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I DA D E
MÉDIA
CASTELOS, MERCADORES
E P O E TA S
DIREÇÃO
U M B E RTO E CO
Tradução
Ca r lo s Abo im de Brit o
e Diogo Ma dre Deus
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IDADE MÉDIA – CASTELOS, MERCADORES E POETAS
4
XXXXXXX
ÍNDICE
15 HISTÓRIA
17 Introdução, de Laura Barletta
29 Os acontecimentos
29 A expansão alemã para oriente, de Giulio Sodano
32 As cruzadas e o Império Latino do Oriente, de Franco Cardini
36 A concorrência entre as repúblicas marítimas, de Catia Di Girolamo
39 Frederico II Hohenstaufen e o declínio da dinastia suábia em Itália,
de Mariateresa Fumagalli Beonio Brocchieri
44 As ordens religioso-militares, de Barbara Frale
48 Bonifácio VIII e o primado da Igreja, de Errico Cuozzo
53 O papado de Avinhão, de Anna Maria Voci
58 O grande cisma, de Marcella Raiola
61 A monarquia eletiva e a dinastia de Habsburgo, de Catia Di Girolamo
65 Das comunas às senhorias, de Andrea Zorzi
70 A Guerra dos Cem Anos, de Renata Pilati
74 A peste negra e a crise do século XIV, de Catia Di Girolamo
78 As revoltas camponesas, de Giovanni Vitolo
81 A Casa de Anjou no Mediterrâneo, de Francesco Paolo Tocco
85 Os países
85 O Estado da Igreja, de Errico Cuozzo
89 A França, de Fausto Cozzetto
95 A Inglaterra: a monarquia entre guerras e concessões, de Renata Pilati
101 O Sacro Império Romano-Germânico, de Giulio Sodano
104 Reinos, principados, ducados, bispados, cidades na área germânica, de Giulio
Sodano
108 Os principados de fronteira entre a França e o Sacro Império Romano, de Fausto
Cozzetto
111 A Confederação Helvética, de Fausto Cozzetto
114 A Península Ibérica, de Rossana Sicilia
119 O reino da Casa de Anjou na Sicília, de Francesco Paolo Tocco
122 O reino aragonês da Sicília, de Francesco Paolo Tocco
125 Veneza e as outras cidades marítimas, de Catia Di Girolamo
129 Os países escandinavos, de Renata Pilati
135 As cidades da Liga Hanseática, de Fabrizio Mastromartino
138 A Polónia, de Giulio Sodano
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IDADE MÉDIA – CASTELOS, MERCADORES E POETAS
141 A Hungria, de Giulio Sodano
144 O grão-ducado da Lituânia, de Giulio Sodano
147 A Península Balcânica, de Fabrizio Mastromartino
150 Os principados russos, de Giulio Sodano
154 O canato da Horda de Ouro, de Marie Francine Favereau
159 O Império Bizantino e a dinastia paleóloga. Declínio
e guerras civis, de Tommaso Braccini
163 O Império Otomano, de Fabrizio Mastromartino
167 A economia
167 As terras, de Catia Di Girolamo
170 As manufaturas, de Diego Davide
174 Minas e metalurgia, de Diego Davide
178 O comércio, de Maria Elisa Soldani
183 Mercados, feiras e vias de comunicação,
de Diego Davide
188 As cidades, de Aurelio Musi
192 O desenvolvimento da navegação,
os empreendimentos no Atlântico
HDVGHVFREHUWDVJHRJUiÀFDVde Ivana Ait
196 Os grandes viajantes e a descoberta do Oriente,
de Sung Gyun Cho
200 O crédito e a moeda, de Valdo d’Arienzo
204 A sociedade
204 Nobreza e burguesias, de Catia Di Girolamo
207 As confrarias, de Elena Sanchez de Madariaga
211 O processo penal, de Dario Ippolito
214 As instituições políticas, de Fabrizio Mastromartino
219 Aspirações de renovação religiosa da Igreja e heresias,
de Ciro Di Fiore
229 A inquisição episcopal e a inquisição pontifícia,
de Giulio Sodano
232 Os pobres, os peregrinos e a assistência, de Giuliana Boccadamo
236 As perseguições contra os judeus, de Giancarlo Lacerenza
241 Salteadores, piratas e corsários, de Carolina Belli
244 Os missionários e as conversões, de Genoveffa Palumbo
254 As ordens religiosas, de Fabrizio Mastromartino
258 A instrução e os novos centros de cultura,
de Anna Benvenuti
262 A guerra: cavaleiros, mercenários e cidadãos,
de Francesco Storti
266 O poder das mulheres, de Adriana Valerio
270 Cerimónias, festas e jogos, de Alessandra Rizzi
275 A vida quotidiana, de Silvana Musella
8
XXXXXXX
283 FILOSOFIA
285 Introdução, de Umberto Eco
289 A circulação do saber e as universidades
289 As enciclopédias medievais como modelos de saber,
de Mariateresa Fumagalli Beonio Brocchieri
293 $ÀORVRÀDQRLVOmRPHGLHYDOWHPDVHSURWDJRQLVWDV
de Cecilia Martini Bonadeo
302 $VWUDGLo}HVÀORVyÀFDVMXGDLFDVQD,GDGH0pGLD
de Claudia Menziani e Riccardo Fedriga
311 A dupla via das traduções e o nascimento do saber crítico,
de Francesca Forte
319 Universidade e ordem dos estudos. O método escolástico,
de Andrea Colli
325 As summae e a tradição do comentário no pensamento medieval,
de Andrea Colli
331 O aristotelismo radical e as reações dos teólogos, de Federica Caldera
341 )LORVRÀDHWHRORJLD
341 Alberto Magno e a Escola de Colónia, de Alessandra Beccarisi
346 Tomás de Aquino, de Alessandro Ghisalberti
354 Boaventura de Bagnoregio, de Marco Rossini
361 A tradição franciscana, de Federica Caldera
370 O pensamento de João Duns Escoto, de Anna Lovisolo
377 Guilherme de Ockham, de Paola Muller
385 'DQWHÀOyVRIRde Claudia Menziani
391 Eckhart e a mística renana, de Alessandra Beccarisi
396 Raimundo Lúlio, de Michela Pereira
404 Saberes e tradições em comparação
404 A alma, de Agnese Gualdrini
410 A questão do conhecimento, de Riccardo Fedriga e Ilaria Prosperi
422 $ÀORVRÀDGDVSDL[}HVde Silvana Vecchio
427 A dialética da omnipotência divina, de Riccardo Fedriga
436 Conhecimento e ceticismo no século XIV, de Chiara Selogna
440 Analogia e metafísica, de Luigi Spinelli
449 As éticas medievais, de Claudio Fiocchi
453 2GHEDWHVREUHRLQÀQLWRQRVVpFXORVXIII e XIV de Federica Caldera
459 Uma acusação de longa duração: a vana curiositas, de Claudio Fiocchi
463 $UHÁH[mRSROtWLFDde Stefano Simonetta
471 CIÊNCIA E TECNOLOGIA
473 Introdução, de Pietro Corsi
479 Ciências matemáticas
9
IDADE MÉDIA – CASTELOS, MERCADORES E POETAS
479 $LQÁXrQFLDLVOkPLFDQDVPDWHPiWLFDVHXURSHLDVde Giorgio Strano
484 O apogeu das ciências matemáticas islâmicas, de Giorgio Strano
488 A favor e contra Ptolomeu, de Giorgio Strano
491 A astrologia, de Antonio Clericuzio
499 Física
499 Teorias da substância e das suas mutações, de Antonio Clericuzio
503 A física do movimento e a ciência dos pesos, de Antonio Clericuzio
509 $DOTXLPLDHDPHWDOXUJLDQD(XURSD
509 A alquimia na Europa dos séculos XIII e XIV, de Andrea Bernardoni
514 A Quaestio da alquimia, de Andrea Bernardoni
516 Da transmutação metálica à alquimia do elixir, de Andrea Bernardoni
518 Teologia e alquimia, de Andrea Bernardoni
520 Mineralogia e metalurgia na Europa dos séculos XIII e XIV, de Andrea Bernardoni
523 Saberes do corpo, da saúde e da cura
523 A medicina nas universidades e a escolástica médica, de Maria Conforti
527 Escolas e mestres de medicina em Itália e na Europa, de Maria Conforti
531 Medicina e cirurgia em Itália, de Maria Conforti
535 A peste negra, de Maria Conforti
540 Inovações, descobertas, invenções
540 Conquistas da técnica: manivelas e pedais, de Giovanni Di Pasquale
542 As artes mecânicas, de Giovanni Di Pasquale
545 Roger Bacon e a ciência experimental, de Giovanni Di Pasquale
547 Entre Oriente e Ocidente de Giovanni Di Pasquale
551 O relógio mecânico, de Giovanni Di Pasquale
555 Os óculos, de Giovanni Di Pasquale
557 A bússola, de Giovanni Di Pasquale
560 As armas de fogo, de Giovanni Di Pasquale
564 )RUDGD(XURSD
564 Ciência e tecnologia na China, de Isaia Iannaccone
571 LITERATURA E TEATRO
573 Introdução, de Ezio Raimondi e Giuseppe Ledda
579 A Idade Média rumo ao humanismo
579 A receção dos clássicos, de Matteo Ferretti
583 A retórica das universidades nas cidades, de Nicolò Maldina
587 /LWHUDWXUDUHOLJLRVDHPODWLPHHPOtQJXDYXOJDU
587 &RPXQLFDomR H HVFULWD UHOLJLRVD KDJLRJUDÀD SUHGLFDomR HVSLULWXDOLGDGH de Silvia
Serventi
591 A literatura do Além: viagens e visões, de Giuseppe Ledda
10
XXXXXXX
595 Jacopone da Todi e a poesia religiosa, de Stefano Cremonini
599 Escrita mística e espiritualidade feminina, de Oriana Visani
607 O primado da poesia
607 A épica, de Paolo Rinoldi
611 A lírica na Europa, de Giuseppina Brunetti
617 A lírica em Itália, de Giuseppe Ledda
625 Poesia e política, de Camilla Giunti
628 A poesia cómica e satírica, a paródia, de Giuseppe Ledda
632 Dante Alighieri, de Giuseppe Ledda
645 Francesco Petrarca, de Loredana Chines
656 2JRVWRGDQDUUDomR
656 O romance, de Giuseppina Brunetti
660 Poesia narrativa, didática, alegórica, de Daniele Ruini
664 O Roman de la Rose, de Matteo Ferretti
669 As formas do conto breve, de Elisabetta Menetti
672 Giovanni Boccaccio, de Elisabetta Menetti
681 Geoffrey Chaucer, de Elisabetta Menetti
688 As formas da prosa
688 2HQFLFORSHGLVPRDOLWHUDWXUDFLHQWtÀFDHGHYLDJHPde Anna Pegoretti
692 +LVWRULRJUDÀDHFUyQLFDde Camilla Giunti
697 Teatro
697 Teatro religioso e teatro popular na Europa, de Luciano Bottoni
700 A Itália das laudas em língua vulgar e a recuperação da tragédia latina,
de Luciano Bottoni
705 ARTES VISUAIS
707 Introdução, de Anna Ottani Cavina
712 $(XURSDGDVFDWHGUDLV
712 A catedral, imagem da cidade, de Tomas Fiorini
716 Construir as catedrais: o estaleiro e as técnicas, de Tomas Fiorini
721 O gótico para lá dos Alpes, de Tomas Fiorini
725 Idade Média fantástica: portais, coruchéus, capitéis e pináculos, de Francesca Tancini
729 A arquitetura gótica em Itália, de Fabrizio Lollini
734 A escultura em Itália
734 Benedetto Antelami e a escultura na região do Pó, de Fabio Massaccesi
738 O reino de Frederico II, de Laura Fenelli
742 Nicola Pisano, de Massimo Medica
747 Giovanni Pisano, de Massimo Medica
751 Arnolfo di Cambio arquiteto e escultor, de Massimo Medica
11
IDADE MÉDIA – CASTELOS, MERCADORES E POETAS
757 ©3LQWDUjJUHJDHPODWLPª
757 Sedução do Império do Oriente, de Anna Ottani Cavina
760 Arte e ordens mendicantes, de Milvia Bollati
763 Do Christus triumphans ao Christus patiens, de Fabio Massaccesi
766 Cimabue, de Fabrizio Lollini
770 Giotto, de Fabrizio Lollini
778 Duccio di Buoninsegna, de Luca Liardo
782 Mosaicos, frescos, vitrais, de Claudia Solacini
787 7HPDVHSURWDJRQLVWDV
787 O artista na Idade Média, de Marcella Culatti
791 Simone Martini, de Luca Liardo
795 Os Lorenzetti, de Luca Liardo
800 Depois de Giotto: Florença, Rimini, Bolonha, Pádua, de Fabio Massaccesi
803 Sedes de poder: o castelo, os palácios comunais, de Claudia Solacini
807 As cidades dos papas: Roma e Avinhão, de Luca Liardo
811 Suger e a ourivesaria sacra, de Raffaella Pini
815 O papel das artes menores nos séculos XIII e XIV, de Fabrizio Lollini
819 A perceção da natureza, de Fabrizio Lollini
825 Florença. A peste negra de 1348, de Anna Ottani Cavina
828 Juízos Finais e danças macabras, de Chiara Basalti
832 1RVWDOJLDGD,GDGH0pGLD
832 Nostalgia da Idade Média, de Fabrizio Lollini
839 MÚSICA
841 Introdução, de Luca Marconi e Cecilia Panti
843 Música e sociedade na Idade Média Tardia
843 O ensino da música na época das universidades,
de Cecilia Panti
848 A representação da música na literatura e na sociedade,
de Alessandra Fiori
852 A prática musical
852 A nova musica. Monódia sacra não litúrgica e monódia profana, de Carla Vivarelli
856 A ars antiqua, de Carla Vivarelli
860 A ars nova francesa e Guillaume de Machaut, de Germana Schiassi
867 O século XIV italiano e Francesco Landini, de Tiziana Sucato
876 A música para os olhos: o códice Chantilly, de Carla Vivarelli
879 A música instrumental, de Fabio Tricomi
883 A dança dos séculos XIII e XIV: dança e poesia, de Stefano Tomassini
889 Índice remissivo
12
XXXXXXX
CRONOLOGIA
II Geral
IV História
VI )LORVRÀD
VIII Ciência e tecnologia
X Literatura e teatro
XII Artes visuais
XIV Música
13
IDADE MÉDIA – CASTELOS, MERCADORES E POETAS
14
HISTÓRIA
HISTÓRIA
15
IDADE MÉDIA – CASTELOS, MERCADORES E POETAS
16
HISTÓRIA
INTRODUÇÃO
de Laura Barletta
No dia 13 de abril de 1204, Constantinopla – que já tinha caído nas mãos
dos cruzados em julho do ano anterior – é novamente conquistada. A cidade,
que desde os tempos de Constantino (c. 285-337, imperador desde 306) tinha su-
perado crises de todo o género, a partir da derrota do imperador Valente (328-378,
imperador desde 364) em Adrianópolis em 378, e tinha resistido a ataques pro-
longados de persas, árabes, ávaros e búlgaros, é conquistada e saqueada por ou-
WURVFULVWmRV'HVWHPRGRQmRVHUHDOL]DREYLDPHQWHDUHXQLÀFDomRGR,PSpULR
Romano, sonhada por Otão III (980-1002, rei desde 983), antes se concretiza o
impulso expansionista sob o signo da Cruz da sociedade europeia dos dois sécu-
los precedentes, sem surpresa, dado os numerosos propósitos de conquista que
foram manifestados ao longo do século XII. E, sob o signo da Cruz, os sobera-
nos ibéricos põem em debandada os árabes em Navas de Tolosa, em 1212, con-
cluindo nos anos seguintes, até 1270, a Reconquista, com exceção de Granada.
A Ordem Teutónica conduz uma política de expansão na região báltica, onde a
Hansa promove e monopoliza as atividades marítimas, enquanto as populações
EDOFkQLFDVDVGiOPDWDVHDVGD(XURSDFHQWURRULHQWDOÀFDPFDGDYH]PDLVVRE
DLQÁXrQFLDSROtWLFRUHOLJLRVDGDFULVWDQGDGH1R0HGLWHUUkQHRD5HFRQTXLVWD
além da Espanha meridional, das ilhas Baleares e da Sicília, permitiu, ao longo
dos séculos XI e XII, a consolidação da presença aragonesa, e a conquista dos Bal-
cãs no século XIII reforça as posições cristãs. As atividades comerciais de Pisa e
de Génova são dirigidas também para leste em concorrência com Veneza, que
estabelece a sua hegemonia no Mediterrâneo oriental. Não é por acaso que as
quinta, sexta e sétima cruzadas (1217, 1248-1254, 1270) são dirigidas para
a conquista do Egito para completar o controlo da bacia oriental.
2LPSXOVRH[SDQVLRQLVWDGHYHXVHDRQRWiYHOLQFUHPHQWRGHPRJUiÀ- Sob o signo da Cruz
co dos dois primeiros séculos do novo milénio e ao desenvolvimento das
atividades agrícolas, artesanais e comerciais, que favorecem o renascimento
da economia monetária depois da longa estagnação da Alta Idade Média, causa-
da, entre outros motivos, por uma persistente carência de metais preciosos. No
início do século XIII, são cunhadas novas moedas de prata e de ouro em Veneza
e Florença e, depois, em Génova, em França, em Inglaterra e na Hungria, que
veem chegar o ouro das minas sudanesas graças ao comércio com as populações
africanas. A circulação monetária mais sustentada, o uso de novos meios de pa-
17
IDADE MÉDIA – CASTELOS, MERCADORES E POETAS
gamento, a frequência das feiras e o melhoramento das vias de comunicação le-
YDPjIRUPDomRGHXPDULFDFDPDGDGHEDQTXHLURVTXHÀQDQFLDPRFRPpUFLR
as viagens, as expedições navais, as senhorias, reinos e guerras, como no caso dos
Bardi e dos Peruzzi de Florença (que acabarão por falir em meados do século XIV).
A Igreja e a política europeia
Elo ideológico deste impulso expansionista é o espírito de cruzada, a exigên-
cia de cristianizar povos de crenças diferentes. A Igreja saiu triunfante devido às
instâncias reformadoras que a dominaram a partir do século X, que combateram
a corrupção dos costumes, o concubinato dos padres e a simonia, e permitiram
DDÀUPDomRGRSULPDGRSDSDOHGDlibertas ecclesiae. Após a concordata de Worms
de 1222, com que o papa conseguiu basicamente retirar ao imperador o poder
de nomear os bispos com base na distinção entre investidura temporal e inves-
WLGXUDFDQyQLFDD,JUHMDYDLVHDÀUPDQGRFDGDYH]PDLVQDYLGDSROtWLFDFRP
EDVHQDVXEWUDomRGDHOHLomRSDSDODTXDOTXHULQÁXrQFLDH[WHULRUHQXPFHQWUDOLV-
mo monárquico que, também através da difusão dos legados papais, faz dela um
SRQWRGHUHIHUrQFLDHXURSHX3DUDHVWDDÀUPDomRFRQWULEXLXVHJXUDPHQWHD
participação da Igreja no renascimento cultural em curso, com a criação
Escolas de escolas junto das catedrais nas cidades, com o ensino da teologia nas
e universidades
universidades, entendida como síntese de todo o saber, com a tentativa de
UHVROYHURFRQÁLWRHQWUHRFRQKHFLPHQWRUDFLRQDOHDH[SHULrQFLDPtVWLFD
mas também com o desenvolvimento do direito canónico, com a direção do
sistema assistencial e do imaginário coletivo.
Inocêncio III (1160-1216, papa desde 1198) sintetiza a experiência política e
religiosa do papado nos dois séculos precedentes. Mais do que vigário de Pedro,
é vigário de Cristo, e é numa lógica de subalternidade que a Sicília, a Inglaterra e
3RUWXJDOVHWRUQDPIRUPDOPHQWHIHXGRVHFOHVLiVWLFRVHTXHRSRQWtÀFHDVVXPH
o papel central no sistema de alianças da Europa cristã: Inocêncio III promove,
contra Otão de Brunswick (1175/1176-1218, imperador de 1209 a 1215), João
Sem Terra (1167-1216) e alguns grandes feudatários franceses, uma coligação sob
a direção do rei de França Filipe Augusto (1165-1223, rei desde 1180), que, na
Flandres, junto da ponte de Bouvines, no dia 27 de junho de 1214, obtém uma vi-
tória geralmente considerada como um dos acontecimentos fundadores da França.
França, Inglaterra e império
E é na onda desta vitória e da aliança com o papado que a monarquia fran-
cesa (da qual Inocêncio III, antes das outras monarquias europeias, reconhece
formalmente a independência em relação ao império) recupera sob a sua sobe-
rania os territórios ocupados pelos ingleses a norte do Loire, a Provença, Poitou,
Saintonge e Languedoque, com Luís VIII (1187-1226, rei desde 1223), as pos-
sessões de Raimundo VII de Tolosa, com Luís IX (1214-1270, rei desde 1226),
18
HISTÓRIA
UHFHEHDUHQ~QFLDGHÀQLWLYD²FRPDSD]GH3DULVGH²GH+HQULTXH,,,GH
Inglaterra (1207-1272, rei desde 1216) à Normandia, ao Maine, a Anjou e a Poi-
tou, e o seu reconhecimento da condição de vassalo para o ducado da Guiena
(Aquitânia), e estende o reino aos condados de Tolosa e de Champagne no tempo
de Filipe, o AudazÀOKRGH/XtV,;$FRQVROLGDomRGDFRURDIUDQ-
FHVDHRSDSHOTXHYDLDVVXPLQGRQRFHQiULRHXURSHXHQFRQWUDXPDVLJQLÀFDWLYD
FRQÀUPDomRQRFRQVHQWLPHQWRGH8UEDQR,9FSDSDGHVGH
à conquista do reino da Sicília (só no século XIV denominado reino de Nápoles,
após a passagem da Sicília para os aragoneses) pelo irmão de Luís IX, Carlos de
Anjou (1226-1285, rei da Sicília de 1266 a 1282), disposto, em contrapartida,
a novas cruzadas, mas que não conseguiu organizar uma expedição contra
Constantinopla reconquistada pelos bizantinos em 1261. Aliança com
o papado
Diferente foi a sorte da monarquia inglesa, que saiu derrotada e hu-
milhada em Bouvines e foi obrigada, no decurso do século XIII, a diversas
concessões à nobreza, a partir da Magna Charta Libertatum (1215), na qual o
rei João Sem Terra se compromete a respeitar os antigos costumes, sobretudo
no que diz respeito ao direito de os nobres serem julgados pelos seus pares e de
não serem submetidos a tributos sem prévia consulta do conselho dos nobres e
dos eclesiásticos. Nas Provisões de Oxford (1259), o rei Henrique III é obrigado
SRU6LPmRGH0RQWIRUWFÀOKRGRYHQFHGRUGRVDOELJHQVHVDQR-
mear 15 barões como conselheiros e controladores da administração e, em 1264,
é obrigado a constituir um conselho de regência e a convocar um parlamento, de
que fazem parte dois cavaleiros por condado e dois representantes por cidade.
O celebrado esplendor da corte de Frederico II (1194-1250, imperador
desde 1220), desejado no trono imperial por Inocêncio III contra Otão IV
GH%UXQVZLFNTXHVHUHYHODSRXFRÀiYHOQRTXDGURSROtWLFRTXHRSD- Magna Charta
SDGRSUHWHQGHGHVHQKDUSDUDD(XURSDRFLGHQWDOFRLQFLGHFRPRÀQDO Libertatum
da dinastia Hohenstaufen da Suábia. Personagem controversa e entusias-
mante, Frederico, depois de ter prometido renunciar ao trono da Sicília a
IDYRUGRVHXMRYHPÀOKR+HQULTXHpFRURDGRDGHGH]HPEURGHUHLGD
Alemanha e, no ano seguinte, com a Bula de Ouro de Eger, renuncia aos res-
tantes direitos na eleição dos bispos e abades, reconhecidos ao imperador pela
concordata de Worms; razão pela qual é chamado «rei dos padres» por Otão de
Brunswick. A morte do papa e a notória condescendência do sucessor Honó-
rio III (?-1226, papa desde 1216) permitem-lhe, mesmo não tendo cumprido a
sua promessa, ser coroado imperador no dia 22 de dezembro de 1220 em São
Pedro. Se na Alemanha a política do jovem Frederico foi dirigida para um resta-
belecimento do equilíbrio entre direitos feudais e poder imperial, com uma ce-
GrQFLDVLJQLÀFDWLYDjVH[LJrQFLDVGDQREUH]DQRUHLQRGD6LFtOLDLQDXJXUDXPD
política de centralização dos poderes reais, que tenta posteriormente estender
j,WiOLDVHWHQWULRQDORQGHHQWUDHPFRQÁLWRFRPDVFRPXQDVSRUHOHGHUURWD-
19
IDADE MÉDIA – CASTELOS, MERCADORES E POETAS
das em Cortenuova (1238). Não obstante a hostilidade que lhe é manifestada
pelo papa durante grande parte do seu reinado (é excomungado duas vezes),
faz concessões relevantes, como a paz de Ceprano de 1230, em que renuncia
a qualquer forma de controlo sobre a eleição dos bispos e reconhece a plena
LPXQLGDGHMXGLFLDOHÀVFDODRFOHURPHULGLRQDODRPHVPRWHPSRTXHDVXD
corte de estudiosos e juristas lhe permite decretar a Constituição de Mel-
ÀHHPHP0DLQ]D&RQVWLWXLomRGHSD]LPSHULDOQRTXD-
A paz de Ceprano
dro de um reordenamento legislativo em que se manifesta a vontade de
PDQWHUDVXDDXWRQRPLDHPUHODomRjLQÁXrQFLDHFOHVLiVWLFDFRPEDVH
no direito romano. Nos últimos anos, Frederico II sofre várias derrotas e
com a sua morte, em 1250, esgota-se não só a dinastia suábia mas sobretudo o
desígnio imperial da unidade entre a Alemanha e a Itália, onde os últimos her-
deiros, Manfredo (1231-1266) e Conradino (1252-1268), morrem tragicamente
depois das derrotas de Benevento e de Tagliacozzo.
Novos fermentos sociais e culturais: os cátaros
Os mesmos fermentos económicos, sociais e culturais, que o papado soube
em grande medida destinar à formação do seu próprio primado político e reli-
gioso, deram vida a uma articulação da sociedade que é particularmente evidente
QDVFRPXQDVLWDOLDQDVRQGHDÁXHPRVWUDEDOKDGRUHVGRFDPSRRQGHRVRItFLRV
se reúnem em corporações, cujos representantes têm um peso considerável na
vida política, e os comerciantes e os homens de negócios ocupam um espaço
crescente, a população se organiza em confrarias e as maiores famílias se defron-
WDPSDUDGHÀQLUDVXDKHJHPRQLD$XPHQWDPDVSRVVLELOLGDGHVGHLQWHUYHQomR
e até de direção na vida familiar e pública das mulheres, motivadas pela civilida-
de global dos costumes, a que não é estranho o ensino religioso, ainda que, em
sentido contrário, precisamente por resistir a novos estilos de vida mais livres, o
direito civil e o canónico sancionem em muitos aspetos a exclusão das mulhe-
res do poder. É destinado um espaço maior para jogos, passatempos e festas e,
mesmo no seio da Igreja, erguem-se vozes em defesa dos jogos de azar, que já
são vistos em consonância com o espírito da época. Um processo de trans-
IRUPDomRTXHpYLVtYHOQDSUySULDFXOWXUDOLWHUiULDHÀJXUDWLYDjOLWHUDWX-
Nas comunas ra cortês e cavalheiresca dos séculos XII e XIII, à celebração de aventuras,
italianas guerras e amores narrados numa dimensão fabulosa e sacral com fortes
conotações espirituais, juntam-se a novelística de Boccaccio (1313-1375),
os Canterbury Tales, de Chaucer (1340/1345-1400), o Roman de Renard e os
Fabliaux, que remetem para um mundo quotidiano, civil e mercantil. Giotto
(1267-1337) abandona os cenários dourados da transcendência para representar,
ainda que no âmbito de temáticas religiosas, cenas da vida quotidiana do «povo
rico», privado de títulos nobiliários, que se reconhece na oposição à feudalidade.
Por outro lado, agravam-se as condições dos pobres ao mesmo tempo que se
20
HISTÓRIA
difunde, não por acaso, um novo modo de considerar os pobres não só como
imagem de Cristo e instrumento de salvação para os ricos, mas também como
modelo a perseguir e a opor a uma sociedade em rápida mutação, onde o di-
nheiro e a sua acumulação se tornam a medida do sucesso. Assim se difun-
dem as ordens mendicantes e as peregrinações, em que os participantes
O «povo rico»
se tornam temporariamente pobres, e se institucionaliza a esmola. No
entanto, simultaneamente, avança a distinção entre bons e maus pobres,
entre os que se encontram na impossibilidade de trabalhar, e que devem ser
assistidos e, assim que possível, utilizados de modo útil para a sociedade, e os
que se dedicam ao ócio e à vagabundagem, e que devem ser punidos e presos.
Estas mudanças da sociedade permitiram uma vivacidade cultural e uma
liberdade expressiva e provocaram curiosidade e inquietação religiosas, que
deixaram de ser facilmente controláveis pelos instrumentos ordinários da pre-
gação, da liturgia, das indulgências e das excomunhões, pelo que no concílio
de Latrão IV (1215) são estabelecidos tribunais episcopais contra as heresias, até
se chegar, com Gregório IX (c. 1170-1241, papa desde 1227), de 1231 a 1235,
à instituição da inquisição pontifícia. Os movimentos religiosos que se vão di-
fundido sobretudo na França meridional, na Alemanha e na Itália, como o dos
valdenses (ou pobres de Lyon), já excomungados por Lúcio III (?-1185, papa
desde 1181), em 1184, juntamente com os umiliatas, os cátaros e grupos de me-
nor importância, colocam-se entre as franjas mais avançadas da Igreja (como
os franciscanos espirituais) e a heresia (como os Fraticelli); alguns terão um pa-
pel importante na renovação religiosa, como os irmãos da vida comum (Devo-
tio Moderna), outros representam uma espécie de fuga para a frente, que não
pode encontrar grande eco, como a Livre Inteligência, provavelmente fundada
por uma mulher, em 1350, na base da comunhão de bens, da livre interpretação
das Sagradas Escrituras e da recusa dos sacramentos. De qualquer modo, todos
FRQWULEXHPSDUDSUHSDUDURWHUUHQRVREUHRTXDOVHDÀUPDUiGHSRLVDUHIRUPD
protestante, e são já, na consolidada ideologia do poder papal, não tanto por-
tadores de vias diferentes para a fé, mas inimigos a destruir, sobretudo quando
contestam as hierarquias eclesiásticas.
Particularmente perigosos são considerados os cátaros que, ligando-se às
WHRULDVGXDOLVWDVGRVPDQLTXHXVLGHQWLÀFDPRPDOQDYLGDPDWHULDOGDTXDOR
homem precisa de se libertar vivendo pobre e asceticamente para entrar o mais
cedo possível no reino dos perfeitos. Este movimento com características es-
sencialmente subversivas, porque é dirigido contra a natureza coerciva do po-
der – civil ou religioso –, é caracterizado por uma organização eclesiástica
alternativa em relação à institucional e por uma forte presença territorial
A cruzada
QRFRQGDGRGH7RORVDVXÀFLHQWHPHQWHDXWyQRPDHPUHODomRDRUHLGH de Inocêncio III
França. Assim, em 1208, Inocêncio III anuncia uma cruzada contra os
cátaros (também chamados albigenses, da cidade de Albi, onde são par-
21
IDADE MÉDIA – CASTELOS, MERCADORES E POETAS
ticularmente numerosos), que durou até 1229, em que o interesse do rei Filipe
Augusto pela supremacia sobre os principados territoriais franceses ainda dota-
dos de grande autonomia se liga ao do papa, levando o exército cruzado, sob o
comando de Simão de Montfort, à conquista da Provença e à tomada de Béziers.
A ideologia da cruzada entendida como aniquilamento do adversário é também
evidente na atitude do papa Gregório IX para com Frederico II, excomungado,
como se disse, por não ter efetuado prontamente uma cruzada, embora se ti-
vesse tornado, ainda que por pouco tempo, rei de Jerusalém por força do trata-
do concluído com o rei do Egito. Contra os heréticos são utilizadas também as
ordens mendicantes de nova formação (franciscanos, dominicanos, carmelitas e
augustinianos), que aceitam a obediência ao papa, e sobretudo os dominicanos,
DRVTXDLVVmRFRQÀDGRVRVWULEXQDLVGDLQTXLVLomRSDSDO1RVPHVPRVDQRVXPD
,JUHMDRUJXOKRVDLQWHQVLÀFDDSHUVHJXLomRDRVMXGHXVREULJDGRVHPDXVDU
um sinal distintivo amarelo, a participar em Roma em festas onde se apresentam
FRPRREMHWRGHHVFiUQLRDVRIUHUFRQÀVFDo}HVGHEHQVHH[SXOV}HV
A expansão turca e mongol
Mas, em meados do século XIII, o impulso expansionista da sociedade europeia
FRPHoDDGLPLQXLUSRUHIHLWRGHVLJQLÀFDWLYRVUHYHVHVPLOLWDUHVTXHVHPDIHWD-
UHPVLJQLÀFDWLYDPHQWHDVDWLYLGDGHVFRPHUFLDLVGDHansa ao norte e das potências
marítimas no Mediterrâneo, impedem qualquer conquista ulterior no Oriente. A
deslocação para oeste das populações do Turquestão, causada pela pressão dos
mongóis, dá início à ocupação das regiões da Anatólia e da Grécia, já sob o
domínio bizantino, pela dinastia turco-muçulmana dos otomanos, até que,
A reconquista QRÀQDOGRVpFXORXIV, com a tomada de Adrianópolis, a vitória na bata-
dos Balcãs lha de Kosovo, em 1389, e a aniquilação da Grande Sérvia, a reconquista
dos Balcãs pelos muçulmanos parece inevitável, só temporariamente para-
GDSHODUXLQRVDGHUURWDTXH7DPHUOmROKHVLQÁLJLX$DÀUPDomRGRVWXUFRV
ao longo dos séculos XIV e XV retirará novamente a bacia do Mediterrâneo ao
monopólio das populações cristãs, orientando a sua força expansionista para o
RFHDQR$WOkQWLFRHFRQWULEXLQGRSDUDGHÀQLUDRUGHPWHUULWRULDOGRFRQWLQHQWH
Enquanto os mongóis derrotam a cavalaria germano-polaca em Legnica e o exér-
cito húngaro no rio Sajó, para depois se retirarem sem graves danos territoriais
para os reinos da Polónia e da Hungria, que já gravitavam na órbita da Igreja de
Roma, a Ordem Teutónica, fundida com a Ordem dos Irmãos Livónios da Es-
pada, depois da aquisição da Livónia e da Curlândia, sofre graves derrotas frente
aos lituanos em 1236 e, sobretudo, frente ao principado de Novgorod em 1242,
e tem de limitar a sua ação aos territórios e às cidades junto ao mar Báltico, até
porque nesses anos a senhoria tártara da Horda de Ouro representa um obstá-
culo intransponível para a expansão da Europa ocidental. Por sua vez, os bizan-
tinos reconquistam Constantinopla em 1261, pondo termo ao Império Latino
22
HISTÓRIA
do Oriente, e conseguem, durante cerca de um século, contrabalançar o papel
de Veneza com uma astuta política diplomática, com um tratado com Génova,
que adquire assim a supremacia comercial no mar Negro e um espaço importan-
te no Oriente, ainda que o controlo de Creta e das ilhas gregas torne ainda
Veneza a senhora do Egeu e do mundo insular oriental. Sob pressão dos
Os bizantinos
mamelucos são libertados dos cruzados o principado de Antioquia em
e Génova
1268, o condado de Trípoli em 1289, as cidades de Tiro, Beirute e Sídon,
bem como São João de Acre, em 1291. Nas mãos cristãs restam apenas
Chipre (até 1489 sob a linhagem da Casa de Lusignan), Rodes (até 1523 sob a
senhoria dos Cavaleiros de São João) e o reino da Arménia Menor (só até 1375).
Novos equilíbrios e ordenamentos políticos
Também as viagens de missionários e mercadores ao Oriente, que tinham
sido numerosas no tempo de Marco Polo (1254-1324) e se haviam dirigido fre-
quentemente até à China, se tornam mais raras, enquanto o impulso para as ex-
plorações oceânicas, depois do insucesso dos irmãos Vivaldi, de quem se perde
RUDVWRSDUDOiGRHVWUHLWRGH*LEUDOWDUUHYLWDOL]DGRSHODPDLRUGLÀFXOGDGHGH
FRPXQLFDo}HVFRPR2ULHQWHVyVHLQWHQVLÀFDUiQDVHJXQGDPHWDGHGRVpFX-
lo XIV. E no início do século XIV, quando Bonifácio VIII (c. 1235-1303, papa
desde 1294) celebra o triunfo papal com a instituição do jubileu, que permite a
remissão de todas as penas para quem se dirige a Roma em peregrinação, a ci-
dade eterna torna-se o lugar santo mais seguro e mais bem colocado dentro da
cristandade do que o que tinha sido Jerusalém até então.
$WpDRÀQDOGRVpFXOR XIII, com a derrota e a morte de Luís IX em Tunes,
na última cruzada, e com a expedição falhada de Carlos de Anjou contra Cons-
tantinopla, as energias cristãs convergem na construção de novos equilíbrios e
QDHVWDELOL]DomRGRVRUGHQDPHQWRVTXHVHYmRGHÀQLQGRQD(XURSDDWUDYpV
de uma progressiva anexação de entidades territoriais. Algumas regiões
começam a fazer parte do império, como a Áustria, a Estíria, a Caríntia, A expansão alemã
em 1278, ou a Boémia e a Morávia no início do século XIV. Carlos IV de
Luxemburgo (1316-1378, imperador desde 1355) prossegue, no âmbito
GDFRQVROLGDomRDH[SDQVmRGHPRJUiÀFDHFXOWXUDODOHPmSDUDRVOLPLWHV
orientais, em curso desde o século XII, muda a capital para Praga e faz da Boé-
mia o núcleo central do império, com a aquisição da Lusácia e de Brandeburgo.
Mas a leste forma-se um grande reino polaco-lituano, que atenuará a germani-
zação das províncias orientais, enquanto, a sudeste, a Hungria, que engloba a
Croácia e parte da Bósnia, e a Sérvia, vitoriosa sobre os búlgaros e os gregos,
delimitam as fronteiras europeias. A par da monarquia francesa, as monarquias
da Península Ibérica e da Inglaterra vão reforçando o seu poder em relação à
feudalidade com a constituição de aparelhos jurídicos e administrativos mais
HÀFLHQWHV1D,WiOLDPHULGLRQDOVREUHYLYHDGLQDVWLDGH$QMRXGHSRLVGHXPSH-
23
IDADE MÉDIA – CASTELOS, MERCADORES E POETAS
ríodo de grande esplendor com Roberto de Anjou (1278-1343, rei de Nápoles
desde 1309) na primeira metade do século XIV, enquanto na Itália setentrional,
sob o impulso de uma vida económica e social cada vez mais vivaz, o ordenamen-
WRLQVWLWXFLRQDOGDVFRPXQDVVHYDLPRGLÀFDQGRHSDVVDGRUHJLPHFRQVXODU
ao regime dos podestades, que no governo das cidades deveriam garantir
O regime
uma neutralidade política entre as fações em luta, em virtude da sua natu-
do podestade
UH]DWpFQLFDGHSHULWRVGRGLUHLWRHGDDGPLQLVWUDomRHVHYmRDÀUPDQGR
as senhorias, cujo ordenamento é semelhante ao das maiores monarquias
europeias, como conclusão lógica do processo de expansão territorial citadino
SDUDRFRQGDGRHGHSRLVSDUDDVFLGDGHVYL]LQKDVTXHVHFRQVROLGDUDPQRÀQDO
do século XII com a formação de governos oligárquicos. Mas no ordenamento
político italiano encontram também espaço outras realidades territoriais, a partir
de Veneza, que consolida a sua estrutura oligárquica com a decisão do conselho
maior de 1297 e inicia uma política de expansão territorial para o interior, até à
GLQDVWLDIHXGDOtWDORIUDQFHVDGRV6DERLDVeXPFHQiULRIRUWHPHQWHFRQÁLWXDO
inclusive pela oposição entre os guelfos – que se reconhecem na autoridade do
papado – e os gibelinos – que se colocam sob a autoridade imperial –, em que
participa frequentemente o próprio reino de Nápoles numa perspetiva de hege-
monia neoguelfa da península, e onde é decisiva a utilização das companhias de
PHUFHQiULRVGLVSRVWDVDÀFDUDRVHUYLoRGHVWHRXGDTXHOHVHQKRU
O novo modo de fazer a guerra dá vantagem às grandes monarquias: deixa de
KDYHUEDWDOKDVGHFDYDODULDFHUFRVHFRQÁLWRVGHGXUDomROLPLWDGDSDUDKDYHUVLWX-
ações endémicas de guerra, constituídas por uma sucessão de batalhas e escaramu-
ças militares, por vezes com carácter de guerrilha (como na revolta das Vésperas
Sicilianas, que, desencadeada em 1282, dura na realidade cerca de 90 anos nas re-
giões mais meridionais de Itália), alimentadas pelos novos exércitos mercenários.
Também ocorrem mudanças nos mares, onde aos assaltos dos piratas se juntam
cada vez mais frequentemente os dos corsários: são do tempo de Henrique III
de Inglaterra as primeiras cartas de corso conhecidas, com as quais emissários
autorizados por um poder formalmente reconhecido podem atacar os navios
inimigos e dividir o espólio com os mandantes. Noutras regiões, pelo contrário,
salteadores, como os Vitalienbrüder do mar do Norte, geralmente a soldo de po-
deres locais, são derrotados por alianças sociais e políticas formadas pelas cida-
des hanseáticas, que não têm interesse em servir-se deles.
Poder temporal e papado
Também se registam mudanças nas ligações dos soberanos com o papado,
que tendem a perder o carácter religioso em favor do diplomático, enquanto o
condicionamento eclesiástico se revela menos vinculativo relativamente aos sé-
culos precedentes: não é por acaso que a coroação imperial de Luís, o Bávaro (c.
1281-1347, rei da Germânia desde 1314), ocorre em Roma em 1328, não da parte
24
HISTÓRIA
do papa, mas de Sciarra Colonna (?-1329), como representante do povo roma-
no, segundo a tese de Marsílio de Pádua (c. 1275-c. 1343), para quem os poderes
político e religioso, derivando de Deus, se baseiam no consenso do povo, a uni-
versitas civium que delega as suas prerrogativas no príncipe, à semelhança da
Igreja, onde a XQLYHUVLWDVÀGHOLXP, de que o concílio é expressão, delega no
A união eleitoral
papa. E se, segundo o princípio da «natureza» do Estado de Aristóteles,
de Rhens
na união eleitoral de Rhens (1338) os príncipes alemães declaram que o
imperador não tem necessidade de nenhuma legitimação papal, em 1356,
com a Bula de Ouro, o novo imperador Carlos IV de Luxemburgo-Boémia
FRQÀUPDUiVROHQHPHQWHTXHDGLJQLGDGHLPSHULDOpDWULEXtGDDTXHPpHOHLWRUHL
da Alemanha e coroado em Aix-la-Chapelle, e que esse direito cabe a sete gran-
des eleitores: os arcebispos de Colónia, Mainz, Trier, e quatro laicos (o rei da
Boémia, o duque da Saxónia, os margraves do Palatinado e de Brandeburgo).
Os dois poderes universais, embora interdependentes, estão frequentemente
em choque. No caso da monarquia francesa, o empenho de Filipe IV, o Belo
(1268-1314, rei desde 1285), por uma complexa operação de reorganização do rei-
QRDWUDYpVGRDXPHQWRGDVUHFHLWDVÀVFDLVYDLHQWUDUHPFRQÁLWRFRPDSUHWHQVmR
papal da exoneração do clero de qualquer imposto. A divergência, causada pela
emanação da bula Unam Sanctam em 1302, concretiza-se na tentativa de Fili-
pe, com o apoio de representantes da nobreza romana, processar o papa
GLDQWHGHXPWULEXQDOIUDQFrV3DUDHVVHÀPQRRXWRQRGHRVIUDQ- Processo ao papa
ceses procuram retirá-lo do palácio de Anagni, sem o conseguir. Depois
GREUHYHSRQWLÀFDGRGH%HQWR;,SDSDGHVGHTXHH[FR-
munga Guilherme de Nogaret (c. 1260-1313) e Sciarra Colonna, considerando-
-os protagonistas da «bofetada de Anagni», o novo papa Clemente V (1260-1314,
papa desde 1305), já arcebispo de Bordéus, prefere estabelecer-se em Avinhão, para
onde toda a corte pontifícia se transfere alguns anos mais tarde. No período do
«cativeiro de Avinhão» (1309-1377), por mais que os papas continuem a reforçar
o seu aparelho burocrático, é indubitável que a sua política foi fortemente con-
dicionada pela reforçada monarquia francesa, como é evidente no caso da con-
denação por heresia e da dissolução da Ordem dos Templários, de cujas riquezas
Filipe, o BeloWHPQHFHVVLGDGHGHVHDSURSULDUSDUDID]HUIDFHjVQHFHVVLGDGHVÀ-
nanceiras do reino. Um condicionamento que se traduziu numa verdadeira crise
imediatamente a seguir ao regresso de Gregório XI (1329-1379, papa desde 1370)
a Roma, quando o colégio cardinalício de composição predominantemente fran-
cesa, talvez sob a pressão do povo romano, elege papa o italiano Urbano VI (c.
1320-1389) em 1378, para cinco meses depois anular a sua eleição e eleger, em
seu lugar, o francês Clemente VII (1342-1394, antipapa desde 1378), dando vida
a um cisma – um papa em Roma e outro em Avinhão –, que verá a presença si-
multânea de três papas, só resolvido na sequência de vários acontecimentos em
1449. De resto, a investidura imperial de Luís, o Bávaro, pela nobreza romana e
25
IDADE MÉDIA – CASTELOS, MERCADORES E POETAS
DDÀUPDomRHPGDUHS~EOLFDURPDQDGH&ROD'L5HQ]RF²
HPERUDGHFXUWDGXUDomR²FRQÀUPDPRHQIUDTXHFLPHQWRGRSRGHUSDSDOHP
Roma, onde só mais tarde o cardeal Albornoz consegue restabelecer a autorida-
de pontifícia, como mediador entre as famílias Colonna e Orsini e promulgando
as Constitutiones Aegidianae destinadas a reordenar o Estado pontifício até 1816.
Carestias, guerras, revoltas e pestes
Com o século XIV e até meados do século XV abre-se para as populações eu-
ropeias um período dramático de carestia, guerra e peste, que conduzem a uma
estagnação e, em muitas regiões, a um atraso do processo de desenvolvimento
em curso desde o século X. O notável aumento da população, mais do que du-
plicada em algumas regiões e mesmo triplicada noutras, num período de três sé-
culos, não foi acompanhado por um incremento correspondente dos recursos
alimentares, pelo que bastou, como parece ter acontecido, um agravamento das
condições do clima para favorecer a carestia e a epidemia de peste, que regres-
sara à Europa em meados do século XIV, decorridos cerca de 1000 anos, através
GRVQDYLRVJHQRYHVHVGRPDU1HJUR2ÁDJHORTXHDVVRODD(XURSD²DSHVWH
negra – reduz a sua população em cerca de 30 por cento, com profundas reper-
cussões nos aparelhos económico, produtivo, social e político.
Entretanto, já foi desencadeada a Guerra dos Cem Anos entre a França e a
,QJODWHUUDFXMRDUFRWHPSRUDOpÀ[DGRFRQYHQFLRQDOPHQWHHQWUHH
PDVTXHHPVXEVWkQFLDpDH[SUHVVmRGHXPDFRQÁLWXDOLGDGHGHGXUDomRDLQGD
mais longa. Se para os dois países foi concluída com um reforço das respetivas
identidades, logo, das monarquias que as representam, para as populações
A Guerra dos Cem pXPÁDJHORTXHVHVRPDDRGDHSLGHPLDUHPHWLGRQmRSDUDDYRQWDGH
Anos e as revoltas divina, mas para a dos homens. Por isso, em França, depois das derro-
camponesas tas de Crécy (1346) e de Poitiers (1356), estala em 1358 uma violenta
revolta camponesa chamada depreciativamente jacquerie, mas cujo princi-
pal dirigente, Étienne Marcel (c. 1316-1358), persegue o projeto de reduzir
o poder e os privilégios da nobreza; e em Inglaterra, duas décadas depois, em
1381, desenvolve-se uma revolta que se estende dos camponeses aos artesãos,
WDPEpPSRUFDXVDGDSHVDGtVVLPDFDUJDÀVFDOFDXVDGDSHODJXHUUD0DVQmRp
só a guerra que está na base das revoltas que exprimem, entre outros, o forte
mal-estar determinado pelo desequilíbrio entre o aumento da população e o in-
VXÀFLHQWHFUHVFLPHQWRGRVUHFXUVRVHGDVDWLYLGDGHVSURGXWLYDVQD*HUPkQLD
HVWmRFHUWLÀFDGDVGXDVUHYROWDVFDPSRQHVDVQDVHJXQGDPHWDGHGRVpFXORXIV e
mais revoltas camponesas já ocorreram e irão ocorrer em seguida, em 1462, na
Catalunha, contra a baixa nobreza e o patriciado citadino; o movimento Tur-
chini nos anos 70 e 80 estende-se do Languedoque a Piemonte, e muito difuso,
embora de tipo diferente, é o banditismo citadino na Itália meridional. Tensões
e rebeliões manifestam-se também, nomeadamente no sector manufatureiro:
26
HISTÓRIA
às revoltas dos tecelões da Flandres na primeira metade do século seguem-se as
revoltas de assalariados em Perugia, em 1371, e em Siena no mesmo ano, e em
Florença, no verão de 1378, desencadeia-se o tumulto dos Ciompi – assalariados
da arte da lã –, caracterizado por um projeto político mais articulado, mas que
leva à extinção, em 1382, das corporações dos tintureiros e fabricantes de gibões,
à eliminação do governo de algumas artes menores e à formação de um gover-
no oligárquico que durou cerca de 50 anos, até ao advento da senhoria de Cos-
me de Médicis (1389-1464), em 1434. Na base destas revoltas está seguramente
uma forte contração da produção de lã, com a consequente queda do emprego
e dos salários, enquanto noutros sectores, como o da seda, o metalúrgico e o da
construção, há um substancial aumento da produção, como prova de que, não
obstante a grave conjuntura, a Europa do século XIV não perdeu totalmente o
impulso dos séculos anteriores.
27
IDADE MÉDIA – CASTELOS, MERCADORES E POETAS
28
HISTÓRIA
OS ACONTECIMENTOS
A EXPANSÃO ALEMÃ PARA ORIENTE
de Giulio Sodano
No século XI, os soberanos da linhagem sálica, inspirados pela luta religiosa,
realizam campanhas militares a leste subtraindo terras aos eslavos. Os territórios
conquistados são depois ocupados pela população alemã. No século XII segue-se
a iniciativa dos senhores territoriais, que ampliam os seus domínios em detrimento
dos territórios eslavos. Nos séculos XIII e XIV RFRUUHXPDRQGDGHÀ[Do}HV
de camponeses e burgueses, que transformam o Leste europeu importando
HDGDSWDQGRQHOHIRUPDVGHYLGDWpFQLFDVHLQVWLWXLo}HVDOHPmV
A iniciativa dos soberanos
Antes do ano 1000, na Europa nordeste, não há vestígios de populações ger-
mânicas. Decorridos cinco séculos, os alemães estão por toda a parte, de Bergen
a Moscovo, de Lubeque à Finlândia. A sua difusão tem sido interpretada como
ditada por uma vontade individual. De facto, os alemães não seguem qualquer
desígnio comum, pelo contrário, geralmente perseguem objetivos incompatíveis
entre si. Associam-se com as populações locais e têm tendência para competir
economicamente. Quem retira uma verdadeira vantagem da sua difusão são os
mercadores ocidentais: as cidades hanseáticas são as protagonistas do comércio
e estão periodicamente em guerra contra todos. Depois da imigração dos esla-
YRVDJHUPkQLFDpDPDLVLPSRUWDQWHSHODLQÁXrQFLDTXHH[HUFHHPWRGRR/HVWH
europeu. Provoca uma grande transformação da Europa oriental, comparável à
difusão do cristianismo, graças à introdução de ideias e instituições que muitas
vezes se adaptam às novas condições.
A partir do século X, as populações germânicas começam a ser particular-
mente ativas no confronto com os eslavos, passando de comportamentos defen-
sivos a ofensivos. A iniciativa na primeira fase é dos imperadores. No século XI, os
soberanos da casa sálica realizam várias campanhas militares a leste, muitas ve-
zes inspirados pela luta religiosa. Henrique II (973-1024, imperador desde 1014)
retira aos eslavos a região do Alto Meno e funda o bispado de Bamberga. Hen-
rique III (1017-1056, imperador desde 1046) luta contra os húngaros. Os terri-
tórios conquistados são depois ocupados pela população alemã. No entanto, até
ao século XII, esta expansão não ultrapassa o Elba. Mas com Lotário da Saxónia
29
IDADE MÉDIA – CASTELOS, MERCADORES E POETAS
(1073-1137, imperador desde 1133) e mais tarde com os soberanos suábios, co-
meça a colonização germânica em larga escala. Os soberanos alemães alternam
as expedições contra os eslavos pagãos com as cruzadas à Terra Santa. No en-
tanto, o processo não é linear e sempre vencedor. A períodos de expansão suce-
dem-se fases de retirada. Os eslavos, por exemplo, aproveitam a crise provocada
pelas lutas entre guelfos e gibelinos, que paralisam a Alemanha, para reconquis-
tar territórios. A Saxónia, que passou várias vezes dos alemães para os eslavos
e dos eslavos para os alemães, acaba por tornar-se exclusivamente germânica.
A iniciativa dos senhores
À iniciativa dos soberanos alemães segue-se a dos senhores territoriais, que
aspiram a ampliar os seus domínios em detrimento dos territórios eslavos. Cava-
leiros, barões e príncipes, associados pelo exercício da autoridade e pela prática
da guerra, são os protagonistas desta segunda fase. Muitos senhores ale-
mães acompanham de má vontade Frederico, Barba-Ruiva (c. 1125-1190),
Frederico,
Barba-Ruiva a Itália, precisamente porque são tentados pela conquista do Leste. Em
meados do século XII, os cavaleiros saxónicos começam a subtrair terras
aos eslavos no Holstein oriental e a expandir-se para nordeste, obtendo
IHXGRVQDV]RQDVIHXGDLVJHUPDQL]DGDV/HYDPSDUDDV]RQDVGHQRYDÀ[DomR
o feudo, a lei feudal e a cavalaria. Particularmente ativos são os duques saxóni-
cos e personagens como Henrique, o Leão, Wichmann, arcebispo de Magdebur-
go, os bispos de Meissen. Graças à sua iniciativa, os colonos alemães atingem
Meclemburgo, Brandeburgo e a Pomerânia. O bispo Alberto, cónego de Bre-
men, reúne um grupo de cavaleiros a caminho da Terra Santa e com eles funda
a Ordem dos Irmãos Livónios da Espada para combater os pagãos. Hermann
von Salza (c. 1209-1239), grão-mestre da Ordem Teutónica, compreende que
a Palestina já está perdida e escolhe como campo de ação a conquista do Leste
europeu. Coloca-se sob a dependência do papa e recebe a Prússia como feu-
do. Em 1232, os cavaleiros teutónicos fundam Thorn e Kulm, em 1233,
A deslocação Marienwerder e Elbing. Em 1250, a maior parte dos senhores da Pome-
para leste rânia são de origem saxónica, mas a sua expansão na Prússia é bloquea-
da pela Ordem Teutónica. No início do século XIV, a região do golfo da
Finlândia até Kiel é ocupada por esta aristocracia alemã, constituída por
junkers. A costa báltica já está ocupada por núcleos alemães. São então envia-
dos colonos de todas as regiões da Germânia, surgindo assim não só vilas mas
também cidades. Os comerciantes alemães juntam-se aos camponeses e fundam
mercados no Báltico. A deslocação de colonos e missionários germânicos para
leste ao longo das margens do Báltico atrai, de facto, a breve prazo, interesses
comerciais. Não faltam verdadeiros intermediários que procuram homens por
conta de senhorias territoriais do Leste.
30
HISTÓRIA
Burgueses e camponeses
Com o século XIII, os burgueses sucedem aos senhores, com os mercadores
de Lubeque à cabeça, que controlam a principal passagem entre a região nor-
deste e a Europa ocidental, adquirindo a supremacia nos mercados de passa-
gem no Báltico. Os alemães oferecem um modelo para o desenvolvimento das
cidades. De facto, os cidadãos mostram-se relutantes a instalar-se quando falta
a lei comunal e, para favorecer as instalações, os senhorios locais concedem a
possibilidade destes ordenamentos citadinos. Sobretudo nas cidades húngaras e
polacas são introduzidas as formas de governo citadino inspiradas no modelo
das cidades alemãs, em particular nos estatutos de Magdeburgo. Cidades como
Vratislávia (1242), Buda (1244), Cracóvia (1257) e outras são, de facto, governa-
das por leis germânicas e estão cheias de mercadores alemães.
Para aceleração dos processos de imigração alemã contribuem sobretudo, a
partir do século XIII, as invasões mongóis (1241-1242), que despovoam a Poló-
nia e a Hungria a tal ponto, que se considera necessária a imigração alemã
para preencher o vazio. Desta vez é sobretudo a população camponesa
que se desloca para leste e são os soberanos destes Estados a atraí-los As invasões mongóis
para reerguer os seus países. Os príncipes locais concedem as suas ter-
ras em condições favoráveis. Com os camponeses alemães chegam novas
WpFQLFDVDJUiULDVHQRYDVIRUPDVGHÀ[DomR2VLQDOGLVWLQWLYRGDFRORQL]DomR
germânica são as casas ao longo de uma estrada ou de um campo, cada uma com
as suas faixas de terreno arável nas traseiras, em contraste com as aldeias esla-
vas circulares. Em troca de uma renda, os proprietários de terras asseguram no
interior da aldeia liberdade individual, segurança do local, o carácter hereditário
dos bens e impostos sustentáveis.
Os efeitos da emigração alemã, tanto citadina como camponesa, são rele-
vantes. As cidades destruídas pelos mongóis são reconstruídas graças ao apoio
alemão. O progresso económico destas regiões está estreitamente ligado à imi-
gração alemã. Os colonos levam novos ofícios e novas técnicas produtivas e co-
merciais. Particularmente reveladora desta situação é a questão ligada às minas.
De facto, os alemães são bons mineiros e estão em busca de jazidas de prata e
de cobre desde o século X. Depois de 1200 deslocam-se para a Silésia, Boémia e
Morávia, e atingem a Hungria. Em meados do século estão na Sérvia, chegando
GHSRLVQDJHUDomRVHJXLQWHj%yVQLDHj%XOJiULDHÀQDOPHQWHD7HVVDORQLFD
Durante séculos são chamados «saxónicos» e transmitem não só a técnica mas
também a terminologia, as formas de organização do trabalho e até o próprio
direito das minas, originariamente oral e consuetudinário. Apoderam-se da ati-
vidade extrativa dos minerais nobres, deixando na sombra a tradição mineira es-
lava, relegada apenas para a produção do ferro.
31
IDADE MÉDIA – CASTELOS, MERCADORES E POETAS
Um juízo histórico diversificado
A emigração alemã deu origem à formulação de juízos históricos diversos.
$KLVWRULRJUDÀDDOHPmLQVLVWLXHPHYLGHQFLDURFRQWULEXWRFLYLOL]DFLRQDOGRVFR-
lonos alemães num mundo eslavo atrasado e rude. O nacionalismo alemão do
século XXIH]GHVWHDUJXPHQWRDMXVWLÀFDomRGDVVXDVSUHWHQV}HVH[SDQVLRQLVWDV
(VWDKLVWRULRJUDÀDLJQRURXTXHSRURXWURODGRRVDOHPmHVVRIUHUDPDLPLJUD-
ção de elementos provenientes do Ocidente e que a própria imigração não é um
fenómeno homogéneo, mas compreende a participação de elementos como os
LWDOLDQRVHRVYDO}HV$VVLPGHVGHRSyVJXHUUDDÀUPDUDPVHSRVLo}HVKLVWRULR-
JUiÀFDVTXHDEDQGRQDUDPDVSRVLo}HVQDFLRQDOLVWDVPDLVUDGLFDLV$KLVWRULRJUD-
ÀDSRODFDRXFKHFDLQVLVWLXQRVDVSHWRVDJUHVVLYRVGHVWDFRORQL]DomRVREUHWXGR
na valorização do papel da Ordem Teutónica.
V. também: Frederico II Hohenstaufen e o declínio da dinastia suábia em Itália, p. 39;
A monarquia eletiva e a dinastia de Habsburgo, p. 61;
O Sacro Império Romano-Germânico, p. 101;
Reinos, principados, ducados, bispados, cidades na área germânica, p. 104.
AS CRUZADAS
E O I M P É R I O L AT I N O D O O R I E N T E
de Franco Cardini
A quarta cruzada enquadra-se perfeitamente nos projetos teocráticos
de Inocêncio III enquanto empreendimento desejado pela Santa Sé depois
do fracasso da cruzada anterior dirigida pelos soberanos. Mas, inesperadamente,
WRPDXPUXPRPXLWRGLIHUHQWHGDYRQWDGHGRSRQWtÀFH9HQH]DTXHWLQKDIRUQHFLGR
os navios, pretende a ajuda dos cruzados para submeter de novo a cidade rebelde
GiOPDWDGH=DGDUDVVDOWDQGRUHSHWLGDPHQWH&RQVWDQWLQRSOD'DtUHVXOWDRÀP
do império grego e a efémera instalação de um império latino, enquanto grande parte
das antigas terras bizantinas caem sob a hegemonia dos venezianos. A experiência
termina em 1261 com o regresso ao trono de Constantinopla de uma dinastia grega.
Lotário de Segni, o papa Inocêncio III
Em 1198 sobe ao sólio pontifício um grande aristocrata, grande jurista e au-
tor de obras ascéticas. Lotário de Segni, que assume o nome de Inocêncio III
(1160-1216). São tempos difíceis: o trono do Império Romano-Germânico está
vago, a Europa está coberta por guerras, a cristandade é ameaçada pela heresia
cátara. A obra de Inocêncio III é uma grande síntese do que a Igreja tinha ama-
durecido no século precedente: no seu projeto, a recuperação de Jerusalém e o
32
HISTÓRIA
reforço da monarquia franca, cuja capital tinha sido mudada para Acre, ocupam
um papel primordial.
Para o papa, como para Bernardo de Claraval (1090-1153), Jerusalém inte-
UHVVDPDLVFRPRÀJXUDGRUHLQRGRV&pXVGRTXHFRPRREMHWLYRGDUHFRQTXLV-
ta armada; e, como Bernardo, atribui o falhanço das cruzadas dos príncipes aos
seus interesses mundanos e à sua cupidez. Desenvolvendo com lúcida coerên-
cia estas premissas, deduz que ao papa, e apenas a ele, competia a iniciativa de
anunciar uma nova cruzada e o seu comando, e que a cruzada era apenas uma
parte de um programa mais amplo de regeneração da cristandade sob a condu-
ção da Igreja. À campanha na Terra Santa, em que o papa pensa imediatamente
após a sua subida ao trono pontifício, corresponde a ofensiva castelhana contra
os almóadas e outra na Livónia dirigida pelos cavaleiros da Ordem dos Irmãos
Livónios da Espada, que no início do século continua o impulso alemão para
oriente. São as três «frentes externas» da cristandade, no seio da qual Inocên-
cio se propõe ao mesmo tempo pôr ordem eliminando a heresia e obrigando os
monarcas a inclinar a cabeça diante da sede de Pedro. Tutor do pequeno rei da
Sicília Frederico, após a morte da rainha-mãe Constança, e árbitro da coroa real
alemã, para a qual prefere Otão de Brunswick (1175/1176-1218, imperador de
DD)LOLSHGD6XiELDUHLGHVGHRSRQWtÀFHYrTXH
diante de si se inclinam – ora a título de verdadeira vassalagem, ora de reconheci-
mento de supremacia política, e não só religiosa – praticamente todas as cabeças
coroadas da Europa, de Portugal a Aragão, França, Noruega, Hungria e Polónia.
O planeamento da cruzada
As disposições de Roma para a cruzada sofrem, desde 1198, de uma conce-
ção extremamente centralizadora. Nada é deixado à iniciativa régia: relegados
os príncipes temporais para um papel de simples executores, as diretivas papais
VmRSURSRVWDVDRVUHLVSHORVOHJDGRVSRQWLItFLRVHQTXDQWRSHODVXDÀHOH[HFXomR
zelam não só o clero secular e regular de todo o território interessado mas tam-
bém os templários e os hospitalários. As décimas para a cruzada são também
cobradas pontualmente e com uma carga semelhante à «décima saladina»,
PDVGHVWDYH]RVED~VUpJLRVQmRSRGHPEHQHÀFLDUGHODV A conceção
A mesma tendência para a centralização e, quase gostaríamos de dizer centralizadora
com um termo na moda, para o «planeamento» da cruzada de Inocêncio
YHULÀFDVHWDPEpPHPUHODomRjVXDSUHJDomRjVPXOWLG}HVGHKXPLOGHV
Na carta Salutiferum endereçada ao pregador Foulque de Neuilly (?-1202) no dia
5 de novembro de 1198, o papa coloca a cruzada na linha de outras obras de re-
generação espiritual comunitária, como a crítica da usura e a redenção das pros-
titutas, com a consequente libertação da sociedade do vício da luxúria. Foulque
de Neuilly é o animador de uma nova expedição, um primeiro núcleo de cava-
leiros voluntários, que é formado de acordo com a tradição durante um torneio
33
IDADE MÉDIA – CASTELOS, MERCADORES E POETAS
realizado em Écry, na Champagne, no início do Advento de 1199. Na realida-
de, Foulque de Neuilly não tinha participado naquele torneio, mas se aí tivesse
estado ter-se-ia abstido: a Igreja condenava os torneios e o papa Inocêncio não
era homem para transigir. Mas provavelmente os participantes de Écry tinham
falado da nova empresa; Foulque de Neuilly estava há muito a pregá-la aos hu-
mildes e o legado pontifício, cardeal Roberto de Cápua, chegado a França, tinha
proclamado a indulgência que o papa concedia aos cruzados e que estabelecia
TXHTXHPWLYHVVHIRUPXODGRRYRWRÀFDULDDVDOYR²SHORPHQRVMXULGLFDPHQ-
te falando – de qualquer ofensa à sua pessoa, à sua família e aos seus bens: e
os senhores que envergam a cruz em Écry, nomeadamente Tibaldo, conde de
Champagne (1179-1201), e Luís, conde de Blois e Chartres (1172-1205), tinham
uma extrema necessidade de alguém ou de alguma coisa que os protegesse. Na
guerra entre Ricardo Coração de Leão (1157-1199), rei de Inglaterra, e Filipe
Augusto (1165-1223, rei desde 1180), rei de França nessa época, tomaram, jun-
tamente com Balduíno IX da Flandres (1171-c. 1205, imperador desde 1204), o
partido do rei inglês: e agora que, sob a pressão papal, a paz entre as duas gran-
des potências está novamente a ser concluída, tinham todas as razões para
recear a vingança do seu senhor legítimo, o rei de França. De resto, à par-
Feudalidade em crise WHRMXVWLÀFDGRWHPRUGHUHSUHViOLDVDSROtWLFDFHQWUDOL]DGRUDGH)LOLSH
Augusto não deixa dúvidas de que o tempo da semianarquia feudal em
França estava ultrapassado.
Assim, é uma feudalidade em crise que decide a via ultramarina. Efetiva-
mente, repete-se o que já tinha acontecido antes da primeira cruzada, mas num
clima extremamente mais pobre de fermento espiritual, comparado com aquela
época. A quarta cruzada representa, de facto, a fuga de alguns barões desleais de
um país que estava a assumir estruturas políticas mais modernas, daí resultando
um grande serviço prestado à monarquia francesa, mais do que à cristandade.
Razões análogas aconselham também o conde Balduíno da Flandres a jun-
tar-se aos cruzados. À cabeça da expedição é designado o irmão de Henrique de
Champagne, que tinha sido rei de Jerusalém, ou seja, o conde Tibaldo; falecido
em março de 1201, sucede-lhe o marquês Bonifácio de Monferrato (c. 1055-1207):
também ele – como Tibaldo – tem algum direito familiar ou pelo menos alguma
tradição a defender no Oriente, como irmão do lendário Conrado, enquanto no
Ocidente a sua vida se torna cada vez mais difícil devido à pressão exercida so-
bre o seu principado pelas comunas livres.
A quarta cruzada
Os barões dirigem-se para Veneza para obter os navios necessários à traves-
sia, mas Veneza não tem nenhum interesse em empenhar-se numa expedição à
Síria, cuja costa era predominantemente património comercial de Pisa e de Gé-
nova; além disso, tem todas as razões para tutelar o seu comércio com os por-
34
HISTÓRIA
tos egípcios, de onde lhe chegavam, provenientes do mar Vermelho e através
do Nilo, as preciosas especiarias orientais a preços de concorrência com os pra-
ticados nos mercados sírios.
O facto é que o exército, já pronto para partir, tem de esperar de junho até
novembro de 1202, em parte, porque não existem, ou diz-se que não existem,
QDYLRVVXÀFLHQWHVHPSDUWHSRUTXHRVFKHIHVQmRWrPGLQKHLURVXÀFLHQWHSDUD
pagar o preço acordado. Finalmente, decide-se que o débito pode ser sal-
dado com a conquista da cidade de Zadar, cristianíssima, mas rebelde a
Veneza, e sobre a qual o rei da Hungria tinha os olhos postos porque lhe A tomada de Zadar
serviria como porto adriático.
Zadar é tomada a 15 de novembro. Inocêncio III excomunga os vene-
]LDQRVPDVSDUDQmRHVWHQGHUDJUDYHVDQomRDRH[pUFLWRFUX]DGRWHPGHÀQJLU
que acredita que se limitara a ceder a uma chantagem, cumprindo aquela ação
realmente baixa para poder prosseguir rumo ao santo destino.
Em abril de 1203, precedido por um mensageiro, chega a Zadar, onde os
cruzados passam o inverno, o príncipe Aleixo Ângelo (1183-1204) provenien-
te da Alemanha. Implora a ajuda dos ocidentais para restabelecer o pai Isaac
(c. 1155-1204) no trono de Constantinopla, de que foi injustamente expulso,
prometendo em troca um grande apoio à cruzada. Expulsar de Bizâncio o usur-
pador Aleixo III (?- pós 1210), tio do príncipe, teria agradado aos venezianos
GHYLGRjVXDSROtWLFDGHPDVLDGRÀORJHQRYHVD&RQVWDQWLQRSODpDVVLPWRPDGD
HPMXOKRGHH,VDDFÇQJHORpUHSRVWRQRWURQRFRPRÀOKR$OHL[RFRPR
coimperador. Depois, na sequência de tumultos populares, em que é morto o
próprio príncipe, a cidade é novamente assaltada pelos cruzados e submetida a
um saque atroz, em abril de 1204.
Na sequência destas ações é decidido o nascimento de uma nova institui-
ção, o Império Latino de Constantinopla, situado num território já pertencente
ao Império Romano do Oriente, ao qual o islão já tinha arrebatado vastos ter-
ritórios e que, após a conquista, tinha sido dividido em quatro partes. Só uma é
governada diretamente pelo soberano, metade das restantes é entregue aos
barões, que a repartem em feudos, e a outra metade é entregue aos vene-
O Império Latino
zianos. Mas, na prática, muitas zonas permanecem independentes, cons- de Constantinopla
tituindo-se como Estados gregos escapados ao naufrágio (Epiro, Niceia,
Trebizonda), enquanto os venezianos mantêm unicamente para si as ter-
ras que têm uma particular importância para o seu comércio, designadamente
as ilhas Jónias e do Egeu, além do promontório de Motone a oeste do golfo de
Messénia, no Peloponeso meridional, e Citera. De facto, serão eles os verdadei-
URVEHQHÀFLiULRVGDH[SHGLomR$FRURDLPSHULDOpDWULEXtGDD%DOGXtQRGD)ODQ-
dres, por Bonifácio de Monferrato, excluído da escolha por causa da inimizade
que os barões franceses e os venezianos nutrem por ele – e talvez também dada
DGHVFRQÀDQoDSDSDO²VHQGRFRQVWLWXtGRRUHLQRGH7HVVDORQLFD
35
IDADE MÉDIA – CASTELOS, MERCADORES E POETAS
A unidade das igrejas é assim conseguida, mas é muito transitória, nem Ino-
cêncio pode ter a esse respeito demasiadas ilusões: o cisma criou raízes no co-
ração de um povo, o bizantino, apaixonado pelas disputas teológicas e zeloso
JXDUGLmRGHWRGRXPSDWULPyQLRFXOWXUDOÀORVyÀFRHOLW~UJLFRGHTXHQmR
HVWDYDGLVSRVWRDUHQXQFLDU2VJUHJRVFHUUDPÀOHLUDVHPWRUQRGRVVHXV
O cisma bizantino monges e aprendem a odiar aquela bárbara igreja ocidental, que antes des-
prezavam, aqueles prelados ávidos e mais habituados às armas do que ao
estudo e à oração, aqueles costumes estrangeiros impostos pelas lanças dos
conquistadores. Toda a cristandade pagou com a perpetuação do cisma e da
obstinada incompreensão recíproca os 60 anos do Império Latino do Oriente,
destinado a pertencer à Casa de Courtenay e a dissolver-se em 1261.
V. também: Frederico II Hohenstaufen e o declínio da dinastia suábia em Itália, p. 39;
As ordens religioso-militares, p. 44; A monarquia eletiva e a dinastia de Habsburgo,
p. 61; Reinos, principados, ducados, bispados, cidades na área germânica, p. 104.
A CONCORRÊNCIA
ENTRE AS REPÚBLICAS MARÍTIMAS
de Catia Di Girolamo
Durante os séculos XIII e XIV cumpre-se a parábola das cidades marítimas. Pisa,
duramente derrotada, inicia um declínio bem representado pelo assoreamento do seu
porto; Veneza e Génova, no apogeu da sua força, defrontam-se ao longo dos séculos
XIII e XIV. Será Génova a perder; mas os verdadeiros vencedores irão ser procurados
IRUDGRMRJRGDVFLGDGHVPDUtWLPDVHQWUHDVPXLWRPDLVYDVWDVIRUPDo}HVSROtWLFDV
TXHWDQWRQR2ULHQWHFRPRQR2FLGHQWHVHYmRDÀUPDQGR
O fim da República de Pisa
No decurso do século XIII consumam-se os passos decisivos do confronto
entre Pisa e Génova.
Entre as regiões, onde os dois centros estendem o seu comércio (Tirreno,
costa francesa meridional, costa ibérica do sudeste, Magrebe e Médio Oriente),
Pisa parece mais solidamente implantada no Tirreno: de facto, controla quase
toda a Córsega e está bem presente também na Sardenha, apesar da instabili-
dade criada pelo antagonismo com os genoveses, a que se juntam persistentes
tensões com as populações locais. Também na Sicília, em meados do século,
VHYHULÀFDXPDPHOKRULDSDUD3LVDHPERUDGHFXUWDGXUDomRGHYLGDjDOLDQ-
ça com Frederico II (1194-1250, imperador desde 1220), que está a bater-se
com o papado.
36
HISTÓRIA
Mas a incessante concorrência genovesa impede que os mercadores de
Pisa desfrutem plenamente das suas posições: os rivais conseguem pertur-
bar continuamente as comunicações com a península e, para Pisa, o pro- A batalha de Meloria
blema de um confronto resolutivo parece iniludível. Quando o confronto
acontece, em 1284 (batalha de Meloria), Pisa, derrotada, inicia um longo
declínio: estará ainda presente ao longo das principais rotas comerciais da
época, mas com uma atividade menos intensa e com menor fôlego.
Por outro lado, a irreversibilidade do declínio de Pisa é o resultado de uma
conjuntura negativa, de que a concorrência genovesa é apenas um aspeto. Para
DUHS~EOLFDWRVFDQDWDPEpPWHPSHVRQHJDWLYRXPEDODQoRGHPRJUiÀFRHP-
pobrecido pela malária – endémica em grande parte do condado – e pela emi-
gração para a Sardenha; não é de grande ajuda uma aliada como Veneza, apenas
disponível para se empenhar nos mares do seu interesse e talvez pouco perspi-
caz quanto aos efeitos do reforço de Génova, que o declínio de Pisa implicaria;
ÀQDOPHQWHpGHVJDVWDQWHXPDFRQÁLWXDOLGDGHTXHVHGHVHQYROYHQmRVySRUPDU
mas também por terra, já que, nos mesmos anos, Pisa, gibelina, também está em
FRQÁLWRFRPDOLJDJXHOIDHQFDEHoDGDSRU)ORUHQoD
8PDYH]UHGHÀQLGDVDVUHODo}HVGHIRUoDSDUD3LVDH*pQRYDpPHVPR
possível retomar formas de colaboração: a repressão da pirataria no Tirreno,
no século XIV, torna a assistir a iniciativas conjuntas de Pisa e Génova, como
nos séculos X e XI.
Entretanto, é determinada a passagem institucional para senhoria; assim, Gian
*DOHD]]R9LVFRQWLVXEPHWHDFLGDGHHÀQDOPHQWHYHQGHD
a Florença, situação a que Pisa acaba por ceder após um longo cerco, em 1406.
As últimas grandes rivais: a Soberba e a Sereníssima
ao longo dos séculos XIII e XIV
Enquanto Pisa começa a tornar-se uma concorrente marginal, para Génova
torna-se mais cerrado o confronto com Veneza.
No princípio do século XIII, no Mediterrâneo oriental, os venezianos gozam
de uma posição de força que não depende apenas do já secular enraizamento
económico, mas também de acontecimentos mais recentes relacionados com a
quarta cruzada. Veneza participa e põe à disposição os seus serviços; mas as
GLÀFXOGDGHVHFRQyPLFDVGRVFUX]DGRVGmROKHDSRVVLELOLGDGHQmRVyGH
Rumo
ser ajudada a conquistar Zadar aos húngaros (1202) mas também de retirar a Constantinopla
o máximo proveito do desvio seguinte, determinado por uma complexa
trama de desígnios papais, crises políticas no seio do Império do Oriente
e interesses de natureza económica: em vez de rumarem a Jerusalém, os cru-
zados dirigem-se para Constantinopla. A capital bizantina é tomada e saqueada,
dando origem ao império latino, e Veneza é paga de novo pelo seu papel com o
controlo das praças comerciais mais importantes (1204).
37
IDADE MÉDIA – CASTELOS, MERCADORES E POETAS
Assim, os genoveses encontram-se diante de uma rival que assumiu um pa-
pel quase monopolista numa região onde também eles tinham aumentado o seu
volume de negócios nas décadas precedentes. No século XIII, o seu objetivo será
acabar com o monopólio veneziano.
A crise concentra-se inicialmente em torno do mosteiro de São Sabas, em
São João de Acre, que os genoveses ocupam em 1255, iniciando as hostilidades
na zona veneziana. A guerra que se segue termina com a derrota dos genoveses
pela ação de Veneza e de Pisa (1258).
A rápida reorganização genovesa parece poder relacionar-se com os desíg-
nios de Miguel III Paleólogo (1224-1282), que entende reconquistar Constanti-
nopla e fazer dela novamente a capital do império: os genoveses prometem-lhe
apoio, em troca de enormes privilégios, dos quais deverão ser excluídos os ve-
nezianos (tratado do Ninfeu, 1261). Mas Constantinopla cai antes da chegada
GDIURWDJHQRYHVDR,PSpULR/DWLQRGR2ULHQWHFRODSVDHR3DOHyORJRÀFDOLYUH
dos compromissos assumidos.
Venezianos e genoveses depressa recomeçam as hostilidades (1263 e 1266);
entretanto, o Paleólogo adota uma política oscilante, ligada às contingências do
momento: mantém os privilégios dos venezianos e expulsa os genoveses da capi-
tal, mas reintegra-os, concede-lhes importantes bases comerciais no mar Negro,
quando Veneza começa a colaborar com a Casa de Anjou para a restauração do
império latino. Em 1270, chega-se a uma trégua, mas a coexistência das duas
cidades continua a ser pontilhada por um contencioso em aberto, que se
Pirataria
exprime em repetidos atos de pirataria, mas também em intermináveis
e diplomacia disputas diplomáticas.
Entretanto, a fronteira do comércio ocidental, impelida também pelo
GHVHQYROYLPHQWRGHPRJUiÀFRHSURGXWLYRDWLQJHDVXDPi[LPDH[WHQVmR
deslocando-se em profundidade para oriente, onde a expansão do império dos
mongóis na região que vai da China à Ásia Menor, concluída em 1260, amplia o
ÁX[RGHPHUFDGRULDVHFRQGLo}HVPDLVVHJXUDVSDUDRVHXPRYLPHQWR
O ajuste de contas: de Curzola a Chioggia
1RÀQDOGRVpFXORXIII,RFRQÁLWRYROWDDDEULUVHHRVYHQH]LDQRVVmRGHUURWD-
dos na Dalmácia, junto de Curzola (1298). Os equilíbrios orientais não são mui-
WRPRGLÀFDGRVPDVSDUD9HQH]DFRPHoDXPDIDVHGHOLFDGDDVUHSHUFXVV}HVGD
derrota cruzam-se com as tensões político-institucionais que desembocaram na
decisão do Conselho Maior de 1297; à concorrência comercial genovesa junta-
-se o reino de Aragão; a Hungria apodera-se da Dalmácia; surgem os primeiros
HIHLWRVGDHSLGHPLDGHSHVWHLQWHQVLÀFDPVHDVSUHVV}HVH[HUFLGDVSRURXWUDV
senhorias venezianas e pela senhoria milanesa de Visconti.
Por sua vez, Génova atravessa um período vivaz. Os seus marinheiros lançam-
-se na exploração da costa africana e deslocam-se até ao mar do Norte; os seus
38
HISTÓRIA
mercadores têm bases em todo o Mediterrâneo; os seus militares e os seus di-
plomatas obrigam Carlos de Anjou (1226-1285, rei da Sicília de 1266 a 1282) a
renunciar a uma medida de expulsão da Sicília, tomada para punir os gibelinos
de Génova (1276); as suas autoridades municipais asseguram para as empresas
mais arriscadas sociedades comerciais constituídas por privados (Maone); as suas
WpFQLFDVFRQWDELOtVWLFDVHÀQDQFHLUDVVmRDÀQDGDVHID]HPHVFROD
Mas o século XIV é um dos momentos mais inquietos da história política
genovesa, que é atormentada pelos confrontos de fações entre as maiores
famílias, favorecendo deste modo a instauração da senhoria de Giovanni
A senhoria
Visconti (c. 1290-1354), duque de Milão (1353). Além disso, a capacida- de Giovanni
de veneziana de encontrar um entendimento com a potência aragonesa Visconti
pesa sobre Génova: é uma frota mista, por exemplo, que vai enfrentar e
derrotar os navios genoveses na Sardenha, junto de Porto Conte, em 1353.
$FULVHSROtWLFDJHQRYHVDDJUDYDVHQDVHTXrQFLDGDVGHUURWDVLQÁLJLGDVSHORV
venezianos na guerra de Chioggia (1378-1381), travada em todo o Mediterrâ-
neo e centrada, mais uma vez, na competição pelos mercados orientais. A guer-
ra marca o início do declínio genovês: de facto, a ocupação francesa da cidade
ocorre pouco depois (1396-1409), destinada a ocorrer de novo no futuro, quan-
do o expansionismo turco privar Génova de grande parte das colónias orientais.
Uma sorte análoga terá Veneza: os otomanos obrigarão uma e outra a en-
contrar um novo caminho. A Sereníssima voltar-se-á decisivamente para a ex-
pansão terrestre; a Soberba encontrará um papel no mais impalpável domínio da
ÀQDQoDLQWHUQDFLRQDO
V. também: Das comunas às senhorias, p. 65; Veneza e as outras cidades marítimas, p. 125.
F R E D E R I C O I I H O H E N S TA U F E N
E O DECLÍNIO DA DINASTIA SUÁBIA
E M I TÁ L I A
de Mariateresa Fumagalli Beonio Brocchieri
Na vida de Frederico II, rei da Sicília e imperador, as vicissitudes da guerra contra
DVFRPXQDVHRVSRQWtÀFHVRFXSDPGpFDGDVLQWHLUDVPDVpDREUDOHJLVODWLYD
e cultural promovida pela corte siciliana que representa o aspeto mais relevante
GRVHXJRYHUQR1D&RQVWLWXLomRGH0HOÀ)UHGHULFRGHVHQKDRSURMHWRGHXPUHLQR
centralizado e burocraticamente sólido, tolerante para com as diversas etnias
HUHOLJL}HVDFROKLGDVQRWHUULWyULR$ÀORVRÀDQDWXUDOHDSRHVLDHPYXOJDUVmR
os mais novos e originais contributos da cultura de Frederico.
39
IDADE MÉDIA – CASTELOS, MERCADORES E POETAS
A vida
A 26 de dezembro de 1194, em Jesi, na marca de Ancona, nasce Frederico da
Suábia. A sua mãe Constança de Altavila (1154-1198) é rainha dos normandos
da Sicília, o seu pai Henrique IV Hohenstaufen (1165-1197), rei da Germânia,
tornara-se imperador do Sacro Império Romano, quatro anos antes, por morte
do pai Frederico I, Barba-Ruiva (c. 1125-1190).
A sugestiva data de nascimento de Frederico, poucas horas depois do dia
de Natal, será muitas vezes sublinhada pelo futuro imperador pelo carácter es-
pecial que parece conferir ao seu destino de «imagem de Deus na Terra»: Jesi é
DVXD%HOpPHHOH©RÀOKREHQGLWRªHTXDVHPLUDFXORVRQDVFLGRGHXPDUDLQKD
que já não era jovem.
Aos quatro anos, por morte da mãe, é coroado rei de uma Sicília sujeita a uma
GXUDSURYDGHYLGRDRVFRQÁLWRVLQWHUQRVHQWUHQRUPDQGRVHDOHPmHVDRVp
rei da Germânia e, em 1215, recebe em Aix-la-Chapelle, dos príncipes alemães, a
coroa imperial que era disputada por Otão de Brunswick (1175/1176-1218, im-
perador de 1209 a 1215), apoiado no início por Inocêncio III (1160-1216, papa
desde 1198), que depois o abandona, excomungando-o em 1210.
Em Roma, em 1220, Honório III (?-1226, papa desde 1216), que se tornara
SRQWtÀFHSRUPRUWHGH,QRFrQFLR,,,FRQVDJUD)UHGHULFRFRPRLPSHUDGRU
Só oito anos depois Frederico cumpre a promessa feita ao papa de
A admiração pela dirigir a cruzada à Terra Santa: mas a conquista de Jerusalém, onde
cultura muçulmana Frederico é coroado rei, é recebida pelo papa de Roma como uma «in-
digna» transação de compra e venda. Efetivamente, a cidade não foi con-
quistada pelas armas, graças à diplomacia e às boas relações estabelecidas
com o sultão do Egito, Al-Kamil (1180-1238, sultão desde 1218), favorecidas
pela admiração de Frederico pela cultura muçulmana, cultivada há muito na
corte da Sicília.
Gregório IX (c. 1170-1241, papa desde 1227), que sucedera a Honório III
em 1227, lança o seu exército contra Frederico, no regresso a Itália, mas um ano
depois, em 1230, em Anagni, volta a fazer as pazes com o imperador de 30 anos
HGHSRLVGHRWHUDFXVDGRGHVHUXP©VHTXD]GH0DRPpªFKHJDDFKDPiOR©À-
lho dileto da Igreja».
Os anos que se seguem são dominados por guerras em Itália e turbulências
internas no reino, mas, surpreendentemente, deixam a Frederico espaço para a
cultura e para os livros, para a leitura e para a escrita, uma tarefa que reconhece
frequentemente como primordial, sobretudo para um soberano, e que desperta
a admiração da comunidade dos estudiosos, mesmo não cristãos.
Já em 1224 tinha fundado com a ajuda de Pietro della Vigna (1190-1249), in-
ÁXHQWHFRQVHOKHLURHGHSRLVYLJiULRLPSHULDODXQLYHUVLGDGH©GDJUDFLRVDFLGDGH
de Nápoles», dotando-a de uma biblioteca rica e nova com a intenção de «manter
no reino os melhores intelectos» e atrair os mestres mais conhecidos. Juntamente
40
HISTÓRIA
com as artes liberais e a teologia, em Nápoles, cultivava-se o ensino do direito,
disciplina fundamental na formação dos colaboradores e dos ministros do rei.
Em 1231, ao direito – considerado a base «da saúde e da força do reino» –,
Frederico dedica o Liber Augustalis (conhecido como Constituição GH0HOÀ) –
tido por alguns estudiosos como a realização do programa jurídico e legislativo
dos seus antepassados sicilianos – para o qual se inspira nos códigos romanos,
no direito canónico, mas também nas leis feudais e nas «regras consuetudiná-
rias» enraizadas no costume germânico e normando. A complexidade das fon-
tes torna por vezes difícil a leitura de um projeto unitário; mas que está bem
presente no soberano, que declara a função do legislador semelhante à de Deus
HDÀUPDTXH©QHQKXPDGLVWLQomRQDVVDODVGHDXGLrQFLDGRVWULEXQDLVGRUHLQR
deve ser feita entre os súbditos, sejam francos, lombardos ou romanos, sarra-
cenos ou judeus». De facto, a paz do reino só pode ser assegurada pela justiça e
deve prevalecer sobre as diferenças de nascimento e de religião, eliminando as
desigualdades, fonte de divergências. Sob este aspeto, o Estado desenhado pela
constituição de Frederico está nos antípodas do reino feudal.
A guerra contra as cidades italianas volta a emergir com força em 1234,
TXDQGRRÀOKRSULPRJpQLWR+HQULTXHUHLGD*HUPkQLDGH
O primogénito
1222 a 1235), rei dos romanos, rebelando-se contra o pai, se alia com as Henrique
comunas lombardas, desde sempre inimigas da Casa de Hohenstaufen:
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parte para a Germânia, onde Henrique reúne sequazes. Não obstante a sub-
PLVVmRHRSHGLGRGHSHUGmRGRÀOKRDFRQGHQDomRGH)UHGHULFRpH[HPSODUH
os aliados de Henrique são postos em debandada: após seis anos de duro cárce-
re, o rebelde lançar-se-á de um penhasco, matando-se.
Em 1249, apenas um ano antes de morrer, Frederico enfrenta outro golpe,
talvez mais doloroso. Pietro della Vigna – que Dante Alighieri (1265-1321) re-
cordará no trágico canto XIII do «Inferno» –, acusado de corrupção e traição,
suicida-se na prisão protestando desesperado a sua inocência. Ainda hoje é difí-
cil interpretar as motivações reais que levaram Frederico a condenar o seu ama-
do e precioso conselheiro.
É esse o penúltimo ano de vida do imperador: a guerra, quase ininterrupta
desde o ano 1234, tivera para ele desfechos alternados. A Frederico, que contava
com a aliança das cidades de Cremona e Verona, na mão do poderoso Ezzelino
da Romano (1194-1259), opunham-se a comuna de Milão e, depois, Placência e
%RORQKD1RFRQWH[WRGRFRQÁLWRRDSRLRGRSRQWtÀFHGHVHPSHQKDYDXPSD-
pel por vezes ambíguo mas sempre relevante.
Em Cortenuova, em 1237, ajudado por Cremona e pelo poderoso Ezzelino,
Frederico obtém uma clamorosa vitória contra os milaneses e destrói o Carroc-
cio, símbolo da comuna milanesa. Entre os muitos prisioneiros conta-se Pietro
7LHSRORÀOKRGRGRJHGH9HQH]D
41
IDADE MÉDIA – CASTELOS, MERCADORES E POETAS
Em Parma, em 1248, o imperador sofre a mais grave derrota da sua vida, que
inclusive o priva dos símbolos do poder, a coroa e o cetro, do tesouro real e dos
seus amados livros, que, juntamente com as concubinas, os falcões para a caça e
os animais exóticos, o acompanhavam nas suas viagens: os cidadãos de Par-
ma, saindo da cidade cercada numa rápida surtida, saqueiam e destroem o
A derrota de Parma faustoso acampamento imperial erguido fora dos muros da cidade e deno-
minado Vitória por Frederico. Um ano depois, em Fossalta, é feito prisio-
QHLURSHORVERORQKHVHVXPÀOKRGH)UHGHULFR(Q]RYLJiULR
imperial, que morrerá na prisão em Bolonha 23 anos depois, não obstante o
pai ter tentado resgatá-lo oferecendo grandes tesouros à cidade.
No dia 13 de dezembro de 1250, Frederico morre na região da Apúlia, em
Castel Fiorentino, atingido por uma forte febre, depois de uma caçada, num ano
em que o seu exército ainda obteve alguns sucessos importantes na Sicília e nas
marcas contra as armadas do papa.
O primogénito de Frederico, o rebelde Henrique, rei dos romanos, tinha mor-
ULGRKiXPDGpFDGD6mRKHUGHLURVSROtWLFRVGH)UHGHULFRRVHJXQGRÀOKR&RQ-
rado IV (1228-1254), para quem vai a coroa da Sicília (1237) e a imperial (1250),
RWHUFHLURÀOKR+HQULTXHTXHPRUUHWUrVDQRVGHSRLVDTXHPp
destinada a coroa de Jerusalém (1250), mas que tem de ser reconquistada, e o
ÀOKRQDWXUDO0DQIUHGRQRPHDGRSUtQFLSHGH7DUHQWRHYLJiULRGR
reino da Sicília na ausência do irmão Conrado.
O choque entre os dois poderes
Frederico, excomungado duas vezes, por Gregório IX e Inocêncio IV (c. 1200-
-1254, papa desde 1243) – que temiam, como de resto os dois papas preceden-
tes Inocêncio III e Honório III, a imensa concentração de poder herdada por
Frederico, imperador na Germânia e rei na Sicília –, é acusado de descrença,
imoralidade e blasfémia em repetidos documentos pontifícios.
0DVEDVLFDPHQWHVmRDVUD]}HVÀORVyÀFRSROtWLFDVTXHPRWLYDPR
As excomunhões
choque com que o poder imperial de Frederico – que espelha no seu
XQLYHUVDOLVPRRSRGHUGRSDSD²SRUGHÀQLomRVHRS}HDRHFOHVLiVWLFR
A teoria papal da plenitudo potestatisGHIHQGLGDSHODF~ULDURPDQDDÀUPDGH
IDFWRDSOHQLWXGHDEVROXWDHXQLYHUVDOGRSRGHUGRSRQWtÀFHGH5RPDHHPHUJLX
de modo decisivo e nítido já no Dictatus Papae, de Gregório VII (c. 1030-1085,
papa desde 1073), segundo o qual a soberania imperial ou de qualquer outro
príncipe só tem legitimidade no seio do poder, não só espiritual, mas também
«temporal», ou seja, secular, da Igreja.
O mais tenaz adversário de Frederico II, o papa Inocêncio IV, jurista espe-
cializado e aluno na sua juventude, em Bolonha, dos mestres de direito canóni-
co que defendiam a subordinação do regnum ao sacerdotiumOHYDRFRQÁLWRDXP
nível mais próximo da violência política, ao utilizar no concílio de Lyon de 1245,
42
HISTÓRIA
numa direção decisivamente «temporal», a excomunhão do imperador, um ato
TXHGHVREULJDYDRVV~EGLWRVGRYtQFXORGHÀGHOLGDGH
Em dezembro de 1250, conhecida a notícia da morte de Frederico, Inocên-
cio IV declara aos cristãos que «o céu e a terra alegram-se com o seu desapa-
recimento».
A cultura na corte de Frederico II
A maior parte dos estudiosos reconhece que a ampla e nova perspetiva aber-
ta à cultura é o sinal mais relevante deixado por Frederico II durante o seu rei-
nado. O interesse do imperador pelos vários aspetos da ciência do seu tempo,
GDOyJLFDjItVLFDRXjÀORVRÀDQDWXUDOGDPHWDItVLFDjDVWURQRPLDHGDPHGLFLQD
à ética, insere-se no complexo quadro da cultura siciliana, onde há muito se en-
contram diversas tradições culturais: a grega, a árabe e a judaica.
A Sicília, juntamente com Espanha, é desde o século XII um dos principais
centros da revolução cultural que traz para o Ocidente, também, mas não só, atra-
YpVGDVWUDGXo}HVGRViUDEHVRSDWULPyQLRGDFLrQFLDHGDÀORVRÀDJUHJDDQWLJD
Na corte de Frederico, entre outros sábios, vivem Miguel Escoto (c. 1175-
-c. 1235), que dedica ao «príncipe muito glorioso senhor Frederico» escritos as-
WURQyPLFRVHGHÀORVRÀDQDWXUDOHWUDGXo}HVGH$YHUUyLVIHLWDVD
«pedido expresso do imperador», e de Jacob Anatoli (c. 1194-1156), que, jun-
tamente com outros estudiosos judeus, discute com o soberano sobre os «cor-
pos celestes e a alma do mundo [...] e sobre as criaturas que vivem no mundo,
as plantas e os animais».
Entre estes temas, Frederico, como autor, privilegia o estudo das aves uti-
lizadas para a caça, campo em que se apresenta orgulhosamente como veritatis
inquisitor.
O seu volumoso De Arte Venandi Cum Avibus, em seis livros, não é
Um tratado
apenas uma obra dedicada à falcoaria e à caça, tradicionalmente conside- de filosofia
rada uma «atividade adequada a um rei», mas um verdadeiro tratado de natural
ÀORVRÀDQDWXUDOHPTXH)UHGHULFRVHUHIHUHjDXWRULGDGHGH$ULVWyWHOHV
(384 a.C-322 a.C.), mas sobretudo à experiência, elevada a método. O autor
REVHUYDTXHRÀOyVRIRJUHJRPRVWUDQRVVHXVHVFULWRVTXHQmRWHPFRQVFLrQFLD
direta do assunto: a caça e o estudo das aves são bem conhecidos de Frederico,
porque praticados desde a adolescência.
Frederico, como muitos dos seus cortesãos e familiares, é poliglota e es-
creve em latim, em grego, em francês, em árabe e em vulgar siciliano «ilustre»:
nesta língua, como numerosos ministros e colaboradores da sua corte, Giacomo
GD/HQWLQL5LQDOGRG·$TXLQR3LHWURGHOOD9LJQDRVÀOKRV0DQIUHGRH(Q]R
escreve poesias de amor, merecendo o louvor de Dante em De Vulgari Elo-
quentia©2VKRPHQVJUDQGHVHLOXPLQDGRVFRPR)UHGHULFRHRVHXGLJQRÀOKR
Manfredo souberam exprimir toda a nobreza e a retidão de espírito [...]. Tudo
43
IDADE MÉDIA – CASTELOS, MERCADORES E POETAS
o que naquele tempo era produzido pelos italianos mais nobres via a primeira
luz no palácio daqueles soberanos insignes e [...] tudo o que foi produzido em
vulgar chama-se siciliano.»
V. também: A lírica em Itália, p. 617; O reinado de Frederico II, p. 738.
A S O R D E N S R E L I G I O S O M I L I TA R E S
de Barbara Frale
$SyVDJUDQGHGHUURWDLQÁLJLGDDRVFULVWmRVSHORVXOWmR6DODGLQRQRV&RUQRV
de Hattin, em 1187, a cidade de Jerusalém e o Santo Sepulcro estão
GHÀQLWLYDPHQWHSHUGLGRVRIDFWRWHPXPHFRWHUUtYHOQDVRUGHQVUHOLJLRVRPLOLWDUHV
que tinham sido criadas precisamente para defender com armas a Terra Santa,
e, na Europa, a sua existência começa a ser posta em causa. No decurso
do século XIII,DVLWXDomRQmRSDUDGHSLRUDUHQWUHHDUHFRQTXLVWD
do sultão Baibars reduz o reino cristão a uma estreita faixa litoral e, mais tarde,
em 1291, é perdida também a última fortaleza cristã, a cidade de Acre.
2ÀPGDVFUX]DGDVDVVLQDODDFULVHLUUHYHUVtYHOGHVWDVRUGHQVUHOLJLRVRPLOLWDUHV
HVSHFLDLVD2UGHPGRV7HPSOiULRVpOHYDGDDMXOJDPHQWRSHORUHLGH)UDQoD)LOLSH
o Belo, e dissolvida em 1312, enquanto as outras conseguem sobreviver adaptando
a sua missão às novas necessidades históricas.
A última fase de glória
As ordens religioso-militares nascem da sensibilidade para a defesa armada
do cristianismo que inspira a cruzada na Terra Santa e a luta contra o inimigo
islâmico na região ibérica. Os mesmos ideais determinam o seu desenvolvimen-
to, mas a decadência começa quando entra em crise a política da cruzada. Cerca
de 1170, a Ordem dos Templários torna-se um enorme organismo supranacio-
nal e conta com centenas de instalações num território que se estende da Sicília
à Escócia e de Portugal à região arménia: o chefe da ordem, o mestre-ge-
ral ou grão-mestre, deve conhecer as principais línguas utilizadas pelos
Uma «multinacional»
em apoio da cruzada confrades. É uma espécie de multinacional destinada a apoiar a cruza-
da: as inúmeras instalações ocidentais são sobretudo fazendas que pro-
duzem recursos para converter em dinheiro que será enviado para oriente
SDUDÀQDQFLDURVFXVWRVEpOLFRV$2UGHPGRV7HPSOiULRVMXQWDPHQWHFRP
os Cavaleiros Hospitalários, constitui uma parte fundamental da guarnição cris-
tã na Terra Santa. Os templários são o primeiro exemplo de corpo organizado
segundo as modalidades que serão próprias dos exércitos da Idade Moderna: a
cavalaria laica combate baseando-se na coragem e na iniciativa pessoal, factos
44
HISTÓRIA
TXHSRUYH]HVFULDPGHVRUGHPHGHVID]HPDVÀOHLUDVGDVWURSDVHQTXDQWRRFRQ-
tingente dos templários segue uma disciplina férrea e tem grande capacidade de
coordenação; de facto, os privilégios papais em seu favor exaltam o seu heroís-
mo e a sua abnegação, enquanto as fontes islâmicas atestam a força de impacto
destes guerreiros nas tropas inimigas.
'DGDDJUDQGHFRQÀDQoDGHTXHRVWHPSOiULRVJR]DPQDVRFLHGDGHGDpSR-
ca, e graças também às notáveis capacidades de mediação amadurecidas durante
as campanhas na Terra Santa, são muitas vezes utilizados pelas monarquias eu-
ropeias e pelo papado para missões diplomáticas delicadas. Além das marcadas
qualidades militares, a ordem goza também de grande prestígio no campo religio-
so e espiritual; aos seus membros é reconhecida uma indiscutível autoridade na
LGHQWLÀFDomRGDVUHOtTXLDVDXWrQWLFDVHpXPFDYDOHLURGD2UGHPGRV7HPSOiULRV
ao lado do seu correspondente dos Cavaleiros Hospitalários, que tem a honra de
velar e escoltar em procissão o precioso relicário com o madeiro da verdadeira
cruz guardada em Jerusalém. A sobreposição das duas funções, ligadas por um
mesmo objetivo, pelo menos a nível ideal, induz a ordem a desenvolver apti-
G}HVHVSHFtÀFDVGHFDUiFWHUÀQDQFHLURRVVREHUDQRVHXURSHXVVHUYHPVHGHOD
por motivos inerentes à política interna dos seus reinos: caso emblemático
será o quartel-general da Ordem dos Templários em Paris, que se torna
A imagem
a tesouraria de França. O enorme crescimento material e o grande pres- do templário
tígio de que gozavam os templários no seio da sociedade cristã acabam
por perturbar o equilíbrio precário em que a ordem assentara: a imagem
gloriosa e altiva do cavaleiro templário transmitida pelas fontes, pleno de or-
gulho pela elevadíssima missão que desenvolve ao serviço do cristianismo, está
nos antípodas do retrato que Bernardo tem de fazer dele para tornar o projeto
aceitável no Ocidente, ou seja, o de um guerreiro humilde e andrajoso que com-
bate quase com vergonha e só para espiar os seus pecados.
A hipótese da fusão e o fim do reino da Terra Santa
Durante grande parte do século XII, o reino de Jerusalém sobrevive porque
estabelece alianças separadas com os chefes dos pequenos potentados islâmicos
FRQÀQDQWHVPDVHPRVXOWmR6DODGLQRGHSRLVGHWHUUHXQLGR
as várias forças islâmicas numa grande estrutura, aperta num torno o fraco reino
GRVFULVWmRVLQÁLJLQGROKHVXPDGHUURWDPHPRUiYHOMXQWRGH+DWWLQ$&LGDGH
Santa é conquistada, o Santo Sepulcro passa para as mãos islâmicas e depressa
o estado de coisas permite prever que nunca mais poderia ser recuperado. Para
as ordens militares esta derrota é o início da decadência: muitos cavaleiros são
decapitados por Saladino e uma quantidade considerável de fortalezas e outros
bens são perdidos. A Ordem dos Templários, os Cavaleiros Hospitalários e tam-
bém a Ordem Teutónica engrandeceram graças às esmolas da sociedade cristã
que as sustenta porque defendem os lugares santos, mas, face ao evidente fracas-
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IDADE MÉDIA – CASTELOS, MERCADORES E POETAS
so da sua missão, o Ocidente pergunta-se se é justo que estes colossos cheios de
privilégios devam continuar a existir. Já no início do século XIII, o mestre teutó-
nico Hermann von Salza (c. 1209-1239) intui que, na Terra Santa, a sua ordem
GLÀFLOPHQWHWHULDREWLGRXPSDSHOLPSRUWDQWHSRUFDXVDGDSRVLomRSUHHPLQHQWH
alcançada pela Ordem dos Templários e pelos Cavaleiros Hospitalários; conside-
ra que a missão de defender a fé cristã pode ser perseguida também no próprio
continente europeu, nos limites do qual vivem ainda povos não cristãos. Hermann
aceita o convite que lhe é dirigido pelo rei André II da Hungria (c. 1176-1235,
rei desde 1205) para lhe prestar ajuda militar na defesa das fronteiras do reino,
ameaçadas pela invasão dos cumanos: esta opção inaugura uma nova linha, e
num certo sentido alternativa, em relação à das outras ordens militares, isto é, a
defesa armada do cristianismo que se expande para o Leste europeu na esteira
da conquista política, colocando também a ordem ao abrigo da acusação
de fracasso, que bem cedo cairia sobre os templários e os hospitalários.
São João de Acre Durante os anos 60 do século XIII, as reconquistas realizadas pelo
sultão Baibars (1223-1277) reduzem o reino cruzado na Síria-Palestina a
uma estreita faixa litoral com capital em São João de Acre; quando em 1291
também esta cidade (último baluarte da presença cristã na Terra Santa) é per-
dida, os templários e as outras ordens militares sofrem um pesadíssimo contra-
golpe moral, além de outras perdas humanas e materiais: embora o grão-mestre
templário Guillaume de Beaujeu (1233-1291) morra heroicamente na tentativa
de defender Acre, e ainda que os templários sejam os últimos a abandonar a ci-
dade em chamas, mais uma derrota coloca as ordens numa posição muito difícil
face a todo o Ocidente.
Templários e hospitalários estabelecem o novo quartel-general do Oriente
em Chipre, ilha onde a presença templária já existe há muito e que por um bre-
YHSHUtRGRIRLJRYHUQDGDGLUHWDPHQWHSHODRUGHP2ÀPGRUHLQRGH-HUXVDOpP
traz de volta os projetos de reforma, fortemente apoiados por Nicolau IV (c. 1230-
-1292, papa desde 1288): Há já algumas décadas, vozes autorizadas tinham su-
JHULGRXQLURVWHPSOiULRVHRVKRVSLWDOiULRVQXPD~QLFDHQWLGDGHPDLVHÀFLHQWH
Sob Clemente V (1260-1314, papa desde 1305), a ideia parece seguir um rumo
decisivo e, em 1305, os dois chefes dos templários e dos hospitalários re-
cebem a ordem de se pronunciar sobre a hipótese de fusão. Enquanto o
A hipótese de fusão grão-mestre dos hospitalários Foulques de Villaret (?-c. 1327) se mostra
favorável, o dos templários, frade Jacques de Molay (1243-1314), eleito
pouco depois da queda de Acre, é fortemente contrário: na sua opinião,
a manobra da fusão corre o risco de ser controlada pela coroa de França, a
monarquia mais poderosa na Europa, que pretende assumir o controlo da ordem
XQLÀFDGDHVHUYLUVHGHODSDUDRVVHXVSUySULRVLQWHUHVVHVSROtWLFRV1RÀQDOGH
1306, ambos são chamados pelo papa ao Ocidente para discutir a questão: Villaret
tem de adiar a viagem porque está empenhado em algumas operações militares
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