Caminhos e Descaminhos Da Educacao Do Campo - Um Projeto de Intervencao Politico-Pedagogico No Contexto Rural
Caminhos e Descaminhos Da Educacao Do Campo - Um Projeto de Intervencao Politico-Pedagogico No Contexto Rural
Resumo: Este artigo pretende abordar a problemática da educação do campo no Brasil, bem como, no estado de
Goiás. As discussões e os debates que aqui se levanta se iniciaram na década de 90 e até hoje poucas conquistas
foram alcançadas pela sociedade civil organizada. O texto quer ser um instrumento de debate e de memória a fim
de problematizar os debates que vem ocorrendo nestes últimos tempos. Sabe-se que os movimentos sociais do
campo são os grandes protagonistas deste debate e que somente a partir de 2002 iniciou-se um olhar mais
concreto por parte do Estado. Todas as alternativas se levantam por meio de uma luta intensa realizada pelos
próprios sujeitos deste processo, a saber: os próprios lavradores e lavradoras.
Palavras-Chaves: educação do campo, pedagogia, movimentos sociais.
Abstract: This article intends to approach the problem of the education of the field in Brazil, as well as, in the
state of Goiás. The discussions and the debates that here gets up if they began in the decade of 90 and to today
few conquests were reached by the organized civil society. The text wants to be a debate instrument and of
memory in order to problematize the debates that it is happening on these last times. It is known that the social
movements of the field are the great protagonists of this debate and that only starting from 2002 a more concrete
glance began on the part of the State. All the alternatives rise through an intense fight accomplished by the own
subject of this process, to know: the own farmers.
Word-keys: education of the field, pedagogy, social movements.
Introdução
Um movimento social educativo vem se consolidando no Brasil mesmo faltando muitas
iniciativas para que se tenham maiores visibilidades. A Conferência Nacional Por Uma
Educação Básica do Campo e o Grupo de Articulação Nacional que se formou em 1998
continuam a pensar a partir das regiões brasileiras o processo de se efetivar parcerias com as
Secretarias Estaduais e Municipais de Educação a fim de buscar alcançar o objetivo da
Conferência: recriar as escolas do campo a partir da cultura local.
A Educação Básica do Campo não pode ser vista sem a participação do movimento social
existente no campo. É a partir das pedagogias construídas pelo movimento que compreender-
se-á o fenômeno educativo camponês. A pedagogia dos gestos, do fazer, da construção
coletiva falam mais do que qualquer teoria pedagógica pensada pelo cientificismo das
estruturas educacionais. A característica do movimento social é exatamente falar pelos gestos,
ou seja, falar por meio da linguagem, das palavras, dos rituais, da mística. Isto pode ser
percebido claramente nos encontros e nas ações coletivas, por exemplo, do MST.
1
Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica de Goiás (UCG) / Instituto de Filosofia e Teologia de
Goiás (IFITEG). Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (FE/UNICAMP/CAPES).
Membro do GEMDEC/Unicamp. Membro da Associação Internacional de Sociologia (AIS). Membro da Rede
de Pesquisa sobre Movimentos Sociais (REDEMS).
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Isto não significa que propostas de outros partidos não existam. Apenas quero levantar um fato que é visível em
nossa atual conjuntura política. Aonde o PT vem governando, principalmente, nas pequenas e médias cidades, há
um trabalho intenso de renovação pedagógica voltados para a descentralização do poder e de abertura a uma
efetivação da gestão democrática dentro das estruturas de organização do sistema educacional.
3
Em julho de 1997, foi realizado o I Encontro Nacional das Educadoras e Educadores da Reforma Agrária –
ENERA, resultado de uma parceria entre o Grupo de Trabalho de Apoio à Reforma Agrária da Universidade de
Brasília - GTRA/UnB, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST, representado pelo seu Setor de
Educação, e o Fundo das Nações Unidas para a Infância – UNICEF.
3
campo foi a busca de uma educação com conteúdos e metodologias específicas para a
realidade do campo.
Estiveram presentes ao ENERA professores/as de mais de vinte universidades brasileiras, que
vinham desenvolvendo atividades na área de educação nos Projetos de Assentamento da
Reforma Agrária. Essas atividades cobriam diferentes frentes de atuação: educação de jovens
e adultos, ensino fundamental, formação e capacitação técnica dos trabalhadores/as rurais,
entre outras. Resultavam, na maior parte, de uma parceria informal entre esses professores e
movimentos sociais, principalmente o MST.
Os participantes concluíram ser necessária uma articulação entre os trabalhos em
desenvolvimento, bem como sua multiplicação, dada a grande demanda dos movimentos
sociais por educação no meio rural e a situação deficitária da oferta educacional no campo
agravada pela ausência de uma política pública específica no Plano Nacional de Educação.
Em 1998, aconteceu em Luziânia – GO, a I Conferência Nacional Por Uma Educação Básica
do Campo promovida por cinco organizações que se uniram para pensar novas alternativas e
projetos que viessem a intervir ou superar práticas pedagógicas existentes no meio rural
brasileiro. Por isso, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), o MST
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), a UnB (Universidade de Brasília), a
UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) e a UNICEF
(Fundo das Nações Unidas para a Infância) promoveram este primeiro evento a fim de refletir
sobre as políticas educacionais e os parâmetros curriculares voltados para a realidade do
campo.
O objetivo principal da Conferência foi “recolocar o rural e a educação que a ele se vincula,
na agenda política do país” e o desafio foi o de “pensar e fazer uma educação vinculada às
estratégias de desenvolvimento” (1998, p. 22/3). O intuito é o de incluir4 na pauta de reflexão
do PNE (Plano Nacional de Educação) a proposta de se fomentar uma educação básica do
campo. Por isso, a escola do campo é interpelada a construir um ideário pedagógico que
nunca se feche em si mesmo, nem mesmo se torne pronto e acabado. Precisa-se pensar a
escola do campo como movimento de transformação da realidade.
4
A inclusão social pode se efetivar a partir da educação, mas não somente pela educação. A educação deve estar
presente no debate conjunto de ações políticas, econômicas e culturais. Deve-se tomar cuidado para não se cair
na falácia histórica a respeito da educação que por si só não pode impedir o êxodo rural e muito menos a
concentração da propriedade privada. Cometer-se-ia, novamente, uma falácia ao indicar a educação como
salvadora dos problemas sociais existentes. Seria atribuir à educação um papel extremamente redentor que irá
solucionar todos os males da humanidade.
4
Saviani (2000, p.172) nos mostra na íntegra os documentos oficiais da educação brasileira que
alertam no Art. 28 da LDB – Lei Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº. 9.394/96)
o seguinte propósito:
Na oferta de educação básica para a população rural, os sistemas de ensino
promoverão as adaptações necessárias à sua adequação às peculiaridades da vida
rural e de cada região, especialmente:
I – conteúdos curriculares e metodologias apropriadas às reais necessidades e
interesses dos alunos da zona rural;
II – organização escolar própria, incluindo adequação do calendário escolar às fases
do ciclo agrícola e às condições climáticas;
III – adequação à natureza do trabalho na zona rural.
O que dita o Art. 28 da LDB não vem sendo respeitado na maioria dos municípios que
possuem realidades campesinas. Fica claro que a própria LDB possui contradições ao afirmar
uma educação básica para a população rural em seu Art. 28, mas quando inicia o texto oficial
ao abordar o conceito Da Educação vem dizer que a educação analisada – na LDB – se refere
exclusivamente a educação escolar, visto aqui por Saviani (2000, p. 163).
A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar,
na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos
movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais.
§ 1º - Esta lei disciplina a educação escolar, que se desenvolve, predominantemente,
por meio do ensino, em instituições próprias.
§ 2º - A educação escolar deverá vincular-se ao mundo do trabalho e à prática social.
Percebe-se que o discurso da LBD afirma que a educação não acontece somente nos espaços
intramuros da escolarização, mas justifica que sua abordagem limitar-se-á somente ao espaço
da educação como escola. Depois no art. 28, vem afirmar a possibilidade de uma educação
básica para a população do campo sem levar em conta que na realidade campesina a educação
não se dá somente nas práticas escolares, mas principalmente, na realidade histórica e cultural
de cada comunidade ou região. O que se tem aqui delineado é um grave problema de
interpretação da LDB e dos discursos governamentais referentes a educação do campo e a
outros tipos de educação que são reconhecidas como práticas educativas. Tais práticas,
portanto, não foram objeto de reflexão da LDB que se limitou a perpetuar a escola como único
espaço do ato de educar (comum nos discursos da qualidade total do neoliberalismo),
fragmentalizando novamente a concepção de educação.
(...) os movimentos sociais são em si mesmos educativos em seu modo de se
expressar, pois o fazem mais do que por palavras, utilizando gestos, mobilizações,
realizando ações, a partir das causas sociais geradoras de processos participativos e
mobilizadores. (ARROYO, 1999, p. 9).
Segundo Caldart (1997) os educadores/as do campo estão em movimento na realidade
camponesa, buscando processos alternativos que venham a construir uma educação básica do
campo. Encontram-se na contramão da história dos dominantes, buscando incentivar a
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Segundo Fernandes (1999), o MST já conquistou 7 milhões de hectares de terra e assentou por volta de 160 mil
famílias.
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A agricultura familiar camponesa foi abandonada, ao longo do século XX, pelas políticas
públicas do Estado. A política agrícola do Governo, principalmente, a política de Fernando
Henrique Cardoso priorizou a agricultura capitalista patronal, baseado na monocultura
exportadora que busca atender ao mercado global, marginalizando por outro lado, a agricultura
familiar camponesa destinada a subsistência e ao mercado local. Ampliou-se a relação de
dominação e de dependência unilateral entre agricultura patronal sobre a agricultura familiar
camponesa, pois ambas possuem interesses distintos. A tecnologia está a serviço da
agricultura capitalista, excluindo assim, a agricultura familiar camponesa. O Governo
incentiva a agricultura familiar, é só olhar os discursos dos governos anteriores e até mesmo
do atual governo com profundas ligações históricas com os movimentos sociais do campo.
Mas, é um incentivo numa outra ótica. Pois as políticas agrícolas do governo consideram
moderna a agricultura familiar desde que esteja adequada ao mercado. Considera atrasada se
estiver vinculada a subsistência.
A construção de uma política que viabilize a reforma agrária e o desenvolvimento da
agricultura familiar é urgente. (...) é uma questão estrutural da própria lógica do
capitalismo, que não conseguindo proletarizar a todos/as, recria os agricultores
familiares, que antes foram desempregados/as, sem terra etc. (FERNANDES, 1999,
p. 57).
O Brasil é um país marcado por problemas invisíveis que se escondem nos problemas visíveis.
Os problemas invisíveis são dois: primeiro, o Brasil é uma colônia moderna do capital
internacional; segundo, no Brasil a desigualdade impera desde 1500 com a chegada da cultura
6
Entrevista concedida a Ethan Bronstein em 16/4/1997, e divulgada pela Folha de São Paulo em 04/05/97.
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européia. Os problemas visíveis aos olhos das pessoas são: concentração de riqueza e renda;
dependência externa ou desnacionalização/desestatização; dominação do capital financeiro; o
Estado a serviço apenas da elite onde o que prevalece são os interesses de grupos econômicos
e financeiros minoritários em relação a grande massa de brasileiros/as; monopólio dos meios
de comunicação (MCS); latifúndios improdutivos e concentração da propriedade da terra;
bloqueio cultural ou a desvalorização das várias culturas existentes no Brasil e a
supervalorização (americanização ou europeização) do que é externo; e, a questão ética é
colocada no lixo com a inversão de valores comunitários em valores individualistas onde o
que prevalece é o consumo e o egoísmo.
O rosto formado na sociedade brasileira demonstra a submissão pela qual os antepassados
passaram. Rostos sofridos, marcados pela luta, luta pela sobrevivência. Para Freire (1987) são
rostos oprimidos historicamente pelos opressores. Rostos oprimidos em busca da libertação.
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Entende-se por políticas públicas os conjuntos de ações resultantes do processo de institucionalização de
demandas coletivas, constituído pela interação Estado-sociedade.
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Para o professor/a importa que o aluno/a tem que aprender a ler, a escrever, a contar etc.
Significa tornar o educando/a em ser abstrato que não possui direitos. As escolas do campo
por influência do urbano não estão reconhecendo a história concreta de cada educando/a, do
coletivo, da diversidade de gêneros, das raças e das idades. Tratam o educando/a como
número, nivela-se o conceito de educação pela média. A média passa, se não tem média,
reprova e repete. Não há humanismo pedagógico. O humanismo se é que existiu foi enterrado
pelo imperialismo estrutural da escola e pela burocratização das políticas públicas educativas.
É preciso salientar que, no que se refere ao mundo urbano, têm-se delineado ao longo da
história processos educativos que se apresentam como alternativos, populares e democráticos.
Estes possuem limites e críticas, mas foram e estão sendo verdadeiros espaços de construção
do saber e de reconstrução da cultura, como por exemplo: a Escola Plural (Minas Gerais), a
Escola Cidadã (Instituto Paulo Freire em São Paulo e Centro Paulo Freire no Nordeste,
principalmente, em Recife), a Escola Candanga (Brasília) e outras experiências isoladas de
prefeituras que se esforçam por implantar uma educação escolar ligada a uma educação que
se faz na cultura, segundo a concepção de Brandão (1985a), no cotidiano das pessoas, nas
festas, na religiosidade e em outras dimensões.
Segundo Gohn (2001, p. 100), a família é caracterizada como espaço de educação informal
que acontece “nos processos espontâneos ou naturais, ainda que seja carregada de valores e
representações, como é o caso da educação familiar”. A educação não formal se dá na
“intencionalidade de dados sujeitos em criar ou buscar determinadas qualidades e/ou
objetivos”. Neste sentido, a educação não formal está presente no bairro-associação, nas
organizações, nos movimentos sociais, nas igrejas, nos sindicatos, nos partidos políticos e nas
ONGs.
Com a municipalização do ensino fundamental estão em processo de extinção as escolas do
campo. Se antes eram poucas escolas no campo, percebe-se hoje o desaparecimento gradual
das escolas isoladas rurais por causa da política pública educacional adotada pela maioria das
prefeituras da federação. Fica complicado querer conceber políticas para escolas que não
existem, mesmo as que ainda continuam a existir, atrelam-se com as políticas pedagógicas do
mundo urbano, ou seja, não são escolas do campo, mas escolas no campo com o modelo
pedagógico do mundo urbano baseado na agricultura capitalista patronal.
Há na realidade da educação do campo vários problemas. Inicia-se pela própria escassez de
dados e análises sobre a educação do campo. Segundo a Conferência (1998), apenas 2% das
pesquisas nos programas de pós-graduação dizem respeito ao campo e não chega a 1% as que
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Existem dados, principalmente, o INEP tem muitas informações sobre educação, inclusive via internet
(www.inep.gov.br). Quanto ao Estado de Goiás, há uma série de 3 cadernos do TCM/GO, com muitas
informações aproveitáveis, no entanto, ainda são poucas comparando com os estudos e análises referentes ao
mundo urbano e ao ensino básico (fundamental e médio).
9
O MEC, com o atual governo Lula possui desde o princípio uma preocupação com a alfabetização das crianças
e dos adultos. Existe um programa denominado Analfabetismo Zero que está sendo implantado em todos os
setores da sociedade, principalmente, nas áreas onde existe maior concentração de pobreza. No meio rural,
muitas organizações e movimentos sociais do campo fazem parcerias com o MEC a fim de eliminar o grande
índice de analfabetos existentes no campo. O Pronera é o órgão do Ministério do Desenvolvimento Agrário
responsável pelo programa do MEC para os Projetos de Assentamento da Reforma Agrária.
10
CNBB. Texto Base da Campanha da Fraternidade 2002. pp. 54-56. Trata especificamente da recriação de
escolas que respeitem o jeito de ser indígena.
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No estado de Goiás, o Governo criou por meio da Universidade Estadual de Goiás um programa de
erradicação do baixo índice de titularidade dos professores/as sejam da rede estadual bem como das redes
municipais de ensino. Denomina-se Cursos de Licenciatura Plena Parcelada onde os alunos/as estudam aos finais
de semana (geralmente, sexta e sábados) e nas férias com o chamado intensivão. É uma forma de amenizar os
problemas. No entanto, virou comércio. O Estado não fiscaliza. Há jovens estudando na parcelada e pessoas sem
nenhum vínculo com a educação estão realizando o curso superior. Tais fatos demonstram a falta de seriedade do
Programa que previa atender a uma demanda específica, os professores/as leigos sem curso superior para atender
ao que reza a própria LDB.
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Outro movimento que busca formas alternativas de educação é o Movimento dos Atingidos
pelas Barragens (MAB). Sua missão é garantir o direito das populações atingidas pelas
barragens, lutar pela preservação das matas e rios, principalmente a água como bem natural
que é dada pela mãe natureza; busca, também, defender a melhoria da qualidade de vida para
todos e todas.
Além destes, não se pode esquecer das experiências das escolas indígenas que buscar associar
o processo educativo com a cultura de cada etnia e povo. O Conselho Indigenista
Missionário (CIMI), órgão ligado a CNBB, vem sendo desde de sua criação em 1972, uma
espécie de organização profética que busca defender os valores e as culturas dos povos
indígenas a partir da construção de uma proposta pedagógica que se insira na realidade dos
povos e não que os povos se adeqüem ao que determina as diretrizes educacionais que são
elaboradas por pessoas sem nenhuma noção da cultura indígena.
Existem outras tantas experiências isoladas e menos intensas do que na década de 70 e 80 e,
em muitos casos, únicas, que estão acontecendo através das Comunidades Eclesiais de Base
(CEBs), de ONGs, do Terceiro Setor, dos movimentos sindicais e sociais. São experiências
que demonstram a importância de se pensar propostas alternativas diferenciadas para cada
grupo social que vem levar em consideração não mais o sistema e sim os atores sociais em
questão.
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A perspectiva dos pequenos numa visão pessimista seria o desaparecimento, a migração para
os grandes centros urbanos ou o reiniciar a luta pela terra; alguns se incorporando ao sistema,
assumindo as novas tecnologias, reformando-se com tecnologias alternativas, transformando-
se por meio da cooperação agrícola ou reorganizando-se com novas experiências. A
perspectiva dos pequenos, entretanto, pode estar vinculada a agricultura camponesa familiar a
partir da criação de alternativas como é o caso das experiências das cooperativas. As
cooperativas são uma contribuição especial para o projeto alternativo, pois pode gerar
empregos, barateando os alimentos e liberando venda para outros setores da economia, além
de melhorar as condições de vida do povo. Para que isso se efetive é necessária uma inversão
política por parte das políticas públicas referentes aos projetos agrários. Neste sentido, é
preciso ver: os camponeses como sujeitos deste projeto de desenvolvimento que buscam na
agricultura familiar a base de suas lutas; políticas voltadas para a segurança alimentar;
efetivação da reforma agrária e eliminação dos latifúndios; os estímulos a pequenos e médios
agricultores/as para que recuperem a terra; a valorização da agricultura familiar quebrando,
conseqüentemente, o monopólio privado das agroindústrias; políticas agrícolas voltadas à
agricultura familiar; e o desenvolvimento de um amplo programa de educação para as escolas
do campo.
O campo necessita de políticas públicas a fim de romper com o processo de discriminação,
fortalecer a identidade cultural negada às minorias e garantir o atendimento diferenciado, mas,
jamais desigual. Estas políticas públicas foram assim classificadas pela Conferência:
Alfabetização de jovens e adultos (eliminação do analfabetismo do campo); acesso de todos/as
a escola pública, gratuita e de qualidade em todos os níveis; gestão democrática do sistema
escolar (participação da comunidade nas decisões e na fiscalização dos recursos públicos);
apoiar iniciativas de inovação das estruturas e currículos, construindo uma pedagogia
adequada ao meio rural; escolas técnicas regionais (ensino fundamental e médio), onde a
organização curricular seja planejada de modo a incluir uma efetiva relação dos educandos/as
com sua comunidade de origem; docentes que queiram trabalhar nas escolas do campo;
formação contínua para educadores/as do campo; disciplinas específicas a essa formação nos
cursos de magistério e nos cursos superiores de pedagogia e demais licenciaturas; divulgação
de materiais didáticos e pedagógicos voltados para a realidade do campo; pesquisar os estudos
sobre o meio rural; relacionar a educação com outras questões de desenvolvimento social;
valorização da cultura; incentivar o intercâmbio cultural; e, financiamento por parte do Estado
dos projetos de escolas alternativas feitas por iniciativa da comunidade rural ou de um
movimento popular.
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Dessa maneira, podem-se formular cinco princípios básicos que mostram o papel da escola e
a sua transformação. A primeira transformação do papel da escola referem-se,
especificamente, a três compromissos que a educação do campo deve assumir. O
compromisso ético/moral com a pessoa humana. O compromisso com a intervenção social
que irá vincular os projetos de desenvolvimento regional e nacional. E, o compromisso com a
cultura no seu resgate, na sua conservação e na sua recriação, tendo como eixo a educação
dos valores baseada na educação para autonomia cultural a partir de Freire (1997) e na
educação pela memória histórica a partir de Brandão (1985b).
A segunda transformação do papel da escola diz respeito a gestão da escola como espaço
público e comunitário, ou seja, a democratização do espaço escolar. Isto significa que deve
haver ampliação (quantitativa e qualitativa) do acesso às escolas; participação da comunidade
nas decisões sobre gestão escolar, propostas pedagógicas e políticas públicas; participação
dos educandos/as na gestão escolar superando a democracia representativa; e, a criação de
coletivos pedagógicos que pensem e repensem os processos de transformação. Assim diz a
educadora Roseli Salete Caldart (1997, p. 45), do Setor Educação do MST, a respeito dos
coletivos pedagógicos:
Uma das lições da nossa prática é a de que a transformação da escola não acontece
sem a constituição de coletivos de educadores. Um educador ou educadora que
trabalhe sozinho/a, jamais conseguirá realizar esta proposta de educação, até porque
isso seria incoerente com o processo coletivo que a vem formulando. São precisos
coletivos para pensar a continuidade da luta por escolas em condições adequadas, para
organizar a Equipe de Educação do assentamento ou acampamento, para planejar
formas de implementação das mudanças no currículo, para refletir sobre o processo
pedagógico, para estudar, para planejar e avaliar as aulas, para continuar sonhando e
recriando esta proposta. Em cada local o desafio é o de encontrar a melhor forma de
constituir e fazer funcionar estes coletivos.
12
Estes quatro tópicos a respeito do ato de conhecer foram abordados no Relatório para a UNESCO da Comissão
Internacional sobre Educação para o século XXI. Cf. DELORS, Jacques (org.). Educação: um tesouro a
descobrir. São Paulo, Cortez; Brasília, MEC: UNESCO, 2000. p. 20.
18
humana. Para isso, faz-se necessário pensar um novo ambiente educativo. Num segundo
momento, refletir sobre a existência do reducionismo de tendência pedagógica em ter a escola
como simples espaço de memorização e de informação. Posteriormente, exigir que o currículo
de uma escola do campo contemple as relações com o trabalho na terra e trabalhar o vínculo
entre educação e cultura, sendo a escola um espaço de desenvolvimento cultural de toda a
comunidade. E, por fim, o currículo deve romper com a postura presenteísta que domina
nossa sociedade13.
Enfim, a quinta transformação do papel da escola vem mostrar a (trans) formação dos
educadores e educadoras das escolas do campo. Dois problemas são visíveis: os
educadores/as são vítimas de um sistema educacional que desvaloriza o trabalho da docência
e, principalmente, os coloca num circulo vicioso e perverso. Isto faz gerar uma conseqüência
problemática: como vítimas (os educadores/as) constroem novas vítimas, os educandos/as das
escolas do campo. As iniciativas específicas para educadores/as do campo são: articulação, ou
seja, a criação e o fortalecimento dos coletivos pedagógicos locais, municipais, estaduais,
nacionais e internacionais; qualificação ou formação escolar para os docentes leigos/as; e,
criar programas sistemáticos de formação com metodologias pedagógicas alternativas no
processo de formação.
Quando se fala em educação básica pode-se voltar a LDB – Lei nº. 9.394/96 onde se afirma
que a educação básica compreende três níveis: a educação infantil, a educação fundamental e
o ensino médio. A educação básica se refere a escola pública, gratuita e de qualidade em
todos os seus níveis. Mas, também, compreende dois pólos que não podem estar separados
quando se pensa na realidade camponesa, ou seja, a educação formal (escolarização) e a
educação não formal (experiências alternativas de caráter popular) não podem estar
separados, mas unidas na diferença que cabe a cada pólo.
A educação básica do campo busca resgatar o conceito de camponês, utilizando, portanto, a
categoria campo como sinal significativo de tal resgate. A educação do campo refere-se,
portanto, ao conjunto de trabalhadores/as que habitam uma determinada realidade camponesa.
Neste sentido, abre-se um grande leque de povos que podem ser denominados de povos do
campo, como por exemplo: os camponeses/as, os quilombolas, os indígenas, os pescadores, os
caiçaras, os caboclos, os bóias-frias, os seringueiros, os povos da floresta, os caiçaras, os
caipiras, os peões, os lavradores/as, os posseiros/as, os sem terra, os roceiros/as, os
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CHASSOT, Attico. Presenteísmo: uma conspiração contra o passado que ameaça o futuro. Unijuí, 1998. O
que inspirou o autor a analisar este tema dentro do MST foi o historiador Hobsbawm. Cf. HOBSBAWM, Eric.
Era dos Extremos. São Paulo, Companhia das Letras, 1995. p. 13.
19
Os desafios são históricos, poder-se-á dizer que estão em caminhada. O compromisso com a
escola do campo é um compromisso que integra a luta brasileira por uma educação básica de
qualidade onde se pretende ampliar a educação (tempo-oportunidade) para o povo brasileiro.
Além disso, pretende-se realizar a transformação da escola (que escola temos e que escola
queremos). Inventar novas alternativas pedagógicas que venham substituir as velhas práticas
educacionais ultrapassadas que até hoje estão “mofando” nas unidades escolares e,
principalmente, no sistema estrutural de ensino. Dessa maneira, se estará construindo a
verdadeira educação para a autonomia.
Precisa-se recuperar os vínculos entre educação e terra, educação e trabalho (PISTRAK,
1981), educação e produção, educação e vida, educação e cotidiano da existência. A escola é
mais um elemento que faz com que haja educação. Os processos educativos acontecem
fundamentalmente nos movimentos sociais, nas lutas, no trabalho, na produção, na família e
na vivência cotidiano. Neste sentido, qual é a função da escola? Para Arroyo (1999, p. 27), a
escola deve...
(...) interpretar esses processos educativos que acontecem fora, fazer uma síntese,
organizar esses processos educativos em um projeto pedagógico, organizar o
conhecimento, socializar o saber e a cultura historicamente produzidos, dar
instrumentos científicos técnicos para interpretar e intervir na realidade, na produção
e na sociedade.
Conclusão
Ao se encerrar a I Conferência Nacional Por uma Educação Básica do Campo, as entidades
promotoras (CNBB, MST, UnB, UNICEF e UNESCO) perceberam que o processo estava
apenas começando e era preciso dar continuidade. Constituiu-se assim, a Articulação
Nacional Por uma Educação Básica do Campo com sede em Brasília que tem por objetivo
articular as Conferências Regionais e os Seminários em torno da problemática e da busca de
soluções para a realidade atual da escola do campo. Hoje, já existe um Grupo de Trabalho no
Ministério da Educação (MEC) que vem trabalhando com afinco para reunir as experiências e
levantar alternativas que já realmente implantadas nas realidades camponesas do Brasil, bem
como, já se realizou em 2004 a II Conferência por Uma Educação Básica do Campo com o
apoio do Ministério da Educação.
Dois objetivos principais estão norteando a práxis da Articulação Nacional: o primeiro é o de
mobilizar os povos do campo para a conquista de políticas públicas na área da educação; e o
segundo é o de contribuir na reflexão político-pedagógica de uma educação básica do campo.
Tendo, também, como linhas de ação o ato de tornar pública a discussão por uma educação
básica do campo através de encontros municipais, fóruns regionais, Seminários e
21
Vê-se a necessidade de abrir e ampliar o debate acerca desta proposta com outros organismos
que podem oferecer reflexões sérias e pertinentes em relação a um tema historicamente
complexo como é o caso da educação do campo. Entidades como o Congresso Nacional de
Educação (CONED), a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa na Educação
(ANPED) e a Federação Nacional dos Trabalhadores/as em Educação (CNTE) poderão servir
como espaços para a reflexão democrática acerca de novas alternativas que venham a
construir futuros projetos político-pedagógicos destinados a atender a população a qual se
vincula a educação camponesa. E não se pode esquecer o papel das Universidades como
fundamentais neste processo de reflexão.
REFERÊNCIAS
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22
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