O tempo já passou pra nós dois
TNT e Os Cascavelletes, desde o início
Juliete Lunkes
Julho/2017
Agradecimentos
Aos músicos Luciano Albo, Luis Henrique “Tchê” Gomes, Alexandre Barea,
Marcio Petracco e Nei Van Soria por me receberem pessoalmente para falar de
coisas que já não os interessava mais. Aos jornalistas Upiara Boschi, que me
ajudou na pesquisa e na revisão de cada página deste livro; Laura Seligman,
que me orientou; Marcos Espíndola e Carlos Praxedes, que me avaliaram (e me
deram um dez); e André Seben, que leu e disse várias vezes que eu deveria
publicar este livro. A todos que de alguma maneira me ajudaram a produzir
esta reportagem.
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Eu só confio nas pessoas loucas, aquelas que são loucas
para viver, loucas para falar, loucas para serem salvas,
desejosas de tudo ao mesmo tempo, que nunca bocejam ou
dizem uma coisa corriqueira, mas queimam, queimam,
queimam, como fabulosas velas amarelas romanas
explodindo como aranhas através das estrelas.
Jack Kerouac
Minha ideia original era de que fôssemos maiores que os
Beatles
Flávio Basso
Não se pode ser sério aos dezessete anos
Arthur Rimbaud
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Prólogo
Este pequeno e-book foi produzido entre 2011 e 2012 como meu trabalho
de conclusão do curso de jornalismo da Univali (Universidade do Vale do Itajaí)
e meramente revisitado em 2017.
Eu não quis publicá-lo antes por uma razão muito simples: nunca
consegui falar com Flávio Basso. Também não consegui nenhuma palavra de
Frank Jorge e pouquíssimas de Charles Master – sendo a maioria delas “não,
não e não”, em resposta aos meus pedidos de entrevista por Facebook. Mas era
a inexistência de uma conversa com Flávio o que verdadeiramente me impedia
de publicá-lo. Achava que um dia poderia me empenhar outra vez em uma
nova tentativa de fazer-lhe algumas perguntas. Sem nenhuma pressa, no
entanto.
Até que em dezembro de 2015 acabou tudo. Qualquer possibilidade. Era
o fim da ideia de publicar uma biografia de verdade sobre o TNT e Os
Cascavelletes. O Flávio tinha morrido. Do nada.
Fiquei puta, não queria saber de mais nada, foda-se o livro. Foda-se
tudo.
Mas daí chegou 2017. E o que isso significa? Cinco longos anos desde que
este livro foi apresentado a uma banca. A mesma quantidade de tempo que
passei na faculdade. Decidi que era agora ou nunca.
Para publicá-lo, apesar de estar bastante animada, confesso que não tive
nenhuma vontade de fazer novas entrevistas. Portanto, minha única dedicação
após quase cinco anos sem abrir o manuscrito foram algumas correções e uma
pesquisa rápida para saber se algo no final do livro teria que mudar
radicalmente. Ainda assim, ao ler o que vem a seguir é importante ter em
consideração que os depoimentos mais recentes são de 2012. E que isso era um
TCC. E principalmente que ninguém me autorizou oficialmente a produzi-lo,
ainda que soubessem que eu estava trabalhando em um livro-reportagem que
eventualmente seria lido por outras pessoas. Portanto, trata-se de uma biografia
não autorizada.
O único personagem que chegou a ler o material pronto – ainda na
versão TCC, com alguns erros – foi o Luciano Albo. Mandei o PDF a ele em
2013. Ele disse que gostou muito, que deu boas risadas e que com mais algumas
entrevistas eu teria realmente um livro. Tentou me ajudar, disse que mandaria o
arquivo para Frank Jorge e que quando tivesse uma resposta, me escreveria.
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Essa foi a última vez que nos falamos. Não houve resposta e eu sequer estava
esperando por ela.
Além das entrevistas que eu mesma fiz – que não foram muitas devido
ao pouco tempo e dinheiro disponíveis, além de algumas negativas recebidas –
utilizei material de uma ampla pesquisa bibliográfica, sem o qual não seria
possível sequer começar a produzir o livro. Todo o material utilizado está
devidamente citado ao final do livro.
Agora… de onde surgiu tudo isso? Não sei ao certo. Tenho uma vaga
lembrança de estar esperando o ônibus para voltar para casa, na parada do lado
da universidade, às 22h30, e pensei que poderia ser um tema interessante. Já
que eu teria que dedicar um ano inteiro a isso (entre o projeto e a execução)
então que fosse sobre algo que eu realmente gostasse e tivesse vontade de
investigar. Eu provavelmente estava no terceiro ou quarto semestre da
faculdade, porque me lembro de ter passado muito tempo com a ideia na
cabeça até finalmente começar a cursar a disciplina do projeto do TCC.
Fiz o projeto, e como a professora não disse que meu tema era absurdo
nem patético, fiquei feliz em poder levá-lo adiante. Meu negócio sempre foi
escrever, portanto sequer cogitei a possibilidade de fazer um documentário, que
era o que grande parte dos meus colegas iria fazer. Parecia muito mais cool fazer
um documentário, ser uma cineasta, mas havia muito tempo que eu já não me
sentia cool, então segui com a ideia do livro-reportagem.
Com o projeto em mãos e aprovado com boa nota, comecei a trabalhar
ainda sem orientador, nas férias. Marquei todas as entrevistas que pude por
e-mail ou Facebook e fui a Porto Alegre, em janeiro de 2012, no ápice daquele
calor ardente típico da capital gaúcha. Nesse momento a maior parte da minha
pesquisa bibliográfica já estava feita. Primeiro porque precisava de informação
para o projeto e segundo porque necessitava de uma boa base para poder fazer
as minhas próprias entrevistas.
O primeiro a me receber foi Luciano Albo, em sua casa, no bairro Jardim
Botânico, se não me engano. Peguei um ônibus na avenida Independência e
cheguei quase uma hora antes. Tive que matar tempo tomando café em uma
padaria a duas quadras do seu prédio. Depois não lembro exatamente a ordem,
mas conversei com Nei Van Soria em um estúdio que ficava em sua loja de
instrumentos musicais (e depois ganhei uma carona até perto do hostel onde eu
estava hospedada, na Cidade Baixa). Falei com Barea enquanto almoçávamos
em um restaurante vegetariano na Redenção, e com Tchê Gomes em um café do
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Bom Fim. Fiz isso em dois dias. Frank Jorge não havia dado retorno ao meu
pedido, Flávio tampouco. Charles Master já tinha dito que não falaria nada.
Marcio Petracco não estava na cidade e lembro de ter ficado com ódio de mim
mesma por isso. E por que razão? Porque um ano antes eu estava em Porto
Alegre a passeio e tinha ido a sua casa, sem projeto nem nada, só para explicar
meu plano e perguntar o que ele achava da ideia. Ele acendeu um baseado e
disse que tudo bem. E pronto, fui embora. Para mim não era hora de fazer
entrevista. Por um lado eu tinha razão, mas foi bastante idiota da minha parte,
preciso admitir.
(Essa história acaba de me lembrar que eu também estive na casa do
Egisto Dal Santo uns meses antes para ir buscar seu livro “Notas de Viagens”,
que também serviu como material de pesquisa para o projeto.)
Voltei a Balneário Camboriú, onde vivia na época, decepcionada. Eu não
teria dinheiro nem tempo para ir a Porto Alegre outra vez nos próximos dois ou
três meses. As férias do estágio acabariam em uns dias e as da faculdade em um
mês. Comecei a organizar as coisas, fiz entrevistas por e-mail e Facebook com
Miranda, Alex Antunes e Reinaldo Barriga, pesquisei por mais material até que
em um golpe de sorte vi que a Tenente Cascavel tocaria em Florianópolis em
algumas semanas. Entrei em contato imediatamente com a assessora de
imprensa. Na noite do show consegui falar uns minutos com Marcio e Paulo
Arcari. Melhor que nada.
Como eu já não tinha mais muito tempo – já que eu precisava entregar o
TCC no início de junho –, me conformei com o que tinha, fui escrevendo o que
faltava com supervisão da orientadora e deu tudo certo.
“Depois eu termino, faço um livro de verdade e publico”, me iludi na época. E
aqui estamos.
Não lembro qual dos entrevistados me disse que muitas vezes as
biografias de bandas revelavam um lado tão horrível dos músicos que no final
do livro terminávamos odiando todos eles. Esse nunca foi meu objetivo.
PS. Este prólogo foi escrito em 2017 com a intenção de publicar o livro nesse
mesmo ano. Não foi. Foi publicado em 2021.
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Capítulo 1 – Não dançava rock’n’roll, preferia ver o show
Rio Grande do Sul, Porto Alegre, bairro Bom Fim, avenida Cauduro.
Tudo começou ali, na tranquila via de apenas um quarteirão, que começa na
Osvaldo Aranha e acaba no colégio Anne Frank. Marco zero para dois dos
maiores fenômenos roqueiros do Rio Grande do Sul, naquele remoto ano de
1983. Na simpática rua pavimentada por paralelepípedos, moravam os
adolescentes Charles Master e Flávio Basso – no mesmo prédio, apenas um
andar de diferença. As escadarias do colégio, a poucos metros de distância,
foram o cenário dos primeiros acordes compostos pelos dois amigos em um
violão modelo trovador. Estava ali o embrião do que viriam a ser o TNT e os
Cascavelletes.
A diferença de idade de Charles e Flávio não chegava a dois meses. Os
dois tinham 15 anos, completados naquele verão. Apesar da proximidade do
Anne Frank, Flávio estudava no Rosário, no vizinho bairro da Independência, e
Charles no Colégio Israelita, um dos mais conceituados da capital gaúcha, que
ficava no bairro Rio Branco, também vizinho do Bom Fim. Eles jogavam futebol,
andavam de mobilete – uma espécie de ciclomotor de baixa potência, tolerado
para menores de idade, especialmente no litoral gaúcho – e tinham uma
peculiaridade que os diferenciava dos outros moleques: o desejo de formar uma
banda maior que os Beatles.
Com esse objetivo em mente, Flávio convenceu Charles de que deveria
vender sua mobilete para comprar uma guitarra. Faltava apenas ir atrás de
outros integrantes para concretizar aquilo que na época ainda chamavam de
“conjunto”. Quem ajudou nessa etapa foi um dos colegas do time de futebol da
dupla. Hoje radialista da Atlântida FM, Alexandre Fetter queria saber mais de
bater bola do que entrar na onda rock’n’roll dos dois vizinhos, mas indicou o
amigo Luis Felipe Jotz para ser o baterista. A apresentação foi feita ali mesmo
na esquina da Cauduro com a Osvaldo Aranha.
Como um trio e ainda sem baixista, a banda, batizada de TNT pela dupla
de fundadores, pisou pela primeira vez em um palco ainda em 1983. Coube ao
Festival Interno da Canção Anchietana, o FICA, concurso promovido pelo
colégio Anchieta, outro conceituado na cidade, dar a primeira chance de
visibilidade aos trinitrotoluenos, como se chamavam internamente por causa do
explosivo que os batizava. Explodir era o que queriam.
Nessa época, um garoto novo, chamado Marcio Petracco, entrou no
Colégio Israelita. Aos poucos, Charles se aproximou e, percebendo seu gosto
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pela música, não demorou a lançar um convite. Perguntou se ele não queria
fazer parte da sua banda. Como o papel dos três integrantes já estava definido,
restava então uma única possibilidade ao novato: ser o baixista.
– Mas eu não queria tocar baixo, queria tocar guitarra. Daí fui na loja e vi
o baixo, gostei, o preço tava bom e eu podia pagar por ele, acabei levando –
revela Marcio, que nunca lembrou com clareza de onde tinha arranjado
dinheiro para comprar o instrumento.
Mesmo Flávio, que acreditava ter conhecimento musical suficiente por já
tocar guitarra e demonstrar intimidade com ela, não sabia muito bem como era
o som de um contrabaixo – aquela guitarra estranha, comprida, de apenas
quatro cordas. Quando Marcio apareceu com o instrumento e tocou alguns
acordes de um rockabilly qualquer, Flávio ficou impressionado com o som que
aquilo fazia.
– Isso soa como nos discos! Então o baixo é isso, são aquelas notas gordas
que a gente ouve! – teria dito, entusiasmado com a descoberta.
Apesar de ter nascido e crescido em uma casa onde a música sempre
esteve presente, com um pai que tocava acordeon e uma mãe pianista, Marcio
precisava esconder o baixo quando ia ensaiar com a banda. Ao sair para tocar,
jogava o instrumento por cima do muro para o terreno da vizinha, passava pelo
pai, dizia que estava saindo e em seguida corria para a vizinha pegar o
instrumento. Sua mãe, no entanto, sabia que ele havia comprado aquele
negócio, que para ela era uma guitarra.
Antes de ir para o Colégio Israelita, Marcio havia estudado no Instituto
de Educação, colégio estadual localizado na Avenida Osvaldo Aranha. Lá,
conheceu Nei Wulff Soria, um garoto judeu, de nariz grande e um pouco
introvertido, que saiu do Instituto praticamente no mesmo período que Marcio
para estudar no Israelita.
No Instituto havia outros dois garotos que ainda fariam parte daquela
história: Luís Henrique Gomes, que logo seria conhecido apenas como “Tchê”, e
Jorge, que mais tarde teria ainda o apelido “Frank” agregado ao nome. Os dois
tinham uma banda, a Prisão de Ventre, que nunca chegou a gravar um disco,
mas teve certa importância para aquela geração do rock gaúcho que começava.
Outro rapaz que chegou a tocar nessa mesma banda foi Alexandre Barea, um
amigo de Flávio do Colégio Rosário, conhecido pela pinta de metaleiro e por
viver aprontando pelo Bom Fim. Ele também iria cruzar o caminho de Flávio e
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Charles.
Nesse período, o TNT já fazia algumas apresentações pequenas, tocava
em festivais de escola, como o FICA, mas nada que ainda pudesse garantir que
o grupo chegaria ao sucesso algum dia. Tudo começou a mudar para aqueles
garotos em 12 de outubro de 1984, no extinto bar B-52s, que ficava na Avenida
Independência. Era o primeiro show profissional do TNT e o primeiro show da
história da Prisão de Ventre.
– A Prisão de Ventre fez uns 20 shows, mas o primeiro foi num bar aqui
na Independência junto com o TNT. A formação deles era Charles, Flávio, Jotz e
o Marcio – conta Luis Henrique “Tchê” Gomes.
Aquele show no B-52s foi um chute na porta para o emergente cenário
roqueiro de Porto Alegre. Naquele momento, além do TNT e da Prisão de
Ventre, outras quatro bandas estavam sendo apresentadas ao público
underground da cidade. Era o que faltava para o rock gaúcho fixar território e
formar uma cena.
Uma das poucas bandas que existiam na época e que tinham algum
destaque no underground era a Taranatiriça, que surgiu em 1978, capitaneada
pelo músico e produtor musical Carlos Eduardo Miranda. Quando a
Taranatiriça organizava shows coletivos, precisava dividir o palco com bandas
que não tinham muito a ver com o som experimental que produzia.
Miranda sempre se esforçou para movimentar aquela cena que parecia
não sair do limbo. Um dos seus primeiros objetivos era gravar uma música e
levar até a rádio Bandeirantes FM, que mais tarde se tornaria a legendária
Ipanema. Ele até conseguiu emplacar uma faixa, que virou tema de programa
de tevê, mas em 1984 a banda se dissolveu e deu lugar à Urubu Rei. Faziam
parte dela Miranda, sua namorada Biba Meira, Flávio Santos, mais conhecido
como Flu, e Rodrigo Correa. No mesmo período, Jimi Joe, outro influente
músico da cena roqueira porto-alegrense, convidou Miranda para formar a
“pior banda de todos os tempos”, a Atahualpa y us Panquis, uma cômica
referência ao cantor argentino Atahualpa Yupanqui.
Para idealizar aquela piada em forma de banda, foram recrutados Flu e o
baterista Castor Daudt. O objetivo do quarteto era ser a pior banda punk
possível. Com aquela ideia na cabeça, certa vez, perambulando por uma loja de
discos, Miranda encontrou Carlos Gerbase, um cineasta “meio hippie” de Porto
Alegre. Foi imediatamente puxar conversa, pois tinha ouvido falar que ele e
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outro rapaz chamado Wander Wildner estavam montando uma banda punk
com os irmãos Claudio e Heron Heinz. Eram Os Replicantes. Depois de uma
rápida troca de ideia, resolveram tramar shows juntos, aglutinando o máximo
de novos artistas que conseguissem.
No momento da conversa, como uma espécie de conspiração universal,
entrou na loja um guri estranho, que era pelo menos sete ou oito anos mais
novo que eles – devia ter uns 15. Ele se chamava Eduardo e já foi se metendo no
papo garantindo que tocava violão e que um amigo cantava. Ele logo passaria a
ser conhecido como Edu K.
– Eles (dois) se vestiam como umas bichonas, Prince, Duran Duran,
maquiados. Nós curtimos muito isso e as músicas. Ofereci minha casa, os
instrumentos e a Biba pra tocar bateria. Surgiu o Fluxo – conta Miranda.
Nesse momento, já eram quatro bandas escaladas para a série de shows
que ele organizava com Gerbase: Urubu Rei, Atahualpa y us Panquis, Os
Replicantes e Fluxo. Mas eles queriam mais, a ideia era juntar pelo menos seis
bandas e separá-las em duas para três noites de apresentações. Não demorou
muito até ouvirem falar de uns guris do Bom Fim que, segundo Miranda,
tocavam um “rockabilly meio apunkalhado”. A banda se chamava TNT, que
junto com amigos da Prisão de Ventre, fechou os seis grupos para o
mini-festival histórico no B-52s. Era o começo de uma era.
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Cartaz oficial do show no B-52s.
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Capítulo 2 – Entra nessa e dance o rock’n’roll
Flávio, Charles, Márcio e Jotz voltaram ao palco do B-52s já no mês
seguinte ao show de estreia, mais uma vez ao lado da Prisão de Ventre. Mas
antes que os primeiros fãs pudessem se afeiçoar ao quarteto, surgiram baixas e
até mesmo uma disputa com outra banda pelo passe de um integrante.
Após alguns meses no grupo, já em 1985, Felipe Jotz tirou uma espécie
de licença do TNT. Ele havia sido convidado para tocar na banda Frutos da
Crise, formada por rapazes um pouco mais velhos e que já tinham conseguido
certo destaque na mídia local. Algumas de suas músicas até tocavam nas rádios
de Porto Alegre.
Com a saída de Felipe, o TNT iniciou testes para substituí-lo. Chegaram
a testar o filho de um diplomata inglês, chamado Kevin. Esse teste, aliás,
mostrou os sinais de uma disputa de egos entre os dois criadores da banda.
Estavam lá, a postos, Charles, Marcio e Kevin esperando por Flávio. O vocalista
chegou bêbado. Logo que começaram a tocar, Charles reclamou de algo que
Flávio teria errado na música. Em seguida foi a vez de Charles errar. Flávio,
indignado, partiu para cima do parceiro. Marcio separou os dois, enquanto
Kevin assistia à cena sem entender nada.
– O Flávio acabou se queimando comigo, mas foi coisa passageira –
lembra Marcio.
Ainda em meio ao conflituoso processo de seleção do novo baterista,
Marcio também resolveu abandonar o grupo. Ele começou a trabalhar com o
pai e não tinha mais tempo para se dedicar ao TNT. Para não deixar os
companheiros na mão, apresentou a eles seu amigo da escola, o Nei Wulff.
Assim, Charles acabou migrando para o baixo e Nei acompanhou Flávio, que
também tocava guitarra.
Depois daquele teste frustrado, o baterista inglês acabou perdendo a
vaga para um alemão. No apelido, pelo menos, já que Eduardo,
o-quase-novo-baterista do TNT, era brasileiro mesmo. Mas mal deu tempo de o
novato esquentar as baquetas e Felipe reassumiu o posto.
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Felipe Jotz, Nei Van Sória Flavio Basso e Charles Master
A primeira formação oficial do TNT, em 1986
Ele dividiu seu tempo entre TNT e Frutos da Crise por cerca de seis
meses, período que não registrou grandes conflitos. Isso até a Frutos da Crise
entrar em estúdio para gravar seu primeiro compacto em vinil e entender que
não deveria mais compartilhar o baterista com aquela piazada mais nova.
Exigiram uma definição de Felipe, que preferiu continuar com os amigos da
Cauduro. Ele mesmo indicou o substituto, Miguel Ângelo, seu professor de
bateria e ex-integrante da banda Os Bonitos.
Finalmente, a formação Charles Master, Flávio Basso, Nei Wulff e Felipe
Jotz acabou consolidada como a primeira oficial do TNT. O formato que os
colocou entre os grandes nomes do rock gaúcho e fez com que a banda
começasse a se profissionalizar. Até um pequeno staff começou a ser montado.
O TNT já tinha composições próprias, com todas as músicas assinadas
pela parceria Master-Basso, uma clara referência aos Beatles da dupla
Lennon-McCartney e aos Rolling Stones de Jagger-Richards. Os shows, embora
ainda não muito grandes, começavam a ser mais frequentes, não somente em
Porto Alegre, mas também no interior do Estado. Foi quando resolveram dar
cargos no TNT para dois amigos que, embora tocassem em outras bandas,
passavam um bom tempo com eles. Alexandre Barea, o metaleiro amigo de
Flávio, do Colégio Rosário, como já tocava bateria e entendia do assunto, virou
o roadie de Felipe. Luis Henrique “Tchê” Gomes passou a ser o operador de
som da banda.
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A equipe, ainda que enxuta, estava montada. Mas a coisa pareceu estar
mesmo ficando séria quando em um show no Ocidente, principal bar
underground de Porto Alegre, localizado ali mesmo no Bom Fim, na esquina da
Osvaldo Aranha com a João Telles, apareceram três jovens desconhecidos
fazendo uma proposta inusitada ao TNT.
– Eram o Vinícius, o Fernandinho e o Fabiano, que eram um pouquinho
mais velhos que nós, dois ou três anos. Eles chegaram lá no Ocidente dizendo
que queriam ser nossos empresários, uma história meio maluca – lembra Nei.
Nenhum dos integrantes da banda sabia muito bem o que fazia um
empresário e o que aqueles três poderiam fazer pelo TNT, mas acabaram
topando a proposta. O trio abriu um escritório no Centro de Porto Alegre, e
começou a vender os shows da banda. Aos poucos, a ideia foi parecendo
realmente fazer sentido, os shows estavam acontecendo e os três sócios
começaram a ganhar comissão em cima dos cachês.
Ainda no final de 1984, após o festival no B-52s, Ricardo Barão, um dos
nomes por trás da gravadora gaúcha ACIT, produziu uma das primeiras
coletâneas de rock gaúcho. O LP chamado Rock Garagem trazia músicas de dez
bandas, entre elas Frutos da Crise, Taranatiriça, Urubu Rei, Garotos da Rua,
Fluxo e Os Replicantes. Com o sucesso daquele lançamento, no ano seguinte
Barão decidiu lançar o Rock Garagem II. Dessa vez, o TNT estaria no casting.
Já estava tudo acertado para a nova coletânea, que teria novamente dez
bandas. Junto com o TNT estariam ainda os Engenheiros do Hawaii, Os Eles e
até Atahualpa y us Panquis. Semanas antes de o disco ser lançado, o TNT foi
convidado, junto com outras bandas, a tocar no festival promovido por um
cursinho pré-vestibular de Porto Alegre, o Rock Unificado. O boato que corria
entre as bandas que iriam tocar no festival era de que um olheiro da gravadora
carioca RCA observaria seu desempenho naquele show.
Não era boato. Após o show, um homem chamado Tadeu Valério
convidou o TNT e os Engenheiros do Hawaii para gravarem pela RCA uma
coletânea semelhante à que seria lançada pela ACIT, mas com alcance nacional.
Além disso, a participação no disco, batizado de Rock Grande Sul, renderia
assinatura de contrato com a gravadora. As duas bandas toparam e desfalcaram
a coletânea de Ricardo Barão, que acabou saindo com apenas oito em vez de
dez faixas..
– Não deu tempo de substituir ninguém, foi inesperado. Eles vieram e
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atropelaram nossos sonhos de fazer uma gravadora, porque a ACIT, que lançou
os dois Rock Garagem, ainda era uma gravadora de música nativista. Mas o
nosso objetivo foi alcançado: as coisas aconteceram e fiquei feliz em ver as
bandas estourando na mídia – disse Ricardo Barão em uma entrevista anos
mais tarde.
Poucas semanas depois, Tadeu Valério levava de avião para o Rio de
Janeiro os adolescentes deslumbrados para gravar as duas músicas que
entrariam na coletânea: Entra Nessa e Estou na Mão. Além do TNT e dos
Engenheiros do Hawaii, outras três bandas foram chamadas: De Falla – que
sucedeu o Fluxo, com o peculiar vocalista Edu K –, Os Replicantes e Garotos da
Rua. Aquele projeto é algo que hoje eles definem como “pau-de-sebo”: se uma
banda estourasse, seria lucro.
O efeito da gravação foi imediato em Porto Alegre. As duas canções do
TNT entraram de vez na programação da Ipanema FM e a agenda de shows da
banda foi ficando cada vez mais cheia. No embalo do sucesso, tiveram a ideia
de gravar um videoclipe para a música Entra Nessa. O vídeo foi filmado em um
local conhecido como Terreira da Tribo, na Cidade Baixa, um espaço
alternativo, que parecia mais com um galpão, destinado ao teatro e outras
atividades culturais. Nele, os quatro TNTs aparecem de cabeça raspada tocando
o rockabilly Te controla garota / meu problema é mental /Meu sangue é muito quente /
eu tô muito mal /E se tu pula fora agora / vai ser legal para uma plateia de roqueiros
ensandecidos. Com o clipe, a música virou um verdadeiro hino no
underground gaúcho.
– Acho que foi o Gerbase que filmou. Lembro deles todos por lá, o
Heron, Claudio, Gerbase, Luli, dos Replicantes. Um bando de figurantes que
eram atores e dançarinos – recorda Nei.
Em 1985, a RCA lançou um selo chamado Plug, com a intenção de
explorar melhor aquela onda rock’n’roll que estava tomando conta do país na
década de 1980. No fim das contas, quem recebeu maior destaque do selo
acabaram sendo justamente as bandas gaúchas, as participantes do Rock
Grande do Sul. O disco chegou às lojas no início de 1986, com direito a nota na
revista Bizz, a mais importante revista de música do país da época, assinada
pelo jornalista Tom Leão:
Após Brasília, o Estado brasileiro que mais está se
destacando é o Rio Grande do Sul, e por isso a RCA
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apresenta a coletânea "Rock Grande do Sul", com cinco
das mais destacadas bandas da região, que têm tudo
para acontecer nacionalmente.
Prova disso é que "Sopa de Letrinhas", do Engenheiros
do Hawaii, "Tô de Saco Cheio", dos Garotos da Rua, e
"Surfista Calhorda", dos Replicantes, são presenças
constantes nas paradas radiofônicas. Os Replicantes por
força de sua fama local lançaram, à parte da coletânea, o
LP O Futuro é Vortex, um disco repleto de hardcores
bem produzidos. Todos os grupos que integram a
coletânea, que além dos citados inclui ainda De Falla e
TNT, mostram força bastante para também ter muito
breve seus próprios LPs. Torçamos pra que isso
aconteça o mais breve possível.
No ano seguinte, com certo atraso, a RCA organizou um festival no
Canecão, clássica casa de shows do Rio de Janeiro, extinta em 2008, com as
bandas contratadas pelo Plug. Era o lançamento oficial do casting, que incluía
também a carioca Picassos Falsos, a paulista Violeta de Outono e a mineira Sexo
Explícito. Nesse momento, devido ao sucesso do Rock Grande do Sul, o futuro
do TNT já estava garantido: a RCA contratou a banda para gravar um disco
completo.
A felicidade e o deslumbramento com a fama que eles já podiam
enxergar de longe, no entanto, não durou muito. Com contrato assinado e
repertório totalmente pronto, Flávio e Nei tiveram uma conversa reservada e,
sem muito hesitar, acertaram enfim uma decisão que estava sendo tomada há
um bom tempo pelos dois, individualmente: eles deixariam o TNT.
A notícia desestruturou a banda e tirou Charles Master do sério.
– Eu e o Flávio saímos da banda com contrato assinado, tudo marcado,
tava tudo certo. Isso deve ter causado, principalmente no Charles, uma
insegurança – conta Nei.
O que o TNT faria sem vocalista e guitarrista às vésperas da gravação do
primeiro disco? Eles não poderiam simplesmente deixar de gravar e nem
tinham a confiança da gravadora para pedir um adiamento. Restava torcer para
que aquilo não afetasse o contrato com a gravadora.
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O que tinham Flávio e Nei na cabeça era o que todos devem ter se
perguntado.
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Capítulo 3 – Eu queria ser um selvagem, para ser o rei da sacanagem
Naquela manhã, o sono de Alexandre Barea foi interrompido antes da
hora por um aviso da mãe:
– Alexandre, o Flávio tá aqui! Quer falar contigo.
Mal deu tempo de Barea abrir os olhos e o amigo já estava dentro de seu
quarto, com um aspecto estranho, olhos esbugalhados, cabeça raspada, jeito de
quem tinha virado a noite anterior.
– Saí da banda, o Nei também! Vamos fazer outra! – disse um efusivo
Flávio com um entusiasmo fora do comum.
Ele tinha ido direto da dispensa do quartel. Jurou a bandeira, pegou a
carteira de reservista, tomou Coca-Cola com Melhoral e foi bater na porta da
casa do amigo com uma nova banda já formada em sua cabeça.
Na época, Barea, além de ser roadie de Felipe Jotz no TNT, também tocava
bateria em uma banda de heavy metal chamada Pesadelo. Ainda sonolento, ele
resolveu não questionar os planos do amigo. Por via das dúvidas, topou fazer
parte da nova banda. Mais que isso, empolgou-se e foi logo dando sugestões
sobre que tipo de som deveriam tocar. Uma delas foi determinante, quando
puxou da estante o disco Rocket to Russia, dos Ramones.
– Eu coloquei Surfin’ Bird pra ele ouvir, acho que ele não conhecia. Falei:
“cara, a gente tem que tocar essa!”. O Flávio enlouqueceu tanto que deu uma
cabeçada na parede – lembra Barea.
Pois Surfin’ Bird foi a primeira música a entrar no repertório dos
Cascavelletes – nome que surgiu após um dos característicos surtos de
criatividade de Flávio. Ao gravar a primeira fita, a música ganhou uma versão
própria, chamada Pombo Surfista.
Naquele momento, eles já tinham um vocalista (Flávio), um guitarrista
(Nei) e um baterista (Barea). Faltava um baixista e havia três opções para ocupar
o cargo: Jorge, amigo de Barea, que também já conhecia Nei do Instituto de
Educação, um outro garoto aleatório da escola, que Nei havia sugerido, e Tchê
Gomes, o operador de som do TNT.
Barea não escondia sua preferência por Jorge, seu amigo de infância. Já
tinha tocado com ele na Prisão de Ventre, que também teve Tchê Gomes como
integrante. Depois dessa experiência, Jorge continuou envolvido com rock. Ou
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algo parecido com rock. Ele tocava em uma peculiar banda de nome igualmente
peculiar: a Graforréia Xilarmônica.
– Eu achei que era o cara ideal, sempre achei ele genial. E fui conversar
com ele – conta Barea.
Os dois se encontraram no Lola, extinto bar localizado na Avenida
Osvaldo Aranha. De dia era uma lancheria como outra qualquer. À noite, no
entanto, o Lola trocava as torradas e os “xis” pelo álcool e a boemia tradicional
de Porto Alegre. Foi nesse cenário que Barea convidou Jorge para ser um dos
Cascavelletes.
– Mas ele já tinha a Graforréia e disse que não queria largar a banda. A
gente ficou pressionando ele um tempão – lembra.
Após convencê-lo, bastou um teste rápido para confirmar a entrada do
baixista nos Cascavelletes. Mas é claro que ele não poderia se chamar
simplesmente Jorge. Barea se lembrou de um antigo apelido que amigo
possuía e resolveu adaptá-lo. Considerado esquisito pelos colegas da escola,
Jorge havia virado Frankenstein, depois apenas Frank. E nos Cascavelletes ele
seria Frank Jorge.
Inicialmente, nem todos os membros da banda estavam contentes com a
escolha do novo integrante.
– Eu, na verdade, queria convidar outra pessoa, um músico melhor. Mas
internamente ele acabou sendo vetado por questões raciais – lembra Nei.
Comenta-se que o músico em questão era Zé Natálio, hoje baixista da
banda Papas da Língua. Mas não teve jeito, já estava decidido: os Cascavelletes
eram oficialmente Flávio Basso, Nei – que abandonou o sobrenome Wulff para
adotar o Van Soria -, Alexandre Barea e Frank Jorge. Por pouco o quarteto não
adotou “Cascavellete” como sobrenome de cada um.
– A gente queria meio que ser os Ramones, uma gangue – conta Barea.
Apesar da insatisfação inicial de Nei, não demorou muito para todos
perceberem que a química entre os quatro era indiscutível.
– A gente tinha muita ideia, a química da banda foi imediata. Quando
entrou Frank, então... O estilo dele fechou com o nosso. Mas ele não conseguia
colocar o estilo dele 100% como na Graforréia Xilarmônica, porque ele sempre
gostou de música brega – afirma Barea.
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Além do rock, Frank ouvia o brega de Odair José e Vanusa e era um
estudioso da Jovem Guarda – influências que apareciam bastante em sua outra
banda. Ele gostava mesmo era de ouvir os discos da empregada. E, dizem por
aí, gostava das empregadas também.
Enquanto isso, Barea trazia para o grupo uma veia mais punk, com um
jeito agressivo de tocar bateria. Certa vez, Nei chegou a comentar que o estilo
de Barea lembrava o de Keith Moon, baterista do The Who. Já Flávio vinha com
a influência de Beatles e Stones, suas duas bandas favoritas. Nei completava a
mistura com referências da música country.
Depois de Pombo Surfista, os Cascavelletes se empenharam em novas
composições, que brotavam com uma naturalidade surpreendente. Duas ou três
músicas novas a cada ensaio era algo sagrado, muitas compostas dentro do
quarto de um deles, sob o efeito da maior quantidade de drogas possível.
Geralmente se encontravam depois do almoço e passavam a tarde inteira
compondo, em uma linha musical totalmente diferente do que Nei e Flávio
haviam experimentado no TNT.
– Quando eu saí do TNT pra formar os Cascavelletes, o exercício de
composição estava começando a se mover para outro lado. Os Cascavelletes
eram um pouco mais pesados. Eu gostava da parceria Master-Basso,
Basso-Master, mas acho que eu já tinha uma ligação maior com a estética do
underground, havia passado a viver intensamente a boemia. Foi um longo
período em que os garotos do TNT iam dormir mais cedo e eu ia dormir na casa
de outra pessoa – afirmou Flávio em uma entrevista anos mais tarde.
A vida boêmia de Flávio trouxe para as letras da nova banda um traço
inconfundível: a putaria. Aquela forma de tratar o sexo, promíscuo ou não, era
uma novidade em relação aos tempos de TNT. Nei justifica essa diferença pela
idade que tinham na época. Os meninos do TNT não encaravam o tabu.
– Os Cascavelletes tinham uma coisa forte de libido que talvez estivesse à
frente do seu tempo. Quando o TNT começou, antes de sairmos da banda, a
galera ainda era muito nova. Por isso não entrávamos muito nesses assuntos.
O que nem eles sabiam era que a soma dessa libido das letras com a
química dos quatro integrantes transformaria as apresentações ao vivo dos
Cascavelletes em algo inesquecível.
Mas estavam prestes a descobrir. Eles e Porto Alegre.
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22
Capítulo 4 – A vida não acaba não, meu irmão
Enquanto Flávio organizava sua suruba musical, Charles Master se via
naquela aflição sem precedentes. Contrato assinado com grande gravadora e a
banda desfalcada, sem vocalista e um dos guitarristas. Não bastasse sua saída
repentina, Flávio e Nei ainda levaram Alexandre Barea, o roadie de bateria para
tocar na nova banda que fundaram. Mas parte da solução estava mais perto do
que ele poderia imaginar: Tchê Gomes, o operador de som.
Além de já conviverem por mais de um ano e terem criado uma boa
amizade, o rapaz conhecia todo o repertório do TNT e era um habilidoso
guitarrista, mostrando até aí um bom desempenho na Prisão de Ventre. O jeito
espevitado do garoto, que falava rápido, se atrapalhava nas ideias e não parava
quieto um segundo, poderia dar um bom contraste com a personalidade mais
centrada e perfeccionista de Charles.
Já no dia seguinte ao anúncio da saída de Flávio e Nei, Charles ligou
para Tchê, contou o episódio para o colega e finalmente fez o convite. O
operador de som não hesitou muito em aceitar a proposta de virar músico
titular. Afinal, enquanto a Prisão de Ventre parecia não estar saindo do lugar,
sem perspectiva de gravar um disco, o TNT já tinha um futuro – pelo menos um
futuro próximo – garantido com aquele contrato quente com a RCA para a
gravação do primeiro LP.
Convite aceito, um dos problemas estava resolvido. Mas ainda faltava
mais um guitarrista. A opção para ocupar a vaga acabou sendo justamente a
pessoa que apresentou Nei para a banda quase dois anos antes. Ele mesmo,
Marcio Petracco – ou Petralha, como ficou conhecido no meio underground nos
primórdios do TNT. Ele havia saído da banda porque precisava trabalhar com o
pai e não tinha tempo para se dedicar aos ensaios e a tudo o que um grupo
daqueles exigia. Mas, quem sabe ver a nova fase que o TNT estava vivendo,
com músicas no rádio, uma coletânea gravada, shows em várias cidades e o
contrato para um disco fosse suficiente para que ele quisesse abandonar o
trabalho e aceitar retornar. Além de tudo isso, ele poderia finalmente tocar
guitarra, que ele tanto queria quando entrou no grupo em 1983.
Para a sorte de Charles, foi exatamente o que aconteceu. Marcio aceitou
o convite e os ensaios com o novo TNT, agora com Charles nos vocais,
começaram a todo o vapor. Eles não tinham mais tempo a perder antes da
gravação do disco, que seria dali a poucas semanas.
Desde que passou a se tornar mais conhecido e a contar com um pouco
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mais de estrutura, o TNT ensaiava no estúdio do Ivo, um dos poucos
disponíveis para as bandas de Porto Alegre. Era uma sala simples, equipada
com uma mesa de som, alguns microfones e uma bateria. As bandas pagavam
um valor não muito alto e passavam um tempo se divertindo lá dentro. Foi lá
que o TNT se instalou às vésperas da gravação do LP e onde encontrou uma
surpresa não muito agradável: os Cascavelletes, nova banda de Flávio, Nei e
Barea, passou a ensaiar no estúdio do Ivo também.
Nos primeiros ensaios, os antigos colegas – agora rivais – ainda não
tinham definido um baixista. Os três Cascavelletes estavam com algumas
opções em mente, mas faltava consenso. Em uma daquelas tardes de ensaio no
estúdio do Ivo, observando o antigo operador de som do TNT empunhando
uma das guitarras da antiga banda, tiveram uma ideia ousada e, de certa forma,
provocativa. Convidariam Tchê Gomes para tocar baixo nos Cascavelletes.
– Uma semana depois, eu já ensaiando com o Charles, o Marcio e
Felipe, o telefone toca. Era o Nei me convidando pra gente comer uma pizza –
lembra Tchê, que já desconfiava das intenções do rapaz.
Foram comer a tal da pizza e Nei finalmente desembuchou:
– Bah, tu vai tocar com o Charles e o Felipe? Vem tocar com a gente, a
banda vai ser legal!
Tchê ficou balançado com o convite, já tinha visto alguns ensaios dos
Cascavelletes no estúdio do Ivo entre um ensaio e outro do TNT e achava a
estética da nova banda dos amigos algo sensacional. Já era um fã em potencial.
Pensou por alguns minutos, mas decidiu declinar.
– E eu tava tri encantado com aquilo ali, mas pô, eu já tava ensaiando
com o Charles, tava me preparando pra logo, inclusive, gravar o primeiro disco.
E eu tive que recusar o convite dos caras em função de um compromisso que eu
tinha assumido. Então eu estive a um passo de ir pro outro lado. Mas não me
arrependo em nenhum momento – afirma Tchê, convicto.
Apesar de o TNT ter conseguido se reafirmar com a nova formação, o
desgosto e a chateação de Charles sempre foram nítidos. Ao menos por um
tempo. Aquela separação foi tudo, menos amistosa. Flávio acabou levando
consigo o lado sexy e psicodélico da coisa. No divórcio, a nova banda ficou com
a influência dos Rolling Stones e deixou o lado Beatles para o TNT. Talvez daí
tenha surgido a ideia de que as bandas seguiram sendo rivais por anos a fio,
fato que nenhum deles confirma.
Difícil mesmo foi evitar a fama de loucos por terem abandonado o
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TNT, deixando para trás um possível futuro promissor com o lançamento do
primeiro disco. Mas Flávio e, principalmente, Nei sempre alegaram ter boas
razões para deixar a banda. E nunca as esconderam de ninguém.
– No TNT eu não tinha espaço para colocar minhas composições, e esse
foi um dos principais motivos de eu ter saído pra fazer Os Cascavelletes – disse
Nei anos mais tarde em entrevista para um jornal catarinense.
Como seria se eles tivessem permanecido, ninguém sabe. Fato é que,
pelo menos por um momento, o TNT acabou sobrevivendo bem à tempestade.
Se antes Flávio era o centro das atenções, agora Charles havia herdado os
holofotes na marra. Não que ele não tenha gostado. Seu antigo papel, de
coadjuvante da estrela da banda, ficou a cargo de Tchê Gomes. Agora, só faltava
entrar no estúdio e gravar.
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Capítulo 5 – Com quantos paus se faz rock'n'roll
Do dia em que Flávio invadiu o quarto de Barea com uma ideia na
cabeça até o primeiro show dos Cascavelletes foi questão de três meses. A
dissidência no TNT também separou os sócios da produtora Pipoca Moderna.
Fernandinho decidiu continuar com a banda original, Fabiano foi embora para
São Paulo e Vinícius virou empresário dos Cascavelletes, tornando-se um dos
principais responsáveis pelo sucesso instantâneo do quarteto.
– Quando a banda começou, não começou do zero, já tinha a mesma
produção do TNT, que assumiu a banda. Então já havia uma estruturazinha.
Tivemos apoio pra gravar e uma entrada na rádio – conta Barea.
A oportunidade de gravar a primeira fita cassete também veio rápido. Os
integrantes dos Replicantes, junto com Carlos Eduardo Miranda, tinham criado
um selo chamado Vórtex. O vocalista Wander Wildner, o baixista Heron Heinz
e Miranda eram os mais ativos no trabalho do selo e se empenhavam na coleta
de material para lançar, enquanto a tecladista Luli e o baterista Carlos Gerbase
cuidavam da parte administrativa.
Quando os Cascavelletes apareceram para lançar a primeira fita, o selo já
era um sucesso no underground porto-alegrense. Boa parte das bandas da
cidade havia lançado fitas pela Vórtex ou participado das clássicas coletâneas –
como a Zona Mortal, primeiro lançamento do selo, A Grande Sacanagem e
Danças de Guerra. Mais tarde, quem também lançaria seu primeiro trabalho
pelo Vórtex seria a Graforréia Xilarmônica, a fita Com Amor, Muito Carinho.
Miranda acredita que essa fase talvez tenha sido uma das mais emblemáticas
para o rock feito no Rio Grande do Sul.
– Os Cascavelletes e a Graforréia foram a melhor coisa que podia
acontecer naquele momento. Eram os melhores shows e a melhor energia, eles
revitalizaram a cena.
Com o material gravado em mãos, os Cascavelletes foram bater na porta
da Ipanema. Também conhecida como “a ovelha negra”, ela foi a rádio mais
importante para que o rock gaúcho chegasse a cada canto de Porto Alegre.
Quem recebeu a fita foi a locutora Kátia Suman, uma das vozes mais expoentes
da Ipanema, que se prontificou a tocá-la.
A conotação sexual das letras dos Cascavelletes acabou dando dor de
cabeça para a rádio. Especialmente Menstruada, que estourou na programação.
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Certa vez, em 1987, após tocar mais de uma hora seguida só de Cascavelletes, a
rádio teve problemas com a censura, mais branda, mas ainda em vigor naqueles
tempos de redemocratização. A Ipanema ficou fechada por semanas, mas não
parou de tocar Cascavelletes quando voltou ao ar.
Na revista Bizz, Os Cascavelletes foram apresentados ao resto do país em
fevereiro de 1987, em um relato do jornalista Marcel Plasse que começava assim:
Um bom pai jamais deixaria sua filhinha ir a um show
dos Cascavelletes. Eles são a novíssima geração do rock
gaúcho, e seus detratores os distinguem à distância: os
Menudos pornôs com uma batida Chuck Berry". A
canção "Menstruada" já é um hit, especialmente entre o
público feminino. "Tá menstruada/ Mas mesmo assim/
Eu vou transar."
A estreia dos Cascavelletes foram duas noites incendiárias no Ocidente.
O primeiro show formou uma fila de duas quadras que tomou conta da João
Telles. Todo mundo queria ver ao vivo aquela gurizada desbocada, dona dos
refrãos que não saíam da Ipanema. Um tremendo sucesso.
Um dos shows seguintes à estreia teve um cenário bem diferente. Era a
abertura da apresentação da banda Capital Inicial, já estourada nacionalmente,
no Petrópole Tênis Clube. Na plateia aglomeravam-se cerca de cinco mil jovens
bem-vestidos que não conheciam e não estavam muito interessados no show
daqueles esquisitos. Apesar do sucesso repentino que os Cascavelletes já
estavam experimentando, eles não tinham atingido um grande público e o
glamour estava bem longe de chegar.
– Eu não tinha nem bateria, usava uma emprestada do Felipe, que ele
não usava mais. Eu só tinha uns pedaços de bateria, um troço feito em casa, era
horrível. Então fui pedir pro cara do Capital Inicial (Fê Lemos) se eu podia usar
a bateria dele. O cara me mandou à merda. Aí aluguei uma porcaria – lembra
Barea.
Os shows em Porto Alegre continuaram aparecendo sem muita
dificuldade e com um público expressivo, mas não demorou para que o interior
se tornasse a principal vitrine para os Cascavelletes. Era onde a coisa realmente
enlouquecia. Aos poucos os shows na capital foram diminuindo, enquanto no
interior o número de apresentações aumentava exponencialmente. Os
Cascavelletes tocavam uma ou duas vezes por ano em Porto Alegre, enquanto
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passavam pelo menos três vezes por cidades como Caxias do Sul, Cachoeirinha
e Santa Maria. Para Barea e Nei, a maior parte dos fãs dos Cascavelletes sempre
foi do interior do Estado.
– No TNT, a gente já fazia muitos shows no interior, então foi uma
continuidade. Era um mercado que estava aquecido, rolava direto – explica o
guitarrista
Em 2007, em uma entrevista à rádio Pop Rock, Frank e Flávio chegaram a
relembrar juntos o que significaram aquelas turnês, para a banda e para as
cidades que os receberam. Cada um do seu jeito, claro.
-– Era um terreno a ser descoberto. Tocar no interior com aquele tipo de
postura que o Flávio já tinha, aquele tipo de letra muito irreverente, muito bem
sacada, muito dentro do estilo do rock'n roll. Olhando depois é que tu vê como
aquilo cumpriu uma função super séria, independente da irreverência, de estar
indo para lugares onde não tinha uma sonorização legal, onde a plateia não
estava acostumada a ver shows de rock. Eu vejo bem dessa forma: o
Cascavelletes ia para o interior e levava um show de rock como a cidade há
muito tempo não assistia – analisou Frank.
– O Frank sempre foi um pouco mais cético, ele é virginiano, nunca
esqueci. Ele está certo, com exatidão científica é isso. Mas poeticamente falando,
eu como aquariano, via como os Beatles indo a Hamburgo. Tudo que eu
aprendi foi fazendo aquelas turnês com os Cascavelletes. Não era bem
tosqueira, eram multidões. A gente tocava para ginásios gigantescos que,
eventualmente, não tinham a infra toda para sustentar aquilo ali. E a gente dava
o show. Eu lembro que a gente arrotava pizza um na cara do outro quando
fazia o backing no mesmo vocal – lembrou Flávio.
***
Depois que os Cascavelletes alcançaram o sonhado sucesso e passaram a
ostentar uma agenda cada vez mais lotada, surgiu um problema já esperado –
mas não menos grave por isso. Frank Jorge, que tinha dado um tempo da
Graforréia Xilarmônica, voltou a tocar com a banda.
Flávio, Barea e Nei não gostaram nada daquela história. Os Cascavelletes
haviam criado uma série de regras de convivência. Entre elas estavam a estrita
proibição de levar suas mulheres nas viagens, e a principal: nada de bandas
paralelas. Frank já tinha a Graforréia Xilarmônica quando foi convidado a
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entrar nos Cascavelletes, todos sabiam disso. Até então, nenhum conflito tinha
sido gerado em relação à outra banda de Frank, mesmo porque a Graforréia
estava parada para que seu vocalista se dedicasse aos Cascavelletes.
Isso até uma tarde de domingo, entre o final de 1987 e o início de 1988,
em que a Graforréia retomaria suas atividades com um show no Ocidente.
– Tudo bem que eu era dos Cascavelletes, mas qual era o problema de
tocar com o Marcelo e o Alexandre, meus amigos de infância da (rua) Thomaz
Flores? Não tínhamos contrato de exclusividade. Daí aconteceu. O Flávio e o
Barea respeitavam a fidelidade da banda – disse Frank em uma entrevista.
Enquanto a Graforréia se preparava para subir ao palco do Ocidente, a
algumas quadras dali, Barea e Flávio bebiam Velho Barreiro em quantidades
nada módicas no apartamento onde moravam, na Rua José do Patrocínio. Entre
uma dose e outra, surgiu a ideia:
– Vamos sabotar a apresentação!
Os dois saíram em disparada para o Ocidente. Atravessaram
enlouquecidos o Parque da Redenção, cheio de crianças e famílias aproveitando
o dia de sol, como tradicionalmente ocorre aos domingos. Chegaram ao bar
cambaleando, completamente bêbados, xingando os músicos, empurrando as
pessoas e provocando um completo caos no show.
Flávio subiu ao palco e deitou em cima dos pedais da guitarra enquanto
Barea se empenhava em perturbar as pessoas da plateia. O público começou a
revidar, empurrando-o de um lado para o outro. Ao perceber que estavam
fazendo mais fiasco do que propriamente sabotando o show do colega, Barea
decidiu sair de lá. Sentou na calçada em frente ao Ocidente, vomitou e ouviu
berros vindos da escadaria do bar. Era Flávio, que descia correndo os degraus,
perseguido por sua namorada. Virou a esquina da Osvaldo Aranha ainda
correndo e entrou na funerária Pio VII, de onde só saiu à força.
– Eu cheguei em casa ileso, não sei como. No fim, o show foi o maior
sucesso e o Frank continuou tocando com eles. Todo mundo que foi na
apresentação passou o ano comentando aquela cena – relembrou Barea, em
uma entrevista tempos depois.
Aquele show no Ocidente deu um gás para a Graforréia Xilarmônica,
que não parou mais de tocar, gravou sua primeira fita e foi aos poucos se
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tornando tão parte daquela cena quanto os Cascavelletes e o TNT. Não tinha
jeito. Flávio, Barea e Nei teriam que conviver com seu baixista se dedicando a
duas bandas. Mas não seria por muito tempo.
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Capítulo 6 – O céu não me assusta, o inferno sim
O tão esperado momento da gravação do primeiro LP do TNT
finalmente chegou em meados de 1986. Com a formação consolidada, Charles,
Tchê, Marcio e Felipe foram novamente para o Rio de Janeiro e tomaram conta
dos estúdios da RCA para a gravação das 12 faixas que fariam parte do disco.
Foram recebidos pelo produtor Reinaldo B. Brito, o popular Reinaldo Barriga,
que já havia conhecido o quarteto durante a gravação das músicas que
integraram a coletânea Rock Grande do Sul – projeto também produzido e
dirigido por ele. A banda e o produtor se deram bem imediatamente,
transformando os dias de gravação em verdadeiras farras no estúdio.
– Era muito divertido. Eles eram muito jovens – lembra Reinaldo Barriga.
O disco foi lançado no início de 1987, pelo selo Plug. Na capa do LP,
nada de foto da banda. Em vez disso, uma pintura de um vaso de flores, em
uma estranha referência ao disco Power, Corruption & Lies, da banda inglesa
New Order, lançado em 1983. A escolha da imagem da capa partiu dos
produtores do disco.
– Eles disseram que ia ser muito louco, porque ninguém entenderia, e
todo mundo ia ficar curioso pra saber que banda era aquela – disse Tchê Gomes
em uma entrevista.
O disco tomou conta das rádios gaúchas e foi muito bem recebido pelo
público. Se a banda já era conhecida por todos os cantos do Rio Grande do Sul,
o esquema agora tinha ficado ainda maior. O carro-chefe do disco seria Cachorro
Louco, talvez a música do TNT mais tocada nas rádios gaúchas até hoje: Nada
que ele faz tem sentido / Ele é um cara loucão / Transa só menina casada / Ele é mesmo o
cão / Cachorro louco / Cachorro louco.
O fenômeno, no entanto, não se reproduziu fora da região Sul do Brasil,
onde os quatro seguiram sendo ilustres desconhecidos. O lançamento do
primeiro disco acabou servindo para consolidar o brilho que o TNT tinha em
seu próprio Estado, onde já era auto suficiente em quantidade de shows,
execução nas rádios, aparição em programas tevê e, claro, em ter um público
fiel.
Em uma época em que era necessário procurar por um disco nas lojas ou
ter a sorte de ouvir as canções aleatoriamente no rádio, o som do TNT acabou
sendo apresentado ao resto do Brasil pelas páginas da revista Bizz – na época
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leitura obrigatória para os jovens mais ávidos por música. Em julho de 1987,
uma resenha do disco foi parar nas páginas da publicação, assinada pelo
jornalista Marcel Plasse, o mesmo que havia apresentado os Cascavelletes ao
país na revista:
Quebre o vaso da capa, semelhante ao de um LP do New
Order, e acenda o pavio. Não há nenhum sintetizador
por perto. Há quatro rockers gaúchos mal encarados
(média etária 18 anos), prestes a explodir, baby. Suas
letras não dizem nada demais, mas são coerentes. A
proposta é simples, I know, it´s only rockn´n´roll... E os
canalhinhas são duca. Ingenuidade e sacanagem num
quadrado básico bem produzido – do pianão killer à
balada beatle, Pena o lado B não segurar o pique.
Todas as 12 faixas que fizeram parte do disco ainda levavam a assinatura
de Charles Master e Flávio Basso. Mas só seria possível constatar com maior
nitidez que Flávio era realmente a alma daquele LP – apelidado de “Vol. 1”, já
que não recebeu nome – quando o segundo foi lançado.
Depois do sucesso local do álbum e a da boa recepção da crítica, o
retorno aos estúdios não tardou em virar realidade. Cerca de um ano depois, o
segundo trabalho do TNT chegava às mãos do público. Pouco antes do
lançamento, já em 1988, a banda havia conquistado um grande feito: ficou em
terceiro lugar na categoria revelação do Prêmio Bizz, eleita pelos leitores da
revista. Diante do resultado, considerado surpreendente, a revista apostou no
TNT como “uma banda que tem futuro”.
Com o novo disco, pela primeira vez desde que o TNT contava com
aquela formação seria possível ouvir as canções compostas pelo grupo sem
Flávio Basso. Todas as 12 faixas que compunham o Vol. 2 eram assinadas por
Charles e Tchê. Em algumas, o nome de Marcio também figurava. Já era
possível identificar algumas mudanças, que a banda argumentava serem
causadas pelo acúmulo de experiência, pelo tempo na estrada, e também
algumas curiosidades. A música que abria o disco, Não vai mais sorrir (pra mim),
contava com a participação de Lulu Santos. Já a faixa que fechava o lado A,
intitulada Charles Master, se tratava de uma canção que falava sobre (!) Charles
Master, escrita pelo próprio Charles Master.
– O TNT estava para gravar o segundo disco, em 1988, e briguei com a
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galera. Quando faltavam uns três dias para a gravação, escrevi a música porque
estava puto da cara. Então cheguei para a banda e toquei. Todo mundo gostou e
ela entrou no disco. Os caras até falaram que a gente tinha de brigar mais vezes
para surgir músicas boas como aquela – disse o autor certa vez em uma
entrevista para um jornal gaúcho.
Se quando o TNT assinou o primeiro contrato com a RCA os integrantes
estavam despreocupados e só pensavam na fama e no sucesso, com o segundo a
coisa foi um pouquinho diferente. Mais maduros e já tendo sentido o gostinho
do sucesso, eles agora sabiam como lidar e onde buscar referências. Já sabiam
como a máquina funcionava.
O disco contou novamente com a produção de Reinaldo Barriga e com a
mesma energia do Vol. 1, mas com uma dose a mais de cinismo. Talvez tenha
sido a falta da criatividade de Flávio Basso, agora a serviço dos Cascavelletes,
mas o TNT voltou ao estúdio mais disposto a fortalecer o uso de referências
sonoras de outras bandas para fazer o próprio som. Traduzindo: se um trecho
de uma música de um grupo estrangeiro agradava, Reinaldo Barriga era o
encarregado de transformá-lo em algo quase original.
– Tudo se copia, tudo se transforma. Eles são ótimos músicos – despista
Reinaldo Barriga ao ser questionado sobre possíveis plágios.
Anos depois, alguns dos TNTs admitiriam sem culpa nenhuma que eles
buscavam um pouco mais do que simples inspiração no som de bandas gringas.
Com a popularização do MP3 pela internet, nos anos 2000, os fãs começaram a
perceber algumas semelhanças de músicas do TNT com outras canções. Uma
das mais comentadas constatações, por exemplo, foi que a música Não Sei, faixa
que abria o lado B do segundo disco, lembrava demais Be My Lover, do roqueiro
americano Alice Cooper.
***
Disposta a levar para o resto do país o sucesso que o TNT experimentava
em terras gaúchas, a RCA investiu mais na divulgação da banda no segundo
disco. Foi quando o grupo começou a dar as caras em vários programas de tevê
em São Paulo e no Rio de Janeiro, como o programa do Chacrinha e o Globo de
Ouro, da Rede Globo, o Show Maravilha, comandado pela apresentadora Mara
Maravilha no SBT, o Milk Shake, da TV Manchete, e o Perdidos na Noite,
apresentado por Fausto Silva na TV Bandeirantes.
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No ano seguinte, em março de 1989, meses após o lançamento do álbum,
o TNT novamente foi parar na Bizz. Dessa vez, o tom era diferente. O sucesso
alcançado pelos Engenheiros do Hawaii fez a revista assumir uma postura mais
crítica em relação ao tal rock gaúcho – especialmente o que não se alinhava aos
conceitos do pós-punk admirados pela maioria dos jornalistas da publicação.
Basicamente, só o De Falla escapava. Vem daí a resenha pouco amistosa
assinada por Arthur G. C. Duarte:
TNT? Na melhor das hipóteses, este quarteto gaúcho
não passa de uni traque, de uma bombinha de salão.
Apesar de posarem como perigosos rockers, a música
deles está mais para a ala gurilândia da finada Jovem
Guarda, vide os iê-iê-iês "Gata Maluca", "Baby (Eu
Vou Morar Noutro Planeta)" e "Dentro do Meu
Carro". Até aí, tudo se resolveria com uma temporada
no purgatório. Mas, quando cisma de atacar a
chumbrega "A Irmã do Doctor Robert", o grupo
garante a expiação eterna nos caldeirões de Belzebu.
Justa ou não, a crítica obviamente não tirou o sono do TNT. O sucesso do
quarteto pelo interior gaúcho e a sintonia que havia entre eles parecia estar cada
vez melhor. Em uma participação no programa Palcos da Vida, da TVE (extinto
canal educativo da Fundação Cultural Piratini), em 1988, todos faziam questão
de enfatizar o quanto as coisas iam muito bem entre eles.
– A gente decide tudo numa boa, num clima democrático. Fecha o pau
no ensaio e aí quem bate mais decide – brincou Marcio durante o programa,
para em seguida Tchê Gomes emendar:
– Ninguém força nada no TNT.
Em meio a esse clima, a banda já colocava em prática o plano para a
gravação do terceiro disco. Mas, apesar da boa fase e da aparente sintonia, esse
novo LP não se tornaria realidade sem antes causar certa dor de cabeça na
banda.
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Capítulo 7 – Aposta nisso, meu irmão
Se o TNT já estava íntimo do vinil, logo chegaria a vez da trupe de Flávio
Basso, que seguia com sua boa safra de shows e a boa repercussão da fita da
Vórtex, sentir o mesmo gosto. Agora, além de dominar o interior do Rio Grande
do Sul, começavam a ser conhecidos em Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Rio
de Janeiro. O primeiro LP, chamado Os Cascavelletes, seria gravado em 1988,
ainda em Porto Alegre.
O disco contava com seis músicas, mas apenas três delas inéditas. Com
uma produção muito mais arrojada e profissional, duas das canções do disco
foram parar em uma coletânea chamada Rio Grande do Rock, concebida em
1988 pelo selo carioca SBK.
Numa ida ao Rio de Janeiro, conheceram e se aproximaram do músico
André Palmeira Cunha, o Dé, na época baixista do Barão Vermelho. A relação
dos Cascavelletes com o Barão Vermelho, aliás, começou ainda antes, através de
uma atitude do próprio Cazuza. Em um entrevista concedida em 2011 para um
documentário de áudio, Barea relembrou o episódio:
– Eu lembro quando Cazuza veio para Porto Alegre pela primeira vez.
Ele ouviu a fita da Vórtex e enlouqueceu, levou pro Rio e fez uma propaganda
imensa. Quando chegamos lá, o pessoal do meio artístico lotou o teatro porque
o Cazuza tinha dito que era a melhor banda que ele tinha visto nos últimos 10
anos.
Sem um garoto-propaganda do mesmo porte, as coisas foram mais
difíceis em São Paulo. Chegaram a encarar em um ônibus de linha, junto com a
banda Expresso Oriente, uma viagem à cidade para um show sem direito a
cachê. Tocaram para uma plateia formada por não mais do que cinco pessoas,
na casa de shows undergroud Madame Satã. Mas para eles valeu a pena. Isso
porque uma dessas pessoas era o vocalista da banda punk Ratos de Porão, o
então futuro VJ da MTV Brasil, João Gordo.
Anos mais tarde, o músico chegou a gravar a faixa O Dotadão Deve Morrer
em um disco de sua banda e ainda bolou a definição ideal para os Cascavelletes:
os Beatles Punk. Os próprios Cascavelletes aprovaram a definição, já que
misturavam os clássicos terninhos com a insanidade de Flávio no vocal.
Mas a conexão carioca era mais forte naquele momento. Após conversas
com o baixista do Barão Vermelho, ficou decidido que o músico produziria o
próximo disco dos Cascavelletes. Também foi por intermédio de Dé, no final de
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1988, que a banda conseguiu assinar um contrato com a gravadora SBK, a
mesma que meses antes havia incluído músicas dos Cascavelletes na coletânea
de bandas gaúchas.
– Eu fiquei superentusiasmado com o trabalho (dos Cascavelletes). Eles
têm umas coisas bem sacanas, uma coisa de que eu sempre gostei. Eu acho
superimportante essa relação de troca – diria Dé para a revista Bizz em
fevereiro de 1990.
Logo em seguida, no que parecia ser um golpe de sorte, a gravadora
multinacional EMI- Odeon comprou a SBK.
As músicas que integrariam o Rock’a’ula, nome que o disco receberia,
eram bastante diferentes do que os Cascavelletes haviam feito até ali. Um novo
estilo que não estava agradando a todos os integrantes do grupo,
principalmente a Frank Jorge. Ao mesmo tempo, a Graforréia Xilarmônica já
fazia um sucesso que os Cascavelletes não esperavam e o baixista passou a dar
ainda mais atenção a sua banda original. Se ele não tinha espaço nos
Cascavelletes para mostrar as suas composições, na Graforréia o verdadeiro
Frank aparecia e podia fazer o que quisesse. Com a mudança no som dos
Cascavelletes, ele acabou decidindo que o melhor era deixá-los de vez.
– O que determinou a saída dele foi essa mudança de estilo. Enquanto a
gente tava no Beatles, na Jovem Guarda, ele tava se segurando ainda, porque ele
curtia. Depois que a gente começou a virar mais rock mesmo, ele se sentiu
totalmente um peixe fora d’água. Parecia que ele tinha um pouco de vergonha
dessa coisa de atitude rock. Ele tinha a necessidade de se auto-avacalhar, não
queria se comprometer fazendo uma postura de roqueiro malvado, esse tipo de
estereótipo – tenta justificar Barea.
Antes de sair da banda, Frank deu o aviso prévio: gravaria o Rock’a’ula e
em seguida deixaria os Cascavelletes para se dedicar somente à Graforréia
Xilarmônica. Foi um balde de água fria para o grupo. Eles tinham certeza de
que jamais encontrariam alguém que fechasse com a química deles como
aconteceu com Frank. Decidiram não fazer uma substituição oficial. Em vez de
procurar outro amigo para ser Cascavellete, colocaram um anúncio no jornal.
– A gente não queria colocar amigo. Eu que botei pilha para a gente fazer
audição e pegar sangue novo. A banda éramos nós três – revela Nei.
Interessados pela vaga de baixista dos Cascavelletes obviamente não
faltaram. Um deles era Luciano Albo, um completo desconhecido para a banda,
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exatamente como desejavam. Na época do anúncio no jornal, um boca a boca
tomou conta de Porto Alegre, e até na Ipanema já estavam anunciando a
procura pelo novo integrante. Um amigo de Albo ouviu o anúncio na rádio e
comentou com o rapaz, que nesse momento tocava em outras bandas pequenas
e anônimas. Assim que ficou sabendo, Albo, extasiado, foi atrás de mais
informações.
Após algumas ligações para amigos, Albo conseguiu o número de
Vinícius, o empresário dos Cascavelletes. Ligou, falou do interesse e deixou seu
contato. Dias depois, Vinicius retornou a ligação, dando o endereço da casa da
mãe de Nei, onde fariam uma audição. O candidato foi informado de que não
precisaria levar seu instrumento.
– Aí eu estudei aquelas músicas que eu conhecia e fui lá fazer o teste. Foi
esquisito. Era eu, o Nei e o Barea tocando instrumental e o Flávio sentado num
cantinho no chão, analisando. Ele usava um cabelinho meio de indiozinho –
lembra Albo.
Depois do teste, semanas se passaram sem que Albo obtivesse qualquer
retorno. Enquanto o rapaz esperava algum sinal do empresário da banda, os
Cascavelletes estavam no Rio gravando o Rock’a’ula. Em março de 1989,
voltaram para Porto Alegre. Frank Jorge deixou definitivamente a banda e o
telefone de Albo finalmente tocou.
– Luciano, tem três datas pra ti tocar daqui uns dias e a gente quer fazer
um teste pra saber como tu se sai – disse Vinícius do outro lado da linha.
Fizeram alguns ensaios juntos e após o show do fim de semana, Albo
estava na banda. Não como integrante, mas como músico contratado. O mesmo
aconteceu com Humberto Petinelli, o Cokeyne, tecladista que havia entrado na
banda ainda antes da gravação do Rock’a’ula.
– Cheguei a ganhar um terço ou um quarto do que eles ganhavam.
Ganhava pouco, mas tava achando aquilo tudo o máximo. Quando o Vinicius
ligou pra dizer que eu ia tocar, fiquei umas duas noites sem dormir. Fiquei
nervoso – admite Albo.
O disco foi lançado em meados de 1989, e, no fim das contas, parece que
não seria apenas Frank Jorge a desaprovar as mudanças no som da banda. Em
março de 1990, a revista Bizz resolveu comentar o lançamento, com palavras do
jornalista Arthur G. C. Duarte:
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Mesmo entendido como um sintoma da grave
estagnação por que passa o rock brasileiro, é
inacreditável que uma gravadora possa perder tempo
com tamanha bobagem. Vindo do Rio Grande do Sul,
esse Polegar metido a besta surgiu de uma defecção do
não menos medonho TNT, com o intuito de fazer caras e
bocas (conforme atesta a capa do LP) e perpetrar
barbaridades do tipo: "Hey...huuhh...vamos lá...todo
mundo...é isso aí...ha, ha, ha...legal...tudo bem, deixa
assim...".
Nei Van Soria, Flávio Basso e Alexandre Barea
Capa do disco Rock’a’ula, já sem Frank Jorge, em 1989
Com exceção dos textos publicados pelo jornalista gaúcho Marcel Plasse,
quase tudo o que saía na Bizz a respeito do TNT e dos Cascavelletes tinha um
tom nada amistoso. Apesar disso, Alex Antunes, editor-chefe da revista na
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época, nega que tenha havido qualquer posicionamento editorial em relação às
bandas por parte da Bizz.
– Que eu me lembre, não havia uma percepção coletiva das bandas, uma
coisa que possa se chamar de posição da redação ou da maioria da redação.
Tem a ver com o fato de que o fenômeno TNT/Cascavelletes não tem, nem de
longe, a mesma dimensão no Rio Grande do Sul e no resto do Brasil - explica
Antunes.
Um fato surpreendente e que chamou a atenção de quem comprava o
Rock’a’ula era sem dúvida a imagem que vinha no encarte. Frank Jorge havia
sido cortado da foto, feita durante uma apresentação banda no programa Palcos
da Vida. No lugar dele, uma montagem com Albo e Cokeyne.
– Aparece uma foto minha e eu não tinha feito nada, não tinha gravado
nada. Eles botaram a foto pra me apresentar: “esse aí é o guri que vai tocar
baixo agora”. Foi legal, eu achei bacana – orgulha-se Albo.
O gesto impressionou o baixista novato, mas ele logo descobriría que não
seria tão fácil assim se tornar um verdadeiro Cascavellete.
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Capítulo 8 – Lá vem a nega bombom
O processo de divulgação do Rock’a’ula incluía uma série de viagens a
São Paulo e ao Rio de Janeiro, onde a banda já se apresentava em vários
programas de televisão. Foi quando eles puderam colocar em prática o sonho
de quase todo rockstar. Hospedar-se em hotéis cinco estrelas, esvaziar garrafas
de champanhe e Jack Daniels e quebrar televisões nos quartos.
Foi nessa época que se registrou uma das mais emblemáticas aparições
televisivas dos Cascavelletes, hoje famosa e assistida mais de um milhão de
vezes no Youtube. No programa da Angélica, na TV Manchete, Flávio e a
apresentadora comentavam com surpreendente naturalidade a música que a
banda tinha acabado de tocar para uma plateia formada em sua maioria por
crianças:
Angélica: – São todos gaúchos, né? Todos do sul?
Flávio: – Aham.
Angélica: – E agora com música nova, é?
Flávio: – É, Eu quis comer você é o nome da música.
Angélica: – Olha, que barato!
Quando as participações nesse tipo de programa eram ao vivo, Albo e
Cokeyne iam junto. Quando era playback, iam somente os três integrantes
oficiais. Apenas no programa da Angélica, que não era ao vivo, foi aberta uma
exceção que garantiu a presença do quinteto completo naquele momento que
ficaria marcado para a eternidade.
Durante os anos de 1989 e 1990, os ensaios, shows e composições
continuaram em ritmo acelerado. Novas músicas estavam sendo compostas e,
segundo Albo, muitas delas com seus palpites nos arranjos. Foi quando ele e
Cokeyne tiveram uma conversa e decidiram que iriam pedir para se tornarem
membros oficias da banda.
– Vamos dizer que a gente quer ganhar igual aos caras, nosso sacrifício aqui é
igual. Tudo bem que eles são os fundadores da banda, já estão antes batalhando
pelo negócio, mas a gente já tá há um ano ralando com eles – disse Albo para
Cokeyne na época.
O grupo ficou dividido com o pedido. De um lado, Barea e Flávio
achavam que a dupla tinha razão no que alegava. Mas do outro estavam
Vinicius e Nei, que inicialmente não aceitaram a proposta. Depois de algumas
negociações, no entanto, acabaram cedendo. A partir de 1990, os Cascavelletes
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passariam a ser um quinteto e as primeiras fotos de divulgação com todos os
integrantes começaram a ser produzidas.
Mas aquele princípio de sucesso a bordo da poderosa EMI-Odeon trazia
o embrião daquilo que mais tarde seria considerado um dos principais motivos
para o declínio da banda – já abalada pela saída de Frank Jorge. Quando o
Rock’a’ula ainda estava para ser lançado e eram definidas as músicas que
entrariam no vinil, um dos produtores da gravadora era também responsável
pela trilha sonora da novela Top Model, transmitida pela Rede Globo entre
setembro de 1989 e maio de 1990. Ao ouvir a música Nega Bombom, o produtor
achou que a faixa tinha tudo a ver com o personagem infantil Ringo Starr,
menino punheteiro que costumava se trancar no banheiro com revistas de
mulher pelada. Os Cascavelletes imediatamente rechaçaram a ideia.
– A gente chegou ao auge, mas essa música na novela foi uma grande
roubada pra nós, porque ela não era pra estar ali naquele momento. Era uma
música antiga que, a princípio, nem ia entrar no disco. Entrou porque a gente
queria uma música que representasse a primeira fase, porque seria o primeiro
disco veiculado nacionalmente. Tudo no Rock’a’ula já é diferente, tá uma coisa
um pouco mais pesada, não tão aquele roquinho tradicional Beatles – conta
Barea.
A banda insistiu para que outra música fosse escolhida para a trilha da
novela, justificando que seria mais interessante divulgar uma das novas
composições que sairiam no disco. Poderia ser qualquer uma, menos Nega
Bombom. Mas a posição do produtor deixou a banda sem escolha:
– Se essa música não for para a novela, não tem data pra sair o disco –
teria ameaçado ele.
A música aos poucos foi se tornando um sucesso, mas junto a um
público que não era o que os Cascavelletes queriam atingir. O personagem da
novela era admirado por crianças e elas começaram pipocar em grandes
quantidades nos shows da banda. Quando chegava a vez de Nega Bombom, a
plateia ia à loucura. Nas demais músicas, olhares entediados de quem não
estava entendendo nada.
– A gente tinha que tocar três vezes Nega Bombom, se sentindo uns idiotas
– lembra Barea.
Com o passar do tempo, os Cascavelletes foram perdendo seu público. A
situação fez com que entrassem em uma espécie de crise existencial: não se
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divertiam mais como antes e não tinham a menor a ideia de como poderiam
recuperar os antigos fãs. A falência do rock no Brasil nos primeiros meses da
década de 1990 também não ajudava muito a situação dos Cascavelletes.
Em meio à crise, surgiu uma nova música que prometia dar um novo gás
à banda. Sob um Céu de Blues foi gravada e logo em seguida entregue às rádios.
Mesmo tendo sete longos minutos de duração e um estilo diferente de tudo o
que Os Cascavelletes já tinham feito, a música começou a fazer um sucesso
surpreendente. Flávio então decidiu capitalizar essa repercussão positiva. Certo
dia chegou a um ensaio e disse:
– Meninos, vamos fazer um single!
Na década de 1960, os singles, discos compactos com apenas uma música
no lado A e outra no lado B, eram muito comuns. Os Beatles haviam lançado
vários, e como o beatlemaníaco assumido que era, Flávio resolveu aproveitar a
ideia para os Cascavelletes. Uma das faixas seria Sob um Céu de Blues. A outra
seria uma música chamada Homossexual, que Flávio tinha acabado de compor e
apresentar ao restante do grupo.
– O Flávio mostrou aquela música no ensaio, a gente teve um ataque de
riso e falou: “tu tá louco, cara. Essa música é uma merda!”. Principalmente o
Barea, ele nunca teve muitas papas na língua. Eu ficava mais acanhado, mas
num primeiro momento não gostei muito – lembra Albo.
Depois de dois ensaios, a música que contava a história de duas garotas
que têm um caso acabou caindo no gosto do restante da banda. Estava
decidido. O single seria lançado, mas para a surpresa de todos, Sob um Céu de
Blues, que já era um sucesso nas rádios gaúchas, ficaria no lado B.
– O lado A era Homossexual, que não foi a lugar nenhum. Os fãs
gostaram, mas não teve nenhum apelo comercial – conta Albo.
Assim que o single foi lançado, a banda voltou a fazer shows e a aparecer
em jornais gaúchos. Parecia que a coisa ia voltar a ser como era, mas não foi
bem o que aconteceu. Eles precisavam voltar de vez para as rádios, para a
televisão, precisavam voltar a fazer shows no interior gaúcho, no Rio, em São
Paulo. E para isso seria imprescindível a gravação de um novo disco. E ele teria
que ser lançado por uma grande gravadora, como o Rock’a’ula.
Era hora de ir ao trabalho.
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Nei Van Soria, Humberto Petinelli (Cokeyne), Luciano Albo, Alexandre Barea e Flávio Basso
(frente)
Capa do compacto Homosexual/Sob um Céu de Blues, último lançamento dos Cascavelletes,
em 1991
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Capítulo 9 – Hey, rapazes! Esse cara deve morrer
Os Cascavelletes já tinham repertório para um disco inteiro quando
decidiram se mudar para o Rio de Janeiro, no verão de 1992. O objetivo era
conseguir uma gravadora que lançasse o segundo álbum oficial da banda, já
que não havia a menor condição financeira de lançar um trabalho independente
naquela altura. Hospedados no minúsculo apartamento de dois amigos de Nei,
com Cokeyne já fora da banda, os quatro começaram a ver que a vida de
roqueiro não era mais a mesma que eles haviam experimentado até ali.
– É sabido que quase todas as bandas gaúchas que deram seus peitaços
passaram trabalho nessa história de ir pro Rio, São Paulo, porque são quatro ou
cinco caras que vão ter que alugar ou ficar de favor num apartamento, e ter
dinheiro pra comer e se locomover e divulgar suas coisas. E nessa aventura dos
Casca não foi muito diferente – recorda Albo.
Na época, eles tinham ligação com Guto Goffi, baterista do Barão
Vermelho, e como o Rock’a’ula já havia sido produzido pelo antigo baixista do
Barão, o Dé, a ideia era que dessa vez algo parecido acontecesse. O plano
parecia certeiro: eles tinham certa fama, um bom repertório já composto e
proximidade com o integrante de uma das maiores bandas do país. Mas só
parecia, porque nas reuniões com a direção da gravadora BMG, no Rio de
Janeiro, o discurso foi enfático: “não temos como gravar vocês esse ano. Não
temos dinheiro nem pra lançar o Tim Maia ou a Gal Costa.”
Naquele início de 1992, o país ainda sofria com a crise econômica gerada
pelo plano Collor, que por pouco não acabou com a indústria de discos. No
começo da década de 1990, assim que o plano foi colocado em prática, muitas
gravadoras cancelaram inclusive projetos que já estavam prontos para serem
executados, reduzindo drasticamente os lançamentos musicais na época.
Somado a isso havia ainda a queda na venda dos LPs, que começaram a perder
espaço para o CD, novidade que aos poucos ia tomando conta das prateleiras
de lojas de discos.
Em meio a essa crise, o fato de o LP de estreia – apesar dos playbacks na
televisão e da música tema de novela da Globo – haver empacado nas 8 mil
cópias vendidas não colaborava nada com os planos dos Cascavelletes de
conseguir uma grande gravadora. A recepção fria da BMG era só uma prévia
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dos problemas que viriam. Nem todos eles ligados à indústria fonográfica.
O apartamento em que estavam hospedados ficava longe da região
boêmia do Rio de Janeiro, onde estavam todos os bares que poderiam servir de
palco para algum show da banda. Para chegar até a Zona Sul, levavam pelo
menos uma hora de ônibus, pego sempre no pé do morro do Grajaú, na
companhia de uns traficantes que trabalhavam próximo ao prédio onde
estavam morando.
No entanto, a falta de apoio de uma gravadora, os problemas de
hospedagem e deslocamento e até a falta de dinheiro para comer – duas
refeições por dia era um luxo – não tiravam o ânimo de Flávio, Barea e Albo.
Enquanto isso, Nei vivia um pouco mais confortável com o dinheiro que os pais
mandavam.
– Eu, o Flávio e o Albo íamos à luta todo dia. De manhã, a gente
comprava um cacho de banana, dois pães daqueles grandes, dois litros de leite e
fazia batida de banana e comia pão com manteiga. Aquilo tinha que durar o dia
inteiro. Aí a gente ficava indo em tudo que é bar, tudo que é lugar pra tentar
conseguir algum show – conta Barea.
Um dia encontraram o cunhado de um amigo de Albo que tinha uma
lanchonete perto da praia de Ipanema. Ao narrarem o drama que estavam
vivendo na cidade, o primo fez um convite: todos os dias às 19h ele fechava a
lanchonete, então os rapazes podiam chegar e comer o que tinha sobrado. E
assim foi. Barea, Flávio e Albo saíam de casa de manhã, faziam tudo o que
tinham que fazer e iam para a praia esperar dar sete horas da noite para irem
comer os pastéis que não tinham sido vendidos. Barea ainda lembra da situação
com certo aborrecimento.
– Enquanto isso, Seu Nei estava em casa. O pai dele mandava dinheiro,
ele estava com o guarda-roupa trancado e cheio de comida. Não fazia nada, não
ia batalhar porcaria nenhuma. Ficava fazendo turismo, ia passear, ia na
pizzaria, no Pão de Açúcar. Ele e os dois amigos faziam churrasco e nos
expulsavam porque a gente não tinha dinheiro pra colaborar. Aí a gente ia
caminhar e eles ficavam lá fazendo festa.
Como se o clima no grupo já não estivesse pesado o suficiente, certa noite
até socos fizeram parte da pior briga que os Cascavelletes protagonizaram.
Eles finalmente haviam conseguido um show no Rio. Não só o show,
mas também cartazes para divulgação, tudo de graça. Entre as informações
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contidas no cartaz, uma muito importante: “a banda da trilha sonora da novela
Top Model”. Cansados da falta de empenho de Nei, dessa vez foram enfáticos:
avisaram alguns dias antes que no domingo, às dez horas da noite, ele deveria
estar no apartamento para todos irem juntos de ônibus até a Zona Sul,
aproveitar o fraco movimento do horário e colar os cartazes.
O domingo à noite chegou e, como de costume, Nei havia saído de casa.
O relógio já marcava dez horas, depois onze, meia noite e nada de ele aparecer.
– Meia noite e meia ele chega, bebum, dando risada. Chamamos ele para
ir colar os cartazes e ele disse: “Eu não vou colar merda nenhuma”. “Vamos,
cara, vamos lá”. “Não, não vou”. E foi pra cama dele e deitou. Fui lá, peguei
um copo d’agua e joguei a cara dele. Aí fechou o pau – lembra Barea.
Depois da briga, Nei ficou em casa e os três saíram para colar os tais
cartazes.
A falta de dinheiro, a escassez de shows e a completa ausência de
perspectiva de uma gravadora lançar o disco novo, somadas à falta de
comprometimento de Nei, tornava toda aquela aventura extremamente
desgastante. Nos dias que seguiram, o único que ainda falava com Nei era
Vinícius, que aparecia para tentar apaziguar os ânimos. Mas, no meio do caos,
de repente brotava um fio de esperança. Como quando em um dos poucos
shows que fizeram contaram com Lulu Santos na plateia. Da mesma forma que
havia acontecido anos antes com o TNT – quando até uma participação no
segundo disco da banda rendeu –, Lulu também se interessou pelos
Cascavelletes.
– Eu me lembro muito bem de tudo o que aconteceu. Ele e a mulher dele
foram ver a gente tocar. A gente tocou para duas mesas num restaurante.
Fizemos um show muito bom, principalmente porque tinha alguém muito
famoso na plateia – relembra Albo.
Daquele dia em diante, Lulu Santos passou a encher os Cascavelletes de
esperança. Ele pegou a demo com todas as músicas que fariam parte do
próximo disco e disse que conseguiria um contrato. Combinaram de se
encontrar em outro momento para conversar melhor e Nei resolveu ir sozinho
com um carro que pegou emprestado. O encontro individual não deu certo e
acabou gerando mais desentendimentos entre a banda. Dias mais tarde, sem
Nei, os três finalmente foram juntos a um ensaio de Lulu Santos. Conversaram,
trocaram ideias, ficaram impressionados com o desempenho do músico,
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fumaram uns baseados e perceberam que nada daquilo iria a lugar algum.
– Ele queria era pegar uma música para usar num outro projeto que ele
estava envolvido. O buraco era mais embaixo. Ele tinha outras intenções –
revela Albo.
A partir daí, a banda passou a dar sinais de que estava em seus últimos
suspiros. Nos tempos áureos de fartura de shows, programas de televisão,
músicas estourando nas rádios, viagens, drogas e mulheres, os pequenos
incômodos não chegavam a afetar a convivência em grupo. As frescuras de um
soavam bonitinhas, as loucuras de outro eram engraçadas e nada era tão
relevante que pudesse estragar a química e o bom relacionamento dos
Cascavelletes. Sem o mesmo bom humor, quando a exaustão e a falta de
perspectiva eram predominantes, qualquer incômodo poderia ser fatal. Foi o
que aconteceu no Rio de Janeiro.
Numa bela madrugada, Nei levantou da cama e foi até sala, onde
dormiam Flávio, Barea e Albo. Acordou Flávio com um cutucão e o levou até o
corredor do prédio para dar uma notícia:
– De manhã, quando eu acordar, eu vou embora pra Porto Alegre.
E assim foi. Nei já andava de saco cheio daquele clima desagradável e
vinha sofrendo há algum tempo com a pressão de seu pai, que não queria o
filho no Rio de Janeiro brincando de ser rockstar. Nei era sócio do pai em uma
loja de artigos de couro em Porto Alegre e precisava voltar para trabalhar. E,
agora sozinho, iria dar continuidade a sua carreira musical.
– Lá no Rio eu já estava compondo um material e saí da banda. Pra mim
deu, caí fora. Voltei pra Porto Alegre para fazer a minha história. Eu lembro que
às vezes não tinha nada pra fazer e eu passava escrevendo, compondo. E ficava
lá, naquela bosta daquela cidade – lembra Nei.
Durante menos de um mês, os Cascavelletes continuaram no Rio de
Janeiro tentando se vender como um trio. Foram atrás de Guto Goffi e ao
comentarem sobre a nova condição dos Cascavelletes, receberam uma opinião
negativa do músico. Ele achava que Nei era um cara importante para a banda e
que a sonoridade dos Cascavelletes mudaria muito sem ele. Em seguida, Flávio
saiu do apartamento e foi para outro lugar com sua mulher, que tinha acabado
de chegar à cidade. Sem mais nenhuma esperança, Barea e Albo conseguiram
juntar dinheiro para duas passagens de ônibus: voltariam para Porto Alegre. O
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sonho tinha acabado.
Quando os três já estavam de volta à Capital gaúcha, ainda tentaram se
juntar para um ensaio, com músicas novas que Flávio havia composto. Com
aquela mesma putaria que caracterizava os Cascavelletes, só que mais maduras,
com uma sonoridade diferente. Talvez um embrião do que anos mais tarde viria
a ser conhecido como Júpiter Maçã. Depois desse ensaio, ninguém mais
telefonou para marcar outro.
Ninguém precisou dizer que os Cascavelletes tinham chegado ao fim.
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Capítulo 10 – Baby, o céu caiu na minha cabeça
Vivendo boa fase com a repercussão positiva do segundo LP, o TNT teve
que voltar a conviver com um velho fantasma: a saída de integrantes. O
baterista Felipe Jotz, sempre muito elogiado por sua técnica e muitas vezes
disputado com outras bandas, em um belo dia apareceu com uma notícia
desagradável – para a banda, claro. Havia surgido a oportunidade de estudar
bateria nos Estados Unidos e ele não iria desperdiçar a chance. Talvez voltasse
mais tarde, um ano depois, ainda melhor do que foi. Quem poderia saber?
Ainda não havia nada concreto para a gravação do terceiro disco. A
saída causava, portanto, uma pressão bem menor do que aquela às vésperas da
gravação do primeiro álbum, quando a banda sofreu um desfalque duplo.
Urgente ou não, fato é que eles precisariam de um novo baterista. O escolhido
acabou sendo Paulo Arcari, baterista já conhecido da cena roqueira de Porto
Alegre.
Se existe ligação ou não com a saída de Felipe, não se sabe, mas a partir
daquele momento as coisas passaram a ficar diferentes no TNT. A começar por
como soavam as novas músicas compostas, aproximando-se cada vez mais a
um pop adocicado. Mas o que confirmou de vez que Charles Master & cia
estavam entrando em uma nova fase foi a entrada de um quinto elemento ao
grupo: João Maldonado, o tecladista.
Quem ditava os novos rumos, como não poderia deixar de ser, era
Charles Master – já fazendo as vezes de líder da banda, com uma autoridade
que seus companheiros não estavam gostando nem um pouco. Mas, gostando
ou não, o trabalho não podia parar e era hora de entrar novamente nos estúdios
da RCA.
Era a quarta vez que trabalhavam com o produtor Reinaldo Barriga, com
quem já tinham uma sintonia perfeita no estúdio. O disco, intitulado Noite Vem,
Noite Vai, nome de uma das músicas do lado B, foi lançado em 1991. Era, de
longe, muito diferente de tudo o que o TNT havia feito até ali. Se no segundo
LP ainda havia uma pegada rock’n’roll, Noite Vem, Noite Vai parecia ter sido feito
para um novo público. Na capa, apareciam os cinco – Charles, Tchê, Marcio,
Paulo e João – deitados sem camisa em uma cama do hotel Hilton, com metade
do corpo coberto por um lençol branco. Uma guitarra e um cinzeiro pareciam
tentar dar um clima mais junkie à imagem.
Para facilitar a divulgação do disco, o quinteto alugou um apartamento
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no Rio, assim poderia participar de programas de televisão com mais
frequência, além de poder fazer shows e conquistar um público maior no
sudeste do país. A solução parecia boa, talvez pudesse até melhorar aquele
clima esquisito entre Charles e o restante do grupo. Mas não foi o que
aconteceu. Quando todos já estavam de malas prontas para a temporada no Rio
de Janeiro, Paulo Arcari, que havia assumido as baquetas da banda há pouco
mais de um ano, disse que estava caindo fora. A crise no TNT começava a ficar
séria.
– A verdade é que músicos que vivem da música, que viajam direto, às
vezes têm outras prioridades. E naquele momento eu achei melhor sair pra
fazer outras coisas. Na época eu tocava com o Frank Solari, a gente fazia show
na Oca, no Rio, era outro tipo de compromisso, naquele momento eu tava
fazendo isso – conta Paulo.
No lugar dele, entrou Fábio Ly, mais conhecido como Musklinho,
famoso baterista de Porto Alegre que já havia tocado em várias bandas, entre
elas a Bandaliera, liderada por Alemão Ronaldo. Com o quinteto novamente
composto, o TNT finalmente colocou em prática o plano de se estabelecer no
Rio de Janeiro.
A gravadora conseguiu aparições em programas de tevê para divulgação
do disco, como havia feito da outra vez. Mas se no LP anterior tudo era festa e
deslumbramento por estarem sendo vistos por pessoas do Brasil inteiro, agora
aquelas gravações começavam a encher o saco. Eles não suportavam mais ter
que fazer playback e não faziam questão alguma de disfarçar que as
participações não eram ao vivo. Charles Master ora abandonava o microfone,
ora o dividia com João Maldonado, enquanto Fábio Ly deixava de lado a bateria
– que na verdade era apenas a caixa em seu suporte – e ia até o microfone cantar
com Charles.
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Charles Master, Marcio Petracco, Paulo Arcari, Tchê Gomes e João Maldonado
Fotografia que vinha encartada no LP Noite Vem, Noite Vai, de 1991
Como se as coisas já não estivessem ruins o bastante, a divulgação do
disco não estava dando muitos frutos ao TNT. E quem realmente não estava
gostando nem um pouco daquilo era a RCA, que não via o retorno do
investimento. Depois de cerca de seis meses morando no Rio, a banda retornou
para Porto Alegre com os ânimos exaltados.
– Quando botamos a cara no eixo Rio/São Paulo, a pedreira começou a
rolar e as pessoas começaram a se revelar – contaria Marcio em uma entrevista
anos mais tarde.
Já era 1992 e o TNT estava sentindo há alguns meses a mesma sensação
que tinha acabado de matar os Cascavelletes: os restos da crise gerada pelo
plano Collor e a chegada dos CDs ao Brasil.
– No começo dos anos 90, começou a era CD, o mercado fonográfico de
LP declinou violentamente, e o último disco do TNT, Noite Vem, Noite Vai,
entrou em crise – conta Tchê Gomes.
Os shows haviam diminuído muito de frequência. O TNT chegava a ficar
dois meses sem se apresentar em lugar nenhum. Somado a isso, o clima ruim
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pela postura autoritária de Charles e a guinada pop das canções resultaram em
um dos acontecimentos mais inesperados desde a dissidência que rachou o
TNT lá no começo: Tchê Gomes estava de saco cheio de tudo aquilo e anunciou
que estava caindo fora.
Desde a morte do músico Stevie Ray Vaughan, em 1990, Tchê havia
entrado em uma fase de idolatrar guitarristas cheios de técnica, virtuosismo e
psicodelia. Ele queria fazer parte daquele tipo de músicos e a cada dia percebia
mais que isso não seria possível na fase pop do TNT.
– Eu queria fazer um som psicodélico, viajandão, LSD e todas as drogas
misturadas. E eu acho que eu até queria me sabotar, porque como é que o
Hendrix morreu? De overdose. Então eu também queria morrer de overdose –
conta.
De substituto, Tchê passou a ser o substituído. Mas, para surpresa geral,
o sucessor não seria qualquer um. Quem assumiu a guitarra do TNT foi
ninguém menos que Flávio Basso, que tinha acabado de viver o triste fim da
banda fundou por ele justamente quando resolveu abandonar o barco do TNT
em 1986, às vésperas da gravação do primeiro disco da banda.
Enquanto Tchê Gomes se aventurava no blues ao lado do músico Solon
Fishbone – em uma parceria que mais tarde virou o trio Hill Billy Blues, após a
entrada de Marcio Petracco –, o TNT entrava em estúdio com Flávio para gravar
a música Você me Deixa Insano. Mas se o novo (velho?) guitarrista achava que o
clima na banda ainda poderia ser o mesmo de seis anos atrás, estava enganado.
Charles Master não era mais aquele mesmo rapazinho de franja que
assinava as composições junto com ele lá na rua Cauduro. Charles agora era o
líder da banda, era ele quem dava as cartas, quem decidia tudo. Era óbvio que
Flávio, que tinha passado os últimos anos sendo chamado de gênio por seus
companheiros de banda, não ia se acostumar com aquilo jamais. Não tardou em
dizer tchau à banda, pela segunda vez. Em definitivo.
– O Charles achava que rock não dava dinheiro, pedia pra gente baixar
as guitarras, e o Flávio não gostou disso e saiu – conta Marcio.
Quem substituiu Flávio foi um jovem chamado Antônio Armando, um
excelente guitarrista que tinha uma banda cover de Rolling Stones. Anos mais
tarde, ele ficaria conhecido no país inteiro como Armandinho, embalando
jovens com canções pop que flertavam com o reggae.
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Com o então desconhecido Armandinho em uma das guitarras, o TNT
continuou se arrastando por mais alguns meses, sem lançar disco, praticamente
sem shows e completamente desmotivado. A banda já tinha chegado ao fim e
parecia que ninguém queria admitir o fato. Até a hora em que Marcio Petracco
se esgotou de tudo aquilo e caiu fora. Depois disso, não se ouviu mais falar em
TNT.
Assim como nos Cascavelletes, ninguém precisou dizer que a banda
tinha acabado.
53
Capítulo 11 – Cansei dessa gente, desse papo furado
Em 1999, aproximadamente seis anos depois do fim da banda, o TNT
entrou na era digital. A gravadora BMG, que havia comprado a RCA, resolveu
limpar os baús do antigo selo Plug. O resultado foi a série de CDs Hot 20, que
também incluía as gaúchas Replicantes, De Falla e Garotos da Rua. Sem muito
esmero, com um encarte simples e, como deixava claro o nome da série, 20
músicas de sucesso de cada banda.
O disco fez clássicas canções do TNT, como Cachorro Louco, Ana Banana e
Liga Essa Bomba voltarem com força às rádios do Rio Grande do Sul, como se
fossem novas. Ou com ainda mais força, porque a bem da verdade as músicas do
TNT nunca pararam de tocar nas rádios do interior gaúcho.
O sucesso da coletânea acabou despertando algo em Tchê Gomes. Depois
de voltar de uma temporada em São Paulo, onde estava produzindo o disco de
uma cantora gaúcha na virada do ano 2000, ele teve a ideia de ressuscitar o
TNT. Mas o plano era ousado: ele queria montar um repertório e uma turnê
com todos os músicos que passaram pela banda desde sua primeira formação.
Como nessa época já não existiam mais ressentimentos com Charles Master, ele
resolveu ligar para o cantor e lançar a proposta. Sempre atento a projetos que
pudessem render algo financeiramente, Charles acabou topando, mesmo com
certo receio.
Os dois começaram a montar o projeto, mas aos poucos perceberam que
ele estava se tornando inviável. Tanto pela quantidade de gente que faria parte
daquilo, quanto pela dificuldade de todos aceitarem participar de uma turnê.
Felipe Jotz, por exemplo, estava morando em São Paulo e tinha se tornado
piloto de avião. Não havia a menor chance de o ex-baterista fazer parte daquilo.
Em 2003, quando a ideia já tinha esfriado, a gravadora gaúcha Orbeat
Music, pertencente ao Grupo RBS, entrou em contato com Tchê Gomes com
uma proposta: lançar um disco e um DVD ao vivo do TNT. Tchê até chegou a
apresentar ao selo o projeto ousado que confabulara com Charles anos antes. A
princípio, a ideia era boa, mas pela dificuldade já constatada na época, ela foi
reduzida a uma das últimas formações do TNT, com Charles, Tchê, Marcio e
Musklinho. Antes de tudo, porém, foi necessário acabar com as rusgas entre
Marcio e Charles.
– Juntamos um quarteto, começamos a ensaiar, mudamos um pouquinho
algumas músicas, uma coisa entre acústico e elétrico. Ficou à mercê de críticas, e
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as piores acabaram sendo da galera interna mesmo. Mas se for ouvir melhor, é
um trabalho bem feito, ele é caprichado, tem músicas novas, tem coisas inéditas.
Não me arrependo – conta Tchê Gomes.
Além dos quatro TNTs, a gravação contou a ainda com a participação do
ex-Cascavellete Luciano Albo. O disco contaria com os principais sucessos
registrados nos três LPs e resgatava Você Me Deixa Insano, música gravada há
dez anos que tinha sido parte apenas de uma coletânea da rádio Ipanema em
1994. Havia ainda cinco canções inéditas e uma versão para O Mundo É Maior
que Teu Quarto, dos Cowboys Espitiruais – banda que juntou Marcio Petracco e
Frank Jorge ao músico gaúcho Júlio Reny nos anos 1990.
Apesar das críticas, o disco rendeu bons frutos à banda e também à
gravadora. Foram mais de dois anos de turnê, com dezenas de apresentações
pelo interior do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e também no sudeste
do país. Mas, como disse Tchê, as críticas eram reais. E vinham de todos os
lados, não apenas em relação ao conteúdo do CD e do DVD.
– Poucas bandas daqui tiveram essa coisa do terminar e retornar. E aí a
gente voltou e começaram (a dizer) “ah, por que voltaram? O que vocês querem
voltando?” – lembra Tchê.
Além disso, em seu momento Marcio e Charles até tentaram, mas parecia
não haver mais química nenhuma entre os dois. Para Tchê, além de tudo,
restava ainda a incumbencia de ficar entre os dois, apaziguando os ânimos.
– Ficar no meio daquela confusão era uma coisa muito desgastante. A
gente marcava ensaio e o Marcio não ia, ia pra praia e a gente ligava dizendo
que tinha show e perguntando se ele vinha. E o Charles achava que ele não
tinha que estar mais na banda, que tinha que ganhar menos. Compreendo isso.
É justo. Para um grupo funcionar, cada um tem que ter a sua função e honrar
isso.
Para Marcio, talvez tenha sido a atitude do próprio Charles que o fez
perder o tesão por tocar com o TNT e dar prioridade a outras coisas, deixando
de ir a ensaios e reuniões do grupo. Além disso, sua banda paralela – a Trem 27
– vinha conseguindo boa repercussão em Porto Alegre, caindo nas graças da
crítica especializada. O som acústico e instrumentos típicos da música bluegrass
norte-americana renderiam ao grupo o Troféu Açorianos 2003 na categoria
pop/rock.
– Quando o TNT retornou, o Charles queria ganhar mais dinheiro que a
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gente. O Tchê vinha dizer “ah, cara, vamos deixar ele ganhar um pouco mais,
então”. Eu estava com uma outra banda na época, a Trem 27, ela estava fazendo
sucesso e um dia faltei a uma reunião do DVD ao vivo. Acho que o Charles
tinha inveja do sucesso da Trem 27 – acredita Marcio, que chegava a referir-se
ao ex-parceiro como “xali$ma$ter”.
Com ciúme ou não, estava claro que voltar a tocar juntos estava longe de
significar uma reaproximação entre Charles e Marcio. As velhas feridas estavam
todas lá e continuariam por muito tempo. Provocado a falar sobre o assunto,
Charles diz não querer mais saber do passado, mas acaba desabafando.
– Eu tô de saco cheio das injustiças cometidas por alguns ex-parceiros,
que só se tornaram músicos porque eu os convidei para entrarem no grupo.
Comprei guitarra para eles com a minha grana e ainda coloquei de graça o
nome deles em algumas músicas sem eles terem feito absolutamente nada.
Tudo para dar um astral de banda. E hoje leio as baboseiras que eles respondem
para esses livros de merda que falam do rock gaúcho. A vida continua e quem
criou um dia continua criando. Quem hoje não faz nada é porque nunca fez –
afirmou em 2012, em uma breve conversa através de uma rede social.
Com esse clima, em pouco tempo Marcio estava novamente fora do TNT.
Era uma decisão não-formalizada, mas aparentemente mútua, já que ele não
estava contente com a banda e muito menos a banda com ele.
Desentendimentos à parte, o lançamento do CD, e em seguida do DVD
do show, fez os olhos dos executivos da gravadora Orbeat brilharem. Após
finalizada a turnê, o músico Thedy Correa, vocalista da banda Nenhum de Nós
e então diretor da Orbeat, entrou novamente em contato com Tchê e Charles
com outra proposta. Dessa vez ainda mais ousada: ele queria que o TNT
lançasse um CD de inéditas.
A resposta não demorou a chegar, e foi positiva. Eles gravariam um
disco novo. Bolaram algumas composições, juntaram com algumas músicas que
já existiam, que tinham até o dedo de Marcio, e gravaram uma demo para
apresentar a Thedy Correa. Para surpresa de Tchê, o diretor da Orbeat Music
desaprovou o material. Para ele, aquelas músicas não tinham mais a cara do
TNT. Ele queria outra Cachorro Louco.
– Eu fiquei puto com isso. E aí dei para o Charles escutar uma fita minha
para ver o que ele achava. Eram as músicas de outro projeto que eu tinha, a
banda Supervelhas, que não chegou a gravar disco. Daí o Charles disse: “então
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é o seguinte, vamos pegar e misturar com o repertório que o Thedy não gostou
e ver o que ele acha”. Aí o Thedy adorou – recorda Tchê Gomes.
Em pouco tempo, Charles, Tchê, Musklinho e o convidado Luciano Albo,
entravam em estúdio para gravar o CD Um por Todos ou Todos por Um. No
repertório, músicas de Charles Master e de Tchê Gomes, garimpadas em seus
projetos paralelos. O resultado foi um misto de canções pop-rock com aquela tal
psicodelia que tanto Tchê andava flertando quando deixou o TNT no início dos
anos 1990.
Um Por todos ou Todos por Um podia levar o nome do TNT e contar com
três de seus integrantes, mas não tinha qualquer semelhança com aquele velho
TNT que brilhou no final dos anos 1980. O que não quer dizer que as 13 faixas
necessariamente desagradaram o público, ainda que pareça terem agradado
muito mais aos seus autores.
– É um disco legal. Curto muito aquilo ali. É um disco que teve o seu
período, não tem no mercado. Conheço gente que adoraria pagar caro para ter
aquele disco, para completar a coleção. Mas eu acho que daqui a algum tempo
ele vai contar a história dele – acredita Tchê.
No entanto, nem o disco, nem o DVD ao vivo e muito menos o álbum de
inéditas foram capazes de manter a sobrevida do TNT por muito tempo. A
banda continuou fazendo shows, principalmente pelo interior gaúcho, até 2007,
quando finalmente aquele TNT versão trio suspendeu suas atividades.
Anos depois, a relação entre parte dos ex-integrantes do TNT ainda se
manteve complicada. A verdade é que Charles e Marcio não conseguiram mais
se entender depois que a banda decretou seu primeiro fim, lá por 1993. Difícil
dizer se as tentativas de criar um clima amistoso no retorno da banda, dez anos
depois, eram realmente sinceras. Fato é que os dois tinham interesses muito
diferentes. Enquanto Charles se empenhava em cuidar do seu patrimônio, em
levar a sério o trabalho da banda e ganhar dinheiro com ela, Marcio estava mais
preocupado em fazer um som que o agradasse, em fazer rock’n’roll, sem ter que
baixar o volume de sua guitarra. Ele diz que uma de suas maiores frustrações
durante a turnê do disco ao vivo era descer do palco e ouvir elogios sobre o
desempenho da banda que não pareciam nada sinceros.
Na contramão disso tudo, Tchê Gomes e Charles Master continuaram se
dando bem e são até compadres. Na opinião do ex-vocalista, Tchê “é o único
que presta ali”. Em retribuição, o ex-parceiro tem de Charles uma visão
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completamente oposta àquela que o fez abandonar o TNT em 1992.
– Eu consigo ver o Charles como um gênio. Não me interessa o que os
outros acham, não me interessa nem o que eu já achei dele. Eu já achei em
alguns momentos o Charles a pessoa mais arrogante do mundo – conta.
De todos os integrantes que passaram pelo TNT, talvez Tchê Gomes fosse
o único com razões e consciência limpa suficientes para, em uma tarde de
sexta-feira, em janeiro de 2012, numa cafeteria do Bairro Bom Fim, onde tudo
começou, fazer, sem vestígios de cinismo e ironia, uma afirmação otimista:
– Se tu me perguntar se eu acho que existe a possibilidade de o TNT
voltar, eu acho que sim. Se nós estivermos vivos e com saúde.
Vivos, com saúde e, claro, superando a resistência do homem que um dia
foi o jovem garoto da rua Cauduro que sonhava em ser roqueiro. Charles
Master, no entanto, é enfático.
– Não quero mais o meu nome ao lado do deles.
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Capítulo 12 – Cem toneladas de desilusões
Com o fim dos Cascavelletes, cada músico seguiu seu rumo. Nei deu
início a sua carreira-solo, lançando o disco Avalon em 1995. Paralelamente, abriu
também uma loja de instrumentos musicais, que começou modesta até se tornar
uma referência para os músicos de Porto Alegre. Dos tempos dos Cascavelletes,
seguiram com ele o empresário Vinícius e o ex-roadie Jacques Maciel, que se
tornou funcionário da loja, além de vocalista da banda Rosa Tattooada.
Barea tentou mudar de ramo. Ele achava que o rock no Brasil tinha
acabado de vez e abriu uma pizzaria. Em vez de lucro, o empreendimento deu
foi despesas e dor de cabeça ao proprietário, que, atolado em dívidas, teve que
fechar as portas. O desespero para quitar as contas veio seguido de um convite
inesperado: tocar em uma banda cover.
– Eu tava precisando muito de grana, fiquei todo endividado com a
pizzaria. Aí uns amigos me convidaram, o baterista tinha saído e eles tinham
cinco shows marcados. Mas banda cover? Eu sempre falava mal de banda cover,
só que eu tava num desespero, precisava de grana.
Barea fez os cinco shows com a banda Workstation e resolveu continuar.
A experiência deu tão certo que seguiram tocando juntos, pelo menos uma vez
por semana, em bares de Porto Alegre. Paralelamente, em 2002, abriu uma
escola de bateria. Para satisfazer o lado metaleiro, se meteu também em uma
banda de thrash metal, a Funéreos, essa apenas por diversão.
Antes disso, Barea chegou a participar de um projeto que reunia o
ex-colega Luciano Albo e o ex-TNT Tchê Gomes, a banda Pura Sangre, que
durou os anos de 1993 e 1994, com direito a shows e gravações que não deram
muito o que falar. Albo ainda trabalhou um curto período na loja de Nei e
participou de algumas gravações de sua carreira-solo. Fez parte de outras
bandas, produziu trabalhos de outros artistas, passou uma temporada no
exterior e começou a produzir e lançar seus próprios discos.
Flávio Basso foi, sem dúvida, o maior sucesso gerado pelos
Cascavelletes. O vocalista assumiu o alter ego Júpiter Maçã e em 1996 lançou
um dos discos mais emblemáticos do rock feito no Rio Grande do Sul: A Sétima
Efervescência. O álbum, cheio de referências psicodélicas e capitaneado pela
faixa Um Lugar do Caralho, influenciou mais uma geração de jovens do Bom Fim
e ganhou fãs no underground de outros estados. Em 2007, o A Sétima
Efervescência foi eleito pela revista Rolling Stone um dos 100 discos brasileiros
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mais importantes da história. Além de Elis Regina, foi o único gaúcho a figurar
na lista.
Júpiter Maçã obteve tanto destaque no underground nacional que até o
antigo editor da revista Bizz, que nos anos 80 não via o sucesso dos
Cascavelletes e do TNT ultrapassar o Sul do país, ficou surpreendido.
– Depois do fim dos Cascavelletes eu fui o primeiro cara a agendar um
show do Júpiter Maçã em São Paulo, num lugar chamado A Casa, já demolida,
na Rua Augusta. A noção era de que o Júpiter vinha evoluindo muito. No Nei,
nunca prestei atenção. Na verdade, vários outros nomes do Sul, de várias
épocas, dão essa percepção de enorme importância no Rio Grande do Sul e zero
de repercussão no resto do Brasil, ou pelo menos fora da região Sul – diz Alex
Antunes.
Sozinho ou com a Graforréia Xilarmônica, Frank Jorge também
conquistou um espaço importante no cenário nacional independente. Nos anos
2000, lançou discos-solo com boa recepção da crítica, como Carteira Nacional de
Apaixonado (2000) e Vida de Verdade (2003), que contou com participações
especiais de Fernanda Takai, da banda mineira Pato Fu, e os cariocas Marcelo
Camelo e Rodrigo Amarante, do Los Hermanos. Ambas as bandas fãs confessas
do trabalho de Frank.
Albo se orgulha de ter sido o único ex-Cascavellete a ser convidado para
tocar em projetos dos outros três ex-integrantes da banda. Acabou recusando o
convite para tocar com Júpiter, pois tocaria com a Pura Sangre em um mesmo
evento. Chegou a declinar também convites de Nei, por estar de saco cheio de
tocar baixo e querer substituí-lo pela guitarra. Anos mais tarde, retomou a
parceria e participou da gravação de dois de seus discos. O saldo foi uma briga
que deixa rusgas até hoje.
– Eu já tava tocando há quatro anos com o Nei e achava que podia contar
com o lado humano dele. Eu já tinha dado muito sangue por ele, entenda isso
como ficar um ano ensaiando sem ganhar um tostão. E uma hora eu achei que
podia cobrar um pouco daquela parceria, que era comprar umas coisas com um
preço melhor na loja. E ele não me deu arrego.
Como vingança, Albo capitalizou uma antiga discussão envolvendo a
autoria de um dos principais sucessos dos Cascavelletes, o que azedou a relação
deles de vez.
Quando os Cascavelletes compuseram Sob um Céu de Blues, em 1990,
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Albo queria que seu nome aparecesse na composição. Segundo ele, muitas
ideias daquela música partiram dele, mas na hora de assinar, Flávio e Nei
inicialmente não quiseram colocar seu nome. Nem o de Albo, nem o de mais
ninguém.
– Eu e o Flávio que escrevíamos tudo e eles queriam assinar as músicas
também, mas não faziam as músicas. Rolou tanta encheção de saco que a gente
deu uma música pro Barea assinar e outra pro Albo. Músicas que a gente tinha
feito. E deu o azar de ter sido Sob um Céu de Blues a que gente deu pro Albo.
Mas a música é minha e do Flávio. Ele só tocou a música – conta Nei.
Foi então que anos mais tarde, após ter se sentido traído por Nei quando
este lhe negou um preço melhor em produtos da loja, Albo resolveu cobrar pela
suposta co-autoria.
– O Nei precisava da liberação de Sob um Céu de Blues e eu cobrei dele.
Ele ficou muito bravo comigo e a gente brigou. Mas eu não me arrependo de ter
feito isso, porque ele bota preço nas coisas dele e eu boto nas minhas. Ou
funciona pros dois lados ou não funciona pra nenhum. Não desejo nenhum mal
para ele, quero que ele se dê bem. Mas não faço questão de me relacionar mais.
Se eu encontrar ele, eu cumprimento e tal. Mas não temos mais grandes
assuntos.
***
Passados 15 anos daquele final sem despedida, os Cascavelletes
reuniram-se para um improvável show. Em 12 de maio de 2007, a formação
original da banda, com Flávio, Nei, Barea e Frank, tocou para cerca de 10 mil
pessoas no centro de eventos da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul
(Fiergs). A proeza ficou por conta da rádio Pop Rock, que recrutou o grupo para
comemorar seu aniversário de 10 anos.
Foi a primeira vez que Barea falou com Nei desde aquela briga de 1992
por causa dos cartazes, no Rio de Janeiro. Como a proposta da rádio era reunir
a formação clássica da banda, Albo acabou ficando de fora, embora haja uma
versão de que as coisas não aconteceram exatamente assim.
– Eu não fiquei chateado. Fiquei e não fiquei. Depois fiquei sabendo que
o Nei vetou a minha presença, se fosse para eu tocar alguma música. Foi
cogitado, mas o Nei vetou. Tudo bem, não dá nada, sobrevivo – lamenta Albo.
O sucesso do show e a repercussão positiva surpreenderam os próprios
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integrantes. Mas o entusiasmo do público não foi suficiente para curar velhas
feridas. Questionado sobre a possibilidade de uma volta dos Cascavelletes,
Barea é enfático.
– Se um dia eu tocar com esses caras de novo vai ser 100% por dinheiro.
E ponto final. Só se for um cachê muito alto. É a única motivação que eu teria
pra subir no palco com o Nei, o Albo, e mesmo com o Flávio. Foi o que
aconteceu em 2007. Puta cachê? Beleza, vamos lá – afirmou o baterista em 2012.
Apesar de hoje não alimentar nenhuma briga com seus antigos
companheiros, e ainda conservar uma grande amizade com Frank, Barea diz
que pensa nos Cascavelletes apenas como algo maravilhoso que aconteceu em
sua vida. Ele acha importante manter viva história, mas não quer ficar preso ao
que ficou no passado.
– Eu acho até que é legal manter a mística, os fãs vendo a banda lá
naqueles vídeos antigos, como a gente era naquela época, com aquela energia
de verdade que a gente tinha. Hoje em dia, os caras iam ver um arremedo, uma
coisa mentirosa com pessoas que nem se gostam mais, sem o menor tesão em
fazer aquilo junto, só por dinheiro ou ego.
Se é por dinheiro ou ego, não se sabe, mas os resquícios daquela época
continuam vivos. Mais além daqueles vídeos antigos.
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Capítulo 13 – Eu vim pra contar minha triste história
A ideia de reunir ex-integrantes do TNT e dos Cascavelletes e juntar seus
repertórios partiu de Albo ao retornar a Porto Alegre depois de uma temporada
fora do país. Isso antes mesmo do retorno do TNT aos palcos e estúdios. O ano
era 1999 e ele percebeu que parte dos ex-integrantes das duas bandas não estava
envolvida em grandes projetos, principalmente ele, que tinha acabado de passar
um ano e meio no exterior e estava sem planos. Assim que teve o insight, foi
lançar a proposta aos outros rapazes, todos na época já beirando os 30 anos.
– Eu liguei pra todos eles, o Tchê, o Marcio, o Frank, o Barea, o Nei,
porque não tinha grandes tensões na época. Eu convidei o Nei e ele disse
educadamente que não queria, não fazia sentido pra ele naquela época fazer
esse show tributo. E o Charles disse: “monta o show, dá uma estruturada e me
chama quando estiver pronto pra eu ir cantar”. O Frank fez até release – conta
Albo.
Apesar da empolgação inicial para formar a banda, que se chamaria
Tenente Cascavel, a ideia acabou não vingando. No primeiro ensaio, Marcio não
pode ir. No segundo, foi a vez de Tchê faltar. As duas tentativas frustradas de
reunir todo mundo fizeram com que Frank Jorge desse um ultimato: ou todo
mundo abraçava a proposta, ou eles paravam por ali, antes mesmo de começar.
Foi o que aconteceu. Pararam. Durante os anos que se seguiram, ninguém mais
comentou a respeito do Tenente Cascavel.
Em 2007, depois de o TNT ter chegado ao fim pelo segunda vez, Tchê e
Albo conversavam amenidades quando o antigo assunto entrou em pauta. Por
que não tentar de novo? Dessa vez o plano tinha mais cara de que podia
funcionar.
O Tenente Cascavel surgiu oficialmente no ano seguinte como um
quinteto. Faziam parte Frank Jorge, Barea e Albo, ex-Cascavelletes, além de
Marcio e Tchê, ex-TNTs. A banda começou a fazer shows no interior gaúcho,
onde se deparava com duas gerações de público: os pais, que ouviam as
músicas e iam aos shows das duas bandas nos anos 1980 e 1990, e os filhos, que
começaram a ouvir por influência dos pais. Quase 20 anos depois de terem
sentido pela primeira vez o gosto do sucesso, ainda garotos recém-saídos da
adolescência, aqueles caras, agora aos 40, puderam senti-lo novamente.
A banda fez tanto sucesso e agradou tanto ao público que logo surgiu
uma ideia ousada: a composição de músicas próprias. Um verdadeiro tiro no
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pé, diga-se de passagem. O entrosamento da banda para tocar antigos
repertórios funcionava bem, mas na hora de fundir as ideias e criar novas
canções, faltava a tal química. O primeiro a deixar a banda foi Frank Jorge. Em
seguida, Barea decidiu abandonar as baquetas do Tenente Cascavel.
– Pra mim foi legal por um tempo, mas daí a gente cometeu o erro de
querer compor músicas novas e aquilo ali atrapalhou tudo – conta Barea.
Frank Jorge acabou não sendo substituído, mas um novo baterista
precisava ser recrutado. Foi quando chamaram Paulo Arcari para assumir a
posição.
– Nós temos uma relação de amizade há muitos anos, eu já substituía o
Barea em alguns shows do Tenente Cascavel, eles estavam sempre lá em casa
tomando chimarrão, gravando outras coisas, então me convidaram. Eu gravei
três músicas deles lá no meu estúdio, duas ainda com o Barea e a última já
comigo na bateria – conta Paulo.
As três músicas assinadas pelo Tenente Cascavel chegaram a rodar em
shows e pela internet, mas logo acabaram ficando de lado. Não só as músicas,
mas a própria ideia de compor novas. Segundo Paulo, a banda decidiu focar nas
músicas antigas, que as pessoas conhecem e que fazem parte do auge das
bandas que geraram o projeto.
Apesar do sucesso de público, da agenda lotada de shows por todo o
interior gaúcho e Santa Catarina e da comoção das pessoas com as nostálgicas
canções, a ideia de reviver nos palcos os tempos de TNT e Cascavelletes sofreu
resistência. Desde que as primeiras informações sobre o nascimento do Tenente
Cascavel começaram a circular, as críticas eram recorrentes.
– A galera pega um pouco no pé, diz que é um projeto caça-níquel em
verbetezinho de Wikipédia. E eu, por um lado, consigo compreender uma visão
desse ângulo. Mas ao mesmo tempo, eu tenho propriedade para fazer o que eu
tô fazendo, vi muito show dessas bandas, toquei muito essas músicas, eu sei de
onde vem – argumenta Tchê Gomes.
Para eles, a banda é um trabalho como outro qualquer e, assim sendo,
ganhar dinheiro também não deixa de ser um objetivo.
– A gente trabalha com isso, eu não vejo mal nenhum em subir num
palco e tocar músicas da banda que eu toquei por três anos. Nenhum de nós vê.
O Marcio falou uma vez numa entrevista que a gente tá descobrindo na prática
64
que qualquer pessoa pode subir no palco e tocar Sob Um Céu de Blues e Cachorro
Louco, mas a gente não pode. A gente é criticado. Isso é muito estranho. É muito
bizarro – analisa Albo.
Apesar de já haver abandonado o revival, Barea concorda:
– O Tenente Cascavel é legal, é meio que um trampo. A gente é músico
profissional, é como essas bandas gringas que voltam, fazem reunião, lançam
disco. Isso tudo é comércio. A gente vive disso, tem que vender o que a gente
tem pra vender. Não vamos trabalhar num banco.
Curiosamente, as críticas mais ásperas partem de ex-integrantes das duas
bandas que não fazem parte do Tenente Cascavel e querem mais é distância.
“Uma banda cover que toca as minhas músicas sem a minha autorização”, é a
definição padrão de Nei Van Soria para a banda dos ex-colegas.
Charles Master, apesar de ainda manter boas relações com Tchê Gomes e
de preferir não tocar no assunto, também não poupa a banda:
– Não quero ficar falando de passado, é mais importante o presente e o
futuro, pelo menos para quem cria. Se quiser falar de passado, é Tenente
Cascavel, aí é só passado. Tô cansado de imitações e de banda usando o nome
das minhas músicas porque não tem nem criatividade pra dar um nome ao
grupo.
Flávio não demonstrava publicamente qualquer aborrecimento com o
Tenente Cascavel, talvez por estar mais focado em seu universo chamado
Júpiter Maçã, que deve tomar muito do seu tempo. Mas alguns integrantes já
deixaram claro que adorariam se ele tivesse participado na banda.
Apesar das críticas, eles seguem fazendo sucesso entre os fãs mais
saudosistas. Nos shows, os antigos integrantes que não fazem parte do projeto
costumavam ser citados e agradecidos ao microfone. A ausência dos vocalistas
das bandas originais é compensada pelo revezamento de Tchê, Albo e até de
Marcio nos microfones. É como se nenhuma rusga pudesse atrapalhar aquilo
tudo.
Mesmo já não sendo mais tão jovens como no começo de tudo, eles
dizem que o vigor para tocar é o mesmo de quando tinham 18 anos. E a
capacidade de fazer um barulho imenso em cima do palco, também.
– Talvez a gente toque até com mais tesão, acho que a gente tem uma
65
vibração maior até porque a gente consegue reunir uma gama maior de
gerações – explica Tchê.
Ainda assim, ele admite não ter uma visão tão romântica da banda. São
apenas amigos que tocavam em duas bandas e que resolveram se reunir para
tocar juntos novamente. O futuro dela, ele também não sabe – e não se
surpreenderia se suspendessem as atividades por um tempo. A visão de Albo
não é muito diferente:
– Não posso dizer quanto tempo vai durar o projeto.
O futuro, como eles mesmos dizem, é incerto. A única certeza que todos
têm é que TNT e Cascavelletes fizeram, viveram e deixaram um legado. É
principalmente tudo o que eles representam para milhares de fãs espalhados
pelo Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, ou
em qualquer canto desse país.
Os músicos que fizeram parte do TNT e dos Cascavelletes talvez não
gostassem de ver esse relato terminar com uma frase do sempre arredio Charles
Master. Mas nem eles devem negar que o principal letrista do grupo que deu
início a essa história soube resumir perfeitamente a trajetória das duas bandas –
do início precoce e promissor, os shows consagradores, as brigas, a decadência
até as tentativas, caça-níqueis ou não, de manter vivo o legado:
– Meus ex-colegas eram perfeitos naquele momento, hoje não mais.
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Discografia
TNT
Rock Grande do Sul - 1985 - RCA 5 – Ela me deu o bolo
1 - Engenheiros do Hawaii - Sopa de 6 – Charles Master
Letrinhas 7 – Não sei
2 - Os Replicantes - Surfista Calhorda 8 –Alazão
3 - TNT - Entra Nessa 9 – Baby (eu vou morar n’outro
4 - Garotos da Rua - Sozinho Outra Vez planeta)
5 - DeFalla - Você Me Disse 10 – Veja amor
6 - Garotos da Rua - Tô de Saco Cheio 11 – Dentro do meu carro
7 - Engenheiros do Hawaii - Segurança 12 – Tempo no inferno
8 - TNT - Estou na Mão
9 - DeFalla - Instinto Sexual Noite Vem, Noite Vai - 1991 - RCA
10 - Os Replicantes - A Verdadeira 1 - Quem Procura Acha
Corrida Espacial 2 - Nunca mais Voltar
3 - Paz no Seu Coração
TNT Vol.1 - 1987 – RCA 4 - Não Tenho Medo Da Vida
1 - Ana Banana 5 - Estou Louco Por Você
2 - Cachorro Louco 6 - Amigo Meu
3 - Desse Jeito 7 - Vacilou
4 - Entra Nessa 8 - Noite Vem, Noite Vai
5 - Estou na Mão 9 - Daqui Pra Frente
6 - Febem 10 - Deus Quis
7 - Identidade Zero
8 - Liga essa Bomba TNT Hot 20 - 1999 – RCA-BMG
9 - Me dá o cigarro 1 - Quem Procura Acha
10 - Não quero mais te ver 2 - Nunca Mais Voltar
11 - Oh Deby 3 - Não Sei
12 – Ratiação 4 - Baby, Eu Vou Morar N'Outro
Planeta
TNT Vol.2 - 1988 – RCA 5 - Não Vai Mais Sorrir (Pra Mim)
1 - Não vai mais sorrir (pra mim) 6 - A Irmã do Doctor Robert
2 – Muito cuidado 7 - Gata Maluca
3 – A irmã do doctor Robert 8 - Ela Me Deu o Bolo
4 – Gata maluca 9 - Charles Master
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10 - Ana Banana 5 - Juro que não
11 - Identidade Zero 6 - Ao redor
12 - Oh, Deby 7 - Bicho esquisito
13 - Liga Essa Bomba 8 - Quando a noite vem
14 - Cachorro Louco 9 - O quanto antes
15 - Desse Jeito 10 - Histórias felizes
16 - Estou na Mão 11 - Mais menos
17 - Me Dá o Cigarro 12 - Se quer saber
18 - Entra Nessa 13 - A Chuva
19 - Noite Vem, Noite Vai
20 - Daqui Pra Frente
TNT: Ao Vivo - 2004 - Orbeat Music
1 - Nunca mais voltar
2 - Não sei
3 - Baby
4 - Irmã do Dr. Robert
5 - Estou na mão
6 - Oh! Deby
7 - Identidade Zero
8 - Você me deixa insano
9 - O mundo ‚ maior que o teu quarto
10 - Tudo no ar
11 - Desse jeito
12 - FEBEM
13 - A cigana
14 - Saiba escolher os seus amigos
15 - Quem procura acha
16 - Não tenho medo da vida
17 - Ana Banana
18 - Entra nessa
19 - Cachorro louco
Um por todos ou Todos por Um -
2005 - Orbeat Music
1 - Por enquanto
2 - Tá na lona
3 - Contigo
4 - Ondas coloridas
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Os Cascavelletes
Fita - 1987 - Vórtex 9 - Anita – Júlio Reny
01 - Pombo Surfista 10 - Brasil – Prize
02 - Eu Quero Estudar
03 - Minissaia Sem Calcinha Os Cascavelletes - 1988 -
04 - Entra Nessa Independente
05 - A Barata 1 - Carro Roubado
06 - Estupro Com Carinho 2 - Morte por Tesão
07 - Banana Split 3 -Menstruada
08 - A Última Virgem 4 - Ugagogobabagô
09 - Menstruada 5 - Estou Amando uma Mulher
10 - O Dotadão Deve Morrer 6 - Jessica Rose (ao vivo)
11 - Ugagogobabagô
12 - Morte por Tesão Rock'a'ula - 1989 - EMI-Odeon
13 - Chegou O Verão 1 - Gato Preto
14 - Nega Bombom 2 - A Moto
15 - Estou Na Mão 3 - Jessica Rose
4 - Sorte no Jogo e Azar no Amor
Rio Grande do Rock – 1988 - SBK 5 - Nêga Bombom
1 - Expresso Oriente – Júlio Reny 6 - D.I.S.C.O. (A Garota da Rua)
2 - Roleta Russa – Apartheid 7 - Banco de Trás de um Cadillac
3 - Forças do Interesse – Prize 8 - Eu Quis Comer Você
4 - Exilados – Justa Causa 9 - Cão e Cadela
5 - Estou Amando Uma Mulher – Os 10 - Baby Satanás
Cascavelletes 11 - Lobo da Estepe
6 - Morte Por Tesão – Os
Cascavelletes Single - 1991 - Independente
7 - Status – Justa Causa 1 - Homossexual
8 - Críticos – Apartheid 2 - Sob um céu de blues
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Referências, alusões e citações
Livros:
Gauleses Irredutíveis (Alisson Avila, Cristiano Bastos, Eduardo Müller)
Prezados Ouvintes (Mauro Borba)
Notas de Viagem (Egisto dal Santo)
Jornal Zero Hora (Renato Mendonça, 25 de março de 2003; Luis Bissigo, 22 de
dezembro de 2003; 29 de setembro de 2006; 13 de outubro de 2006; Gabriel
Brust, 25 de novembro de 2008; Luis Bissigo, 24 de marzo de 2006)
Jornal Diário de Santa Maria (Francisco Dalcol, 16 de março de 2006; Mauren
Rigo, 11 de abril de 2006)
Jornal A Notícia (Rubens Herbst, 13 de março de 2010)
Jornal Diário Catarinense (24 de setembro de 2003; 28 de dezembro de 2005)
Jornal Rotação
Revista Bizz (maio de 1986; outubro de 1986; novembro de 1986; fevereiro de
1987; julho de 1987; outubro de 1987; dezembro de 1987; janeiro de 1988; março
de 1988; abril de 1988; agosto de 1988; novembro de 1988; março de 1989; maio
de 1989; fevereiro de 1990; março de 1990; julho de 1999)
Programa POP ROCK na TV, ULBRA TV
Programa Palcos da Vida, TVE
Rádio documentário “Com quantos paus se faz rock’n’roll”
www.moderninho.wordpress.com (27 de maio de 2008)
www.radiowebputzgrila.blogspot.com.br
As fotografias deste livro são do arquivo pessoal da banda e de divulgação.
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A autora
Juliete Lunkes nasceu no dia 8 de dezembro de 1989 em Santa Rosa, no interior
do Rio Grande do Sul. É formada em jornalismo, já trabalhou como assessora de
imprensa e repórter da área cultural e escreve em blogs desde a adolescência,
época em que passou a ter mais contato com a música. Viveu entre Balneário
Camboriú e Florianópolis por oito anos e desde 2015 mora em Buenos Aires,
onde trocou o jornalismo pela publicidade.
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