Arborização
de
Vias Públicas
1 ª Edição
Rio de Janeiro
2000
A666
Arborização de vias públicas/ Miguel Milano
e Eduardo Dalcin et alli. Rio de Janeiro:
Light 2000.
226p
ISBN 85-87005-02-2
Inclui bibliografia
1. Arborização Urbana; 2. Paisagismo;
3. Paisagem Urbana; 4. Meio Ambiente
AGRADECIMENTOS
Produto de trabalho conjunto, este livro condensa parte significativa de
nossa experiência e produção técnica e científica anterior. Mas sua realização
só foi possível graças à conjunção de vários fatores. Entre eles, cabe-nos
destacar o convite formalizado pela Fundação Parques e Jardins para que
realizássemos o trabalho; a aquiescência da Light, como patrocinadora do
mesmo, para com nossa proposta de conteúdo; a disponibilização de tempo
em nossas agendas cheias, o que exigiu tanto criatividade como abdicação; a
compreensão de nossas esposas e filhos em relação ao tempo de convívio que
lhes foi subtraído; e o apoio de recebido nos mais diferentes momentos.
Como não poderia deixar de ser, a todos esses aspectos estão ligadas
pessoas - amigos, colegas, profissionais da área ou simples simpatizantes da
causa - que nos ajudaram e a quem não podemos deixar de expressar nossos
sinceros agradecimentos. Primeiramente, agradecemos ao Paulo Schiavo Jr.
e à Cecília P. B. Machado pela lembrança de nossos nomes e empenho para
que este livro fosse uma realidade, e ao Carlos A. Compam pela chancela e
apoio à nossa proposta de trabalho. À Fernando Chacel e José Tabacow
agradecemos pela leitura crítica dos rascunhos e sugestões realizadas. À Luiz
Emídio de Melo Filho agradecemos pelo gentil prefácio e a Roberto Gambini
pelo enfático texto do posfácio. Ao Carlos M. Silveira da Silva - o Carlinhos -
pelas aquarelas que ilustram e embelezam nosso texto técnico muitas vezes
árido. Agradecemos também a Roberto Ainbinder (FPJ), Rogério Zouein (FPJ),
Max de Souza (Light), Roberto Okabayashi (FPJ), Humberto Coelho (Light)
e Luiza Laera (FPJ) pela colaboração em diferentes fases do trabalho. À
professora Leide Takahashi agradecemos pela cessão de várias das fotos
utilizadas e também pelo apoio fraterno. A Altair Pivovar agradecemos a
revisão dos textos originais e à Shirley Hauff, as revisões pós diagramação.
Ao biólogo Marcos Lima (Light), no início da convivência apenas nosso
interlocutor institucional e depois um amigo, agradecemos os esforços
desenvolvidos para que nosso trabalho se concretizasse num livro de fato e
não se tomasse apenas mais um sonho desperdiçado - não é pouco dizer que
sem seus esforços talvez continuássemos apenas com os escritos originais.
Agradecemos ainda ao apoio recebido dos amigos e colegas da Fundação O
Boticário de Proteção à Natureza, da Universidade Federal do Paraná e do
Jardim Botânico do Rio de Janeiro nos mais diferentes momentos da realização
deste trabalho.
Por fim, agradecemos às nossas esposas Sinéia Milano e Cláudia Dalcin e
aos nossos filhos Marja e Joana Milano e Pedro e Júlia Dalcin, pela paciência
que tiveram conosco naqueles inúmeros momentos em que fomos impacientes,
pelo perdão de sempre para com nossa ausência e pelo fundamental suporte
emocional que nos trouxeram e continuam nos dando. Mas, seria injusto não
mencionar aqui também os nossos pais, a quem, além da vida, devemos muito
do que somos e nos sentimos eternamente gratos.
M. Milano e E. Dalcin
Light Serviços de Prefeito da Cidade do Rio
Eletricidade S.A. de Janeiro
LUIZ PAULO CONDE
Presidente
MICHEL G. GAILLARD Secretário Municipal de
Meio Ambiente
Diretor de Geração MAURÍCIO LOBO
PAULO ROBERTO G. M.
BARROS Fundação Parques e
Jardins
Assessor da Diretoria de
Presidente
Geração
VICENTE CANTINI
GABRIELA ROTHSCHILD
Agradecimentos Especiais
EQUIPE TÉCNICA DA LIGHT
EQUIPE TÉCNICA DA
FUNDAÇÃO PARQUES E
JARDINS
Ilustração
CARLOS MANUEL S. DA
SILVA
Programação Visual
HUMBERTO COELHO
BIOSYS - Consultoria Ltda.
A
o receber o honroso convite para
prefaciar ''Arborização de vias públicas",
sinto uma primeira satisfação por ver
tratado, de maneira tão séria e objetiva, um
tema dentre os que me são mais caros - a
arborização urbana.
Freqüentador assíduo dos encontros e
congressos sobre arborização urbana, em que
são discutidos os problemas desse campo
do conhecimento e apresentados trabalhos
versando sobre a complexa problemática das
relações, em seu estado presente, entre o
homem e a árvore, senti-me logo atraído para
uma leitura atenta do texto, que, de fato,
aborda de maneira clara, direta e
abrangente a multiplicidade de parâmetros,
de fatores, de condições e de ações em que
há de se situar o arboricultor urbano.
Nele são discutidos o papel do ser árvore
nos espaços gerados pelo fenômeno da
urbanização, o histórico do surgimento e
da evolução da arborização urbana como
um estreitamento da relação entre o homem
- como participante do sistema da natureza
e dele evadido para o sistema, a um tempo
antagônico e complementar, da cultura - e
o próprio sistema da natureza, representada
aqui por sua componente arbórea. Esta é apre
ciada em seus aspectos estéticos, sociais,
tecnológicos e manipuladores das condições do
conforto humano; quanto às dificuldades
inerentes a seu desempenho; e quanto ao
manejo da arborização urbana como forma
de superar tais dificuldades. Em relação a esse
último item, são consideradas todas as
Arborização de vías Públicas
conseqüências da presença de árvores nos
espaços antrópicos, em sua estática e em sua
dinâmica, pendendo a decisão final em
favor da árvore, como presença e como
entidade benéfica à adaptação do
urbanícola às estruturas por ele criadas para
o desenvolvimento de seu processo vital.
Daí que as questões técnicas do planejamento
da arborização como estrutura necessária na
trama da cidade moderna, as interferências
do clima e dos microclimas urbanos, a
presença dos volumes construídos e dos
espaços livres, as interferências das redes de
circulação da energia, de fluidos e de massas
móveis e o comportamento dos solos urbanos
sejam apresentados e analisados com um
detalhamento adequado.
O estudo, em sua visão ampla da arborização
urbana, examina assuntos como o posiciona
mento da árvore, a fenologia, a questão
fitossanitária e o manejo, que é visto como a
forma de adotar, nas melhores condições, o
elemento árvore dentro dos condicionamen
tos atuantes no espaço cidade. Um dos
capítulos de maior densidade do trabalho
incide justamente sobre o manejo da
arborização urbana, no sentido de
implantá-la, mantê-la e analisá-la em
pormenores, tratando de todas as opera
ções que o órgão público deve praticar para
garantir o melhor estado e o desempenho
mais favorável do que hoje chamamos tão
poeticamente de "floresta urbana".
Outro capítulo trata do estudo global da
arborização como componente mensurável
ii
Prefácio
das estruturas urbanas e aborda as formas
de sua mensuração como dado e como
elemento de comparação.
Um último capítulo cuida, de forma sintética,
dos aspectos políticos e administrativos do
tratamento a ser dispensado, ao patrimônio
arbóreo, apresentando inclusive formas de
assegurar economicidade em seu manejo.
Enfim, o presente trabalho vem preencher
uma lacuna nas informações de que todo
arborizador urbano deve dispor, na forma
de um livro-texto que apresenta, de maneira
ordenada, todos os subsídios indispensáveis
à sua capacitação técnica no campo em que
atua. Todos esses textos são enriquecidos
pela citação de referências bibliográficas
concernentes.
Concluindo, agradeço aos autores a opor
tunidade de prefaciar esse apreciadíssimo
trabalho, voltado com competência para os
problemas da arborização urbana , cuja
presença na urbes moderna é um dos padrões
definidores de seu valor como realização
humana.
Dr. Luiz Emygdio de Me/lo Filho
Botânico Paisagista
Museu Nacional (RJ)
iii
"As Árvores e Nós"
T
odos os dias quando saio às ruas
por onde ando, presto atenção em algo
que cada vez me comove mais: o
triste estado em que se encontram nossas
árvores. De uns anos para cá, a prática da
poda, que no passado funcionários da
Prefeitura costumavam exercer durante o
inverno, aparando com algum critério galhos
desfolhados, acabou se transformando em
brutal mutilação. O que se vê atualmente
não são mais á r v o r e s p o dadas, m a s
aleijões, estruturas desfiguradas, agredidas,
violentadas, que não poderão jamais reto
mar a plena forma perdida depois do
impiedoso corte.
Essa agressão às árvores, que nem chega a
ser reconhecida como tal, tem como justifi
cativa alegada pelos órgãos públicos o
perigo apresentado à fiação elétrica. Há
cidades onde o problema foi contornado
preservando-se as árvores e transferindo-se
a fiação para o subsolo. Ou mesmo substitu
indo essa verdadeira teia de aranha elétrica
que nos recobre por outro tipo de instalação
aérea (já fabricada aqui e que poderia
perfeitamente ser feito entre nós), em que
apenas dois ou três cabos revestidos bastam
para a transmissão de energia, e não seria
mais preciso deformar árvores para lhes
dar passagem.
O que se manifesta nesse fato, já quase
corriqueiro, é o velho conflito entre natureza
e tecnologia. Árvore e poste passam a ser
V
Arborização de J-fas Públicas
representantes de dois mundos em choque.
Só que a questão vai muito mais fundo,
porque não estão em jogo apenas a beleza
das ruas, a dimensão poética trazida pela
vegetação, o prazer requintado da sombra,
a lembrança das estações... O que está em
jogo é um grave problema psíquico que
afeta perigosamente a todos nós.
Desde a mais remota antigüidade, a imagem
da árvore foi usada como símbolo do cres
cimento interior do ser humano. Quem se
interessa por arte, mitologia ou história das
religiões a encontrará em todas as culturas.
Há entre nós e as árvores uma secreta afi
nidade. Somos parecidos, temos a mesma
estrutura. A árvore que um dia crescerá já
está contida em estado de dormência na
semente. Nós também carregamos em estado
germinal, no fundo do inconsciente, aquilo que
podemos vir a ser. Elas nos refletem como
espelhos não a aparência exterior, mas o lado
desconhecido de nossa alma.
O que estarão refletindo as árvores mutiladas
que nos rodeiam ? A mutilação interior que
carregamos e que mal somos capazes de
perceber. Vivemos em desacordo com a
natureza em nós, com o lado indomado do
nosso ser e de nossa mente. Temos medo de
crescer e atingir uma forma plena e única - e
por isso somos um povo subdesenvolvido,
sempre abaixo do nosso potencial. Esse
medo, que não se costuma reconhecer e do
qual não se fala, aparece claramente em
nossa ação sobre as árvores. Abortamos o
vi
Posfácio
crescimento que se manifesta nelas, que por
simbolizar o nosso não realizado, nos
provoca ira. Quem tiver olhos para ver, que
veja. As árvores sofridas que nos rodeiam
denunciam, sem disfarce a insensata bru
talidade e a pobreza interior de homens que
fogem de sua alma.
Roberto Gambini
vii
Sil1MÁRIEJ
Apresentação (Light & Prefeitura)
(Protocolo: lista de autoridades prefeitura e light)
P ágina dos autores (dedicatória/agradecimentos/etc. )
Prefácio
Posfácio V
Sumário ix
Introdução 1
Aspectos históricos da arborização 15
Arborização da Cidade do Rio de Janeiro 17
Por que arborizar as cidades?
Objetivos e benefícios da arborização 23
Estabilização e melhoria microclimática 23
Ação das árvores na redução da poluição 27
Poluição atmosférica 27
Poluição sonora 30
Melhoria estética das cidades 34
Ação das árvores sobre a saúde humana 37
Benefícios sociais, econômicos e políticos 38
Planejando a arborização 43
Princípios e condicionantes do planejamento 43
O processo de planejamento 47
Diagnóstico da situação 49
O ambiente urbano 50
As características das espécies a utilizar 54
O espaço físico disponível 61
Definindo um plano de arborização 68
ix
Arborização de lias Públicas
Plantando e mantendo
árvores nas cidades 83
Plantio e replantio 84
Tutoramento e protetores 89
Irrigação 91
Adubação 93
Controle fitossanitário 97
Conceituando o problema 97
Declínio, um novo conceito 108
Diagnóstico: dimensionando o problema 110
Medidas de controle 112
Dendrocirurgia 115
Poda 120
Aspectos conceituais 122
Arquitetura das árvores 122
Compartimentalização 125
Brotação epicórmica 128
Diretrizes e critérios gerais para poda 129
Considerações básicas 129
Época 131
Pessoal 133
Ferramentas 133
Técnicas de corte e tipos de poda 135
Poda de formação 138
Poda de manutenção 140
Poda de segurança 141
Diretrizes e critérios de poda por espécie 141
Remoção e replantio 147
Monitoramento 149
X
Sumário
Conhecendo e avaliando
a arborização 165
Quantidade e distribuição da
arborização 165
Qualidade da arborização 172
Bases metodológicas para
avaliação' da arborização de ruas 175
Avaliação econômica ou
monetária 183
Consolidando e administrando
políticas de arborização 193
Legislação e políticas 194
Administração 199
x_i
INTRODUÇÃO
A
s cidades, hoje, já abrigam mais ou
menos a metade da população do
planeta e, em vários países, entre os
quais o Brasil, mais de 3/4 da população.
Tanto por este motivo, a concentração
populacional, quanto pela forma como
surgem, crescem e são organizadas, as cida
des tornam-se também, de maneira geral, o
ponto extremo da escala de interferência
humana nos sistemas naturais.
Estabelecidas para facilitar a vida humana,
concentrando serviços e gerando oportuni
dades, as cidades transformaram-se e repre-
sentam; muitas vezes, contradição à
qualidade de vida. Suas gstruturas -
redes viárias, espaços residenciais,
áreas de serviços e industriais, espa
ços institucionais e áreas livres - nem
sempre constituem referenciais e ,
mais ainda, nem sempre são orgâ
nicas e funcionais.
Sem dúvida, as cidades não são
todas iguais. Entretanto, geralmente
possuem, se não todos, vários
elementos e características em co-
mum: sistema viário (estruturado ou não);
Figura 1.1 - Rio de Janeiro espaços residenciais; espaços comerciais e de
(RJ), vista aérea da praia de serviços; espaços industriais; espaços livres
Copacabana, Zona Sul (Foto
ou abertos.
Nilo Lima, s/d).
São a localização e as características naturais
do espaço, o porte das cidades, a cultura das
populações locais, os conhecimentos
Arborização de lias Públicas
tecnológicos disponíveis e as posturas
político-institucionais das administrações
públicas que determinam a forma de or
ganização desses espaços urbanos e, por
conseguinte, as marcas de individualidade
e personalidade locais.
A cidade construída é, portanto, a expressão
de valores da sociedade, onde o social se
inter-relaciona com a estrutura física, deter
minando conteúdo e significado; ou seja, a
expressão física da cidade não é senão a
somatória das diferentes práticas sociais
desenvolvidas através dos tempos (BALESTRA
& RIGATTI, 1986).
As práticas sociais,
especialmente no
que se referem ao
processo econômi
co e tecnológico,
vêm imprimindo
também, de ma
neira generalizada,
uma marca especial
no meio urbano, o
desrespeito à base
de sustentação
natural e , como
Figura 1.2- A cidade pode
conseqüência, ambientes ecologicamente de
ser d e s c r i t a como u m
sequilibrados.
dragão gigantesco e famin
to, devorador de energia,
Ao contrário dos ambientes naturais, as
ágoa e outros recursos e
cidades apresentam artificialidades, como excretor de polu ição
forte impermeabilização do solo, abun (HARDT, 1994).
dância de materiais altamente refletores,
absorventes e transmissores de energia,
2
Introdução
excessivo consumo de energia e matéria, com
correspondente geração de resíduos, polui
ção atmosférica, hídrica, sonora e visual, além
de reduzida cobertura vegetal. Tais caracte
rísticas, afetando negativamente o ambiente
urbano, interferem também negativamente na
qualidade de vida das suas populações
(MILANO, 1991).
Além disso, independentemente de ser
origem ou conseqüência das características
consideradas, a percepção do "urbano"
ainda não se dá, correntemente, da forma
mais produtiva. Segundo BUSARELLO ( 1990),
o tratamento da questão
urbana, ao se verificar de
forma u n i v e r s a l iz a n t e ,
niveladora e com modelos
originários de estruturação
física, é excessivamente
parcial na definição de pa
drões, privilegiando apenas
os aspectos quantitativos do
espaço na cidade.
Desta forma, segundo MOHR
( 1985), o conhecimento das
diversas características e do significado dos
Figura 1.3 - Rio de Janeiro (R.l),
vista panorâmica do centro da
espaços livres e públicos da cidade, assim
cidade (Foto Nilo Lima, s/d). como das relações entre seus componentes,
é imprescindível para a criação do espaço
urbano ou para a sua modificação.
Analisadas tais características, é fundamental
considerar com a devida profundidade a
observação de BUSARELLO ( 1990), para
quem a imagem dos centros urbanos não é
3
Arborização de vías Públicas:
dada somente pelas construções, mas também
pelo conjunto de espaços construídos e espa
ços abertos. Este autor considera , ainda ,
que é nos espaços abertos, pela riqueza
de suas funções, que está a possibilidade
de recomposição do equilíbrio ambiental
que a urbanização vem infringindo.
Figura 1.4 - Rio de Janeiro (RJ), vista aérea
panorâmica da praia de Copacabana e de
morros, ainda com florestas (Foto Nilo Lima,
s/d).
Assim, conhecer e analisar as estruturas das
cidades e suas funções, através das óticas
econômica, social e ambiental, é pré-requisi
to básico ao planejamento e administração
urbanos, no sentido de aprimorá-los. Por sua
vez, tratar de espaços abertos e vegetação
no contexto urbano é tratar da própria cida
de e suas estruturas.
P roblemas de diferentes ordens, em es
pecial relacionados a questões ambientais,
constituem preocupação constante no
planejamento e administração das cidades.
Nesse contexto, e pelos seus próprios
4
Introdução
objetivos, a arborização urbana assume
importância particular.
No Brasil, entretanto, alguns importantes
aspectos da arborização urbana têm sido
tratados como mitos, o que tem dificultado
a evolução técnica do setor. Um desses
mitos é a considerada definitiva incompati
bilidade entre árvores e redes aéreas, a
respeito do que os manuais técnicos de
arborização urbana brasileiros são todos
decisivos: sob redes elétricas, ou são
plantadas espécies arbóreas de pequeno
porte (arvoretas), ou não se planta nada
(SARTOR I NETO, 1984; CESP, 1988; CEMIG,
s.d.; COD I, 1990).
É bem verdade que
vários e significativos
podem ser os proble
mas causados pelas
á r v o r e s às redes
elétricas aéreas. Mas
também são muitos e
significativos os pro
blemas causados
pelas redes elétricas
às árvores urbanas,
especialmente pela
manutenção que re
Figura 1.5 - Maringá (PR), um cebem, tanto que têm sido motivo de busca
esforço para compatibilização de solução nos mais diferentes lugares, como
entre árvores e redes elétricas
bem demonstram artigos de CHAPMAN
aéreas (Foto Takahashi, 1988).
(1982), YAU (1982), JOHNSTONE (1983),
MILANO (1984; 1988), FUPEF (1992); COPEU
FUPEF/PMC (1994) e GOODFELLOW (1995).
Além disso, sempre foi imposta a todos, im-
5
Arborização de J:ias Públicas
plícita ou ex plicitamente, a indevida
obrigação de escolher entre energia elétrica
(indispensável) e árvores (dispensáveis ?).
Por isso tudo, talvez, muitos técnicos tenham
assimilado esse mito como uma verdade
e, assim, desistido de estudar melhor a
situação ou de simplesmente observá-la de
maneira mais crítica. A realidade, entretanto,
é bastante diferente. Pressões da população
- cada dia mais informada de que energia e
árvores íntegras não são coisas excludentes -,
legislação ambiental disponível e Ministério
Público ativo, algum apoio político e certa
dose de pioneirismo de algumas companhias
do setor elétrico estão, finalmente, determi
nando o fim do mito.
Além de emblemática, a concepção mítica
do conflito entre árvores e redes aéreas,
porque mais visível, é válida para todos os
possíveis conflitos entre árvores e estruturas
urbanas. Danos resultantes da ação das raízes
sobre o pavimento dos passeios, meio-fio,
estruturas de construções ou redes subter
râneas, bem como problemas de entupimentos
de calhas ou redes pluviais decorrentes do
acúmulo de folhas de árvores são sempre
considerados problemas provocados pelas
árvores, não se levando em conta se a espécie
está adequada ao local, se o plantio foi de
vidamente planejado e se são realizadas as
atividades de manutenção requeridas.
Parte desses problemas pode ser explicada
pela indisponibilidade ou inacessibilidade de
tecn ologias em diferentes momentos da
6
Introdução
história mais recente do país, coinciden
temente com períodos de rápida urbanização.
A geração de informações e conhecimentos
em arborização urbana no Brasil, decorrente
da pesquisa aplicada, embora tenha contado
com a expressiva colaboração de HOEHNE
( 1 944) e KRUG ( 1 953), além de contribuições
isoladas, como as de SOUZ A ( 1 9 6 9 ) e
MIRANDA ( 1 970), teve um desenvolvimento
técnico-científico inexpressivo até 1 985,
quando, com a realização do I ENAU -
Encontro Nacional sobre Arborização Urbana
- em Porto Alegre, houve um verdadeiro
renascimento do setor.
Como pode ser observado, foi no período
em que o Brasil sofreu seu mais agressivo e
descontrolado processo de urbanização e
industrialização, compreendido
do pós-guerra a meados dos anos
8 0 , q u e menos se p r o d u z i u
c o nhecimento e informação
técnica em arborização no país,
quer quantitativa, quer qualitati
vamente. Entretanto, deve-se
também considerar que, pouco
mais. de uma década e cinco
significativos eventos depois,
foi conseguida uma recupera
ção muito expressiva do terreno perdido.
Figura 1 . 6 - Rio de Janeiro Não há risco nem prepotência em afirmar
(RJ) , v ista p a n o râ m ica do
que hoje se produz no País conhecimento e
A t e r ro d o Fla m e n go, u m
d e s ta q u e p a i s a g ís t i c o d a
informação técnica, em vários campos da
ci dade (Foto Nilo Lima, s/d) . arborização urbana, no mesmo nível quali
tativo dos centros mais avançados.
É dentro desse contexto que podem ser
observados dois outros mitos que se
7
Arborização de 11as Públicas
sobre põem: o da auto- suficiência do
conhecimento e o da i n e x istência de
conhecimento e tecnologia próprios ou
nacionais. Em geral, os responsáveis pela
arborização das cidades comportam-se como
auto-suficientes, escudando-se nos mais
diferentes argumentos para resistir à aplicação
de novos conhecimentos, atormentados pela
idéia de que, ao aceitar uma nova ordem,
estejam admitindo que executavam, até
aquele momento, procedimentos errados.
Isso, embora possa ser justificável, não é
aceitável e decorre,
principalmente, do
fato de grande parte
desses novos conhe
cimentos estar sendo
gerada nas universi
dades e centros de
pesquisa, portanto,
fora das burocracias
e. tecnocracias muni
cipais. Essa situação
poderá ficar como a
marca de uma época
e talvez seja necessário
esperar esta geração de técnicos impermeável Figura 1 . 7 - Lisboa (Portugal),
a mudanças ser substituída por uma mais Vista panorâmica destacando
a Região central e antiga da
nova, que só agora está iniciando a conquista
Cidade, onde características
de posições, para que ocorra a efetiva urban isticas, arquitetôn icas e
incorporação de novas práticas ao dia-a-dia h i s t ó r i a s fa z e m com q u e
da arborização (MILANO, 1 996). sejam raras a s árvores (Foto
Mi/ano, 1 991 ) .
I númeras vezes os problemas e falhas
existentes na arborização são atribuídos à
falta de planejamento ou a planejamento
8
Introdução
i n a d e q u a d o, questionando-se ou
desconsiderando-se seu valor intrínseco.
Quantos, entretanto, se dão ao trabalho de
uma análise mais séria e profunda sobre
planejamento e sobre o valor das árvores e
da arborização? Essas são questões genéricas
que também têm seu lado "mítico", uma vez
que não são todos os problemas da
arborização que decorrem do processo de
planejamento e que a arborização tem valores
intrínsecos próprios, atribuídos pelos
beneficiários - os habitantes urbanos - ,
independentemente da sua qualidade técnica.
Nesse sentido, primeiramente, é importante
entender planejamento como um processo
contínuo de organização de
ações futuras visando alcançar
objetivos previamente defini
dos, e não como um fim em si
mesmo; ou seja, o planejamen
to constitui apenas u m m o
mento d a dinâmica planejar
=> executar => controlar => ana
lisar => (re)planejar =:> . . . Assim,
além de tratar do futuro, o pla
nejamento deve definir ações e
Figura 1.8 - Maringá, (PR) e identificar agentes para executá-las (MILANO,
a verdejante arborização que 1987). Mas, como não é dado a ninguém
rodeia e se entremeia com o predizer o futuro, o planejamento é realiza
centro da cidade (Foto PM.M. ,
do com base em tendências, cuja acurácia
1998).
decorre da adequada análise de informa
ções do passado e da qualidade dos dados
que elas originam ou nos quais têm origem.
Cabe, então, questionar quanto dos erros
de planejamento na arborização não é
9
Arborização de ifas Públicas
simplesmente d e c o r r e n t e da falta d e
execução d e certas ações previstas, da falta
de registro e controle de processos, ou da
falta de replanejamento d ecorrente da
adequada avaliação e análise de dados
registrados.
No que diz respeito ao valor da arborização,
está a questão do quanto a população
urbana se dispõe a pagar por ela , inde
p e n d e n t e m e n t e d o seu c us t o o u do
conhecimento que se tenha dele . Nesse
particular, cabe afirmar que o valor atribuído
à arborização está associado, basicamente,
aos benefícios auferidos , sejam estes
mensuráveis ou não. Por fim, como já visto, as
árvores têm valores intrínsecos, atribuídos
pela população, que podem ser identifica
dos por diagnósticos adequados e utilizados
no planejamento e manejo da arborização.
É impor tante que tais valores sejam re
c o n h e c i d o s e ampli ad o s , q u e r como
r e t r i buição a q u e m p a g a o c u s t o d a
existência d a arborização, o u seja, o cida
dão contribuinte , quer como meio de
simples valorização e, consequentemente,
maior defesa e proteção das árvores frente à
população (MILANO, 1996 ) .
LO
Introdução
Literatura Citada:
BALESTRA , M. I. M. de & RIGATTI , D .
Proj etando a cidade . Recontextualizar :
um pressuposto para a articulação das
partes com o todo. l n : DESENHO UR
BANO (Seminário sobre Desenho Urbano
no Brasil, 2 . ) . Anais, 1 986. p.51-58.
BUSARELLO, O. Planej amento urbano e
arborização. ln: ENCONTRO NACINAL
SOBRE ARBORIZAÇÃO URBANA, 3 . ,
Curitiba, 1 990. Anais . p.54-59 .
CEMIG - Centro de Coordenação de Progra
mas Ecológicos. Manual de arborização .
Belo Horizonte, IEF, s.d. 22p.
CESP - Companhia Energética de São Paulo.
Guia de arborização . 3 .ed. São Paulo,
1 988. 33p . ( Coleção Ecossistemas Ter
restres, 006 ) .
CHAPMAN, R. L. Toe public utilities and trees.
Arboricultural Joumal, 6:205-209, 1 982 .
CODI Comitê de Distribuição. Coexistência
dos sistemas elétricos de distribuição e
arborização. Proj eto SCOM . 3 7 , Rela
tório SCOM.37.02, Rio de Janeiro, 1 990.
COPEL - Companhia Paranaense De Energia,
FUPEF - Fundação De Pesquisa Florestais
Do Paraná & PMC - Prefeitura Municiopal
De Cascavel . Diagnóstico básico da
arborização de ruas de C a s c avel
(PR) com vistas ao planejamento da
li
Arborização de nas Públicas
poda para desobstrução da rede de
di stribuição de energi a . Curitiba,
1994. 2 vol.
FUPEF - Fundação de Pesquisas Florestais do
Paraná. Diagnóstico básico da arbo
rização de ruas de Apucarana com
vistas ao pia nejamento da poda para
desobstrução da rede de distribuição
de energia. Curitiba, 1992 . 2 v.
GOODFELLOW, J . W. Engineering and
construction alternatives to the line clearance
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Arborização de Was Públicas
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14
ASPECTOS HISTÓRICOS
DA ARBORIZAÇÃO
A
utilização de árvores como elemento
componente do meio urbano não é
recente. A importância estética e até
espiritual das árvores foi registrada na
história da civilização pelos egípcio s ,
fenícios, persas, gregos, chineses e romanos.
Compondo jardins e bosques sagrados,
destacando e emoldurando templos , o
uso de árvores determinou conhecimentos
r u dimentares sobre as mesmas e s u a
manutenção (BERNATZKY, 1 980).
Tais conhecimentos foram desenvolvidos e
aprimorados na I dade Média com o
surgimento de jardins botânicos, que davam
ênfase a espécies com valor medicinal. Com
a Renascença, num empreendimento cien
tífico, o homem passa a buscar e cultivar
espécies trazidas de outras regiões, que
eram colecionadas e exibidas em j ardins
botânicos do Velho Mundo. O ato de cul
tivar espécies exóticas também proporcionou
um considerável avanço nas formas de
cultivo e manutenção das árvores.
Esses conhecimentos todos foram sendo
solidificados, mas foi apenas por volta de
1 700 que as árvores passaram a ser objeto
de estudos científicos mais apropriados nos
jardins botânicos de todo o mundo. Sua
presença nas cidades, então, como elemento
de composição urbana, passou a ser cada vez
mais marcante.
15
Arborização de nas Públicas
Finalmente, as árvores selaram sua presença
nas " urbes" por volta de 1 800, com os
sq u a res de Londres e os bo u le v a rds de
Paris, seguindo até os dias de hoje como
componentes obrigatórios do ambiente
urbano ( GREY & DENEKE, 1978 ) .
O início do tratamento político e legal da
questão, por sua vez, data do final do século
passado, quando importantes medidas de
proteção das árvores públicas contra danos
físicos, por meio de multas, foram
estabelecidas nos Estados Unidos ( GREY &
DENEKE, 1978) . É de 1901, por exemplo, o
estabelecimento do chamado "Método Roth"
de avaliação de árvores, na Universidade de
Michigan, conforme DETZEL ( 1 993 ) . Data
também do início do século, mais especifica
mente de 1 9 1 0, a obra The care of trees: in
la w n , street a n d park, uma significativa
publicação técnica de mais de 300 páginas
sobre o assunto elaborada por FERNOW
( 1 910), diretor da faculdade de florestas de
Toronto, Canadá.
No Brasil, pinturas e desenhos de Franz Post,
retra tando mudas rec é m - plantadas de
coqueiros, no final da década de 1 630
(MESQUITA, 1 996), revelam o tratamento
urbanístico da cidade do Recife, confirmando
a prática da arborização de ruas. No fim do
período colonial, no século XVIII, os jardins
públicos aparecem como reflexo do
iluminismo e da expansão dos maiores
centros urbanos, cumprindo um duplo papel
de lazer e pesquisa. Como um dos primeiros,
entregue em 1 783, o Passeio Público do Rio
16
Aspectos históricos da arborização
de Janeiro deu início a uma série de outros,
entre os quais os de Belém, Olinda, Vila Rica
e São Paulo ( GOYA, 1 992 ) .
Em São Paulo, além da experiência pioneira
do Jardim Botânico e do Passeio Público, as
árvores apareceram primeiramente nas
praças, sendo somente na segunda metade
do século XIX utilizadas na arborização de
ruas, ainda que muitas vezes pela mão de
particulares, como no caso da Avenida São
Luiz, aberta e arborizada com jacarandás
mimosos, pelo Barão de Souza Queiroz.
Atualmente, a arborização das cidades é
estratégica, quer como resposta às condições
ambientais adversas, quer como elemento
estético da paisagem urbana, buscando
sua compatibilização com os projetos de
renovação do tecido urbano.
Arborização da Cidade do Rio de
Janeiro
Os primeiros traçados urbanos do Rio de
Janeiro datam de meados do século XVI,
com a abertura de ruas entre os morros do
Castelo e de São Bento e o mar. Com a
consolidação da cidade como centro comer
cial, já no século XVIII, as estradas começam
a ficar movimentadas, proporcionando a
conquista de novos espaços, multiplicando-se
as habitações, capelas e pequenos povoados.
Nesse período surge um dos primeiros
jardins públicos construídos no Brasil, o
Passeio P úblico, obra encomendada a
Valentim da Fonseca e Silva, mais conhecido
17
Arborização de Was Públicas
como Mestre Valentim, com a finalidade
de proporcionar um "jardim de prazer" à
população, em substituição a uma lagoa ali
existente ( Lagoa Boqueirão da Ajuda ) .
O serviço de arborização pública no Rio de
Janeiro teve como marco inicial a criação,
em 1 808, do Real Horto (atual Instituto
de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de
J aneiro - M MA ) , com a finalidade de
aclimatação e cultivo de especiarias vindas
da Índia. As primeiras mudas plantadas -
jaqueiras, abacateiros, fruta-pão, cajá-manga,
dentre outras -, foram doadas por Luís
Abreu Vieira e Silva ao Príncipe Regente .
Na ocasião, encantado pela elegância da
palmeira-imperial (Roystonea oleracea) , o
próprio D . João fez questão de, pessoal
mente, plantar a muda que viria a ser a
matriz de tantas outras espalhadas pelo
País, ficando, por isso, conhecida como
Palma M a ter. Na c i d a d e , os m a i o r e s
disseminadores de suas sementes foram
os escravos que, ao invés de queimá-las
conforme ordens do então administrador
do Horto, vendiam-nas por 1 00 réis cada
uma . Já na qualidade de rei do Brasil,
Por tugal e Algarves, D. João VI instituiu
medalhas, recompensas e isenção alfande
gária a quem impor tasse sementes para
plantio. Porém só a partir de 1 822 é que a
visitação da área, até então privilégio da
corte, foi aber ta ao pú blico em geral .
Desde então muitas mudas foram " espa
lhadas" pela cidade, algumas das quais até
hoje permanecendo no local de plantio,
18
Aspectos históricos da arborização
como a jaqueira plantada em 1 82 5 pelo
frei Leandro do Sacramento no Jardim
Botânico, a amendoeira gigante do Passeio
P úblico, plantada em 1 860, e a figueira
(Ficus religiosa) do passeio da Santa Casa
de Misericórdia.
O fato, porém, que impulsionou definiti
vamente a arborização pública no Rio de
Janeiro foi a chegada à cidade, em 1 860,
do arquiteto francês Auguste Marie Glaziou,
contratado por D. Pedro II para reformar o
Passeio Público. Já então na condição de
Diretor dos Parques e Jardins da Casa
· Imperial (embrião da atual FuFldação Parques
e Jardins), foi também
responsável pelos pro
jetos da Q u i n t a d a
Boa Vista e do Campo
de Santana. Nesses
espaços, merece desta
que a utilização de
inúmeras espécies da
flora nativa, de um
modo especial as
sapucaias (L e c y t h is
pison is) que até hoj e
emolduram o acesso
principal da Quinta da
Boa Vista.
Sem dúvida, os trabalhos de Glazióu consoli
Figura 2. 1 - Rio de Janeiro
(RJ), perspectiva da avenida daram a utilização de grandes árvores
Rio Branco, por volta de 1910, como elementos de impor tância no
(Foto arquivo da cidade do Rio paisagismo público, tanto que em 1 86 9 e
de Janeiro). 1 8 7 4 foram estabelecidas regras para
plantios em ruas. Em 3 de março de 1 882,
19
A rborização de Vias Públicas
a Diretoria de Obras Municipais da Corte
normatizou a arborização das ruas Bambina
e D. Carlota, em Botafogo; São Cristóvão
e Figueira de Mello, em São Cristóvão; e
Hadock Lobo, na T ijuca . Dentre outras
normas, destacam-se o estabelecimento
do espaçamento de 7 m entre árvores, a
altura mínima de 3 m para as mudas, a
obrigatoriedade de utilização de protetores
e a melhoria do substrato de plantio.
Figura 2.2 - Rio de Janeiro (RJ), Avenida Rui
Barbosa por volta de 1922, com arborização
recém implantada (Foto arquivo da cidade do
Rio de Janeiro).
Com o advento da República, a cidade colonial
começou a tomar contornos de cidade
moderna, vivendo um período acelerado
de urbanização. Novas vias de acesso foram
abertas, praças foram implantadas e o serviço
de arborização pública foi acelerado, com
destaque para a administração de Francisco
Pereira Passos, que apenas no ano de 1910
20
Aspectos históricos da arborização
plantou 1 . 772 novas mudas em vias públicas.
Algumas delas, resistindo a todas as interven
ções posteriores, permanecem até hoje como
marco vivo daquela época, podendo ser
citados os oitis da Av. Mem de Sá e da Av.
Rio Branco, os tamarineiros do Grajaú e as
amendoeiras da Urca - sendo estes dois os
primeiros bairros inteiramente planejados da
cidade. Essa fase de expansão
urbana é marcada pela harmonia
entre a paisagem natural e a
edificada, entre a arborização
das ruas e jardins residenciais e
os morros e o mar, conforme
testemunham fotos do início do
século.
Com o surgimento da luz elétrica
e com a expansão da oferta dos
serviços de abastecimento de
Figura 2.3 - Rio de Janeiro água, coleta de esgoto e teleco
(RJ) , v ista da a rborização municações, um complexo sistema de cabos,
da A v e n ida Rui B a rbosa galerias e dutos toma conta do ar e do
por volta de 1960, (Foto ar subsolo. A rede aérea de energia passou a
quivo da cidade do Rio de interferir de forma decisiva no plano de
Janeiro) .
arborização da cidade . Na seqüência, com
o advento da era "desenvolvimentista" e da
explosão imobiliária na década de 60 (a
explosão imobiliária em Copacabana, foi na
década de 50) houve a perda dos jardins
privados e a impermeabilização do solo e
o patrimônio de áreas verdes da cidade
ficou cada vez mais restrito à arborização
de ruas, praças, parques e maciços florestais .
21
Arborização de J-ías Públicas
Literatura Citada:
BERNATZKY, A. Tree ecology and pre
servation . 2 ed. Amsterdam . Elsevier,
1 980. 357p.
DETZEL, V. A. Avaliação monetária e de
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279p.
MESQUITA, L. B. Memórias do verde urbano
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SOBRE ARBORIZAÇÃO URBANA, 3 .
Anais, Salvador, 1 996 . p . 60-70.
22
POR QUE ARBORIZAR
AS CIDADES?
OBJETIVOS E BENEFÍCIOS
1
DA ARBORIZAÇÃO
ndependentemente dos estudos acadêmicos
voltados para definir os objetivos benfícios
da arborização, responder a essa questão
significa avaliar conceitos de difícil
quantificação e mesmo qualificação. O "bem
estar", a significância histórica e cultural e os
aspectos psicológicos da comunhão do ser
humano com a natureza são alguns desses
conceitos.
Contudo, alguns aspectos da arborização ur
bana podem ser mensurados, avaliados e
monitorados, caracterizando benefícios e,
conseqüentemente, objetivos que passam a
ser estabelecidos no planejamento.
Estabilização e melhoria
microclimática
Elementos climáticos como a intensidade de
radiação solar, a temperatura, a umidade
relativa do ar, a precipitação e a circulação
do ar, entre outros, são afetados pelas
condições de artificialidade do meio urbano,
tais como as características de sua superfície,
o suprimento extra de energia, a ausência de
vegetação, a poluição do ar e as características
dos materiais e edificações (BERNATZKY, 1980) .
Em grande parte responsável pela sensação
de conforto ou desconforto do homem, a
23
Arborização de Was Públicas
ação dos elementos climáticos, isolados, em
interação ou mesmo sinergia, é alterada nos
centros urbanos. Embora uma árvore sozinha
não afete muito sua vizinhança em termos
climáticos, grupos de árvores ou mesmo
muitas árvores espalhadas podem ser muito
eficien tes na melhoria microclimática,
contribuindo assim para a condição humana
de conforto ( G REY & DENEKE, 19 78 ;
SCHUBERT, 1979).
Figura 3. 1 - As plantas refletem, absorvem e
transmitem radiação e, através da fotossíntese,
também fixam energia, influenciando as condições
locais de temperatura (Ilustração Carlos M. S. de
Silva, 1 998, baseado em GREY & DENEKE, 1 9 78) .
24
Objetivos e benefícios da arborização
Como a temperatura na sombra é apenas
poucos graus mais baixa do que ao sol, a
sensação pessoal de conforto à sombra
deve-se ao fato de não haver aquecimento
provocado pela radiação solar direta
(HE ISLER, 1 9 74), visto que a temperatura
interna ótima do corpo humano é de 37 ° C,
e ganhos ou perdas superficiais de energia
em relação a esse ótimo implicam e m
sensação de desconforto. Nesse sentido, a
contribuição das árvores como protetoras é
significativa: as árvores e outros vegetais
interceptam, refletem, absorvem e transmitem
radiação solar, melhorando a temperatura
do ar no ambiente urbano. No entanto, a
eficiência do processo depende das caracte
rísticas da espécie utilizada, tais como forma
e tamanho da folha, densidade foliar e tipo
de ramificação ( GREY & DENEKE , 1978).
A influência das árvores sobre a temperatura
do ar também pode se verificar pela
evapotranspiração. Uma árvore isolada pode
transpirar aproximadamente 380 litros de
água por dia, resultando num resfriamento
equivalente ao de 5 aparelhos de ar condici
onado médios (2500 kcal/h) em funciona
mento durante 20 horas por dia ( GREY &
DENEKE, 1978; SCHUBERT, 1979). Obviamente,
como o ar junto às árvores está em contato e
equilíbrio térmico com as massas de ar
vizinhas, árvores isoladas têm efeito térmico
restrito no meio urbano, ao passo que
maciços arbóreos ou conjuntos de árvores
distribuídos pela cidade podem ser muito
efetivos. Dados apresentados por LOMBARDO
( 1 990), por exemplo, indicam diferenças
25
Arborização de Was Públicas
térmicas de até 1 0 ºC entre áreas bem
arborizadas na periferia rural e mal
arborizadas no centro da cidade de São Paulo.
Temperatura U m idade
35,5 ºC 33%
----- 35,0 ºC 35%
----- 33,9 ºC 32%
33,6 ºC 35%
33,3 ºC 33%
21 ,7 ºC 87%
F igura 3.2 - Efeitos de maciços arbóreos n as
condições de temperatura e umidade relativa do ar
(Ilustração Carlos M. S. de Silva, 1 998, baseado
em GREY & DENEKE, 1 978).
O vento também afeta o conforto humano e
seu efeito pode ser positivo ou negativo, de
pendendo grandemente da presença ou não
de vegetação urbana. No verão, a ação do
vento, retirando as moléculas de água trans
piradas de homens e árvores, aumenta a
evaporação e, consequentemente, a sensa
ção de conforto térmico. No inverno, signifi
ca um aumento do resfriamento do ar, visto
que uma temperatura de 7 ºC combinada
com um vento de 1 6 km/h implica numa
temperatura efetiva de O °C, de acordo com
a aplicação de "índice de resfriamento pelo
vento", constitui um fator de desconforto
(HEISLER, 1974) que pode ser amenizado
com o posicionamento adequado de árvores
no espaço urbano.
26
Objetivos e benefícios da arborização
Ação das árvoresna redução da
poluição
Poluição atmosférica
A atmosfera tem recebido agentes
contaminantes de processos naturais, como
vulcanismo e incêndios de grandes proporções,
desde a formação da Terra, cerca de 4,6
bilhões de anos atrás. Entretanto, processos
naturais na atmosfera e na biosfera reduzem
e removem esses contaminantes através da
diluição, precipitação, filtragem e reações
químicas.
Quando as atividades humanas superam a
capaci dade dos processos naturais de
remover ou reduzir os contaminantes, a
poluição do ar se torna um problema, con
forme ocorre nas cidades. Estas, via de regra,
se caracterizam por serem ambientes
ecologicamente desequilibrados, em função
do excessivo consumo de energia e matéria,
com correspondente geração de poluição
atmosférica.
As ár vores no ambiente urbano, segundo
SMITH & DOCHINGER (1976) , têm conside
rável potencial de remoção de partículas e
gases poluentes da atrnosfera. As folhas das
árvores podem absorver gases poluentes e
prender partículas sobre sua superfície ,
; especialmente se forem pilosas, cerosas ou
espinhosas. No entanto, a capacidade de
retenção ou tolerância a poluentes varia
entre espécies e mesmo entre indivíduos da
mesma espécie (SCHUBERT, 197 9) .
27
Arborização de liías Públicas
Segundo LAPOIX ( 1 97 9), cortinas vegetais
experimentais implantadas em plena cidade
parecem capazes de diminuir em 10% o teor
de poeira do ar. Os efeitos da vegetação
sobre poeiras e partículas devem ser
considerados sob dois aspectos: o efeito
aerodinâmico, dependente de modificações
na velocidade do vento provocadas pela
vegetação, e o efeito de captação das diversas
espécies vegetais. Em estudos sobre a capa
cidade de captação de partículas poluentes
pelas plantas lenhosas, Keller 1 , citado por
JENSEN et alii (1976 ), estimou em 68,2 e 3 1 , 0
toneladas d e p ó por hectare a ação de
remoção de Fagus sp. (faia) e Picea sp .
(abeto-vermelho), respectivamente. Graefe
& S c huetze 2 , citados por BERNATZKY
(1980), mediram na periferia da cidade de
Hamburgo, caracterizada na época por
ausência de arborização, uma precipitação
de partículas sólidas superior a 850 mg/m2/dia,
enquanto nos parques arborizados da
cidade a precipitação de partículas sólidas
era menor que 1 00 mg/m2/dia. Esse efeito
de filtro para partículas sólidas depende de
propriedades físicas, químicas e fisiológicas
das espécies.
Quanto aos poluentes químicos, diversos
estudos e observações têm sido efetuados.
Apesar de comprovado o efeito benéfico das
árvores na redução ou atenuação de gases
:
1 KELLER, T. Auswirkungen der Luftverunreinigungen auf die
Vegetation. Stadtehygiene, 22: 130-136, 197 1 .
2
GRAEFE, K . & SCHUETZE, W. Staubniederschalgmessungen
mil 230 Bergerhoff-Geraeten. Staedtehygiene, Heft 8, 1966.
28
Objetivos e benefícios da arborização
AR
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1
.
TORNO DAPl.:AN'íA -.
'. ' � -
Figura 3.3 - Como a vegetação
age na redução d a p o l u i
ç ã o a t m o sfé r i c a (Il ustração poluentes, os mecanismos envolvidos nesse
Carlos M. S. de Silva, 1 998, processo ainda não são bem compreendidos.
baseado em GREY & DENEKE, Entretanto, quatro diferentes processos de
1 978) .
atenuação da poluição gasosa pelas plantas
podem ser, em prin c íp i o , considerados :
filtragem ou absorção, oxigenação, diluição
e ox i d a ç ã o ( G REY & DENEKE, 1 9 7 8 ;
BERNATZKY, 1 980 ) .
1.APOIX ( 1 979) informa que diferentes estudos
vêm ide ntificando sempre novos aspectos
sobre a ação dos vegetais, particularmente
no caso do dióxido de e nxofre (S0 2 ) , do
ozônio ( 03 ) e do flúor (F) , indicando que
dete r m i n ados vegetais têm u m a grande
capacidade de filtragem desses compostos
29
Arborização de '/,fas Públicas
químicos, na medida em que a poluição não
se faça sentir em nível permanentemente
tóxico. GREY & DENEKE (197 8) acreditam
que os vegetais cumprem um importante
papel na redução da poluição do ar através
de processos de oxigenação (introdução de
excesso de oxigênio na atmosfera) e diluição
(mistura do agente poluente com o ar fresco).
BERNATZKY (1980) , citando Ruge (1972)3 ,
sugere que gases como S02 , CO e óxidos de
nitrogênio, em concentrações subletais, po
dem ser neutralizados por oxidação através
do metabolismo das plantas.
Poluição sonora
O ruído é definido como um som excessivo
e indesejado. Especialistas nessa área se
referem a ele como a "poluição invisível". O
ruído envolve aspectos físicos e psicológicos,
estando os primeiros relacionados com a
transmissão de ondas sonoras através do
ar, e os outros, com as respostas humanas
ao som.
O excessivo barulho nas cidades, provocado
pelo tráfego, equipamentos, indústrias e
construções, interfere na comunicação, lazer
e descanso das pessoas, podendo afetá-las
tanto psicológica como fisicamente. Para
REEfHOF & HEISLER (1976) , é freqüentemente
possível o uso complementar de árvores para
o abatimento do ruído e a melhoria do
aspecto visual das cidades, enfatizando-se a
3 RUG E, U. Bedeutung der Baume im Stadtbegleitgrue n der
Grosstaedte. Gartenamt, 2 1 ,p. 267-2 7 1 . 1972.
30
Objetivos e benefícios da arborização
apropriada uniao desses dois aspectos
positivos das árvores.
r-1 ..1
'-,
_r
:" '
Figura 3 . 4 - Utilização das
árvores como atenuadoras Segundo G REY & DENEKE ( 1 978), citando
de ruído urbano (Ilustração
Embleton ( 1 963) 4 e Robinette ( 1972) 5 , a
Carlos M. S. de Silva, 1998,
baseado em GREY & DENEKE, interferência da vegetação sobre o som pode
19 78). se dar por absorção, deflexão, reflexão e
refração. A absorção das ondas sonoras se
dá pelas partes delgadas e flexíveis de arbustos
e árvores, tais como folhas, ramos finos e
galhos, enquanto que a deflexão e refração,
pelos r a m o s mais grossos e tronc o s .
4
EMBLETON , T. F. W. Sound Propagation i n Homogenous,
Decibuous, and Evergreen Woods. J. of the Acoustical
Society of America, 33. 1 963 .
5
ROBINETTE , G . O. Plants People and Envlronmental
Quality. USDI - National Park Service , 1 40p . , 1 9 7 2 .
31
Arborização de Was Públicas
Esse autor demonstra ainda haver estimativas
de que, em média, as florestas podem
reduzir ruídos a taxas de 7 dB por 30 m de
distância em freqüências de 1 .000 Hz ou
menos; bem como que o uso das árvores e
arbustos na redução de ruídos é muito
promissor, com atenuações médias da ordem
de 5 a 8 dB, podendo chegar a 1 0 dB para
cinturões densos de plantio com árvores
altas. Segundo BERNATZKI ( 1980), o máximo
efeito de redução de ruído pelas plantas está
em to_rno de 1 0 dB, particularmente entre as
freqüências de 1 . 000 e 1 1 .200 Hz.
Admit e - se também atualmente que as
florestas, cercas vivas ou cortinas de árvores
têm muito de sua ação atenuadora de ruído
dependente da superfície foliar. Outras
características das plantas, variáveis de
acordo com as espécies, como por exemplo
forma, consistência, textura e indumento
das folhas, também são determinantes na
atenuação dos ruídos. É preciso considerar,
ainda, que o efeito protetor varia de acordo
com a freqüência dos sons, com a posição
das árvores em relação à fonte emissora, com
a estrutura e composição dos plantios e com
a estação do ano ( LAPO IX , 1 9 7 9 ) . Nesse
aspecto, R E E THOF & HE IS L E R ( 1 9 7 6 )
consideram que densas coberturas do solo
com árvores e arbustos podem ser usadas
com eficiência na redução do nível de ruído.
S CHUBERT ( 1 9 7 9 ) também indica que
cinturões de árvores adequadamente
projetados são uma solução contra o barulho
das rodovias.
32
Objetivos e benefícios da arborização
HERR INGTON ( 1 974), por sua vez, embora
também aponte os vegetais como capazes de
diminuir a reverberação do som em ruas e
outros espaços, observa que o efeito das
árvores e outras plantas como protetoras
contra o ruído é mais importante psicológica
do que fisicamente.
=�
Figura 3 . 5 - Vegetação como
b a r re i ra à p ropaga ção de
ruídos e p roteção ao bem
estar (Ilustração Carlos M. S.
de Silva, 1 998, baseado em
GREY & DENEKE, 1 978) .
33
Arborização de vías Públicas
Melhoria estética
das cidades
Esteticamente, as pessoas podem considerar
uma paisagem mais ou menos atrativa,
segundo uma série de atributos e condições
que vão das qualidades físicas do espaço
observado às condições emocionais momen
tâneas do observador. Entretanto, de uma
maneira genérica, a qualidade da paisagem
e sua atratividade variam segundo a forma, a
escala e a diversidade de elementos que a
compõem (FORESTRY COMMISSION, 1986).
Ainda que os ambientes urbanos, como não
poderia deixar de ser, sejam marcadamente
antrópicos e tenham, por tanto, mais
componentes construídos, de ordem socio
econômica e cultural, que naturais, tais
ambientes constituem paisagens e neles a
vegetação desempenha um papel ainda mais
importante que nos meios rurais e naturais.
C o u gh l i n & G o l d s t e i n 6 , citados por
NELSON ( 1 976), indicam haver significativa
concordância entre as pessoas sobre a
atratividade de cenas de ordem ambiental e
as possibilidades e funções estéticas das
árvores de acordo com suas qualidades físicas.
Nesse contexto está, possivelmente, a mais
clara e melhor explicação para a sistemática
busca humana de espécies arbóreas com
6 COUGHLIN, R. E. & GOLDSTEIN, K. A. The extent of agreement
among observers on environmental atractiveness. Phila.
Reg. Sei. Res. Int. RSRI Discuss. Pap . Ser. , 37, 1970.
34
Objetivos e benefícios da arborização
características especiais de floração, coloração
e densidade da folhagem, textura e coloração
do tronco (casca), entre outras, para usos
tipicamente ornamentais.
Assim, ainda que para TYZNIK (1981) as
árvores, como importantes elementos do
desenho urbano, devam ser vistas mais pelo
efeito geral que causam que por suas particu
laridades, para NELSON (1976) , a capacidade
das árvores de criar e definir espaços,
estabelecendo a idéia de escala de uma
área e harmonizando o ambiente ao seu
redor, é decorrente das suas qualidades físicas
individuais, expressas pela linha ou forma,
cor e textura.
No Brasil, resedá ou extremosa, hibisco,
espirradeira e falsa-murta, entre outras, pelo
reduzido porte que apresentam e conse
qüentemente pelas restritas possibilidades
de contribuição para a melhoria climática e
ambiental das cidades, têm seu uso justificado
apenas pelas finalidades estéticas que podem
cumprir e que não devem ser desconsideradas.
Assim, ruas estreitas, com passeios também
estreitos, onde não há recuo obrigatório das
construções, mas que freqüentemente são
encontradas arborizadas com espécies de
pequeno porte, ou simplesmente arvoretas
de hábito original arbustivo, têm na argumen
tação estética o motivo dessa prática.
Como já observado, embora não sejam
iguais, as cidades têm a maioria das estruturas
e elementos em comum, sendo as caracte
rísticas e particularidades dessas estruturas
35
Arborização de í-fas Públicas
os fatores determinantes da personalidade de
cada uma. Um dos mais importantes desses
elementos, quer pelo espaço urbano que
ocupa, em geral acima de 20%, quer pelas
funções genéricas que apresenta, entre elas
a própria estruturação da cidade, é o sistema
viário. É, fundamentalmente pelas ruas e
avenidas que se convive com as cidades e
de onde as cidades são vistas; portanto, é
também nas ruas e avenidas que as árvores
desempenham especial papel como elementos
do desenho urbano, contribuindo para a
melhoria estética da paisagem das cidades.
Nesse sentido, destacam-se os papéis das
formas, das cores e das texturas das árvores,
devolvendo contrastante naturalidade ao
Figura 3 . 6 - Na comparação hipotética de uma
mesma rua com e sem árvores, o diferencial é a
contribuição estética proporcionada pelas formas,
texturas e cores das árvores (Ilustração Carlos
M. S. de Silva, 1 998, com base nos autores) .
36
Objetivos e benefícios da arborização
geomé trico e ar tificial produto que
genericamente as cidades constituem .
Ainda, segundo SCHROEDER & CANNON
( 1 987) , as árvores de rua têm um poderoso
impacto sobre como as pessoas julgam a
qualidade estética das áreas residenciais,
contribuindo, assim, significativamente para
a qualidade visual das ruas.
Deve também ser considerado que, além da
melhoria estética, as árvores contribuem para
minimizar os efeitos do que comumente é
chamado poluição visual no meio urbano.
SCHUBERT ( 1 979) e REETHOF & H EISLER
( 1 976) destacam a importância do uso de
árvores nas cidades, atuando como protetoras
contra a visibilidade de cenas desagradáveis,
fornecendo proteção contra luzes noturnas
incômodas e ainda podendo proporcionar
privacidade.
Ação das árvores sobre
a saúde humana
As árvores das cidades atuam sobre a saúde
física e mental do homem de forma direta e
indireta . Elas têm efeitos sobre o microclima
das cidades, agem contra as poluições
atmosférica, sonora e visual e satisfazem as
próprias necessidades estéticas das pessoas
( BERNATZKY, 1 980; HOEHNE, 1 944) .
Além da ação sobre o microclima e contra
a poluição, as árvores também podem ser
consideradas por sua ação antimicrobiana .
37
Arborização de Jias Públicas
LAPOIX ( 197 9) cita o exe m p l o , talvez
p o lêmico, da Floresta de Fontainnebleau ,
c o m 5 0 g e r m e s/ m 3 d e a r c o n t r a
4 . 000 . 000 germes/m3 de ar e m uma grande
loj a parisiense .
A essas considerações acresce nta-se o
importante papel psicológico das árvores
para o bem-estar do homem, verificado pela
crescente exigência da sociedade por áreas
verdes urbanas e campanhas ambiental
conservacionistas como um todo.
Benefícios sociais,
econômicos e políticos
C o n s iderar a existê n c i a d e b e n e fícios
econômicos e sociais das ávores nas ci
dades é apenas um processo lógico, uma
vez que existem b e n e fícios d e ordem
ecológica ( clima e poluição ) , b iológica
( saúde física do h o m e m ) e psicológica
(saúde mental do homem) .
Os benefícios econômicos, segundo GREY &
DENEKE (197 8), podem ser classificados
como diretos e indiretos. Contudo, os mais
significativos são os indiretos. Como exemplo,
a redução do consumo de energia destinada
a condicionadores de ar, proporcionada pela
sombra das árvores, no verão; e , em se
tratando de espécies decíduas, a redução no
consumo de energia destinada a aquecedores
de ambiente , pela ausência da sombra,
no inverno.
38
Objetivos e benefícios da arborização
Ainda como benefício indireto são considerados
a valorização de áreas e imóveis pela presença
de arborização. GOLO ( 1977 ) , pesquisando
sobre e s s e s aspectos em S a cram e nto,
Califórnia, concluiu que as árvores nas cida
des aumentam a satisfação dos usuários de
parques e bairros, contribuem para o aumento
do valor das propriedades e proporcionam
um estímulo à sensibilidade humana.
A conclusão de GOLO ( 1 977) quanto ao
aumento do valor das propri e d a d e s é
confirmada por BARTENSTEIN ( 1981 ) , que
observou um aumento no valor das taxas
de aluguel combinado com a diminuição da
vacância de imóveis numa rua comercial de
S e attle , Estados U n idos da Am érica ,
arborizada para preparação da Feira Mundial
de 1 962 , ao contrário de ruas similares
não arborizadas.
Benefícios menos tangíveis, embora não
menos óbvios, são os das áreas arborizadas
para brincadeiras infantis, para caminhar,
Figura 3. 7 - Montreal (Canadá),
passeio outonal por alameda do
"Pare du Mont Real " (Foto
Mi/ano, 1 996).
39
Arborização de liías Públicas
praticar "jogging", contemplar a natureza,
encontrar-se com os próprios problemas, para
namorar e amar, ou mesmo para se estar só
(GREY & DENEKE , 1978).
Problema considerado de menor importância
há alguns anos, a política de áreas verdes
urbanas tornou-se, sob pressão da opinião
pública, um reativo social cheio de ensinamen
tos. Esse aspecto social considerado por
L.APOIX (1979) mostra que a importância que
as árvores vêm assumindo na sociedade
urbanizada é um reflexo do modo de vida
humano, que hoje tenta harmonizar-se com
o ambiente que o envolve.
Enfim, as árvores podem desempenhar um
papel vital para o bem-estar das comunidades
urbanas. A capacidade única das árvores em
controlar muitos dos efeitos adversos do meio
urbano, contribuindo para uma significativa
melhoria da qualidade de vida, determina a
existência de uma crescente necessidade de
áreas verdes urbanas a serem manejadas
como um recurso de múltiplo uso em prol de
toda a comunidade (JOHNSTON, 1985).
Decorrem dessas constatações as exigências
da sociedade junto ao poder público e à
classe política para a efetivação de ações no
tocante à natureza como um todo. O slogan
de administração "Curitiba, capital ecológica" ,
independentemente de seus resultados, é um
bom exemplo desse tipo de preocupação e
resposta política.
40
Objetivos e benefkios da arborização
Literatura Citada:
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Arborização de f;ías Públicas
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42
PLANEJANDO
A ARBORZAÇÃO
Princípios e condicionantes
do planejamento
P
lanejarnento é o nome dado ao processo
de identificação e ordenamento de
fatores e meios, aí incluídos agentes,
processos e tempo, necessários ao alcance
de objetivos pré-definidos. De uma maneira
geral, também significa considerar a produção
de um documento escrito, o plano, contendo
respostas a questões como o que?, onde?,
quando?, como? e quem ? . Tratar d e pla
nejamento, portanto, significa tratar do futuro,
definir ações e identificar os agentes dessas
ações (MILANO, 1 987) .
É pré-condição fundamental a um planeja
mento adequado, independentemente do
setor a que se esteja aplicando o processo,
ter claramente identificados e definidos os
objetivos que se pretendem alcançar, se
possível com a identificação de metas qua
litativas e quantitativas. Acima de tudo, deve-se
ter claro que o plano não se encerra nele
próprio, mas que é, apenas e tão somente, o
mecanismo utilizado para o alcance de
objetivos superiores. Embora pareça óbvia,
essa é uma questão relevante, principalmente
quando é comum a contratação de serviços
técnicos especializados para a elaboração
de "planos" . Nesse sentido, ainda , não é
supérfluo recomendar que os processos de
43
Arborização de vías Públicas
planejamentos sejam conduzidos prioritaria
mente por aqueles que serão seus executores,
ainda que com apoio ou orientação externa,
tendo em vista tanto o nível de conhecimento
sobre aspectos estruturais e conjunturais
associados quanto, e principalmente, o
comprometimento interno com a questão.
Tratar do futuro, por sua vez, é outro aspecto
inerente ao planejamento que implica
condicionamento apropriado. Primeiro,
porque não é dado ao homem predizer o
futuro, ainda que a ele estejam disponíveis
ferramentas, a cada dia mais especializadas, .
capazes de tornar mais precisos os prognósticos
e as análises sobre tendências; segundo,
porque são absolutamente imponderáveis
muitos dos acontecimentos e, além disso,
porque o processo de desenvolvimento
científico e tecnológico tanto pode impor
novas soluções quanto determinar novas
demandas ao homem, em especial nas
cidades, onde as populações humanas
convivem com as maiores conseqüências
positivas e negativas dos processos do
desenvolvimento.
Figura 4. 1 - Curitiba (PR) ,
v ista panorâm ica tendo ao
fu ndo o cen tro da cidade e
d e s t a c a n d o e m p r i m e i ro
p l a n o a s i g n if i c a t i v a
a r b o r i z a ç ã o d e b a i r ro s
p róxi m os a o c e n tro (Foto
Mi /ano, 1 992) .
44
Planejando a arborização
As ações, os agentes dessas ações (ou atores,
como são comumente designados hoje em
dia), bem como a consideração do planeja
mento em termos de processo dinâmico,
constituem outro grupo de componentes que
também requer análise cuidadosa, deter
minando que o planejamento seja considerado
como um processo contínuo que envolve
sistemática avaliação e análise dos resultados
para otimização em relação aos objetivos
estabelecidos.
Essas questões tanto envolvem componentes
estruturais como conjunturais, ambos em
constante mutação no tempo e no espaço
geográfico da cidade. Assim, procedimentos
técnicos não só aceitáveis como considerados
avançados, hoje, poderão ser, não apenas
supérfluos, mas totalmente inadequados
amanhã. Mudanças nos sistemas de trans
portes, sempre em constante evolução,
podem gerar, em conseqüência, mudanças
nos sistemas viários das cidades, destinando
mais ou menos espaço às árvores urbanas;
mudanças nos sistemas de transmissão e
distribuição de energia, quer por inovações
tecnológicas, quer por disponibilidade fi
nanceira de concessionárias e consumidores
dispostos a pagar por inovações e melhorias,
também geram diferenças na oferta de espaço,
aéreo ou subterrâneo, para árvores urbanas.
Assim também ocorre com vários outros
aspectos e fatores.
Processos conjunturais associados à dinâmica
do poder nas administrações, muitas vezes,
podem implicar em câmbios tanto nas ações
.. 45
Arborização de Was Públicas
como nos agentes destas, nem sempre de
maneira favorável. Vive-se na atualidade um
processo muito forte de desmobilização do
serviço público nas suas mais distintas áreas,
entre as quais a arborização urbana . É
fundamental, à dinâmica do planejamento,
acompanhar esse processo em sentido
amplo, ou seja, entre outros aspectos, em
caso de terceirização de serviços, definir e
exigir índices de eficiência mínimos, garantir
aos terceirizados acesso às informações
e capacitação necessários, bem como
manter-se ou alcançar o necessário nível de
autoqualificação para monitorar e fiscalizar
os processos em curso.
Além disso tudo, deve-se ter claro que,
inexistindo um plano a seguir e cumprir, um
planejamento, o processo de implantação e
manejo da arborização segue procedimentos
puramente empíricos. Sem objetivos e
metas definidas, sem procedimentos de
monitoramento e avaliação e, consequen
temente, sem adequadas condições de
gerenciamento, o que, efetivamente, é
possível obter-se em termos de benefícios
esperados da arborização? O planejamento,
assim, deve ser sempre encarado como
um momento do longo, ou melhor, contínuo,
p r o c e s s o visando a l c a n ç a r objetivos
pré-identificados.
No Brasil, segundo MILANO ( 1 987), há tanto
cidades arborizadas, que em sua maioria
não contaram com um planejamento prévio e,
em conseqüência, apresentam sérios problemas
de manejo, quanto cidades cuja arborização
46
Planejando a arborização
foi previamente planejada, mas que, pela
incipiência da pesquisa e planejamento
nessa área, também apresentam problemas.
Ainda, considerando que o planejamento
é um processo dinâmico, mesmo cidades
com arborizações previamente planejadas
devem sofrer avaliação constante e, quando
necessário, atualização do plano estabelecido,
ou seja, sofrer replanejamento.
O processo de planejamento
O planejamento da arborização, em princípio,
não precisa ocorrer no mesmo contexto do
planejamento urbano como um todo. En
tretanto, são significativas as vantagens em
termos de resultados possíveis quando isso
ocorre. Quando a arborização é planejada
isoladamente, não se pode desconsiderar o
planejamento urbano já existente e, muito
menos, o conjunto de normas específicas
nesse sentido. Daí uma estreita relação entre
quaisquer iniciativas de arborização e
" políticas urbanas" e "legislações municipais"
existentes, entendidas estas como o conjunto
de normas, procedimentos e ações efetiva
mente praticados com vistas a um único fim
colimado: a qualidade de vida e o bem-estar
da coletividade urbana. Inserem-se nesse
contexto considerações abrangentes sobre
planos diretores urbanos, seus zoneamentos
e diretrizes, códigos de obras e posturas
municipais, bem como leis e normas especí
ficas relativas ao ambiente e à arborização
urbana (MILANO, 1996 ) .
47
Arborização de iias Públicas
Os planos, como resultados de planejamentos,
devem, sempre que possível, ser abrangentes
o suficiente para contemplar o contexto dos
componentes " a rborização pública"
(arborização de ruas e áreas verdes) e .
"arborização privada" , tanto em termos de
normas e procedimentos objetivos e viáveis
para cada componente como em termos de
suas características e pré-requisitos.
Um plano, para sua eficácia, requer que seja
tratado no conjunto de suas etapas: o pla
nejamento em si; a implementação ou
proteção da arborização e xistente; e a
gestão e manejo dessa arborização. Essa
última fase, sem dúvida, é a mais difícil e
onerosa de todas, dado o caráter de per
petuidade que apresenta (MILANO, 199 1).
Ainda, como já considerado, um plano não
pode ser visto como instrumento estático, mas
sim como um conjunto de normas dinâmicas
o suficiente para dar respostas adequadas a
características urbanas em constante evolução
ou alteração. Dessa forma, como documento
originado a partir de um diagnóstico definido
no tempo e com respostas a tendências e
prognoses que podem não se verificar, um
plano deve sofrer periódica revisão para as
devidas alterações. Para tal, é necessário o
adequado monitoramento dos procedimentos
e resultados (MILANO, 1996).
No que se refere ao estabelecimento do
diagnóstico da situação urbana, elemento
básico do plano, alguns aspectos funda
mentais são a caracterização do ambiente
urbano, a definição objetiva das características
48
Planejando a arborização
das espécies a utilizar e a avaliação do espaço
físico disponível para a arborização.
Diagnóstico da situação
Genericamente, o processo de planejamento
da arborização de ruas de uma cidade deverá,
em quaisquer circunstâncias, considerar os
seguintes fatores básicos condicionantes: o
ambiente urbano, o espaço físico disponível
e as características das espécies arbóreas.
Contudo, deve-se observar que esses fatores,
apresentados separadamente a seguir, tendo .
em vista a relação de interatividade que
apresentam, não devem ser considerados
isoladamente no planejamento, caso contrário,
terão apenas valores relativos.
Por exemplo, alfeneiro (Ligustrum /ucidum)
e flamboyant (De/o n ix regia) são espécies
conhecidas " campeãs de agressão" ao
pavimento dos passeios, por isso mesmo não
recomendadas ou recomendadas com
restrições para plantio. Entretanto, com que
freqüência é observada a recomendação de
WYMAN ( 1 972 ) de que deve ser deixado um
espaço livre de pavimento de 6 m2 para o
crescimento das árvores urbanas? Pesquisas
realizadas em Curitiba - P R (MILANO, 1 984) ,
Maringá - PR, (MILANO, 1988 ) , Apucarana -
PR (FUPEF, 1 99 1 ) ,Vitória - ES (PMV, 1 992 ) e
Cascavel - PR (COPEL/FUPEF/PMC, 1 994)
indicam que plantios dessas espécies realiza
dos de maneira coerente a essa recomendação
de área livre não apresentaram problemas de
danos ao pavimento dos passeios ou, quando
49
A rborização de Was Públicas
apresentaram, eles foram pouco ou nada
significativos . Essas mesmas pesquisas
indicaram também que há correlação alta
mente significativa entre a redução de área
livre e o aumento dos problemas nos
pavimentos provocados pelas raízes. Além
disso tudo, parte do problema ainda está
associada ao nível de compactação dos
solos urbanos, deixando claro que apenas
uma análise integrada, associando as carac
terísticas da espécie, o espaço disponível e
as características do ambiente local, nesse
caso o solo, é capaz de indicar uma solução
de planejamento adequada.
O ambiente urbano
O clima urbano, como é sabido, difere do de
ambientes naturais e portanto precisa ser
devidamente conhecido em suas características.
Devem ser dimensionados a amplitude das
variações térmicas diárias, e stacionais e
anuais, o regime pluviométrico, o balanço
hídrico, a umidade relativa do ar, o regime
dos ventos, a ocorrência de fenômenos
específicos como neve, geadas, granizos e
vendavais, além de aspectos relacionados
às alterações nas condições quali
quantitativas térmicas e da luminosidade
artificial das cidades (CHAIMOVICH et alíi,
1 9 6 7 ; ANDRESEN, 1 976; KRUG, 1953 ;
SANTAMOUR JR. , 1976) .
Entretanto, considerações sobre as condições
climáticas dos centros urbanos devem ser
cuidadosas, pois peculiaridades como altas
temperaturas e luzes artificiais podem afetar
50
Planejando a arborização
adversamente o crescimento e a sobrevivência
das árvores que aí já vivem sob várias
formas de tensão (ANDRESEN & GRANGER,
1986). Exemplo considerável é a significativa
perda de vigor da Cassia m ultij uga, que, por
reagir a fotoperíodos longos, q u a n d o
plantadas e m ruas bem iluminadas pode
ter florescimento contínuo, segundo KRUG
(1953). A mesma observação, embora requeira
comprovação experimental, parece ser válida
para C. macranthera.
Os solos, que além de suporte físico para as
árvores constituem o substrato nutritivo do
qual elas dependem para seu desenvolvi
mento, nas cidades, apresentam-se quase
sempre compactados e muitas vezes poluídos
por resíduos sólidos e despejos residenciais
ou industriais. Com características físico
químicas alteradas, os solos podem promover
distúrbios nas funções fisiológicas básicas das
plantas, como a absorção de água e
nutrientes, a fotossíntese e a transpiração
(SANTAMOUR JR . , 1969 ; MIRANDA, 1970 ;
KRAMER & KOSLOWSKI, 1972).
Conforme SANTAMOUR JR. (1969), o declínio
de crescimento ou pequeno crescimento
das árvores nas cidades, freqüentemente
atribuídos à falta de água, devem-se princi
palmente à deficiência de oxigênio no solo,
causada pela compactação. Nos solos
compactados por pavimentação, construções
e tráfego, a falta de oxigenação interfere
negativamente na absorção, pelas raízes, da
água e nutrientes disponíveis.
51
Arborização de flías Públicas
Estudando os solos urbanos de Curitiba para
caracterização nutricional de algumas espécies
usadas na arborização, BIONDI ( 1995) consta
tou uma alta heterogeneidade, sendo que,
num mesmo trecho de rua, diferentes texturas,
variações nos níveis dos horizontes, alterações
na estrutura, diversidade na coloração e
presença de materiais antrópicos foram
identificados, comprovando "in loco" o que
é referência comum na literatura.
Considerando, ainda, variações inter e intra
específicas quanto à tolerância a diferentes
tipos d e solos e às c a r a c t e rísticas d e
cre s c i me n to, a a d e q u a d a s e l e ç ã o d e
esp é c i es constitui fator básico para superar
problemas dessa ordem (ANDRESEN, 1 974;
PATIERSON, 1976).
As condições químicas do solo, mesmo
podendo ser alteradas com facilidade por
calagem e adubação, devem ser consideradas
com todo o critério. Um exemplo considerável
é o caso de Nova Orleans, Estados Unidos,
lutando contra o vigoroso crescimento das
árvores de rua. Conforme ANDRESEN ( 1 974),
naquela cidade, os ricos solos orgânicos,
combinados com o clima subtropical úmido
do local, fazem com que os carvalhos
cresçam rapidamente, pre enchendo seu
espaço nàs calçadas com maciços troncos e
raízes que dificultam a movimentação de
pedestres e danificam a pavimentação. Como
solução, árvores de crescimento mais lento
vêm sendo testadas.
Por fim, cabe considerar as condições
qualitativas do ar urbano, normalmente com
52
Planejando a arborização
elevadas concentrações de poluentes
advindos de atividades industriais e do
processo de descarga da combustão de
veículos automotores. Partículas sólidas em
suspensão, gotículas de óleo expelidas pelos
motores, altas concentrações de CO, S02 e
compostos de flúor e cloro afetam as condições
de sobrevivência de inúmeras espécies e
variedades de plantas, por ações que vão do
simples " entupimento" dos estômatos a
necroses nos tecidos e alterações nas funções
fisiológicas ( ROBERTS, 1 980; BERNATZKY,
1 9 8 0 ; JENSEN et a li i , 1 9 7 6 ; D AV IS &
GERHOLD, 1976) .
Mesmo considerando que as árvores podem
agir com eficiência, minimizando os efeitos
da poluição, isso só será possível pela utilização
de espécies tolerantes ou resistentes. Os
danos da poluição atmosférica podem ser
muito significativos, dependendo prin
cipalmente das espécies utilizadas e dos
índices de poluição.
Segundo DAV IS & GERHOLD ( 1 976), dióxido
de enxofre (S0 2 ) e ozônio (0 3 ) , como
poluentes, são responsáveis pela mortalidade
de mais plantas que outros poluentes juntos.
No entanto, JENSEN et a l i i ( 1 9 7 6 ) e
SANTAMOUR JR. ( 1 969) acrescentam outros
poluentes importantes, como o óxido de
nitrogênio, amônia, etileno e compostos de
cloro e flúor.
A resposta das plantas aos contaminantes
atmosféricos é notada principalmente pelas
lesões agudas ou crônicas nos tecidos das
53
Arborização de lias Públicas
folhas. As injúrias necróticas podem afetar o
crescimento e o metabolismo do indivíduo,
levando à desfolhação e à morte (JENSEN et
alii, 1976) .
INOUE et alii ( 1990), estudando o efeito da
poluição sobre a fotossíntese de árvores de
Ligustrum lucidum , através da comparação
de plantios no centro da cidade de Curitiba
e em um parque específico, indica que as
árvores das regiões centrais estão submetidas
a expressivo estresse ambiental, comprovável
pela alta deposição de material sólido sobre
as folhas com elevados teores de ferro, que
determinam uma eficiência fotossintética
equivalente à metade do potencial, além de
redução do tamanho das folhas em 1 5 %.
Trabalhos de DAVIS & GERHOLD ( 1976) e de
JENSEN et alii (1976), entre outros, apresentam
listas de espécies suscetíveis e não suscetíveis
a determinados poluentes, indicando assim
a existência de variabilidade interespecífica em
tolerância e sensibilidade a poluentes. Por
tanto, a identificação e seleção de espécies
tolerantes ou resistentes apresenta-se, na
arborização urbana, como solução às perdas
causadas pelos contaminantes atmosféricos.
As características das espécies a utilizar
A capacidade das árvores de criar e definir
espaços, estabelecendo a idéia de escala de
uma área e harmonizando o ambiente ao seu
redor, é decorrente de suas qualidades físicas
e expressa-se, segundo NELSON JR. ( 1 976),
por linha ou forma, cor e textura. No entanto,
54
Planejando a arborização
mesmo considerando que essas características
dão o aspecto à árvore, lYZNIK (1981) reco
menda que esta, como eleme n t o de
composição na criação das paisagens urbanas,
deva ser vista mais pelo seu efeito global do
que por suas particularidades.
Tendo em vista os amplos objetivos que a
arborização de ruas deve cumprir e obser
vando que, embora sejam as árvores maiores
e mais velhas aquelas que apresentam maior
atração estética ao público, SCHROEDER &
CANNON (1987) lembram que, de um ponto
de vista silvicultura!, não são necessaria
mente elas as mais desejáveis para a
arborização.
Além do efeito estético, a arborização de ruas
deve apresentar benefícios como a melhoria
microclimática e a minimização dos efeitos
das poluições atmosférica, sonora e visual.
Por isso, as características das espécies
devem ser devidamente consideradas na
seleção para utilização na arborização de ruas.
MIRANDA (1970), SOUZA (1973), SANTIAGO
( 1970), VIEDMA & CORREIA ( 1979), entre
outros, consideram, além do aspecto estético
da árvore, as seguintes características: forma
e dimensões da copa, tipo de folhas, flores,
frutos e raízes, velocidade de crescimento,
adaptabilidade climática e resistência a pragas,
doenças e poluição.
Como qualquer ser vivo, cada espécie vegetal
é dependente de condições ambientais
favoráveis à sua sobrevivência e, além disso,
ao seu adequado desenvolvimento. Essas
exigências, variáveis em termos de condições
55
Arborização de vias Públicas
climáticas e edáficas em interação, apre
sentam-se em níveis de limites mínimos e
máximos, dentro dos quais se estabelecem
faixas de valores ou características para um
ótimo desenvolvimento biológico de cada
espécie (SCHUBERT, 1979; BALENSIEFER &
W IE CHETECK, 1 985; MIRANDA, 1 970) .
CHA IMOV ICH et alii ( 1 96 7 ) , por exemplo,
elaboraram uma listagem de espécies
adequadas à arborização urbana e resistentes
ao clima frio, característico dos estados do
Sul do Brasil. Fator primário para o sucesso
da arborização, a adaptabilidade climática
das espécies deve ser rigorosamente obser
vada. Entretanto, SANTAMOUR JR. ( 1 9 76)
cita que este aspecto vem sendo negligenciado
pela não-obser vância da procedência
materna ou da origem do material genético
das espécies utilizadas na arborização.
Das outras características que as árvores para
arborização de ruas devem apresentar, SOUZA
( 1973) destaca a rusticidade para suportar as
precárias condições do meio e a resistência a
pragas e doenças. Neste particular, H IMELICK
( 1 976) afirma que é grande a importância
de fatores ambientais, como deficiência de
água e nutrientes no solo, baixas tempe
raturas e poluição, na predisposição de
plantas a uma maior suscetibilidade a
doenças. Uma das formas mais importantes
de controle de doenças é a obtenção de
árvores resistentes, sendo isso possível
através de seleção e hibridação.
Quanto às pragas, a escolha de espécies
resistentes também é o melhor caminho. Para
56
Planejando a arborização
WEIDHASS (1976), a seleção de espec1es
resistentes no desenvolvimento de melhores
árvores para uso urbano, além de ser
um método biologicamente sadio e
ambientalmente construtivo, não implica
grandes despesas de operação e força
humana, comuns no controle de pragas.
Sendo fundamental que se escolham espécies
com características desejáveis, a seleção deve
primar também pela eliminação daquelas
com caracter ísticas indesejáveis. Para
MIRANDA (197 0), algumas características in
desejáveis são o rápido crescimento, as fo
lhas grandes e caducas, as flores e frutos gran-.
des ou carnosos e as raízes superficiais.
A questão do uso de
frutíferas na arborização
urbana, tanto nativas
como exóticas, oscila
entre o mito e o tabu.
Considerada algumas
vezes não a p enas
aceitável, mas reco
mendável, como forma
de amenizar a fome
dos menos favorecidos,
esse uso é questionável
Figura 4 . 2 - Arborização de a tal ponto, quer técnica, quer politicamente,
ruas de D o w n ers Gra ve, que não recebe nem mesmo tratamento na
pequena cidade do Estado
literatura estrangeira mais especializada.
de Illinois (EUA), no outono;
difere n t e m e n t e do q u e Considerada a questão em termos políticos,
comumente ocorre no Brasil, como eventuais frutos não resolvem nem
a queda das fo lh as n ã o é amenizam a miséria nas cidades, a re
c o n si d e r a d a u m g r a n d e
pro b lema p e l a p op u lação comendação não passa, obviamente, de
(Foto Mi/ano, 1 996) . inconseqüência, uma vez que está dissociada
57
Arborização de Was Públicas
de qualquer tratamento das causas da
miséria em si. Deve-se considerar ainda que
as condições viárias urbanas não constituem
meio adequado ao processo produtivo de
frutíferas: frutos maduros, se é que existiriam,
bem como restos e resíduos, além de sujeira
nas vias públicas, são ótimo alimento para
vetores de doenças, como moscas, baratas e
ratos, facilitando o aumento dessas popula
ções. Além disso, o eventualmente citado
objetivo de atração de fauna silvestre nem
sempre tem sentido, tendo em vista as
condições gerais do ambiente urbano e ,
mesmo, certas conseqüências nega tivas
decorrentes, como a infestação por erva-de
passarinho, uma hemiparasita disseminada
nas árvores das cidades p o r ave s de
ocorrência urbana (MILANO, 1 996 ) . �-
Tratada de um ponto de vista lógico e prático,
com técnicas de arborização urbana mais
avançadas , a questão de fru t íferas na
arborização é vista em outros termos na
literatura estrangeira. Atualmente, mesmo,
são freqüentes artigos tratando da eficiência
do uso de reguladores de crescimento para
redução ou eliminação de frutificação de
espécies usadas na arborização urbana ,
como, por exemplo, BANKO & STEFANI
( 1 995) , com Liquidambar styraciflua, e ELAM
& BAKER ( 1 996) , com Quercus virginiana.
No Brasil, SOUZA ( 1 969 ) , MIRANDA ( 1 970) e
MILANO ( 1 993 ) , entre outros, recomendam
para arborização, apenas o uso de espécies
com frutos de tamanho reduzido, não
carnosos e de frutificeyção pouco expressiva.
58
Planejando a arborização
Além dos argumentos básicos já conhecidos
e explicitados, MILANO ( 1 988) identificou o
próprio desinteresse da população urbana de
Maringá para com o plantio de frutíferas,
tendo em vista que de um total de mais de
12. 600 árvores oriundas de plantios voluntá
rios, ou 20% das árvores de ruas da cidade,
apenas 2 , 7 % correspondiam a frutíferas.
SANTIAGO ( 1 970)e SOUZA ( 1 973) acrescentam
ainda que árvores para fins urbanos nunca
______...,,. devem apresentar
princípios tóxicos ou
capazes de causar
reações alérgicas nas
pessoas. Estudos
nesse sentido, contu
do, não são muito
comuns. No Brasil, é
conhecido um traba
lho de pesquisa mé
dica realizado e m
Caxias do Sul, que
concluiu ser o pólen
de L igustru m l u c i d u m potencialmente
Figura 4 . 3 - Maringá (PR),
alérgico e, portanto, que a espécie não é
avenida com canteiro central
arborizados com flamboiants recomendada para plantio, principalmente em
e passeios laterais com locais de clima frio (VIEIRA & NEGREIROS, 1990).
sibipirunas (Foto Takahashi,
1 988) . Resumindo, é necessário que a seleção
das espécies leve em consideração suas
capacidades de adaptação, sobrevivência
e desenvolvimento no local do plantio.
Portanto, além de características como
porte, tipo de copa, folhas, flores, ausência
de frutos, hábito de crescimento das raízes
e ausência de princípios tóxicos ou alérgicos, são
59
Arborização de Was Públicas
necessárias às árvores de ruas: comprovada
adaptabilidade climática; resistência a pragas
e doenças; tolerância aos poluentes mais
comuns e de maior concentração; e tolerância
às baixas condições de aeração do solo, se
for o caso (SCHUBERT, 1979; GREY & DENEKE,
1 9 78; ANDRESEN, 1 9 7 6 ; SANTAMOUR JR. ,
1 969; V IEDMA & CORREA , 1979; NELSON,
1 9 7 6 ; TYZNIK , 1 9 8 1 ; H IME L ICK , 1 9 7 6 e
WEIDHASS JR. , 1976).
Problemas com a qualidade física dos solos
urbanos, par ticularmente compactação e
baixa aeração, podem ser contornados com
espécies tolerantes a baixas taxas de
oxigenação do substrato. PATTERSON ( 1 976),
citando trabalhos de Hosner 1 e BelF sobre
espécies cultivadas nos Estados Unidos,
tolerantes e não tolerantes a solos com
aeração deficiente, indica a existência de
diferenças na tolerância entre espécies e
entre indivíduos da mesma espécie. Isso deve
ser considerado tanto em termos de seleção
como em programas de melhoramento
genético de espécies para arborização urbana.
Por fim , GERHOLD & SA CKSTEDER ( 1 982 ) ,
considerando que a escolha das espécies ou
variedades mais apropriadas para sítios es
pecíficos é um problema desafiador, mesmo
para os mais experientes, sugerem uma
es tratégia tripla de seleção, baseando-se
1 HOSNER, J. F Relative tolerance to complete inundation of
fourteen bottonland tree species. For. Sci . ,6:246-251 , 1 960.
2 BELL, D. J. Flood-caused tree mortality around Illinois reservoirs
(forests). Ili. State Acad. Sei. Trans. , 67( 1 ) :28-37, 1974.
60
Planejando a arborização
em : (a) explorar mais completamente os
conhecimentos disponíveis; (b) acompanhar
testes de árvores para obtenção de dados
mais objetivos e expressivos; e (c) considerar
análises especiais de plantios existentes com
vistas a suprir deficiências correntes, até que
os resultados dos testes se tornem disponíveis.
O espaço físico disponível
No já normalmente pequeno espaço compre
endido pelas calçadas ou passeios, o tronco
da árvore está em constante disputa com
veículos mal estacionados e com os próprios
pedestres. Na parte aérea, sua copa disputa
espaço com a fiação elétrica e telefônica e,
salvo exceções, termina invariavelmente
podada. O mesmo ocorre na sua parte
subterrânea, onde, além da má qualidade
física do solo, as raízes, freqüentemente,
são mutiladas pelas obras de instalação e
manutenção de redes de distribuição de
água, coletores de esgotos ou galerias de
escoamento pluvial ( MIRANDA, 1 970; SOUZA,
1973; SANTIAGO, 1970; CESP, s/d) . Por esses
motivos, WYMAN ( 1 972) considera que um
planejamento urbano adequado deveria
prever, entre o meio-fio e as propriedades
privadas, uma faixa de 2,40 m a 3, 60 m de
área gramada, reservada para o plantio de
árvores nas ruas, e garantir que linhas de
utilidade (luz, telefone, água e esgoto),
acima ou abaixo da terra, não constituíssem
obstrução aos plantios.
Também é fundamental a adequação entre
o porte das árvores e a largura de ruas e
61
Arborização de Vias Públicas
passeios. SOUZA (1973) recomenda, para ruas
com um máximo de 8 m de largura e calça
da até 2 , 5 m, o plantio de espécies de pe
queno porte , tais como Cassia m u ltijuga ,
Lafoensia pacari e Lagerstroem ia indica e,
para ruas com medidas maiores, o plantio de
espécies de maior porte, tais como Ligustrum
lucidum, Eryth rina falcata e Me/ia azedarach.
Uma outra posição, mais generalizada, para
ruas com largura de 7 m ou mais e que inclui
a existência ou não de afastamento predial,
é a aprese n tada por MIRANDA (197 0 ),
conforme pode ser observado na Tabela
4 . 1 . Entretanto, recomendações genéricas
para espécies não devem ser consideradas
como absolutas, pois, em função da interação
comum entre árvo
res e ambiente , elas
podem, e geralmen
te se comportam, de
forma diferente em
diferentes regiões,
cidades , bairros
o u mesmo ruas .
Consequentemente,
tratar de forma
absoluta o conceito
de porte ( gr a n d e ,
médio e pequeno)
é incorreto. Assim,
o diâmetro da copa e a altura da espécie Figura 4.4 - Curitiba (PR), rua de
bairro residencial arborizada
adulta , considerada a realidade local , são com angicos, destacando-se a
fatores mais seguros, portanto mais ade faixa gramada dos passeios (Foto
quados a se considerar num planejamen Mi/ano, 1 985) .
to mo derno.
62
Planejando a arborização
Tabela 4. 1 - Recomendação de porte para árvores de
rua em função da largura das calçadas e recuo das
construções (MIRANDA, 1 9 70).
Largura das Recuo das Porte das
calçadas construções árvores
sem recuo
menor que 3 m
4 m ou mais médio
sem recuo médio
maior que 3 m
4 m ou mais grande
Especificamente, para problemas com fiação
aérea como fator limitante de espaço, a
solução deve ser sempre prev entiv a .
MIRANDA ( 1 9 7 0 ) sugere que s e utilizem
espécies de pequeno porte, onde as carac
terísticas locais indiquem problemas futuros,
de modo a evitar podps deformantes, com
e f e i t o s c o n t r á r i o s aos p r i n c í p i o s d a
arborização. MILANO ( 1 988) sugere que
árvores de grande porte também apresentam
as mesmas vantagens quando há espaço
para que suas copas, uma vez ultrapassada
a fiação, possam crescer livremente.
Os conflitos entre árvores e redes elétricas
aéreas, considerados os atuais sistemas de
redes, apresentam-se de maneira mais
significativa e crítica para árvores de porte
med iano, porque nesse caso há forte
coincidência entre a altura das árvores e das
63
Arborização de Was Públicas
redes. Como conseqüência, há sempre alta
demanda de poda, que resulta em árvores
esteticamente deformadas, morfologicamente
descaracterizadas e fisiologicamente debilitadas.
Figura 4.5 - Espaço disponível
para arborização de ruas em
Diferentemente, embora nunca recomendadas
d u as situações distin tas: à
para plantio sob redes elétricas pelos ma esquerda /imitado; à direita
nuais defensores do mito que considera amplo (Ilustração Carlos M.
árvores e redes elétricas incompatíveis, S. de Silva, 1998, baseado em
árvores de grande porte podem ser utilizadas MILANO, 1 993).
sob redes, com restritos problemas e baixas
demandas de poda. Quando a largura dos
passeios e ruas e o afastamento predial das
construções permitem o relativamente livre
desenvolvimento de árvores de grande porte,
64
Planejando a arborização
estas podem facilmente ser conduzidas por
poda, de forma que suas copas sejam
liberadas após ultrapassar a rede aérea (YAU,
1 982 ; MILANO, 1 9 84/ 1 9 8 8 ; FUP EF, 1 9 9 2 ;
COP E L/FUPEF/P MC, 1 9 94 ) . Além disso,
placas de sinalização, semáforos e mesmo
riscos de acidentes e vandalismo contra
galhos e ramos também justificam a elevação
da copa das árvores, ou seja, a utilização de
espécies de grande porte.
Deve-se também considerar que não é
apenas definindo-se espécies, forma de
plantio e características
de condução das árvores
que se pode resolver o
problema e desfazer de
vez o mito. Os padrões
das redes também po
dem e devem mudar,
embora por muito tempo
os técnicos das compa
nhias de eletricidade,
escudados em normas
técnicas consideradas
imutáveis, para não con
siderá-las simplesmente
dogmáticas, tenham se
Figura 4. 6 - Rede compacta:
negado a considerar tal possibilidade .
uma alternativa que facilita a
compatibilização entre redes Entretanto, algum pioneirismo e certa dose
e l é t r i c a s a é re a s e á r v o res de boa vontade de algumas companhias do
(Foto Mi/ano, 1 996) . setor elétrico estão determinando o fim desse
mito. Ao instituir o uso das redes compactas,
primeiro em Maringá, depois em Curitiba e
hoje como programa da empresa em vários
lugares, como forma de melhor compatibilizar
65
A rborização de Vias Públicas
árvores e redes, a C O P E L ( Companhia
Paranaense de Energia) deu uso corrente
a uma tímida criação da CEMIG (Centrais
Elétricas de Minas Gerais) e permitiu, como
sempre deve ser, a evolução da norma
técnica. Com o uso das redes compactas,
a companhia tem melhorado significativamente
a convivência entre redes e árvores, sejam
estas de grande ou médio porte, destacan
do-se o fato de que a mudança mais radical
é no sistema de distribuição de energia e não
na seleção, plantio e manejo das árvores.
Outro exemplo a considerar é o da LIGHT
( RJ ) que , com o estabelecimento de um
programa específico em 1 996, já substituiu
mais de 450 km de rede comum por sistemas
compactos, reduzindo com isso seus problemas
na relação entre cabos elétricos aéreos e
árvores de ruas.
Por isso, é fundamental o perfeito conhecimen
to do espaço físico tridimensional disponível
e não apenas das dimensões de calçadas e
ruas, como normalmente vem acontecendo.
A altura e posição da fiação aérea e a posição
e profundidade das instalações subterrâneas
são dados básicos para a definição do porte
adequado da árvore a ser utilizada, da posição
de plantio e, mesmo, se é possível realizar a
arborização (BALENSIEFER & WIECHETECK,
1985; SCHUBERT, 1979).
Assim, considerando o diâmetro da copa, a
largura do passeio e o afastamento predial
como fatores, a altura da espécie passa a ser
resultado de uma equação, deixando de ser
66
Planejando a a rborização
fator decisivo ou limitante no planejamento.
Como exemplo, numa situação de 5 m de
afastamento predial, associado a 3 m de
largura de calçada, e levando-se em consi
deração a n e c e ssidade de man t e r um
afastamento de 1 m do meio-fio no plantio,
podemos idealizar uma espécie com 7 m de
raio de copa, ou 14 m de diâmetro. Dessa
forma e desde que com arquitetura adequada,
essa espécie poderá ter, na idade adulta, uma
altura entre 12 m e 14 m, estando capacitada
a ser conduzida, sem maiores dificuldades, a
manter sua copa por sobre a fiação.
Um outro problema associado ao se tor
elé trico tem sido identificado no sistema de
iluminação pública . Em algumas situações,
a iluminação se encontra por sobre as copas
das árvores, o que reduz significativamente ,
ou mesmo quase anula o seu efeito, gerando
reclamações por parte da população, es
pe c i a l m e n t e quanto à s e g u r a n ç a .
Comumente , a solução adotada tem sido a
poda pesada, gerando drástica redução da
copa das árvores. Comenta-se com freqüência
também a substituição das árvores por
outras de menor porte e copa menos densa.
Da mesma forma que para as redes, devem
ser buscadas novas soluções técnicas para
essa questão. Em Maringá, por exemplo, para
solução do problema, a COPEL testou com
sucesso e posteriormente adotou um novo
sistema de iluminação pública, que -consiste
em luminárias mais simples, posicionadas a
menor altura que nos sistemas convencionais.
Tal solução trouxe vantagens, como maior
eficiência da iluminação, redução do consumo
67
Arborização de Jiías Públicas
de energia pela menor potência das lâmpadas
utilizadas e maior facilidade na manutenção,
além de reduzir os problemas de ordem
fisiológica das árvores, ocasionados pelo
aumento do fotoperíodo associado à
iluminação nas suas copas.
Quanto ao trânsito de veículos, podem ocorrer
danos físicos, tanto no tronco como nas
porções inferiores da copa, nas árvores
plantadas próximas ao meio-fio. O Departa
mento de Parques e Jardins de Curitiba (DPJ,
1977) recomenda o plantio afastado do
meio-fio, principalmente para evitar danos
provocados por veículos grandes, como
ônibus e caminhões, usando como padrão a
distância de um metro. O trânsito de pedestres,
por sua vez, pode gerar o uso indevido da
parte superficial da cova pelo pisoteio,
compactando o solo, aspecto que também
deve ser considerado. Para esse problema,
que ocorre normalmente nas ruas comerciais,
mais movimentadas, é sugerido o uso de
grades de ferro sobre a cova (WYMAN, 1972),
ou a elevação da borda da abertura do
pavimento (DPJ, 1977).
Definindo um plano de arborização
Estabelecido o diagnóstico, é necessário um
claro entendimento da relação "quantidade"
e " qualidade " da arborização urbana
desejável e possível, considerada aí sua
adequada distribuição espacial. Isso porque
cada cidade apresenta condições e caracte
rísticas próprias, determinantes de condições
espe ciais de distribuição e composição da
68
Planejando a arborização
vegetação urbana (MILANO, 1991). Assim,
também é necessária a caracterização da
socioeconomia e cultura locais, conside
rando-se aspectos legais, uso e ocupação do
solo e expectativas da população quanto às
questões ambientais, para se dar o devido
encaminhamento.
Por tanto, como entender um plano de
arborização? Sem dúvida, não como um
projeto paisagístico com sentido est ético
restrito, como muitas vezes ocorre, mas sim
como um instrumento de caráter técnico,
político e legal , nor teador de decisões
sobre quaisquer aspectos relacionados
à arborização.
Para isso, na medida em que é fundamental
o conhecimento de conceitos e técnicas,
também é fundamental criatividade na in
terpretação e utilização desse conhecimento,
no sentido mais amplo possível, o que inclui
definições e diretrizes de ações políticas,
legais e extensionistas (ou, dito de outro modo,
de relações com a comunidade urbana) .
Em toda e qualquer circunstância, é necessário
considerar as necessidades e anseios da
sociedade envolvida, analisada em seus
diferentes segmentos . Tanto em Curitiba
como em Maringá, por exemplo, os resultados
obtidos nos conhecidos programas de
arborização são fundamentalmente uma
conseqüência do forte apoio e participação
populares. A situação encontrada em Vitória
também expressa essa mesma verdade,
porém de forma diferente, dadas as caracte
rísticas socioeconômicas e culturais locais e
69
Arborização de 11"as Públicas
as respectivas necessidades consideradas
prioritárias ( MILANO, 1 992 ) . Os planos,
portanto, devem indicar o que, onde, quando
e como plantar e manter árvores nas vias
públicas das cidades.
Um dos objetivos da arborização que os
planos devem buscar atender é a melhoria
estética das cidades. Entretanto, as conside
rações paisagísticas sobre o plantio de
árvores nas ruas variam bastante de autor
para autor, o que se deve em parte ao gosto
e estilo de cada um . Embora considere
necessária a variação de espécies de árvores
para o plantio de uma para outra rua,
MIRANDA ( 1 970) recomenda que em cada
uma delas deva ser plantada uma única
espécie vegetal . SOUZA ( 1973), no entanto,
considera que a distribuição de árvores
pelas ruas das cidades, de modo estético e
paisagístico, é feito pelo plantio de lotes
homogêneos, arborizando-se cada quadra
com uma espécie. COZZO ( 1 950), por sua vez,
embora por questões técnicas recomende o
plantio de lotes homogêneos por quadras,
considera que, do ponto de vista estritamente
ornamental, é mais interessante realizar o
plantio de uma rua empregando-se espécies
distintas intercaladas, para diminuir os efeitos
cansativos e monótonos da repetição de
formas e cores.
Diferentes ruas das cidades também requerem
diferentes tratame ntos ou soluções de
arborização em termos de porte de árvores
a utilizar, o que determinará que sejam
selecionadas e programadas diferentes
70
Planejando a arborização
espec1es para plantio. A d iversidade d e
espécies, além d e atender esse aspecto, é
fu n dame ntal à segurança s a n itária d a
arborização, reduzindo riscos d e perdas com
pragas ou doenças de forma proporcional ao
número de espécies utilizadas. Por outro lado,
elevado número de espécies determina
complicações na obtenção de sementes ou
propágulos e na produção de mudas, além
de exigir diferentes práticas silviculturais de
manutenção, que dificultam o manej o e
controle da arborização como um todo.
Assim, ao passo que é recomendável ter um
variado número de espécies na arborização,
esse número não deve dificultar ou impedir
o seu manejo.
GREY & DENEKE (1978) e FLEMER III (1981 ) ,
recomendam que o número de árvores d e cada
espécie não ultrapasse a 10-15% do total de
árvores d o p l a n t i o , i n d i c a n d o , c o m o
conseqüência, a utilização d e , no mínimo,
7 a 10 diferentes espécies para compor a
arborização de uma cidade . Certamente ,
u m n ú m e r o e ntre 1 0 e 2 0 esp é c i e s é
b astante adequado, considerando-se os
diferentes aspectos abordados.
Além disso, o plano deverá definir para cada
rua ou padrão de rua o porte de árvore a
utilizar e , preferencialmente , as espécies
indicadas, dependendo do grau de detalha
menta e especificidade pré-estabelecido.
Também, e no mesmo sentido, o plano
deverá i n d i car regras básicas d e
posicionamento dos plantios em termos de
distância do meio-fio e das construções; se o
71
Arborização de Was Públicas
plantio será em apenas um ou em ambos os
lados de cada tipo de rua considerado; o
tamanho e forma da área livre de pavimen
tação na base das árvores (mudas); e, entre
outros aspectos, as práticas fundamentais de
manejo e manutenção necessárias ao sucesso
da arborização quanto aos objetivos estabe
lecidos. Muitas vezes, em função das condições
locais, os planos devem incluir componentes
específicos de comunicação e educação
ambiental.
Para efeito de organização prática e acom
panhamento gerencial, de uma maneira
geral, os planos são ordenados por compo
nentes denominados "programas" , e estes,
por sua vez, são constituídos de "projetos",
cada um com objetivos, atividades, normas
e metas próprias.
Deve-se observar, enfim, tendo em vista a
freqüente existência de planos não
implementados, que o plano diretor de
arborização, como resultado do processo de
planejamento, não pode ser confundido com
os objetivos do planejamento em si, que é a
arborização urbana. O planejamento, como
técnica de organização de processos futuros,
visando atingir objetivos claramente definidos,
é apenas um instrumento e não um fim em si
mesmo. Assim sendo, deve ser orientado no
sentido do possível, do viável, e não do
· utópico, perfeito.
Nesse sentido, segundo Mil.ANO ( 1 996), alguns
pré-requisitos básicos ao adequado desen
volvimento de um plano (diretor) de
arborização e sua implementação são:
72
Planejando a arborização
a) reconhecimento institucional da impor
tância da arborização através de ações
e políticas públicas claramente definidas;
b) criatividade técnica e política das
soluções propostas no planejamento,
através de abrangente e claro diagnós
tico das características urbanas;
c) decisão política da administração
pública e conseqüente capacidade
técnica na sua implementação;
d) apoio da sociedade urbana, o que
pode depender de programas especí
ficos de conscientização; e
e) monitoramento do conjunto de proce
dimentos e ações efetuado, bem como
dos resultados alcançados, para as cor
reções que se fizerem necessárias,
considerando o caráter dinâmico do
planejamento.
73
Arborização de Vias Públicas
PLANO DIRETOR DE ARBORl�ÇÃO E ÁREAS
VERDES CIDADE DE VITORIA - ES
Vitória, a capital do estado do Espírito Santo, apresenta já urbanizada
a maior parte de seu território, que divide-se em uma parte insular
e outra continental. O processo de urbanização local, ao longo do
tempo, caracterizou-se pela superposição de tecidos urbanos de
diferentes épocas e pela conquista de terras para expansão urbana
sobre os baixios, manguesais e o próprio mar. Característica do
pouco espaço disponível, a cidade apresenta ruas e passeios estreitos,
falta de espaço para estacionamento de veículos, inexistência de
afastamento predial, além de outros fatores relacionados à falta ou
deficiência de planejamento urbano que, aliados à baixa qualidade dos
solos locais, sempre dificultaram ou impediram o desenvolvimento
da necessária arborização na cidade.
Visando contornar esses problemas e realizar uma arborização
em bases técnicas corretas, comprovadamente conciliadas com
a realidade sócio-econômica e ambiental da cidade, foi preparado
( 1 992 ) pela Prefeitura Municipal de Vitória, através de um
corpo técnico multidisciplinar, o PLANO D I R ETOR D E
ARBORIZAÇÃO (PDA) , q u e normatizou os procedimentos
relacionados a arborização de ruas e áreas verdes da cidade. Para
instituição legal do PDA, a partir do diagnóstico dos principais
problemas de ordem político-administrativo e da definição das
normas técnicas mais adequadas à realidade do município contidas
no plano, foi elaborado projeto de lei normatizando a implantação,
monitoramento, fiscalização e cadastramento da arborização do
município e, ao mesmo tempo, definindo as penalidades a possí
veis infrações.
Para conhecimento da real situação à época, foi realizado um
diagnóstico da cobertura vegetal e dos espaços livres do Município
que considerou os seguintes componentes: arborização de ruas;
áreas verdes públicas; áreas verdes particulares; e unidades de
conservação. Para cada um desses componente, à exceção das uni
dades de conservação, foram realizados um "inventário quantitati
vo total" e um "inventário qualitativo por amostragem", implican
do em longas e detalhadas coletas de dados que utilizaram formu
lários especificamente elaborados. Para o componente unidades de
74
Planejando a arborização
conservação adotou-se como metodologia apenas a realização de
vistas locais para caracterização do estado de cada área termos
das suas principais características (aspectos de vegetação, solos e
recursos hídricos, existência de problemas de poluição ou lixo,
questões fundiárias e, quando possív e l , levantamento d e
informações sobre fauna) .
Com base n a análise dos resultados dos inventários foram defi
nidos diagnósticos particulares e, então, estipuladas propostas
estratégicas de desenvolvimento, posteriormente detalhadas em
"programas" e "projetos de açãd' para cada componente considerado.
Foram definidas, assim, as seguintes propostas:
• Arborização de Ruas - Programa de Plantio ( Projeto de Inven
tário e Projeto de Plantio), Programa de Manutenção e Programa
. de Monitoramento;
• Áreas verdes Públicas - Programa de Implantação e Recuperação
(Projeto de Implantação e Projeto de Recuperação) e Programa
de Manutenção e Programa de Monitoramento;
• Áreas Verdes Particulares - Programa de Uso Público, Programa
de Recuperação e Proteção das Encostas (Projeto de Refloresta
mento de Encostas e Projeto de Plantio Participativo) e Programa
de Monitoramento e Controle ( Projeto de Fiscalização e Moni
toramento e Projeto de Cadastramento das Áreas Rurais) ;
• Unidades d e Conservação - Programa d e Elaboração de Planos
de Manejo (Projeto de Inventários e Projeto de Planos de Manejo)
e Programa de Fiscalização e Monitoramento.
Cobrindo mais de um dos componente básicos originalmente defi
ni d o s , foram ainda detalhados os seguintes program a s :
Cadastramento; Desenvolvimento d o Horto Municipal; e Educa
ção Ambiental.
O Plano Diretor de Arborização de Vitória passou a ser, então, o
instrumento prático de gestão da arborização da cidade; é dele que
passaram a advir as diretrizes de implantação e manej o d a
arborização urbana local, sempre sujeitas a processos d e avaliação
e replanejamento, à medida que surj am novas e importantes
informação, novas técnicas sejam desenvolvidas ou novas propostas
políticas sejam incorporadas à realidade do Município.
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PLANTANDO E MANTENDO
ÁRVORES NAS CIDADES
E) plantio é, muitas vezes, ou deveria
ser, o ponto culminante dos esforços
de planejamento paisagístico, avaliação
e preparação do local, seleção de espécies e
produção de mudas; ou seja, o ponto de
partida e chegada do cíclico processo de
planejar � executar � controlar � analisar
� (re)pla n ejar, em arborização urbana .
Entretanto, até há bem pouco tempo, a maior
preocupação de muitos que lidavam com a
arborização de cidades era plantar, sem,
contudo, utilizar alguns critérios fundamentais,
necessários ao bom desempenho das árvores.
Hoje em dia, graças ao fato de as atividades
de plantio serem seguidas de observações
sobre o desenvolvimento das árvores, são
utilizadas técnicas complementares de condução,
tanto na fase inicial de crescimento como na
maturidade da planta (BIONDI, 1987) .
Para que as áreas verdes e árvores de rua
cumpram com as suas funções no meio
urbano e se conservem em estado adequado
e sadio, é necessária a adoção de práticas
sistematizadas de manutenção. As áreas verdes
normalmente contam com um plano diretor.
Além de orientar seus usos, esse plano define
características do seu manejo ou manutenção,
que, quanto aos tipos de tratamentos dispen
sados às árvores, é semelhante ao manejo das
árvores de rua. Esses tratamentos, dados os
objetivos específicos dos plantios e as carac
terísticas das espécies e do local de plantio, é
83
A rborização de Vias Públicas
que tendem, entretanto, a ser qualitativamente
distintos. Como práticas de manejo mais
comuns às árvores urbanas, encontram-se o
replantio, irrigação, adubação, poda, controle
fitossanitário, reparo de danos físicos e
remoção ( D PJ, 1 9 7 7 ; M IRAN D A , 1 9 7 0 ;
MILANO, 1984; KIELBASO, HASTON & PAW L,
1982 ) . Entretanto, existem várias controvérsias
quanto à aplicação de algumas dessas práticas
de manejo.
Assim, além da concepção de plantar,
cresce o conceito de "criar" a arborização,
superando-se a idéia de que o ato de
plantar, em si, já é suficiente . São neces
sários recursos e investimentos contínuos
capazes de custear o manejo da arborização
para que esta possa desempenhar com
eficiência o papel a ela destinado. Além do
planejamento, descrito no capítulo anterior,
o conhecimento técnico de práticas modernas
de plantio e manutenção, juntamente com a
constante atualização do corpo técnico do
setor, é fator decisivo para o sucesso do
· planejamento e otimização dos recursos. Os
trabalhos e custos de manutenção podem
ainda ser encarecidos pelas ações da
população sobre as árvores, notadamente
pelo vandalismo, conforme observado por
MILANO ( 1 986; 1 987), que considera ainda
as necessidades de manejo, acima de tudo,
decorrência da qualidade do planejamento.
Plantio e replantio
O plantio nas ruas deve ser efetuado com a
observância de três aspectos fundamentais,
84
Plantando e mantendo árvores
a saber: características do local, características
das mudas e características do plantio em si.
As ruas, pelas variadas funções que assumem,
envolvendo desde a circulação de veículos a
pedestres, apresentam uma série de carac
terísticas que devem ser cuidadosamente
analisadas. A largura das ruas e calçadas, a
posição das redes de fiação elé trica e
telefônica, a posição e profundidade das
redes de água e esgotos, o afastamento das
construções e o tipo de tráfego local influem
diretamente na determinação do porte da
espécie a u tilizar e na localização e
espaçamento das covas de plantio, conforme
observados no planejamento (SOUZA, 1 973 ;
MIRANDA, 1970; SANTIAGO, 1970). Entretanto,
é no ato do plantio que devem ser observados
aspectos como saídas e entradas de veículos,
postes, caixas de manutenção de redes e
bueiros, entre outros aspectos, guardando-se
as adequadas distâncias de segurança na
hora de fazer o posicionamento definitivo
da planta. Independentemente da resposta
à questão sobre de quem é a culpa por um
poste e uma árvore estarem muito próximos,
o certo é que a situação é um problema e
envolve organizações distintas. Também é
certo que, geralmente, é bem mais fácil e
viável mudar um poste do que transplantar
uma árvore.
Quanto ao plantio propriamente dito, é
recomendada por SOUZA ( 1 973 ) e MIRANDA
( 1970) a utilização de covas com, no mínimo,
50 cm x 50 cm x 50 cm, devendo-se aumentar
essas dimensões quanto piores forem as
85
A rborização de Vias Públicas
condições físicas ou qu1m1cas do s o l o .
BALMER & ZAMBRANA (197 7 ) consideram
necessárias ao satisfatório desenvolvimento
das plantas covas 60 cm mais largas e 15 cm
mais profundas do que o torrão envolvente
das raízes, sendo que a posição da muda na
cova deve ser tal que permaneça à mesma
profundidade em que estava no viveiro; ou
seja, o preenchimento da cova deve levar em
conta que o colo da muda permaneça no
nível do solo e deve ser feito de forma que
as bordas fiquem mais elevadas, formando
uma bacia de captação de água. A terra para
o preenchimento das covas deve ser fértil
e, em solos pobres, pode-se usar uma mistura,
em partes iguais, de terra de boa qualidade
e esterco curtido de curral ou composto
orgânico (SOUZA, 1973). Uma boa drenagem
deve ser assegurada.
Como em qualquer plantio, as mudas a
utilizar devem ter boa formação e adequadas
condições sanitárias . Devem estar em re
cipie ntes apropriados , c o m o j acás ou
embalagens grandes, evitando-se o transporte
de mudas em torrão ou raiz nua, dado o
risco de danos ao sistema radicular.
As mudas devem ser formadas em viveiros e
apresentar, segundo SOUZA (1973), tronco de
pelo menos 2 m de altura, do qual já se
destacam os ramos principais da futura copa,
em número de dois a quatro. Uma altura
mínima de 3 m é recomendada por MIRANDA
(197 0). Entretanto, para árvores que deverão
formar a copa acima da fiação aérea, mudas
com alturas de aproximadamente 4 m são
86
Plantando e mantendo árvores
as mais desejáveis. Nesse caso, a altura
da bifurcação também deve superar os 2 m
usuais, chegando preferencialmente a 3 m
ou mais.
M U DA 3 ESTACAS
> 2,00 m
PLANTIO
Figura 5 . 1 - Implantação da
arborização: porte das mudas,
p l a n tio e for m a s de É importante observar que as mudas sejam
tutora m e n to (Ilustração produzidas a partir de material genético de
Carlos M. S. de Silva, 1 998, procedência conhecida, com comprovada
com base SHUBERT, 1 979 e
adaptação climática e demais característi
MILANO, 1 993).
cas desejáveis (SANTAMOUR JR. , 1969). Ainda,
pequenos detalhes podem ser fundamentais:
por exemplo, para espécies dióicas, pode-se
usar o critério de plantio só de exemplares
87
A rborização de Vias Públicas
masculinos ou femininos, em função de
características especiais, como, respectiva
mente, ausência de frutos ou exuberância
da floração. Em M endoza ( Argentina) ,
planta-se apenas exemplares masculinos de
Morus alba, evitando-se a indesejável pro
dução de amoras nas ruas. A produção de
mudas dessa espécie é feita vegetativamente,
utilizando-se, como matrizes, árvores com
as demais características desejáveis, além do
sexo (PANASITI, 1994).
Sobre o espaçamento entre árvores e sua
localização nas calçadas, deve-se considerar,
entre outros aspectos, o porte e as necessidades
da espécie. SOUZA (1973) e MIRANDA (197 0)
indicam espaçamentos de 7 m a 1 0 m para
árvores pequenas e 10 m a 15 m para árvores
grandes. COZZO (195 0) indica espaçamentos
de 6 m a 1 2 m, independentemente do
porte da árvore. Entretanto, deve-se sempre
considerar como espaçamento mínimo o
diâmetro de copa médio da árvore adulta.
Quanto à posição do plantio, o antigo
Depar tamento de Parques e Jardins de
Curitiba (DPJ, 1977) recomendava guardar
uma distância mínima de 1 m do meio-fio e
5 m das construções.
Entende-se como replantio a substituição de
indivíduos arbóreos, sejam estes adultos,
removidos por prá t icas de manejo ou
controle fitossanitário, sejam jovens, neste
caso com a substituição motivada por
insucesso do plantio original. Em quaisquer
dessas circunstâncias, permanecem válidas
88
Plantando e mantendo árvores
para o replantio todas as recomendações
mencionadas para plantio.
Tutoramento e Protetores
A utilização de tutores e protetores vai
depender do vigor e por t e da árvore,
expectativa das condições ambientais (vento) ,
características do tráfego d e pedestres e de
automóveis, características paisagísticas e
freqüência das atividades de manutenção.
A necessidade de tutoramento está sempre
associada ao porte da muda utilizada, assim
como a necessidade de protetores é sempre
associada, numa primeira observação, a
questões ligadas a atos de vandalismo e
trânsito de máquinas e veículos.
Conforme HARRIS ( 1 983 ), árvores tutoradas,
quando comparadas com árvores s e m
tutoramento, apresentam algumas diferenças,
a saber: maior crescimento em altura; cresci
mento em diâmetro do tronco próximo ao
topo maior que próximo à base ; menor
crescimento do sistema radicular ; maior
resistência aos ventos; suscetibilidade a
danos por atrito e estrangulamento do tronco
pelo tutor; e desenvolvimento irregular do
xilema ao redor do tronco. Todas essas influ
ências tornam as árvores menos habilitadas à
sustentação sem tutores e, se tutoradas, mais
sujeitas a danos, particularmente se o tutor
for retirado ou quebrado. Acrescente -se que
o tutoramento é um consumidor de recursos
financeiros e de tempo no ato do plantio,
muitas vezes comprometendo a aparência,
quando mal executado.
89
A rborização de Vias Públicas
Vários problemas de danos às mudas podem
ocorrer devido a práticas inadequadas de
tutoramento. Foram encontrados índices de
até 1 5 % de árvores danificadas por esse
motivo em C u r i t i b a , p a r t i c u larmente
identificados através de estrangulamentos e
ferimentos nos pontos de contato entre o fuste
e o tutor (MILANO, 1 984) . De uma maneira
geral, tais problemas estão relacionados
tanto à forma como é efetuado o tutoramento
quanto à falta de acompanhamento e
manutenção dessa prática. Ainda assim, o
tutoramento é necessário ao su porte de
árvores jovens até seu enraizamento defi
nitivo e suficiente capacidade para progredir
por si só.
Em função das características das mudas, das
condições locais de plantio, bem como da
disponibilidade de recursos, o tutoramento
pode ser realizado usando-se de uma a três
estacas, às quais a muda será amarrada.
Essas estacas podem ser de madeira,
bambu ou metal, e o sistema de fixação pode
utilizar desde simples cordas de sisai a
sofisticadas cintas reguláveis de lona (HARRIS,
1 983 ; BALENSIEFER & W IE CHETE CK, 1985;
MILANO, 1 993 ) . Estacas de bambu sem
tratamento prévio tendem a um rápido
apodrecimento da porção subterrânea e
requerem constante acompanhamento;
estacas de madeira tendem ao mesmo
problema, porém duram mais tempo. Amarras
com cordas de sisai também apresentam
deterioração relativamente rápida quando
comparadas com "fiti lhos" plásticos e outros
materiais sintéticos, mas apresentam a
90
Plantando e mantendo árvores
vantagem, por esse motivo, de implicar em
menores riscos de estrangulamento da muda,
uma vez que tendem a se romper com a
pressão do crescimento em diâmetro.
Diferentemente do tutoramento, protetores
são mais custosos, além de geralmente
dispensáveis. A participação e envolvimento
da comunidade através de programas de
es clarecimento e educação pode vir a
minimizar ou eliminar a necessidade desse
equipamento, conforme pode ser demons
trado pelos plantios de Curitiba (P R) e
Maringá (PR). Situações especiais de tráfego
e uso urbano, particularmente em regiões
centrais e comerciais, de intensa movi
mentação de máquinas, veículos e pedestres,
entretanto, podem requerer a adoção de
práticas específicas de proteção preventiva,
tais como o uso dos conhecidos protetores
de metal (HARRIS, 1983) ou então a elevação
da borda dos canteiros. Protetores podem
ainda ser construídos com plástico, PVC
ou madeira, e uma vez utilizados, em geral
dispensam a utilização de tutores. A proteção
da área livre de pavimentação contra a
compactação do solo por pisoteio, por sua
vez, pode ser realizada pela adoção de grades
de metal ou concreto, pela elevação da
borda da área livre ou pelo plantio de plantas
forrageiras não-rasteiras.
Irrigação
A água, como constituinte primano da
produção de matéria orgânica, do processo
de fotossíntese, como solvente no transporte
91
A rborização de Vias Públicas
de nutrientes no solo e deste para as plantas
e como elemento de transpiração, liberado
para arrefecimento quando o calor é ex
cessivo, é fundamental à vida das árvores.
Ta n t o as c o n d i ç õ e s a t m o sf é r i c a s o u
c l i m á t i cas como as edáficas são, assim,
determinantes para o equilíbrio hídrico das
plantas, que é estabelecido a par tir de
complexas relações atmosfera-planta-solo.
As árvores de rua, geralmente em função da
impermeabilização e compactação do solo,
são especialmente sujeitas a problemas
relacionados com a disponibilidade de água.
Assim, em vias públicas, a irrigação merece
destaque como fator crítico de sucesso no índice
de pegamento de plantios (ou replantios) .
Embora o período das chuvas seja considerado
como ideal para o plantio, é possível a sua
realização em outras épocas, desde que seja
garantido o fornecimento periódico de água
às mudas a t é o completo pegamento.
MIRANDA (197 0) recomenda, genericamente,
que a irrigação seja constante e supra cada
árvore, sempre que as chuvas não forem
suficientes, com 20 litros de água por semana.
Situações especiais de arboriza ção em
ambientes áridos ou semi-áridos, entretanto,
podem exigir procedimentos de suprimento
de água às plantas como pré-requisito. A
existência de padrões de estresse hídrico,
ocasionados por significativos períodos de
tempo com índices de evapotranspiração
superiores aos de precipitação, vai requerer
medidas pré-estabelecidas de irrigação.
A cidade de Mendoza, na Argentina, por
92
Plantando e mantendo árvores
exemplo, com aproximadamente 200 mm
anuais de precipitação pluviométrica, conta
com uma extensa rede superficial de irriga
ção, nos passeios, como forma de manter sua
significativa e fundamental arborização de ruas.
Nessa cidade, aliás, cada novo loteamento
só é apro vado caso contemple projeto e
compromisso de execução de rede de irrigação
para árvores de ruas (PANASITI, 1994) .
Adubação
Segundo BIONDI (1995) , citando Tattar 1 ,
enquanto na floresta a maioria dos solos
contém um balanço mais equilibrado de
minerais essenciais ao desen vol vimento
natural das ár vores, no meio urbano os
solos apresentam-se em condições extre
mamente modificadas, podendo afetar a
disponibilidade de alguns nutrientes e
resultar tanto em deficiência como em
toxicidade de outros. A retirada de folhas ao
redor das ár vores e o plantio de grama, por
exemplo, provocam primeiramente a expor
tação e posteriormente uma intensa
competição por nutrientes necessários para
que ambas as plantas, ár vore e grama, se
mantenham saudáveis.
Os minerais nutrientes são componentes
naturais dos tecidos das plantas e, por
conseguinte , sua disponibilidade é pré
requisito ao adequado desen vol vimento
1 TATTAR, T. A. Non infections d iseases of tree. Arborlc . J . ,
Biscester, v. 5 , p . 1 1 1 - 1 16, 1 98 1 .
93
A rborização de Vias Públicas
vegetal. Entretanto, segundo H imelick 2 ,
citado por B IOND I ( 1 995), o metabolismo
pode ser anormal se um ou mais elementos
essenciais faltarem ou existirem em excesso
no solo. O mesmo autor considera ainda que
os fatores que regulam as condições de
absorção de nutrientes pelas raízes das
plantas são: concentração de nutrientes,
profundidade da camada superficial do solo,
textura e estrutura do solo, tipo de subsolo,
pH e nível de compactação.
Assim, como a maioria desses fatores muda
constantemente ao longo de cada rua e
mesmo de cada lado de uma mesma rua,
tendo em vista tanto os cortes e aterros
realizados no processo de urbanização como
a diversidade de materiais utilizados nos
aterros, é muito difícil estabelecer um
procedimento padrão correto, quer para
correção de pH, quer para adubação, embora
sejam realizados levantamentos e análise
de solos. Além disso, diferentes espécies
possuem diferentes necessidades nutricionais.
Dificuldades operacionais de proceder
adubação regular ou corretiva, entretanto,
restringem a aplicação dessa prática na
arborização de vias públicas, normalmente
realizada apenas no momento do plantio (e
replantio), quando do preenchimento da
cova . Nesses casos, procedimentos de
2 HIMELICK, E. B. Diseases stress or urban trees. in: SANTAMOUR
JR. , F. S . ; GERHOLD, H. D . ; LITTLE , S . Better trees
formetropolitan landscapes. Washington, USDA - Forest
Service, 1975, p. 1 13-126.
94
Plantando e mantendo árvores
correção das condições físicas e químicas
do solo devem ser conjugados c o m o
fornecimento de suplementos nutricionais,
sob a forma de adubo orgânico ou mineral.
Não obstante tais dificuldades, a utores
como MIRANDA ( 1 9 7 0 ) e DPJ ( 1 97 7 ) reco
mendam adubações anuais de manutenção
ou reposição. Nesse mesmo sentido, MILLER
( 1 988) afirma que , embora considere a
existência de limitações de ordem prática para
a aplicação de fertilizantes por cobertura em
árvores de rua, a fertilização de árvores já
estabelecidas pode acelerar as suas taxas de
crescimento, tornando-as mais vigorosas e
resistentes num prazo de tempo mais curto.
A aplicação de fertilizantes, segundo HARRIS
( 1 983 ) , pode ser realizada de diferentes
maneiras: polvilhamento sobre o solo,
aplicação em pequenas cavidades no solo,
injeção de solução no solo sob pressão,
aspergimento sobre a folhagem ou injeção
diretamente no tronco. O método apropriado
dependerá dos nutrientes a serem aplicados,
equipamentos disponíveis, outras plantas
ocorrentes na área de aplicação, natureza dos
solos e da espécie a ser tratada. Uma boa
alternativa para fertilização de árvores de
rua é a aplicação através de irrigação de
solução de nutrientes básicos (N-P-K) em
concentrações baixas, o que não requer
equipamentos especializados ou sofisticados
e ainda permite a otimização de recursos pela
adoção de duas práticas simultâneas, ou seja,
irrigação e adubação.
95 .
A rborização de Vias Públicas
PROJETO DE ARBORIZAÇÃO
DE PIRAQUARA
REALENGO - RIO DE JANEIRO
A localidade de Piraquara, posicionada a oeste do maciço da Pedra
Branca no bairro de Realengo, foi a primeira área contemplada com
arborização de suas ruas através do chamado Projeto Bangu,
desenvolvido a partir de 1 996 pela Fundação Parques e Jardins (FPJ)
da Prefeitura do Rio de Janeiro. Apresentando topografia plana e
pouca arborização, maiores máximas de temperatura registradas na
cidade, além de uma paisagem urbana de aparência bastante árida,
a opção de solução encontrada para mitigação do desconforto
térmico da população local foi a intensificação da arborização.
O diagnóstico da situação local e a pré-definição de solução levou a
equipe da FPJ a elaborar um programa de arborização que, na sua
concepção, permitisse abranger os bairros vizinhos mas que fosse
executado por fases, em pequenos projetos; sendo o primeiro deles
o "projeto de arborização de Piraquara" . O processo de arborização
foi, então, iniciado em maio de 1 996 e concluído em novembro do
mesmo ano, abrangendo um total de 63 ruas onde foram plantadas
2 . 1 00 mudas arbóreas. No plantio foram utilizados critérios técnicos
especificamente definidos para adequação às condições locais, com
mudas apresentando altura mínima de 1 ,80 m, covas de plantio
amplas e bem adubadas, além do uso de tutores e protetores. As
áreas de " l m x 1 m" livres de pavimento nos passeios, onde foram
plantadas as mudas, receberam plantio de cobertura com espécies
rasteiras como garantia de mantenção da permeabilidade do solo,
além de resultar em bom efeito paisagístico. Após seis meses do
plantio foram realizadas as seguintes atividades de manutenção:
reposição das mudas mortas e danificadas, substituição de protetores,
poda de formação e desbrotamentos, re-plantio da forração nas áreas
livres de pavimentação junto às plantas.
As espécies arbóreas selecionadas para plantio foram: ipê-amarelo
(Tabebuia chrysotricha), cássia-pêndula (Senna pendula) unha-de-vaca
(Bauhinia forficata ) , tipuana ( T ipuana tipu), alfeneiro (Ligustrum
japon icus ) , murta (Murraya exotica ) , oití (L icania tomentosa ) ,.
quaresmeira (Tibouchina granulosa) , hibisco (Hibiscus rosa sinensis)
96
Plantando e mantendo árvores
e pitanga (Eugenia un iflora) . Por sua vez, como forrageiras, entre
outras, foram utilizadas : m argaridão ( Wedellia p a /udosa ) ;
hemigraphis (Hemigraphis colorata) ; quaresminha (Schizocentron
elegans ) ; onze-horas (Portulaca grandif/ora ) ; e grama-amendoim
(Arachis sp.).
Paralelamente ao plantio, foi desenvolvido um trabalho de educação
ambiental visando conscientizar a população local sobre a
importância da arborização, o que conferiu ao mesmo uma aceitação
acima das expectativas. Como resultados dessa ação podem ser
computados a significativa participação da comunidade local e o
baixo índice de falhas registradas pós-plantio; cerca de apenas 8%
contra uma média municipal de 30%. Além disso, a adesão da
comunidade local ao projeto pode ser exemplificada por atitudes
tais como: colocação de reforços nos protetores; otimização do plantio
de cobertura na área livre de pavimentação; cuidados freqüentes de
limpeza e rega; além de crescentes solicitações de arborização em
áreas próximas.
Deste projeto, além dos benefícios decorrentes da melhoria ambiental
local, ou seja, da melhoria de qualidade de vida, cristalizou-se na
Fundação Parques e Jardins a convicção da necessidade dos
trabalhos de arborização virem sempre acompanhados de programas
de educação ambiental, fator decisivo para o sucesso de tais
empreendimentos.
Controle fitossanitário
Conceituando o problema
O controle fitossanitário, juntamente com
outros tratos culturais, é uma das formas de
manejo necessárias à preservação da
arborização urbana. Sua utilização, na
prática, inicia-se em caráter preventivo com
a adequada seleção de espécies resistentes
ou tolerantes quando do planejamento. O
97
fi
D
"' " "'
A rborização de Vias Públicas
sucesso desse tipo de medida depende do
conhecimento básico que se deve ter da
fisiologia da planta, das suas características
de crescimento e fenologia e sobre as
condições de normalidade ou anormalidade
em que ela se encontra . M u i tas vezes,
abcisões foliares, quedas de ramos, trocas
de casca, exsudação de gomas ou resinas e
d iferenças na coloração d a folhagem .
podem ser simples processos fisiológicos
(SANTIAGO, 1990). Condições de anorma
lidade, caracterizadas pelo aparecimento
de sintomas como reflexo de distúrbios
fisiológicos no vegetal, são ocasionadas
pela interação de três fatores: a planta em si
(hospedeiro), o patógeno e as características
ambientais.
Segundo AUER (1996), os fatores que propi
ciam enfermidades nas árvores podem ser
divididos em abióticos e bióticos. Os problemas
abióticos, notadamente em árvores planta
das em áreas urbanas, ocorrem em função
de condições ambientais adversas para as
plantas. As diferenças existentes entre as
condições evolutivas de origem das plantas
e as do ambiente urbano, muitas vezes,
transformam-se em fatores ambienta is
adversos e podem se expressar de várias
formas, em função direta do grau de adversi
dade. Além disso, o estresse produzido cria
condições para a associação de insetos
e patógenos secundários, os quais atacam
e colonizam os tecidos danificados . As
doenças de ordem biótica, por sua vez,
resultam da interação entre a planta, o
patógeno e o ambiente. Reconhecendo
98
Plantando e mantendo árvores
esses três fatores que interagem para produzir
a doença, pode-se então, pela manipulação de
qualquer um deles, prever e controlar proble
mas dessa ordem.
Alguns fatores abióticos e suas conseqüências
estão associados a aspectos climáticos, como
temperatura, umidade e vento, e a aspectos
edáficos. Dependendo da intensidade e do
estado fisiológico das plantas, temperaturas
ele vadas causam ressecamento lento ou
rápido, que pode causar a morte dos tecidos.
Por sua vez, temperaturas baixas podem
levar a rachaduras na casca e no tronco,
danos estes que podem abrir caminho para
patógenos secundários . Esses processos
ocorrem principalmente em espécies arbóreas
com adaptação inadequada aos sítios de
plantio. Plantas a daptadas a pleno sol
colocadas em locais sombreados apresentam
folhas amareladas, hastes flácidas, entrenós
alongados, declínio da copa, seca de ponteiros,
podendo até morrer. No outro extremo,
plantas de pouca luminosidade plantadas a
pleno sol mostram amarelecimento de folhas
e sofrem estresse hídrico, com conseqüente
secamento de folhas e galhos que também
pode levar à morte. Ventos fortes provocam
quebra de árvores, com maior incidência em
indivíduos portando algum tipo de problema.
Sintomas menos pronunciados são os
fissuramentos de casca , em função do
arqueamento da árvore, sob intensa ação do
vento. A queda de granizo danifica folhas e
ramos em proporção direta ao tamanho das
pedras. A força da queda de grandes pedras
provoca ferimentos ou queda de ponta de
99
A rborização de Vias Públicas
ramos e no topo das árvores, podendo surgir
pequenos cancros como resposta (AUER, 1 996 ) .
Uma série de distúrbios fisiológicos também
decorre do excesso de umidade. O alagamento
do solo acarreta deficiência de oxigênio
para as raízes e reações de oxi-redução, que
tornam elementos nutricionais, como o ferro,
indisponíveis à absorção. No outro extremo,
a seca, déficit hídrico ou baixa umidade no
solo podem causar lesões , necroses ou
queima do limbo foliar, murcha temporária
ou permanente da copa, mor te de raízes
jovens, fissuramentos da casca, seca de
ponteiros e mesmo da copa e até morte de
árvores. O efeito do déficit hídrico pode ser
incrementado com a presença de ventos
permanentes. As deficiências e excessos de
e l e m e n t o s minerais no s o l o t a m b é m
acarretam distúrbios fisiológicos para as
árvores, como crescimento inadequado e
mesmo a morte dos indivíduos mais afetados.
Deficiências de nutrientes podem estar ligadas
à falta de água, que torna indisponíveis às
plantas alguns íons presentes no solo, ou
relacionadas ao pH do solo, sendo que neste
caso os nutrientes tanto podem tornar-se
insolúveis em extremos de acidez ou de
alcalinidade como ficarem tão disponíveis
a ponto de tor narem-se f i t o t ó xicos
( A UER , 1 996 ) .
Na consideração dos agentes bióticos
causadores de pragas e doenças em árvores,
deve-se ter em mente que as plantas são
predominantemente autotróficas, ou seja,
capazes de efetuar sínteses bioquímicas
1 00
Plantando e mantendo árvores
através da fotossíntese. Essa característica
coloca-as como protagonistas no relacio
namento com outros organismos vivos, em
e s p e c i a l os h e t e r o t r ó f i c os q u e d e l a s
necessitam para seu sustento. Entretanto,
as plantas são também dependentes dos
organismos heterotróficos, pois são eles
que decompõem os compostos biológicos
encerrados nos organismos vivos, tanto auto
como heterotróficos, liberando nutrientes
básicos às plantas. Com esse conceito em
mente, é possível compreender que
"doenças" não devem ser encaradas como
simples descontroles naturais, mas sim,
muitas vezes, como par te do processo
normal de ciclagem e reciclagem de elementos
na natureza (MANION, 1981 ) .
Doenças de orde m biótica, c o m o J a
dissemos, são resultado geralmente da
interação de três fatores: a planta, o patógeno
e o ambiente. Por tradição, a fitopatologia é
inerente a todas as doenças das plantas, com
exceção das causadas por insetos, normal
mente chamadas de pragas. Na prática mais
atual, entretanto, deve-se reconhecer os
insetos como um impor tante grupo de
patógenos, ou mesmo vetores de doenças, e
procurar reconhecer e entender a relação
inseto-planta, visando efetuar um controle
fitossanitário eficiente (MANION, 1981 ) .
Pragas e doenças podem ser abordadas de
duas formas distintas: pela parte afetada
da planta ou pelo patógeno envolvido.
Abordando o problema através das partes
afetadas das plantas, AUER ( 1 996) identifica
101
A rborização de Vias Públicas
doenças em raízes, no tronco e nas folhas.
Quanto -aos patógenos mais comumente
tratados, MANION ( 1 981) considera os insetos,
vírus, fungos, bactérias, nematóides e mesmo
outras plantas superiores, as chamadas
parasitas, como os principais agentes
fitopatogênicos.
I \
Figura 5.2 - Doenças e outros
p roblemas f itossa n itá ri cos
A podridão de raízes registrada em árvores como resultado da interação
urbanas é causada principalmente por três planta - ambiente - patógeno
(Ilustração Carlos M. S. de
espécies de fungos, dos gêneros Armillaria,
Silva, 1998, com base em
Roseilinia e Ganoderm a , que atacam o MANION, 1 981 ).
sistema radicular. Reflexos do ataque desses
patógenos são observados na parte aérea da
planta através de clorose, declínio da copa e
morte de árvores. A presença de podridão
de raízes pode provocar danos materiais e
pessoais, uma vez que árvores com raízes
mortas e apodrecidas não suportam ventos
1 02
Plantando e mantendo árvores
fortes e são d e r r u b a d as. As d o e n ç a s
relacionadas com o tronco d a árvore são
representadas por três tipos principais :
murcha vascular, cancros e podridões. A
murcha vascular é uma doença decorrente da
colonização fúngica (Ceratocystisfimbriata) do
sistema vascular da planta, que a impede de
translocar sais e solutos para a parte aérea
assim como fotossintetizados para as raízes O
ataque pode se verificar também em ramos.
Os cancros são lesões da casca, necróticas
ou não, que podem ser causadas tanto por
patógenos primários como secundários,
surgidos após estresse , como fungos dos
gêneros Batryosphaeria e Valsa. Podridões de
tronco (alburno e cerne) advêm de ataques
de fungos especializados em decompor
material lignocelulósico, atuando em seqüên
cia sobre lesões no tronco, que expõem o
lenho. Cancros também são vias de entrada
para podridões do tronco, e ambas, podridão
e cancro, preocupam pela possibilidade de
a árvore sofrer quebra de fuste sob ação de
ventos for tes. São as doenças foliare s ,
entretanto, que ocorrem na forma d e oídio,
ferrugem, mancha, crestamento ou queima de
folhas e acículas, as que constituem o maior
grupo de problemas fitossanitários associados
a árvores públicas; entretanto, como ainda
não se conhece corretamente a relação
entre algumas destas doenças e o crescimento
das árvores atacadas, é difícil a caracterização
dos danos (AUER, 1 996).
Doenças fúngicas podem atacar raízes ,
troncos e folhas das plantas. Armillaria sp.
foi encontrada em raízes de sibipiruna ;
1 03
A rborização de Vias Públicas
Rose i l i n i a sp . em raízes de populus; e
Gan oderm a sp . em raízes de alecrim-de
campinas, flamboyant e pau-brasil, ocorrendo
sob condições inadequadas de aeração
do sistema radicula r, compactação e
aquecimento excessivo do solo em calçadas
e par ques . Fungos pertencentes à classe
Basidiomicetos são os principais agentes
causadores de podridão do tronco, enquanto
Oidium é problema foliar comum em resedá,
carvalho e diversas espécies de ipê. Manchas
foliares causadas por Asteromidium tabebuiae
são encontradas em ipê; causadas por
Cercospora sp., em cinamomo; e causadas
por Sphaceloma spp. em carvalho, choupo e
chapéu-de-sol ( AUER, 1 996) .
Bactérias fitopatogênicas, como Xantomonas
spp., Pseudomonas spp., Coryneobacterium
spp . , Agrobacteri u m spp. e Erw i n ia spp . ,
podem provocar vários sintomas, como
murcha das folhas, galhas e podridões .
A infecção das plantas pode se dar através
de ferimentos ou aberturas naturais dos
órgãos de reprodução, raízes, caules e folhas,
sendo a disseminação realizada pelo vento,
pela água das chuvas, por pragas e por
contato com plantas doentes e solo infectado.
A infeção pode ainda ser localizada no local
da contaminação ou pode ter ação sistêmica,
disseminando-se pelo sistema vascular do
vegetal ( DEPAV, 1 985) . Exceto por indicações
de ocorrência de doenças atribuídas a
Agrobacterium radiobacter PV tumefasciens
em árvores de ingá, no Estado do Rio, e por
Pseudomonas solanacearum em casuarinas
(FERRE IRA, 1 989), não há informações dis-
1 04
Plantando e mantendo árvores
poníveis suficientes sobre doenças
bacterianas para espécies utilizadas na
arborização urbana no Brasil.
Quanto a doenças associadas a nematóides,
também são poucas as informações disponíveis
para espécies utilizadas na arborização.
FERRE IRA ( 1 989) registra a ocorrência de
nematóides fitoparasitas do gênero
Paratrichodorus em pau-ferro, Meloidogyne
para ipê-amarelo e ipê-roxo e Helicotylenchus
e Macropostonia para angico.
Conforme consideração anterior, insetos e
ácaros também fazem parte do grupo dos
problemas fitossanitários bióticos. Os danos
causados pelos insetos às plantas são variáveis
e podem ser observados em todas as partes
do tecido vegetal. Os insetos sugadores
podem sugar a seiva das raízes, caules, ramos, ·
folhas e frutos das plantas, causando, não
raro, o seu definhamento completo. Além
disso, podem injetar substâncias tóxicas por
ocasião da sucção, produzindo alterações
no desenvolvimento normal dos tecidos.
Outros são vetores de doenças, principal
mente as causadas por vírus. I nsetos
mastigadores também podem atacar todas
as partes das plantas citadas, diferencian
do-se dos sugadores por destruírem os teci
dos, cujas lesões servem freqüentemente de
porta aberta para a invasão de microorganis
mos ( GALLO et a/ii , 1 978).
Exemplos de tais interações são as cochonilhas
Chrysomphalus spp. e Mytilococcus spp. , que
se fixam na superfície das plantas, formando
colônias e sugando seiva de folhas, frutos e
1 05
A rborização de Vias Públicas
ramos. Pela grande quantidade de seiva que
extraem para sua alimentação, podem
provocar o definhamento e mesmo a morte
das plantas. Além disso, o líquido açucarado
expelido por esses coccídeos sobre a planta
favorece o desenvolvimento de um fungo
negro denominado fumagina (Capnodium sp. ),
que recobre a folha, dificultando a respiração
e fotossíntese ( DEPAV, 1985 ) .
Cupins promovem a remoção de tecidos
acima do coleto da muda ou de árvore
jovem. Contudo, o principal dano causado
pelos cupins em áreas urbanas é o ataque
aos troncos e raízes das árvores, em geral,
levando-as ao apodrecimento precoce e,
conseqüentemente, à vulnerabilidade da
planta à ação do vento (DEPAV, 1 985) . Brocas
provocam perfurações no tronco e lenho de
galhos; formigas, lagartas e besouros promo
vem o desfolhamento de plantas; besouros
promovem a raspagem da lâmina foliar e,
por fim, a injeção de toxinas ou simples
danos físicos que podem provocar brotações
intensivas de galhos e ramos ( AUER, 1 996) .
Assim, os insetos fitófagos, entre os quais
p o d e - s e e n c o n t r a r d e s d e f o r migas
cortadeiras até lagartas desfolhadoras ou
brocas do tronco, além de insetos sugadores,
muitos dos quais agentes ou vetores de
doenças fúngicas ou bacterianas, constituem,
em verdade, dos mais expressivos problemas
fitossanitários das árvores urbanas.
Confirmando tais afirmações, avaliação
da arborização de ruas de Curitiba (P R),
realizada por MILANO ( 1 984), mostrou a exis-
1 06
Plantando e mantendo árvores
tência de 1 4, 3 % das árvores com a folha
gem danificada por insetos, 5,0% atacadas por
homópteros, 2,3% apresentando perfurações
no tronco provocadas por brocas e 0, 9 %
atacadas por cochonilhas, indicando o sig
nificativo potencial de 1 6,3% de árvores com
problemas fitossanitários associados a insetos.
Na mesma cidade, avaliação da situação
fitossanitária de árvores de praças, realiza
da por TRINDADE & ROCHA (1990), indicou
infestações de cochonilhas da ordem de
4 1 , 6 % em árvores de jacarandá-mimoso,
30, 8 % em dedaleira, 33,3% em pimenteira
e 68, 4% em aroeira. Em Maring á (P R),
MILANO ( 1988) identificou a necessidade
de controle fitossanitário em 6, 7% das árvores,
sendo da ordem de 12,2% para alecrim-de
campinas, 4, 2 % para flamboyant e 3, 8 %
para sibipiruna. Predominantemente, neste
caso, tratava-se de problemas com cupins
associados a podas anteriores realizadas de
maneira inadequada.
Ainda como problemas bióticos, podem ser
consideradas as plantas ditas parasitas. Suas
raízes penetram nos tecidos condutores da
árvore hospedeira, sugando a seiva e
causando parada no crescimento e morte de
ramos. Comumente conhecida como erva
de-passarinho, em sua maioria, constituem,
na prática, espécies hemiparasitas, visto que
são fotossinteticamente ativas e, portanto,
não dependem exclusivamente da planta
hospedeira. Em geral, pertencem à família
Loranthaceae, que, segundo RIZZINI ( 1968),
compreende cerca de 40 gêneros e 1 . 400
espécies distribuídas pelas regiões tropicais e
1 07
A rborização de Vias Públicas
subtropicais de ambos os hemisférios. Entre
os gêneros mais freqüentes na arborização
urbana, conforme dados encontrados para
São Luís (MA) , Porto Alegre (RS) e Curitiba
( PR ) , estão Phth i rusa , Struth a n t h u s ,
Tripodanthus e Phrygi/anth us (GIRNOS et a/ii. ,
1994; OLIVEIRA & KAPPEL, 1994; AUER, 1996).
Figura 5.3- Amendoeira em
rua da cidade do Rio de Janeiro
apresentando forte infestação
de erva-de-passarinho (Foto
Dalcin, 1 995) .
Declínio, um novo conceito
O conceito do declínio, como uma terceira
categoria de problema fitossanitário associado
às árvores, conforme proposto por MANION
( 1981 ) em Tree disease concepts, trouxe um
novo entendimento à avaliação da condição
e conse qüente tratamento fitossanitário das
árvores urbanas. A síndrome do declínio é
entendida , então, como causada pela
1 08
Plantando e mantendo árvores
interação de fatores bióticos e abióticos, espe
cificamente ordenados e inter-relacionados,
produzindo uma deterioração geral e gradual
da sanidade do indivíduo, culminando com
sua morte. Esse conceito, como uma categoria
distinta de doença ou problema fitossanitário,
não é totalmente aceito por patologistas
florestais, visto que alguns assumem ser esta
síndrome, na verdade, uma coleção de
doenças de etiologia não completamente
conhecida .
O conceito, assim, envolve o reconhecimento
de três conjuntos de fatores. O primeiro deles,
chamado de fatores de predisposição, inclui
Figura 5 . 4 - Esp i ra l do
declínio (MANION, 1 981 ) .
Drenage
insufici te
1 09
A rborização de Vias Públicas
o clima, o tipo de solo ou localização, o po
tencial genético e a idade da árvore. Esse
grupo de fatores enfraquece o indivíduo. O
segundo grupo é chamado de fa to res
incitantes e abrange fatores de curta duração,
que podem ser tanto de natureza física como
biológica (insetos desfolhadores, por exemplo).
Esses fatores geralmente produzem uma drás
tica queda da sanidade do vegetal, que, já
estressado pelos fatores de predisposição,
apresenta dificuldade de recuperação. O
terceiro e último grupo, que é chamado de
fatores contribuintes e inclui insetos xilófagos,
cancro, fungos, vírus e micoplasmas, inicia
então seu ataque ao hospedeiro já totalmen
te enfraquecido. Todo o conceito, entretan
to, é melhor entendido quando observado
através da ilustração "espira/ do declín io" ,
cujo centro culmina com a morte da árvore
(MANION, 1 98 1 ).
O importante nesse conceito é compreender
que , uma vez "capturado" na espiral do
declínio, os recursos necessários à recuperação
do vegetal podem ser mais significativos que
os benefícios esperados da sua existência,
tornando o tratamento operacionalmente
inviável. Nesses casos, não se tratando de
exemplar notável, histórico ou de importância
paisagística destacada, é recomendável sua
substituição.
Diagnóstico: dimensionando o
problema
O diagnóstico é parte fundamental no
processo de reconhecimento e tratamento
1 10
Plantando e mantendo árvores
dos problemas a que as árvores estão
sujeitas no meio urbano. Nesse processo,
o primeiro passo é a identificação correta
da espécie à qual pertence o exemplar ou
exemplares afetados, uma vez que nem todas
as plantas estão sujeitas aos mesmos problemas.
Como muitos destes são específicos a
de terminadas espécies, a identificação do
exemplar pode fornecer uma lista das doen
ças ou pragas às quais ele está potencialmente
sujeito, descar tando um sem número de
outras possibilidades (JOYNER, 1997) . A iden
tificação da espécie traz consigo, também,
o conhecimento do desenvolvimento do
exemplar, em suas diferentes fases fenológicas
e de maturação, não confundindo, por
exemplo, uma possível desfolha por doença
com a deciduidade normal da espécie.
O reconhecimento dos sintomas ou sinais de
doença, e mesmo certas pragas, muitas vezes
é feito através da identificação da parte da
planta afetada, observando-se inclusive as
diferenças existentes entre os exemplares
afetados e aqueles com desenvolvimento
normal. Na observação da árvore, quando
do reconhecimento desses sinais e sintomas,
deve-se anotar também a distribuição deles
pelas diferentes partes do vegetal, bem como
descrevê-los tecnicamente, facilitando a sua
associação com problemas potenciais. Ainda,
para o adequado diagnóstico, deve-se buscar
todas as informações pertinentes à história
recente das árvores afetadas, do sítio de
plantio, do clima e de possíveis práticas de
manejo utilizadas . Especificamente e m
relação ao sítio d e plantio, pode-se destacar
111
A rborização de Vias Públicas
características como expos1 çao à luz,
proximidade de construções, características
de nutrição, compactação e drenagem do
solo (JOYNER , 1997 ).
Muitas pragas e doenças podem, e devem,
ser toleradas como parte natural do ambiente
urbano. O limite entre o tolerável e o intolerá
vel, entretanto, é difícil de ser estabelecido,
pois envolve não só o decréscimo do vigor
e saúde das árvores e sua funcionalidade
como também sua aceitabilidade pela
p o p u l a ç ã o ( GR EY & D E N E K E , 197 8).
Objetivamente, deve-se considerar que
um diagnóstico claro e definitivo, além da
identificação qualitativa do problema, deve
estabelecer também sua dimensão, ou seja,
sua razão quantitativa.
Medidas de controle
Medidas de controle fitossanitário efetivas,
segundo GREY & DENEKE (197 8), envolvem
aspectos como o conhecimento do ciclo
biológico da praga ou doença, monitoramento,
tomada de decisão, capacidade operacional
para aplicação das medidas de controle e
autoridade legal para implementá-las,
devendo esta última observar a postura
municipal sobre o uso de defensivos e
pesticidas. BERNATZKY (1980) aborda o
controle fitossanitário sob os pontos de vista
preventivo, denominado higiênico, e de
controle direto, denominado terapêutico.
O primeiro consiste em satisfazer todos os
requerimentos ecológicos e ambientais, como
por exemplo a escolha de espécie apropriada
para o local e a prática de técnicas de manejo
1 12
Plantando e mantendo árvores
como a adubação; o segundo é baseado num
correto diagnóstico, que inclui uma avaliação
prognóstica quanto ao risco de a infestação
adquirir proporções epidêmicas, e nas
correspondentes medidas de controle, que
podem ser mecânicas (captura e eliminação
da praga e remoção das partes ou indivíduos
afetados), químicas e biológicas.
O controle de pragas e doenças em árvores
de rua tende a ser melhor sucedido quando
realizado através de programas integrados de
manejo, cujo processo inicia com a seleção
de espécies ou cultivares resistentes e passa
pelo plano diretor de arborização de ruas,
que define o plantio de ruas de forma
segmentada, visando obter uma população
de árvores urbanas diversificada em espécies
e classes de idade, capaz de prevenir perdas
catastróficas. Um programa sistematizado de
manutenção ajudará, ainda, a manter uma
população de árvores mais saudável, pela
utilização de podas que removem ramos e
galhos infestados de pragas ou doentes e
favorecem o desenvolvimento de copas
vigorosas . A rápida remoção de árvores
doentes ou em declínio também favorece
controles adicionais . O monitoramento
da população de árvores de rua, visando
detectar problemas potenciais de pragas e
doenças, deve ser realizado de forma a
determinar o nível ou intensidade de
controle que se faz necessário. Ainda, uma
importante consideração sobre qualquer
programa de manejo de pragas e doenças
diz respeito ao custo dos procedimentos em
relação aos b e n e f í c i o s d e c o r r e n t e s
( MILLER, 1 988 ) .
1 13
Arborização de Vias Públicas
C ONTROLE F ITOSANITÁRIO
Apesar de certos problemas poderem ser reunidos e combatidos
conjuntamente, o controle de doenças em árvores públicas deve
ter caráter específico e, segundo AUER ( 1 996) , contar com as seguin
tes medidas de controle:
Exclusão - prevenção da entrada do patógeno em área isenta,
através da produção e plantio de mudas sadias, ou seja, sem
patógenos associados;
Erradicação - prevenção do estabelecimento do patógeno, já
introduzido, através de sua eliminação, utilizando práticas de
arranquio de tocos e raízes colonizadas e podas de limpeza dos
ramos doentes ou parasitados, seguidas de incineração;
Proteção - prevenção do contato do hospedeiro com
o patógeno já introduzido, através da aplicação de produtos
protetores ou sistémicos;
Imunização - impedir o estabelecimento de relações pa
rasíticas íntimas entre o patógeno e o hospedeiro, através da
aplicação de produtos sistémicos e plantio de espécies resistentes;
Terapia - cura da planta doente , através da aplicação de
fertilizantes para recuperação do sistema radicular e da copa,
da aplicação de condicionadores e corretivos de solo, da apli
cação de defensivos agrícolas e de recuperação cirúrgica de
raízes e troncos lesados;
• Evasão - uso de táticas de fuga do hospedeiro ao patógeno
ou ao ambiente favorável à doença e prevenção pelo plantio
em época ou área onde ou quando o inóculo é inefetivo, raro ou
ausente.
Regulação - prevenção da doença pela manipulação do
fator ambiente, através da aplicação de calagem, melhoria na dre
nagem do solo com matéria orgânica, areia ou construção de
drenas e adoção de irrigação.
1 14
Plantando e mantendo árvores
Dendrocirurgia
Como atividades de dendrocirurgia, de um
modo geral, estão compreendidas todas as
ações relativas ao tratamento de injúrias e
cavidades no lenho das árvores, os processos
de recuperação ou reforço da estrutura de
árvores por cabeamentos e fixação de pinos,
bem como o estabelecimento de sistemas
especiais de escora.
Principalmente pelo fato das árvores estarem
sujeitas a grandes lesões, decorrentes da poda
de galhos grossos executada impropria
mente, da ocorrência de acidentes ou de atos
de vandalismos da população que deixam
severas injúrias no tronco das árvores, a
dendrocirurgia é uma prática de manejo
especial que pode vir a ser requerida para
recuperação de árvores de rua. A utilização
desse tratamento requer pessoal habilitado
que, além de ser capaz de identificar a
capacidade de regeneração da espécie, a
idade e vitalidade da árvore e o seu grau de
resistência a ataques de fungos e insetos, deve
ser capaz de aplicar adequadamente as
práticas fitossanitárias necessárias, que
incluem o emprego de produtos químicos
a p r o priados ao combate de f u n g o s
apodrecedores, cupins, formigas e outros
organismos a proveitadores das lesões
presentes nas árvores (BIOND I, 1987 ) .
O tratamento de cavidades nas árvores tem
evoluído substancialmente, acompanhando
o avanço em conhecimentos sobre processos
de reação das árvores a injúrias mecânicas,
1 15
A rborização de Vias Públicas
em particular dos processos de
compartimentalização. Tradicionalmente,
o tratamento de cavidades vem sendo aplicado
através de uma série de etapas, que inclui a
limpeza da lesão, a esterilização, a
impermeabilização e, freqüentem ente,
também o seu preenchimento.
A limpeza da cavidade consis
te, em princípio, na retirada de
toda a madeira e demais teci
dos deteriorados. Entretanto,
tendo em vista que fungos
deterioradores de madeira
podem ser encontrados até
cerca de 1,4 m além da ma
deira deteriorada, a retirada
de toda a parte afetada é im
praticável, se não impossível.
Além disso, Shortle 3 , citado
por HARRIS ( 1 983), alerta para
o fato de que tentativas de
remoção da parte afetada irão
também, provavelmente,
atingir a parte sadia da ma
Figura 5.5 - Palmeiras - imperiais
deira, favorecendo processos de reinfecção.
de Vila Riso, na cidade do Rio de
A esterilização da cavidade após a limpeza Janeiro, sob intervenção dendro
somente foi adotada como etapa do pro cirúrgica (Foto Dalcin, 1 992) .
cesso mais recentemente. Contudo, deve
se considerar a relativa ineficiência dos
esterilizantes até então adotados, capazes de
penetrar na madeira apenas uns poucos
milímetros, enquanto os agentes de deterio
ração chegam a penetrar mais de um metro
3 SHORTLE, W.C. New look at tree care. J. Arboriculture
5(12) :281-84, 1 979.
1 16
Plantando e mantendo árvores
na madeira sadia. Além disso, a maioria dos
esterilizantes recomendados é altamente
tóxica e corrosiva, devendo ser manuseada
com cautela. A etapa de impermeabilização,
recomendada por alguns arboricultores ,
busca isolar a cavidade da alternância de
condições d e "seco/úmido" , bem c o m o
evitar a reinfecção d a cavidade por agentes
fitopatogê n i c o s , especialmente fu ngos
apodrecedores. Entretanto, segundo HARRIS
(1983), n e n h u m impermeabi l izante dis
ponível nos Estados Unidos à época da
publicação demonstrou capacidade de inibir
Figura 5 . 6 - Detalhe
a contínua de
de tratamento den terioração do
drocirúrgico e m lenho. Além dis
p a l m e i r a - i mp e r i a l so, Shigo &
que utilizou im Wilson 4 , cita
permeabilizan te,
dos por HARRIS
mastique d e alvena
ria; no detalhe pin os
( 1983), i n fo r
metá licos p ara r e mam que alguns
estruturaçã o física impermeabilizan
da planta. O mastique tes à b as e de
foi u s a d o c o m o asfalto ainda
material de amorte
favore c e m o
cimento dos movi
m e n t o s d a p l a n ta
incremento da
j u n t o à a l v e n aria e xte n s ã o d a
'·
1
(Foto Dalcin, 1 992) . infecção.
O preenchimen
to da cavidade
é a etapa mais
4
SHIGO & WILSON. Wound dressings on Red Maple and Ame
rican Elm: Effectiveness after five years. J.Arboriculture,
3(5) :81-87, 1977.
1 17
Arborização de Vias Públicas
polêmica do tratamento, visto que, embora
exista um relativo consenso que o preenchi
mento com alvenaria traz benefícios à
sustentação da árvore e proteção da cavidade,
vários autores afirmam que esse procedi
mento possui pouco ou nenhum valor para
promover o fortalecimento da estrutura do
vegetal, ou mesmo favorecer sua saúde e
longevidade . Além disso, materiais como
cimento e concreto, de alta disponibilidade,
durabilidade e baixo custo, são enfaticamente
desaconselhados, especialmente por possuí
rem coeficientes de dilatação diferentes
daquele da madeira, não serem flexíveis,
não serem à prova d'água, serem pesados e
de difícil remoção e , ainda, necessitarem
de treinamento no preparo e aplicação. Via
de regra, cavidades preenchidas com esses
materiais apresentam, a curto prazo, fissuras em
sua área de contato com o tronco, que favo
recem a reinfecção da cavidade; além disso,
como tais tratamentos são de difícil remoção,
dificultam ou impedem acompanhamentos
e avaliações constantes dessa prática. Recentes
experimentos utilizando espuma de poliuretano
para preenchimento total da cavidade, ou
apenas servindo de camada intermediária
entre o lenho e o cimento, pela sua maior
flexibilidade , têm apresentado resultados
promissores (BERNATZKY, 1 980; HARRIS,
1983; MANCHETE RURAL, 1989) . Assim , o
adequado preench imento d e cavidades
possui , na arboricultura moderna, um
s ignificado muito mais cosmético do que
fitossanitário, além de custos proibitivos para
resultados duvidosos, ainda que para utili-
1 18
Plantando e mantendo árvores
zação em pequena escala. Árvores notáveis
que tenham sofrido processos de
dendrocirurgia, contudo, justificam essa
prática para melhorar seu aspecto geral.
O sucesso da dendrocirurgia de
pende principalmente do tamanho
da lesão, do poder de regeneração
característico da espécie e das çondi
ções de vitalidade da própria planta
tratada. BARCELOS ( 1 985) cita a
fi gueira- de-fo l ha-miú da (Fi c u s
organensis) , o plátano (Platan n us
s p . ) , o salseiro (S a lix sp . ) e o
j acarandá-mimoso (Ja ca ra n d a
m imosaefolia) como espécies que,
em Porto Alegre (RS), foram subme
tidas à dendrocirurgia com b ons
resultados, e cinamomo (Me / i a
azeda rach ) e umbu (Ph yto laca
dioico ) como espécies que não
obtiveram resultados desejáveis.
Sistemas de cabeamento, escoras e
utilização de pinos e hastes para
reforço da estrutura das árvores
também constituem práticas utilizadas
com relativa freqüência, particular
Figura 5. 7 - Detalhe de trata
mento d e n d roc i r ú rgico e m
mente em países com arboricultura mais
palmeira-imperial; acabamento desenvolvida. Contudo, tanto pelos custos
final em alvenaria, destacando-se envolvidos como pela técnica utilizada,
ainda a camada de mastique também são práticas restritas a casos especi
que separa este material dos
ais e árvores notáveis, como por exemplo
tecidos da planta (Foto Dalcin,
1 992). substituindo a poda de galhos grossos em
árvores especiais, para evitar riscos às pes
soas e propriedades, entre outros. A adoção
desses procedimentos deve ser cuidadosa,
1 19
A rborização de Vias Públicas
tanto em termos de materiais utilizados
como em termos de execução propriamente
dita, para que não sejam causadas à planta
mais injúrias que aquelas que se pretende
eliminar ou minimizar. Para se evitar es
trangulamentos de galhos e troncos, deve-se
evitar também a utilização de cintas ou
braçadeiras que os envolvam, optando-se por
pinos de fixação parafusados diretamente no
galho ou tronco; da mesma forma, a ponteira
de fixação de escoras deve ter acabamento
em forquilha curva, ou semi-arco, de raio
compatível com o diâmetro do galho ou
tronco que deverá suportar; a fixação de
hastes e pinos deve levar em conta os pró
prios danos da sua fixação; peças de metal
sujeitas a corrosão devem receber tratamento
apropriado, especialmente quando utilizadas
em regiões costeiras; por fim, todas as es
truturas, cabos, hastes e escoras instalados
requerem sistemático monitoramento e
manutenção (BERNATZKY, 1980; HARRIS, 198.3).
Poda
A poda das árvores é, sem dúvida, a prática
de manejo da arborização urbana de maior
significado e importância. O resultado dessa
prática é o ponto máximo, juntamente com
o plantio, de interatividade com a população
e, conseqüentemente, com o poder público
e a mídia.
Sob a ótica técnica, é o que vai facilitar,
respeitando-se as características de cada
espécie, o relacionamento harmonioso da
arborização com seu espaço, incrementar os
1 20
Plantando e mantendo árvores
resultados esperados, garantir a longevidade
da arborização e corrigir e/ou minimizar os
efeitos de um planejamento inadequado.
Dos pontos de vista operacional e econômico,
pode-se afirmar que, executada de maneira
rotineira, criteriosa e planejada, reverte
diretamente em economia de recursos de
forma direta e indireta. Contudo, é quase
regra a poda ser motivo de insatisfação sob
todas essas óticas. A prática de técnicas
desatualizadas, por profissionais pouco ou
nada capacitados, sem planejamento prévio
e como solução imediatista para problemas
de diferentes origens, torna a poda, hoje, o
"calcanhar-de-aquiles" dos responsáveis pela
arborização.
Porém, é quanto ao tipo de poda a utilizar
nas árvores de rua que surgem os maiores
confrontos conceituais. Enquanto SOUZA
(1973) e o DPJ (197 7 ) preconizam a poda
como uma maneira de dar forma à planta,
seja visando uma forma estética precon
cebida, seja visando solucionar problemas
com a fiação aérea, MIRANDA (197 0) admite
apenas a realização de podas de limpeza,
para a supressão de galhos secos, quebrados,
supérfluos ou "ladrões", e considera quais
quer problemas com a fiação aérea como
resultado de inadequada seleção de espécies.
KIELBASO & KOELLING (197 5) observam, no
entanto, que a poda pode ser feita com
três finalidades : ( a ) para melhorar a
aparência, corrigindo malformações; (b) como
manutenção, retirando galhos secos, da
nificados ou doentes; e (c) como segurança,
121
D
OI, .. ..
Arborização de Vias Públicas
�
tirando galhos que estejam sobre a fiação
elétrica e possam provocar prejuízos acidentais.
Além disso tudo, e também por isso tudo, o
problema da poda em árvores de rua é tão
significativo que, segundo ULRICH (1987) , as
empresas de fornecimento de energia elétrica
dos Estado Unidos gastam, anualmente, em
tomo de um bilhão de dólares para manter
as árvores longe de seus cabos condutores e
propiciar acesso e facilidades para a man u
tenção, sendo que a maior parte desse cus
to anual refere-se a podas de abertura de
espaço em árvores urbanas . Tanto para
diminuir esses custos quanto para otimizar
o trabalho de manutenção, geralmente
con dicionado a orçamentos reduzidos,
JOHNSTONE (1983) propõe a instituição de
métodos de manejo como: ( a ) estabele
cimento de apropriada perio dização da
poda; (b) poda de árvores pelo "método
lateral" ; ( c ) remoção e/ou relocação de
árvores problemas; e (d) uso de reguladores
de crescimento.
Aspectos conceituais
Arquitetura das árvores
A estrutura de uma árvore, suas raízes, tronco,
galhos e folhas, não é produto de processos
aleatórios. Todas as características de porte,
forma da copa, disposição de folhas e flores
já estão pré-definidas na semente, antes da
germinação (SEITZ, 1993).
Essas características estruturais são comuns
aos indivíduos de uma mesma espécie,
1 22
Plantando e mantendo árvores
recebendo o nome de modelo arquitetônico
da espécie . Em um trabalho criterioso,
HALLE, OLDEMAN & TOMLINSON ( 1978)
analisaram os modelos arquitetônicos de
diversas espécies arbóreas, demonstrando as
diferenças estruturais marcantes entre elas e
associando-as a grupos distintos.
Para entender os modelos arquitetônicos
básicos é necessário conhecer os elementos
fundamentais dessa arquitetura, cuja com
binação levará portanto às mais diversas
formas de copa.
O meristema apical (gema terminal) pode ter
vida indefinida ou definida. No primeiro caso,
a gema, crescendo indefinidamente em
altura , origina troncos verticais retos
(monopodiais) . Quando o meristema apical
tem vida limitada, esse crescimento linear em
altura não ocorre. Após a morte do meristema
apical, desenvolvem-se meristemas laterais
(gemas das axilas das folhas) que estavam
dormentes . Nesse caso, tem-se troncos
simpodiais que podem, em determinadas
espécies, se tomar quase lineares novamente.
A diferenciação dos meristemas é outra
ca racterística que marca os modelos
arquitetônicos. A maioria dos meristemas
inicialmente é vegetativa e, antes de ocorrer
a morte, torna-se sexual. Ou seja, no início
são produzidas células sem diferenciação
sexual, que originam o lenho e as folhas.
Por processos não bem definidos, esses
meristemas passam por transformações
iniciando a geração de células sexuadas,
presentes nas flores ou inflorescências, e
1 23
A rborização de Vias Públicas
culminando com o crescimento. Quando um
meristema vegetativo apical se transforma em
sexual , automaticamente são estimulados
meristemas vegetativos laterais . E xemplos
existem muitos nas espécies mais comuns
da arborização urbana como Tabebuia spp.
e Lagerstroemia spp . Outra característica
dos meristemas é a direção do crescimento,
fundamental para a definição da copa e do
tronco das árvores. Os meristemas, quando
crescem para o alto, ver ticalmente , têm
crescimento denominado ortotrópico; quando
crescem horizontalmente, ou obliquamente,
têm crescimento chamado plagiotrópico.
A plagiotropia pode ser permanente ou
reversível . Neste último caso, inicialmente os
meristemas crescem plagiotropicamente, mas
no decorrer do período vegetativo tornam-se
mais ou menos eretos , dependendo do
espaço disponível, como em De/on ix regia,
por exemplo (SEITZ, 1993). Isso posto, fica clara
não só a possibilidade, mas a necessidade
de se estabelecer, considerando a arquitetura
de cada uma delas, critérios de poda por
espécie, através dos quais a prática da poda,
desde a formação da muda, proporcionará
a otimização dos resultados e redução nos
custos de manutenção.
Compartimentalização
A eliminação de galhos e ramos pelas árvores
faz par te de sua dinâmica . Para tal , as
árvores desenvolveram barreiras químicas e
físicas que formam mecanismos de defesa,
visando reduzir os riscos de morte . As
árvores possuem sistemas de defesa efetivos
1 24
Plantando e mantendo árvores
para isolar infecções que possam entrar no
tronco através dos ramos infectados ou
mortos. Quando a taxa de crescimento de
um ramo diminui, o lenho começa a formar
em torno da base desse ramo um colar
intumescido, que não deve ser removido
durante o corte. Este, por sua vez, deve ser
realizado o mais próximo possível desse
colar (SHIGO, 1980 e 1 984) . Quando podadas,
as árvores reagem de forma a compar
timentalizar a área afetada, visando deter a
entrada de agentes fitopatogênicos e a
deterioração do lenho.
Em 1977, foi publicado um brilhante trabalho
intitulado Compartmentalization of Decay
in Trees (SHIGO & MARX, 1977), no qual o
processo de compartimentalização é de
talhado, com base em resultados de 16 anos
de pesquisas. A partir de então, as técnicas
de corte na realização da poda passaram a
respeitar esses mecanismos de defesa
naturais identificados, visando atingir uma
prática cada vez menos traumática e mais
eficiente para o vegetal, uma vez que o
p r o c esso de compar timentalizaç ã o é
fundamental para evitar-se a dispersão da
deterioração do lenho a partir da superfície
de corte.
Na compartimentalização, conforme Ebert5
citado por SEITZ ( 1 990) , quatro etapas estão
envolvidas: primeiramente, as células
limítrofes à área afetada produzem substâncias
5
EBERT, H . P. Wertastung aus botanischer Sicht. All g emeine
Forst Zeitschrift, p. (44/45) : 1 1 74- 1 1 77, 1989.
1 25
.. "'
D
�
Arborização de Vias Públicas
�
adstringentes, como tanino, para dificultar a
ação de agentes fitopatogênicos. A partir de
polifenóis hidrossolúveis em combinação
com aminoácidos, alcalóides e íons metálicos,
são formados complexos polife nólicos
pouco solúveis que recobrem as paredes
celulares, provocando alteração na cor do
lenho; além disso, as células expostas pela
lesão recebem depósitos de substâncias
repelentes à água, como cutina e suberina,
para, posteriormente, secarem. Numa segunda
reação, os condutos de seiva são bloqueados
p e l o d e s e nvolv i m e nto d e células
parenquimáticas que crescem para dentro do
espaço vazio e pela deposição de resinas ou
látex. A etapa seguinte é caracterizada pelo
aumento do metabolismo celular na região
da lesão, onde são aportados açúcares para
a síntese do calo cicatricial. O câmbio inicia
a produção de células não especializadas cujo
metabolismo é direcionado para a síntese de
substâncias antibióticas, criando-se assim
uma barreira para a expansão de organismos
patógenos. Por fim, numa quarta reação, o
câmbio e o parênquima floemático procuram
recobrir a lesão com células ricas em tanino.
A presença de suberina, um composto
orgânico que protege as células contra
microorganismos, permite a formação de
células sadias diretamente em contato com
as infe ctadas , possibilitando assim o
recobrimento da lesão.
Partindo desse novo conceito, é possível
traçar alguns parâmetros para a prática da
poda:
a) galhos com células vivas em toda sua
126
Plantando e mantendo árvores
seção transversal conseguem com
partimentalizar a lesão, através da
mudança de metabolismo dessas células.
Quando os galhos atingem diâmetros
maiores (e idades mais avançadas) ,
ocorrendo a morte das células no centro
do galho, essa compartimentalização
é incompleta, trazendo portanto riscos
para a estabilidade da árvore. Este, por
tanto, é um dos motivos para promover
a poda dos galhos o mais cedo possível,
dimensões (SEITZ, 1993 ) ;
b ) tendo em vista o relacionamento direto
da compartimentalização com o meta
bolismo celular (_quanto mais ativo o
metabolismo, mais rápido se processará
a compartimentalização), o início do
período vegetativo é, portanto, a época
mais propícia para a realização da
poda (SEITZ, 1993); e
c) se a poda for mal executada, com
prometendo o "colar do rarnd' (barreira
de defesa), a utilização de produtos
inibidores de atividade microbiana
(fungicidas) será inócua. Do contrário,
quando o corte for executado de forma
a favorecer o processo de compartimen
talização, este se dará sem qualquer
auxílio de substâncias como "calda
bordalesa" ou outros fungicidas.
Brotação epicórmica
A prática da poda provoca um desequilíbrio
entre as folhas e as raízes, causando uma
1 27
A rborização de Vias Públicas
reação compensatória no vegetal, em intensi
dade diretamente proporcional. Essa reação
se manifesta através da quebra da dormência
das gemas ep1cormicas . Brotações
epicórmicas, também chamadas de brotos
ladrões, caraterizam-se por possuírem uma
ligação deficiente com sua base, serem de
crescimento extremamente rápido e, via de
regra, desrespeitarem o modelo arquitetônico
original da espécie, comandado pelos
meristemas .
De um ponto de vista prático, as brotações
epicórmicas levam à multiplicação da prática
da poda quando esta é esporádica, pois a
ausência do controle das brotações gera, em
poucos anos, novos galhos a serem podados.
Evitam-se ramos epicórmicos com podas
menos severas e na fase jovem da árvore.
Nessa fase as árvores possuem boa ca
pacidade de desenvolvimento das gemas na
parte externa da copa, não desenvolvendo
os ramos epicórmicos . Galhos senis ou com
pouca vitalidade, ao serem eliminados,
nor malmente também não estimulam a
brotação epicórmica (SE ITZ , 1 993 ) .
Diretizes e critérios gerais
para poda
A poda de manutenção, quanto ao plane
jamento e a execução ou, no mínimo, o
controle, é atribuição da Prefeitura Municipal.
Nos casos de riscos de acidentes com a rede
elétrica e, consequentemente, com a população,
ou ainda quando a poda necessitar ser reali
zada com a rede energizada, é a companhia
1 28
Plantando e mantendo árvores
de distribuição de eletricidade quem deverá
executá-la ou estar presente, auxiliando o
processo. Esse tipo de poda normalmente é
realizado apenas na porção da árvore que
interfere ou está prestes a conflitar com a rede
elétrica. Visando um trabalho completo,
uniforme e eficiente, os dois órgãos envolvidos
devem desenvolver suas atividades de
forma integrada.
Considerações básicas
Alguns princípios fundamentais para a poda
em árvores de rua devem ser considerados
(MICHAU,1987 ):
a) não existem cortes naturais - todo
corte provoca distúrbios no balanço
fisiológico existente entre a parte
aérea e as raízes;
b) todo corte é perigoso - quanto maior
o número de cortes de poda, maior o
número de lesões, todas funcionando
como portas abertas para organismos
apodrecedores, especialmente fungos;
todas as podas inadequadas causam
danos irreversíveis que podem tornar-se
aparentes somente após alguns anos;
c) é recomendável que as lesões resultantes
da poda sejam mínimas - existem
controvérsias quanto à necessidade e
eficiência dos curativos e se as lesões
devem ou não ser tratadas, mas
atualmente há predomínio da opi
nião de que podas bem realizadas
dispensam tratamentos curativos
com impermeabilizantes;
1 29
A rborização de Vias Públicas
d) cortes reduzem os benefícios derivados
das árvores - a diminuição da copa
reduz o processo metabólico essencial
da fol h agem da copa e também a
forma e sombra das árvores;
e) poda é sempre uma atividade intensa
- em cada caso é necessário considerar
o quanto toda rotina de corte é impor
tante e que economia de recursos ou
redução de despesas pode ser realizada
sem desrespeito aos padrões e normas;
f) podas insensatas enfraquecem a árvore
- a poda não somente traz perigos à
árvore, mas também a enfraquece, em
grau dependente do número e extensão
das lesões (a árvore é forçada a repor as
partes removidas e , sem folhagem
suficiente, não consegue produzir a
assimilação necessária para o cres
cimento do calo cicatricial que fecha a
ferida) . Por outro lado, as condições
estressantes do meio urbano (solos
alterados, características da superfície,
impermeabilização, poluição) deverão,
necessariamente , ser consideradas
antes de uma intervenção de poda,
durante a qual a árvore não deverá
apresentar deficiência alguma. Os efeitos
de uma poda incorreta não podem ser
eliminados por podas adicionais. A po
da somente é sensata quando as árvores
estão vigorosas e não sofrem defici
ências nutricionais , sendo que nas
cidades cujas condições sejam adversas
ao crescimento, a aplicação de quantias
130
Plantando e mantendo árvores
prescritas de fertilizantes minerais para
árvores de rua deve ser feita anteriormen
te ou, o mais tardar, durante a poda,
para evitar danos severos, especialmen
te quando o clima favorece pragas e
doenças; e
g) é errôneo aplicar os princípios da poda
de frutíferas em árvores de rua - a se
melhança termina no afinamento da
copa ou remoção de brotos competindo
pela liderança com o broto dominante.
Época
A fim de minimizar os danos inerentes à poda,
é essencial a escolha correta da melhor época,
o que não é um problema de determinação
de disponibilidade de mão-de-obra necessária
ou de tempo para realizar a atividade, mas
sim, preferencialmente, de quando a árvore
pode suportar a intervenção com o mínimo
risco e melhores chances de recuperação.
EHSEN ( 1987) diz que somente em época de
atividade biológica completa a árvore é
capaz de formar o calo cicatricial, o que, em
árvores decíduas, é indicada pela presença
de folhagem assimiladora. Sendo assim, a
época ótima para a poda é aquela que
determinar o menor tempo de reação da
árvore, ou seja, do começo da estação de
crescimento até o verão, em vez do final
deste, no inverno, onde são longos os períodos
de perigo devido ao frio e umidade.
KIELBASO & KOELLING ( 1 975) dizem que a
época ideal para podar a maioria das árvores é
131
"' ' ""
� D Arborização de Vias Públicas
o final do inverno ou início da primavera,
pois as lesões causadas pela remoção de
galhos começarão a desenvolver o tecido
cicatricial com o início da estação de cresci
mento. Citam também como vantagem o fato
de que a ausência de folhagem facilita uma
visão geral da estrutura da árvore e que,
como não há remoção de folhagem, a capa
cidade produtiva da árvore não é afetada.
Entretanto, cidades médias e grandes geral
mente possuem árvores em quantidades
que dificultam uma programação de poda
concentrada nos períodos de adequada
atividade biológica das plantas. Assim, deve-se
incrementar a prática de poda de árvores
jovens, árvores recém-plantadas e galhos
finos no outono/inverno, dei xando-se
eventuais e necessárias podas mais pesadas
para a primavera/verão. Isso tende a reduzir
os efeitos negativos de grandes ferimentos
expostos durante períodos longos de baixa
atividade biológica.
Pessoal
A partir da constatação de que qualquer
atividade de poda deve ser planejada ,
executada e supervisionada por pessoal
habilitado, é indicada a soma de esforços
entre entidades responsáveis pela sua
execução para que sejam atingidos melhores
resultados , viabilizando a for mação e
treinamento de uma equipe de trabalho
capacitada.
Por outro lado, a experiência demonstra que
não são recomendáveis os trabalhos por
132
Plantando e mantendo árvores
empreitadas, pois as empresas contratadas,
em geral , não tendo um quadro fixo d e
funcionários, não possuem os conhecimentos
mínimos necessários sobre os objetivos e
técnicas de poda das árvores de rua, além
de comumentemente serem remuneradas por
produção, o que gera serviços rápidos e
de baixa qualidade , potencializa n d o os
problemas para o futuro. Nesse sentido,
processos de terceirização da poda devem
ser considerados em termos de períodos
adequados à formação e manutenção de
mão-de-obra bem treinada.
Ferramentas
Excetuando-se aquelas de impacto (facão,
foice , machado ) , que produzem seções
imprecisas e riscos para o operado r, são
várias as ferramentas utilizadas para poda,
de acordo com o tipo de corte, valendo para
todas a necessidade de estarem limpas,
afiadas e bem conservadas (EHSEN, 1 987;
SEITZ, 1990) . A desinfecção das ferramentas,
por sua vez, evita a dispersão de doenças,
especialmente após a remoção de madeira
infectada (BERNATZKY, 1 980) .
As ferramentas adequadas para podas de
formação, em que ocorre o corte de galhos
finos, são a tesoura de poda, para ramos de
até 2 cm de diâmetro, e a serra de poda
( curva e de lâmina estreita) , para os mais
grossos. Para os galhos finos e altos deve ser
usado o podão.
A poda de manutenção, realizada em árvores
adultas, normalmente de grande porte, em
1 33
Arborização de Vias Públicas
geral requer equipamentos também de
maior porte. Para os ramos finos, utilizam-se
as ferramentas já descritas. Para os galhos
mais grossos, com até 15 cm de diâmetro,
deve-se usar serras com dentes maiores, mais
largas e mais compridas. Acima desse tamanho,
os galhos deverão · ser cor tados com
motosserras. O acesso aos galhos se faz por
meio de escadas, andaimes ou plataformas
elevatórias.
Na poda de segurança, em que ocorre a
eliminação de porções consideráveis da copa,
é comum a utilização de serras de dentes
grandes e motosserras, normalmente tra
balhando a partir de plataformas elevatórias,
contando com o auxfüo de cordas ou outro
equipamento para a sustentação dos galhos
cortados (grossos ou em posição desfavorável).
Para a segurança do operador em qualquer
situação ele deve estar equipado com luvas
de couro, capacete de segurança, botas e
roupas reforçadas. No caso de utilização de
serras, são úteis os óculos contra serragem,
e se a operação exigir a motosserra, também
os protetores de ouvidos. O uso de cinto de
segurança é imprescindível quando o trabalho
for realizado sobre escadas ou plataformas.
Técnicas de corte e tipos de poda
Para facilitar a manutenção através da poda,
é necessário o conhecimento das características
estruturais de cada espécie quanto às raízes,
tronco, porte, forma da copa, disposição de
flores, folhas e galhos, que já estão definidas
1 34
Plantando e mantendo árvores
na semente, podendo ou não se expressar
no indivíduo adulto (modelo arquitetônico
da espécie). É improdutivo tentar adequar
uma árvore a espaços menores do que exigiria
naturalmente quando completamente desen
volvida ( EHSEN, 1 987) . Isso é confirmado por
SE ITZ ( 1 990), quando afirma que controlar
o crescimento da copa através da poda tem
sentido apenas para direcionar a ocupação
do espaço e nunca para delimitar o volume
da copa.
As podas severas ou descopagens devem ser
evitadas. Causam danos como apodrecimento
da madeira, secamento da casca e do
câmbio expostos à insolação, enfraqueci
mento do sistema radicial e, ainda, prejuízos
e s t é ticos à árvore . E são onerosas e
ineficientes por propiciarem o desenvolvimento
de novas brotações que deverão s e r
eliminadas no próximo ano.
No local de inserção do galho no tronco
existem duas importantes estruturas de
proteção que deverão ser preservadas
intactas, pois têm ação decisiva contra
organismos degradadores do lenho do
galho, impedindo a disseminação destes.
São elas: a crista da casca, na parte superior,
e o colar, na parte inferior (SHIGO & SHORTL,
1 984; SE ITZ, 1 990), conforme Figura 5 . 8 .
SHIGO & SHORTL ( 1 984) afirmam que as
árvores reagem a agressões e infecções
estabelecendo limites ou barreiras para
resistir à dispersão de microorganismos a
partir dos·. ramos para o tronco adjacente e
que os cortes não devem ser feitos atrás da
1 35
Arborização de Vias Públicas
crista da casca, pois removem esses limites
de proteção. Os autores ressaltam que, no
caso de podas inadequadas de galhos,
nenhum tipo ou quantidade de curativo
irá minimizar significativamente os efeitos
adversos.
"- Colar
3 º corte
\ 2 º corte
\
"- O corte lascará
na forq u i lha
Figu ra 5 . 8 - Estru tu ras de
proteção e adequadas formas
ERRADO CORRETO
de cortes para execu ção de
p o d a em g a lh os g rossos
(Ilustração Carlos M. S. de
S i l v a , 1 998, com b ase em
As lesões causadas por poda devem ser SEITZ, 1 993).
reduzidas ao máximo, pois funcionarão como
entradas potenciais para microrganismos
apodrecedores, insetos ou doenças, além de
exigirem um tratamento extensivo e oneroso,
muitas vezes infrutífero, em árvores isoladas
espalhadas pela cidade.
A remoção dos galhos, principalmente
aqueles com diâmetros maiores, requer uma
execução profissional . É errado cor tar
1 36
Plantando e mantendo árvores
rapidamente do topo para a base do colar,
pois o galho pode lascar e a casca do lado
de baixo do colar pode descarnar ou rasgar.
Quando os galhos têm dimensões con
sideráveis, dificultam o trabalho, que deve
levar em conta a morfologia da base do
galho, sendo o procedimento indicado, nesse
caso, cortá-los em três etapas (Rgura 5.8) , de
modo a diminuir a pressão do seu peso e não
deixar tocos (KIELBASO & KOELLING, 1 9 75 ) .
Primeiro realiza-se um corte do lado de
baixo (lado da pressão) , para então cortar
atrav e s s a d o d e s d e c i m a , a u m a c e r t a
distância d o colar d o galho. O terceiro corte
remove o restante do galho próxim o ao
tronco (EHSEN, 1987; SEITZ, 1990) .
Diferentes autores consideram d iferentes
tipos de poda, que , basicamente , podem
ser classificados, segundo sua finalidade ,
em: formação, adequação de porte , limpe
za e re g e n e ração ( BALENSIEFER &
WIECHETECK, 1985) ; formação, limpeza e
regeneração (CEMIG, s.d. ) ; e formação, ma
nutenção e segurança ( KIELBASO &
KOEWNG 1975; SEITZ, 1990) .
Poda de formação
Esse tipo de poda corresponde à condução
da planta desde a fase de viveiro, para
garantir o padrão de qualidade da muda
( altura mínima de bifurcação e forma da
copa) , até que a árvore possa crescer e
desenvolver seu modelo arquitetônico de
copa livremente no local de plantio definitivo
(Figura 5.9) . Por esse motivo, deve ter início
1 37
A rborização de Vias Públicas
o mais cedo possível, para evitar lesões e Fig u ra 5 . 9 - Operações
cicatrizes muito grandes (SEITZ, 1 990) . Os seq uenciais de poda de for
mação:
cortes são realizados considerando o futuro
1 = e li m i n ação de galhos
desenvolvimento da copa no espaço em que
baixos para garantia da altu
a árvore será estabelecida, eliminando
ra mínima de bifurcação;
galhos baixos que atrapalhariam pedestres
2 = eliminação de brotações
ou tráfego, seguindo a recomendação · de indesejáveis;
fuste mínimo livre de bifurcação de dois
3 = e l i m i n ação de ramos
metros para ruas com tráfego de pedestres e concorrentes com os galhos
veículos leves, e maior para ruas com tráfego principais;
de veículos pesados. Deverão também 4 = eliminação de brotações
ser eliminados os galhos com inserção no interior da copa para for
defeituosa ou cruzados. mação de túnel.
(Ilustração Carlos M. S. de
Esses cortes se aplicam ainda à necessária S i l v a , 1 998, baseado em
continuidade do processo iniciado, mas não COPEL, FUPEF, PMC, 1 994).
completado, de formação de copa pela poda
durante o plantio, ou à condução para corri
gir cedo os desenvolvimentos defeituosos ou
errôneos, a exemplo de troncos bifurcados
e copas em forma de funil, entre outros
( EHSEN, 1 987 ) .
A redução da copa, através do rebaixamento
da altura e conseqüente diminuição das
1 38
Plantando e mantendo árvores
laterais, é o método extremo de formação,
que pode ser necessário, entre o u tros
motivos, devido à perda de raízes (ALLEN ,
1986). Em casos de copas muito densas , com
superfície foliar com capacidade de assi
milação reduzida, ou durante o transplante
de árvores maduras, faz-se o raleamento da
copa, que pode corrigir erros ou omissões
feitas durante os cortes de condução, fun
cionando como uma poda de balanceamento
(EHSEN, 1 987).
Visando a compatibilização entre arborização
e redes aéreas, bem como facilitar a poda de
condução em árvores sob fiação, MILANO
( 1 988) sugere a adoção de novos padrões
mínimos para altura de fuste das mudas
destinadas a plantios nessas condições.
O autor recomenda que sejam produzidas
e utilizadas mudas com altura de fuste de 3 m,
portanto com aproximadamente 4 m de
altura , que diminuem a necessidade de
podas de condução após o plantio e de
podas pesadas de correção de forma em
qualquer época.
Poda de manutenção
É aquela realizada para manter copas já
bem desenvolvidas , corrigir falhas o u
garantir segurança ao tráfego e população.
É ao mesmo tempo uma medida corretiva e
de segurança. Objetiva a observação e
correção de desenvolvimentos ou cres
cimentos perigosos para a árvore, pessoas
ou tráfego; a manutenção da altura do fuste;
1 39
Arborização de Vias Públicas
e a eliminação de galhos senis, secos ou
doentes, que perderam sua função na copa
da árvore (Figura 5 . 1 0) .
Figura 5. 1 0 - Operações bási
cas de poda de manutenção,
sendo:
1 = Eliminação de brtações
indesejáveis;
2= Eliminação de galhos secos,
danificados ou infectados;
3= Eliminação de ramos próxi
mos ao galho principal;
4 = Eliminação de galhos com
inserção defeituosa.
(Ilustração Carlos M. S. de
S i lva, 1 998, b aseado e m
COPEL, FUPEF, PMC, 1 994 e
MICHAU, 1 987).
Poda de segurança
É aquela realizada para prevenir acidentes
iminentes, quando podas anteriores foram
executadas ·incorretamente ou onde o ambi
ente urbano sofreu alteração, tornando-se
incompatível com a copa da árvore. Realiza-se
a redução de superfícies que possam servir de
alavanca ou ponto de apoio para o vento e
140
Plantando e mantendo árvores
também a remoção de alavancas perigo
samente longas (EHSEN, 1 987 ) .
A técnica é semelhante à poda de manutenção,
porém realizada em galhos normalmente
vitais, ainda não naturalmente preparados
para o corte através do mecanismo de
compartimentalização da lesão, ativado
espontaneamente em casos de galhos senis
ou doentes (improdutivos) . Uma alternativa
para forçar a ativação desse mecanismo é o
corte em duas fases, em que primeiramente
corta-se mais afastado do tronco e, após um
ou mais períodos vegetativos, quando o galho
debilitado provocou a ativação dos mecanismos
de defesa, realiza-se o segundo corte junto
ao tronco (SEITZ, 1 990) .
A poda, mesmo quando adequadamente
re alizad a , especialme nte em casos d e
correções, provoca impactos visuais
(morfológicos) , além, é claro, dos fisiológicos.
Entretanto, · o tempo e a continuidade na
manutenção ajudam a superá-los.
Diretrizes e critérios de poda
por espécie
Assim como as outras práticas de manutenção,
a poda visa a conservação quali-quantitativa
e o cumprimento das funções da arborização
no meio urbano. Assim, desde que planejada
e executada criteriosa e sistematicamente ,
assegura a boa condição da arborização,
otimizando os benefícios dela provenientes.
É fundamental que a pessoa ou instituição
responsável pela poda entenda claramente
141
A rborização de Vias Públicas
os objetivos e necessidades de sua execução
e as razões profissionais para aderir aos
padrões e normas técnicas. Entenda também
que, em si mesma, ela não é suficiente à
>-
manutenção das árvores e que devem ser
adotadas práticas complementares (fertili
zação apropriada, tratamento de lesões e
reparos de danos). Destaque-se que a
realização de poda de formação da muda
no viveiro, e mesmo após a implantação no
local definitivo, pode reduzir a necessidade
futura de podas pesadas, limitando a
operação a podas leves, de galhos com
menores diâmetros e consequentemente
menores lesões, cicatrizes, problemas e
prejuízos ( COPEUFUPEF/PMC, 1 994).
TAKAHASHI ( 1 988) recomenda a adoção de
podas de condução antes e após o plantio,
de modo a formar um túnel no interior da
copa da árvore, visando conduzir sua for
mação ao longo ( espécies de pequeno e
médio porte) ou acima (espécies de grande
porte) das fiações de alta e baixa tensão, res
pectivamente. Em Maringá (P R), o mesmo
autor obteve bons resultados com a poda de
condução em Tipuana tipu e Caesalpin ia
ferrea, com os fios passando entre os ga
lhos de maior diâmetro que, devido a essa
característica, têm reduzida a probabilida
de de balançar com ventos fortes e, assim,
tocar a fiação.
Em todo o caso, é bom lembrar que as
companhias elétricas adotam as características
do poste (altura e localização) e das luminárias,
142
Plantando e mantendo árvores
e não da árvore em questão, para o cálculo
da altura de poda.
A necessidade de poda leve em 2 5 , 6 5 %
das árvores das ruas d e Cascavel- P R
(aproximadamente 1 4 . 49 1 indivíduos),
identificada em 1 994, comprova a neces
sidade de se adotar como procedimento
normal a poda de manutenção, eliminando-se
galhos malformados, secos, quebrados ou
supérfluos, de forma a prevenir o agravamento
dos problemas com o decorrer do tempo.
Da mesma forma, a constatação da neces
sidade de poda pesada em 7,26% das árvores
(cerca de 4. 1 0 1 indivíduos) é decorrente não
apenas da inexistência de planejamento da
arborização, mas também da falta de
ade quada e sistemática manutenção dos
plantios, fatores que, uma vez considerados,
cer tamente reduziriam tal necessidade
( COPEUFUPEF/PMC, 1994) .
A realização da poda para as espécies com
plantio regular mais freqüente deve considerar
as diferentes características de for ma e
crescimento, bem como as reações de cada
uma às intervenções. Portanto, não se pode
uniformizar o procedimento, mas sim
considerar, ainda, a posição de cada árvore
em relação à fiação, construções ou outros
obstáculos locais.
Quando as árvores são de grande porte e
estão plantadas embaixo da fiação, recomen
da-se a sua condução, visando ultrapassá-la,
para então formar a copa, com um resulta
do ao mesmo tempo favorável à árvore e
143
Arborização de Vias Públicas
às redes aéreas. Uma vez ultrapassada a
fiação, cessam as podas de condução e per
manecem as podas de manutenção e se
gurança.
A Figura 5. 1 1 representa algumas espécies
com plantio regular em Cascavel (PR) ,
selecionadas para análise sobre condução por
poda, de forma simulada , visando a
compatibilização entre árvores e redes
elétricas. As figuras indicam as características
da planta na fase jovem (muda) , a situação
média nas ruas de Cascavel e, por último, a
situação dos valores máximos de altura e
diâmetro de copa, estimados de acordo com
os parâmetros estabelecidos por amostragem
no local, fixando-se a altura da bifurcação
no valor médio encontrado para a espécie .
Para a s três situações, foi considerada a
distância média da projeção da fiação por
espécie enco ntrada n o local ( COPEL/
FUPEF/PMC, 1 994) .
Quando as árvores estão no lado da rua com
fiação, mas não exatamente sob sua proje
ção, a poda de condução deve ser executa
da com vistas a um produto diverso do ex
posto anteriormente. Por exemplo:
a) se a distância da árvore à projeção da
fiação for igual ou maior que o raio
transversal da copa adulta não haverá
maiores problemas, pois ela não atingirá
a fiação, mas, se isso acontecer, podas
leves serão eficazes;
b) se a distância for menor que o raio, duas
situações distintas poderão então ocorrer:
144
Plantando e mantendo árvores
• quando a árvore já se encontrar em
seu porte adulto, poderá ser realizada
poda de redução da copa, atentando
para que a silhueta natural e o equi
líbrio sejam mantidos ( essa solução
substitui as podas drásticas, porém
é um procedimento a ser executado
constantemente) ; e
• quando a árvore é jovem, deverá
ser conduzida de maneira a ultra-
passar os obstáculos, viabilizando a
formação livre da copa.
Cabe destacar que cada árvore e cada
situação são particulares. Por conseguinte,
as soluções apresentadas se prestam como
indicativos gerais, devendo-se considerar
as peculiaridades de cada caso para a
determi nação das soluções conc retas .
Deve-se observar, ainda, que os dados e
recomendações apresentados contemplam
apenas um momento de uma situação
dinâmica. Assim, as árvores plantadas sob
fiação que atualmente requerem poda leve e
pesada serão acrescidas, com o passar do
tempo, de todos aqueles indivíduos jovens
que, com o desenvolvimento, passarão a
interferir n a rede aérea . Porta n t o , é
fundamental que tais recomendações sejam
entendidas de uma maneira genérica (ÇOPEU
FUPEF/PMC, 1994) .
1 45
A rborização de Vias Públicas
Demonix regia
(FLAMBOYANT)
Jacaranda mimosea folia
(JACARA N DÁ- M I MOSO)
F igura 5 . 1 1 - Indi cações de
poda para flamboya n t,
jacara ndá-mimoso e tipuana
em três estágios de desenvol
vimen to: jovem (muda), média
e dese n volvime n to máximo,
co nforme amostragem e m
Cascavel, P R (ilustração ori
ginal COPEL !FUPEF/PMC,
1 994) .
146
Plantando e mantendo árvores
Remoção e replantio
Considerar a remoção de árvores urbanas é
simplesmente um raciocínio decorrente da
idéia de plantio de árvores nas cidades e do
fato de que cada espécie tem uma
longevidade correspondente, ou tão somente
uma utilidade pré-estabelecida. Assim, a
remoção de árvores deve ser pensada e tra
tada como uma
atividade comum
do manejo da
arborização ur
bana , Dados de
avaliação de di
ferentes cidades,
por exemplo, em
função de diferen�
tes características,
vão indicar diferen
tes necessidades
m o m e n tâne a s
de remoção de
árvores . É o
Figura 5.12 - Operação e remoção caso de Curitiba,
de exemplar de grande porte de onde, em 1 9 84, constatava-se uma neces
tipuana em Maringá-PR (I) : des
sidade de remoção de 14,3 % das árvores de
taq u e p a ra os eq u ip a m e n tos
rua (MILANO, 1984), ou Vitória (ES), onde,
u t i lizados e i n terdição de rua
(Foto Takahashi, 1 988) . em 1 992, indicava-se a remoção de 6 % das
árvores ( PMV, 1 992 ) .
Ainda, em trabalho realizado por ( COPEU
FUPEF/PMC, 1 994) sobre a arborização de
ruas de Cascavel (P R), considerando-se
todas as árvores amostradas, verifica-se que
1 6, 4 0 % devem sofrer remoção. Conver
tendo-se este percentual para a população
147
Arborização de Vias Públicas
arbórea estimada para a cidade, obtém-se
como resultado 9 .265 árvores com indicação
de remoção. Esses valores, provenientes de
causas que envolvem desde árvores mortas
ou em estado irrecuperável até indivíduos que
apresentam incompatibilidade com o local,
vêm reforçar a necessidade de providências
com relação ao manej o da arborização
da cidade .
Nesse contexto, umà
outra questão deve
ser aqui considerada:
o porte das árvores é
um fator que afeta
diretamente as ope
rações de remoção.
Árvores de pequeno
porte são mais fáceis
de ser removidas, o
que pode , às vezes,
levar à idéia de que
há contradição na in Figura 5 . 1 3 - Operação e
dicação de árvores de grande porte para re m o ção de exemplar de
plantio urbano, quando se sabe que um dia grande porte de tipuana em
serão removidas e que haverá dificuldades Maringá-PR (II): destaque para
nesse processo. Vários outros fatores, entre o desmonte final da órvore
tanto, permitem manter a indicação de árvores (Foto Takahashi, 1 988).
grandes, entre eles, o fato delas apresentarem
maiores benefícios climáticos, maior ação con
tra poluição, maior efeito estético e maior vida
útil . Além disso, a constante evolução
tecnológica tem permitido o sistemático de
senvolvimento de equipamentos facilitadores
do manejo e remoção de árvores.
Quanto ao replantio, tanto pode ser en
tendido como o processo decorrente do
148
Plantando e mantendo árvores
m o n itorame nto pós-plantio i n i c i a l , que
implica a reposição imediata de mudas que
não lograram pegamento, quanto o processo
de plantio pós-atividade de remoção de
árvores que já cumpriram, de alguma forma,
seu ciclo vital no meio urbano. Na prática, é
apenas uma operação de plantio, tal como
considerada anteriormente de um ponto de
vista técnico, só que verificada após um plan
tio anterior, sendo, portanto, um processo de
reposição de árvores e não de instalação
inicial. De qualquer forma, é uma atividade
típica de manutenção (manejo) decorrente
de o u tras ativ i d a d e s prece d e n te s , e m
espe cial do monitoramento e remoção de
mudas ou árvores.
Monitoramento
Tanto para fins de avaliação do cumprimento
de metas planejadas como para fins de
acompanhamento e análise das condições
dos povoamentos e resultados que estejam
s e n d o obtidos , é n e cessário q u e a
implementação do plano de arb orização
sofra constante m o n itoramento. Nesse
sentido, TAKAHASHI ( 1 992 ) considera o
monitoramento um instrumento de planeja
mento e manejo necessário ao controle da
arb orização, no qual se destaca o
cadastramento, com dados atualizados, de
todos os serviços executados.
O processo de monitoramento, constituído
pela realização de avaliações específicas ou
inventários temáticos ou gerais periódicos,
envolve etapas que passam pela definição
149
A rborização de Vias Públicas
dos parâmetros a monitorar, pela realização
do inventário do patrimônio arbóreo, pela
análise quali-quantitativa dos dados para
obtenção de diagnóstico, pela definição de
estratégias para a contínua atualização
dos dados e, por fim, pela manutenção
das informações.
Informações sobre variáveis como a idade
dos plantios, a qualidade das árvores e suas
condições de desenvolvimento, ocorrência de
problemas fitossanitários, realização e nível
de eficiência de podas ou outras atividades
de manejo permitem que a todo e qualquer
momento, através de monitoração, o
pla nejamento possa ser revisto, não se
transformando em um instrumento técnico
desatualizado (MURGAS, 1981; GERHOLD et
alii, 1987). Ainda, dados sobre recursos
consumidos na manutenção da arborização
num determinado intervalo de tempo
possibilitam também um melhor planejamento
e otimização de recursos futuros. Nesse
sentido, segundo M a illet 6 , citado por
TAKAHASHI ( 1992), o objetivo geral de
inventários para fins de monitoramento
da arborização deve ser a obtenção de
suficientes informações sobre o patrimônio
arbóreo, que permitam preparar programas
de gerenciamento da arborização, definir
prioridades nas intervenções, estabelecer
previsões orçamentárias futuras, definir
políticas de administração da arborização a
6 MAILLET, L. Approche méthodologique de la gestion de l'arbre
en ville - quelques eléments pour l' inventaire du patrimonie.
Revue Forestiére Française . p. 1 19-42, 1989.
1 50
Plantando e mantendo árvores
longo prazo, além de possibilitar a utilização
das árvores como vetores de comunicação.
A realização do monitoramento permite
identificar quais os principais problemas
referentes à arborização de ruas, demons
trando sua evolução ou redução. Permite
também, através do acompanhamento total
da evolução dos plantios , determinar o
de sempenho que cada espécie apresenta
frente às condições encontradas, definindo
as reais possibilidades de utilização de cada
uma. Esse a c o m p a n h a m e nto t a m b é m
deve permitir a avaliação da eficiê ncia
das atividades de manutenção adotadas,
nos seus diferentes aspectos. Por fim, deve
ser considerado que a grande vantagem no
e s t a b e l e c i m e n t o d e u m s i ste m a d e
monitoramento é que ele fornece bases
suficientemente sólidas tanto para a tomada
de decisões no manej o da arborização
quanto para o seu replanejamento (PM\1, 1992).
Segundo MURGAS ( 1981 ) , os sistemas com
putadorizados de informação auxiliam o
planejador de forma rápida e eficiente nas
decisões, reduzindo perdas de tempo e
minimizando custos de manutenção. Para
GRAIGNER & THOMPSON ( 1 983 ) , a infor
matização dos dados torna possível o acesso,
anális e , correção e armaze namento d e
grande quantidade de dados a alta velo
cidade e baixo custo. DALCIN ( 1992 ) , por sua
vez, considera que a utilização de sistemas
informatizados no manejo e monitoramento
de arboretos urbanos tem crescido na medida
em que os computadores pessoais vêm
151
Arborização de Vias Públicas
evoluindo, tornando-se de baixo custo e ,
desta forma, também mais acessíveis como
importante ferramenta no auxílio a inventários.
De acordo com THURMAN ( 1983 ) , os siste
mas de informação permitem aumentar a
produtividade dos serviços através do pla
nejamento dos roteiros de trabalho, melhor
aproveitamento dos equipamentos e mais
eficaz distribuição do tempo. Neste particu
lar, segundo TAKAHASHI (1992) , em casos de
informação por telefone, é possível visualizar
diretamente no monitor os dados da árvore
em questão. Por sua vez, para GRAIGNER &
THOMPSON (1983 ) , na maioria dos siste
mas , a facilidade de examinar, atualizar e
re cuperar os dados inve ntariados está
associada à habilidade de organizar informa
ções. N e s s e m e s m o s e ntido, c o n fo r m e
THURMAN ( 1 983 ) , resumos e gráficos podem
ser impressos a qualquer hora e utilizados
para apresentar resultados da política atual
de trabalho e futuras projeções, esclarecendo
a comunidade sobre os benefícios, problemas
e custos da arborização. Por fim, conforme
TAKAHASHI ( 1992 ) , as informações armaze
nadas ainda podem fornecer provas sobre
danos causados por populares, ou mesmo
pelos serviços de manutenção executados
inadequadamente , de forma direta ou por
empresas terceirizadas, fornecendo também
informações minuciosas para propósitos
legais, como por exemplo na defesa contra
processos.
No processo de infomatização dos dados
relativos à arboriz ação urb a n a , deve -se
152
Plantando e mantendo árvores
observar que é indispensável criar uma relação
lógica entre os dados a serem coletados e a
maneira como eles serão manejados e
analisados. Os dados precisam ser de tal
modo coerentes, que cada elemento seja
medido e codificado de forma padronizada,
visando ocupar o menor espaço de arma
zenagem possível, favorecendo rápidas
recuperações e análises (TAKAHASHI, 1 992 ;
DALCIN, 1990, 1992 , 1993 ) . Além disso, dados
irregulares devem ser evitados e possíveis
exceções nesse sentido devem ser
estabelecidas e configuradas previamente
(GERHOLD et alii . , 1987).
PROJETO SOCORRO VERDE
RIO DE JANEIRO
As características inóspitas do ambiente urbano a que as árvores
estão submetidas geram dificuldades para seu adequado desen
volvimento que estão associadas a aspectos como: carência de
nutrientes e compactação excessiva do solo; presença de doenças e
pragas, tornando necessária a adoção de medidas preventivas;
ocorrência de traumatismos resultantes da ação de agentes
naturais ou de processos mecânicos provocados por atividades
humanas; e execução de práticas de manejo inadequadas que
traduzem-se em comprometimentos fitossanitários ou deformações
morfológicas irreversíveis.
Adicionalmente a esta situação, há ainda a frequentem e nte
conflituosa relação da população urbana com as árvores de rua,
resultado da associação da presença de árvores com problemas
de segurança pública, danos à infra-estrutura urbana e, mesmo, a
consideração de que as árvores constituem empecilho ao desen
volvimento. Em parte reflexo dessa situação é a desproporcional
demanda de serviços de poda solicitados à Fundação Parques e
Jardins, instituição encarregada da arborização urbana do Rio de
Janeiro (RJ ) , quando não da própria remoção de árvores, em
relação às solicitações de plantios nas ruas da Cidade.
1 53
A rborização de Vias Públicas
Considerando estes aspectos e preocupada com a manutenção do
patrimônio arbóreo da Cidade, a Fundação Parques e Jardins criou
o "Projeto Socorro Verde " que tem como objetivo principal o
estabelecimento de um serviço permanente de recuperação de
árvores notáveis através da execução de tratamentos específicos.
Estes podem incluir limpeza de galhos, aplicação de curativos,
combate a pragas e doenças, execução de dendro-cirurgias para
recuperação plástica e reforço estrutural, fertilizações específicas e
aumento das áreas permeáveis do local de plantio, entre outros,
cuj a finalidade é a garantia de condições de manutenção do
vegetal . Prioritariamente destinado a atuar em árvores de áreas
públicas, este serviço poderá, dentro dos objetivos de sua criação,
ser ativado para recuperação de árvores em propriedades particu
lares, neste caso com recolhimento de taxa específica de serviço.
Neste sentido, a classificação da árvore como exemplar notável a
ser tratado, requer seu e nquadramento em uma ou mais das
se guintes condições: a) ser bem tombado ou situar-se em áreas de
entorno imediato de bens ou prédios tombados em nível federal,
estadual ou municipal; b) possuir destacada importância histórica
e cultural; c) ser exemplar de espécies oficialmente considerada
rara, ameaçada ou em vias de extinção; d) ser centenária ou de
i d a d e e l e vada ; e ) p o s s u i r p o r t e de relevân c i a e s t é tica ou
paisagística; f) possuir importância ecológica especial para alimenta
ção e abrigo da fauna silvestre, qualquer que seja sua localização;
g) apresentar relevância como porta-sementes; e h) apresentar re
levância recreativa local, ou de outra índole , principalmente
quando localizada em região de arborização escassa.
A indicação do tratamento específico a ser realizado está vinculado
a vistoria prévia com utilização de formulário padrão de levanta
mento individual, onde são anotados dados referentes às caracterís
ticas dendrométricas, morfológicas e sanitárias, além de informações
sobre a estabilidade e compatibilidade do exemplar arbóreo com a
infra-estrutura e equipamentos urbanos locais e riscos de danos
às pessoas ou bens materiais.
1 54
Plantando e mantendo árvores
As operações usualmente desenvolvidas pelo projeto no tratamen
to das árvores selecionadas são: pequenas podas para elimina
ção de galhos e ramos comprometidos; eliminação de material
necrosado e análise laboratorial; aplicação de fungicidas e/ou in
seticidas na planta; revolvimento do solo e aplicação de corretivos
e fertilizantes; ampliação da área livre de pavimentação junto
ao tronco da árvore e plantio de forração de cobertura; e insta
lação de elementos de proteção contra 'choques de veículos.
;
Medidas de preenchimento ou obstruçãó de cavidades no tronco,
sobre as quais há controvérsia técnica, têm sido utilizadas restrita
mente em árvores objeto de deposição ·de oferendas reÜgiosas
com velas, constituindo-se em ação preventiva contra novos
danos. Os serviços especificados são precedidos por treinamento
aos técnicos e equipes responsáveis piela execução e acompa
nhados por consultores técnicos especialistas em fitopatologia e
entomologia:
Complementarmente são adotadas medidas educativas , com
instalação de placas informativas e distribuição de material
gráfico, objetivando a informação da população local. A implan
tação de placas poderá, ainda, estar associada à divulgação da
imagem institucional de eventuais patrocinadores.
A meta básica do projeto é o tratamento, em cinco anos, de mil
exemplares arbóreos considerados especialmente importantes,
prevendo-se maior ação no centro, sul e parte da região norte,
que concentram a arborização mais antiga da Cidade do Rio de
Janeiro. Iniciado em maio de 1 996, o serviço beneficiou até
outubro de 1998, mais de trezentos e cinquenta exemplares ao
custo médio de R$ 380 , 00 (US$ 330.00) por árvore tratada,
havendo previsão de recorrência bianual para avaliação da
eficácia do tratamento.
Mais que pretender o estabelecimento de normas, regras e
metodologias para tratamentos fitossanitários, o projeto vem
constituindo importante instrumento de preservação do patrimônio
arbóreo local. Neste particular pode-se, mesmo, observar um início
de reversão da expectativa das comunidades nas proximidades
das áreas onde os serviços foram executados, fato marcado tanto
pela aceitação do serviço como, embora ainda de forma tímida, pela
solicitação de execução de novos trabalhos.
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CONHECENDO E AVALIANDO
A ARBORIZAÇÃO
Quantidade e distribuição
da Arborização
A
dmitindo-se que índices quantitativos,
isoladamente, em geral, expressam
pouco da realidade da arborização
urbana e que caracterizações qualitativas
amplas são muitas vezes duvidosas, pela
dificuldade de obtê-las, somente avaliações
e análises combinadas, quali-quantitativas,
possibilitam considerações efetivamente
úteis. Assim, é preciso conhecer tanto a quan
tidade quanto a distribuição da vegetação no
meio urbano, sua situação em termos de
propriedade e, dentro do possível, suas
características de qualidade (MILANO, 1 993 ) .
Nesse sentido, GREY & DENEKE ( 1 9 7 8),
analisando as condições de uso do solo
urbano no município de Dade (Flórida - USA)
apresentadas por Goodman 1 , concluíram
que as áreas residenciais, por suas peculiari
dades, incluem a maior porção da arborização
urbana local e destacaram a importância das
ruas arborizadas e dos parques na composi
ção geral da arborização urbana. Tais condi
ções indicam que aproximadamente 35, 0%
da área estava ocupada com fins residenciais,
24, 6 % estava destinada ao sistema viário,
1 GOODMAN, W.I . Principies and practice of urban planning .
Washington , D . C . lnternational City Manager's Association ,
1 988. p . 1 2 2 .
1 65
Arborização de rfas Públicas
23,5 % encontrava-se desocupada e urbana
mente não desenvolvida, 3 , 8 % constituía
parques e outras áreas de recreação, 2 , 2 %
tinham uso agrícola, 3, 1 % uso institucional
(escolas, igrejas e instituições públicas), 6, 1 %,
eram ocupadas por comércio, indústria e
hotelaria e 1 , 9 % por superfícies hídricas.
Embora os índices apresentados, em termos
percentuais, levem apenas à indicação da
ocupação potencial ou provável dos espa
ços urbanos pela vegetação e tenham um
caráter fundamentalmente ambiental, parte
significativa dos índices de cobertura vegetal
urbana tem caráter dominantemente social,
uma vez que está associada com a recreação
pública e é definida em relação ao número
de habitantes. Coerente com esse pensamen
to está o índice de 28 m2 a 40 m2 de área
verde por habitante, recomendado pela
Associação Nacional de Recreação dos
Estados Unidos no Congresso Internacional
de Recreação, realizado em 1 956 na Filadélfia
( POLAND, 1973 ) . No mesmo sentido, tem sido
utilizado no Brasil o índice de 1 2 m2 de área
verde por habitante, freqüentemente
referenciado como sendo uma recomendação
da ONU, mas que, segundo CAVALHEIRO
( 1 982 ) , refere-se ao índice de áreas verdes
básico encontrado na República Federal da
Alemanha, que é de 13 m2/habitante, divididos
em 6 m2 de parques de bairro por habitante
e 7 m2 de parques distritais por habitante. Esse
autor indica, ainda, que as cidades alemãs,
em termos de cobertura verde total, atingem
um índice médio de 33,5 m2 de área verde
por habitante.
1 66
Avaliando a arborização
Em Curitiba, em 1 985, considerando-se
apenas áreas iguais ou superiores a 2 . 000 m2 ,
tamanho mínimo para a obtenção de bene
fícios fiscais à preservação previsto pela
legislação municipal local, a cobertura florestal
era da ordem de 1 5, 1 % da superfície do
município e correspondia a um valor médio
de 50,2 m2 de área florestal por habitante,
dos quais apenas 1 9,0% ou 9, 6 m2/habitante
constituíam áreas públicas. Mais ainda, esses
valores variavam de 3, 4 m2/habitante no
centro da cidade a 2 . 624,8 m2/habitante na
periferia pouco urbanizada (MILANO &
D ISPERAT I, 1 987) . Com base em fotografias
aéreas obtidas 5 anos mais tarde, HARDT ( 1 994)
identificou uma cobertura florestal de 1 3, 1 %
da superfície do município, correspondendo
a 43 m2 de área florestal por habitante, valores
que indicam reduções relativas de 1 3, 2 % e
14, 2 %, respectivamente, para os índices apre
sentados, mantidas genericamente as condi
ções básicas de distribuição espacial anterio
res.
Do ponto de vista ecológico, LAPOIX ( 1 979)
considera fundamental uma distribuição
espacial homogênea das áreas verdes dentro
da malha urbana. Do ponto de vista sócio-eco
nômico, principalmente no que se refere à
recreação, essa consideração também é válida
(POLAND, 1973). Nesse sentido, cabe destacar
a importante função da arborização de ruas,
que, formando uma malha no tecido urbano,
correspondente ao sistema viário, constitui
fator de homogeneização e integração da
cobertura vegetal das cidades.
1 67
Arborização de Vtas Públicas
Tanto quantitativa quanto qualitativamente,
a arborização de ruas depende fundamen
talmente das condições gerais do planeja
mento urbano e, em especial, do sistema vi
ário e sua adequação de uso. A largura das
calçadas, bem como a situação das instala
ções infra-estruturais, como pavimentação,
redes de distribuição de energia elétrica, te
lefone, água e esgotos, influenciam tanto na
possibilidade de plantio de árvores quanto
na própria seleção de espec 1 es
( BA LENS IEFER & W IE CH E TE CK , 1 9 8 5 ;
MIRANDA, 1970; SOUZA, 1973) . Em Curitiba,
por exemplo, a arborização está intimamente
relacionada com a existência da pavimentação
e meio-fio nas ruas. Em princípio, até 1983,
só estavam arborizadas as ruas pavimentadas
e que contassem com meio-fio e passeios
instalados, correspondentes a 36, 0 % do
total de 3. 750 km de ruas abertas ao tráfego
(MILANO, 1 984) .
Ainda tratando d e índices, em Maringá,
considerada apenas a cobertura vegetal públi
ca, MILANO ( 1 988) identificou uma cobertura
de áreas verdes igual a 13,4% da área urbana
ocupada, equivalendo a 20,6 m2 de área verde
por habitante. Conforme pode-se observar
na Tabela 6. 1, apenas 32,4% dos 20,6 m2/ha
bitante provêm de áreas de parques e praças
arborizados. Os restantes 67,6% da cobertura
vegetal pública, equivalentes a 13,9 m2/ha
bitante, correspondem à contribuição das
árvores de rua, estimada a partir de dados
de distribuição diamétrica média das copas
das espécies mais plantadas.
1 68
A valiando a arborização
Tabela 6. 1 - Índices de áreas verdes urbanas públicas
de Maringá (MILAN0, 1 988) .
Relação a.verde/a.urbana Relação a.verde / habitantes
Especificação Cobertura(m2 ) Área urb.ocup. (ha) % Pop. urb. (hab.) m2 / hab.
Arbor de ruas 3.877.745 4.300 9,02 278.400 13,93
Áreas verdes 3.877.745 4.300 4,33 278.400 6,69
Total 5 . 7 1 7.078 9,02 20,62
A participação das árvores de rua no índice de
áreas verdes urbanas, ao contrário da de praças
e parques, pode crescer significativamente, uma
vez que, em geral, existem ruas e segmentos
de ruas por arborizar e uma significativa
parcela da arborização sempre composta por
árvores jovens, cujas copas estão muito
aquém do porte que podem atingir quando
adultas. A participação absoluta e relativa de
cada espécie no índice de área verde urbana
de Maringá proveniente da arborização de
ruas é apresentada na Tabela 6.2, sendo
variável em função dos respectivos portes.
Assim, Caesalpinia peltophoroides , uma
árvore de porte médio, tem seus 49,8 % de
participação relativa na população de árvores
de rua equivalendo a 50, 3 % da cobertura
de áreas verdes, enquanto Tipuana tipu, uma
árvore de grande porte, tem seus 10,6% de
participação relativa em número de árvores
transformados em 20, 0 % da cobertura de
1 69
Arborização de ifas Públicas
áreas verdes. Como verificado para
Caesalpinia peltophoroides, as participações
relativas em áreas verdes apresentadas por
Bauh inia variegata, Holocalix balansae e
Spathodea campan ulata aproximam-se das
suas respectivas participações em número de
indivíduos da população de árvores de rua.
O mesmo ocorre para De/on ix regia em
relação a Tip uana tip u . Para as demais
espécies, as participações relativas em áreas
verdes são sempre menores que as respectivas
participações em número de indivíduos da
população de árvores de rua, sendo que para
Jacaranda mimosaefolia isto se deve à grande
freqüência de árvores jovens (MILANO, 1988) .
Em s e tratando de áreas verdes, a boa
distribuição espacial do conjunto pode ser
expressa pela distância linear média existente
entre cada unidade de área verde e a unidade
vizinha mais próxima. Em Maringá, essa
distância varia de 1 00 m a 2.250 m e apre
senta uma média de 4 75 ,3 m, com desvio
padrão de 29 1 , 7 m. As menores distâncias
encontram-se nas regiões mais centrais e ,
portanto, mais densamente povoadas, en
quanto as maiores distâncias encontram-se
nas regiões mais periféricas e, portanto, de
menor densidade populacional . Ainda as
sim, mesmo nas regiões periféricas, onde
as áreas verdes são mais distantes entre si, a
maior distância teórica a ser percorrida por
um usuário de área verde é de 1 . 1 25 m,
o u seja , a metade da maior dist â n cia
verificada entre áreas (MILANO, 1988) .
1 70
Avaliando a arborização
Tabela 6 . 2 - Área verde urbana proven iente da
arborização de ruas, por espécie e total (MILANO 1 988).
Espécie FR ( '1. ) ' FA' D . C OPA M É D I O ,. ÁREA
(m')
PART I C .
R E L AT I VA '1.
Caesa/pinia 1 . 949 . 7 4 6 . -
4 9 . 83 31 .301 8.05 3.67 50.28
p eltophoroides 07
Tip u a n a tipu 1 0.63 6.678 1 1.75 2.85 774.353.09 19.97
Ja caranda mimosa efolia 9.45 5 . 938 6.44 2 . 49 228.640.69 5.90
Ta b e b uia a vellanedae 8.00 5.028 5.26 3.14 1 50.894.56 3.89
Delonix regia 4.19 2 . 629 10.23 4.47 270.381 .82 6.97
L igustrum lucidum 3.45 2 . 1 69 5.95 2 . 64 70.168.19 1.81
Gre villea r o b u s ta 2 . 73 1.716 6.50 1 .37 60.26 1 .56 1 .56
Ba u h inia variega ta 1 . 78 1.117 8.23 1 . 87 66.020 . 1 1 1 . 70
Holoca/yx balansae 1.21 760 8.48 2 . 64 46.875 . 1 8 1.21
Ta b e b uia chrys o lricha 1 .07 671 7.00 2.30 28.438.69 O . 73
Termina/ia ca tappa 0.97 608 6.49 3 . 89 26.270.26 0 . 68
l e u caena /euco cephafa 0 . 83 523 7 .68 3.01 2 6 . 94 6 . 6 9 0.69
Caesa/pinia e!.
0.97 609 4.81 131 10.681.47 0.28
/eyostachia
Stath o dea camp a n u lata O . 72 453 7.66 2 . 74 24.36 1 . 1 7 0 . 63
Ne ctan dra sp . 0.22 139 4.65 3.46 2 . 863.54 0.07
3. 736.903.-
S U B . TOTAL 96.05 60.339 96.37
09
OUTRAS 3.95 2.479 7 .98 1 4 0 . 84 1 . 76 3 . 63
TOTAL 3 . 8 7 7 . 74 4 . -
100.00 62 . 1 1 8 100.00
85
• F R ( % 1 = F re q ü ê n c i a R e l a t i v a , F A = Fr e ü ê n c i a A b s o l u t a , s = D e s v i o P a d r ã o
Outro aspecto a considerar quanto à
distribuição espacial das áreas verdes totais
diz respeito à ocorrência da arborização de
ruas . Ao contrário de Curitiba , cuj a
arborização está vinculada à existência de
pavimentação e meio-fio, Maringá conta
com legislação própria , que vincula a
171
Arborização de 1-fas Públicas
aprovação de quaisquer novos loteamentos
à obrigatoriedade de projetos de arborização
de ruas. Desta for ma, praticamente a
totalidade do sistema viário implantado
encontra-se arborizada, garantindo um nível
de distribuição espacial da arborização que
corresponde, teoricamente, à própria área
urbana ocupada do município.
Qualidade da arborização
A simples constatação de que uma cidade
apresenta certa quantidade de áreas verdes,
seja esta expressa em percentual de área
urbana ou em índice de área por habitante,
não implica no conhecimento da real situação
da arborização. Portanto, a identificação de
aspectos qualitativos torna-se de fundamental
importância. Por exemplo, além de identificar
em 15, 1 % a cobertura florestal do município
de Curitiba, o que corresponde a 50, 1 m2 de
área florestal por habitante, MILANO &
DISPERATI ( 1 987) indicaram as características
da distribuição espacial dessa cobertura, as
tipologias florestais básicas encontradas e a
propriedade das áreas florestais. Assim, foi
possível conhecer que: a cobertura florestal
variava de 3,4 m2/habitante no centro da
cidade a 2. 624, 8 m 2/habitante na regional
administrativa mais periférica; os 1 5, 1 % de
cobertura florestal eram compostos por 7, 6%
d e florestas remanescentes, 1 , 4 % d e
bracatingais, 0,5 % d e reflorestamento e 5,5%
de capoeiras; e que dos 50, 1 m2 de área flores
tal/habitante apenas 19% ou 9,6 m2/habitante
correspondiam a áreas verdes públicas.
1 72
Avaliando a arborização
Em Maringá, MILANO (1988) identificou
que, do total de 1 . 93 1 . 1 45, 62 m 2 de áre
as verdes cadastradas, 58, 1 % encon
travam-se urbanizados, 5,4% em proces
so de urbanização e 36,4 % por urbanizar. Ain
da, 74,4% correspondiam a áreas de forma
ções naturais remanescentes, 16,4% a áreas
com arborização plantada, 5,4% encontra
vam-se em plantio e 3,5% encontravam-se
como espaços reservados à arborização.
Para a arborização de ruas, os aspectos
qualitativos assumem também uma elevada
significância e, tão importante quanto saber
a quantidade de arborização existente, é
saber o seu estado. Avaliando a arborização
de ruas de Curitiba, MILANO (1984) observou
que 37,8% das árvores encontravam-se em
boas condições, 34, 6 % em condições
satisfatórias, 25,0% em condições ruins e
2,6% encontravam-se mortas ou em estado
irrecuperável. Em Recife, avaliando separada
mente copas, troncos e raízes das árvores,
BIONDI (1985) encontrou a condição apre
sentada na Tabela 6.3.
Ta b e l a 6 . 3 - C o n d i ções d a s á r v o res e m Rec ife
(BIONDI, 1 985) .
CARÁTER BOA/BOM REGULAR RUIM
Copa 74,60 22,30 3,10
Tronco 62 , 1 0 2 7 ,50 1 0,40
Raiz 44,30 2 1 ,00 34, 70
173
Arborização de í-ías Públicas
Tanto em Curitiba como em Recife, as
avaliações realizadas permitiram identificar
as características de qualidade das árvores,
tanto por espécie quanto por região da cidade.
Avaliações qualitativas permitem ainda
identificar problemas existentes na
arborização, como incidência de pragas,
doenças e danos físicos por vandalismo,
entre outros. Da mesma forma, permitem
determinar as necessidades de intervenção
e manejo da arborização. Em Maringá, foi
identificada a necessidade de poda leve em
5 1 , 5 % das árvores (MILANO, 1 988), contra
37, 7 % em Curitiba (MILANO, 1 984) e 43,2 %
em Recife (BIONDI, 1985). Quanto à situação
fitossanitária em Curitiba, foi constatado que
2 7 , 7 % das árvores apresentavam algum
problema de praga e 1 6, 3 % , de doença
(MILANO, 1 984), contra 33, 4% das árvores
com problemas de pragas e 3,4% com doen
ças em Recife (BIONDI, 1 985) e apenas 6, 7%
das árvores com problemas de pragas e do
enças em Maringá (MILANO, 1 988 ) . Por fim,
foram identificadas as seguintes necessi
dades de remoção de árvores: 1 4, 3 % em
Curitiba, 4, 9 % em Recife e 1 1 , 3 % em
Maringá (MILANO, 1 98 4 ; BIONDI, 1 9 8 5 ;
MILANO, 1 988) .
Informações como essas, entre outras, são
importantes para avaliações qualitativas da
arborização, propiciando tomadas de
decisão sobre manejo e planejamento.
Obtidas de maneira sistemática e periódica,
compõem, também , base fundamental ao
processo de monitoramento, facilitando a
1 74
Avaliando a arborização
compreensão temporal do desenvolvimento
da arborização e dos resultados das atividades
de manejo.
Bases metodológicas para
avaliação da arborização de ruas
A definição de metodologias para avaliação
e diagnóstico da arborização depende,
via de regra, dos objetivos específicos dos
levantamentos em pauta. Informações
quantitativas ou qualitativas, isoladamente,
servem apenas para divulgação pública ou
propaganda, auxiliando muito pouco na
tomada de decisões. Informações quali-quan
titativas conjuntamente, embora desejáveis,
são caras e difíceis de obter. Daí a necessidade
de estabelecimento de metodologias de
avaliação coerentes com as reais necessidades
de informação.
O processo de avaliação da arborização de
ruas depende da realização de inventários
que, em função dos objetivos especifi
camente definidos, serão fundamentados
em diferentes metodologias e poderão
apresentar diferentes graus de precisão
( G REY & DENEKE, 1 9 78; JUNG ST, 1 983 ;
RHOADS et a l i i , 1 9 8 1 ; MAG G I O , 1 9 8 6 ;
THURMAN, 1 983 ) . Observe-se que, de uma
maneira geral, quase todo o referencial
metodológico para avaliação da arborização
prov é m d e b i b l i o g r a f i a e s t r a ng e i r a ,
sendo raros n o Brasil ar tigos específicos
sobre o tema.
1 75
Arborização de vías Públicas
Os inventários para avaliação da arborização
de ruas podem ter caráter quantitativo,
qualitativo ou quali-quantitativo. Em qualquer
das situações, entretanto, podem ser totais,
também chamados de enumeração completa,
ou por amostragem. Inventários totais só se
justificam para avaliações quantitativas com
objetivos de cadastramento da arborização ou,
eventualmente, para avaliações qualitativas
em cidades pequenas. Inventários por
amostragem, entretanto, aplicam-se tanto a
objetivos quantitativos como qualitativos,
isolada ou conjuntamente, neste último caso
definidos como quali-quantitativos. Em regra,
a utilização de procedimentos de amostragem
configura-se como solução mais rápida
e barata para a avaliação da arborização
de ruas dentro de graus de precisão pré-estabe
lecidos (MILANO, 1993).
Embor a , em princípio, em f unção de
características locais, possam ser adotados
sistemas de amostragem aleatórios, siste
máticos, estratificados ou em conglomerados,
têm sido mais comuns os procedimentos
de amostragem aleatórios. Isto se deve às
características gerais da arborização das
c i dades. Baseando-se em soluções
metodológi cas propostas por G REY &
DENEKE ( 1 9 78) e RHOADS et a li i . ( 1 98 1 ) ,
MILANO ( 1 98 4 ) realizou inventário por
amostragem aleatória para arborização
de ruas de Curitiba ( P R ) . Procedimento
semelhante foi adotado por BIONDI ( 1 985)
para a avaliação de ruas do Recife ( P E ) .
Posteriormente , pr o c e dimentos d e
1 76
Avaliando a arborização
amostragem aleatória foram adotados
também em A pucarana - PR ( FU P E F,
1992), Vitória - ES (PM\1, 1992) e Cascavel - PR
( COPE L/FUPEF/PMC, 1 994), sempre com
resultados satisfatórios.
Entretanto, são as caracter ísticas das
cidades, os objetivos da avaliação e, por
conseqüência, também os dados a coletar
que definirão o sistema a ser adotado.
Freqüentemente, quando as características
da c i d a d e p e r m i t e m , r e c o m e n d a - s e
processos de estratificação como forma
de melhorar a precisão e reduzir custos de
realização de inventários.
ROBAYO ( 1 994), após inventário total de
um bairro de Curitiba (PR) , através da simu
lação em computador, testou diferentes sis
temas de amostragem . Comparando
amostragem aleatória com u n i d a d e s
quadradas e retangulares, amostragem
aleatória em linha, tendo segmentos de rua
como unidade, e amostragem em con
glomerado de grandezas diferentes, tendo a
quadra como unidade de amostra e o
passeio da quadra como elemento d a
unidade, concluiu q u e , em função d a
intensidade d e amostragem, h á eficiência
semelhante para amostras retangulares de
perímetro maior, amostragem em linhas e
sistema conglomerado.
-Não havendo citações de utilização na
arborização de amostragem estratificada com
sucesso, e sendo raros e não suficientemente
testados os métodos alternativos com
1 77
Arborização de í-fas Públicas
amostragem sistemática em linha ( LIMA,
1993) ou em transecto (BRASIL, 1994) , ambos
utilizando a rua como unidade amostral,
recomenda-se manter a utilização de procedi
mentos de amostragem aleatória com unidades
de tamanho fixo para fins de avaliação da
arborização de ruas. Para tanto, a população
considerada, previamente estabelecida em
mapa, deve ser subdividida em unidades
amostrais potenciais para posterior sorteio.
Contudo, embora os resultados obtidos em
inventários por amostragem sejam válidos
para toda arborização de ruas, é necessário
definir a população arbórea a inventariar, de
forma que se obtenha o máximo de infor
mações sobre ela com o ótimo uso de re
cursos humanos e financeiros (ROBAYO, 1993 ) .
Assim, é requisito básico à realização de
inventários por amostragem o conhecimento
da correta distribuição espacial da população
de árvores de rua em mapa.
Nesse sentido, ROBAYO ( 1 993) sugere que,
sobre o mapa-base da cidade, preferencial
mente em escala 1 :5.000, sejam identificadas
corretamente as ruas arborizadas ; que o
mapa seja dividido em unidades de 0,2 km2 ,
0,25 km2 ou 0,5 km2 ; e cada unidade, indivi
dualmente, seja avaliada quanto à existência
de arborização em pelo menos 5 0 % da
extensão total de suas ruas, como critério para
inclusão na população amostrável. Da mesma
forma, MILANO ( 1 984; 1988) recomenda que,
após mapear a arborização de ruas da cidade
e subdividir o mapa em unidades amostrais
de tamanho pré-estabelecido, só sejam
consideradas para fins de amostragem
1 78
Avaliando a arborização
aquelas unidades que contêm, individualmen
te, pelo menos a metade da extensão de suas
ruas arborizadas.
Como em outras utilizações de amostragem,
nos inventários por amostragem aleatória
de arborização urbana tem se mostrado de
maior eficiência e precisão estatística a
utilização de parcelas proporcionalmente
menores repetidas mais vezes que parcelas
proporcionalmente maiores repetidas menor
número de vezes, para uma mesma área
total de amostragem efetivada. Para MILANO
& SOARES (1 990), que testaram diferentes
formas e tamanhos de unidades amostrais
para a avaliação de arborização de ruas, após
realização de inventário total na cidade de
Maringá (PR), parcelas menores com maiores
perímetros relativos, repetidas maior número
de vezes, apresentam menores valores de
desvio padrão da média e, por conseguinte,
são mais eficientes. Entre amostras de dife
rentes formas e dimensões, variando de
1 0 0 . 0 0 0 m 2 a 2 0 0 . 0 0 0 m 2 , u n i dades
amostrais de 200 m x 500 m mostraram-se
mais eficientes. Conclusão semelhante foi
estabelecida por NUNES (1992) baseando-se
em trabalhos de literatura.
O procedimento de estabelecimento da
população amostrável utilizando como critério
a existência de arborização em pelo menos
metade da extensão total de ruas de cada
unidade amostral original é considerado por
COUTO (1994) como censura. Esse autor ainda
sugere que tal prática pode resultar em
estimadores viesados ou tendenciosos, uma
1 79
Arborização de vías Públicas
vez que se pode sobrestimar o valor da
média de população real. Nesse sentido cabe
considerar que o objetivo da amostragem é,
fundamentalmente, conhecer a situação da
arborização e não identificar, através dela ,
a existência ou não de árvores nas ruas.
Al ém disso, a utilização prática desse
procedimento em duas situações especiais
em que se contava com levantamentos
quantitativos totais das árvores de rua -
Maringá - PR (Mil.ANO, 1998) e Cascavel - PR
(COPEL, FUPEF, PMC, 1992), indica que, devida
e adequadamente utilizado, o método ainda
fornece estimativas quantitativas de precisão
surpreendentes: menos de 2 % de erro real
quando utilizados parâmetros relativos a
amostragens com 95 % de probabilidade e
10% de erro admitido.
Definida a população amostrável, ou seja, a
população considerada já subdividida em
unidades amostrais, procede-se ao sorteio
das amostras a avaliar. Sugere-se a utilização
de sorteios sucessivos de 5 amostras, seguidos
da coleta de dados e da análise de precisão
estatística ( teste de amostragem ) até a
obtenção da precisão desejada, normalmente
obtida com amostragens abaixo de 5% da
população amostrável , o que pode ser
considerado bastante positivo para as
condições, comumente, de elevada variabi
lidade da arborização nas cidades, sujeitas
às mais diferentes condicionantes.
1 80
Avaliando a arborização
CÁLCULO DA _ INTENSIDADE AMOSTRAL
1 = (t2 .s 2 )/[E 2 + (t2 .s 2 )/N] , onde:
1 = intensidade amostral (número de amostras necessárias)
s2 = variância da variável principal
t= valor tabelado para n-1 graus de liberdade e nível P de probabilidade
E2 = (LE% . m)2, sendo: LE = limite de erro estabelecido
m = média da variável principal
N = número total de unidades potenciais (população amostrável)
Esse procedimento, quanto ao caráter
qualitativo ou quantitativo da avaliação,
se altera apenas na efetivação da coleta
de dados. Para fins quantitativos, interessa
apenas a contagem das árvores de rua. Para
fins qualitativos, em formulários apropriados,
são coletadas informações tais como espé
cie plantada, condição, altura, diâmetro,
problemas de danos físicos, existência de
pragas e doenças e necessidades de manejo,
entre outras observações que possam ser
julgadas necessárias. Cabe observar, ainda,
que inventários qualitativos por amostragem
com precisão definida sempre se prestam
a avaliações quantitativas com a mesma
precisão. A recíproca, entretanto, não é
verdadeira, visto que no inventário quanti
tativo são coletadas apenas informações
sobre o número de árvores (MILANO, 1 993 ;
ROBAYO, 1 993 ) . Além disso, deve-se tomar
o devido cuidado com a real necessidade
de informações, quer quantitativas, quer
qualitativas, evitando-se desperdícios de
tempo e de recursos humanos e financeiros.
181
Arborização de Was Públicas
Embora uma boa disponibilidade de dados
sempre seja algo muito atraente a
planejadores e pesquisadores, além de
custar caro obtê-los, nem sempre apresentam
a utilidade esperada e, ainda, podem se
desatualizar em relativo curto espaço de tempo.
Baseando-se em soluções metodológicas
propostas por GREY & D ENEKE ( 1 9 78) e
RHOADS et alii ( 1 98 1 ) , MILANO ( 1 984) realizou
inventário por amostragem aleatória para
a v a l i a ç ã o e a n á l i s e q u a l i t a t i v a da
arborização de ruas de Curitiba (P R) .
Esse inventário, tomando como variável
estatística principal o número de árvores
por quilômetro de calçada arborizada, foi
realizado com um limite de erro estabelecido
em 1 5 % e um nível de probabilidade de
95%, o que requereu uma amostragem
de 5% da população total considerada,
equivalente a 15 unidades amostrais de
500 m x 500 m. Para a realização de avalia
ção semelhante em Recife (P E), B IOND I
( 1 985) baseou-se nas proposições de GREY
& DENEKE ( 1 978) , GERHOLD & SACKSTEDER
( 1 982) e THURMAN ( 1 983) e também conside
rou como variável estatística principal o
número de árvores por quilômetro de calçada
arborizada. Realizado com um limite de erro
estabelecido em 1 0 % para 9 5 % de proba
bilidade, esse inventário requereu
amostragem de 3, 6 % da população total
estabelecida, correspondentes a 8 unidades
amostrais de 3 5 0 m x 560 m . Em ambos
os exemplos considerados, cujos objetivos
eram qualitativos, a utilização da variável
1 82
Avaliando a arborização
principal estabelecida estava vinculada à
definição de uma precisão estatística . Os
parâmetros qualitativos especificamente
coletados foram analisados independente
mente, de maneira geral apenas em ter
mos percentuais .
Considerando possibilidades e finalidades
alternativas para essas avaliações, MILANO
( 1 988) testou em Maringá (PR) a utilização
de inventário quali- quantitativo por
amostragem. Para tal, comparou os resultados
quantitativos obtidos por amostragem com
os resultados de um inventário quantitativo
total, obtendo um nível de precisão bastante
satisfatório. Para uma precisão estabelecida
em 95% de probabilidade com limite de erro
de 1 0 %, foram necessárias 1 5 unidades
amostrais de 200 m x 500 m, correspondentes
a 5% do total de 307 unidades amostrais da
população total.
Avaliação econômica
ou monetária
Quer pelos benefícios que geram, quer pelo
custo que venham a determinar em termos
de implantação e manutenção, as árvores
urbanas têm valores econômico-monetários
próprios, que muitas vezes necessitam ser
conhecidos. Segundo DETZEL ( 1 993), não
é a identificação de preços de mercado para
a venda de árvores ou seus subprodutos que
justifica a avaliação monetária de árvores,
mas sim a busca de informações econômicas
que auxiliem no planejamento da implantação
1 83
Arborização de iias Públicas
e manutenção da arborização urbana e no
estabelecimento criterioso de valores de
multas e indenizações relativas a danos
à arborização.
Nesse sentido, iniciativas de avaliação de
árvores individuais vêm sendo estabelecidas
desde o final do século passado nos Estados
Unidos da América, particularmente com
vistas ao estabelecimento de indenizações
por danos à arborização pública, conforme
relatam GREY & DENEKE (197 8) e KIELBASO
(197 9). Segundo esses autores, o primeiro
sistema de valoração instituído no século
passado estabelecia arbitrariamente o paga
mento de US $ 5.00 a US $ 150.00 por árvore
danificada por carroças. Mais tarde, desen
volvido por um professor da Michigan State
University, foi adotado o Método Roth , que
estabelecia um valor unitário de US $ 15.00
reajustado em 4 % a cada 25 anos de vida
da árvore, a título de taxa de juros. Posteri
ormente , passaram a ser adotados, suces
sivamente, métodos que utilizavam a circun
ferência do tronco da árvore e a área trans
versal do tronco, com valores arbitrários, res
pectivamente, de US $ 5.00 por polegada e
US $ O. 75 por polegada quadrada. Outros
métodos posteriores (entre eles, o método do
Dr. Stone, o Método Felt e a fórmula Felt-Spicer) ,
com maior ace itação, passaram a ser
estabelecidos, em geral considerando, além
do porte da árvore , expresso pela área
transversal, a espécie , a localização e as
condições sanitárias da planta. O Método
Felt, por sua vez, foi sucessivamente revisado
e ap r i m o r a d o até q u e , e m 1 9 7 5 , fo i
1 84
Avaliando a arborização
transformado na "Cartela de Avaliação de
Árvores " da Michigan Forest and Park
Association, sendo ainda hoje utilizado na
quele estado americano. Paralelamente,
a Conferência Nacional sobre Árvores
Urbanas de 1951 estabeleceu também um
método de avaliação que adotava o valor
de referência de US$ 5.00 por polegada
quadrada de área transversal do tronco, cujas
sucessivas revisões elevaram para US$ 9. 00
por polegada quadrada em 1 969. Esse
método foi transformado, em 1975, no "Guia
para avaliação profissional de árvores e
arbustos ornamentais " , utilizando como
valor de referência US$ 1 0. 00 por polegada
quadrada de área transversal de tronco e as
variáveis espécie, localização e condição da
árvore, sendo amplamente utilizado em todo
o país até hoje.
Em geral, esses métodos estabelecem o valor
básico da árvore em função de um valor fixo
por polegada quadrada de área transversal
(US $ 1 0. 00, por exemplo) ao qual são
aplicados sucessivamente "índices" ou "fatores"
detratores, representados por variáveis
apresentadas em valores que variam de 1
(um) a 1/10 (um décimo) ou 1 00% a 1 0 %.
Para isso foram estabelecidas tabelas de
valores por espécie, para condições de
localização e para parâmetros de condição
fitossanitária. A obj etividade e mesmo,
pode-se considerar, a precisão desses métodos
estão associadas ao longo processo de
estabelecimento e revisão de valores e índices,
fundamentados em grande volume d e
1 85
Arborização de Was Públicas
informações científicas em arborização e,
também, na sistemática aplicação dos pró
prios métodos, o que permite uma constante
conferência do processo.
No Brasil, nem a tradição na pesquisa em
arborização, nem a existência de políticas e
leis consistentes sobre o assunto, além de uma
grande diversidade nos procedimentos de
arborização urbana entre as diferentes regiões
do país, em particular quanto às espécies
utilizadas, possibilitaram o estabelecimento
de metodologia semelhante ou sua simples
adaptação à realidade nacional. Entretanto,
estudando detalhadamente o assunto e
utilizando a cidade de Maringá (PR) como
base de pesquisa, DETZEL (1993) estabeleceu
um método próprio de avaliação monetária
de árvores urbanas, aplicável à situação
brasileira.
No trabalho "Avaliação monetária e de
conscientização pública sobre a arborização
urbana: aplicação metodológica à situação
de Maringá (PR)", DETZEL ( 1 993) propõe e
testa uma metodologia básica de avaliação
que utiliza informações disponíveis sobre o
número de árvores e condições gerais da
arborização e de dados da contabilidade
pública municipal para estabelecer o valor de
árvores individuais em função da idade. A
consistência final da proposta é conferida por
pesquisa de opinião pública com a popula
ção de Maringá sobre valores da arborização,
atestando sincronia entre o método e os va
lores da sociedade local.
1 86
Avaliando a arborização
A fórmula básica proposta por DETZEL ( 1 993)
para o estabelecimento de valor de uma
árvore na idade "n" é: VAn = { custo da
muda x fc + [ ( custos correntes x fc) + (cus
tos com bens de capital x fc) + (custos de
administração x fc)] } , a partir da qual foi
construída a Tabela 6 . 4, de simples entrada,
para identificação do valor de qualquer ár
vore entre um e 50 anos, cujos valores vari
am de US$ 59.40 para mudas no primeiro
ano de plantio a US$ 6,851 .29 para árvores
com 50 anos de plantio.
Segundo o próprio autor, a principal limitação
do método é a necessidade de informações
sobre a idade da árvore a avaliar, dado nem
sempre disponível nos arquivos das adminis
trações municipais, mas que muitas vezes
pode ser obtido por informações de terceiros,
fotografias antigas datadas ou, ainda,
para as espécies mais estudadas, através
de equações e curvas de crescimento
pré-estabelecidas . Um outro aspecto, en
tretanto, que merece atenção é o fato do
único diferenciador de valor entre árvores de
diferentes espécies ser o valor inicial da muda,
um aspecto que torna todos os valores muito
próximos, a médio e longo prazos, e per
mitem ao próprio autor considerar uma tabela
única de valores, independente de espécie.
1 87
Arborização de ffas Ptíb/icas
Tabela 6.4 - Valores de árvores de rua de Maringá, em
função do custo médio da muda, para idades entre 1
e 50 anos, com valor final expresso em UFM - un ida-
des físcais m u n icipais e Dólares a mericanos US$,
(DETZEL, 1 993) .
Idade Va l o r Va l o r Idade Va l o r Va l o r
em UFM em US$ em UFM em U S $
1 2 ,495 59 .40 26 58,32 1 1 ,388 . 6 1
2 2,710 64.52 27 61 ,981 1 ,475 . 78
3 4,9 1 5 1 1 7 .02 28 67 ,840 1 ,615.27
4 5,279 125. 70 29 72 ,598 1 , 7 1 6 .41
5 5 ,669 134.97 30 76 ,598 1 ,823 . 7 9
6 8, 1 14 1 93 .20 31 83 , 4 1 8 1 ,986 . 1 7
7 9,678 206.63 32 88,625 2,110.17
8 1 1 ,249 267 .84 33 96,129 2 ,288.82
9 1 2 ,006 285.86 34 1 02 , 1 1 9 2 , 43 1 . 4 6
10 12,810 305 . 0 1 35 1 08 ,482 2 ,582 .96
11 1 5,696 3 73 . 73 36 1 17,270 2 , 792 . 1 9
12 16,727 398.26 37 1 24,566 2 ,965 .92
13 1 9 ,795 471 .32 38 1 34 , 2 83 3,197.29
14 2 1 ,079 501 .89 39 1 42 , 6 3 0 3 ,396.03
15 2 2 ,44 1 534.32 40 1 5 1 ,490 3,606.97
16 25 ,922 6 1 7 .20 41 1 62 ,929 3 ,879.34
17 2 7 ,585 656. 79 42 1 73 ,041 4,120.10
18 3 1 ,32 1 745 . 76 43 1 85 ,750 4 , 42 2 . 7 0
19 33,316 793 .25 44 1 9 7 ,269 4,696 .97
20 3 5 ,434 843 . 6 8 45 209,499 4,988 . 1 8
21 39,715 945 .62 46 224,51 9 5 ,345 . 7 9
22 42,229 1 ,005 .46 47 238 ,42 7 5 ,676.95
23 46,870 1 , 1 1 5 .97 48 255 , 1 70 6,075.59
24 49,824 1 , 1 86 .32 49 270,971 6 , 45 1 .82
25 52 ,960 1 ,260.98 50 2 8 7 , 748 6,85 1 .29
1 88
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1 92
CONSOLIDANDO
E ADMINISTRANDO
POLÍTICAS DE ARBORIZAÇÃO
A
inda há pouco tempo, quando os
conhecimentos de ecologia aplicados
ao ambiente urbano eram pouco
d i fundidos, as principais funções da
arborização e dos espaços verdes urbanos
se restringiam ao melhoramento estético
das cidades e à oferta de espaços para
encontros sociais e recreação pública .
Problema considerado de menor importância
há alguns anos, a política de áreas verdes
urbanas tornou-se, sob pressão da opinião
pública , um rea tivo social cheio d e
ensinamentos, q u e mostra , confo r m e
LAPOIX ( 1 979 ) , que a importância que as
árvores vêm assumindo na sociedade
urbanizada é um reflexo do modo de vida
humano que hoje tenta harmonizar-se com
o meio que o envolve .
Propostas e projetos políticos para o meio
ambiente urbano e a arborização pública,
comprovados na utilização prática, passaram
aos poucos a integrar o instrumental
legisla tivo das municipalidades e, não
raramente, a compor aspectos das legislações
estaduais e federais. Pode ser considerada
como exemplo maior, no Brasil , a
obrigatoriedade constitucional de planos
diretores para cidades com mais de 20.000
habitantes (BRASIL, 1 988) .
1 93
Arborização de lias Públicas
Paralelamente aos avanços legais, e também
decorrência deles , passaram a ocorrer
adaptações necessárias nas estruturas
executivas para a efetivação dos procedi
mentos legais e dos programas políticos
definidos. Depar tamentos de parques e
praças, secretarias municipais de meio
ambiente e , m u i t a s v ez e s , conse l h os
municipais de meio ambiente passaram
assim a ser criados. HAGER et a/ii ( 1 980) , ana
lisando as políticas de arborização de ruas de
quatorze cidades do estado norte-americano
de Ohio, com populações entre 1 3 . 000 e
82.000 habitantes, concluíram que aquelas
que apresentavam resultados positivos
tinham o sucesso de seus respectivos
programas fundamentado tanto na adoção
de legislação adequada quanto no provimento
dos recursos econômicos necessários. Nesse
sentido, os autores observam que a legis
lação específica que efetivamente suporta
programas de manutenção de árvores deve
balancear os interesses oficiais e aqueles
dos cidadãos.
Deve -se , pois , considerar os múltiplos
aspectos relacionados à questão político
administrativa da arborização, tais como
p o l í ticas urbanas , legisl ação urbana e
ambiental, administração pública , pessoal
especializado, educação e comunicação
social , entre outros.
Legislação e políticas
Como espaço geográfico, as cidades estão
inseridas nos municípios. Cada município,
conforme disposição constitucional, é regido
1 94
Políticas de arborização
por Lei Orgânica própria, que pode ser
considerada a constituição ou lei maior
municipal (BRASIL, 1988). Na lei orgânica,
além dos preceitos de organização polí
tico- administrativa dos municípios, estão
inseridas as condicionantes legais de uso e
controle do solo e ambiente urbanos e, em
conseqüência, quer direta ou indiretamente,
disposições de caráter am biental e
conservacionista. Ainda, como já visto, todo
município brasileiro com mais de 20 mil
habitantes deve, obrigatoriamente, contar
com plano diretor aprovado pela Câmara
Municipal. Daí a existência de zoneamentos
urbanos identificando setores com voca
ções, destinações e regras de ocupação
específicas que, por sua vez, determinam
facilidades ou dificuldades para a existência
da arborização urbana.
Somam -se a esses instrumentos legais
básicos leis normativas complementares,
como os códigos de obras ou de posturas mu
nicipais e os códigos ou leis de loteamentos
ou parcelamento do solo urbano, entre
outras. A junção dessas determinações le
gais básicas define as possibilidades de
efetivação da arborização urbana em seus
diferentes aspectos: áreas verdes públicas,
arborização de ruas e áreas verdes particu
lares.
... A criação de praças e parques públicos
re quer para sua efetivação, além de
embasamento legal e recursos econômicos,
disponibilidade de espaço físico. As leis
de zoneamento urbano e de loteamentos,
1 95
A rborização de Vias Públicas
ao definirem regras e condições de
parcelamento, bem como destinação de uso
e ocupação do solo urbano, podem garantir
esses espaços, constituindo assim, quando
cuidadosamente instituídos, instrumentos de
grande eficácia para a efetivação de um
adequado sistema de arborização urbana.
Impedir ou dificultar legalmente a ocupação
de áreas ecologicamente problemáticas, tais
como encostas íngremes, fundos de vales e
áreas brejosas, constitui boa estratégia
complementar de efetivação de áreas verdes,
ao tempo que permite evitar problemas
sociais com deslizamentos, enchentes,
alagamentos e insalubridade . Políticas
urbanas nessa linha, independentemente de
legislações municipais específicas, encontram
respaldo na legislação federal, em especial
no Código Florestal (Lei 4 . 7 7 1/65) e na
Lei de Política Nacional de Meio Ambiente
(Lei 6 . 938/8 1).
Especificações dos códigos de obras ou de
posturas municipais, tais como definições de
afastamentos prediais obrigatórios e proibição
de construções de marquises de edificações
sobre os passeios, entre outras, têm
fundamental importância para a implantação
e manutenção da arborização de ruas, quer
por facilitar, quer por dificultar sua existência.
Mas deve-se ainda considerar que a
implementação de programas políticos de
arborização, independentemente de garantias
legais, muitas vezes confronta-se com
interesses especulativos e, mesmo, com
a falta de consciência da população.
196
Po/fticas de arborização
Contornar essas situações pode requerer o
desenvolvimento de programas de ação,
como campanhas de conscientização pública,
estabelecimento ou intensificação de sistemas
de fiscalização, estabelecimento de medidas
punitivas através de taxas e multas e estabe
lecimento de medidas de incentivos fiscais à
preservação, entre outros. Procedimentos de
fiscalização só fazem sentido quando
devidamente amparados em sistemática
clara e objetiva de multas de valor real. Mul
tas de valor simbólico não trazem resultados
pelo simples fato de não implicarem
penalização real. Por outro lado, multas ou
penas de valor real que carecem de clareza
na interpretação de sua aplicação, ou não
apresentam sustentação legal e objetiva,
podem ser questionadas j udicialmente
com sucesso e levar à desmoralização
do procedimento.
Em Maringá, os valores de multas por danos
e morte de árvores públicas estão fixados
em Unidades Fiscais Municipais (UFM) e es
tabelecidos em lei (Lei Municipal 2.585/89).
Considerando - s e valores em d ó lares
americanos (US $) ao câmbio comercial,
para facilitar atualizações e comparações,
as multas variam de US$ 7 1 4,30 para danos
em árvores com até 30 cm de circunferência
do tronco, pertencentes a espécies comuns
na cidade, a até US$ 23.810,00 para a morte
de árvores com circunferência do tronco
superior a 1 30 cm e pertencentes a espécies
consideradas raras ou especiais na cidade,
como tamareira, figueira e palmeira-imperial
(FARHAT, 1990). Essa escala de valores, embora
1 97
Arborização de Was Públicas
tenha levado à redução dos danos às árvores
por parte da população, tem problemas de
aplicação, quer pela dificuldade de se es
tabelecer flagrantes, quer pela dificuldade
ainda maior em se encontrar testemunhas
de acusação aos in fratores.
O estabelecimento de benefícios fiscais à
preservação, por sua vez, é uma medida que
pode contribuir significativamente para a
quantidade e qualidade da arborização
urbana. Uma das mais claras e objetivas
medidas nesse sentido é a redução do IPT U
(Imposto P redial e Territorial Urbano),
mediante contrato de compromisso mútuo
entre a prefeitura e o proprietário, em
índices proporcionais ao percentual da área
preservada do terreno objeto de incentivo
fiscal. Essa sistemática foi estabelecida em
Curitiba (Lei Municipal 6 . 8 1 9/86), gerando
resultados extremamente positivos.
Outras situações alternativas podem ser
ainda consideradas. A proteção de fundos
de vales em Curitiba, por exemplo, embasada
no Código Florestal e garantida por decreto
municipal ( D . M . 4 0 0/ 7 6), só passou a
tornar-se efetiva a partir do momento em que
os proprietários de terrenos com divisas
em fundos de vale passaram a contar com a
concessão de uso dessas áreas, como uma
extensão arborizada da propriedade, em
troca da garantia da preservação da cobertura
florestal nelas existente e da própria fiscalização
necessária para tal.
Em geral, todos esses procedimentos
requerem um sistema fiscalizatório e mesmo
1 98
Políticas de arborização
deliberativo sobre suas aplicações, para
garantir a correção de sua utilização e dessa
forma receber o respaldo da sociedade, o que
pode ser conseguido através dos conselhos
munici pais de meio ambiente o u da
instituição de comissões municipais de
áreas verdes, quer independentes ou
vinculadas aos conselhos, funcionando como
instância deliberativa e de julgamento da
aplicação de multas punitivas, da concessão
de benefícios fiscais e, mesmo, de concessões
legais especiais.
Por sua vez, dentro do atual contexto de
impor tância da comunicação social, as
campanhas de conscientização pública são,
em verdade, instrumentos imprescindíveis ao
sucesso de programas ambientais
conservacionistas desenvolvidos pelo poder
público. Nesse sentido, deve-se considerar
que sejam sempre utilizadas conjunta e
complementarmente com outras medidas
adotadas . São exemplos de programas
nesse sentido os slogans de administração
"Capital Ecológica" e "Coração Verde do
Brasil " , respectivamente adotados por
Curitiba (P R) e Maringá (P R) no passado
recente, com o objetivo, alcançado, de
envolver fortemente a po pulação em
programas ambientais específicos.
Administração
A administração da arborização urbana
como um todo, considerada em termos de
plane jamento, im plantação, manejo,
licenciamento e fiscalização, envolve
1 99
Arborização de ftías Públicas
PROTEÇÃO LEGAL À ARBORIZAÇÃO
URBANA NO RIO DE JANEIRO
A legislação de proteção à arborização urbana da Cidade do Rio de
Janeiro tem sido objeto de constante aperfeiçoamento, constituindo-se
atualmente em elemento de garantia à melhoria da qualidade de vida
local. Neste sentido, a Lei Orgânica do Município, promulgada em
1990, prevê que qualquer árvore localizada em território municipal,
independente de domínio ou propriedade, só pode ser removida
com expressa autorização do órgão de meio ambie nte , a ser
expedida mediante avaliação técnica prévia, recolhimento de taxa,
execução de plantio compensatório e, se for o caso, reparação de
dano ocasionado pela derrubada. Por este instrumento legal, ainda,
a determinação do número de mudas a ser plantado com fins
compensatórios é baseada em características como porte, vigor,
raridade, importância ecológica ou paisagística, e notabilidade do
indivíduo a ser removido.
Os casos de cortes ou podas não autorizadas são penalizados por
multas que variam de 10 a 50 UN!Fs (Unidades Fiscais Municipais) ,
além da obrigatoriedade de mitigação do dano através da execução
de plantio de mudas arbóreas em número a ser definido pelo poder
público nas bases anteriores. As mesmas sanções incidem sobre
aqueles que causem qualquer tipo de dano às árvores a partir de
podas não autorizadas, envenenamento, corte irregular de raízes,
dentre outras ações.
Bastante importante para a ampliação da arborização nas áreas
públicas, por sua vez, têm sido as Leis Municipais 613/84 e 1 . 193/88.
A primeira vincula a legalização de toda construção realizada na
Cidade à execução de plantios sob a responsabilidade do empreen
dedor, sendo a quantidade de mudas vinculada à área e destinação
do espaço construído, da seguinte forma: a) 1 árvore a cada 150 m2
para imóveis residenciais; b) 1 árvore a cada 90 m 2 para imóveis
comerciais; e c) 1 árvore a cada 20 m 2 para imóveis industrias.
A segunda lei ( 1 . 1 93/88) estabelece que o responsável por toda
construção, independente da finalidade, deve doar tantas mudas
quantas necessárias à arborização no passeio em frente as referidas
edificações. Tais instrumentos legais têm proporcionado a ampliação
dos plantios pela cidade e são de importância significativa quando
direcionados a projetos em áreas bem definidas.
200
Políticas de arborização
Outra regulamentação importante para a arborização local, neste
caso mais por sua função qualitativa, é o Decreto Municipal 13.225/94
segundo o qual os serviços de plantio e poda de árvores situadas
em logradouros públicos só poderão ser realizados por empresas
ou profissionais habilitados, devidamente credenciados junto a
Fundação Parques e Jardins e após sua expressa autorização. O
instrumento tem mostrado bons resultados, tendo sido observada
uma sensível mefhoria na qualidade dos serviços executados por
empreiteiras, além de ter contribuído para o atendimento da grande
demanda de serviços sofrida pela Fundação.
diferentes setores da organização dos
serviços municipais. Atualmente é comum
que secretarias municipais de meio
ambiente o u departamentos de parques e
jardins concentrem a estrutura geral de
implantação, manejo e fiscalização de áreas
verdes (públicas e privadas) e da arborização
de ruas, além de deterem a estrutura de
diretrizes políticas nessa área. Mesmo assim,
a interface com outros setores da adminis
tração municipal é bastante significativa e
deve ser considerada.
O setor ambiental-conservacionista da
administração municipal necessita, obriga
toriamente, ter forte ação técnico-política
junto ao setor de planejamento municipal,
notadamente no que se refere ao zoneamento
de uso de solo e sistema viário, como forma
de melhor viabilizar a arborização. Da mesma
forma, deve haver forte relação de integração
e complementaridade entre o setor de urba
nismo e o setor ambiental-conservacionista
quanto ao licenciamento de obras ou
atividades.
20 1
Arborização de vías Públicas
Especificamente quanto aos serviços de
arborização urbana, podem ser consideradas
quatro etapas ou divisões relativamente
distintas: o planejamento e control e ; a
implantação; a manutenção e a fiscalização.
O planejamento e controle restringem-se à
definição detalhada de planos, programas e
projetos e ao controle da sua realização
quanto aos o bje tivos e s t a b elecidos e
resultados obtidos. A implantação trata da
efetivação prática das propostas estabelecidas
no planejamento, incluindo a produção
de mudas e seu efetivo plantio, com todos
o s seus diversificados e de talhados
p r o c e d i m e n t o s . A m a n u t e nç ã o d e v e
garantir o adequado manejo e acompa
nhamento da arborização como um todo,
incluindo as atividades de poda, o controle
fitossanitário, a remoção de árvores e o
monitoramento da arborização, entre outras
atividades. Por fim, a fiscalização mantém a
vigilância quanto ao comportamento da
sociedade em relação às regras estabelecidas,
incluindo vistorias para fins de licenciamento,
apuração de denúnci a s , a plicação d e
multas, acompanhamento d a situação de
áreas beneficiadas por incentivos fiscais,
entre outras atribuições. Deve-se, ainda ,
considerar que os registros estabelecidos pela
fiscalização, quando devidamente ordenados
e analisados, são de grande valia nas demais
áreas básicas, principalmente no monitoramen
to, que é fundamental ao planejamento
(MILANO, 1993 ) .
Em cada um desses setores d e atividade da
arborização, no contexto da administração
202
Políticas de arborização
pública, diferentes soluções e sistemáticas de
trabalho podem ser adotadas. Devido à
quase genérica deficiência de pessoal, tanto
em termos numéricos como de formação
especializada, é comum a contratação de
serviços e a qu isição de produtos q u e
poderiam ser obtidos na própria estrutura do
serviço público, tais como o desenvolvi
mento e implantação de projetos técnicos,
o fornecimento de mudas, ou mesmo a
contratação temporária de pessoal. Embora
quaisquer desses exemplos possam constituir
soluções emergenciais necessárias, deve-se
considerar sempre a relação custo/benefício
dessas soluções a médio e longo prazos.
Nesse sentido, é importante pensar em
contratações de serviços especializados ou
consultorias sempre vinculadas à transferência
de conhecimentos, através de treinamento e
formàção de pessoal interno. No mesmo
sentido, é de se considerar a viabilidade de
produção própria de mudas e de constituição
de uma estrutura mínima de pessoal fixo
capacitado.
No sentido de diminuir custos e evitar a
sobrecarga administrativa no s e r v i ç o
público, algumas soluções alternativas
têm sido adotadas com sucesso tanto na
implantação quanto na manutenção de áreas
verdes no país. A mais comum é a adoção
de áreas v e r d e s públicas por g r u p o s
empresariais privados, que garantem sua
manutenção, obtendo em troca espaço
publicitário de apelo ecológico, bastante
vantajoso nos dias atuais. Dentre outras,
podem ser citadas soluções desse tipo
203
A rborização de Vias Públicas
adotadas em Curitiba nas décadas de 70 e
80, bem como atualmente em Porto Alegre e
Vitória. A contribuição empresarial pode ser
adotada também para a implantação de
no vas áreas verdes, o que pode ser bem
exemplificado com o Jar dim Botânico
Municipal de Curitiba , que contou com
decisivo apoio do grupo "O Boticário"
(MILANO, 1993).
PROJETO TELE-JARDIM
Tele-Jardim é uma linha telefônica exclusiva para atendimento de
solicitações do cidadão carioca referentes a praças, parques e
arborização urbana, colocando-o diretamente em contato com a
Fundação Parques e Jardins, a instituição responsável por tais
serviços públicos na cidade do Rio de Janeiro.
O serviço foi criado em 1995 e desde então, através do telefone
(02 1) 22 1 -2574, das 09:00 às 18:00 horas durante todos os dias
úteis da semana, registra as solicitações pertinentes referentes às
atividades desenvolvidas pela Fundação Parques e Jardins. No que
se refere à arborização urbana, a cada mês, são recebidas cerca
1 .500 solicitações relativas a serviços de poda, remoção e plantio
de árvores . O número elevado de ligações, no entanto, não
corresponde, efetivamente, às necessidades reais. Isto porque, em
bora os atendentes do "Tele-Jardim" façam uma triagem dos pedi
dos já no momento da identificação da motivação dos mesmos, ve
rifica-se que muitas solicitações são feitas levianamente demons
trando uma população apenas relativamente preocupada com a
questão ambiental. Este é um dos motivos pelos quais a instituição
tem como norma a realização de vistoria prévia antes de programar
a execução de quaisquer serviços.
204
Políticas de arborização
Sempre que identificados pedidos devido à "sujeira" provocada
por folhas em calhas, calçadas e piscinas, por causa de insetos ou
aves que habitam copas e galhos das árvores, o "Tele-Jardim" atua
como uma espécie de educador ambiental, no sentido de orientar
o cidadão, tentando obter dele um comportamento mais coerente
em relação às árvores da cidade.
Entre outros, um importante resultado colhido pela Fundação Par
ques e Jardins com este projeto tem sido a possibilidade de
melhor dimensionar e adequar suas ações de manutenção da
arborização já existente e , também, promover novos plantios
urbanos de forma direcionada às áreas mais áridas e quentes da
cidade, interferindo assim mais diretamente na qualidade· de vida
do cidadão carioca.
205
Arborização de Jias Públicas
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rativa do Brasil . Isto é - Senhor, São
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206
FUNDAÇÃO
PARQUES E JARDINS
PREFEITURA DO RIO
S E C R E TA R I A D E M E I O A M B I E N T E
(f)
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