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Manifesto Futurista - Tommaso Marinetti

1) Os autores passaram a noite discutindo sobre arte e progresso e se sentiram inspirados a criar um novo movimento artístico. 2) Eles escreveram o Manifesto Futurista, glorificando a velocidade, a tecnologia, a rebelião e a guerra. 3) O manifesto propõe destruir museus e tradições para libertar a arte e celebrar a modernidade.
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Manifesto Futurista - Tommaso Marinetti

1) Os autores passaram a noite discutindo sobre arte e progresso e se sentiram inspirados a criar um novo movimento artístico. 2) Eles escreveram o Manifesto Futurista, glorificando a velocidade, a tecnologia, a rebelião e a guerra. 3) O manifesto propõe destruir museus e tradições para libertar a arte e celebrar a modernidade.
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Fundação e Manifesto Futurista

20 de fevereiro de 1909

Havíamos velado a noite inteira -meu amigo e eu- sob lâmpadas de mesquita com
cúpulas de latão perfurado, estreladas como nossas almas, porque como estas irradiadas
pelo fulgor fechado de um coração elétrico. Tínhamos conculcado opulentos tapetes
orientais nossa acídia atávica, discutindo diante dos limites extremos da lógica e
enegrecendo muito o papel com escritos frenéticos.

Um orgulho imenso intumescia nossos peitos, pois nós nos sentíamos os únicos,
naquela hora, despertos e eretos, como faróis soberbos ou como sentinelas avançadas,
diante do exército de estrelas inimigas, que olhavam furtivas de seus acampamentos
celestes. Sós com os foguistas que se agitam diante dos fornos infernais dos grandes
navios, sós com os negros fantasmas que remexem nas barrigas incandescentes das
locomotivas atiradas a uma louca corrida, sós com os bêbados gesticulantes, com um
certo bater de asas ao longo dos muros da cidade. Sobressaltamo-nos, de repente, ao
ouvir o rumor formidável dos enormes bondes de dois andares, que passam
chacoalhando, resplandecentes de luzes multicores, como as aldeias em festa que o Pó,
transbordando, abala e arranca inesperadamente, para arrastá-las até o mar, sobre
cascatas e entre redemoinhos de um dilúvio.

Depois o silêncio escureceu mais. Mas, enquanto escutávamos o extenuado murmúrio


de orações do velho canal e o estralar de ossos dos palácios moribundos sobre as barbas
de úmida verdura, nós escutamos, subitamente rugir sob as janelas os automóveis
famélicos.

- Vamos, disse eu; vamos amigos! Partamos! Finalmente a mitologia e o ideal místico
estão superados. Nós estamos prestes a assistir ao nascimento do Centauro e logo
veremos voar os primeiros Anjos! Será preciso sacudir as portas da vida para
experimentar seus gozos e ferrolhos!... Partamos! Eis, sobre a terra, a primeiríssima
aurora! Não há que iguale o resplendor da espada vermelha do sol que esgrima pela
primeira vez nas nossas trevas milenares!...

Aproximamo-nos das três feras bufantes, para apalpar amorosamente seus tórridos
peitos. Eu estendi-me em meu carro, como um cadáver no leito, mas logo em seguida
ressuscitei sob o volante, lâmina de guilhotina que ameaçava meu estômago.

A furiosa vassoura da loucura nos arrancou de nós mesmos e nos enxotou pelas ruas,
íngremes e profundas como leitos de torrentes. Aqui e ali uma lâmpada doente, atrás
dos vidros de uma janela, nos ensinava a desprezar a falaz matemática dos nossos olhos
morredouros. Eu gritei: -O faro, o faro só basta às feras!

E nós, como jovens leões, perseguíamos a Morte, com sua pele preta maculada de
pálidas cruzes, corria pelo vasto céu violáceo, vivo e palpitante.

Mas nós não tínhamos uma Amante ideal que erguesse até as nuvens sua sublime figura,
nem uma Rainha cruel a quem oferecer nossos cadáveres, contorcidos como anéis
bizantinos! Nada, para querer morrer, a não ser o desejo de livrar-nos finalmente de
nossa coragem demasiado pesada! E nós corríamos, esmagando nas soleiras das portas
os cães de guarda que se arredondavam embaixo do ferro de passar roupa. A Morte,
domesticada, ultrapassava-me em cada curva, para oferecer-me a pata com graça, e de
vez em quando se estirava no chão, com um barulho de maxilares estridentes, enviando-
me, de cada poça, olhares aveludados e acariciantes.

- Saiamos da sabedoria como de uma casca horrível, e atiremo-nos, como frutos


apimentados de orgulho, dentro da boca imensa e retorcida do vento!... Entreguemo-nos
como pasto ao Desconhecido, não por desespero, mas somente para encher os
profundos do Absurdo! Mal tinha pronunciado essas palavras, quando virei bruscamente
sobre mim mesmo, com a mesma embriaguez insensata dos cães que querem morder a
cauda, e eis que de repente vejo dois ciclistas que vêm ao meu encontro, titubeando
como dois raciocínios, ambos persuasivos, apesar de contraditórios.

Seu estúpido dilema discutia sobre o meu terreno...

Que chateação! Arre!... Cortei o assunto, e, de desgosto, atirei-me de rodas para cima
num fosso...

Oh! fosso materno, quase cheio de água barrenta!

Lindo fosso de oficina! Eu saboreei avidamente tua lama fortificante, que me lembrou a
santa mama preta ama sudanesa...

Quando me levantei - trapo sujo e malcheiroso - debaixo do carro virado, senti o


coração perpassado, deliciosamente, pelo ferro incandescente da alegria!

Uma multidão de pescadores armados de vara e de naturalistas podágricos tumultuava


em volta do prodígio. Com cuidado paciente e meticuloso, aquela gente preparou altas
armaduras e enormes redes de ferro para pescar meu carro, parecido com um grande
tubarão encalhado. O carro emergiu lentamente do fosso, abandonando no fundo, como
escamas, a sua pesada carroçaria de bom senso e o seu fofo acolchoado de comodidade.

Pensavam que tivasse morrido o meu lindo tubarão, mas uma carícia minha bastou para
reanimá-lo, e ei-lo ressuscitado, ei-lo correndo novamente, sobre suas poderosas
nadadeiras!

Então, como rosto coberto da boa lama das oficinas, mistura de escórias metálicas, de
suores inúteis, de fuligens celestes - nós, contundidos e de braços enfaixados mas
impávidos, ditamos nossas primeiras vontades a todos os homens vivos da terra:

Manifesto do Futurismo

1. Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito da energia e da temeridade.

2. A coragem, a audácia, a rebelião serão elementos essenciais de nossa poesia.

3. A literatura exaltou até hoje a imobilidade pensativa, o êxtase, o sono. Nós queremos
exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, o passo de corrida, o salto mortal, o
bofetão e o soco.
4. Nós afirmamos que a magnificência do mundo enriqueceu-se de uma beleza nova: a
beleza da velocidade. Um automóvel de corrida com seu cofre enfeitado com tubos
grossos, semelhantes a serpentes de hálito explosivo... um automóvel rugidor, que
correr sobre a metralha, é mais bonito que a Vitória de Samotrácia.

5. Nós queremos entoar hinos ao homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa
a Terra, lançada também numa corrida sobre o circuito da sua órbita.

6. É preciso que o poeta prodigalize com ardor, fausto e munificência, para aumentar o
entusiástico fervor dos elementos primordiais.

7. Não há mais beleza, a não ser na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter
agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento
assalto contra as forças desconhecidas, para obrigá-las a prostar-se diante do homem.

8. Nós estamos no promontório extremo dos séculos!... Por que haveríamos de olhar
para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o
Espaço morreram ontem. Nós já estamos vivendo no absoluto, pois já criamos a eterna
velocidade onipresente.

9. Nós queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo - o militarismo, o


patriotismo, o gesto destruidor dos libertários, as belas idéias pelas quais se morre e o
desprezo pela mulher.

10. Nós queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academia de toda natureza, e


combater o moralismo, o feminismo e toda vileza oportunista e utilitária.

11. Nós cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela
sublevação; cantaremos as marés multicores e polifônicas das revoluções nas capitais
modernas; cantaremos o vibrante fervor noturno dos arsenais e dos estaleiros
incendiados por violentas luas elétricas; as estações esganadas, devoradoras de
serpentes que fumam; as oficinas penduradas às nuvens pelos fios contorcidos de suas
fumaças; as pontes, semelhantes a ginastas gigantes que cavalgam os rios, faiscantes ao
sol com um luzir de facas; os piróscafos aventurosos que farejam o horizonte, as
locomotivas de largo peito, que pateiam sobre os trilhos, como enormes cavalos de aço
enleados de carros; e o vôo rasante dos aviões, cuja hélice freme ao vento, como uma
bandeira, e parece aplaudir como uma multidão entusiasta.

É da Itália, que nós lançamos pelo mundo este nosso manifesto de violência
arrebatadora e incendiária, com o qual fundamos hoje o "Futurismo", porque queremos
libertar este país de sua fétida gangrena de professores, de arqueólogos, de cicerones e
de antiquários.

Já é tempo de a Itália deixar de ser um mercado de belchiores. Nós queremos libertá-la


dos inúmeros museus que a cobrem toda de inúmeros cemitérios.

Museus: cemitérios!... Idênticos, na verdade, pela sinistra promiscuidade de tantos


corpos que não se conhecem. Museus: dormitórios públicos em que se descansa para
sempre junto a seres odiados ou desconhecidos! Museus: absurdos matadouros de
pintores e escultores, que se vão trucidando ferozmente a golpes de cores e linhas, ao
longo das paredes disputadas!

Que se vá lá em peregrinação, uma vez por ano, como se vai ao Cemitério no dia de
finados... Passe. Que uma vez por ano se deponha uma homenagem de flores diante da
Gioconda, concedo...

Mas não admito que se levem passear, diariamente pelos museus, nossas tristezas, nossa
frágil coragem, nossa inquietude doentia, mórbida. Para que se envenenar? Para que
apodrecer?

E o que mais se pode ver, num velho quadro, senão a fatigante contorção do artista que
se esforçou para infrigir as insuperáveis barreiras opostas ao desejo de exprimir
inteiramente seu sonho?... Admirar um quadro antigo equivale a despejar nossa
sensibilidade numa urna funerária, no lugar de projetá-la longe, em violentos jatos de
criação e de ação.

Vocês querem, pois, desperdiçar todas as suas melhores forças nesta eterna e inútil
admiração do passado, da qual vocês só podem sair fatalmente exaustos, diminuídos e
pisados?

Em verdade eu lhes declaro que a freqüência diária aos museus, às bibliotecas e às


academias (cemitérios de esforços vãos, calvários de sonhos crucificados, registro de
arremessos truncados!...) é para os artistas tão prejudicial, quanto a tutela prolongada
dos pais para certos jovens ébrios de engenho e de vontade ambiciosa. Para os
moribundos, para os enfermos, para os prisioneiros, vá lá:- o admirável passado é,
quiçá, um bálsamo para seus males, visto que para eles o porvir está trancado... Mas nós
não queremos nada com o passado, nós, jovens e fortes futuristas!

E venham, pois, os alegres incendiários de dedos carbonizados! Ei-los! Ei-los!...


Vamos! Ateiem fogo às estantes das bibliotecas!... Desviem o curso dos canais, para
inundar os museus!... Oh! a alegria de ver boiar à deriva, laceradas e desbotadas sobre
aquelas águas, as velhas telas gloriosas!... Empunhem as picaretas, os machados, os
martelos e destruam sem piedade as cidades veneradas!

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