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O Culto e As Divindades No Tambor de Mina No Maranhão

O documento descreve as características do tambor de mina, uma religião de origem africana praticada no Maranhão. Ele discute os grupos étnicos africanos envolvidos, o sincretismo com o catolicismo, as divindades cultuadas, os instrumentos musicais e rituais utilizados, incluindo festas dedicadas a santos católicos.

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O Culto e As Divindades No Tambor de Mina No Maranhão

O documento descreve as características do tambor de mina, uma religião de origem africana praticada no Maranhão. Ele discute os grupos étnicos africanos envolvidos, o sincretismo com o catolicismo, as divindades cultuadas, os instrumentos musicais e rituais utilizados, incluindo festas dedicadas a santos católicos.

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PAR�UNIVERSIDADE FEDERAL DO PAR�

PROGRAMA DE P�S-GRADUA��O EM ANTROPOLOGIA SOCIAL

SEMIN�RIO PAJELAN�A E ENCANTARIA AMAZ�NICA

BEL�M, 24 A 26/04/2002

MESA REDONDA:

RELIGI�ES AFRO BRASILEIRAS - O MARANH�O E O PAR�

COMUNICA��O:

O culto e as divindades no tambor de mina do Maranh�o

Autor: Dr. Sergio F. Ferretti (UFMA)

Vers�o Preliminar

S�o Lu�s, Abril de 2002

O culto e as divindades no tambor de mina do Maranh�o

Sergio F. Ferretti

Antrop�logo, Prof. da UFMA

O tambor de mina � o nome mais comum da religi�o de origem africana no Maranh�o


e na Amaz�nia. Possui caracter�sticas espec�ficas que o diferenciam de outras
manifesta��es similares, especialmente do candombl� e da umbanda, que atualmente
s�o as formas mais conhecidas dessas religi�es no Brasil. O nome tambor de mina
deriva da import�ncia desse instrumento no culto e do Forte de S�o Jorge da
Mina, antigo entreposto de escravos, na atual Rep�blica do Gana, de onde muitos
escravos foram mandados ao Brasil.
Numerosos grupos �tnicos africanos foram trazidos como escravos para o Maranh�o,
muitos dos quais s�o citados na documenta��o espec�fica e diversos s�o lembrados
oralmente nos grupos de culto, entre os quais: jeje, nag�, cambinda, bijag�,
balanta, nalu, manjaro, mandingas, felupe, tapa ou nup� e outros. As tradi��es
jeje e nag� s�o as mais conhecidas e das demais, atualmente, encontramos
refer�ncias a grupos extintos. Tamb�m tem sido estudado (Ferretti, M, 2000,
2001) o tambor de mina da mata, onde s�o cultuados principalmente entidades
brasileiras denominadas caboclos.
Funcionam ainda hoje em S�o Lu�s duas casas de culto fundadas por africanos na
primeira metade do s�culo XIX: a Casa das Minas Jeje e a Casa de Nag�[1]. H�
numerosos grupos de culto vinculados a outras casas surgidas ainda no s�culo XIX
ou ao longo do s�culo XX.
Nas casas de tambor de mina do Maranh�o uma das caracter�sticas � o predom�nio
de mulheres. As casas mais antigas e algumas mais novas s� aceitam mulheres na
roda de dan�as. Temos not�cias, no passado como hoje, de casas dirigidas por
homens. Mesmo nestas, o n�mero de mulheres ultrapassa em muito o n�mero de
homens. H� mesmo casas que trazem, na parede, letreiro avisando que na roda de
dan�as s� � permitido no m�ximo dan�arem 3 homens ao mesmo tempo. Pessoas mais
velhas indagadas sobre esse costume, afirmam que no passado n�o era bem visto
mulher dan�ando mina junto com homem, ou que o homem dan�ando mina pareceria
rid�culo e que a fun��o do homem no culto � tocar instrumentos e ajudar em
outras atividades. Nas casas mais modernas, sobretudo as dirigidas por homem,
verifica-se tamb�m o predom�nio da mulher, mas nelas a participa��o masculina �
mais intensa.

II

Como as demais religi�es afro-brasileiras, o tambor de mina possui uma s�rie de


caracter�sticas espec�ficas e, para ser compreendido, � necess�rio que se
entenda um pouco estas especificidades.
O sincretismo com o catolicismo est� muito presente no tambor de mina. O
catolicismo, imposto ao escravo, foi aceito como uma estrat�gia de adapta��o ao
contexto local para que suas pr�ticas religiosas pudessem sobreviver. Entre as
caracter�sticas do tambor de mina, destaca-se, nas casas mais antigas, a
aus�ncia de Legba, dos fons, ou Exu, dos yorub�s. Em decorr�ncia deste
afastamento de Legba, no tambor de mina tamb�m n�o h� o culto a If�, o deus
yorubano da advinha��o, nem a pr�tica do jogo de b�zios, sendo a advinha��o
realizada por outros processos. Os dirigentes do tambor de mina fazem quest�o de
frisar que n�o fazem feiti�aria e que n�o trabalham para o mal. Devido a essa
evita��o de Exu, no tambor de mina tamb�m n�o � comum o culto a Oxum, cujo nome
se assemelha ao de Exu, nem c�nticos s�o oferecidos em sua homenagem. Oxum, em
muitos terreiros � susbstitu�da por Navezuarina, que seria outro nome dessa
entidade.
O calend�rio religioso das casas de culto adapta-se ao calend�rio dos santos da
Igreja cat�lica. As pr�ticas cat�licas do batismo, casamento religioso,
assist�ncia � missa, prociss�es, festas, culto aos santos, missa de s�timo dia e
outras devo��es cat�licas foram assimiladas e se encontram profundamente
inseridas nas tradi��es dos membros do culto. Antes das festas dos terreiros, os
devotos costumam assistir � missa, comungar e rezam ladainha em latim, no in�cio
das cerim�nias. As paredes da varanda de dan�as e outros c�modos dos terreiros
costumam ser enfeitados com gravuras, retratando imagens de santos cat�licos
mais cultuados. Todo terreiro possui tamb�m, em local de destaque, um altar com
imagens dos santos de maior devo��o, que s�o revesadas ao longo do ano
lit�rgico. � comum na �poca do Natal, armarem pres�pios e, no fim do ciclo
natalino, h� uma cerim�nia especial onde s�o queimadas as palhinhas do pres�pio.
Os voduns n�o se confundem com os santos cat�licos, nem s�o confundidos com eles
pelos devotos. Afirma-se, em geral, que cada vodum tem especial devo��o a um
determinado santo e que por isso seus fi�is s�o tamb�m devotos deste mesmo
santo. Assim, uma pessoa que recebe determinado vodum, costuma organizar uma
festa cat�lica no dia do santo que o vodum comemora. Entre os santos mais
cultuados encontramos: Santos Reis; S�o Sebasti�o, S�o L�zaro, S�o Roque, S�o
Jorge, Santo Ant�nio, S�o Jo�o, S�o Pedro, N. Sra. do Carmo, Santana, S�o
Raimundo, Santa Rosa de Lima, S�o Jer�nimo, S�o Miguel Arcanjo, Santos Cosme e
Dami�o, Santa B�rbara, N. Sra. da Concei��o, Santa Luzia, Santo Onofre e muitos
outros.
Em outro trabalho (Ferretti, 1995), constatamos que no tambor de mina o
sincretismo possui caracter�sticas de separa��o, fus�o, converg�ncia ou
paralelismo, que podem ser observados nos diferentes tipos de rituais.
Constatamos igualmente que muitos pesquisadores n�o v�em com bons olhos a
presen�a do sincretismo nos cultos afros, embora, como acreditamos, a presen�a
do sincretismo n�o descaracterize a tradicionalidade da religi�o. Ao mesmo
tempo, a quest�o n�o � gostar ou n�o gostar do sincretismo e sim a constata��o
de que este fen�meno se encontra muito presente na realidade religiosa
afro-maranhense.
As festas religiosas cat�licas s�o comemoradas em todos os terreiros e entre
elas tem especial destaque a festa do Divino Esp�rito Santo, festejado com
grande pompa em quase todos os terreiros de mina de S�o Lu�s. Geralmente a festa
do Divino � realizada em homenagem a uma entidade especial, que � devota do
Esp�rito Santo. � uma festa muito ritualizada e, no Maranh�o, se caracteriza
pelo toque de caixas realizado pelas caixeiras, que cantam, tocam e dan�am
m�sicas em homenagem ao Divino. A bandeira vermelha e a pomba branca do Divino
s�o s�mbolos importantes representados nessa festa, que costuma durar v�rios
dias e ser seguida por noites de toques de tambores no terreiro. Em cada casa, a
festa do Divino costuma ser comemorada na �poca do anivers�rio de funda��o ou na
data da festa do santo ou entidade mais importante cultuada. Diferenciando-se do
tambor de mina, as casas que se dizem de umbanda do Maranh�o n�o costumam
realizar festa do Divino.
Outras festas populares relacionadas com o folclore e em louvor aos santos s�o
realizadas no tambor de mina. Entre elas, destacam-se festas de bumba-meu-boi e
o tambor de crioula. O bumba-meu-boi � a mais importante manifesta��o do
folclore maranhense. Na �poca do ciclo junino, quando se organizam festas de
boi, muitos terreiros de mina realizam uma festa com o boi, oferecida a uma
entidade que aprecia essa manifesta��o popular, geralmente um caboclo cultuado
na casa. Costuma haver um dia do batizado e um dia da morte do boi, acompanhado
de um almo�o aos convidados. Algumas casas possuem grupo de bumba-meu-boi e
outras convidam grupos de fora ou recebem visita de outros grupos de boi da
cidade. A entidade cultuada varia com cada casa[2] e a festa do boi se realiza
entre junho e o final do ano.
O tambor de crioula � outra manifesta��o da cultura popular maranhense que
tamb�m est� presente nos terreiros de mina. Costuma ser realizado no dia 13 de
maio, em comemora��o � liberta��o dos escravos, oferecida aos Pretos-Velhos.
Tamb�m � realizada em outra �poca, como no m�s de agosto, em louvor a S�o
Benedito ou a S�o Raimundo e em devo��o a uma entidade cultuada na casa, como o
vodum Averequete ou outra. H� tamb�m terreiros que possuem grupo de tambor de
crioula, sendo mais comum a presen�a de grupo convidado para a festa no
terreiro. No tambor de crioula nos terreiros, � comum a participa��o, nesta
dan�a, de devotos da casa em transe com sua entidade.

III

Al�m dessas caracter�sticas gerais, encontramos ainda no tambor de mina do


Maranh�o, outras caracter�sticas que o distinguem das demais religi�es
afro-brasileiras. Os instrumentos principais do culto, no estilo mina-jeje,
exclusivo da Casa das Minas, s�o tr�s tambores[3] de madeira tocados com as m�os
e com baguetas denominadas aguidavi. O som � marcado por um instrumento de
ferro, chamado gan, tocado geralmente por mulher, a ferreira ou gant�. Os toques
s�o acompanhados por 4 ou 5 caba�as pequenas revestidas com fios de contas
coloridas, tocadas por mulheres.
Na Casa de Nag� e nos demais terreiros, os instrumentos principais s�o dois
tambores[4] denominados abatas. Os tocadores s�o abatazeiros.. S�o acompanhados
por um ferro tocado por homem ou mulher, conforme a casa, e por v�rias caba�as
de tamanho variado sendo uma maior, tocada geralmente por homem e as demais,
menores, tocadas por homem ou mulher, conforme a casa.
Exceto as duas casas fundadas por africanos, em diversos terreiros de mina
costuma existir tamb�m um tambor longo, semelhante ao da Casa das Minas,
denominado de tambor da mata. � tocado por homem, inclinado e geralmente
amarrado � cintura, entre as pernas do tocador. Em rituais espec�ficos, ou em
alguns locais, as vezes aparecem outros instrumentos [5].
Na Casa das Minas, todos os c�nticos s�o em l�ngua jeje ou fon e as vodunsis s�o
capazes de cantar durante muitas horas, em diferentes rituais, com repert�rio
variado. Na Casa de Nag�, os c�nticos s�o predominantemente em nag� e alguns em
portugu�s. Na maioria dos demais terreiros, cantam-se alguns c�nticos em nag� ou
jeje, por cerca de meia hora ou pouco mais e depois canta-se em portugu�s.
A vestimenta das dan�antes geralmente � igual para todos os participantes[6].
Numa festa de tambor de mina, todas as dan�antes costumam usar saias na mesma
cor[7]. Quando entram em transe, amarram na cintura uma toalha branca
rendada[8]. Os homens dan�am, em geral, com cal�a comprida branca e camisa na
cor da saia das mulheres e usam a toalha no bra�o ou atravessada no pesco�o.
Homens e mulheres, na maioria das vezes, trazem a cabe�a descoberta, mas, em
algumas casas, sobretudo no interior, � comum o uso de chap�u para os homens e
de len�o branco na cabe�a das mulheres. Todos usam colares de contas coloridas,
denominadas de ros�rio ou guia[9].
O transe costuma ser discreto e, muitas vezes, pessoas de fora n�o identificam
se o devoto est� ou n�o no estado de transe. No in�cio, a pessoa fica mais
descontrolada, mas a entidade geralmente se acalma com a coloca��o da toalha. Em
outros terreiros que n�o a Casa das Minas e de Nag�, geralmente, quando a
entidade chega, costuma dar uma longa rodada, girando em torno de si mesmo por
algum tempo. Depois, sa�da o altar, os tocadores, a chefe da casa, os demais
companheiros e os visitantes. Diferentemente do candombl�, o transe na mina
costuma durar v�rias horas e a vodunsi permanece com os olhos abertos. As
entidades africanas n�o comem, n�o bebem nem satisfazem necessidades
fisiol�gicas no estado de transe. Alguns costumam fumar cachimbos de cano longo.
Tamb�m se afirma que, no estado de transe, a pessoa n�o sente dores, ficando
como se estivesse anestesiada. Muitas entidades caboclas costumam fumar e beber
cerveja, ch�s ou outras bebidas.
No tambor de mina, n�o � comum o sacrif�cio de muitos animais. Poucas vezes ao
ano as casas oferecem, sobretudo, aves e, algumas vezes, peixes e tamb�m muitas
frutas. Na Casa das Minas, as comidas de santo t�m nomes e caracter�sticas
africanas.
Na Casa das Minas Jeje, cada vodunsi ou filha-de-santo recebe apenas um vodum.
As que haviam se submetido a um ritual especial de inicia��o e eram consideradas
filhas feitas completas, denominadas de vodunsis-hunja�s, recebiam, em
determinados rituais, uma entidade feminina infantil denominada tobossi. A
inicia��o completa n�o � mais realizada h� muitos anos e as tobossis n�o baixam
mais. Na Casa de Nag�, as vodunsis recebem um ou dois orix�s e alguns caboclos.
Nos demais terreiros os dan�antes costumam receber uma entidade africana e
alguns caboclos, sendo um deles o principal, denominado de caboclo de frente.
A longevidade � uma caracter�stica dos participantes do tambor de mina como de
outras religi�es afro-brasileiras. � comum as mineiras viverem por mais de 90 ou
100 anos. Muitas come�am a participar da religi�o desde bem jovem. Muitas
pessoas procuram o tambor de mina acometidas por alguma doen�a ou devido a
sonhos e vis�es. Pessoas acometidas por doen�a mental ou por acidente vascular
cerebral, chamado derrame, s�o muitas vezes levadas a terreiros de mina a
procura de tratamento, que costuma ser feito com banhos de plantas e com ch�s de
ervas medicinais. Atualmente, temos constatado que muitos participantes do
tambor de mina passam a ser acometidos por diabetes. Tamb�m � comum a procura
aos terreiros por pessoas afligidas por doen�as mentais.
Excetuando-se a Casa das Minas e a Casa de Nag�, grande n�mero de terreiros de
tambor de mina realiza tamb�m outros tipos de rituais. Entre esses rituais
destacam-se: as se��es de cura ou pajelan�a, o tambor de �ndio e as se��es de
mesa branca. A pajelan�a ou brinquedo de cura[10] � um ritual de origem
amer�ndia realizado uma ou duas vezes por ano pela maioria dos terreiros de
mina.. Afirma-se, no Maranh�o, que muitos mineiros come�aram como paj�s e por
isso realizam periodicamente uma se��o de pajelan�a, onde s�o cultuadas
entidades consideradas como donos da terra.
O tambor de �ndio, canjer� ou bor� � outro ritual, de inspira��o amer�ndia,
realizado tamb�m em diversos terreiros de mina, uma ou duas vezes ao ano[11]. Os
iniciados costumam, antes, participar de uma esp�cie de retiro, no terreiro ou
em um s�tio, onde comem alimentos especiais como mel e batata doce. O tambor de
�ndio e a pajelan�a constituem rituais criados pelos afro-descendentes,
inspirados em tradi��es amer�ndias e que est�o muito presentes no tambor de
mina. A presen�a desses rituais nos terreiros de culto afro nos faz lembrar as
santidades amer�ndias, rituais realizados em comunidades ind�genas e
documentados no per�odo colonial, em v�rias regi�es do pa�s, analisado como uma
das rea��es � catequese.
Alguns terreiros de mina e umbanda do Maranh�o, que preservam influ�ncias do
espiritismo, realizam regularmente o ritual denominado de mesa branca[12],
realizado � tarde ou � noite em determinados dias. A presen�a de rituais de
influ�ncia kardecista e ind�gena nos terreiros mostra a complexidade do
sincretismo presente no tambor de mina. Esse sincretismo se processa tanto com o
catolicismo popular, quanto com tradi��es amer�ndias e de outras proced�ncias,
como o espiritismo kardecista, de origem europ�ia, largamente difundido em todo
o pa�s.

IV

Entidades africanas e brasileiras s�o recebidas nos terreiros de tambor de mina:


voduns, tobossis, orix�s, gentis e caboclos. Os praticantes do tambor de mina
n�o gostam de conversar muito sobre as entidades e sobre as pr�ticas rituais.
At� a d�cada de 1930 n�o se tinha refer�ncias bibliogr�ficas � exist�ncia do
culto aos voduns no Brasil. M�rio de Andrade ap�s sua passagem por Bel�m em
1928, narrada em �O turista Aprendiz�, descobre um c�ntico Iemanj� vodum e
relata esse fato em sua confer�ncia sobre M�sica de Feiti�aria, de 1933. Durante
as d�cadas de 1930 e 1940, foram realizadas diversas pesquisas no Maranh�o e
Par� e, a partir de ent�o, a presen�a do culto aos voduns come�ou a ser mais
conhecida nessas regi�es[13].
Segundo constata��o simult�nea de Oct�vio da Costa Eduardo e de Pierre Verger,
na Casa das Minas de S�o Lu�s s�o cultuadas diversas entidades que possuem nomes
de antigos reis do Daom�. Em artigo publicado originalmente em 1953, Verger
(1990) levantou a hip�tese que a Casa das Minas teria sido fundada por uma
rainha africana, que fora vendida como escrava ap�s a morte do rei. Identificou
essa rainha como a Na Agontim�, vi�va do rei Agongl� (1789-1797) e m�e do futuro
rei Ghezo (1818-1848). Segundo Verger, muitos nomes de membros da fam�lia real
do Daom�, at� o reinado de Agongl�, s�o cultuados como voduns no Maranh�o.
Os voduns jejes s�o cultuados principalmente na Casa das Minas, onde s� eles s�o
recebidos. Outros terreiros realizam alguns c�nticos em sua homenagem e alguns
voduns costumam ser recebidos com grande distin��o, permanecendo pouco tempo, no
in�cio das cerim�nias, sendo depois substitu�dos por caboclos que permanecem
durante o restante da festa.
Na Casa das Minas, os voduns agrupam-se em cinco fam�lias, sendo tr�s maiores e
principais e duas menores, com poucos voduns, que s�o considerados h�spedes.
Cada parte do pr�dio da Casa pertence a uma fam�lia de voduns. Talvez, em
virtude dessa influ�ncia, no tambor de mina os caboclos e outras entidades da
mina tamb�m costumam se organizar em grandes fam�lias. Na Casa das Minas, s�o
cultuados cerca de meia centena de voduns, que se dividem em adultos, velhos,
jovens, crian�as, homens e mulheres. A maioria pertence ao sexo masculino.
Noch� Na�, ou Sinh� Velha, � a grande ancestral, m�e de todos os voduns e n�o �
recebida em transe. � a dona da �rvore sagrada. � comemorada duas vezes ao ano,
no Solst�cio, no Natal e S�o Jo�o, quando lhe s�o oferecidos um galo e uma
galinha branca. As dan�antes se vestem de branco e azul e branco em suas festas.
Davice � o nome da fam�lia real, que re�ne os voduns que s�o nobres.
Subdivide-se em duas fam�lias: a de Dadarro, o rei mais velho, e Zomadonu, o
dono da Casa. Entre os filhos de Dadarro, Do�u � um dos voduns mais conhecidos e
mais cultuados em outros terreiros. Os voduns mais novos s�o chamados
toqu�ns[14] e s�o importantes porque s�o eles que chamam os mais velhos. Entre
os voduns h�spedes destacam-se os da fam�lia de Savalunu[15], nome de uma regi�o
do Benin. A outra fam�lia de h�spedes � a de Aladanu[16], nome de outra regi�o
do atual Benin, de onde teria surgido a fam�lia que dirigiu o reino do Daom� e
de onde teriam descendido os jejes ou Fon.
Outra grande fam�lia � a de Quevio��, considerada nag� entre os jejes. Seus
voduns s�o mudos na Casa das Minas. Dizem que, para n�o revelarem os segredos
dos nag�s, falam apenas por gestos e sinais, que s�o traduzidos pelos dois
voduns mais jovens da fam�lia[17]. � considerada a fam�lia astral, dos voduns
que controlam os astros, o fogo, as �guas, os raios e trov�es e combatem os
ventos e tempestades. O chefe da fam�lia � Bad� Quevio��, o dono do trov�o,
auxiliado por sua m�e ou irm� mais velha, noch� Sob�, que controla os raios.
Bad� � comemorado no dia de S�o Pedro e Sob�, no dia de Santa B�rbara. Ambas s�o
festas de grande import�ncia em todos os terreiros do Maranh�o. A festa de Santa
B�rbara, no dia 4 de dezembro, � considerada a festa de abertura do ano
lit�rgico no tambor de mina, pois se diz que para se poder fazer as outras
festas tem que se come�ar tocando para Santa B�rbara. Entre os mais conhecidos
est�o Averequete e Abe. Averequete � devoto de S�o Benedito e padroeiro dos
tambores de mina do Maranh�o. Dizem que Averequete � quem traz os caboclos para
a mina.
A terceira fam�lia importante para os jejes � a de Dambir�, o pante�o da terra,
s�o os reis caboclos, que s�o pobres e poderosos, combatem as doen�as e a peste.
Vivem numa parte especial da casa, em c�modos feitos no quintal. O chefe da
fam�lia � Acossi Sakapat�, seguido pelos seus irm�os Azili e Azonce[18]. S�o
comemorados durante tr�s dias na festa de S�o Sebasti�o. Acossi � devoto de S�o
L�zaro. Suas oferendas s�o feitas num altar entre plantas do quintal. Os
cachorros s�o homenageados com um banquete em sua festa.
Alguns voduns jejes correspondem a certos orix�s nag�s. Assim considera-se que
Do�u, que � cavaleiro e tocador, corresponde a Ogum. Bad� corresponde a Xang�,
Sob� corresponde a Ians�, Abe corresponde a Iemanj�, To�� e Toc� correspondem
aos Ibeji, Bo�a e Bo�uc� correspondem a Oxumar�, Acossi corresponde a Obalua�,
Nan� � a mesma nas duas tradi��es. Dos principais orix�s nag�s, Oxum n�o �
representada ou corresponderia a Navezuarina, vodum muito cultuado na mina. Como
dissemos antes, talvez a evita��o de Exu na mina seja respons�vel pelo n�o
aparecimento do culto ao orix� Oxum no tambor de mina. � importante destacar que
numerosos voduns jejes n�o possuem correspond�ncia entre os orix�s nag�s.
As tobossis ou meninas, chamadas de sinhazinhas, s�o entidades femininas
infantis que eram recebidas na Casa das Minas pelas vodunsis que haviam se
submetido a um ritual especial de inicia��o e se tornavam vodunsis hunja�s. A
�ltima inicia��o completa foi realizada na Casa em 1914 e todas hunja�s foram
falecendo at� por volta de 1970. As tobossis n�o vieram mais. Elas eram
crian�as, falavam uma l�ngua especial. Cada tobossi s� vinha em uma hunja� e
quando esta morria ela n�o vinha mais, sua miss�o terminava ali. Elas vinham em
tr�s �pocas do ano, em festas que duravam v�rios dias: no Natal, em S�o Jo�o,
festas de noch� Na� e no Carnaval. Elas permaneciam em transe durante at� nove
dias, comiam comidas especiais, tomavam banho de madrugada, tinham uma dan�a com
c�nticos pr�prios, brincavam com brinquedos e distribu�am doces aos visitantes.
Tamb�m se vestiam com roupas especiais com pano da costa, usavam uma manta de
mi�angas coloridas e uma trouxa de pano na cabe�a. Na Casa das Minas, s�o
conhecidos os nomes complicados de 14 tobossis[19], que eram recebidas e foram
registrados na d�cada de 1940 pelas pesquisas de Nunes Pereira e de Oct�vio da
Costa Eduardo.
Uma das fun��es rituais importantes das tobossis era dar um nome africano �s
novas vodunsis que entravam no culto. Talvez elas possam ser comparadas com as
Nesuhue, mostradas por Verger (1999, p. 555-562), que s�o princesas encarregadas
do culto em mem�ria aos reis do Daom�. Esse culto est� muito relacionado com o
de Zomadonu, que estabeleceu o culto aos voduns da fam�lia real no Daom� e foi o
vodum protetor da fundadora da Casa das Minas do Maranh�o. No Benim, as Nesuhue
usam vestes especiais e s�o agrupadas por fam�lias dos sucessivos reis do Daom�.
A tradi��o das tobossis se extinguiu na Casa das Minas, com a morte das
encarregadas de preparar a inicia��o e que conheciam os detalhes dos rituais.
Fala-se que houve erros na �ltima feitoria da Casa das Minas, por isso n�o foram
preparadas novas huja�s. Assim, as tobossis se extinguiram no Maranh�o,
provavelmente em virtude da n�o renova��o de contatos com a �frica ap�s o
t�rmino do tr�fico de escravos e a aus�ncia de princesas reais que dirigissem os
rituais de inicia��o.
Em outras casas de tambor de mina do Maranh�o existem festas para as princesas,
chamadas meninas ou tobossis, que possuem um culto especial, com vestes,
c�nticos, dan�as, alimentos e brinquedos, e que s�o diferentes das outras
entidades, mas, ao mesmo tempo, s�o tamb�m diferentes das tobossis da Casa das
Minas. Entre estas entidades destacam-se Bossa Mem�ia, Flor de Liz, Flor do Dia,
Servaninha, Mo�a Fina de Ot�, Princesa Clarice, Princesa Luzia, Princesa Flora,
Princesa Rosinha.

A Casa das Minas e a Casa de Nag�, fundadas por africanos h� mais de cento e
cinq�enta anos em S�o Lu�s, apesar do grande prest�gio de que desfrutam,
encontram-se em processo de acentuado decl�nio, contando com n�mero reduzido de
participantes e praticamente n�o recebendo novos adeptos. Por outro lado,
terreiros mais modernos encontram-se em processo de expans�o, alguns possuindo
grande n�mero de seguidores. Parece prov�vel que o culto dos voduns jejes no
Maranh�o venha a desapare�a em breve, por falta de novos adeptos.
Outras divindades africanas no tambor de mina s�o os orix�s nag�s. Eles, muitas
vezes, s�o tratados e chamados de voduns. Costumam se comportar como os voduns,
n�o recebendo o tratamento dado aos orix�s no candombl� nag�. Eles falam,
cantam, permanecem de olhos abertos e ficam durante longo tempo no estado de
transe, dan�am junto com os outros voduns ou caboclos e normalmente n�o recebem
paramentos especiais. Alguns costumam dan�ar no terreiro por pouco tempo, no
in�cio das festas e depois se retiram, dando lugar aos caboclos, que s�o
considerados como mais comunicativos.
Vemos assim que no tambor de mina n�o se faz muita refer�ncia aos orix�s nag�s e
seu culto encontra-se intimamente relacionado ao culto aos voduns. Os orix�s
mais conhecidos que baixam no tambor de mina s�o: Xang�, Iemanj�, Nana, Obalua�
e Ogum. Algumas entidades consideradas como orix�s nag�s possuem nomes que n�o
s�o comuns no candombl� nag� e entre eles encontramos: Navezuarina, Xapan�, Eu�
e Nan� Burucu ou Nana Bulucu.
Existe ainda no Maranh�o grande n�mero de entidades africanas cuja origens n�o
s�o bem estabelecidas. Entre esses incluem-se: L�gua Buji-Bu�, tido como vodum
muito conhecido como boiadeiro em Cod� e que possui uma fam�lia com diversos
filhos, e Arronovi�av�, entidade muito velha, conhecida na Casa das Minas como
um vodum que se tornou cambinda. Entre muitas outras entidades consideradas
africanas, cultuadas no tambor de mina, destacam-se tamb�m: Bo�ujara, Bo�u von
Dereji, Xadat�, Oba�la, Tombasse, Aquilital, e outros, conhecidos como entidades
n�o brasileiras, cujas origens n�o s�o muito precisas.
Entre as entidades caboclas, muitos s�o agrupados em fam�lias e entre in�meros
outros caboclos temos: Caboclo Velho, Guerreiro, Tabajara, Tapindar�, Caboclo
Ita, Caboclo Maroto, Ubirajara, Juracema, Balan�o do Mar, Caboclo Guerreiro,
Caboclo Roxo, Mensageiro de Roma, Batata Roxa, Cai�ara, Pombo Roxo.
Entre as demais entidades cultuadas nos terreiros de mina (excetuada a Casa das
Minas jeje), destacam-se os que s�o chamados gentis ou gentilheiros ou tamb�m
fidalgos. S�o entidades nobres, reis, pr�ncipes e princesas, que se agrupam em
fam�lias. Entre eles podemos indicar: Dom Pedro Anga�u, Rainha Rosa, Rainha
Dina, Rei da Turquia, Dom Manoel, Rei Sebasti�o, Dom Jo�o, Bar�o de Guar�, Dom
Luiz Rei de Fran�a, Dom Henrique, Dom Jos� Floriano, Rei da Bandeira, Dom
Miguel, Princesa Flora, Rainha Madalena e muitos outros. Diversos deles v�m na
Casa de Nag� como em outros terreiros. Alguns deles como o Rei da Turquia e Dom
Sebasti�o, possuem fam�lia numerosa.
Verificamos que nas casas de tambor de mina entidades africanas s�o cultuadas
mas s�o recebidas em transe sobretudo entidades n�o africanas, os gentis e os
caboclos. Al�m da Casa das Minas, da Casa de Nag� e de poucas outras casas, a
maioria dos c�nticos para as divindades s�o em l�ngua portuguesa e a maioria das
entidades recebidas hoje no tambor de mina em geral, n�o s�o africanas. Embora
profundamente influenciado por tradi��es e costumes africanos, o tambor de mina
adquirindo caracter�sticas locais, sendo assim uma religi�o afro-brasileira. A
presen�a de rituais com influ�ncias amer�ndias e kardecistas, bem como as
influ�ncias do catolicismo popular, exemplificam a import�ncia do sincretismo no
tambor de mina. Atualmente constata-se a presen�a de elementos de rituais do
candombl� e da umbanda. Apesar de todas estas influ�ncias o tambor de mina
possui caracter�sticas que o diferenciam de outras religi�es afro-brasileiras.

Bibliografia:

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UFPA - PPGAS
Semin�rio Pajelan�a e Encantaria Amaz�nica
Mesa Redonda: Religi�es Afro-Brasileiras: O Maranh�o e o Par�
Comunica��o:O culto e as divindades no tambor de mina do Maranh�o
Autor: Sergio F. Ferretti
A presente comunica��o mostra caracter�sticas espec�ficas e din�mica das
religi�es de origem africana no Maranh�o. Destaca o predom�nio de mulheres no
culto e a import�ncia do sincretismo religioso, constatando o paralelismo entre
voduns e santos cat�licos e a aus�ncia de Legba. Comenta a presen�a nos
terreiros de festas da cultura popular e de rituais de cura, de tambor de �ndio
e de mesa branca. Apresenta os instrumentos utilizados, a caracteriza��o das
vestimentas e do estado de transe. Enfatiza as divindades cultuadas, chamadas
genericamente de encantados ou invis�veis, destacando a import�ncia dos voduns
jejes e das tobossis ou entidades femininas infantis, bem como a presen�a mais
reduzida dos orix�s, referindo-se ao grande prest�gio das entidades chamadas
gentis e dos caboclos, que s�o muito numerosos. Constata a import�ncia das casas
fundadas por africanos, fazendo refer�ncias � continuidade do culto nas outras
casas.

Palavras chaves: religi�es afro-brasileiras; tambor de mina; culto aos voduns,


festas religiosas, sincretismo.

Resumo do Curriculum:
Sergio F. Ferretti, natural do Rio de Janeiro, radicado no Maranh�o desde 1969,
� bacharel e licenciado em Hist�ria pela UFRJ. Fez curso de Especializa��o em
Sociologia na B�lgica. Mestre em Antropologia pela UFRN e Doutor em Antropologia
pela USP. Professor adjunto da UFMA realiza pesquisas no campo de estudo de
popula��es afro-brasileiras, sincretismo religioso e cultura populares. Possui
livros e artigos publicados sobre esses temas e em especial sobre a Casa das
Minas do Maranh�o.
S�o Lu�s, Fevereiro de 2002.

Sergio F. Ferretti
Endere�o Residencial:
Av. do Vale, 14 apt. 401, Ed. Titanium - Bairro Renacen�a II
65075-820 - S�o Lu�s - Maranh�o
fone/fax: (098) 235-1291
e.mail: [email protected]

[1] � importante n�o confundir tambor de mina, que � o nome da religi�o


afro-brasileira no Maranh�o e na Amaz�nia, com Casa das Minas, que � o nome do
terreiro considerado mais antigo em S�o Lu�s.
[2] Entre as entidades para as quais se oferece festa de bumba-meu-boi nos
terreiros de S�o Lu�s, destacamos: Preto Velho, Corre Beirada, L�gua Buj�-Bu�,
Surrupirinha, Tombasss�, Jo�ozinho, Vaqueiro do Rei Sebasti�o, Beberr�o, Caboclo
Olho d��gua, Zezinho eoutras.
[3] Os tambores s�o denominados hum, humpli e gumpli, possuem couro numa s�
boca, amarrado com cordas presas em cabecinhas. Os tocadores s�o chamados
hunt�s.
[4] S�o de madeira ou lat�o, com amarra��o de metal ou corda, tocados
horizontalmente sobre cavaletes. S�o afinados com torniquete e medem cerca de um
metro. Nas casas maiores, as vezes se usam 3 ou 4 abat�s tocados ao mesmo tempo.
[5] Em Cururupu, no litoral norte do Estado, � comum o uso de dois pequenos
tambores de bambu, denominados tambor de taboca, batidos sobre uma pedra e
tocados por homem ou mulher. Em Cod�, �s vezes aparece o berimbau, denominado de
marimba, acompanhando os toques. Em rituais espec�ficos, como no bai�o, na cura
e no bor�, podemos encontrar adufes, pandeiros, reco-reco, tambor on�a ou cu�ca,
marimba com garrafas com �gua, acordeon, vil�o, etc.
[6] Diferentemente do candombl�, no tambor de mina n�o existe o costume de
paramentar os orix�s, embora atualmente alguns terreiros estejam introduzindo
esse h�bito.
[7] Usam saias longas, rodadas, com cores que costumam ser branco, azul, verde,
vermelho, amarelo, rosa, marron ou estampado. Usam blusa branca bordada ou
rendada com mangas fofas. Usam sand�lias de couro pequenas. Nas m�os levam um
len�o para enxugar o suor.
[8] Em algumas casas a toalha � substitu�da por um len�o grande colorido
enrolado no bra�o, denominado pana.
[9] Na Casa das Minas os ros�rios costumam ser feitos com mi�angas pequenas e,
em outras casas, com contas grandes. Os ros�rios do culto costumam ser longos,
indo do pesco�o � cintura dos dan�antes ou podem ser ainda mais longos.
[10] O l�der do culto, denominado paj� ou pajoa, dirige o ritual empunhando um
penacho de pena de araras e um marac�. Usa v�rias tiras de tecidos coloridos
amarradas no bra�o e na cintura. Entoa c�nticos e vai recebendo sucessivamente
numerosas entidades relacionadas, principalmente, com elementos da natureza como
rios, peixes, p�ssaros, insetos, animais ou pr�ncipes, princesas e outros seres.
Cada entidade canta dois ou tr�s c�nticos, dan�a e depois se retira, sendo
substitu�do por outra. O paj� dan�a no centro do sal�o, acompanhado por v�rios
instrumentos, entre os quais se incluem pandeiros, matracas, reco-reco etc. O
ritual dura v�rias horas e outros filhos da casa, iniciados como paj�s, tamb�m
podem participar entoando c�nticos e recebendo entidades. H� grande participa��o
da assist�ncia batendo palmas e costuma haver distribui��o de bebidas.
[11] O toque do bor� � realizado durante um a tr�s dias. Os filhos, vestidos de
branco, realizam uma prociss�o pelo bairro, geralmente em homenagem a S�o Miguel
Arcanjo. Quando a prociss�o se aproxima do terreiro, os instrumentos come�am a
tocar bem alto e todos entram em transe. O toque � realizado em ritmo fren�tico.
H� um intervalo para a troca de roupas e os brincantes saem vestidos com roupas
brilhantes, com cruzes e outros s�mbolos. Gritam sons incompreens�veis e seus
c�nticos repetem palavras igualmente pouco claras, considerada linguagem dos
�ndios. Algumas dan�as simulam lutas do bem contra o mal. Os instrumentos tocam
durantes v�rias horas, quase sem interrup��o. Em algumas casas, em certos
momentos, os �ndios se deitam sobre espinhos de tucum e se re�nem num espa�o
especial, �s vezes em forma de uma oca, para tomarem determinados alimentos e
conversar com a assist�ncia.
[12] Na mesa branca os participantes sentam-se ao redor de uma mesa ou em
esteiras no ch�o e, ap�s v�rias ora��es e leituras, invocam esp�ritos
protetores. Alguns recebem esp�ritos sofredores que precisam ser doutrinados. As
entidades protetoras tamb�m fazem �visitas� a casas de clientes para verificar
seus problemas e d�o consultas aos mesmos. A se��o de mesa branca n�o costuma
ser muito demorada.
[13] Na descoberta desta religi�o destacam-se, em rela��o ao Maranh�o, os
trabalhos do etnolinguista portugu�s Edmundo Correa Lopes, da Miss�o folcl�rica
de M�rio de Andrade (Alvarenga, 1947), do etn�grafo maranhense Nunes Pereira
(1979), do antrop�logo paulista Oct�vio da Costa Eduardo (1947) e as pesquisas
de Pierre Verger (1952/1990) e de Roger Bastide (1971).
[14] Toi Zomadonu possui quatro filhos toqu�ns, entre os quais os g�meos To�� e
Toc�, comemorados no dia de Cosme e Dami�o, e tamb�m o jovem toqueno Jogorobo�u.
[15] Entre eles destacam-se os voduns Agongonu, Zac� e o toqu�n Jotim.
[16] Os voduns cultuados desta fam�lia s�o Aja�t� e seu filho Avrej�.
[17] Entre os voduns da fam�lia de Quevio��, destacam-se Li��, que representa o
Sol, e Loco, que representa o vento nas �rvores. Noch� Abe, a irm� mais nova e
protegida de Averequete, representa a estrela guia que caiu no mar e se encantou
numa pescada. Entre as divindades femininas velhas de Quevio�� inclui-se Nan� ou
V� Missa, comemorada no dia de Sant�Ana.
[18] Entre os filhos mais conhecidos de Acossi destacam-se toi Lepon, o mais
velho; toi Poliboji, devoto de Santo Ant�nio; Bo�a e Bo�uc�, que s�o g�meos e se
relacionam com a cobra; e Eu�.
[19] As africanas fundadoras, que n�o se sabe quantas eram, e as chefes da Casa
at� 1970, foram vodunsis-hunja�s e recebiam tobossis, como m�e Maria Jesu�na,
m�e Lu�za, m�e Hozana, m�e Andresa e m�e Leoc�dia. Sabe-se que em fins do s�culo
XIX foi preparado um barco com 12 hunja�s e em 1914 outro, com 18 hunja�s.
Assim, o n�mero de tobossis que vieram na Casa das Minas at� o fim da d�cada de
1960, ao que sabemos deve ter sido inferior a 40.

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