DOI: 10.22456/1982-8136.
105410
NO BRASIL AS TENDÊNCIAS RELIGIOSAS CONTINUAM:
DECLÍNIO CATÓLICO E CRESCIMENTO EVANGÉLICO1
Ari Pedro Oro2
Resumo: Concernente ao Brasil, Sébastien Fath, em seu texto “Das margens ao
mainstream: desafios sociais da ascensão evangélica, uma comparação transamericana”,
reitera, acertadamente, duas tendências predominantes, a saber: o declínio católico
e o crescimento evangélico. Este texto apresenta as principais reflexões produzidas
por cientistas sociais para explicar essa reconfiguração da paisagem religiosa que
há algumas décadas está ocorrendo no país. Especialmente, analisa a questão
acerca da possibilidade dos evangélicos suplantarem os católicos no Brasil, avança
hipóteses sobre as duas linhas de força referidas, destacando que elas resultam de
situações internas e externas a cada uma das instituições religiosas e, enfim, o texto
apresenta algumas afinidades observadas nos campos evangélicos do Brasil e dos
Estados Unidos.
Palavras-chave: Católicos; Evangélicos; Recenseamento Religioso; Brasil; Estados
Unidos.
RELIGIOUS TENDENCIES CONTINUE IN BRAZIL:
CATHOLIC DECLINE AND EVANGELICAL GROWTH
Abstract: Concerning Brazil, Sébastien Fath, in his text “From the margins to the
mainstream: social challenges of the evangelical rise, a transamerican comparison”,
rightly reiterates two predominant tendencies: the Catholic decline and the
Evangelical growth. This text presents the main reflections produced by social
scientists to explain this reconfiguration of the religious landscape, that has been
taking place in the country for some decades. In particular, it analyzes the question
about the possibility of Evangelicals to supplant Catholics in Brazil, advances
1
Como citar: ORO, Ari Pedro. No Brasil as tendências religiosas continuam: declínio católico
e crescimento evangélico. Debates do NER, Porto Alegre, v. 1, n. 37, p. 69-92, 2020.
2
Ari Pedro Oro é pesquisador associado ao Núcleo de Estudos da Religião da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil. E-mail: [email protected].
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hypotheses about the two lines of force mentioned, highlighting that they result
from internal and external situations to each of religious and, finally, the text presents
some affinities observed in the evangelical fields of Brazil and the United States.
Keywords: Catholics; Evangelicals; Religious Census; Brazil; United States.
Sébastien Fath nos brinda, em seu texto “Des marges au mainstream:
enjeux sociaux de l’ascension évangélique; une comparaison transaméricaine”,
com uma minuciosa análise da progressão do evangelismo norte-americano
ocorrida no sul dos Estados Unidos entre os anos 1800 e 1850, que ensejou
a criação da Bible Belt. O texto se quer comparativo com o Brasil, mas numa
outra temporalidade, que cobre o arco de 1960 a 2010, não havendo aqui,
porém, a mesma explanação aprofundada que se observa para a realidade
norte-americana. Obviamente que seria demais esperar semelhante semea-
dura de dados e análises sobre o Brasil no espaço de um artigo. Porém, o
colchão de informações apresentado sobre a situação norte-americana serve
de suporte para várias e interessantes abordagens e indagações pertinentes
produzidas pelo autor sobre a realidade brasileira, embora envolva formações
socioculturais diferentes. As questões levantadas por Fath versam tanto sobre
o campo religioso, evangélico sobretudo, mas também, mais amplamente
sobre as relações entre religião e política, Igreja e Estado, tanto no Brasil
quanto nos Estados Unidos.
Como o espaço de que disponho aqui é também limitado vou focar num
tópico desenvolvido por Fath, supondo que o conjunto dos textos produzidos
pelos colegas que comentam o texto do sociólogo francês possam ampliar
as abordagens e dar conta dos vários questionamentos por ele produzidos.
Embora Fath nos convoque a refletir sobre o que se passa no Brasil a partir
de situações observadas na realidade norte-americana, sem, obviamente,
desconsiderar as idiossincrasias locais, de minha parte concentro este texto
na questão da reconfiguração da paisagem religiosa brasileira caracterizada,
como sustenta Fath, pelo declínio espetacular de indivíduos que se declaram
católicos acompanhado pela ascensão vertiginosa do setor evangélico, o qual
passou da condição de margem para mainstream. Trata-se de um main-
Debates do NER, Porto Alegre, ano 20, n. 37, p. 69-92, jan./jul. 2020
NO BRASIL AS TENDÊNCIAS RELIGIOSAS CONTINUAM... 71
stream composto de um combo que alcança a cultura, a mídia e a política,
ocupando os evangélicos, no atual governo Bolsonaro, uma centralidade na
esfera política nunca antes observada neste país3.
A razão pela escolha da reconfiguração da paisagem religiosa brasileira
– caracterizada, como disse, fundamentalmente, pelo declínio católico e
avanço evangélico – como foco do presente texto deve-se ao fato de estarmos
diante de um fenômeno religioso único no mundo atual com essa robustez
e envergadura.
OS NÚMEROS CONFIRMAM: AS TENDÊNCIAS CONTINUAM
Sébastien Fath inicia o artigo recordando que a recomposição da paisagem
religiosa que ocorre no Brasil nos últimos cinquenta anos se caracteriza
pelo declínio (espetacular) do catolicismo e pela ascensão (grandiosa) do
evangelismo. Trata-se de uma afirmação que encontra sustentação estatística,
baseada em dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE) – colhidos a cada dez anos – que mostra, em porcentagem, a seguinte
curva descendente de brasileiros que se identificam como católicos: 1970
(91,8), 1980 (89,2) 1990 (83,80), 2000 (73,77) 2010 (64,63). Já a curva
evangélica, segundo a mesma fonte oficial, vai no sentido inverso. Ela é
ascendente: 1970 (5,2 ), 1980 (6,6) 1990 (9,5), 2000 (15,4) 2010 (22,1).
Duas observações iniciais se fazem aqui necessárias. Em primeiro lugar,
há uma relação entre os dois movimentos religiosos que estão acontecendo no
Brasil nas últimas décadas. Ou seja, um número significativo de indivíduos
3
Diga-se de passagem, como observa o jornalista Josias de Souza, que a “nova política” de
Bolsonaro é alicerçada nas igrejas evangélicas e nos militares. Segundo ele: “Bolsonaro vê
igrejas como diretórios partidários, pastores como cabos eleitorais. Projeta sua imagem
nacionalmente sem vincular-se a superestruturas partidárias. Dos militares, ele extrai
um apoio político capaz de estabilizar seu governo” (SOUZA, Josias de. Nova politica
do capitão é feita de igrejas e militares. UOL, São Paulo, 1 mar. 2020. Disponível em:
https://noticias.uol.com.br/colunas/josias-de-souza/2020/03/01/nova-politica-do-capi-
tao-e-feita-de-igrejas-e-militares.htm. Acesso em: 1 mar. 2020.).
Debates do NER, Porto Alegre, ano 20, n. 37, p. 69-92, jan./jul. 2020
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(44% segundo o Instituto Datafolha)4 que engrossaram o campo evangélico
provieram das fileiras católicas. De fato, como sublinha Mariano (2013,
p. 120), o campo evangélico, sobretudo os pentecostalismos, constituem “o
destino principal de seus ex-filiados” (do catolicismo). Assim sendo, como
afirma Mafra (2014, p. 40), radica aqui uma linha de força que atravessa o
holograma das religiões no Brasil5: ela “se movimenta a partir do catolicismo
em direção aos evangélicos pentecostais”. Neste sentido, Andrade (2014,
p. 116) mostra que nas décadas de 1990 a 2010, portanto, durante vinte
anos, cerca de 18 milhões de católicos abandonaram a igreja a cada década
e cerca de 13 milhões de pessoas integraram-se ao segmento evangélico em
cada uma das duas décadas. Ou seja, entre 1990 e 2010 os católicos caíram
1% ao ano enquanto que os evangélicos cresceram 0,7%. A extensa desfi-
liação católica também revela que a origem da maioria de uma outra frente
aberta no campo religioso brasileiro, os sem religião, também derivam do
catolicismo. Esses, no Censo de 2000 somavam 7,3% da população e subiram
para 8,04% no Censo de 2010. Assim sendo, como afirmam Almeida e
Montero (2001, p. 97), o catolicismo funciona como uma espécie de “doador
universal”, de onde os pentecostalismos e os sem religião arregimentam boa
parte dos seus fiéis.
Em segundo lugar, o crescimento evangélico no Brasil ocorre dentro
do amplo segmento pentecostal, neo-pentecostal e renovado e não na sua
4
DATAFOLHA. 44% dos evangélicos são ex-católicos. Datafolha, São Paulo, 28 dez.
2016. Disponível em: https://datafolha.folha.uol.com.br/opiniãopublica/2016/12/
1845231-44-dos-evangélicos-sao-ex-catolicos.shtml. Acesso em: 1 mar. 2020.
5
Mafra (2014, p. 36) propõe a substituição da metáfora do mapa das religiões, bastante
utilizado e repetido, pelo de holograma. Enquanto a primeira prevê “uma topografia
unidimensional com fronteiras que ocasionalmente se sobrepõem e vazam”, a segunda
contempla “unidades em constante movimento, com ramificações chegando a ordens
inimagináveis de extensões de nós”.
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NO BRASIL AS TENDÊNCIAS RELIGIOSAS CONTINUAM... 73
ala histórica (luterana, presbiteriana, batista e outras)6, cujas igrejas, de uma
maneira geral, tem mantido, e algumas delas até diminuído, o número de
fiéis ao longo das últimas décadas. Se no Censo de 2000 os evangélicos
históricos e de missão somavam 4,1% da população, no Censo de 2010
a porcentagem baixou para 4%, ou seja, houve um pequeno decréscimo.
Assim sendo, se o grande campo evangélico está aumentando no Brasil é por
conta de uma acentuada pentecostalização do mesmo. Já o ramo histórico do
protestantismo patina, segundo Marco Antônio de Oliveira (2014, p. 143),
porque “o modelo de pastoral e de vida propostos [...] não conseguiram ainda
estabelecer/construir uma ponte, ou até um bom diálogo, com a cultura
brasileira”. Além disso, segundo o mesmo autor, aquele protestantismo “é
enamorado de uma visão teológica exclusivista e preconceituosa em relação
às manifestações culturais populares brasileiras” (Oliveira, 2014, p. 143).
Até agora apresentei dados que chegavam a 2010, ano do último
recenseamento oficial realizado no Brasil. Porém, nos últimos anos alguns
institutos privados continuaram a realizar levantamentos sobre o campo
religioso brasileiro, entre eles o Instituto Datafolha, o qual, em dezembro de
2016, divulgou um levantamento que reforça o que os organismos oficiais
têm detectado nas últimas décadas. Ou seja, o declínio católico continua
acelerado, a tal ponto que naquela data os católicos chegavam à metade do
país (50%), enquanto os evangélicos alcançavam 29% da população, sendo
22% do segmento pentecostal e 7% do ramo histórico. Além disso, os sem
religião somavam 14%, seguidos dos espíritas (2%), dos umbandistas (1%),
6
A questão das classificações do protestantismo no Brasil foi objeto de um estudo crítico
de Giumbelli (2001). Nele, o autor relativiza as elaborações analíticas propostas por
“científicos” e “religiosos”, evidenciando convergências e colaborações entre eles. Espe-
cialmente, destaca como relevante menos a diferença entre os estudiosos do campo
religioso e mais o que os distingue das posições acionadas desde outras posições sociais.
Debates do NER, Porto Alegre, ano 20, n. 37, p. 69-92, jan./jul. 2020
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dos seguidores do candomblé (1%), dos ateus (1%) e seguidores de outras
religiões (2%).7
O BRASIL SERÁ UM PAÍS EVANGÉLICO?
Sem querer fazer um exercício de futurologia, incompatível com a
prática científica, alguns estudiosos tem se indagado ou foram provocados
a se colocar a pergunta acerca do futuro religioso do Brasil. Esta é, prin-
cipalmente, a pergunta mais recorrente: se as tendências continuarem por
mais algumas décadas os evangélicos suplantarão os católicos?
Esta é uma questão controvertida e polêmica, surgida ainda na década
de 1990, formulada acerca do avanço evangélico na América Latina. Lembre-
mo-nos, neste sentido, que D. Martin (1990) levantava a hipótese de uma
“uma nova reforma protestante” na América Latina e que D. Stoll (1990)
se indagava se a América Latina não estava se tornando protestante (Stoll,
1990).
Acerca do futuro religioso brasileiro obviamente que os analistas
divergem, além de se mostrarem prudentes, em avançar prognósticos, pois
em termos de mobilidade religiosa há ritmos e velocidades que podem
mudar, tetos que podem ser alcançados e estagnados etc. Por isso mesmo, há
autores que apontam limites nas linhas de força que estamos analisando pois
elas podem se estabilizar. Assim, por exemplo, Andrade (2014, p. 115-116)
avança que os dados atuais não permitem extrapolações no sentido de que
“o Brasil se tornará brevemente uma nação majoritariamente evangélica”,
sendo mais plausível, continua o autor, “que nas próximas décadas ocorra
certa estabilização dos números [...]”.
Paul Freston, em texto escrito em 2010, também sustenta que “pelas
tendências atuais nunca haverá uma maioria protestante no Brasil” (Freston,
7
DATAFOLHA. 44% dos evangélicos são ex-católicos. Datafolha, São Paulo, 28 dez.
2016. Disponível em: https://datafolha.folha.uol.com.br/opiniãopublica/2016/12/
1845231-44-dos-evangélicos-sao-ex-catolicos.shtml. Acesso em: 1 mar. 2020.
Debates do NER, Porto Alegre, ano 20, n. 37, p. 69-92, jan./jul. 2020
NO BRASIL AS TENDÊNCIAS RELIGIOSAS CONTINUAM... 75
2010, p. 24). Isto porque, prossegue o sociólogo inglês, “o declínio católico
terá um limite [...], o protestantismo atualmente recebe pouco mais de uma
em cada duas pessoas que abandonam o catolicismo [...] a Igreja Católica
está aprendendo (lentamente, é verdade) a competir melhor e a diversificar
o seu apelo” (Freston, 2010, p. 24). Além disso, a imagem social evangélica
também pode contribuir para frear a atração de fiéis devido a escândalos,
lideranças autoritárias, promessas não-cumpridas, imagem política negativa.
Diante desse cenário, Freston (2010) projeta para o Brasil um teto futuro
de católicos em torno de 40% e de 35% de evangélicos.
Mas, há prognósticos que vão em direção contrária. Assim, a prestigiada
revista Pesquisa FAPESP, que elegeu o fenômeno evangélico como matéria
de capa de sua edição de dezembro de 2019, afirma que mantida a tendência
atual do crescimento evangélico “em 2022 [...] os católicos devem representar
menos de metade da população brasileira” (Queiroz, 2019, p. 14).
Na mesma direção, o pesquisador em demografia do IBGE, José Eustá-
quio Alves, projeta que caso o ritmo das tendências atuais sejam mantidas,
em 2022 os católicos encolheriam para menos de 50% e em 2032 seriam
38,6% da população. Enquanto isto, em 2032 os evangélicos alcançariam
39,8%, ou seja, superariam os católicos, mas não seriam a maioria da popu-
lação brasileira. Esta, a maioria absoluta, segundo Alves, seria alcançada
próximo de 2050, mas, relativizando afirma que somente “o futuro dirá”8.
Paul Freston destaca, com razão, que – embora preveja um teto no
crescimento protestante no Brasil, como vimos acima – se vier a acontecer
a “transição católica”, isto é, a queda da porcentagem da população que se
declara católica para menos da metade, será “um momento simbolicamente
importante” (Freston, 2010, p. 14) em razão da importância histórica do
catolicismo no país e no subcontinente americano.
8
BALLOUSSIER, Anna Virginia. Evangélicos podem desbancar católicos no Brasil em
pouco mais de uma década. Folha de S. Paulo, São Paulo, 14 jan. 2020. Disponível em:
https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/01/evangélicos-podem-desbancar-catolicos-
-no-brasil-em-pouco-mais-de-uma-decada.shtml?origin=uol. Acesso em: 1 mar. 2020.
Debates do NER, Porto Alegre, ano 20, n. 37, p. 69-92, jan./jul. 2020
76 Ari Pedro Oro
Pessoalmente, concordo com R. Mariano (1999) quando sustenta que
os pentecostalismos brasileiro e latino-americano têm perdido o seu caráter
modernizador e abandonado a rejeição ascética do mundo, características
estas do protestantismo da Reforma europeia e da colonização dos Estados
Unidos. Este protestantismo, aliás, continua o sociólogo da USP, se, talvez,
no passado foi promotor de modernidade, há muito tempo que não o é
mais, pois fora tomado de um conservadorismo teológico e de uma ética
pietista. Assim sendo, se estatisticamente dentro de algumas décadas o Brasil
se tornar evangélico, cuja probabilidade não está descartada, como vimos,
não será evangélico nos moldes do protestantismo histórico, mas evangélico
com amplo predomínio de um pentecostalismo sincretizado, abrasileirado,
tragado pela “antropofagia brasileira” e, consequentemente, mais aculturado
e desprovido de um “potencial para transformar a cultura, os valores e a
economia [...]” (Mariano, 1999, p. 90).
FATORES DO DECLÍNIO CATÓLICO
E DO CRESCIMENTO EVANGÉLICO-PENTECOSTAL
As explicações são múltiplas, variadas e complexas, acerca das linhas de
força acima referidas e que marcam o campo religioso brasileiro das últimas
décadas. Avanço aqui somente algumas abordagens analíticas, iniciando pelo
recuo do catolicismo na sociedade brasileira.
Steil e Toniol chamam a atenção, inicialmente, para o fato de que a
redução constante de indivíduos que se identificam como católicos é acom-
panhada do declínio expressivo dos que buscam os sacramentos na Igreja,
bem como da perda da “hegemonia católica sobre a cultura e a produção
de valores e significados [...]” (Steil; Toniol, 2014, p. 14).
No mais, para esses e outros analistas, a desfiliação do catolicismo reside
em problemas internos e externos à própria Igreja. O problema interno
mais recorrente aponta para a sua estrutura rígida e sua hierarquia rigorosa,
que dificultam mudanças e adaptação aos novos tempos, tanto em termos
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NO BRASIL AS TENDÊNCIAS RELIGIOSAS CONTINUAM... 77
tecnológicos quanto doutrinários, passando pelos ritualísticos. Neste sentido,
Steil e Toniol destacam um problema estrutural da instituição católica que
afeta a cultura e o catolicismo popular tradicional. Para eles, “em relação à
cultura, observamos que o catolicismo encontra cada vez menos os recursos
e as instituições tradicionais locais para sua reprodução como religião” (Steil;
Toniol, 2014, p. 13). Já em relação ao catolicismo das tradições populares,
“constatamos uma quebra dos laços de complementaridade que legitimavam
a Igreja Católica como representante da extensa população de pobres que se
declaravam católicos por tradição no espaço politico e social” (Steil; Toniol,
2014, p. 13- 14).
Demais autores apontam outros problemas pontuais da Igreja Católica.
Assim, por exemplo, C. Mafra (2009) sustenta que o catolicismo mostrou-se
incapaz de oferecer respostas adequadas e eficazes para as novas condições
vividas pelos indivíduos nas metrópoles. Andrade (2014, p. 117), por sua
vez, afirma que “a Igreja Católica parece cada vez mais incapaz de oferecer
uma experiência espiritual que atenda às demandas colocadas na contem-
poraneidade”.
No entanto, o recuo do catolicismo na sociedade brasileira – mas não
somente aqui – não se restringe aos limites internos à própria instituição. Os
analistas também inscrevem a desfiliação católica num aspecto da moderni-
dade religiosa, qual seja, a autonomia do indivíduo em suas opções religiosas.
É o caso, novamente, das análises de Steil e Toniol (2014) para quem, o
declínio católico está também relacionado com o fato de os indivíduos
tenderem menos a seguir uma religião por força da tradição, imposta pela
cultura e mais como uma opção pessoal de escolherem livremente uma
comunidade de fé. Assim, o argumento dos autores é de que está ocorrendo
hoje no Brasil uma desinstitucionalização e uma destradicionalização, ou
seja, “um processo de transformação da cultura católica que tem impedido
a transmissão do catolicismo por via da tradição” (Steil; Toniol, 2014,
p. 16). Trata-se, portanto, de uma crise do catolicismo resultante das trans-
formações “que vêm se operando no âmbito da própria cultura e da forma
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como a religião se configura nos tempos atuais no contexto moderno” (Steil;
Toniol, 2014, p. 17)9.
Silvia Fernandes também sugere que a chave analítica do individua-
lismo moderno constitui uma entre outras possibilidades explicativas do
entendimento do catolicismo atual. Especialmente, aponta ela,
[...] o catolicismo brasileiro precisa ser pensado em suas interfaces com o dia
a dia das pessoas, seja nos espaços fortemente marcados pela expansão urbana
e suas consequências, seja em pequenas localidades nas quais a tradição pode
ser combinada com novas demandas subjetivas e materiais (Fernandes, 2014,
p. 63).
Pessoalmente, acerca da situação atual que distancia as pessoas da igreja
católica, gostaria de colocar em tela alguns poucos aspectos resultantes de
observações etnográficas. Em primeiro lugar, no meio urbano é visível nas
igrejas católicas a frequência em seus rituais de uma membresia composta
majoritariamente por idosos. Isto significa que, se essa tendência se mantiver,
com o passar do tempo, na medida em que os idosos desaparecerem, dimi-
nuirá também o número de frequentadores das igrejas. Em segundo lugar,
um levantamento não exaustivo mostra que as pessoas que se dirigem à
Igreja Católica dizem não encontrar ali conforto às suas angústias, pois os
enunciados que ouvem do clero não dialoga com suas necessidades e subje-
tividades. Ou seja, o agente católico parece mostrar-se incapaz de produzir
um discurso adequado e que venha ao encontro das situações existenciais
vividas pelas pessoas. Ao contrário disso, o sermão católico, por exemplo,
revela-se demasiadamente teológico, doutrinário, racional e dirigido para
mentes ilustradas. Muitas vezes parece que o padre fala para teólogos, faz
uso de um linguajar erudito, bem distante do vernáculo usado pelo povo
em geral. Enfim, a maioria dos templos católicos tem dificuldade de se
9
Sustentam os autores, ainda, que a crise atual é mais do catolicismo e menos da Igreja
Católica, a qual, no Brasil, conseguiu aumentar o número de novas paróquias e viu
aumentar o percentual de padres por habitantes (Steil; Toniol, 2014, p. 19-20).
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modernizar, com tecnologia de som e imagem de qualidade, por exemplo,
e de proporcionar conforto aos fiéis, como ar condicionado e poltronas
confortáveis. Toda essa estrutura sólida e pesada da igreja, presa no tempo,
demasiadamente tradicional e mesmo arcaica, associada a uma ordem
hierárquica muitas vezes intransigente e autoritária, além de dificultar a
adequação da Igreja aos tempos modernos e às expectativas das pessoas,
ingressa no rol de itens que contribui para afastar as pessoas em geral, e os
jovens em particular, das suas fileiras.
Há mais de vinte anos, Pierre Sanchis sintetizava a situação acima,
concernente à igreja católica, com as palavras: “secura e greve de vida” e
“frieza de tantas assembleias dominicais católicas” (Sanchis, 1994, p. 60).
É possível que a Renovação Carismática Católica e o fenômeno dos
padres cantores, com sua presença na mídia e um dispositivo ritualístico
mais alegre e um discurso mais simples e palatável aos fiéis, que recupera,
inclusive, a dimensão emocional, algo recorrente nos pentecotalismos,
estejam contribuindo para reduzir o ritmo do declínio católico e quiçá
exercendo uma atração também sobre os jovens. Mas, isto ainda será objeto
de estudo e desde já há estudiosos, como R. Mariano (2013, p. 120), para
quem a reação católica capitaneada pela RCC não surtiu efeito, ou seja, “não
conseguiu, sobretudo, refrear a expansão pentecostal, destino principal de
seus (católicos) ex-filiados”.
Seja como for, diante do enfraquecimento do catolicismo na cena
nacional, devido, como vimos, a motivos internos e externos à instituição,
autores como Steil e Toniol (2014, p. 12) se perguntam se hoje ainda se
pode afirmar ser o catolicismo “uma das referências religiosas fundadoras da
nacionalidade e da cultura nacionais”. E respondem: “Com certeza, estamos
longe desse contexto cultural em que a tradição católica podia ser firmada
como fundadora da nação brasileira [...]” (Steil; Toniol, 2014, p. 12).
Vejamos agora algumas contribuições analíticas acerca do avanço evan-
gélico, sobretudo pentecostal e neopentecostal. Estamos, novamente, diante
de um capítulo denso e complexo, porque o pentecostalismo não é unívoco
(Miguez, 1997). Ao contrário, ele constitui um movimento religioso tão
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80 Ari Pedro Oro
polimorfo e diverso que Marion Aubrée (1998) chama-o de “constelação”
evangélico-pentecostal.
Iniciado como uma religião das periferias das cidades, nas primeiras
décadas do século XX, caracterizado pela mínima participação “no mundo”
e exigindo dos seus fiéis extrema rigidez de conduta, nos últimos tempos o
pentecostalismo mudou: seus templos foram erguidos também nos centros
urbanos, sua membresia atingiu também as camadas médias e não mais
somente os pobres dos meios urbanos – embora estes ainda constituam a
maioria dos fiéis – e sua participação na sociedade agora alcança a cultura,
as mídias e a política.
Avanço algumas pistas teóricas propostas por analistas visando explicar
o avanço evangélico, sobretudo pentecostal. R. Mariano recorda que os
pioneiros do estudo do pentecostalismo latino-americano o consideraram
“como estratégia de ajustamento social dos indivíduos dos estratos pobres e
marginalizados, sobretudo dos migrantes de origem rural” (Mariano, 1999,
p. 100). Mariano está se referindo às duas análises hoje tidas como clássicas
da expansão pentecostal na América Latina, realizadas pelo antropólogo
alemão E. Willems (1967) e pelo sociólogo suíço L. D’Epinay (1970).
Outros autores avançaram suas análises na esteira dos pioneiros. Assim,
por exemplo, referindo-se sobre a expansão pentecostal na América Latina,
Cristian Parker (1986) reforça que o êxodo rural e a migração para as cidades,
decorrentes do processo de urbanização e de industrialização, colocou uma
massa humana no caminho das igrejas, a qual passou a encontrar nelas consolo
e conforto diante dos problemas enfrentados na nova realidade vivida. Por
seu turno, R. Cesar Fernandes (1994), referindo-se mais especificamente
ao pentecostalismo brasileiro, considera ser ele uma opção sobretudo dos
pobres, além de uma iniciativa que independe das elites sociais, estar em
franca expansão e ser, apesar e após sua origem estrangeira, uma religião
brasileira.
Outras dimensões já presentes nas análises dos pioneiros foram refor-
çadas por outros autores. Por exemplo, C. Mariz (1994) sublinha que o
pentecostalismo ajuda os pobres a enfrentarem a pobreza, a se libertarem do
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NO BRASIL AS TENDÊNCIAS RELIGIOSAS CONTINUAM... 81
alcoolismo e das drogas, melhorando, assim, a autoestima enquanto conversos.
Já R. Mariano aprofunda essa análise, evidenciando outras dimensões do
pentecostalismo. Para ele,
O sucesso pentecostal fundamenta-se extensamente no milagre, na magia, na
experiência extática, no transe, no pietismo ou na manipulação da emoção
transbordante e desbragada, práticas desprezadas e reprimidas pelas igrejas
Católica e Protestante. Oferece magia e catarse para as massas. E uma boa
pitada do velho moralismo cristão (Mariano, 1999, p. 107).
A dimensão emocional, evidenciada por Mariano, é central na análise
que A. Corten realiza sobre o pentecostalismo. Para ele, o pentecostalismo
constitui um espaço de expressão da emoção. Assim, “não é a tradição que os
reúne [os crentes], é a vontade de proclamar suas emoções [miséria, doença,
violência]” (Corten, 1995, p. 12).
Por seu turno, Silvia Fernandes (2014) avança outra dimensão explicativa
para o avanço pentecostal. Trata-se da relação entre cotidiano e território,
ou seja, a autora aponta a territorialidade como uma chave importante na
dinâmica sociorreligiosa brasileira. Neste sentido, em sua perspectiva, a
importante implantação de novas igrejas e templos evangélicos no espaço
urbano constitui um fator não desprezível da adesão das pessoas a este
segmento religioso.
Já Andrade (2014, p. 120) vê proximidade entre pentecostalismo e
catolicismo popular. Ou seja, levanta a hipótese de que as comunidades
pentecostais oportunizam a recuperação da memória de um modo de ser
religioso presente no catolicismo popular, marcado por intensidades de rezas
e bênçãos e da autonomia do fiel na vivência de sua fé. Em outras palavras,
o pentecostalismo dialoga e recupera experiências religiosas próprias da
chamada religiosidade popular e/ou do catolicismo popular.
A dimensão da religiosidade popular é também sublinhada por A.
Frigerio para explicar o êxito pentecostal na América Latina. Com efeito, o
antropólogo argentino põe em relevo algumas características dessa religio-
Debates do NER, Porto Alegre, ano 20, n. 37, p. 69-92, jan./jul. 2020
82 Ari Pedro Oro
sidade presente nas igrejas pentecostais e que geralmente são desaprovadas
pela hierarquia da Igreja Católica. São elas: “la posibilidad de la intervención
divina en la vida cotidiana de las personas, la comunicación directa con la
divindad tanto durante los rituales como fuera de estos y la importancia
de lo emotivo en esta comunicación [...]” (Frigerio, 2019, p. 49). Frigerio
também destaca que o êxito da Umbanda e da Renovação Carismática
Católica – mas em proporção bem inferior do que o pentecostalismo –
também se deve à continuidade cultural que estas religiões mantem com a
religiosidade popular latino-americana (Frigerio, 2019, p. 50).
Pessoalmente destaquei como explicação para o avanço pentecostal (Oro,
1995, 2011) algumas dimensões internas aos próprios pentecostalismos, a
saber: sua dinâmica social (especialmente sua capacidade de acolhida dos
fiéis e de criação de um ambiente agradável e confortável para eles); sua
organização interna (com distribuição de tarefas e papéis que envolvem um
número significativo de membros); sua ritualística (sobretudo a produção
performática, que envolve mediações materiais capazes de contribuir para uma
experiência profunda da vivência do sagrado); e sua narrativa cosmológica
(que faz sentido para os seus fiéis, pois dialoga com concepções culturais e
simbólicas significativas e eficazes para eles).
ESTADOS UNIDOS E BRASIL:
ALGUMAS AFINIDADES NO CAMPO RELIGIOSO
De posse dos números e das análises acima apresentados, retomo a
proposta comparativa de Sébastien Fath, pois podemos, agora, colocar em
evidência algumas afinidades entre o campo religioso norte-americano e
brasileiro. Iniciemos pela observação realizada pelo sociólogo e teólogo brasi-
leiro Paulo Fernando Carneiro de Andrade (2014), para quem em ambos
os países a secularização não produziu ateísmo, mas trânsito e migração
religiosa, diferentemente da Europa onde o ateísmo abrange cerca de 18%
Debates do NER, Porto Alegre, ano 20, n. 37, p. 69-92, jan./jul. 2020
NO BRASIL AS TENDÊNCIAS RELIGIOSAS CONTINUAM... 83
da população, bem distante do 1% da população brasileira e dos 3,1% nos
Estados Unidos, segundo dados recentes10.
Andrade chama a atenção para outras duas proximidades entre Estados
Unidos e Brasil. Em primeiro lugar, “Lá (Estados Unidos), também, como
aqui (Brasil), a secularização fez crescer a expressão pentecostal, o trânsito
religioso e formas de vivência religiosa autônoma, sem vinculação insti-
tucional” (Andrade, 2014, p. 114). Em segundo lugar, “Como Igreja, é a
Católica, lá como aqui que sofre mais o processo de desfiliação e trânsito,
perdendo fiéis tanto para outras Igrejas cristãs como para o grupo ‘sem
religião’” (Andrade, 2014, p. 114-115).
Outras analogias podem ser acrescentadas. Tanto no Brasil quanto nos
Estados Unidos a área cristã é hegemônica, alcançando, segundo dados atuais,
70,6% nos Estados Unidos (sendo 49,8% evangélicos, dos quais 25,4% são
pentecostais e 20,8% católicos)11 e 79% no Brasil, segundo os dados acima
apresentados, resultantes da pesquisa conduzida pelo Instituto Datafolha
(sendo 50% católicos e 29% evangélicos, dos quais 22% pentecostais), isto
malgrado a existência de uma diversidade religiosa observada em ambos os
países. Observa-se, portanto, uma proximidade numérica de cristãos em
ambos os países, mas com uma inversão denominacional: enquanto a maior
expressão cristã é evangélica nos Estados Unidos ela é católica no Brasil, ao
menos por enquanto, como vimos. Outra diferença entre nós e os Estados
Unidos reside no fato de que no país do norte a diversidade religiosa é
histórica, datando de séculos, como mostrou Sébastien Fath em seu texto,
enquanto que a brasileira é recente pois aqui o catolicismo se impôs como
religião dominante durante séculos.
De fato, vale recordar que em nosso país durante os períodos colonial
(1500-1822) e imperial (1822-1889), o catolicismo foi considerado religião
10
PEW RESEARCH CENTER. Religious Landscape Study. Pew Research Center,
Washington, DC, 3 mar. 2020. Disponível em: https://www.pewforum.org/religious-
-landscape-study/. Acesso em: 27 fev. 2020.
11
Ibid.
Debates do NER, Porto Alegre, ano 20, n. 37, p. 69-92, jan./jul. 2020
84 Ari Pedro Oro
de Estado. Foi somente na constituição republicana de 1891 que a laicidade
foi implantada, isto é, firmou-se legalmente a separação entre Igreja e Estado,
pondo fim ao monopólio católico.
A história mostrou, porém, que na prática a nova configuração legal
não impediu a continuação da proximidade entre Igreja Católica e Estado,
recebendo ela uma discriminação positiva, diferentemente de outras religiões
que receberam uma discriminação negativa, malgrado a liberdade religiosa
assegurada desde a origem da República. Foi somente a partir das décadas
de 1960-1970, com o início do avanço pentecostal, que a diversidade
religiosa começou a se instalar realmente no Brasil. Mas, como disse, ela é
predominantemente cristã, uma vez que as religiões mediúnicas (espiritismo,
afro-brasileiras), orientais e outras somam, no seu conjunto, cerca de 6%
da população brasileira, e os sem religião, 14%, enquanto que nos Estados
Unidos os não-cristãos somam 5,9%, outras religiões 1,5% e os sem religião
(unaffiliated) 22,8%. Aqui, notamos novamente alguma proximidade entre
Estados Unidos e Brasil, ou seja, a porcentagem de não-cristãos gira em
torno de 6% em ambos os países. Já a porcentagem dos sem religião ou dos
não filiados religiosamente é maior nos Estados Unidos do que no Brasil.
Outra afinidade entre a realidade religiosa e cultural norte-americana
e a brasileira reside no fato de que em ambos os países vigora a separação
Igreja e Estado mas não se prevê a expulsão da religião do espaço público.
De fato, no Brasil, a laicidade, como disse acima, que oficialmente separou
Igreja e Estado, não foi acompanhada da secularização da sociedade, ou
seja, “a separação entre Estado/Igreja nunca deu como resultado a saída da
religião da vida pública” (Camurça, 2018, p. 301), sendo esta considerada
a “laicidade à brasileira” (Mariano, 2011).
Ora, a “laicidade à brasileira” mantem, justamente, semelhança com o
modelo norte-americano da religious freedom. Esta, segundo Diotallevi (2010,
p. 27), “da vida a un régimen de separación entre poderes políticos y poderes
religiosos que no prevê la expulsión de la religión del espacio público [...].
En consecuencia, la política no tiene el monopólio del espacio público”.
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NO BRASIL AS TENDÊNCIAS RELIGIOSAS CONTINUAM... 85
A imbricação entre religião e política está mais do que nunca na ordem
do dia, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. Trata-se de uma proximi-
dade que ocorreu “no tempo da política”, onde Trump contou com elevado
apoio evangélico em sua eleição12, o mesmo ocorrendo com Bolsonaro,
no Brasil. No caso brasileiro, analistas mostraram que sem os votos dos
evangélicos Bolsonaro não teria sido eleito presidente (Almeida, 2019).
Ainda relativamente ao Brasil, para mostrar ou selar a aliança firmada entre
o atual governo federal e o setor evangélico conservador, sobretudo reno-
vado, pentecostal e neopentecostal, em detrimento do evangélico histórico
(luteranismo, anglicanismo, presbiterianismo) e, sobretudo, do catolicismo,
Bolsonaro buscou no segmento evangélico três Ministros de Estado e o
Advogado Geral da União13, acenando, inclusive, que irá em breve indicar
12
Os eleitores evangélicos brancos votaram majoritariamente em Donald Trump (numa
relação de 81 a 16 por cento). É o maior índice desde 2004, quando George W. Bush
recebeu 78% dos votos evangélicos. EVANGÉLICOS brancos votaram majoritariamente
em Trump. Instituto Humanitas Unisinos, São Leopoldo, 10 nov. 2016. Disponível em:
http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/562158-evangélicos-brancos-votaram-majori-
tariamente-em-trump. Acesso em: 27 fev. 2020.
13
São eles: Damares Alves, pastora da Igreja Quadrangular e da Igreja Batista Lagoinha,
Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do Brasil; Onyx Lorenzoni,
membro da Igreja Luterana, ex-Ministro Chefe da Casa Civil e agora ministro da
Cidadania e Marcelo Alvaro Antonio, membro da Igreja Cristã Maranata, Ministro do
Turismo. Já o advogado-geral da União, André Luiz de Almeida Mendonça, é pastor
de uma Igreja Presbiteriana, em Brasília e tido, nos bastidores, como futuro ministro
do STF.
Debates do NER, Porto Alegre, ano 20, n. 37, p. 69-92, jan./jul. 2020
86 Ari Pedro Oro
para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) “alguém terrivelmente
evangélico” (Oro, 2020, no prelo)14.
Sobre este último item importa frisar que nem aqui nem em qualquer
parte do mundo democrático a variável religiosa deve ser uma condição para
indicação e escolha de alguém para ocupar uma cadeira na mais alta corte
jurídica do país. Ser religioso, ou não, é irrelevante, pois os requisitos para
uma vaga no STF, segundo proclama a constituição nacional, é ser detentor
de “reputação ilibada” e de “notável saber jurídico”.
É claro que no caso do Brasil Bolsonaro corteja o setor evangélico,
por um lado, para continuar a desfrutar do apoio político ao seu atual
governo, tanto dos fiéis (eleitores) quanto da Frente Parlamentar Evangélica,
também conhecida como Bancada Evangélica, no Congresso Nacional15, e,
por outro lado, para ajudá-lo a obter um novo mandato na presidência da
república. Isto tudo, evidentemente, não sem assegurar aos evangélicos, em
troca, a possibilidade de desfrutarem das benesses do Estado, como isenção
14
Diga-se de passagem, e a título de curiosidade, que atualmente os vínculos religiosos
dos membros do Supremo Tribunal Federal do Brasil são os seguintes: 7 são católicos
(Carmen Lucia, Dias Toffoli, Edson Fachin, Marco Aurélio Mello, Gilmar Mendes,
Ricardo Lewandowski e Alexandre de Moraes; 2 são judeus (Luís Roberto Barroso e Luiz
Fux) e 2 outros (Celso de Mello e Rosa Weber) não informaram suas religiões. Já nos
Estados Unidos 5 ministros são católicos: John Roberts (presidente da corte), Clarence
Thomas, Samuel Alito, Brett Kavanaugh e Sonia Sotomayor; 3 são judeus: Sthepen
Breyer, Ruth Ginsburg e Elena Kagan. Enfim, Neil Gorsuch, foi criado no catolicismo,
mas frequenta a Igreja Episcopal. Portanto, se no passado nos Estados Unidos vários
ministros evangélicos integraram a Suprema Corte, e na atualidade um deles se filia a
esta corrente religiosa, no Brasil não há notícias de um ministro evangélico no STF.
A dinâmica de escolha de juízes ou ministros em ambos os países é a mesma: eles são
escolhidos pelo presidente e confirmados pelo Senado Federal.
15
Trata-se de uma organização supra-partidária, surgida na Constituinte de 1986, que reúne
evangélicos de diferentes denominações que geralmente atua como grupo de pressão
política somente quando está em discussão e debate projetos e questões de ordem moral
que consideram atentar contra os valores cristãos. Das últimas eleições majoritárias de
2018 saiu uma bancada evangélica formada por 82 deputados e 9 senadores. Trata-se
do mais alto índice de políticos identificados como evangélicos no Congresso Nacional.
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NO BRASIL AS TENDÊNCIAS RELIGIOSAS CONTINUAM... 87
de impostos, exploração de mídias e apoio financeiro em suas iniciativas,
sobretudo assistenciais.
Em seu texto Fath também menciona a importância do voto evangélico
na eleição de Bolsonaro, mas chama a atenção – a partir de uma observação
de Oscar Calavia Saez – de que o Partido dos Trabalhadores, durante os
mandados de Lula e Dilma Rousseff, também mantiveram sólidas relações
com os evangélicos. Assim sendo, afirma Fath, “não se trata de um “terremoto
evangélico” conservador (como) anunciado por certas mídias”. Neste parti-
cular, Fath tem parcialmente razão, pois no passado, mesmo nos governos
do PT, a presença evangélica na política brasileira não possuía a mesma
robustez observada na atualidade. Ou seja, com a chegada de Bolsonaro no
poder a presença evangélica subiu para um outro patamar. Agora os evangé-
licos integram o centro do poder, ocupam o primeiro escalão do governo,
na condição de ministros de Estados, são interlocutores privilegiados, até
mesmo conselheiros, do atual governo. Agora o governo federal mantem
com os evangélicos uma parceria estreita, a tal ponto que as principais inicia-
tivas governamentais, mesmo os projetos de lei e as medidas provisórias,
de alguma maneira passam previamente pela consulta a algumas lideranças
evangélicas que se encontram fora e dentro do Parlamento. Isto significa que
nunca como no governo de Bolsonaro os evangélicos ocuparam tão elevado
protagonismo político, assentado, como disse, em interesses mútuos, dos
evangélicos e do atual governo federal.
CONCLUSÃO
Elenquei, neste texto, algumas razões que explicam a reconfiguração
religiosa brasileira, caracterizada, como enfatizou Sébastien Fath em seu
texto, sobretudo, por duas linhas de força que se fortalecem cada vez mais
nas últimas décadas, a saber: o recuo de indivíduos que se dizem católicos
e a vertiginosa expansão daqueles que se consideram evangélicos. As razões,
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88 Ari Pedro Oro
como vimos, apontam para situações internas e externas a cada uma das
instituições religiosas.
Acerca dessa questão, entre outros, três aspectos precisam ser reforçados
neste momento. Em primeiro lugar, a análise das tendências acima consta-
tadas mostrou que é preciso ir além das considerações acerca dos méritos
e dos deméritos das instituições religiosas e levar em conta um aspecto
relevante da modernidade religiosa, qual seja, a “intensificação do processo
de individualização que comporta a experimentação, a diversificação e,
portanto, a mobilidade e a fluidez no que se refere aos modos de pertencer,
crer e reinventar a própria identidade religiosa” (Fernandes, 2014, p. 42).
Em segundo lugar, como destaca Ricardo Mariano (1999, p. 110), é
relevante sublinhar que o protestantismo que cresce exponencialmente no
Brasil é aquele do segmento pentecostal e neopentecostal, ou seja, “uma
religião que cada vez mais deita raízes em nossa sociedade e é por ela influen-
ciada num processo de assimilação mútua”. Esse pentecostalismo brasileiro
“vai adquirindo fisionomia cada vez menos ‘protestante’” (Mariano, 1999,
p. 110).
Enfim, como mostrei em outro lugar (Oro, 2011), o avanço evangéli-
co-pentecostal não incide somente sobre o campo religioso brasileiro. Como
Pierre Sanchis (1994, p. 63) destacou, “ele implica um desafio a uma tradição
cultural, precisamente porque dessa tradição ele sabe reencontrar algumas
das linhas mestras”. Ou seja, os pentecostalismos possuem a capacidade
de dialogar com elementos culturais centrais da vida religiosa e cultural
brasileira, conseguindo, desta forma, como mostrou Sébastien Fath, sair da
margem para o mainstream. Por isso mesmo, os pentecostalismos marcam
forte presença no campo religioso, mas também nos meios de comunicação
de massa e na política brasileira. Assim sendo, trata-se de um novo ator
religioso que ocupou um lugar de destaque no espaço público brasileiro,
desalojando, ao menos parcialmente, a Igreja Católica do confortável lugar
histórico que ocupou nesses domínios no Brasil.
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