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Luzuriaga, Larroyo, Manacorda e Cambi - Análise de Manuaisde História

1) O documento analisa quatro manuais de história da educação em circulação na formação de professores no Brasil entre 1955-2008. 2) Os manuais mais indicados foram de Franco Cambi, Mario Manacorda, Lorenzo Luzuriaga e Francisco Larroyo. 3) Luzuriaga e Larroyo abordaram a história da educação como história da cultura, inspirados por Dilthey, enquanto Manacorda usou uma perspectiva marxista e Cambi valorizou várias abordagens como marxismo e Annales.

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Luzuriaga, Larroyo, Manacorda e Cambi - Análise de Manuaisde História

1) O documento analisa quatro manuais de história da educação em circulação na formação de professores no Brasil entre 1955-2008. 2) Os manuais mais indicados foram de Franco Cambi, Mario Manacorda, Lorenzo Luzuriaga e Francisco Larroyo. 3) Luzuriaga e Larroyo abordaram a história da educação como história da cultura, inspirados por Dilthey, enquanto Manacorda usou uma perspectiva marxista e Cambi valorizou várias abordagens como marxismo e Annales.

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IX SEMINÁRIO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS “HISTÓRIA, SOCIEDADE E EDUCAÇÃO NO BRASIL”


Universidade Federal da Paraíba – João Pessoa – 31/07 a 03/08/2012 – Anais Eletrônicos – ISBN 978-85-7745-551-5

LUZURIAGA, LARROYO, MANACORDA E CAMBI: ANÁLISE DE MANUAIS DE HISTÓRIA 
DA EDUCAÇÃO EM CIRCULAÇÃO NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES NO BRASIL (1955‐
2008)* 
 

 
Décio Gatti Júnior  
(UFU)** 
[email protected] 
 
 
Resumo 
 
Este  trabalho  insere‐se  no  âmbito  da  história  disciplinar  da  História  da  Educação.  Partiu‐se  da  constatação  dos  autores 
estrangeiros de manuais afetos à disciplina História da Educação que foram traduzidos para o português e que alcançaram o 
maior número de indicações para leitura no exame de programas de ensino recentes da disciplina (55 cursos de graduação em 
Pedagogia, entre 2000 e 2008). Foram eles, pela ordem de freqüência: Franco CAMBI, História da Pedagogia, com 25 indicações 
e  primeira  edição  em  português  datada  de  1999;  Mario  Alighiero  MANACORDA,  História  da  Educação:  da  Antiguidade  aos 
nossos dias, com 20 indicações e primeira edição em português datada de 1989; Lorenzo LUZURIAGA, História da Educação e 
da  Pedagogia,  com  10  indicações  e  primeira  edição  em  português  datada  de  1955;  Francisco  LARROYO,  História  Geral  da 
Pedagogia,  2  tomos,  também  com  10  indicações  e  primeira  edição  em  português  datada  de  1970.  Conclusivamente,  os 
manuais  de  História  da  Educação  e/ou  da  Pedagogia  analisados  evidenciaram  serem  suportes  materiais  de  concepções  de 
história  e  de  mundo  diferenciadas,  por  meio  de  abordagens  ricas  e  vinculadas  a  matrizes  interpretativas  que  se  fizeram 
importantes na historiografia do Século XIX e XX. Assim, Luzuriaga e Larroyo, ainda que mediante ambigüidades, procedem a 
uma interpretação do passado educacional, por meio do recurso a idéia de unidades culturais ou de tipos históricos, inspiradas 
em Dilthey que expressava uma reação a redução das ciências humanas à epistemologia e aos métodos das nomeadas ciências 
da natureza. Manacorda, por seu turno, constrói sua interpretação a partir da tradição marxista, em especial daquela que se 
estende de Marx a Gramsci, evitando o economicismo, utilizando‐se, da noção de bloco histórico. Por fim, Cambi valoriza o que 
considera contribuições de diferentes concepções epistemológicas e metodológicas no âmbito da historiografia, dentre as quais 
destacou  o  marxismo,  a  historiografia  francesa  dos  Annales,  a  psico‐história  e  o  estruturalismo.  Há,  no  entanto,  uma 
coincidência  bastante  importante  nas  metodologias  investigativas  apresentada  pelos  autores,  o  que  aparece  nos  textos 
introdutórios,  mas,  também,  na  exposição  dos  conteúdos  ao  longo  das  obras  analisadas.  Trata‐se  de  uma  visão  bastante 
alargada  de  fonte  histórica,  seja  pela  característica  de  apreender  a  vida  e  o  cotidiano  presente  na  tradição  aberta  pela 
historiografia da educação de Dilthey, presente nas obras de Luzuriaga e Larroyo; seja no corte marxista humanista presente 
em Manacorda; seja ainda, na influência dos Annales sobre a pesquisa empreendida por Cambi. 

Palavras‐chave: Intelectuais. Manuais. Ensino. 

 
Trabalho  que  se  insere  no  âmbito  da  história  disciplinar  da  História  da  Educação,  estando 
alinhado  aos  esforços  investigativos  relativamente  recentes  levados  a  cabo  por  historiadores  da 
                                                           
*
  Estudo  vinculado  ao  projeto  de  pesquisa  “Intelectuais,  instituições  e  circulação  internacional  de  idéias  no  processo  de 
constituição da disciplina História da Educação no Brasil (1840‐2000)”, desenvolvido mediante apoio do CNPq e da FAPEMIG. 
**
 Doutor em Educação ‐ História e Filosofia da Educação ‐ pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, com estágio de 
pós‐doutorado  concluído na  Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.  Professor da  Universidade  Federal de 
Uberlândia. Bolsista de Produtividade em Pesquisa Nível 1D pela CNPq. Participante do Programa Pesquisador Mineiro pela 
FAPEMIG. E‐mail: [email protected] 
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IX SEMINÁRIO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS “HISTÓRIA, SOCIEDADE E EDUCAÇÃO NO BRASIL”
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educação  no  exterior  e  no  Brasil1.  Neste  caso,  partiu‐se  da  constatação  dos  autores  estrangeiros  de 
manuais afetos à disciplina que foram traduzidos para o português e que alcançaram o maior número de 
indicações para leitura no exame dos programas de ensino da disciplina História da Educação em vigor 
no  Brasil,  a  partir  de  levantamento  realizado  junto  a  55  cursos  de  graduação  em  Pedagogia, 
compreendendo  o  período  de  2000  a  2008,  em  instituições  de  educação  superior  do  país,  conforme 
resultado de pesquisa apresentado em Gatti Jr. (2009, p. 119‐26). 
São eles, pela ordem de freqüência: Franco CAMBI, História da Pedagogia, com 25 indicações e 
primeira edição em português datada de 1999; Mario Alighiero MANACORDA, História da Educação: da 
Antiguidade  aos  nossos  dias,  com  20  indicações  e  primeira  edição  em  português  datada  de  1989; 
Lorenzo  LUZURIAGA,  História  da  Educação  e  da  Pedagogia,  com  10  indicações  e  primeira  edição  em 
português  datada  de  1955;  Francisco  LARROYO,  História  Geral  da  Pedagogia,  2  tomos,  com  10 
indicações e primeira edição em português datada de 19702. 
 
1. Luzuriaga: história da educação e da pedagogia como história da cultura 
 
Narciso Eladio Lorenzo Luzuriaga y Medina, conhecido como Lorenzo Luzuriaga, nasceu em 1889, 
no município de Valdepeñas, província de Ciudad Real, comunidade autônoma de Castilla‐La Mancha, na 
Espanha. Em 1936, emigrou como exilado para Buenos Aires, na Argentina, o que perdurou por 23 anos, 
até  seu  falecimento,  em  1959.  Segundo  Warde  (1998a,  p.  77‐8),  no  processo  de  formação  do  autor 
destacam‐se três pontos. O primeiro  refere‐se  seu envolvimento  com a Institución Libre  de Enseñanza 
(ILE), bem como de seu trabalho junto ao Museu Pedagógico. A ILE aglutinava  
                                                           
1
 A título de exemplo podemos elencar alguns autores e obras que de maneiras diferenciadas se  referem à investigação no 
recorte temático da história diciplinar da História da Educação, a saber: LOPES, 1986; WARDE, 1990, 1998a, 1998b; NUNES, 
1992,  1996;  NÓVOA,  1994;  DEPAEPE,  1994;  GHIRALDELLI  JR.,  1994;  CARVALHO,  1998;  ASCOLANI,  2000,  2009a,  2009b; 
GONDRA,  2001; VEIGA e FARIA FILHO,  2001; VIDAL e  FARIA FILHO, 2003; BONTEMPI,  2003; BASTOS,  2006, 2009; SAVIANI, 
2005; GATTI JR., 2007, 2008, 2009; TOLEDO, 2007; MONARCHA, 2007, 2009; COSTA RICO, 2009; LORENZ, 2009; FERNANDES, 
2009; ESCALANTE FERNÁNDEZ, 2009 etc. 
2
 A próposito dos autores e obras mencionados nos referidos programas de ensino, é importante mencionar ainda que o autor 
Henri‐Irénée Marrou, alcançou 19 indicações de sua obra História da Educação na Antiguidade que teve sua primeira edição 
em português datada de  1966.  Porém, para os fins desse trabalho, a referida obra não foi examinada, sendo importante 
destacar a qualidade do trabalho recentemente publicado sobre a historiografia desse autor por LOPES (2005). Por outro lado 
é  importante  mencionar  também  que  obras  traduzidas  para  o  português  que  marcaram  época  no  ensino  de  História  da 
Educação brasileiro da segunda metade do Século XX, não encontraram menção significativa nos programas examinados na 
década de 2000, tais como, por exemplo: MONROE (1946), EBY (1962) e PONCE (1963). 
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[...]  o  que  havia  de  renovador  na  intelectualidade  espanhola  de  fins  do  século  XIX  e 
início  deste.  Era  uma  instituição  a  serviço  da  reforma  pedagógica;  mais  do  que  um 
estabelecimento  de  ensino,  representava  para  os  seus  membros  uma  “continuidade 
espiritual”, consagrada ao cultivo e à propagação da ciência em suas diversas formas. Os 
seus  estatutos  estabeleciam  que  a  ILE  era  completamente  alheia  a  todo  espírito  e 
interesse  de  comunhão  religiosa,  escola  filosófica  ou  partido  político,  proclamando 
somente  o  princípio  da  liberdade  e  inviolabilidade  da  ciência  e,  em  decorrência,  da 
independência de consciência do professor, único responsável por suas doutrinas. 
 
  Um  segundo  aspecto  formativo  diz  respeito  à  aproximação  de  Luzuriaga  a  Ortega  y  Gasset3, 
outro  exilado  espanhol  radicado  na  Argentina  (entre  1936  e  1945),  o  que  se  dava  em  especial  pela 
experiência alemã de ambos, o que significaria o incentivo a circulação de obras de Herbart e Pestalozzi, 
por exemplo. Mas essa vinculação a Ortega y Gasset não se resumiria a esse fato, dado que Luzuriaga foi 
também seu aluno; inscreveu‐se na Liga de Educação Política; colaborou em jornais criados por Ortega y 
Gasset;  compôs  o  pequeno  grupo  de  jovens  que  orbitava  em  torno  do  conhecido  pensador.  Segundo 
Warde (1998a, p. 79), 
  De  Ortega,  Luzuriaga  absorveu  o  alerta  “sobre  o  anacronismo  em  que  incorre  toda  pedagogia 
que se centre no cidadão e se esquece de tudo o mais que é o indivíduo”. O equilíbrio entre socialização 
e  individualismo  pode‐se  observar  na  concepção  filosófica  da  razão  vital  de  Ortega  y  Gasset.  O 
humanismo, que une na educação o vitalismo e o culturalismo, passou a ser para Luzuriaga a síntese do 
social, do vital e do cultural, e o seu modo de explicar as relações entre educação e sociedade  
  Por fim, Warde (1998a, p. 78‐9), salienta como terceiro fator formativo, a inserção de Luzuriaga 
na  Escola  Nova,  vista  como  instituição  e  movimento,  criada  em  1911,  por  meio  da  oferta  de  “cursos 
elementares  para  trabalhadores  sobre  desempenho  de  ofício,  sobre  questões  jurídicas  e  políticas, 

                                                           
3
 José Ortega y Gasset (1883‐1955) foi um importante filósofo espanhol, com atuação política ativa e que exerceu também o 
jornalismo. A semelhança de Luzuriaga, também esteve exilado na Argentina. NAVARRO CORDON e CALVO MARTINEZ (1990, 
p. 75) o tomam como membro da corrente filosófica designada como vitalista, cuja reflexão gira em torno do tema da vida, 
do qual fazem parte, não sem ambigüidades, Nietzsche, Dilthey e Bergson. Para os autores, o “termo vitalismo pode referir‐se 
a dois conceitos distintos de vida: a vida em sentido biológico e a vida em sentido biográfico, isto é, como existência humana 
vivida. Este último conceito de vida está em relação essencial com o conceito de vivência. Dos quatro filósofos vitalistas acima 
citados, W. Dilthey centrou a sua reflexão na vida entendida do segundo modo. Ortega y Gasset ocupou‐se da vida em ambos 
os  sentidos,  embora  se  possa  afirmar  que  nas  primeiras  obras  [...]  se  ocupou  mais  da  vida  biologicamente  entendida, 
enquanto na sua produção posterior prestou preferencialmente atenção à vida humana, num sentido muito próximo do de 
Dilthey.  [...]  Daí  que  a  Historicidade  seja  traço  essencial  das  realizações  culturais,  e  estas,  portanto,  não  possam  ser 
compreendidas nem interpretadas adequadamente a não ser sob a perspectiva história. Dilthey e Ortega, por consequência, 
podem ser considerados, em certo sentido, como historicistas”. 
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direitos trabalhistas etc.”. A Escola tornar‐se‐ia,  simultaneamente um lugar de  formação  técnica e um 


lócus de formulação de teoria socialista, tendo Luzuriaga um papel de destaque nesse processo. 
  A extensa obra de Luzuriaga emergiu, tanto a partir desse processo de formação, mas também, 
da  realidade  vivenciada  no  exílio  na  Argentina.  Segundo  Warde  (1998a,  p.  73‐4),  na  década  de  1950, 
textos  do  autor  tomariam  lugar  central  nas  traduções  promovidas  para  o  português  no  Brasil,  o  que 
ocorreu no âmbito da importante  série Atualidades Pedagógicas da Companhia Editora Nacional4, por 
meio da publicação de cinco de suas obras, incluindo, em 1955, a História da Educação e da Pedagogia. 
  Luzuriaga  introduz  sua  obra  ressaltando  seu  caráter  didático  e,  a  partida,  assinalando  a 
diferenciação  entre  história  da  educação  e  história  da  pedagogia.  Salienta  também  seu  caráter 
pragmático, de estudos de idéias que sobreviveram ao tempo e que “[...] podem contribuir para resolver 
os problemas de nosso tempo” (LUZURIAGA, 1963, p. XV). Para ele,  
  Na  exposição  intentamos  também  estabelecer  a  mais  íntima  conexão  entre  realidade 
educacional e idéias pedagógicas, pois ambas mais não são que partes de um todo indivisível: a própria 
educação. Antepusemos educação a Pedagogia, não por crer aquela mais valiosa, mais porque assim se 
tornava mais claro o estudo de ambas. Por ora, sem resolver se o ideal da educação surge da realidade 
educacional o se, antes, esta procede daquele. Por ora, devemos apenas advertir que, para nós, os ideais 
não  são  algo  de  vago  e  flutuante,  distanciado  da  realidade,  mas  precisos  e  concretos  como  a  própria 
realidade. Constituem,  com efeito, parte tão intrínseca de nossa vida  e da  sociedade humana, quanto 
nossas ações e as instituições sociais, geralmente mais caducas e circunstanciais que os ideais humanos 
históricos (LUZURIAGA, 1963, p. XV‐XVI). 
  Ao  discorrer  sobre  a  compreensão  do  aspecto  ideal  e  real  da  educação,  diferenciando‐os, 
Luzuriaga, assinala a importância do conhecimento da histórica  geral e, particularmente, da história da 
cultura,  que  permite  a  compreensão  do  sentido  da  história.  Nessa  direção,  Luzuriaga  busca  suporte 
teórico em Dilthey ao afirmar que 
 
Ao falar do valor humano da história, Dilthey, seu grande mestre, adverte: “Só a história 
nos diz o que o homem é. É inútil, como fazem alguns, desprender‐se de todo o passado 
para recomeçar a vida sem qualquer preconceito. Não é possível desprender‐se do que 
                                                           
4
  Para  compreender  a  importância  da  série  Atualidades  Pedagógicos  no  contexto  luso‐brasileiro,  consultar,  por  exemplo, 
TOLEDO (2007). 
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foi; os deuses do passado se convertem em fantasmas. A melodia de nossa vida traz o 
acompanhamento do passado. O homem se livra do tormento e da fugacidade de tôda 
alegria,  mediante  dedicação  aos  grandes  pôderes  objetivos  criados  pela  história” 
(LUZURIAGA, 1963, p. XVI). 
 
  A  aproximação  com  a  leitura  conferida  à  história  da  cultura  em  Dilthey5  é  evidenciada  em 
Luzuriaga  quanto  afirma  que  “[...]  a  história  da  cultura  se  refere  antes  aos  produtos  da  mente  do 
homem,  tais  como  se  manifestam  na  arte,  na  técnica,  na  ciência,  na  moral  ou  na  religião  e  em  suas 
instituições  correspondentes”  (LUZURIAGA,  1963,  p.  1),  considerando  que  a  educação  enquadra‐se 
nesse  campo  de  manifestações  culturais,  tendo,  por  decorrência  uma  história.  Esta  influência  é 
evidenciada ainda quando Luzuriaga discorre sobre o conceito de educação como sendo, 
 
[...] a influência intencional e sistemática sôbre o ser juvenil, com o propósito de formá‐
lo e desenvolvê‐lo.  Mas significa  também a ação  genérica, ampla, de uma sociedade 
sôbre as gerações jovens, com o fim de conservar e transmitir a existência coletiva. A 
educação  é,  assim  parte  integrante,  essencial,  da  vida  do  homem  e  da  sociedade,  e 
existe  desde  quando  há  sêres  humanos  sôbre  a  terra.  Por  outro  lado,  a  educação  é 
componente tão fundamental da cultura quanto a ciência, arte ou a literatura. Sem a 
educação não seria possível aquisição e  transmissão da cultura, pois pela  educação é 
que a cultura sobrevive no espírito humano. Cultura sem educação seria cultura morta. 
E esta é  também uma das funções essenciais da educação: fazer sobreviver a cultura 
através dos séculos (LUZURIAGA, 1963, p. 1‐2). 
 
  Diferencia, no entanto, educação de pedagogia, qualificando a segunda, a partir de Dilthey, como 
ciência  do  espírito  (relacionada  à  filosofia,  psicologia,  sociologia  etc.).  Para  ele,  a  pedagogia  é  “[...] 
reflexão sistemática sôbre educação. Pedagogia é a ciência da educação: por ela é que a ação educativa 
adquire  unidade  e  elevação.  Educação  sem  pedagogia,  sem  reflexão  metódica,  seria  pura  atividade 
mecânica, mera rotina” (LUZURIAGA, 1963, p. 2). 
                                                           
5
  Wilhelm  Dilthey  (1833‐1911)  ,  importante  filósofo  alemão,  com  estudos  de  filosofia  e  de  teologia,  tendo  ensinado  nas 
universidades da Basiléia, Kiel, Breslau e Berlim, entre 1866 e 1882. BURGUIÈRE (1993, p. 228‐9), informa que “[...] o essencial 
de sua reflexão foi consagrado à elaboração de uma teoria do conhecimento das ‘ciências do espírito’ [...], nesse esforço, a 
reflexão  sobre  a  história  ocupa  lugar  central,  consciente  das  fraquezas  teoricas  e  metodologicas  do  empirismo  positivista 
praticado pela maioria dos historiadores de sua época, Dilthey procurou alcançar dois objetivos: dar novamente à pesquisa 
histórica  bases  filosóficas  e  científicas  seguras  [...];  ajudar  em  seguida  a  compreender  as  origens  e  a  estrutura 
(Zuzammenhang)  do  espírito  europeu.  Para  Dilthey,  a  originalidade  da  ‘compreensão’  (Verstehen)  na  história  (como  nas 
outras ‘ciências do espírito’, por contraposição às ciências da natureza) decorre do fato de que o objeto do saber é ao mesmo 
tempo seu sujeito – e de que, em tais condições, as categorias da compreensão histórica são quase as mesmas da experiência 
vital  (Erleben).  Mas,  diferentemente,  dos  historiadores  de  seu  tempo,  Dilthey  acentua  os  componentes  irracionais  da 
natureza humana. Para ele, o pensamento é tanto uma expressão de funções vitais quanto um processo racional. Em última 
instância, o pensamento é subjetivo e pessoalmente determinado (cf. a noção por ele criada de (Weltanschauung)”. 
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  Assim, a obra dividiu‐se didaticamente em exposição sobre, de um lado, a história da educação e, 
de  outro,  a  história  da  pedagogia,  como  verso  e  anverso  da  realidade  cultural.  A  educação  tem  uma 
história, de mudança e desenvolvimento, mas, simultaneamente, é parte da história da cultura, em uma 
relação de  mão dupla. A pedagogia, por  seu  turno, que trata da face teórica e  científica da  educação, 
também  tem  uma  história.  Nesse  caso,  porém,  “  [...]  estuda  o  desenvolvimento  das  idéias  e  ideais 
educacionais,  a  evolução  das  teorias  pedagógicas  e  as  personalidades  mais  influentes  na  educação.  A 
história da pedagogia  está ìntimamente  relacionada com as  ciências do espírito e, tal  como a história 
delas,  é  relativamente  recente”  (Grifo  do  autor,  LUZURIAGA,  1963,  p.  2‐3).  Com  estas  diferenças 
estabelecidas, o autor passou à demonstração dos marcos temporais da gênese de uma e da outra, pois 
que, para ele, a educação remonta ao início da vida humana, mas a pedagogia tem início com a reflexão 
filosófica de uma personagem da envergadura de Sócrates.  
Luzuriaga  estabelece  os  fatores  históricos,  culturais  e  sociais  aos  quais  educação  e  pedagogia 
estão  relacionados,  incluindo:  a  situação  histórica  geral  de  cada  povo  e  de  cada  época,  o  caráter  da 
cultura, a estrutura social e a vida econômica. Em seguida, expõe os fatores propriamente educacionais e 
pedagógicos, a saber: os ideais de educação, a concepção estritamente pedagógica, a personalidade e a 
atuação dos grandes educadores, as reformas das autoridades oficiais e as modificações das instituições 
e métodos da educação (LUZURIAGA, 1963, p. 3‐4). 
  Após  esses  apontamentos,  Luzuriaga,  apesar  de  salientar  as  dificuldades,  apresenta  uma 
proposta que se refere às fases principais do desenvolvimento histórico da educação e da pedagogia que 
estará  presente  na  obra:  a  educação  primitiva,  a  educação  oriental,  a  educação  clássica,  a  educação 
medieval,  a  educação  humanista,  a  educação  cristã  reformada,  a  educação  realista,  a  educação 
racionalista  e  naturalista,  a  educação  nacional.  Por  fim,  apresenta  a  educação  democrática, 
caracterizando‐a  como  a  “[...]  que  faz  da  livre  personalidade  humana  o  eixo  das  atividades, 
independentemente de posição econômica e  social, e proporciona a  maior  educação possível ao maio 
número possível de indivíduos” (LUZURIAGA, 1963, p. 7).  
Sobre  as  variadas  fontes  consultadas  para  a  produção  do  manual,  Luzuriaga  informa  que  se 
serviu de obras religiosas fundamentais, de obras literárias clássicas, das obras mestras do pensamento 
universal, das obras  fundamentais da  Pedagogia, das biografias  e autobiografias, das leis  e disposições 
legais. Para ele,  
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  Tôdas  essas  fontes  e  muitas  que  poderíamos  citar,  constituem  os  meios  ou  instrumentos 
necessários ao estudo da história da educação, a qual não é algo de vago, abstrato, extraído da cabeça 
dos educadores e pedagogistas, e sim parte viva da realidade humana presente e passada (LUZURIAGA, 
1963, p. 8). 
Ao  comentar  sobre  a  finalidade  do  estudo  de  história  da  educação  e  da  pedagogia,  Luzuriaga, 
busca  referência  em  autores  de  tendências  analíticas  diferenciadas,  apresentando  intelectuais 
vinculados ao pragmatismo, ao positivismo e ao historicismo. Por mais ambíguo que possa parecer esse 
arranjo, ele faz sentido para os propósitos do autor. Assim, pela ordem, aparecem referências a Dewey, 
Jaspers, Dilthey, Zegler e Durkheim e Spranger, a saber: 
 
[...]  O  passado  como  passado  –  diz  Dewey  –  não  é  nosso  objetivo.  Se  fôsse 
completamente  passado,  não  haveria  mais  que  uma  atitude  razoável:  deixar  que  os 
mortos  enterrassem  os  mortos.  Mas  o  conhecimento  do  passado  é  a  chave  para 
entender o presente. 
[...] diz o filósofo Karl Jaspers: “É a história que nos abre mais vasto horizonte, que nos 
transmite  os  valôres  tradicionais  capazes  de  nos  fundamentar  a  vida.  Liberta‐nos  do 
estado de dependência em que nos achamos, inscientes disso em relação a nossa época 
e  nos  ensina  a  ver  as  possibilidades  mais  elevadas  e  as  criações  inesquecíveis  do 
homem... Nossa experiência atual, melhor a compreendemos no espelho da história, e 
o  que  ela  nos  transmite  adquire  vida  à  luz  de  nosso  tempo.  Nossa  vida  prossegue, 
enquanto o passado e o presente não deixam de iluminar‐se recìprocamente. 
[...] O passado com seus intentos felizes e seus malogros – diz Dilthey – ensina tanto a 
pedagogista como a políticos. 
[...] A história nos  ensina ainda mais, diz  Ziegler: a modéstia  com  todo o seu saber e 
poder,  com tôdas as suas idéias novas; o indivíduo mais não é que pequena mola na 
grande obra do desenvolvimento histórico. 
[...] Em lugar de não considerar mais que o homem de um instante – diz Durkheim – o 
que cumpre é considerá‐lo em função do futuro. Em vez de encerrarmo‐nos em nossa 
época, cumpre, ao contrário, sair dela, para que nos subtraiamos de nós mesmos, de 
nossas opiniões estreitas, parciais  e partidárias. E é precisamente para isso que deve 
servir o estudo histórico do ensino. 
[...]  a  respeito  do  valor  da  história  da  educação  diz  Spranger:  “Não  é  apenas,  em 
absoluto,  trabalho  estéril,  de  antiquário.  A  história  da  educação  é  antes,  quando 
devidamente cultivada, quem dá aquela amplitude, aquela clareza e aquela elevação da 
consciência cultural sem as quais a educação não passaria de ofício muito estreito. Não 
pode  reunir  ùnicamente  opiniões  estranhas  e  organizações  escolares  de  épocas 
extintas, senão que lhe cumpre ser autênticamente história da cultura.  
(LUZURIAGA, 1963, 9‐10) 
 

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  A propósito desse universo de intelectuais  citados por Luzuriaga, destacam‐se  como  referência 


mais  marcante em  sua obra, Dilthey  e Durkheim, não por coincidência também dois autores de obras 
dedicadas a história da educação e da pedagogia que tiveram grande repercussão internacional6. Nesse 
sentido,  Ghiraldelli  Jr.  (1994)  vincula  a  ação  de  Dilthey  (Alemanha)  e  de  Durkheim  (França)  ao 
movimento de  criação e de institucionalização de novos  cursos e de novas disciplinas na Europa. Para 
ele,  Dilthey  buscou  fundamentos  epistemológicos  para  as  ciências  do  espírito  (por  meio  do 
desenvolvimento  de  uma  psico‐história)  e,  Durkheim,  deu  continuidade  à  construção  da  moderna 
sociologia.  Porém,  o  que  contribui  mais  diretamente  para  compreender  os  autores  referenciados  por 
Luzuriaga é o fato de que  
Dilthey e Durkheim vão além de um trabalho geral de delimitação e fundamentação das 
ciências  da  sociedade  e  da  cultura.  Convencidos  da  importância  da  razão  histórica, 
partilham da idéia de que a formação pedagógica  correta do professor primário e/ou 
secundário  deve  se  pautar  por  um  sólido  conhecimento  das  formas  educacionais  e 
pedagógicas do passado. Trabalhando  com essa  idéia eles se  tornam, durante algum 
tempo, historiadores da educação. Rediscutindo esse assunto, colaboram para a fixação 
de  disciplinas  com  o  nome  de  “história  da  educação”  e  similares,  e  praticamente 
deixam  uma  marca  que  se  transfere  decisivamente  à  historiografia  da  educação 
produzida  posteriormente,  principalmente  aquela  historiografia  típica  dos  manuais 
ligados à formação dos professores e educadores. Mais conhecidos como “teórico das 
ciências do espírito” e “pai da sociologia moderna”, Dilthey e Durkheim são, também, 
historiadores  da  educação,  responsáveis  por  determinados  tipos  de  pensamento  de 
gerações subseqüentes de professores e pesquisadores desta área do saber. E  talvez 
seja  possível  dizer  que  eles,  enquanto  historiadores  da  educação,  se  vincularam  ao 
historicismo  e  ao  positivismo  de  maneira  bastante  peculiares,  distintas  daquelas 
descritas  pela  maioria  dos  comentadores  e  historiadores  da  filosofia  e  das  ciências 
sociais;  isto  é,  talvez  o  historicismo  e  o  positivismo  tenham  encontrado  suas  formas 
mais  típicas  em  Dilthey  e  em  Durkheim  justamente  enquanto  historiadores  da 
educação (Grifos do autor. GHIRALDELLI JR., 1994, p. 69‐70). 
 
2. Larroyo: fatos pedagógicos, política e teorias educacionais na história da pedagogia 
 
Segundo  consta  do  texto  de  Escalante  Fernández  (2009,  p.  2),  Francisco  Larroyo  nasceu  na 
Cidade do México, em 1912, tendo falecido na mesma cidade, em 1981. Em 1930, obteve titulação como 
professor  normalista.  Em  1934,  obteve  sua  licenciatura  em  Filosofia  e,  no  ano  seguinte,  em  1935,  em 
                                                           
6
 A título de exemplo, é possível encontrar em bibliotecas brasileiras mais tradicionais a tradução para o espanhol intitulada 
História de la  Pedagogia, de Dilthey  (1965)  e a versão original em francês da Evolución  Pedagogique en  France (1969), de 
Durkheim, bem como sua tradução para o português, sob o título A Evolução Pedagógica (1995). 
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Pedagogia. Ambos na Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM). No início da década de 1930, 
estudou na Universidade de Côlonia, na Alemanha, mas não existem informações sobre a obtenção de 
algum  título  em  função  destes  estudos.  Em  1938,  obteve  seu  doutorado  com  tese  sobre  ética  social. 
Com  extensa  obra  filosófica  e  pedagógica,  Larroyo  também  traduziu  diversas  obras  de  filósofos 
europeus, tendo sido, inclusive presidente da Federación Internacional de Sociedades de Filosofia.  
Sua  atividade  docente  junto  a  UNAM,  segundo  informa  Escalante  Fernández  (2009,  p.  3)  foi 
marcada como um dos incentivadores da leitura dos textos clássicos, mas também da pedagogia como 
uma  carreira  universitária,  tendo  sido  fundador  do  Colégio  de  Pedagogia  em  1955  e  diretor  da 
Faculdade,  entre  1958  e  1966.  Lecionou  História  da  Pedagogia,  teoria  Pedagógica  como  Ciência  da 
Educação, Filosofia da Educação, Didática do Ensino Superior e História da Educação no México. Exerceu 
a  direção  do  Instituto  Nacional  de  Pedagogia  (1943),  a  presidência  da  Comissão  Nacional  do  Livro 
Didático (1948) etc. Participou de comissões nacionais ligadas à questão educacional e, em 1947, criou a 
Escuela  Nacional  de  Educadoras.  Boa  parte  da  obra  de  Francisco  Larroyo  esteve  a  cargo  da  Editorial 
Porrúa,  importante  casa  editora  e  livraria  mexicana,  fundada  em  1900,  com  destacada  atuação  na 
publicação e vendagem de livros vinculados a Filosofia, a Educação, a História e a literatura. 
  Em  História  Geral  da  Pedagogia,  a  semelhança  de  Luzuriaga,  Larroyo  promove  uma  leitura  da 
história  da  pedagogia  a  partir  de  pressupostos  do  vitalismo,  em  especial  de  Dilthey.  Houve,  porém,  a 
menção  ao  filósofo  neokantiano  alemão  Wilhelm  Windelband,  fundador  da  axiologia7,  que  ocupa  o 
frontispício do conjunto de nove prólogos que Larroyo redigiu para as diferentes versões da obra, pelo 
menos, conforme pode ser visto na 3ª edição em português publicada no Brasil, em 1979. Nesse sentido, 
no  prólogo  da  sexta  edição,  escrito  entre  1958‐9,  Larroyo  demonstra  sua  vinculação  a  Dilthey  e  a 
Windelband simultaneamente, a saber: 
  Uma vez mais se edita esta HISTÓRIA GERAL DA PEDAGOGIA, e mais uma vez a obra tem como 
patrono  Wilhelm  Windelband.  Explica‐se  e  justifica‐se  esse  patrocínio.  W.  Windelband  e  W.  Dilthey 
foram, no decurso do século atual, isto é, século XX, os melhores historiadores de idéias. Do primeiro, o 
autor  recebeu  perceptíveis  influências  quanto  ao  método  ideográfico  das  concepções  do  mundo  e  da 
vida; do segundo, aquilo que se relacionou com o conceito de tipo histórico. Sem dúvida, o enfoque da 

                                                           
7
 No que se refere à questão da filosofia dos valores, consultar MEES (2008). 
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Pedagogia universal, em sua história à luz de tais idéias, deu ao livro um caráter distinto (Grifos do autor. 
LARROYO, 1979, p. 7‐8). 
  Larroyo  toma  o  objeto  da  história  da  pedagogia  como  referido,  de  um  lado,  ao  que  de  mais 
profundo e significativo ocorreu desde o passado mais remoto (profundidade). Por outro lado, refere‐se 
ao fato pedagógico, a teoria educativa e a política educacional (extensão), tomando o fato pedagógico, 
como o modo de realização, no espaço e no tempo, do acontecimento de assimilação da cultura e dos 
fatores  que  o  determinam,  sendo  um  fato  que,  primeiramente,  cabe  à  história  da  Pedagogia 
compreender  e  narrar;  a  teoria  da  educação,  como  sendo  aquela  que  descreve  o  fato  educativo, 
buscando  suas  relações  com  outros  fenômenos;  ordena‐o  e  o  classifica;  procura  os  fatores  que  o 
determinam, as leis em que se acha submetido e os fins que persegue; a política educativa que é “[...] o 
conjunto de preceitos obrigatórios por força dos quais se estabelece uma base jurídica, de Direito, para 
levar  a  cabo  as  tarefas  da  educação.  Na  vida  contemporânea  não  se  limita,  de  forma  alguma,  a 
regulamentar a vida escolar (política escolar); inclui todos os domínios da cultura nos quais se propaga a 
educação: na imprensa e no rádio, no teatro e no cinema etc. [...]”. (LARROYO, 1979, p. 15‐7). O próprio 
autor resume suas idéias do seguinte modo: 
 
[...] a História da Pedagogia descreve e explica, em sucessão cronológica, a vida 
real da educação  (fato pedagógico) assinalando cuidadosamente, os preceitos 
jurídicos  (política  educativa)  que  trataram  de  regulamentá‐la,  assim,  como  as 
doutrinas  e  técnicas  educativas  que  buscaram  interpretá‐la  e  realizá‐la  do 
melhor modo (teoria e técnica da educação) (LARROYO, 1979, p. 18). 
 
  Em  termos  metodológicos,  Larroyo,  novamente  inspirado  em  Dilthey  e  no  vitalismo  do  qual  é 
portador, informa que a história da pedagogia possui um método para reconstruir a vida educativa das 
sociedades passadas, baseado na idéia de unidades culturais ou históricas, sendo que  
 
A  unidade  histórica  é  um  conjunto  de  ocorrências  organicamente  entrelaçadas,  um 
grupo  de  acontecimentos  unidos  de  tal  forma  que  dão  a  impressão  de  um  tecido 
compacto de tarefas sociais. Os filósofos da História servem‐se de variados nomes para 
designar esses fenômenos, mais ou menos complexos; falam do “ambiente” da época 
(Jaspers), das “características” do tempo (Fichte), do “estilo” de cultura (Spengler). As 
unidades  históricas  são  complexões  de  fatos  singulares  que,  à  primeira  vista  exibem 
uma  íntima  travação  genética,  silhuetas  de  acontecimentos  no  universo  do  devir 
humano. Nelas se fundamenta a divisão orgânica da História (LARROYO, 1979, p. 20). 
 
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Para  o  autor,  três  são  os  fatores  que  delimitam  as  unidades  históricas  na  vida  da  educação,  a 
saber: o fator pragmático,  entendido  como a eficácia  e influência do  fato pedagógico na sociedade; o 
fator  histórico‐cultural,  consubstanciando  o  contexto  e  o  ambiente  ao  qual  se  vincula  o  processo 
educativo no tempo e no espaço; o fator progressivo, referido ao avanço didático, ao acerto pedagógico 
que supera idéias ou instituições precedentes. 
  No  que  diz  respeito  às  fontes  acionadas  na  História  Geral  da  Pedagogia,  Larroyo  ressalta  sua 
variedade,  incluindo:  os  restos  (utensílios  de  toda  classe,  edifícios,  moedas,  costumes,  jogos,  línguas, 
documentos oficiais e privados, códigos etc.), as memórias, os anais, as crônicas (assim como as obras‐
primas do pensamento universal); as obras clássicas da Pedagogia (as mais importantes para o autor); a 
legislação e política educativas. Assim, o processo de pesquisa é apresentado por  Larroyo como sendo 
portador de quatro fases, a saber:  1ª.  Fase ‐  Heurística  (busca das  fontes); 2ª. Fase  ‐ Crítica das fontes 
(verificação da autenticidade); 3ª. Fase  ‐ Hermenêutica  (interpretação das  fontes); 4ª. Fase  ‐ Exposição 
histórica (o quadro histórico, vivo, articulado, selecionando e tipificando os fatos passados). 
  No  intento  de  superar  as  divisões  tradicionais  da  história  e  da  história  da  educação,  Larroyo 
propõe uma segmentação em História Geral da Pedagogia que tome o passado pedagógico nos marcos 
das unidades e tipos históricos da educação. Por fim, Larroyo, destaca os fatores que conferem utilidade 
ao estudo da História da Pedagogia, assinalando, primeiramente, sua utilidade geral, relacionada ao fato 
de  que  “[...]  a  educação  mostra  como  cada  um  destes  produtos  do  espírito  humano  se  transmite  de 
geração em geração” (LARROYO, 1979, p. 33). Para ele: 
 
Até  mesmo  os  manuais  escolares  aproveitam  estas  vantagens  para  finalidades 
pedagógicas.  Os  criadores  da  ciência  histórica  moderna,  com  Wilhelm  Dilthey  na 
vanguarda, sublinham, com toda razão, tão grande importância. “Empreguei estes três 
meses do curso – comunica Dilthey a seu amigo Conde de Iorque – de preferência, na 
história  da  educação,  na  Europa.  Raramente,  um  estudo  histórico  me  excitou  tanto, 
intimamente, e me abriu perspectivas sobre a História Universal, em geral, isto é, sobre 
as condições causais (psicológicas) do ideal de vida, ideal de educação, poesia, formação 
cultural, ciência” (LARROYO, 1979, p. 34). 
 
  Larroyo apresenta ainda uma  segunda utilidade para a História da Educação que  se refere aos 
profissionais da educação, dadas as relações entre história e teorias pedagógicas, pois mais do que em 
outras  ciências,  a  teoria  pedagógica  está  vinculada  à  história  da  educação;  complementando‐se. 

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Compreendem‐se, de  melhor  maneira, os princípios pedagógicos, quando se mostra como  se deu  sua 


gestação na história. Por fim, Larroyo assinala uma característica evolutiva de suas concepções, a saber: 
 
Por  sua  vez,  a  história  da  Pedagogia  toma  a  teoria  sistemática  da  educação  certas 
valorizações, certas idéias de progresso, que oferecem critérios para apreciar o que, na 
História, tem importância pedagógica. A mera descrição dos fatos não pode decidir se 
há avanço ou retrocesso, decadência ou auge numa época. Para isso, é preciso elevar‐se 
acima dos acontecimentos e julgá‐los em sua justa significação, mediante juízos de valor 
(fator progressivo). 
 
  Novamente,  com  Dilthey,  Larroyo  expressa  que  o  conhecimento  dos  erros  pedagógicos  é 
proveitoso,  pois  que  se  percebe  a  distância  que  separa  o  possível  do  imaginário,  sendo  que  “[...]  a 
história  da  educação  ensina‐nos  a  ponderar  o  conflito  entre  o  otimismo  pedagógico  (tudo  pode  a 
educação) e o pessimismo pedagógico (a educação nada pode)” (LARROYO, 1979, p. 34‐5).  
 
3. Manacorda: contradições do passado educativo e possibilidades para o futuro 
 
  Nascido  em  Roma,  em  1914,  Mario  Alighiero  Manacorda  lecionou  Pedagogia  e  História  da 
Pedagogia  nas  universidades  de  Cagliari,  Viterbo,  Florença  e  Roma.  Dirigente  de  sindicatos  e  de 
associações  docentes,  membro  do  Comitê  Administrativo  da  Federação  Internacional  Sindical  dos 
Docentes e da Comissão nacional italiana da UNESCO. Dirigiu publicações didático‐pedagógicas, entre as 
quais  Scuola  e  Costituzione,  Voce  della  scuola,  Scuola  Democratica  e  Reforma  della  Scuola.  No  Brasil, 
podem‐se destacar as obras publicadas a partir do original italiano, pela ordem: História da Educação: da 
Antiguidade aos nossos dias, de 1989; O Princípio Educativo em Gramsci, de 1991; Marx e a Pedagogia 
Moderna, de  1991.  A propósito da obra de Manacorda publicada  em 1989  é interessante conhecer o 
diálogo que Paolo Nosella estabeleceu com o autor recentemente, a saber: 
 
[Paolo]  Professor  Manacorda,  o  seu  livro  “História  da  Educação,  da  antiguidade  aos 
nossos dias” já está na 12ª ou 13ª edição. Eu penso que sua difusão seja devida também 
à  síntese  de  cultura  geral  que  o  livro  contém;  mas,  sobretudo,  ao  fato  dele  falar  da 
Pedagogia  não  apenas  com  os  discursos  dos  pedagogos,  mas  também  com  outros 
documentos  e  outros  tipos  de  literatura.  [...]  O  Senhor  teria  um  comentário  a  fazer 
sobre isso?  

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[Manacorda] Sim, creio que você tenha indicado justamente aquilo que é, se não o meu 
resultado, a minha intenção. Isto é, não fazer um texto corporativo, que fale do interior 
da escola. Mas, que se relacione com o crescimento geral da sociedade, nos aspectos 
culturais, e também nos aspectos da vida cotidiana e do trabalho. Sobretudo, porém, eu 
estou  interessado a encontrar na escola,  isto é, na  relação educativa  geral, a relação 
pela  qual  o  homem  educa  o  próprio  filhote  para  ser  (um  cidadão)  histórico, 
contemporâneo  de  sua  época.  E,  sobre  esse  problema,  que  é  geral  e  não  somente 
escolar,  encontrei  que  freqüentemente  os  textos  literários  nos  dão  palavras  que 
somente a poesia sabe dizer, porque interpretam o modo de sentir e a profundidade 
dos  fatos,  mais  do  que  qualquer  outra  expressão,  digamos,  cotidiana  ou  normal. 
Portanto, a literatura é a fonte que eu sugeriria, se não para encontrar documentações 
(e  dessas  encontram‐se  muitas),  pelo  menos  para  interpretar  o  que  era  a  relação 
educativa na  escola, no aprendizado para o  trabalho e em  todos os  lugares onde se 
educa. (MANACORDA, 2007, p. 15‐6) 
 
  De  fato,  a  obra  de  Manacorda  é  rica  na  utilização  de  fontes  que  demonstram  as  vivências 
cotidianas  da  população  em  torno  das  questões  de  ordem  formativa,  educacionais,  mas  não 
exclusivamente escolares. Essa riqueza no trato das fontes alinha‐se a uma construção discursiva imersa 
no  marxismo,  sendo  possível  encontrar  na  obra  de  Manacorda  tanto  a  presença,  a  partir  de  Marx  e 
Engels,  de  uma  oposição  a  escola  histórica  e  ao  idealismo  hegeliano,  quanto  à  existência  dos  vetores 
básicos da concepção marxista de história, a saber: 
 
Para o marxismo, a história não é, nem uma “colecção de factos mortos” como é para 
os  empiristas,  nem  [...]  “uma  acção  imaginária  de  sujeitos  imaginários”,  conforme  a 
interpretou  o  idealismo.  [...],  [sendo  indicadas]  três  teses  acerca  da  concepção 
materialista de história: 1º. O fator ou a estrutura determinante da história é constituída 
pela relação entre as forças produtivas e as relações de produção. A história consiste, 
em última análise, no processo real da produção material da vida. O motor da história é, 
pois, a contradição entre as forças produtivas e as relações de produção, ou, o que vem 
a dar o mesmo, a luta de classes. “a história de toda a sociedade até hoje existente”, 
escreve Marx, no Manifesto Comunista, “é a história da luta de classes”. 2º. Na história, 
e  na  determinação  e  configuração  do  seu  desenvolvimento  e  processo,  dá‐se  uma 
particular  relação  entre  a  “infra‐estrutura”  (o  fundamento  econômico)  e  a 
“superestrutura”. Contra a tese que viria a defender de que o fundamento econômico 
determina  sem  mais  o  processo  histórico,  bem  como  a  superestrutura  (tese  que 
poderia  denominar‐se  de  economicista),  na  verdade,  para  o  marxismo  dá‐se  uma 
relação  dialética  entre  a  infra  e  a  superestrutura,  embora  o  fundamento  económico 
constitua, em última instância, o princípio de explicação. Portanto, dizer sem mais que 
“o factor económico é o único factor determinante” é “uma frase oca, abstracta e vada” 
(Engels, carta a  Bloch,  21‐IX‐1890). 3º. O  vector ou fim a que se dirige a história é  o 
desaparecimento das classes e a instauração do comunismo. A sociedade sem classes e 
comunista, “eschaton” para a qual, ao que parece, tende e marcha a História (marcha 

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que será acelerada mediante a acção do proletariado), virá acabar com as alienações e 
possibilitará  a  realização  total  do  homem.  Com  base  nesta  tese  (e  aceite  nesta 
formulação) não sem fundamento viram alguns autores no marxismo uma “metafísica 
da  história”,  e,  em  todo  caso,  uma  instância  utópica  (Grifos  dos  autores.  NAVARRO 
CORDON; CALVO MARTINEZ, 1990, p. 67‐8). 
 
  No marxismo, o pensamento humano é um produto social, consubstanciando uma linguagem da 
vida real. Na obra de Manacorda é perceptível a busca da linguagem da vida real, com recurso a fontes 
históricas pouco presentes nas interpretações marxistas tradicionais,  mas que podem ser vislumbradas 
especialmente no campo do marxismo cultural8. A propósito desse tema, parece interessante destacar a 
opinião  manifestada  pelo  autor  sobre  os  Annales  em  entrevista  recentemente  concedida  para  Paolo 
Nosella: 
 
[Paolo]  No Brasil, o senhor é  conhecido, sobretudo, como  especialista em História da 
Educação. Na História, há uma corrente teórica chamada de Nova História, iniciada com 
Jacques Le Goff, Philippe Ariès e outros. A respeito disso o Senhor teria uma opinião a 
nos dar? 
[Manacorda] Foi uma nova historiografia, aquela dos Annales Franceses, que nos anos 
1970  impôs  uma  virada  na  investigação,  passando  da  macro‐história  política, 
econômica,  diplomática,  militar  etc,  aos  interesses  pela  micro‐história,  isto  é,  de 
pequenos núcleos familiares ou sociais das culturas minoritárias e submersas, isto é, um 
interesse  pelos  costumes  da  vida  privada  das  pessoas.  Parece‐me  ser  esta  uma 
conquista que já entrou plenamente na prática de investigação historiográfica. Porém, 
hoje, sem renunciar a esta base, se avança porque se tende a ampliar a micro‐história 
para  identidades  maiores,  como  por  exemplo,  a  identidade  européia,  a  identidade 
comunitária, ou seja, a identidade mundial, os grandes encontros de civilização. Parece‐
me que hoje existe esse interesse, que já fez grandes progressos na pesquisa, onde nos 
acostumamos  a  um  reexame  crítico  das  fontes,  evidenciando  sempre,  todavia,  sua 
natureza  ideológica.  Então,  hoje,  parece‐me  que  caminhamos  nessa  direção,  sem 
renegar a grande descoberta feita pela Escola dos Annales (MANACORDA, 2007, p. 11‐
2). 
 
  Segundo Manacorda (1989, p. 5‐6), a obra, História da Educação: da Antiguidade aos nossos dias 
foi pensada inicialmente para tomar corpo em um programa da televisão italiana, em uma proposta de 
um  rápido  passeio  histórico  pela  educação  “através  de  imagens”.  No  entanto,  o  projeto  revelou‐se 
inviável  e  acabou  por  ser  realizado  para  transmissão  via  rádio,  consubstanciando‐se  em  um  passeio 

                                                           
8
 Nessa direção, exemplos importantes dessa historiografia nomeada como afeta ao marxismo cultural podem ser encontrados 
nas obras, por exemplo, de THOMPSON (1987), HILL (1987) e WILLIAMS (1989). 
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histórico  da  educação  “através  de  textos”,  com  o  título  de  “A  escola  nos  séculos”,  o  que  ocorreu  por 
meio de doze transmissões radiofônicas no final de 1980. Porém, Manacorda pretendeu evitar produzir 
um novo  texto baseado em uma  estratégia discursiva predominantemente indireta, bem  como a lidar 
com  os  textos  de  modo  fragmentado,  sem  um  fio  condutor  analítico.  Tematicamente,  Manacorda 
expressou que 
 
[...] a hipótese foi perseguir o processo educativo pelo qual a humanidade elabora a si 
mesma,  em  todos  os  seus  vários  aspectos.  Pareceu‐me  poder  sintetizá‐los  na 
“inculturação” nas tradições e nos costumes (ou aculturação, no caso de procederem 
não  do  dinamismo  interno,  mas  do  externo),  na  instrução  intelectual  em  seus  dois 
aspectos,  o  formal‐instrumental  (ler,  escrever,  contar)  e  o  concreto  (conteúdo  do 
conhecimento),  e,  finalmente, na aprendizagem do ofício (compreendida aqui aquela 
forma específica que é o treinamento para a guerra). Destas três, neste livro, os riscos 
de prevalecer a instrução e, depois, quando esta se institucionaliza, a escola, dependem 
quer da objetiva predominância dos documentos a respeito, quer, talvez, da inclinação 
subjetiva  minha  que  os  explorava  e  os  utilizava.  Estes  vários  aspectos  da  educação 
comportam um relacionamento permanente com os temas mais gerais da história da 
humanidade.  Aculturação  quer  dizer  socialização,  inserção  de  cada  adolescente  no 
conjunto vivo da sociedade adulta; aprendizado que dizer relação com o trabalho e com 
todo o desenvolvimento, não somente das forças produtivas mas também das relações 
sociais nas quais elas se organizam. Portanto, o discurso pedagógico é sempre social, no 
sentido de que  tende, de um lado, a considerar  como sujeitos da educação as várias 
figuras  dos  educandos,  pelo  menos  nas  dias  determinações  opostas  de  usuários  e 
produtores, e, de outro lado, a investigar a posição dos agentes da educação nas várias 
sociedades  da  história.  Além  disso,  é  também  um  discurso  político,  que  reflete  as 
resistências  conservadoras  e  as  pressões  inovadoras  presentes  no  fato  educativo  e, 
afinal,  a  relação  dominantes‐dominado.  Por  isso  mesmo,  também  os  aspectos 
cotidianos, técnicos e materiais dos processos de instrução (o lugar, os instrumentos, a 
organização  e  a  própria  relação  pedagógica),  pelo  fato  de  estarem  ligados  ao 
desenvolvimento  produtivo,  social  e  político,  assumem  maior  relevância. 
(MANACORDA, 1989, p. 6) 
 
  Ao  afastar‐se  das  temáticas  mais  comuns  da  história  da  pedagogia,  leia‐se,  o  pensamento 
pedagógico, Manacorda (1989, p. 7) afirma que se distancia de indagações sobre os “sistemas” de idéias 
em si, buscando “nelas o reflexo e o estímulo do real”, com a finalidade de 
 
[...]  compreender  como  de  época  em  época  o  objetivo  da  educação  e  a  relação 
educativa  foram  concebidos  em  função  do  real  existente  e  de  suas  contradições, 
indagar  a  opinião  geral  sobre  o  fenômeno  escola,  verificar  o  prestígio  concebido  ou 
negado  à  figura  do  profissional  da  educação  e  assim  por  diante.  Neste  sentido,  a 

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literatura (a saber, a literatura dos literatos), mais do que a literatura dos pedagogos, 
pode fazer reviver as relações reais e as opiniões generalizadas (MANACORDA, p. 7). 
 
  Os títulos do sumário da obra de Manacorda, História da Educação: da Antiguidade a nossos dias, 
expressam  um  opção  por  tomar  o  período  compreendido  entre  o  Antigo  Egito  e  a  Idade  Média 
tematicamente, com privilegiamento de Egito, Grécia, Roma, Alta e Baixa Idade Média. Os dois capítulos 
seguintes abordaram, cada qual, duzentos anos e, por fim, passou‐se a abranger em cada capítulo, um 
século.  Ao  final,  de  um  lado,  um  capítulo  que  apontava  tendências  futuras  de  desenvolvimento 
educativo e, de outro, uma conclusão que sintetizava as idéias gerais de cada um dos capítulos. 
Manacorda, já no prefácio da obra em análise lamentava‐se pelas omissões que teve que fazer, 
seja  naquelas  de  ordem  geográfica  e  temática  (blocos  históricos),  mas,  também,  naquelas  afetas  aos 
próprios conteúdos expostos, dada a limitação editorial a produção de um texto que girasse em torno de 
400  páginas  (1989,  p.  7‐8).  Na  conclusão,  o  autor  aponta  suas  ambições  utópicas  quanto  ao 
desenvolvimento educativo futuro, a saber: 
 
Parece‐me, contudo, que o caminho do futuro seja aquele que o passado nunca soube 
percorrer, mas que nos mostra em negativo, descortinando suas contradições. E estas 
foram e são (é preciso repeti‐lo?) entre a essencial importância humana da formação do 
homem e o seu acantonamento de fato  como coisa de criança; entre a instrução dos 
dominantes para o “dizer” intelectual e dos dominados para o “fazer” produtivo; entre 
a  exigência  de  uma  formação  geral  humana  e  a  preparação  de  cada  um  para 
competências distintas (como as do dizer e as do fazer); entre a maxima reverentia que 
se  deve  à  criança  e  o  perpétuo  recurso  ao  sadismo  pedagógico,  como  as  inevitáveis 
conseqüências  contestadoras;  entre  a  hodierna  assunção  tendencial  de  todos  numa 
instituição  privilegiada,  intelectual,  e  a  sua  real  exclusão  de  uma  vida  plena  e  sua 
separação dos adultos; entre a persistente predominância de um ensino lógico‐verbal e 
a  necessidade  humana,  especialmente  dos  adolescentes,  de  uma  plenitude  de  vida 
instintiva,  emotiva  e  afetiva,  através  de  uma  vida  escolar  que  não  exclua,  mas 
corresponda  à  sua  vida  real,  quer  do  corpo  quer  da  mente,  com  suas  atividades 
artísticas,  produtivas  e  físicas  colocadas  no  mesmo  nível  das  atividades 
(pseudo)intelectuais. Em suma, a exigência de uma escola que, de lugar de separação e 
de  privações,  se  transforme  num  lugar  e  numa  época  de  plenitude  de  vida. 
(MANACORDA, 1989, p. 360). 
 
 

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4. Franco Cambi: tentativa de novos entendimentos da educação na sociedade 
 
Conforme  consta  da  página  institucional  da  Universidade  de  Florença  (Università  degli  Studi  di 
Firenze), Franco Cambi é professor regular de Pedagogia Geral naquela universidade, na qual foi diretor 
do  Departamento  de  Ciências  da  Educação  (depois  também  dos  Processos  Culturais  e  Formativos)  de 
1994 a 2000 e de 2003 a 2006. Foi presidente do Instituto Regional de Investigação em Educação (IRRE) 
na seção da Toscana, de 2002 a 2005, depois, Comissário Extraordinário,  sendo  reeleito presidente em 
2006.  Dirige  a  revista  “Studi  sulla  Formazione”  e  coletâneas  de  estudos  pedagógicos  nas  editoras 
Armando,  Carocci,  Cleub,  Unicopli.  Suas  áreas  de  investigação  se  articulam  em  muitas  linhas  e  possui 
publicações de quase sessenta volumes, além de numerosos artigos. 
Em relação à temática da Pedagogia Geral, empenhou‐se na defesa e promoção da Filosofia da 
Educação,  como  disciplina  “fundante”  do  estudo  pedagógico  (Manuale  di  filosofia  dell’educazione  – 
Laterza); como também cultivou a análise da estrutura do discurso pedagógico (Il congegno del discorso 
pedagógico  –  Cleub,  1986  e  Metateoria  pedagógica  –  Cleub,  2006),  ressaltando  sua  complexidade, 
categoria  sobre  a  qual  dedicou  diversas  intervenções;  além  disso,  manteve  um  estudo  constante  dos 
clássicos  contemporâneos  (Gentile  e  Dewey,  o  “marxismo  pedagógico”,  o  neopragmatismo)  e  uma 
análise  de  algumas  categorias  do  estudo  pedagógico  (a  formação,  a  diferença,  a  intencionalidade),  e 
ainda  uma  constante  e  cada  vez  maior  atenção  aos  problemas  do  sujeito  e  de  sua  formação  pessoal 
(L’autobriografia come metodo formativo – Laterza, 2002 e Abitare Il disincanto – UTET, 2006).  
Sobre  o  tema  histórico‐pedagógico  e,  mais  tarde,  sobre  os  estudos  acerca  de  La  pedagogia 
borghese  nell’Italia moderna 1915‐1970  (La Nuova  Italia,  1974), do  antifascismo e  pedagogia  (Vallechi, 
1980), e La ‘scuola di Firenze’ da Codignola a Laporta (Liguori, 1982), empenhou‐se na reconstrução da 
historiografia pedagógica na Itália, depois de 1945, e na tessitura de uma Storia della pedagogia (Laterza, 
1995) e ainda de muitos escritos sobre vários autores e assuntos. Cultivou, também, a literatura infantil e 
os estudos filosóficos. Os estudos sobre a primeira estão voltados aos clássicos (começando por Collodi), 
aos clássicos contemporâneos (Ridari) e às narrativas populares e fábulas, analisadas sob vários aspectos. 
Os estudos filosóficos dizem respeito ao racionalismo crítico de Banfi e sua escola, ao empirismo crítico 
de Preti e às figuras e modelos do neo‐historicismo. 

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  Conforme  mencionado  no  início  desse  texto,  é  interessante  observar  que  a  obra  História  da 
Pedagogia, de Franco Cambi, alcançou o mais elevado número de indicações no exame de programas de 
ensino da disciplina  História da Educação na década de 2000,  com 25  menções,  sendo que o  segundo 
manual  mais  indicado,  de  autoria  de  Manacorda,  alcançou  20  menções  (GATTI  JR.,  2009,  p.  119‐26). 
Assim, no que se refere às obras com autores estrangeiros que foram as mais indicadas nos programas 
de ensino da disciplina no período mencionado, Cambi e Manacorda totalizaram 45 menções. Porém, o 
texto  de  Cambi,  a  semelhança  de  Manacorda,  mas  por  caminho  diverso,  pretende  diferenciar‐se  dos 
manuais de História da Pedagogia existentes, a saber: 
 
O  presente  volume  propõe‐se  como  uma  reconstrução/interpretação  da  história  da 
pedagogia ocidental (da Antiguidade pré‐grega aos nossos dias), segundo – pelo menos 
–  três  perspectivas  que  vêm  delinear  a  (relativa)  novidade  do  empreendimento  e  o 
desejo de diferenciação em relação aos outros manuais dessa disciplina. Em primeiro 
lugar – e esse talvez seja o aspecto mais previsível, ou pelo menos não prioritariamente 
demarcativo em relação às outras reconstruções ‐,  trata‐se de ultrapassar o primado 
das idéias e das doutrinas filosóficas, em particular, para  conceder amplo espaço, ao 
lado  das  idéias  ou  teorias  e,  às  vezes  (ou  melhor,  freqüentemente),  antes  delas,  às 
instituições, aos processos, aos costumes educativos, sublinhando o aspecto social da 
educação e a centralidade que essa nova abordagem deve assumir em toda a história 
da  pedagogia.  [...]  Em  segundo  lugar,  procurou‐se  em  todo  o  trabalho  focalizar  os 
problemas metodológicos da história da educação/pedagogia, relacionando‐a como os 
métodos da história total e como um “fazer história” que se realiza em muitos planos 
(história da pedagogia, história da educação, história da infância, história das mulheres, 
história  da  escola  etc.)  e  segue  processos  diferenciados,  incluindo  também  –  e 
prioritariamente  –  os  problemas  das  fontes,  dos  arquivos,  etc.,  assim  como  os  da 
interpretação de documentos submetidos a uma leitura ora serial  e quantitativa, ora 
qualitativa,  ora  evocativo‐narrativa  –  embora  esses  problemas  sejam  tocados  aqui 
apenas de passagem ‐, dando vida a uma polifonia metodológica, pela qual é possível 
aceder à reconstrução de uma efetiva história  total (ou que  tende para  tal). Por fim, 
procurou‐se  reconstruir  o  tempo  histórico  da  educação/pedagogia,  sublinhando  a 
descontinuidade e as rupturas, pondo a nu as escansões e as estruturas, as autonomias 
das  várias  épocas,  as  quais,  embora  se  relacionem  e  se  influenciem,  acabam  por 
constituir blocos unitários, dotados de sentido interno e que devem ser reconstruídos 
na  sua  diversidade/autonomia,  sem  forçá‐los  em  direção  de  continuidades 
metatemporais (que existem, mas que não marcam realmente o processo histórico, o 
qual  procede  por  blocos,  por  fraturas,  por  agregações  epocais  sistêmicas,  por  assim 
dizer), de atualizações ou precedências etc. O volume se organiza segundo uma ótica, 
neste nível, sobretudo foucaultiana:  ligada à arqueologia, às  estruturas  e às rupturas, 
como  também  à  genealogia,  à  pesquisa  das  raízes  dessas  rupturas  e  a  uma  visão 
pluralista da história. (CAMBI, 1999, p. 17‐8). 
 

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  O projeto é ambicioso e de difícil efetivação, sobretudo, dado o caráter didático da obra, o que 
significa  abordar  não  um  momento  específico,  ou  como  descreve  Cambi,  um  bloco  unitário,  mas,  em 
verdade,  um  largo  tempo  histórico.  Por  outro  lado,  a  referência  a  construção  de  uma  abordagem 
próxima  da  ótica  foucaltiana  inaugura,  de  fato,  um  caminho  diferenciado  em  relação  aos  manuais  de 
história da pedagogia dados a ler nos cursos de Pedagogia brasileiros. Porém, a respeito das ambições do 
projeto,  António  Nóvoa,  ao  ressaltar  a  importância  da  obra  no  campo  da  História  da  Educação, 
asseverou criticamente que 
 
Há  assim  alguma  “dissonância”  entre  o  “Prefácio”  e  a  “Introdução”,  textos  muito 
interessantes  que  explicam  a  “profunda  transformação  metodológica  operada  na 
pesquisa  histórico‐educativa  nos  últimos  25  anos”,  e  o  corpo  do  livro,  propriamente 
dito,  que  acaba  por  reproduzir  muitos  dos  cânones  historiográficos  tradicionais 
(NÓVOA, 1999, p. 14). 
 
Franco Cambi constata que houve mudanças historiográficas significativas a partir de da década 
de 1950, em desacordo  com os  modelos narrativos ora  teoricistas e unitaristas, ora  vinculados a uma 
visão  demasiadamente  linear  do  passado,  ambas  abordagens  marcadamente  ideologizadas.  Em  lugar 
disso, assinala a emergência, em especial nas décadas de 1960 e 1970, de uma investigação que se abre 
à  maior  problematização  e  amplo  pluralismo  teórico  e  metodológico,  bem  como  considerando  a 
educação como conjunto de práticas sociais ou de saberes. Para ele, 
Desde a metade dos anos 70, a passagem da história da pedagogia para uma mais rica e orgânica 
história  da  educação,  tornou‐se  explícita,  insistente  e  consciente,  afirmando‐se  como  uma  virada 
decidida e decisiva. E não se tratou de uma simples mudança de rótulo; pelo contrário: tratou‐se de uma 
verdadeira e legítima revolução historiográfica que redesenhou todo o domínio histórico da educação e 
todo  o  arsenal  de  sua  pesquisa.  Esquematizando,  podemos  dizer:  passou‐se  de  um  modo  fechado  de 
fazer história em educação e pedagogia para um modo aberto, consciente da riqueza/ complexidade do 
seu  campo de pesquisa  e da variedade/articulação de métodos e instrumentos que devem  ser usados 
para desenvolver de modo adequado o próprio trabalho (CAMBI, 1999, p. 24). 
As bases dessa virada, segundo Cambi, podem ser encontradas em diversas frentes. Uma delas é 
o próprio  marxismo que levou a investigação histórica a considerar o  contexto  sócio‐histórico  em que 
são  plasmadas  as  relações  sociais  e  vinculam  economia  e  política  de  um  modo  que  não  se  havia 

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incorporado  com  a  mesma  ênfase  em  outras  teorias  sociais  e  na  teoria  da  história.  Conceitos 
importantes são gerados nesse campo e garantem uma nova abordagem para a pesquisa histórica, tais 
como:  contradição, hegemonia e  oposição. Noutra frente, não  menos importante para o autor,  está a 
contribuição dos  Annales que enriqueceu  e matizou as lições do  marxismo, introduzindo o  estudo das 
estruturas não apenas econômicas, como a mentalidade, com o propósito da construção de uma história 
total. Para Cambi, os “Annales sublinharam [...] o pluralismo da pesquisa histórica e o jogo complexo das 
muitas perspectivas que acabam por constituí‐la, relacionando‐a com as diversas ciências sociais (CAMBI, 
1999, p. 25).  
Alem  do  marxismo  e  dos  Annales,  Cambi  enfatiza  os  ganhos  para  a  pesquisa  histórico‐
educacional oriundos do que chamou de psico‐história, ainda que não tenha qualificado de modo mais 
direto  os  integrantes  dessa  corrente,  informou  que  nela  habitam  os  estudos  sobre  “mentalidades 
coletivas  e  individuais,  legíveis,  porém,  de  modo  crítico,  inspirando‐se  apenas  nos  mecanismos  que 
identifiquem  o  pensamento  freudiano  (inconsciente,  repressão,  conflito  do  eu  etc.)”  (CAMBI,  1999,  p. 
25).  Uma  quarta  base  da  virada  aponta  pelo  o  autor  é  legatária  das  contribuições  advindas  do 
estruturalismo,  em  especial  de  Foucault  e  da  história  quantitativa,  presente,  por  exemplo,  em  Le  Roy 
Ladurie.  Tradição  que  demonstrou  a  porção  do  que  é  impessoal  na  história,  descortinando  estruturas 
que  regulam  os  comportamentos  individuais  em  profundidade,  tomando‐as  como  variáveis 
quantitativas, sujeitas a análises sociais e a reconstruções estatísticas. Para ele, 
 
A história da sexualidade de  Foucault ou a história de  tempo de  Ladurie, apesar das 
profundíssimas  diferenças,  têm  alguns  pontos  em  comum,  como  o  recurso  às 
permanências  e  à  sua  função  genética  no  âmbito  da  produção  dos  fenômenos 
históricos.  E  são  permanências  objetivas,  quer  pertençam  à  história  da  cultura  ou  à 
história social, profundamente ligadas à natureza ou àquilo que aparece como tal aos 
olhos dos homens (CAMBI, 1999, p. 26). 
 
Aos  olhos  de  Cambi,  foi  a  partir  dessas  bases  que  ocorreram  as  grandes  mudanças  na 
investigação histórica desde a década de 1950. A primeira alteração refere‐se à constatação da incerteza 
quanto  a  existência  de  um  método  definitivo  para  a  pesquisa  em  história,  o  que  gerou  uma  “intensa 
dialética metodológica” (CAMBI, 1999, p. 27). A segunda mudança refere‐se à noção de tempo histórico, 
tomada pelo autor como a de maior impacto para a historiografia. Para ele, 
 
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Três, diz Braudel, são os tempos da história (e do histórico): o dos acontecimentos (ou 
eventos),  próximo  do  vivido  e  do  cronológico;  um  tempo  fracionado  e  ligado  ao 
caleidoscópio  daquilo  que  acontece,  variegado  e  –  meio  no  limite  –  medido  pelo 
instante,  que  é  o  tempo  da  história‐narração;  depois  o  da  curta  duração  (ou 
conjunturas,  instituições  etc.)  ou  das  permanências  relativas,  ligado  a  estruturas 
políticas, sociais ou culturais, que está por debaixo dos acontecimentos e os coordena e 
sustenta;  nesse  tempo,  agem  os  Estados,  as  culturas,  as  sociedades  e  ele  próprio 
pertence à história‐explicação, à história‐ciência; por fim, o da longa (ou  longuíssima) 
duração, geográfico, econômico e antropológico, que colhe as permanências profundas, 
as  estruturas  quase  invariantes  e  se  ativa  na  história‐interpretação  ou  história‐
genealogia/hermenêutica.  São  três  temporalidades  necessárias  para  compreender  a 
história, mas que não se confundem, alternando‐se e encaixando‐se uma na outra, com 
suas diferenças e suas intersecções (Grifo do autor CAMBI, 1999, p. 27‐8). 
 
  É evidente que essa noção de tempo longuíssimo é a que mais se aproxima do empreendimento 
levado  a  cabo  por  Cambi  em  sua  História  da  Pedagogia,  sobretudo,  quando  remete  a  tradição 
foucaultiana no desenvolvimento de seu esforço interpretativo. Há, no entanto, um último aspecto no 
qual, segundo o autor, está ancorada a virada da historiografia, que diz respeito às  fontes de pesquisa, 
ou  seja,  a  documentação,  dado  que  ela  passa  a  ser  tomada,  com  os  Annales  sobretudo,  não  como 
monumento, mas sim, como efeito da interpretação, ao que se soma, a ampliação das fontes passíveis 
de  integrarem  o  processo  investigativo  em  História,  com  abertura  para  documentos  anteriormente 
ignorados, bem como para a prática da interpretação como produtora de documentos novos, tal como 
acontece na história oral. Assim, para o autor, 
 
Pluralismo  e  conflitualidade,  indecisão  e  incerteza  são  certamente  características 
fundamentais do fazer história hoje, inclusive em educação; entretanto, não estamos 
diante de um resultado anárquico, mas radical e dialeticamente crítico. É justamente da 
integração dinâmica e atenta (= crítica) das diversas perspectivas de leitura que emerge 
a  possibilidade  de  ler  a  história  segundo  a  verdade,  deixando  sempre  espaço  para 
aprofundamentos ulteriores, para aproximações, para um objeto complexo e fugidio, 
como é o histórico, e em particular o histórico‐educativo (CAMBI, 1999, p. 34). 
 
Outro pressuposto sobre o qual Cambi afirma estar assentada a nova forma da pesquisa histórica 
e,  por  conseqüência,  as  finalidades  mesmas  desses  empreendimentos  historiográficos,  tais  como  sua 
História da Pedagogia é uma visão de que a história consiste em um exercício da memória na direção de 
compreender o presente, lendo nele, as possibilidades de construção do futuro.  

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Para  ele,  a  aplicação  da  memória  ao  passado  histórico  leva  a  reconhecer  a  problemática  e  a 
pluralidade  de  formas  como  os  sujeitos  humanos  presentes  naquele  passado  se  identificavam, 
conduziam  suas  vidas,  expressavam  suas  contradições  etc.,  o  que  permite,  simultaneamente, 
conceitualizar  o  passado  em  sua  originalidade  e  compreender  o  quanto  dele  emerge  no  presente, 
retirando, no entanto, o caráter de inexorável do presente, apontando suas possibilidades e alternativas. 
Para Cambi,  
 
Através do passado criticamente revisado, o presente (também  criticamente) se abre 
para o futuro, que se vê carregado dos impulsos não realizados do passado, mesmo o 
mais  distante  ou  o  mais  marginalizado  e  sufocado.  Em  suma,  além  de  paixão  pelas 
diversas formas de vida (pelo pluralismo do humano, podemos dizer), a memória está 
sempre carregada de escatologia; carga que torna o presente projetado para o possível, 
para  o  enriquecimento  do  sentido  e  para  a  finalização  (mesmo  que  seja 
constantemente atualizada), isto é, aberto sobre si mesmo, problemático  e envolvido 
na  sua  transformação,  na  sua  –  sempre  radical  –  construção/reconstrução  (CAMBI, 
1999, p. 36). 
 
  Do exame do conteúdo da História da Pedagogia de Cambi, depreende‐se a tentativa de conferir 
essa tônica crítica que se estende dialeticamente do presente ao exame do passado e, deste, um retorno 
ao presente que se abre ao futuro, ainda que se tenha mantido uma divisão aparentemente tradicional 
da História, em Antiguidade, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea.  
Sem dúvida, a temática da Modernidade ocupa centralidade na obra, suas formas, suas práticas 
e a forma como a escola assumiu seus fundamentos e limitações. Porém, temáticas novas aparecerem, 
contidas, sobretudo, no capitulo que se refere à segunda metade do Século XX, quando questões ligadas 
ao multiculturalismo, ao feminismo e ao meio ambiente são abordados com espaço relevante. 
  Por fim, é importante mencionar que Franco Cambi, a semelhança dos outros autores analisados, 
tem clareza da finalidade didática da obra que redigiu, bem como da vinculação da mesma aos processos 
de  formação  de  professores.  Para  ele,  no  entanto,  a  obra  possui  a  finalidade  de  contribuir  para  um 
processo de auto‐reflexão dos pedagogos em formação e não de fornecer uma interpretação fechada e 
definitiva dos fatos educacionais, a saber: 
 
[...]  o  texto  pretende  ser  não  só  a  síntese  da  história  de  uma  disciplina 
cientificamente  repensada  –  a  pedagogia,  a  educação  ‐,  mas  sobretudo,  um 
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instrumento  de  formação  do  intelectual‐pedagogo,  ao  qual  oferece  uma  série 
de  quadros,  problemas,  práxis,  temas  etc.  que  fazem  parte  de  sua  bagagem 
técnica, mas que emergem através de um longo processo histórico, sob o qual 
devem  ser  retomados  e  focalizados,  subtraídos  de  qualquer  uso  empírico‐
dogmático  e  desenvolvidos  ao  uso  (auto‐reflexivo),  para  o  qual  a  história  traz 
uma  contribuição  das  mais  significativas.  Dessa  maneira,  o  pedagogo  (ou  o 
operador educativo mais pedagogo: tal deveria ser o especialista em ciências da 
educação) pode melhor colher e julgar o background de teorias, práxis, posições 
da educação, sua espessura temporal (social, teórica, científica, prática) e operar 
assim um  controle  mais autêntico e  mais capilar do próprio  saber e agir. Com 
essas finalidades e essas estruturas o volume se qualifica como um instrumento 
destinado  a  produzir,  ao  mesmo  tempo,  competência  disciplinar  formativa, 
voltado  também  a  delinear  uma  figura  de  pedagogo  e/ou  educador  que  no 
âmbito  da  própria  profissionalização  não  abafe  a  consciência  histórica, 
empobrecendo assim os instrumentos que usa e os contextos em que os usa. 
 
Considerações finais 
 
Os manuais de História da Educação e/ou da Pedagogia analisados evidenciaram serem suportes 
materiais de concepções de história e de mundo diferenciadas.  Provavelmente, o  fato de serem obras 
utilizadas atualmente no ensino da disciplina História da Educação no Brasil possa estar vinculado a uma 
forma de leitura e de trabalho em sala de aula com estes manuais que, salvo algumas exceções, prioriza 
a  apresentação  dos  fatos  educacionais,  sem  maiores  reflexões  sobre  as  concepções  de  mundo  e  de 
história contidas nas obras, o que, sem dúvida, poder‐se‐ia verificar em investigações futuras. 
No entanto, os manuais analisados, escritos por autores estrangeiros, traduzidos e publicados no 
Brasil na  segunda  metade do Século XX, evidenciam diferenças  significativas, por  meio de abordagens 
ricas e vinculadas a matrizes interpretativas que se  fizeram importantes na historiografia do Século  XX. 
Assim,  Luzuriaga  e  Larroyo,  ainda  que  mediante  ambigüidades,  procedem  a  uma  interpretação  do 
passado educacional, por meio do recurso a idéia de unidades culturais ou de tipos históricos, inspiradas 
em Dilthey que expressava uma reação a redução das ciências humanas à epistemologia e aos métodos 
consagrados no âmbito das nomeadas ciências da natureza9. 

                                                           
9
 Sobre  Dilthey, além daquilo que já foi mencionado anteriormente neste trabalho, é importante observar sua presença em 
textos  atuais  no  âmbito  da  historiografia  da  educação  afeta  aos  estudos  biográficos,  tal  como  aparece,  por  exemplo,  em 
Carino (2000). 
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Manacorda, por seu turno, constrói sua interpretação a partir da tradição marxista, em especial 
daquela  que  se  estende  de  Marx  a  Gramsci,  evitando  o  economicismo  que  caracterizou  o  marxismo 
vulgar, utilizando‐se, da noção  gramsciana de bloco histórico. Por fim, Cambi  valoriza o que considera 
contribuições  de  diferentes  concepções  epistemológicas  e  metodológicas  no  âmbito  da  historiografia, 
dentre  as  quais  destacou  o  marxismo,  a  historiografia  francesa  dos  Annales,  a  psico‐história  e  o 
estruturallismo (de Foucault e de  Ladurie).  Para ele, diferentemente dos demais,  existe dificuldade em 
trabalhar  com  um  único  método,  o  que  se  resolve  por  meio  de  uma  “intensa  dialética  metodológica 
(CAMBI, 1999, p. 27). 
Há,  no  entanto,  uma  coincidência  bastante  importante  nas  metodologias  investigativas 
apresentada  pelos  autores,  o  que  aparece  nos  textos  introdutórios,  mas,  também,  na  exposição  dos 
conteúdos  ao  longo  das  obras  analisadas.  Trata‐se  de  uma  visão  bastante  alargada  de  fonte  histórica, 
seja pela característica de apreender a vida e o cotidiano presente na tradição aberta pela historiografia 
da educação de Dilthey, presente nas obras de  Luzuriaga  e  Larroyo; seja no  corte  marxista humanista 
presente  em  Manacorda;  seja  ainda,  na  influência  dos  Annales  sobre  a  pesquisa  empreendida  por 
Cambi. 
Nenhum dos autores, porém, deixa de assinalar finalidades para o ensino e a aprendizagem da 
História da Educação  e/ou da Pedagogia.  Se  Luzuriaga destaca,  com Dilthey, que as lições do passado, 
com  seus  resultados positivos e negativos  ensinam tanto aos pedagogos quanto aos políticos,  Larroyo, 
confirma  essa  assertiva,  mas  acrescenta  a  possibilidade  de,  a  partir  do  julgamento  daquilo  que  se 
vivenciou no passado, progredir. Manacorda, por seu turno, rebela‐se com a possibilidade de enxergar a 
realidade  pelo  exame  das  idéias  e  concepções  culturais  do  passado.  Para  ele,  o  que  interessa  é  a 
construção de um futuro que rompa com um passado repleto de contradições e de cerceamento da vida 
humana. Cambi, enfim, atribui a sua obra a finalidade de formação do intelectual‐pedagogo, na qual os 
conteúdos trabalhados não devem ser analisados de modo empírico‐dogmático, no intuito do pedagogo 
poder fazer suas escolhas teórico‐metodológicas com maior controle e conhecimento. 
  Ao concluir esse trabalho, é importante salientar as possibilidades de pesquisa que permanecem 
em aberto:  seja na direção de conhecer a  forma de utilização destes manuais de História da Educação 
e/ou da  Pedagogia, por  meio do exame das práticas docentes e discentes dos cursos de formação de 
professores (ao menos naqueles que serviram de amostra para este trabalho); seja na efetivação de uma 
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análise  mais  aprofundada  sobre  os  conteúdos  apresentados  nas  inúmeras  páginas  das  obras 
examinadas; seja ainda, em outras possibilidades possam encontrar os leitores do presente texto. 
 
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Apoio: CNPq/FAPEMIG. 

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