia, e na volta – a Barra era vazia, não tinha nada, tinha o Recreio
dos Bandeirantes e o começo da Barra – tinha perto do canal ali na entrada
um restaurante de tábuas escamadas, mais ou menos amplo. A gente volta e
meia parava lá na volta, que era muito barato e tinha um peixe, e lembro que
um dos amigos que estava na mesa, falou: você sabe que se alguém colocar
um caroço de azeitona numa garrafa de Coca-Cola ele nunca vai sair? Uma
lavagem automática, uma coisa física, rotação e tal… Aí fiquei com aquilo na
cabeça e quando cheguei em casa fiz um texto que começa assim: Quando
Marcel Duchamp disse que queria libertar a arte do domínio das mãos, ele
jamais imaginaria quão longe nós iríamos hoje, e aí vai… Mas quando acabei o
texto, eu falei: isso está meio obscuro, né? E pensei em exemplos, que é como
trato até hoje, exemplos. Porque quando você vê uma garrafa ou uma nota
num museu não é um trabalho, né? O trabalho é essa coisa imaterial. Ele só
acontece quando alguém estiver fazendo, em algum lugar o trabalho existe.
Fora disso ele é uma relíquia, uma memória, um souvenir. Eu me refiro a eles
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como exemplos porque não é uma tiragem, não é uma edição, não tem
nenhuma regra.
Inserções em Circuitos Ideológicos: Projeto Coca-Cola – Cildo Meireles, 1970. Fotografia: Pat Kilgore.
Eu soube que esse ano ou ano passado teve uma venda. Eu nunca vendi esse
trabalho, nem pretendo vender. E foi vendido e vendido absurdamente caro.
Três garrafas de Coca-Cola que eu tinha dado pra uma amiga minha
americana em setenta e pouco, na época que eu estava lá. E ela estava se
aposentando e ia ficar com uma grana. Era em uma casa de leilão, e depois eu
consegui que a Luiza, que é a minha galerista, localizasse quem estava
botando à venda. A amiga querida resolveu o problema lá de aposentadoria
dela… Porque também é ilusão você achar que vai ter o controle. Eu soube
que tem galerista aqui no Rio que está tentando fazer uma produção em
massa disso com fins comerciais… mas aí tive que ir atrás de advogado. Está
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no radar. Tem sempre gente achando que pode lucrar. Mas são circuitos, são
coisas que, no interior da sociedade, tem o caráter de circulação: a Coca-Cola
e o dinheiro. Porque um se refere à macroestrutura industrial, que é a Coca-
Cola. O outro à macroestrutura institucional, portanto muito mais ampla,
muito mais fácil de fazer. No começo era serigrafia nos dois, depois no
dinheiro, por praticidade, usei o carimbo. É que na época também eu não
podia sair falando de… ainda hoje, né? Os dois últimos que fiz foram “Porque
Celso Daniel foi assassinado?” e “Porque Toninho do PT foi assassinado?”. E
agora, na semana passada, fiz outra e comecei a botar em circulação. Na
verdade, são questões que o povo coloca: “O que aconteceu com Amarildo?”.
São aquelas respostas que o povo quer.
meio salário. E, ao mesmo tempo, essa lei foi implantada sem nenhum tipo de
programa educativo. Tinha que pelo menos, sei lá, dois meses os fiscais na rua
falando: olha, a partir de novembro, se você fizer isso…
Zero Dollar – Cildo Meireles, 1978-84. Impressão em papel. Fotografia: Pat Kilgore.
Zero Cruzeiro – Cildo Meireles, 1974-8. Impressão em papel. Fotografia: Pat Kilgore.
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Só tem um, né? Eu só mostro réplica. Porque é igual ao Cruzeiro do Sul, que já
aconteceu milhares de coisas. O Cruzeiro do Sul é um cubozinho de duas
madeiras, que foi feito pra ocupar um museu inteiro. Uma única peça. Na Tate
ele estava numa sala e aí, no 3º dia da exposição, entrou uma mãe e um filho
de uns quatro anos. Aí o guarda está lá e de repente ele ouviu: “Garoto,
garoto!” Aí era tarde demais, o garoto tinha pego o Cruzeiro e engolido. Eu até
falei: “Vocês têm que fazer como um gadget, um chocolate branco e preto e
vender um pacotinho na loja! Aí vocês vão fazer grana!”
Cruzeiro do Sul – Cildo Meireles, 1969. Cubo de madeira com uma secção de pinho e a outra de carvalho. 9 x 9
x 9 mm. Coleção do Artista. Fotografia: Pat Kilgore.
Ficamos numa discussão sobre esse trabalho, pensando se a nota dos ‘zeros’
continua sendo uma moeda de troca. Porque é dinheiro, mas continuará
sendo dinheiro se não tem valor?
Ocasião – Cildo Meireles, 1974-2004. Duas salas, bacia esmaltada, suporte de metal, dinheiro e espelhos. Cada
sala: 400 x 600 cm. Fotografia: Wolfgang Gunzel.
Tem vários, né? Na verdade o Ocasião é de 74, e era muito mais uma maneira
que eu tinha pensado pra mostrar a Árvore do Dinheiro. Não era uma bacia,
era uma base onde ia estar a Árvore do Dinheiro, e na outra sala você via o
que tá se passando nessa primeira sala. Depois é que ele adquiriu uma
autonomia. Por exemplo, agora em Madrid está acontecendo uma coisa
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Ocasião – Cildo Meireles, 1974-2004. Duas salas, bacia esmaltada, suporte de metal, dinheiro e espelhos. Cada
sala: 400 x 600 cm. Fotografia: Wolfgang Gunzel.
É como o Malhas da Liberdade: pra mim era tão óbvio! Fui pedir pro Fausto
Alvim, que era professor de matemática lá da UNB, porque eu não tinha
conseguido localizar historicamente aquilo ali, mas me parecia uma coisa
muito óbvia. Aí depois de dois, três meses ele foi me falar que tinha
pesquisado e não conseguiu. Isso foi 1977. Nesse mesmo ano, em julho,
mandei pra Bienal de Paris, e pela primeira vez eu mostrei o Malhas da
Liberdade, essa versão em metal que tem um vidro que atravessa. Na mesma
época, na Itália, o Feigenbaum, um físico, estava residindo em Los Álamos,
trabalhando com turbulência. E depois chegou no que hoje em dia é
conhecido como constante de Feigenbaum, que é uma constante que aparece
em mudanças de estado, essas coisas que a física foi varrendo pra debaixo do
tapete. Então esse número agora é uma constante que, nas passagens de
estado, por exemplo, do líquido para o vapor, para o sólido, aparece esse
numeral. Mas isso só veio à tona nesse congresso de nova física nessa
cidadezinha lá na Itália. Eu tinha feito, em 1976, o protótipo em fio de cobre
em Petrópolis, onde estava morando. E depois fiz essa primeira versão em fio
de algodão com um pescador lá no Maranhão, e já estava fazendo a versão em
metal pra mandar lá pra Paris, e só nessa época que eu soube dessa
constante. Inclusive ele usa um conceito que acho que vem do Jorge Luis
Borges, que tem uma história chamada O jardim das veredas que se bifurcam.
E o Feigenbaum usava a expressão “cachoeira de bifurcações”, que está na
origem também, quer dizer, na verdade, uma árvore é uma cachoeira de
bifurcações também. São bifurcações sobre bifurcações sobre… Mas esse cara
estava trabalhando nisso desde os anos 70, e eu só fui saber disso em 89 ou
90, no livro chamado Caos, do James Gleick.
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Malhas da Liberdade I – Cildo Meireles, 1976. Cordas de algodão. Fotografia: Pat Kilgore.
Você acha que há um interesse específico pela ciência nos seus trabalhos?
Sempre gostei, sempre me interessei, mas não sou um expert, né? Sempre tive
muita facilidade em matemática, gostava de física, sobretudo. Biologia tive
mais dificuldade, química… Mas matemática e física sempre tive mais
interesse, procurei me aproximar mais.
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Desvio para o Vermelho: I. Impregnação – Cildo Meireles, 1967-84. Coleção: CACI – iNHOTIM. Fotografia:
PedroMotta.
Eureka/Blindhotland – Cildo Meireles, 1970-75. Borracha, rede de pesca, metal, madeira e áudio. Fotografia:
Museu de Arte Contemporânea de Barcelona..
Sem dúvida nenhuma. Em vários momentos até de uma maneira bem estrita.
Você sabe que o Marcel Duchamp tem um trabalho, acho que é Cinto de
Castidade. É um objeto que é feito de dois materiais diferentes que estão
completamente interligados e encaixados sem nenhuma folga, e dentro de
uma lógica que era, até o momento, industrialmente impossível de ser
conseguida. Porque era uma espécie de plástico e metal, e, na verdade, o que
ele criou foi o procedimento que a partir daí passou a ser utilizado na
indústria. Como os pontos de fusão eram diferentes, você não podia fazer o
outro e depois encaixar, por causa do desenho. Mas ele descobriu
simplesmente que se você modelasse o de ponto de fusão mais alto, e,
quando ele tivesse atravessando aquela zona, você modelava o plástico, eles
ficariam encaixados sem nenhum tipo de vácuo. Mas existe em outros
momentos também da História da Arte, essas antecipações, vamos dizer, de
natureza científica. Quer dizer, eu nunca aspirei estabelecer uma antecipação
assim, mas gostaria muito, é claro. Me sentiria feliz, né? Porque é uma
maneira de dar à arte uma função útil. Porque a arte… Eu me lembro que
ganhei um prêmio em 2008, aí tinha que falar, eu detesto, eu fujo, não falo em
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público jamais, nem nas exposições minhas… Mas lá tinha que dizer umas
palavras de agradecimento… Eu lembro que usei uma expressão: a arte é uma
produção de inutilidades imprescindíveis. Você fica produzindo inutilidades,
mas ao mesmo tempo, é difícil você prescindir delas, porque tem momentos
que é preciso que alguém cometa aquele erro lá, porque isso já é um grande
adianto pra humanidade. E não é porque sou artista, se não fosse pensaria da
mesma maneira.
O Borges tem um conto que à certa altura fala que a literatura não passa de
um único livro que vem sendo escrito por todos os escritores ao longo do
tempo. Quer dizer, eu acho que é um pouco isso… É um pouco essa ideia de
que o tipo de saber que está vinculado a uma única pessoa em um
determinado momento é muito problemático, né? Para mim, o saber, todo
saber é de uma clareza cristalina, ou seja, ele pode ser transmitido. Ele deve
ser transmitido. Porque fora desse saber existe o quê? A genialidade – essa
singularidade tão absoluta que se torna inaproveitável. E aí é uma coisa que
eu acho que não contribui tanto quanto um pequeno saber que é adicionado a
essa longa história de acúmulo de saber.
***