A essência da regra de ouro é a consistência moral, e é o desrespeito a essa consistência moral
– não praticar o que você prega – o que torna a hipocrisia tão detestável. A objeção básica ao
vigário adúltero que louva a santidade do matrimônio, ou ao político que aceita um suborno
enquanto ataca as irregularidades financeiras, é a inconsistência: entre as opiniões que
expressam e as crenças evidenciadas por seu comportamento; entre a importância que
alegam conferir a certas proposições e a indiferença que se pode inferir de suas ações.
Na visão de Kant, por trás de qualquer ação há sempre uma regra de conduta, ou
máxima, subjacente. Essas máximas podem ter a forma de imperativos categóricos,
porém sem se qualificar como leis morais, por não conseguirem passar em um
teste, que é em si uma forma suprema ou abrangente de imperativo categórico e
está claramente imbuído do espírito da regra de ouro:
“Na regra de ouro de Jesus de Nazaré encontramos todo o
espírito da ética da utilidade.”
J. S. Mill, O utilitarismo, 1863
“Aja apenas de acordo com a máxima que você gostaria de ver transformada em
verdade universal.”
Em outras palavras, uma ação só é moralmente permissível se estiver de acordo
com uma regra que você possa consistente e universalmente aplicar a si mesmo e
aos outros. Por exemplo, podemos propor uma máxima que permita a mentira.
Mas a mentira só é possível em um cenário em que haja (alguma) verdade – se todo
mundo mentisse o tempo todo, ninguém acreditaria em ninguém –, e por essa
razão seria contraproducente e em certo sentido irracional desejar que a mentira se
tornasse uma lei universal. Assim, o requisito da universalidade exclui certos tipos
de conduta por razões puramente lógicas.
Universalidade Entre filósofos mais recentes, um dos mais influentes defensores da
regra de ouro é o inglês R. M. Hare. Partindo da concepção evidentemente kantiana
de que os termos morais têm um elemento prescritivo – eles nos dizem o que fazer
ou como nos comportarmos –, a teoria ética de Hare (o prescritivismo) propõe que
a essência dos termos morais reside no fato de orientarem a ação; dizer que matar é
errado equivale a dar e aceitar uma ordem – “Não mate!”. A característica essencial
das decisões éticas, e o que as distingue dos outros tipos de ordens, é, na visão de
Hare, sua universalidade: se fizer uma injunção moral, estou me comprometendo a
sustentar que essa injunção deve ser obedecida por qualquer pessoa (inclusive eu
mesmo) em circunstâncias similares; em outras palavras, devo obedecer à regra de
ouro.