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Crónica de Costumes - Análise - Os Maias

O documento descreve vários eventos sociais na elite de Lisboa, criticando sua falta de cultura e civismo. Discute um jantar no Hotel Central com debates sobre literatura, finanças e política que revelam incoerências. Também descreve corridas de cavalos que caricaturam a sociedade e um jantar dos Gouvarinhos expondo a ignorância das classes dirigentes.

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Crónica de Costumes - Análise - Os Maias

O documento descreve vários eventos sociais na elite de Lisboa, criticando sua falta de cultura e civismo. Discute um jantar no Hotel Central com debates sobre literatura, finanças e política que revelam incoerências. Também descreve corridas de cavalos que caricaturam a sociedade e um jantar dos Gouvarinhos expondo a ignorância das classes dirigentes.

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Crónica de Costumes

O jantar no hotel central

 Objectivos:
o Homenagear o banqueiro Jacob Cohen;
o Proporcionar a Carlos um primeiro contacto com o meio social lisboeta;
o Apresentar a visão crítica de alguns problemas;
o Proporcionar a Carlos visão de Maria Eduarda.

 Intervenientes:
o João da Ega, promotor da homenagem e representante do Realismo/ Naturalismo;
o Cohen, o homenageado, representante das altas Finanças;
o Tomás de Alencar, o poeta ultra-romântico;
o Dâmaso Salcete, o novo-rico, representante dos vícios do novo-riquismo burguês, a
catedral dos vícios;
o Craft, o britânico, representante da cultura artística e britânica, o árbito das
elegâncias.

 Temas discutidos:
o A literatura e a crítica literária
Tomás de Alencar João da Ega

 opositor do Realismo – Naturalismo;  defensor do Realismo/ Naturalismo;


 incoerente: condena no presente o que cantara  exagera, defendendo o cientivismo na
no passado: o estudo dos vícios da sociedade; literatura;
 falso moralista: refugia-se na moral, por não  não distingue Ciência e Literatura.
ter outra arma de defesa; acha o Realismo/
Naturalismo imoral;
 desfasado do seu tempo;
 defensor da crítica literária da natureza
académica:
 preocupado com aspectos formais em
detrimento da dimensão temática;
 preocupado com o plágio.

Carlos e Craft  Craft defende a arte pela arte.


O Narrador
 recusam o ultra-romantismo de Alencar;
 recusam o exagero de Ega;  recusa o ultra-romantismo de Alencar;
 Próximos
Carlos acha intolerável da científicos
os ares doutrina estética
do de Eça quando
recusadefende para ado
a distorção literatura uma nova
naturalismo forma
contido nas
realismo; afirmações de Ega;
 Carlos defende que os caracteres se  afirma uma estética próxima da de Craft:
manifestam pela acção; «estilos, tão preciosos e tão dúcteis»: tendência
 Craft defende a arte como idealização do que parnadiana.
melhor há na natureza;

o As finanças

 O país tem absoluta necessidade dos empréstimos estrangeiro;


 Cohen é calculista cínico: tendo responsabilidades pelo cargo que
desempenha, lava as mãos e afirma alegramente que o país vai
direitinho para a bancarrota.

o A história e a política

João da Ega
Tomás de Alencar
 aplaude as afirmações do Cohen; Próximo de Eça que defende uma
 delira com a bancarrota como determinante da  catástrofe
teme a invasãocomo forma deé acordar
espanhola: o País
um perigo para a
agitação revolucionária; independência nacional;
 defende a invasão espanhola;  defende o romantismo político:
 defende o afastamento violento da Monarquia;  uma república governada por génios;
 aplaude a instalação da República;  a fraternização dos povos;
 a raça portuguesa é a mais covarde e miserável  esquece o adormecimento geral do país.
da Europa: «Lisboa é Portugal! Fora de Lisboa
não há nada.»
Jacob Cohen
Dâmaso Salcete
 Há gente séria nas camadas políticas
dirigentes;  Se acontecesse invasão espanhola, ele
 Ega é um exagerado. «raspava-se» para Paris;
 Toda a gente fugiria como uma lebre.

Conclusões a retirar das discussões:

A falta de personalidade:
 Alencar muda de opinião quando Cohen o pretende;
 Ega muda de opinião quando Cohen quer;
 Dâmaso, cuja divida é «Sou forte», aponta o caminho fácil da fuga.
A incoerência: Alencar e Ega chegam a vias de facto e, momentos depois, abraçam-se como
se nada tivesse acontecido;
De tudo: a falta de cultura e de civismo domina as classes mais destacadas, salvo Carlos e
Craft.

As corridas de cavalos

Objectivos:
o Novo contacto de Carlos com a alta sociedade lisboeta, incluindo o próprio rei;
o Visão panorâmica dessa sociedade (masculina e feminina) sob o olhar crítico
de Carlos;
o Tentativa frustada de igualar Lisboa às capitais europeias, sobretudo Paris;
o Cosmopolitismo (postiço) da sociedade;
o Possibilidade de Carlos encontrar aquela figura feminina que viu à entrada do
Hotel Central.

 As corridas:
o 1.ª Corrida: a do 1.º prémio dos «Produtos»
o 2ª Corrida: a do Grande Prémio Nacional
o 3ª Corrida: a do Prémio de El–Rei
o 4ª Corrida: a do Prémio de Consolação

 Visão caricatural:
o O hipódromo parecia um palanque de arraial;
o As pessoas não sabiam ocupar os seus lugares;
o As senhoras traziam «vestidos sérios de missa»;
o O bufete tinha um aspecto nojento;
o A 1.ª corrida terminou numa cena de pancadaria;
o As 3.ª e 4.ª corridas terminaram grotescamente.

 Conclusões a retirar:
o Fracasso total dos objectivos das corridas;
o Radiografia perfeita do atraso da sociedade lisboeta;
o O verniz de civilização estalou completamente;
o A sorte de Carlos, ganhando todas as apostas, é indício de futura desgraça.

O Jantar dos Gouvarinhos

 Objectivos:
o Reunir a alta burguesia e aristocracia;
o Reunir a camada dirigente do País;
o Radiografar a ignorância das classes dirigentes.

Alvos visados
Conde de Gouvarinho Sousa Neto

 voltado para o passado;  acompanha as conversas sem intervir;


 tem lapsos de memória;  desconhece o sociólogo Proudhon;
 comenta muito desfavoravelmente as  defende a imitação do estrangeiro;
mulheres;  não entra nas discussões;
 releva uma visível falta de cultura;  acata todas as opiniões alheias, mesmo
 não acaba nenhum assunto; absurdas;
 não compreende a ironia sarcástica do Ega;  defende a literatura de folhetins, de cordel;
 vai ser ministro.  é deputado.

A imprensa
Superficialidade dos juízos dos mais destacados funcionários do Estado; incapacidade de diálogo por manifesta falta de cultura

 Objectivos:
o Passar em revista a situação do jornalismo nacional;
o Confrontar o nível dos jornais com a situação do país.

A “CORNETA DO DIABO” “A TARDE”

 O director é o Palma «Cavalão», um imoral;  O director é o deputado Neves;


 A Redacção é um antro de porcaria;  Recusa publicar a carta de retractação de
 Publica um artigo contra Carlos mediante Dâmaso porque o confunde com um
dinheiro; correligionário político;
 Vende a tiragem do número do jornal onde  Desfeito o engano, serve-se da mesma carta
saíra o artigo; como meio de vingança contra o inimigo
 Publica folhetins de baixo nível. político;
 Só publica artigos ou textos dos seus
correligionários políticos.

O baixo nível; a intriga suja; o compadrio político; tais jornais, tal País

O sarau do Teatro da Trindade


 Objectivos:
o Ajudar as vítimas das inundações do Ribatejo;
o Apresentar um tema querido da sociedade lisboeta: a oratória;
o Reunir novamente as várias camadas das classes mais destacadas, incluindo a
família real;
o Criticar o ultra-romantismo que encharcava o público;
o Contrastar a festa com a tragédia.

 Os oradores:
Rufino Alencar

 bacharel transmontano;  o poeta ultra-romântico;


 o tema do Anjo da Esmola;  o tema da Democracia Romântica;
 o desfasamento entre a realidade e o discurso;  o desfasamento entre a realidade e o discurso;
 a falta de originalidade;  o excessivo lirismo carregado de conotações
 o recurso a lugares – comuns; sociais;
 a retórica por parte do público tocado no seu  a exploração do público seduzido por excessos
sentimentalismo. estéticos estereotipados;
 a aclamação do público.

As classes dirigentes alheadas da realidade; uma sociedade deformada


pelos excessos líricos do ultra-romantismo; tal oratória, tal País

O episódio final: o passeio de Carlos e Ega

O último capítulo funciona como o epílogo do romance, dez anos depois de acabada a
intriga; o passeio final de Carlos e Ega em Lisboa ocorre, pois, dez anos depois.
É semelhante aos outros objectivos críticos e diferente porque tem uma dimensão
ideológica e o processo de representação é de carácter simbólico. Os espaços percorridos
estão impregnados de conotações históricas e ideológicas.
Os espaços percorridos por Carlos e Ega podem agrupar-se em três conjuntos:
o a estátua de Camões que, triste, evoca o passado glorioso da epopeia
portuguesa (anterior a 1580) e desperta um sentimento de nostalgia.
Com efeito, encontra-se perdida e envolvida por uma atmosfera de
estagnação.

o aspectos ligados a Portugal absolutista (anterior 1820): é a parte antiga


da cidade. Embora recusado este tempo pela perspectiva de Carlos, não
deixa de manifestar uma autenticidade nacional, destruída pelo presente
afrancesado e decadente.

o Domina o presente (o tempo da Regeneração, a partir de 1851), tempo


de decadência, do fracasso da restauração, da destruição. As tentativas
de recuperação não mobilizaram o País, quer porque de alcance muito
restrito (caso do monumento dos Restauradores), quer porque imitações
erradas de modelos culturais alheios (caso do francesismo).

O Ramalhete integra-se neste conjunto no sentido em que, atingido pela destruição e


pelo abandono, pode funcionar como sinédoque da cidade e do País, retirada a dimensão
individual.
Em conclusão, o plano da crónica dos costumes, que constitui o espaço social de Os
Maias, possibilitou um exame profundamente crítico da alta sociedade lisboeta da segunda
metade do século XIX. Este espaço social será também precioso para detectarmos algumas
coordenadas da estética naturalista.

A intriga
O romance de Os Maias apresenta duas intrigas, contendo um visível paralelismo
estrutural; pode dizer-se que a intriga secundária é uma miniatura da principal ou que esta é
uma expansão daquela.

Esquema das estruturas paralelas


Pedro
f) Vida de casados: viagem ao estrangeiro, vida
a) Vida dissoluta. social em Arroios, nascimento dos filhos.

b) Encontro fortuito com Maria Monforte. g) Retardamento do encontro com Afonso.


Paixão Elemento desencadeador do drama: o napolitano.

c) Pedro procura um encontro com Maria


h) Infidelidade e fuga de Maria Monforte –
Monforte.
reacções de Pedro.
O drama
d) Encontro através de Alencar/ Melo.
i) Regresso de Pedro ao Ramalhete, diálogo com
Elemento de oposição: a negreira (oposição real de
Afonso e suicídio de Pedro.
Afonso).
j) Motivação para a morte de Afonso.
e) Encontros e casamento.
Carlos

a) Vida dissoluta.

b) Encontro fortuito com Maria Eduarda.


Paixão

c) Carlos procura um encontro com Maria


Eduarda.

d) Encontro através de Dâmaso (indirecto).


Elemento de oposição: a amante (oposição
potencial de Afonso).

e) Encontros e relações.

f) Vida de relações: viagem ao estrangeiro e


casamento adiados, vida social na Toca.

g) Retardamento por causa de Afonso.

Elemento desencadeador da tragédia: Guimarães.

h) Descoberta do incesto – reacções de Carlos.


A iminência da Tragédia

i) Encontro de Carlos com Afonso, mudo, sem


diálogo e motivação para o suicídio de Carlos.

j) Morte de Afonso.
A intriga secundária

Pedro da Maia é a cópia da sua mãe: melancólico, abúlico e fraco. A educação que recebeu –
educação à portuguesa – agrava os factores psicossomáticos: imposição de uma devoção religiosa
essencialmente punitiva, baseada na cartilha; aprendizagem do latim com prática pedagógica
fossilizada; fuga ao contacto directo com a natureza e com o mundo prático da vida. O adulto Pedro da
Maia ficará para sempre um ser débil e incapaz de resistir a pressões vindas do exterior.
Quando aparece em Lisboa a deslumbrante Maria Monforte, esta exerba o seu excessivo
sentimentalismo e atrai-o como um íman. O casamento faz-se contra a vontade do pai. Quando a sua
mulher foge com o napoliano Tancredo, Pedro da Maia, tão levianamente como se casara, acaba com a
sua vida. O destino desta personagem foi, pois, totalmente condicionado pelos factores naturalistas:
hereditariedade, meio e educação.

A intriga principal

Em relação à intriga secundária, há alguns aspectos novos. Em primeiro lugar, o actante


representado por Carlos teve uma educação à inglesa: privilégio do contacto com a natureza, exercício
físico intensivo, aprendizagem de línguas vivas, desprezo pelos valores negativos da cartilha e por um
conhecimento meramente teórico. A saúde de Carlos é excelente, a inteligência foi desenvolvida – tira
o curso de Medicina com elevada classificação. A educação de Maria Eduarda foi completamente
diferente. Donde se conclui que a sua paixão por Maria Eduarda não foi condicionada pela educação.
Também não foi pela hereditariedade nem pelo meio. A sua ligação amorosa foi comandada à
distância por uma entidade que se chama destino, entidade que se insinua desde o início do romance e
abre o jogo quando Guimarães, tio de Dâmaso, vem a Lisboa e entrega a Ega o cofre com as
revelações.
A intriga principal é de índole trágica, apresentando, alguns elementos que fogem às leis do
naturalismo. O factor meio não funciona como condicionante, pois os protagonistas foram criados em
meios totalmente diversos; o factor educação não funciona porque alvos de educação totalmente
diferente; o factor hereditariedade não funciona como condicionante porque só descobriram que havia
muitas semelhanças entre os seus pais e que eram irmãos num momento já muito avançado, quando a
intriga começava a caminhar para o seu fim.

As personagens
Personagens planas e personagens-tipo

As personagens da crónica de costumes são, de um modo geral, personagens planas,


personagens-tipo que representam grupos, classes sociais ou mentalidades, movimentando-se em
determinados ambientes.

Eusebiozinho representa a educação retrógrada portuguesa;


Alencar, o poeta, representa o Ultra-Romantismo;
Conde de Gouvarinho, ministro e par do Reino, representa o poder político
incompetente;
Sousa Neto, deputado, representa a administração pública;
Palma «Cavalão», o director do jornal «A Corneta do Diabo», o jornalismo
corrupto;
Dâmaso Salcete, «chique a valer», é representante do novo-riquismo e a súmula dos
vícios de Lisboa da 2.ª metade do século XIX;
Steinbroken, ministro da Finlândia, «c’ est grave», a diplomacia inútil;
Cohen, o banqueiro, as altas finanças;
Craft, a formação britânica

São todos personagens estáticas

Personagens da intriga

As personagens da intriga, sobretudo Carlos, Afonso e Ega, revelam, certa complexidade,


densidade psicológica e conflito interior; por isso, são personagens modeladas ou caracteres; pelo seu
dinamismo opõem-se às personagens estáticas.
Embora sendo um romance de uma família, não é esta enquanto entidade colectiva que ocupa o
papel central. A obra está construída em função de Carlos. A partir do capitulo III, o narrador volta a
sua atenção sistematicamente para Carlos, o que nos leva a concluir que as referências às gerações de
Afonso e de Pedro só foram feitas para explicar a existência de Carlos em Lisboa.

Carlos, o protagonista

Toda a acção gira em torno de Carlos. A Afonso da Maia são atribuídos apenas dois capítulos
iniciais, ou seja, aqueles em que são relatados os antecedentes familiares de Carlos.
A narrativa, no que se refere a esta personagem, compreende as seguintes etapas: a época da
formação de Carlos (cap. III), os seus estudos em Coimbra (cap. IV), a vida social em Lisboa e a sua
intriga (caps. IV-XVII), o seu regresso a Lisboa, não para se reinstalar, mas para a apresentação de
significados simbólicos e ideológicos (cap. XVIII).
Destacam-se, na sua personalidade, as características seguintes: cosmopolitismo, sensualidade,
luxo, diletantismo e dandismo.
Educado de forma esmerada, fracassou. Porquê?
Não foi por causa da sua educação, mas apesar da sua educação, se bem que o problema de
uma educação baseada apenas em valores físicos e intelectuais, desprezados aspectos espirituais,
mereça uma reflexão atenta.
Falhou em parte devido ao meio onde se instalou – uma sociedade parasita, ociosa, fútil, sem
estímulos – e em parte devido a aspectos hereditários – a fraqueza e a cobardia do pai, o egoísmo, a
futilidade e o espírito boémio da mãe.

Maria Eduarda

 até aos 16 anos viveu num colégio perto de Tours;


 viveu depois, em Paris, com o irlandês Mac Green, de quem teve a filha Rosa;
 morto Mac Green na guerra contra os alemães, conheceu o brasileiro Castro Gomes e, como
esposa deste, chega a Lisboa;
 esclarecida a sua situação de amante de Castro Gomes e não de esposa, Carlos apaixona-se por
Maria Eduarda. Passam uma vida transitoriamente feliz;
 Guimarães destrói essa felicidade, apresentando os documentos da sua verdadeira identidade;
 Parte para Paris e acaba por casar com Mr. De Trelain, casamento, segundo o ponto de vista de
Carlos, de dois seres desiludidos.

Afonso da Maia
 Enquanto jovem, adere aos do Liberalismo e é obrigado, pelo pai, a sair de casa;
 Instala-se em Inglaterra, em casa de uma tia e aí vive do conforto;
 Falecido o pai, volta a Lisboa e casa com Maria Eduarda Runa, filha do conde de Runa;
 A morte de Maria Eduarda Runa parece não ter provocado em terramoto, ao contrário da morte
do filho Pedro;
 Vive muito para o neto Carlos;
 Já velho, passa o tempo em conversa com os amigos, lendo e emitindo juízos sobre a
necessidade de renovação do País;
 Morre de uma apoplexia quando tem conhecimento dos amores incestuosos de seus netos
Carlos e Maria Eduarda.

João da Ega

 é a projecção literária de Eça;


 é uma personagem contraditória: por um lado romântico, por outro, progressista e crítico
sarcástico do Portugal do Constitucionalismo;
 diletante, concebe grandes projectos literários que nunca chega a realizar;
 nos últimos capítulos ocupa um papel de grande relevo no desenrolar da intriga:
o é a ele que Guimarães entrega o cofre com os dados biográficos de Maria Eduarda;
o é ele que procura Vilaça para lhe relevar a identidade de Maria Eduarda;
o ele e Carlos revelam a novidade a Afonso;
o é ele que revela a verdade a Maria Eduarda;
o é ainda ele que a acompanha ao comboio e se despede, quando ela parte definitivamente
para Paris.

Pedro da Maia

 é o prolongamento físico e temperamental da mãe;


 é vítima do meio baixo lisboeta;
 é vítima de uma educação retrógrada;
 falha no casamento;
 falha como homem, suicidando-se.

Maria Monforte

 é sensual, vítima da literatura romântica;


 é uma desconhecida em Lisboa, mas causa sensação pela sua beleza e pelo seu luxo;
 Pedro apaixona-se por esta mulher, com quem se casa;
 Foge com o napoliano Tancredo, levando consigo a filha Maria Eduarda e abandonando o
marido e o filho;
 Morto Tancredo num duelo, leva uma vida dissipada e morre quase na miséria.

O espaço
Espaço físico
Exterior
Santa Olávia Infância e educação de Carlos
Coimbra Estudos de Carlos; primeiras aventuras amorosas
Baixa Vida social de Carlos; local onde se passa a intriga principal; local
Aterro privilegiado para a visão crítica da sociedade portuguesa da 2.ª metado
Lisboa Campo Grande do séc. XIX
Olivais

Interior
Salas de convívio e de lazer; o escritório de Afonso tem um aspecto de «uma severa
O ramalhete câmara de prelado»; o quarto de Carlos tem um ar de «quartos de bailarina»; o
jardim tem um valor simbólico, explicado em lugar apropriado.
A vila Balzac Reflecte a sensualidade de Ega
O consultório de Carlos Revela o dandismo de Carlos; a predisposição para a sensualidade.
A toca Espaço carregado de simbolismo; revela amores ilícitos

O espaço físico exterior acompanha o percurso da personagem central e é motivo para a


apresentação de atributos inerentes ao espaço social.
Os espaços interiores estão de acordo com a escola realista/ naturalista: interacção entre o
Homem e o ambiente que o rodeia.

Espaço psicológico

Constituído pelas zonas da consciência da personagem, manifesta-se em momentos de maior


densidade dramática. É sobretudo Carlos que desvenda os meandros da sua consciência, ocupando
também Ega lugar de relevo.

Carlos:
 sonho de Carlos no qual evoca a figura de Maria Eduarda (cap. VI)
 nova evocação de Maria Eduarda em Sintra (cap. VIII)
 reflexões de Carlos sobre o parentesco que o liga a Maria Eduarda (cap. XVII)
 visão do Ramalhete e do avô, após o incesto (cap. XVII)
 contemplação de Afonso da Maia, morto, no jardim (cap.XVII)
Ega
 reflexões e inquietações após a descoberta da identidade de Maria Eduarda (cap. XVI)

A representação do espaço psicológico permite definir a composição destas personagens como


personagens modeladas. A presença do espaço psicológico implica, a presença da subjectividade. Uma
vez mais, a estética naturalista está posta em causa.

Educação

Eça procura encontrar razões para a crise social, política e cultural a partir da formação do
indivíduo. Factor de humanização, de socialização e de autonomia, a educação produz ou reproduz modelos
sociais que propõem um sistema de valores e princípios base de uma sociedade.
Na obra encontramos dois sistemas educativos opostos e concepções de educação que nos surgem nas
opiniões ou mentalidades/culturas das personagens.
A educação “à portuguesa” caracteriza-se pelo recurso à memorização , pelo uso da cartilha (método
já desactualizado e deficiente) e do catecismo, criando uma concepção religiosa com a concepção punitiva do
pecado. Era dada especial atenção ao estudo do Latim, uma língua morta muito ligada à religião. O educando
não devia estar ao ar livre, não lhe sendo permitido contactar com a Natureza; tinha que ficar em casa,
superprotegido. Desvalorizava a criatividade e o juízo crítico, deformava a vontade própria através do
suborno e das chantagens, acabando por arrastar indivíduos para a decadência física e moral. Tornou Pedro
num fraco, incapaz de solucionar os seus problemas, com uma devoção histérica pela mãe. Eusèbiozinho fica
tristonho e molengão, corrupto, arrastado para um casamento infeliz. O Vilaça, o Padre Custódio, a gente da
casa dos Maias e a gente de Resende aprovavam esta educação deformadora, que a qual desagradava a
Afonso e ao narrador.
A educação “à inglesa” desenvolve a inteligência graças ao conhecimento experimental, o qual
desprezava a cartilha e o catecismo. Defendia o “amor da virtude e da honra” como é próprio de um
cavalheiro e a “um homem de bem”. Centrava-se na ginástica e na vida ao ar livre, proporcionando um
contacto directo com a Natureza. Era dada atenção ás línguas vivas, como o inglês, em detrimento do Latim.
Fortalecia o corpo e o espírito seguindo a ideia de “corpo são em mente sã”. Era um educação rígida e
metódica, apoiada por Afonso e pelo narrador, desaprovada por Vilaça, Padre Custódio, gente da casa dos
Maias e gente de Resende. Era sem dúvida uma educação mais moderna que a tradicional, mas que vai
igualmente conter lacunas. Com o desleixo do aspecto intelectual, Carlos vai ser afectado pelo ambiente
dispersivo do meio de Coimbra. A educação britânica, cumprida exageradamente à risca não serve no meio
social português.
Carlos aparece, assim, como a compensação que Afonso dá a si mesmo pelo fracasso que foi a vida do
filho, fracasso esse decorrente da sua educação que nada correspondia aos ideais alimentados por Afonso.
Não obstante a educação que receber, Carlos, tal como o pai, falha na vida com uma relação incestuosa de
que sai remetendo-se ao dolce far niente em Paris. Pedro falhou por causa da educação, enquanto que Carlos
falhou apesar da educação.

Intriga

Numa invenção algo complexa, Eça serve-se da história de uma família para narrar as desventuras de
uma sociedade. Assim, o romance acompanha dois níveis de acções distintos, um decorrente do título “Os
Maias” , tem por personagem central Carlos e se subdivide numa intriga principal e numa intriga secundária,
outro decorrente do subtítulo “Episódios da vida romântica” foca a descrição de eventos recreativos da
sociedade portuguesa da Regeneração, constituindo a crónica da costumes.
O nível de acção decorrente do título dá-nos a conhecer a história da família Maia ao longo das
gerações de Caetano, Afonso, Pedro e Carlos da Maia. A intriga principal é constituída pelo romance entre
Carlos e Maria Eduarda; a intriga secundária dos amores de Pedro e Maria Monforte é necessária para
construir a intriga central.
Na intriga principal coexistem poucas personagens, nomeadamente Carlos, Afonso, Maria Eduarda,
Ega e Guimarães. Carlos é o protagonista, embora pertença também à crónica de costumes; Afonso está
quase só ligado à intriga, sendo o elo de Carlos com o passado e com a intriga secundária protagonizada por
Pedro, seu filho, e por Maria Monforte; Maria Eduarda pertence somente à intriga e é o objecto do amor e
desejo de Carlos; Ega é o melhor amigo e confidente de Carlos, intervém de maneira importante na crónica
de costumes; Guimarães exclusivamente personagem da intriga, transporta a identificação de Maria Eduarda,
obrigando ao reconhecimento e apressando a tragédia. Esta intriga tem início quando Maria Eduarda
aparece no Hotel Central.
Na intriga secundária Pedro conhece Maria Monforte, namora-se e casa com ela desafiando a autoridade
e oposição do pai que a apelida de “negreira” e questiona não só as suas origens mas também os seus
princípios. Após uma viagem ao estrangeiro vêem morar para Arroios onde fazem vida de sociedade.
Nascem os dois filhos e Maria Monforte adia sucessivamente o encontro com o sogro. Aparece Tancredo
e Maria Monforte enamora-se dele, traindo Pedro e fugindo com o napolitano levando consigo a sua
filha. Pedro leva Carlos para o Ramalhete e após contar tudo ao pai, suicida-se deixando Carlos a Afonso.
A acção das intrigas é fechada porque não há possibilidade de continuação: Pedro suicida-se, Maria
Monforte já morreu, Maria Eduarda e Carlos suicidam-se psicologicamente perdendo a capacidade de amar,
e Afonso morre. Em Carlos há, no final da obra, um pedaço de esperança de saborear “o prato de paio com
ervilhas”, pelo que este pode ser considerado o único personagem em que a acção não se fechou
completamente.
Entre as duas intrigas pode-se observar um paralelismo, começando logo pelo facto de a intriga
principal só se dar por serem criadas condições para tal, pela intriga secundária, além disso há pontos em
comum. Apesar dos programas educacionais opostos de Pedro e Carlos, ambos são vítimas do meio em que
se inserem e que levará à frustração dos seus ideais e capacidades. Tanto Pedro como Carlos têm vidas
devassas; o primeiro desejou o encontro com Maria Monforte e conseguiu-o graças ao Alencar, o segundo
desejou o encontro com Maria Eduarda e conseguiu-o, também, mas graças ao Dâmaso; ambos são objecto
de uma paixão avassaladora. Afonso opõem-se a ambos os romances, ao de Pedro devido aos antecedentes de
Maria Monforte, cujo pai enriquecera por negociar escravos, ao de Carlos por considerar Maria Eduarda
“uma amante”. Maria Monforte retarda o encontro com Afonso, enquanto que Carlos e Maria Eduarda
retardam a felicidade por causa de Afonso. Em ambos os romances surge um elemento desencadeador do
drama, no caso de Pedro, e da tragédia no caso de Carlos, sendo Tancredo para Pedro e Guimarães para
Carlos. Pedro suicida-se fisicamente, enquanto que Carlos se suicida psicologicamente.
Há ainda pequenas acções secundárias como os relacionamentos amorosos adúlteros de Ega e Raquel
Cohen, e, de Carlos e Condessa de Gouvarinho, como o comportamento e as atitudes de figurantes,
nomeadamente de Dâmaso, Eusèbiozinho e Palma Cavalão, e ainda como o paralelismo entre a educação
dada a Carlos e a Eusèbiozinho.
A crónica de costumes engloba os ambiente sociais, os figurantes e seus comportamentos, bem como
as relações do protagonista Carlos, quer com o ambiente, quer com as personagens, pelo que os episódios são
acções ainda que com duração limitada, é uma acção aberta porque cada episódio pode continuar. Tem uma
existência autónoma em relação à intriga familiar, e os episódios constituem um documentário social da
Regeneração. Embora independente da intriga familiar estes episódios encontram-se harmoniosamente
encaixados na narrativa porque são personagens que “actuam” a nível da intriga e integram cenas da vida
contemporânea lisboeta. É fundamentalmente ao nível da intriga principal que surge a crónica de costumes,
pelo que ambas se desenvolvem em paralelo.

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