DOI: 10.
1590/1414-462X201400010016
Resenha
Conceitos epidemiológicos e as
pandemias recentes: novos desafios
Epidemiological concepts and recent pandemics: new challenges
Suellen Silva Araújo Magalhães1, Carla Jorge Machado2
A obra de Stefan Chunha Ujvari faz uma análise histórica com base na perspectiva das infecções
e como estas moldaram a vida dos seres humanos e vice-versa. Os microrganismos fadados à sobre-
vivência têm facilidade de adaptação em um tempo curto e essa habilidade garante sua supervivência
até os dias de hoje. Além desses sobreviventes, Ujvari coloca que também todos os outros organismos
apresentam essa habilidade de adaptação, embora não de forma tão brilhante como os primeiros.
Assim, com o tempo, os humanos modificam o ambiente onde vivem aumentando as chances de
sobrevivência. Os microrganismos também se modificam para aumentar as suas chances. Assim,
outros seres evoluem e se estabelece um ciclo.
No contexto dos desafios colocados a todos os governos pela pandemia da gripe H1N1 no ano
de 2009 (as estratégias para limitar a transmissão em comunidades e o desenvolvimento de antivirais
se mostraram ineficazes [mc caw]), dado a doença ter apresentação branda e características clínicas
Resenha do livro:
UJVARI, Stefan Cunha. pouco específicas — o que torna a definição do caso incompleta e medidas de isolamento inviáveis —,
Pandemias: A humanidade este livro traduz, ao leitor menos familiarizado, por meio do exemplo da epidemiologia das doenças
em risco. São Paulo:
Contexto, 2011. 220 p. transmissíveis, esta questão de saúde pública.
ISBN: 978-8-7244-632-7. Já não mais é possível compreender as epidemias sem abranger a velocidade dos deslocamentos
populacionais, os quais devem ser levados em consideração na rapidez das medidas de controle im-
plementadas, ou seja, na vigilância dos agravos transmissíveis. Os capítulos, que precedem os itens
“Nota” e “O Autor”, deixam essa realidade patente ao enfatizarem o alastramento e a mobilidade geo-
gráfica das epidemias por meio de indivíduos infectados: as epidemias, locais, tornam-se pandemias,
generalizadas geograficamente.
O capítulo 1, “A repetição da pneumonia asiática de 2003”, traz a velocidade do alastramento da
Síndrome Respiratória Aguda Severa (SARS) e ressalta conceitos centrais como disseminação e letalida-
de. O capítulo 2, “As futuras gripes suínas”, adiciona ao capítulo anterior ao indicar que a mobilidade das
pessoas e de animais favorece a disseminação dos vírus e potencializa suas mutações, dando origem a
novos vírus. De fato, o avanço tecnológico permitiu o transporte de animais usados para consumo hu-
mano por grandes distâncias; além disso, a migração — hábito comum entre algumas aves — também
1
Acadêmica do curso de Ciências Socioambientais, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG) – Belo Horizonte (MG), Brasil.
2
Ph.D.; Professora associada nível 1, Departamento de Medicina Preventiva e Social, Faculdade de Medicina, UFMG – Belo Horizonte (MG), Brasil.
Endereço para correspondência: Suellen Silva Araújo Magalhães – Avenida Sinfonia, 282 – Bairro Santa Amélia – CEP: 31560420 – Belo
Horizonte (MG), Brasil – E-mail: [email protected]
Fonte de financiamento: nenhuma.
Conflito de interesses: nada a declarar.
Cad. Saúde Colet., 2014, Rio de Janeiro, 22 (1): 109-10 109
Suellen Silva Araújo Magalhães, Carla Jorge Machado
pode ser considerada uma alavanca na disseminação desses e sua capacidade de adaptação a novos medicamentos. O au-
vírus. O H5N2 é fruto dessa dinâmica: grandes aglomerações tor levanta um problema: o fato de o pequeno número de
tanto de pessoas quanto de aves favorecem a sua dissemina- antibióticos disponíveis no mercado aumentar o seu uso em
ção e a proximidade aumenta a chance de recombinações diversas infecções, o que acelera a aquisição de resistência
entre tipos diferentes de vírus. A grande variabilidade do vírus pelas bactérias. Avançando na questão das superbactérias
Influenza se deve a essa dinâmica em constante movimentação. e de sua capacidade de adaptação, “Uma pandemia pelas
Já o terceiro capítulo, “Uma gripe muito mais letal que a suína”, mãos”, o sétimo capítulo, indica serem essas bactérias resis-
aprofunda a questão da transmissão e indica que, até o momen- tentes até mesmo à radiação. Há um item específico sobre o
to, todos os casos de transmissão para humanos ocorreram da estafilococo, cuja mobilidade urbana contribuiu para que a
ave para o homem, mas que o temor reside na possibilidade — bactéria atravessasse fronteiras, espalhando-se por diferentes
segundo o autor e outras evidências científicas cada vez mais continentes. Os capítulos “A próxima peste vinda da África e
próximas — de uma mutação possibilitar a transmissão de Ásia” e “Uma dor de cabeça nasce na Ásia”, o oitavo e o nono,
homem para homem, causando uma pandemia. tratam da febre do vale do Rift e do vírus da encefalite japo-
“Um vírus vindo do Oriente” é o quarto capítulo, cujo nesa e de suas perspectivas de avanços em outros continentes
tema é a dengue no Brasil, após o preâmbulo acerca da viagem e da chegada ao Brasil. O autor relembra que a navegação
do mosquito Culex pelo Havaí carregando consigo o parasita foi a principal responsável por sua dispersão: embarcações
que causa a malária nas aves. O autor ressalta que, no Brasil, levaram e trouxeram infecções ao longo da história. O capí-
o mosquito Aedes aegypti tornou-se um problema de saúde tulo 10, “Os parentes do Ebola”, elabora conceito central nas
pública devido a sua perfeita adaptação ao nosso clima e às epidemias, que é o tempo de incubação e conclui que os meios
grandes áreas urbanizadas. Associado ao Aedes aegypti tam- de transportes cada vez mais velozes possibilitaram a trans-
bém temos uma nova espécie capaz de transmitir a dengue missão dos microrganismos de forma cada vez mais rápida,
conhecida por Aedes albopictus, embora essa espécie tenha reduzindo distâncias entre continentes a apenas um dia ou
hábitos menos urbanos. A coabitação das duas espécies pos- menos. Aliado a essa transmissão rápida, há o transporte de
sibilita o surgimento de um novo vírus, causando uma nova pessoas em números cada vez maiores, facilitando aglomera-
epidemia, talvez ainda mais letal que a dengue que conhece- ções e contágios. Finalmente, “A próxima AIDS” é o décimo
mos. As espécies de Aedes ainda podem transmitir o CHIKV, primeiro e último capítulo, no qual Ujvari relata a conquista
conhecido por doença do andar curvado, de baixa letalidade, decorrente da vacina Salk e a descoberta posterior do vírus
mas muito limitante. O quinto capítulo, Um vírus se alastra do SV40, inofensivo aos humanos. Contudo, outro vírus, o HIV
Norte, aborda o vírus da encefalite no Nilo Ocidental, jamais (vírus da imunodeficiência humana) também se originou do
encontrada na América antes de 1999 e que já se encontra na vírus presente nos chimpanzés, SIV (vírus da imunodeficiên-
América do Sul. Uvjari discorre sobre as possibilidades de o cia do Símio) e mostrou-se nada inofensivo. Estudos indicam
vírus estar em território brasileiro, que não são pequenas, e 12 tipos de SIV que se aderiram às membranas das células
ressalta: temos aves e mosquitos em abundância para susten- humanas em placas do laboratório e conseguiram invadi-las,
tar a permanência viral em nosso território. o que é preocupante.
“O retorno da tuberculose incurável” é o quinto capítulo e Ujvari narra vitórias, perdas e inseguranças no confronto
traça um panorama da história da tuberculose, destacando o dos seres humanos com os microrganismos, revelando a exis-
tratamento descoberto em 1943 com base nas estreptomicinas tência frágil dos primeiros. Trata-se de uma narrativa simples,
e os fatores que tornariam a bactéria resistente. A interação da mas instigante, que suscita o interesse dos pesquisadores so-
aids com a tuberculose também é destacada, uma vez que os bre as doenças transmissíveis pelas quais passa a humanidade.
soropositivos são os hospedeiros ideais da tuberculose, pois Ao desvendar claramente a atuação conjunta dos homens e
sua baixa defesa favorece intensa multiplicação dessa bactéria, dos microrganismos, a obra atua como instrumento que fo-
com uma eliminação em grandes quantidades. O sexto capí- menta a pesquisa e amplifica a compreensão dos fenômenos,
tulo, “Pandemias pelas superbactérias”, discorre com detalhes o que se revela fundamental no controle e na vigilância de
sobre os antibióticos que podem combater as doenças e sobre surtos, epidemias e pandemias.
um ciclo perverso, no qual a velocidade da resistência é maior
que a de produção de antibióticos, o que remete a capítulos Recebido em: 14/10/2014
anteriores que abordaram a versatilidade dos microrganismos Aprovado em: 27/01/2014
110 Cad. Saúde Colet., 2014, Rio de Janeiro, 22 (1): 109-10