Anais do Seminário Nacional Literatura e Cultura
Vol. 1, agosto de 2009 – ISSN 2175-4128
06 e 07 de agosto de 2009
UFS – São Cristóvão, Brasil
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FRAGMENTOS DO VIVER ITINERANTE EM
HOTEL ATLÂNTICO DE JOÃO GILBERTO NOLL
Maria Margarete Souza Campos Costa (UESC) *
1 INTRODUÇÃO
A literatura enquanto construção intelectual e artística, é expressão do imaginário
social de determinado contexto histórico, e no que se refere à contemporaneidade, suscita
questionamentos que problematizam a homogeneidade, os modelos sociais hegemônicos e
enfatiza a desconstrução, a heterogeneidade, o relativismo e a esquizofrenia, revelados nas
diferentes contingências da condição humana. Segundo Rouanet (1987), a literatura pós-
moderna é fragmentária, descontínua, polissêmica [...] em contraste com a literatura clássica e
moderna, que se basearia na estética do símbolo. Isto é, seria totalizadora, harmônica,
contínua e representaria a unidade de uma intenção significante.
João Gilberto Noll insurge no cenário literário contemporâneo com uma linguagem
cifrada, seca e fotográfica e com personagens, que bem representam o desassossego, a
fragmentação, o insólito e a solidão, próprios do homem pós-moderno e da respectiva relação
conflituosa com o seu tempo. Noll caracteriza-se como um escritor de descaminhos e de
experiências marcadas pela ausência de limites, pelo esvaziamento das relações e pela
fragmentação do sujeito que constituem um não-lugar do vivido e da fantasia. O
*
Mestranda em Letras: Linguagens e Representações pela Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC, sob a
orientação da Profª Drª. Sandra Maria Pereira do Sacramento; Pós-graduada em Estudos Comparados em Literaturas de
Língua Portuguesa pela Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC (2001); Graduada em Letras pela Universidade
Estadual de Santa Cruz - UESC (1994). Servidora pública estadual – Secretaria de Educação do Estado da Bahia. E-mail:
[email protected].
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reconhecimento da crítica acerca da obra do referido autor vem se traduzindo na conquista de
diversos prêmios ao longo das suas publicações, além de inseri-lo entre os mais importantes
escritores da contemporaneidade.
Desse modo o presente artigo analisa a obra Hotel Atlântico, de João Gilberto Noll,
para verificar nesta, a configuração de elementos do contexto histórico, social e político que se
inscrevem na pós-modernidade, os quais permitem a inter-relação entre o texto literário e as
teorias concernentes a esse tema, além de legitimar a importância desta obra no contexto
contemporâneo. A escolha desse objeto foi determinada pelas inquietações provocadas pelo
itinerário intrigante do protagonista que entre idas e idas configura as incertezas e o
esmaecimento do homem contemporâneo. Esta análise se fundamenta nas teorias que
problematizam as concepções relativas à pós-modernidade, contemporaneidade ou
modernidade tardia e as conseqüentes transformações culturais ocorridas, principalmente nos
dois últimos séculos que culminaram com modificações nos campos do fazer artístico, social,
político e filosófico. Tornando imprescindível a recorrência a teóricos como: Lyotard,
Benjamim, Hall, Foucault e Jameson entre outros.
2 O SUJEITO EM FRAGMENTOS
Hotel Atlântico de João Gilberto Noll constitui uma obra que traz em si o caráter
intrigante e desafiador da literatura contemporânea, tendo em vista a possibilidade de se
discutir temas urbanos e cotidianos que evidenciam o discurso das margens, como também a
desconstrução do sujeito ante ao universo de incertezas do seu tempo. A perda da identidade,
a condição provisória, a solidão, a ampliação dos espaços, constituem evocações recorrentes
nos textos desse autor. Segundo Benjamin:
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A origem do romance é o indivíduo isolado, que não pode mais falar
exemplarmente sobre suas preocupações mais importantes e que não recebe
conselhos nem sabe dá-los. Escrever um romance significa, na descrição de uma
vida humana, levar o incomensurável a seus últimos limites. Na riqueza dessa vida e
na descrição dessa riqueza, o romance anuncia a profunda perplexidade de quem a
vive (BENJAMIN, 1994, p. 201).
No referido livro, o narrador-protagonista é um sujeito que habita um não-lugar e vive
em trânsito, solitário, não permite que o leitor penetre em sua intimidade subjetiva, vive à
deriva em busca ou fugindo de algo que não se sabe ao certo, não tem origem ou destino.
Desvinculado de laços afetivos, ele, não dá ao leitor pistas capazes de revelar a sua identidade.
Para Hall:
Esse processo produz o sujeito pós-moderno, conceitualizado como não tendo uma
identidade fixa, essencial ou permanente. A identidade torna-se uma “celebração
móvel”: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais
somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. [...] O
sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não
são unificadas ao redor de um “eu” coerente. Dentro de nós há identidades
contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas
identificações estão sendo continuamente deslocadas. [...] na medida em que os
sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos
confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades
possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos
temporariamente (HALL, 2004, p. 12-13).
Sujeito anônimo na multidão de qualquer grande metrópole do mundo, o narrador-
protagonista incorpora a massa de transeuntes nas ruas velozes, um andarilho. Eterno viajante
que caminha, ora em automóveis por entre avenidas, viadutos, painéis eletrônicos e
intermináveis textos, cores e sons que amontoam informações audiovisuais. Nem todas
possíveis de compreensão devido ao ritmo da vida pós-moderna. Lyotard observa que:
Desta decomposição dos grandes Relatos, que analisaremos mais adiante, segue-se o
que alguns analisam como a dissolução do vínculo social e a passagem das
coletividades sociais ao estado de uma massa composta de átomos individuais
lançados num absurdo movimento browniano. Isto não é relevante, é um caminho
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que nos parece obscurecido pela representação paradisíaca de uma sociedade
“orgânica” perdida (LYOTARD, 2000, p. 28).
Em Hotel Atlântico, a metrópole é o Rio de Janeiro, num dia qualquer, em um pequeno
hotel inominado no bairro de Copacabana. Desde então, o narrador-protagonista terá por
companhia o insólito, que se fará presente durante toda a narrativa até o seu último itinerário,
com a ocorrência de três mortes ao longo da sua viagem. A primeira morte ocorre nesse hotel
em Copacabana, um corpo é encontrado em um dos quartos e não se sabe ao certo a causa da
morte, nem a identidade do morto que é levado por policiais: “Lá dentro havia um corpo
coberto por um lençol estampado” (NOLL, p. 9).
Depois ocorre a morte de uma americana que viaja ao lado do narrador-protagonista,
num ônibus que os leva a Florianópolis, da qual se tem pouquíssimas informações, o nome é
Susan, perdeu uma filha e suicidou-se supostamente com um coquetel de drogas durante a
viagem: “Não havia dúvida: Susan tinha morrido. Lembrei que era o segundo cadáver que eu
encontrava em menos de 48 horas. O outro, o do hotel em Copacabana” (NOLL, p. 31). E
por último, a morte de uma anciã cujo nome era Diva, tudo leva a crer que morreu de velhice,
a quem o protagonista usando uma batina, imbui-se da autoridade de um sacerdote da Igreja e
dá-lhe a extrema unção: “Encostei o polegar direito na minha língua, senti ele úmido, e com
ele fiz uma cruz na testa, na boca e no peito da agonizante” (NOLL, p. 67).
Diante dessas mortes a personagem comporta-se com indiferença, sem nenhum
envolvimento emocional, dando a esses acontecimentos a importância relativa ao que poderia
ser chamado de corriqueiro ante o seu desejo de seguir viagem, cujo itinerário é decidido na
última hora, sem planejamento algum ou motivo aparente, não havendo espaço nem tempo
para se refletir sobre as mortes ou aprender qualquer ensinamento a partir desta experiência.
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Nas palavras de Arendt: [...] os homens no plural, isto é, os homens que vivem e se movem e
agem neste mundo, só podem experimentar o significado das coisas por poderem falar e ser
inteligíveis entre si e consigo mesmos (ARENDT, 2007, p. 12).
O narrador-protagonista parece incorporar novos personagens em cada lugar por onde
passa, de hotel em hotel, de cidade em cidade, as circunstâncias vão traçando a sua
improvisada trajetória. Essa figura anônima de vida seccionada move-se no espaço-tempo,
num universo constituído por descontinuidades, como se quisesse ironizar a realidade na qual
está inserido. Talvez o que mostre, sejam apenas simulacros do que realmente é: máscaras,
dissimulações de si mesmo. Ademais, em determinado momento da narrativa é revelado que
ele é um ator em decadência, que perambula por espaços fragmentados e destituídos de
memória, perseguindo a personagem de Noll, na tentativa irrefreável de atribuir-lhe uma
identidade e encontrar sentido na sua busca. Como afirma Baudrillard:
Já não é possível partir do real e fabricar o irreal, o imaginário a partir dos dados do
real e l. O processo será antes o inverso: será o de criar situações descentradas,
modelos de simulação e de arranjar maneiras de lhes dar as cores do real, do banal,
do vivido, de reinventar o real como ficção. Porque ele desapareceu da nossa vida
(BAUDRILLARD, 199, p.154).
Durante a viagem, a degradação física e sensorial anuncia-lhe o declínio da própria
vida e o remete ao infortúnio da sua condição humana, condição esta, da qual não se pode
fugir, por mais que longe vá, está atrelado a um corpo físico que o iguala a todos os imortais.
Daí talvez a sua única saída seja viver o instante, o agora de forma itinerante mesmo que, a
partir de insólitas e vazias experiências.
Atrelado ao presente, o narrador-protagonista despreza o passado e não se projeta para
o futuro, há uma total ausência de perspectivas ou objetivos, suas conquistas estão reduzidas
ao agora. Sua aventura errante segue por vias marginais, permeadas por turbulências e
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acontecimentos acidentais que o aproxima de situações inusitadas, as quais assemelham-se a
uma colagem de cenas sobrepostas e dão um ritmo acelerado aos acontecimentos. Através de
resquícios de lembranças da infância, sua vaga memória alude ao que seria sua identidade. É a
memória de um tempo que não se sabe ao certo. “Agora eu via apenas o chão sujo do piso
superior da rodoviária. Olhando aquele chão sujo eu não tinha nada a pensar. Talvez uma vaga
saudade da intimidade infantil com o chão” (NOLL, p. 21).
Ao chegar a Arraiol, uma cidadezinha do Sul do país, sofre um acidente no qual tem
uma de suas pernas amputadas por um cirurgião, Dr. Carlos, candidato a prefeito do lugar,
cuja pretensão é ganhar prestígio político, ao saber que o sujeito operado por ele é um ator.
Porém, ao descobrir que se trata de um ex-ator em decadência e que o mesmo não trará
repercussão a sua campanha, abandona-o no hospital à própria sorte. É ali que o ex-ator
conhece o enfermeiro Sebastião, a única pessoa que o ajuda nesses dias difíceis, além do
assédio de Diana, a filha do Dr. Carlos, que nutre pelo amputado um desejo voraz.
Entretanto, com a amputação, o narrador protagonista torna-se totalmente dependente
para se movimentar, em conseqüência disso, não consegue realizar o desejo da moça e como
conseqüência, também é abandonado por ela. Já não pode também, empreender novos
roteiros e irromper novas distâncias. Está inválido. Revela-se então, o seu fracasso enquanto
sujeito de si, itinerante das experiências fugazes. Agora está completamente dependente de
Sebastião, e a ele recorre para iniciar a sua última viagem e completar o percurso. Esta é a
única relação de amizade mantida pelo narrador-protagonista durante toda a narrativa. Pra
Foucault:
O corpo também está diretamente mergulhado num campo político; as relações de
poder têm alcance imediato sobre ele; elas o investem, o marcam, o dirigem, o
supliciam, sujeitam-no a trabalhos, obrigam-no a cerimônias, exigem-lhe sinais. Este
investimento político do corpo está ligado, segundo relações complexas e
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recíprocas, à sua utilização econômica; é numa boa proporção, como força de
produção que o corpo é investido por relações de poder e dominação
(FOUCAULT, 2004, p.25).
O enfermeiro ajuda-o a fugir do hospital e com o pretexto de que irá visitar a avó,
leva-o até Porto Alegre. Chegando lá, Sebastião fica sabendo que sua avó morrera há dois
anos e que no terreno da antiga casa dela havia sido construído um novo prédio. Os dois
seguem então à praia do Pinhal, pois Sebastião não conhece o mar e este é o seu grande
desejo. Como num lapso de memória, o narrador-protagonista, revela que costumava ir a essa
praia na infância. Lá, os dois hospedam-se no Hotel Atlântico. As ruas e o hotel estão vazios,
dando a ele uma espécie de prazer e realização, uma sensação de ter chegado em casa: “Tirei o
casaco, não que me sentisse acalorado, mas só pelo prazer de jogar o casaco sobre a cama
onde eu ia dormir, como se estivesse em casa. E eu realmente me considerava em casa pela
primeira vez, depois de tanto tempo” (NOLL, p.106).
É nesse não-lugar, que o narrador-protagonista finda sua viagem, aos poucos vai
perdendo os sentidos. É levado à praia por Sebastião e morre diante do mar. A morte do
protagonista de Hotel Atlântico anula a possibilidade de se conhecer a sua identidade. O sujeito
perdido em meio a vivências fragmentadas e descontínuas que o dissolve, desencadeando uma
situação paranóica, sem começo nem fim, que o leva ao esquecimento de si mesmo e o imerge
numa busca interminável pelo incerto, talvez a identidade perdida ou o resgate da própria vida.
3 A VIDA EM TRÂNSITO
A história inicia-se com o narrador-protagonista no Rio de Janeiro, em “um pequeno
hotel em Nossa Senhora de Copacabana, quase esquina da Miguel Lemos” (NOLL, p. 48). O
hotel é um lugar de trânsito, de relações provisórias e anônimas, as informações apresentadas
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pelos hóspedes não garantem veracidade, a exemplo do narrador-protagonista, que ao
preencher a ficha do hotel dá uma informação falsa: “Preenchi a ficha do hotel, estado civil
casado, eu menti – e imaginei uma mulher me esperando num ponto qualquer do Brasil”
(NOLL, p.10). Sendo o hotel ao mesmo tempo, espaço de chegada e partida, constitui-se
como um não-lugar: “Uma contagem regressiva estava em curso, eu precisava ir” (NOLL,
p.13), alheio a qualquer forma de compromisso com o mundo que o circunda, o sujeito
realiza-se vivendo numa pseudo- liberdade sem lugar para retornar, sem nenhuma referência à
memória: história da infância. Halbwachs defende que:
É difícil conceber como despertaria em uma consciência isolada o sentimento da
identidade, talvez porque nos parece que um homem inteiramente só não poderia se
lembrar de modo algum. Contudo, se admitimos que no mínimo não muda o
ambiente exterior, no qual estaria um ser assim, se ele não estiver sempre mudando
de lugar, nada impediria que se habituasse pouco a pouco aos objetos materiais que
o circundam e que se apresentam freqüentemente a seus olhos. Revendo os
mesmos lugares, ele talvez recordará que já os viu e este poderia ser seu ponto de
partida de um sentimento do eu (HALBWACHS, 2006, p.110).
Outra forma que o narrador-protagonista utiliza para fortalecer a sua condição de não
pertencimento é o fato de não possuir bagagens, transita de um lugar a outro apenas com a
roupa do corpo: “Ela olhou para as minhas mãos e perguntou:/ - E a bagagem?/ - A bagagem
eu deixei guardada no Galeão – foi a explicação que me saiu” (NOLL, p.10).
O sujeito é movido por uma necessidade que o impulsiona a estar sempre em trânsito:
“Mas eu precisava ir: desci o degrau e me encostei na parede do prédio” (NOLL, p. 18).
Embora o leitor não tenha a clareza do que o motiva de modo tão intenso e instintivo a tantas
idas e idas, envereda com ele em sua interminável jornada: “Naquelas vias por onde se subia
ou descia pareciam todos muito imersos naquilo que estavam fazendo. Ter percebido assim
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me relaxou. Eu também conseguiria: viajar, tomar um ônibus, chegar em algum lugar”
(NOLL, p.20).
O protagonista inominado é movido pela efemeridade do presente, a sua condição de
desterritorializado não lhe permite evocar um passado. Salvo algumas poucas e fragmentadas
reminiscências de um passado recente que o remetia a lugares por onde passou: “Comprei um
postal da ponte de Florianópolis. Eu costumava guardar postais de recordação. Naqueles dias
eu levava no bolso de trás da calça dois postais. Já estavam bem amarfanhados. Um deles
mostrava a praia de Copacabana à noite. O outro a barca para Niterói” (NOLL, p.36).
Entretanto, os postais são abandonados no bolso, e a sua fixação no presente é reafirmada:
“Eu não guardo nada comigo” (NOLL, p. 48), o tempo presente o reconduz a novos espaços
e ao movimento da sua vida alienada e vazia. Rouanet ressalta que:
A cultura pós-moderna só tem a dimensão do presente – um presente monstruoso,
avassalador, responsável pela estrutura esquiza da pós-modernidade. Segundo
Lacan, a esquizofrenia resulta da ruptura da cadeia de significantes, na qual reside o
sentido e de onde emerge a noção de tempo. Exposto a significantes
desmembrados, sem nenhuma relação orgânica entre si, o artista pós-moderno está
privado do sentido e da história (ROUANET, 1987, p. 250).
O narrador-protagonista lança-se rumo a horizontes esvaziados por um abandono
proposital de si mesmo e do mundo, horizonte este, formado por fragmentos de vida e cenas
recortadas que nunca se completam. Essas rupturas possibilitam-lhe não perder a intensidade
e a euforia com que vive o fugaz presente e as suas vagas e irresolutas experiências e, tanto
quanto, pela necessidade imediata de cruzar outros espaços, sem perspectivas ou motivos
aparentes, que justifiquem essa perseguição pelo movimento de estar sempre indo a algum
lugar, sem preocupação com o depois.
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4 RELAÇÕES ESVAZIADAS
As pessoas com as quais o protagonista cruza em sua trajetória,são apresentadas
apenas com o primeiro nome, a função que exerce ou a profissão, a narrativa não apresenta
muitas informações sobre quem elas são, as pistas são dadas a partir de fragmentos de
acontecimentos que na maioria das vezes não apresentam um desfecho, este fica a cargo do
leitor e da sua imaginação. São muitos os pontos de interrogação e as lacunas a serem
completadas: a recepcionista do hotel, o garoto que o levou até o quarto do hotel, o motorista
de táxi, Eva, a loura com quem se envolvera. Susan, a americana que conheceu no ônibus
durante a viagem a Florianópolis, os dois rapazes com os quais seguiu viagem até Porto
Alegre: Nelson e Leo; Marisa, Antonio, Dr. Carlos, a filha de Dr. Carlos: Diana... Com todas
essas pessoas, mantém relações esvaziadas, anônimas e desprovidas de qualquer sentimento
afetivo, o que fica evidenciado principalmente, na relação sexual entre o aventureiro e a
recepcionista do hotel no Rio de Janeiro: “Vendo se despida ela imediatamente se pôs de
quatro sobre o imundo carpete verde. Eu me ajoelhei por trás. A minha missão: cobri-la fora
do alcance dos seus olhos. Nenhum toque acima da cintura, nada que não fossem ancas
anônimas se procurando patéticas” (NOLL, p.12). A relação do personagem anônimo com as
mulheres que cruzam o seu caminho, resume-se em encontros fortuitos e casuais, que
ocorrem em situações movidas apenas pelo desejo carnal e totalmente vazias de afeto ou
sentimento, simulando um ato puramente animal. Jameson argumenta:
No que diz respeito a expressão e sentimentos ou emoções, a liberação, na
sociedade contemporânea, da antiga anomie do sujeito centrado pode também
implicar não apenas a liberação da ansiedade, mas também a liberação de qualquer
outro tipo de sentimento, uma vez que não há mais a presença de um ego para
encarregar-se de sentir. Isso não é a mesma coisa que dizer que os produtos
culturais da era pós-moderna são completamente destituídos de sentimentos, mas
sim que tais sentimentos – a que pode ser melhor e mais correto chamar, seguindo
Lyotard, de “intensidade” – são agora auto-sustentados e impessoais e costumam
ser dominados por um tipo peculiar de euforia (JAMESON, 2007, p. 43).
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Quiçá, em função dessa escassez dos sentimentos, o protagonista se esmera em
descrever as circunstâncias vividas com um detalhismo centrado nas aparências das coisas e
dos seres, que chega a ser neo barroco e assemelha-se a uma fotografia, como se quisesse
preencher espaços propositalmente vazios: “A moça tinha os cabelos pretos, uma franja
espessa, os cabelos vinham logo abaixo das orelhas (NOLL, p. 11). Conforme podemos
observar no fragmento abaixo:
Apoiado num parapeito um garoto olhava o breve vôo de uma pomba. A pomba
pousou num vão para ar-condicionado. Reparei que ali havia um ninho com um
pombinho. A pomba que tinha acabado de pousar, que deveria ser a mãe, ficou
espetando o bico no filhote” (NOLL, p.13).
A personagem protagonista de Hotel Atlântico, a partir do apagamento das relações
sociais, desfruta de uma sensação de liberdade, pelo motivo de não se prender a experiências
subjetivas, apesar de estar num mundo, onde distâncias foram subvertidas e o seu transitar,
embora, seja mais um pretexto para não aceitar a condição da vida em sociedade. Ele não
escapa ao encontro com que mesmo sem profundidade, como cenas de videoclips, são
inevitáveis. Rouanet aponta que o cotidiano pós-moderno caracteriza-se pela predominância
da informação, a substituição do livro pelo vídeo uma estrutura psíquica caracterizada por um
violento narcisismo e por um total esvaziamento da subjetividade (ROUANET,1987).
A diluição das relações afetivas, faz com que esse sujeito pós-moderno agarre-se ao
imediato, a tal ponto, que este por vezes, não se dá conta da sua condição humana, análoga a
uma máquina que articula-se num movimento fora de si mesmo, aludindo apenas ao
suprimento de algumas pouquíssimas necessidades, numa vivência escassa de significados.
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5 A DETERIORAÇÃO DO CORPO
Esse homem desenraizado em meio a essas viagens acaba sendo traído em suas
convicções, e a deterioração do corpo é um dos elementos que o distancia da sua falsa
liberdade. O corpo com o seu perecimento constitui as amarras, que o aprisiona e o impede
de continuar a sua jornada. O seu corpo é a superfície de inscrição dos acontecimentos. O
corpo é o ponto de articulação com a história (FOUCAULT, 2002, p. 22).
Embora durante toda a narrativa, o narrador protagonista esforce-se em negligenciar a
deterioração do seu corpo, por vezes é obrigado a lapsos de consciência que o lembra da sua
decadência física. O espelho é um elemento recorrente na narrativa, objeto este, que sempre
estará em algum quarto de hotel, para fazê-lo recuperar a imagem de si mesmo e a decadência
das forças, do seu corpo, o depositário da sua identidade não revelada: “Na frente do espelho
olhei as minhas olheiras fundas, a pele toda escamada, os lábios ressequidos, enfiei a língua
pela cárie inflamada de um dente, pensei que não adiantava nada eu permanecer,
contabilizando sinais de que o meu corpo estava se deteriorando” (NOLL, p.16). Dores no
corpo, vertigem, falta de ar, são os recados do corpo, anunciando ao narrador-protagonista a
viagem final que o identificaria com todas as outras pessoas, a morte. Para Benjamin:
É no momento da morte que o saber e a sabedoria do homem e, sobretudo, sua
existência vivida – é dessa substância que são feitas as histórias – assumem pela
primeira vez uma forma transmissível. Assim como no interior do agonizante
desfilam inúmeras imagens – visões de si mesmo, nas quais ele se havia encontrado
sem se dar conta (BENJAMIN, 1994, p. 207).
O corpo que fazia eclodir todos os seus instintos, e o colocava em comunhão, ainda
que carnal, com o outro. Avancei e lhe beijei o pescoço [...] Eu abria os botões da sua blusa e
lhe beijava os seios. Levantei a sai molhada e lhe apertei as coxas – ela não usava calcinha.
Marisa abriu alguns botões da batina e gozamos juntos, de pé (NOLL, p. 68).
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Apesar do seu esforço em ignorar o tempo e alcançar distâncias, o corpo determina o
curso da sua história, ou melhor, anuncia o fim do interminável percurso, contudo. O
perecimento do corpo que também é configurado nas três mortes que ocorrem durante a
narrativa, em nada abala o narrador-protagonista, que, sempre se distante desses
acontecimentos uma atenção mais demorada, ou demonstrar algum tipo de emoção, seguia em
frente, no seu já conhecido distanciamento das fraquezas humanas, em algumas, ajudava até a
sua consumação: “E falei baixinho: - Vai, Diva, vai sem medo, vai... A velha então suspirou e
morreu” (NOLL, p.67).
Os sintomas da sua decadência iam sendo evidenciados em cada lugar por onde
passava, no trajeto da sua viagem até chegar a Arraiol, onde teve uma das pernas amputadas, e,
ficou impotente após um acidente em circunstâncias não muito claras. Impedido de se
movimentar e de realizar os seus desejos sexuais com Diana, a filha do médico e candidato a
prefeito que o operou. Fica impedido assim, de configurar também a sua identidade
masculina.
É em Arraiol que ele conhece o enfermeiro Sebastião, aquele que o acompanha até a
sua última viagem. Apesar da narrativa não esclarecer muito bem a relação entre o narrador-
protagonista e Sebastião, infere-se a existência de uma amizade, não obstante o seu esquivar
ante os afetos, os sentimentos, a memória. Mas, eis que lhe surge o desejo irrefreável de
retornar a uma praia onde freqüentara na infância, a praia de Pinhal, seria um retorno à
origem? Sob o pretexto de visitar a avó e conhecer o mar, Sebastião aceita o convite para
realizar aquele que seria o último desejo do viajante. Chegando lá, hospedam-se no “Hotel
Atlântico”, este será o seu último lugar de passagem, ali perderá os sentidos.Chegar à beira do
mar é se deparar com o desconhecido, diante dele sucumbiu como toda criatura humana:
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Aí Sebastião olhou o mar. Eu também, o mar escuro do Sul. Depois ele virou a
cabeça para o lado e olhou para mim. Pelo movimento dos seus lábios eu só
consegui ler a palavra mar. Depois eu fiquei cego, não via mais o mar nem Sebastião.
Só me restava respirar, o mais profundamente. E me vi pronto para trazer, aos
poucos, todo o ar para os pulmões. Nesses segundos em que enchia o pulmão de ar,
senti a mão de Sebastião apertar a minha. Sebastião tem força, pensei, e eu fui
soltando o ar, devagar, devagarinho, até o fim. (NOLL, p.110)
E assim, a vida agora o desafiava a vislumbrar outros espaços, aquela sim seria a sua
última e interminável viagem. O andarilho sem origem, sem nome, marca a sua existência com
a negação da identidade, representa diferentes papéis em sua trajetória, e assume identidades
momentâneas, vestindo e despindo máscaras. Talvez ele mesmo não se reconhecesse mais, e o
leitor no intuito de decifrá-lo, persegue-o em suas andanças.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A literatura de João Gilberto Noll arremessa o leitor por trilhas desconexas, numa
narrativa caracterizada principalmente, pela sobreposição de múltiplas histórias, sem início
nem fim, atribuindo a estas um caráter provisório, cujo significado vai sendo construído à
medida que se penetra em sua linguagem cifrada e fragmentada, impulsionando o leitor a
adentrar o universo desse viajante, movido por um inusitado e desconhecido desejo.
Hotel Atlântico, constitui uma obra que permite refletir sobre a problemática dos
diversos contextos que produzem a cultura e os comportamentos do homem pós-moderno. O
ritmo acelerado com o qual as pessoas movimentam-se de um lugar a outro, sem se darem
conta de si mesmas e do que deixam para trás. A ausência de referência e planos para o futuro
denuncia uma existência que vai sendo costurada no último momento vivido.
Inicialmente de forma grotesca, a ponto de provocar o choque, essa obra, nos desafia a
penetrar por desvios e rotas, nos confrontando com o empreendimento da
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contemporaneidade. Essa realidade é marcada pelo ritmo frenético e acelerado da sociedade
globalizada, como também, pela indiferença e esmaecimento das sensibilidades, que
surpreendentemente nos condicionam a todas as circunstâncias e conseqüências desse viver
desenfreado sem tempo para ser e sentir.
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