Bonato Et All - Historia-Da-Educacao
Bonato Et All - Historia-Da-Educacao
Livraria Icaraí
Rua Miguel Fria, 9, anexo, sobreloja, Icaraí
Niterói, RJ, 24220-900, Brasil
Tel.: + 55 21 2629-5293 ou 2629-5294
[email protected]
Dúvidas e sugestões
Tel./fax.: + 55 21 2629-5287
[email protected]
Ana Waleska Campos Pollo Mendonça
Claudia Alves
José Gonçalves Gondra
Libânia Nacif Xavier
Nailda Marinho Costa Bonato
(Org.)
História da Educação
Desafios teóricos e empíricos
Niterói, RJ - 2009
Copyright © 2009 by Ana Waleska Campos Pollo Mendonça, Claudia Alves, José Gonçalves Gondra, Libânia Nacif Xavier, Nailda Marinho
da Costa Bonato (organizadores)
Direitos desta edição reservados à EdUFF - Editora da Universidade Federal Fluminense - Rua Miguel de Frias, 9 - anexo - sobreloja -
Icaraí - CEP 24220-900 - Niterói, RJ - Brasil -Tel.: (21) 2629-5287 - Fax: (21) 2629- 5288 http://www.editora.uff.br E-mail:
[email protected]
É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa da Editora.
Normalização: Caroline Brito
Edição de texto: Tatiane de Andrade Braga e Maria das Graças C. L. L. de Carvalho
Capa e projeto gráfico: José Luiz Stalleiken Martins
Editoração eletrônica: Margret Gouveia Engel
Revisão: Maria das Graças C. L. L. de Carvalho
Supervisão gráfica: Káthia M. P. Macedo
Conversão para ebook: Freitas Bastos
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação - CIP
M534
Mendonça, Ana Waleska Campos Pollo; Alves, Claudia; Gondra, José Gonçalves; Xavier, Libânia Nacif; Bonato, Nailda Marinho da
Costa (organizadores).
História da educação: desafi os teóricos e empíricos/Ana Waleska Campos Pollo Mendonça; Claudia Alves; José Gonçalves Gondra;
Libânia Nacif Xavier; Nailda Marinho da Costa Bonato (organizadores). – Niterói : Editora da Universidade Federal Fluminense, 2009.
156 p. ; 21cm.
Inclui bibliografias
ISBN 978-85-228-
1. Educação. 2. História da educação I. Título.
CDD
Claudia Alves
Referências
VIDAL, Diana Gonçalves; FARIA FILHO, Luciano Mendes de. História da Educação no Brasil: a
constituição histórica do campo (1880-1970). Revista Brasileira de História: o ofício do historiador,
São Paulo, v. 23, n. 45, p. 37-70, 2003.
MEMÓRIA, HISTÓRIA E POLÍTICA
Margarida de Souza Neves 1
Boa noite a todos. É sempre um prazer voltar a esta casa, que foi a minha casa por tantos anos.
Mais ainda se, desta vez, a volta é para assumir o papel, simultaneamente grato e desafiador, de
ser a primeira a tomar a palavra neste que é o Primeiro Encontro de História da Educação do
Estado do Rio de Janeiro. Trata-se de um encontro que abriga e supõe outros muitos encontros:
encontro das várias universidades de pesquisa na organização do evento, em primeiro lugar;
encontro, em segundo lugar, de muitos esforços individuais que evidenciam a sinergia produzida
pelas iniciativas da ANPED e da Sociedade Brasileira de História da Educação e que fez nascer um
Grupo de Trabalho reconhecido no Brasil e que frutifica no Congresso Brasileiro de História da
Educação, e no Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação; encontro, ainda, de latitudes
acadêmicas distintas que potencializam as perspectivas específicas de cada área ao abordarem um
tema que, por sua natureza, postula uma abordagem interdisciplinar; encontro, também, de grupos
de pesquisa e de pesquisadores de diversas instituições e em diferentes momentos de sua
trajetória acadêmica; encontro, enfim, da perspectiva especificamente histórica com as questões
da educação no estado do Rio de Janeiro e no país.
Da multiplicidade de encontros que certamente terão lugar nesse Primeiro Encontro de História
da Educação do Estado do Rio de Janeiro, procede, sem dúvida, o encontro entre três termos que se
postulam mutuamente e que estão presentes no título que os organizadores propuseram para esta
conversa inicial: memória, história e política.
Meu objetivo nesta conversa inicial é propor, ainda que muito rapidamente, duas hipóteses de
reflexão: a primeira visa a indagar, preliminarmente, já que este é o tema que atravessa todo o
Encontro, como o conceito de memória e a dimensão política se articulam no campo da história da
educação. A segunda hipótese pretende distinguir e relacionar memória e história, uma vez que
esse duplo movimento é essencial para o que fazemos da história da educação, em suas múltiplas
dimensões, o terreno de nossa reflexão intelectual e, por isso mesmo, de nossa atuação política
específica.
É, certamente, muito corajoso por parte dos organizadores deste Encontro, em tempos de
desqualificação da política e de desesperança no político, sublinhar, desde o primeiro momento
deste evento, o terceiro termo dessa tríade memória, história e política e assumir a dimensão
inequivocamente política da relação entre memória e história, verdadeira em qualquer caso, mas
particularmente relevante quando referida à educação.
Talvez, como nunca, seja necessário lembrar, uma e outra vez, a relação entre as diversas
iniciativas, agências e agentes relacionados à educação em suas variadíssimas formas e a
dimensão do político, a vida na polis e o exercício da cidadania. Para fazê-lo, na perspectiva do
título que me foi sugerido, pode ser um bom começo retomar as observações feitas por três
professores que se ocupam do caleidoscópico tema da memória, sem esquecer sua dimensão
política.
A primeira é uma frase do conhecidíssimo artigo do historiador Jacques Le Goff (1984, p. 13),
escrito para o verbete “memória” da Enciclopédia Einaudi:
A memória coletiva foi posta em jogo de forma importante na luta das forças sociais pelo poder. Tornar-se senhores
da memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que
dominaram e dominam as sociedades. Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores desses
mecanismos de manipulação da memória coletiva.
Não caberia, aqui, analisar o artigo como um todo, leitura obrigatória para todos aqueles que se
ocupam da complexa relação entre memória e história. Basta sublinhar que o autor assinala, neste
trecho como em todo o artigo, os entrecruzamentos necessários entre o exercício do poder e o
controle da memória, entre a escrita da história e as leituras da memória e entre a lembrança e o
esquecimento na tessitura da memória.
A segunda é a observação perspicaz do filósofo Paul Ricoeur (2000) em livro recente, no qual,
sem deixar de reconhecer que a mais íntima e pessoal das memórias individuais se imbrica, pela
linguagem e pelos conteúdos, com a memória coletiva, e que toda memória coletiva postula
memórias individuais e se entrecruza com elas, postula a importância particular daquilo que
denomina de “os próximos” – a família, a escola, os grupos de sociabilidade, a imprensa em suas
várias formas, as media contemporâneas, as igrejas, os sindicatos, os partidos políticos, os clubes e
outras esferas de socialização – como mediações necessárias entre uma memória coletiva mais ou
menos abstrata e, no mundo de hoje, referida ao nacional e ao cultural, e à memória individual. É
por isso que todas elas têm, explícita ou implicitamente, uma dimensão educativa, na medida em
que formam, conformam ou reformam agentes sociais autônomos – e, portanto, potencialmente
preparados para o exercício da cidadania – ou, pelo contrário, sujeitos heterônomos, súditos
acríticos e submissos dos senhores de plantão na arena pública ou na esfera privada.
Paul Ricoeur não deixa de observar que é precisamente na importância estratégica dessas
mediações próximas e responsáveis pela soldadura entre a memória individual e a memória
coletiva que reside sua ineludível dimensão política e seu necessário alcance ético.
É, portanto, útil, ao iniciar os trabalhos deste Encontro, pôr em evidência a necessária dimensão
política e o alcance inequivocamente ético dos trabalhos que aqui serão apresentados e discutidos,
uma vez que eles se referem à história e à historiografia da educação, à coordenada regional da
história da educação brasileira e a esses particulares lugares de memória, na acepção dada a esta
noção por Pierre Nora (1984), que são os acervos e as políticas de preservação documental, temas
das três mesas redondas que nucleiam as comunicações de trabalhos neste encontro.
Mas, de onde arranca a dimensão política da memória e de uma de suas formas, a história, e em
particular? De que formas essa dimensão política da memória rebate naquilo que constitui o
interesse central deste encontro, a história da educação?
A proposta do antropólogo brasileiro Gilberto Velho (1994), em artigo breve e seminal, fornece
elementos que permitem formular uma resposta a esta questão, na medida em que postula que,
nas sociedades complexas, memória, identidade e projeto não são senão facetas particulares de
um mesmo prisma, que reflete realidades e processos individuais e sociais. Para este autor, os três
elementos desta tríade postulam-se mutuamente e estão articulados orgânica e necessariamente,
de tal modo que toda memória constrói identidade e encerra um projeto de futuro; da mesma
forma que toda identidade se alicerça em memórias e negocia com a realidade por meio de
projetos e que todo projeto incide poderosamente sobre identidades e memórias e delas se
retroalimenta.
Trata-se de uma formulação instigante para todos os que trabalham com a história em geral e
com a história da educação em particular, na medida em que põe em evidência o cerne político da
história que pesquisamos, ensinamos e escrevemos, lócus privilegiado da articulação desses três
vértices, ao mesmo tempo em que revela, em cada um deles, a imbricação entre passado,
presente e futuro que impede uma concepção de memória presa ao passado, um entendimento
presentista das identidades e uma acepção de projetos identificada, apenas, com um horizonte de
futuro.
Minha primeira sugestão, para este Encontro, é a de atualizar essas três referências – fazer
memória, portanto – nas discussões que hoje se abrem, de forma a que a articulação entre
memória, política e história da educação não fique relegada a esta conversa inicial, mas desenhe o
horizonte de sentido das reflexões deste Primeiro Encontro de História da Educação do Estado do
Rio de Janeiro e suas contribuições específicas para as reflexões sobre a história da educação no
Brasil, já que é nossa dupla tarefa estudá-la e construí-la.
Os textos mais recentes sobre memória e história chamam nossa atenção para um aspecto
paradoxal de nosso tempo, ao mesmo tempo ávido e saturado de memória.
Por um lado, muitos autores sublinham o dever de memória e suas muitas conotações políticas,
que se evidenciam, em particular, nas memórias traumáticas do mundo contemporâneo, tais como
a tortura, os campos de prisioneiros, de hoje e de ontem, e, por excelência, a experiência do
holocausto. Esta é a clave, por exemplo, do livro do crítico literário Harald Weinrich (2001),
intitulado Lete. Arte e crítica do esquecimento, que propõe uma história cultural do esquecimento
com base em textos clássicos da literatura ocidental, e do livro do lingüista e filósofo búlgaro,
radicado em Paris, Tzvetan Todorov (2002), cujo título é Memória do mal, tentação do bem. Nesse
livro, Todorov, no primeiro momento do século XXI, empreende uma reflexão sobre o pior e o
melhor que o século XX nos legou. Na primeira e mais sombria das vertentes, estaria a experiência
de regimes políticos totalitários e do que, para o autor, são suas duas principais variantes, o
nazismo e o comunismo. Na segunda vertente, mais luminosa, o autor analisa a vida de homens e
mulheres de destino dramático e impressionante, pela lucidez com que viveram e, em alguns
casos, morreram sob esses regimes, e são, para todos nós, marcos de exemplaridade ética e sinais
de esperança nos tempos difíceis que nos tocam viver. Para ambos os autores, assim como para
tantos outros, o dever de memória é condição de um mundo que seja capaz de identificar nos
valores humanistas um alicerce de sua identidade e um elemento de projetos de um futuro melhor.
Por outro lado, muitos são os autores contemporâneos que se debruçam sobre as relações entre
memória e história e que, sem diminuir a importância do tema da memória em si mesmo,
postulam, por diferentes razões, uma certa overdose de estudos sobre a memória no momento
histórico que vivemos, e que se constitui em um movimento de sutil viés passadista.
É nesse sentido que podemos entender a fórmula, fortemente retórica, de Pierre Nora (1984, p.
VII): “Fala-se tanto em memória em nossos dias porque ela não existe mais”.
E é na perspectiva dos abusos da memória que se inscrevem, de maneira muito diferente, é
verdade, por exemplo, outro dos livros de Tzvetan Todorov, publicado na França, em 2004; além de
algumas das observações do historiador da ciência italiano Paolo Rossi (1991) em seu ensaio sobre
o tempo, a memória e o esquecimento; assim como o mais recente livro de uma das mais
conhecidas representantes da área dos estudos culturais na América Latina, a argentina Beatriz
Sarlo (2007).
História e memória são, numa primeira aproximação, ricas metáforas mútuas. Não sem razão,
utilizamos tantas vezes as duas lexias como equivalentes e intercambiáveis em nossas
aproximações à polifonia do tempo vivido e narrado.
O discurso mitológico do mundo grego, tão denso de poesia, e por isso mesmo tão sugestivo,
encontrou uma forma particularmente rica de expressar a proximidade e, ao mesmo tempo, a
tensão entre a memória e a história, ao personificar uma e outra. Com efeito, na narrativa
mitológica, a memória ganha a forma de Mnemosine, filha de Urano – o céu – e de Gaia – a terra – e
irmã de Chronus, o tempo, devorador de seus filhos. Possuída por nove noites consecutivas por
Zeus, divindade maior do Olimpo, Mnemosine dá à luz as nove musas, inspiradoras de todas as
formas de criação e de conhecimento no mundo dos humanos. Uma destas nove musas é Clio, a
musa da história, filha, portanto, da memória, uma das herdeiras da linhagem que se origina do
consórcio entre o humaníssimo – ainda que olímpico – Zeus e de Mnemosine, e que ascende a uma
aliança carnal entre o céu e a terra, que, por sua vez, gera também o tempo (NEVES, 1998, 2000).
Essa complexa genealogia mitológica instaura a relação e a distinção entre memória e história
no terreno da poiésis, a poesia, forma de conhecimento que, naquele universo cultural,
diferentemente do que sucede no nosso, tinha o mesmo valor heurístico que o logos – o
conhecimento lógico-racional – ou a techné – a precisão do conhecimento técnico.
Talvez por fazer eco – conscientemente ou não, pouco importa – desse discurso fundacional
sobre as relações entre memória e história, Jacques Le Goff formule desta maneira, não mais no
terreno da poesia, mas no da lógica, a relação entre ambas na conclusão de seu já mencionado
artigo: “A memória, onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado,
para servir o presente e o futuro” (1984, p. 47).
Se, por um lado, a poética da formulação mitológica nos ensina a ver a distinção e a relação
entre memória e história, ao estabelecer entre ambas o mais forte e também o mais conflitivo dos
parentescos de sangue, por outro, a relação dialética entre memória e história proposta pelo
medievalista francês nos ajuda a fugir das tentações das definições positivas, e, se formos capazes
de relevar o tropeço soteriológico presente na dupla missão de salvar o passado e servir o presente
e o futuro, perceber algo dos compassos que marcam o ritmo da complexa dança de Mnemosine e
Clio.
É na polifonia da orquestração entre passado, presente e futuro que a dança de Clio e
Mnemosine ganha sentido. É no compasso do tempo vivido que ambas se movimentam, e é para
que os diferentes acordes do tempo narrado possam ser executados e ouvidos que ambas se dão
as mãos ou se separam, numa coreografia sempre renovada. Olhar para o bailado de mãe e filha
com olhos capazes de ver é tarefa ao mesmo tempo árdua e fascinante, e é também o lugar
específico em que o nosso ofício se torna prazer e ganha sentido: aquele em que memória e
história se reúnem para enfrentar os desafios da polis e da política, ou seja, o lugar em que a
produção de conhecimento e a formação de conhecedores – tarefas específicas da academia – se
reconhecem e são reconhecidas como um dos lugares em que se faz a história em sua dupla
acepção: a de processo das lutas e conquistas dos agentes sociais no tempo e a de reflexão e
narrativa sobre este mesmo processo.
Que este Primeiro Encontro de História da Educação do Estado do Rio de Janeiro possa ser uma
ocasião de entrar na dança de Clio e Mnemosyne – na festa, portanto – sem perder a dimensão
política – vale dizer, de luta – sempre sugerida por essas duas figuras mitológicas femininas.
Muito obrigada.
Referências
LE Goff, Jacques. Memória. In: ENCICLOPÉDIA Einaudi. v. 1: Memória e História. Lisboa: Imprensa
Nacional/ Casa da Moeda, 1984.
NEVES, Margarida de Souza. A educação pela memória. Teias: Revista da Faculdade de Educação da
UERJ, Rio de Janeiro, no 1: magistério, memória, história, jun. 2000.
___________. Os jogos da memória. In: MATTOS, Ilmar Rohloff de. Ler e escrever para contar:
documentação, historiografia e formação do historiador. Rio de Janeiro: Access, 1998.
NORA, Pierre. Entre mémoire et histoire: la problématique des lieux. In: NORA, Pierre (Org.). Les
lieux de mémoire. v. 1: la republique. Paris: Gallimard, 1984.
SARLO, Beatriz. Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva. São Paulo: Companhia
das Letras; Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 2007.
Weinrich, Harald. Lete: arte e crítica do esquecimento. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
1
Professora do Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.
PERSPECTIVAS DA PRODUÇÃO HISTORIOGRÁFICA:
APRESENTAÇÃO
Ana Waleska Mendonça 2
Esse conflito de idéias entre as gerações, e dentro de uma mesma geração, é inevitável na abertura das
interpretações consolidadas e na criação de uma atmosfera intelectual instituinte. (NUNES, 2007, p. 9-10)
Desde as primeiras décadas de século XX estamos construindo percursos da história da educação em nosso país
que passam pela escritura de intelectuais com diferentes perfis [...]. Se examinarmos as suas trajetórias veremos
que revelam uma mudança na implicação que apresentam com relação ao conhecimento histórico da educação e
às temáticas aí presentes, isto é, a produção desse ramo especializado da história sai gradativamente da condição
de um trabalho isolado [...] para uma situação, tal qual vivemos hoje, na qual essa produção está concentrada no
trabalho de equipes de pesquisa nos programas de pós-graduação em educação e se expressa massivamente
através de dissertações de mestrado e teses de doutorado. (p. 1)
A seguir, a autora chama a atenção para o fato de que esse movimento ao qual se refere já
extrapola o âmbito restrito dos programas de pós-graduação, articulando-se em instituições de
caráter nacional e mesmo internacional que congregam os vários pesquisadores, que, por sua vez,
produzem modos de pensar e escrever a história da educação (p. 2), configurando uma tradição de
pesquisa legitimada interna e externamente. É a partir e de dentro desse movimento que a autora
desenvolve sua reflexão.
O que me parece interessante assinalar é que, mesmo partindo de lugares bastante
diferenciados, ambas as autoras, para pensar em termos de perspectivas e caminhos para a
historiografia, começam por ensaiar um balanço dessa produção, no sentido de se perceber os
avanços dos últimos tempos e apontar as questões problemáticas que se colocam em termos de
desafios para os pesquisadores de hoje. É óbvio que, pelo próprio caráter mais abrangente da
análise desenvolvida, o recorte temporal, no caso de Sonia, é muito mais amplo. Pode-se,
entretanto, perceber, na análise de Clarice, que as tendências gerais da historiografia apontadas
por Sonia, particularmente, ao longo do século XX e do atual, também se refletem no campo
específico da História da Educação. Com efeito, foi no diálogo com as novas tendências
historiográficas, especialmente a partir dos últimos anos do século XX – sem esquecer, como
lembra Clarice, as contribuições de outras áreas das ciências sociais e humanas, como a
antropologia e a sociologia – que a História da Educação se consolidou e se legitimou como um
campo específico de pesquisa. Pode-se, a meu ver, desse ponto de vista, admitir com Nóvoa (1998,
p. 22), que:
Os dilemas da história da educação são, no que se refere ao essencial, os mesmos dilemas da história. Em um
caso, como no outro, as interrogações são as mesmas, embora localizadas em objetos diferentes e originando
processos de legitimação que seguem um caminho próprio.
Não é, portanto, por conta dos lugares distintos a partir dos quais se colocam, que as autoras
vão divergir quanto aos encaminhamentos propostos para responder aos desafios que se colocam
para a produção historiográfica hoje. Essas diferenças se devem, em parte, a compromissos que se
situam para além da esfera propriamente acadêmica (embora, também a comprometam), que, no
caso específico de Sonia se explicitam na crítica que esta dirige a determinadas correntes
historiográficas contemporâneas que vêm construindo “uma história completamente
descompromissada com a ação” (p. 4, grifos do autor).
De certa forma, esta questão também foi posta, de maneira diferenciada, para os historiadores
da educação, por Warde e Carvalho (2000, p. 31), ao apontarem os riscos de certos deslocamentos
conceituais, metodológicos e de objetos, que possuem um significado político nem sempre
percebido (ou avaliado) com clareza pelos historiadores da educação, e que podem levá-los a
serem capturados nas malhas do sentido que lhes é impresso pelas políticas governamentais.
No entanto, algumas divergências mais profundas podem ser identificadas não só a partir dos
textos das duas autoras, mas do próprio debate que se seguiu às apresentações.
Sonia coloca uma ênfase particular na crítica ao “artificialismo das classificações que insistem
em instaurar fronteiras entre as Ciências Sociais” (WARDE; CARVALHO, 2000, p. 7), propondo, como
alternativa para superar esta situação, não só a ação, que une o conhecimento ao devir, o saber
à transformação (grifos no original), mas também o resgate de determinadas categorias do
pensamento marxista, atualmente meio “fora de moda”, na sua perspectiva, pelo seu potencial (ou
imperativo) totalizador (WARDE; CARVALHO, 2000, p. 11). Sonia critica, deste ponto de vista, a
operação simplificadora (WARDE; CARVALHO, 2000, p. 12) que consiste em evitar ou até mesmo
negar o conceito de totalidade, em nome de um pluralismo falsamente democrático. Para a autora,
esta operação tem, não só implicações práticas, mas se configura igualmente como um risco
teórico.
De um ponto de vista distinto e até oposto, Clarice afirma que a cristalização de um novo
modelo, além de não desejável, não lhe parece nem mesmo provável. Para esta autora, a
renovação da área talvez passe menos pela adoção de novos paradigmas historiográficos e mais
pela mudança de caráter temático (WARDE; CARVALHO, 2000, p. 7). E ela exemplifica, a partir da
sua própria experiência, fazendo um instigante convite aos pesquisadores da área a uma operação
de descentramento da instituição escolar (WARDE; CARVALHO, 2000, p. 8), que não só pode
permitir uma ampliação da reflexão sobre os processos educativos em geral, como até levar a uma
reavaliação do papel e do significado da própria instituição escolar. Para Clarice:
O que buscamos hoje, assim penso, é menos um paradigma global de compreensão e mais a construção de
estratégias de pesquisa cuja fidelidade se reporta às características e necessidade da construção dos nossos
objetos e não exclusivamente às teorias que abraçamos. (p. 9)
Os distintos caminhos estão postos e o debate continua... Estão aí os dois textos para que se
possa lê-los e discuti-los.
Para concluir, gostaria de retomar a epígrafe com que se abriu o texto, palavras atribuídas por
Clarice ao mestre Leandro Konder. E encerrar, de fato, com mais um pequeno trecho do texto de
Clarice, que, sem dúvida, remete à epígrafe:
Referências
2
Professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).
HISTÓRIA, INTERDISCIPLINARIDADE E MARXISMO
Sonia Regina de Mendonça 3
Tida durante longo tempo como “a” disciplina científica por excelência, a história teve seu
“império” contestado pela emergência de inúmeras novas outras, surgidas no campo das ciências
sociais, as quais, lentamente e por caminhos os mais distintos, poriam em questão seu pressuposto
epistemológico até então inquestionável: a contingência. Saber dedicado às singularidades ou
personalidades marcantes, a História chamada de “metódica” – da segunda metade e, sobretudo,
finais do século XIX – somente se preocupou em ampliar o fosso ao redor de seu “castelo”, quando
as “ciências” recém-chegadas – como a geografia, a psicologia e, finalmente, a sociologia –
eclodiram no campo dos saberes sobre o homem, também buscando seu lugar ao sol e disputando
espaço com esta que fora, até aí, a “ciência humana” mais proeminente.
Se o culto aos arquivos, à documentação e ao irrepetível, era a tônica da disciplina historiadora,
diante das novidades “ameaçadoras”, ele se tornava uma armadilha, com duplo poder de
enredamento. Os historiadores de ofício oscilariam, doravante, entre aferrar-se a essas mesmas
características e buscarem uma aproximação “condescendente” com as recém-chegadas,
preparando-se para o embate.
Da primeira opção resultaria a consolidação, na França dos anos 1870, da escola histórica
“metódica”, imbricada ao campo da história política e diplomática, organizada em torno da Revue
Historique, fundada por Gabriel Monod, e com forte e duradoura influência junto ao ensino e à
pesquisa da disciplina.
Para seus afiliados, a atividade do historiador se decompunha em algumas etapas
hierarquizadas, consistindo a principal delas, em reunir documentos que embasassem seu relato da
“verdade”. Se esta era a tarefa inicial, o método heurístico viria logo depois, pondo em prova a
documentação, através de sua proposição crítica, formalizada por Langlois e Seignobos. De posse
da fidelidade das fontes, os historiadores metódicos delas extrairiam seu sentido, porém sempre
enquanto “intérpretes” supostamente fiéis dos fatos, isolados pelo método crítico e escudados por
procedimentos tidos como impessoais e neutros. Logo, para essa corrente, a cientificidade da
pesquisa histórica era assegurada pela recusa a toda e qualquer especulação filosófica, posto que
voltada para a “objetividade”, absoluta em seus domínios.
Tal “escola”, entretanto, enfrentou inúmeros opositores no próprio campo historiador, que
consideravam ter o método crítico incentivado dois gêneros históricos: de um lado, a História
Evenementielle e de outro, a história painel, ambas primando pelo enquadramento de fatos
eminentemente político-institucionais. Contra a primazia dessa história política erguer-se-ia, muitos
anos depois, a voz de Lucien Febvre, em pleno século XX (1935), denunciando o privilegiamento
dos traços escritos e dos testemunhos voluntários da história política nacional – decorrentes da
sacralização dos arquivos – em detrimento de tipos diversos de fontes históricas. Por extensão, ele
também criticaria a supervalorização de individualidades notáveis enquanto sujeitos da história. O
lançamento dos Annalles representaria o coroamento dessa segunda corrente do métier do
historiador.
No entanto, tal cesura seria impensável sem que tivesse emergido a “mais jovem” das Ciências
Sociais, a Sociologia, cuja causa seria abraçada por Durkheim desde a publicação, em 1895, de As
Regras do Método Sociológico, buscando subordinar à nova disciplina a própria história. Para ele,
nada justificava mais profundamente a “divisão disciplinar do trabalho”, senão as irregularidades
da história e a diversidade das competências técnicas particulares que, mesmo assim, eram
secundárias diante do projeto científico mais amplo.
A leitura deste texto fundador da Escola Sociológica Francesa demonstrava a complexidade de
suas relações com a história, posto que Durkheim opunha as duas tradições então vigentes de
análise do mundo social: a história cronológica e a filosofia da história. Quanto à primeira, criticava
a exacerbada contingência implícita na singularidade absoluta dos fenômenos sociopolíticos, os
quais, exatamente por isso, tornavam-se incomensuráveis entre si. Quanto à filosofia, voltava-se
contra a análise desses mesmos fatos à luz de modelos metafísicos e reiteradores de um princípio
de natureza – humana ou nacional – impeditivos da produção de um conhecimento generalizante.
Em suma: à história historicizante, Durkheim reprovava sua falta de audácia e seu esforço por
rechaçar a síntese. Quanto à filosofia da História, criticava sua imprudência explicativa e seu
menosprezo pela historicidade do mundo social. Com isso, o autor supunha abrir espaço para que a
História viesse a ser feita “sócio-logicamente”, ou seja, a partir do estabelecimento de leis.
Em seu método, Durkheim propunha instrumentos de objetivação do social que permitissem a
observação da dimensão regular e repetitiva das atividades sociais, fazendo da generalização sua
principal característica. Assim, pôs em prática um método experimental que autorizava a
aproximação entre sociologia e ciências da natureza resultando, em oposição à História metódica
que tanto criticara, na minimização da historicidade dos fatos passíveis de análise. Com ele,
passou-se a privilegiar a explicação causal em detrimento da compreensão, sendo os sociólogos
convidados a neutralizar o “efeito da idade”, fazendo com que seu território ganhasse em
generalidade comparativa, aquilo que perdia em profundidade histórica e interpretativa.
A tensão existente entre história e sociologia se acirraria a partir das críticas formuladas por
François Simiand, ao denunciar “os ídolos da tribo dos historiadores” e defender a pretensão
nomotética contra o tipo de história praticado pela escola metódica. A erudição não seria, a seu
ver, terreno sólido o bastante para servir de esteio à cientificidade almejada, mas, sim, a aceitação
das regras mínimas constitutivas de uma ciência positiva. Logo, a uma história historicizante,
Simiand contrapunha uma história “a la Durkheim”, com pretensões a atingir o Social e, em
especial, o Regular. Segundo alguns autores, tratava-se menos da busca de uma
interdisciplinaridade, do que de uma a-disciplinaridade, posto que as disciplinas se transformariam
em especializações inevitáveis no seio de um mesmo projeto conjunto.
O impacto do manifesto intelectual de Simiand desdobrou-se no tempo, com a fundação, por
Henri Berr, em 1900, da Revue de Synthese Historique, baseada numa proposta enciclopédica de
síntese histórica dos acontecimentos, realizável dentro de um espaço de livre confrontação entre
práticas científicas que, até então, se ignoravam. A história, território definido como o único
possível para a efetivação de tal síntese dos saberes, assumiria o lugar da filosofia enquanto
organizadora desse espaço.
Em fins da década de 1920, a questão da interdisciplinaridade – ainda hoje tão incensada –
permanecia tensa e aparentemente insolúvel. Seria Simiand, uma vez mais, o ponto de referência
para o que Revel denomina de “abertura pragmática” (REVEL, 1998, p. 83), inaugurada por Bloch e
Febvre quando do lançamento dos Annalles e seu projeto pluridisciplinar, conquanto marcado pela
forte rejeição à história política, por razões óbvias. Sua opção pela dita história social e seu
combate às compartimentações disciplinares continuavam reiterando uma antiga confrontação: a
que contrapunha as abordagens do presente – ilustradas pelas ciências sociais – às experiências do
passado e à interpretação do contemporâneo. O tempo social seria o único eixo possível para o
encontro interdisciplinar.
A tensão entre história e sociologia desenrolou-se por todo o século XX, malgrado pontuada por
conjunturas intelectuais diversas das anteriormente vigentes. Antes de destacar os fatores
elucidativos da possível convergência epistemológica e metodológica entre ambas as disciplinas,
creio ser prudente pontuar os aspectos negativos contidos em ambas as linhagens até aqui
abordadas.
No que se refere aos defensores da contingência histórica, vale reter a impossibilidade da
realização – face a seus postulados e práticas – de uma história-processo alicerçada na dimensão
coletiva dos atores e sujeitos sociais, já que contingência e acaso, tornados matérias-primas do
fazer historiador, resultaram não somente no distanciamento de toda e qualquer crítica social,
como também – e por conseqüência – no distanciamento da própria noção de devir histórico.
Tal inviabilidade, por seu turno, resvalava para um certo conservadorismo, preservado e
defendido em nome da propalada busca da cientificidade, tanto no que diz respeito ao trato das
fontes, quanto no que tange a episódios e atores “únicos” ou excepcionais. Por certo, essa
modalidade do “fazer historiográfico” partia da premissa de ser impossível construírem-se
individualidades dentro da própria dimensão social, como se elas não estivessem,
necessariamente, inseridas numa dada realidade histórica.
Semelhante matriz implicava também numa história que se supunha capaz de tornar sinônimos
intercambiantes os fatos e a realidade. Tal postulado se, por um lado, empobrecia o papel
desempenhado pela imaginação histórica, por outro – e com muito maior gravidade – inviabilizava
o fazer historiador a partir de qualquer princípio explicativo problematizante. Tem-se, dessa feita,
uma história completamente descompromissada com a ação ou mesmo com a elaboração de
indicadores que a orientassem.
Nesse sentido, o movimento dos Annalles representou não apenas severa crítica a essa história
historicizante ao extremo, mas também a muitos de seus pressupostos, tendo como principal arma
de combate a metodologia, já que somente a partir da pluralidade de métodos se conseguiria
superar a “escola histórica”. Os Annalles não foram exitosos apenas ao dar consistência à chamada
história-problema. Igualmente conseguiram redirecionar o “fazer historiográfico” no sentido da
objetividade. Um dado, porém, deve ser destacado como herança de todo esse embate: o quase
total ostracismo a que foi relegada a história política, transformada numa espécie de “fantasma” da
escola histórica de fins do século XIX.
Vale também recordar que, muito embora o grupo dos Annalles tenha avançado
consideravelmente no desenvolvimento da disciplina, diante de sua busca por uma história total –
donde a abertura à multidisciplinaridade – ele continuava partilhando, a meu juízo, de um mesmo
ponto em comum com a escola precedente: a restrição de suas atividades ao campo acadêmico ou
científico, como se sua produção fosse descolada da ação política em sentido mais amplo.
Quanto à regularidade sociológica, também não se encontrou isenta de males e mazelas,
sobretudo porque arraigada ao império das leis, donde resultariam questões como a repetição de
fenômenos – via de regra mensuráveis estatisticamente, o retorno do mesmo, a morte do tempo,
em suma, uma ciência pouco atenta à extrema complexidade das sociedades em suas
determinações históricas concretas. Segundo Bourdieu, ele mesmo sociólogo, o afã durkheimiano
de converter a sociologia numa ciência universitária reconhecida, a teria dotado de uma
“neutralidade” sem história. Daí sua crítica à própria disciplina residir no fato de ter sido ela, desde
as origens, uma ciência ambígua, dissimulada e mascarada, que teve que se fazer esquecer e se
negar enquanto ciência política, para se fazer aceitar como acadêmica (BOURDIEU, 1983, p. 38-
39).
A rigor, considerando-se os limites de ambas as disciplinas, tal como até aqui tratados, o que se
destaca do convívio nem sempre fácil entre história, sociologia e demais ciências afins, é ainda o
enfrentamento de uma questão basilar: como o mundo social é percebido e qual a teoria do
conhecimento que explica o fato de percebermos o mundo como organizado?
Mesmo em nossos dias, tais correntes continuam se digladiando, inter e intra-disciplinarmente.
Para os objetivistas, os fatos sociais – como as classes, por exemplo – somente podem existir na
realidade se forem passíveis de mensuração objetiva. Por certo, o conceito de classe, nesse caso,
em nada se aproxima daquele do marxismo, sendo pensado, tão-somente, no senso comum
dicionarizado. Porém, o que está implícito nesse objetivismo é a ausência de teoria, além da
suposição de que a realidade se evidencia a partir de indicadores, sem ser preciso buscar seus
movimentos de descontinuidade ou conflito, nem tampouco origens, rupturas ou transformações. Já
para os subjetivistas ou espontaneístas, que se opõem às leis históricas, tendo como arma o
primado da intuição ou do sujeito, a ação/consciência é o critério organizativo dos grupos e das
sociedades, para além de qualquer preceito imanente da história.
A grande questão, ainda mal resolvida, refere-se ao fato de que a maioria dos conceitos – tanto
no campo da história, quanto no das demais ciências sociais – são, obrigatoriamente, conceitos
históricos, construídos a partir das necessidades desta ou aquela polêmica, datadas em momentos
historicamente bem precisos. Entretanto, na medida em que tendem a transformar-se em
instrumentos utilizados fora e além dos contextos que os geraram, tais conceitos acabam
investidos de um valor trans-histórico. O que a ciência parece desconhecer é que ela apenas
registra, sob a forma de leis tendenciais, a lógica característica de um certo jogo de forças, vigente
num dado momento, e não uma lei eterna.
Muitos continuam a perguntar-se em que medida essa suposta oposição – entre Teoria do
Conhecimento e Ação Política – pode vir a ser superada. Ora, se distribuíssemos numa espécie de
espaço teórico os diferentes pensadores do mundo social, segundo as posições por eles assumidas
acerca de tais problemáticas, perceberíamos que as respostas não são independentes.
As implicações políticas dessas cesuras ou impasses são óbvias. De um lado, situa-se a
linguagem das estruturas objetivas de dominação, as relações de força objetivadas. De outro, está
a soma dos atos infinitesimais que produzem, ao fim e ao cabo, a objetividade das relações sociais.
De um lado, determinismo; de outro, espontaneidade. Em suma: estamos falando de disputas,
disputas o tempo todo, seja para conservar o funcionamento das “leis”, seja para negar tal situação
ou ainda para transformá-la. Daí sua interdependência. Falar do social, estudar o social, conhecer o
social é, queira-se ou não, falar, estudar e conhecer a totalidade e seus conflitos, nem que sejam
apenas os que atravessam o próprio campo científico (como se este também não integrasse o
social).
Retomo, pois, a indagação: será que as representações sobre o mundo social são o simples
registro de divisões que existem, de fato, na realidade – isto é, na mente de sujeitos sociais
concretos –, ou trata-se apenas de uma construção operada mediante a aplicação de esquemas
classificatórios? Ora, os próprios sistemas de classificação são produtos sociais e, enquanto tais,
são espaços de uma luta permanente, em que cada um tenta impor a representação subjetiva de si
mesmo enquanto representação objetiva.
Admitindo que qualquer lei só pode ser histórica, e que inexiste indivíduo descolado da
sociedade à qual pertence, a única condição possível de superação deste “torneio de contrários”
estéril e inútil, só pode residir na assunção de que o fato científico se conquista, constrói e se
comprova, seja na história, na sociologia ou qualquer outra disciplina, o que implica em rechaçar
tanto o empirismo – que reduz o ato científico a uma mera prova –, quanto o convencionalismo, que
só se opõe aos preâmbulos da construção.
Dizendo de outra maneira, só pode haver história se for além de cada um e sua descrição,
enquanto partes de grupos sociais, integrados ao processo que configurou a totalidade, com seus
momentos de conflito, de inflexão e de ruptura. De igual modo, só pode existir
sociologia/antropologia, etc. para além da lei, estando esta inserida nos processos que a geraram,
na dominação em que eles implicam e nas ações capazes de transformar o social enquanto um
todo.
Parece-me que a única ponte capaz de demonstrar o artificialismo das classificações que
insistem em instaurar fronteiras entre as ciências sociais reside na prática, na ação, que une o
conhecimento ao devir, o saber à transformação, para além das dicotomias passado/presente ou
ideografias/nomotetismo, posto que todas elas são tributárias, inexoravelmente, de uma mesma
base empírica.
Em nossos dias, volta-se a discutir a necessidade da reestruturação das ciências sociais, pondo-
se em xeque, com particular ênfase, a questão do passado enquanto domínio da história e do
presente enquanto âmbito das ciências sociais. No campo historiográfico, a multiplicação de
objetos, áreas de investigação e proposições tem dado origem a tendências centrífugas, que
respondem pela proliferação de interesses historicistas, que parecem colidir com o projeto de
síntese integradora de antes. Segundo alguns autores, os grandes paradigmas unificadores, que
serviram ao desenvolvimento da história e das ciências sociais como um todo, desmoronaram na
contemporaneidade, tais como o funcionalismo ou a história total.
Semelhante conjuntura tem favorecido iniciativas como a de uma “nova” convergência entre
história e sociologia, por exemplo, estimulada pela iniciativa de Alan Burguière, em 1979.
Repensando os pressupostos das ciências sociais em seu conjunto, seu objetivo é consolidar uma
“nova” disciplina denominada sociologia histórica do político (DÉLOYE, 1996), marcada pelo suposto
retorno do “político” à história. Para além desse retorno da política como nível pertinente e legítimo
de análise histórica –, o qual, ademais, surgiu da conjuntura comemorativa em torno da Revolução
Francesa –, parece-me oportuno discutir a adjetivação empregada: ora se trata de um “novo”
campo do saber em vias de autonomização, ora se trata de um ramo da história conhecido como
“nova” história política (RÉMOND, 1996). Subliminarmente, no entanto, é perceptível que, a
despeito de todo um discurso legitimador que visa à convergência, encontramo-nos diante de outro
espaço de conflitividade, reeditando-se, de modo velado, a tênue fronteira entre sociologia – agora
histórica – e história – agora sociológica e política.
Com a melhor das intenções, os cientistas sociais envolvidos na construção desta “nova”
especialidade do conhecimento, comprazem-se em estar superando as tensões interdisciplinares,
em nome de uma história das “profundezas do político” ou, em outros termos, da contextualização
sistemática das categorias de análise da ciência política e da sociologia. Privilegiam-se, assim,
noções como as de trajetória e estratégia, por cujo intermédio a sociologia histórica tentaria
“restituir” a ação própria dos agentes sociais, buscando dar conta do sentido por eles investido na
história, bem como dos contextos históricos diversos a eles impostos. Da mesma forma, a
sociologia histórica do político define-se por erigir em seu objeto específico as próprias fronteiras
flutuantes e a autonomia, sempre contestada, do espaço político, autonomia por eles definida como
fruto da articulação complexa e dinâmica entre o político e o social, o global e o local.
Por mais meritórias que sejam iniciativas como essa, creio procedente tecer alguns comentários
sobre ela, a começar pelo designativo “novo”, o qual sempre sugere a superação de um “ex-novo”,
tornado “velho” em função de algo que, supostamente, o teria esgotado e ultrapassado. Digo isso,
pois, os mais incautos podem se ver diante de algo que, à maneira do “ovo de Colombo” ou da
“reinvenção da roda”, encontra-se imerso num campo de disputas, apesar de emergir como uma
“descoberta” – quando, na verdade, a maior parte de suas questões e pressupostos já foram
desenvolvidos anteriormente e, conquanto variando de opinião em opinião, continuam contando
com validade teórica e histórico-explicativa.
Para tanto, remeto a dois teóricos, a meu ver, ainda insuperados – Marx e Gramsci – que já
trataram, sobejamente, da relação entre passado e presente, ou entre ideografia e nomotetismo. O
primeiro, numa afirmação já clássica apontava que
Os homens fazem a sua própria história, mas eles não a fazem a partir de seu próprio movimento, em
circunstâncias tão somente por eles escolhidas; essas circunstâncias lhes são dadas, transmitidas pelo passado.
(MARX, 1976, p. 15)
Já quanto a Gramsci, remeto a uma citação que integra As Cartas do Cárcere, quando o autor se
indaga
A quantas sociedades pertence um indivíduo? Cada um de nós não faz esforços constantes para unificar sua
própria concepção de mundo, onde continuam subsistindo fragmentos heterogêneos de mundos culturais
fossilizados. (GRAMSCI, 1986, p. 347)
Ora, parece-me que tentativas como esta da sociologia histórica do político, a despeito de tentar
resgatar para o espaço da interdisciplinaridade, objetos relegados a certo desprestígio nos campos
da sociologia e da história – como os regimes políticos, as instituições, o governo ou mesmo o
Estado-Nação – transplantam para as ciências sociais, sob o epíteto de “novo”, um conjunto de
preocupações e temáticas de há muito instituintes do campo do Marxismo, este sim, posto no limbo
do esquecimento ou, quando muito, “pinçado” de forma pragmática, sempre que se necessita de
“argumentos de autoridade” por parte de supostos atores de “esquerda”.
Por certo não poderia afirmar, sob pena de pecar pelo exagero, que o próprio Marx tenha
dedicado fartas páginas de sua obra à reflexão acerca das fronteiras entre a história e ciências
sociais – até porque estas fronteiras são, para ele, inexistentes –, ou mesmo àquela entre o político
e o Estado, posto que seu principal projeto intelectual assumiu a forma de uma de análise
“econômica”.
Entretanto, é certo que Marx comungava do princípio de que os modelos econômicos, para
serem úteis à análise histórica, não poderiam ser separados de suas realidades sociais e
institucionais. Evidentemente, ninguém é obrigado a concordar com este que foi um dos mais
expressivos fundadores do pensamento ocidental moderno, nem com suas conclusões. Porém,
negligenciar a prática deste que, mais que nenhum outro, definiu o conjunto de perguntas
históricas para as quais são atraídos, até hoje, os cientistas sociais é, no mínimo, uma imprudência
e, no limite, uma operação – esta sim, política – de ocultamento. E me parece ser isso que a
maioria dos estudiosos dedicados ao resgate da “história da história” ou à consolidação de uma
“Nova História Cultural”, em seus múltiplos combates, prima por fazer: produzir uma dada
amnésia.
O “desenclausuramento” das disciplinas humanas, no dizer de Gramsci, já está dado pelo próprio
princípio filosófico do materialismo histórico, em que a linguagem interroga a filosofia, porque a
filosofia do marxismo também se erige numa crítica da linguagem. E se Gramsci, mais que
qualquer outro teórico, desenclausura as disciplinas, é porque ele pensa e pratica a política de
forma diferente, ou seja, umbilicalmente atrelada à cultura, para além das picuinhas acadêmicas,
posto não estarmos falando de um homo academicus, mas sim do produtor de um saber militante –
logo, político – que escreveu a maior parte de sua obra encarcerado.
De meu ponto de vista, uma das maiores contribuições do pensamento de Gramsci reside em
sua tentativa de responder a essas questões pela simultaneidade de duas pesquisas habitualmente
separadas: aquela sobre o Estado e aquela sobre a filosofia do marxismo e sua relação com as
massas, já que a Hegemonia deriva da Cultura e esta, por sua vez, não prescinde da ação dos
Intelectuais, os quais não se definem por especializações eruditas, mas sim por sua capacidade de
organizar a ação política, enquanto persuasores permanentes.
O Estado integral em Gramsci pressupõe a consideração do conjunto dos meios de direção
intelectual e moral exercidos por uma classe sobre toda a sociedade. Por isso, o Materialismo
Dialético desencapsula as disciplinas, já que a mais abrangente e importante delas, a filosofia –
para ele a história de uma época – é capaz de transformar senso comum em bom senso, evitando
que grupos sociais tomem de empréstimo visões de mundo elaboradas por outrem. Sob tal
perspectiva, o verdadeiro filósofo é o político, porém, não aquele dos gabinetes partidários ou das
salas universitárias, mas sim o homem de ação, o único capaz de mudar o ambiente, justamente,
por agir.
Parece-me que, em tempos ditos “pós-modernos”, a defesa de semelhantes pressupostos pode,
na visão de muitos, assumir foros de “caduquice” ou “assintonia”, já que o mundo social é, hoje,
concebido enquanto uma bricolage de fragmentos e distinções. Diante disso, a única unidade
possível, somente emprestada pelo conceito de capitalismo e seu imperativo totalizador, cederam
espaço a uma fragmentação integrada por múltiplas realidades sociais, tão variadas quanto as
construções discursivas tidas por capazes de reorganizá-las. Mediante procedimentos como esses,
as próprias relações de classe, sob o capitalismo, parecem ter “desaparecido”, subsumidas a
inúmeras outras categorizações –sobretudo a de “identidade” – perdendo, assim, sua centralidade
histórica e analítica.
O mais curioso é que os esforços empreendidos por inúmeros historiadores contemporâneos
para desagregar o conceito de capitalismo – i.e., a noção de totalidade – convergem, quase todos,
para um denominador comum: a noção de “Sociedade Civil”, só que, agora, transmutada em
palavra “mágica”, aplicável a um sem número de situações, desde as que a imbricam a aspirações
emancipadoras – no caso das releituras de “esquerda” –, até as que a utilizam para
promover/justificar um profundo retrocesso político. Ambas as vertentes aferram-se à defesa das
chamadas “liberdades humanas contra a opressão do Estado” e, com isso, chegam às raias de
erigir a “sociedade civil” justamente em sentido oposto ao de todo o esforço gramsciano: uma
espécie de álibi para o próprio capitalismo, como bem o aponta Helen Woods (1995).
O que se tem hoje, à guisa de Sociedade Civil, aponta para mudanças teórico-políticas tão
profundas, quanto dramáticas. Vejamos o porque. Em primeiro lugar, esta nova e ressignificada
“Sociedade Civil” parece ter perdido por completo seu sentido anticapitalista, assumindo conteúdo
oposto. O conceito de “Sociedade Civil”, hoje banalizado, é utilizado para servir a tantos fins, que
se torna difícil isolar uma só corrente de pensamento a ele associada, ainda que em sua esteira
tenham surgido alguns temas recorrentes.
De uma maneira geral, a noção de “Sociedade Civil” é hoje utilizada para delimitar um espaço
potencial de liberdade fora do Estado onde, teoricamente, predominariam a autonomia e a
associação voluntária e plural. A ênfase atualmente conferida à noção passou, portanto, a residir
na extrema pluralidade das relações e práticas sociais, muito embora a “Sociedade Civil” continue
sendo definida a partir de oposições dicotômicas, tais como Estado versus espaço não estatal (em
geral regulado pelo mercado), ou ainda, “Poder Político” versus “Poder Social”, dentre várias outras.
Nesta “nova” leitura da Sociedade Civil, opera-se uma polarização que opõe a coerção – apanágio
do Estado restrito – à liberdade e “ação voluntária” – apanágios da Sociedade Civil.
Nesta nova leitura da Sociedade Civil, opera-se uma polarização que opõe a coerção – apanágio
do Estado restrito – à liberdade e “ação voluntária” – apanágio da Sociedade Civil.
Logo, o “atual” conceito de “Sociedade Civil” ganha nova roupagem, celebrando a pluralidade e
a diversidade contidas num sem número de instituições e relações sociais de tipos os mais
diversos, tradicionalmente definidas como “não contempladas pelo marxismo”, transmutando-se,
através de tal expediente, numa “noção guarda-chuva” que a tudo é capaz de abrigar, desde ONGs
até entidades filantrópicas.
Certamente, o risco que se corre com a generalização de tais usos e abusos não é pequeno,
particularmente se reparamos que seu produto final é a redução de todo o sistema social
capitalista a um mero conjunto de instituições e relações que, para além de dissolverem o conceito
de capitalismo, diluem o próprio conceito de classe social, legitimando-se, no mais das vezes, em
nome do “combate” ao “reducionismo economicista”, ainda e equivocadamente, imputado ao
marxismo.
O principal desdobramento de tal operação simplificadora consiste, a meu juízo, em evitar com
destreza o conceito de totalidade ou mesmo em promover sua completa negação, em nome de
uma série de novas situações de “dominação” e de “lutas” que seriam, segundo seus defensores,
inalcançáveis e inexplicáveis a partir do conceito de classe. O capitalismo se volatiliza, assim, numa
miríade indiscriminada de instituições e relações “de novo tipo” o que, não somente enfraquece a
força analítica do conceito de Sociedade Civil – tal como concebido por Gramsci – como o esvazia
de sua capacidade de organizar projetos emancipatórios, despindo-o de seu significado de forma
social específica do capitalismo, de um ponto de vista totalizante.
Encontramo-nos, hoje, diante de um sério risco teórico: o do culto a uma “Sociedade Civil”
emasculada de seu caráter transformador ou contra-hegemônico, que vem ganhando novos
adeptos qual mancha de óleo no oceano do liberalismo. E tamanho amesquinhamento conceitual
conta com um poderoso argumento nesta onda revisionista: a questão das “identidades sociais”,
devidamente descoladas do conceito de classe, visto como “restritivo” e “essencialista”.
Nunca é demais alertar para o fato de que, num mundo “pós-moderno”, as diversidades e
diferenças atuam como detergentes das universalidades e, na mesma escala em que proliferam
movimentos baseados em identidades de raça, gênero, sexo e etnicidade, amplia-se o que hoje é
denominado de “Sociedade Civil”, noção que a tudo engloba ou engole.
O mais perturbador é que semelhante rendição ao pluralismo tem como álibi a suposta
“aspiração democrática” nele contida. Ou melhor, uma democracia tão idealizada e frágil que não
resiste ao teste de tentar situar, dentro dela mesma, uma outra diferença, tão denegada: a
diferença de classes. Certamente este teste deitaria por terra esta nova “Sociedade Civil”, posto
ser inimaginável ter-se diferenças de classe, sem relações de desigualdade e de poder. Também é
óbvio que a execração da centralidade da classe nas sociedades capitalistas decorre da suposição –
para muitos, uma certeza – de que ela já foi devidamente subsumida a concepções difusas de
“Sociedade Civil” ou a um vasto conjunto de “identidades” – plurais, múltiplas – desagregadoras da
totalidade.
Tal quadro torna-se ainda mais assustador ao percebemos que os novos desenvolvimentos
teóricos que o embasam ferem, frontalmente, o preceito doutrinário do marxismo relativo ao papel
privilegiado da classe enquanto sujeito coletivo. Porém, ainda mais dramático é constatar que
teorias incapazes de distinguir entre um sem-número de “instituições” e “identidades”, são
igualmente incapazes de enfrentar criticamente o próprio Capitalismo, permitindo que ele seja
soterrado sob os “escombros” de tantos fragmentos e diferenças. É doloroso constatar que as
teorias ora em voga caminham no rumo da aceitação de um Capitalismo “expurgado” das classes,
de sua exploração e suas lutas.
Por mais óbvio que possa parecer, nunca é demais reafirmar que o Capitalismo é constituído
pela exploração de classe, ainda que ele não se resuma a um mero sistema de opressão de classe,
já que submete toda a vida social às exigências do mercado e à mercantilização da própria vida.
Com Marx e Gramsci, aprendemos que tudo é histórico, porque tudo é político e tudo é político,
posto que cultural. Cabe, aqui, então, a pergunta: será que o devir histórico não é, por si mesmo,
amalgamante o suficiente para nos fazer deixar de lado as disputas pelo monopólio das
classificações do mundo social, inventadas e reinventadas pelo próprio Campo Científico, a
desdobrar-se em “novas” disciplinas? Será que a especialização da especialização, no âmbito das
Ciências Sociais, visa a agilizar a luta em prol de uma realidade social menos injusta? Ou será que,
além de “esquecido” ou “morto”, o marxismo foi transformado em mero “gênero literário”?
Referências
RÉMOND, René (Org.). Pour une histoire politique. Paris: Seuil, 1996.
REVEL, Jacques. História e Ciências Sociais: uma confrontação instável. In: BOUTIER, Jean; JULIA,
Dominique (Org.). Passados recompostos. Rio de Janeiro: Edufrj: FGV, 1998. p. 1-22.
3
Docente do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense.
CAMINHOS DA HISTORIOGRAFIA DA EDUCAÇÃO:
ALGUMAS REFLEXÕES
Clarice Nunes 4
Agradeço pelo convite recebido. Meu propósito nessa mesa-redonda é apenas indicar alguns
aspectos que considero pertinentes ao debate. Desde as primeiras décadas do século XX, estamos
construindo percursos da história da educação em nosso país que passam pela escritura de
intelectuais com diferentes perfis, desde religiosos e leigos católicos, até médicos, técnicos
educacionais, políticos profissionais e professores universitários (NUNES, 1996). Se examinarmos as
suas trajetórias, veremos que revelam uma mudança na implicação que apresentam com relação
ao conhecimento histórico da educação e às temáticas aí presentes, isto é, a produção desse ramo
especializado da história sai gradativamente da condição de um trabalho isolado, pontual e
oportuno em determinadas situações – sobretudo aquelas ditadas pela formação docente em
escolas normais e institutos de educação, instituições nas quais alguns desses autores trabalhavam
e que os motivavam a lançar esporadicamente algumas publicações nas quais se assumiam como
historiadores da educação – para uma situação, tal qual vivemos hoje, na qual essa produção está
concentrada no trabalho de equipes de pesquisa nos programas de pós-graduação em educação e
se expressa, massivamente, através de dissertações de mestrado e teses de doutorado. A política
de qualificação do corpo docente, que também se materializa nos concursos públicos para
professores, contribui para que se acrescentem, a essa produção, as teses de professores titulares
nas universidades públicas federais e de livre docência em universidades públicas estaduais.
Dos trabalhos pioneiros patrocinados por instituições oficiais, como os de Primitivo Moacyr, com
o apoio do então Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos, na década de 1940, para citar apenas
um exemplo, chegamos a um movimento de organização não apenas dentro dos programas de
formação de pesquisadores e professores, mas em instituições de âmbito nacional, como o Grupo
de Trabalho de História da Educação da Associação Nacional de Pós-Graduação em Educação e a
Sociedade Brasileira de História da Educação, que nos congregam. Nesse movimento, fomos
elegendo problemáticas obrigatórias, revendo temas clássicos, renovando os aportes teóricos e
metodológicos, divulgando e debatendo nossos trabalhos em eventos e publicações. Nesse
processo, produzimos modos de pensar e escrever a história da educação, construindo nossa
identidade enquanto pesquisadores. Do século XX ao século XXI, ampliamos consideravelmente,
em número, os trabalhos de pesquisa na área, o que justificou diversos balanços já realizados
como, por exemplo, o mais recente, publicado em 2005, sob a organização de José Gonçalves
Gondra, Pesquisa em História da Educação no Brasil.
Construímos uma tradição de pesquisa com nuanças próprias em cada região do país e
consolidamos nossa presença nas instituições que conferem legitimidade ao nosso trabalho, o que
justificou a existência de eventos próprios, como os congressos luso-brasileiros e/ou ibero-
americanos, além de veículos específicos que promovem a circulação entre professores e alunos
dos cursos universitários, no país, dos nossos artigos, dos livros que produzimos, apreciados em
resenhas, dos dossiês que elaboramos. Sabemos, porém, que os trabalhos de história da educação
não são apenas produzidos e divulgados nessas instâncias. Existe toda uma produção espalhada
por outros programas de pós-graduação, de história, arquitetura, medicina, filosofia, ciências
sociais e até engenharia. A história da educação, também, não aparece somente nas teses
acadêmicas, mas em ensaios e livros didáticos.
Os indícios de um amplo movimento de produção da história da educação que capturei nessa
exposição insistem para o fato de que necessitamos, antes de refletir sobre as perspectivas, tema
central desse encontro, abordar, mesmo que sucintamente, aspectos de uma herança que nos
afeta (NUNES; CARVALHO, 1993). Afinal, o grande aumento da produção, sem a atenção ao que foi
e é produzido, não tem a relevância que desejamos, como adverte Aróstegui (2006).
A herança
A historiografia da educação no Brasil, como também ocorreu na Europa, desde o século XIX, vai
ser produzida em instituições de formação docente – sobretudo nas escolas normais, nos institutos
de educação e faculdades de pedagogia – que refletem, na sua organização, a autonomização do
conhecimento produzido, reproduzindo uma das faces da modernidade ocidental sem, no entanto,
abrir mão dos vínculos tradicionais questionados por essa mesma modernidade, tais como a família
e a religião. Desse ponto de vista, a história da educação, apesar de compor o currículo de uma
escola moderna, funcionou como freio à implantação dos valores modernos. O caráter dessa
historiografia aí produzida apaga a diferença entre empiria e reflexão, apresenta a história da
educação num continuum que remete a uma concepção de unidade, a um tempo linear e às
temáticas do pensamento educacional e das idéias pedagógicas. Da década de 1920 à de 1960, o
objetivo da história da educação foi, sem sombra de dúvida, formar um grande país uno e cristão.
Tudo indicava, à primeira vista, que, a partir da década de 1970, com a relativa diversificação
que a história da educação ganhava, ao ser produzida nos programas de pós-graduação, estariam
dadas as condições para uma ruptura com o modelo anterior. Afinal, as reflexões que denunciavam
a ditadura militar colocavam o dedo, de forma contundente, nas chagas das injustiças e das
desigualdades sociais. Não podemos esquecer que os cursos de pós-graduação em educação foram
frutos contraditórios de uma política educacional excludente e discriminatória conduzida pelos
grupos de trabalho agenciados pelos governos militares, política essa que foi intensamente
criticada dentro desses mesmos cursos, já que o tecnicismo que motivava a proposta de sua
implantação foi abafado pelos aportes marxistas que se tornaram hegemônicos nas investigações
de cunho sociológico e histórico, numa clássica performance em que a criatura atacava o criador.
No entanto, a face oculta desse processo ia tecendo uma outra teia, uma espécie de conversão que
Michel de Certeau (1994), ao realizar uma espécie de arqueologia das representações da
credibilidade, mostrou que ocorreu na França, quando as organizações políticas, sobretudo os
partidos de esquerda, tomaram o papel das igrejas enquanto lugares das práticas crentes. Embora
de uma maneira velada, em alguns importantes programas de pós-graduação em educação, nos
maiores centros urbanos do país, certos doutorandos, não suportando a pressão da atmosfera
acadêmica, acabaram omitindo certos autores lidos, em suas apresentações bibliográficas, o que
se manteve como uma espécie de segredo partilhado apenas entre aqueles pares com os quais se
mantinha estreita relação de confiança.
Essa conversão das crenças só se tornou possível por uma apropriação dogmática e
empobrecedora do marxismo, que usou a história da educação como uma espécie de arma para
produzir consciências críticas. Se no ponto de partida existe uma incompatibilidade entre o
materialismo marxista e a fé religiosa dos cristãos, a moral cristã plenamente vivida é diferente,
mas não antagônica, a uma ética revolucionária comunista praticada. Já tive oportunidade de
aprofundar essa discussão em artigo publicado na Revista Brasileira de Educação (1996). Um pouco
antes do período da distensão da ditadura militar, a Igreja católica no Brasil ousou penetrar
racionalmente na cultura, usando as ciências humanas e sociais para realizar uma crítica à
sociedade, através dos seus movimentos pastorais. É claro que não foi só a Igreja católica que fez
essa apropriação. Organizações ligadas às denominações protestantes também a fizeram, através
de convênios que levaram pesquisadores brasileiros a serem formados no exterior, e que acabaram
escrevendo, em suas teses, uma história da educação calcada em macro-explicações e
interpretações propostas pela sociologia do desenvolvimento latino-americano.
Nas décadas de 1980 e 1990, uma leitura simplificadora do marxismo predominante nos cursos
de pós-graduação em educação foi responsável por uma história da educação que desprezou a
empiria, conceptualizou os objetos de estudo, sem antes tê-los efetivamente estudado, e usou a fé
na educação como símbolo do poder de intervenção no domínio das consciências. Em outras
palavras, em alguns programas de pós-graduação em educação, o paradigma marxista funcionou
como tese integradora, que substituiu o suporte perdido da onipresença da divindade. A abertura
democrática e a insatisfação com o conhecimento produzido, com as interpretações globais, mas
mecanizadas, levou à exploração de novos temas, fontes e aportes teóricos, revendo-se aspectos
da produção existente e abrindo caminho para outras perspectivas historiográficas. Significaria
esse arejamento um rompimento com as marcas anteriores? Teria criado uma nova sensibilidade ou
novos territórios de pesquisa?
Sem dúvida, o financiamento das instituições de fomento aos programas, a ampliação dos
quadros da pós-graduação em educação, a articulação de redes de pesquisadores através de
instituições parceiras em nível nacional e internacional tiveram o mérito de ir congregando esforços
direcionados para o crescimento quantitativo e qualitativo da nossa produção. Foi sendo gestada,
sobretudo no interior do Grupo de Trabalho de História da Educação da ANPEd e dos estágios de
intercâmbio de pesquisadores da área, a organização de um campo, que hoje encontra-se
estruturado e consolidado.
Apesar das marcas da herança que apresentei não terem desaparecido de todo, conseguimos
forjar um outro consenso: o de que a história da educação, que discute o sentido dos processos de
socialização e humanização via instituições e práticas educativas, não pode deixar de levar em
conta o caráter de comunicação que caracteriza o gesto educativo, mergulhado numa cultura que
comporta códigos, códigos que orientam comportamentos e traduzem políticas sociais
demandadas pela sociedade e gestadas no interior das organizações civis ou do próprio Estado,
assim como não pode ignorar os agentes históricos e a construção das identidades de grupos,
profissionais ou não.
As perspectivas
Se dermos uma simples olhada (não tive a pretensão de realizar nenhum balanço), por exemplo,
na Revista Brasileira de História da Educação, podemos ter uma dimensão dos nossos avanços que,
de certa forma, espelham os rumos da pesquisa nos programas de pós-graduação no país. Nessa
publicação, aparecem desde reflexões sofisticadas sobre arquivos escolares e tipos de fontes
(cartas, fotografias, diários), sobre o que revelam e silenciam, até revisões elaboradas de temas e
documentos clássicos da área, a análise apurada da circulação dos modelos educativos na relação
entre educadores brasileiros, europeus e americanos, a abordagem da relação entre tempos sociais
e escolares, as relações entre a história cultural e a história da educação. Há, ainda, uma sensível
renovação no tratamento da história das instituições e práticas educativas, da formação docente e
das representações desse ofício, além da problematização da história da educação a partir de
questões de gênero e questões étnicas. Esses são alguns exemplos capazes de evidenciar que, em
praticamente duas décadas, fizemos uma espécie de virada que se deve à atuação generosa (se
bem que também impulsionada pelas instâncias avaliativas dos programas de pós-graduação) de
toda uma nova geração de historiadores da educação, que também ajudei a formar, como alguns
dos meus colegas aqui presentes, diretamente como docente ou participante de bancas de exame.
Se tivemos conquistas, foi basicamente porque aprendemos a interrogar a educação de uma
outra maneira em nossos trabalhos, liberando a reflexão dos modelos interpretativos constituídos,
criando uma inquietação intelectual que desenha e redesenha o objeto de estudo, lendo de modo
interessado os autores escolhidos, sem aplicar de forma mecânica chaves interpretativas aos
problemas identificados. Aprendemos a trabalhar no horizonte dos possíveis, já que as
possibilidades parecem nos ensinar mais do que a história reduzida ao que prevaleceu, trazendo
para o primeiro plano a responsabilidade das ações humanas e de suas conseqüências. Já não
tratamos mais a educação como mero reflexo da ação política e, apesar de todas essas inegáveis
conquistas, não seria pertinente repousar nelas. Podemos – com o intuito de promover o debate –
apontar alguns desafios que surgem como perspectivas possíveis, a médio prazo, para a produção
na área.
Do ponto de vista do locus da produção, sobressai a reorganização dos programas de pós-
graduação, a partir dos critérios de avaliação da CAPES, dentre os quais, a exigência da diminuição
de prazos, para elaboração de dissertações e teses, acaba afetando as condições da produção na
área e suas repercussões são incisivas sobre o processo de seleção. Acredito, se se deseja cumprir
os prazos, que cada vez menos serão aceitos candidatos sem alguma experiência prévia em
pesquisa histórica, como ocorria há alguns anos, quando não era incomum a iniciação dos
estudantes nesse tipo de trabalho nos cursos de mestrado e até mesmo de doutorado. Reforça-se a
necessidade de cultivar e ampliar o trabalho de iniciação científica junto aos cursos de graduação
em educação, como possibilidade de detectar e cultivar talentos que se sintam atraídos para os
cursos de pós-graduação stricto sensu. O desafio será cada vez mais compatibilizar projetos
individuais e coletivos, sem cair na armadilha da competição impiedosa ou no atendimento
exclusivamente pragmático às normas e procedimentos de avaliação, o que retiraria a força
propulsora das nossas investigações.
Do ponto de vista da produção do conhecimento, as direções inovadoras da historiografia da
educação ainda disputam terreno com as direções tradicionais, mas tudo indica, depois de
desestabilizadas essas últimas, que a cristalização de algum novo modelo, além de não desejável
do meu ponto de vista, seja menos provável, dada a intensidade das trocas acadêmicas que se
multiplicam, mas que também vêm ocasionando certo aligeiramento do debate entre pares. As
mudanças que a história da educação conheceu nas últimas décadas foram, também, provocadas
pela influência das contribuições inovadoras das ciências humanas e sociais, sobretudo da história,
sem esquecer da antropologia e da sociologia. Basta lembrar o quanto têm influído, nas
interpretações correntes das instituições escolares e dos processos de escolarização, as
concepções sociológicas de forma escolar, habitus, poder simbólico, dentre outras, ou as
contribuições da história cultural nas pesquisas sobre a história da leitura e da escrita, dos livros e
da alfabetização.
A multiplicação de trabalhos sobre temas comuns em várias partes do país como, por exemplo, a
modernidade pedagógica, pode estimular, a partir da pluralidade de fontes e de textos de fôlego já
existentes, análises refinadas que evidenciem, pela comparação, a singularidade dos processos de
escolarização relacionados aos processos de urbanização numa mesma região ou em regiões
diferentes, contribuindo, assim, para expurgar das interpretações a homogeneização violenta dos
espaços sociais e culturais e o esmagamento de tempos e experiências históricas diferentes. Esse
movimento pode trazer à tona, com maior clareza, o processo contraditório de gestação do
moderno, e captar com certo detalhamento as aproximações e afastamentos entre os modos de
fazer educação escolar no Brasil.
Suspeito que haverá uma atenção maior para estudos que lancem luz sobre situações
educativas não-escolares, e que ainda não foram suficientemente valorizadas, sobre as culturas e
sujeitos regionais e sobre os processos de apropriação locais de políticas educacionais nacionais. O
foco nas trajetórias de sujeitos, grupos e comunidades em temporalidades próximas e nos sentidos
que atribuíram ao que viveram, pode modular a historiografia da educação brasileira que, ainda
hoje, permanece aglutinada em alguns dos grandes centros urbanos do país. Nesse sentido, é
oportuno advertir para a necessidade de dar visibilidade, nas publicações nacionais, à produção de
uma historiografia fluminense de educação que, rarefeita e dispersa, é obnubilada pelos estudos
que se concentram sobre a cidade do Rio de Janeiro, capital do estado.
Creio que a renovação da nossa área talvez passe menos pela adoção de novos paradigmas
historiográficos e mais pela mudança de caráter temático. Um exemplo dessa afirmação está
explicito num número especial da Revista Brasileira de Educação (2000), que organizei com os
professores Antonio Flávio Moreira e Maria Alice Nogueira, tendo em vista as comemorações dos
“500 anos de Brasil”. Esta publicação simultaneamente se opunha e complementava uma outra
publicação anterior, que comemorava os 500 anos de educação escolar no país, organizada por
Luiz Antonio Cunha, Dermeval Saviani e Marta Maria Chagas de Carvalho (2000). Neste segundo
número, os organizadores justificavam a centralidade da educação escolar, pelo fato de que a
escola, a partir da época moderna, acabou se tornando a forma principal e dominante de educação,
e o número foi organizado a partir dos níveis básicos em que foram se organizando os sistemas de
ensino nos diferentes países, através das histórias da educação infantil, da escola primária, da
escola secundária, de formação docente, da universidade, do ensino industrial e manufatureiro e da
escolarização de jovens e adultos.
No número que organizamos, justificávamos nossa proposta pelo propósito de repensar a
memória construída e celebrada na herança pedagógica, com o intuito de nos apropriarmos dela de
uma outra forma, ou seja, a partir dos desafios do presente. Entendíamos que a crise da instituição
escolar estaria, também, denunciando a nossa crise de compreensão dos processos de transmissão
e apropriação dos saberes, que passa pela escola, mas não exclusivamente por ela. Nosso
movimento foi o de operar o descentramento da instituição escolar para que, na tessitura que
cruza a cultura, a história e a pedagogia, pudéssemos realizar uma reflexão mais ampla dos
processos educativos e até surpreender, através dela, a instituição escolar em ângulos que nos
oferecessem uma perspectiva matizada dos seus problemas. Privilegiamos vozes não reconhecidas,
desqualificadas ou silenciadas pela nossa memória e pelas políticas educacionais: as crianças, as
mulheres, os índios, os negros, os imigrantes, os trabalhadores foram tratados como sujeitos de
fazeres, saberes e sentidos. Usamos relatos de viajantes, livros didáticos, romances, ao lado de
periódicos e livros de ciências humanas e sociais, e o que notamos numa visão de conjunto dos
textos produzidos é como certas questões se cruzaram na trama da constituição de diferentes
objetos.
Não foi por acaso que o feminismo, como movimento de educação política da mulher, que
buscava sua participação na esfera pública e ganhava consciência dos problemas sociais,
reapareceu num feminismo negro, quando se discutia estratégias educativas que criticavam a
exclusão de negros pobres em nossa sociedade. Ou, ainda, que diferentes estratégias de
organização e afirmação criassem associações culturais das quais faziam parte propostas de
mobilização dos jovens, o jornalismo militante e projetos de educação que reapareciam, quer se
tratasse da questão das mulheres, dos negros, dos índios ou dos imigrantes. Não foi, também, por
simples coincidência que, quando o foco foi dirigido para políticas públicas, também entraram em
cena os dispositivos pedagógicos, como os diários de classe, a confecção e o uso de materiais
didáticos, práticas de leitura e escrita e formação docente.
O que apareceu com o descentramento escolar no entremeio das discussões propostas pelos
artigos foi uma escola plural, assumida por organizações militantes, lideranças laicas e/ou
religiosas, ou mesmo associações de pais, que chamaram a si a tarefa de educar e escolarizar as
gerações mais jovens. Emergiram escolas com estratégias autoritárias de controle sobre a
população trabalhadora, com práticas pedagógicas violentas de despersonalização, como no caso
das escolas paulistas para menores infratores e órfãos, ou estratégias inovadoras como as escolas
da floresta. Os testemunhos reunidos, de viajantes, literatos, pensadores, educadores e
divulgadores da cultura, obrigaram-nos a interrogar as formas de classificação voltadas para nós
mesmos e para os outros como exercício de poder, de reconstrução de uma atmosfera mental, de
produção de representações de mundo e convenções autorizadas da qual partilharam (ou não)
Brasil e Portugal. Os artigos traziam novas informações, mas, sobretudo, novas perguntas. As
bibliografias funcionaram como bússolas para leituras de complementação e enriquecimento.
Os dois números especiais sobre história da educação sinalizam não só o vigor que ganhou o
Grupo de História da Educação dentro da ANPEd, mas também a virada na produção que já se
desenhava no final da década de 1990, e que passou a trabalhar com a perspectiva de que ação e
estrutura são realidades co-implicadas. Revelam que a geração da qual faço parte como
pesquisadora, ou pelo menos boa parte dela, renunciou à ilusão que reduzia os processos
educativos a processos escolares, ousou penetrar em territórios alheios, entendendo que a
compreensão histórica da educação e da pedagogia é fruto de esforços provenientes de diálogos
interdisciplinares que permanecem ainda mais fortes no desejo do que na prática. O que buscamos
hoje, assim penso, é menos um paradigma global de compreensão e mais a construção de
estratégias de pesquisa cuja fidelidade se reporta às características e necessidades da construção
dos nossos objetos, e não exclusivamente às teorias que abraçamos.
A historiografia da educação é produzida a partir de operações intelectuais e de convenções dos
grupos de pesquisadores. Sua tendência é ampliar-se, e de forma não-linear, entre avanços e
recuos, mas buscando o trabalho com os matizes, o que nos leva a transitar entre a necessidade de
construção de novas hipóteses, exige a abertura da discussão em várias frentes e a sua
sustentação, o que não significa imposição. Não pretendi fazer qualquer inventário da historiografia
da educação ou predizer seu futuro, mas, de um ponto de vista mais modesto e tático, perceber
algumas direções numa rede que não paramos de tecer, fios que puxei para não me perder no
labirinto da diversidade. Ao tentar alinhavar essas idéias lembrei-me o tempo todo das saborosas
aulas do mestre Leandro Konder, sobretudo quando insistia que o novo não se afirma sem a luta
contra o velho. Esse conflito de idéias entre as gerações, e dentro de uma mesma geração, é
inevitável na abertura das interpretações consolidadas e na criação de uma atmosfera intelectual
instituinte.
Referências
REVISTA BRASILEIRA DE EDUCAÇÃO, Campinas, SP, n. 15: 500 anos: imagens e vozes da educação,
set./ dez. 2000b.
4
Docente do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense e Professora Visitante da Faculdade de
Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro/São Gonçalo.
HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO E HISTÓRIA LOCAL
Libânia Nacif Xavier 5
Referências
CARDOSo, Luciana Felipe. Somos semeadores: transações identitárias na Escola Normal Sarah
Kubitschek. (Dissertação de Mestrado)-Faculdade de Educação, Universidade Federal do Rio de
Janeiro, Rio de Janeiro, 2007.
Fagundes, Pedro Ernesto. A reconstrução educacional: uma análise do Liceu de Humanidades de
Campos. (Dissertação de Mestrado)-Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro,
Campos dos Goytacazes, 2004.
MIGNOT, Ana Crhystina Venâncio. Baú de memórias, bastidores de histórias: o legado pioneiro de
Armanda Álvaro Alberto. Bragança Paulista: EDUSF, 2002.
Oliveira, Neli Ferreira de. A educação entre fios e rendas: escola fábrica de rendas Arp. (Dissertação
de Mestrado)-Faculdade de Educação, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2004.
Santos, Pablo Silva Machado Bispo dos. O Colégio Nova Friburgo da Fundação Getúlio Vargas:
mergulhando em sua memória institucional. (Dissertação de Mestrado)-Faculdade de Educação,
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2005.
Imagino que o convite para participar desta mesa-redonda deve ter como “suporte” o fato de eu
participar, junto com vários outros colegas, da organização dos Congressos Mineiros de História da
Educação, o último dos quais, o IV, teve lugar, muito recentemente, na Universidade Federal de Juiz
de Fora.
Se essa circunstância, a experiência de organizar congressos parecidos com este, me ajuda a
entender o convite, não me autoriza a responder sobre o que falar, já que não poderia apenas
“relatar a experiência”, e numa mesa em que eu me sabia acompanhado de duas colegas cuja
reflexão sobre o tema é notória.
Para recobrar um pouco o conforto, comecei a pensar nas questões que sempre estiveram
presentes na organização dos nossos diversos congressos e que pudessem ter algum interesse
aqui. Assim, dentre as minhas (pessoais) reduzidas opções, dentro de um tema tão vasto, além de
fazer um pequeno relato de experiência, resolvi aventurar-me, não sem receio, a uma breve
reflexão sobre a “questão” do regional na pesquisa em história da educação no Brasil. São, pois,
estes dois tópicos que apresento a seguir.
2ª Parte: O regional como unidade e como posição de análise: proposições para história
da educação
Vocês devem ter notado que eu nada disse sobre quem, especificamente, nos propusemos reunir
nos Congressos Mineiros de História da Educação. A este respeito, cabe perguntar: o que (e a
quem) um congresso como o nosso (e este aqui), de âmbito estadual, inclui? O que (e quem) ele
exclui? Esta tensão tem perpassado todas as nossas discussões em Minas Gerais, sendo, inclusive,
objeto de análise dos grupos de pesquisa no planejamento do próximo congresso, em 2009, na
cidade mineira de Montes Claros.
A resolução que demos a essa questão é, ainda, precária e não agrada a todos. Temos colocado,
como critério (de inclusão), que o Congresso Mineiro de Ensino e Pesquisa em História da Educação
reúne os pesquisadores mineiros (i.e. de instituições mineiras) que se dedicam ao estudo da
história da educação mineira; algumas vezes dirigimos o convite também àqueles que, não sendo
mineiros, se dedicam ao estudo da história da educação mineira. Assim, por este critério, excluímos
todos aqueles que, sendo mineiros, não se dedicam ao tema, o que, de antemão, exclui, por
exemplo, qualquer pesquisador que, porventura, se dedique ao estudo de algum tema anterior ao
século XVII, por exemplo, ou, o que é pior, ao estudo de outras “regiões” do país.
Estou tentando chamar a atenção para o fato de que, ao não aprofundar a questão regional, no
caso, o estado de Minas Gerais, a sua utilização como critério de classificação é muito precária e
produz efeitos, no mínimo, indesejáveis. E é a partir desta constatação, que organizei a minha
exposição que, como vocês vêem, tem a pretensão de buscar exorcizar os meus próprios
fantasmas, também!
Como todos sabemos, há séculos a idéia de região tem sido mobilizada para ajudar no
entendimento do país, seja no plano da ação política, econômica ou cultural, seja por meio do olhar
que, ao longo do século XX, as chamadas ciências humanas e sociais lançaram sobre o país com o
intuito de melhor conhecê-lo e de criar melhores condições para as mesmas ações políticas,
econômicas e sociais citadas anteriormente.
Assim, a ação política, pelo menos desde a independência, não pode ser entendida sem que
enfoquemos a importância que a idéia de regional adquire na retórica e no léxico daqueles que
elaboram projetos para o Brasil. A idéia de região é sempre e sempre mobilizada como elemento
produtor de identidade e, dessa forma, como componente de uma plataforma política que
continuamente produz as “outras regiões” como inimigos a serem combatidos ou cooptados. De
toda forma, o que estou querendo salientar é que não é possível entender os projetos de Brasil sem
que entendamos o lugar ocupado pela “região”, dentro desses mesmos projetos.
Do mesmo modo, as propostas de ações econômicas e sociais, sobretudo no terreno do
planejamento de Estado, sempre tiveram, como elemento norteador e/ou justificador, a idéia das
“diferentes regiões do país”.
Esse viés, presente nas práticas sociais, acabou por ser assumido sem grandes problemas,
também, por aqueles que se propuseram a entender criticamente o Brasil, fossem eles cientistas
sociais ou não. Há, é evidente, distâncias acentuadas na forma como os “pensadores sociais”
brasileiros trouxeram para dentro de suas obras, a questão da região como um modo de entender o
país. Mas não é possível deixar de perceber que, fosse na forma mais clássica de um Euclides da
Cunha – para quem o Brasil arcaico se articulava fortemente ao Brasil moderno, mesmo que pelo
avesso, já que denunciava que o país moderno estava de “costas” para o país arcaico – fosse na
forma não menos clássica e muito mais refinada de um Gilberto Freire, ou, ainda, na antropologia
militante de Darcy Ribeiro, em todas elas a idéia do fracionamento do país em distintas regiões é
um pressuposto analítico que as obras acabaram por demonstrar, reafirmar e reproduzir.
A idéia de regional parece ser mais forte – por isso mesmo, mais estudada e, por vezes,
combatida – no terreno da história e da crítica literárias. Neste campo, há, desde o nascimento da
crítica literária no século XIX, o esforço por produzir um cânone literário brasileiro, esforço este que
se volta, também, para o entendimento das distintas manifestações literárias nacionais, sendo um
dos traços distintivos da mesma o critério de sua ancoragem ou abrangência regionais. Como se
disse, é também neste campo de estudos que, há muitos anos, vem-se fazendo a crítica ao uso
excessivamente largo e a-histórico da idéia do regional, chegando mesmo à explicitação da idéia
de que a chamada literatura regional é um modo de classificação cultural inventado pela crítica
literária. Tal fato não estaria nem um pouco destituído de intencionalidades políticas, pelo contrário,
alimentaria, ele também, a elaboração e a defesa de projetos para o Brasil.
Em texto recente sobre o tema, as professoras Dilma Castelo Branco Diniz e Haydée Ribeiro
Coelho utilizam as reflexões de uma estudiosa da literatura norte-americana, Marta Banta, para
dizer que “os textos dos ‘homens brancos e urbanos’ são, freqüentemente, julgados como realistas,
enquanto outros, pertencentes a quem se encontra fora dos centros de poder, isto é, os habitantes
do meio oeste, os negros, os imigrantes e as mulheres, são classificados como regionalistas”
(BANTA, 1988 apud DINIZ; COELHO, 2005, p. 431).
Parece-me que tal crítica poderia ser dirigida a boa parte da história e da crítica literárias no
Brasil que, desde o final do século XIX, insiste em chamar a literatura que não se refere ou não é
produzida nos centros urbanos, notadamente Rio de Janeiro e São Paulo, de literatura regional. É
óbvio que não passa pela cabeça destes sujeitos a idéia de classificar os grandes centros urbanos,
também eles, como uma região!
No terreno da educação escolar, o debate se fortalece, sobretudo, a partir do Ato Adicional de
1834. Sendo por demais conhecidas as diversas formas como este “Ato” comparece à escrita da
história da educação brasileira, gostaria apenas de chamar a atenção para o fato de que ele nos
remete continuamente às possibilidade e limites de articular o regional e o nacional nos projetos de
educação para o Brasil.
Talvez a forma mais institucionalizada, mas, também, não menos problemática, de aparecimento
da questão do regional, no âmbito da educação escolar no Brasil, seja no Centro Brasileiro de
Pesquisas Educacionais e nos seus centros regionais articulados. Como nos mostram vários estudos
(XAVIER, 1999; FREITAS, 2001), ao institucionalizar o centro nacional na articulação de diversos
centros regionais, Anísio Teixeira trouxe para o centro da discussão, e da disputa, os projetos
político-educacionais que, há anos, eram acalentados e praticados em diversas unidades da
Federação. A dinâmica do centro nacional, a despeito dos esforços de Anísio, foi dada pela
dinâmica dos centros regionais, dinâmica esta que era estabelecida por variadas formas de
entender a posição do regional na produção de um projeto nacional de educação para o país. Nesse
caso, como nos mostra Marcos C. Freitas, talvez seja interessante lembrar que a noção de região foi
convertida em “fração de temporalidade”. Ou seja, a noção de regional acalentada pelos centros
regionais, ao termo, disseminou a idéia de que “mais do que em regiões” o país estava dividido em
“tempos históricos” diferentes. Isso tornou-se patente em dois projetos: o de realização dos mapas
culturais (verificadores do tempo histórico de cada lugar), e o de estudo das cidades-laboratório
(exemplares de lugares-regiões “congelados” no tempo) (FREITAS, 2001).
Esses vários modos de mobilizar, com maior ou menor tranqüilidade, a noção de região como
forma de mobilização político-cultural e/ou como forma de entendimento do país, aqui apontados,
são apenas uma amostra de como a questão aparece nos mais diversos domínios da vida social
brasileira, inclusive na educação escolar. Em quase todos eles, há o pressuposto de que a região
existe, a despeito da enorme diversidade de entendimento do que seja isto e, portanto, de sua
definição.
Foi, sem dúvida, Gilberto Freire quem deu ao regionalismo o estatuto de problema social,
acadêmico e político por excelência. O “movimento regionalista”, por ele organizado, buscava
mostrar o entrelaçamento dessas várias dimensões da vida social, na dinâmica histórica de
constituição do Brasil. Buscava, no limite, mostrar os fundamentos não apenas histórico-
geográficos, político-culturais e socioeconômicos da questão regional, mas, também, identificar a
sua ancoragem ontológica, ao chamar a atenção para a importância da experiência regional na
própria constituição do humano. Afirmava, por exemplo, que nenhum ser humano realiza a sua
humanidade na generalidade do universal, mas sim na particularidade de sua experiência numa
região determinada. Punha, assim, de ponta-cabeça, as perspectivas que advogavam o limite
imposto pela experiência particular à realização da vocação universalista do sujeito humano, e
fundava um plano de ação que deveria atravessar e articular todos os domínios da vida societária
(FREIRE, 1947). Mas, também, ele partia do suposto da existência da região, e de que a dificuldade
estava em defini-la e aquilatar a sua importância na dinâmica das sociedades, notadamente da
sociedade brasileira. É justamente essa certeza que quero aqui problematizar.
Se entendermos que a idéia de região faz parte de estratégias de mobilização política, de
homogeneização cultural, de produção de identidades e, por fim, de classificação social, é preciso
que nós, pesquisadores, nos aproximemos com mais cautela da mesma. Ou, dizendo de outra
forma, quando todo o léxico mobilizado para adjetivar (e, geralmente, contrapor) as distintas
“regiões”, tais como arcaicas/modernas, rurais/urbanas, centrais/periféricas, atrasadas/adiantadas,
dentre outras, é, ele mesmo, objeto das nossas mais apaixonadas discussões, então, o substantivo
que elas adjetivam não pode ficar de fora de nossa inquirição.
Assim, entendo que talvez devêssemos lidar com a noção de região, não como uma realidade a
qual vamos estudar, mas como o processo e o resultado de operações políticas e, por que não,
acadêmicas, que fundam essa mesma realidade e condicionam o modo de seu entendimento. Ou
seja, a região é, ela também, uma representação e uma prática cultural por meio das quais (e nas
quais) determinados fenômenos e posições são produzidos, os sujeitos são identificados e ganham
visibilidade e as nossas instituições são criadas e mobilizadas para a ação social e política.
Ou seja, a região é, de certo modo, uma invenção.
Região como unidade de análise e como posição epistemológica
As reflexões até aqui expostas não advogam, no entanto, a impossibilidade do uso da noção de
região nas pesquisas em história da educação. Mesmo porque, a história da educação é, na maioria
das vezes, um inventário de representações sobre pessoas, tempos e instituições. Antes, defendem
o uso crítico da mesma. Nessa perspectiva, penso que, como vários colegas têm feito, a região
pode constituir-se numa boa unidade de análise em história da educação. Entretanto, talvez seja
preciso perguntar mais sobre qual é o sentido de mobilizar a noção de região para estudar cada
objeto em particular, ou seja, seria necessário perguntar sempre e sempre: o que torna possível
falar de uma história regional de um objeto particular, seja ele uma instituição, uma disciplina
escolar, um movimento social ou uma política educacional?
Estou advogando que, em última instância, o que torna possível a realização de uma história
regional é a maneira pela qual eu produzo teórica e metodologicamente o meu objeto de pesquisa.
Mas, também aqui, como em todo trabalho historiográfico, o regional será o resultado de minhas
operações, e a pertinência de sua utilização, seja como substantivo seja como adjetivo, deve ser
demonstrada.
Desse modo, não seria porque estudo Minas Gerais, ou porque estudo uma de suas muitas
“regiões” ou, sobretudo, porque estudo uma de suas inúmeras cidades do “interior” que eu estaria
fazendo história regional, aqui entendida como história de um objeto numa determinada região. Ou
seja, apenas os critérios geográfico, político ou, mesmo, cultural, se é que eles existem, não
justificariam, per se, o meu recorte. O objeto, a sua produção teórico-metodológica, as suas
temporalidades e dinâmicas próprias, as suas relações com os demais fenômenos sociais e, por
fim, as fontes mobilizadas deveriam comparecer ao tribunal da história, como diria E. P. Thompson,
para produzir a justificativa da possibilidade de uma tal história regional. Como vocês vêem,
também aqui o regional é o produto da operação historiográfica, e não o seu pressuposto.
Se é possível, hoje, entender o regional como uma unidade de análise, não me parece fácil, à
primeira vista, articulá-lo a noções, também hoje, bastante utilizadas como circularidade cultural,
mediadores culturais, difusão e distinções culturais, dentre outras, pois as mesmas tornam difícil,
mas não impossível, evidentemente, pensar numa especificidade regional de um determinado
fenômeno educativo-escolar.
Por essa razão, mas não apenas, eu gostaria de aludir a uma outra possibilidade de utilização da
noção de regional na história da educação: aquela que entenderia a região como uma posição de
análise e, portanto, como um lugar epistemológico. Já são bastante conhecidas as reflexões de
Jacques Revel e de um grupo de pesquisadores por ele reunido para debater as relações entre as
abordagens micro e macrossociais, reflexões estas publicadas no Brasil, no livro Jogos de escala
(REVEL, 1998). Na introdução, Revel defende que as distintas abordagens não são excludentes e,
muito menos, que existiria uma superior às outras. Pelo contrário, tais perspectivas deveriam
funcionar como um jogo de escalas em relação ao fenômeno estudado, podendo inclusive ser – as
escalas – conjugadas num mesmo esforço analítico.
Penso, desse modo, que os planos local, regional, nacional e internacional, dentre outros,
poderiam, também, ser entendidos como posições, como escala analítica a ser produzida,
justificada e utilizada pelo pesquisador em história da educação. Assim, o regional seria uma
posição, às vezes com estatuto próprio, às vezes funcionando como mediadora em relação às
outras posições, no desenvolvimento de nossos projetos de investigação. Nessa perspectiva, o
regional seria uma das maneiras pelas quais eu busco entender e dar inteligibilidade a objetos que,
em outras escalas e de acordo com minhas pretensões (ou possibilidades), não dariam o resultado
que espero alcançar. A pretensão não seria de circunscrever um objeto a uma região e mostrar a
forma como ele se realiza ali, em sua particularidade, mas qual inteligibilidade é possível produzir
para aquele fenômeno quando me disponho a “observá-lo” de determinada posição, ou escala, em
sua universalidade.
Também aqui, o regional, ou qualquer outra posição, é processo e produto, é método e resultado
de operações epistemológicas postas em ação pelo pesquisador. Também aqui, não podemos nos
furtar de justificar a escolha feita e qual o sentido emprestado à noção de regional. Também aqui,
devemos explicitar as implicações do uso da noção e, sobretudo, os artifícios pelos quais estamos
“inventando” a posição a que estamos chamando de regional.
Para terminar, gostaria de falar que as duas utilizações das noções de regional, aqui expostas,
não são as únicas possíveis e, muito menos, legítimas. Do mesmo modo, não me parece sensato
advogar que os usos das noções de regional como unidade de análise e como posição de análise
sejam excludentes e não possam ser articulados. Pelo contrário, a maestria estaria justamente em
conseguir articulá-los e conseguir mostrar, talvez como quisesse Gilberto Freire, que a
universalidade somente se realiza na particularidade e que o estudo desta, por sua vez, é a única
forma de compreendermos a universalidade da experiência humana. Não seria este, justamente,
um dos maiores desafios da história da educação?
Referências
DINIZ, Dilma Castelo Branco; COELHO, Haydée Ribeiro. Regionalismo. In: FIGUEIREDO, Eurídice.
Conceitos de literatura e cultura. Juiz de Fora: EdUFJF; Niterói: EdUFF, 2005. p. 415-434.
FREITAS, Marcos C. de. História, antropologia e pesquisa educacional. São Paulo: Cortez, 2001.
GOMES, Ângela M. de Castro. Regionalismo e centralização política. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
1980.
REVEL, Jacques. Jogos de escala: a experiência da microanálise. Rio de Janeiro: FGV, 1998.
XAVIER, Libânia Nacif. O Brasil como laboratório. Brangança Paulista: EDUSF, 1999.
6
O formato final e algumas das idéias expostas neste texto devem muito às sugestões de Marcos Cezar de Freitas e de José G.
Gondra, dois amigos com quem sempre aprendo coisas boas e cujas brilhantes idéias, infelizmente, nem sempre consigo traduzir
com a devida clareza no papel. A eles o meu agradecimento especial.
7
Professor da Universidade Federal de Minas Gerais.
PENSE GLOBALMENTE, PESQUISE LOCALMENTE?8
EM BUSCA DE UMA MEDIAÇÃO PARA A ESCRITA
DA HISTORIA DA EDUCAÇÃO9
Maria Helena Camara Bastos 10
Introdução
Reckziegel (1999, p. 15), ao analisar o aumento dos estudos sobre história regional e o
crescimento das pesquisas de caráter monográfico, que decorrem do “esgotamento das
macroabordagens” identificadas a projetos iluminista-universais, ressalta que esse avanço resulta
dos estudos de história cultural, em uma perspectiva antropológico-cultural.
Burke (2006, p. 103), ao falar sobre hibridismo cultural, nos dá pistas para compreender as
questões de estudos do regional/local. Ao analisar a “diglossia cultural, como uma combinação de
cultura global com culturas locais”, nos permite expandir a idéia para a compreensão da história
regional como uma combinação de história global com histórias locais, isto é, como o processo de
contextualização local da forma global. O processo de homogeneização de uma história global, que
reduz e, muitas vezes, elimina as diversidades, leva pesquisadores a exaltar o narcisismo das
pequenas diferenças, demarcando fronteiras, que, na realidade, se encontram em toda parte.
Analisar a questão do regional leva necessariamente à compreensão de espaço. Santos (1977, p.
41) considera que o
espaço total e o espaço local são aspectos de uma mesma realidade – a realidade total – à imagem do universal e
de seus particulares. A sociedade global e o espaço global se transformam através do tempo, num movimento que,
embora interessando igualmente às diversas facções da sociedade e do espaço, é o resultado da interação entre
sociedade global e espaço global e de suas diversas funções. (apud RECKZIEGEL, 1999, p.17)
É importante ressaltar que não estou tomando espaço no sentido geográfico do termo, mas
como espaço vivido, como um sistema de relações, como referência identitária.
A perspectiva regional visa demarcar diferenças e/ou semelhanças com uma “narrativa da
nação” (HALL, 1997, p. 56), inventando uma tradição (HOBSBAWM; RANGER, 1997) para cada
realidade. Funciona como dispositivo discursivo para marcar particularismos e/ou identificações
globais. No entanto, devemos ter cuidado tanto com as visões macro como micro da realidade,
pois, como nos alerta Bourdieu e Wacquant (1998, p. 17), “o imperialismo cultural repousa no poder
de universalizar os particularismos associados a uma tradição histórica singular, tornando-os
irreconhecíveis como tais”. Essa “universalização aparente”, “dificulta a tarefa de teorização de
uma sociedade histórica particular, muitas vezes constituída como modelo e medida de todas as
coisas” (BOURDIEU; WACQUANT, 1998, p. 18).
Caruso (2003, p. 1) analisa a circulação dos saberes escolares na perspectiva “da história da
internacionalização do saber pedagógico e dos modelos educativos, com vistas a oficialização de
uma ordem escolar e de saberes pedagógicos modernos”. Essa perspectiva leva a tomar o estado
liberal como um “estado homogêneo universal”. No entanto, trabalhando no campo das idéias, é
importante analisar a “produção de diferenças, a partir do processo de recepção, interpretação e
rearticulação de idéias e instituições”. Isto é, “a tensão entre difusão generalizante do saber
pedagógico e sua apropriação de ordem específica e cultural”. Assim, os estudos locais são fonte
imprescindível para a análise das apropriações singulares.
Na perspectiva da história cultural, devemos atentar para os perigos de uma busca de unidade
ou consenso cultural (BURKE, 2000, p. 237), que desvia, muitas vezes, o pesquisador, das
contradições sociais e culturais de cada tempo e espaço. O importante é problematizar a tensão
entre unidade e variedade, local e global, diversidade e particularismos, fragmentação e
homogeneidade, singular e plural. Em síntese, devemos abordar a cultura e a educação, em
diferentes perspectivas temporais e espaciais, de forma polifônica, isto é, “têm de conter em si
mesmas vários pontos de vista” (BURKE, 2000, p. 267).
Para a história da educação, os estudos na perspectiva de uma história local intentam pontuar a
diversidade de apropriações dos discursos e das práticas educativas e escolares, de acordo com as
particularidades de tempo e espaço e as implicações econômico-socioculturais de cada lócus
pesquisado. Isto é, contribui para problematizar o conceito de cultura escolar (JULIA, 2001), em
uma abordagem plural (CERTEAU, 1995), e das identidades culturais, especialmente, nos estudos
sobre etnia e raças (HALL, 1997).
Capistrano de Abreu (1853-1927) já afirmava que não era possível uma história geral do Brasil,
sem antes estarem devidamente estudadas as questões regionais, pois os estudos particularizados,
embasados “na segurança dos dados”, é que permitiriam uma compreensão da história. José
Honório Rodrigues (1969, p. 197), ao incluir a história da educação no gênero “história cultural,
intelectual e das idéias”, alertava que, até então, a história da educação no Brasil não havia sido
escrita. O que havia sido publicado eram estudos muito gerais, que careciam de pesquisa
documental, sem referência às fontes e, muitas vezes, eram mera compilação dos fatos. Um
exemplo esclarecedor poderia ser a obra de Primitivo Moacyr, cujos três primeiros volumes
abrangem a “Instrução no Império”, em uma perspectiva geral, e os outros três enfocam a
instrução nas províncias, em uma perspectiva regional.
Muitas das análises da produção historiográfica na área têm privilegiado uma abordagem em
dimensão nacional, geralmente sem realizar recortes para identificar os estudos que abarquem
universos educacionais e escolares regionais/locais. O avanço da produção em vários estados
brasileiros, a partir do fortalecimento da pesquisa, com os programas de pós-graduação,
especialmente de dissertações de mestrado e teses de doutorado, evidencia a necessidade de
analisar essa produção a partir das “diversidades/singularidades regionais” para melhor
compreender “a leitura, a interpretação e o uso da história nas escritas recentes da história da
educação” (BARREIRA, 1995, p. 6). Cada região, cada estado apresenta particularidades quanto aos
objetos de estudo, quanto à história, às interrogações, às predileções de pesquisa. O conhecimento
dessas singularidades é importante para nos interrogarmos sobre a história da produção acadêmica
em história da educação. No entanto, o desafio que temos é procurar aproximar as abordagens
globalizantes com as particularidades locais; isto é, como Geertz (1986, p. 65) alerta, sobre os usos
que fazemos da diversidade, pois a “história, tanto dos povos em separado, como dos povos em
seu conjunto e inclusive o de cada pessoa individualmente, tem sido a história das mudanças de
mentalidades” (GEERTZ, 1986, p. 80).
Tomando como premissa que a história regional é também uma perspectiva de análise, em
termos culturais, simbólicos e semióticos, Noronha (1999, p. 26-27) recomenda alguns cuidados do
pesquisador que adentrar nessa abordagem:
a passagem de fenômenos e de uma história social de caráter macrossociológico não pode ser feita a partir
de princípios gerais de racionalidade; em decorrência, variáveis exógenas sofrem detrimento em relação às
variáveis endógenas;
a região se constitui à medida que se alcança um nível denso de entrelaçamento entre laços socioculturais
e laços físico-geográficos, que são seu suporte primeiro;
a contribuição do procedimento é o da complexificação da passagem de uma história macrossocial para o
de uma história microssocial;
a abordagem pela via do regional e do local complexificam as visões do nacional e do global, servindo de
verdadeiras formulações no âmbito da linguagem e da interpretação.
Dr. Elomar C. Tambara, e o HISALIS – História da alfabetização, leitura, escrita e dos livros
escolares –, sob a coordenação da Dra. Eliane T. Peres. Em São Leopoldo, o Programa de Pós-
13
A reflexão sobre quem produz em história da educação no Rio Grande do Sul também permite
compreender a circulação dessa produção. Identificar quem produz e orienta na área possibilita
uma análise geracional e uma análise da modelagem teórico-metodológica da produção de
pesquisa. Ensaiando a elaboração de uma árvore genealógica dos pesquisadores na área,
poderíamos afirmar que a primeira geração, cuja formação se processou no início dos anos 1980, é
integrada pelos professores: Lúcio Kreutz e Guacira Louro, que desenvolveram estudos vinculados
às temáticas de gênero, etnias, raça. O segundo contingente está constituído por aqueles que
tiveram sua formação concluída na primeira metade da década de 1990, no qual se destacam:
Elomar Callegaro Tambara, Flávia Obino Werle, Jorge Cunha, Maria Helena Camara Bastos. O
terceiro grupo é constituído por aqueles que concluíram o doutorado nos anos finais da década de
1990 e início dos anos 2000, muitos deles orientados por pesquisadores da primeira e segunda
geração, e que já orientam dissertações e teses em suas instituições na área: Maria Stephanou,
Eliane Peres (dissertação orientada por Guacira Louro), Beatriz Fischer, Giana Lange do Amaral
(dissertação orientada por Elomar Tambara, tese orientada por Maria Helena Camara Bastos), Elisa
Vanti (tese orientada por Maria Helena Camara Bastos).
Nos eventos da ASPHE, há participação das diversas instituições de ensino superior do Estado, 16
O recorte temporal apresenta uma centralidade no século XX (75%), sendo ainda limitado o
interesse por pesquisas que abarquem outros períodos da história da educação universal e
brasileira. Esse fato expressa uma tendência da produção da pesquisa em história da educação no
Brasil (GONDRA, 2005).
Quanto às fontes utilizadas, constata-se que a produção analisada se apóia em farta
documentação primária, na perspectiva de abarcar distintas e variadas fontes de pesquisa. A idéia
que perpassa esses estudos atrela-se à posição defendida por Le Goff (1993, p. 28-29) de que há
uma “ampliação do campo do documento, substituindo a noção fundada essencialmente nos
textos, nos documentos escritos, por uma história baseada numa multiplicidade de documentos:
escritos de todos os tipos, documentos figurados, produtos de escavações arqueológicas,
documentos orais, etc”. Há um predomínio de fontes impressas em relação às fontes orais. No
conjunto dos impressos, os documentos (leis, decretos, regulamentos, relatórios, projetos,
estatísticas, questionários etc.) e os periódicos (jornais, revistas, boletins, almanaques etc.) têm a
preferência dos pesquisadores em relação às fontes classificadas como escritas ordinárias/escritas
pessoais (diários, cartas, autobiografias etc.), imagéticas (fotos, cartões postais). No entanto,
isoladamente, os livros e manuais escolares têm sido também objetos de estudo privilegiado pelos
pesquisadores.
O enfoque teórico é bastante diversificado e abrangente, mas reflete os avanços que têm sido
desenvolvidos na área e na pesquisa histórica. De maneira geral, é possível afirmar que os temas
17
se direcionam para a nova história, com abordagens na perspectiva de uma história cultural. Há
18
uma interlocução com a produção recente da área de história da educação. Por exemplo, a
presença significativa de referências à produção do professor Antonio Sampaio Nóvoa, da
Universidade de Lisboa (Portugal). Também se destacam os referenciais teóricos embasados em
Michel Foucault, Pierre Bourdieu, Paul Thompson, Roger Chartier e outros. A perspectiva
foucaultiana está muito presente nas abordagens que enfatizam as idéias de formar, conformar,
modelar homens/ mulheres/ trabalhadores para a aceitação das relações e das condições
capitalistas de trabalho, e os espaços de resistência e emancipação/transformação, as
continuidades/singularidades. Cabe ainda destacar o expressivo diálogo dos pesquisadores com
19
seus pares da França, Espanha, Portugal, Argentina e pesquisadores locais e nacionais, com
aproximações temáticas e teórico-metodológicas, possibilitando avançar em uma perspectiva de
história comparada da educação. A presença de autores nacionais (Nunes; Bosi; Freire; Carvalho;
Nagle e outros) e, especialmente, do Rio Grande do Sul (Tambara; Bastos; Peres; Werle; Louro e
outros), como referência aos trabalhos desenvolvidos nos eventos da ASPHE, permite analisar o
regime de apropriação de referenciais teórico-metodológicos e tendências de pesquisas. Muitos dos
referenciais adotados estão diretamente vinculados à área de história da educação, como
pesquisadores e orientadores de dissertações e teses, mas também há um frutífero diálogo com
outras áreas do conhecimento.
Quanto ao recorte temporal, constata-se uma centralidade dos artigos publicados no século XIX
(30%) e XX (64%), sendo ainda limitado o interesse por pesquisas que abarquem outros períodos
da história da educação universal e brasileira. São poucos os pesquisadores da área de história da
educação que pesquisam o período do Brasil colônia. Poderíamos destacar a questão de acesso aos
documentos, mas tal premissa não parece verdadeira, tendo em vista os excelentes estudos
produzidos pelos historiadores de ofício.
Quanto à temática, constata-se uma maior incidência de textos que problematizam a pesquisa
na área: aspectos metodológicos, fontes variadas, questões de historiografia. Também têm uma
presença significativa estudos sobre a formação e profissão docente, imprensa de ensino e
educação; livros e práticas de leitura; de gênero, etnia, raça, imigração. A esses temas, segue-se
uma pluralidade de focos de pesquisa, que evidenciam um olhar multifacetado, confirmado pela
variedade de palavras-chave adotadas. Ragazzini (1999, p. 34) considera que se
trata de perda de um centro temático unificante e definido, seja da clareza ainda insuficiente dos quadros
interpretativos. O problema da variedade das pesquisas e da possível dispersão temática é certamente o mais
aparente, mas, na realidade, o menos relevante. O problema mais importante é aquele da necessidade de uma
historiografia e de uma teoria histórica diferenciada da educação como variável social.
Cabe, ainda, assinalar a preocupação recente com a história do ensino de história da educação,
tema do Encontro da ASPHE, em 2005, que resultou em um dossiê temático publicado no número
19 (abr. 2006). No entanto, encontram-se lacunas importantes: ensino rural e/ou agrícola; imprensa
de alunos; agremiações discentes e docentes; festas escolares; clubes escolares; estatísticas
escolares; manuais/livros didáticos das disciplinas do currículo, história da adolescência, história
dos processos educativos de outros setores da sociedade etc.
Pode-se afirmar que os artigos publicados na revista da ASPHE têm colaborado
significativamente para as discussões historiográficas, seja em relação a novas temáticas e objetos
de pesquisa, seja em relação a fontes e categorias de análise. Os estudos têm, por um lado,
recolocado em pauta algumas antigas questões da pesquisa histórica (relação entre história e
memória, por exemplo) e, por outro, problematizado e colaborado na construção dos novos objetos
de interesse crescente da história da educação (currículo, profissão docente, livros e manuais
escolares, leitura etc.) (PERES; BASTOS, 2001). Por exemplo, Eliane Peres (2005) destaca a
contribuição do periódico para o fomento da produção e circulação da pesquisa no campo da
história da alfabetização, campo ainda timidamente desenvolvido no Brasil.
Nesse sentido, vale ressaltar que a revista História da Educação tem servido como um veículo
singular de divulgação de estudos no campo historiográfico educacional e, também, uma fonte
importante de consulta dos pesquisadores da área. Em função desse trabalho, a revista foi avaliada
pelo Qualis da CAPES, em 2002, com conceito A, e classificada como sendo de âmbito nacional. Em
2003, a revista obteve conceito B, mantendo a classificação de nacional. Em 2007, novamente foi
avaliada como A nacional.
Finalizando
Os grupos de pesquisadores, a ASPHE e a revista História da Educação têm sido espaços
privilegiados de socialização das pesquisas, de dinamização da produção historiográfica e de
importantes debates no campo da investigação histórica. Espaços construídos coletivamente com a
participação de todos os associados, o que confere uma significação histórica singular.
Ao longo desse período, o grupo consolidou-se; projetou-se regional, nacional e
internacionalmente; ampliou suas propostas; constituiu-se como espaço de acolhimento para os
iniciantes – “aprendizes de feiticeiro” – e como espaço de formação profissional. Na consolidação
dessa trajetória, os programas de pós-graduação em educação e em história também têm
significativa contribuição, constituindo grupos de pesquisas na área e orientando dissertações e
teses.
No painel “Asphe: o que temos sido e o que queremos ser”, realizado no XI Encontro (2005), as
manifestações dos associados foram no sentido de: retomar a promoção de mini-cursos como parte
da programação dos próximos eventos; procurar avançar na integração dos professores de ensino
de história da educação da IES do estado com a associação; buscar um diálogo com pesquisadores
da América Latina; estabelecer diálogo com o grupo de trabalho da Anpuh/RS que trata do ensino
de história; manter um comitê científico para seleção de trabalhos para os encontros; buscar apoio
de agências financiadoras para a promoção dos encontros; procurar agregar, cada vez mais, todos
os que trabalham com história da educação no Rio Grande do Sul (por exemplo, integrar as Escolas
Técnicas e os Centros Federais de Educação Tecnológica, já que desenvolvem atividades
relacionadas com a história da educação profissional); propor um projeto de levantamento de
fontes; manifestar-se, politicamente, diante da redução do número de horas da disciplina história
da educação; promover uma ação para constituir um quadro de associados mais permanente; criar
e manter, no site, um banco de dados sobre os trabalhos relacionados com história da educação;
manifestar-se pela preservação do patrimônio educacional e pela preservação dos arquivos do Rio
Grande do Sul (Ata nº11, de 29 de agosto de 2005).
Para finalizar, é importante problematizar: em que medida os estudos locais, regionais,
particulares têm permitido avançar a compreensão da educação no Brasil e contribuído para a
solução de seus problemas crônicos? Qual a nossa participação e contribuição hoje, como
produtores de conhecimento sobre a educação brasileira, para a formulação de políticas
educacionais e ações escolares? Mesmo considerando que nossas questões partem do presente,
que ressonância têm tido nossas “respostas” para a mudança do quadro de referência? Ou, em que
medida contribuem para exaltar “narcisismos” regionais, idealizando-os, reificando e legitimando
processos de hegemonia?
Há uma sensação de que estamos fazendo uma “arqueologia” da nossa história da educação
para (re)escrevê-la e para conservá-la tão-somente (repertório de fontes, dicionários). Viñao Frago
(2003) sinaliza para a necessidade de “mostrar o passado nos debates, questões e problemas
educativos de seu tempo; não só fazer a genealogia do presente, mas também desvelar os usos
incorretos do passado, e, sobretudo, as apropriações, mitificações e manipulações do mesmo”.
Apropriando-me da classificação que Viñao Frago (2003) faz das audiências possíveis para a
produção em história da educação – audiência oficial, audiência social, audiência profissional
vinculada à formação de professores, audiência profissional da comunidade científica –, considero
que somente na última temos evidenciado um enorme avanço nos últimos 20 anos. Isto é, temos
falado para nós mesmos e, para não ser muito dura, em alguns outros fóruns de circulação do
conhecimento (área de literatura e leitura, da história cultural, história oral). Tambara (1998, p. 81)
22
campo de investigação, a partir dos anos 1970, mas precisamos avançar nossas perspectivas de
circulação do conhecimento, como condição sine qua non para o fortalecimento da disciplina e para
a conquista de novos espaços de produção de pesquisa.
Para Nóvoa (1997, p. 7), diante da especialização do conhecimento, é necessária a compreensão
global dos problemas, não em direção a um sentido único, mas, sobretudo, na perspectiva de
reconstrução de múltiplos sentidos a partir das histórias de que os diferentes grupos são
portadores/construtores. Assim, devemos tentar superar as polarizações entre local/nacional,
individual/coletivo, micro/macro, singular/plural, buscando circular entre os diferentes eixos, com
análises mais refinadas, em um esforço de comparação, que partam das singularidades históricas
de cada realidade. Para Le Goff (2007, p. 112),
é por meio da comparação dos fenômenos e dos sistemas históricos que o historiador pode aproximar, ao mesmo
tempo, as generalidades que formam a ossatura da história e reconhecer a especificidade, a originalidade de cada
época, de cada sociedade, de cada cultura.
Uma perspectiva que avance da visão dualista poderia ser a busca de novas combinações de
espaço-tempo, que atenuem a tensão entre o global e o local, sem levar a uma fascinação com as
diferenças e com os enclaves, isto é, nem o triunfo do global nem a persistência do local (HALL,
1997, p. 80, 106).
Referências
_________. História da educação do Rio Grande do Sul: estado da arte. In: BASTOS, M. H. C;
TAMBARA, E. C.; KREUTZ, L. (Org.). Histórias e memórias da educação do Rio Grande do Sul.
Pelotas: Publicações Seiva, 2002.
DIEHL, Astor. Introdução. História: debates e tendências, Passo Fundo, v. 1, n. 1, p. 11-13, jun. 1999.
DOSSE, François. A história em migalhas: dos annales à nova história cultural. Bauru: EDUSC, 2003.
FARIA FILHO, Luciano M. de (Org.). Pensadores sociais e história da educação. Belo Horizonte:
Autêntica, 2005.
GEERTZ, Clifford. Conocimiento local: ensayos sobre la interpretación de las culturas. Barcelona:
Paidós, 1994.
GONDRA, José G. Morfologia histórica da educação no espaço lusófono – O Brasil como ponto de
observação. In: GATTI, Décio; PINTASSILGO, Joaquim. Percursos e desafios do ensino e da pesquisa
em História da Educação. Uberlândia: EDUFU, 2007.
_________. Paul-Michel Foucault: uma caixa de ferramentas para a história da educação. In: FARIA
FILHO, Luciano M. de (Org.). Pensadores sociais e história da educação. Belo Horizonte: Autêntica,
2005a. p. 285-309.
_________. (Org.). Pesquisa em história da educação no Brasil. Rio de Janeiro: DP&A, 2005b.
HALL, Stuart. Identidades culturais na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 1997.
HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO, Pelotas, v. 1, n.1, abr. 1997 - v.11, n. 23, 2007.
HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence (Org.). A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1997.
LE GOFF, Jacques. A história nova. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
_________. Uma vida para a história: conversações com Marc Heurgon. São Paulo: Ed.UNESP, 2007.
JULIA, Dominique. A cultura escolar como objeto histórico. Revista Brasileira de História da
Educação, Pelotas, n. 1, p. 9-43, jan./ jun. 2001.
MIGNOT, A. C. V.; BASTOS, M. H. C.; CUNHA, M. T. S. (Org.). Refúgios do eu: educação, história,
escrita autobiográfica. Florianópolis: Mulheres, 2000.
NORONHA, Márcio Pizarro. Região, identificações culturais. História: debates e tendências, Passo
Fundo, v. 1, n. 1, p. 23-38, jun. 1999.
NÓVOA, António. História da Educação. Lisboa: Universidade de Lisboa, 1994.
NUNES, Clarice; CARVALHO, Marta C. Historiografia da Educação e fontes. Cadernos ANPED, Porto
Alegre, n. 5, p. 7-64, 1993.
PERES, Eliane. A Revista História da Educação e a produção no campo da história da alfabetização.
In: ENCONTRO SUL-RIO-GRANDENSE DE PESQUISADORES EM HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO, 11., Pelotas.
Anais... Pelotas: Seivas Publicações: FAPERGS, 2005. CD-Rom.
PERES, Eliane T.; BASTOS, M. H. C. A Associação Sul-Rio-grandense de Pesquisadores em História da
Educação – ASPHE: a trajetória de uma rede de pesquisadores. Educação em Revista, Belo
Horizonte, n. 34, p. 221-227, dez. 2001.
RAGAZZINI, Dario. Os estudos histórico-educativos e a história da educação. In: SANFELICE, J.;
SAVIANI, D.; LOMBARDI, J. (Org.). História da educação: perspectivas de um intercâmbio
internacional. São Paulo: Autores Associados: HISTEDBR, 1999.
RECKZIEGEL, Ana Luiza Setti. História regional: dimensões teórico-conceituais. História: debates e
tendências, Passo Fundo, v. 1, n. 1, p.15-22, jun. 1999.
RODRIGUES, José Honório. Teoria da história do Brasil. São Paulo: Ed. Nacional, 1969.
VIÑAO FRAGO, Antonio. La Historia de la Educación ante el siglo XXI: tensiones, retos y audiencia:
etnohistoria de la escuela. XII Coloquio Nacional de Historia de la Educación. Burgos, Universidad
de Burgos y Sociedad Española de Historia de la Educación, 2003. p. 1063-1074.
8
Trocadilho a partir do título da entrevista com Bill McKibben, “Pense globalmente, compre localmente” (Revista Época, p. 72-73, 23
abr. 2007).
9
Este estudo integra o projeto de pesquisa “Educação Brasileira e Cultura Escolar: análise de discursos e práticas educativas
(séculos XIX e XX)” (CNPq/PUCRS).
10
Professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Presidente da Associação Sul-Rio-Grandense de Pesquisadores
em História da Educação.
11
Sobre a produção dos programas de pós-graduação na região sul, ver Bastos; Bencostta; Cunha (2004); Gondra (2005).
12
O CEIHE desenvolve os seguintes projetos de pesquisa: Histórias da educação: processos escolares e profissão docente no Rio
Grande do Sul (séculos XIX e XX); Imprensa estudantil em Pelotas: produção e circulação de jornais de alunos de escolas
pelotenses; Análise da gênese, constituição e metamorfose de uma escola de formação de professores: a história da Fae – UFPel;
Sobre a ordem imperial: educação e cultura em Pelotas no século XIX (1845-1889); Cartilhas escolares: ideários, práticas
pedagógicas e editoriais. Construção de repertórios analíticos e de conhecimento sobre a história da alfabetização e das cartilhas
(MG/RS – 1870-1980); Repertório de livros escolares da escola elementar no Brasil no século XIX.
13
Sobre a produção do HISALES, ver Cadernos HISALES, n. 1, jul./ dez. 2006.
14
Versão revista e ampliada do texto publicado por PERES, Eliane T.; BASTOS, M.H.C. A Associação Sul-Rio-grandense de
Pesquisadores em História da Educação – ASPHE: a trajetória de uma rede de pesquisadores (2001).
15
Os anais publicados encontram-se nas referências bibliográficas desse texto.
16
UFRGS (Universidade do Rio Grande do Sul); UNISINOS (Universidade do Vale dos Sinos); PUCRS (Pontifícia Universidade Católica);
ULBRA (Universidade Luterana do Brasil); UFPEL (Universidade Federal de Pelotas); UFSM (Universidade Federal de Santa Maria);
FURG (Fundação Universidade do Rio Grande), UPF (Universidade de Passo Fundo); UNIJUÍ (Universidade do Noroeste do Estado);
FAPA (Faculdades Porto-Alegrenses); UNICRUZ (Universidade de Cruz Alta); UCPEL (Universidade Católica de Pelotas); URI
(Universidade Regional Integrada), UNILASALLE (Centro Universitário La Salle), UNIFRA (Centro Universitário Franciscano), URCAMP
(Universidade da Campanha), UNISC (Universidade de Santa Cruz do Sul).
17
A obra Pensadores Sociais e História da Educação (FARIA FILHO, 2005) evidencia a necessidade de análises que enfoquem de que
forma determinados autores e/ou “os clássicos” das Ciências Sociais têm sido mobilizados pelos pesquisadores da história da
educação.
18
Para Chartier (1990), a história cultural pode ser definida pela conjugação de três elementos não dissociáveis: “uma história dos
objetos em sua materialidade, uma história das práticas nas suas diferenças e uma história das configurações, dos dispositivos nas
suas variações”.
19
Sobre a apropriação de Michel Foucault na pesquisa em história da educação, ver Gondra (2005b).
20
Versão ampliada de Bastos (2006).
21
Gondra (2007), em estudo quantitativo da procedência geográfica dos autores de artigos da Revista Brasileira de História da
Educação (SBHE), mostra a centralidade na região sudeste em uma periódico de representatividade nacional.
22
Como exemplo, assinalaria a recente obra de Gomes (2004), que faz referência explícita a dois livros – Refúgios do eu (2000) e
Destinos das Letras (2002) – organizados por pesquisadores da área (MIGNOT; BASTOS; CUNHA, 2000).
23
Para Le Goff (2007, p.121), “toda história é uma história contemporânea. A atual é, com certeza, o presente vivido, transformado
em história, mas é também a indicação de que fazer-se história do passado se valoriza tornando esse passado atual em relação ao
momento em que ele existiu, tal como os homens e as mulheres então o viveram e que alguns o escreveram, mas atual também
porque as conseqüências ainda mexem conosco e estão sempre presentes, reinterpretadas à luz do presente”.
HISTORIADORES DA EDUCAÇÃO NO CEARÁ:
UMA EXPERIÊNCIA DE FORMAÇÃO DE PESQUISADORES
Maria Juraci Maia Cavalcante 24
Referências
LOWENTHAL, David. Como conhecemos o passado. Projeto História, São Paulo, n. 17, p. 63-201,
nov. 1998.
ROUSSO, Henry. A memória não é mais o que era. In: AMADO, Janaína; FERREIRA, Marieta de
Moraes (Org.). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: FGV, 1996. p. 93-102.
24
Professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará.
ACERVOS, PRESERVAÇÃO
DOCUMENTAL E HISTÓRIA
Nailda Marinho da Costa Bonato 25
É fato que, desde a cultura oral aos registros em pedra, bronze, cerâmica, pergaminho, papel,
até o surgimento do registro da imagem através de meios técnicos, como a fotografia e o filme, e
hoje, com as novas tecnologias do CD-Rom, do DVD, do disco ótico, entre outros formatos e
suportes, o homem vem tentando deixar suas marcas no mundo. Esses registros, se preservados,
tornam-se fontes da, ou para a história. No I Encontro de História da Educação do Estado do Rio de
Janeiro, não poderíamos deixar de discutir a temática. Assim, ela foi trazida, de forma mais
26
têm um corpus documental como referência. Essa trajetória levou à publicação de alguns artigos
30
A segunda palestra foi proferida pela professora Maria de Lourdes de Albuquerque Fávero,
intitulada por ela de “O pesquisador e o desafio das fontes”. A pesquisadora traz para discussão o
trabalho do pesquisador com as fontes documentais e se, num primeiro momento, se preocupa em
afirmar que essa relação deve se constituir em “um diálogo permeado de questões”, destacando
que para o avançar da “historiografia à História há dificuldades que pressupõem o debate teórico-
metodológico sobre as relações entre memória e história”, em um segundo momento passa a
discutir sobre “os desafios e as dificuldades que acompanham o esforço de associar pesquisa e
documentação em uma universidade”, visando apresentar a história de criação do PROEDES e de
seu funcionamento. É bom que se diga que essa divisão, na exposição de Fávero, é apenas para
efeito de construção desse artigo, pois um momento e outro de sua fala se articulam, considerando
seu foco de discussão primeiro: o uso das fontes pelo historiador.
Quanto ao que denomino de primeiro momento de sua exposição, Fávero lembra que a temática
memória e história foi desenvolvida na conferência de abertura do I EHEd-RJ intitulada “Memória,
história e política” e proferida brilhantemente pela professora Dra. Margarida de Souza Neves, por
isso não precisava se ater a essa discussão de forma minuciosa. Seguindo em suas reflexões sobre
o que se propôs a discutir, Fávero nos alerta sobre a realização de “práticas de pesquisa sem o
rigor científico que se faz necessário” e de como deve ocorrer a “construção do objeto de estudo”
por parte do historiador ao trabalhar com as fontes. Tendo em vista a problemática colocada,
Fávero vai tecendo sua exposição, apoiando-se em autores como Jacques Le Goff, Pierre Nora,
Miriam Limoeiro Cardoso, Eduard H. Carr, Michel Foucault, entre outros.
Já no segundo momento de sua exposição, a pesquisadora se reporta mais especificamente ao
PROEDES. De acordo com Fávero, o PROEDES teve sua origem em janeiro de 1987, quando um
grupo de pesquisadores da Faculdade de Educação da UFRJ “iniciou uma pesquisa sobre a
Faculdade Nacional de Filosofia – FNFi, instituída como modelo padrão para as demais faculdades
de filosofia, ciências e letras do país”. Nesse processo de pesquisa, os estudiosos se depararam
com uma grande massa de documentos em situação precária, sem nenhuma organização, sujeita a
toda sorte de destruição, apresentando danos físicos muitas vezes irreversíveis, causadores de
perda de informações. Recuperar essa massa documental foi o desafio colocado à equipe para que
a pesquisa fosse viabilizada, considerando se tratar de uma documentação “de grande relevância
para a história das instituições educacionais e científicas no país”.
Fávero cita, ainda, outro grande problema para os pesquisadores, que foi constatado através de
depoimentos: “a destruição ou o desaparecimento de importantes fontes documentais da
Faculdade Nacional de Filosofia, após o Golpe Militar de 1964”. Assim, as perdas documentais
podem ocorrer tanto pela ação do tempo quanto por destruição intencional e criminosa, entre
outras possibilidades.
Para realizar a pesquisa (1987-1990), a equipe se viu obrigada a organizar o valioso acervo e a
dialogar com outros profissionais. Em decorrência de todo esse trabalho, em setembro de 1990, é
aprovado, na UFRJ, o PROEDES, inicialmente como Projeto de Estudos e Documentação Educação e
Sociedade. Depois, em 1994, é institucionalizado como Programa. Neste caminhar, em relação ao
trato da documentação, a professora lembrou que, por várias vezes, pediu socorro ao amigo Jaime
Antunes.
Na exposição, Fávero apresentou ainda as finalidades, os objetivos e as linhas de pesquisa do
PROEDES, que completou 20 anos em setembro de 2007, constituindo sua história como centro
produtor, catalisador e organizador de acervos, visando propiciar a produção em história da
educação brasileira.
A riqueza de sua exposição para os historiadores da educação também está no que ela nos traz
da área arquivística, termos próprios da ciência arquivística, tais como: princípio da proveniência ou
princípio de respeito aos fundos; fundo arquivístico; arquivo permanente, arranjo e descrição;
arranjo estrutural ou funcional; série, subsérie, preservação e conservação, higienização, arquivo,
coleção, acervo, instrumentos de pesquisa, usuário, avaliação são mencionados e apresentados,
sendo esse mais um motivo que nos convida à leitura de seu artigo, exposto nesta coletânea, e
produzido a partir de sua fala no evento.
E se, por um lado, lamenta a falta de recursos humanos e financeiros, por outro, é com
satisfação que informa sobre o trabalho de informatização do acervo, viabilizado com o apoio do
CNPq, da FAPERJ e da FUJB/UFRJ, um acervo constituído de aproximadamente 300.000 documentos,
distribuídos em 32 fundos arquivísticos.
O PROEDES não atende apenas à demanda de pesquisadores da Faculdade de Educação e da
UFRJ, mas, também, propicia o acesso de pesquisadores externos à instituição, atividade que
sabemos demandar mais trabalho – o de atendimento ao público. Atualmente, tenho uma
orientanda consultando o arquivo do Asylo dos Meninos Desvalidos. Então, agora é ir à leitura do
artigo da pesquisadora, publicado neste mesmo livro.
Fechando a sessão, a terceira e última palestrante, professora Beatriz Kushnir, nos brindou com
a palestra “O historiador, o arquivo, o sigilo e a perda”, em que, de forma abreviada, traçou um
histórico do AGCP até suas competências hoje, informando que, em 2008, a instituição completou
155 anos. Apresentou o acervo e os procedimentos de consulta aos documentos, informações
cruciais para os historiadores da educação, principalmente para aqueles que trabalham com a
história da cidade do Rio de Janeiro.
Tendo em vista a “história do tempo presente”, Kushnir deu destaque para os seguintes acervos:
“Gabinete do Prefeito”, datado a partir de 1975 e composto por 29 mil documentos de autógrafos
de leis e/ou decretos, destinados ao público; “Secretaria Municipal de Saúde” e “Ouvidoria Central”
que, de acordo com ela, estão sendo pensados na perspectiva de propiciar o acesso à informação
preservando a identidade dos sujeitos envolvidos, conforme o atendimento da legislação em vigor.
Legislação apontada por ela, como a Lei 8.159/91, que dispõe sobre a organização dos arquivos
brasileiros e o acesso às informações neles contidas, também conhecida como Lei dos arquivos; o
Decreto no 2.134, de 24/1/1997, que regula a classificação, a reprodução e o acesso aos
documentos públicos de natureza sigilosa e o Decreto no 2.182, de 20/3/1997, que estabelece
normas para transferência e recolhimento de acervos arquivísticos públicos federais para o Arquivo
Nacional.
Foi dado destaque para a trajetória do acervo do DOPS – Departamento de Ordem Política e
Social da Guanabara (DOPS/GB) e do órgão congênere de São Paulo (DEOPS), até seu recolhimento
aos arquivos públicos. Há mais de 10 anos a historiadora elegeu, como tema de suas pesquisas,
avaliar a organização e a disponibilidade dessas informações, levando em conta todas as
implicações dessa escolha.
Para desenvolver sua fala, tendo em vista os arquivos da repressão, nos traz autores como
Vianna, Lissovsky e Sá e Étienne François, diretor do Centro Marc Bloch – Berlim, entre outros. Ela
chamou a atenção para a dificuldade do trabalho de classificação dos documentos em ultra-
secreto, secreto, confidencial, reservado, como dispõe a Lei dos arquivos, e, também, sobre a
preocupação com o trabalho de indexação, no sentido de não “ferir a suscetibilidade das pessoas
envolvidas”.
Por fim, a pesquisadora nos fala sobre as condições de salvaguarda dos acervos das instituições
de memória, sejam arquivísticos, bibliográficos ou museológicos, um patrimônio cultural e público,
e o papel do Estado nesse sentido.
Termina sua exposição solicitando a leitura e adesão a uma carta intitulada “Patrimônio sem
fronteiras” com os seguintes signatários: AAB – Associação dos Arquivistas Brasileiros; AAERJ –
Associação dos Arquivistas do Estado do Rio de Janeiro; AAL – Arquivo de Política Militar Ana
Lagoa/Departamento de Ciências Sociais/Universidade Federal de São Carlos; AEL – Arquivo Edgard
Leurenroth/Centro de Pesquisa e Documentação Social/IFCH/Unicamp; ANPUH – Associação
Nacional de História; CIEC – Centro Interdisciplinar de Estudos da Cidade/IFCH/Unicamp; IFCS –
Instituto de Filosofia e Ciências Sociais/UFRJ; SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da
Ciência. A carta se refere aos furtos ocorridos, entre os anos de 2005 e 2006, em instituições de
memória, fato que, conforme o teor do documento, vem dilapidando o patrimônio cultural. No final
do evento, a carta recebeu a adesão de mais um signatário, da SBHE – Sociedade Brasileira de
História da Educação. Parte do conteúdo do documento é encontrada no artigo publicado neste
livro, produzido a partir da participação da diretora do AGCRJ no evento.
Como fechamento deste relato, posso dizer que Fávero e Kushnir destacaram, em suas
exposições, a necessidade do historiador conhecer as regras de constituição de um acervo e de um
arquivo, enquanto instituição de memória, e “não apenas um lugar de reunião de documentos ou o
locus de trabalho do arquivista” (KUSHNIR), para, dessa forma, poder intervir no processo de
organização e constituição dos acervos em prol da pesquisa. Ainda em consonância com Fávero e
diversos outros historiadores, Kushnir diz que os arquivos não falam por si sós, devem ser
“submetidos a uma crítica exigente das fontes”, por parte do historiador.
No meu olhar, talvez o que ainda ficou para ser explorado pela mesa, de forma mais veemente,
com exceção da professora Maria de Lourdes, tenha sido as potencialidades dos acervos para o
campo da história da educação, assim como as questões que emperram as pesquisas e o porquê
delas existirem, pontos para os quais chamamos a atenção no debate. Sabemos que muitas
pesquisas são prejudicadas em seu andamento pelo fato de, durante o seu desenvolvimento, o
pesquisador ter o acesso ao acervo fechado pela instituição de memória. Sabemos dessa 34
necessidade, mas é preciso discussão entre técnicos e pesquisadores, para não sermos
surpreendidos no meio de uma pesquisa por uma atitude que venha a prejudicar um trabalho de
anos do pesquisador.
Outro ponto para o qual chamo a atenção é para que seja considerada, pelos expositores, a
possibilidade de enriquecimento de sua exposição, trazendo exemplos de séries documentais
existentes nos acervos, que dizem respeito aos interesses específicos do historiador da educação
como, por exemplo, a Série Educação, parte integrante do acervo do Arquivo Nacional, entre outras
possibilidades documentais existentes no acervo das instituições de memória.
25
Professora da Escola de Educação da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).
26
Realizado de 4 a 6 de junho de 2007, na Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense. O evento foi organizado de
forma interinstitucional por representantes da UFF, UNIRIO, UFRJ, UERJ e PUC-RIO.
27
Arquivo Nacional, Museu da Imagem e do Som, Fundação Casa de Rui Barbosa, entre outras.
28
Atualmente desenvolvo o projeto de pesquisa “Concepções da Federação Brasileira pelo progresso feminino sobre educação
feminina” que tem como fonte privilegiada o Fundo FBPF, contido no acervo do Arquivo Nacional.
29
Especificamente do curso de graduação em Arquivologia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO. Como por
exemplo, as monografias de graduação elaboradas por Rodrigo de Oliveira Albernaz, intitulada “A organização do acervo
arquivístico da cidade do Rio de Janeiro considerando suas transformações político-administrativas” (1999); por João Cláudio
Parucher da Silva, intitulada “Arquivos fotográficos: o caso do Museu da Imagem e do Som – RJ” (1998); e por Fabiane Ricardo de
Negreiros, intitulada “Os arquivos fotográficos do Museu Histórico Nacional: sua organização e importância como fonte de pesquisa”
(1998) e outras que se seguiram. No segundo semestre de 2004, orientei a monografia intitulada “O perfil do pesquisador
acadêmico da Sala de Consultas do Arquivo Nacional e suas necessidades de informação” elaborada por Mara Luci Silva de Araújo,
que discutiu a importância de estudar o usuário para criar sistemas de informação e serviços adequados às suas necessidades de
informação. Hoje, a ex-aluna é funcionária do AN, aprovada no último concurso público, mencionado pelo diretor do Arquivo em sua
exposição.
30
Encontra-se em andamento a pesquisa de Maria Zélia Maia que estuda o “Asilo de Meninos Desvalidos” (1875-1894). A mestranda
vem consultando os acervos do Arquivo Nacional, Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional e Proedes /FE/UFRJ
– Programa de Estudos e Documentação Educação e Sociedade.
31
Os artigos são os seguintes: “O uso das fontes documentais na pesquisa em história da educação e as novas tecnologias” e “O
Fundo Federação Brasileira pelo Progresso Feminino: uma fonte múltipla para história da educação das mulheres”, ambos
publicados na revista Acervo do Arquivo Nacional; “Os arquivos escolares como fonte para a história da educação”, publicado na
Revista Brasileira de História da Educação; “Memória da educação: preservação de arquivos escolares”, publicado na revista
Dimensão Pedagógica; “Documentação fílmica e iconográfica como ferramenta para a história da educação”, publicado no CD-Rom
comemorativo dos 20 anos do Grupo de Estudos e Pesquisas HISTEDBR. Além de alguns instrumentos de pesquisa arquivística
como o Inventário do Arquivo Augusto Meyer, este em parceria com a museóloga Beatriz Folly, entre outros trabalhos.
32
Ver site <http://www.arquivonacional.gov.br>.
33
Conforme consta no site do AN, a COREG – Coordenação Regional do Arquivo Nacional no Distrito Federal, em dezembro de 2005,
“recebeu para a guarda permanente os acervos dos extintos Serviço Nacional de Informação – SNI, Conselho de Segurança Nacional
– CSN e Comissão Geral de Investigações – CGI”, sendo garantido o acesso a esses documentos.
34
Isso aconteceu comigo durante o desenvolvimento da pesquisa com o Fundo FBPF/AN. Fui surpreendida com o fechamento do
arquivo à consulta sob a alegação de reorganização do arquivo. Sabemos dessa necessidade, mas o andamento de uma pesquisa, e
se financiada o fato se torna mais grave, não pode ser prejudicado dessa maneira. Essa é uma questão que temos de enfrentar e
levar para a mesa de discussão.
O PESQUISADOR E O DESAFIO DAS FONTES
Maria de Lourdes de Albuquerque Fávero 35
1. Introdução
O trabalho com as fontes documentais, a nosso ver, deve constituir, para o pesquisador, um
diálogo permeado de questões, de dúvidas, cujo resultado pretendido nem sempre decorre de
análises bem arrematadas. Embora tenha como preocupação conhecer os fatos e tentar responder
a necessidades, para apreender uma realidade histórica, esse conhecimento não pode ser
entendido como um dado definitivo e acabado.
Trata-se de um conhecimento produzido, em contínua aproximação do real, podendo ser revisto,
acrescido e até substituído por novos conhecimentos. Portanto, o que origina e fortalece o
empreendimento da pesquisa, com vistas à produção do conhecimento, o que se aplica também ao
campo da história da educação, é a carência que os homens têm de saber, de explicar, de entender
os fatos e seu próprio mundo. Se tal situação responde a necessidades, importa não perder de vista
que esse conhecimento não se produz de forma neutra, distante e fria; estaria, antes,
profundamente enraizado na vida dos homens, em determinado momento histórico e,
conseqüentemente, o saber produzido sobre determinados fatos não se esgota em si mesmo.
Vale ressaltar ainda que, para se avançar da historiografia à história, há dificuldades que
pressupõem o debate teórico-metodológico sobre as relações entre memória e história. Será
pertinente lembrar, também, que a construção de um objeto em História da Educação exige do
pesquisador um exercício de reflexão conseqüente a propósito das dificuldades epistemológicas do
trabalho de investigação científica, não perdendo de vista que, sob a chancela de trabalho
interdisciplinar, multiplicam-se, às vezes, práticas de pesquisa sem o rigor científico que se faz
necessário. Quanto à exigência de uma sólida experiência disciplinar, o cientista político Luiz
Eduardo Soares traz importante subsídio para uma análise mais acurada, ao assinalar que:
[...] os avanços continuarão a provocar surpresas [...]. Também por isso é preciso formar profissionais adestrados
nos cânones disciplinares: exatamente para que tenham as condições de saltar as cercas quando as exigências
desafiadoras do conhecimento exigirem. Apenas a competência faculta a verdadeira liberdade, que não se
confunde com ecletismo ou inconsistência teórica. (SOARES, 1991, p. 272)
Qual será, portanto, o papel da memória no debate teórico e metodológico de uma historiografia que se pretenda
crítica e renovadora? Em que medida a reflexão acerca do tema da memória pode acordar os historiadores e fazê-
los duvidar dos seus objetos e marcos periodizadores? (SANTOS, 1986, p. 6)
São questões e análises que continuam abertas a outros debates, a outras leituras. Entretanto,
não podemos deixar de assinalar que a memória não consiste apenas em recordar o que passou, o
que se deve ter em mente sobre determinados fatos e acontecimentos. A memória não prescindiria
da reconstrução, através da crítica e da reinterpretação do passado, sob um novo olhar, uma nova
perspectiva. Nessa ótica, memória e história não constituem sinônimos, como bem observa Pierre
Nora:
A memória é a vida, sempre trazida pelos grupos vivos e, por esta razão, ela está em evolução permanente, aberta
à dialética da lembrança e do esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável a todos os
usos e manipulações, suscetível de longas latências e freqüentes revitalizações. (1993, p. 9)
O documento não é qualquer coisa que fica por conta do passado, é um produto da sociedade que o fabricou,
segundo as relações de força que aí detinham o poder. Somente a análise do documento, enquanto monumento,
permite à memória coletiva recuperá-lo e ao historiador usá-lo cientificamente, isto é, com pleno conhecimento de
causa. (1992, p. 545)
Vale observar, no entanto, que “a história da história, pensada enquanto história crítica, tem na
relação memória-história um campo fértil de trabalho” (SANTOS, 1986, p. 12). Nesse sentido, uma
questão se coloca: a de não apenas contrapor memória e história, mas entender que, “a
necessidade de memória é uma necessidade da história e que os lugares da memória nascem e
vivem do sentimento de que não há memória espontânea”. Daí a necessidade de se “criar arquivos
como registros mais concretos” (NORA, 1993, p. 13).
Acreditamos que essa preocupação de associar memória e história será, decerto, uma das
preocupações que deverão nortear os centros e programas de pesquisa e documentação, em geral,
quando se propõem tornar-se um espaço de estudos, de investigação, de memória e de acervos
documentais.
Se o documento é ponto de partida para se conhecer um fato histórico, é, também, por meio
dele, que podemos revisitar o passado e reinterpretá-lo sob novo olhar. Para tanto, faz-se
necessário não perder de vista que:
A história se faz com documentos escritos, sem dúvida, quando estes existem. Mas pode fazer-se, deve fazer-se
sem documentos escritos, quando não existem [...]. Numa palavra, com tudo o que, pertencendo ao homem,
depende do homem, serve ao homem, exprime o homem, demonstra a presença, a atividade, os gostos e as
maneiras de ser do homem. (LE GOFF, 1992, p. 540)
Em outras palavras, como adverte Le Goff, citando Samaran: “Há que tomar a palavra
documento no sentido mais amplo, documento escrito, ilustrado, transmitido pelo som, imagem, ou
de qualquer outra maneira” (apud LE GOFF, 1992, p. 540). É essa maneira de entender e definir
documento que traz embutida uma outra preocupação, igualmente importante para esse
historiador: a noção de movimento. Segundo ele,
O historiador não é um arqueólogo da documentação, mediador neutro entre a verdade da fonte e a verdade da
História, mas sim aquele que é capaz de formular uma problemática e de construir uma interpretação em que
reconhece o encontro entre duas historicidades: a sua própria e a da documentação que utiliza. (1985, p. 34-5)
Apoiando-nos nessas percepções, diremos que os fatos e os documentos não falam por si. Falam
apenas quando o pesquisador os aborda e os interpreta, procurando compreender o pensamento
que está por trás deles. É o pesquisador, assinala Carr, quem decide quais os fatos e os
documentos que vêm à cena e em que ordem ou contexto. Não é por estarem nos documentos que
os fatos ocorreram exatamente daquela forma. Nenhum documento, por si só, poderá nos dizer
mais do que o autor achou que aconteceu, o que gostaria que acontecesse, ou o que ele esperava
que acontecesse, ou, talvez, ainda, o que ele queria que outros pensassem que ele pensava (CARR,
1976, p. 14).
Visto sob essa perspectiva, verificamos que os fatos, mesmo quando registrados em
documentos, ainda têm de ser processados pelo pesquisador, antes que se possa fazer uso deles,
ou seja, trata-se de “colocar o processo em desenvolvimento” (CARR, 1976, p. 18). Nesse sentido, o
papel do pesquisador é ver o passado através dos olhos do presente e à luz de seus problemas; seu
principal trabalho não é registrar, mas avaliar ancorado numa base teórica. Por outro lado, se ele
não avalia, como pode saber o que merece efetivamente ser registrado? Logo, o passado que é
estudado não é um passado morto, mas um passado que, em algum sentido, está ainda vivo no
presente.
Com essas ponderações, não deixamos de reconhecer que alguns acontecimentos históricos
apresentam a mesma feição para todos os que se dedicam à pesquisa. Daí entendermos que, para
o pesquisador em geral, “a exatidão é um dever, não uma virtude”, considerando, ainda, que os
fatos, os documentos são essenciais e constituem, sem dúvida, matéria-prima para o pesquisador;
mas não podem se converter em fetiches (CARR, 1976, p. 20). Por si mesmos, não constituem a
história. São filtrados pela visão do pesquisador e por ele inseridos em uma realidade concreta.
Analisando essas questões, Foucault declara que os problemas da história, em síntese,
consistem no “questionar o documento” (1987, p. 8), acrescentando:
O documento não é o feliz instrumento de uma história que seria em si mesma, e de pleno direito, memória; a
história é uma certa maneira de uma sociedade dar estatuto e elaboração a uma massa documental de que não se
separa (FOUCAULT, 1987, p. 8).
Sob essa ótica, tentaremos, ainda, refletir um pouco sobre os desafios e as dificuldades que
acompanham o esforço de associar pesquisa e documentação em uma universidade. Temos
presente que não se trata de uma percepção acabada. Trata-se de articular o trabalho de
investigação com o de resgate, recuperação e organização de fontes documentais, procurando
reagrupá-las, tornando-as pertinentes, colocando-as em relação, até constituírem um conjunto
mediante o qual a memória coletiva passa a ser valorizada, instituindo-se em patrimônio cultural.
Com essas preocupações, em janeiro de 1987, um grupo de pesquisadores da Faculdade de
Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) iniciou uma pesquisa sobre a Faculdade
Nacional de Filosofia (FNFi), instituída como modelo para as demais faculdades de filosofia, ciências
e letras do país. Buscava-se conhecer os fatos e as razões que contribuíram para os caminhos e
descaminhos dessa faculdade, de sua criação, em 1939, até sua fragmentação, entre 1967 e 1968,
quando foi extinta e deu origem a unidades da UFRJ, que existem até hoje: Escola de Comunicação,
Faculdade de Educação, Faculdade de Letras, Instituto de Biologia, Instituto de Física, Instituto de
Filosofia e Ciências Sociais, Instituto de Geociências, Instituto de Matemática e Instituto de Química.
Nosso esforço, de 1987 a 1990, centrou-se, sobretudo, no propósito de selecionar e integrar os
vários dados a respeito dessa faculdade. Não somente a análise de documentos foi exaustivamente
realizada, mas pessoas — ex-professores, ex-alunos e funcionários — deram depoimentos, e pelo
testemunho de sua vivência na Faculdade Nacional de Filosofia trouxeram ao presente, os fatos
ocorridos e como ocorreram. Alguns se revelaram polêmicos, outros contraditórios e outros, ainda,
persistem obscuros.
Quando iniciamos a pesquisa sobre a história dessa faculdade, não tínhamos idéia precisa da
situação do acervo. Deparamo-nos com uma grande massa de documentos, sem nenhuma
organização arquivística, muitos deles estragados, com perda de informações, outros acidificados
pela falta de climatização ou danificados pela ferrugem de clipes e grampos de ferro, além de
outros ainda incompletos. O acesso e o contato direto com essas fontes nos deixaram preocupados
e perplexos em relação ao estado lamentável de conservação do arquivo, mas, ao mesmo tempo,
não perdíamos de vista que se tratava de um acervo de grande relevância para a história das
instituições educacionais e científicas no país.
Um dos problemas mais desafiadores, por nós enfrentado, e confirmado, posteriormente, através
dos depoimentos, foi a destruição ou o desaparecimento de importantes fontes documentais da
Faculdade Nacional de Filosofia, após o Golpe Militar de 1964, quando militares passaram
freqüentemente a “visitar” a faculdade. Tais “visitas” não nos surpreendem, pois constituem uma
das formas dos regimes de arbítrio atingirem a memória das instituições.
O trabalho com essa documentação nos fez intuir com maior clareza que a preservação e a
valorização da memória educacional e cultural brasileira constitui tarefa a desafiar
permanentemente a intervenção lúcida e diligente da iniciativa pública, como também da
particular. É sabido, de longa data, o pouco apreço, no país, pela preservação dessa memória. A
propósito das fontes documentais e da memória em pesquisa histórica, há problemas que
persistem e que não podem ser escamoteados. Analisando-os, o historiador Edgar Carone, já em
1976, assinalava que o “descaso ou aversão à documentação constituem problemas básicos para
os estudiosos”, acrescentando: “não há dúvida de que a destruição criminosa de documentos traz
graves prejuízos a todos, pois esta é uma maneira de exterminar a memória nacional” (1976, p.
25).
No trabalho com as fontes documentais, a partir de 1987, aprendemos ainda que, ao nos
familiarizarmos com os arquivos, ao dialogarmos com os documentos e conseguirmos apreender o
não dito, ou aquilo que foi esquecido ou silenciado, há uma sensação de fascínio e de descoberta.
Nossa experiência como pesquisadora permite entrever, ainda, que os arquivos não guardam
apenas desejos, aspirações e sonhos imprevisíveis; constituem também produtos da sociedade que
os configurou, segundo as relações de força dos que aí detinham o poder. É a propósito dessas
relações que, mais uma vez, retomamos a advertência de Le Goff:
O documento é um monumento. Resulta do esforço das sociedades históricas para impor ao futuro [...]
determinada imagem de si próprias. Daí ser preciso começar por desmontar, demolir essa montagem,
desestruturar essa construção e analisar as condições de produção dos documentos/monumentos. (1992, p. 548)
É, ainda, esse historiador que chama a atenção para a necessidade do “inventário dos arquivos
do silêncio”. Nessa perspectiva, o pesquisador precisa ir um pouco além, procurando questionar as
lacunas, ou os “esquecimentos” existentes nos acervos, bem como os espaços em branco da
história. Tal procedimento traz implicações ao historiador, que poderá intuir a história não apenas a
partir dos documentos, mas, também, de suas ausências, interrogando-se sobre esses problemas e
limitações no trabalho com as fontes.
À medida que desenvolvíamos a pesquisa “Da Faculdade Nacional de Filosofia à Faculdade de
Educação: resgate de uma história (1987-1990)”, e éramos compelidos a organizar o acervo dessa
faculdade, nossas reflexões se ampliavam em dupla direção: de um lado, a certeza da
36
necessidade de se dominar um conteúdo teórico para intervir na realidade, admitindo que a teoria
é indispensável para se lidar com os fatos, para se dialogar com as fontes; de outro, a necessidade
de se criar um espaço que favorecesse o diálogo teórico-metodológico, de forma consistente e
conseqüente, com a percepção clara de que a produção científica não se faz isoladamente. Surgiu,
então, a idéia de realizar seminários com a participação de pesquisadores de outras áreas, abertos
a todos que se interessassem em discutir, entre outras questões, a construção do objeto do
conhecimento na pesquisa em educação, assim como nas ciências humanas e sociais; a crise dos
paradigmas nessas ciências; história e memória.
Com essas preocupações, tornou-se, também, indispensável, a definição de estratégias
institucionais que possibilitassem a integração dos estudos, pesquisas e documentação, mediante
a elaboração de projetos com objetivos claramente formulados. Em decorrência de um intenso
trabalho, em setembro de 1990, é aprovado o PROEDES – Projeto de Estudos e Documentação
Educação e Sociedade, como um projeto integrado pela SR-2/UFRJ. Em agosto de 1994, é
oficializada sua institucionalização como Programa pela Congregação da Faculdade de Educação e,
em 1995, pelo Conselho de Coordenação do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) e pelo
CEPG – Conselho de Ensino para Graduados e Pesquisa da UFRJ.
O Programa de Estudos e Documentação Educação e Sociedade foi instituído com as seguintes
finalidades: desenvolver estudos e pesquisas; resgatar, recuperar e organizar fontes documentais
referentes à educação brasileira, tendo presente que essas fontes poderão oferecer importantes
subsídios para estudos e abordagens diferenciados sobre a história da educação, bem como sobre
instituições educacionais e científicas no país.
Enquanto Programa, o PROEDES tem por objetivos: a) realizar estudos e pesquisas referentes a
temas de educação, abrangendo instituições educacionais e científicas e seus atores; b) contribuir
para a formação de pesquisadores e c) constituir-se em centro de documentação em educação
brasileira. Para viabilizá-los, vem procurando centrar seus estudos e investigações em duas linhas
de pesquisa: a) História das Instituições Educacionais e Científicas no País e b) Construção do
Pensamento Educacional Brasileiro.
Não será demasiado assinalar que esse trabalho é exaustivo e complexo, exigindo uma equipe
multidisciplinar. Apesar das dificuldades — falta de pessoal e de recursos financeiros — vem sendo
desenvolvido, de modo que estudos e pesquisas sobre instituições educacionais e científicas, sobre
educadores e assuntos temáticos que constituem os acervos são realizados por pesquisadores de
seu quadro ou de fora, contribuindo significativamente para subsidiar o arranjo e a descrição dos
documentos.
Entre as atividades típicas dos arquivos permanentes, temos conferido destaque ao arranjo, à
descrição e à conservação de documentos (MACHADO; CAMARGO, 2000, p. 3). O arranjo aqui é
tomado na acepção de “disposição física dos documentos de arquivo, com base em sua
classificação” (MACHADO; CAMARGO, 2000, p. 3), mas considerando que cada arquivo e/ou coleção
constitui um fundo distinto e individualizado.
Outro ponto a salientar em relação ao trabalho com a documentação refere-se à informatização
dos fundos. Com essa preocupação, e graças ao apoio do CNPq, da FAPERJ e da FUJB/UFRJ, foram
dados os primeiros passos, visando a: a) intensificar o trabalho de avaliação dos novos acervos
adquiridos e de reavaliação dos já existentes; b) elaborar um plano estrutural para cada acervo,
que permita agrupar os documentos em espécies; c) classificar os documentos segundo essas
espécies; d) digitar os inventários em planilhas do Microsoft Access, revisando a digitação; e)
projetar o banco de dados em planilhas do Microsoft Access e f) elaborar o folder do arquivo ou
coleção.
Atualmente, o PROEDES abriga um acervo com cerca de 300.000 documentos, distribuídos em
32 fundos, entendidos como “conjunto de documentos de uma mesma proveniência” (ARQUIVO
NACIONAL, 2005, p. 97). A preocupação do PROEDES de trabalhar e divulgar as informações
levantadas nos acervos que estão sob sua guarda, demonstra a necessidade de devolver ao
arquivo suas funções de elemento de suporte à pesquisa, bem como de estabelecer as concepções
de acesso, organização e preservação de fontes documentais.
Entendemos que o trabalho com fontes documentais deve apoiar-se em algumas concepções de
história, memória e documentação, que precisam ser discutidas e amadurecidas, desde que se
refletem na organização dos acervos e nos estudos produzidos. Assim sendo, no tratamento dos
fundos arquivísticos, os documentos textuais devem passar por uma fase de higienização, para
depois serem organizados em séries estruturais ou funcionais e em subséries, de modo a
processar-se sua descrição. A análise do documento é que dirá se o mesmo poderá ou não ser
incluído nas séries e subséries definidas. Tal exame eventualmente poderá suscitar, também, a
necessidade da criação de outras subséries não incluídas, inicialmente, no plano estrutural.
Cabe reiterar que esse é um paciente trabalho, exigindo a participação de uma equipe
multidisciplinar. Será pertinente ressaltar que é imprescindível um trabalho de avaliação (no caso
de fundos novos) e de reavaliação dos acervos existentes num centro de documentação, incluindo
mesmo aqueles já abertos ao público para consulta. A decisão de reavaliar os acervos conviria ser
tomada com base no pressuposto de que, se não existe pesquisa acabada, conseqüentemente, o
trabalho com os fundos permanentes, num Centro de Estudos, Memória e Documentação deverá
também ser visto como um processo em permanente construção e aperfeiçoamento, havendo
sempre a possibilidade de novos documentos serem incluídos, bem como sugestões e críticas dos
usuários a respeito do arranjo e classificação das fontes documentais que, se procedentes, deverão
ser atendidas.
Quanto aos arquivos permanentes, recomenda-se dar destaque ao arranjo, à descrição e à
conservação de documentos. O arranjo aqui é tomado, segundo Machado e Camargo, no sentido da
“disposição física dos documentos de arquivo, com base em sua classificação” (2000, p. 33), mas
tendo presente que cada arquivo e/ou coleção constitui um fundo distinto e individualizado, como,
por exemplo, os arquivos do Asylo dos Meninos Desvalidos, do Colégio de Aplicação/UFRJ, entre
outros, que se encontram no PROEDES, e que refletem as funções e atividades que lhe deram
origem. No arranjo dos fundos, consoante essas autoras, importa assinalar, ainda, dois princípios
básicos: o da proveniência, também conhecido como princípio de respeito aos fundos, segundo o
qual “os arquivos originários de uma instituição ou de uma pessoa devem manter sua
individualidade, não sendo misturados aos de origem diversa”; [e o] “do respeito à ordem original”
(MACHADO; CARMARGO, 2000, p. 33-34).
Para que um arquivo e/ou coleção permanente cumpra, de forma adequada, a função de
atendimento ao público, de colocar à disposição do usuário o conteúdo de seu acervo, é necessário
que se processe, de forma clara, a descrição dos documentos que poderá resultar em diferentes
instrumentos de pesquisa. Apoiando-nos, ainda em Machado e Camargo, observamos que essa
descrição, quando feita de forma apropriada, tem condições de vir-a-ser fator decisivo para
estreitar os vínculos entre o usuário e o arquivo qualquer que seja o objeto de pesquisa a que se
propõe (MACHADO; CARMARGO, 2000, p. 33-34).
Visando dar continuidade ao trabalho de avaliação e/ou reavaliação dos fundos, entendidos
segundo “Norma geral internacional de descrição arquivística” como “conjunto de documentos,
independente de sua forma de suporte, organicamente produzido e/ou acumulado e utilizado por
uma pessoa física, família ou instituição no decurso de atividades e funções” (CONSELHO
INTERNACIONAL DE ARQUIVOS, 2001, p. 5). Acolhidos esses documentos num centro de memória e
documentação, torna-se indispensável a elaboração de um glossário ou de um quadro que
contenha alguns conceitos básicos. A definição desses conceitos visa mostrar que um trabalho de
37
4. Palavras finais...
Referências
CARDOSO, Miriam Limoeiro. Para o conhecimento dos objetos históricos: algumas questões
metodológicas. [19--]. Mimeo.
___________. Reflexões sobre ética e construção do conhecimento. In: REUNIÃO ANUAL DA ANPED,
17., 1994, Caxambu. Anais... Caxambu: ANPEd, 1994. Mimeo.
CARONE, Edgar. A destruição dos documentos. Cadernos de Debate, [S.l.], n. 1, p. 24-26, 1976.
CARR, Eduard H. Que é História? Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
MACHADO, Helena Corrêa; CAMARGO, Ana Maria de A. Como implantar arquivos públicos
municipais. São Paulo: Arquivo do Estado, Imprensa Oficial, 2000.
NEVES, Margarida. O bordado de um tempo: a história de Esaú e Jacó. Revista Tempo Brasileiro, Rio
de Janeiro, n. 81, p. 32-42, abr./ jun. 1985.
NORA, Pierre. Entre memória e história. A Problemática dos lugares. Revista do Programa de
Estudos de Pós-Graduados em História, São Paulo, n.10, p.7-25, dez. 1993.
SANTOS, Afonso Carlos M. dos. Memória, história, nação: propondo questões. Revista Tempo
Brasileiro, Rio de Janeiro, n. 87, p. 5-12, out./ dez. 1986.
SOARES, Luiz Eduardo. Faça a coisa certa: o rigor da indisciplina. In: IRMAN, P.; BOMENY, H. (Org.).
As assim chamadas Ciências Sociais. Rio de Janeiro: UERJ: Relume Dumará, 1991. p. 265-277.
35
Coordenadora do PROEDES/UFRJ e Pesquisadora 1A do CNPq.
36
O Arquivo da Faculdade Nacional de Filosofia, sob a guarda do PROEDES/UFRJ, contém, atualmente, cerca de 100 mil documentos e
está sendo reavaliado, graças a um convênio realizado entre o PROEDES/FE/UFRJ e a Casa de Oswaldo Cruz/ Fundação Oswaldo
Cruz.
37 . A propósito, consultar: Arquivo Nacional (2005).
O HISTORIADOR, O ARQUIVO,
O SIGILO E A PERDA
Beatriz Kushnir 38
O Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ) tem sua origem na refundação da cidade,
em 1567. Preservando a documentação gerada e acumulada pela Câmara, acolhe um acervo de
uma cidade que foi capital, em parte do período colonial, no Império e na República até 1960. Em
1975, com a fusão dos antigos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, a cidade tornou-se a
capital do novo estado do Rio de Janeiro, regressando à condição de município. A competência
original do AGCRJ não se concretizou naquela época, mas com o Decreto nº 20.113/2001, que o
definiu como Gestor da Política de Arquivos e do Sistema de Memória da Cidade. A partir de janeiro
de 2003, coube ao AGCRJ, as competências de: elaborar, implementar e acompanhar a execução
da Política Municipal de Arquivos Públicos e Privados, no âmbito do Poder Executivo municipal. Tal
diretriz garante a gestão, a preservação e o acesso aos documentos públicos municipais e a
proteção especial dos arquivos privados de interesse público.
Composto por acervos que remontam à Colônia, o AGCRJ se tornou o Arquivo da Prefeitura do
Distrito Federal em 5/8/1893. Está, portanto, às vésperas de completar, em 2008, seus 115 anos.
Por seu caráter municipal, pode atribuir uma legislação própria para a consulta aos documentos. As
flexibilidades possíveis nesse âmbito permitirão outras regras de acesso à História do Tempo
Presente. Em especial, ao acervo “Gabinete do Prefeito”, datado a partir de 1975 e composto por
29 mil documentos de autógrafos de leis e/ou decretos, destinados ao público. Nesse conjunto, a
questão de sigilo não se aplica. Outros, como o acervo da Secretaria Municipal de Saúde e o da
Ouvidoria Central, estão sendo pensados na perspectiva de dar acesso à informação preservando a
identidade.
O acervo DOPS
pesquisa, manter sua organização original e estabelecer critérios para a sua consulta pública.
Igualmente, preocupava-se com a seara dos direitos civis, com a manutenção da privacidade dos
indivíduos fichados e, principalmente, com o que realmente se poderia esperar daquele tipo de
fonte.
Nesse contexto, Rousso ponderou sobre as funções e os limites dos arquivos para a tessitura da
história. Sendo ele um estudioso preocupado com a “história do tempo presente”, suas análises
mostram que, mais do que as fontes escritas, o tema em questão amplia o conceito de “vestígios
do passado”, ao incluir a história oral na metodologia de trabalho. O cerne da preocupação é o
questionamento da “verdade histórica”. Ou seja, em que situação o historiador se sente mais
seguro: no registro escrito ou no depoimento a posteriori.
No Brasil, quanto ao acesso ao acervo do DOPS e a possibilidade de consultá-lo como fonte
histórica, não podemos esquecer que, entre a sua formação e a sua constituição como arquivo,
transcorreu um longo período de abandono. Em São Paulo, assim como no Rio de Janeiro, as
tentativas de organizar esse material aconteceram somente a partir da posse dos governadores
eleitos, em 1982, e do fim da censura − determinada na Constituição de 1988.
Em São Paulo, contudo, até 1991, a coleção do DEOPS continuava sob a tutela da Polícia Federal,
e, mesmo depois de transferida para o Arquivo Estadual, continuou vedada à consulta pública
(COUTO SOBRINHO, 1997). No Rio, o Arquivo Público do Estado somente recebeu o material em
1/9/1992. Em 1986, em meio ao processo de recolhimento da documentação, deu-se a instituição
do habeas-data. Essa norma jurídica buscava resolver a situação civil de muitos familiares de
desaparecidos políticos, assim como de indivíduos que sofreram a repressão do Estado ditatorial
brasileiro pós-1964. Essa medida e a necessidade de consulta do material do DOPS apressaram a
liberação do acervo, inicialmente para um público restrito, fato que, de algum modo, resultou na
liberação desses documentos e permitiu que fossem consultados de forma mais ampla.
Se essa via legal possibilitou aos pesquisadores o acesso à documentação, permaneceu a dúvida
sobre como ordenar a consulta ao material como pesquisa histórica. Durante esse debate, foi
promulgada, em 1991, a Lei de Arquivos, a qual legisla sobre os fundos documentais. Mas, antes
disso, já haviam sido criados instrumentos jurídicos que viabilizaram o acesso a essa fonte de
pesquisa. No início da década de 1990, com a transferência do acervo do DEOPS, de São Paulo,
para o Arquivo do Estado, foi editado o Decreto no 34.216, de 19/11/1991, que instituiu uma
comissão especial encarregada de receber a “papelada” do extinto órgão. Naquele mesmo ano,
promulgava-se a Lei 8.159/91, que dispõe sobre a organização dos arquivos brasileiros e o acesso
às informações neles contidas. Outro exemplo nessa mesma direção é o decreto editado pelo
governo federal, no início de 1997, que, entre outras medidas, alterava a classificação e as formas
de arquivamento de papéis sigilosos. 40
[...] constitui a sua coleção de documentos segundo critérios que lhe são precisos − precaução, vigilância,
pragmatismo político ou administrativo (economia, eficiência etc.), orgulho, fantasia e, até mesmo, senso histórico.
De qualquer forma, o arquivador constitui sua coleção como parte de si, segundo um movimento que é, em
primeiro lugar, um exercício de controle sobre os eventos e que pode ainda estar erigindo sua eternidade enquanto
indivíduo, cujo único critério de aferição, e sólida garantia, é exatamente a memória. (VIANNA; LISSOVSKY; SÁ,
1986, p. 67)
Construindo a memória
[...] muito rapidamente [...] renuncia-se a essas pretensões e começa-se a perceber que tudo não é assim tão
simples, que os novos arquivos não falam por si só, que, como todos os outros arquivos, eles devem ser
submetidos a uma crítica exigente das fontes, que seu manuseio só pode ser feito se forem respeitadas as
preocupações éticas e metodológicas elementares, e que mesmo bem utilizados, e interrogados a partir de
questões pertinentes, não dispensam o historiador de seu trabalho habitual de reconstituição e de interpretação −
e não têm resposta para tudo. (FRANÇOIS, 1998, p. 157)
As notícias sobre os numerosos furtos de bens culturais, ocorridos entre 2005 e 2006, trouxeram
perplexidade aos pesquisadores e à sociedade como um todo. Foram subtraídas as fotos da
Coleção Thereza Christina Maria, doada pelo imperador D. Pedro II à Biblioteca Nacional; os 43
quadros de Matisse, Monet e Dali do Museu da Chácara do Céu; as medalhas do Museu da Cidade;
as fotos de Augusto Malta, as revistas semanais, e as gravuras de Debret do Arquivo Geral da
Cidade; os quadros e dois castiçais de madeira folheados a ouro, do século XVII, da capela da
Colônia Juliano Moreira.
As colunas dos jornais nos surpreendem, a cada semana, com uma lista infinda de peças que
desapareceram sob nossos olhos. O fato sugere que não estamos sabendo preservar o patrimônio
público, a herança cultural dos que nos precederam e que, assim, pouco deixaremos para as
futuras gerações.
De um lado, a fragilização do Estado brasileiro, visível através das privatizações e desmonte de
suas instituições, praticadas nas últimas décadas. De outro, a ganância que atravessa a sociedade,
o individualismo que deseja particularizar, que pretende, para si, determinados bens de natureza
intrinsecamente coletiva. Objetos de grande significado vão perdendo o sentido histórico, para se
tornarem bens de valor monetário e de mercado.
Sabemos que quase sempre os furtos de documentos de valor histórico, assim como as peças
sacras retiradas de igrejas, são ações que atendem a encomendas feitas por pessoas
conhecedoras do assunto e com bom grau de instrução, o que tipifica essa forma de delito.
Nossos acervos culturais, que pertencem ao cidadão, precisam da guarda do Estado. É
patrimônio público, transcendendo as esferas municipal, estadual ou federal. Esses bens, tombados
ou não, pelo IPHAN, devem ser objeto de eficaz ação administrativa, porque é dever do Estado
prover a coisa pública e garantir a sua integridade física.
Desde que os crimes se intensificaram, os poucos recursos recebidos por essas instituições como
dotação orçamentária, que vêm diminuindo ano a ano, e que deveriam ser canalizados para o
tratamento dos acervos, têm outro destino: as câmeras de circuito interno, os controladores de
acesso, os planos de segurança, os detectores de presença. Precisamos trancar, vigiar e afastar o
perigo que parece conhecer cada detalhe dos prédios e de seus bens mais valiosos.
Além da ausência de uma política de investimento nas carreiras de museólogo, bibliotecário,
historiador, restaurador, arquivista, boa parte das instâncias de cultura do Estado brasileiro se
comportam como agências meramente burocráticas, nas quais aqueles que as dirigem muitas
vezes parecem desconhecer a importância das peças originais, e acreditam que cópias substituem
o que desapareceu. Desconhecem o tempo que se leva para formar um profissional nessas áreas,
para identificar um acervo, e construir a memória de uma instituição.
Serviços especializados são terceirizados, além daqueles de vigilância e de limpeza, o que
faz circular um número grande de estranhos nesses ambientes, desrespeitando uma regra básica
de segurança, ao permitir o acesso de pessoas sem qualificação ao lugar onde são depositados
tesouros culturais.
Sem concursos e sem investimento no aperfeiçoamento dos seus quadros, o Estado brasileiro
acaba por consentir que imposições políticas determinem a direção de equipamentos, em que
técnicos deveriam pôr em prática anos de estudo. Assim, os arquivos, as bibliotecas, os museus, as
igrejas brasileiras deixam sair pela porta da frente, sem sinais aparentes de arrombamento, um
patrimônio que jamais retornará às estantes, mapotecas, altares e reservas técnicas.
É preciso que se invista na consolidação de políticas culturais efetivas e articuladas entre as
diferentes instâncias públicas, e na organização de mecanismos de segurança adequados, que
ponham fim a esses crimes contra o patrimônio público. Exemplo dessa desarticulação é que, após
anos de roubos, desaparecimentos e perdas no acervo do Rio de Janeiro – capital da Colônia, do
Império e da República, e que, portanto, detém o maior número de instituições de memória do país
– e de outras cidades, poucas têm sido as soluções para esses furtos.
São Paulo, por exemplo, registrou eficiência. Duas semanas após o furto na Biblioteca Municipal
Mário de Andrade, a polícia sabia quem havia praticado o roubo, estabelecendo as conexões com
leiloeiros cariocas e permitindo a devolução das peças.
No Rio de Janeiro, a recente intervenção no leilão das aquarelas do pintor alemão Friedrich
Hagedorn sinaliza a possibilidade de reversão desse quadro de impunidades. É imprescindível,
portanto, que se estabeleçam ações para o fortalecimento das condições de salvaguarda dos
acervos e de cooperação entre os agentes envolvidos na proteção, segurança e comercialização de
bens culturais. Isto porque a Delegacia de Repressão a Crimes contra o Meio Ambiente e o
Patrimônio Histórico da Polícia Federal no Rio teve três delegados ao longo de 2006.
Referências
CAMARGO, Ana Maria de Almeida. Informação, documento e arquivo: o acesso em questão. Boletim
[da] Associação dos Arquivistas Brasileiros, São Paulo, no 11, 1993.
COUTO SOBRINHO, Fausto. Apresentação. In: CARNEIRO, Maria Luiza Tucci, Livros proibidos, idéias
malditas: o DEOPS e as minorias silenciadas. São Paulo: Estação Liberdade, 1997.
FRANÇOIS, Étienne. Os “tesouros” da Stasi ou a miragem dos arquivos. In: BOUTIER, Jean; JULIA,
Dominique (Org.). Passados recompostos: campos e canteiros da História. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ:
Ed. FGV, 1998. p. 155-161.
KUSHNIR Beatriz. Cães de guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988. São Paulo:
Boitempo, 2004.
LOWENTHAL, David. “Como conhecemos o passado”. Projeto História. São Paulo, no 17, Nov./1998.
REIS FILHO, Daniel Aarão. Um passado imprevisível: a construção da memória da esquerda nos
anos 60. In: REIS FILHO, Daniel Aarão et al. Versões e ficções: o seqüestro da História. São Paulo:
Fundação Perseu Abramo, 1997. p. 31- 45.
ROUSSO, Henry. A memória não é mais o que era. In: AMADO, Janaína, FERREIRA, Marieta de
Moraes (orgs.). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: FGV, 1996, p. 93-102.
VIANNA, Aurélio; LISSOVSKY, Mauricio; SÁ, Paulo Sérgio Moraes de. A vontade de guardar: lógica da
acumulação em arquivos privados. Arquivos e Administração, Rio de Janeiro, v. 10-14, no 2, p. 62-
76, 1986.
38
Professora convidada e visitante do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense. Desde abril de 2005, dirige o
Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.
39
Uma reunião desses estudos encontra-se no número 35, intitulado “Pour une nouvelle historiographie de l’URSS”, do Les Cahiers de
l’Institut d’Histoire du Temps Présent, organizado por Nicolas Werth.
40
A classificação dos documentos é a que se segue, sendo possível dobrar o tempo de interdição apenas uma vez. Assim temos:
Reservados: cinco anos depois; Confidenciais: dez anos depois; Secretos: passarão à categoria de público vinte anos depois de sua
produção; Ultra-secretos: trinta anos depois, só podendo receber esta classificação com a assinatura dos presidentes da República,
do Senado e dos Tribunais Federais, evitando-se, assim, a proliferação de documentos com essa marca.
41
Decreto que regulamenta o artigo 23 da Lei nº 8.159, de 8/1/1991, e que dispõe sobre a categoria dos documentos públicos e o
acesso a eles, e dá outras providências. Disciplina a consulta à documentação que esteja sob a guarda de arquivos públicos e foi
estabelecida a partir da grande procura às fontes dos DOPS. Tentando adequar as diretrizes da Constituição Federal à pesquisa
histórica, essa legislação, embora estabeleça o livre acesso aos documentos tutelados por arquivos estaduais, ressalta a
excepcionalidade da consulta aos que ponham em risco a segurança nacional e/ou violem a imagem do cidadão.
42
Corroborado pelas entidades: AAB – Associação dos Arquivistas Brasileiros, AAERJ – Associação dos Arquivistas do Estado do Rio de
Janeiro, AAL – Arquivo de Política Militar Ana Lagôa/Departamento de Ciências Sociais/Universidade Federal de São Carlos, AEL –
Arquivo Edgard Leuenroth/Centro de Pesquisa e Documentação Social/IFCH/Unicamp, ANPUH – Associação Nacional de História,
CIEC – Centro Interdisciplinar de Estudos da Cidade/IFCH/ UNICAMP, IFCS – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais/UFRJ, SBPC –
Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
43
Constituída de obras que pertenceram às imperatrizes D. Leopoldina e D. Thereza Christina Maria, a coleção recebeu este nome por
condição imposta pelo seu doador, D. Pedro II. Possui partituras em primeira edição de Beethoven, Haydn, Mozart, Weber, dentre
outros, além de livros raros e exemplares do periódico Brasil Musical, dedicado à imperatriz do Brasil, com partituras para piano e
canto-piano. Durante a greve dos servidores do Ministério da Cultura, entre abril e junho de 2005, a Área de Iconografia da
Fundação Biblioteca Nacional sofreu um furto. O acervo mais atingido foi o de fotografias brasileiras do século XIX, principalmente a
Coleção Thereza Christina Maria, doada pelo Imperador D. Pedro II. Esta coleção foi tombada em outubro de 2003, como Memória
do Mundo pela UNESCO.
PARA UMA HISTÓRIA DO I ENCONTRO DE
HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO DO RIO DE JANEIRO44
José Gonçalves Gondra 45
Pensar um acontecimento ainda sob seu calor e das inúmeras vozes e expectativas que o
mesmo mobiliza não é das tarefas mais simples e fáceis. Diante disto, eu gostaria de propor uma
escavação desse acontecimento, de modo a fazer aparecer camadas distintas que, conectadas,
permitem compreender as várias dimensões que se encontram articuladas na realização de um
evento como foi o I Encontro de História da Educação do Rio de Janeiro.
Inicialmente, gostaria de explorar três condições que ajudam a compreender a emergência desta
iniciativa. Trata-se de observar a data, o espaço e as instituições e sujeitos envolvidos neste
acontecimento.
Desse modo, parto da afirmação de que este evento não poderia ter ocorrido antes. Em outras
palavras, cabe indagar: o que levou esta iniciativa a ser efetivada entre 4 e 6 de junho de 2007?
Responder a esta questão supõe reconhecer o modo como a pesquisa educacional está atualmente
organizada e, no seu interior, observar o desenvolvimento da história da educação.
Todos os balanços feitos recentemente na área possuem um ponto em comum: o
reconhecimento da expansão da pesquisa histórica em educação, seja pelo crescimento da malha
da pós-graduação em educação, seja pela presença da problemática educacional e da perspectiva
histórica presentes em programas vizinhos. 46
De modo equivalente, há que se registrar a expansão de grupos de pesquisa que têm voltado
sua atenção para a questão da educação, em diferentes instituições, como é o caso da
universidade, mas também em arquivos, centros de memória e documentação, centros de
referência e museus temáticos, para enumerar alguns. Nessa linha, deve-se considerar a
organização de sociedades de história da educação (de caráter regional e nacional), com seus
eventos e periódicos específicos, para fazer uma referência a iniciativas desenvolvidas no Brasil.
Estas, no entanto, só são compreensíveis se consideramos as redes internacionais de produção e
difusão do saber no campo: os lusos, os iberos e o ISCHE são bons exemplos dessas iniciativas.
47 48 49
Ao mesmo tempo, a circulação dos pesquisadores não tem se dado apenas por ocasião dos
grandes acontecimentos. Há, também, os projetos bilaterais, os estágios de pesquisa de doutorado
e pós-doutorado que, certamente, também têm contribuído para o desenvolvimento dos estudos
históricos. Sem a pretensão de esgotar a lista das ações que atestam o funcionamento do campo
da pesquisa histórica, considero que esses são elementos fortes que, pensados de modo articulado,
ajudam a compreender, ainda que parcialmente, o nascimento do I Encontro de História da
Educação do Rio de Janeiro.
Disse parcialmente, porque agora passo a explorar a questão do espaço onde o evento se
realiza: Niterói, e, particularmente, na Universidade Federal Fluminense.
Os pesquisadores do Rio de Janeiro não assistiram passivamente aos movimentos do campo da
história da educação. Foi no Rio, precisamente na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
(PUC-Rio), que tivemos o primeiro núcleo institucionalizado em termos de pós-graduação que
trabalhou de modo mais regular com a perspectiva histórica. Nesse programa, atuaram vários
professores, e nele também muitos colegas obtiveram seus títulos de mestrado e/ou doutorado,
com pesquisas no campo da história da educação. Ao lado da PUC-Rio, temos os programas de pós-
graduação em educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade do Estado
do Rio de Janeiro (UERJ) e Universidade Federal Fluminense (UFF) e, mais recentemente,
registramos o aparecimento de grupos de pesquisa em história da educação na Universidade
Católica de Petrópolis (UCP), Universidade Estácio de Sá (UNESA), Universidade Federal do Estado
do Rio de Janeiro (UNIRIO) e Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), para indicar outras
instituições. Ao lado disso, há uma dispersão da produção em história da educação em outros
programas, como demonstra o importante estudo de Alves (2005).
Considerando esse quadro, é possível compreender a realização do encontro preparatório para
criação da Sociedade Brasileira de História da Educação no Rio de Janeiro, nas dependências da
UFRJ; local, aliás, que, em 2000, sediou o I Congresso Brasileiro de História da Educação. Também
não é por acaso que, nas diretorias da SBHE, temos contado com representantes do Rio de Janeiro,
ocupando postos na tesouraria (1a gestão), vice-presidência e secretaria, na 2a e 3a gestões, assim
como na diretoria da região sudeste, na 4a gestão. A representação de pesquisadores do Rio de
50
Janeiro também pode ser observada nas coordenações do GT de História da Educação da ANPEd,
em que dois pesquisadores do Rio ocuparam a coordenação do mesmo. 51
Esses são alguns dos indícios da organização da pesquisa no plano estadual e da participação de
pesquisadores fluminenses nas instâncias de organização da área. Evidentemente, aqui, também
estou longe de fazer uma ressonância profunda da área. No máximo, temos uma radiografia
imprecisa.
No que se refere à instituição-sede da primeira edição do evento, trata-se de uma universidade
que possui programa de pós-graduação importante e de larga tradição na pesquisa em história e
em história da educação, como podemos perceber no quadro de professores da UFF, mas também
no quadro de colegas que aqui concluíram seus estudos em nível de mestrado e doutorado.
Portanto, a escolha da UFF pode ser explicada nesses termos, mas esta seria também uma
explicação parcial. O evento realizou-se aqui porque a instituição fez parte do pool de
universidades que foram envolvidas nesta edição e contou com a disponibilidade e competência da
professora Claudia Alves para organizar, com professores e alunos desta universidade, este evento,
com todas as grandezas e miudezas que um acontecimento como este exige para que ocorra com
sucesso. Ao lado disso, também contou com a colaboração das universidades parceiras (PUC-Rio,
UERJ, UFRJ e UNIRIO) que se ocuparam de tornar possível outras ações.
Outro elemento que concorreu para que esta edição tivesse se processado na UFF foi o fato de a
mesma não se situar na capital do estado. A idéia é de que o evento seja itinerante, e realizá-lo em
uma universidade fora do Rio nos pareceu ser um bom indicativo desta vontade de envolver e
atingir o estado do Rio de Janeiro como um todo.
Nesta arqueologia do evento, já comecei a me referir às instituições e pessoas, mas gostaria de
ressaltar algo que todos nós sabemos. Um evento implica uma agenda relativamente longa e a
suspensão da vida pessoal e institucional por longas horas. Evidentemente, um acontecimento
como este não se dá sem o envolvimento político e pessoal dos organizadores, dos dirigentes
52
institucionais, dos pareceristas, das instâncias de financiamento, dos grupos de apoio nas
53
diferentes instituições, mas, sobretudo, da anfitriã. Mas para que um congresso se realize, é
necessária a adesão da comunidade a este tipo de fraternidade que um evento pretende ser. Aqui
vou me permitir pensar as pessoas afetadas pelo evento, mas também o efeito dessa prática na
difusão da pesquisa e na proposição de uma agenda para a mesma.
Sabemos que não se faz boa ciência sem uma divulgação eficaz e regular do saber que se
produz. Nesse sentido, há vários veículos empregados para disseminação e popularização do saber
em história da educação. Já nos referimos à importância dos periódicos, mas também há os livros,
os jornais, as revistas, sítios na internet, literatura e, em alguma medida, TV, cinema, teatro e
rádio, para citar, talvez, as formas mais conhecidas. Poderíamos dizer que são formas
concorrenciais e os eventos aí devem ser considerados.
Na tentativa de pensar as formas concorrenciais de disseminação do saber que produzimos,
gostaria de chamar a atenção para as características do evento. Em um tempo no qual vibramos
com as possibilidades abertas pela informática, isso tem proporcionado uma espécie de novo
fetiche em torno da tecnologia. Finalmente, segundo os publicitários das novas tecnologias, ter-se-
ia encontrado um bálsamo, uma nova panacéia para todos os males da humanidade. No caso dos
eventos, incluindo as aulas, eles seriam melhores e mais democráticos se fossem feitos via rede,
pela internet, de modo “interativo”. Portanto, como uma espécie de aula expandida, os eventos
também não mais teriam razão de ser, posto que se constituiriam em uma face da velha e ineficaz
forma de difusão não interativa.
Considerando que produzimos ciência humana e social, creio que o debate presencial, das trocas
diretas e indiretas, da luz lançada por meio do encontro de homens e mulheres comprometidos/as
com a expansão da inteligência disponível sobre o objeto maior de nosso interesse, a educação,
não pode ser substituído por nenhuma das outras formas de disseminação. A importância dos
outros veículos não deve implicar uma minimização ou desprezo pelo regime de trocas que se dá
presencialmente, em eventos que cumprem protocolos de avaliação e de validação do saber, e que
produzem memória por meio dos suportes que um acontecimento como este proporciona.
Tendo me referido ao tempo, ao espaço e aos sujeitos que permitem compreender a emergência
do I Encontro de História da Educação do Rio de Janeiro, passo a trabalhar com a forma deste
acontecimento.
A Forma do Encontro
Pensado como um mecanismo institucional para organizar a área localmente, fora dos espaços
dos diferentes programas de pós-graduação que discutem história da educação (seja na educação,
história, ciências sociais, etc...), o encontro também funciona como uma espécie de censo mais
minucioso da produção no (e sobre o) Rio de Janeiro. Consideramos, igualmente, que a participação
em nível local tende a estimular a presença de sujeitos envolvidos com a pesquisa em história da
educação no plano regional, tornando mais possível identificar os fóruns de reflexão sobre história
da educação fluminense existentes, posto que eventos nacionais e internacionais tendem a
privilegiar a participação de grupos mais estruturados.
Como já dissemos, o encontro também se constitui em oportunidade para discutirmos mais
coletivamente nossas agendas de pesquisa e problemas comuns, para divulgar e identificar
acervos de interesse para a pesquisa em história da educação e promover articulação entre as
instituições de pesquisa, acervos e unidades escolares dos 93 municípios do estado do Rio de
Janeiro.
No que se refere à agenda, ela pode ser evidenciada na programação geral pensada para o
encontro que acabamos de experimentar. Como vimos, e como se segue, ele foi pensado em torno
de cinco momentos gerais, com uma abertura e um encerramento e três mesas-redondas,
concentradas nas manhãs e noites. As tardes foram reservadas para a comunicação dos trabalhos
e pôsteres.
Dia 6 (quarta-feira):
9 h: Mesa-Redonda Acervos, preservação documental e História
Prof. Dr. Jaime Antunes – Arquivo Nacional
Profa. Dra. Maria de Lourdes de Albuquerque Fávero – PROEDES/UFRJ
Profa. Dra. Beatriz Kushnir – Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro
14 h: Sessão de Comunicações
17 h: Mesa de Encerramento – Prof. José Gonçalves Gondra (UERJ)
Adesões
Tendo contado com uma adesão expressiva da comunidade fluminense, gostaríamos de pôr
55
instituições, trabalhamos com o conjunto dos resumos (pôsteres e comunicações) para dar uma
idéia mais geral da divulgação do evento, da mobilização que o mesmo foi capaz de imprimir e da
adesão efetiva dos pesquisadores de instituições fluminenses, mas também de outras regiões,
como veremos. No caso dos demais itens, mudamos de base, pois entendemos que um
levantamento mais preciso dos objetos, periodização, fontes e bibliografia seria feito por meio dos
textos completos. Neste caso, privilegiamos o conjunto dos 161 trabalhos completos remetidos. 57
As instituições
Objetos
Periodização
Do ponto de vista da periodização, trabalhamos com cinco períodos largos para testar a
concentração das temáticas deste evento.
a. 1500-1800 – 3
b. 1800-1850 – 2
c. 1850-1900 – 19
d. 1900-1950 – 28
e. 1950-2000 – 34
f. 2000-2007 – 10
g. Sem indicação precisa – 13
h. Dois ou mais períodos – 20
Este mapa indica uma concentração de trabalhos no período republicano, com um total de 72
trabalhos, isto é, cerca de 50% dos mesmos. O século XIX comparece com 21 trabalhos, sendo a
maior parte deles concentrada na segunda metade. Cabe, ainda, observar a presença de cinco
trabalhos que operam com um período extenso, procurando recobrir uma questão por mais de 100
anos e a rarefação de estudos sobre o período colonial. Curioso notar que a experiência fluminense
acompanha, de modo muito aproximado, a concentração dos estudos nas mesmas faixas temporais
observadas em outros eventos da área, como a que pode ser observada nos Congressos Brasileiros
de História da Educação. 58
Outra observação que caberia fazer diz respeito à existência de 13 trabalhos em que a
periodização não fica clara. Em alguns dos casos, isto é compreensível dado o caráter do trabalho.
Por exemplo, alguns trabalhos que discutem o estatuto de determinadas fontes, como a memória.
Essa reflexão é feita apanhando mais o debate sobre esta modalidade de fonte, fazendo com que a
periodização não apareça. De qualquer modo, tomando esta como uma das coordenadas
necessárias para a prática da pesquisa histórica, chama a atenção a pouca clareza deste aspecto
em cerca de 10% dos textos completos.
As fontes
No que se refere ao núcleo documental necessário para se fazer a pesquisa histórica, podemos
observar que se encontra profundamente associado aos objetos e períodos em exame, como seria
de se esperar. Cabe atestar, contudo, uma ampliação das fontes, com a manutenção de corpus
documentais tradicionais, como o são os de caráter administrativo. No entanto, ao lado deles,
acompanhando o debate sobre o estatuto do documento, na linha da reflexão já proposta desde
Marc Bloch, no século passado, também evidenciamos uma nova forma de tratar os documentos
mais tradicionais, mas, também, a presença e o incremento de novas fontes.
Esta evidência demonstra que os historiadores da educação descobriram efetivamente a
necessidade dos arquivos, públicos e privados, para o desenvolvimento de suas reflexões, o que
tem implicado uma renovação da história da educação, cujos efeitos ainda não conseguimos
avaliar com o rigor necessário.
Para efeito deste balanço, ao fazer um levantamento geral das fontes com as quais os
pesquisadores trabalharam, é possível demonstrar o que acabamos de apresentar de modo
genérico. Do ponto de vista de uma maior recorrência, encontramos as fontes legislativas, orais,
projetos, planos e estatutos institucionais. Ao lado destas, aparecem as revistas, jornais, imagens,
livros, manifestos e relatórios. De um modo mais disperso, temos, também, o recurso à literatura,
cadernos escolares, banco de dados, diários, planos de aula, guias de viagem, provas, anuários,
livros de freqüência, biografias, quadros de matrícula, históricos escolares, diplomas, convites de
formatura, atas e materiais escolares.
No levantamento, também foi possível observar um sistema de remissão às fontes utilizadas
feito de um modo bastante genérico. Alguns trabalhos fazem referência ao uso de fontes primárias
e secundárias, sem especificar quais, menos ainda, sem desenvolver uma reflexão acerca do
estatuto das mesmas. Há outros que indicam o acervo com o qual trabalharam, sem oferecer ao
leitor uma identificação mais detalhada acerca da massa documental encontrada e com a qual
operaram na pesquisa.
Nos limites desta comunicação, cabe assinalar a impossibilidade de se analisar o tratamento
dado à fonte na série dos trabalhos aceitos e remetidos em sua forma completa ao I EHED-RJ. No
entanto, este é um investimento necessário para se discutir a velha e necessária função do
documento na narrativa histórica, de modo a superar o uso da fonte como algo secundário e, no
limite, desnecessário. Do mesmo modo, cabe superar o outro extremo que afirma ser a fonte uma
transparência do real e que ela exprimiria toda a verdade. Neste sentido, uma reflexão acerca dos
usos da documentação na pesquisa histórica ainda é algo que merece e precisa ser feito, como
forma de teorizar acerca da história que estamos fazendo. Creio que investimento semelhante
precisa ser feito em relação à bibliografia que manejamos para compreender e interferir no debate
relativo aos problemas que estamos explorando no campo da pesquisa histórica. Com isto,
passamos a este último elemento.
A Biblioteca do I EHEd-RJ
Considerações finais
O término de um evento nos coloca diante do desafio de se perguntar sobre sua validade e sobre
sua continuidade. No nosso caso, a inimaginável adesão ao I EHED funciona como um termômetro
do interesse da comunidade fluminense em constituir e legitimar uma tribuna regular para
disseminar o que é feito localmente, e que também pode funcionar como espaço para pautar a
pesquisa que ainda precisamos fazer.
Neste sentido, há um indicativo de seqüência e este me parece ser o primeiro desafio a ser
lembrado/enfrentado. Este, no entanto, para seguir de modo conseqüente, supõe outros desafios,
como o da consolidação de núcleos de pesquisa e de redes de pesquisadores no território
fluminense. Ousaria pensar, inclusive, fora das universidades e/ou a elas articulados.
Creio que a capilarização da pesquisa histórica consolida essa forma de interrogar a educação e,
com isto, possibilita a dilatação de nosso saber e de nossa experiência relativa a essa matéria.
Creio que a consolidação deste modo de pensar a educação pode vir a constituir núcleos sólidos de
reflexão no que se refere à história da educação, o que pode estimular, por exemplo, a construção
de acervos documentais nos 93 municípios fluminenses e mesmo na imensa malha das escolas
públicas e privadas.
Acoplado à consolidação dos núcleos de pesquisa em história da educação no Rio de Janeiro,
cabe pensar as formas de visibilidade e difusão da documentação e de nossa produção. Desse
modo, pensar os acervos documentais pode estar associado à construção de acervos virtuais, de
modo a tornar mais disponível a documentação e a produção organizada pelos diferentes núcleos.
Outro desafio que imagino, a exemplo do que já se faz no Rio Grande do Sul, é a organização de
um periódico de história da educação do Rio de Janeiro. A forma e o suporte poderiam ser
discutidos, mas talvez seja possível pensar em um veículo interinstitucional que funcione como
elemento de ligação das diversas instituições de pesquisa e ensino de nosso estado e, ao mesmo
tempo, como uma ferramenta de difusão da história da educação fluminense em um intervalo
regular e próprio.
Outro desafio se constitui em enfrentar temas rarefeitos e/ou ausentes do I EHED-RJ. Um deles,
para exemplificar, refere-se ao ensino de história da educação. Creio que observar o que se ensina
em nome da história da educação nos cursos de graduação e nas demais licenciaturas, bem como
nos programas de pós-graduação, pode ser um instrumento bem fértil para avaliar o grau e o tipo
de relação que vem sendo estabelecido entre a reconhecida renovação da pesquisa e seus efeitos
nas salas de aula da graduação e da pós-graduação.
Estes são alguns desafios para os quais gostaria de chamar a atenção neste momento de
encerramento. Encerramento que só pode ser feito sob o signo da comemoração e da alegria,
inclusive pela possibilidade de identificar alguns problemas e de se pensar em uma agenda de
trabalho.
Devemos comemorar a possibilidade do encontro, do encontro que ultrapassou a forma do papel
e tinta e das telas dos computadores. Nesses três dias de trabalho, pudemos perceber que este
tipo de encontro é insubstituível e, como os demais, profundamente necessário.
Referências
44
Como todos os textos, este também contém algumas assinaturas invisíveis. No entanto, uma delas merece ser iluminada e esta é a
forma que encontrei para agradecer ao José Cláudio Sooma da Silva pelas leituras cuidadosas e generosas que fez de versões
anteriores a esta.
45
Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
46
Um mapa importante da produção recente da história da educação no Brasil pode ser conferido em Gondra (2005).
47
Trata-se do Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação, cuja sétima edição ocorreu na Cidade do Porto, em 2008.
48
Trata-se do Congresso Iberoamericano de Historia de la Educación Latinoamericana, cuja oitava edição aconteceu em 2007, em
Buenos Aires.
49
Trata-se da International Studyng Conference for History Education, cuja 29ª edição ocorreu em 2007, em Hamburgo.
50
A professora Ana Waleska Mendonça (PUC-Rio) ocupou a tesouraria e vice-presidência e a professora Libânia Nacif Xavier (UFRJ), a
secretaria da Sociedade Brasileira de História da Educação. Na última gestão, a regional Sudeste da SBHE foi coordenada pela
professora Claudia Alves (UFF).
51
Trata-se da professora Clarice Nunes (UFF/UERJ) e do professor José Gonçalves Gondra (UERJ).
52
Profa. Dra. Ana Waleska Pollo Campos Mendonça – PUC Rio, Profa. Dra. Claudia Alves – UFF, Prof. Dr. José Gonçalves Gondra – UERJ,
Profa. Dra. Libânia Nacif Xavier – UFRJ e Profa. Dra. Nailda Marinho da Costa Bonato – UNIRIO.
53
Chrystina Venâncio Mignot – UERJ, Ana Lúcia Cunha Fernandes – UFRJ, Ângela Maria Souza Martins – UNIRIO, Dácio Tavares Lobo
Junior – UFF, Heloisa de Oliveira Santos Villela – UFF, Lígia Martha Coimbra da Costa Coelho – UNIRIO, Luiz Reznik – PUC-RIO/UERJ,
Mirian Waidenfeld Chaves – UFRJ, Silvia Alicia Martinez – UENF, Sônia Câmara – UERJ, Tereza Fachada Levy Cardoso– CEFET e
Yolanda Lobo – UENF
54
Inicialmente convidado, o professor Manoel Luís Salgado Guimarães (UFRJ/UERJ) teve imprevisto pessoal e não pôde comparecer a
essa sessão.
55
Até o início do evento, contabilizamos 49 inscritos como ouvintes no evento.
56
Dos 207 resumos aprovados, foram 185 na modalidade Comunicação e 22 na modalidade Pôster. Quarenta e seis autores não
remeteram trabalho completo (comunicações orais e pôsteres) no prazo solicitado, de modo que os mesmos pudessem ser
incorporados ao CD-Rom do I EHED-RJ.
57
Agradeço o auxílio de Madison Oliveira Moraes (bolsista IC-CNPq) e Kelly Pereira Pinho (Bolsista EIC- UERJ) na realização deste
levantamento. No CD há 161 trabalhos, mas até o momento deste levantamento só dispunha de 133. Para uma visão dos trabalhos
completos e de sua distribuição pelos eixos, cf anexo 1.
58
Para acessar os trabalhos apresentados nas edições do Rio de Janeiro (2000), Natal (2002), Curitiba (2004) e Goiânia (2006), cf.
<www.sbhe.org.br>.
ANEXO 1
Do total de 207 trabalhos aprovados, foram para o CD 161 textos completos, considerando as
comunicações e pôsteres, com a seguinte distribuição por eixo temático: