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Donato 1973 DicionarioMitologiasAmericanas

1) O documento descreve um dicionário de mitologias americanas que inclui contribuições míticas africanas. 2) O dicionário lista heróis, lendas, divindades e aspectos litúrgicos das mitologias das Américas e da África Negra de forma concisa. 3) A introdução fornece informações gerais sobre as origens históricas e crenças dos povos cujas mitologias são descritas no dicionário.

Enviado por

Nícolas Aqsenen
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Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Donato 1973 DicionarioMitologiasAmericanas

1) O documento descreve um dicionário de mitologias americanas que inclui contribuições míticas africanas. 2) O dicionário lista heróis, lendas, divindades e aspectos litúrgicos das mitologias das Américas e da África Negra de forma concisa. 3) A introdução fornece informações gerais sobre as origens históricas e crenças dos povos cujas mitologias são descritas no dicionário.

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Hernâni Donato

DICIONÁRIO DAS ~1ITOLOGIAS A~1ERICANAS

DICIONÃRIO
Obra pioneira em língua portuguesa, o DICIO-
NÁRIO DAS MITOLOGIAS AMERICANAS recenseia
J
DAS MITOLOGIAS
- num vasto rol de verbetes concisos, rechea-
dos de informações essenciais - heróis ' lendas ,
AMERICANAS
divindades e aspectos litúrgicos não apenas das
mitologias das Américas como igualmente da
África Negra, de onde recebemos uma rica
bagagem cultural. Na introdução do volume
o leitor encontrará, para sua orientação, uma
notícia geral sumária acerca das origens histó-
ricas e das crenças daqueles povos e culturas-
cuja mítica é descrita, analiticamente, no corpo
do dicionário propriam~nte dito.

Cr$ 12,00

O preço deste livro só se tornou possível devido


à participação do INL/MEC que, em regime de
coedição, permitiu o aumento da tiragem e
conseqüente redução do custo industrial.

EDITôRA CUL TRIX


CULTRIX/MEC
"Enquanto a filosofia especula com os eru-
1
ditos, o povo usa imaginação e coração para
explicar-se o que faz no mundo e como é o
mundo. Onde havia um mistério, colocou um
deus ; para cada dificuldade criou um herói.
Deuses e heróis fizeram o mundo e tornaram-
-no habitável para o homem . Ao contarem
como foi que isto sucedeu, os homens criaram
a mitologia. Não é, portanto, fantasia apenas.
Resume o esforço de afirmação de raças e de
séculos. Na mítica de um herói, somam-se a
DICIONARIO DAS
vida e os trabalhos de milhares de criaturas. Em
cada deus, o desespero da multidão procurando MITOLOGIAS AMERICANAS
estabelecer o diálogo matéria-espírito, origem-
-finalidade. E escalonando esse desespero à
proporção que evoluía. Compreende-se que não
sirva tão-somente à curiosidade as dezenas de
livros que se publicam anualmente sobre a mi-
tologia grega, romana, escandinava, germânica.
Um pouco menos, entre nós, a respeito das mi-
tologias orientais. São poucos, isto sim, os textos
a propósito da mitologia americana. Menos
ainda os que cuidam das fontes formadoras da
mítica brasileira: a africana e a ameríndia. Aqui
estamos com uma contribuição."
Com tais palavras o escritor e folclorista
Hernâni Donato justifica os propósitos deste
seu utilissimo DICIONÁRIO DAS MITOLOGIAS AME-
RICANAS. Num vasto elenco de verbetes con-
cisos, recheados de informações essenciais, a
presente obra recenseia heróis, lendas, divin-
dades e aspectos litúrgicos não apenas das mi- '
tologias das Américas (as teca, maia, aruaque,
carat'ba, inca, chibcha, tupi, etc.) como igual-
mente da África Negra, de onde recebemos uma
rica bagagem cultural. Na introdução do vo-
lume, o leitor encontrará, para sua melhor orien-
tação, uma notícia geral sumária acêrca das
origens históricas e das crenças dos povos ame-
ríndios e africanos cujas mf ticas são descritas,
analiticamente, no corpo do dicionário propria-
mente dito.
Obra pioneira em língua portuguesa, o
DICIONÁJUO DAS MITOLOGIAS AMERICANAS irá
certamente merecer lugar de destaque na estante
de todos os que se interessem pela opulenta,
colorida e fascinante mítica do continente ame-
ricano.
HERNÂNI DONATO
-

DICIONARIO
:
. DAS
'
MITOLOGIAS
AMERICANAS
(incluindo as contribuições míticas africanas)

Donato, Hernâni, 1922-


D733d Dicionário das mitologias americanas, incluindo
as contribuições míticas africanas. São Paulo,
Cultrix 1Bras111al
280 p.
INL 119721
· ~Á
Bibliografia.
1. tndios - América do Norte - Religião e
mitologia - Dicionários 2. tnd.ios - América do
~
Sul - Religião e mitologia - Dicionários 3.
Mitologia africana - Dicionários I . Titulo.
CDD-299.703
299.803
EDITORA CULTRIX
71-0205 299.600 SÃO PAULO
CCF/ CBL/ SP
Em convênio com o INSTITUTO NACIONAL DO LIVRO/MEC
1973
1.ª EDIÇÃO
janeiro de 1973

Para
Maria Claudia - Maria Flavia
António André - Luís Fernando
Lúcia Helena - Sílvia Helena
Marco António - Ana Paulo
MCMLXXIII Maria Odila - Luiz César,
estas mil histórias que resumem a sa-
bedoria, a fé, a coragem, a maravilha
Todos os direitos reservados pela dos povos e das terras que somos todos
EDITORA CUL'l'RIX LTDA. nós, também.
Rua Conselheiro Furtado, 648, fone 278-4811, S. Paulo

Impresso no Brasil
Printeà in Brazil
7

O Pequeno Dicionário Brasileiro da Ungua Portugu&a afir-


ma que mitologia é a "história fabulosa dos deuses, semideuses
e heróis da antiguidade". O Dicionário do Folclore Brasileiro, de
Câmara Cascudo, alarga o horizonte da mitologia, dizendo tratar-
-se de "um conjunto de lendas e narrações que referem perso-
nagens e acontecimentos anteriores aos fatos históricos conheci-
dos e que, por isso mesmo, se entretecem com episódios mara-
vilhosos e fantásticos".
Aqui, para nós, ·mitologia afro-americana é todo o mundo
criado pela necessidade humana de evasão. Deuses, semideuses,
impulsos, virtudes, defeitos, façanhas, tragédias, lugares, obje-
tos, que ajudaram os homens da Africa sul-ocidental e das Amé-
ricas a responderem às perguntas angustiadas sôbre as origens
e as finalidades do mundo e da vida. Pois mitologia acontece
na infância dos povos. ~ quando a divindade conquista menos
as coisas do que as coisas se tornam divindades. Àssim se
explicam os deuses numerosisslmos, suas relações e reações iguais
às do homem, a sua complicada hierarq~a. o fervor e o drama
dos ritos e das cerimônias. Para bem entender a sutil natureza
da mitologia é preciso apreciar cada verbête com a disposição
com que ela nasceu: "em uma semiclaridade profundamente
respeitosa" '. ( P. Comelin) .
Isso mesmo. Mitologia merece respeito. Ela não fêz ape-
nas Literatura. Mas fêz História e Religião. Foi cultura ofi-
cial, foi dogma, lei, sustento espiritual. Os mitos não são
fuga nem mentiras, mas explicação.
O que é lógico. Pois enquanto a filosofia especula com os
eruditos, o povo usa imaginação e coração para explicar-se o
que faz no mundo e como é o mundo. Onde havia um mis-
tério, colocou um deus; para cada dificuldade criou um herói.
Deuses e heróis fizeram o mundo e tornaram-no habitável para
o homem. Ao contarem como foi que isto sucedeu, os homens
criaram a ..mitologia. Não é, portanto, fantasia apenas. Resu-
• me o esfôrço de afirmação de raças e de séculos. Na mitica
de um herói somam-se a vida e os trabalhos de milhares de
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criaturas. Em cada deus, o desespêro da multidão procurando As Antilhas chegaram a ser apelidadas, por estudiosos da
estabelecer o diálogo matéria-espírito, origem-finalidade. E es- matéria mitico-religiosa - "a Mrica do Caribe". Sómente a
calonando êsse desespêro à proporção em que evoluía. Ilha de Cuba recebeu mais de 830 000 negros, principalmente de
Compreende-se que não sirva tão-sómente à curiosidade as sangue e de cultura ioruba, ali chamados lucumi8. Mesclaram-se
dezenas de livros que se publicam anualmente sôbre a mitologia com sudaneses e bantos. Afora os traços culturais destas ra-
grega, romana, escandinava, germânica. Um pouco menos, en- ças, ficaram na mitica e no folclore antilha.nos, reminiscências
tre nós, a respeito das mitologias orientais. São poucos, isto maometa.nas levadas pelos mandingas e fulas.
sim, os textos a propósito da mitologia americana. Menos ain- A liturgia afro-cubana principal guarda notável semelhan-
da os que cuidam das fontes formadoras da mitica brasileira: a ça com a do culto ioruba na Bahia.
africana e a amerindia. Aqui estamos com uma contribuição. O Haiti havia recebido negros já antes do ano 1500. !:les
Da Mrica, juntamos um pouco da mitica das nações que tornaram-se maioria absoluta na Ilha e guardaram fidelidade
trouxeram maior contingente humano e bagagem espiritual. O à origem sudanesa - banto embora recebessem gente da costa
escravo africano, vindo de mãos vazias trouxe a alma grávida ocidental africana ou seja do Senegal ao Cabo da Boa Espe-
de crenças. Seus deuses ainda são convocados no Haiti, em rança. Nesta ilha também predominou a cultura iorubana,
Trinidad, Pôrto Rico, Guianas, alguns pontos do Brasil. O de que é testemunho o difundido culto vodu de mistura com
americano, patagão ou esquimó, preocupado em saber de onde práticas dos ibós, dos congos, nagõs, etc.
viera e para onde retornaria no fim dos tempos, ordenou o seu
mundo e os seus deuses. O drama dêstes deuses e dêstes ho- Na Jamaica porém, colônia inglêsa, a cultura dominante
mens, dêste mundo americano, só não tem ressonância univer- resultou se~ a coromanti, originária da Costa do Ouro. Assim,
sal porqu.e a maior parte dos americanos de 1971, ainda somos além de respeitar os orixás, santos, etc., cada famllia jamaicana
europeus negaceando o fascínio nativo da América. Na tradição adora um santo especial, fundador do clã. A sombra tem po-
como no vestuário, na alimentação como na habitação, o ame- dêres ( obeah) e os 'espíritos dos mortos ( duppies) estão sem-
ricano ~eima em ser europeu. pre a rodear os vivos.
·Todos aquêles pais de civilizações americanas foram evoca- A América do Norte recebeu negros da Gâmbia, Costa do
dos: "se puede aún imaginar a estos antiguos sabios de America, Ouro, Serra Leoa, Masse-Congo, Widá, Coromantine, Fantee,
de pie sobre la cresta de sus torres. En sus ojos reposan las Angola. Esta massa imigratória deixou, em parte da popula-
estrellas; de los altares escondidos sube el aroma de flores y ção negra e mestiça, sobrevivências do dayname idênticas àque-
de frutos quemados en la brisa palida de la tarde. . . Las es- las encontradas na Jamaica e nas Guianas, e resquicios leves
trellas reposan claramente en los ojos de los hombres que vi- de ritos ~eligiosos daomeanos e bantos ( angolês e congolês).
gilan la noche, porque sus pies se apoyan en la tierra que ellos Negros levados do Haiti para a então também francesa Luisià-
• nia, introd~ziram ali o vodu, localmente chamado Woodoo .
han levantado y hecho luminosa en virtud de la misma razonada
pasión que les hace volverse a los astros" (Waldo Frank). Mas a não ser na Ilha de Gula, as religiões negras perde-
E recitamos com Rúben Dario: "Ellos eran soberbios, lea- ram ràpidamente suas características, contràriamente ao suce-
les y francos, / fíidas las cabezas de raras plumas, / ojala hu- dido entre as populações de côr das Antilhas, das Guianas e do
bieran sido los hombres blancos / como los Atahualpas y Mo- Brasil. Os negros norte-americanos adotaram as religiões dos
tezumas ! " branc~, embora dando-lhes coloridos especiais como os spirituals,
os remvals e alguns fenôrnenos de iluminismo. Tudo isto, nos
Estados Unidos. Pois no Canadá, no México, como também na
América Central, o negro não deixou traços mitico-religiosos
II apreciáveis. Ali, a forte influência indígena e o autoritarismo
do europeu sobrepujaram o pequeno contingente negro. Os ele-
N OT1CIA SôBRE CRF.NÇAS E MITOS mentos africanos mestiçaram-se depressa e diluiram os seus
AMERlNDIOS E AFRICANOS valôres espirituais.

Para o melhor entendimento de cada um dos verbêtes dêste ASTECAS - Os senhores desta importante civilização pa-
dicionário, será oportuno que o leitor conheça alguns detalhes recem originários de um ponto do noroeste do México atual. A
a respeito de povos amerindios e africanos mais presentes neste êsse pais avoengo e um tanto misterioso, êles chamaram Aztlan.
volume. Em uma caverna teriam encontrado o ídolo do "feiticeiro co-
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libri", Huitzilopochtli recebendo dêste conselhos tão úteis que vencidos e os sacrificavam. Segundo os cronistas espanhóis,
decidiram transformá-lo em deus tribal. Por uma razão pode- ao tempo da conquista "não se passava dia sem que se sacri-
rosa, teriam iniciado, juntamente com outras tribos, prolon• ficasse pelo menos uma pessoa".
gada migração, a qual porém concluiram sôzinhos. Durante essa A civilização asteca deixou sinais matériais e influenciou
peregrinação, pararam .e m vários sitios, sempre lutando contra as massas indias do México. Na imaginação do povo, os ran-
os povos locais, ora vencendo ora sendo expulsos. . Afinal, fi- corosos deuses antigos continuam lutando entré si e olhando
caram com o dominio de Tizapan, área estéril infestada por in- aborrecidos para os mortais.
setos e serpentes venenosas.
Entre 1325 e 1370, nas ilhas do Lago de Texcoco, funda- MAIAS -Muita gente considera que os maias desenvolve-
ram a cidade de Tenochtitlán (México atual) que viria a ser ram na América Central a mais brilhante das civilizações ame-
a sua capital. Pondo em ação uma arma terrivel: clava de ricanas. Um célebre arqueólogo afirmou que foram os gregos
madeira incrustada com lascas de pedras vulcânicas, tornaram-se do Nôvo Mundo e que a influência exercida sôbre outros povos
mais aguerridos e conquistadores. Foram submetendo os povos pode ser comparada àquela dos gregos sôbre os romanos.
vizinhos. Os reis Itzcoatl, Montezuma, Axayaca.tl .estenderam Situaram-se entre os atuais Iucatã, a quase totalidade de
o dominio dos astecas. Chegaram a dominar zonas da hoje Honduras, tôda a Honduras Britânica, a maior parte da Guate-
Guatemala. Reinava Montezuma II quando os espanhóis che- mala, num total de 325 000 km de território. De todos os povos
garam ao México. O último rei asteca foi Cuautêmoc. Procurou pré-conquista, foi o que mais sobreviveu. Calcula-se que ainda
lutar e foi enforcado pelos invasores em 1523 ou 1524. existam dois milhões dêles.
Os astecas tiveram uma arte essencialmente religiosa, c::oi:n A data mais antiga da História maia foi registrada na es·
maior fôrça. artistica na escultura da pedra.. Mantiveram poré~ tela de Tikal e corresponde ao ano 292 da era cristã.. Mas efe-
inúmeras escolas de pintura, deixando para a cerâmica a . re- tivamente a sua história é contada do ano 320, a partir da fa.-
presentação dos deuses domésticos. Mas o que mais ii:npressio- mosa placa de Leyde. ~sse longo periodo é distintamente divi-
nou a Europa, quando esta tomou conhecimento do mundo as- dido em Antigo e Nôvo Império. O antigo vai do ano 320 a
teca foram trabalhos de arte decorativa: mosaicos de jade e 987. Desapareceu misteriosamente. As cidades daquele tempo
de turquesa. foram encontradas intatas, mas abandonadas. Não há sinais
Mas a civilização e a arte astecas só podem ser explicadas de destruição, de violência. Como se um povo, dono de um
se relacionadas com a sua religião, "religião tirânica em que, império, simplesmente sumisse da face de seu território. No
não se encontra nenhum elemento de esperança., nem mesmo fim do século IX, na metade norte do Iucatã ·começou o Segundo
de virtude no sentido cristão". O dualismo é o principio bási- Império, cultural e religiosamente diferente do anterior. Luta.-
co do mundo religioso asteca. Tudo é luta entre duas fôrças: vam em uma terra sem água, sendo normal o ano agrícola de
o dia contra a noite, o calor contra o frio, o sol contra a lua, oito meses sem chuva. Plantavam algodão, milho e ágave.
o bem contra o mal. A Humanidade tem dois criadores a luta- Não havia fartura entre êles.
rem constantemente entre si. Mas culturalmente ganharam o respeito do mundo. Cria-
A mitologia asteca é portanto bastante complexa, resultan,.. ram um sistema de escrita por hieróglifos, diverso de todos os
do em parte da contribuição das miticas dos povos c911:quistados·. sistemas conhecidos. Desenvolveram bastante a Aritmética e
Com isto, podemos admitir que a mitologia asteca. representa º' gra ças a ela, a Astronomia. Inventaram o zero. A arte maia
pensamento religioso de inümeros povos norte-americanos. é das mais conceituadas em todo ·o mundo. ·A arquitetura é de
Os deuses são incontáveis. Além dos deuses criadores e f undo religioso e imponente. H. Lehmann disse ·que a escultura
dos grandes deuses, existiam as divindades das estrêlas, da do Antigo Império "atinge uma qualidade nunca superada ~m
terra, da morte, da fertilidade, da chuva, da água, do fogo, da parte alguma do mundo com os relevos em estuque e pedra do
bebida cerimonial. Todos os deuses a.stecas eram ferozes, san- Palácio de Palenque". Os &frescos de Bonampak mereceram
guinolentos, famintos. Exigiam com freqüência sangue e carne do mesmo cientista a afirmação de que "são tão belos que se
dos fiéis. "Assim se explica por que a história dos astecas é comparam aos da Renascença italiana. Revelam um senso de
uma longa enumeração de guerras: era-lhes necessário renovar perspectiva e um sentido muito vivo de composição". A olaria
incessantemente seu estoque de prisioneiros." Quando não· ha- • é igualmente notável pela variedade das côres, pela elegância
via guerra, faziam torneios chamados xochiyaoyotl ou seja "guer:. das formas. Trabalharam esplêndidamente a argila e a jadef-
ra florida", ao fim dos quais os sacerdotes ficavam com os ta embora não tenham cultivado a ourivesaria.
12 13 I
A religião e a mltica maias continuam obscuras. O uni-· sistiram ao desenvolver de importantes cultos negros, com ritual.
verso consistiria em 13 céus superpostos, sendo a nossa terra mitica e teogonia bem próprias.
o céu inferior. Sob ela dispunham-se nove mundos subterrâneos,
dos quais o mais profundo era o doifiinio do senhor da morte. INCAS - A cordilheira dos Andes assistiu à formação e ao
Cada um de todos êsses mundos tinha o seu deus próprio. desaparecimento de muitas civilizações que prepararam o apo-
corno também o tinham todos os fenómenos da Natureza e tam- geu dos incas. Em Huaca-Prieta e em Chabcay estão os mais
bém os dias. O panteão maia foi dos mais povoados. antigos e positivos sinais dessas civilizações. A mais importan-
te destas, para nosso fim, chamou-se mochica ou chimu antigo.
Tal como entre os astecas, o dualismo caracterizava a re- Durou 500 anos, dividida em quatro fases. Deixou legados
ligião. Deuses benfazejos opunham-se aos malfazejos. Todos, preciosos como a Huaca do Sol e a Huaca da Lua, o aqueduto
bons e maus, eram objeto de um culto muito complexo através de 1400 m de comprimento e 15 de altura em Ascope e os ca-
de um ritual severo. Jejuns e abstinências graves impunham-se
nais de irrigação de Chicama, medindo mais de 120 km. Tinham
f reqüenternente aos sacerdotes e fiéis. Um sacrificio comum a excelente cerâmica. Adoravam tudo o que viam na Natureza:
êstes últimos consistia em fazer correr o próprio sangue per- ervas, plantas, rochas, feras, aves, ar, fogo, terra, sardinhas,
fur:ando o lóbulo da orelha com uma faca de sllex ou uma es- peixes, caranguejos. ·
pinha de peixe. No inicio, 98 sacrifícios eram paclficos ( ofe-
rendas de alimentos, de animais, de objetos) . Mais tarde e es- Sôbre tais civilizações, em apenas 300 ou 400 anos os incas
pecialmente no Iucatã (templo dos Jaguares e dos Guerreiros, criaram um império que assombrou os conquistadores espanhóis.
em Chichen Itza) aparecem as representações de sacrificios hu- Seu fastlgio durou apenas 100 anos. Dominaram desde o sul
manos que se tornam regulares. da Colômbia até o Rio Maule, no Chile. Isto quer dizer: 4
mil quilômetros. Conquistadores, diplomatas e tiranos, utili-
ARUAQUES E CARAIBAS - Foram os senhores das Antilhas zaram as técnicas da propaganda, da infiltração, das migrações
pré-espanhola. Ambos os povos procediam da América do Sul. forçadas, transplantando populações de uma fronteira para outra,
Os aruaques haviam emigrado havia muitos séculos mas os a fim de eliminar resistências.
caralbas estavam nas Antilhas de pouco tempo quando os eu-
ropeus chegaram. Pródiga em realizações sociais, foi relativamente parca em
arte. Assim é que é diminuta sua contribuição em escultura
Os aruaques tinham seus representantes culturais mais ca- em pedra, atividade muito cultivada pelas demais populações
racterísticos, nos Tainos, agricultores (mandioca e milho). Pro- andinas. Na arquitetura teve o seu forte. Prova-o os monu-
vàvelmente foram os inventores da rêde de dormir, a. que cha- mentos megaliticos de Cusco, tão sólidos que nenhum terremoto,
mavam hamaca. Desenvolveram seus melhores centros no Haiti freqüentes , na região, pôde abalá-los. Sua cerâmica não é a
e em Pôrto Rico. Foram hábeis escultores em pedra e madeira. melhor dos Andes. Trabalharam a madeira e apreciaram a
Aruaques e caralbas haviam divinizado, sob formas bem tapeçaria.
primitivas, os elementos naturais. Prendiam-se, especialmente A religião era dominada por um vasto panteão tendo por
aos . espiritos da Natureza e dos antepassados, atribuindo-lhes centro o herói-deus civilizador, Viracocha ou Huiracocha. Era
podêres especiais. Tais espiritos podiam ser aprisionados pelos ào mesmo tempo o criador de tudo e o deus Sol. Embora pou-
idolos chamados zemi, colares de pedra, cada uma destas traba- cos deuses f ôssem personificados, tudo quanto chamasse a aten-
lhad~ em três pontas com estilizações muito variadas, grotes- ção era divinizado. Um deus guardava a água em recipiente
cas, antropomorfas, representando também animais e plantas, divino e retinha-a ou dava-a, segundo suas disposições em rela-
conforme o espirito que devessem aprisionar para servir· ao ho- ção aos homens. Outro podia, à sua vontade, disparar com a.
mem. Tôda pessoa deveria possuir o seu zemi, sem cujo auxi- funda, raios apontados para casas, homens e animais. As ceri-
lio não teriam espirito protetor. mônias religiosas eram comuns, sendo principais as do Ano
Não foram propriamente os espanhóis, como conquistado- Nôvo e as dos solsticios.
res, a destruir tais crenças. Mas o catolicismo a impor-se sôbre O ritual seguia uma gradação desde a oferenda de plu-
a religião rudimentar e a influência poderosa dos negros afri- mas, conchas, fôlhas e fumo de coca, espigas de milho, batatas
canos levados para ali como escravos. Reduzidos e social- até o sacrificio de animais. O condor e o puma, por serem ani-
mente c~mprimidos, os primitivos senhores da terra fundiram mais totêmicos, não foram objetos de sacrificio.
o pouco saldo de suas crenças com o vigoroso ritual dos ne- A imolação de vitimas humanas tornou-se uma constante
gros iorubas, bantos, mandingas, fulas, etc. Cuba e Haiti as- regulamentada pelo severo ritual das muitas festas.
14 15
CHIBCHAS - Embora a Colômbia tenha conhecido outras e a hi~rarquização ·encontrada por exemplo entre polinésios e
civilizações (Pasto, Buesaco, Patia, Guachicono, Popayán, Co- certos africanos.
rinto, Calima), a Chibcha, também chamada muisca, é a me- Afirma A. Costa que a teogonia dêles, fantasiada por mui·
lhor conhecida e geralmente desfruta de prestigio igual às do tos, n:ão ~esiste a uma análise singela, quando examinada de
México e do Peru. Os chibchas intitulavam-se muíscas, que ânimo sereno. ·Tiveram sim uma propensão para o dominio do
quer dizer "os homens". Viviam entre 2 500 e 3 000 metros fetiche e da magia, em muitas tribos crença no sobrenatural
de altitude e no seu apogeu passaram pouco de um milhão e esbõço de culto, fundados mais em mitos do que em ritos,
de almas. A tecelagem e a ourivesaria foram suas principais embora tenha valor ritual a antropofagia descrita por Hans
manifestações artisticas. Pintavam e até estampavam tecidos Staden, Cardim, Thévet e outros.
de algodão. Sabiam trabalhar o ouro, o cobre e tumbaga -
liga de ouro e cobre. A mitologia tupi parece indicar que o índio brasileiro pro-
gredia - no momento da Descoberta - na procura de uma
Sua religião é ainda confusa para os estudiosos. Os deuses .f orma ~bstrata da idéia de deus. A mitica tem fundamentos
eram numerosos e dividiam-se entre deuses criadores e deuses na Natureza e resume-se em um amplo panteísmo. Os gênios.
ligados a alguma função. Reconheciam um criador supremo são sempre bons. Couto de Magalhães que os estudou afirma
( Chiminigagua) , seguido do Sol e da Lua. Havia inúmeros ou- não conhecer qualquer dêles que fôsse representação do· mal.
tros deuses, de mistura com pelo menos três versões cosmo- A maior parte das grandes lendas tupis, envolveram-se com
gõnicas. Mas o traço principal da divindade chibcha em relação elementos cristãos e europeus. Mas pode-:se assinalar crença
às demais religiões americanas, foi a sua humanização. Bo- em um dilúvio e a passagem de Sumé.
chica, o grande deus e herói humano, é o melhor exemplo.
DIAGUITAS - Sempre que se falar em calchaquie, em mí-
Imperava o dualismo comum às crenças continentais. Deu-
tica do noroeste argentino, ou de Tucumã, fala-se na chamada
ses rivais, fôrças rivais, sentimentos rivais, dominavam todos
civilização dos diaguitas, florescida no Vale de Calchaqui. Esta
os minutos do viver muisca. gente habitava aldeias de ruas estreitas, tendo um forte no ponto
Ocorriam sacrifícios sangrentos, o principal dêles chamado mais alto. · As lavouras eram dispostas em terraços com alicer,.;
de mojas, rapazes trazidos de outras terras e sacrificados ao ces de pedra e permanente e adequadamente irrigadas.
nascer do sol, com facas de bambu. O sangue era aspergido A caracteristica principal, do ponto de vista cientifico, são
sôbre rochedos cerimoniais e o corpo abandonado para que ser- os cemitérios de crianças, com urnas funerárias tipicas, sempre
visse de comida ao Sol. O único meio de fugir a tal fim con- pintadas de prêto e vermelho, sôbre fundo claro. Trabalharam
sistia em provar que o candidato já era viril. Multo frequentes, bem a pedfa (pontas de flechas, tigelas, almofariz, cachimbos,
as festas religiosas terminavam com procissões e corridas rituais. figurinhas antropomórficas), o ouro, o cobre e o osso.
TUPI - Pràticamente ocuparam superficie aproximada à do Sua religião permanece por explicar mas sabe-se que ado-
território brasileiro. A área situada entre o médio Rio Paraná raram as fôrças da Natureza, o Sol, a Lua, o raio, as tempes-
e o alto Rio Paraguai terá sido o centro irradiador dessa raça tades. · Ligavam-se fortemente ao espirito dos mortos, tendo-os
que no seu âpogeu coexistiu com os jês, caraibas, nuaruaques, como guias para a vida material.
kiriris, panos, guaicurus, goitacás, carajás, bororos, trumais, pa~
recis, nhambiquaras e outros. Habitava a oca, galpões cober- BANTO - Sob esta denominação cultural, agregam-se os
tos de fôlhas de palmeiras, agasalhando geralmente mais de cem negros de origem angola-congolesa. Eram indivíduos altos, del-
pessoas. Os homens fabricavam armas, instrumentos musicais, gados, mais fracos que o comum dos trabalhadores africanos,
embarcações. As mulheres teciam e produziam cerâmica uti- loquazes, amigos de festas, introdutores de práticas f olclórlcas,
litária. Trabalharam a madeira, o osso e principalmente a pe- da .cáp~ira, etc. Com tai.s características haviam de dar boa
dra. As lavouras eram tratadas igualmente por homens, mu- contribuição à mitica e ·ao folclore americanos. Arthur Ramos
lheres e crianças. Não construiram nada importante, vivendo quis ide~tificar a procedência banto para a maior parte das
no regime do nomadismo. • mq,cum~as do Rio. de Janeiro e da Bahia.
'•
Religiosamente. segundo Angyone Costa "êsse povo rude 1i: no livro O Negro na Música Brasileira, de Luciano Gallet
e selvagem não tinha uma crença estratificada num ser supre.. que se obtém a melhor referência sôbre a religião e .a mttlca
mo, nem cerimonial que, pela fórmula externa. do culto, pudes.: dos cambindas: "adoram as pedras, os paralelepipedos, as lascas
se ser considerado um ritual". Eram estranhos à idéia de deus e de pedras" . . . "prestam um culto especial à flor do girassol
seu totemismo e ·fetichismo, não atingiram o desenvolvimento que representa a Lua", "reúnem-se em sessões chamadas ma-
16 17
cumbas e ai invocam seus santos: Ganga-Zumba, Cangira- g1ao maometana. Os huassás, radicados prtncipalmente na
-mungongo, Cubango, Lingongo e outros". Bahia, foram seus representantes brasileiros. Grupo numêri-
Acreditavam em um deus crtador, conhecido por vártos ca~ente pequeno, marcou influências profundas, algumas das
nomes, conforme a região. Cultuavam os mortos, os antepas- quais permanecem. Eram altos, robustos, trabalhadores, usa-
sados, os deuses lares, entidades bem e malfazejas, etc. Além vam o cavanhaque distintivo dos negros islamizados. Manti-
do Brasil, deixaram marcas na mítica e no comportamento dos nham padrão muito austero de vida e recusavam-se ao conví-
bush negroes das Guianas. vio de outros negros. Absorveram vários grupos sudaneses
como os tapas e os nagôs.
IoRUBA - Proveniente do Gôlfo da Guiné, foi a mais adi-
1:sse caráter altivo, segregacionista, fizeram-nos antipáticos
antada cultura negra introduzida nas Amértcas. De modo es-
e resultou nas sangrentas revoltas de 1807, 1809, 1813, 1816,
pecial, nas Antilhas e no Brasil. O grosso de sua imigração 1826, 1827, 1828, 1830 e na grande, de 1835. Motivos religiosos
é dos fins do século 18 e começos do 19. Radicara-se em sua
estiveram na base dessas rebeliões, ao fim das quais, os huassás
maior parte na Bahia, representada pelos nagôs. Eram negros estavam pràticamente extintos. O acervo de sua cultura ficou
altos, corpulentos, valentes, de boa indole, apreciados pela in- com os muçulmis ou malés, também chamados alufás. Vestuá-
teligência. Sempre que, neste livro, se falar em mitica oyó, Iio {a clássica roupagem da baiana) e terminologia ampla, são
ilortn, ijexá, ibadan, ifé, yebu, egbá, está se falando de regiões os vestigios principais de sua vivência no Brasil.
e influências miticas ioruba.
A religião e os cultos nagôs são cópias mais ou menos . ~01:A:. - O asterisco posposto a uma palavra, no texto do di-
fiéis dos orixás da Nigérta. A divindade suprema, Olorum, acei- c1onár10, 1nd1ca que tal palavra é objeto de verbête próprio.
ta o culto apenas através de intermediártos, os orixás. A mi-
tologia ioruba persiste hoje marcadamente em seu fundo emo-
cional, muitas vêzes misturados a concepções amerindias e euro-
péias. Mas há outras heranças: é iorubana a magia fetichista
do ebó (chamado embó, em Cuba) ou despac1w. Ata.baque ~
agogô (campainha simples ou dupla, de ferro), são contrtbui-
ções no terreno da música f olclórtca.
~ de fundo cultural ioruba o importante fenômeno dos
bush negroes das Guianas.
EWE E FANTI-ASHANTI - o Daomé foi, no passa.do, um ..
reino africano de alta cultura, vasto territórto, ímpeto conquis-
tador e disciplinado espírtto religioso. Dali vieram para a Amé-
rica, escravos que os franceses chamaram evés ou eués, os
inglêses apelidaram ewes e que no Brasil foram conhecidos por
jej~s. Tinham côr azeitona.da, eram fortes e aguerridos.
Sua cultura foi depressa absorvida pela ioruba, mas Nina
Rodrigues, reconhecendo sua influência propôs a denominação
de religião ou mitologia jejê-nagô para as formas religiosas
negras existentes no Brasil. As mesmas práticas e os mesmos
deuses eram comuns a ambas as nações. Assim, Mawu, o pri-
meiro do deuses jejês era o mesmo Olorum ·dos iorubas; Khe-
biosô o mesmo que Xangô e Loko o mesmo que Iroko.
O culto haitiano do vodu é de origém daomeana, pela via
da serpente sagrada Dá ou Dangbé. No folclore brasllefro, Ar-
thur Ramos identifica os ternos e ranchos da Bahia como he-
rança jejê.
CuLTURA NEGRO-MAOMETANA - Quase todos os negros su-
daneses trazidos para a América, estavam convertidos à reli-
Biblioteca Digital Curt Nimuendajú - Coleção Nicolai
www.etnolinguistica.org

A
..
ABAÇAI - Na definição de Teodoro Sampaio "é um gênio que
perseguia os indios e os tornavai, muitas vêzes, loucos ou
possessos". O famoso ;:..ventureiro inglês Anthony Knivet,
que, vindo à América do Sul com seu patrfcio, o corsário
Thomas Cavendish, viveu dez anos de aventuras no . Bra-
sil, contou, para o clássico livro de Samuel Purchas (Lon-
dres, 1625), haver conhecido a ação dêsse gênio mau que
êle chama Avasati. Diz "ter ouvido um indio que estava
' ... nes~e estado, falar com o espirito e ameaçá-lo de fazer-se
cristão, se o espirito o pe;rseguisse, e com tal ameaça êste
o abandonou".
ABAGOS (LOS) - Dança indigena equatoriana, parte de an-
tigo culto ao deus Sol. Simboliza a luta entre o Bem e o
Mal, vencida, afinal, pela fôrça solar. Depois da conquista,
identificou-se com a festa católica de Corpus Christi.
ABALAú-Am - Orixá da varfola, no culto jejê-nagô. O
mesmo que Obaluaiê, Babalu-aiê, Afomã, Xapanã, Saponã,
Omonolu ou Omolu. Também aparece sob a forma de Aba-
luché, identificado com São .Sebastião.
ABALU:S: - No . culto nagô, nome de Omolu •, chefe quim-
banda na Linha das· Almas.
ABALUCH!t - O mesmo que Afomã, Babalu-aiê, Obaluaiê,
Omolu, · Omonolu.
ABANECUSJ - Nos mitos afro-cubanos, juramento iniciático dos
fia.fllgos. Também Obonecué.
ABARKWA - Das mais fechadas sociedades secretas de fundo
religioso e racial afro-cubana.
ABAS! - Deus máximo de culto afro-cubano. :m a origem da
raça, o que espiritualmente ficou no céu orientando ou cas-
tigando os terrenos. Por extensão é o supremo poder espi-
ritual. Criou tôdas as coisas retirando-as da copa ou do Oco
do tronco de uma grande árvore. Seus filhos Mberi * e
Acué * foram os primeiros homens.
ABASSI - Entre as tribos negras ocidentais, nos territórios da
antiga Ãfrica francesa, o deus que povoou o . mundo. ·O texto
ABA 20 21 ACU

foi recolhido por Blaise Cendrars e incluido em sua clássica caçador. O outro deus da caça era Zuhuyzub-Zipitabai. Na
Antologie Negre: "Abassi levantou-se, sentou-se em seu tro- cerimónia propiciatória, ao abrir da estação da caça, os sa-
no fêz tôdas as coisas superiores, tôdas as coisas inferiores: cerdotes lançavam ao braseiro uma espécie local de incenso
a Agua, a selva, o rio, as fontes, as tribos da selva; fêz tôdas enquanto os caçadores untavam com betume azul a flecha-
as coisas, de tôdas as espécies, no mundo inteiro. Não f êz -oferenda retirada a um carcás feito da inteira ossada de um
o homem. / Todos os homens habitavam no céu, com Abassi. veado.
Por isso, não existia nenhum homem no mundo terreno."
"Todos os homens estavam no destêrro, habitavam com Abas- ACA PEM - Mito da região guaranitica. Toma a forma de
si a sua aldeia. Quando Abassi se sentava, juntavam-se a um velho índio vagante, não identificado em parte alguma.
êle. . . Por fim Altai disse a Abassi : " . . . possuis a terra, Apresenta na cabeça ferida profunda e incurável, da qual
possuis o céu que os homens habitam conosco, fizeste um nascem, de tempos em tempos, nuvens de gusanos e mos-
lugar de propósito para estar nêle e, se não colocas lá os cardos.
homens, será malfeito. Procura um meio de colocar os ACCOMPONG - Na Jamaica, sob a influência cultural e re-
homens na Terra · para êles morarem e acenderem fogo de ligiosa dos negros Coromantis ou Kromantis ou Coromantins
jeito que o céu esquente, porque agora faz aqui um frio enor- levados escravos da Costa do Ouro, Accompóng é um dos três
me, por causa de não haver fogo na Terra." Abassi concor- deuses ou espíritos invocados nas cerimônias funerárias ou de
dou e os homens que habitavam o céu foram postos na Terra
homenagens aos mortos. A cerimónia de invocação, neces-
por causa do pedido de Altai."
sàriamente termina pelo sacrifício de um galo ou de uma ca-
ABATWA - Pigmeus dotados de podêres mágicos espec1a1s, bra, cujo sangue é espargido sôbre a sepultura. Cada chefe
para tribos da Africa central e centro-ocidental. Tratar-se-ia de família presente à solenidade sacrifica um animal e pro-
de indivíduos de tão pequeno porte que poderiam passar de- cede do mesmo modo. Ao final, os animais mortos são pre-
sapercebidos entre a vegetação erbácea. A pessoa que, ape- parados para o banquete fúnebre que se segue. Os outros
sar disso, tiver a desfortuna de pousar os olhos sôbre um deuses invocados na cerimônia são Assarei e Iploa, além
dêles será alvo de suas flechas enfeitiçadas. dos tutelares da familia do morto. Accompong seria a versão
'
ABICU - Em certos cultos afro-cubanos, espírito mau, ator- coromanti do N yankompong dos povos Ashanti.
mentador dos homens e que se encarna em um menino, sem-
ACHACHILLA - Na região de Puno, Peru, espiritos tutela-
pre o primeiro nascido de parto triplo ou quádruplo. Faci-
res que, em troca de ofertas anuais de fõlhas de coca e de
lita seu reconhecimento o fato de que os irmãos, horroriza-
chichá, exercem proteção sôbre a saúde, o vigor físico e as
dos com tal fraternidade, morrem e êle sobrevive, muito vi-
colheitas dos indios.
çoso. Uma vez identificado, pode ter anulados seus efeitos
diabólicos quando submetido a um banho ritual na água re- ACOSTA - José de - apelidado por Humboldt "o Plinio do
sultante de cozimento de várias ervas especiais. Nôvo Mundo'', poeta, historiador, humanista, geógrafo. 1l cro-
ABOMA - V odu * serpente dos cultos daomeanos, entre os nista da segunda metade do século 16, no Peru. Escreveu
bush negroes * de raça Fanti-Ashanti, radicados no interior obras preciosas para o conhecimento da mitologia inca: His-
da Guiana Holandesa. Também invocado sob o nome de tória Natural e Moral de las bulias, publicada em Sevilha,
Dagowe. 1590; De Procuranda Salute Indorum, 1588.
ABONAGAR - Vodu da famllia dos Houlas *, guerreiro fe- ACU1l - Também Ecué, tido pelos afro-cubanos do culto de
roz ao qual os crentes fons do Daomé atribuem as violências Abassi * como o primeiro homem sôbre a Terra, moldado
d0::: ventos e das ondas do mar. E como a violência sucede com a seiva de uma grande árvore. Tem como irmão a.
aos primeiros e menos raivosos movimentos das ondas, acre- Mbéri, seguindo as crenças afro-americanas de que os he-
ditam que Abonagar se põe furioso e enciumado com o on- róis povoadores só podem atuar em dupla. Em contato com o
dular feminil de sua espôsa, o vodu Hou * ou Agbé. catolicismo cubano, passou a ser representado pela figura
ACAMBO - Para os indigenas do · Caribe, formava, com Yris, de Jesus Cristo - o Deus Filho.
o mais alto par de espíritos divinos.
ACULI - Personagem mítico dos índios taulipangues, da área
ACAMUM - Para as nações do Iucatã, um dos deuses que po- da Guiana Brasileira. Insere-se no mito geral de Macunai-
diam propiciar boa caça.da ou tornar inúteis os esforços do ma *, dizendo respeito especificamente à árvore da vida e
ACU 22 :23 ·AGA

a.o dilúvio. Aculi, que naquele tempo era homem, encontrou, que dá~ No entanto, os podêres adivinhatórios ·l he serio· iinpos-
durante uma época de grande fome, a prodigiosa árvore va- tos por um raio que o atingirá sem lhe fazer mal ou deixar sinais.
.~acá• que dava tõda.s as frutas boas: ~' mamão, ADJAúTO - Segundo as versões correntes em Alada, Hog-
acaju_ e milho. Comia . e comia mas não revelava o segrêdo -fonu (Pôrto Nõvo) e Abomey, cujas casas reais proclamam-
a seus cinco irmãos. Macunaíma, decidido a conhecer o mis- -se seus descendentes, Adjaúto tem parentesco chegado com
tério do único homem sem fome e ainda gordo, abriu os bei- Agassu, uma pantera prodigiosa. Em algumas versões, a pan-
ços de Acull, adormecido. Viu restos. Provou. Reconheceu tera é macho e teria mantido amôres com a espôsa do rei
frutas. No dia seguinte mandou seu ajudante Oali que então de Tado. Em outras, êste rei é que tomara por mulher uma
era homem e hoje é esquilo, seguir Aculi. Ca1i quis ser pantera metida em corpo feminino, dessa união nascendo o
muito esperto, acabou enganado, picado nas pálpebras por herói. Logo depois de nascido, mostrara qual seu gênio e
vespas, não pôde seguir Aculi e até hoje tem os olhos incha- disposição, ao matar o irmão Adjá na disputa do trono. Do
dos. No outro dia, Macunaíma enviou o irmão mais velho, fratricidio resultou-lhe o nome que significa: "o matador de
Manape, e êste obteve o segrêdo das bananas. Fizeram gui- Adjá". Devendo fugir, com 's eus seguidores, fixou-se . em
sado de bananas, comeram, era bom. Macunaima mandou Alada. Séculos depois, seus descendentes, chefiados por Dako
cortar a grande árvore para colhêr tôdas as frutas. Aculi Donu fundaram o reino de Abom.e y · enquanto outros, coman-
opôs-se : ficariam sem as frutas e brotaria uma grande água dados por Té Agbanlin, fizeram o mesmo em Pôrto , Nôvo.
no lugar da árvore. Não o atenderam; Anzikilan ajudou o Todos os anos, nestes lugares, realizam-se festas rituais.- em
irmão Manape a derrubar a árvore de tôdas as frutas boas. memória do ancestral comum, o filho da pantera, que ,recebe
A medida em que golpeava, Manape dizia palavras mágicas água obtida pelas sacerdotisas de seu culto, no pântano · sa-
para tornar mole a madeira do tronco e Aculi procurava grado de Sodjii.
tapar com cêra e cascas de frutas os buracos abertos pelo
machado na árvore. Por fim o tronco caiu. Caiu para o ADLIDEN - As vêzes Adlivun, região mitica dos esquimós.
lado norte e as sementes da árvore fizeram nascer por lá O mesmo que Takánakapsaluk *. Estaria no fundo do mar,
as bananeiras que ninguém plantou. Mas elas estão do lado reino de Sedna * a "mãe dos animais" e onde as almas
norte e pertencem aos Mauari *, os demônios da serra. Do cumprem penas temporais ou .eternas. Em casos · de necessi-
tronco tombado manou muita água e nela passaram a viver dade pode ser visitada pelos feiticeiros tribais que vão pedir
variados peixes. O tôco que ficou é o Monte Rorãima. a Sedna que liberte as focas e os ursos sem os quais os esquimós
morrerão à fome.
ACUTIPURU - - Personagem de lenda cabéua do Rio Cuduia-
ri, região do alto Rio Negro. Liga-se ao mito geral de Juru- A:m - A primeira mulher, na mitica dos acagchemen da Ca-
pari através de Uaiú, companheiro e apóstolo do herói-deus. lifórnia. Teria sido modelada com a terra da camada super-
Acutipuru era uma mulher-homem que habitava entre a gen- ficial - aquela aquecida pelo sol e fecundada pela chuva
te da Serra do Japó. "Acutipuru paria crianças fêmeas, bo- - saindo das mãos do deus Nocuma * o qual, na mesma
nitas como as estrêlas do céu. Quando emprenhava as mu- oportunidade criara Ejoni, o primeiro homem.
lheres - na sua função de homem - , estas pariam crian- AFLAMU - Deidade entre os Djukas da Guiana Holandesa.
ças machos bonitos como o Sol. Teve uma filha, Erem, ge-
Invocado para manter a distAncia os espiritos maus.
rada por Uaiú que então andava na Serra do Japó impondo
a lei de Jurupari. Um dia Uaiú quis fazer amor com a filha AFOMA - O mesmo que Omolu, Omonolu, Abaluché, Xa-
Erem. Ela recusou-se, fugiu. Casou-se com um chefe, Can- panã, Obaluaiê, Babalu-aiê, Homoulu.
celri, originou uma guerra que terminou com o exterminio
de sua gente". AFONJA - O Xangô dos nagôs. Orixá do relâmpago e dos
trovões.
ADEN - Nos cultos daomeanos, entidade da "família" dos
AFTI - Entre certas tribos pastoris do centro africano, aftis
Heviossos • que executa sua tarefa de conduzir as trovoadas
são feiticeiros e feiticeiras, que podem transformar-se· em
e os raios manifestando-se apenas quando o céu se mantém
leões, leopardos, hienas. Sob estas formas. animais come··
escuro e cei uma chuva fina e continuada. tem grandes malfeitorias.
ADIVINO - Na mitica hispano-americana, especialmente na
Argentina e pafses vizinhos, aquêle que. já no seio materno, AGAJU - Ou Aganju, deidade à qual os lucumis de Cuba
anuncia haver sido escolhido para adivinho, mercê dos gritos confiam a tarefa de obstruir as ações de Obatalá ·~ As
AGA 24 25 AHO
vêzes é reverenciado também como senhor das águas fluviais. mente com Ahalpu * praticava maldades extremas coritra
Sincretismo como San Cristóbal de La Habana. os caminhantes, os madrugadores, os enfermos.
AGALLU - Entre os feiticeiros dos cultos afro-cubanos, o
AHAI,..MEZ - Ser diabólico da . mitologia quiché (Guatema-
diabo, "o senhor das coisas más". Invocado nas práticas de
la e .I ucatã), hábil e constante no provocar desgraças entre
feitiçarias danosas, evitado naquelas favoráveis como sejam
~homens. Apreciava atormentar os agonizantes e os mortos.
o preparo de filtros amorosos, fórmulas de enriquecimento, etc.
Picava os ombros e vazava os olhos dos enforcados· enru-
AGANJU - Deus menor dos nagôs, filho de Obatalá (o céu} gava e fazia inchar o corpo dos afogados. Manti~a um
e de Odudua (a Terra) . Irmão e marido de Iemanjá (as pacto com as aves carniceiras, arrastando para sítios indi-
águas), simboliza a terra firme. cados por elas os cadáveres de quem havia atormentado.
AGBi'.: ou AGBltTO - Também Hu, Hou * a principal divin- Como todos os demónios quichés, êste operava em dupla com
Ahaltoyob *.
dade do mar e, por extensão, das grandes porções liquidas,
pa.r a os zulus e os fons. No curso da cerimônia de Gozin - AHALPU - Ser crudelissimo, na mitologia quiché. Nêle e
isto é, "a jarra", os fiéis prestam tributo a Agbé. Antes da em se~ igual Ahalgan~ *.concentrava-se todo o espirito da
ocupação européia das terras zulus, a cerimônia. importava destrwção sem outro obJetlvo que o de destruir. Sua atuação,
em sacrificios de animais e o grande sacerdote de Agbé che- no corpo humano, principiava por inchaços. Também cos-
gava à praia montado em um boi branco. Atualmente no turo.a va abrir chagas nas pernas e nos pés dos caminhantes.
decurso de cerimônias menos pomposas, a certo momento, Fazia empalidecer o rosto dos madrugadores, punha curvas
o sacerdote cavalga um homem, relembrando o boi. Os fiéis as suas espinhas e tendo-o8 entontecidos, levavam-nos por ca-
portam jarras com que levam para casa a água apanhada minhos esconsos do mato até que tombassem em preci-
no mar no momento sacrificial. picio. Freqüe:ntemente entrava em casas onde M.vta enfer-
AGIU: - Nome com o qual, nos terreiros de filiação jejê, mos, arrastava-os Pelos pés até sitios ermos onde ninguém
poderia levar socorro.
principalmente na Bahia e no Daomé, é invocado Oxóssi •,
o orixá * da caça. AHALTO!OB - Companheiro de Ahalmez *, no conjunto dos
AGIDA - Invocação dos bush negroea * de crença daome- demôruos da mitologia guatemalteca. A dupla apreciava ator-
ana para o vodu * que representa a Mãe Terra, a compa- mentar os agonizantes e os mortos, de modo especial os en-
nheira e às vêzes o deus supremo Massa Grand Gado. forcados e os afogados. No verbête dedicado a Ahalmez des-
creve-se a atuação de ambos.
AGSCHEN - "Espírito poderoso e temível, dono e senhor
do fogo e das fôrças ocultas nas entranhas" do selvagem, AHARAIGUICHI - Também QUEEVJ!'.:T, na mítica dos abi-
indomável Cêrro Fitz Roy, no território patagônico de Santa pons é a constelação das Plêiades, representação estelar da-
Cruz. Tem impedido, com socorro de ventos, névoas, raios quele mau espirito, avoengo menos simpático da tribo. Quan-
e até sacudidelas do solo, que o monte seja escalado. do a constelação d~parecia, significava estar o avoengo
adoentado. Por isso havia festas de regozijo quando do sur-
AGUARATUNPA - Herói civilizador que com pequenas va- gimento das estrêlas. Sinal da vitalidade e da perpetuidade
riantes está presente na mitologia dos caraibas, aruaques, da raça.
guanás e txanés. Devem-se-lhe as florestas. "Um algarobo
era a mãe de tôdas as árvores, vigiado por uma velha. O AHKAKNEXOI - Na mitica das mais primitivas tribos do
herói Aguaratunpa alcança iludir a vigilância da velha e Iucatã o principal entre os deuses da pesca marítima. Os
roubar sementes do algarobo que oculta em um dente caria- outros deuses eram Ahpu e Ahcitzamalcun. Ao fim de festas
do para semeá-las mais tarde". (Ver Nãreatedi) que tomavam dois ou mais dias, os sacerdotes abençoavam
o mastro-referência dos pescadores e todo o povo entrava
AGUASU - Nos cultos afro-haitianos o vodu que custodia pelo mar, manejando rêdes. O final da. festa era um anima-
as tradições caras ao povo e zela pela manutenção dos bons dissimo. baile chamado chohom.
costumes e da tradição.
AHô AHô - Mito da região guararútica. Descrito como
AHALGANA - Um dos sêres mais cruéis da prolongada lista grande animal, informe, escuro, pelam.e farto e veludoso.
de espiritos dêsse tipo, na mitologia quiché, conforme o elen- Ora semelha uma ovelha, ora um urso. Persegue e devo-
co mencionado no ciclo dos mágicos do Popul Vuh. Junta- ra quantos individuos se extraviem na floresta. Escapam
AHf 26 27 AKR

·a penas os que sobem a uma palmeira, por ser esta a árvore · terra. e de tMas . as coisas intermediárias, à semelhança dos
sagrado do calvário. Se o perseguido grinpar outra árvore, deuses americanos de igual quilate era macho e fêmea.
o ahó ahó cava junto às raizes até derrubar o vegetal Cân-
dido Nufíez que estudou o ahó ahó no Paraguai diz que AIGAMUCHAB - Para a maioria das tribos hotentotes e bos-
êste nome é· devido à pelugem: escura como a de um poncho qulmánas da Ãfrica do Sul, Aigamuchab seria um ogro cani-
· utilizado durante a noite : ahó significa. roupa, e ah6 ahó bal, ferocissimo. Dotado de olhos noa pés 'p oderia acuar e
· muita e abundante roupa. fugir . com extrema facilidade.
AHPU - "Em tempo impossivel de precisar viveram na terra ~INOT~ - Chefe pareci, dos primeiros da tribo. Sentindo-
quiché, os senhores Ahpu": assim começa o Popul Vuh * a -se morrer, ordenou que seu filho Kaleitôe o enterrasse no
narração do mito dos irmãos dotados de extrema sabedoria. meio da roça. E que cuidasse da cova, pois ao fim de três
e bondade. . . . "magos e feiticeiros, não eram egoistas mas dias brotaria d~la uma planta, a qual depois de certo tempo
pródigos", ajudavam a todos, eram "cantores, oradores, joa- produziria dezenas de sementes. Estas não deveriam ser
lheiros, escritores, cinzeladores, entalhadores e profetas". Jo- comidas, mas rep~antadas. Assim, por três vêzes seguidas,
gando a pelota, seu entusiasmo e habilidade irritou os inve- ao fim d8:s quais a tribo teria l?ara sempre alimento bom e
josos senhores de Xibalbá que os mandaram prender, cedendo seguro. Dêsse modo, os pareeis e logo as outras tribos
assim à ira e aos génios do mal. A noite, em sua prisão, conheceram o milho. (Veja Avati)
foram mortos a golpes de maça.. No mesmo instante rugiu
AJA · . . . .;. :Entre 0s nagôs, espirito benfazejo que em meto a
feroz tormenta e na manhã seguinte floresceu a grande ár-
redemoinhos de vento arrebata seus escolhidos levando-os para
vore "dos avós" que ja.mais mostrara flor ou fruto. Ixquic, sibos isolados onde aprendem a arte da magia e do curan-
uma ·virgem que fôra ver o prodígio, recebeu na palma da
deirismo.
mão um fruto da árvore e logo foi tomada de um prazer
inefável. Ao ·fim de duas luas, seu pai - Chuchumaquic •, AJ1r:-XALUGA - Para os nagôs, o deus da Medicina, pro-
servo de Xibalbá, percebeu-a grávida e de acôrdo com a lei piciador da saúde. ~ o décimo segundo dos quinze orixás
;mandou-a matar, na floresta, pelos Buhos seus sequazes. surgidos quando arrebentou o ventre de Iemanjá. A. Ellis,
Ela suplica, um misterioso jôrro de sangue enche o vaso em Nina Rodrigues e CAmara Cascudo registram estar em rá-
que deveriam levar ante o pai e os chefes o sangue da jovem. pido desaparecimento o culto dêsse . orixá.
Acreditando-a grávida de semideuses, os Buhos deixam-na
viva e exibetn o sangue misterioso. Jun Camé, o juiz feroz AJIA-ANANSI - Para os prêtos tishis, é a aranha antepas-
manda que tal sangue seja lançado ao fogo. Nas brasas, o sado do homem e exemplo de sabedoria e de finura. Com
sangue ardeu desprendendo fumo suave e oloroso como se a espôsa Tacunia, vive as mais curiosas aventuras e de tôdas
'fOSsem ervàs e·· ralzes divinas e não sangue humano. Vendo sai triunfante graças à sua inteligência e habilidade verbal.
isso os Buhos correram a pedir perdão a Ixquic e libertá-la. A Jamaica é o território americano onde a lenda africana
Livre, ela foi ter à casa de Ixmucarté, mãe dos Ahpu e que ganhou maior popularidade.
estava acompanhada pelos netos órfãos Hunbatz e Hunchouén. AKA-KANET - Entre os araucanos do Sul do Chile e da
A sogra não acreditou nela, recusando-se a recebê-la, mas Patagónia, o deus da colheita de grãos e frutos. Residia
por fim submeteu-a a provas. Auxiliada por sêres divinos, entre as estrêlas Plêiades.
Ixquic saiu-se bem e foi recebida como nora, dando à luz,
tempos depois, sõzinha, no meio do mato, aos gémeos Hu- AKARUIO BOROGO - Filho do herói Itubore •, ensinou aos
nahpu * e Ixtalanque * os quais haveriam de realizar gran- bororos a técnica da perfuração dos lábios e das orelhas e
·des prodígios. o uso do estôjo peniano.
AH PUCH - O deus da morte para os maias e outros povos AKLOMBJfl - Para os fons e cultos daomeanos, o mais vio-
do Iucatã. A cabeça era um crânio descamado, uma quanti- lentó dos membros da "famllia" dos Heviossos • encarre-
dade de cascavéis a sua companhia inseparável. Freqüente- gada de administrar os raios e os trovões. Jtste Aklombé mos-
mente associado com Ek Chuah o deus da guerra e, como tra ex9epcional pericia em rachar com o raio o crànio das
ê~te, ,divindade. malfazeja. pessoas e animais, fulminando-os sempre pela testa.
AHSONUTLI - Deus principal dos indios navajos, do atual AKRA - As almas sem corpos, ·e que merecem culto respei-
Estado do Nôvo México (E.U.A.). Criador do céu e da toso dos negros · da Guiana Holandesa de origem Fanti-
AKR 28 29 AMA

-Ashanti. A Akra não se confunde com o yorka - o espirito do século passado ter-se-ia (sem confirmação) descoberto seu
dos mortos e não são winti, isto é, deuses. túmulo oculto. Entre os despojos, uma espada e um es-
cudo com inscrições que, segundo os defensores desta mito-
AKRITõ - Na mitologia dos caingangues, ser malfazejo, ator- -história indicariam o grau e o nome do infeliz comandante
n:ientador dos homens e sempre em .oposição a Topê • o da expedição alexandrina.
benfazejo por excelência.
ALHUE - Entre os araucanos, a alma dos mortos, que vaga
AKSAK - No Chaco paraguaio, divindade que retirou o pelo mundo a cumprir penas. Crêem ademais que em certos
primeiro homem e a. primeira mulher de um orificio aberto na casos os feiticeiros apoderam-se da alma no instante em que
terra por um escaravelho. Em seguida atribuiu ao casal a ela deixa o corpo de um individuo de mau gênio e utilizam-na
tarefa de reproduzir o gênero humano. em suas malfazenças.
ALABA - Orixá jejê. .o mesmo que Elegbará, cottesponde ALIJENU - Entre os negros malês, espiritos diabólicos. A pa-
a Exu. lavra é de origem arábica, passando para o haussá como
ALAMOA - Mito da Ilha de Fernando de Noronha. Sempre aljinnu (o espirito do mal) .
na véspera de tempestade violenta aparece na. praia, pelo ALJINU - O mesmo que Alijenu.
anoitecer. Lembra uma iara, pois ostenta cabelos longos, se ALTA! - Entidade de categoria divina, que na mitica das
bem que loiros, o que justifica seu nome no dominio popular. tribqs negras da. antiga Africa ocidental francesa, habitava o
Não traz roupa sôbre ó corpo e põe-se à dançar à luz dos céu em companhia de Abassi * o deus que se acomodava em
relâmpagos. Homens que a vêem e não .fogem à essa visão, seu trono celeste absorto na contemplação das coisas supe-
morrem de pavor, deixando o esqueleto a esbranquiçar na riores e inferiores de sua criação. Também os homens ha-
praia. Dizem tratar-se de alma penada a cumprir sina, da bitavam o céu e como eram numerosos, tomavam incômoda
qual estará liberta quando impressionar homem valente o a situação da grande aldeia de Abassi e Altai, principalmente
suficiente para desenterrar o tesouro que jaz oculto no Pico, na. hora da comida. Por tal razão Altai iniciou uma campa-
ponto culminante da Ilha. Mário Melo, em Arquipélago de nha de persuasão e invocando desconfôrto, frio e irregulari-
Fernando Noronha conta que "certo dia um presidiário pes- dade na. ordem que deveria presidir a estrutura do mundo:
cava sõzinho ao escurecer. Sentiu prêsa ao anzol. Ergueu a deus no céu e homem na terra, conseguiu que Abassi fizesse
vara. Era o rosto da francesa em corpo de sereia. O pes- o gênero humano baixar das delicias fáceis do céu para as
cador correu e a visão o chamou de miserável por não ter agruras disputadas da terra. Situação pràticamente idênti-
querido desenterrar o tesouro. E a luz há de viver no Pico, ca ocorre na lenda de Wulbari * que habitava a terra em
como fogo-fátuo, até que um dia o ouro que o espirito guarda companhia dos homens por êle criados. Mas os homens tor-
seja dado a alguém". naram-se tão numerosos, . egoistas, incômodos, reclamando mais
ALCABISA - No ciclo de Vira.cocha, da mitografia. colla-inca, e :rµais espaço que Wulbari decidiu viver sõzinho: subiu às
o herói mitico, famoso e fiel cacique, a quem o deus Viraco· alturas e deixou os homens entregues à sua sorte.
cha instituiu guardião da ordem universal que terminara de AMADHLOZI - Os espiritos dos ancestrais, para os bantos.
instaurar na Ilha Titicaca. Tão bem se conduzira que pu- Usa apresentar-se sob a forma de serpente, mas também
dera propiciar aos quatro irmãos Ayar * oportunidade para adota as de leão, leopardo, ou do animal selvagem que mais
deixar a gruta de Pacaritambo a fim de fundar a dinastia e o o haja impressionado. Mas se durante a vida entregara-se
império incas. a práticas de feitiçaria, o Amadhlozi só pode assumir, nos re-
ALEXANDRE - O Grande. Da mitologia especulativa refe- tornos ao meio dos seus, a forma de hiena.
rente à América pré-histórica, faz parte uma expedição en-
viada pelo jovem senhor do mundo, no ano 331 a.e. Naqueles AMALIVACA - Divindade criadora e civilizadora na região
dias, ao tomar e destruir a cidade de Tiro, teve conhecimento do Rio Orinoco.
das prósperas colônias fenicias na América do Sul, especial- AMANCAY - (Hieronymiella) Açucena silvestre da Bollvia,
mente no nordeste brasileiro e nos montes peruanos. Teria Peru, Chile e norte argentino. Flor sagrada por ter sido
enviado forte esquadra para apoderar-se dessas colônias e de objeto das preferências do grande Pachacamac, o "deus vivi-
seus tesouros. Tal esquadra, desconhecendo os perigos da ficador do mundo". Se de repente o céu se põe escuro e de-
navegação na Bacia do Prata, foi fustiga.da. e destruida por saba uma tormenta é porque, provàvelmente, alguém mal-
vendavais na costa uruguaia, próximo a Montevidéu. Em fins tratou um pé de amanca.y.
AMA 30 .31 AMI

· AMAO - Divindade para os camanaos, da região do Rio · Ne- tão corajosamente que os indios não ousavam mostrar as es·
gro, Amazonas. Ensinou aos índios as ·artes ' domésticas e a páduas, e ao que fugia diante de nós, o matavam a pautadas".
fazer tôda sorte de farinha. Sendo virgem, foi brincar no ". . . residiam no interior, a sete jornadas da costa. Eram sem
~o, um peixe engravidou-a. Nascido o filho, foi pescar e marido. Dividiam-se, numerosas, em setenta aldeamentos de
voltando encontrou-o morto. Velou-o e na hora do entêrro pedra, com portas, ligadas as povoações por estradas á.m·
o menino disse: "Mãe, repara como bichos e aves estão paradas, dum e doutro lado, com cêrcas, exigindo pedágio
rtn'd o de nós. Êles me assustaram com seu riso .~ morri. a os transeuntes. Quando lhes vinha o desejo, faziam guer-
Transfoqn.a-os em pedra". Foi o que ela fêz. Por: i,f:lso há ra a um chefe vizinho, trazendo prisioneiros, que libertavam
tanta pedra no mundo. depois de algum tempo de coabitação. As crianças masculi-
nas eram mortas e enviadas aos pais e as meninas criadas
AMARAL J1'NIOR, AMADEU - Autodidata, cultivador : da et- nas coisas da guerra. A rainha se chamava Conhori. Há ri-
nografia e do folclore, nasceu em São :Paulo (10-11-1910) e queza imensa de ouro, prata, serviços domésticos em ouro
·ali faleceu (20-12-1944) 6 Viajou o pais · inteiro reunindo ma- para as fidalgas e de pau para as plebéias. Na cidade prin-
terial que divulgou, depois de trabalhá-lo cóin . proveito· e acui- cipal havia cinco casas grandes, com adoratórios dedicados
dade. Sua obra mais conhecida é "Superstições Paul~stasº, in ao Sol. As casas de devoção são os Caranai. Têm assoa·
R~ta Nova, S. Paulo, 1931. lho no solo e até meia-altura, os tetos forrados de pinturas
coloridas. Nesses templos estão ídolos de ouro e prata em
-AMARO - Nas montanhas e vales peruánós, desde óS tem- figuras femininas e muitos objetos preciosos para o serviço
pos pré-conquista, ser descomunal, por vêzes informe, por do Sol. Vestem finíssima lã de ovelha do Peru. Usam man-
vêzes tomando a forma de touro. Precede e guia os ihuan- t as apertadas, dos peitos para baixo, o busto descoberto, e
cos, torrentes de neve, chuva, gêlo e ·pedra. que descem dos um como manto, atado adiante com uns cordões. Trazem
· pincaros semeando morte e desolação. cabelos soltos até o chão e na cabeça coroas de ouro, da lar-
AMARU - Serpente de dupla cabeça, presente em todos os gura de dois dedos". Outro frade, Alonso de Rojas, jesuíta,
mitos incas relativos à criação do mundo e ao terror do ho- disse delas que: "eram umas mulheres que não tinham mais
mem face às convulsões da Natureza. Também ligada à de um seio, muito grandes de corpo ... ".
profecia do fim do mundo, ocasião em que . surgirá das entra- AMAYICOYONDI - Para 0s pericues da Califórnia, a primei-
nhas rompidas da terl1l para devorar os últimos homens. ra mulher. Casada com o ser supremo, Nyparaya *, deu-lhe
AMAUTA - Entre os incas, o sábio, o filósofo, por extensão dois filhos, heróis civilizadores: Quaayayp * e Amayicoyoncll.
o adivinho. Sob o reinado de Pachacutec, os amautas oficiais, A-MER-IK - Tal seria a grafia do nome do nosso conti-
juntamente com os haravecs, poetas também oficiais refor- nente no idioma sumério que, segundo o estudioso Peregrino
mularam a mitologia do império, a finl de .reforçar a linhagem Vidal * foi aquêle utilizado pelos povoadores americanos.
divina dos reinantes e codificar os panteões dos povos subme- No idioma original, A-MER-IK significaria: a "Tôda cerca-
tidos. Criaram um sincretismo que visou harmonizar os ri- da pelo oceano." Com uma variante: Am-er-ik-a quando
:tos e as . denominações. Seu trabalho principal - bem suce- seria traduzida por "morada dos brilhantes cantores do
dido ao que parece - foi obter ·uma espécie de identificação templo"!
entre o grande deus antigo Vira.cocha e · o deus nôvo mas AMIMITL - Deus que freqtiente e necessàriamente demons-
oficial - o Sol.
trava e exercia sua proteção para com os caçadores recém-
AMAZONAS (Ver Ooniapayaras, Icamiabas, Matininó) . -fixados na zona lacustre do México, época em que os vizinhos
Mito antiquíssimo, existe na Asia, é conhecido na Europa. chamavam-nos atlaca chichimeca, o que significa "os selva-
Mulheres guerreiras sempre as houve. ·Q uem primeiro afirma gens lacustres". Tal como o deus Atlaua *, êste Amimitl
tê-las visto na planicíe do mesmo nome, foi Frei Gaspar de dedicava-se quase que exclusivamente às populações lacus-
Carvajal, a 24-6-1541. Chefiavam esquadrões de indios contra tres de Cuitlahuac, as quais dependiam da caça às aves do
os espanhóis na foz do Rio Jamundá.. " ... são muito alvas lago. O nome e o hino com que era saudado quando da par-
e ·altas, com o cabelo muito comprido, entrançado e enrolado tida dos caçadores, pertenciam a um dialeto nahuatl pra-
na cabeça. São muito membrudas e andam nuas em pêlo, ticamente esquecido e que os astecas diziam ser chichimeca.
tapadas as suas vergonhas, com os seus arcos e flechas nas Queriam alguns cronistas que tal nome significasse: m.itl,
mãos, fazendo tanta guerra como dez indios" . . . "lutavam flecha e atl, água.
2
AMO 32
33 ANC
AMORAY - A mais antiga festa do calendário inca. Parece ANAMBURUCU - O mesmo que Nambucuru, Nanã, Anã,
remontar ao culto da serpente, celebrado pelos povos que pri- · Onanã. :m o mais velho dos três orixás das águas (Anam-
meiro se fixaram no altiplano andino. O inca Yupanqui Pa- burucu, Iemanjá' e Oxum).
chacutec que ordenou a reforma e a codificação da mitologia
inca, fundindo-a com a dos povos submetidos, criou também ANATITUÃ - Entre os carajas o espirito oposto a Rarãresá •.
um rito para a festa Amoray. Consistia, fundamentalmente, Perigoso, é o causador do dilúvio. Segundo Radcliffe-Brown
em homenagear 11ma corda de 292 metros de comprimento, e Baldus, personificação mitica das enchentes periódicas do
composta de muitos pedaços de lã em várias côres e enfeita- Rio Araguaia que dificultam ou ameaçam a existência da
da com abundância de placas de ouro. Era conservada no comunidade carajâ.
Templo do Sol. No dia principal do ciclo Amoray, sacerdo- ANCASMARA - Para os canhoris, montanha onde se refu-
tes e príncipes, em fila, tomavam da corda e mantendo-a es- giaram, fugindo ao Uno Pachacuti * - o dilúvio andino -
tendida, entre cânticos e preces davam voltas ao santuário. um pastor, sua família, lhamas, vicunhas e outros bichos.
Honravam assim a serpente mitica, guardiã dos profundos Os animais previram o desastre e perguntados pelo pastor
mistérios da vida e da morte escondidos nas entranhas dos sôbre a causa de sua tristeza e falta de apetite, mandaram-no
montes. vigiar os céus: se duas estrêlas se chocassem, o mundo se-
AMUL PULLUM UL Ciclo de canções araucanas entoa- ria coberto pelas águas. O pastor narrou o sucedido aos
das comunitária ou isoladamente com o propósito de alijar seus filhos e todos decidiram acumular viveres, reunir os re-
os maus espíritos cuja presença haja sido assinalada. banhos e subir para as cavernas de Ancasmara. A água che-
gou e subiu durante sessenta dias mas não alcançou o pico
ANÃ - O mesmo que Anamb~rucu, Nambucuru, Nanã, Onanã. Ancasmara. Quando baixaram, o pastor e sua famUia des-
ANÃ - Na mitologia guarani, o gênio do mal na acepção ceram e povoaram os planaltos andinos.
mais completa. Segundo Fariiía Nufiez é o espírito mau por !
ANCAYOC - Deus do panteão inca, personificação do pla-
excelência. Molesta incansàvelmente os homens e arrasta as
nêta Marte.
crianças que brincam junto das fontes. Na área cultural
mbiá-guarani é o grande rival do fundador da raça, o herói- ANCHANCHU - Nas montanhas e vales da Bolívia e do
..deificado Pa'í Rete Kuaray. Peru, série indiscriminada de espíritos maus. São postos em
fuga quando o indio invoca a proteção de Pachacamac * e
ANAANTANHA - " ... os índios. . . fazem uma figura do dia- Mallcu. Para que possa aproximar-se das vítimas, o Anchan-
bo num pedaço de madeira mole e sonora: esta estátua, do chu assume a forma de ancião risonho que pede abrigo das
tamanho de três a quatro pés, é muito feia pela sua imensa tormenta~ e dos fortes ventos que sempre o acompanham.
cauda, e grandes !anhos. . . Tanha significa figura, e Anaan Reside nos ermos, nas casas abandonadas, nos remansos som-
diabo. Depois de haverem soprado sôbre os enfermos, tra- brios.
zem os Piayas esta figura para fora da casa-grande. Ai êles
a interrogam, esbordoam-na a cacête, como para obrigar o ANCHIETA, JOSÉ DE, PE. - Figura por muitos titulos mar-
diabo, bem a seu pesar, a deixar o enfêrmo". Esta forma cante na história brasileira, nasceu em São Cristóvão da La-
de Anhangá, o diabo, foi registrada por cronistas europeus guna, Tenerife, a 19-3-1534 e faleceu em Reritiba (depois An-
que conheceram o Maranhão ocupado pelos franceses. chieta), ES, a 9-6-1597. Veio para o Brasil em 1553. De sua
vasta e animosa atividade apostólica, de pregador, professor,
:ANABANMI - Entre •as tribos amazônicas dos banivas, ma- teatrólogo, destacamos a de cronista, etnógrafo, gramático. São
naus, tarianas, barés, um espírito enviado de Tupã, sob a dêles os primeiros registros sôbre a mítica, as superstições e
forma de jovem mulher. Desce pelos raios das estrêlas e alguns costumes do indio brasileiro. Referência especial me-
ocupa o lugar deixado pela alma no coração do homem ador- recem nestes campos, Cartas (1554 a 1594), na edição da Aca-
mecido. Ela é que transmite ao coração do homem os reca- demia' Brasileira de Letras, de 1933; Arte da Gramática da L'n-
dos e as vontades do céu. Entre as tribos tupis, é chamada gua Mais Usada na Costa do Brasil, re-impressa em 1933, na
Kerpimanha * e não é môça, mas velha bondosa. Imprensa Nacional.
ANAHTli: - Processo e prática dos maias. Os sacerdotes
ANCHIMALGUEN - Para os indigenas chilenos, a mulher do
encarregados dos augúrios, depois de haver dividido o céu
Sol. Por seus vícios degradou-se tanto que chegou a ser
em quatro partes, interpretavam os sinais deixados pelos pás-
saros e astros. o Anchimallen * cuja maior atribuição é cuidar dos ani-
mais a fim de que não sejam abusivamente abatidos.
ANC ,, 34 35
ANCIUMALLEN - Versão chilena do Caapora"' brasileiro. Magalhães "é o deus da caça de campo; devia proteger todos
Forma de anão, guia e protetor dos animais, pode transformar- os animais terrestres contra os indios que quisessem abusar
-se em fogo-fátuo. Tal qual o Caapora negocia com os caça- de seu pendor para a caça, para destrui-los inutilmente". "A
. dores a permissão para . abater certo número de peças, porém figura com que as tradições o representam é de um veado
em vez de cachaça e fumo exige sangue ·h umano. Pode con- branco, com olhos de fogo. Todo aquêle que persegue úm
ceder, igualmente, felicidade ou infelicidade a quem o en- animal que amamenta, corre o risco de ver o Anhangá e a
contra ou desobedece os tratos estabelecidos. . Seria o último sua vista traz febre e, às vêzes, a loucura". Os tupinólogos
estado de degradação de Anchimalguen, -a mulher do Sol. Teodoro Sampaio e Testavin traduziram Anhangá por alma,
espirito 1Tlaligno, diabo, alma de fi~dos. Para muitos, con-
A?:lI>ffiA - ~ o morcêgo d9 indígena brasileiro, que, no prin- funde-~e com Jurupari.*, mas êste não tem encarnação al-
cipio da colonização foi tomado pelos religiosos catequistas e guma e o Anhangâ tem-na sempre. Assim, diz Barbosa Ro-
pe~os cronistas impressionados, como o elemento per~onifi­
qrigues que no Amazonas "quando aparece ao homem, é sem-
cador do pajé capaz de, sob tal forma, comunicar-se com o pre sob a forma de um veado, de côr vermelha, chifres co-
diabo. Imperava a crença de que esta comunicação . fôsse bertos de pêlos, olhar de fogo, cruz na testa" •
.freqüente, fácil e natural. Também. a forma da coruja era.
utilizada para o diálogo. Os cronistas da França Equinocial A'NIM~ . SOLA - Culto difundido em Cuba, principalmente
foram os mais fortemente sugestionados por êsse prodígio e entre a população de origem africana. A expressão concreta
os que mais se ocuparam dêle. D'Evreux narra as confabu- dêste culto é imagem de ferro, colocada atrás das portas das
lações diabolescas de um pajé seu conhecido. Cláudio d'Abbe- residências a fim de impedir a entrada na casa dos gênios
ville é prqdigo em referências a tal respeito. maléficos e especialmente a de Enshu *.
ANDRADE, MARIO RAUL DE MORAIS - Nasceu em São Paulo, ANTA ESFOLADA - Mito nordestino, localizado principal-
a 9-:-10-1893 e ali faleceu em 25-2-1945. Espirito inquieto, obser- mente no Estado do Rio Grande do Norte onde assombrava os
vador e pesquisador, professor do Conservatório Dramático e povoadores de além dos campos de Cuitezeiras. Tratar-se-ia
Musical de S. Paulo, dedicou-se às raizes da música e do tra- de · uma anta ardilosa que diziam ser a encarnação do espiri-
dicionalismo em tôdas as suas f orrnas. Ocupou diversos cargos to maligno. O processo capaz de tirar-lhe o poder enfeiti-
·públicos, tendo sido um dos fundadores do Departamento de çante seria o de esfolá-la viva. O caçador que a apanhou em
Cúltura da Municipalidade. Fundou a Sociedade de Etnografia sua arma,Ulha decidido a aplicar a cura deu o primeiro talho
.e Folclore e deu corpo e dirigiu a Revista do Arquivo, de mar- de faca mas, apavorado, viu que ela lhe deixara a pele nas
cada influência nos estudos históricos e tradicionalistas de São mãos e ~mbrenhava-se na mata., assim, sem o couro, tornando-
Paulo. Em julho de 1937, organizou o I Congresso da Lingua -se desde então bicho feroz, apavorante.
Nacional Cantada. Figura de proa do Modernismo paulista,
ANTAMINA - Lagoa no distrito de San Marcos, Ancash.
deixou cm romance famoso, M acunaíma, e dezenas de trabalhos
especializados: Danças Dramáticas do Bra8U (1941), A Música Segundo as crenças dos antigos peruanos, casou-se com a
lagoa vizinha, Condorgocha *, em cerimónia oficiada pelo
e a Oanção Popu"lar no Brasil (1936), Música do Brasil (1941)
etc. · arco-iris.
ANGAKUT - Entre os esquimós, denominação genérica para ANTlLOPE MAGICO - Para os negros Ba-Kamba, habitan-
o8 .s hamans - sacerdotes-curandeiros, derivando do urso, o tes da margem esquerda do Rio Nyari, próximos de Mandin-
mais poderoso animal do seu horizonte, a fôI'.ça com que ga, no Congo-Oceano, Brazzaville, animal que recebe a alma
~xercem a medicina C'urativa e até mesmo ressuscitam pessoas. dos mortos conservando todos os atributos que os mesmos man-
. tinham em vida, tais como a voz, a coragem, a curiosidade,
ANGüE - Entre os guaranis. alma que não encontrou repou- etc. O Padre Const.a ntino Tastevin resumiu para Câmara Cas-
. · so ·por múltiplas razões. De ang, alma; e gue, o que foi. cu.d o a · lenda Ba-Kamba da antilope encantada: " ... um ca-
ANHANGA - Para a quase totalidade dos índios brasileiros, çador encontrou dois antílopes que estragavam a sua roça, e
espectro, fantasma, duende, visagem. De gente ou de ani- :matou a fêmea e levou-a para a aldeia. Apesar de morta,
:,. mais. Neste segundo caso liga-se a palavra Anhangá ao esfolada, preparada, levada para o fogo, a antilope conserva a
.~ nome do bicho. Assim Tatu-anhangá é o fantasma de tatu. voz humana e pergunta para onde a levam. Assando, ainda
Torna assombrados os sitios que frequenta e garante maus fâla. Quem comeu da antilope morreu. Sa-0udiram o resto
sucessos ·.a quem o vê ou apenas ouve. Segundo Couto de no mato; Imediatamente o corpo se recompôs e a antUope,
ANT 36 37 ARA

sã e completa, reganhou, numa carreira veloz, a floresta". Cardim em seu Tratado da Terra e da Gente do Brasil,
(Ver o mito brasileiro Anta Esfolada) ". . . são grandes como um bom cão, prêtos e muito feios,
assim os machos como as fêmeas, têm grande barba sõmente
ANTONOMATICE - Uma das invocações de Quetzalcoatl.
no queixo debaixo, dêstes nasce às vêzes um macho ruivo
ANYI-EWO - No culto jejê tem seu simile no Oxum-Marê • que tira a vermelho, o qual dizem que é seu Rei. ~ste tem
dos nagôs e sob esta invocação é mais conhecido no Brasil, o rosto branco, e a barba, de orelha a orelha, como feita a
principalmente na Bahia. tesoura, tem uma coisa muito para notar, e é, que se põem
ANZIKILAN - Personagem menor da mitica dos taulipan- em uma árvore, e fazem tamanho ruído que se ouve, muito
gues, indios brasileiros da região do Monte Rorãima. No ci- longe, no qual atura muito sem descansar, e para isto tem
clo de Macunaima • e especificamente no mito da fome e particular instrumento esta casta: o instrumento é certa
do dilúvio, foi mandado pelo irmão-chefe a ajudar Manape • coisa côncava como feita de pergaminho muito rija, e tão
a derrubar Vazacá •, a árvore da comida. Provocou com lisa que serve para burnir, do tamanho de um ôvo de pata,
isso "a grande água" o dilúvio e a formação do Monte Ro- e começa do princípio da guelha até junto da campainha,
rãima elevado sôbre o tôco da. árvore. entre ambos os queixos, e é êste instrumento tão ligeiro
que em lhe tocando se move como a tecla de um cravo. E
APISIRAHTS - "A Estrêla Matutina", "o filho do deus-Sol", quando êste bugio assim está pregando escuma muito, e um
para os indios pés-prêtos da América do Norte. O filho do dos pequenos que há de ficar em seu lugar lhe alimpa muitas
deus, levou para o céu, como espôsa, certa jovem tão bonita vêzes a escuma da barba".
quanto curiosa. Foi-lhe dada liberdade para percorrer o
hôrto divino e cavar junto a tôdas as raizes, menos a do nabo ARA - Na mitica dos bosquimanos, heroina de uma lenda
cuja proximidade lhe era positivamente proibida. Deixando-se romântico-dramática muito apreciada pelos ouvintes de his-
vencer pela extrema curiosidade, ela arrancou aquela raiz tórias e que pretende explicar a origem da primeira chuva.
e como castigo foi precipitada para a terra, através do ori- Filha de Obassi Osaw - o senhor do céu, foi dada em casa-
fício assim aberto. Felizmente, a teia estendida pelo homem- mento a Obassi Nsi, senhor da Terra, enquanto um filho
-aranha permitiu-lhe descer sem machuca.duras. Veio porém dêste ia ao céu casar com uma das jovens dali. Obassi Osaw
a morrer de amôres pelo marido ausente - a Estrêla Ma- recebeu hospitaleiramente o filho de Obassi Nsi mas êste
tutina, mas deixou no mundo un1 filho de ambos, o lindo dispensou horriveis maus tratos à sua espôsa. Embora esta
houvesse levado consigo grande número de escravos para o
Poia * - "o Filho da Estrêla", herói tribal.
trabalho de roçar, lenhar, cuidar da roça, apanhar água, o
AQUELARRE (CUEVAS DE) - No Chile, estas cuevas são marido obrigou-a a executar pessoalmente êsses trabalhos.
tidas como as academias de feiticeiros. As de Quicavi e Sa- Envergonhou-a propositadamente diante do povo curioso e
lamanca são as mais referidas, seguindo-se as de Casuto, f ê-la chorar muitas vêzes de fome, frio, cansaço e dores. Até
Quilmo, Chivato, etc. Estando reunidos, os bruxos precatam- a conviver com as cabras foi obrigada. Ficou entre as cabras
-se contra os intrusos montando uma guarda de rapôsas fe- durante cinco dias e cinco noites pois tinha os pés abertos
rozes que na realidade são bruxas momentâneamente trans- em chagas devidas aos muitos trabalhos e maus tratos. Obri-
formadas naqueles animais. gada a trabalhar estando muito fraca, deixou cair a bilha e
um caco de bilha arrancou-lhe uma orelha. Chorou muito
AQU1DLE-ACIMA - Na mitica de algumas tribos esquimós
e decidiu regressar à casa do pai. Andou, andou, encontrou
figura o episódio relativo ao repovoamento do mundo após o
uma corda pendente de uma árvore. Subiu com muito es-
dilúvio. Do gênero humano teriam restado apenas as ossa-
fôrço e ao fim da corda estava nos limites do reino de Obassi
das. Mas o sangue dos mortos purificou as águas que, as-
Osaw. Escravos de seu pai encontraram-na e ela foi levada
sim aquecidas, fizeram derreter os icebergues e abrandar a
para casa. Cuidaram-na, deram-lhe muita comida boa, um
dureza das penedias. O vento afastara os lençóis de água
cacho de banana, vinho de palma, dois cortes de vestido, três
que descobriram uma terra habitada exclusivamente por re-
vestidos, quatro ferrinhos, quatro espelhos, quatro colheres,
nas e focas. Então, Aquêle-Acima soprou uma vez sôbre
dois pares de sapatos, quatro panelas, quatro colares. Isso,
os ossos. dos homens e duas vêzes sôbre os das mulheres,
ressuscitando-os para uma vida nova e feliz. ela escolheu. Seu pai mandou dar-lhe ainda doze argolas
para os tornozelos e a boa mulher Akun designada para hos-
AQUIQUIG - Um dos mitos persistentes e pitorescos do Bra- pedá-la e servi-la presenteou-a com dois vestidos, uma ben-
sil colónia. Seriam macacos músicos. Descreveu-os Fernão galinha de /u/u e uma faca de madeira. Recebeu para mo-
38 39 ARI
ARA

- rar uma casa bonita onde ficou sendo a patroa. Entrementes, Irritado, Jurupari atirou a anta para o céu onde ainda se en·
Obassi Osaw mandou prender o filho de Obassi Nsi~ cortar- contra pois tornou-se a Ursa Maior. O ararapari - ornamento
-lhe as orelhas, açoitá-lo e abandoná-lo na estrada com a da dança ritual - com que a anta se adornara, por ser mais
seguinte mensagem destinada ao pai: "Eu tinha construido leve subiu reto e tomou o lugar que. ainda ocupa.
uma grande casa, aqui na minha cidade. Dei-a. a. teu filho e ARAúJO, ALCEU MAYNARD - Nascido em Piracicaba, SP, a
tratava-o gentilmente. Agora que sei como trataste minha 21-12-1913, viveu grande parte de sua infância e juventude
filha, envio-te o teu filho sem orelhas para compensar a no interior, tendo sido professor primário em Pirambóia e ou-
orelha de Ara e os sofrimentos que a fizeste padecer." Obassi tras zonas. Descendente de pioneiros na penetração do Oeste
Osaw tomou as orelhas do môço e preparou um f eiti'ço, er- paulista, as duas circunstâncias fizeram-no um apaixonado pe-
guendo-se um vento que conduziu o rapaz para a Terra. E los temas antropológicos, etnográficos e folclóricos. Formado
o môço proclamava que o tratamento recebido de Osaw era em Antropologia Social, dirige atualmente a Faculdade de Fi-
justo e provocado pela crueldade de seu próprio pai, Obassi losofia Ciências e Letras de Guarulhos, SP. Foi presidente
Nsi. Chorou. e suas lágrimas juntando-se àquelas que Ara da Comissão Estadual de Folclore, SP. Obras principais: Me-
chorara, cairam sôbre a Terra em forma de chuva. Até dicina Rústica, S. Paulo, 1961; Populações Ribeirinhas do Baizo
aquêle momento nunca, sôbre a Terra, havia chovido. Btio Francisco, 1961; Escôrço do Folclore de uma Comunidade,
ARAIYA - Entre os antigos guaranis do Paraguai e do Bra- 1962; Folclore Brasi'leiro, 3 vols., S. Paulo, 1964.
sil, ave dona e administradora da chuva. Com seus gritos ARJ!.: - Também Kurutô, * herói caingangue do mito dilu-
determina a quantidade de água com que há de irrigar a viano. Graças aos conselhos do Sapacuru, subiu para uma
terra. Pode cantar aqui e ali e silenciar em sítios onde a seu palmeira enquanto o Sapacuru ia buscar terra no bico para
prazer deseja que impere a sêca. lançá-la à água até formar as montanhas. Assim Aré tornou-
-se o único sobrevivente pois construiu uma jangada que, pu-
ARARA - Grupo negro e por extensão culto religioso cubano.
xada por um bando de patos selvagens, levou-o até o lugar
Apresenta estreitas vinculações com o grupo rada ou arada
em que tomavam banho as "môças das outras gentes". Apro-
do Haiti. Tendo ambos seguido mescla de crenças e práticas
ximando-se uma daquelas môças da jangada o herói raptou-
daomeanas, estas guardaram maior pureza entre os seguido-
-a e regressou ao seu pouso. As outras jovens contaram
res ararás. Seu principal distintivo e instrumento ritual é
o sucedido à sua gente, que perseguiu o fugitivo. Mas a ve-
o assongwe, maracá consagrado e de uso exclusivo dos sa-
cerdotes. locidade da jangada aumentou e o raptor escapou-lhes. Com
a jovem raptada constituiu a primeira família e repovoou o
ARRANCA-LlNGUA - Monstro assombrador dos sertões do mundo caingangue.
Araguaia, no Estado de Goiás. Chamam-no, nas cidades, ARESKOUI - Uma das designações dadas pelos iroqueses,
King-Kong, por lembrança de um macaco descomunal, dêsse América do Norte, para o poderoso e invisivel Grande Es·
nome, motivação principal de um filme cinematográfico que pirito senhor de tõdas as coisas.
marcou época nos anos novecentos e trinta. O Arranca-
-Línguas também teve um terceiro nome: Bicho-Homem. ARI - . Na mitica bororo, a personificação da Lua, enquanto
Seria, então, um tipo humano, peludo, escuro, alimentando-se Meri * seria a do Sol.
exclusivamente de linguas de vaca. Pois nisto é que consiste ARICUTE - Irmão de Tamandaré *, filho de Sumé *, pro-
o malefício do Arranca-Lingua: dizima os rebanhos para vocou indiretamente o grande dilúvio ao atirar contra a ca-
comer sômente a lingua. Ataca, desferindo urros paralisantes, bana do irmão o braço decepado de um inimigo. Irritado,
deixa pegadas nítidas, de aproximadamente 48 centimetros. Tamandaré bateu o chão com um dos calcanhares fazendo
Querem as autoridades daquele Estado que se trate de uma brotar a água que cobriu o mundo. Aricute refugiou-se com
peste de caráter aftoso que destrói os tecidos da lingua do a espõsa. no alto de um jenipapeiro. Ali ficou o casal, ali·
gado vacum. mentando-se dos frutos. Quando a terra secou desceram
e fundaram a raça dos tomimis.
ARARAPARI - Para os tupis, as estrêlas Cinto de ôrion
ou Três Marias. Ligação com a lenda de Jurupari. Depois ARffiANHA - Animal em que foram transformados os in-
de uma reunião iniciática em seus mistérios, Jurupari per- dios que havendo retirado o. tabaco oculto no ventre do peixe
cebeu que a anta saiu do recinto secreto sem despir os or- kuddogo, não ofertaram aos maeréboe 111 as primeiras bafo-
namentos rituais e sob risco de ser vista pelas mulheres. radas. Como castigo suplementar ficaram quase cegos.
ARO 40 41 ATA

AROCA - O mesmo que Aiocá. Um dos nomes de Iemanjá.. foge das que não são conservadas bem limpas, e que são
"Mesa de Arocá", para seus devotos, significa o fundo do invadidas das ervas daninhas, e quando desce com a Mãe da
mar, por ser ela orixá da água salgada. Mandioca lhes passa na frente sem parar."
AROE - Na mitica bororo, sêres sobrenaturais, almas ou ARUARU - Orixá do sarampo, sarampão, da rubéola, se-
espíritos dos mortos. Reúnem-se em duas aldeias especificas gundo os apontamentos de Manuel Quirino em Costumes
para as almas. Uma, no extremo ocidental, é dirigida por Afri canos no Brasil.
Bakororo, outra no oriente, chefiada por Itubore. Ambos
são irmãos civilizadores e heróis tribais. Quando têm fome ARUX - Entre os maias do Iucatã, espíritos do mal ou de-
os aroe encarnam-se em animais e sob essa forma buscam mónios, evitáveis mediante ritos exorcistas ou pela oferta
alimentos. Também chamados Bope ou Maeréboe. de uma parte das colheitas. Sem essa doação, provàvelmente
os Arux divertir-se-iam em prejudicar as roças. Também
ARONI - Entre várias nações africanas homem de baixa chamados Alux.
estatura, de uma única perna, fumando sempre um cachim-
bo feito de um coquinho de caracol e municiado com as fô- ASASE Y A - A "Mãe Terra'', sôbre a qual estava deitado
lhas medicinais de sua preferência. Estas f ôlhas, segundo Wulbari * o espírito superior que criou tôdas as coisas se-
José Ribeiro, "formam uma grande fôrça na farmacopéia gundo a mítica das tribos negras da Africa norte-ocidental
africana .. . / Cada divindade tem suas fôlhas particulares.
ASCUMMAMA - Entre os quichuas, deus protetor da batatinha.
O emprêgo de uma f ôlha contra-indicada poderá ter efeitos
nefastos .. . " ASGAYA GIGAGEI - Na mitica dos indios cherokees, an-
tigos habitantes de parte do território dos atuais Estados Uni-
ARRAKEN - Denominação do ser no qual os patagões viam
as atribuições do bem e do mal. Também invocado sob o dos da América do Norte, o deus do trovão, entidade bissexual.
nome de Gualichu. ASHONNUTLI - Para os indios navajos da América do Norte,
ARRUOCA - Sitio, na Serra de São Tomás das Letras, Es- divindade Homem-Mulher-Turquesa. Criou o céu, a terra e
tado de Minas Gerais, onde existe inscrição rupestre muito tudo o que existe abaixo e acima do horizonte. Colocou doze
discutida e especialmente apreciada pelos que entendem ha- suportes nos pontos cardeais para que sustentem o mundo.
ver sido a América povoada por tribos sumerianas ou sama- ASSAE - Nos cultos afro-jamaicanos, o deus da terra. Vive
ritanas. Tal inscrição lembra de perto aquela mais com- nas entranhas do solo e ofende-se ou regozija-se com êle à
pleta e mais famosa de Itaquatiá *. Tratar-se-ia, segundo proporção e segundo o uso que os homens façam da terra e da
os defensores daquela teoria de " ... cópia feita com tinta água. Também conhecido entre os bush-negroes das Guianas.
vermelha, é bastante imperfeita e algo adulterada, na ori- Invocado igualmente como Assarei *.
gem, ou por arte dos copistas; a não ser que o autor da
cópia tenha querido debuxar um quadro relativo ao tempo, ASSARCI - Um dos três deuses ou espíritos superiores liga-
em que fervia a luta entre a gente dos dois povoadores. Que dos às cerimônias fúnebres dos Coromantis ou Kromantis,
tal tenha sido a intenção dêles, pode-se presumir do fato de originários da Costa do Ouro e que deram o contingente prin-
vermos ao pé do quadro, um animal, anta ou tigre, imagem cipal da cultura religiosa dos negros da Jamaica. Os demais
do adversário Magog", conforme diz Peregrino Vidal • em invocados são Accompong * e Iploa. Seria o mesmo Assa8e
seu livro A América Pré-histórica ..." dos povos Ashantis.
ARU - Mito amazónico ligado .à proteção das roças, trans- ASSASE - Um dos dois principais espíritos tutelares da fa-
crito pelo Conde Ermano de Stradelli. "Casta de pequeno milia, para os Ashantis da Africa. Corresponde ao Assarei
sapo, que vive de preferência nas clareiras do mato e acode dos negros Coromantis, da Costa do Ouro mas é especialmente
numeroso logo que se abre um roçado. Onde aru não apare- lembrado, nas cerimônias fúnebres e nas homenagens aos
ce a roça não medra. Aru transforma-se oportunamente em mortos dos jamaicanos herdeiros das tradições religiosas co-
môço bonito, empunha o remo e vai buscar a Mãe da Man.. romantis.
dioca, que mora nas cabeceiras do rio, para que venha vi- ATAENSIC - No panteão religioso dos indios iroqueses, ter-
sitar as roças e as faça prosperar com o seu benéfico olhar. ritório dos Estados Unidos da América do Norte, primitivas
Sõmente as roças bem plantadas e que agradam à Mãe da deusas da água. Habitavam o céu de onde foram precipita-
Mandioca prosperam e têm a chuva. oportunamente. Aru das para a terra quando esta emergia impulsionada por pei-
42 43 AUI
ATfs.

xes e outros animais. O impacto das Ataensic foi causa do ATLANTOLOGOS ..- Designação englobando todos o~ au~ores
fim da emersão e estabilizou o solo terrestre. Certa mon- que trataram da Atlã.ntida e da ocupação do nosso continente
tanha, próxima de Oswego Fall, Nova Iorque, é apontada por levas de povoadores e legisladores-administradores pro-
como local legendário de tal queda. vindos daquele império insular. Distinguir entre êles os
objetivos, sempre à procura e à espera de elementos que con-
ATAGUJU - Entre os mais antigos indios do altiplano pe- firmem ou mesmo anulem sua crença; e os atlantó/ilos, que
ruano, o deus da criação. Com o passar dos tempos sua atua- põem na teoria um fervor além do justo equilíbrio; somados
ção foi se restringindo ante o maior poderio dos deuses vin- aos atlantômanos, que colocam o mito da Atlântida acima de
dos com as várias civilizações. No apogeu dos incas Ataguju qualquer dúvida razoável, com evidentes implicações na his-
estava restrito ao encargo de propiciar a abundâJicia das sa- tória e na mítica americanas.
fras de figo e de milho. Gerou um filho também deus, Hua- ATLAUA - Divindade protetora dos astecas, logo depois da
manchuri * que igualmente não obteve maior prestigio no fixação dêstes no México central, quando caçavam aves la-
panteão inca mas que por sua vez gerou Catequil • ou custres. Atlaua literalmente significa "o portador do atlatl"
Chueuilla * o deus que falava pelo trovão e patrocinava orá- e atlatl é o propulsor de dardos, arma ideal para aquêle tipo
culos corretos e favoráveis. de caçada, ainda hoje utilizado. Em louvor dêsse deus de
ATAT ARHO - Para a região onondaga, América do· Norte, invocação diária e prática, os astecas entoavam um canto
mitica de um poderoso guerreiro semideus. Dotado de po- muito difundido, o Atlahoa icuic, figurante no Códex de
dêres mágicos, aparecia enrolado em serpentes. Era também Florence.
o zelador da serpente propiciadora da bravura guerreira. De AUACHUMBI - Ilha mitológica ou reminiscência histórica li-
seus cabelos saia, em f or1na de caracol, a serpente que pro- gada à navegação "1Ceã.nica dos incas. Um prlncipe, Tupac
vócava nos homens os maus pensamentos. Yupanqui, liderand~ uma expedição maritima teria descober-
to aquela ilha e a de Ninjachumbi. Ali permanecera nove
AT CAUALO - Primeiro dos 18 meses do xiuitl * o ano as- meses, retornando à capital do reino "trazendo dela homens
teca. Sob essa forma queria dizer - (paragem da água), negros, muito ouro e uma cadeia de cobre ... " - a · dar-se
mas também era chamado Quiauitl * (a árvore levanta-se). crédito ao relato de Sarmiento (Histe>ria de los I11cas, 49).
Durante os vinte dias de seu decurso, ocorriam sacrificios de Durante séculos discutiu-se a situação de tais ilhas. Moder-
crianças em louvor ao deus da chuva Tlaloc. namente, Thor Heyerdahl (A Expediçéio Kon-Tiki), e He:r;-
ATAHOCAN - Para os indios canadenses da região· de Que- mann (A Oonquista do Mundo), pretendem havê-las identifi-
bec, invocação do Grande Espirito. cado com as Ilhas Galápagos.
AUCA-RUMA - Quer dizer "os guerreiros". Na mitologia
ATEMOZTLI - "Descida das águas" era como os astecas inca é o quarto e último povo da segunda criação de Vira-
denominavam o décimo sexto mês de seu ano, o Xiuitl •. Du- cocha, :µo estágio de Tiauanaco, quando assoprando pedras
rante êste mês os fiéis jejuavam em honra ao deus da água, dava vida a indivíduos e povos. Os Auca-Ruma tomaram
ao qual também ofereciam alimentos, bebidas e pequenas ima- o lugar aos seus predecessores Purun-Ruma às margens do
gens feitas com matéria comestivel. Lago Titicaca. Foram os construtores das primeiras pucaras,
ATI - Deidade inca, atuante nos mistérios noturnos. fortalezas megaliticas. A lenda dos quatro povos criados por
. . Viracocha para antecederem e prepararem o terreno para os
ATIUS TffiAWA - Na mitica de sobrevivência dos indios incas, foi descrita aos espanhóis pelo cronista nativo Huaman
norte-americanos pawnee, a deidade que ordenara o curso Poma de Ayala.
do Sol, da Lua e das estrêlas. Intangível e onipotente. Eram- AUITZOTL - Animal fabuloso, da mitologia asteca. Habita-
-lhe dirigidas as invocações dos caçadores desejosos de boa va a beira das lagunas e arrastava para .o fundo delas os ho-
sorte na caça ao búfalo - momento crucial que decidia se a mens distraidos ou imprudentes. Comia dêles os olhos, as
tribo enfrentaria um ano de fartura ou fome. unhas e os dentes devolvendo o corpo à superfície. Tam.~nho
ATIVODU - Nos cultos daomeanos radicados no Haiti, o gênio- era o terror causado pelo Auitzotl que ninguém se atrevia a
·árvore, protetor das casas. Para que permaneça junto das tocar em sua vitima. Sõmente os sacerdotes ocupavam-se
casas, plantam-se determinadas árvores nos pátios ou ao re- dela dando-lhe sepultura condigna. Vítima do monstro, os
dor da moradia. deuses enviavam ao paraiso a alma do morto. Merecia pois
AVA 44 45 AYI

que os sacerdotes organizassem uma procissão, sendo o corpo A y AR - Quatro irmãos e quatro irmãs, importantíssimos na
mutilado conduzido em uma liteira para ser inumado em mitologia inca por serem os fundadores da raça. . Na criação
um dos ayauhcalco - pequenos oratórios à beira dos cursos do mundo, teriam saído pela Capac-Tocco, a riquissima "ja-
d'água. nela de pompa", da mitica Tambo-Tocco • "a casa das ja-
A VA TI - Herói do mito guarani da descoberta do milho. Em nelas", erguida na colina de Pacaritambo * - isto é, a
época de grande escassez de alimentos, dois guerreiros pro- "casa da abundância". Os Ayar não forani criados, ao con-
curavam inutilmente caça e pesca quando depararam com trário dos demais sêres com que Viracocha enriqueceu o
um enviado de Nhandeiara - o grande espirito. O mensa- mundo. A uma ordem-pensamento do grande deus Viracocha-
geiro divino disse-lhes que a solução para a sua procura se- -Pachayachachi, os irmãos saíram pela janela. Foram êles:
ria uma luta de morte entre os dois. O vencido seria sepulta- Manco Capac, fundador e primeiro Inca, Ayar-Ucho ( vene-
do no local onde caisse e logo de seu corpo brotaria uma rado no santuário de Huanacauri * tornado o principal do
planta cujas sementes, replantadas e depois comidas resolveriam império por ordem de Pachacutec *; Ayar Cache e Ayar-Auca
para sempre o problema da alimentação. Assim fizeram, (cuja imagem era venerada em Cusco). Mamma Oclo, a mais
A vati - um dos dois, foi morto e de sua cova nasceu a prendada das irmãs, desposou o irmão-chefe, Manco-Capac
planta do milho - avati ou abati ila lingua tupi. (Ver e tomou-se a primeira das incas. Reunidos os irmãos em
Ainotaré) conselho, decidiram: "Fomos criados fortes e sabios. Avan-
te, pois! Devemos impor nosso domínio e reunir o povo à
AVREKET:S: - Vodu marítimo membro da "familia Houla" • à nossa volta. Procuremos regiões prósperas e submetamos
qual os negros fons, do Daomé, e de outras tribos atribuem os seus habitantes, esmagando os rebeldes a essa submissão ... "
fenómenos e perigos relativos ao mar. A vreketé é um vodu :itsse é 0 texto de Sarmiento, reproduzido por S. Huber. Esta
de espirito brincalhão porém responsável pelas surprêsas que é a versão mitica mais próxima da história à propósito do
ameaçam homens e barcos. aparecimento e do · violento e rápido dominio impôsto pelos
incas aos povos estabelecidos nos vales de Cusco.
A WANAISA - Das principais entre as muitas invocações com
que os bush negroes * da Guiana Holandesa cultuam o vodu AYAR MANCO TOPA - No contexto da lenda mitológica
Ma Fo Doti * ou Mama Fo Gran - a Mãe Terra. do Continente Mairubi •, exposto pelo paraguaio Marcelino
Machuca Martinez •, Ayar Topa foi o comandante da ter-
AWONAWILONA - Na área zuni norte-americana, o deus ceira leva de descendentes de colonos fenícios e sirios que
criador, o Pai-do-Sol. Fecundou o mar, semeando sôbre as depois de decênios na embocadura do Amazonas, dirigiram-se
águas pedaços de sua própria carne. Desta é que formou para o interior do continente. A leva de Ayar Topa tomou
também o Pai Céu e a Mãe Terra, separando-os em seguida a direção S. O., até chegar à meseta do Lago de Titicaca •
à criação. Os sêres humanos foram gerados pela introdução e depois de descobrir que alguns afluentes do grande lago
de sementes de A\vonawilona no ventre da Mãe-terra. Destas do mesmo nome arrastavam ouro em pó e que um cêrro
sementes de vida, nasceu, entre outros, o herói semideus próximo era inteiro de prata, resolveu estabelecer-se ali.
Poshaianka, Ayar Manco Topa teria escolhido para sua residência uma
ilha chamada INCA, significando ser a IZha de Estanho. Er-
AXUt - Segundo o registro de Câmara Cascudo, "cidade de
gueu ali o primeiro templo dedicado ao Sol, denominado Co-
ouro, no interior do Maranhão. Ruas, palácios, igrejas, ima-
ricancha. Antes de morrer investiu nos podêres reais o
gens tudo era de ouro puro". Por voltas de 1790, uma expe- filho Manco Capac, tornando-se dêsse modo o fundador da
dição de duzentos soldados, enviada pelo governador general dinastia e do império incas.
Fernando de Noronha, tentou encontrar a cidade mitica.
AYIDA OUEDô - Loi secundário no principal culto airo-
AXUM - A mãe-d'água doce, conforme o registro de João do
-haiti8Jlo. Divindade ligada ao arco-íris e associada à deidade
Rio, em Religiões do Rio. Ver Oxum, sua correspondente
baiana. Damballah *.
A YIZA - Também invocada como Ayizan, divindade menor
AYA-UMA - Na mítica do planalto andino, o mesmo que no panteão afro-haitiano. Tem sob sua proteção as vias de
Umita •, Kefke •, Cabeça Volante, Uma-Waqya, Uma Pali, comunicações, especialmente as ruas das aldeias incumbindo-
Ayap-Uma, Mok-Mok •, Um8Jl Ta.k-TaJc, Uma Pureqkeke •. -lhe mantê-las livres de espíritos e emanações adversas.
AY°I 46
AYIZAN - Na mitologia das gentes de Abomey e Oidah
.( Daomé), e seus descendentes americanos, vudu ntuito antigo,
representando a crosta terrestre, a "nata da terra", li': figu-
rado como um monticulo de terra, suportando uma jarra com
pequenos buracos e cercado de franjas de palmeira. No Haiti,
guardiã das ruas e dos transeuntes.
AYOPECHCATL - Entre os astecas, divindade menor, femi-
B
nina. que assumia a proteção da mulher grávida no preciso
instanté em que esta entrasse em trabalho de parto. Até
êste momento, eram diferentes deusas, as da geração e da
BAATEE OKOT - "Dança das quimeras", com as quais os
saúde feminina, que cuidavam da futura m~e. A parteira e
suas assistentes estavam sob proteção de outrá. deusa - a nativos do Iucatã, desde tempos imemoriais, durante as fes-
tas do ano muluc invocam os deuses propiciadores de sonhos
"avó dos deuses", a "avó do banho de vapor", a grande
agradáveis.
Temazcalteci •. Mas era Ayopechcatl quem recebia, da
parturiente e das assistentes esta invocação preciosa: "Além, BABALA - Sac.e rdote do culto lucumi segundo rituais afro-
na morada de Ayopechcatl, nasceu a jóia, veio ao mundo uma -cubanos.
criança. / Além, na morada de Ayopechcatl, nasceu a jóia,
BABALA - Nos cultos afro-cubanos, religião ele B<JibaZá é
veio ao mundo uma criança. 1t além, em casa dela, que nas-
o culto a Obatalá •, o maior dos orixás em seguida ao ser
cem as crianças. / Vem cá, recém-nascido, vem cá! / Vem, supremo Olorum. · Os orixás cubanos dividem-se em três
vem cá, criança-jóià, vem cá!" O texto · consta do documen-
categorias: a pri~eira reúne apenas três divindades ( Obata-
tário de Sahagún, t. V, pp. 116-117, e também no 06dex de
lâ *, Xangô * e Ifá • - nas formas gráficas que melhor re-
'Florence, t. II, p. 211, com tradução inglêsa.
produzem a forma vocal utilizada, segundo Arthur Ramos) ;
AZAZE - A Mãe Terra, o principal dos wintis de origem na segunda categ.oria, estão numerosos deuses de limitado
Fanti-Ashanti para os cultos dos bush negroes * da Guiana poder e na terceira os demais sêres: f etiches, amuletos, gris-
Holandesa. -gris, etc. Babalá ou Obatalá ou Batalá ou ainda Batarás,
AZEM.AN - Entre os bush negroes, o Azeman, legado do culto tem, em Cuba, sincretismo religioso com a Virgem de Ias
ioruba, é o vampiro que em certas noites sai a chupar o san- Mercedes e algumas vêzes com o Santissimo Sacramento,
gue de animais e homens desprotegidos. pois é um andrógino. Sua reprodução é um boneco, talvez
masculino, porém com roupas femininas. Seu dia de culto, em
AZIZA - Entre os ewes africanos, o Aziza tem dupla exis- Cuba, como no Brasil, a sexta-feira.
tência e função. Ora é entidade espiritual propiciatória de
boas caçadas, ora é demónio florestal, quando adota a forma BABALAô - "Pai do segrêdo" aquêle que, nas cerimônias dos
de furioso e astuto chipanzé. cultos dos negros, "rec.ebe as indicações para responder pelos
sinais do Ifá", um orixá consultor invocado quando o con-
A.ZTLAN - Lugar mitológico de onde partiu o povo que viria sulente permanece em dúvida sôbre pontos importantes: ca-
- a ser o mexicano, ou asteca. Chamavam-se, depois de fixa- samento, negócios, viagens, mudanças, doenças, formas pro-
dos, M exica que é a forma plural de Mexicatl, isto é, "um piciatórias mais adequadas para aplacar divindades. Trabalha,
Mexicano". Menos por si, do que pelos vizinhos, foram cha- de preferêncía, com Qdous, "reunião constituida por duas co-
mados astecas. Segundo a tradição, Aztlán - nome que lunas verticais e paralelas de quatro indices cada uma. Cada
evoca a idéia de brancura, seria uma ilha em meio a um indice se compõe de dois traços verticais paralelos" que o
lago prodigioso. Babalaô traça no pó (Yerosun) colocada sôbre um tabuleiro
AZUA - Entre os incas, bebida sagrada ingerida em quanti- de madeira esculpida (Opon Ifá). Existem 56 diferentes Odous,
dade pelos fiéis que acorriam a presenciar sacrificios huma- correspondendo a cada um, legendas diversas. O Babalaô en-
nos. A ingestão dessa bebida ocorria em meio a danças e contra as respostas pelo manuseio da noz de Ifá ou jogando
intervalando cantos apropriados. chamados ochu. a .semente de Ifá, conforme regras dêle conhecidas.
.
BABALAWO - . Sacerdote nagô, cuja forma e função foram
conservadas nos cultos afro-americanos, com ligeiras diferen-
BAB 48 49 BAK

ciações de voz. ~ Babalá, em Cuba; Babalorixá nas práticas BACURO - O esplrito ou o "santo" invocado nas cerimónias
brasileiras do Recife; Babalaô, de preferência, na Ballia. do ritual angolano. O mesmo que orixá • no ritual nagô,
Tôdas estas formas mantêm nitida a origem ioruba. vodu • no ritual jejê e mina-jejê e ykic~ para o xangô.
BAD:íl - Membro da "famUia" das divindades Heviossos • que
BABALU-A~ - O mesmo q•1e Afomã •, Abaluché •, Homoulu *, os negros do Daomé e vizinhanças religiosas acreditam ad-
Obaluaiê, Omolu *, Omonolu ministrar os raios e os trovões. Badé é o encarregado de
BABALU-AY~ - Entre os seguidores do culto lucumi, espe- retalhar, com o uso de raios, o corpo dos atingidos. Pode
cialmente em Cuba, santo ao qual são atribuidos podêres cura- fazê-lo cumprindo justiça ordenada pelos deuses ou a seu
tivos das enfermidades da pele, inclusive da lepra. Repre- alvitre.
sentado pela figura de um ancião coberto de chagas e sus- BAIANI - Orixá do culto ioruba, muito presente na Bahia.
tido por muletas. O nome, conforme as raizes iorubas, quer Tem sua festa no último domingo de setembro. Para muitos,
dizer "o pai comum da estirpe" ou, segundo outros, "o senhor como Ja.cques Raimundo (0 Negro Brasileiro) é "baiani qual-
da pobreza". Em Cuba, sincretismo com São Lázaro. quer obJeto pertencente a Xangô, especialmente o seu idolo".
Segundo Gonçalves Fernandes (Xangôs do Nordeste) é um
BABAYú-AY~ - Orixá menor (veja Babalá) dos cultos afro- descendente de Xangô.
-cubanos, identificado com São Lázaro. Seu correspondente
BAtRA - Também Bairi. Entidade civilizadora para os in-
nos cultos afro-brasileiros é Abalu-oiê.
digenas parintintins ou cauaiuas, do Rio Madeira. Tem muita
BACHUE - Mãe comum do gênero humano, na mítica dos semelhança com Macunaima • e Poronominare *. Ensinou-os
chibchas. Ela teria saido de um lago perto de Guatavita com a fazer adornos com dentes; a flechar de jirau ou de escada,
uma criança de três anos nos braços. Cuidou do menino até a caçar com visgo, a pescar com peixe fingido ( sangab) .
que êle se tornasse homem e então desposou-o. Tiveram vá- Entregou aos índü;>s o fogo que roubara ao urubu. Em 1945,
rios filhos, pois nasciam-lhes de quatro a seis, por vez. E Nunes Pereira publicou em Manaus Baíra e Suas Experiéncias.
foram êstes os primeiros homens. Quando consideraram BAITAGOGO - Herói civilizador dos bororos. Grandes fuman-
cumprida a sua missão de povoar o mundo, Bachue e seu te, apresentou o tabaco aos seus homens. Irritado ao ver que
filho-marido transformaram-se em serpente e desapareceram êstes não sabiam utilizar o presente, transformou-os em
no lago de que haviam saido. lontras. Ensinou, pelo exemplo, ser lícito ao homem possuir
duas mulheres quando se casa com viúva que tenha filha
BACORORO - Herói civilizador entre os bororos orientais da
môça ou quando a mãe da espôsa é viúva e jovem. Também
chapada de Mato Grosso. Formou com Itubore * a dupla bo- é chamado Birimoddo.
roro dos clássicos gêmeos filhos de mulher e de onça. (Veja
Kamé, Keri, Nareatedi). A mulher faleceu antes de dar à B.AKINNY - Festival fúnebre dos negros jamaicanos de des-
luz, por haver rido ao ouvir o vozeirão de Marugodo Baco- cendência Kromanti ou Coromanti, relembrando cerimónias dos
roro a larva. A onça abriu o ventre da espôsa morta e criou- Fantis (Homowo). Acreditam, bàsicamente, que na terceira
-os em uma cabaça. Vingaram a morte da mãe matando noite depois da morte, mas até a nona, o espirito do morto
Marugodo em uma fogueira. Em seguida, depois de algu- pode voltar para visitar a familia, os amigos, as propriedades.
mas peripécias, dedicaram-se a libertar o mundo dos mons· Assim, na terceira noite ou na nona, preparam um ban-
tros que o afligiam. Mataram a harpia, determinando que quete, com músicas e danças, para que êle se despeça em
nenhum gavião poderia, desde então, devorar homens mas definitivo do mundo, satisfeito com os parentes e os amigos.
tão-sômente macacos, coatis, capivaras, tamanduás, jacutin- BAKRU - Entre os bush negroes da Guiana Holandesa, o
gas, etc. Mataram o jaburu que naquele tempo comia ho- correspondente ao zombie * haitiano. Com uma variante:
mens e ordenaram que a partir dai jaburu comesse exclusi- o bakru adquire tal nome depois que um mágico wisi * con-
vamente peixe. Mataram periquitos que gostavam de carne voca e escraviza a alma do morto. Utiliza-a então para a
humana e mandaram que se alimentassem de frutas. Mata- prática de malefícios, por sua recreação e proveito ou à rôgo
ram ainda outros devoradores de homens: o peixe paivoe e a de clientes. Meio-vivo, meio-morto, o bakru é um agente do
serpente xemirega. Estando o mundo livre de tais monstros, feiticeiro e só pode ser evitado, seja em encontros seja em
tornaram-se donos da Terra e sujeitaram o povo ao seu maleficios, pela ação do curandeiro bom, o lukuman que do-
mando. Dividiram o govêrno, ficando um no oriente outro mina a técnica do tapu que é o ramo defensivo da mágica
no ocidente. boa, chamada Obia •.
BAL .50 51 BAR

BALAM QUITZÉ - O primeiro dos quatro homens de carne, tas brancas grandes = Senhor do Bonfim (Oxalá) ; espada
ossos e espirito, criados pelos deuses Tepeu, Gacumatz e Hu- = São Jorge (Oxossi); pomba com asas abertas = Espirito
rakán * segundo o Popol Vuh *. Depois de haver feito des- Santo ( Ifá) ; pomba com asas fechadas: São Francisco de
troçar pelo pássaro Xecotcovah * e pelo felino Cotzbalam * o Assis ( Iroco) ; tridente = o diabo ( Exu) .
homem feito de Tzite • e a mulher feita de espadana, os deu-
ses trabalharam febrilmente criando novos sêres, an~es que BANGA - Também Ifá "' é, sob qualquer destas duas formas,
o terceiro dos grandes orixás dos cultos afro-cubanos. In-
0 Sol, a Lua e as estrêlas tomassem lugar no cé~. Vieram
em socorro dos deuses, o gato, a rapôsa, o p~paga10, o corvo cumbe-se freqüentemente de revelar os segredos que cheguem
e outros bichos, trazendo informes sôbre as espigas do milho ao seu conhecimento, servindo-se para isso de um mensageiro
amarelo, do milho moreno e do milho branco e descobrindo por nome Opelé *. Serve como patrono e animador das rela-
a água de que seria repleto o nôvo ser. Com a massa do ções sexuais e propicia partos felizes. Nos cultos da adivinha-
milho branco e do milho amarelo. os deuses fizeram a carne ção, Bangá é também - por associação com o orixá que des-
do tronco, dos braços e das pernas dos homens. Malida:ram venda os segredos - o fruto de certa palmeira, especialmente
que êles pensassem, falassem, enxergassem, sentissem, ca- apreciado para a leitura dos arcanos. Ifá ou Bangá está
minhassem e palpassem o que havia ao seu redor. Mesmo quase sempre acolitado ou acompanhado por um fiel, Odu.
nas trevas os homens entenderam o que havia. Mostraram BARBA BRANCA - O mesmo que Barba Ruiva •, mito
possuir sabedoria capaz de extrair o bom de tôdas as coisas, piauiense.
plantas, pedras e o fogo ainda ocliltó no seio das montanhas.
Os quatro sêres assim criados: Balam Quitzé, Balam Acab, BARBA RUIVA - Também Barba Branca: mito do norte do
Mahucutah e Iqui Balam, foram os avós das tribos quiché. Brasil, mais especificamente do Estado do Piaui. Integra-se
no ciclo dos habitantes escantados das águas fluviais. ll'.:ste
BALANGANDÃS - Miniaturas ornamentais, originalmente de tem por domicilio a Lagoa de Paranaguá, junto à cidade do
prata ligadas aos cultos afro-baianos mais especialmente. O mesmo nome. ll'.: homem, tem boa compleição, alvo mas de ca-
têrm~. provàvelmente é de origem malê. Ao conjunto de belos e barbas avermelhados. De tempos em tempos, sai da água
peças dá-se o nome de penca. As peças são prêsas por ongo- e deita-se na areia tomando banho de sol. Quem o viu a.firma
l era ou chave ao correntão chamado também de grilhão. Um que traz as barbas, as unhas e o peito cobertos de lôdo. Não
parafuso, geralmente, fecha a chave e leva o nome de bor- foge ao encontrar mortais embora jamais houvesse dirigido a
boleta. · As peças verdadeiramente balangandãs são feitas de palavra a algum. Apesar de sabidamente inofensivo, não se
ouro, prata, pedras, pau-d'angola, ágatas, cornalinas, âmbar, conhecendo qualquer malfazença de sua parte, é objeto de mêd.o
coral, marfim, dentes de caitetu, de jacaré (quando devem e todos fogem dêle. Algumas mulheres, porém, que tiveram
propiciar boa dentição), chifres de besouros (então engasta- embaraços de origem amorosa, afirmam que tendo ido banhar-se
dos em prata) , madeiras, etc. Cada peça tem uma obrigação na lagoa foram alcançadas, abraçadas e subjugadas pelo Barba
de sentido e emprêgo esotéricos. As peças dividem-se em Ruiva que seria, segundo elas, grande beijocador. A respeito
Grupos: Devocionais (espada de São Jorge, pombinha do de sua origem, dizem os naturais que antigamente, faz muito
Espirito Santo) ; Votivas ou pequenas (lembram graças al- tempo, naquele lugar não havia lagoa e sim cacimbas. Certa
cançadas e reproduzem membros ou órgãos beneficiados: per- jovem, de boa familia, tida por donzela, deu à luz um filho e
nas, coração, seios, dentes, ôlho) ; Propiciatórias: (da f ortu- querendo esconder o fato, atirou a criança em uma das ca-
na, do amor, etc. Contra o mau olhado é um barril feito de cimbas. Imediatamente á gua abundante surgiu do solo, cobriu
ágata, encastoada em prata; cágado e jabuti, para longevi- o bosque de camaubeiras e formo~ a lagoa onde, à noite, ouviam-
dade; caju ou cacho de uvas para fartura doméstica; aba- -se relinchos, bater de pratos e chôro de recém-nascido.
caxi evita doenças do peito; romã assegura fecundidade);
Evocativas (as que lembram um sucesso ou situação agradável. BARBOSA RODRIGUES, JOÃO - Das mais conhecidas auto-
São, principalmente: barril, tambor) ; Decorativas. Cada· peça ridades cientificas brasileiras, foi autodidata que versou com
tem ainda uma representação: favas de Olho-de-boi = breve proficiência a Botânica, a Antropologia, a Arqueologia e a Et-
contra os maus espiritos; contas rôxas = São Roque; contas nografia. Dirigiu o Jardim Botânico do Amazonas e o do Rio
pretas = São Bento; contas vermelhas = São Jerônimo de Janeiro. Acrescentou inúmeras espécies, pri.ncipalmente va-
(Xangô); contas azuis = Santo Antônio (Ogum); contas riedades de palmeiras, às classificações de Spruce, Walla.ce e
douradas = N. Senhora das Candeias (Oxum); contas bran- Martius, cujos estudos completou. li: clássico o seu trabalho
cas pequenas = N. Senhora da Conceição (lemanjá); . con- sôbre orquídeas, em 17 volumes. Percorreu as regiões dos rios
BAR 52 53 BIA
Capim, 'l'apajós, Trombetas, Urubu, Jamundá, e outros. Paci- BENIGNO - Cônego Benigno José de Carvalho e Cunha. E1n
ficou os indios Crixanás, nação que estudou detalhadamente. 1753, delegado do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro
Seu trabalho mais popular é aquêle relativo ao muiraquitã, na Bahia, foi enviado por aquela instituição a pesquisar uma
mas também deixou 60 outros titulos, destacando-se "Poran- cidade megalitica anunciada e muito comentada, inclusive na
duba amazonense", volume 15 dos Anais da Biblioteca Nacional; Europa. "Falava-se, então, que essa cidade possuía rufnas
"O canto e a dança silvicola" in Re1'ista Brasileira, tomo IX; de monumentos, muros com inscrições, pórticos, colunas, está-
"Lendas, crenças e superstições", idem, tomo X. Nascido a tuas, figuras em relêvo sôbre os muros e casas abobadadas,
22-6-1842, no Rio de Janeiro, a1 faleceu a 6-3-1909. etc.". O Cónego Benigno perlustrou largo trecho do sertão
BAR! - Médico-feiticeiro dos bororos; invocam o auxilio de baiano sem localizar tais ruínas que, contudo, continuam
impressionando a mítica do povo, ao mesmo passo em que
sêres sobrenaturais para socorro de suas práticas curativas.
figuram as cidades-fantasmas de Piracuruca * e Riacho das
BARKU - Entre os negros das florestas das Guianas, cria- Pontas*.
tura animada, não definida, meio viva e meio morta, utili-
zada pelos wisiman, feiticeiros maléficos. BE-RA-ZIL - Querem os defensores da teoria do povoamen-
to americano por tribos sumerianas ou samaritanas via Atlân-
BEKO~ - Literalmente significa "o que não pensa em tida (ver Itaquatiá, Silva Ramos, Peregrino Vidal) que essa
nada". Na mitica de várias tribos centro-africanas, foi o primitiva grafia do nome Brasil, equivalesse a uma designa-
segundo filho homem do casal original Sekumé * e Mbongwé *. ção precisa: "Dominio dos Cantores Tostados" ou seja, ne-
Seus irmãos, que com êle foram pais de tribos chamaram-se gros. Isso porque, sempre de acõrdo com aquela teoria, na
Nkure * e Mefere *. Sabe-se que teve muitas irmãs, cujos segunda onda emigratória rumo à América do Sul, o terri-
nomes não foram guardados. tório do atual Brasil, fôra ocupado e povoado pelas tribos ha-
BEKUN - O pecador, o que ofendeu as leis de deus, o con- mitas dos heróis :?Caba e Dedan.
denado, na mitica de inúmeras tribos negras da Ãfrica centro- BETANZOS, João de - Fixando-se no Peru ainda criança che-
-ocidental. Ao dar aos homens a sua lei, o grande deus gou a casar-se com uma princesa inca, através a qual apai-
Nzamé • advertiu-os da punição reservada aos que não as xonou-se pela mitologia local. Aprendeu e manejou como
seguissem: "Depois de terem morrido, andam errantes poucos europeus a lingua quíchua e a história e a cosmogo-
de noite, padecendo e gritando e, enquanto as trevas en- nia incas. Importante fonte de conhecimentos transmitidos
volvem a Terra, à hora do mêdo, entram nas aldeias, matam sôbre o passado peruano, sua obra principal intitula-se Suma
ou ferem os que encontram, fazendo-lhes todo o mal que po~ Y Narraciotv de los Incas, publicada em 1551.
dem. / Em sua honra se dança a dança fúnebre kedzam-
-kedzam, mas de nada serve. Levam-lhes, num di, os melho- BEZERRA CAVALCANTI, JOÃO ALCIDES - Nascido em João
res pratos; comem e riem, mas de nada serve. E quando ti- Pessoa, Paraiba, a 24-10-1891, veio a falecer no Rio de Janeiro
verem morrido todos os seus conhecidos, então e só então a 29-5-1938. No decurso de variadas funções públicas -
ouvem Ngofio-Ngofio *, o pássaro da morte; em seguida fi- deputado estadual em seu Estado, diretor geral da Instru-
cam muito fracos, muito fracos e temo-los mortos. . . antes ção Pública, procurador da República - , entusiasmou-se
de passarem o grande rio, permanecem muito tempo, muito pelos estudos demopsicológicos. Historiógrafo, filósofo, soció-
tempo sôbre uma pedra grande e lisa; têm frio, muito frio ... logo, foi principalmente etnógrafo, que também concorreu para
e ficam encerrados por muito tempo, muito tempo, no Oto- a divulgação do folclore. Quando faleceu, era diretor do Arqui-
tolan, a mansão ruim, onde se ouvem queixumes e queixumes ... " vo Municipal do Rio de Janeiro. Deixou: "Restos de antigos
cultos na Paraiba" in .Revista do Instituto Histórico e Geográ-
BEL-LOHK-NA-PICK - Dança cerimonial dos peles-vermelhas, fico Paraibano; "Demopsicologia", idem.
destinada a comover os céus e garantir a presença em seus
territórios, de manadas de bisões durante todo o ano. Con1e- BliN - Nos cultos afro-cubanos um espírito perverso, orixá
çava com oit o jovens revestidos com peles de bisões conser- de categoria inferior que se compraz em propagar a variola.
vando os chifres e a cauda. De tempos em tempos juntavam- Vale dizer, é o correspondente cubano do Omolu * dos cultos
-se-lhes outros quatro dançarinos ·e assim seguidamente até afro-brasileiros.
que todos os homens válidos estivessem no terreiro imitando BlATATÃ - Com esta forma é modalidade baiana do mito
o trânsito e o pasto do bovinos. Os assistentes apresentavam.. mais antigo e mais difundido no pais - o de mboitatá, a
-se fantasiados dos vários animais comuns à reg1ão. cobra-de-fogo. Biatatá, conforme a descrição de Donald Pier-
BIR 54. 55 BOI

son (Prêtos e Brancos n.a Bahia) ·é " ... uma mulher que ha- -recia também com os nomes de Huitaca * e Ubecaihuara. Fica
bita o mar, aparecendo sôbre a água apenas de noite e au- de pé o . mistério de que nas representações do casal divino,
mentando gradualmente de tamanho· até adquirir proporções viajavam em .camelos, animal que os ~índios do Descobrimento
enormes e lançar uma sombra imensa e aterrorizante". (Ver não conheciam. Os outros dois nomes de Bochicha eram
Boitatá) Zukha e N emketaba. * Manteve-se por dois mil anos em
estado de reflexão é em estrito jejum, no sitio chamado Ira-
BIRIMODDO, - Ver Baitogogo. ca "'. No panteão dos chibchas tomou o lugar do precursor,
BISA BRANCA - Segundo a mítica dos dacotas norte-ameri- do apóstolo que preparou o caminho para o deus máximo -
canos, certo dia dois jovens guerreiros tiveram a visão da Chiminigagua *.
Bisã Branca a dizer-lhes: · "Vim do céu ensinar aos dacotas BOCOR - Mago, feitic~iro, ervanário dos negros haitianos.
como viver melhor e preparar o futuro. Eis um cachimbo, Segundo Wirkus "o bocor não é um sacerdote, é um docteur
guardai-o sempre. Sou a Vaca Branca dos Bisões. Verterei feuílle, um homem que conhece as plantas e as fôlhas das
meu leite sôbre a Terra, para que todos os homens vivam. selvas. . . e o pior é que êle tem também o segrêdo dos vene-
Quando virdes nuvens negras ao Norte, sabei que se trata nos de que faz uso para assegurar o seu poder. Entre as
de meu hálito. Alegrai-vos então, pois logo mais vereis bi- magias por êle praticadas destaca-se a garda e ou uanga
sões. O cachimbo tem afinidade com o azul do Leste e é (w~ga, ounga das tradições africanas) objetos fetiches, com
preciso estar sempre perto dêle. Do Sul virão nuvens de um simile aproximado nos des-pachos brasileiros. Há uanga8
várias côres; mas olhando o cachimbo e o azul do céu per- para propiciar o amor, o ódio, a proteção, a morte, etc.
cebereis que as nuvens passarão e o bom tempo voltará. /

Quando o céu do oeste estiver cinzento, sabereis por inter- BOIIGUE LIUCHO - Ou palo mamb6 árvore santuário dos
médio dêste cachimbo e dos céus azuis, que a fortuna se deuses domésticos e às vêzes tomada como a própria divin-
aproxima. Sou a Vaca dos bisões; meu leite é de quatro es- dade dos indios pampas, patagões e araucanos. Apenas em
pécies e será vertido sôbre a Terra para que possais viver." sua presença ou pelo menos de um seu ramo - em zonas
onde não f ôsse encontrado - tinham possibilidades de re-
BOCHICA - O paraguaio Marcelino . Machuca Martinez, no sultar felizes a semeadura, o casamento, os contratos comer-
trabalho "El Continente Mairubi" (Paraguay Histórico n.0 S, ciais, as alianças.
1959) resume a legenda de Bochica, a partir de um reino
(Mairubi *) estabelecido por colonos fenicios e sirios na foz BOITATÃ - De mboi, cobra e tatá, fogo, o mito é dos mais
do Amazonas. Bochica não seria americano, porém oriental, antigos entre os indígenas do território nacional e posterior-
sacerdote e sábio que uma vez em Mairubi receber.a a mis- mente entre o povo. Baitatá, Bitatá, Boitata, Biatatá *, Ba-
são de comandar onda migratória, exploradora e conquistado- tatão, João Galafuz são alguns dos nomes que recebe. Em
ra, na direção N. O. Chegara assim, à região dos Chibchas 1560, o Padre Anchieta registrava: "Há também outros
(atuais Tolima, Santander, Cundinamarca, Boyac~, Meta e (fantasmas), máxime nas praias, que vivem a maior parte
planura de Guaviare, na Colômbia-Venezuela) . Prático e do tempo junto do mar e dos rios, e são chamados Baetatá,
diligente, Bochica estabelecera um centro teocrático ao redor que quer dizer "cousa de fogo"... não se vê outra coisa
do templo erguido por sua ordem em Tunja. Em seguida, senão um facho cintilante correndo para ali; acomete ràpi-
situara a sua autoridade administrativa em Trasaguillo (hoje damente os indios e mata-os, como os Curupiras; o que seja
Bogotá). Ensinou aos homens os trabalhos da terra, extrair isto, ainda não se sabe com certeza." Couto de Magalhães
o sal-gema das salinas de Zipaquirá, obter o ouro a prata a que tentou organizar e hierarquizar a teogonia indigena, es-
platina; a fundição, laminação, modelagem e lustro de me- creveu: " ... é o gênio que protege os campos contra aquêles
tais; instituiu sistemas de comércio e de contabilidade ·ele- que os incendeiam; como a palavra o diz, Mboitatá é cobra-
mentar. Graças a êle o florescimento do pais do chibchas -de-fogo; as tradições figuraram-na como uma pequena ser-
teria podido tornar-se no brilhante e rico império dos muiscas. pente de fogo, que de ordinário reside n'água. As vêzes trans-
forma-se em um grosso madeiro em brasa, denominado méuan,
BOCHICHA - O deus trino e uno dos chibchas, único povo que. faz morrer por combustão aquêle que incendeia inutil-
em ascensão cultural à chegada dos espanhóis. Habitavam en- mente os campos". Com o cristianismo, o boitatá, o fogo-
tre os atuais México e Peru. Chibicha repartia os encargos •fátuo, passou a ser interpretado como almas em pena, pa-
de governar o mundo e promover o poderio dos chibchas com gando os pecados de uniões incestuosas ou sacrllegas. Ou
sua mulher Chia •, que sendo por igual una e trina compa- ainda, almínha de pagão filho de cristão. (Ver N zamé e
BOI 56 57 BOT

Mabuya). ~ de Valdomiro Silveira (Mixuangos) a melhor animal que encarna a astúcia, a perseverança, a malicia na
descrição: " . . . uma língua de fogo azulego, mais comprida mítica da maioria dos povos africanos. Contam êstes que
que grossa, de seus três palmos de extensão, erguera-se da durante uma grande escassez de alimentos, a fome foi geral.
várzea, fôra até o alto do campo, topetara com o andaguaçu, Só havia, disponiveis, os frutos de certa árvore. Mas nenhum
pairara por sôbre os cochos; pareceu dançar ou pular como animal arriscava-se a comê-los sem que fôsse conhecido o
uma caninana em fúria; partiu-se em duas ou três, que anda- nome do fruto. Vários animais - o rato, o porco-espinho, o
ram passeando pelo ar e depois se esvaeceram, uma por uma". antílope - foram enviados como mensageiros ante um velho
Câmara Cascudo insiste em que o boitatá não é mito ligado e distante sábio - Mbama - o pitão, único que poderia dar
à origem do fogo. "Mito igneo, articula-se aos punitivos, de a resposta pedida. Chegavam, expunham, obtinham a res-
ação meramente catalítica, quando representa uma alma- posta e partiam. Mas todos, durante a viagem de retôrno,
-penada, ou exemplificadora, lembrando os castigos do in- após mil peripécias, esqueciam-se do nome da árvore e do
cesto". fruto. A proibição continuava. Até que, desafiando à des-
crença geral, Kudu - a tartaruga, voluntàriamente foi ao
BOIONA - De mboi cobra e una preta, o mito mais difundi- Mbama e, seguindo conselhos ouvidos à mãe antes da par-
do no Amazonas é descrito por Alfredo da Mata (Vocabulário tida, absteve-se de comer e de beber durante a viagem de
.Amazonense): " ... transforma-se em as mais disparatadas fi- volta. Assim não se esqueceu - por artes do demônio -
guras: navios, vapôres, canoas. . . engole pessoas. Tal é o que o nome da árvore e do fruto era Bojabi, nome que sig-
rebôjo e cachoeiras que faz, quando atravessa o rio, e o nifica presente dos deuses, podendo portanto ser comido.
ruído produzido, que tanto recorda o efeito da hélice de
um vapor. Os olhos quando fora d'água semelham-se a dois BOKADORffiEU - O herói bororo figurante do violento mito
"Vingança de Geriguiguiatugo".
grandes archotes, a desnortear até o navegante". Foi parte
ou origem (como afirma Couto de Magalhães) de um ciclo
mitico de que participa a lenda "Como apareceu a noite", se-
BOLARO - '
Entre os índios tucanos, espirito que com dife-
renças em outras áreas indigenas leva o nome de Curupira.
-
gundo a qual a Cobra Grande (Mboiaçu) casa a filha e manda- Tem os pés voltados para trás, vagueia de preferência pelos
-lhe a noite prêsa dentro de um caroço de tucumã. (.Astrooarium igarapés, defende os mistérios de Jurupari contra a curiosi-
tucuman, Mart.) Os portadores, curiosos, abrem o caroço, dade das mulheres e a traquinagem das crianças. Como prin-
libertam a noite e são punidos. A boiúna não merecia dos cipal diferença do Curupira, o Bolaro chupa o cérebro de
índios nenhuma espécie de culto, mas apenas o pavor pela suas vítimas.
sua capacidade de fazer o mal, e de disfarçar-se, como vem
narrado em Na Planície Amazônica, de Raimundo de Morais, BOPE - Entre os bororos, maus espíritos que vivem sôbre ou
Manaus, 1926. O mito de boiúna recebeu a convergência debaixo da terra, temidos por espalharem a doença e a morte.
de inúmeros outros, como o da Mãe-d'água e o da iara. Ga- Têm aparência mostruosa e só com o enxergá-los, o indio
briel Soares, descreveu-a em seu Tratado do Brasil "é outra adoece. Também chamados Maeréboe *.
casta de cobras, que se criam na água, nos rios do sertão, BOTO - (ln ia geoffrensis). Sob diversos nomes populares é o
as quais são descompassadas de grandes e grossas, cheias de animal amazónico de maior presença folclórica. Sedutor de
escamas pretas, e têm tamanha garganta que engolem um môças ribeirinhas descuidadas e conseqüente pai de todos
negro em o tomarem, e tanto que quando o engolem ou al- os filhos "de responsabilidade desconhecida". "Nas primeiras
guma alimaria, se metem na água para o afogarem dentro, horas da noite transforma-se num bonito rapaz, alto, branco,
e não saem da água senão para remeterem a uma pessoa ou forte, grande dançador e bebedor, e aparece nos bailes, na-
caça, que anda junto ao rio; e se com a pressa com que mora, conversa, frequenta reuniões e comparece fielmente
engolem a prêsa se embaraça, com o que não pode tornar aos encontros femininos. Antes da madrugada pula para a
para a água donde saiu, morre em terra, e sai-se a pessoa ou água e volta a ser o bôto." Sua fama de sedutor é do século
alimaria de dentro, viva; e afirmam as · linguas, que houve 19. Registrou-a seu estudioso mais demorado (1848-1959)
índios, que estas cobras engoliram que estando dentro da Henry Walter Bates (The Naturalist on the River Amazons,
sua barriga tiveram acôrdo de as matar com a faca que le- Londres 1864) . Nos séculos anteriores, o bôto como a iara,
vavam dependurada ao pescoço, como costumam". não viviam nos mitos amazónicos. Couto de Magalhães. "cri-
BOJABI - Ãrvore africana e seu fruto. Tornados entidade ando - anota Câmara Cascudo - uma hierarquia dos deuses
espiritual e exercendo papel heróico no ciclo da tartaruga, tupis, disse do bôto'': "A sorte dos peixes foi confiada ao
BRA 58 59 BUT

Uauiará. O animal em que êle se transforma é o bôto." O perdia um pêlo e em cada geração uma das pernas. Quando
uauiará •, sim, é legitimo filho da selva e tão conquistador todos os seus pêlos e suas quatro pernas cairam, as grandes
quanto 0 bôto. Na lenda do Uauiará e do Bõto convergiu tam- águas invadiram tudo . .. " e o mundo foi afogado.
bém elemento do mito colonial do Ipupiara •. ll'l o que diz
0 jesuita Simão de Vasconcelos, no século 18: "Dos homens- BUMBA - No ciclo mitico africano do bushungo, para os
-peixes e peixc:s-mulheres, vi grandes lapas, junto ao mar, cheia bakuba do Congo meridional, Bumba é o deus principal. Cria-
de ossada dos mortos; e vi suas caveiras, que não tinham dor do universo, proeza para a qual utilizou-se de um método
mais diferença de homem ou mulher, que um buraco no tou- especial : em sucessivas indisposições, vomitou o S.ol, a Lua,
tiço, por onde dizem que respiravam." O mito completou-se as estrêlas. Do último e menos inspirado vómito é que se
centralizado no plano da sexualidade, justificando mulheres originou o homem. Revelou o segrêdo do fogo a Kerikeri •.
e a cicatando homens. Criaram um processo de reconheci-
BUOP.m - Tuxaua heróico dos indios tarianas da região do
ment o : o orificio no alto da cabeça, motivo pelo qual em
tôdas as circunstâncias o môço-bôto mantinha o chapéu. Fá- Ucaiall. Guiou ·seu povo em soberba aventura maritima, in-
bulas européias, crenças portuguêsas conflulram no bôto ama- corporada à tradição oral da tribo. Aprendendo a fazer jan-
gadas, os tarianas fizeram-se . ao mar e tangidos pelos ven-
zônico. Entretanto o Uauiará é elemento americano puro.
tos afastaram-se da terra bem mais do que haviam querido,
BRADADOR - Duende que assombra os sertões dos Estados perdendo-a de vista. Mar adentro, depois de muit os perigos
de Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Minas Gerais. Vai enfrentaram navegantes desconhecidos, misteriosos, que os
emitindo "berros altos, compassados, intermitentes e horri- venceram e tomaram-lhes tôdas as mulheres. O g ênio de
veis". Em informação para Câmara Cascudo, o folclorista Buopé salvou-os da destruição total e reconduziu-os ao ponto
paranaense Francisco Leite, descreveu o Bradador de seu de partida. Chefe invencível, derrotou todos os inimigos da
E stado : " . . . atravessa os campos, correndo, tôdas as sextas- tribo, mantendo conduta amistosa para com os vencidos, tor-
-feira s, depois da meia-noite. Vai bradando pelos descam- nando-os seus amigos. Ainda corre, em nheengatu o poema
pados. ll'l uma alma-penada. Afirmam os caboclos que se de suas façanhas "Buopé Maramunhangauaetá", recolhido por
trata do espirito de um corpo sêco, ou melhor, de uma múmia, Brandão de Amorim, como Guerras de Buopé. Os que o acre-
que foi desenterrada do cemitério do povoado Atuba (vizinhan- ditam figura histórica, situam-no no último quartel do século 18.
ças de Curitiba) e jaz encostada a um pé de imbuia, com-
pletando seu fado material sôbre o solo . . . só depois de cum- BUSH NEGROES - (Mítica e cultura dos bush 1regroes). Tribos
prir a sina, seu corpo poderá ser absorvido pela terra que o negras do interior da Guiana Holandesa são considerados "la-
r ejeit ara por largo espaço de tempo". boratório de experiências" sobremodo interessante para o co-
tejo das culturas negro-africanas e negro-americanas. Nos
. BRANDÃO DE AMORIM, ANTÔNIO - Nascido em Manaus, a séculos 17 e 18, escravos da Costa do Ouro, em sua maioria
7-8-1865, faleceu em Belém do Pará a 27-10-1926. Educado Fanti-Ashanti, foram introduzidos na Colônia. Em meados
em Portugal, freqüentou por dois anos os estudos médicos de do século 18, deram-se fugas globais para os matos onde
Coimbra. Pela familia materna, descendia de indios manaus, nunca foram apanhados pelos holandeses. Mantiveram a
o que o conduziu ao estudo da cultura indigena a.mazônica. cultura africana, principalmente no mítico religioso, pois con-
Exerceu atividade poUtica e trabalhou na extração da borracha, tinuam pràticamente isolados, distribuindo-se em três tribos
m as deixou t ais atividades para entregar-se aos estudos etno- principais : Saramacca, Awka e Boni. São francamente i.,anti-
gráficos, t ornando-se dos maiores conhecedores de mitos e tra- -Ashanti e a pequena presença de elementos culturais bantos,
dições, que coligiu e escreveu em lingua nheengatu, traduzindo- iorubas e daomeanos já existiam no seio tribal quando na
-as, depois, fielmente, em "Lendas em nheengatu e em por- .Africa.
tuguês" , publicadas na Revista do JnstUuto HistóriC-0 e Geo-
gráfico Brasileiro, tomo 100, volume 54, 1926. BUSI-KROMANTI - Vm . winti * dos Bush N egroes • da Guia-
. na Holandesa e que poderia significar o espirito das selvas
B'OFALO ESCORA - Mítica dos sioux, América do Norte. que protege (nas selvas) os (homens) Kromanti.
O búfalo mais forte do rebanho, apercebendo-se da ameaça
do dilúvio que pesava sôbre o seu mundo, dispôs-se a conter BUTORIKU - Herói libertador· da raça bororo. Realiza uma
as águas. Encostou o corpo no orificio do céu pelo qual a série de proezas hercúleas, matando o monstro que ater-
água principiava· a escorrer e resistiu. "Cada ano êsse búfalo rorizava a nação indígena. , ·
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nado a viver durante 49 anos nas águas do Paraiba. Depois


que êle comer 7 Marias tornará ao estado natural. desencan-
tando-se. Conta-se que sua mãe viverá enquanto êle estiver
nas águas do rio". Alfredo de Freitas ( Buperstiçóes e Um.-
das ~ Norte do ~rasil) diz que " ... vai traiçoeiramente se

e aproxuna.ndo, pouco a pouco, do individuo se êste porém não


se e~adir em tempo, será apanhado por ê1e e submergido in-
contmenti. :m representado por uma figura animada que tem
a cabe~a à semelhança de uma cuia. Ninguém porém, ainda,
consegwu ver-lhe o corpo".

CAAMANHA - Anotado por Stradelli em seu Vocabulário CABEÇA ERRANTE - Segundo um registro de Capistrano de
Abreu, para os caxinauás, indios panos, do Rio Ibuaçu, no
nheengatu como "Mãe-do-mato", parece ser o próprio CUru-
pira. Acre, o mito da cabeça errante explica a origem da Lua.
Um homem cortou a cabeça e deixou-a no mato. Quatro outros
CAAPORA - Também Caipora, no norte e nordeste do Brasil, homens foram buscá-la. A cabeça decepada recusou-se a ir
figura de indigena retaca e forte, peluda, farta cabeleira dentro de um jacá. Queria ir rolando atrás dos homens.
com a qual açoita gente e cachorros, protetora da caça, mas l!Jstes ficaram com mêdo. Fugiram. A cabeça rolava se-
negociando peças em troca de fumo e de cachaça. Se encon- guindo seus passos. Os homens subiram em um bacupari-
tra animal abatido, ainda não tocado pelas mãos do caçador, zeiro, a cabeça ficou embaixo, pedindo frutas. Deram-lhas,
pode ressuscitá-lo. Estabelece relações amorosas com homens atirando-as bem longe para que pudessem escapar. A cabeça
que lhe agradem, tornando-se porém grandemente ciumenta. foi buscar as frutas. Os homens desceram, correram, mas a
Se um de seus amantes pensa casar-se, deve ir para muito cabeça veio rolando atrás. Fecharam-se em suas casas.
longe. Encontrado depois de casado ou em vésperas de casar- Admitindo ser indesejada pelos antigos companheiros, a ca-
-se, é açoitado com chicote espinhento até morrer. Em al- beça resolveu tornar-se alguma coisa que não fôsse de ne-
gumas áreas há também um caipora macho, baixo, robusto, nhuma valia para os homens ingratos. Não quis ser terra,
ágil, sempre cavalgando um porco do mato. (V. Caipora) nem água, nem bicho, nem chuva, nem sol. Decidiu ser
Lua. A Lua não serve para nada - dizem os caxinauás.
CAA-YARI - Mãe-da-erva, na zona produtora de mate do Só para iluminar o caminho noturno quando vão para a guerra.
centro sul-americano. Protege a ilex paraguayensis contra
os abusos dos cortadores. Na Argentina e no Paraguai acre- CABELL<? - Miguel de Balboa: natural de Málaga, religioso
ditam que conceda favores amorosos aos homens que encontra e~ Q~1to, publicou em 1586, uma História del Peru Bajo la Do-
sõzinhos, porém é insuportàvelmente possessiva, proibindo que minación de los Incas, obra que lhe deu celebridade e tornou-~
o amante se volte para mulheres. Percebendo-se traida ou obrigatória como referência sôbre os incas e o Peru.
que êle contrai ou não desmanchou noivado, casamento ou CACHANO - Ou Carrampempe, o espirito mau, o diabo, para
amigação, mata-o à fôrça de surrá-lo com um cipó espinhento. os camponeses de certas regiões montanhosas do Peru. o
mesmo que Tunante, Rabudo.
CABEÇA DE CUIA - Monstro das margens do Rio Paraiba,
nos Estados do Piaui e Maranhão. Em Geografia dos Mitos CAD~~UCRJr> - Herói mitico dos caingangues. Depois do
Brasileiros, Câmara Cascudo endossa a descrição de Vale Ca- ~luv1~, céu terra e mar ficaram despovoados. Apiedado do
bral: " ... é alto, magro, de grande cabelo que lhe cai pela s1l.ênc10 e do vazio, o herói obteve a permissão de Tupã para
testa e quando nada o sacode, faz as suas eXcursões na en- cnar novos sêres. Com as cinzas e os carvões da primeira
chente do rio e poucas vêzes durante a sêca. Come de 7 em fogueira pós-dilúvio e o orvalho recolhido nas fôlhas da taio-
7 anos uma môça de nome Maria; às vêzes porém também ba: c~mpôs . figuras às quais dava vida, com um sôpro, ao
devora os meninos quando nadam no rio, e por isso as mães pnme1ro raio de sol. Inicialmente f êz a onça, rainha da
proibem que seus filhos ai se banhem. Há homens que dei- selva. Depois, o guariba que domina as árvores. Em seguida
xam de se lavar no rio, sobretudo nas enchentes, com mêdo º , gavião ~~ penacho, o gambá, a arara.. a guaiquica, o jaca·
de serem seguros pelo tal sujeito encantado. Originou-se de re,. a cap1vara, a pacarana, o veado e mais bichos, aves e
um rapaz que não obedecendo a sua mãe, maltratanao-a e pe1~es. O último a ser criado foi o tamanduá que resultou
abandonando sua familia, foi pela mãe amaldiçoado e conde- muito extravagante de formas porque Cadjurucrê estava obri-
CAI 62 63 CAM

gado por Tupã a não deixar resto algum das cinzas e dos estrêla originou-se da transformação de um fraticida. :m parte
carvões. Aproveitou todo o material nesse último bicho. da lenda de Epépim * explicativa da origem da constelação
cAIPORA - De caá, mato ·e pora;, habitante, é em quase tudo de ôrion.
0 mesmo Curupira, porém, com os pés normais. Querem CAL~U DES MORTS - Refeição ritual do ciclo de home-
alguns estudiosos que a fusão seja posterior. ao Descobri- nagem aos mortos ( zombies) preparada em meio a cerimô-
mento. Mas nos escritos de Frei André Thévet encontramos nia voduica, no Haiti. Depois de prolongado andamento, o
que un esprit que les assiêge durante Za nuit, o Kaa-Gerre hougan, dirigente principal, rodeado de acólitos e de môças
ou Raa-onan. Em Jean de Léri, aparece ·como Ka:egerre. 1wun8i8, vestidas de branco, entoa o boh-Oun, canto fúnebre,
Gonçalves Dias assinala o Kaa, mato e Gerre ou Guerre, cor- invocando os mortos, ritmado pelos gritos das hounsis. "O
ruptela de Guara, morador, habitante. Os indfgenas obriga- hougan traça, então, cruzes com farinha de milho e deposita
dos a sair à · noite defendiam-se do duende portando um tição nos buracos onde estão as velas, os alimentos do repasto fú-
flamejante. Couto de Magalhães nos deu a melhor fixação nebre. Depois, toma duas galinhas brancas, torce-lhes os pes-
do Caipora: " ... um grande homem coberto de pêlos negros coços, arranca-lhes as penas e deposita o sangue coagulado
por todo o corpo e cara, montado sempre num porco de di- nos buracos dos alimentos. Tudo isso vai então ser cozido,
mensões exageradas." Na Argentina, Caipora mereceu a para a preparação do calaloit des morts que será servido, de-
seguinte descrição de Arbrosetti: ... un hombre velludo, gi- pois de pronto, nos pratos brancos que serão enterrados nos
gantesco, de gran cabeza, que vive en los montes, comiendo buracos."
crudos los animales que el hombre mata y luego no encuntra. CALCU - Variante dos araucanos do sul do Chile para desig-
Assinala Câmara Cascudo, "pelo interior do Brasil. . . é um nar o bruxo ou a bruxa.
pequeno indigena, escuro, ágil, nu ou usando tanga, fuman-
do cachimbo, doido pela cachaça e pelo fumo, reinando sôbre CALCHONA - Nas montanhas do Chile, ser fantástioo e ma-
todos os animais e fazendo pactos com os caçadores, matando- léfico, atormentador implacável dos caminhantes solitários.
-os quando descobrem o segrêdo ou abatem número das peças Figura na mitologia guatemalteca como T zegua e na Argen-
combinadas. O Caipora pequenino e popular é o velho Curu-
pira, sem a influência platina que Couto de Magalhães acei- -
tina como Viuda.
CAL! - O esquilo, na mitica dos taulipangues, habitantes da
tou, e possivelmente representa o Caapora inicial, o selvagem Guiana Brasileira, ao pé do Monte Rorãima. Na época do
apenas, agigantado pelo mêdo que espalhava no mistério da dilúvio, o Cali era homem, irmão de Macunaima. Foi manda-
floresta". No nordeste, usa aparecer como lndiazinha amiga do por êste a vigiar o Aculi * que descobrira o segrêdo de
do contato humano, mas ciumenta e feroz quando traida. Vazacâ • - a árvore da comida. Fracassou na busca, foi
Quem a encontra garante felicidade nos negócios e em tudo picado por vespas, teve as pálpebras inflamadas para sempre
quanto empreender. Do Maranhão para o sul, - ainda ci- e hoje é esquilo.
tando Câmara Cascudo - o Caipora é o tapuia escuro e rá- CAMAGARI - N orne que os indios campas do Peru dão a
pido. No Ceará, usa cabeleira hirta, olhos de brasa, cavalga uma divindade menor, benéfica. Camagari opõe-se sistemà-
o porco caititu e agita um galho de japecanga. Engana os ticamente a Genquenire •, divindade de poder igual e maléfica.
caçadores que não lhe oferecem fumo e cachaça, surra im-
piedosamente os cachorros. Em Pernambuco tem um pé CAMAHUETO - Em Chiloé, animal fantástico, semelhante a
só, redondo como o do Pé-de-Garrafa, é seguido por um ca- um bezerro, encontradiço junto dos rios e do mar. Ostenta um
chorro o "Papa-mel''. Na Bahia, em Goiás e parte de Minas único chifre ereto sôbre a fronte. ~ branco e prêto, nasce
é uma cabocla quase negra ou um negro velho ou ainda um de pedaço de seu próprio chifre ou osso depois de 25 anos
negrinho de que só se vê um lado. :m mito de territoriali- de enterrado e em seguida a orações conhecidas dos bruxos.
dade nacional mas que, evidentemente, emigrou na direção O mesmo pedaço de osso ou de chifre proporciona excelente
sul-norte. material de bruxaria e é indispensável na farmacopéia feiti-
ceira.
CAIR:m - Auxiliar de Rudá, o deus do amor na mitica dos GAMAZOTZ - Entre os povos maias do território atual da
índios do Brasil. A principal tarefa de Cairé era manobrar Guatemala, deidade que adotava a forma de morcêgo. Exi-
•· a Lua, astro de suma importância na Vida feminina. gia sacrificios propiciatórios. Possuia irmãos vampiros.
CAIUANON - A estrêla Vênus para os macuxis, indios ama- CAMAXTLI - Deus nacional de Tlaxcala, conhecido no resto
zõnicos habitantes da região entre os rios Branco e Maú. A do pais asteca sob o nome de Mixcoatl *. Emigrara das ter-
CAM 64 65 CAP

ras setentrionais com as tribos que de lá baixaram a povoar o do fingiu viagem, voltou, ocultou-se em moita. de bambu
México. Era o deus dos caçadores e tinha a Via-Láctea como rente à casa, viu entrar o carroceiro, obteve o flagrante, ma-
paragem predileta. tou os amantes. Sumiu do mundo sob a forma corpórea e,
CAMUANO NIND.S: - A primeira das três grandes festas ini- transformado em alma penada, cumpre o fadário de solidarie-
ciáticas do culto de Jurupari *. Esta Camuano Nindé correspon- dade para com os maridos traídos, até que no fim do mundo
de à iniciação masculina. Tem lugar quando o menino com- lhe sejam tomadas contas do sangue derramado. Temido
pleta oito anos, e deve ser confirmada ou renovada quando por certas mulheres, simpático aos homens em geral, o
o mesmo fôr considerado apto para fecundar. Crianças e cão-da-meia-noite aparece uma vez ao ano : dia em que co-
mulheres estavam banidas das cerimônias e o segrêdo em meteu o duplo homicidio.
tôrno da mesma era inviolável. As duas outras festas ini- CAPACOCHA - O momento mais atroz do culto andino, Ca-
ciáticas são a Mahcanaca Basare * - espécie de batismo e pacocha significava a imolação, por estrangulamento ou de-
Cariamã •, iniciação das môças. capitação, de um menino ou de uma menina; as vitimas eram
CANANEUS - Elementos da mitologia, da arte e da escrita em seguida sepultadas ao pé do altar. J!)sse sacrificio se ve-
do homem americano, levaram alguns estudiosos como Les- rificava por ocasião da entronização de um inca, da festa
. carbot e o orientalista Ezra Stiles * a afirmar que o povoa- da iniciação. Huber reproduz a descrição de 'Camacho para
mento da América é devido a emigração "dos cananeus, que êsse rito: "As crianças destinadas a serem imoladas eram
postos em fuga por Josué, teriam chegado ao Egito e, con- trazidas por suas mães; sentiam-se estas felizes por fazer
tinuando depois para o Oeste, alcançando o litoral atlântico tal oferenda à divindade. Para que as crianças pudessem
pela Africa do Norte, puderam trasladar-se para a América, apresentar-se ante Viracocha, haviam sido prêviamente vesti-
cruzando o oceano" - no resumo de Paul Rivet (A8 Origens das com roupas magnificas e coroadas de flôres; em seguida,
do Homem Americano). davam-lhes uma bebida embriagante e, se se tratasse de
criança de peito, a mãe lhe dava de mamar antes da imola-
CANHAMBORA - Ou Canhimbora. Originàriamente, desig- ção. Os sacerdotes as tomavam com muitas cerimónias, fa-
nativo para o escravo negro, fugido, agregado a um quilom- ziam com que dessem volta ao altar, depois deitavam-nas
bo. Possivelmente, confusão com o têrmo quilombola, pró- sôbre a pedra sacrificatória, de rosto voltado para o Sol. No
prio para esta situação. Invocada para sossegar crianças instante seguinte, matavam-nas segundo as prescrições do
e manter em casa as meninas-môças, dado o terror com seu ritual bárbaro, sufocando-as, abrindo-lhes a garganta ou
que eram cercados os negros fugidos, os quilombolas que rasgando-lhes o peito com uma faca de obsidiana e arran-
atacavam viajantes e fazendas para conseguir alimentos, ar- cando-lhes o coração." Embora atribuída a primeira Capa-
mas, etc., esta figura, por fórça da tradição ruricola tornou-se cocha ao inca Manco Capac, existem evidências - inclusive
duende para as regiões dos Estados do Rio de Janeiro, Mi- etimológicas - de que tal sacrificio remonta a cultos locais
nas Gerais, São Paulo. Reinke deu-nos boa descrição em um anteriores à chegada dos incas.
trecho literário: " ... ouviu o latido do melhor cachorro da
matilha e logo após uma quantidade enorme de porcos-do- CAPAC-RAIMI - No calendário inca a primeira das quatro
-.m ato que, grunhindo, passavam junto dêle; esperou o últi- grandes festas anuais de fundo mitológico. Literalmente, quer
mo e qual não foi o seu espanto quando viu, montado no úl- dizer a festa do Inca ou da Iniciação. As outras festas:
timo porco, um homem alto, coberto de pêlos, só tendo nua Situa*, a purificação pelo fogo; a Inti-Raimi •, festa do Sol
uma roda, em tôrno do umbigo! Era o Canhambora .. . " e Amoray • a mais antiga e a. mais estranha, remontando, ao
CÃO-DA-MEIA-NOITE - Mito local, difundido entre os ha- que parece, ao obscuro culto da serpente.
bitantes da cuesta de Botucatu, Estado de São Paulo. Cão CAPACUC AM.A - Sitio de Calejón de Huaylas, Hongo, Peru,
enorme, negro, orelhas matraqueantes, corrida pesada e lenta. cuidadosamente evitado pelos homens. Seria território do-
Tem de curioso o fato de que não molesta fisicamente a nin- minado por um demónio violento que se compraz em castrar
guém. Sai de qualquer touceira de bambu e vai ladrar di- todos os machos que passem ao seu alcance. Abre exceção
ante e ao redor da casa onde haja mulher adúltera. .S: tudo apenas para os cães e os gatos.
o que faz, desaparecendo tão logo o marido se dê cont as da
denúncia. Explicação: por volta de 1870, um môço de Tietê CAPELOBO - Mito vigorante nas regiões do Pará e do Ma-
foi abrir · fazenda na serra, levando a espôsa que logo se ranhão, ligado ao ciclo dos monstros. Tem sido descrito
pôs de amôres com o carroceiro-mestre. Avisado, o mari- como animal dotado, por estranhos sortilégios, do poder de
CAP 66 67 CAR

assumir a forma humana. A anta seria o animal com cuja moral que viera implantar não foi destruída pelo caudilho
forma se apresenta mais freqüentemente, embora bem maior, (que simboliza o mal, o caos, o diabo na versão pós-conquista)
patas arredondadas e uma espécie de cabeleira longa, carac- mas passou a outro plano menos visivel, subterrâneo, sob
terlstica esta que permitiria identüicá-lo. O focinho varia: a forma de semente. Esta há de retomar o ciclo natural, ger-
no Pará, lembra o do porco; no Maranhão, o do tamanduá. minar e dominar a vida no ano seguinte. Pois Tunapa é
Ronda silenciosamente as casas isoladas, atacando animais o herói da ordem, da atividade agrária, da humildade e da
domésticos e gente. Suga o sangue de suas vitimas pela contenção - no entender dos que buscam um significado
carótida. Segundo o destino que a mitologia brasileira reser- esotérico no comportamento e nos feitos do herói. Na igreja
va para monstros semelhantes só pode ser abatido se o pro- de Carabuco atual, uma série de excelentes painéis narram
jétil ou o golpe de arma branca atingi-lo no umbigo. Na êstes sucessos à piedade dos indios.
região xinguana, a crença difundida a respeito de sua origem CARA MEQUERE - Argumento brandido pelos defensores da
é a de que se trata de indio muito velho, transformado espon- tese cretense no povoamento do Amazonas e em especial da
tâneamente no monstro. Ilha de Marajó. Marcel Homet resumiu as razões em causa:
CAPIANGO - Nos países do Prata, animal fantástico, de as- "Nessa mesma ocasião, houve artistas na Ilha Marajó, no
pecto aterrorizante. Em alguns lugares, além de fantasma- Amazonas e artistas na Ilha de Creta, no Mediterrâneo, que
górico, em certas condições pode transformar-se em tigre, mas bem caracterlsticas, tanto no Amazonas, quanto no Me-
tornando-se então devorador de homens. modelaram e decoraram urnas, simples ex-votos, cujas for-
diterrâneo, representavam os barcos cretenses de quatro mas-
CARABUCO - Na lenda de Tonapa *, o sucessor, o enviado tros que podiam transportar 800 passageiros e onde o for-
ou o desmembramento de Viracocha *, Carabuco é cenário e necimento de água era assegurado por enormes reservatórios.
símbolo de um dos mais vivos episódios, além de ser o mais O nome cretens e dêsses reservatórios chegou até nós. Cha-
rico em valôres esotéricos. Estudiosos, como Rodolfo Kusch, mava-se: "Cara Mequere". Mas ... qual é o nome que tri-
ligam o episódio à teoria da tetrameria do espaço cósmico bos que falam o velho tupi-guarani dão a seus reservatórios de
(José Imbelloni - La segunda esfinge indiana), o tema da água? - Cara Mequere!!!"
bissexualidade do.s heróis m.iticos da proto-história (lndianer
Marchen ª""' 8udamerika, Theodor Koch-Grunberg), e outras
CARAIBEBES - Na mftica dos indios do Brasil sêres medi-
ando entre os homens e os deuses. Acompanhavam e prote-
teses. O melhor texto a êste respeito é o do yarnqui Salca- giam os mortais, vindo a ser identificados pelos jesuítas como
maghua •: "depois de fincar uma cruz nos Andes de Carabaya, anjos da guarda.
Tonapa foi pregar a doutrina e as leis de Viracocha na re-
gião de Carabuco, junto ao Titicaca. Dominava ali um cau- CARANCHO - Herói mltico dos tumerehás e dos kaskihás,
dilho feroz ·que, reunindo seus seguidores fechou-se no cêrro do Chaco. Sua façanha principal foi ter furtado aos céus
de Kilima, hostilizando Tonapa e acólitos. Ocorre uma série o fogo com que beneficiou os homens.
de lutas, tocaias, armadilhas, ciladas, durante as quais o CARHUALLU~CARHUINCHU - No ciclo teogônico da mito-
caudilho tem apoio de dois elementos naturais: o fogo e o logia inca e conforme a interpretação do Padre Avila ao es-
raio; mas não consegue vencer Tonapa, apoiado e alertado quema do yarnqui Salcamaghua *, era êste o nome dado ao
por outros elementos naturais. Entra em ação a filha do caos, na sua luta contra a ordem. A ordem era Paryacaca •,
caudilho e ameaçado e enfraquecido pelo exerclcio amoroso ou o deus encerrado em cinco corpos, o qual "!êz cair ao mes-
pela acusação infundada, Tonapa é aprisionado e vai ser des- mo tempo cinco grandes chuvas de cinco lugares (do céu)
pedaçado pelo caudilho. Salva-se porque, afinal de contas, diversos... depois, lançou cinco raios de cinco direções do
é o enviado ou o próprio desmebramento do grande deus. céu, mas Carhuallu-Carhuinchu, desde o nascer até o pôr do
Assim, ocorre que "a las cinco de la ma.nana es liberado por sol, sob a forma de fogo violento que chegava até o céu, ar-
un mancebo muy ermoço", quien "Vino a lZamarZo "en nombre dia com fúria inextinguível".
de la matrona que os está guardando solo, el qual esta para CARI - Na mitologia 9os collas, segundo Cieza de León, um
irse aZ lugar de hulguras". Foge com a "matrona,, e tendo dos mais antigos e gloriosos dos reis. O mais interessante,
por aliado a água e o vento cruza incólume o Lago de Titi- na lendà do Rei Ca.ri é que ao conquistar a Ilha de Titicaca,
caca. Estava concluida sua missão e portanto "dizen quel tê-la-ia encontrado povoada por homens "brancos e harbu-
dicho Tun.upa pas6 siguiendo eZ rrio de Chacamarca (Desa- dos" aos quais vencera depois de áspera luta. A presença
guadero atual) hasta topar el la mar". A ordem cósmica e de homens brancos naquela região, encontra ecos em inúme-
CAR 68 69 CAR

ras outras lendas que em todos os mais detalhes e aspectos da em outras partes do pais, sob os nomes locais de nacac •
diferenciam totalmente desta. ou fiacaco •.
CARIAMÃ - A terceira das grandes festas iniciáticas no culto
CARNEffiO, iIDISON DE SOUSA - Baiano de Salvador, ali nas-
indígena de Jurupari •. As duas outras festas eram Camua-
no Nindé • e Mahcanaca Basare •. Cariamã correspondia à ceu em 1912 e formou-se em Direito, tendo sido redator do jor-
festa da puberdade das môças, um dos raros momentos em nal O Estado da BaMa. Passou a residir no Rio de Janeiro,
que o culto do "deus musical" toma conhecimento das mulheres. mantendo o principal interêsse na área da cultura negra, in-
fluência, contribuição e integração na vida brasileira. Sua.
CARIAPEMBA - O demônio, entidade maléfica dos africanos obra reveste-se de acentuado cunho de profundidade e serieda-
trazida pelos escravos. Fundiu-se ·aos poucos com outras enti- de, destacando-se: O Quilombo dos Palmares, 1958; A Insurrei-
dades. Pereira da Costa, em Folclore Peniambucano, fixou-o ç<'io Bra.sUeira, 1960; Oandomblés da Bahia, 1954; A Sabedo-
assim: "Perseguia-os de um modo atroz, aparecia-lhes visl- ria Popular, 1957.
velmente, e introduzia-se nos seus corpos, tornando-os ende-
moninhados, endiabrados." CARO SACAIBU - O primeiro homem, para os indios mun-
CARIDA - No ciclo de Jurupari, o discipulo e acompanhan- durucus, o criador do povo. A mitica foi colhida e sinteti-
te daquele deus. Depois de longa 'andança, de tribo em tribo zada por Jean Louis Rodolphe Agassiz. Figura no volume
e ao fim de inúmeras peripécias durante as quais impôs sua que êste assina com sua espôsa, Elizabeth Cary, Viagem ao
lei aos homens, Jurupari julgou chegado o momento de re- Brasil, 1865-1866: Caro Sacaibu era também deus. Dividia
velar a Cárida o mistério de sua missão na terra. Revelou- seu poder com o filho e um ente inferior, por nome Rairu,
-se filho e enviado do Sol. Viera ao mundo a fim de restau- o qual recebia as ordens e também o desdém de Caro Sa-
rar o rigor das antigas disciplinas e também para descobrir caibu. Obrigando-o a seguir para o interior da terra um
entre as mulheres uma digna de tornar-se espôsa do Sol. Ela tatu enfeitiçado, Sacaibu procurou livrar-se de Rairu. :mste,
hão precisava ser bela nem rica, mas deveria ser exornada porém, inteligente e ardiloso, andou pelas entranhas do solo,
por três virtudes: que fôsse paciente, soubesse guardar um descobriu lá embaixo a multidão de povo esperando pela
segrêdo e não alimentasse qualquer curiosidade. Jurupari vida, voltou, informou a Caro Sacaibu que considerou opor-
vasculhava o mundo dos homens à procura de tal mulher. E tuno fazer subir tal gente. Plantou uma semente da qual
ao fim de suas confidências a Cárida lamentava dever che- brotou o algodoeiro. Quando a planta cresceu e produziu, o
gar à conclusão de que tal mulher não existe. Tôdas eram próprio deus preparou um fio comprido, forte como corda.
impacientes, curiosas e não sabiam guardar segrêdo. Por isso, Prendeu Rairu na ponta, fê-lo baixar às profundezas para
no culto que vai deixar estabelecido para a observação dos ho- içar os homens à superfície. Isso foi feito, porém o primeiro
mens, exclui as mulheres. era tão mal conformado, que assustava. Só aos poucos, muito
aos poucos, melhorava o aspe.cto, a postura e a beleza dos
CARIOS - Povo da Asia Menor que, segundo o historiador que subiam. Quando os homens já eram razóaveis de se
brasileiro Varnhagen, no decorrer do século VIII expatriou-se ver começaram a ser içadas as mulheres. Feias a principio,
em massa de seu território original chegando às Antilhas, depois algumas já formosas. Mas nessa altura o fio de al-
passando-se mais tarde para a América do Sul, dando ori- godão, gasto pelo uso, partiu-se. Com isto, a maioria dos
gem ao tupi que o conquistador português encontrou na maior homens bem constituidos e das mulheres formosas ficaram
parte do Brasil. Varnhagen chegou a tal conclusão depois para sempre no fundo do abismo. "Por essa razão" - expli-
de estudos comparativos do tupi, línguas indigenas do Caribe cam os mundurucus - "beleza é coisa rara neste mundo".
e línguas turarianas ou mongólicas. Caro Sacaibu, então, dedicou-se a separar, pelo aspecto, ta-
CAR~SIR~ - "O que corta", mito local de Vilquechico, dis- manho, beleza, a gente que subira das entranhas da terra
tnto rumará do Peru. Ente invisível penetra mesmo nas ha- e a dividi-la em tribos, dando-lhes nomes, desenhos distinti-
bitações mais cuidadosamente cerradas e torna invencivel vos e ocupações diversas. Sobrou um resto de gente tão
o sono de sua vitima. A altura dos rins dá-lhe um corte pro- feia, tão fraca e lastimosa que o deus Sacaibu não quis
fundo, em forma de ferradura, extraindo por ali a gordura formar uma tribo com ela. Traçou-lhe uma risca vermelha
do paciente. Embora não fique sirial dessa operação, a. vitima no nariz, dizendo: "Não sois dignos de ser homens ou mu-
percebe o ocorrido e, tomada de febres, enlanguesce, delira lheres; ide e sêde animais!" E aquêles sêres foram mudados
e morre, sem remédio que a socorra. Por vêzes a. febre. torna- em aves, são os mutuns de bico vermelho e gemidos plan-
-se epidemia e arrasa aldeias inteir~. A crença é encontra- gentes.
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CARUANAS - Duendes da mitologia amazônica. Benéficos, lanzando a su paso gritos inarticulados y muy guturales,
atuam sôbre o pajé, inspirando-lhe remédios contra os males que en el silencio de la noche hacen un ruido e31trano Y es-
causados ao próximo. Oráculos selvagens. peluznante. Cuentan que, cuando encuentra al individuo per-
CARVALHO, Jost; - Cearense do Crato, nasceu a 11-2-1872, seguido, Ze liga las manos y los pies con el cabello creci<Ul B1J
vindo a falecer no Rio de Janeiro, a 15-12-1933, depois de vida st" sepulcro, el cual es duro y resistente; le derriba al suelo
trabalhosa e dedicada aos estudos etnográficos da Amazônia. y se coloca sobre el pecho del enemigo; le hinca los descarna-
Conheceu intimamente esta região, onde viveu como rábula, dos y afilados dientes y le chupa la sangre, mientras su.s
tabelião e comerciante. Câmara Cascudo considera o livro de miradas de fuego están fij as, en el rostro del perseguido.
Carvalho O Matuto Cearense e o Caboclo do Pará, obra "clara La cabeza, conforme succiona, toma mayores proporciones
y con su volumen, que no cesa de crecer y aumentar de peso,
e de grande informação para a etnografia e a literatura oral".
ahoga paulatinamente a su víctima, haciéndole antes sufrir
CASA VIVA - Entre os indígenas do noroeste argentino e una agonia dolorosa y cuando ha conseguido darle muerte
regiões limitrofes, é crença que o rancho apenas terminado é vuelve, rebotando de contento por el suelo, hasta el lugar de
coisa vivente. Como tal, para que seja habitado, toma-se su eterno descanso . ..
preciso matá-lo. No dia em que o dão por acabado, reúnem CATEQUIL - Também chamado Chueuilla *, deus inca en-
os vizinhos para a cerimónia coletiva da flechada. Junto dão carregado de propiciar oráculos favoráveis e que se mani-
os últimos retoques e depois de haverem comido e bebido das festava pelo trovão. Era filho do deus Huamanchuri • e neto
ofertas do proprietário, cada homem lança farpas pontiagu- do deus Ataguju * protetor das boas colheitas de figo e de
das contra o teto. Cada vez que uma das farpas penetra e milho.
vibra, é forçoso oferecer uma rodada de bebida. Quando
o número de farpas f ôr julgado conveniente, o proprietário CATITI - Auxiliar do deus Rudá encarregado dos problemas
dispara um tiro contra a fachada da casa que assim, mor- do amor na mitica dos indios do Brasil. Tinha por função
rendo, está definitivamente pronta. A festa continua até a principal despertar saudades reciprocas nos amantes separados.
manhã seguinte. O costume foi tratado a fundo por Nicando CATU ILLA - Deusa inca, protetora dos que viajavam a pé
H . Vera, Jacovella e Jijena Sánchez. em função de comércio e dos comerciantes estabelecidos. Per-
sonificação do planêta Mercúrio.
CASCUDO, Luts DA CÃMARA - Nascido em 1898, em Natal, RN,
e formado em direito no Recife, militou no jornal Imprensa, CAUA - O Curupira, com pequenas variantes, para os indios
devotando-se aos estudos folclóricos, matéria de que veio a cocamas, da Bolivia.
tornar-se das maiores autoridades mundiais. Sua bibliografia vai CAVALO DO MAR - Na mitica chilena relativa à Ilha de
para mais de 60 obras. ~ dos poucos estudiosos a descrever Chiloé, cavalo misterioso que serve de correio e como meio
todo o arco de interêsse da matéria: a coleta, a análise das de transporte aos bruxos, pois galopa com igual facilidade
fontes, a triagem, a classificação e a análise do material, Via- sôbre a água e a terra. A noite, avança clareando a estrada
jou pelo pais e pela Africa., confrontando elementos culturais à sua frente com o facho luminoso de lanterna alimentada
para melhor proveito do seu acervo. Obras mais conhecidas: com óleo tirado ao corpo humano. Está presente, mas invisl-
AntoZogia do Folclore Brasileiro, Geografia do Folclore Bra- vel, por tôda parte onde haja bruxo. Aparece a um assobio
sileiro, Dicionário do Folclore Brasileiro, Dante nas Tradi- dêste e é despedido mediante palmada que o estranho usuário
ções Populares Brasileiras, Cozinha Africana, Casos que o lhe aplica na anca.
Povo Diz, Contos Tradicionais do Brasil, Conceito Sociológico
de Vizinho. CAVALO MARINHO - Mito amazónico. O Cónego Francisco
~
Bernardino de Sousa (Lembranças e Curiosidades do Vale do
CATECATE - Versão boliviana para o mito quase universal Amazonas, 1873) registrou que os indios da região garantiam
da cabeça erradia, gritadora, assombradora, que no Brasil a existência, em uma das ilhas ao longo do Rio Uaicurupá,
ganha os nomes de Curacanga • ou Cumacanga e no Peru nas águas de formoso lago interior, de uma criatura gigan-
é Kefke *. Rigoberto Paredes em Mitos, Supersticiones y Su- tesca que sendo peixe tinha as formas nitidas de um cavalo.
pervivencias populares de Bolivia, apuà CAmara Cascudo, fi- Por isso, tal ilha junto a antiga Vila Bela da Imperatriz,
xou a formulação terrorífica: . . . es la cabeza desprendida atual Parintins, ficou sendo chamada a Ilha do Cavalo
de un cadáver humano, que saltando de su sepultura, va ro- Marinho. O mito tomou-se de amplidão amazônica, sen-
dando en busca deZ enemigo que en vida le causa males y do muitas as versões a respeito do tamanho, da brancura
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ofuscante de seu pêlo, de suas crinas de ouro e especialmen- precisamente uma cifra, mas referência a um número inde-
te de seus olhos decididamente humanos. Raramente abando- nivel de espiritos ou divindades. (Veja Centzon Totochin)
na as águas do rio e ao comprido curso do mesmo prefere
os trechos florestais. Em Lendas Amazônicas, José Couti- CENTZON MIMIXCOA - Ou seja, par~ os astecas, as Qua-
nho de Oliveira narra: "O Chico estava amarelo como ça- trocentas Serpentes de Nuvens, isto é, as estrêlas do norte.
frão. . . era o Cavalo Marinho, me respondeu êle... era Explicam o porquê das guerras. Haviam sido criadas
branco como papo de tucano e tinha tanto pêlo nas ancas pelos deuses para a tarefa de cuidar do Sol, dando-lhe de
que pareciam um colchão. Quando se virou para êle, com comer e de beber. Sucedeu que ao fim de certo tempo
o barulno da porta, Chico viu no meio da testa uma estrêla desertaram de sua missão. Primeiro, desleixaram. Captu-
de ouro e as crinas de ouro arrastavam no chão." raram um jaguar e não o deram ao Sol por alimento. Depois,
adornaram-se com plumas, dormiram com mulheres e beberam
CAVALO-SEM-CABEÇA - Mito réplica à Mula-sem-Cabeça. vinho de Tziuactli até se embriagarem. O Sol, irritado, reu-
Seria o padre desrespeitador do voto. de castidade. A escolha niu os hom.ens, criados depois dos Mimixcoa e lhes disse:
da fonna cavalar estaria explicada por aquela assumida por "Meus filhos, é preciso agora que destruais as Quatrocentas
sua cúmplice. Estudos de Gustavo Barroso localizaram o Serpentes de Nuvens; porque elas nada dão ao nosso pai,
mito do cavalo-sem-cabeça em áreas européias. Na interpre- nem à nossa mãe . .. " E foi assim que começou a guerra
tação de Câmara Cascudo teria vindo com a colonização - conclui o Códice Ohimalpopoca, no capitulo da Leyenda
e no Brasil encontrado conexão com o mito da Mula-sem- de los Soles". Dai porque a guerra era o estado natural e
-cabeça. No Estado de São Paulo, segundo Cornélio Pires necessário dos astecas. Era um dever cósmico, uma obses-
(Conversas ao Pé do Fogo) impõe-se que a amante do padre são e ao mesmo tempo conformação total à vontade dos deu-
seja cas ada : "Cavalo-Sem-Cabeça? - ~sse. . . é bão num ses, expressa pela voz do Sol, logo na origem do mundo.
sê f alá. . . que Deus perdoe. . . diz que são os Padre que Centzon Mimixcoa, · com o signüicado de "as estrêlas do lado
andaro troceno as muié dos otros . .. " norte", era o conjunto de quatrocentas estrêlas que eram
CAXOCH - Divindade menor asteca, de invocação restrita outros tantos filhos da deusa da água.
às parteiras e aos ticitl, sacerdotes-curandeiros quando no CENTZON TOTOCHIN - "Os quatrocentos coelhos". Perso-
exercício de sua atividade. Invocada sempre em dupla com nagens ligados ao panteão dos deuses maia-astecas, através
a deusa de igual função, Quato •. de sua irmã, a deusa Mayahuel *. Incumbia-lhes cuidar para
CAYALA - Na mitologia quiché, juntamente com Paxil * o que todos os anos a produção da pulque, a aguardente de
sítio onde o deus criador Cucumatz e mais Tepeu * foi bus- agave, fôsse boa e bastante.
car a matéria com que criar os homens. CEQUES - Para a adoração do seu deus solar, os incas cons-
CEGUA - Também Tzegua. Fantasma noturno que assom- truiram fileiras de adoratórios, chamados ceques. :S::les par-
bra e enche de clamores a noite dos camponeses de quase tiam do templo central do império - o Corincancha, em
tôda a América Central. Guarda semelhança com a bruxa Cusco e em número de 333, devidamente recenseados por
Viuda ou Llorona dos argentinos. Pólo de Ondegardo *, chegavam aos confins do território.
.E stavam sob a guarda das tribos próximas, que deveriam
CENTEOCIHUATL - Uma das invocações da Chicomecoatl *, mantê-los limpos, ordenados e bem dotados, pois estavam
também chamada Centeotl, deusa asteca encarregada da pro- diretamente vinculados à ordem do divino nas necessidades
teção às lavouras de milho. do terreno.
CENTEOTL - Entre os astecas, principalmente os campone-
CERENTõN - Nos Estados venezuelanos de Lara e Falcón, o
ses, o jovem deus da música. Está ligado também ao ciclo
bruxo por escolha. O candidato dirige-se a um bruxo-mestre
dos cultos relativos ao milho.
que o inicie devidamente. Quando está preparado, à meia-
CENTZON HUIZNAHUAC - No panteão maia "as estrêlas -noite, em uma encruzilhada, espoja-se no solo e invoca o
do lado sul", ou o conjunto de quatrocentas estrêlas, outros maligno. Vai para a beira de um poço, desnuda-se, tendo a
tantos filhos da deusa Coalticue. As estrêlas do hemisfério cautela de ocultar muito bem as roupas ao pé de uma árvore.
norte, em número igual, agrupavam-se sob a denominação de Reza de traz para frente a Oração de São Cipriano, o Credo
Centzon Mimixcoa *. A expressão "Quatrocentos", - Centzon ou qualquer outra fórmula recomendada pelo iniciador. Tor-
- quando aplicada a deuses ou semideuses, não significava nado invisivel, pois sua imagem ficou retida no poço, pode
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penetrar em qualquer casa ou agrupamento e cometer as cerem as semeaduras e de brotarem os grãos que servem
tropelias que desejar. Já é um ceretón. Na região .andina, é de alimento".
chamado zángano •. CHAKEN - Deus chibcha a quem incumbia zelar pelas coi-
C:mSARES (CIDADE DOS) - Cidade mitológica, riquissima, sas e pelos lugares sagrados.
que a fantasia dos primeiros espanhóis, ouvindo narrações in-
CHAKIYLLA - Também Chokiylla, o mesmo que Illapo •.
dígenas, acreditavam existir nos desertos da Patagônia. Deu-
-lhe tal nome o Capitão Francisco César, a quem Sebastião CHALA - Costume mitico-religioso, ainda vivo nos vales Cal-
Caboto comissionou para incursões territoriais de descobrt- chaquies, norte argentino, consistente em aplacar a fúria dos
mento no ano 1527. O próprio Hernandárias saiu a campo pântanos que se põem a tragar gente e animais, através da
tentando localizá-la. Ciro Bayo escreveu: Flor de ws de-
siertos patag6nicos fué la ciudad encantada de los Césares,
con suntuosos temp"los y magnifico caserio, entredos cerros,
oferta ritual de alimentos e prendas.
CHALCHINATL - "Agua preciosa", "alimento único dos deu-
ses", isto é, o sangue humano. Acreditavam os astecas ser
-
uno de diamantes y otro de oro. Tan grande era que, paro 11ecessárto ministrar diàrtamente tal alimento aos deuses, a
cruzarla de extremo a extremo, se ponían dos días, y estaba
fim de que as trevas não pesassem definitivamente sôbre o
edificada en la isla de un misterioso lago, rodeada por mu-
mundo.
rallas y f osos. Los ombres que en ella moraban eran de
gran estatura, b'lancos y barbados; vestian capas y chamber- CHALCHUIHTLICUE - "Aquela que tem uma saia de pedra
gos co111 plumas yusaban arma.s de plata. Eran ademá8, in- preciosa", a companheira inseparável do grande deus Tlaloc •,
vuZnerábles y Zongevos. Um reino en el que la vida se desH- o maior dos deuses camponeses no panteão asteca. Por ser
zaba feliz y deliciosa. O cêrro Lihuel CaZel • foi apontado a espôsa do deus da chuva, era a deusa especial da água doce,
como baliza e centro da cidade mitológica. sendo Uixtociuatl * a deusa da água salgada e protetora dos
salineiros. Depois' de darem o primeiro banho nos nascitu-
CEUCI - Mãe de Jurupari *. Virgem, engravidou-se com o ros, as parteiras dirigiam a seguinte oração a Chalchuihtli-
sumo da cucura do mato ou do purumã - respectivamente cue: "Permite, deusa, que o seu coração e a sua vida sejam
no Rio Negro e no Solimões. Desobedecendo a um dos man- purificados; que a água lave tôda a nódoa, porque esta crt-
dados mais severos do filho, introduziu-se no local onde Ju- ança se entrega nas tuas mãos, ó Chalchuihtlicue, mãe e irmã
rupari doutrinava os guerreiros. Por isso, morreu. O filho dos deuses."
não lhe restituiu a vida mas levou-a para o céu onde pO<le-se
vê-Ia transformada nas Plêiades, estrêla~ que os indigenas CHAMALKAN - Deus horrífico na mitologia dos quichés, se-
chamam Ceuci. gundo o texto do Popul Vuh *. "Tinha forma de vampiro,
garras pontiagudas e curvas como as da águia, orelhas lem-
CHAC - Deus do Iucatã, criatura de porte gigantesco, robusto brando as dos ratões, dentes compridos, fortes, agudos. As
·o suficiente para ser o deus fundador da agricultura. No mês tribos por êle dominadas celebrizavam-se por não pedir nem
Tocaxepual era objeto de cultos entusiastas, com bailes, ali- mendigar mas por· tomar às outras quanto lhes aprouvesse.
mentos votivos, jejuns, etc. Dedicava-se a retirar do trovão Contudo, estas tribos agradaram aos deuses bons (Tepeu •,
a água fecundante. Gucumatz • e Hurakan *) entregando ao sacrificio os escra-
CHAGAS - Amuletos utilizados pelos nativos do centro da vos conservados para tal fim e praticavam zelosamente o
América do Sul - especialmente pitacos, tobas e pilagas. jejum. Tais práticas fizeram com que, afinal, os deuses bons
Manipulados pelos feiticeiros tribais com penas de nhandu, libertassem-nas do jugo de Chamalkán.
pêlos de jaguar e pedras coloridas, são atados aos pulsos e CHANCAS ou CHUNCHUR - Nos planaltos andinos, espiritos
destinam-se a afugentar espíritos malignos, impedir a mor- ligados ao culto dos ancestrais, lembrando de perto os deuses
dedura de cobras, proteger os caçadores, afastar o cansaço lares dos romanos. Na região litorânea, tais espiritos eram
e inutilizar práticas de bruxarias preparadas por desafetos. chamados Conopas •. Chancas, chunchur e conopas tinham
CHACNISTÃ - Flor do Iucatã que juntando suas virtudes valor de fetiches e ao longo do tempo ligaram-se às pacari·
às de outra flor, Xacnitã, engendrou poeticamente o nasci- nas * como expressão de culto.
mento do principal dos deuses locais. · CHANGO - Também Shangó. Entre os lucumis, em Cuba,
CHAJAL - Segundo o texto da Quarta Tradição '1q Popul a divindade da guerra, o santo propiciador e protetor da . viri-
Vuh "', era para os quichés "o deus que cuida de fazer cres· lidade, do fogo, da fôrça física, do relâmpago e do trovão.
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Segundo Ortiz, é Chango quem impõe o terror que por vêzes lhe são próprias. Che Mlanda é o exemplo dos que, pela
se espalha pela terra e pelo céu. Nas danças propiciatórias impaciência, obtêm menos dos deuses. Sendo seu canto pa-
a mímica dos executantes recorda golpes bélicos de machete recido à frase "e eu? e eu?", andou largo tempo cantando e
t rocados entre guerreiros e também "alardes impudicos de saltando ao redor de Mulungu que tinha à frente extensa
prepotência fá lica" na expressão de Félix Coluccio. Nas fes- fila de animais e pássaros por atender. Quebrando a espera
t as a êle dedicadas, os tambores lucumis são percutidos com e já impaciente, Mulungu borrifou o pássaro impertinente
f ôrça propositadamente maior do que em tôdas as outras. com restos de tinta usada. Por isso Che Mlanda tem a côr
dos impacientes que é mais triste do que as outras.
CHANTICO - Foi deusa menor dos nauas que um dia violou
o jejum a que se obrigara antes da cerimónia sacrificial. O CHIA - Principal invocação à deusa una e trina dos chibchas,
Todo-Poderoso percebeu tal sacrilégio pelo fumo do holo- espôsa do grande deus fundador da raça e do reino: Bo-
causto que lhe chegara e, indignado, transformou Chantico chicha •, ou Zukha, ou Nemketaba. Enquanto o rei-deus ma-
em um animal que bem poderia ser o cão. rido era calmo, ponderado, bondoso, Chia era volúvel, irre-
quieta. Gostando de brincar com as f ôrças naturais, provocou
CHAPARRI - Cêrro tido como local de encantamentos, pró- inundação diluviai do Rio Funza. Muita gente morreu, o es-
ximo de Chongoyape, no Peru. Estaria ali o jardim onde os cândalo foi grande. O marido e senhor, exilou-a. Sob a for-
bruxos andinos cultivam as suas ervas mágicas, boas e más, ma de Lua, noite após noite cuida dos seus dominios, mas,
sendo de seu exclusivo conhecimento distinguir umas das vez por outra, provocando as águas, causa novas catástrofes.
outras. Camino Calderon recolheu da mitica local, a crença
de que os bruxos dotaram o cêrro e os jardins de um terri- CHIAMIAHOLON - Um dos dois demônios quichés que ar-
vel dispositivo de defesa contra a intromissão de curiosos: mados de maça ou tacape, saíam a agredir e esmagar os
ossos dos passantes para depois ocultá-los em descaminhos do
fendas abrem-se sob os pés dos intrusos, tragando-os, sejam
homens ou animais. mato onde não poderiam encontrar socorro. O outro demô-
nio chamava-se Chimiabac *.
CHAREYA - Para os cahrocs da Califórnia, "o velho lá de
CHIBAMBA - Duende do ciclo da angústia infantil. Tem
cima", espirito que pode materializar-se mediante feitiçarias
tomando a forma, segundo as circunstâncias, de morcêgos, como regiões de seu donúnio o sul de Minas, São Paulo, norte
gavião, tarântula ou urso. do Paraná e E stado do Rio de Janeiro. Vale Cabral definiu-o:
"serve para amedrontar as crianças que choram. Anda en-
CHASCA - Divindade inca, personificação do planêta Vênus. volto em longa esteira de bananeira, ronca como porco e
Representada por jovem formosa, de longos cabelos. Além dança co,mpassadamente". Càmara Cascudo di-lo remanescen-
de proteger os amôres servia como acompanhante à Mama te dos rituais negros, degredado no papel de Cuca, reduzido
Quilla *, a Lua. a "Negro Velho", adormecendo meninos pelo mêdo.
CHAUTJ!:H - O criador de rios, para a g-e.n te da cultura Pâez, CHIBCHACUM - Deus chibcha protetor da que veio a ser a
Colômbia. O herói Chautéh viajava com muita sêde por re- cidade de Bogotá e também dos mercadores. Certa ocasião,
gião árida. Cravou um caniço no solo, sugou quanta água raivoso contra os homens, lançou chuvas diluvianas contra
desejou. Seguiu caminho mas a água, borbulhando pelo ca- Bogotá. Os homens, alucinados, pediram ajuda a Bochica,
niço, foi atrás. Correu e a água correu. Subiu a uma árvore grande deus e rival de Chibchacum. Bochica tocou com
e a água rodeou a árvore formando um charco. Desceu e sua varinha os rochedos de Tuquendama, no local onde ainda
caminhou. A água, atrás. Fêz muitos ziguezagues mas não se apreciam as famosas quedas, fazendo com que as águas
conseguiu livrar-se dela e por isso é que o Rio Páez, em ameaçadoras se escoassem por ali. Em seguida puniu Chib-
certo trecho, flui em ziguezague. Por fim, cruzou o grande chacum, condenando-o a sustentar a Terra em seus ombros.
Rio Madalena e êste engoliu o caudal que vinha seguindo Assim, cada vez que a Terra treme, sabe-se que Chibchacum
Chautéh. a está passando de um ombro para o outro.
CHAY ABAH - Entre os cakchiquel, de ligações maias, a CHICOMECOATL - Divindade asteca ligada à boa germinação
obsidiana sagrada, oráculo, talismã, fetiche. e à colheita do milho. Através de preces e cantos era insta-
CHE MLANDA - No ciclo mítico yao de vasta área africa- da a acordar anualmente a vegetação, pois se a semente dor-
na, pequeno pássaro ligado à epopéia da criação, quando o misse o homem morreria de f orne. Era êste o canto ritual a
grande Mulungu * deu às coisas, as formas e as côres que Chicomecoatl : ó àeu&a venerada das Sete-Espigas / Le-
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vanta-te, desperta! / ô nossa. mãe, tu àeixaa_nos hoje, / Tu enc~ntro, tal · pessoa desfruta da rara oportunidade de que
vais-te para a tua terra, Tlalocan. / / Lev anta-te desperta! / ô Chiruwi lhe revele os segredos das ervas e raizes medicinais,
nossa mãe, tu deixas-nos hoje, / Tu vais-te para a tua terra, ff podendo, dêsse modo, transformar-se em hábil curandeiro.
Tlalocan. (Códex de Florence, t. II, p. 213). Mas será preciso não demonstrar susto ou desprazer a:nte o
CHICOMOLOTZIN - Uma das invocações de Chicomecoatl •, aspecto fantasmagórico do Chiruwi que tem apenas meio
a deusa asteca do milho. Sob esta denominação era represen- corpo com um só ôlho, uma só orelha, um único braço e uma
t a da com uma saia fortemente vermelha e sustentando atilhos, única perna.
cada qual com sete espigas. CHOLULA - Região, cida de e pirâmide, certamente de cons-
CHICUNA - Na região de Darien, divindade que propicia e trução maia. Interessa a pirâmide por ser a maior edificada
preside os pensamentos. pelos chamados maias-toltecas e por servir de santuário a
Quetzalcoatl * numa invocação sugestiva , pois o qualificativo
CHILOLONTON - Entidade divina dos maias protetora da do deus, ali, era de senhor da paz. Os fiéis diziam que êle
arte médica. "se tapaba el oido al oir hablarse de la guerra".
CHIMIABAC - Juntamente com Chiamiaholon •, o demônio CHONTA - Entre os aguarunas das nascentes do Marafión
quiché armado de poderosa maça ou tacape para, indiscri- (Amazonas), deidade maléfica useira em penetrar no corpo
minadamente, quebrar os ossos dos caminhantes. Deixavam humano onde inocula tôdas as enfermidades mortais. Para
inteiros os ossos da cabeça, tão-sõmente para que as vitimas que abandone o corpo de que se apossou é preciso oferecer-
sofressem mais e por tempo mais longo. Uma vez abatido, -lhe algo em t:roca, rogar-lhe muito à base da expressão má-
o infeliz era arrastado por Chimiabac ou por Chiamiaholon gica: "Asazato Nankingran".
para o mato onde não poderia receber socorro.
CHUDIACHAQUE - O Curupira •, com pequenas variant es,
CHIMINIGAGUA - O deus supremo, o "filho do principio", para os remanescentes incas do Peru e Bolivia.
para os chibchas que habitavam desde o México até o Peru,
com uma civilização ascensional à época da conquista européia. CHUDIANHAQUE - Versão dos peruvianos cristãos para o
diabo. Na área do antigo império incaico e zonas limitrofes,
CHINNIGCHNICH - Entre os primitivos indios da Califór- corresponde a Máguare •, na Venezuela; Cauá •, na BoUvia;
nia, América do Norte, "o Todo-Poderoso", "o Onipotente", Yastay ·• , na Argentina, Kanokokoyuha, no Orinoco.
a quêle que moldou o homem e a mulher na argila da margem
do lago sagrado dando-lhes vida em seguida. Instruiu os CHUEUILLA - Uma das invocações dos incas para o deus
curandeiros em sua arte e era figurado, em danças cerimo- Catequil * protetor dos bons oráculos e que se fazia ouvir pela
n1a1s, por uma personagem vestida de plumas pintadas nas voz do trovão. Filho do deus Huamanchuri * e neto do deus
cõres preta e vermelha. Ataguju * êste, protetor das boas colheitas de milho e de figo.
CHIQUI - Divindade de origem peruana, ainda hoje cultuada, CIIULPAS - Tôrres, redondas ou quadradas, medindo via de
sob a forma tradicional ou em sincretismo, pelos habitantes do regra 4 metros de altura, em pedra ou terra, com paredes
Vale Calchaqui e outras regiões do noroeste argentino. Pro- de 80 cm de espe.s sura. Os etnólogos atribuem-nas aos chi ..
paias, uma das mais antigas culturas do Lago de Titicaca.
t egia especialmente as plantações de algarrobo e milho, bases
da alimentação nativa. O pedido que mais recebia era o de Teriam servido como habitação e depois como sepultura. São
enviar chuvas fartas e regulares. Sem ofertas, rogações e especialmente famosas as chuZpas de Sillustani, nas· quais
sacrificios deVidos, Chiqul tomava-se demõnio, assolando a a rtistas e cientistas encontram semelhanças com algumas tum-
terra com sêcas prolongadas, guerras, furacões, tremores. bas romanas, especialmente a de Cecília Metela, na Via
Antes da conquista sacrificavam-lhe criaturas humanas, cujas Apia Antiga.
. .
cabeças centralizavam o festival anual. Depois, as vitimas CHUNUHLUK - Mito esquimó relativo a um talo de capim
passaram a ser animais. Ainda hoje, ·a s cabeças - figura- que desejou ardentemente transformar-se em homem e que
das - comparecem às festas. ao final de muita.à tentativas logrou mudar-se em glutão (gulo
CHmUWI - Meio homem e meio espirito que a desoras per- luscus) pequeno mamifero camivoro.
corre as matas e os campos do centro africano. Pode ser CHUQUICHINCHAY - O ar em movimento, para o cami><>nês
bom ou mau conforme sua própria veneta e a indole de inca. Era representado sob a forma de um tigre soprador.
quem o encontre. Se tudo estiver favorável no momento do Ainda hoje o homem andino acredita em um felino (qowa)
CHU 80 81 CIU

que ronda os mananciais e em certos momentos, pela época impressa em Sevilha, 1553. Continuando em suas observações
das chuvas, sobe às nuvens e intervém na formação do gra- e coletas de informes preparou História de la Nueva Espalf.a,
nizo. O yamqui Salcamaghua * incluiu êste mito, detalha- del Gobierno y Bucesión de los Incas y de las Guerras Civiles
damente, no seu famoso esquema. del Peru, editada em Madri. Dos mais citados cronistas co-
CHUQUilJ.I..A - Na mitologia histórico-religiosa dos incas, loniais a respeito de mitologia inca.
uma serpente de duas cabeças, representando o raio e o re- CIN-AU-AV - Entre os indios utes norte-americanos, enti-
lâmpago. O emblema f ôra entregue por Inti (o deus-sol) dade espiritual relacionada com as alcatéias, chamado por
ao inca Pachacutec, durante um retiro que o soberano fizera isso mesmo "o Avô dos Lôbos".
no alto- de um monte. O deus assegurara ao seu representan-
te terreno que enquanto o simbolo da serpente o acompanhasse, CINZAS QUICIUJ - Na mitologia quiché (Popul Vuh), capi-
a boa sorte estaria com êle e o império. tulo relativo à criação do homem quando os sêres criados em
madeira não se mostraram a contento dos designios divinos,
CHUQUIYAPU - Na mitologia inca, o primitivo nome da " ... veio sôbre êles uma chuva de cinza que opacou sua exis-
atual cidade de La Paz. Povoado anônimo, teria entrado para tência. A cinza caiu sôbre seus corpos, violenta e constan-
a história depois de conquistada pelo inca Mayta Capac - temente, como se fôra atirada, lá de cima, por mão forte e
o Hércules sul.americano, na comparação de Sarmiento. Con- com muita raiva". Aquelas estátuas de madeira (veja Ge-
tudo, estudos mais profundos, dão Mayta Capac como rei len- nese quiché) "pareciam gente verdadeira; juntaram-se em
dário. grupos e ao fim de certo tempo, procriaram. Em suas rela-
CHUYCHU - Divindade menor no panteão inca. Mensageiro ções, porém, deram mostras de não ter coração. Eram sur-
do Sol, tomava a forma e as côres do arco-iris. Aparecendo dos os seus sentimentos. Não alcançavam entender serem
em seguida a um periodo de mau tempo, merecia a adoração criaturas vindas à Terra pela vontade dos deuses. Caminha-
e ações de graças dos homens, pois significava melhoria at- vam pelas selvas ' e pelas veredas abertas nos flancos das
mosférica. montanhas; bordejavam os vales e subiam às copas das mais
altas árvores. Tudo isso, quais sêres inermes, sem norte
CI - Ser feminino que está na origem da teogonia do indio nem destino. Estavam sempre a ponto de cair. E quando
brasileiro. li: a mãe. As crenças indigenas partiam de que caiam, não mais podiam erguer-se. Pereciam em meto ao
tôdas as coisas - homens, bichos, minerais, vegetais, f enô- lôdo. Broncos, não se davam conta de sua origem, do sitio
menos, água. fogo. nasciam e eram governados e protegidos que lhes fôra dado, nem de seu destino... E como, ao fim
por uma respectiva Ci, mãe criadora. Esta mãe gerou, mo- de largo tempo, também não compreenderam quem eram os
delou, criou, regulamentou, governa e em muitos casos alimen- deuses, cairam em desgraça. Falavam, sabiam o que diziam,
ta permanentemente seus filhos sem nenhuma necessidade mas em suas palavras não havia expressão nem sentimento ..•
do elemento masculino. Os civilizados e a maioria dos povos Seus rostos trigueiros, da côr da terra, permaneceram duros,
indígenas reverenciam o Pai, o Ser, o Macho, o Primeiro. O inexpressivos. Foram pois condenados a desaparecer". As-
índio brasileiro considera apenas a Mãe, - Ci. O sono, a sim foi que os deuses enviaram a chuva de cinzas. (V. Tztte)
chuva; o verme, o sorriso, a fonte, a canoa - tudo tem mãe
e todo indígena sabe quem é a Mãe de cada coisa. Jamais CIDAPIPILTIN - Literalmente, "mulheres celestes" ou "prin-
cesas do céu", nos cultos astecas. Era-lhes dedicada um.a
fala do pai eventual das mesmas coisas. O indio não consi-
parte do pátio de certos templos. Ai enterravam-se, exclusi-
dera a reprodução sexuada em seu universo.
vamente, as mulheres mortas no primeiro parto. O sepulta-
CIBOLA - Sete cidades lendárias, ocultas sob morros com mento ocorria durante cerimónias longas e solenes, descritas
forma de búfalos ou metade de hemisférios, referidas pelos nos depoimentos famosos do Sahagún * : "Depois de morta,
nativos aos primeiros espanhóis aportados ao México. As lavavam-lhe o corpo todo, ensaboavam-lhe a cabeça e os ca-
ruas s eriam pavimentadas a ouro e as paredes das casas belos, revestiam-na com os vestidos bons e novos que pos-
construidas com o precioso metal. Cibola é palavra arcaica suía. E seu marido levava-a às costas até o local . . . A morta
significando búfalo. tinha os cabelos soltos. Tôdas as parteiras e velhas se reu-
niam para acompanhar o corpo; iam providas de escudos
CIEZA DE LEON, Pedro - Aos treze anos aportou ao Peru e gládios, dando brados como os dos soldados no momento
pondo-se ao serviço de Pedro de la Gasca de quem obteve do ataque... Enterrava-se esta defunta ao pôr-do-sol. .. no
preciosas informações para redigir a obra Cronica del Peru, pátio. . . e o seu marido e os seus amigos guardavam-na du-
CIU 82 83 CON

rante quatro noites seguidas, para impedir alguém de roubar dou construir em Coati, no centro de pequeno bosque, pró-
o corpo. Os jovens guerreiros velavam pa:ra roubar êste corpo ximo da praia, um santuário que dava abrigo à imagem fe-
porque o consideravam coisa santa ou divina . .. cortavam- minina, de ouro." Dêsse faustoso templo, ainda restam al-
-lhe o dedo médio da mão esquerda. Se podiam roubar, de guns vestigios.
noite, o corpo, cortavam-lhe o dedo e os cabelos e conser-
cOCAMAMA - Entre os quichuas, a deusa protetora da coca.
vavam-nos como relíquias. . . quando partiam para a guerra
punham êstes cabelos ou êste dedo no seu escudo e diziam COEN - Para os indios da região atabascana, nos Estados
que assim seriam valentes e corajosos. . . davam fôrças e Unidos, "o grande espirito", o mesmo que Man'ito ou Mani-
cegavam os olhos dos inimigos ... " tou e também Manitu. Equivalente a (ver): Oki, Wakanda,
CIUATETEO - Para os astecas, a morte da mulher ao dar Pokunt, Inua.
à luz equivalia à do soldado que morria combatendo ou que COLLCA - Entre os incas Collca divinizava as estrêlas Plêia-
encarava dignamente o punhal do sacrificio. Por isso, tais des. Recebia o culto mais fervoroso e numeroso entre os
mulheres eram tornadas deusas - ciuateteo - e passavam a que eram tributados às estrêlas, graças à reconhecida influ-
habitar a porção oeste do céu, a Ciuatlampa • onde, em com- ência dessa constelação nos ciclos da semeadura e da fe..
panhia das deusas-mãe, acompanhavam o Sol, na sua marcha cundação.
do zênite ao ocaso.
COLOCOLO - Entre os araucanos, pássaro mitico, causador
CIUATLAMPA - A porção oeste do céu. Ao transpor o da tuberculose. Atacando os homens adormecidos ou embria-
zênite, o Sol deixava a alegre companhia dos guerreiros mor- gados, extrai dêles o sangue e a saliva, deixando-os enfra-
tos em combate ou no altar dos sacrificios, os quauhtecatZ * quecidos.
e entrava no "lado feminino" do céu, a Ciuatlampa. Era aqui
a morada das deusas mães e das mulheres mortas ao darem COMEANCA - Mito regional de Santiago dei Estero, espe-
à luz, tomadas deusas ( Ciautateo •) por êsse sacrificio. Eram
cialmente do distrito de Choya. 11: uma bêsta de aspecto ter-
elas que, em cortejo, acompanhavam o Sol do zênite ao ocaso. rificante. Saltando sôbre animais suga-lhes o sangue dei-
xando-lhes sangrento e doloroso sinal nas ancas.
CIZIN - Demônios ou espiritos maus entre os maias. O
simples pronunciar do seu nome poderia dar azo a que êle COMPACTADO - No Peru, bruxo que tem pacto com o de-
se introduzisse no corpo ou na vida do infeliz. Dai que os mónio. Podendo guardar a forma humana evita suspeitas,
campônios se referissem a êles dizendo kakaz-baal ou seja logrando assim aumentar a malignidade de seus podêres e de
- a coisa muito má. Residiam no metnal, o primeiro inferno suas práticas. Em Otuzco diz-se que, ao morrer um dêles,
sob a superficie da Terra e em certas ocasiões aceitavam incontinenti o cadáver desaparece entre nuvens de enxofre
pactos com humanos. e rui dos infernais.
COARACI - O Sol, para os tupis ou nheengatus. Ooá, êste, CONDORGOCHA - Em Sã.O Marcos, Ancash, território de
ara, dia, ci, mãe, ou, literalmente, mae d&Jte dia. Couto de antigos mitos peruanos, é crença que as lagoas Antamina *
Magalhães, na hierarquia da& entidades indígenas afirmou ser e Condorgocha "', não são apenas vizinhas mas casadas. O
Coaraci "o criador de todos os viventes, encarregado de di- arco-iris realizou a cerimónia e para que pudesse chegar até
rigir o reino animal e com subdeuses protetores das espécies". as lagoas, as altas montanhas vizinhas inclinaram-se o ne-
Acrescenta Câmara Cascudo: "Sujeitos a Coaraci, com o cessário. (Ver Livini, Puihuán Ohico, Mocara).
dominio sôbre os sêres privativos de sua jurisdição, vivem CONIAPA YARAS - Entre os tupi, "mulheres senhoras de
Anhangá, protegendo a caça do campo, Caapora *, a do mato, si", "mulheres soberanas", isto é: uma das denominações
Guirapuru *, os pássaros, Uauiará *, os peixes. Jaci, a Lua, dadas às amazonas (Ver 1camiabas, M atinin6) .
era espôsa e irmã de Coaraci". A maioria dos estudiosos
nega houvesse culto astrolátrico · entre os indios brasileiros. CONIRAY A - Divindade menor do panteão inca, exemplo
da união possível de deuses e mortais, graças ao filho que
COATI - A Lua, adorada como deusa, pelos incas, no seu teve com a donzela Cavillaca.
santuário da ilha do mesmo nome (Coati). O formoso san-
tuário f ôra edificado pelo inca Tupac Yupanqui, pois segundo CONOPAS - Para os primitivos povos da costa do Pacífico
Siegfried Huber, "achara êle ofensivo deixar sem espôsa o andino, espiritos de ancestrais, e que depois de algum tempo
deus-sol que residia na Ilha Titicaca. Por êsse motivo man- vieram a ser representados nas pedras chamadas pacarinas *.
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Recebiam culto e eram invocados como protetores. Nas zo- sôbre os ossos, transformando-se em verdadeira múmia. As
nas montanhosas, os conopas ganharam os nomes de Chan- variantes principais são: pelo norte e nordeste, o Corpo Sêco
cas * ou Chunchur. não abandona o local em que foi depositado e um encontro
com êle é um convite para que missas e orações o libertem
COQUENA - Na região noroeste da Argentina e zonas li- de tal maldição. No sul do país ganha animada atividade
mitrofes, a divindade protetora dos guanacos e das vicunhas. noturna, transforma-se em assombração, arrasta sua desgraça
J. C. Dávalos descreveu-a: " ... es enano; de vicuna lleva pelo mundo ao som de uivos, berros, gargalhadas. No Paraná
/ Sombrero, escarpines, casaca y calzón. / Gasta diminutas assinala-se um nome local: Bradador *.
ojotas de duende / Y diz que es de cholo la cara del dios.
/ De todo ganado que pace en los cerros / Coquena es oculto, COSAMALA - Em Cuba, o diabo. Também significa duende,
celoso pastor. / Sí ves a los lejos, moverse las tropas, / Es feitiço, bruxaria.
porque, in'VisibZe, las arrea el dios''. E Carlos Ibarguren "Co. COSMOGONIA INCA - A crença inca na formação divina
quena bagabundea por los cerros durante la noche, conduci-
do mundo vem definida por Rodolfo Kusch (Américt:i Pro-
endo reba1ios de oro y de plata. Los bagajes están atados
funda): "o último segrêdo do cosmos, ou melhor, o segrêdo
con víboras a guisa de cuerdas. En suas correrias nocturnas,
de tudo que existe consistia na dualidade. Esta apresentava-
el dios conduce metales de todas las minas cordiUercmas a -se através de duas manifestações: aquela referente exclusi-
la de Potosí, para que su riqueza nunca se agote ... El en- vamente à ordem da vida e que se traduzia por macho ( orco)
contro con esta divindad es augu1'io nefasto; a la vista del e fêmea (china) e aquela que separa o mundo em duas
hombre ella desaparece, transformándose en un aire, en un grandes camadas horizontais: o mundo superior (hanac-
espíritu - dicen los indios -, los tesoros que lleva se ocvl-
-pacha); onde presumivelmente se situe todo o vinculado à
tan, y las vicunas divinas muestran solamente los rastros de
ordem; e o mundo inferior ( hurin-pacha ou caypacha) ou ter-
la preciosa ccirga, con el lomo marcado y sudoroso".
ra, isto é, "o solo de baixo", "êste chão". Acreditam os es-
CORICANCHA - Significando "recinto de ouro" era o "santo tudiosos da matéria que no entender do inca, "a divisão entre
do santos" do grande templo dedicado ao Sol na capital do o masculino e o feminino parece ter ocorrido antes da divi-
império inca. Inicialmente, no templo de pedra e palha cons- são entre céu e terra. Prová-lo-ia, o vincular-se o céu à idéia
truido por Manco Capac, êsse recinto chamara-se Inti-Caticha, de macho e a terra à idéia de fêmea. Esta vinculação, con-
ou seja o "recinto do Sol". Com as faustosas reformas in- tudo, não ocorreria sômente para atribuir um sexo aos con-
troduzidas pelo grande Pachacutec, tornou-se obrigatório para ceitos abstratos, mas sim para introduzir nos elementos opos-
os povos submetidos, não apenas adotar o Sol como deus su- tos uma certa dinâmica. O primeiro costuma manter uma
premo mas também dotá-lo, periôdicamente, com ofertas pre- atitude mais ativa frente ao segundo e ambos logram expli-
ciosas. Tão grande foi o afluxo de oferendas que os metais citar a ação divina sôbre a terra".
ricos valeram, ao antigo recinto de pedra, o nome de cori-
COTAA - Entre os mocabies, um gênio benéfico.
cancha. Com o tempo, o Coricancha tornou-se o simbolo do
poderio, da unidade, da riqueza do império. COTALUNA - Mito paraibano descrito por Ademar Vidal:
CORPANCHADA - Também Corpachada, cerimônia de fun- "As suas formas interessam porque são mais de mulher muito
do mitico, prevalecente em La Puna e nos vales Calchaquies. bonita. Quando chega ·o inverno, Cotaluna se desencanta, ou
A 1.0 de agôsto, os agricultores indios celebram festas em melhor: se transforma bastante. Não resta a menor dúvida
que se parece com mulher de atrações verdadeiramente se-
honra de Pachama.ma., a "mãe Terra", a fim de que os favoreça
com boas colheitas. Nesse dia a terra recebe as melhores co- dutoras. ~ mesmo belissima à flor d'água, assim dizem. Colo
midas preparadas pelos homens. abundante e rlgido, muito branco, uma cara perfeita, os bra-
ços roliços, os cabelos negros, além de uns olhos cheios de
CORPO s:mco - Mito do ciclo do castigo, muito difundido doçura e convite. / A outra metade que fica submersa tem
nos Estados de Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas forma de peixe / . . . passeia com as suas seduções inven-
Gerais e, segundo Câmara Cascudo, também pelo nordeste. civeis, atraindo os fracos com a sua aparência altamente en-
Seria forma de a Natureza, nauseada, castigar os filhos que ganadora. Quando ela consegue pegar um, adeus para sem-
agridem os pais, os incestuosos e os sacrllegos. Céu e inferno pre. . . Dizem que o infeliz é carregado para a outra margem
rejeitam a alma dêstes pecadores. Ao mesmo tempo, a terra do rio (Grame) para lhe serem feitas mutilações atrozes.
recusa-se a receber o corpo que, assim, resseca e estorrica A sereia tem caprichos sádicos."
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COTZBALAM Na mitologia quiché, capitulo do Popul nibal. Como entidade criadora o Coyote também era cha-
Vuh * que refere a terceira tentativa dos deuses Tepeu, Ga- mado Italapas •.
cumatz e Hurakán * de criar o homem perfeito. Cotzbalam COYOTLINAUAL - Deus protetor dos plumaceiros astecas.
foi o cruel felino enviado para completar a obra de puni-
ção e destruição iniciada pelo pássaro Xecotcovah •. O fe- CMVAUX - Viajante e escritor que em 1878 conheceu, no
lino Cotzbalam desmembrou os homens que agarrou, dessan- Pará, uma aldeia exclusivamente de mulheres. Ignora-se até
grou-os e mascou seus ossos, deixando os despojos para outras o presente, se seria o caso de índias, por qualquer razão
feras igualmente bravias. isoladas de seus maridos, ou se êstes se encontrariam fora,
momentâneamente. A descrição de Crévaux, lida na Europa,
COUTO DE MAGALHAES, .Jos~ VIEIRA - Natural de Diaman- reviveu o entusiasmo pelas histórias das amazonas.
tina, MG, nasceu a 1-11-1836, vindo a falecer no Rio de Ja-
CROM - Titulo do Grande Sacerdote de Atlantis, para os que
neiro a 14-9-1898. Advogado e militar (chegou a general de
reclamam em favor da Atlântida o mérito do povoamento da
brigada), presidiu com brilho as provincias de Goiás, Pará
América, primeiramente do Brasil, por vias da imigração
e Mato Grosso - na qual desempenhou papel dos mais
em massa daquele povo. A decisão da grande viagem teria
brilhantes durante a GueITa do Paraguai - e presidia a de
sido tomada pela forma seguinte na descrição de Marcel F.
São Paulo quando da proclamação da República. Iniciador Homet (Os Filhos do Sol) ; "Em volta do sacerdote um
dos estudos folclóricos no Brasil, com a publicação em 1859
enxame de iniciados estâ esperando ansiosamente. - Irmãos,
de pequenos estudos relativos a mitos indigenas. Deixou te~ ia dito o sacerdote depois de breve meditação. A Configu-
obra numerosa, válida e indispensável para os estudos f ol- ração das estrêlas apresenta-se nefasta para nós.... a obser-
clóricos, etnográficos e antropológicos. Destacam-se: "Fa- vação em que acabo de aprofundar-me revela que nossa terra,
milia e religião entre os selvagens" ( 1873) e "Ensaio de dentro em pouco, s7rá assolada por idênticas provações. As-
Antropologia, religião e raças selvagens" ( 1874), trabalhos sim foi determinado pelos deuses para castigar o orgulho
reunidos posteriormente num livro clássico, O Selvagem, que das criaturas. Nossas terras terão de submergir sob as va-
engloba os textos originais das lendas tupis mais divulgadas gas. Devemos estar preparados; ordeno assim que se apron-
entre os indios. A edição mais recente é a de 1935. tem grandes embarcações. Nossos homens de Leste partirão
COYOLXAUHQUI - Deusa lunar, senhora das trevas notur- na direção Leste até as terras onde já guerrearam nossos
nas na mitologia a steca. Filha de Coatlicue - a TeITa, teve ancestrais. Do mesmo modo agirá o povo do Oeste que se-
por irmão poderoso e impiedoso, o grande deus e guia dos guirá para Oeste, até a embocadura do grande rio que desá-
astecas: Uitzilopochtli * e que a expulsou do firmamento pois gua no Oceano. A fim de perpetuar nossos usos e nossas
era o Sol que dissipa as trevas. tradições, cada um dos chefes levará consigo seus emblemas
que terão de ser impostos a todos os paises estrangeiros aon-
COYOTE - Divindade dos indios californianos, ligada à cria- de forem chegando. - Tu, Gael, disse o sacerdote, dirigindo-
ção do mundo, porém geralmente provocadora de danos, in- -se a um de seus acólitos, enviarás dois dos teus ajudantes
júrias e prejuizos para os homens e suas propriedades. Na na frente, um na direção Leste, outro na direção Oeste, le-
região de Maidu (Califórnia) é co-descobridor do mundo, par- vando cada um o seu emblema, o Galo. Tanto no Leste como
ticipando dessa · glória com Kodoyanpe *, divindade criadora no Oeste deverão organizar procissões a cuja frente devem
por excelência. Os habitantes do lugar eram manequins de caminhar dois crentes, um levando algumas "pinhas", outro
madeira, rígidos, impossíveis de serem dirigidos ou instrufdos, carregando a insfgnia da "serpente ondulante". . .. Ora, o
tornando-se necessária a sua transformação em animais. In- simbolo do Galo - Gallus - já conhecido entre os etruscos,
capaz de controlar as maquinações de Coyote, Kodoyanpe foi encontra-se também no México, na cidade de Kul-Huakan,
obrigado a abandonar a região, resultando disso, ao fim de que em lingua semita quer dizer "Grande Guia, aquêle que
algumas peripécias, que os homens nascessem das cinzas dos dirige, o emblema da nação". O Galo, entre os etruscos
manequins. Em outras lendas californianas, atribui-se ao tinha o m esmo significado que no antigo México e a mudan-
Coyote a obra do repovoamento do mundo, após o dilúvio. ça da deusa mediterrânea, "Cybele", foi executada de forma
i':le plantou plumas de pássaros as quais iam se transforman- idêntica à das procissões na América Central, onde à frente
do em homens. Os chinook do Rio Colúmbia diziam que o dêsses cortejos vai um homem carregando cinco pinhas ou
Coyote era tão mau que foram levados a mudar seu primitivo pinhões, o simbolo da "Serpente Ondulante" que significava
nome, de Eyacque * para o de Eno que significa Ladrão, Ca- a mesma coisa na velha Europa e no velho México: o triun-
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f o do rio sôbre a inundação, uma interpretação que também irmã mais nova. A cabeça da Curacanga sai-lhe do corpo,
é encontrada no Amazonas." em certas noites e sob a forma de bola de fogo voa ou roda
pelos caminhos, apavorando os viandantes. No Pará, a Cuma-
CUARAJHY-YARA - Na mitologia guarani, duende ou de- canga ou Curacanga é fadârio de espéci~ diferente: incorre
mônio representado por homem alto, branco, cabelos verme- nesse encantamento a sétima filha de concubina de padre e
lhos. Envolvendo os pés em plumas, oculta os passos e a a transformação acontece apenas nas noites de sexta-feira.
direção da marcha. Chamam-no os índios Dueno deZ Sol, O mito tem correspondentes nacionais e universais. No sul,
atribuem-lhe a proteção das aves canoras. Recebe também em São Paulo e Minas Gerais, pelas sextas-feiras, à meia-
o nome de Pyrague * e freqüentemente é confundido com o -noite, uma bola de fogo indica sítios onde haja tesouro es-
Pombero. condido. ~ a alma de quem o ocultou, depois de havê-lo
CUCA - Também Coca, o mais difundido entre os muitos formado por meio de crimes e que procura entusiasmar al-
entes amedrontadores do ciclo da angústia infantll. Não tem, gum valente a descobrir e possear tal riqueza, livrando a
geralmente características fisicas definidas. Sabe-se apenas alma penada de sua "sina". No Peru e na Bolívia (ver Ca-
que carrega para um sítio misterioso as crianças que se tecate) ocorre o mito da cabeça ignea. O mesmo, em vârios
recusam a dormir e se mostram desobedientes e tagarelas na lugares da Europa e até na China.
hora de ir para a cama ou já deitadas. Durante o dia, pre- CUMAMA. - Animal mitológico ligado a sitio de igual nome,
venindo problemas do anoitecer, as babás e as mães indicam local de explorações auriferas espanholas logo após a con-
na rua uma velha qualquer, desde que magra e feia, como
quista. Em Zoologia Fantástica de A. de Taunay vem regis-
sendo a cuca a rondar a prêsa eventual. Existe documentá-
trado: "Os indios dêle tremiam de modo espantoso. Era no
rio da Cuca referente a quase todos os Estados do Brasil e
entanto pequeno, nunca maior que um galgo. Estarrecia,
também em Portugal e na Espanha. (Ver Tiborané)
petrificava os homens a quem, então, abatia. Crudelissimo
CUCHIVILO - Na mítica de Chiloé, animal fabuloso, meta- e tão astucioso quanto feroz, dêle diz o geógrafo: Llora
de porco, metade serpenta Invisível aos olhos dos mortais é como nino para enganar la gente i en saliendo alguno a ver
perfeitamente visivel aos bruxos. Destrói os currais de peixes quien llora se lo come. Os índios Unicamente se atreviam
e infecta as águas onde se oculta de modo a cobrir com sar- a andar à noite munidos de archotes por causa de tal "fera."
na o corpo dos que ali se banharem.
~IA - Tribos do Alto_Tocantins e principalmente os
CUCHUMAQUIC - Na mitologia quiché um dos sêres ma- apinajés nomeavam assim as mulheres que viviam a sós, na
lévolos que semeavam horrores entre os habitantes de Xibalbâ. floresta. Em suma, as amazonas. "Espôsas descontentes
A especialidade de Cuchumaquic era envenenar o sangue reuniram-se, certa vez, formaram a tribo das cupêndias e
dos homens, tarefa que executava acompanhado por Xiqui- foram morar no Araguaia. Disso houveram noticia os api-
ripat. Contudo, Ixquic, filha de Cuchumaquic, comovida com
najés; e dois mais ardentes, moços, belicosos, decidiram vi-
o morticinio dos irmãos Ahpu - heróis generosos, engravi.. sitá-las. Pelo caminho, encontraram algumas caçando, e
dou da saliva tombada da cabeça decepada de um dêles e acompanharam-nas. Levados à presença da 'cupêndia-chefe,
deu à luz, dois gêmeos heróis: Hunahpu * e Ixtalanqué *. sofreram interrogatório; responderam ter ido em visita, para
CUCUt - Cacique entre mitológico e histórico dos cusses do conhecer. Bem recebidos, bem tratados, postos imprudente-
alto Rio Negro. Antropófago, valente, bárbaro, morreu em mente a dormir entre elas, tiveram licença de participar da
combate contra os arauques. A sede de seu domínio guarda festa dos toros, que então se celebrava. Desejando ir um
seu nome e a mítica local incorporou as suas façanhas. Ali- pouco além da simples hospedagem acolhedora, quiseram ca-
mentava-se de môças mortas ritualmente no dabaru, instru- sar. Não houve objeções; apenas, interpunham-se formalida-
mento indígena de suplício (dois esteios unidos por uma des: quem pretendesse desposar uma cupêndia, teria de vencê-
travessa da qual pendia, sôbre a vitima, uma grande pedra). -la em corrida, pois a que esposasse mau corredor deveria
CUMACANGA - Também Curacanga. Mito do tipo encan- esperá-lo e bem poderia ser alcançada pelo inimigo. Os dois
tamento corrente nos Estados do Maranhão e do Pará, apre- jovens apinajés tentaram durante quatro meses, e retornaram
sentando algumas variantes em ambos os territórios. No Ma- à taba tão solteiros quando dela haviam saido. As cupêndias
ranhão, tôda sétima filha de casal que não tenha fllho homem corriam muito bem, treinadas, como viviam, para isso, e co-
nasce "encantada", desde que os pais não tomem a precaução mendo só ao meio-dia. Os rapazes voltaram desolados, pois
de fazê-la batizar imediatamente após o nascimento pela as índias, além do mais, eram eximias cultivadoras de algo-
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dão, mandioca, milho, mendobi, arroz e outras plantas". (O viril, na região do Tapajós com um machado de casco de
texto é de Luis Amaral, As .•.4:méricas antes dos Bu.rop6"'8) . jabuti. Negocia com os caçadores, aceitando alimento civi-
CUPENDIEPE - Nas crenças dos apinajés e de outras tribos lizado desde que não contenha pimenta ou alho. Exige se-
grêdo para seus pactos e a única punição que administra é a
do Tocantins espécie de gente "com asas de morcêgo e que
morte, pela fome, em meio à floresta. Frequentemente con-
voa em vez de andar". Habitavam um alto morro, em ca-
funde-se com o Caipora e o Saci. Tem símiles nos pa.ises vi-
vernas. Voando, brandiam o "machado da Lua" com o qual
zinhos. (Konokokuyuha *, Máguare *, Chudiachaque *, Cauá •,
degolavam homens e animais.
Pocai *, Iuorôcô *). Segundo Barbosa Rodrigues é mito asiá-
CUPENDOGALI - Na mítica dos apinajés e outros tndios tico vindo para a América do Sul nas migrações pré-históricas.
do alto Tocantins, povo notivago que só pode enxergar duran-
te a noite e portanto passa o dia a dormir. CURUTONS - Conta a lenda caingangue que pelo tempo do
grande dilúvio, quando as almas dos seus ancestrais estavam
CURACANGA - O mesmo que Cumacanga •. Ver também recolhidas no centro da Terra, possuiam ali uma espécie de
Catecate. servidores, os curatons. Os heróis Kaneru • e Kamé • abri-
CURli:: RU - Mito da região guarani. li:: o pai e o protetor ram veredas no centro da Terra para que, sua gente, vol-
dos porcos do mato. Quem o encontra e lhe põe os olhos tasse à superficie saindo nos Krinxy •, as "montanhas ne-
em cima, conhecerá apenas desgraças para o resto da vida. gras" do Paraná. Os senhores caingangues mandaram aos
curatons que tomassem ao centro da Terra a fim de trazer
CURINQUEAS - Uma das tribos fabulosas que os primei- à superflcie os cêstos e cabaças ali deixados. Por revolta ou
ros cronistas coloniais situaram na Amazônia. Disse o Padre preguiça, os curatons jamais voltaram. Ainda estão por lá,
Simão de Vasconcelos que eram " ... homens gigantes, de 16 preocupados em não se deixarem ver e em hostilizarem os cain-
palmos de alto, adornados de pedaços de ouro por beiços gangues. (Ver KrinjiJimbe).
e narizes, e aos quais todos os outros pagam respeito; têm
por nome Curinqueãs". CUSIYA CUSIYA - Entre os remanescentes fetichistas dos
vales calchaquies do noroeste argentino, invocação de Pacha-
CURIQUINGA - Na Serra central do Equador ave sagrada mana durante as cerimônias propiciatórias.
da mitologia dos canarins, que a tinham por ancestral.
CYIUC~ - As estrêlas Plêiades para os tndios do Rio Negro.
CURUPI - Mito da região missioneira e norte e noroeste Literalmente: "A mãe dos que têm sêde!' (Ver Tamecan
argentinos. Indivíduo de média estatura, vastos bigodes e Oeuci Nibetád e Motz.)
feições lembrando as de um animal. Outros afirmam que
o Curupi caminha como os bichos, arrastando, ademais, um
membr~ viril extraordinàriamente desenvolvido. .Ayala Gauna
descreve-o como um anão escuro, robusto, dotado de grande
f ôrça nas mãos. Seu corpo não flexiona, tem movimentos
rigidos. Graças a isto não é impossível escapar-lhe pois
não sobe em árvores e nada com extrema lentidão. Antro-
pófago. aprecia especialmente a carne das mulheres e crianças.
CURUPIRA - Duende dos mais populares e monstruosos do
populário brasileiro. De curu ( corumi) menino e pira, corpo.
Sua descrição mais comum é: porte de anão, cabeleira de
fogo, calcanhares para a frente, dedos para trás. Já em
1560, o Padre Anchieta registrou o terror que o Curupira
causava aos indios. Assombrador das matas, causador dos
rumôres sem explicação, faz desaparecer caçadores e via-
jantes, leva à loucura que principi_a com o esquecimento dos
caminhos. Dirige a caça, protege os animais e as árvores.
Percute os troncos mais velhos para conhecer de sua resis-
tência aos ventos e temporais. No alto Amazonas, bate com
o calcanhar, no baixo Amazonas com o descomunal membro ·
93 DEN

DANDALUNDA - O mesmo que Mãe Dandá ou Iemanjá,


no candomblé baiano.
DANGB~ - A cobra divinizada pelos cultos daomeanos.
Quase desaparecida em vários pontos da América, a cobra
adquire importância no culto afro-haitiano onde aparece como
D o l0t8 • mais reverenciado sob a fórmula Damballah. ir: o
espirito do bem, em oposição a Legba * o do mal, havendo
rixa permanente entre ambos.
DANH-GBI - Veja Dan.
DADA - Entre os sudaneses, orixa protetor dos vegetais. DAY-NAME - Na Jamaica e na Guiana Inglêsa, os negros
Primeiro dos quinze filhos de Iemanjá, rompidos de seu ven- descendentes dos escravos Kromantis ou Coromantis trazidos
tre depois da violação de Orungã. Segundo Fernando Ortiz, da Costa do Ouro, mantêm o culto do mistério do day-name.
nos cultos afro-cubanos, Dadá é o protetor dos recém- Os nomes são dados de acôrdo com o dia da semana em que
-nascidos. nasce uma pessoa. A crença admite uma conexão muito in-
DAGOWE - Para os bush negroes da Guiana Holandesa, de tima entre êstes nomes e a alma da mesma pessoa que o
crença daomeana, o vodu serpente. Também Aboma. traz. Por isso, o nome é conservado em rigoroso segrêdo.
O treinamento ancestral e o temor das complicações impõe
DAMA DEL RIO - Habita as águas do Risacua, no Pana- um tal sigilo que o negro só revela o seu day-name nos esta-
má, guardando tesouros das antigas civilizações. Com os lon- dos de possessão ou quando o sacerdote de obiah * pergunta-o
gos cabelos estrangula quantos pretendam ir ao fundo em ao espfrito e não ao corpo da pessoa. Quando assim procede
busca daquelas riquezas. é para revelar o segrêdo a um inimigo do perguntado. Na
Jamaica, além do dia da semana, tomam em consideração o
DAMBALLAH - O maior dos lois do panteão afro-haitiano. sexo do nascituro. O menino nascido no sábado chamar-se-á
~ a representação idealizada da cobra, reminiscência do culto Quashie e a menina, Quashiba.
daomeano, sob a invocação de Dan e Damgbé *. Querem au-
tores locais que a forma Damballah resulte de uma contra- DEGANIWADA - Para os hurões habitantes da atual re-
ção dos elementos daomeanos Dangbé e Allada. gião de Ontário, Canadá, filho do 'Grande Espirito e da vir-
gem india Djigonasee. Inspirou e esforçou-se por manter
DAN ou DA - Vodu • originário do Mahi, representado por em paz ã liga das Seis Nações (mohawk, onondaga, seneca,
uma serpente arco-íris e desempenhando múltiplas funções oneida, cayuga e tuscarora) . l!'.: especialmente celebrado o
na mitologia afro-americana. Simbolo da continuidade, ora seu sucesso em converter Hiawatha * de uma posição adver-
macho ora fêmea em tôdas as suas representações inclusive sa a um verdadeiro apostolado em favor da Liga.
no arco-1ris (o vermelho é macho, o azul é fêmea) , sustenta
a Terra impedindo-a de desintegrar-se. ~ colocado à porta DE GUIGNES - Francês, especialista em assuntos chineses,
dos templos e das casas, sob a forma de dois potes: um macho analisando os escritos de Ma-tuã-Lin * considerou-se habili-
outro fêmea, pois só a junção dêstes elementos proporciona tado a dar curso à legenda do pais de Fu-Sang *, rico, for-
fartura e continuidade. Também é o lembrete e o represen- moso e pacifico reino, que o próprio De Guignes e outros
tante de todos os antepassados cujos nomes foram esquecidos. quiseram identificar com diversas regiões da América.
Entre os iorubas Dan é chamado Oxum-Marê * - "arco-iris". DEJARDINS - Em sua obra Le Perou avant la conqu~te
'
DANÇARINAS (AS) - Assim chamavam os iowas norte- Espagnole, à página 171, apresenta a tese do povoamento da
-americanos as estrêlas Plêiades. Acreditavam que, no seu América pelos egipcios: "é assustadora a semelhança da
bailar noturno, elas procurassem fornecer aos indios indica- cerâmica peruana e egipcia que se vê no Louvre das cons-
ções sôbre onde encontrar a melhor caça. Se adolescente en- truções das pirâmides e dos monolitos - meses iguais de
trasse em familiaridade com o coruscar de uma das estrêlas trinta dias, ano com 360 dias e mais 5 dias complementares
bem poderia suceder que ao terminarem as cerimónias de em Tebas e no México".
sua iniciação como caçador, ela baixasse conduzindo-o aos DEN~ - Na mitica dos carajás do Rio Araguaia, herolna
melhores sitios de caça. romântica que aceita desposar um velhinho recusado por sua
DEN 94 95 DIA
irmã Imaherô * e que secretamente era Tahina-Can ~ bri- dos animais,- eram: Uranchillay *, constelação da Lira; Ma-
lhante estrêla Vésper. Graças a êsse amor e casamento os chacuay "", do Câncer; Collca •, das Plêiades; Chuquichin-
carajás ficaram conhecendo o milho, o ananás e a mandioca. chay, do Leão.
DE&I - Em Chiloé e no sul continental do Chile diz o mito DEUSES-PLAN'nAS - Os incas relacionaram . os planêtas
que os bruxos assumem por vêzes a forma do pássaro Deiü seus conhecidos com um dos numerosos deuses do seu pan-
a fim de melhor aproximar-se dos homens. Por tal razão o teão. Assim é que Vênus era representada por Chasca • deu-
pássaro ficou marcado como portador de mau agouro. sa personificada em linda jovem que, além de propiciar amô-
DEODORO DE SICtLIA - Autor clássico, muito citado na res, devia acompanhar Mama-Quilla • a Lua, em seus giros
mitica relativa ao conhecimento e povoamento da América noturnos. Chasca, embora deusa, mostrava-se vaidosa de sua
pré-histórica. Meio século antes de Cristo, escreveu: "Ela longa cabeleira. Catu Dlá •, deusa ligada ao planêta Mer-
(a ilha prodigiosa) distancia-se da Libia de vários dias de cúrio tinha a seu cargo proteger os comerciantes e os vian-
navegação e situa-se ao Ocidente. O solo é fértil, de grande· dantes. O planêta Marte era representado por Ancayoc •,
beleza, e regado por rios navegáveis. Ai se vêem casas sun- enquanto Saturno o era por Huaucha • divindade famélica,
tuosamente construidas. A região montanhosa é coberta temida, causadora das pestes entre homens e animais e res-
de mata espêssa e de árvores frutíferas de tôda espécie. A ponsável pelas colheitas deficientes. Júpiter estava ligado a.
caça fornece aos habitantes numerosos animais diversos: en- Pirua • deusa relacionada com os trajes, os tesouros e as
fim, o clima é tão temperado que os frutos das árvores e outras provisões armazenadas. As principais constelações também
produções ocorrem com abundância quase todo o ano. Os f e- eram deuses. (Ver Deuses-Constelações)
nícios haviam se feito à vela para explorar a costa situada
DIABO - Demónio, espirito ou génio do mal, anjo decaldo,
para além das colunas de Hércules; e, enquanto navegavam
presente na mitica dos povos africanos e americanos sob as
ao longo do litoral libio foram arrastados muito longe no '
mais diversas denominações. O homem do povo sente-se ini-
Oceano, por ventos fortes. Batidos pela tempestade durante
bido para pronunciar a palavra diabo, recorrendo a sinôni-
muitos dias, aportaram enfim à ilha de que falamos. Tendo
mos que são ao mesmo tempo sinal de horror e de repulsa.
conhecido a riqueza do solo, comunicaram a todo o mundo
seu descobrimento. :msse o motivo por que os tirrênios, po- No Peru cristão, é Ch'Udiachaque; na Venezuela, Máguare;
derosos no mar, quiseram organizar também uma colónia, na Bolivia, Ca'Uái; na Argentina, Yastay; no Orinoco, Kano-
mas foram impedidos pelos cartagineses, tementes de que, kokoyuha. Entre as populações não cristãs dos mesmos
atraídos pela beleza da ilha, grande número de concidadãos paises ou no bárbaro sincretismo dominante em várias áreas
desertasse da pátria." Há quem veja em tal ilha a Atlântida. populares, é: Agallu, nos cultos afro-cubanos; Zupay • e
El Malo, no centro, noroeste e norte da Argentina; Mandinga,
DESAGUADERO - Rio, limite entre a Bolivia e o Peru. Na no centro e litoral argentinos; Ta.pia, nas regiões de Salta e
mitologia andina, o leito do Desaguadero teria sido aberto Jujuy; Huecu ou Huecubu, no oeste patogônico; no Chile, se-
pelo impulso divino que conduziu a jangada na qual a mal- gundo o estudioso Plath, é chamado Azufrado, Cachudo, Con-
dade dos homens prendera Tonapa * o enviado pelo deus Vi- denado, Catete, Coludo, Cai/ás, Cachos de Palo, Cola de Bal-
racocha * a completar a obra da organização dos reinos e povos. Zico, Matoco, Malulo, Mentáo, Patas Verdes, Racucho, Biete
DESCABEZADO - Em algumas partes da província argen- Pecheras, Tapatarros. Os indios peruanos chamam-no: Ca-
tina de Santa Fé e ao longo das margens do Rio Paraná, f an- cho.no •, Cm'rampempe, Tunante, Rabudo, Pat6n. Entre os in·
tasma afogueado, pois é recheado a fogo. :SJ facil identificá- digenas da Venezuela, é Moquinga. No Brasil, são muitos os
-lo porque no lugar da cabeça tem uma espécie de grade nomes populares para o diabo: Aquêle, Arrenegad-0, Beiçu-
através da qual escapam fumo e fogo. Distingue-se por rou- do, Belzebu, Bicho-prêto, Bruxo-do-inferno, Cafute, Cafutínho,
bar aos ricos e por carregar as crianças que surpreende à Cabra-1Jelho, Canhim, Canhoto, Cdo, C4o-Miúào, Caolho, Capa-
noite fora de casa. -Preta, Capataz, Capatá, Capa-Verde, Capeta, Capiroto, Chi-
fruào, Coisa, Coisa-Ruim, Cusaruim, Coisa-Ruim-Mais-Velho,
DEUSES-CONSTELAÇôES - No panteão menor dos deuses Coisa-Ruim-Tem-Tem, Coisa-Má, Cuisamá, Condenado, Cor-
incas figuravam divindades representadas por planêtas (ver nudo, Coxo, Cujo, Danado, Daninho, Debo, Demo, Demônio,
Deuses-Planêtas), constelações e alguns astros isolados (Xa- Demonho, Di6, .Diú, Diau, Diabo-Coxo, Diabo-Rengo, Diacho,
mam Ek •, Chuychu • e outros). As principais constelações, Dianho, Diangas, Diat11gras, Domingos Pinto, Droga, Drale,
pela influência que exerceriam nos ciclos vitais da ~erra e Rk, Esp(rito-Ma.u, Expomungado, Il'eio, Il'errabrda, l'fgtwa,
4
_DID 96 97 DUE

Fúria> Fute, Futrico, Gato-Pr~to, Inimigo, Imundo, Lobis, Lúci- círculo com sete estrêlas, e recebeu o nome de Ceuci *. Ao
fer, Lusbel, Maioral, Maldito, Mal-Encarado, La.tno, Malino, Mau, segundo, um menino, que em certo lugar . do corpo trazia
Mofino, Moleque, Moleque-do-Burrão, Não-Sei-Que-Diga, Pé- um desenho de estrêlas dispostas em forma de serpente,· cha-
-de-Pato, Pé-de-Peia, Peitica, P edro Botelho, Pêro Botelho, mou Pinon. Os irmãos cresceram bem, mas na idade dos
Pepé, Porco, Porco Sujo, Rabão, Rabudo, Rapaz, Ramãozinho, quereres Pinon teve ciúmes da irmã, Ceuci, que começava a
Romão, Romãozinho, Sapucaio, Satã, Satanás, Sujeito, Sujo, ser requestada pelos homens. A fim de livrá-la dêstes, levou-a
Tentação, Tentador, Tição, Tinhoso, Ti.snado, Velho, Vai- para o céu onde ela tomou lugar como a constelação Sete
-Cão-Cox o. Conhecem-se mais alguns: Tenideiro, Tardo, Tras- Estrêlo (isto é, Plêiades). Mas Pinon continuava enciumado.
go, Zarapelho, Pai-do-Mal, Fulano, Bode, Bode Prêto, Verme- Para vigiar· Ceuci transformou-se, por sua vez, na constela-
lho, Sarnento, Gafento, Bafud-0, Dragão, A111hangá, . Bicho- ção de Hidra.
.
Mais tarde, a mãe, Dinari, mudou-se. em peixe.
-bicho, Bute, Cafuçu, Caneco, Carocho, Cifé, Cinzento, Cra- DJIGONSASEE - Figura mitica venerada pelos hurões, in-
mulhano, Di<>go, Dubá, Escuro, .Galharoo, Gadelha, Mafarrico, dios norte-americanos. Sendo virgem, concebeu do Grande
Manfarrico, Manquinho, Mico, Mofento, Peneireiro, Pé-de- Espírito um filho, Deganiwada * que veio a ser o apóstolo e
-Cabra, Taneco, T emba. · 0 herói da Liga das Seis Nações. Exerceu a função de .men-
DIDENA - Nos cultos de adivinhação afro-cubanos, o orixá pro- sageira celeste, ligou:-se ao plantio da árvore da paz entre
tetor dos recém-nascidos. os desavindos mohawks e onondagas e representando a li-
nhagem feminina das tribos aliadas tornou-se invocação bási-
DIGHTON ROCK - Rocha encontrada à margem do Rio ca nos conselhos da famosa Liga das Seis Nações.
Taunton no Estado norte-americano de Massachusetts, con-
tendo inscrições rupestres que vieram a ser objeto de contra- DOBAYA - Primitivas deusas da água, para os indios de
dição e base para inúmeras versões a propósito do povoamen- Darien.
to da América. Em 1680 foi descrita pela primeira vez por DOIS-DOIS - '
O mesmo que Ibêje, Ibeiji, Ibeji e Cosme e
John Danforth. Em 1783, o Reverendo Ezra Stiles • pretendeu-a Damião, nos cultos afro-baianos. Sob esta invocação é fes-
prova irrefutável da colonização fenícia, teoria também acei- tejado com refeições que no dia 27 de setembro são ofere-
ta por Court de Gébelin. Mas para o Coronel Vallency, cuja cidas a sete crianças.
tes e apareceu em 1786, a inscrição era de povos siberianos.
Tempos mais tarde, Rafn reproduziu a inscrição em seu li- DOMUYO - Vulcão de Neuquén. Segundo as lendas da re-
vro Antiquitates Americanae, buscando defini-las como mis- gião é um grande conquistador, alternando suas atenções
tura racional de caracteres rúnicos e latinos, deixada no Rio amorosas entre mulheres brancas e escuras. A lenda de
Taunton como sinal da passagem de povoadores normandos, vulcões que convivem com mulheres também é corrente no
chefiados por Thorfinn Kalsefni. Até aqui, a mitica a . res- sul do Chile e tem origem mapuche.
peito de Dighton Rock. As últimas teorias concordam com DORADO - ll: o salminus sp. A mitica do noroeste argentino
Schoolkraft que a considera pictografia indigena, mais pro- diz que nos principios do mundo o Sol não possuia os raios
vàvelmente da tribo wabenaki; ou aceitam a interpretaçãn com que o vemos hoje. Ambicionando ostentá-los, sabendo
· veiculada em 1923 por E. B. Delabarre que pretende ler na quanto o dourado é perseguido pelos pescadores, transformou-
pedra o nome Miguel de Corterrea:l e "V ( oluntate) Dei D1M& -se em um dêsses peixes. Sendo invulnerável, as flechas com
lnd (orum)". que os indigenas o visavam mantinham-se firmes em seu couro
DILGUM - Sistema ioruba de adivinhação religiosa, executa- sem fazer-lhe mal. Subiu ao céu e cada flecha transformou-
do com o emprêgo de dezesseis pequeninos côcos. Dilgum é -se em um raio de seu disco incandescente. Por tal razão,
abreviatura de Merindilogum e tem como intermediário Exu- os índios matocos escolheram o peixe para seu protetor e
-Elegbá *. Portanto, apenas os fiéis graduados de Exu-Elegbá tem-no como ancestral da raça.
podem proceder ao lançamento dos coquinhos. DOSU - O culto aos gêmeos, tributados pelos bush negroes
DINAR! - Mito amazônico da jovem que, banhando-se em da Guiana Holandesa, ent re os cultos afro-americanos. No
companhia do noivo, abusou da proximidade dêste, engravidou- Surinã, os gêmeos são absolutamente sagrados e as cerimó-
-se e por isso foi transformada, como castigo, no pássaro nias a seu respeito também são chamadas Hohobi •.
jacamim. Apesar dêsse nôvo estado, deu à luz duas crian- DU.lt - Ou Ndué, ser maléfico entre os trianas do Rio Ne-
, · ças. A primeira, menina, ao nascer ostentava na testa um gro, A mazonas. De Suas malfeitorias consta haver secado
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a terra, matando quase todos os viventes, ao fim de uma sêca
muito prolongada. Recolheu os ossos dos mortos divertindo-
-se em fazer com êles animais, aves, peixes. Tupã soube,
desceu à Terra, fechou a foz de um rio cujas águas, assim
levantadas, cobriram o mundo. Homens e bichos fugiram
para os montes. Ao fim de quatro luas as águas se retira-
ram, mas Dué jamais foi encontrado.
DUENDE - Legenda difundida em tôda a América. . Na cam-
panha santiaguenha, Argentina, tem-no como homem de bai-
E
xa estatura, usando chapéu de abas largas, namorador empe-
nhado sistemàticamente em conquistar a jovem mais formo-
sa do lugar. Marca encontros no recesso do bosque à hora ECU1: ·- Também Acué *, o primeiro homem na mftlca afro-
mais quente do verão. As môças que se deixem seduzir pelos -cubana de Abasi *.
~ados do duende dão logo mostras de desvario, exaspera-
ção nervosa. Ao suspeitarem de que a filha caiu sob tal En - Entre os negros da costa ocidental da Ãfrica e os
influência., os pais deverão levá-la ao sitio dos encontros com seguidores brasileiros dos cultos africanos, vigora a socie-
o duende e ali, em meio a orações adequadas cobrir a môça dade dos Geledês, "instituida para combater as más influ-
com reliqulas. No próximo encontro o duende ouvirá o eco ências sobrenaturais que lançam a confusão nas cidades, di-
das orações e será afugentado pelo efeito das reliquias, li- zimam as populações por epidemias ou destroem as colheitas
bertando a môça do seu feitiço amoroso. O duende resulta- pelas sêcas prolongadas e invasões de ratos. / Efê, um ser
ria da alma dos que morreram sem batismo. Geralmente mascarado vindo de longe, sai à noite e canta acompanha-
tem uma das mão·s de lã e a outra de ferro. Podem agradar do de um trio de tambores e dos membros da sociedade. Efê
ou castigar, com elas. Em relação às mulheres tornam-se terá o poder de neutralizar os trabalhos maléficos dos feiti-
bastante incómodos para aquela que verdadeiramente elegem ceiros responsáveis pelas calamidades que atacam a região. /
para objeto de suas atenções amorosas. Se percebem que ela Na noite seguinte, as máscaras Geledês saem e dançam em
prefere um homem comum, vingam-se sujando diàriamente a grande número. Podem representar sujeitos muito diversos,
mesa e a cama da mulher. Afastam-se porém em definitivo mas a cada saida todos os membros da sociedade levam más-
ao se darem conta de que ela é pouco asseada. Em Guaypé, caras de um mesmo tipo."
Santiago dei Estero, Argentina, viveria a espécie mais feroz
de duende : da cintura para cima é em tudo um homem; para EGlPCIOS - De uma mitologia especulativa acêrca do po-
baixo é cavalo feroz e robusto. Cabelos longos, que todavia voamento da América consta a teoria de que colonos feni-
não o impedem de habitar o recesso da floresta, onde devora cios * estabelecidos no curso do -Rio Amazonas, trouxeram sob
os viventes que por ali se aventuram. Em tôdas as demais contrato engenheiros eglpcios, então os mais conceituados do
áreas .do duende a descrição é uniforme: pequena estatura, mundo mediterrâneo. O quartel-general dêstes egipcios teria
chapéu muito largo, mau gênio, mulherengo inveterado. No sido uma estação marítima junto ao Cabo de São Roque,
Chile, fala-se de modalidade particular de duende chamada na costa do Rio Grande do Norte. Do lago de Extremoz
Thrauco *; na Bolívia, a versão nacional é o Novende •. ou Touros, traçaram dois caminhos principais para o de-
vassamento da América do Sul, caminhos ou direções que
DUPPIES - Na Jamaica, os espiritos dos mortos. Os dup-
?tes acomodam-se à ramagem de certas árvores e podem ser mais tarde seriam aproveitados pelas levas de imigran-
invocados mediante ritos especiais. tes fenicios e sirios que foram povoar o Peru, sob a che-
fia dos irmãos Ayar *, a Venezuela e a Colômbia sob a
: DURAN - Sacerdote que sustentou a teoria, também espo- direção de Bochica *, etc. O primeiro de tais caminhos, rumo
sada por Arius Montanus •. Manassés ben Israel •. Lorde Kin- sudoeste, atingiria o Rio da Prata, ponto extremo a que
gsborough * e out ros segundo a qual o povoamento da Améri- chegou o comércio fenicio, com um ramal atingindo o Paraguai.
ca é devido à imigração de tribos judaicas, por volta do ano Os que sustentam esta teoria, garantem que mais de cem
100 a. e. marcos miliares ao sistema e com inscrições egipcias, ates-
tam a . sua história. O segundo caminho, alcançaria o Acre
r
e dali, abrir-se-ia para o norte e para o Lago Titicaca.
ETO 100 101 EPE

EJONI - O primeiro homem, segundo a mítica dos acagchmen igualmente influenciados pelos negros de Angola, como o
da Califórnia. Teria sido modelado com a terra superficial Santo da Cobra ou Cobra Cauã, identificado como São Ben-
- aquela aquecida pelo sol e fecundada pela chuva - sain- to, - uma curiosa fusão de Omolu com Dã; são adaptações
do das mãos do deus N ocuma * que na mesma ocasião criara de deuses nagôs e jejês, como Juremeiro, que mora no pé
a primeira mulher, Ae. da jurema (Loko) " Outros encantados, {Sete Serras,
EK CHUAH - Significando "escorpião negro" deus maia, pro- Pena Verde, Serra Negra e os Caboclos Jaci, Mata Verde e
Pedra Preta) são recentes e denotam influência do espiri-
tetor dos cacaueiros e dos homens que cultivavam ou co-
merciavam com o cacau. tismo. .1
EKCHUAH - Divindade da guerra, entre as tribos do Iuca- ENIGOHATEGA - Entre os iroqueses, personificação do Es-
tã. Malfazejo, tinha por companhia Ah Puch *, deus da morte. pirito Mal Encarado. Era uma divindade menor, feia, dis-
forme, torpe, repugnante. Podia ser encontrada nos rápidos
EKEKO - Deus aimara da abundância, representado como mortais, nos espinheiros estéreis e nos desertos maninhos.
um indio bonachão, sorridente, carregado de bôlsas onde leva Exatamente o oposto do prazenteiro Enigorio *.
café, coca, ervas medicinais. Assinala Moretti Canedo que
ENIGORIO - Entre os iroqueses, indios norte-americanos,
durante as festas das alacitas celebradas na Bolivia indígena,
Ekeko tem papel. pre·p onderante. personificação do Bom Espirito, deidade prazenteira, sorriden-
te, amável, encontrada protegendo as águas calmas e pisco-
EL-LAL - Herói civilizador dos patagões. Matou Goshye, sas, as planicies férteis, as plantações carregadas. Seu opos-
gigante devorador de crianças, transformando-se em moscardo to era Enigohatega •.
que foi roer e furar o estômago do monstro. Ensinou aos
ENO - Invocação pejorativa e irada dos indios chinook, do
homens o uso do fogo e o fabrico de armas. Obteve o amor
Rio Colúmbia, para o seu espirito criador e deus maléfico,
de uma filha do Sol e partiu com ela, sôbre as asas de um
cisne, para uma das verdejantes ilhas do oceano. o Coyote *. Eno significa, na linguagem da tribo, Ladrão,
Canibal. :
EMPAMBDOS ~ N orne com que em algumas áreas do nor- ENõR:m - Deus dos pareeis, criador do homem e da mulher
deste também é conhecido o lobisomem, por extensão de opi- pela transformação de dois madeiros.
lado, amarelento. Há um expressivo registro de Gustavo
Barroso, em Ao B<>m da Viola: "Na sua opinião, todos os EP~PIM - Lenda etiológica recolhida por Barbosa Rodrigues
homens muito pálidos, opilados, que êles {os sertanejos nor- aos indios macuxis, habitantes da região amazónica entre os
destinos) chamam "amarelos", "empambdos" ou "come-longes", rios Branco e Maú. Explica a origem das três estrêlas do
transformam-se em lobisomens nas noites de quinta para Boldrié de Orion ou Três magos ou Três Marias. Eis o texto se-
sexta-feira. Para êsse efeito, viram a roupa às avessas. es- gundo a Poranduba Ama.zonense: "Havia três homens, dois sol-
pojam-se sôbre o estrume de qualquer cavalo ou no lugar teiros e um casado, que tinha mulher; os dois moravam longe do
em que êste se espojou. Crescem-lhes logo as orelhas, que casado. Daqueles dois, um era feio, e dizem que o irmão
caem sôbre os ombros e se agitam como asas de morcegos. bonito deitava-lhe os olhos; por isso procurava meios de
A cara torna-se horrível, meia de lôbo e meia de gente. E matá-lo. Um dia aguçou um pau, apontou-o bem, e depois
os infelizes saem correndo pelas estradas, loucamente, a ros- disse ao irmão: - Meu mano, vamos apanhar urucu para
nar, cumprindo o seu fado"." pintar nosso corpo? - Vamos! - Então, contam, chega-
ram êles ao pé de urucu e êle disse logo ao irmão: - Meu
ENCANTADOS - Nos candomblés brasileiros, principalmente mano, sobe tu para apanhar para nós. Dizem que então
nos baianos, - segundo l!::dison Carneiro, "são os mesmos deu- o irmão feio subiu e em cima abriu as pernas num galho;
ses dos nagôs e dos jejês, já modificados pela influência dos então o irmão debaixo o espetou. Morreu logo e caiu no
negros de Angola e do Congo e, mais recentemente, pela in- chão. O · irmão cortou as pernas, deixou o cadáver, virou-se e
fluência espirita. Sôbre isto, há uma leve tintura de conhe- foi-se embora. Dizem que logo depois veio a cunhada, de
cimentos . . . sôbre o indígena. . . / Ora, êstes encantados são passeio, ter com êles. - Como estás, meu cunhado? - Como
simples reproduções dos orixás nagôs, como Sultão das Matas, hei de estar? Bem! - Como está o meu outro cunhado?
ou Caboclo do Mato {ôxóssi) *; são orixás nagôs modificados - Está fora, passeando! - Ah! Pode ser. - Contam que
pela gente de Angola, como o Caboclo Malembá (Lemba _ a cunhada saiu para passear no mato e, dando volta por de-
Oxalá); são orixás nagôs misturados com voduns jejês, e trás da casa, achou o corpo de seu cunhado com as pernas
EPU 102 103 EST

.cortadas e separadas. Depois a seu ·turno chegou: também ga . experiência do seu mau gênio. Quando irritado, deita-se
o cunhado. - Para que me servem as pernas cortadas? Para e desfere sôbre a terra pontapés terriveis. A medida em que
nada. Agora só estão boas para os peixes comer. - Então, êle vai escoiceando, "as choças voam, as moitas desaparecem
dizem, o irmão pegou nas pernas e as pôs no rio, virando-se e as pessoas não conseguem ver por causa da grande poeira".
logo elas em surubim. O corpo ficou ai por terra mas a Por tudo isso os bosquimanos dizem: "Pelo visto, o vento
alma foi-se embora para o céu. Chegando ao céu v.irou-se está por terra, porque sopra forte. Quando o vento está
ém estrêlas. O corpo ficou no centro e as pernas dos lados, de pé, então está calado e bom. l!:le é assim. :S:: com os joe-
uma de cada lado. Tornou-se logo o Epépim. O irmão .assas- lhos que êle faz o barulho que se ouve; eis o que faz aquêle
sino transformou-se na estrêla Caiuanon (Vênus) e o irmão barulho".
casado noutra estrêla, a Itenhá ( Sirius). Ficaram os dois
fronte~ros ao irmão que mataram, para perpetuamente (por
ESAUGETEH EMISEE Para os fndios cree'ka, norte-
castigo) olharem para êle". O surubim de que fala a lenda -americanos, divindade "Senhor do Sõpro da Vida". Teria
criado o primeiro homem modelando um boneco em argila e
é o surubim pirambucu (J>8eudopW,tystoma fasciatum L) que
mede, geralmente, metro e meio de comprimento. · · soprando sôbre êle. Sua morada, segundo a crença dos
creeks., ·seria uma cova - tida por sagrada - na elevação de
EPUNAMUM - Entre os araucanos do sul do Chile e em par- Nunne Chaha.
tes da Patagônia, divindade guerreira, cuja arma principal
eram raios solares. ESHU - ~ o símile afro-cubano do Exu afro-brasileiro. Para
os ilhéus, como para os crentes do Brasil, é malévolo. No
ERA DOS VffiACOCHA - Terceiro dos cinco pet:Ioçios .Prin- hampa cubano, Eshu é um orixá de segunda categoria. Ali,
cipais da proto-história das civilizações sul-americanas. Vi- é também chamado Ichu, Eleguá, Alegu6, Elegbará (que sig-
racocha foi também o nome do deus principal do panteão nifica muito poderoso) e Bará. Fetiches de pedaços de ferro,
inca, porém aqui figura como senhor. A Era dos Viracocha. pregos, cadeias, chaves, etc., são simbolismos de Eshu que
assinala a imigração de homens de pele branca e barbados, é sincretizado com as A 'nimas benditas deZ Purgatorio e ge-
imigração certificada pelos escritos dos cronistas nativos e ralmente - segundo Arthur Ramos (As Culturas Negras no
pelo fato histórico de que os espanhóis, à sua chegada, foram Nôvo Mundo) com a A'nima Bola•, enquanto no Brasil o
saudados pelos incas aos gritos de "Viracocha! Viracocha!" sincretismo é com o diabo.
O fato só se explica pela tradição muito antiga segundo a
qual, os homens brancos e barbados que um dia visitaram os ESTETE, Miguel de - Cronista na expedição de Pizarro, pre-
ancestrais dos incas, voltariam para dominar e ficar. parou um diário que, publicado em 1534, obteria celebridade
como fonte de informações históricas: La Relacion del Viaje
EREM - Heroina trágica de uma lenda dos cabéuas, da
que Hizo eZ Beiíor Hernando Pizarro.
bacia do alto Rio Negro. Filha de Acutipuru * e de Uaiú que
fôra discípulo de Jurupari foi solicitada pelo pai a fazer amor. ESTailLA DA TARDE - ~ para onde vão as almas dos ne-
Negou-se, fugindo. Uaiú prometeu uma lua para 0 gu~rrei­ gros africanos que ouviram e observaram as leis de Nzamé •.
ro que a alcançasse. O pajé jurou trazê-la. Erem encontrou Contràriamente aos Bekun • destinados ao reino das trevas,
um chefe valente, Cancelri que prometeu desposá-la e enfren- sob a terra, os bem-aventurados - segundo o texto de Blaise
tou os guerreiros de Uaiú. Durante o combate, o p"jé rodeou Cendr~i:s (Antologie N~gre): " .•. depois de mortos, voltam às
os lutadores, frechou Erem, matando-a. Cancelri correu a aldeias, mas estão de bem com os homens; a festa dos fu-
ampará -la. Carregava-a para fora do campo quando o pajé nerais, a dança do luto, alegra seus corações. De noite vol-
frechou-o na cabeça, matando-o também. Ao cair, Erem fêz tam junto daqueles que conheceram e amaram, põem diante
nascer um lago. Os guerreiros de seu marido, comanda- de . seus olhos sonhos agradáveis, ensinam-lhes o que hão
dos pelo sucessor dêste, Paedana, subiram a Serra do Japó de fazer para viverem muito, adquirirem grandes riquezas,
e exterminaram a gente de Uai11, os parentes de Erem. E terein mulheres fiéis, viverem no luxo e matarem muitos
como gostaram da serra não safram mais de lá. animais durante as caçadas. . . E quando tiverem morrido
ERRITEN-fil!AN-KUAN - Na mitica dos bosquimanos, o todos os seus conhecidos, então e só então ouvem Ngofio-
vento, o filho do vento. Trata-se de uma criatura que pode . -Ngofio •, o pássaro da morte, e depois ficam muito gordos,
assumir a forma de menino, situação em que mantém inalte- muito gordos, até demasiadamente gordos e temo-los mor-
rado bom gênio, ou a forma de pássaro e então pode ser bom tos. . • Deus leva-os para o céu e coloca-os, juntamente com
ou mau mas geralmente é mau. Os bosquimanos têm amar- êle, _na· ·estrêla da tarde. Dali êles nos olham, nos vêem,
EYA
EST 104 105
se alegram quando festejamos a sua mémória, e o que põe que querem a sua vida. ltle pede socorro; seus guardas acor-
a estrêla tão brilhante é os olhos de todos êsses mortos". rem e do meio da confusão sobra um massacre geral".

ESTSONATLEHI - Divindade à qual os índios navajos, da EYACQUE - Um dos vocativos ou apelidos para o Coyote *,
América do Norte, dirigiam preces pedindo o rejuvenescimen- entre os indios chinook da região do Rio Colúmbia, América
to pois era "a senhora que é sempre jovem". do Norte. Tão ruim resultou para êles o deus em questão,
que mudaram a invocação de Eyacque para a de Eno, que
ETZALQUALIZTLI - O nome do sexto mês do Xiuitl * asteca na linguagem da tribo significa Ladrão, Canibal.
significava, livremente traduzido : "o tempo em que se pode
comer um prato de feijão, ou de milho cozfdo". Havia ba-
nhos cerimoniais em águas reservadas, danças e banquetes
à base de etzalli, jejuns e penitências, sacrifícios de Vítimà.S
humanas aos deus Tlaloc * e aos deuses da água e da chuva.
EXU - Nome genérico dos espíritos que presidem ou reali-
zam a Magia Negra, através das linhas ·de Quimbanda. Estas
e seus respectivos chefes são: Linha das Almas = Omulu;
Linha das Caveiras = João Caveira; Linha de Nagô (povo
de Ganga) = Gerêrê; Linha de Malêi (povo de Exu) = ·Exu
Rei; Linha de Mossourubi ( Zulus e cafres) = Caminaloá;
Linha dos Caboclos Quimbandeiros ·= Exu da Campina.
EXU-ELEGBA - Orixá * mensageiro da cólera dos outros ori-
xâs e, por sua postura sempre severa, o guardião ideal dos
templos, das casas, das aldeias. Provoca ódios, rixas, ca-
tástrofes. Quanto mais horríveis os incidentes maior a sua
glória e satisfação. A mitologia ioruba é rica de tais exem-
plos. A mais curiosa é a do reino abandonado, referida em
Orix ás Africanos, por José Ribeiro: "1lle foi encontrar um
reino abandonado desde um certo tempo por seu dono e lhe
disse: "Traz-me alguns pêlos da barba do rei, cortando-os . . '
com esta faca aqui; eu te farei um amuleto que te renderá
tanto conforme fôr teu desvêlo em cumprir minha ordem."
/ Em seguida foi ter na casa do filho da rainha; era o prín-
cipe herdeiro; êle vivia num palácio situado fora das mura-
lhas do reino. Era hábito isso, a fim de prevenir tôda ten- .
tativa de assassinato de um rei por um príncipe muito im-
paciente de herdar seu trono. / "O rei vai partir em ·guerra,
disse êle, e te pede de ir esta noite a palácio acompanhado
de teus guerreiros." / Depois disso foi falar com o rei. "A
rainha, aborrecida com . tua frieza para com ela, quer te
matar para se vingar; presta atenção esta noite.'• Vem a
noite, o rei se deita, finge dormir e vê bem sua mulher apro·
ximar uma faca de sua garganta; ela queria cortar um pou-
co de s ua barba, êle acreditou que ela o queria assâssinar.
O rei a desarma e êles brigam com grande ruido. O príncipe
que chegava ao palácio com seus guerreiros,. ouvindo os gri·
tos, corre. Vendo o rei com a faca na mão, o filho ·pensa
que êle queria matar a mãe, o rei vendo entrar, em plena
noite, seu filho armado seguido de seus partidârios, pensa
FEN
107
rável. / Onde as águas secaram à nossa passag.e m / Amon-
toados de nuvens cobrem a terra. / Vinde todos, vinde todos,
vinde todos, vinde todos com vossas chuvas. / / Descei até
0
fim da escada e detende-vos. / Trazei vossas chuvas e
vossas borrascas. / Todos, vinde, vinde, vinde, entrai, sentai-
-vos. / / Atiro-vos meus alimentos sagrados, para que ve-
nhais. / Tomai vosso báculo, lançai-o à frente, vinde. I A fim
F dos grãos explodirem em rebentos vigorosos. J A fim de que
tôdas as plantas cresçam e se fortifiquem. I / Fazei que nossa
mãe, a terra, se vista quatro vêzes de flôres / Que os céus
se recubram de montanhas de nuvens. / Que a terra se en-
volva em nevoeiros, que a chuva caia. / Que águas ·abundan-
F AM - Literalmente significa Fôrça. Foi o nome dado pelo tes cubram a terra, que relâmpagos a envolvam, / Que o
deus uno e trino Nzamé * que também é Nzamé-Mebere- trovão estrepite sôbre as seis regiões da terra. II Fazedo-
-Nkwa * à primeira tentativa de criar um ser que fõsse rei res de Chuva, acorrei por todos os caminhos, para que /
e senhor de tôda a terra e a água. Fizeram-no "quase à sua Grossos ribeiros cubram a terra; / Que as pedram sejam
semelhança: um deu-lhe a fôrça, o outro o poderio, o ter- arrastadas pelas torrentes. / Grandes Fazedores de Chuvas,
ceiro, a formosura", no texto da Antologie Negre de Blaise vinde por todos os roteiros; / Trazei o saibro de vossa mãe,
Cendrars, apud Maravilhas do Conto Africano, Editôra Cul- a Terra / Cobri a terra com seu coração, para que germinem
trix. Os deuses voltaram para o céu e Fam permaneceu, os grãos, / Que meus filhos comam e conheçam a felicidade,
sõzinho, na terra, onde tudo lhe obedecia. Mas . . . "ufano / Que tenhamos grãos de tôda espécie e que tôdas as cousas
do seu poder, de sua fôrça e de sua formosura, porque sobre- sejam boas, / Que possamos respirar o sôpro sagrado da
pujava nestas três qualidades ao elefante, ao tigre e ao ma- vida. / Enviai-nos os bons ventos do sul; / Enviai vosso
caco; ufano de vencer todos os animais, esta primeira cria- hálito sagrado sôbre os lagos; que nosso mundo I Se recubra
tura deitou-se a perder; tornou-se orgulhoso, não quis ado- de beleza e viva nosso povo / / Lâ long.e, bem distante, eis
rar a Nzamé e desprezava-o. Cantava: "Yéyé, ó, lá, yéyé, nosso pai Sol, que desce a escada, / Que sai de sua mo-
I Deus no alto, o homem na terra. / Yéyé, ó, yéyé, / Deus é rada. / Que todos ·percorram até o fim o caminho da vida
Deus. / O homem é o homem, / cada um em casa, cada qual e cheguem à velhice, / Que nossos filhos respirem muito
em sua casa." Irritado, Nzamé ordenou silêncio mas Fam tempo o sôpro da vida, / Que todos os meus filhos tenham
prosseguiu no desafio. Então, Nzamé chamou Nzalan • o milho / E possam palmilhar até ao fim o caminho da vida,
Trovão. Nzalan acorreu fazendo grande estrondo: Buu, / Permanecei aqui; sentai-vos; dedicar-vos-emos os melhores
buuuu, buu! E o fogo do céu abrasou o bosque". O primei- pensamentos. / Apressai-vos na direção da mesa, pois nós
ro ho!llem queimou-se, sumiu. Escondeu-se sob a terra de vos invejamos. / Aspiramos o sôpro sagrado através nos-
onde sai, às vêzes, para fazer todo o mal possivel aos ho- sas plumagens de prece."
mens de hoje. Oculta-se na selva e os mata; oculta-se na FENtCIOS - Haveria colônias fenícias no Brasil, há mais
água e vira suas pirogas. ~ o próprio mal. Morrer não po- de 2 500 anos passados. Teriam extraido metais, comercia-
dia, pois o que Deus dá Deus não tira e ao criá-lo Deus do com essências, obtido aliados entre os tupis e levado os
dissera : "Não morrerás!" Por isso está vivo ainda em- tapuias a servirem de · mão-de-obra para ·grandes cons-
bora não se saiba onde. truções confiadas a engenheiros eglpcios • especialmente con-
FAZEDORES DE CHUVA - Entre os pueblos, eram as pri- tratados. Na obra Paraguai Histórico, n.0 2, 1959, lê-se
meiras quatro das quinze séries sacerdotais. Incumbia-lhes, que os fenicios contavam, sempre, no norte-nordeste do Bra-
através de rogações, cerimónias e cânticos, obter dos céus sil com um exército auxiliar de pelo menos 10 000 tupis-
a graça da chuva sôbre as roças de milho. Segundo o texto -guaranis, zelando por grandes áreas e inúmeras colónias e
de Luís Amaral (As Américas Antes dos Europeus), eis fortificações. Teriam conhecido as minas dos Montes Aureos,
parte da sua rogação principal: ' 4 Vinde, descei a escada, en- feito serviços de irrigação no Piaui e no Ceará, enviado gru-
trai todos, sentai-vos. J ~ramos pobres, éramos pobres, éra- pos .de colonos para vários dos atuais países sul-americanos.
mos pobres, éramos pobres, éramos pobres. / Quando che- Seriam os ancestrais dos j.ncas, os primeiros navegadores
gamos a êste mundo, após haver atravessa.do a região mise- sôbre o Rio da Prata, e o~ funda.dor.e s de cidades cómo
FYI
FIÓ 108 109

Macapá, Tupaón (atual São Luis, no Maranhão), Tutóia (cor-


FOGO-CORREDOR - Nos registros ?e Teo B~a~dão para Câ-
mara cascudo (Geografia dos Mitos Brasileiros), o Fo~!;
rupção de Tróia), Camocin, Jericoara, Aracati, Macau, Tou- corredor aparece como dos principais mitos alogoanos.
r os, Marim (depois chamada Olinda) e Aracaju. O Instituto a alma dos compadres e das comadres q~e em vida. "nã~
1iistórico e Geográfico do Amazonas, em sessão de 4 de guardaram o respeito da _Igreja. São obngados por iss~ _
maio de 1919, decidiu: . "1.0 ) existiu no Brasil uma civilização penar até que seja cumpnda a sentença marcada pelo Cna
pré-colombiana; 2.0 ) tal civilização foi trazida por migra- dor" No Rio Grande do Norte há perfeita distinção entre
ções de fenicios e de gregos; 3.0 ) essas migrações remontam
0
Fogo-corredor e o Batatão. ~te é parado, aquêle reún~
a umá antiguidade maior de oitocentos ano$ antes da era cristã". as almas dos compadres, adúlteros, penando, havendo, aqui,
(Ver Silva Ramos, Huet, Geo Jones, Gébelin, Horn.) convergência com o mito do Mboi-Tatá * de largas áreas
~IOFIO - Na Guiana Holandesa, entre os negros de origem hispano-americanas.
Fanti-Asha.nti, a crença em um espirito maldoso ou momen- FREITAS AFONSO ANTÔNIO DE - Nascido em s. Paulo em
tâneamente . irritado, que toma a forma de um inseto e pe- 1868 Wctou-se nos estudos etnográficos em 1910, com a publica-
netra no corpo humano, provocando-lhe doença. e morte. ção de trabalhos sôbre os Indios guainás. Dedicou-se também
FLECHADA - Mito vigente no noroeste arg.entino, segundo o e intensamente ao folclore urbano da cidade de São . Paulo,
qual a casa é coisa vivente e necessita ser morta para ser onde faleceu a 29-4-1930. Obras principais: Vocabulár&o nhe-
habitada. (Ver Casa Viva). engatu, vernaculizado pelo portugiWs falado em ~ao Paulo,
s. Paulo, 1936; Folganças Populares do Velho Bao Paulo e
FLOR-DO-MATO - Duende das matas paraibanas, segundo Tradições e Reminiscéncias Paulistanas.
apontamentos de Ademar Vida!: " . .. vive na mata, é um
FREITAS Jo.Ão ALFREDO DE - Advogado, professor, chefe de
tanto egoísta e não tem nada de generosidade. Corresponde
a gentilezas, hostiliza quando se faz necessário. Só favo- policia' do Rio Grande do Norte, foi por vocação entusias~­
r.e ce ao pobre caçador quando por sua vez se vê beneficia- do entomólogo, etnógrafo e tradicionalista. Nasceu em e-
rezina PI a 17-11-1862 e faleceu no Recife a 31-12-1891.
da em alguma coisa. Não o sendo, fica sumitica, irada e 'trab,alhos principais· Fetichismo 1'eligio8o e poHtico
se vinga escondendo a caça, afungentando-a para longe - S eus · · do Br ·z (1884)
gostando de brincar, debicando ou fazendo com que o ho- ( 1833) e Lendas e Superstições do Norte asi •
mem se canse e nada consiga. Depois assobia, vaiando. FU-SANG _ Pais fabuloso, Eldorado ou Xa~gri-Lã para ri~
Chega até a dar boas e gostosas gargalhadas, de deboche. mitologia oriental, especialmente entre ~s chineses. T ~-Lfn *
J!:sse mito das matas se apresenta como se fôra uma menina meiro registro gráfico remonta aos escntos de Ma- u
de doze anos, tôda simpatia, com os cabelos louros e estira-
dos, aparecendo mais comumente nos tabuleiros, quando sai
comentando a descrição que fêz dêsse pais. fabuloso um
e budista, Hoei-Chin que por ali teria viajado no. a.n0
m:;.;_
de seus dominios à procura de mangabas e ameixas . . . '' ~u ainda antes. Muitos pesquisadores querem ~u? Fu-Sanf
fô~se o México ou um ponto já civilizado . da Amer1ca do su .
FITICEffiA - J!: designação popular, brasileira, para a bruxa.
Cornélio Pires descreveu-a em Co1iversa ao Pé do 'Fogo: · "é FYIETO _ Herói miÜoo dos caingangues. Vendo seu povo
ua véia magra, andeja, cabeluda, cuma troxinha de ropa ... falto do socorro do fogo, transforma-se em. filhote de ~alha_
O marido dela, p'ra mim é o Judeu Errante. J!: ua peste branca e com. muitos artificios engana. Minar~, guardiã. · ze
p'ra duença in criança, mao oiado, lumbriga e amarelão. lo~a do .fogo e rouba-o para alegria de sua aldeia.
Apersegue munto as môças que não tão bulido e leva as
provresinha p'ra Cathirina ... " Segundo Manuel Ambrósio,
apud Câmara Cascudo, nas regiões ·são franciscanas, ·em
casa onde haja seis filhas mulheres, nascendo a sétima, já
se sabe que esta ao completar sete anos transformar-se-á
em borboleta noturna. Entrando pela fechadura da porta.
de casa onde haja mulher parida, a "Fiticeira'" vai chupar o
umbigo da criança matando-a, pelo que é chamado mal-de-
-sete-dias. Para evitar êste mal é necessário que a parteira
coloque a tesoura usada para cortar o umbigo, aberta, de-
baixo da cama onde esteja a parturiente.
111 GEN

GANGA ZOMBA - .Em quimbundo, Angola, 0 deus supremo,


o senhor entre os .deuses. Nas macumbas do Rio de Janeiro
e nos candomblés da Bahia aparece também como Ganga-
-Zumba, Ganga..:Zona, Gananzambi, ngana Zambi;

G GARCILASO DE LA VEGA · - Filho de oficial esp~ol Gar-


cia Laso de la ·Vega e da priucesa inca Isabel Chimpu Ocllo,
prima ·direta de Huáscar, o derradeiro soberano. Embora
ainda mõço fôsse residir na Europa onde veio a tomar or-
dens, escreveu uma obra na qual hoje se identifica ficção
GAIO-AZUL - Totem-pássaro dos chinook da América do envolta em realidade histórica, mas que lhe deu celebridade
Norte. Malévolo, ardiloso, compraz-se em criar situações e é de leitura indispensável: Los Cometitários Reales.
dificeis para os homens. Em grande parte dessas perversi- GAuNAB - Na mitologia hotentote monstro gigante, ranco-
dades - que nem sempre são danosas - tem a cooperação roso, demonlaco, decidido a exterminar as tribos locaUzadas
de Ioi, deidade irmã. em . Khoikhoi. · Depois de muitas lutas com o herói Tsui-Goab •
GA.F ANHOTÃO - Mito local, corrente na região serrana de f Ói afinal eliminado por êste.
Botucatu, São Manuel, Itatinga, Pardinho, Avaré, no centro- GÃVEA - A mitic.a da presença. fenícia ou hebraica no Bra-
-sul do Estado de São Paulo. Um gafanhoto do tamanho sil pré-histórico sempre contou como um de seus grandes
de um boi aparece na madrugada de sábado para domingo trunfos os supostos hieróglifos dos rochedos da Gávea, em
nas curvas dos atalhos, interrogando: "Que bicho que sou?" pleno Rio de Janeiro. Examinadas por várias comissões,
Se o passante responder: "Bicho bom!" pode seguir em paz. resultaram vãos os esforços cientificos para ligá-los a qual-
Se gritar, fugir ou não souber responder, o gafanhotão der- quer daqueles povos.
ruba-o, mesmo se fõr cavaleiro, e, pela nuca, chupa o sangue GBEJl-NIB'O - Gênio menor porém simpático, entre os ne-
da vitima embora não chegue a matá-la. Para evitar o de- gros haitian<>s ligados às crenças daomeanas. Especialmente
sagradável encontro, todo cavaleiro ou caminheiro, leva no votado às coisas e gentes do campo.
arção da sela ou no bõlso, um pedacinho de palma benta no
GBO - Vodu haitiano, dos cultos do Dahomé. Dirige os raios
Domingo de Ramos. Uma velha moradora da região co- que o deus Haviyoso • prepara.
mentava irônicamente ser muito significativo que o gafa-
nhotão só atacasse homens que voltavam de festejar o. fim GEBELIN, Court de - Americanista entusiasta, cotejando ele-
da semana, na cidade. mentos da mitologia inca-maia-asteca com elementos artísticos
fenicic;>s, concluiu pelo povoamento americano através de levas
GAFFARELL, Ph.: - Em 1875 tornou conhecida a tese do daquele povo de navegadores, postas em movimento de fuga pe-
povoamento da América pelos fenícios emigrados depois da los exércitos de Alexandre o Grande. Seguiu os trabalhos que
ocupação de seu pais e a destruição de seu comércio por a tal respeito pubiicaram Horn * em 1652 e Huet *., J>ispo de
,· Alexandre o Grande. Horn *, Huet. •, Géb~lin haviam, ante- Avranches em 1679.
riormente defendido tese idêntica.
GENEm.OSO - Espécie de duende, no Rio Grande do · Sul. En-
·GA-GORIB - Espirito maléfi.co, inimigo rancoroso dos hoten- trava pelas casas, cujas portas encontrava abertas, misturava
totes sul-africanos. :S:stes teriam desaparecido não houvesse o sal e o aç(lcar, tocava instrumentos, surpreendia a gente na
surgido o grande herói Haitsi-Aibeb * que se opõs sistemàti- cama.
camente a Ga-Gorib até matá-lo. G~NESE QUICHlfl - Os quichés foram senhores de elevada ci-
GALIKALANGE - Na mitica dos wahehe, africanos, crian- vi~ão e de boa cultura no Iucatã e parte da Guatemala.
ça prodigio que antes de nascer fôra prometida à hiena, pela Suas origens e crenças vêm assim narradas no PopoZ Vuh •.
mãe, em troca de um favor especial. Graças a seu poder "Não havia nem gente, nem animais, nem árvores, nem pedras,
de transformar-se, nas ocasiões de perigo, logrou sempre ·nem riada. Tudo era deserto, desolado e sem limites. Sôbre a
a hiena fugindo de ser devorada. Por seu sucesso na luta planicie, o espaço sem fim, jazia, imóvel; enquanto sôbre o
contra a hiena que personaliza os podêres demoníacos e das caos descansava a imensidade do mar. Nada estava reunido
trevas, tornou-se entidade espiritual inspiradora e em al- nem ocupado. O que estava abaixo não guardava semelhança
guns casos protetora. com o de cima. Coisa alguma estava de pé. Ouvia-se apenas
112 113 GEN·
GEN

surda tranqilllidade das águas, como se perenemente estives- filhos e os. filhos de teus filhos farão o mesmo, imitando-te em
. :em se despenhando pelo abismo. No silêncio das trevas vi- tudo. / As feras, os animais pacificos e os pássaros cumpriram
. viam os deuses chamados: Tepeu •, Gucumataz • e Hurakãn •, o que lhes fôra ordenado: as primeiras buscaram seus covis;
cujos nomes .guardam os segredos da criação, da existência, da os segun~os ocuparam os prados e os pássaros, entre as ra-
morte da terra e dos sêres que a habitam. / Quando tais deu- magens fizeram ninhos. / Quando êstes sêres quedaram-se
ses chegaram · ao sitio onde as trevas encontravam-se deposita- tranqüilos nos sitios de seu agrado e conveniência, reuniram-
das, falaram entre si, manifestaram seus sentimentos e puse- -se outra vez os deuses e disseram: / - Todo ser bruto
ram-se d-e acôrdo sôbre o que deveriam fazer. I Pensaram em deve estar submisso dentro de seu ambiente natural mas
como .fariam brotar a luz, a qual receberia alento proveniente nenhum deverá manter-se em silêncio, pois que o silêncio
da eternidade. Fêz-se então a luz do seio do incriado. Con- é desolação, abandono e morte. / Pronto, com voz que re-
templaram assim a natureza original da vi?8- q~e reside nas tumbou pelas anfratuosidades do espaço, um dos deuses con-
entranhas do Desconhecido. Os deuses propic1os atinaram desde vocou e proclamou: / - Segundo seja a vossa espécie, acla-
logo com a existência dos sêres que deveriam nascer. E ante mai nossos nomes para que saibais quem vos criou e quem
tal certeza, disseram: / li:: bom que se enxugue a teITa e se vos sustenta. Chamai e acorreremos em vosso auxílio. As-
·retirem as águas dos lugares baixos a fim de que êstes possam sim seja! / Porém, aquêles, não aclamaram. Quedaram-se
ser lavrados. A semente será fecundada pelo orvalho do ar e atônitos, sem saber o que fazer. Pareciam mudos, como se
pela umidade subterrânea. As árvores crescerão, cubrir-se-ão em suas gargantas houvessem morrido as vozes inteligentes.
de flôres, darão frutos os quais espargirão suas sementes. Dos Souberam apenas gritar, conforme o próprio de cada es-
frutos colhidos, alimentar-se-ão os habitantes futuros. Dêste pécie. / Os deuses, sentidos, disseram entre si : / - Assim,
modo os homens terão natureza igual à de sua comida. Ja- a criação não está bem. Será forçoso remediar a falha,
mais 'terão outra. Morrerão quando provarem ·de outra comida. antes que seja imi;>ossível fazer outra coisa. / Em seguida,
; Assim foi decidida a feição dos campos onde vi~eriam os depois de aconselhá.rem-se, dirigiram-se novamente às feras,
novos sêres. Apartaram-se então as nuvens que cobnam ova- aos animais pacificos e às aves, com estas palavras: -
zio estendido entre o céu e a terra.. Debaixo das nuvens e so- Por não haver sabido falar conforme o ordenado, tereis
bre a água da superfície, começaram a elevar-se os mon~es e outro modo de vida e alimentação diversa. Já não vivereis
as montanhas que hoje por ai se vêem. Nos vales surgiram em boa convivência, cada espécie fugirá ante a outra, te-
bosques de ciprestes, de carvalho, de cedros e de álamos. Aroma merosa de sua ambição e de sua f orne, buscando lugar onde
agridoce desprendia-se dêstes bosqu~s de seiva abundante. Em ocultar sua torpeza e seu receio. Assim o fareis. E mais :
seguida foi traçado o limite divisório. entre o espaço. sêco d~ por não haver falado nem tido consciência de quem sois, nem
umedecido. / Presenciando tais prodigios, os deuses disseram · dado mostras de . entendimento, vossas carnes serão despe-
/ - Está concluida a primeira criação e resulta formosa aos daçadas e comidas. Vós mesmos, vos triturareis e come-
nossos olhos. / Em seguida, quiseram term~nar a obra .a que se reis uns aos outros, sem repugnância. ilste e não outro
haviam proposto. Disseram, pois: / - Não é bom que as ár- será vosso destino, porque assim o deseja a nossa justi-
vores cresçam sôzinhas, rodeadas de sombras; é necessário que ça. / ... / Os deuses idearam novos sêres capazes de falar
tenham guardiães e servidores. / Desta forma decidiram colo- e de recolher, na hora oportuna, o alimento semeado e cres·
car debaixo das ramas e junto dos troncos enraizados na terra, cido. DisseraIP, pois: / -· Que havemos de fazer para que
as feras e os animais que em 'séguida se mencionam, os quaiS as novas criaturas saibam aclamar nossos nomes e compre·
obedeceram ao mandado dos deuses porém permaneceram iner- endam, porque é justo que assim ocoITa, que devem ·invocar·
tes no sítio de seus nascimento, como se fôssem cegos e -lnsensf- -nos como seus criadores e senhores·? Recordemos que os
veis. Ambulavam sem ordem nem direção, tropeçando em to- primeiros sêres que criamos não souberam admirar nossa
das as coisas. . Notando-o, os deuses disse:r,-am: / - Tu, fera, tu, formosura e nem sequer deram-se contas de nosso esplen-
animal, beberás dos rios; dormirás nas covas; andarás sôbre dor. Cuidemos de criar sêres mais dóceis a nossos intentos.
as quatro patas;. manterás a cabeça baixa e em seu. devido / Depois de pronunciar tais palavras, puseram-se a compor,
tempo, tuas espaldas servirão para lev.ar carga. E a isto com barro úmido, ·a s carnes do nôvo ser que haviam imagi-
não oporás resistência, não farás alarde de rebeldia, nem se- :nado. Modelaram..no com cuidado. ·Pouco a pouco · o fize-
quer de cansaço. Tu, pássaro, viverás nas árvores,· voarás pelos ram, sem descuidar detalhes. Quando estêve completo en-
ares, alcançarás a região das nuvens, roçarás a transparência do tenderam que tampouco êsse viria a servir, por desgraça,
céu sem receio de tombar. Hás ~e te multiplicar e assim teus pois não era senão um amontoado de barro negro, com um
114 115 GON
GEN

pescoço reto e duro; bôc~ des~entada, larga e torcida; olhos chorara por êle mas fõra seduzido e detido pela mulher)
cegos, descoloridos e vazios, dispostos sem arte nei:n graça, que com o seu desaparecimento começará o tempo pluvioso,
a diferentes alturas de cada lado da cara, à altura das têm- a piracema, e portanto, a abundância de alimento. As Plêia-
poras. Constataram, ademais, que tais bonecos não pode- des têm para os indios taulipangues a maior importância
riam permanecer de pé, desabando, desmanchando-se em água. na determinação das estações do ano, indicando o tempo dos
Não obstante, o nôvo ser tinha o dom da voz. Esta soou, trabalhos do plantio". O irmão remanescente vê Gilijoaibu
harmoniosa como jamais qualquer música havia soado ou fixar-se no céu, promete vingar-se, convive com a mulher,
vibrado debaixo dos céus. Os bonecos falaram, porém sem tem cinco filhos com ela, leva-a ao mato, enclausura-a em
.ter consciência do que diziam; e assim ignoram o sen- certo tronco onde há mel e ela transforma-se em tatu. Mais
tido de suas palavras. Notando-o, os deuses disseram: / - tarde conduz os cinco filhos à colmeia e depois de analisar
Vivereis, apesar de tudo, até que haja criaturas melhores; com êles o destino dos animais, que geralmente são mortos
enquanto não chegam os que deverão substituir-vos. Nesta e comidos, transforma-se, e aos filhos, em araiuág, qua-
espera lutareis para multiplicar-vos e melhorar a espécie. I drúpede arboricola comedor de mel e pouco visado como
. . E assim sucedeu. Os deuses contemplaram com tristeza alimento dos animais carnivoros e dos homens.
aquêles sêres frágeis que se afastavam, e disseram: · · I ___. GLOOSKAP - Divindade bastante atuante na mitica dos in-
como poderemos criar outros sêres que sejam deveras su- dios algonquinos do Canadá, sempre ao lado porém em si-
periores, ouçam, falem, compreendam o que dizem,? que nos tuá.ção e com atuação contrária a de seu irmão Malaum •.
invoquem e saibam quem somos e sempre seremos . I Que- Ambos deidades criativas, sendo Glooskap espirito bom, ape-
daram-se os deuses em silêncio e meditação enquanto ·ao re- sar de imaginoso fértil e mentiroso hábil, enquanto Malsum
dor desenrolavam-se as manifestações tremendas da. ~oi~e. é esplrito propenso ao mal, . malicioso "como um lôbo". Ao
Foi quando a luz de um relâmpago insp~rou a nova :cr1açao. morrer a deusa sua mãe, dividiram-lhe o corpo. Com sua
; Os novos sêres foram feitos de madeira para que pudes- parte do corpo materno, Glooskap criou o Sol, a Lua, os
sem caminhar com firmeza e postura erecta sôbre a face animais e os peixes. Malsum fêz as montanhas, os vales,
da Terra. / (Ver Cinzas quiché) as serpentes e outros sêres repugnantes.
GENETASKA - Deidade iroquesa - "Jovem Senhora da GNUL - Na mitica do centro africano ligada à criação do
Paz". Durante a vigência do pacto de união entre . as · Seis homem, é o corpo, a carne mortal, a parte exterior da cria-
Nações indigénas, era à Genetaska que se dirigiam os indi- tura saida das mãos dos deuses Nzamé-Mebere-Nkwa. •. A
viduos ou as tribos desavindas, a fim de obter conselhos e criação da matéria mortal, corrutivel, nasceu da rebelião
decisões para suas querelas. Diz a lenda deixaram de recor- de Fam * o primeiro homem. Feito igual aos deuses, rebe-
rer a ela ao constatar que embora deusa tomara-se de amô- lou-se e não pôde ser castigado com a morte pois era imor-
res por um dos querelantes mortais. Em muitos casos .. ª tal. Na segunda tentativa, querendo fazer sua obra imortal
sua função e personificação foi confundida com as de DJ1- e mortal ao mesmo tempo, os deuses dividiram o nôvo ho-
.gonsasee *. · . mem ( Sekume *) e a primeira mulher Mbongwé • em duas
GENQUENIRE - Nome que ·os indios campas, do Peru, dão partes: gt1,ul, o corpo e Nsissim * a alma, o espirito divino,
· a uma divindade secundária, maléfica. Genquenire opõe-se que vive no Gnul. Nsissim não morre, é como os deuses,
a Camagari •, divindade de igual poder, benéfica. mas Gnul, conhece a morte, a destruição.
GILIJOAIBU - Versão dos fndios taulipangues (região entre GOIAZI - Tribo fabulosa do Amazonas, registrada por ·vá-
o Rorãima e 0 Rio Uraricuera, Guianas Inglêsa e Brasileira) rios cronistas dos séculos 16 e 17. O texto de Simão de Vas-
para 0 chamado "mito de õrion" ou do Sete-Estrêlo. ltste concellos é clássico: "Dizem .que entre as nações sobreditas,
é 0 conjunto das Plêiades, grupo de Aldebarã e parte de moravam algumas monstruosas. Uma é de anões, de esta-
. õrion, conjunto que no entender do indio · representa a .figura tura tão pequena, que parecem afronta dos .homens, c.~a-
de um homem com uma perna só. Theodor Koch-Gnmberg mados goiazis." ·
escreveu duas vêzes, em Alemão, esta . lenda que Herbert
Baldus traduziu em versão única para o português. O Sete- GONDWANA - Continente primitivo, pesquisa,do pela Ciên-
Estrêlo é um homem chamado Gilijoaibu de uma perna só ºque cia, aceito pela mitologia, integrado, provàvelmente pelas
sul;>iu ao céu depois de sua mulher infiel - Vaiuá.le · ·- · lhe atuais .Africa, Arábia, lndia, Madagáscar, Austrália Ociden-
. ter cortado . a outra. Antes de subir ·avisa ao irmão.· :(que tal . e Central, América do Sul e talvez a Antártida. União
116 117 GUE
GOR

territorial que explicaria de certa forma similitudes de fau- chamad~ Tupi e Guarani, viajando sôbre o mar, chegaram
na, flora, gamas demográficas, aspectos mitológicos, etc. Os ao Bra:sll, e com os seus filhos, povoaram o pais; mas um
demais continentes irmãos daquele seriam: Laurêntia (Amé- papag8:1o . f al~dor f êz nascer a discórdia entre as mulheres
~os dois ir~aos, donde surgiram a desavença e a separação,
rica do Norte, Groenlândia, extremo norte das Ilhas Bri-
tânicas); Angara (Escandinávia, Finlândia, Rússia, Sibéria, ficando Tupi na terra, enquanto Guarani e sua famUia emi-
Turquestão, Tibete, Mongólia e China) . graram para a região de La Plata".
GORANCHACHA - O grande cacique mitico de Tunja. Nas- GUARICANA - Um dos designativos dos índios brasileiros
ceu de uma formosa mulher fecundada pe.lo deus sol. para o gênio mau, o diabo, durante a fase do seu primeiro
contato com os brancos e os catequis tas, época em que eram
GORJALA - Mito ligado ao ciclo dos monstros que ater- levados a definir as noções de Deus, diabo, etc. Elucidativo
ram o norte do Brasil. O Gorjala, cearense, na descrição de é o texto do jesuíta · Samuel Fritz, que missionou entre os
Gustavo Barroso (Terra do Sol) " . . . é um gigante prêto omáguas, em 1689: " .. . ouvi, do rancho onde pousava, to-
· e feio, que habita as serras penhascosas. A sua ferocidade car uma flauta que me causou tal susto que não pude so-
lembra a do Polifeno de Homero, do qual é um descendente frer seu som; mandei que deixassem de tocar aquela flauta·
criado na imaginação sertaneja. Anda com as suas passa· pe~guntei que era aquilo, e me responderam que dessa ma:
das imensas pelas ravinas, escarpas e grotões. Quando en- neira tocavam e chamavam a Guaricana, que era o Diabo,
contra um individuo qualquer, mete-o debaixo do braço e o qua~ desde o tempo de seus antepassados, visivelmente vinha
vai comendo-o às · dentadas". O processo de empolgar e de- e assistia em suas aldeias, e lhe faziam sempre sua casa
vorar a vit ima torna-o aparentado com o Mapinguari * e o separada da aldeia, dentro do bosque, e ali levavam bebidas
seu nome - Gorjala, indicaria, na linguagem popular, sua e os enfermos para que os curasse. Fui perguntando com
característica principal de ferocidade : a bôca enorme e a que cara ou figura. vinha. Respondeu-me o curaca chamado
garganta desmedida pela qual descem os membros dece- Mativa: "Padre, não o posso explicar, só sei é que é horri-
pados das vítimas. vel, e qu~ndo vinha, tôdas as mulheres e meninos ·f ugiam,
GOSHYE - Na Patagónia, gigante devorador de crianças nos somente ficavam os grandes, e então tomava o Diabo um
primórdios. Depois de muita luta com o herói El-lal, foi morto açoite, que para o fim Unhamos preparado, de uma correia
por êste. El-lal, cansado de muitos expedientes inúteis, trans- de .couro de Vaca Marinha, e nos açoitava no peito até tirar
formou-se em moscardo, entrou para a barriga de Goshye, ro- muito sangue. Na ausência do Diabo o açoitador era um
endo e furando as entranhas do monstro. Por isso os patagões velho, do que nos ficaram grandes cicatrizes nos peitos. Fa-
devem cuidar do que engolem. zíamos isto, dizem, para sermos valentes." A maioria dos
cronistas e mitólogos está conforme em que Guaricana é
GRAND-MAlTRE - Invocação com que os negros haitianos um dos ~o.mes evasivos dados a Jurupari *, e que a flage-
e da.3 Antilhas Francesas reconhecem e invocam Mawu * lação rehgiosa descrita é parte integrante do culto de Ju-
o deus principal do culto daomeano levado àqueles paises rupari, ~rática Nessa desconhecida em relação a qualquer ou-
pela escravidão. tra man1festaçao r eligiosa do brasilindio.
GUACANQUIS - Pedras trabalhadas que serviam a um cul- GUAYAKIS - Os defensores da Atlântida e os que afirmam
to fálico entre o povo peruano pré-conquista . espanhola. O cro- existir em diversos sitios da América do Sul, testemunhos
nista indio Salcamaghua * anota em seu manuscrito: muchas de uma civilização e de uma raça provenientes daquela ilha,
guacas ydolatras sm berguenças. apresentam os atuais indios guayakis como um de seus trun-
GUALICHU - T ambém chamado Arraken, o ser no qual fos. Habitam as zonas paraguaias de San Estanislao San
os patagões centralizavam o bem e o mal. Joaquin, Unión e Caaguazú. Inteiramente distintos e~ cos-
tumes ~ c~nstituição física dos guaranis donos do país, os
GUARANI - Como individuo, surgiu na mitica brasilefra com guayak1s sao brancos e até mesmo louros. . .. pertenecem a
Simão de Vasconcelos, já no seiscentismo. Juntamente com una raza blanca originaria de los Semitas y de los Arrios
os seguidores de seu irmão Tupi *, teria vindo do além-mar, lê-se na obra Historia de la Raza Guarani, Concepción, 1946.
fundado uma nação que se dissolveu por intrigas femininas.
O resumo seguinte é de Tylor, figurando na obra de Egon GUECUBU - Também Hucuva, demônios monstruosos, ater-
Schaden Ensaio Etno-Bociól6gico Sôbre a Mitologia Heróica rorizadores, tomando formas de polvos, serpentes, vampiros,
de Algumas Tribos Indígenas do Brasil: " ... dois irmãos, etc., na mítica dos araucanos.
118
GUC

GUCUMATZ - Um dos componentes da· trilogia divina dos


quichés guatemaltecos, que tiraram o mundo das trevas e do
silêncio. Suas façanhas vêm narradas no Popol Vuh •. Os
companheiros de Gucumatz chamavam-se Tepeu * e Hura-
kán *.
GU-1!:-KRIG -
GUENU-PILLAN
Malasartes nas estóriás dos indios caduveos.
Deus aruaco também conhecido como
H
Pillan.
GUIRAPURU Na teogonia estabelecida por Couto de Ma-
galhães para os indlgenas brasileiros, subdeus no cortejo de HAITSI AIBEB - Herói guerreiro, semideus dos primórdios
Coaraci •, encarregado da proteção dos pássaros. da raça hotentote. Sua história na Terra é uma peleja con-
·GUNUCO - Divindade das florestas, para os tapas. Aparece tínua contra Ga-Gorib * o demónio, inimigo visceral dos ho-
uma vez por ano aos homens que se preparem devidamente tentotes. Quando êstes eram poucos e fracos, Ga-Gorib fêz
e usem a roupa ritual. Aumentando e diminuindo de tama- o possivel para aniquilá-los, mas Haitsi Aibeb foi sempre
nho, dá consultas, faz previ.sões. O mesmo que Orixá-Gninam um campeão à altura. No decorrer das lutas, várias vêzes
e Ourixá-ó-cô para os nagôs. Haitsi Aibeb foi morto por Ga-Gorib mas sempre voltou à
vida e ao mundo. Sómente descansou e tomou lugar entre
GUYRAYPOTY - Herói mitico dos apapokuvas. Atuou ex- os deuses da raça quando logrou sepultar para todo o sem-
traordinàriamente quando da primeira destruição do mundo, pre Ga.-Gorib no fµndo do poço infernal.
salvando sua raça através de vários expedientes de fôrça,
destreza e inteligência. Utilizou com freqüência seus podê- HAKO - Entre os paunis, a espiga do milho nôvo era dei-
res mágicos a fim de nutrir o povo faminto. ficada sob êste nome. "Milho branco, a extremidade superior
pintada de azul, siinbolizando o céu, de onde os espiritos ben-
fazejos descem ao auxilio dos homens pelos quatro caminhos
representados por outras tantas linhas azuis, terminando
ao meio da espiga." Na grande procissão anual, uma cons-
tante entre os povos agricultores da América Central e do
Norte, o"' Hako al>ria o cortejo.
HAOKAH - Deus do trovão para os indios sioux, norte-
-americanos. Fala pela voz do vento forte. Seu semblante
é metade triste e metade alegre. Assim, quando está triste,
sorri. Para êle o calor é frio e o frio é calor. Diiverte-se ar-
remessando meteoros.
HAPffiU~US - Demônios inferiores que, em grande número,
atormentavam os agricultores incas. Aparecem com fre-
qüência nos relatos coloniais. Seriam representados pelas
estatuetas com peitos sobremodo avantajados, comuns ainda
hoje nos Andes bolivianos e peruanos.
HARTT, CHARLES F'REDERIK - Canadense, nascido em New
Brunswick, a 25-8-1840, foi um apaixonado pelos problemas da
etnografia brasileira. Acompanhou Agassiz nas viagens pelo
Brasil durante 1856-58; lecionou em vários colégios america-
nos e, cedendo à sua paixão pelos temas brasileiros, em 1870
chefiava a expedição Morgan. Ficou no pais chefiando a Co-
missão Geológica do Império e visitou demoradamente o Ama-
HAV 120 121 HER

zonas. Fixou muitos aspectos da vivência indlgena, especial- "o restaurador dos cantores no templo de todos os cantores".
mente no teITeno do mitico. Foi o primeiro estrangeiro a re- Com uma esquadra de "sete cavernas nadantes" trouxe ar-
gistrar e analisar as lendas tradicionais entre os sllvicolas. quitetos, pintores, mestres de bijuteria, escultor~s, músicos,
De sua obra destacam-se: Amazonian Tortoise Myths, 1875 a:t~stas, obreiros de todo o gênero. Nos escritos daqueles
(traduzido e anotado em 1952 por Luts da Câmara Cascudo) ; v1a3antes, a América figurava como Hav-i-ilah ou "Jardim
"Contribuições para a etnografia do Vale do Amazonas" in de todos os cantores" enquanto o nome particular do México
Arquivo do Museu Nacional, tomo VI, Rio, 1885. Faleceu no era An-a-hu-ac, vale dizer: "planície do templo de todos os
Rio de Janeiro a 18-3-1878. cantores". Permaneceu três anos na cidade de Tulacingo
HAVIYOSO - Nos cultos afro-haitianos deus que prepara os ( ve~ .T ula) onde, no ano 2359 teria redigido sua sagrada
raios. Como todos os vodus daomeanos aclimatou-se às An- escritura, o Te-o-am-ox -tli ou "Palavras divinas para os can-
tilhas (Veja Hevioso). Tem a auxiliá-lo um vodum que di- tores todos do Templo." Construiu ali um templo e um pa-
rige o curso do raio: Gbo •. lácio subterrâneos e reformou o culto e a moral do império
tolteca. Organizou sociedade secreta para cuidar dos ensi-
HAWENIO - Entre os indios seneca, norte-americanos, "O namentos divinos e da ordem material. Falecendo 0 rei
Grande Cria.dor", aquêle que fêz tôdas as coisas.
locai sem deixar herdeiros, Quetzalcoatl aceitou a coroa e
~RCULES - O legendário her6i teria sido um dos principais reuniu sob um só mando o domínio religioso e 0 politico.
chefes e povoadores da América pré-histórica, segundo os que Aboliu os sacrifícios humanos, purificou os templos, estabe-
admitem haver sido nosso continente posseado e civilizado leceu novos tipos de oferendas aos deuses, reconstruiu Tula,
por tribos da Asia Menor e da Grécia, via Africa e Atlântida. hierarquizou os sacerdotes e os burocratas, incorporou mais
Pelo livro Amério01 Pré-histórica e Hércules - exumados da de mil léguas ao teITitório tolteca. ~udo ia em paz e pro-
filologia sumérica, de Peregrino Vidal •, teria sido a seguin- gresso até que, ao. fim de vinte anos de govêrno sábio, o
te a atuação mítica de Hércules na América: pisou terras rei de Culhuacan - por nome Huemac (e no qual Peregri-
americanas pelo menos três vêzes, talvez quatro. De cada no Vidal pretende ver o significado esotérico de Lúcifer o
viagem trouxe uma leva de povoadores. A primeira teria príncipe do culto negro) conspirou para depor o grande rei,
sido de três tribos jafétidas -- os toltecas - que aportaram principiando por atrair os antigos sacerdotes irritados com
no México pelo ano 2963 a. C.; a segunda, a dos xiximecas, a supressão dos sacrificios humanos. Evitando derramar
composta de dez tribos (duas jafétidas, quatro hamitas e s~ngue, Quetzalcoatl abandonou cidades e provincia, profe-
quatro semitas), chegaram no ano 2893 a. C. A terceira, tlzando que seus descendentes voltariam para recuperar o
a dos astecas veio repovoar o México, então assolado pelos reino. Fixou-se, com os que o seguiram, em Huitzilapan
adeptos do "culto negro". Integrado nesta terceira leva, (atual Puebla de los Angeles) . Com os povos que vieram
Hércules ter-se-ia demorado uns 150 anos na América. De- pedir-lhe aceitasse governá-los, fundou a cidade de Cho-lu-la
sembarcou na foz do atual Rio Pânuco onde fundou uma ci- (Cholula *) e civilizou a região. Perseguido pelo belicoso
dade, Pan-ttk-o - que significa "Cidade da Serpente Bri- Huemac (Lúcüer), o profeta do bem homiziou-se no pais
lhante", ou Tiro, ligada ao mar por um canal de três jeiras dos Quix-és, (Quichés) na Quatemala (Guatemala), onde foi
de largura, cem pés de fundo e cinqüenta estádios de com- cognominado W-ot-an (veja Wotan). Depois de propiciar a
primento (uns 330m por 33 e 2km). Pânuco ou Tiro foi a fundação do império e da civilização dos maias, isto é, dos
capital da América herculânea, fundada pelos anos 2700 a. C. sacerdotes cantores", imigrantes semitas, Hércules passou-se
/ Posteriormente seu rei, Eurysthey (nome que quer dizer: para o I-Uk-at-an, onde foi aclamado pelo povo como Kuk-
o Filho do Homem, o fundador de todos os cantores), ordenou- -ul-kan ("oprimido por todos os maus"). Organizou um go-
-lhe fôsse arrebatar à Hipólita, rainha das amazonas, um vêrno modêlo, chegou até Honduras, Nicarágua e Panamá,
cinto desejado por sua filha Admete. Depois de muitas lu- passando-se por fim para o meio dos muiscas, na Colômbia,
tas ao fim das quais a rainha sucumbiu, Hércules voltou a entre os quais seu nome veio a ser Boch-ic-a (Bochica *).
ocupar-se da América, devastada e saqueada pelo culto ne- Ali viveu por 2 000 anos, emigrando, afinal, perseguido ain-
gro - o caos. Foi quando trouxe os astecas, palavra que da por seus inimigos. Endeusado, cada quinze anos os muís-
esotêricamente designa os "Verdadeiros cantores do Tem- cas sacrificavam em praça pública, a flechadas, um jovem
plo". Os astecas teriam deixado o Egito pelo ano 2526, che- escolhido e treinado para tal fim, como se fôra um prínci-
gando a Tiro (ou Pânuco) em 2450 a. C. Nesta sua chegada pe, desde o seu nascimento. Desceu ao Peru, que civilizou
ao México, Hércules recebeu o nome de Quetzalcoatl, isto é: e organizou para o culto divino e onde foi chamado, simul-
HEV
122 123 HOH

tAneamente Vir-ak-o-xa (veja Viracoch&), ou Con-tik-1",, ou Era e também dominava o trovão, matando com tal arma a
Pa-chae-am-c (veja Pachacama.c) ou Man-co-ca--pac (Kanco- feroz serpente das águas. Com o auxilio de seu também
-Capac). Fundou um império, construiu o grande templo de poderoso irmão o Vento-de-Leste•, exterminou a odiosa raça
eusco, criou uma escrita, fundamentou a astrologia, abriu dos gigantes de pedra. A colaboração foi perfeita e serviu
escolas, ensinou artes e técnicas. Sobreveio porém um perlo- como exemplo de coordenação aos guerreiros iroqueses: Ht'nun
do prolongado de tragédias naturais e os homens, de beatlall· conduziu os gigantes para a borda de um abismo e estando
zados que ficaram, desmandaram-se em vicios e crimes, como todos reunidos ali, o Vento-de-Leste soprou violentamente,
atirando com os inimigos para o fundo do precipicio, onde
0 da homossexualidade. "11:ste vicio chegou a tal auge que
as mulheres, para atrairem os esposos, começaram a usar foram enterrados.
poções de bruxarias, com que acabaram de idiotizá-los! Foi HIPUPIARA - Monstro marinho presente na mttica colonial
a corrida para a decadência daquela nobre e grande nação!" da costa brasileira. O melhor registro é o de Pêro M. Gan-
O Profeta, pois, continuou a peregrinar, aparecendo, então, davo em sua História da Promncia de Santa. Oruz que Vul-
no Berazil • com o nome de Xu-mé •. Aqui se demorou garmente Chamamos Brasil. Ei-lo: "fero e espantoso mons-
por aproximadamente 40 anos e realizou seus últimos traba- tro marinho que se matou na Capitania de S. Vicente no ano
lhos de monta (todos aquêles que a tradição indigena atri- de 1564 com quinze palmos de comprido, semeado de cabe-
bui a Sumé •). Entremeando essa estada com uma viagem los pelo corpo e tendo no focinho huas sedas muy grandes
para o repovoamento religioso do Peru, retomou, por fim como bigodes". "Movia-se de uma parte para outra. com
para sempre à Europa. passos e meneos desusados e dando burros de quando em
HEVIOSOS - Também Heviosso, na mitologia dos fons dao- quando tam feos que parecia alguma visão diabólica." Na
meanos é uma "familia" de divindades que manobram o obra de Gabriel Soares R-Oteiro do Brasil encontra-se a Upu-
trovão. Com mais precisão, integram os vodus que minis- piara * e uma referência a Igupiara *.
tram justiça e demonstram cólera punitiva através da ação
HLAKANYANA - Na mitica zulu, herói semideus. Falava
destruidora do raio. Têm muito a ver, portanto, com o
antes de nascer, dando ótimos conselhos. Ardiloso com os
Xangô * dos iorubas. A numerosa familia tem alguns mem-
homens, muito hábil na arte de transformar-se preferindo
bros mais conhecidos: Sobo que se diverte fulminando as
a forma. de coelho. Prendeu e ferveu até a morte a mu-
árvores e durante o tempo sêco fazendo o mesmo com os
lher que paria canibais. Propõe a tôdas as pessoas que en-
ladrões e os feiticeiros; Aden *, que comparece apenas quan-
do 0 céu já escureceu e cai uma chuva fina. Gosta de ser contra, troca de objetos, das quais sempre sai lucrando.
anunciado por relâmpagos; Aklombé •, perito em rachar o HOEI-CHIN - Monge budista. chinês que descrevendo viagem
crânio das vitimas, golpeando-as na testa; Jakuta •, cujo empreendida no ano 499 de nossa era ou antes, a um pais prodi-
nome significa "o lançador de pedras", que faz-se acompa- giosa.mente belo e evoluido - chama.do Fu-Sang • proporcionou
nhar por chuvas torrenciais; Badé, que se apraz em retalhar a seu patrlcio Ma-Tuã-Lln • a oportunidade de criar também no
o corpo dos atingidos. Ocidente a lenda dêsse reino encantado. O francês De Guig-
HIAWATHA - Deidade humanizada, na legenda. onondaga e nes * foi o primeiro divulgador dêsse mito na Europa. Para
de outras tribos de indios norte-americanos. Ha,'hy0106't'ha. êle, Fu-San era um pedaço do México; para outros que o se-
na Ungua original. Foi celebrada. no célebre poema de Long- guiram, um reino sul-americano, ao passo que para modernos
f ellow, "Hia.\vatha.", sendo freqüentemente confundida com estudiosos, Fu Sang seria em terraa do Japão ou da Coréia.
outras entidades semi-humanas e semidivinas, tais como Na- HOHO - 1t chamado entre os negros f ons e seus descenden-
nabojon *, dos chippewa e Manabozho *, dos ojibway. Ori- tes no Brasil, a obra dos gêmeos que entre os iorubas recebem
ginàriamente, Hiawatha era canibal feroz da fa.milla do não o nome de Ibeji *. Não são vudus nem orixás, porém re-
menos sanguinário chefe mítico Atatarho * mas resultou con- presentam o principio da dualidade original : macho-fêmea,
verter-se às boas maneiras e ao amor dos homens graças céu-terra, luz-treva, oposição e complementação de que re-
aos esforços de Deganiwada * cujas regras passou a seguir, sulta tôda espécie de vida e de coisas sôbre a Terra. Tanto
tornando-se um dos sustentáculos da famosa liga de paz entre os iorubas como entre os f ons, os gêmeos são muito
estabelecida. entre as seis grandes nações indias. respeitados. Se ocorre o falecimento de um dêles, é forçoso
HI'NUN - Poderosa entidade espiritual, com grau de di- reproduzi-lo em uma estatueta que estará sempre sob as
vindade, festejada pelos iroqueses, indios norte-americanos. vistas e cuidados da mãe. O irmão sobrevivente oferecerá
HOH 124 125 HUA

sempre ao irmão-estatueta, parte de sua comida e de sua HUAKA.f-PATA - Originalmente, Auca ou Aukai ou Huakai,
bebida. Fons e iorubas radicados no Brasil e seus descen- ·n ome de um dos quatro irmãos Ayar • que o deus-herói Vi-
dentes realizaram o sincretismo de Hoho e Ibeji com os san- racocha *, supremo da mitologia inca e pré-incaica trans-
tos católicos. Cosme e Damião. tormara em rochedo. Em memória de seu vigor e de sua
HOHOBI - Ou dosu, o culto dos bush negroes, de origem constância guerreira, os soberanos incas mandaram revestir
de ouro a pacarina • representativa de Huakai e sôbre esta
Fanti-Ashanti (Costa do Ouro) radicados na Guiana Holan-
faziam jurar fidelidade e obediência os guerreiros de par-
desa, aos gêmeos que consideram sagrados. tida para as guerras.
HORN - Estudioso que em 1652, com base em elementos
da mitologia amerindia, principalmente perúvio-boliviana, ex- HUAMANCHURI - Divindade menor do panteão inca, filho
pôs teoria defendendo o povoamento da América pelos fenicios. ~o deus Ataguju *, protetor das safras de figo e milho e pai
Foi seguido pelos trabalhos e afirmações de Huet •, bispo de ao deus Catequil * ou Chueuilla * propiciador dos bons orá-
culos.
Avranches (1679); Court de ·Gébelin • (1778), Ph. Gaffa.i'ell *
( 1875) e mais recentemente o americano Geo J ones. HUANACAURI Elevação, em sítio até hoje não identüi-
HOU - Ou Agbé, vodu feminino da família dos Houlas *, cado no qual segundo a mitologia inca do ciclo das origens,
entre os daomeanos. l!:stes vodus têm ação nas águas ma- Manco Capac e sua irmã-espôsa Mama Oclo passaram a
ritimas. Agbé age no mar em movimento não muito vio- primeira noit~ no mundo. O astuto e sábio Inca Pachacutec •.
lento, antes ritmado e gracioso. Seu espôso, o vodu Abona- ao reformular a mitologia em favor de sua estirpe, peregrinou
gar * tem por isso ciúmes e é especialmente agressivo. pelos sitios de Pacaritambo * e Huanacauri •. Aqui, orde-
nou fôsse revestida de ouro a janela da casa onde o herói-
HOULAS - Vodus marítimos para os crentes f ons da área -m1tico repousara na sua primeira noite terrena e determi-
cultural-religiosa do Daomé. São aparentados a distância nou que desde então Huanacauri fôsse o principal oráculo
com os Heviossos * vodus do trovão. Os membros principais do império. Pelos tempos afora, a lei foi seguida. Ali
da família Houla, são: Hou ou Agbé, que tem presença quan- eram cumpridos os ritos principais, inclusive 0 sacrificio de
do o mar está em movimento; Abonagar, espôso da anterior, crianças. O santuário conhecia uma oração própria: "õ
ciumento, agressivo, guerreiro feroz e famoso; Nã-Etê *, a Huanacauri, pai e criador eterno! Sol, raio, lua? Não en-
chuva que cai sôbre as extensões liquidas; Topodum *, o velheces _jamais! Que teu filho, o Inca, permaneça também
jacaré ou outro inimigo devorador de homens; A vreketé, ma- sempre Jovem e que suas obras sejam abençoadas por ti!
licioso, brincalhão, responsável por tôdas as surprêsas desa- Sôbre nós, teus filhos, que te oferecemos êste sacrifício es-
gradáveis e perigosas. tende, ó sol, raio, lua!, as tuas mãos tutelares e dá-n~ o
que é necessário para nossa subsistência!"
Hú - Com Agbéto * forma a dupla de vodus que tem a ver
com os acontecimentos que se desenrolam no mar•. HUANCAQUILLI - Asce.t as incas que se internavam pela so-
HUACA - Local e objeto sagrado que recebia o culto, na lidão das montanhas procurando encontrar o deus através do
mitologia and\na. Centros da devoção popular, distavam e sofrimento. Buscavam o que poderíamos chamar de "a si mes-
não se confundiam com os santuários do culto oficial. Po- mo", ou a revelação. O segrêdo dessa felicidade seria a
fuga total ao espaço e ao tempo.
diam ser locais abertos ou grutas nas montanhas, como o de
Pachacamac, sitio de grande decepção para os conquistado- HUA-PIC-TOC - Ott Hun-Pic-Toc. Deus da guerra para as
res espanhóis que ouvindo muito a tal respeito supunham en- primitivas populações centro-americanas.
contrar ali tesouros caliosos. Centralizavam postes de ma-
deira ou pedras trabalhadas grosseiramente, onde eram ata- HUARI-RUMA - Ou "povo primitivo", segundo povo da se-
das as vitimas destinadas ao sacrificio. Ao longo do tempo, gunda geraç_ão de nações andinas criada por Viracocha, das
Huaca tornou-se, para os incas, fôrça misteriosa e sobrenatural, pedras de T1auanaco, em seguida ao grande dilúvio que afo-
exercendo decisiva influência sôbre a sorte das criaturas. Podia gou os Andes. Os Huari-Ruma, eram gigantes, cobriam-se
incorporar-se a pessoa ou objeto. Protegia o clã e servia com peles de animais, construíram os ainda hoje encontra-
como fetiche pessoal (ver Oonopas). Um homem que se desse· dos fucullu, curiosos edificios de forma circular. Mantiveram-
bem com sua huaca podia solicitar aos deuses que a transferis- -~e fiéis a.o culto de Viracocha, seu criador, a quem diri-
sem para seu filho. giam a seguinte prece: "ô Viracocha, tu, o maior, o cria-
126 127 HUN
HUA

dor do universo, estejas onde estiveres, no céu ou na terra, HUEHUETLAP.ALLAN - O livro de História sagrada e pro-
nos limites mais fundos ou nos extremos . mais altos, ouve fana dos nab~as. Essa história é dividida em Quatro-Sóis, tal
nossa súplica!" Os Huari-Ruma tomaram a hegemonia pla- como a mexicana, e a soma dos anos correspondentes aos
naltina aos Huari Viracocha-Ruma e por sua vez entregaram- quatro períodos permite conhecer que os nahoas colocavam
-na ao terceiro dos povos, os Purun-Ruma. a criação do homem americano no ano 3 877 a. c. Eram os
seguintes os quatros sóis nahoas: Atonatiuh (sol de água),
HUARI VIRACOCHA-RUMA - Ou seja - "os homens de 808 anos; Ehecatonatiuh, 810 anos; Tletonatiuh, 964 anos;
Vira.cocha" * formaram, segundo a mitologia inca, o primei- Tlatonatiuh, 1046.
ro dos quatro povos da segunda criação do deus-pai-de-tôdas-
HUET, bispo de Avranches - Interessado na migração dos
-as-coisas, em Tiauanaco, depois do grande dilúvio. Os pri-
povos e na mitologia dos ameríndios, tomou por base os es-
. meiros a serem criados, dominaram o planalto até deixarem
tudos de Horn, tornados públicos em 1652 e procurou demons-
o mando para o segundo povo, os Huari-Ruma * nome que
trar que o povoamento da América foi promovido por levas
significa - "povo primitivo". de fenicios fugidos ao dominio de Alexandre .o Grande.
HUATHIACURI - Na mitologia huarochiri, tribo que ocupou
HUI~AI MARCA - O norne de Tiauanaco * na mais remo-
'territórios hoje argentinos, esta lenda tem maior importância.
ta civilização andina, próxima ao Lago Titicaca. Pergun-
pelos pontos de contatos com outras de tôda a América
tados pelos espanhóis se Huiiíai Marca f ôra uma fundação
proto-histórica, porém, mais próximamente, do mito de dos imperadores incas, os nativos riram e responderam que
Quetzalcoatl * e Tezcatlipoca *, heróis-deuses astecas. Hua- mesmo antes de existirem estrêlas no céu, a cidade existia.
thiacuri era um herói, andarilho, pobre, dono das virtudes Surgira em uma noite, dos mistérios do ventre da Terra,
próprias à pobreza e à mocidade. Chegou ao dominio do porém o grande deus Viracocha transformara em pedras
feroz, rico e poderoso Tamtafiamca, então gravemente enfêr- todos os seus habitantes por castigo aos seus costumes dis-
mo e atendido pela formosa Chaupifiaca, sua filha. O herói solutos.
cura o bravio doente em troca da filha. Enciumado, o
cunhado e herdeiro presuntivo dos dominios de Tamtafiamca HUITACA - O segundo dos nomes com que era invocada
submete-o a provas terríveis. Antes de cada prova, Hua- Chia * a companheira do grande Bochica"' o civilizador dos
chibchas.
thiacuri corria a pedir conselhos a seu pai celeste, Pariaca-
ca, espécie de Viracocha regional e que vivia encerrado em HUIZACHTLAN - Morro divinizado e venerado durante as
cinco ovos em Condorcoto. A lenda, pràticamente não se festas astecas a Xiuhtecuhtli *, "o Senhor do Ano", o maior
encerra mas continua em outros ciclos e episódios, mas dos deuses ligados ao fogo. Cada 52 anos celebravam-se
quando se perde nos seguintes, o herói triunfara de tôdas festas em honra do fogo nôvo que nascia sôbre o morro de
as provas. Huizachtlán, sendo dali conduzido processionalmente para o
HUA UCHA - Deus inca, personificação do planêta Saturno. templo de T·e nochtitllán e dêste para os de todo o pais dos
Permanentemente famélico e irado provocava as pestes en-
incas. 1 ~
tre os humanos e os animais e causava as colheitas defici- HUMOULU - O mesmo que Omolu *, Omonolu, Xapanã, Oba-
entes. luaiê, Babaluaiê. Orixá da varíola.
HUBEANE - Na Becbuanalàndia, Africa, herói semideus, HUNAB - O criador do mundo, para os maias. Mais pró-
filho do primeiro homem e por sua vez gerador dos demais ximo dos homens e mais útil na transmissão de técnicas foi
homens sendo-lhe atribuída também a criação do céu e da seu filho, Itzamna que revelou o calendário, a escrita, os
terra. códices.
HUECU - Também Huecubu, versão feroz do diabo, no oeste HUN CIMIL - Denominação respeitosa para Ah Puch *, o
da Patagónia, Argentina. terrive1 deus maia da morte e dos males que atormentam
o corpo do homem. Um colar de ossos e penas era seu
HUEHUECOYOTL - Significando "coiote velho", era o deus adômo principal e uma coruja sua companheira inseparável.
asteca à cuja proteção confiavam-se a dança religiosa e os
dançarinos. Na mão estendida apresentava uma cascavel em IIUNAHPU - Compõe, com o gêmeo Ixtalanqué, dupla de
contorsões. Ostentava também um colar de caracóis. heróis da mitologia épica dos quichés da Guatemala e do
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HUR 128
Iucatã. Suas façanhas vêm narradas longamente no Popol
Vuh *. Filhos dos heróis Ahpu * e da virgem Ixquic nas-
ceram na floresta e grunhiam como lôbos acossados, dias
e dias, golpeando com os punhos o peito materno, estilha-
çando as esteiras com as unhas aguçadas. A avó, Ixmucané,
cansada, ordenou à nora, Ixquic que os levasse fora e os
matasse, pois eram filhos de tigre, não de mulher. A mãe
não pôde fazê-lo, mas Hunbatz e Hunchouén, outros netos
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da velha e também filhos dos Ahpu, tomaram-nos e levaram-
-nos para uns formigueiros a fim de que fôssem devorados.
A mãe queimou os ouvidos para não lhes ouvir os uivos do- IABAlM - Mãe da bexiga, da varíola. Afirmou Nina Ro-
loridos. As formigas porém afastaram-se dos meninos dei- drigues (Os Africanos no Brasil) que não se trata de uma
xando-lhes limpo o lugar. Assim cresceram, como bêstas divinização da varíola, conforme o entendimento de alguns
no fisico, como deuses no espirito. Tornaram-se "cantores, estudiosos, mas de pedido de proteção. Seria, segundo Jac-
poetas, escritores e cinzeladores", dominando os segredos má- ques Raimundo contração de duas palavras iorubanas: Iyãbá
gicos dos antepassados e recebendo a vassalagem de todos - mulher idosa, matrona e também parteira, com ytyin, pi-
os sêres do bosque. Livram-se dos primos malévolos, lutam .cada, sinal da lancetada.
com alternativas várias contra Zipacná, Vucub Caquix e Ca-
pra.kan, derrotam os senhores de Xibalbá e te1';tlinam su- IAKERER~ - No culto jejê, mãe de santo de segunda ordem.
bindo para o céu, um para o Sol, outro para a Lua, enquan- IAMSA - Em umbanda, companheira . de . Xangô *, influindo
to diziam ao vento: "Nossa estirpe não se extinguirá en- sôbre os ventos e as tempestades. Protege as mulheres de
quanto houver luz no abrir da manhã." vida livre. O amarelo e o verde são as suas côres; a quarta-
HURAK.A.N - Um dos três deuses quichés criadores do mun- -feira o seu dia; acarajé e galinha amarela a comida ritual;
espada de cobre por insígnia. Entre os sudaneses e seus
do e dos homens. Seus trabalhos estão referidos no Po-
descendentes americanos é Oiá, orixá do Rio Niger. Tam-
po1 Vuh *. Os outros deuses eram Tepeu * e Hurakán •.
bém chamada Oxum.
IAPINNARI - Na mitica da região do Rio Uaupés, Amazo-
nas, personagem dramática por excelência. Nascido cego,
filho de virgem, depois de muitas peripécias obteve a visão
esfregando nos olhos o sumo dos olhos do pássaro cancão.
Querido por tôdas as tribos pela música nostálgica tirada à
flauta membi. A mãe, apaixonando-se por um rapaz, reve-
lou a êste o segrêdo da vista de Iapinari. Imediatamente o
herói cegou de nôvo e para sempre. Tocando a flauta,
atraiu a mãe e seu namorado, os jovens e as môças da tribo.
à frente do cortejo atirou-se ao Rio Uaupés, transformando-
-se em rochedo que ainda se pode ver entre as cachoeiras de
Tucunaré e Uaracapuri.
!ARA - A beleza tentadora das águas não é mito amerindio
nem africano. O nome !ara, de ig, água e iara, senhora, foi
literariamente composto. Na Amazônia, as funções da iara
são executadas pela boiúna * e pelo bôto *. ~ o que ensina
Câmara Cascudo.
IAUTI - Em sua obra clássica Vocabulários ... , Ermano
Stradelli resume o mito do Iauti apud Câmara Cascudo An-
tologia do Folclore Brasileiro: "Jabuti. Testudo tubuZata e
afins. 1l uma tartaruga terrestre largamente espalhada em
IBE 130 131 IKA

todo o pafs, e no folclore indigena representa a astúcia aliada ICTINIKE - Divindade e herói civilizador para os sioux,
à perseverança. O jabuti vence, sem correr, o veado na car- fndios norte-americanos. Correspondia às atividades de Ma-
reira, escalando os parentes ao longo do percurso, para que nabozho • para os algonquinos e Ioskeha. • para os iroqueses.
lhe respondam e fazendo-se encontrar lampeiro e descan-
sado no ponto terminal. Escapa ao homem que o tinha guar- -IEMANJA - Para os umbandistas e cultos afro-baianos, a.
dado numa caixa para comê-1o, lisonjeando as crianças, que senhora do mar, protetora das mães e das esposas. Seu dia
tinham ficado em casa. Chega ao céu escondido num balalo é o sábado, o branco muito alvo a sua cõr; um leque
de um dos convidados, com quem tinha apostado que lá o por distintivo, milho e tainha por comida ritual. Origem
iorubana. ~ extensa a sua sinonimia: Janaina, Dona Ja-
encontraria. Só com o macaco não se sai bem, que o deixa
em cima de um galho de pau, sem que possa descer; - naina, Princesa do Mar, Princesa do Aiocá, Princesa do Arocá,
mas ainda assim sai airosamente do apêrto, matando a onça Sereia, Sereia do Mar, Olôxún, Dona Maria, Rainha do Mar,
que lhe ampara a queda. Manha e paciência - as duas Sereia Mucunã, Inaê, Marbô, Dandalunda. Seus devotos prin-
virtudes fundamentais do indigena - são os atributos do cipais .são os namorados e os que vivem do mar.
Jabuti". IFA - Em umbanda * a denominação do terceiro aspecto de
mEIJI - o mesmo que Ibêje *, Ibeji. Olarum *, o espirito supremo. Seu correspondente cristão é
a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade - o Esp1rito San-
IB:mJE - Ou Ibeji, ou Ibeiji em Umbanda, orixás •, gêmeos to, e no hinduismo é May. Sua representação são dois vasos,
e masculinos. Seu dia é o domingo; azul claro e rosa, as cô- cada qual contendo dezesseis frutos de dendê a serem usados
res; doces e confeitos, a comida ritual; refrescos de frutas, pelos ministros nas práticas de adivinhações. O nome lfá
a bebida. Origem jejê-nagô, sincretados com Cosme e e o próprio deus foram aos poucos absorvidos pelo rosário
Damião. Entre os nagôs, simbolos de fecundidade. Jima- ( opelé-ifá) de que se utilizam os babalaôs. Em Cuba é o
guaa • nos cultos afro-cubanos. orixá das coisas ocultas. Na Africa, uma cidade nigeriana
adotou-lhe o nome.
IBUALAMA - Atualmente de aparição restrita nos candom-
blés, foi descrito por Pierre Verger (Oria-#8) e citado por IGUPIARA - Sêres da mitica colonial brasileira. Descre-
C. Cascudo, como sendo "outra espécie de oxóssi •, chama- veu-os mestre Fernão Cardim (Tratados) : "jtgtes homens
do Ibualama ou Inlê, casado com Oxum. Dança com um marinhos se chamão na lingua Igpupiára; tem-lhe os natu-
amparo de três pernas em cada mão e com êle se castiga". rais tão grande mêdo que só de cuidarem nêle morrem muitos,
e nenhum que o vê escapa; alguns morreram já e pergun-
ICAMIABAS - Ou, na língua da terra "as sem marido", tando-lhes a causa, diziam que tinham Visto êste monstro;
isto é - as amazonas. O primeiro europeu que ouviu falar parecem-se com homens propriamente de boa estatura, mas
das icamiabas foi Francisco de Orellana que em 1588, sob têm os olhos muito encovados. / As fêmeas parecem mulhe-
as ordens de Pizarro partiu do Peru em busca de ouro. res, têm cabelos compridos, e são formosas; acham-se êstes
Entre o Solimões e o Maranhão, Orellana trocou colares e monstros nas barras dos rios doces. . . o modo que têm em
espelhos por informações dos naturais. Entre elas, a que matar hé: abraçam-se com a pessoa tão fortemente beijando-a
se referia às icamiabas. Encontrou-as já no atual território e apertando-a consigo que a deixam feito tôda em pedaços,
do Amazonas, que foi como as chamou. Eran altas y rubias, ficando inteira, e como a sentem morta dão alguns gemidos como
membrudas, feroces, que conbatmn con largas lanzaa de de sentimento, e largando-a fogem, e se levam alguns comem-
bambú Y m,azaa hechas con troncos quemados. EZ capitán -lhe sómente os olhos, narizes e pontas dos dedos dos pés
no iba a retroceder. Les presentó batalla y 1'enció. Pero e das mãos, e as genitálias, e assim os achão de ordinário
se quedó entre ellas. Una larga travesía lo esperaba. Três pelas praias com estas cousas menos." Gabriel Soares, em
séculos depois de Orellana, Humboldt interessou-se pelas ama- seu Roteiro do Brasil descreveu de modo bem semelhante os
zonas e o geógrafo La Condamine escreveu um ensaio a res- upupiara *.
peito delas. (Ver Matininó)
IKANAN - Para os indios chinook da América do Norte,
ICHEffil - Nas Antilhas e Guianas, os espfritos dos ances- deus que fêz o homem, quando o mundo inteiro estava co-
trais tornados intermediários entre os viventes e os deuses. berto pelas águas. Então, transformou parte do mar em pra-
Também o sitio onde costumavam reunir-se os icheiris pro- darias para as caçadas dos guerreiros. Mas a fim de que
venientes do mesmo clã. êstes não se excedessem na matança dos animais, estabele-
ILH 132 133 INC

ceu leis e tabus de caça. Confiou a Italapas * ou · Italpa~ INCA - Garcilaso de Ia Vega, filho de princesa inca redigiu,
a tarefa de ensinar aos homens as pi:áticas essenciais à vida. já na Espanha, a lenda relativa às origens da famflla real
ILHUICATZIQUIQUE - Para os tepanecas, espécies de anjos inca. O texto vem na sua obra Oomentario8 Reale8 e seu
vivendo no ar com a função exclusiva de sustentar o céu trecho principal é o seguinte: ". . . nos tempos antigos, só
sôbre o mundo dos homens. · O cronista tepaneca Tezozómoc havia neste pais montanhas e chamecas. Os homens viviam
cuida dêles em sua Crónica M e:Q.can.a. como animais, sem regras morais nem lei. Não conheciam
roupas, nem lavouras, nem casa; não sabiam plantar algodão
ILLAPA - Deus andino que presidia o ar em sua composição, nem fiar lã. Nosso ancestral, o deus Sol, teve pena dêles
efeitos e mistérios. Também chamado, segundo as circuns- e enviou-lhes um de seus filhos e uma de suas filhas, para
tâncias e o estado do ar, Chakiylla e Chokiylla. revelar-lhes sua existência. Deveriam adorá-lo e respeitá-
ILLIMANI - Pico da Cordilheira dos Andes, a 6 882 metros -lo como seu deus. Os dois enviados foram encarregados
de altitude. Diz a mitologia arcaica dos andinos que ao tempo de dar leis aos homens e de ensiná-los a viver em casas e al-
do herói deus Tonapa *, a majestade e a primazia do Illimani deias de acôrdo com a moral e a decência, a trabalhar a
foi contestada pelo Muratata. Tonapa, atendeu ao apêlo de terra, a semear e a colhêr, a domesticar animais e viver
justiça que lhe fizera o lllimani e com um golpe ·de funda do produto de seu trabalho, como sêres humanos e não
decapitou o Muratata. Foi quando êste alteroso monte e.orno bichos. Tal foi a missão que nosso ancestral, o Sol,
da Cordilheira Real ganhou então o seu nome, pois Muratata confiou a seu filho e a sua filha. Colocou-os numa ilha do
quer dizer "o decapitado". Seu pico ou cabeça, sob o im- Lago Titicaca, a maior de vinte léguas daqui, de onde êles
pulso de um pontapé de Tonapa, voou longe, para a. plani- se dirigiam para onde lhes parecesse melhor. Por fim, deu-
cie, formando o Monte Sajama que significa "Vai-te!", ordem -lhes uma vara de ouro. A cada parada, êles a enfiariam
expedida por Tonapa ao desferir o prodigioso pontapé. na terra e se, da primeira vez, ela penetrasse no terreno,
IMAHERô - Personagem antipática na lenda dos carajás do isso significaria que deveriam deter-se ali, construir uma
Araguaia que explica, pela descida à Terra da estrêla Vés- cidade e estabelecer seu dominio. Para terminar, disse-lhes:
per (Tahina-Can) a origem do milho, do ananás e da man- "Uma vez que tiverdes instruido os povos e ensinado como
dioca. Imaherô desejou amar a estrêla da tarde. A noite, devem servir, reinai sôbre êles com justiça, moderação, do-
teve-a ao seu lado. Sob a forma humana revelou-se um ve- çura e bondade. Segui meu exemplo, pois também eu es-
lhinho sem graça. Imaherô recusou-o. Mas sua irmã, De- palho meus beneficios por tôda parte. A todos dou a luz
nakê, á.otada de bom coração, aceitou-o e casou-se com êle. e o dia, a fim de que possam dedicar-se a suas ocupações.
Tahina-Can, o marido, retirou do leito do Rio Araguaia "se- Aqueço-os quando tiritam de frio e faço com que brotem suas
mentes" de mandioca, ananás e milho e f êz com elas as plantações e prosperem seus rebanhos. Eu vos elevo ao
prime\ras roças. Para cuidar da lavoura assumia secreta~ pôsto de principes e senhores dêsses povos, que governareis
mente sua forma verdadeira, a de um môço bonito, vigorooo. com sabedoria, não só por palavras, mas por atos. Termi-
Imaherô descobriu-o assim, reclamou-o para seu leito. Mas nado seu discurso, nosso ancestral, o Sol, despediu-se de
Tahina-Can era justo: afirmou que só a bondosa Denakê seus filhos. 1:stes se dirigiram para o Norte; em todo lu-
tê-lo-ia por marido. Irritada, Imaherô transformou-se no gar em que paravam, fincavam a vara de ouro no solo.
triste pássaro urutau e anda pelo mundo chorando, à noite, Finalmente, chegaram a uma pequena pousada, a légua e
em gritos lamentosos, a oportunidade perdida de um grande meia de Cusco, onde passaram a noite. O Inca, filho do Sol,
amor. deu-lhe o nome de Pacaritambu, que significa "Pousada que
desperta", pois, quando a deixou, na manhã seguinte, já o
IMAYMAMA - Ou Imaymama Viracocha, deidade inca, liga- dia havia surgido. l:?:le e sua irmã, que era também sua es-
da às estrêlas Plêiades, no entend~r de Lehmann-Nitsche. pôsa, chegaram ao vale de Cusco, então selvático e coberto
Estas estrêlas, de junho a março, presidiriam o crescimento de florestas. Na elevação que agora tem o nome de Huana-
das plantas, a boa colheita e a semeadura. Em instância cauri, o inca fincou a vara de ouro no solo; logo ela pene-
mais ampla e mais vaga, seriam as responsáveis pela maior trou no terreno e desapareceu. Dirigindo-se à sua irmã, dis-
ou menor fecundidade da terra.
se o Inca: "Nosso pai, Inti, ordena-nos que fiquemos neste
IN~ - O mesmo que Iemanjá, Rainha do Mar, Princesa do vale e aqui nos estabeleçamos e reinemos. Agora, cara irmã,
Mar, Sereia do Mar, Princesa do Aiocá, Princesa do Arocá, vamos reunir o povo, instruí-lo e espalhar sôbre êle nossos
Sereia, Oxôlún, Inaê, Marbô~ Sereia Mucunã. beneficios, de acôrdo com as ordens que recebemos." Par-
INC 134 1.35 IPA

tindo de Huanacauri, desceram para o vale, o prlncipe ·para santuário do Sol, na capital e por ondas concêntricas espa-
o Norte, a princesa para o Sul. Logo que os homens viram lhava-se pelo império. Depois de um dia de oferendas ao
os dois Incas revestidos das magnificas roupas que nosso Sol, já no derradeiro momento de luz natural o imperador to-
ancestral, o Sol, lhes dera, e que, por suas palavras e sua mava de uma pá de ouro puro e revolvia o solo de Coe Cam-
tez clara, os reconheceram como filhos do Sol, acreditaram nêles. pata, o campo sagrado. Em seguida, todos os nobres e os
Desde então os adoraram como Churi-Inti (filhos do Sol) ·e os re- sacerdotes do Sol. Depois disto, já na manhã seguinte, os
reberam como soberanos. Além disso, propagaram a noticia agricultores podiam iniciar seus trabalhos.
de sua chegada e o número de homens que veio colocar-se INUA - Invocação esquimó para "o Grande Espirito". Inua
sob sua proteção cresceu infinitamente. Então o Inca orde- equivale às divindades conhecidas por muitas tribos norte-
nou que os homens cultivassem o campo da comunidade para -americanas como Oki *, dos hurões; Wakanda *, dos sioux;
evitar que a fome · os expulsasse de nôvo para a floresta; a Pokunt *, dos shoshones; Coen *, dos atabascanos; etc.
outros deu ordem de construir cabanas e casas, e foi assim
que êle povoou nossa cidade real. Por sua vez a rainha en- IOI - Na mitica chinook da região do Rio Colúmbia, da
sinou as mulheres a fiar e a tecer." Segundo a critica de América do Norte, deidade meio-irmã do totem-pássaro
Sigfried Huber, Garcilaso de la Vega, em sua narrativa, Gaio-Azul* ao qual auxilia em suas malfazenças.
confunde "a lenda do Lago de Titicaca com a de· ·Pacari-
IOSKEHA - Herói civilizador e divindade simpática dos ín-
tambo e aplica ao rei Sol o mito de Viracocha."
dios iroqueses. Neto da Lua, nasceu de uma virgem, tendo
INCAHUASI - Ruinas em Salta, Argentina, a 2 860 metros por irmão gêmeo o belicoso Tawiscara *. Nas lutas, Ioskeha
acima do mar, junto às águas do riacho Incamayo. Se- utilizava arma feita com o aguçado chifre do veado, enquan-
gundo Ameghino, em seu La antiguedade deZ hombre en eZ to Tawiscara brandia um bordão de rosa silvestre. O sangue
PZata, esta Incahuasi, signüicando literalmente "a casa do vertido pelos heróis resultava em pedras lascadas de que
Inca" teria sido o quartel general do conquistador Yupanqui os homens serviam-se no preparo de instrumentos e armas.
quando se aventurou ao dominio do Chile. Pai da civilização iroquesa, Ioskeha tinha especialmente fes-
INKICES - Nos cultos de Angola e Congo ou dali proce- tejadas as proezas com que livrara o mundo de inúmeros
dentes, o mesmo que orixás * para os nagõs e vodus * para monstros, entre êstes o sapo que bebêra tõda a água dis-
os jejês, espiritos ancestrais abaixo dos deuses. ponivel. A êle deviam os homens luz e a conquista do fogo.
INU: - O mesmo que Ibualama *.
IPALNEMOHUANI - Literalmente, "aquêle por quem vive-
INTI - Ser de presença prodigiosa na mitologia primeva dos mos", a segunda mais freqüente invocação para TZoque
incas. Foi conhecido com tal nome o Sol na plenitude de Nahuaque * "o deus desconhecido", jamais representado por
sua glória, quando importado pelos incas vitoriosos e su- estátua ou idolo, mas cultuado no grande templo de torre
perpôs-se aos deuses adorados no reino de Tahuantisuyu. de nove andares, erguido pelo piedoso rei N ezaualcoyolt, e o
Mas a presença maior do Inti é como um pássaro, compa- mais curioso da América Central.
nheiro, ajudante, testemunha e de certa forma executor do
testamento religioso e politico do grande deus Viracocha *. IPANA · - Ente superior, espiritual, ou gênio bom, segundo
O .Inti conhecia o passado, o presente e o futuro e sua pala- as noções desenvolvidas pelos índios craõs, do Rio Prêto,
vra guiava lucidamente os imperadores incas. Ao deixar na Bahia, conforme apontamentos tomados ali por Teodoro
o mundo do antiplano, Viracocha prendeu o Inti em uma gaio- Sampaio (Revista do Instituto Histórico Bra8'ileiro, LXXV)·
la para que continuasse servindo a seu filho e primeiro inca, A existência e as obras boas de !pana sofriam a constante
Manco Capac. O sucessor dêste, Maita Capac, libertou a ave oposição de OM'TUt •, o gênio mau. Teodoro Sampaia afir-
que desde então passou a ser conselheiro precioso e sempre ma que "nos primeiros tempos, antes de reduzidos, os craõs
ouvido. não davam mostras de terem u111 culto ou religião; mas de-
INTI-RAIMI - Na mitologia de todos os povos do planalto pois de submetidos e em contacto com os brancós parece
andino, porém com maior brilho entre os incas, a festa da que adquiriram noções de um Ente Supremo". Càmara Cas-
fecundidade, da união do Sol e da Terra. Cristóvão de Mo- cudo diz que "definida (pelos brancos religiosos) a noção
lina deixou-nos bela descrição da festa, que durava uma se- de Deus era inevitável a compreensão antõnima do diabo.
mana e marcava o inicio dos trabalhos agricolas anuais. A Essa concepção só aparece quando um dos elementos se de-
primeira cerimônia tinha lugar no recinto mais . intimo do fine ·claramente".
IPE 136 137 ITA

IPEREXEBA - Herói bororo que identificou nos socós as gas · comparecem abundantemente os três, ·os seis e os quatro
almas dos bororos falecidos à procura de agasalho entre seus símbolos .nos quais os mencionados entusiastas querem en-
descendentes. Indo à caça "e ouvindo como (os socós) emi- tender referências às três primeiras tribos, as seis do norte
tém sons .iguais ao grito das almas dos bororos falecidos, e as quatro do sul: ou seja os treze povoadores primeiros da
pega aquêles espiritos levando-os para casa. Desde Iperexeba América.
o socó figura como ancestral totêmico de alguns clãs bo- ITAPIONT ARA - O mesmo que Sete Estrêlo *, em uainana.
roros. A ave seria o receptáculo da alma dos bororos, por Com essa invocação, comparece amiúde nas canções e invo-
algum tempo depois da morte. cações das festas de iniciação de Jurupari *: Camuano Nin-
IPLOA - Um dos três espiritos mais invocados pelos sa- dé *, Mahcanaca Basare * e Cariamã "'.
cerdotes que presidem as cerimônias fúnebres OU· as home- ITAQUATIA - Inscrição rupestre à entrada de uma gruta na
nagens aos mortos familiares, entre os negros da Jamaica Serra de· Itaquatiá, entre os Rios das Mortes e Ingaí, Minas
e os núcleos religiosos ligados aos cultos Coromantis, da Gerais. Em 1730, por ordem do Conde de Bobadella, foi co-
Costa · do Ouro. piada e estudada, concluindo os analistas ·por considerá-la
IRACA - Lugar santo para os chibchas. Ali recolheu-se "inscrição sepulcral dos tempos de Santo Thomé, o pretenso
para viver mais de dois mil anos em retiro espiritual e em evangelizador da América". Para Peregrino Vidal * o mais
jejum, o deus trino e uno Bochicha *, após haver civilizado animado defensor da tese do povoamento americano pelos
os chipchas, e criado dois governos paralelos: o civil e o re- sumérios-samaritanos: "Nada de inscrição sepulcral! A ins-
ligioso. Subiu ao céu, tornou-se o Sol e anda empós de sua crição da rocha nos conta o início do povoamento da Améri-
ex-espôsa, Chia* a Lua, por êle desterrada àquelas alturas. ca, história repetida mais tarde por Platão, acêrca dos treze
povoadores da Atlântida. A inscrição nos declara a identi-
IRIMU - Na mitica africana wachaga, ogro feroz que apa-
dade da América com a Atlântida dos antigos!" / "Na pri-
rece aos homens sob a forma de leopardo de muitas caudas.
meira linha há uma cruz: é o hieróglifo a designar a terra a
Ao fim de inúmeras malfeitorias, raptou uma menina, des-
ser partilhada e povoada. . . um pé, com cabeça alongada
posou-a mas passou a engordá-la, no fundo de sua caverna,
e abaixada: é o chefe da primeira imigração, o donatário da
reservando-a para devorá-la em · uma festa canibal, com
terra, a famosa Cleitô de Platão, Thubal, o homem brilhan-
outras feras e ogros. A menina-espôsa; inspirada pelos deu-
te! Segue-se um pé· ungulado e com garra: é Leucippe ou
ses, fugiu, cruzando um rio caudaloso que se abriu à sua
Mosoch, chefe da segunda tribo que integrava a primeira
passagem. Irimu vinha em sua perseguição, raivoso e blas-
imigração americana. Vemos mais um pé ungulado maior:
femante. No meio do rio, as águas se fecharam e êle mor-
é Euenor ou Magog, irmão de Mosoch, os dois chefes que
reu. O corpo, arrastado para a margem, criou raizes e se
com suas respectivas tribos acompanharam ao irmão Thu-
tornou bananeira. Em algumas tribos é conhecido também
bal, na campanha do povoamento da América. / Com o decor-
sob o nome de 1zimu.
rer da campanha povoadora, quando Cleitô, no dizer de Pla-
IROKO - Iroko é o orixá * umbandista das árvores. Quinta- tão, havia chegado à nubilidade, ficou órfã - as tribos de
-feira é o seu dia e uma gameleira branca a sua insígnia. Magog ·e de Mosoch se haviam espalhado pelo norte do país.
ITACOATIARA - · Inscrições rupestres na Amazônia. Ver Silva Posseidon amerceado da orfandade de Cleitô, veiu em so-
Ramos. corro dela, trazendo-lhe mais dez tribos de cantores, saídos
IRUWA - Personificação do Sol para tribos do centro-afri- do templo de · Jerusalém. Uma grande letra büurcada, sím-
cano. Deus maior ao qual são dirigidos pedidos de proteção. bolo de Posseidon, quase se ajunta ao pente de cinco dentes:
são os cinco partos que Posseidon deu a Çleitô. Na mesma
ITALAPAS - Vocativo · dado pelos indios californianos e da linha, temos Atlas ou Tharxis, o chefe da segunda expedição,
região do Rio Colúmbia ao Coyote * quando restringiam a mais Elisa, seu irmão. ~stes com os três da primeira linha,
atuação dêste à obra criadora do mundo, inclusive do se estenderam particularmente pelo norte do país, sobretudo
homem.
pelo México. Na terceira linha a começar pela direita, encon-
ITAPEVA - Município ao sul do Estado de São Paulo, que tramos Euaimon e Ampherés, os dois hamitas que povoaram
conta no sítio denominado ·P edras das ·Tartarugas com uma as Antilhas. Fecha a linha, mais à direita, o semita Auctoc-
série de ·inscrições rupestres, apreciadas ·pelos entusiastas da thon, que com o semita Mneseus povoou o Panamá. / A
Atlântida, no mesmo plano das inscrições de Itaquatiá *, Ar- quarta linha abre-se, à esquerda, com Elasippos e Mestor, os
ruoca *, Lapa Vermelha* e outras. Nas Pedras das Tartaru- dois chefes semitas · cujas tribos povoaram o Peru ou o "do-
Biblioteca Digital Curt Nimuendajú - Coleção Nicolai
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138 IZI
ITE 139
mtnio dos sacerdotes", que isto significa a palavra Peru. Os fica "faca de pedra" e sua intervenção era invocada para
dois últimos, Xaba e Dedan, são os dois hamitas que povoa- que o golpe do sacrificador fôsse certeiro.
ram o Brasil ou BE-RA-ZIL, que significa: "Domínio dos IUt - Tuxaua das rãs, no mito de Tatá-Manha •. Embria-
cantores tostados'' ou prêtos. / A direita, nota-se uma gran- gou o jacaré que engolira o fogo de Tupã permitindo aos
de forquilha tricúspide, a indicar a invasão dos cantores ne- homens matar a fera e retirar o fogo de suas entranhas.
gros, ou do culto satânico, o culto da Serpente, a qual lan-
çou no "Vergel de todos os cantores", oito como ovos, espa- IUOROCõ - Com pequenas variantes, é o Curupira • para os
lhados especialmente pela costa oriental do continente, mor- índios Pariquis, da zona do Rio Itatapu, segundo a observação
mente no Berazil. Foram oito centros principais do culto de Barbosa Rodrigues.
negro! / A inscrição do Itaquatiá é a mais perfeita que IWIN - Entre os nagôs, fada ou espírito, gênio que costu-
possuimos da nossa pré-história: é perfeita correspondência ma intrometer-se na vida dos homens, fazendo bem ou mal,
à descrição de Platão sôbre a Atlântida. Não só nos dâ conforme se agrade ou aborreça da a criatura escolhida.
os treze povoadores da América, mas também no-los coloca
nos sitios por êle povoados ..• " (págs. 12, 13, 14 do livro IXIMAJ - Na América Central, o ciclo de feitiçaria executado
A América Pré-Histórica e Hércules),. Ver també.m : Arruo- ao redor e com o uso de milho especialmente produzido
ca, Lapa Vermelha, Itapeva, sôbre o mesmo assunto. Re- para tais finalidades. (Manuscrito de Chichicastenango -
gistre-se que os adversários da tese suméria atribuem tais Villacorta e Rodas).
inscrições aos indios ou consideram-na alinhamento aciden- IXK.ANTLEOC - Deusa menor, no panteão maia-asteca. Avó
tal de sinais diversos, como por exemplo ferros de marcar dos deuses, era cultuada especialmente pelas tecelãs que
gado dos fazendeiros vizinhos. reputavam-na criadora dos tecidos.
!TENHA - A estrêla Sírius, no firmamento mitico dos indios IXTLILTON - Deus menor asteca, de rosto negro, invocado
macuxis, habitantes amazónicos da região entre os rios Bran- na cura das moléstias das crianças. Lê-se no Códex Flo-
co e Maú. Foi narrada a Barbosa Rodrigues (Poranduba r ence, t. I que "havia no seu templo recipientes de cerâ-
Amazonense) na lingua indígena. Um homem foi mudado mica, fechados, contendo aquilo a que se chamava a sua
em estrêla por castigo à sua indiferença ou participação água negra ( itlilauh). Quando adoecia uma criança, le-
em um fratricldio. Outro irmão, o assassino Caiuanon •, deu vavam-na ao templo de Ixtlilton, abriam uma das talhas,
origem à estrêla Vênus. A vítima, um terceiro irmão, Epé- faziam-na beber água negra e a criança curava-se". Mas
pim •, foi transformado na constelação de õrion. antes de levá-la ao templo a curandeira chamada pela fa-
ITOKI - "Mãe escorpião" divindade de tribos nicaraguenses. milia, segurava a criança acima de um recipiente com água
Ligada ao nascimento das criaturas humanas reside no final comum e olhando para o liquido, invocava a deusa da água,
da estrada dos tempos e dela provém a alma e o coração orando: "Escuta, vem tu minha mãe, pedra de jade, tu
dos nascituros e para ela retornam os espiritos dos mortos. que tens uma saia de jade, tu que tens um corpete de jade,
saia verde, corpete verde, mulher branca". Pelo reflexo
ITUBORE - Entre os bororos, herói do tipo transformador. vislumbrado na água ela diagnosticaria a origem do mal.
Juntamente com seu irmão Bakororo figura em tôdas as ges-
tas daquela nação indígena. Governa uma das duas aldeias IZCA1,1.y - "Tempo . de crescer" era o sentido do nome do
miticas onde são recolhidos os espiritos dos mortos. décimo nono e último dos meses do ano solar-religioso dos
astecas - o Xiuitl *. Mês dedicado ao deus lume ao qual
ITZAMNA - "O Senhor do céus", entre os maias, filho de eram apresentadas as crianças nascidas durante o ano depois
H una b o criador de tôdas as coisas. Revelou aos homens o de terem as orelhas devidamente furadas. Em cada quatro
calendá rio, a escrita, os códices. Festejado principalmente anos sacrificava-se, neste mês, algumas vitimas ao deus que
no dia do ano nôvo. Sem estas homenagens, o ano seria de mantinha aquecido e claro o lar e cozido o alimento.
desastres públicos. Seu culto estêve associado e muitas vê-
zes confundido com o de Kinch Ahau *, o deus do Sol. IZIMU - O mesmo que Ipimu *.
ITZAPAPALOTL - "Borboleta-faca de obsidiana" uma das di-
vindades agrícolas dos astecas.
ITZLI - Um dos deuses sangrentos invocados pelos sa.cerao-
tes astecas quando dos sacrifícios humanos. O nome signi- ' .
141 JUA

alguna parte de (1>Uestro cuerpo en la oscuridade de la 11'1X)Che,


es Lobisón que 08 Ilama y os augura que vuestro fin Zerngua un
xima. / Para conjurarlo, pon debajo de vuestre lengua iun
poco de tierra donde há posado 1JUestras plantas y Zlamadlo

J - Lovisc)n! por tres veces seguidas. Câmara Cascudo consi-


dera o Jhuisô um mito de convergência, importado.
JIMAGUAS - Isto é "os gêmeos", idolos dotados de grandes
podêres nos cultos afro-cubanos. Sua representação tradicio-
JACA1v1IM - (Psophidae) para os índios do Rio Branco é nal é a de dois bonecos de madeira, figuras masculinas pin-
pai de muitas estrêlas. Seus filhos mais notórios, nascidos tadas de prêto e vestidos de pano vermelho. Nas formas
de ovos, foram Pinon e Seuci que logo se transformaram em mais rudimentares um cordel atado ao redor das figuras
constelações. Segundo o registro de Câmara Cascudo citan- reforça a idéia de gêmeos. Seus similes nos cultos afro-
do Barbosa Rodrigues, Pinon é Cobra-Grande, Ofiúco e Seuci, -brasileiros seriam os ibeji * baianos. ·
as Plêiades, Sete-Estrêlo. JIRIKY - Dança medicinal de grande eficácia, um dos le-
JACI - Na teogonia indígena, Ia-ci, a Lua, a mãe dos fru- gados que o herói civilizador Nhanderykey * transmitiu aos
tos; o mês lunar e também um ornato. Irmã e espôsa do apapocuvas ao utilizá-la para alcançar a morada celestial de
Sol. Merecia homenagens diferentes conforme a fase: Iaci seu pai Nyanderuvusu. O canto mágico que acompanha esta
omunhã, a lua nova; Iaci icaua, lua cheia. Segundo Couto de dança de comunicação entre terra e céu é o poraí.
Ma~alhães (O Selvagem) o cortejo lunar era formado pelo JOÃO GALAFUZ - Duende que assombra os descaminhos
Sac1-Cererê, o Mboi-Tatá, o Urutau e o Curupira. de Pernambuco, ~lagoas e Sergipe. Aparece à noite, emer-
JACU - Dois homens-jacu, casados com uma mulher-periqui- gindo das ondas ou rompendo de cabeços de pedra. Apresenta-
to e com uma mulher-mutum foram os primeiros povoadores -se como um facho luminoso de várias côres. Vê-lo, é adqui-
da Terra, segundo a mitologia tapirapé. rir a certeza de que logo mais haverá nas vizinhanças des-
JAMARU - Nome amazónico para uma cucurbitácea muito graças, naufrágios, no minimo uma violenta tempestade. Em
apreciada pelo aproveitamento utilitário do seu fruto. No Alto Itamaraca é identificado pelos pescadores locais como a alma
Tocantins, entre os apinajés de familia Jê, diz a mítica em pena de um caboclo morto sem batismo. Na costa de Sergi-
das origens que Mebapame - o Sol - sacudiu uma quantidade pe, a variante é chamada de Jean Dela.fosse, Ungua de fogo mui-
de jamarus sôbre o Rio Tocantins, nascendo aí o primeiro to comprida que, fustigava qual chicote os passantes fazendo-os
casal apinajé. desfalecer ou enlouquecer de pavor. Em Alagoas o aspecto
tipico é de João Galafoice, negro velho, talvez feiticeiro, cur-
JEJ~S - Negros do Daomé, escravizados em grande número vado ao pêso de enorme saco onde, decerto, carrega as crian-
e vendidos no Brasil, especialmente na Bahia ónde ·foram ças roubadas ao longo do ·caminho.
absorvidos pelos nagôs. Poucos rastros ficaram dos jejês,
além de vestígios de culto ofídico, a atuação simpática da .JO.KURUGWA - Herói da mitologia bororo. Salvou parte do
tartaruga (logozé) no populário brasileiro e a presença de povo no grande dilúvio e foi o seu principal legislador.
Legba, Elegbá ou Elegbará, o orixá das encruzilhadas nas JONES, Geo - Advogado e estudioso americano que, retomando
macumbas e candomblés. '
trabalhos antigos de Horn *, Huet *, Gebelin *, Gaffarell *,
JHUISô - Um dos nomes guaranis para o lobisomem, se- promoveu a revivescência da tese que situa, entre os f enicios,
~do o folclorista paraguaio Narciso R. Colman (Nuestroo os ancestrais do índio americano.
A n~epasados). Afirma êsse autor que Jhuisô, Juicho, Jhuis6n,
JOSKEHA - Deus de certas tribos canadenses. A êle de-
Luis6n o ~obis6'!!'. Séptimo hijo del espíritu maléfico Tau y
de Karana. Senor de ·la inoche y companero inseparable de
viam o retôrno . ao mundo das águas de rios e lagos ingeridas
por gigantesca rã decidida a matar os homens à sêde. O deus
la muerte. · Sus domínios se e:iitendían por los cementerios,
Y se supone ·que ·se alimentaba ·exclusivamente de cadáveres.
tomara a rã debaixo da axila, pressionando-a tanto que as
Su !feal<tad_, 'su cabellera larga y sucia, su palidez mortal y
águas libertadas voltaram aos leitos naturais.
el o~or f ét~ que despendía causriba repugnancia y 'un terror JUA (Cobra Juá) - Cobra enorme e lago onde ela vivia.
pánico. / Si una mano fria, húmeda y vi8cosa, sientes palpar A cobra era auxiliar de Rudá, o deus do amor na mítica do
.]UK 142
índio do Brasil. A função da cobra era examinar as môças
que os pais ou chefes mandassem à ilha existente · no meio
do lago. As encontradas virgens, dava presentes e mandava
de ·.volta. Caso contrário, devorava-as.
JUKO - KURUGO - ADUGO - O capitulo da mitologia
bororo referente ao dominio do fogo, diz que nos primeiros
tempos o juko (macaco) era igual ao homem. " ... não tinha
pêlos, andava de canoa, comia milho e dormia em rêde ... "
K
Principalmente, sabia acender fogo, técnica que ensinou aos
indios.
JUKUTA - Entre os fons do Daomé e cultos paralelos, o mem- KA ATA KILLA - Literalmente - a lua no declínio, isto é,
bro da famfila dos Heviossos • à cargo os de dirigir os raios e o quarto minguante. Na civilização de Tiauanaco, deusa cruel
trovões. Faz-se acompanhar por chuvas torrenciais. Seu nome à qual era forçoso oferecer sacriffcios humanos para que vol-
parece significar, na linguagem antiga: "o lançador de pedras.,. tasse a iluminar a noite e confortar os homens, na forma de
lua nascente - quarto crescente.
JURITI PEPENA - Mito paraense, descrito por José Verfs-
simo: "... ave fantástica, que canta perto de vós e a não KABUL - Segunda das três pirâmides levantadas sôbre partes
vêdes, que está talvez à vossa cabeceira e a não sentis. Po- do corpo do semideus e fundador mítico da civilização dos
deis ver a planta com suas largas e lindas f ôlhas verdes, es- maias, o grão-sacerdote Zamná * apelidado "o rocio celeste".
triadas de vermelho e branco, e ouvireis o pio lúgubre da ave, Kabul foi erguida sôbre a mão direita do herói; Kinich-
sem que possais jamais descobri-la. Isto é para êles objeto -Kalompo sôbre a eabeça e Ppapp-Hol-Chac sôbre o coração.
de grande terror a ponto de não consentirem que se fale no KAGGEN - Também Cagn, o deus principal dos bosqufma-
juriti pepena com menosprêzo. Aquêle a quem êste ente nos. Entre os hotentotes, toma por vêzes o nome de Mantis. •
fabuloso acerta de escolher para vitima de seus maleficios,
acaba paralitico. Com efeito, pepena significa em tupi-guara- KAIKUZI - Filho de Gulu, grande deus em Uganda, servia
ni aquêle, o (pé) que quebra "pen", donde, por uma deriva- como enviado do pai. Quando seu irmão, Walumbe * a morte,
ção lógica e consentida, chega-se à idéia de aquêle que para- desceu a terra em disfarçada companhia à irmã Nambi *
lisa, que quebra (inutiliza) braços e pernas, que torna para- recém-casada com o mortal Kintu • e começou a matar os
litico, em suma." sobrinhos, KaLkuzi foi mandado deter e aprisionar a morte.
Mas esta refugiava-se no fundo da terra e compreendendo que
.JURUPARI - Talvez corrutela de jiirupoari, significaria, ao não lhe era dado livrar os homens da morte, Kaikuzi deixou
pé da letra - tirar da bôca. Os missionários deram-lhe o com o cunhado alguns conselhos relativos à continuidade da
significado de espirito mau, demónio. Batista Caetano traduz espécie e retornou ao céu.
jurupari por "espirito que vem à nossa rêde enquanto dormi-
mos". Para o incllo, Jurupari é filho da virgem Ceuci • con- KALASASAYA - Nome do segundo dos três campos de rui-
cebido pelo sumo da cucura-do-mato que escorreu pelo ventre nas que se estendem ao redor de Tiauanaco *. :m o que mais
da jovem distraida. O sumo era um mero agente do Sol perturba as conclusões dos arqueólogos e dos que estudam a
que encontrara em Ceuci a mulher perfeita para dar à luz mitica dos incas e outros povos do antigo Peru. Kalasasaya
o homem que haveria de corrigir os males do mundo. Princi- quer dizer "pedras erguidas". São blocos delicadamente tra-
palmente o dominio das mulheres sôbre os homens. Além balhados, polidos, observando formas geométricas, ornados de
de inverter o mando, Jurupari criou festas secretas. Basta à muitas figuras mitlcas. Mede 128,74 metros de comprimento
mulher ouvir ou mencionar os rumôres da festa e morre ine- por 118,26 de largura, acreditando-se tenha sido um único
xoràvelmente. Foi o que sucedeu à sua mãe. Criou rituais, templo. Regras astronômicas rigorosas foram observadas
instrumentos musicais e um código para as mulheres: 1) vir- na disposição dos blocos de andesita e de traquito que compõem
gindade; 2) fidelidade; 3) após o ·p arto, conservar o marido os muros. Posnansky fixou a construção dêsse templo no fim
sem trabalho e sem comida pelo espaço de uma lua; 4) a que do perlodo paleolftico.
não der filhos, se casada com um chefe, deverá afastar-se KAMBA - Heroina romântica, da mitica dos povos florestais
dêste; 5) jamais pretender conhecer os mistérios de Jurupari. centro-africanos, ligada principalmente ao ciclo das façanhas
KAM
144 145 KAY

de Ngu * a tartaruga. l!'; uma noiva cobiçada, cuja mão foi KARACARA ·Herói civilizador para os kaduveos a quem
condicionada pelo pai à vitória em inúmeras provas. A águia ensinou tôdas as técnicas que dominam e para quem criou
Kipalala e a tartaruga Ngu disputam a golpes de estúcia e especialmente o algodão a fim de que se cobrissem. (Ver
perseverança a noiva Kamba e Ngu é sempre a vencedora. Karu-Saikairê).
KAME - Um dos dois irmãos heróis e civilizadores da tribo KARU-SAKAIR.l!'; - Herói civilizador dos mundurucus. Ensinou-
bacairi, gente caraiba. O outro irmã.o chamava-se Keri. Sua -lhes tudo o que sabem fazer para garantir a vida e como
história é em quase tudo igual à de outros gêmeos heróis requinte, criou o algodão a fim de lhes cobrir a nudez. (Ver
e civilizadores. (Veja Nareatedo, Baikororo e Itubore). A mãe Karacará)
de Kame, casada com a onça, estando grávida foi morta pela
KASOGONAGA - Deusa da chuva entre os matacos. Ela re-
sogra, enquanto o marido-onça estava na caça. De volta à casa,
partia suas atribUições com o deus Pejlai *.
êle abre o ventre da morta, retirando os gêmeos que se desen-
volvem bem, esperando momento para vingar a mãe. Fazem- KATENGE - Na mitica dos ba.kubas do Congo Meridional,
-no, queimando a avó em uma fogueira. Karl von den Steinen o ciclo da conquista do fogo (ver Bumba e Kerikeri) r egistra a
foi o fixador desta versão bacairi de uma lenda conhecida atuação desta formosa e astuta princesa. Vendo inúteis os es-
em muitas tribos com variante de nomes e pequenas situações. forços do povo e de seu pai, o Rei Mushu-Mushunga, para obter
KA.M1!: - Herói mitico dos caingangues, com atuação ao lado o segrêdo do fogo avaramente guardado por Kerikeri, fêz-se
o mais atraente possível e pela via do coquetismo despertou em
de Cadjurucrê * e no ciclo das origens daquela nação. No
Kerikeri a paixão mais violenta. Fingiu disposição de dor-
ciclo das lendas pós-dilúvio, aparece um Kamé dirigindo um mir com êle, mandou f ôssem extintos todos os borralhos da
grupo de almas de caingangues recolhidas ao centro da Terra
aldeia e à noite entrou na choça do fremente apaixonado.
depois de afogadas pelas grandes águas. A custo abre uma
Mas recusou-se a falar ou a deixar-se tocar, no escuro. Keri-
vereda pelo meio da terra e sai com seu povo em uma gruta
das "montanhas Negras" do sertão de Guarapuava (Paraná). keri, em desespêro, percorreu a aldeia, solicitando fogo para
Outro grupo de almas, foi guiado pelo grande herói Kaneru. acender lume. Ninguém deu, pois todos os fogos estavam
extintos. Não houve solução que a de acender o próprio fogão,
(Ver Krinjijimbe)
atritando madeiras ante o olhar curioso de Katenge. Quando
KANAIMA - Gente-jaguar, fantasma aterrador, sanguinário, as cha~as se altearam, ela riu-se dêle, anunciou o seu desprê-
no interior das Guianas. O jaguar é tomado pelo espirito zo pelo galã e foi reunir a aldeia revelando a todos o valioso
de homens que durante a vida se dedicaram à prática do ca- segrêdo. Até hoje os bakubas festejam o aconteeimento, lem-
nibalismo. Assombra os lugares retirados, onde há gente brando a frase com que ela se apresentou ao pai : "O que
dormindo ou embosca-se para apanhar os desprevenidos. não pode a fôrça do homem, consegue a astúcia da mulher."
KANERU - Herói mitológico dos caingangues. Depois do Em tõdas as festas e reuniões do conselho bakuba, toma lu-
dilúvio, quando as almas dos indios estavam recolhidas ao gar entre os chefes uma personagem que durante a solenida-
centro da Terra, guiando um grupo decidido, abriu uma ve- de atende pelo nome de Katenge.
reda para a superficie tornando-se o lider de uma parte de KA YUMK:i!'; - Mito explicativo de como os indios aprenderam
seu povo. (Ver Krinjijimbe) a cantar e a dançar. "Certa ocasião os homens de Kayumké
KAPAC - Principe que se supõe tenha vivido entre os anos encontraram em uma clareira do mato, pequenas varas com
5 000 e 4 000 a . C., e cujo túmulo foi descoberto nas proximi- fôlhas, encostadas sõbre um grande tronco; na terra, junto do
dades de Lima, Peru, em agôsto de 1953, pelo Doutor Bird, do tronco, muito limpo, havia como que pegadas de criança. No
Museu de História Natural de Lima. O entusiasmo dos mi- dia .seguinte, quando todos estavam perto do tronco a escutar,
tólogos americanos em tõrno do achado reside em que - no viram um porongo na ponta de uma varinha, que se movia
dizer de Marcel Homet - "êsse túmulo é um sarcófago egip- e produzia sons; as varas com fôlhas começaram então a
cio da mais velha antiguidade". Querem os defensores da mover-se compassadamente, e ao mesmo tempo ouvia-se um
tese do povoamento americano por levas egípcias ou norte- canto cujas palavras os indios decoraram sem contudo en-
-africanas, que o túmulo de Kapac tenha ligação direta com tendê-las. Foi assim que aprenderam a cantar e a dançar,
o chamado "Vale Egipcio", no sul do Amazonas, onde teriam sem conhecer os dançadores. Daí a vários dias aprenderam
sido encontrados sarcófagos de pedra de origem claramente outro canto e examinaram o chocalho, fazendo outro igual
africana. àquele. Só depois de algumas luas o herói Kayumlké desco-
KAY 146 147 KHA

briu que o seu mestre era. o tamanduá-mirim. Estava. para Kereninca, ela só encontrava nisto melhores razões para envai-
matá-lo quando o animal se pôs de pé começando a cantar e a decer-se de sua beleza e para cultivá-la. Quando não havia
dançar as modas que êles 1ndios haviam aprendido." suficiente vento ela mesma invocava, uma a uma, as almas
dos admiradores mortos, clamando "Hutam, Hutam, Isttita!"
KAYURANKUBA - Na mítica dos zulus, o espirito da tem-
("Vem, vem, escuta-me!"}. Nesses momentos a doçura me-
pestade e mais propriamente a.quêle que no concêrto da tem-
lodiosa de sua voz tornava-se a arma especialmente aguda
pestade tem o poder de disparar os relàmpagos sob a forma
de sua coqueteria. Afinal, tantos foram os clamores na terra e
de um grande e mortifero pássaro de fogo cujo rufiar de asas no céu contra sua criminosa indüerença que Illapa "' castigou-a,
provoca o trovão. transformando-a em cotovia. Segundo Villafraf1e Casal, os an-
KAZIMU - Segundo os bantus, o mundo subterrâneo, onde se tigos amantes - os rapsodos itinerantes dos incas, tinham
recolhem os espiritos dos mortos. li: a "morada dos mortos" na lenda de Kereninca a peça de mais agrado das reuniões
ou "abóbada dos fantasmas". Vez por outra, razões diversas populares, nas quais era sempre repetida.
põem em movimento a massa de espiritos ali reunida. O tro- KEREPIYUA - Também Kerpiyua e Kerpimanha *, a Mãe,
pel então produzido é causa dos terremotos que assombram a origem do sonho, para os tupis. As tribos amazônicas ba-
e matam os homens, destruindo pedaços do mundo. niva, ma.nau, tariana, baré e outras dizem que a mensageira
KEDZAM-KEDZAM - Refere Blaise Cendrars em sua Aflto- dos sonhos - recados de deus - não é a velha representada
logie N~gre que o próprio grande deus Nzamé •, o Criador, es- por Kerepiyua, mas sim uma linda jovem por nome Anabanéri •.
tabeleceu os castigos que aplicaria aos homens rebeldes à KERI - Herói mitico dos indios bacairis revelou à tribo o
sua lei. :S:stes, depois que morrem transformam-se em Bekun, segrêdo da mandioca. Soube que o veado havia em certa
espiritos noturnos, que fazem todo mal possivel aos viventes. oportunidade salvo a vida do peixe bagadu, recebendo como
Para afastá-los e aplacá-los um dos processos usados pelos recompensa mudas de mandioca que o peixe cultivava ciumen-
homens é o da dança. fúnebre Keàzan,.kedzam. tamente no fundo do rio. O veado também fêz roças ocultas,
KEFKE - Versão corrente entre os 1ndios peruanos, do mito de que cuidava e comia sõzinho. Keri afugentou o veado e
brasileiro Cumacanga * ou Curacanga e do Catecate • bolivia- mostrou ao homem o grande alimento.
no. Kefke é a cabeça de uma bruxa, que, depois do banho KERPIMANHA - Ou Kerepiyua, Kerpiyua, a mãe, a origem
ritual tomado por esta nas águas verdes do sortilégio, separa- do sonho. Quando o indio dorme, sua alma sai pelo mundo.
-se do corpo, transforma-se em ave e desfere vôos noturnos Se o corpo ficasse abandonado, esfriaria, não acordaria mais.
enchendo as trevas com seus gritos lastimosos. Ninguém ousa O lugar da alma, durante o sono, é ocupado por uma velha
procurá-la com os olhos. Basta ouvir seus ke/, ke/, ke/, kef bondosa enviada do céu por Tupã. Entre os banivas, não é
para viver uma noite de horror, pois fica-se sabendo que em velha mas jovem bonita, por nome Anabanéri e prefere descer
montanha próxima realiza-se uma reunião de kefkes, isto é, de pelos raios das estrêlas.
.cabeças de bruxas. Contudo, há sempre algo que se pode ten- KERIKERI - Na mitica dos bakubas, do Vale Meridional do
tar: ao ouvir o grito do monstrengo voador, o homem crava Congo, mortal que por graça especial do deus Bumba • rece-
a sua faca no solo. Se êsse ato coincidir com a passagem do bera o segrêdo de produzir fogo mediante o atrito de madei-
kefke exatamente sôbre a faca, a ave-cabeça tomba aos pés ras. Os bakubas dispunham apenas de fogo quando o raio
do afortunado, clamando por misericórdia e propondo-se a com- incendiava choça ou trecho de floresta. Kerilkeri guardou o
prá-la com riquezas desmedidas. segrêdo e sempre que faltavam brasas nas choças cobrava alto
KERENINCA - Das raras lendas românticas sobradas à mi- preço por algumas. O Rei Mushu-Mushunga tentou inutil-
tica dos incas. Mesmo sendo uma lenda de amor, sobeja o mente obter o segrêdo do fogo. Foi quando entrou em ação
sangue dramàticamente derramado. Kereninca era jovem for- sua filha, a formosíssima Katenge *, a Dalila dos bakubas que
mosa como nenhuma outra. Sabia disso e valorizava extrema- iludindo Kerikeri alcançou para o seu povo a am biclonada ciência.
mente seus encantos. Provocava a paixão dos moços mas a KHAIKHA - Entre a crença mitica nos ancestrais e no
nenhum dispensava maior atenção. Invariàvelmente, os apai- problema psicológico da transferência de signos do inconscien-
xonados, sem esperança, suici9avam-se. O sangue de tantos te para a consciência, ficava, para os incas do povo, a Khaikha.
homens veio a formar o Yahuar Kkocha •, precisamente signi- O estudioso Oblitas Pobleta, definiu-a: " ... fuerza maléfica e
ficando "lago de sangue". Mesmo quando ·o vento passante re- indeterminada que se da cerca de Ias tumbas y que arrecia
colhia os lamentos dos suicidas e os levava até os ouvidos de sua influencia durante el atardecer".
KHO 148 149 KRE

KHOLUMOLUMO - Monstro canibal, informe, misterioso, que casal construiu casa, plantou árvore e teve três filhos, dos
em época remota devorou todos os bantos, todo o gado, os cães quais derivam as nações de Uganda.
e as aves. Senhor do mundo mas enfraquecido por falta de KIPALALA - Em tôdas as façanhas do ciclo africano de Ngu,
quem devorar, foi vencido e morto por Moshanyana * jovem a tartaruga astuciosa, êmulo local ·de Pedro Malasartes, Kipa-
herói filho da única sobrevivente. lala é . a águia, simbolo da rapidez, da violência, da falta de
KHUNU . - Deus poderoso na remota mitologia dos aimarás escrúpulos. Sempre derrotada pela inteligência e pelos ardis
do planalto andino. Ligado ao culto do jaguar e muitas vêzes da tartaruga. A disputa mais acirrada é em tôrno de uma
confundido com o felino daquela região, Khunu teria sido tam- formosa que há de ser a noiva do vencedor. Kipalala foi en-
bém o gerador do Lago Titicaca *, ao haver estendido sôbre ganada pelo mesmo processo com que na lenda brasileira o
as montanhas e o planalto um espêsso manto de neve. jabuti engana o veado em uma disputa de velocidade: distri-
bumdo .parentes ao longo do circuito. A águia confiou em
KIBO - Na mítica do centro africano, espécie de paraíso - sua velocidade, mas Ngu, situando-se na ponta da fila de pa-
"lar celestial" - habitado por anões dotados de cabeças enor- rentes, conseguiu o sal com que comprou a noiva ao pai e
mes, os Wakonyingo. l!lsse sitio ideal era atingido por escadas, divindade.
·visiveis sõmente para os que as merecessem encontrar. (Ver
KITSKIMANITU - O grande espírito, o ser supremo para
Gulu *)
os algonquinos setentrionais. Pai da vida, criou tudo o que
KINCH AHAU O deus do Sol, para os maias, teve seu existe sem haver sido criado.
culto confundido com o de Itzamna - o Senhor do céu.
KLOKETEN - Crença, culto, cerimónia de iniciação e seu
KINGSBOROUGH, Lorde - Ardoroso defensor da tese de que respectivo segrêdo parte integrante da religião dos indios onas,
a América do Sul foi povoada por tribos israelitas fugidas ao da Terra do Fogo. , Em seu Los Primitivos habitantes del ter-
domínio dos assírios, no ano 721 a. C. (ver Montanus) Kings- .
ritorio argentino, Antônio
.
Serrano, ainuf, Câmara Cascudo' re-
borough patrocinou a publicação de numerosa bibliografia a gistra: "El Kloketen ha pasado a ser un secreto de los hom-
respeito, partindo dos trabalhos anteriores de Montanus, Las bres y cuya revelación a mujeres y nifios se paga con la muer-
Casas, Padre Duran e Manassés Ben Israel *. te. Quieren, como me lo han asegurado muchas veces -
dice Gusende - que el último ona sobreviviente lo lleve con-
KINICH-KALOMPO - Pirâmide que se diz ter sido levantada sigo a la tumba." Tem muito que ver com o segrêdo também
pelos primeiros maias sôbre a cabeça do seu grande sábio, terrivel do culto de Jurupari * dos indígenas brasileiros e do
chefe, legislador Zamná *. Tão grande foi êle em vida que, culto de -Manabozho * dos indios algonquinos.
ao morrer, teve o corpo dividido em três partes e sôbre cada
· ~ma delas foi levantada uma pirâmide em testemunho da gra- KODOYANPE - Na mitologia geral dos indios californianos,
tidão do povo. {La Arnérica Pre-histórica - govêrno da Gua- o deus criador. Permitiu-se dividir a glória de descobrir o
temala e "Paraguay Histórico", n.0 2, 1959). As outras d}-las . mundo, com o Coyote * no que houve-se muito mal, pois re-
pirâmides chamaram-se Kabul, construída sôbre a mão di- sultou que .aquêle espírito, afeito às maquinações, astúcias, per-
reita .e Ppapp-Hol-Chac, sôbre o coração. versidades, tornou impossivel a convivência. Convencido de
tal impossibilidade, Kodoyanpe abandonou para sempre a re-
KINICKAKMO ·_ Deus menor, ligado ao . ciclo solar, no pan- gião de Maidu.
teão maia-asteca. Tinha algo a ver com os ardores do sol.
KRENTON JISSA KIJU - "0 chefe grande", o espírito su-
KINTU - Herói de conformação grega, muito presente nos perior, para os índios botocudos que em abril de 1837, foram
mitos de Uganda. Era tão formoso e destro que a jovem descritos· pelo engenheiro Pedro Vítor Reinault em relatório
Nambi * irmã do primeiro homem e do ser divinizado Gulu * para o · presidente do Estado de Minas Gerais. Dizia sôbre
·guardião do paraíso, apaixonou-se por êle, · decidiu-se a levá-lo aquêles indígenas, habitantes, então, da área entre os rios
para o domicílio dos deuses e desposá-lo. Gulu, antes de admi- Mucuri e Todos os Santos: "As idéias religiosas são poucas
tir o mortal em seu reino e em sua. famHia, submeteu-o a uma ou nenhumas; apenas êles supõem a existência de um Ente
série de provas de coragem, . de inteligência, de f ôrça e perse- Superior, que chamam em sua língua Krenton Jissa Kiju
verança. Kintu saiu-se sempre bem, movido pela fôrça do {chefe grande), mas não lhe rendem culto algum, pelo con-
amor. Obteve permissão para casar-se com Nambi mas sob trário, quando troveja, supondo pelo caráter adiante relatado
a condição de voltar à Terra, sujeito às condições mortais. O que se não pode aplacar a ira senão pelo mêdo, lançam fle-
KRI
150
chas ao ar com muitos gritos dizendo que o Krenton Jissa
Kiju Jak (que o chefe grande está bravo), e que precisam
amansá-lo ou atemolizá-lo."
KRINJIJIMBE - Jt a Serra do Mar, para os caingangues. Se.
gundo a sua mítica, quando do dilúvio, os homens do planalto
nadaram em direção a Krinjijimbe, porém não a alcançaram,
morrendo afogados. Suas almas baixaram ao centro da terra,
L
onde, após haverem as águas voltado a seus leitos naturais,
abriram a custo duas veredas por onde retonaram à superftcie.
Os heróis Kaneru e Kamé, cada qual seguido por muitos ho- LLIK'ICHIRIS - Desde tempos imemoriais, espec1e de bruxos,
mens e mulneres, sairam de dois buracos ou grutas furados para os camponeses bolivianos. Na região de Yamparáez, diz-
nos Kr.inxy - as Montanhas Negras das proximidades de -se que os bruxos são ordenados ou formados em escolas, par-
Guarapuava (Paraná). tem pelo mundo em grupos de cinco ou · dez, pos tam-se ém
KRINXY - "Montanhas Negras'"', na região de Guarapuava, pontos dominantes, erguendo instalações para dissecar os ca-
Paraná. Na mitologia caingangue, por duas grutas ali exis- dáveres de suas vitimas. Recolhem a gordura e com ela pre-
tentes voltaram à superfície da terra as almas dos caingan- param poções que tanto podem curar como produzir certas
gues afogados no grande dilúvio quando tentavam alcançar enfermidades.
a Serra do Mar. (Ver Krinjijimbe). LOBISOMEM - A tradição remonta à Grécia. Na Africa, sem-
KONOKOKUYUHA - Na região do Rio Orinoco, duende si- pre houve tribos que através de iniciações rituais garantem
mile ao Curupira *. manter associações com lôbos e tigres. Há também muita
dupla personalidade. Na Serra Leoa, na Guiné, no Congo,
KUAYESIIIN - Bruxo inimigo dos indios onas, aos quais pro- são comuns as confissões de homens sôbre o seu duplo gênero
curava surpreender e dominar, assumindo a forma de um ca- humano e animal. Não havia nada parecido com o lobiso-
rancho (Phalcoboenus albogularis). Sob a forma de falcão,
mem no Brasil pré-cabralino. Na América, alguns traços va-
asas abertas, chamava as ventanias para fustigar as aldeias gos. Robert Southey relata que os úidios mbaias, do Para-
e as pessoas. guai, acreditavam que certas velhas podiam transformar-se
KUBLAI-KHAN - O famoso imperador dos tártaros-mongóis, em jaguares, depois de mortas. Os abipones, segundo o mes-
considerado o ancestral dos povos mais cultos da América mo autor, podiam conseguir o mesmo, com a vantagem da in-
nos estudos de João Raking ( 1829) e, antes dêle, Jean Laet e visibilidade. No México, Orozco y Berra registrou o fenô-
Hornius. Admitem que pelo ano 1380, Kublai-Khan armara meno mais próximo - o nagualismo: " ... un índio viejo, desa-
poderosa esquadra para a conquista do Japão a qual, no entan- linado, f eo, de ojos redondos y colorados, que sabe transfor-
to, batida por violentos e insistentes ventos, viera dar à costa marse em perro lanudo y sucio, para correr los campos, ha-
sul-americana, resultando dessa aventura a fundação dos pri- ciendo danos y maleficios". O próprio autor do registro sus-
meiros impérios que redundaram na cultura inca. peita tratar-se de ardil de lndigenas fiéis aos velhos deuses
KULU - No centro africano, espécie de paraiso, pôsto no alto, astecas . desejosos de cultuá-los às escondidas do clero ·cató-
fora da vista e do entendimento dos homens. Há ali eterna lico. Tudo o mais sôbre lobisomem, na América, é tradição
européia, direta e recente.
abundância de alimentos.
KURUTO - Herói da mitologia caingangue, ligado ao ciclo LOGUNEDlb - Orixá simbolizado por seixos de rio, filho de
do dilúvio e do repovoamento, obra que realiza casando-se com Inlê e de Oxum, sincretizado com Santo Expedito. Durante
môça raptada à "outra gente". Também chamado Aré •. seis meses é homem, caçador, comedor de carne e durante ou-
tros seis meses é mulher, vive nas águas e alimenta-se de
peixes. Quinta-feira é o seu dia, verde-amarelada é a côr de
suas contas. "Logum!" - é a saudação ritual. Presença maior
na Bahia.
LOIS -. No Haiti principalmente, mas também em outras áreas
de cultos afro-americanos, o Lois é entidade que se sincretlzou
LOK 152 153 LIV

e em muitos casos, tomou o lugar de orixás menores e outros -lhe uma galinha, e os homens que desejam conservada ou
e~piritos voduicos. Algumas vêzes tem poder de jurisdição e aumentada sua virilidade, oferecem-lhe, de preferência nas en-
de julgamento sôbre aquêles. cruzilhadas, um carneiro. Já na Africa, o carneiro era o
animal predileto do orixá que desempenhava idênticas fun-
LOKO - Vodu haitiano de origem fon e que corresponderia ao ções. Afora êsses encargos simpáticos à população de côr,
Iroko * dos iorubas. Presente, com êsse nome, nas crenças Legba encarna o espirito do rnal e passou a ser identificado
afro-baianas. No Haiti, incorpora-se sob a forma de árvore. com o diabo. Também nos cultos afro-brasileiros, especial-
LUA-MÃE - Os kaffirs, da A.frica do Sul, acreditam que a mente na Bahia, o Legba daomeano foi incorporado ao siste-
Lua é astro masculino e provoca, por sua fôrça celeste, a ma religioso sob a invocação de Leba, ou Senhor Leba.
menstruação e a gravidez. Assim, quando a mulher kaffir dá LEZA - Invocação secundária para Mulungu *, o deus prin-
à luz um filho homem, antes que o pai o veja, ela apresenta cipal da Niassalândia.
o menino· à Lua, dizendo: "Vê, teu filho cresceu em mim".
LlHUEL CALEL - Monte patagônico apontado pelos mitólo-
LUTINS - No ciclo das homenagens aos mortos dos negros gos como sitio onde teria existido a fantástica Cidade dos
haitianos fiéis às tradições do Daomé, Zutins são os espiritos Césares*.
das crianças que morreram sem batismo e que cavalgam po-
LINHAS - Em Um banda *, as Linhas são reuniões de orixás *
tros selvagens. com as mesmas afinidades astrais porém desenvolvendo mis-
LAMPALAGUA - A "boa constrictor" americana, assim cha- sões especüicas. Nas linhas da Umbanda brasileira, seus
mada pelos araucanos. Vive em túneis, emergindo quando acos- respectivos "chefes" e sincretismos, são: Santo ou Oxalá =
sada pela fome, e então engole rios inteiros e devora homens J€Sus Cristo; Linha de Iemanjá = Nossa Senhora; Linha Ori-
e rebanhos. Naturalmente, seus movimentos são causa dos ente = São João Batista; Linha Oxôce = São Sebastião;
terremotos freqüentes na região. Linha Xangô = São Jerônimo; Linha Ogum = São Jorge;
Linha Africana = São. Cipriano. As missões são: das falan-
LAPA VERMELHA - Local próximo da Lagoa Santa, Minas ges da Linha Oxalá, atenuar o mal preparado pelos quimban-
Gerais, onde os entusiastas da pré-história americana ligada à deiros; da Linha de Iemanjá, desmanchar trabalhos de feitiça-
Atlântida, à Suméria ou Judéia, encontram uma inscrição ru- ria feitos no mar e nos rios : da falange da Linha Oriente, pra-
pestre que lembra e talvez completasse as inscrições de Arruo- ticar a caridade; da Linha de Oxôce, praticar a caridade e
ca * e Itaquatiá *. Nesta da Lapa Vermelha, figurariam os estudar as propriedades das plantas medicinais; da Linha de
nomes dos treze povoadores, representados por linhas curvo- Xangô, enfrentar os feitiços dos quimbandeiros; da Linha Afri-
-verticais. Comparecem quatorze linhas e quatro figuras de cana, proceder a trabalhos de magia branca e antiquimbanda.
animais.
LI N'GWA SE N'GWE - A "mãe comum" de todos os ne-
LAS CASAS - E studioso que aceitou e contribuiu para a teo-
gros Bayas, moradores do Camerum. Segundo Constantino
ria, anteriormente exposta por Arrius Monta.nus ( 1571) •, e Tastevin, habita lugares esconsos e tem por hábito, ao ser
mais tarde por numerosos estudiosos, segundo a qual a Améri- vista, sacudir sôbre os ombros as suas avantajadas mamas.
ca fôra povoada por judeus. Segundo Montanus, êstes seriam
da familia de Noé, enquanto para Lorde Kingsborough * teria LISA - No panteão dos deuses daomeanos e nos cultos afro-
ocorrido imigração em massa das dez tribos setetrionais, em -americanos, o desdobramento do deus principal, Mawu *. Lisa,
seguida à conquista de Israel pelos assirios. porém, não é perfeitamente definida nem como ser nem como
função. Não sendo notõriamente andrógina, ora é espôsa ora
LAURICOCHA - "Punas" de Lauricocha, junto às lagoas do é filho de Mawu.
mesmo nome, nascentes do Rio Amazonas, no Peru, revelaram
em 1959, graças aos estudos de Augusto Cardich, uma civiliza- LITAOLANE - Entre os bantos e povos vizinhos, o mesmo que
ção que se teria desenvolvido para mais de 9 000 anos no dis- Moshanyana *.
trito de Huanaco. Seria uma existência muito primitiva, ba- LIVINI - Cêrro nevado que, segundo a mitologia peruana, casou-
seada na caça e no culto solar e lunar, base, portanto, de -se com formosa mulher da vizinhança e com ela teve dois
tôda a mitologia e teogonia peruanas. filhos, os montes Shape e Ccollo. Lá estão, próximos de Ta-
LEGBA - Nos cultos afro-haitianos, o vodu da geração e da rata, o ·monte-pai e os dois montes-filhos. (Ver Puihuán Chico
fecundidade. As mulheres ansiosas por ter um filho dedicam- e Mocara).
155 MAC

cupaçáo decorativa e muitos outros detalhes revelam-na habi-


tada por um povo sombrio, utilitário, cheio de terrôres em rela-
ção à vida e à morte. Presume-se fôsse adorador do Sol, ofe-
recendo sacrificios humanos pelos solsticios. A cerimõnia ocorre-
ria no observatório do Sol, ponto culminante da cidade e do

M reino e a cujos pés existiu uma construção eE;pecialmente miste-


riosa? templo, reclusão, mirador, escola? Hiram Bingham, que
mais estudou Machu-Pichu, chama-a o "Templo das Três Jane-
las", ligando-a ao mito de Viracocha, na fase do povoamento do
mundo. Pois as três aberturas poderiam ser aquelas referidas
na lenda de Pacaritambo *. Uma das aberturas olha para o vale,
MAAUIA - Alma ou assombração de um indio ou uma india
outra .Para as montanhas e a terceira para as distantes geleiras
bem velhos, versados em feitiçaria, que anda pela noite, pu- de Vilcacamp~, e por ela teriam saido os fundadores da raça
lando em uma perna só, gritando como a matlnta pereira • inca. · Somente em 1911 tomou-se conhecida. Nesse ano Hi-
(mati-taperê). ram Bingham chefiou uma expedição auspiciada pela Uni-
MABUY A - Divindade antilhana, na qual Fernando Ortiz de· versidade de Yale, com o objetivo restrito de localizar o re-
. seja encontrar a sobrevivência do mito ashanti de Mboia (ver fúgio derradeiro de Capa.e, o ítltimo chefe inca derrotado pelos
Nzamé) e do indo-americano mboi, o fogo-fátuo. Os conquis- espanhóis e misteriosamente desaparecido nas florestas, em
tadores identificaram-na com o diabo ou o espirito do mal. 1542-44. Escalando as encostas junto à torrente de Vilcomayo,
os arqueólogos descobriram a impressionante Machu-Pichu, a
MACACHERA - Ou Machacera, também grafado Macaxera, 3 800 metros de altitude.
espirito ou coisa indefinida, presente nos trilhos dos campos
e das matas. Para os indios potiguares era bom e protegia; MACUILXOCHTL - Segundo nome para Xochipilli •, o deus
para os tapuias era mau e desorientava os caminhantes. Ba- asteca da juventude, das flôres e da música. Sob tal denomi-
tista Caetano assegura que a forma primitiva da palavra se- nação punia os violadores de proibições religiosas, particular·
ria mocangy-ser - o que gosta de enfraquecer a gente, que mente as de ordem sexual. Assim, homens e mulheres que
faz a gente perder-se. Teodoro Sampaio garante que Maca- mantivessem relações amorosas durante as épocas de jejum
xera provém de mbae-caia, a coisa queimada, o que se queima, eram imediatamente acometidos de doenças venéreas, hemorrói-
isto é, fogo-fátuo. Para Câmara Cascuclo seria o mboi-tatc:i • das e moléstias da pele.
do norte brasileiro.
MACUNA1MA - Entre os caraibas das tribos macuxis, aca-
MACARA - ::m Mboiguaçu, a Cobra-grande para os indios cusses vais, arecunas, taulipangues e outras, entidade divina, benfei-
do Alto Rio Negro. Foi Macará quem, nos tempos que se per- tora. Literalmente quer dizer - "o bom que trabalha à noite",
deram na memória dos homens, trouxe para o mundo os cusses entre os macuxis. Lisandro Alvarado, em natos Etnográficos
que habitavam o mistério. ·Ê les vieram cavalgando o dorso da de Venezuela registrou: "luego que el grande y buen espirito
cobra. No ventre de Macará vieram os indios kineres, desti- Macunaima creó la tierra y las plantas, bajó de Ia altura,
nados ao serviço dos poderosos cusses. trepó a lo alto de un árbol, desprendió con su potente hacha
MACHACUAY - Divindade do panteão inca, personificando a de piedra trozos de corteza dei árbol, arrojólos al rio que de-
bajo de él corria, y convirtiólos asi en animales de toda es-
constelação de Câncer. As constelações mais conhecidas, as-
pecie. Sólo quando fueron éstos Uamados a la vida creó el
sim como os planêtas, representavam deuses. Veja Collca,
Chuquichinchay. hombre, el cual cayó en un profundo suefio, y cuando des-
pertó miró de pie una mujer a su lado. El Espirito Malo
MACHU-PICHU - Montanha que batizou ruinas metade lenda obtuvo superioridad sobre Ia tierra, y Macunaima envió gran-
metade história de uma cidade única no mundo. Presumivelmen- des aguas". Filho de Konaboáru, gêmeo de Pia, andaram pela
te, capital do também lendário reino de Tambo, contou dez floresta amazônica metidos em mil aventuras até vingarem
mil habitantes no seu apogeu, coincidente com o zênite das a mãe, morta pelas onças. Graças a essas façanhas tornou-se
culturas de Chavin e de Tiauanaco. As ruinas, que tudo in- herói etiológico e zoológico, padrão de astúcia, alegria, malda-
dica passaram despercebidas aos incas, remontariam a 4 000 de natural. Um romance de Mário Andrade tornou-o popu-
a.e. Forma trapezoidal das construções, ausência de preo- lar no Brasil.
MAE 156 157 MAE

MAE-DA-LUA - Mito goiano descrito por Mário Rizério Lei- a metade do corpo fora. / 14. Os homens caminham a pé
te : " . . . um grito horrível e penoso. . . Parece um pedido de sôbre a terra. / 15. Todo mundo já saiu e a Mãe-Milho conduz
socorro. . . Só canta· de noite e nunca .é vista de dia. Nin- de leste para oeste. / 16. A Mãe-Milho conduz o povo ao lugar
guém sabe como ela é. Uns falam que é branquinha como onde êle terá sua casa. Ai encontrará a vida. Ai há frutos,
leite; outros juram que é cinzenta como a coruja. . . "Ai! Ai! alimentos da terra e a carne dos animais. Tudo concluido."
Ai! Ai! Ai!. .. - repete a mesma voz, acentuando a pri- MÃE DO OURO - Mito ígneo corrente no Prata e no sul
meira exclamação e diminuindo as demais, até se tornar im- do Brasil até Minas Gerais, originário do ciclo do ouro e, ao
perceptivel". que parece, de nascimento missioneiro. A apresentação não
MA.E-LEBRE - Entre os iroqueses o arroz desempenha o varia: uma. bola de fogo, com trovão ou sem êle, levanta-se
mesmo e importante papel que o milho entre as demais tribos de uma grota, marca violentamente a sua passagem no céu
norte e centro-americanas. Atribuíam à lebre-mãe o desco- noturno e mergulha em cêrro ou laguna, sitio seguro onde
brimento do cereal. · A mítica do arróz tem o seguinte texto dorme um tesouro. Faz, de certo modo, o papel do zaoris •.
na vers~o de Luís A~aral (As Américas Antes dos Europeus): No Paraná ganha fixação antropomórfica: mulher sem cabe-
" ... vivia com a avó. Esta mandou-a ir-se pelo mundo viver ça, ocupada apenas em custodiar o ouro oculto sob as serras.
à própria custa. Depois de alguns dias de caminhada, viu No Rio Grande do Sul, pelo testemunho de Simões Lopes, é
um lago juncado de arroz selvagem, cuja .utilidade ignorava. a alma, o espirita, o que restou de certa gente que "num
Derrubou um pinheiro, fêz canoa, entrou no lago e colheu tempo muito antigo e por um castigo do céu, endureceu de
arroz, que semeou em outro. Prosseguindo viagem pelo mato, repente e caída ficou onde estava ... o que é hoje serra de
ia ouvindo pelas moitas: "Comem-nos às vêzes". Intrigada, pedra já foi gente". "Os ossos são pedra, a carne virou terra,
perguntou: "Com quem estão falando?" Responderam: "Com os cabelos são os matos, sangue são as pequenas vertentes; as
você". Então, quis comer também: arrancou e mastigou. veias resultaram em ferro, mas os nervos, por serem a parte
Quase morreu. Quando pôde, continuou viagem, famélica. mais delicada do corpo, tornaram-se ouro "e são os veeiros
Plantas aquáticas disseram-lhe: "Comem-nos às vêzes". Co- que se entranham por ai abaixo ... " "A Mãe do Ouro, que
lheu, comeu e perguntou: "Que gostosas! Como se chamam?" escapou ao castigo coletivo, defende contra os homens cobi-
çosos, os nervos dos castigados, a fim de que, no dia do Juízo,
Foi-lhe respondido que era arroz. A lebre apanhou bastante,
cada ressuscitado encontre íntegros os seus nervos". Em
comeu bastante e sentiu-se muito bem. Os índios seguiram
Minas Gerais e ao longo do Rio São Francisco, também é
o seu exemplo, e passaram a comer o arroz selvagem, que
chamada Zelação e pode ter seu encanto quebrado e seu se-
chamavam "milho em pé"."
grêdo revelado pelo mortal afortunado que a encontre e, rá-
MÃE-MILHO - Na mitologia dos arikaras do Alto Mlssuri, a pida quanto corajosamente, de um talho feito no próprio dedo
Criação é exposta pela forma seguinte, conforme o texto re- deixe cair algumas gôtas de sangue sôbre ela. Serão seus
colhido por Hartley Burr Alexander: "1. Antes de existir o todos os tesouros custodiados pela Mãe do Ouro. Na mftica
mundo, vivíamos todos no seio da Mãe-Terra. / 2. A Mãe-Milho da chamada "zona velha de São Paulo", ela tem muito de
fêz nascer o movimento, o movimento a vida. / 3. A Vida apro- iara, de feminino perverso. O depoimento clássico é o de Cor-
xima-se da superfície da terra. / 4. A Vida põe-se de pé: é a nélio Pires, em Conversa ao Pé do Fogo: ". . • é mâ p'ra quem
promessa de nos mantermos de pé, como homens. / 5. O ser bole có'ella... Mora nas grota, nos riu, in tuda a parte,
humano ganha a forma de uma pessoa. / 6. A essa f ôrça pes- m~s ai daquele que ela pirsigui ! O sojeito larga famia, larga
soal junta-se o espírito. / 7. Dotados então de forma e de arrugo, larga tudo, môr-de'ella!" Na Fazenda Matão, Serra de
espírito, estamos em condições de sair à superfície, porém Botucatu, um grotão-cascata está sempre sob vigilância dos
a Mãe-Milho avisa que a terra está coberta pelas águas. / 8. caboclos vizinhos que estão certos de ser ali a residência da
A Mãe-Milho diz que a inundação desapareceu e a terra está Mãe do Ouro.
verde, preparada para a vida humana. / 9. A Mãe-Milho de- MAENCHI - Capital mito-histórica do povo instalado pelo
termina que o povo suba à superfície da terra, ascenda ao civilizador Zamná • na foz do Rio Pànuco, América Central,
mundo. / 10. A Mãe-Milho reúne o povo; êle fêz a metade quando, vindo de Cuba, levou uma onda imigratória para o
da viagem à superfície. / 11. A Mãe-Milho conduz o povo Iucatã. Os homens do Pânuco mesclaram-se com a gente
perto da superfície. / 12. A Mãe-Milho conduz o povo; êle local e fundaram um govêrno com sede em Maenchi. Pelo
vem finalmente à superfície; aparece a primeira luz. / 13. ano. 676 da nossa era, mudaram o nome de Maenchi para o de
A Mãe-Milho arranca o povo do seio da terra; êle jâ está. com TOL-LAN *, nom,e do qual derivaria a civilização tolteca.
MAE 158 159 MAM

MAERÉBOE - Também chamado Bope •, sêres . sobrenaturais alicerce da civilização incásica, deixando coroado, ao morrer,
na mítica bororo. Espiritos perigosos de médicos..f eiticeiros fa- seu filho Manco Capac. Por essa ocasião os dominios daque-
lecidos. Encarnam-se em môscas, mosquitos e outros inse- les imigrantes estender-se-iam do Rio Ancasmayo ao Maule.
tos ou bichos perturbadores. Alguns dêles regem fenõmenos
MAISõ - Mito pareci. Maisõ, mãe primária, é mulher de pe-
celestes. O Sol é um recipiente .c om metal incandescente que
dra. Dela nascem os rios e os sêres humanos. :t!:stes, porém,
os maeréboe levam à cabeça, caminhando do oriente para o
ocidente. As fases da LÚa, os eclipses e os aerolitos. são pro-
nesse parto singular, nasceram de pedra. Só mais tarde ga-
nharam a condição carnal.
duzid0s pela mágica dos maeréboe. Outros tipos de maeréboe
ou espiritos malignos moram na atmosfera e formam os ven- MAtUA - Para a maioria das tribos brasileiras, ser misterio-
to.s e as chuvas. so do qual provém todo o mal. Age principalmente contra as
môças e moços que chegam à puberdade. Basta que o Maiua
MA FO DOTI - Invocação secundária do vodu daomeano Mama
ponha os olhos sôbre a criatura para que esta seja · infeliz
Fo Gran * - a Mãe Terra, na mitica dos bu8h negroes da Guia-
o resto da vida, o que explica os resguardos e as cautelas com
na Holandesa. que o indio cerca os púberes. Sendo parte da lenda de .Turu-
MAGUARE - O Curupira *, para os indigenas da Venezuela. pari *, os Maiua nasceram das cinzas de Ualri • - 0 taman-
duá que não soube guardar o segrêdo do deus legislador.
MAHCANACA BASARE - No culto indigena de Jurupari *,
era esta a segunda grande cerimõnia iniciática. Correspondia MALQUIS - Múmias, endeusadas, dos soberanos incas e de
a uma espécie de batismo ou apresentação e, como tôdas as ou- suas espôsas, figurando nos respectivos templos votivos. Sob
tras, era vedada a assistência de mulheres, além · de ser objeto o reinado de Pachacutec, o grande reformador da mitica e da
de segrêdo inviolável. As duas outras cerimónias eram Ca- religião incas, as malquis passaram a ostentar máscaras, bra-
muano Nindé * e Cariamã *. celetes, colares e cetros de ouro. Nos reinados seguintes, fo-
ram postas sentadas sôbre tronos faustosos, o rosto voltado
MAHSANKERô - ~ Jurupari *, em uainan~. Aparece com fre- para a imagem do Sol, necessàriamente presente nos templos.
qüência nas orações e invocações do Camuano Nindé *, a ter-
rivel festa de iniciação dos jovens. te o elemento central das MALSUM - Na mitica dos indios algonquinos, do Canadá, ir-
canções da segunda parte - dançada - dessas festas. Agi- mão gêmeo do espirito bom Glooskap •. Foi Malsum, "ma-
tando açoites e sacudindo maracás, os homens dançam e can- licioso como um lôbo", quem criou, do corpo de sua mãe, as
tam: "Olha, ó Sol! / Olha, ó Lua! / Olha, ó Sete Estrêlo! / montanhas, os vales, as serpentes e os bichos peçonhentos.
Vejam nossos filhos, / êles vão entrar / nos nossos costumes
MAMA - Na mitologia dos incas e povos que os precederam
/ que Mahsankeró ensina. / / Sol, aquece seus corações! / Lua,
no altiplano andino, denominação geral para os espíritos me-
esfria suas raivas ! / Sete Estrêlo, faz as suas falas doces /
nores, tutelares. O homem andino acreditava que mesmo as
E que saibam guardar / tudo que Mahsankeró ensina. / / Sol,
coisas inanimadas possuiam uma espécie de espirito, a ser es-
faz valentes seus corações! / Lua, adoça as suas falas! / Sete
timulado por meio de invocações para que houvesse abundân-
Estrêlo, ensina-os a fugir / de um dia contar tudo".
cia, florescimento ou mutação. Florestas, águas, sementes,
· MAIRUBI - · Reino continental, estabelecido, desde 1329 a. C., frutos, animais, tudo continha um espírito anirilaâor, iriic1al-
na desembocadura do Amazonas, segundo o estudioso para- mente aquietado. Mama era êsse espirita. Mama-Quilla *,
guaio Marcelino Machuca Martinez *. Selinio, historiador, te- era a Lua, mãe das coisas ou sêres da noite; Zara-Mama, li-
ria referido tal reino, por primeira vez, naquele ano, ao Rei teralmente, o milho-mãe; Mama-Lama, lhama-mãe.
Midas, dos frigios. A partir de 1100 a. C., os colonos mairu-
MAMA FO GRAN - Vodu daomeano incorporado à mitica
bis, de raça sírio-fenicia teriam investido para o interior do
dos bush negroes da Guiana Holandesa. Também conhecida
continente, em duas levas principais. A primeira, ao longo da
como Ma Fo Doti, é a Mãe Terra, por vêzes companheira de
. costa, alcançara o Prata atual, com máxima penetração inte-
Massa Grande Gado, o deus supremo.
riorana no Estado de Minas Gerais. A segunda leva, co-
.mandada pelos quatro irmãos de nome Topa, dirigindo-se para MAMA-LOLA - Orixá secundário (ver Babalá) nos cultos
S. O., subiram à meseta do .Lago de Titicaca * onde fixaram-se, afro-cubanos, recebe culto semelhante em parte àquele tribu-
seduzidos pela abundância da prata e do ouro de aluvião. Um tado a Ifá *. Segundo F. Ortiz (Hampa Afro-Cubana), cita-
dos irmãos, Ayar Manco Topa *, erguendo sua morada na Ilha do por A~ Ramos, Mama•Lola significaria: amala, a que in-
de Inca ("ilha do est.anholt) fundara o império que viria a ser terpreta os sonhos; e ola, honra, majestade.
MAM 160 161 MAN

MAMA. OCLO - Entre os incas, a mãe da raça, filha do gran- tendo êxito, descia ao anoitecer, recebido com apupos pela
de deus Viracocha *. Irmã de Manco Capac, o fundador da multidão. A partir dai não poderia mais exercer o sacerdó-
dinastia e primeira inca. Compartilhou com êste as glórias e o cio nem a medicina, "por ser fraca a sua ciência". Aquêle
encargo de serem os primeiros incas. que tivesse a sorte de estar de plantão quando as nuvens de
MAMA-QUILLA - No culto mais antigo no litoral sul-america- chuva se acumulassem, recebia um arco especial disparando
no do Pacífico, a deusa-Lua. Sua representação, comum na flechas contra as nuvens e ordenando-lhes que baixassem.
região de Tiauanaco, era a serpente. Comparece como sim- Havendo chuva, estava consagrado: era o médico da moda e
bolo esotérico, nas ruinas de Cusco. Entre os chimus, 0 santuá- o sumo sacerdote da chuva.
rio principal tinha o nome de Si-an * que significa "casa da MANDALA - Circulo mágico, freqüentemente confundido ou
Lua". utilizado como calendário lunar e no qual os mais cultos dos
MAMUIAUGUEXEBA ·- Cacique mitológico dos bororos. 1rr1.. incas e povos submetidos viam um símbolo gráfico da conci-
tado por ver que a tribo, surda a seus rogos, mantinha tei- liação do deus Viracocha com os homens e o mundo terreno.
mosas disputas internas, armou-se de arco ornado com tiras Significado e traçado esotéricos, ainda não definidos pelos
de pele de onça (a onça era seu ascendente mais remoto), estudiosos.
e põs-se a flechar os indios briguentos, matando muitos dos MANITU - "O grande espirito", a potência mais alta e mis-
dois bandos desavindos. Movidos pelo exemplo, os demais teriosa, para a generalidade dos indios norte-americanos. En.:.
fizeram paz e viveram amigàvelmente no mesmo povoado. tre os iroqueses, Orenda *; Kitskime.nitu *, para os algonquinos
setentrionais.
MANABOZHO - Personagem heróica, semidivina, na mltica
dos indios algonquinos do Canadá. Guardava muitos pontos MA-NOA - Capital do mitológico El Dorado, estaria situada
de semelhança com personagens reverenciadas em outras tri- sôbre a Serra Parimá, no extremo noroeste do Ama.zonas. Mar-
bos, com Hiawatha * e Nanabojon *. Personificava a luz do cel Homet, descreve-a no livro Os Filhos do Sol (pág. 89):
amanhecer, era considerado o pai da cultura, inventor dos hie- "Ma-Noa está situada numa ilha de um grande lago salgado.
róglifos com que a tribo alcançava exprimir-se em mensa- Seus muros e seus tetos são de ouro e se refletem dentro do
gens curtas, ensinara as técnicas de artesanato e tôdas as lago pavimentado de ouro. Em seu palácio, os serviços de
artes. Introduzira entre os homens um culto secreto, rigoroso. mesa e de cozinha eram de ouro e de prata e os objetos mais
Sob outra invocação - Michabbo • - eram-lhe atribuidas ati- insignificantes eram de cobre e de prata. No centro da ilha
vidades não culturais mas guerreiras, genésicas, venatórias. estava o templo consagrado ao Sol. Em redor do templo
Diversas tribos possuiam em sua mitica um herói civilizador havia estátuas de ouro que pareciam gigantes. Na ilha, ha-
correspondente : Ioskeha * entre os iroqueses; Ictinike *, entre via também as árvores de ouro e de prata. Uma das estátuas
os sioux; Napiw •, entre os pés-negros; Wisaha •, entre os gigantes, de um dos príncipes, era recoberta com uma poeira
sacs; Wisaketchak *, entre os crees, etc. de ouro." Na sua essência, o texto original dessa descrição
é o de Francisco Lopez, publicado logo depois do descobrimen-
MANASSl!lS BEN ISRAEL - Rabino português entusiasmado to do Brasil, na obra História . Geral dos tndios. Georges de
pela tese anteriormente exposta por Montanus • e que viria Espera reproduziu a lenda em 1536 e Ferdinand Denis, pouco
encontrar, eip nosso século, o seu mais ardoroso expositor em mais tarde, na História da Guiana. A primeira expedição
Lorde Kingsborough *. A tese de Manassés, bem como a de visando atingir os tesouros da Ma-Noa é do ano 1535, rea-
Las Casas e do Padre Duran, e mais recentemente Onffroy de liza.da por Antônio de Herrera, morto pelos indios bravios.
Thoron, era a de que "após a conquista do reino de Israel pelos Em 1539, Gonzalo Ximenes de Queeada arrancou para lá,
assirios, no ano 721 a. C., as dez tribos setentrionais que o com 300 espanhóis, 500 indios e rebanho bovino. Voltou de-
compunham desapareceram da História. / . . . tentaram de- siludido com apenas 50 homens. Em 1584 foi a vez de Antô-
monstrar que essas tribos se refugiaram na América". nio Berrio, com dois padres destinados a exorcismar os sorti-
MANDACHUVA - Fazia parte das crenças dos indios man- régios e 500 cavaleiros. Vagueou durante um ano pelo sertão,
dans supor que as chuvas se deixassem intimidar pelas amea- retornando sem nada haver encontrado e tendo perdido quase
ças dos homens. Quando escasseavam, os sacerdotes da chuva, todos os companheiros. Em março de 1695, um inglês, allni-
os mandachuvas, reuniam-se no terraço do templo, a fumar rante e aventuroso, Raleigh, tentou a sorte. Fracassou tam-
e a orar. Por sorteio, tôdas as manhãa, um dêles subia para bém. Seguiu-se-lhe, em 1760, Apolinar Dias de la Fuente.
o tôldo onde passava horas invectivando as nuvens. Não ob- Em 1764 a tentativa coube ao famoso Bobadilla com quatro-
MAN 162 163 MAR

centos homens, dos quais voltaram apenas vinte e cinco. Quase luz do sol, na penumbra dourada da floresta, que o Mapinguari
um século decorreu sem tentativas notórias. Em 1840, Sir ataca. Jl'J um terrível matador. Mata sempre. Não há noti-
Robert Hermann Schomburgk arriscou-se e nada obteve. Em cias de que alguém, atacado, lhe tenha escapado. Devora a
1908, Koch-Grünberg partiu levando planos cientlficos. E vol- vitima. Ataca emitindo gritos curtos, muito altos, paralisantes.
tou sem nada. Em 1925, ocorreu a expedição Hamilton Rice o terror imobiliza o atacado. Homens e animais vizinhos,
com os mesmos resultados. Não há relação das tentativas rea- fogem. Lembrando crenças africanas, o Mapinguari tem a
lizadas pelos lados da Venezuela. Seriam três as Ma-Noa bôca rasgada do nariz ao estômago. Os lábios são verticais
em território brasileiro segundo o mapa levantado por Marcel portanto, e estão sempre rubros de sangue das vitimas. Pre-
Homet. A primeira na Serra Parimá, fronteira com a Venezue- fere apanhar caçadores e tendo agarrado um dêles, sai ca-
la, objeto de uma expedição do mesmo viajante, em 1959-60; minhando pela floresta, o desgraçado metido debaixo do braço,
a segunda, junto ao Monte Tumúcumac, fronteira com a Guia- mastigando-o lentamente aos pedaços. Foi descrito como cria-
na, procurada pela expedição R. Maufrais, em 1950. A Ma-Noa tura humana de alto porte, mãos imensas e poderosas, enegre-
III seria aquela procurada pelo coronel inglês P. H. Fawcett, cida pelos cabelos Ionguissimos que a envolvem como se fôs-
morto na região, em 1925. Estaria localizada em algum ponto sem. manto. Jt vulnerável unicamente aos tiros justiceiros,
da confluência dos territórios de Goiás e do Pará. no umbigo.
MANTIS - Inseto africano ortóptero da famflia dos mantf- MARA - Filha de pagé cubeua que, . aprendendo com o
deos, a qual pertence o louva-a-deus comum no Brasil. Sua pai a arte dos feitiços, usa·a para fazer o mal. O velho pajé
postura habitual, semelhante a de quem ora, invocando graças decide matá-la para que não continue a empregar assim a sua
para o momento em que vai atacar a prêsa, divinizou-o aos arte e para que não empeste o mundo com sua descendência.
olhos dos hotentotes. Aos poucos, todos os bosquimanos viram Mas das artes mágicas constava o conhecimento das intenções
nêle a personificação de um deus criativo, de gênio muito va- alheias, pelo que pai e filha levam um tempo enorme a armar
riável, o que o faz benéfico por vêzes e outras vêzes destrui- e a fugir de recíprocas artimanhas e ciladas. O velho, porém,
dor de homens e de propriedades. Para muitas tribos de bos- havia ocultado um truque graças ao qual logra afogar a filha.
químanos, a Lua é a velha sandália que o deus Mantis, du- Mas não impede que nos estertôres ela empape o solo com
rante um acesso de cólera, atirou para o céu. Entre os povos sua baba, nascendo dai umas quantas ervas más - maracaim-
vizinhos aos hotentotes e com êstes aparentados, também é bara - isto é, ervas do feitiço. Em outra versão registrada
conhecido como Kággen * on ainda Cagn. por Stradeli (Vocabulário da Língua Geral), Mara conse-
gue casar-se e o marido, assombrado com as práticas malé-
MÃO PELADA - Mito do ciclo dos monstros, atuante princi- ficas da espôsa, decide livrar o mundo de tal magia.
palmente nos campos de Minas Gerais e Goiás. Vive nos matos
MARAJIGOAN A - Entidade indígena, das mais difíceis de
ralos à beira dos campos e irrompe de surprêsa ante o via- interpretar. Nos apontamentos à História Natural de Marc-
jante descuidado. Ataca, sempre que vê alguém. Assumindo grave, Jean de Laet descreveu: " ... não significa divindade, mas
a forma de urso, atrai caçadores para seu esconderijo, onde
a alma separada do corpo, ou outra coisa, anunciando o ins-
acaba por devorá-los. Seus olhos, dotados de fôrça sobrena-
tante da morte". Câmara Cascudo anota em seu Dicionário
tural. imobilizam aquêle cujo olhar cruzar-se com o seu. Tem
do Folclore Brasileiro: ''Jl'J um dupio, a visagem do próprio
a mão direita (em algumas zonas a esquerda), despida de pêlos indivíduo, que se apresenta a si mesmo, anunciando a morte".
valendo-lhe o nome. Mesmo os cachorros mais valentes, os
cães onceiros, não se atrevem a entrar em área onde se tenha MARANEY - Espécie de vestais no templo de Mbocabog •, na
ouvido o seu grunhido. No entanto, consta que caçadores de cidade mítica dos guaranis, a grande Mbaeverá-Guaçu *.
pontaria excepcional têm abatido alguns, tornando-se ricos e MARASSA - A forma afro-haitiana de invocar e desenvolver
prestigiosos graças à venda da gordura do Mão Pelada, re- o culto aos gêmeos. :mste culto, de especial importância na
médio infalivel para a cura do reumatismo. Como animal, .Africa, passou para as zonas onde o escravo negro manteve
fixado por Rodolfo von Thering, trata-se do modesto guaxi- seus deuses: Brasil, Cuba, Haiti, etc. No Haiti, sob a denomi-
nin ou jaguacinin ou Mão-Pelada de nossos campos. Como nação de Marassa, liga-se também ao culto dos mortos e dos
assombro, tem um primo hispano-americano, "El Mano Pelado". antepassados.
MAPINGUARI - Mito popular da Amazônia, cobrindo os Es- MARBô - Um dos vocativos de Iemanjá. O mesmo que Prin-
tados do Pará, Acre e Amazonas. Difere do comum das en- cesa do Aiocá, Princesa do Arocá, Princesa do Mar, Sereia do
tidades monstruosas por dormir à noite. ]!) durante o dia, à Mar, Sereia, Oxôlún, Rainha do Mar, Sereia Mucunã, Inaê.
MAR 164 165 MAT
MARCAUASI - Planalto de três quilómetros quadrados, de- estender-se-ia pela embocadura do Rio Marafion (Amazonas),
sértico, a 3 800 metros de altitude, a .oeste da Cordilheira dos de cujos ilimites, a partir de 1100 a. C., partiram levas de
Andes, explorado em 1952 pelo estudioso peruano Daniel Ruzo. emigrantes para a conquista do interior da América do Sul.
Descobriram-se ali animais e rostos humanos esculpidos na
rocha e sõmente visiveis no solsticio de verão graças aos MARUGODO - Larva de aspecto sobremodo desagradável ao
efeitos da luz e das sombras em horas determinadas. Ruzo olhar. Para os bororos orientais, a personüicação do ser que
teria localizado também estátuas representando animais da sugeria os enganos, os maus conselhos. As mães ameaçam
era secundária jamais encontrados em outro sitio da Améri- com Marugodo as crianças teimosas ou choronas.
ca do Sul: estegossauros, leões, tartarugas, camelos. Em uma MASSA GRAND GADO - V odu * daomeano que pontifica no
colina esculpida reconheceu-se a cabeça de um ancião, porém panteão dos bush negroes da Guiana. Holandesa.
ao ser revelada a fotografia respectiva, o negativo mostrou
um jovem sorridente. Mas não sendo localizado qualquer MASSARICADO -- Na mftica dos indios amazônicos da região
vestigio orgânico, resultou impossível aplicar o método do dos rios Negro e Branco, conforme os apontamentos de Antó-
carbono 14. Daniel Ruzo sentiu-se à vontade para identificar nio Brandão de Amorim, heroina do ciclo dos infortúnios que
Marcauasl como o berço da civilização masma, talvez a mais acometeram o deus Tupana * em suas andanças pós-dilúvio.
antiga do mundo. Os sucessos que envolvem a ambos tem laivos de tragédia
grega: Tupana casara-se com Massaricado mas não desco-
MARIMANTLE - Grutas e furnas no leste do Transvaal, sul nhecia os encantos de outras mulheres, conquistando quantas
da Ãfrica. Na nútica regional, serviram como portas de podia. Ao fim de muita rusga conjugal Massaricado decidiu
entrada para o mundo, aos primeiros homens provindos do vingar-se pelo mesmo processo. Escolheu um fndio possuidor
covil dos espfritos, no centro da terra, onde foram criados do encanto todo especial consistente em poder transformar-se
pelos deuses. ConseqUentemente é também o portal de acesso a qualquer momen~o em arara. Esta circunstância foi muito
a.o reino das sombras para onde se dirigem as almas dos cômoda para ambos porém Massaricado visava de fato hu-
mortos. milhar Tupana. ~ste, que afinal era deus, zangou-se como
MARKA-MARKA - A residência mítica do Kúntur (condor), tal e matou o indio. Ao fim de outras peripécias, Massaricado
nos picos mais altos dos Andes. Nesse santuário, invisivel acabou transformada em pedra. Em algumas regiões, a de-
aos fiéis, recebia os cultos que lhe eram devidos. cisão foi dela. Em outras, a mudança em pedra foi determi-
nação do marido-deus.
MASMA - Civilização que teria florescido em Marcauasi *,
MA-T:m~L:€S - Entre as tribos africanas Iiteràriamente tra-
planalto desértico no cume dos Andes. Talvez a mais antiga
das civilizações sôbre a Terra. Tem no filósofo e explorador tadas por Blaise Cendras em sua Anthologie N egre, duendes
peruano, Daniel Ruzo, que visitou o Marcauasi em 1952, o de tamanho e conformação infantis "qui n'avaient qu'une
seu principal entusiasta. jambe, qu'un bras, qu'un oeil, et qu'une oreille". Haveria
uma tribo inteira dêles. Sob a mesma forma e com igual ca-
MARTIM-PESCADOR - Ave da família dos Alcedinideos (Ce- racteristica, aparece urna caipora em certas áreas do leste
ryle torquata, Lin.), chamada pelos negros Martim Bangolá, brasileiro. (Ver Caapora.)
Martim-ji-mbanda, Marujo - e que no candomblé tem a fun-
ção de correio entre os mortais e os encarutados *. Apossa-se de MATININô - Conforme a famosa Relación de IndiMJ de 1496,
pessoas e os possuídos por Martim-Pescador "apresentam to- escrita por Fray Ramón Pané, por ordem de Cristóvão Co-
dos os sinais de alucinação alcoólica e se põem a fazer tôda lombo, Matini nó foi a Ilha das Amazonas *. Eis o trecho:
sorte de diabruras". Diz Edison Carneiro' no seu Oandomblés "Sucedió que uno que se llamaba Guaguyona ( Guagiona) dijo
.
da Bahia: "Não é possível imaginar Martim-Pescador, men- a otro, de nombre Yadruvavam que fuese a coger una hierba
sageiro dos deuses, senão pedindo cachaça, caindo de bêbedo, llamada digo . .. viendo que éste· no volvia cuando lo envió a
à porta da venda, no bôjo dos saveiros, na aldeia dos cabo- coger el digo, resolvió salir de la gruta Cacibayagua .. . indig-
clos, em tôda parte". nado, resolvió marcharse, viendo que no volvfan aquellos que
habia enviado a coger el digo para ba.D.arse, y dijo a las muje-
MARTINEZ, Marcelino Machuca - Paraguaio expositor da len- res: dejad a vuestros maridos, vámonos a otras tierras y
da do Continente Mairubi *. Continente ou reino, essa infor- llevemos mucho digo. Dejad a vuestros hijos, y llevemos so-
mação mitológica teria sido ministrada pela primeira vez por lamente dicha hierba con nosostros, que después volveremos
Selênio, no ano 1329 a. C., a Midas, Rei da Frigia. Tal reino por ellos. / / Guaguyona salió con todas la mujeres, anduvo
MAT 166 167 MAY

buscando otros paises y Uegó a Matininó, donde muy luego


dejó las mujeres y se fué a otra región llamada Guanin; habia d'Hervey de Saint-Denis querem-no ainda em alguma parte da
América do Sul.
dejado los hijos pequenos junto a un arroyo. Después, cuando
el hambre empezó a molestarles, dícese que lloraban y llama,. MAT~ú - Raça de indígenas fabulosos, habitantes das mar-
ban a suas madres que se habían ido. Los padres no podiam gens do Amazonas, cuja principai característica seriam os
dar consuelo a los hijos, que llamaban con hambre a sus ma- pés invertidos, os calcanhares para a frente. Em 1639, o pa-
dres .. . y de esta manera quedaron todos los hombres sin mu- dre Cristóbal de Acuíia falou dêles pela primeira vez. Mas o
jeres". "Guaguyona, a1 dejar Matininó se llevó las mujeres depoimento clássico é do padre Simão de Vasconcelos, em
de su cacique Anacacuya, que era asimismo su cui'íado, y a 1864 : "Outra é de casta de gente, que nasce com os pés às
quien arrojó al mar para quedarse con su harén. Por eso "se avessas, de maneira que quem houver de seguir seu caminho
dice que no hay más que hembras,, en Matininó". há de andar ao revés do que vão mostrando as pisadas; chamam-
-se Matuiús".
MATINTA PEREIRA - Mito que, confundido com origens
das lendas do Saci Pererê, do Curupira e do Caapora, povoa as MAUARI - Demônios, habitantes do Monte Rorãima e das
imaginações populares no Pará, Amazonas, Acre e outras áreas elevações próximas. Pertencem à mítica dos taulipangues, se-
do nordeste e do · norte. A descrição é de José Verissimo: gundo os apontamentos colhidos por Koch-Grünberg. Apare-
". . . tapuinho de uma perna só, que não evacua nem urina, cem na lenda de Vazacá *, a árvore da comida, do ciclo do
sujeito à uma horrível velha, a quem acompanha às . noites dilúvio. Vivem regalando-se com as bananas produzidas pelas
de porta em porta, a pedir tabaco ... na cabeça, um barrete plàntas que ninguém plantou mas nasceram da derrubada da
vermelho... Quem na luta noturna conseguir arrancar-lhe o árvore Vazacá ordenada por Macunaíma. Tôdas as monta-
barrete terá conquistado a felicidade. A velha que o acom- nhas são suas casas. Sômente os pajés podem ver e falar
panha canta, na toada de um passarinho . . . esta canção que com os Mauari.
não compreendo, mas que deve evidentemente ser o resto de MAWU - Entre os negros do Daomé, o principal dos deuses,
um mito: "Matinta Pereira / Pana-terra já morreu; / Quem indecifrável, invisivel, inatingível, inconsciente também dos pro-
te governa sou eu". Outros figuram-no como um velho, a blemas humanos. Simplesmente existe e decide sôbre os acon-
cabeça coberta por um pano ou lenço, como se a tivesse do- tecimentos. Corresponde ao Olorum * dos iorubanos e tanto
ente. Também pede tabaco. no Brasil, como em Cuba, Haiti e mais regiões americanas
MATOWELIA - Montanha celestial na mítica dos indios mo- de forte presença africana, Mawu e Olorum trocaram ou
javes, norte-americanos. Guarda e coroa das pradarias de completaram algumas de suas caracteristicas. No Haiti, sob
caça. Residência-prêmio para todos os bravos que depois da influência católica e francesa, Mawu ganhou a tradução de
morte digna f ôssem cremados segundo um ritual apropriado. Grand-Maitre.
Os não merecedores de tais honrarias, transformavam-se em MAYAUEL - Deusa que protegia o agave e propiciava a em-
coruja. briaguez alegre no fim das boas colheitas dos campos astecas.
MA-TUA-LIN - Escritor chinês cujos textos serviram de base Em ações de graças, os lavradores lhe ofereciam banquetes
e fartas libações. A melhor reprodução que se tem desta
ao estudioso francês De Guignes que em 1761 publicou uma
divindade menor e exclusiva dos plantadores de agave, figura
memória procurando provar que o fabuloso pais de Fu-Sang
- espécie de El-Dorado para os orientais, era o México. O no Códex Magliabecchino.
fundamento do trabalho de Ma-Tuã-Lin e por conseguinte tam- MAYU MAMA - Para os nativos do norte e noroeste argen-
bém daquele de De Guignes foi a descrição feita po" lt'"l mon- tinos e de áreas paraguaias, bolivianas e peruanas, a Mãe dos
ge budista, Hoei-Chin, da viagem que, no ano 499 de nossa Rios. Mulher de beleza excepcional, cabelos longos, ora lou-
era ou pouco antes. fizera ao mirifico pais de Fu-Sang. us ros ora escuros. Reconhece-se as águas onde habita pela es-
escritos de Ma-Tuã-Lin e De Guignes foram analisados con- tranha e violenta agitação com que demonstra repulsa: aos
tinua e sis temàticamente, dividindo-se as opiniões quanto à forasteiros.
exata localização daqueles sítios ricos de prodigios. Klaproth, MAYUJ MAMA - Sitio tido como encantado, na Ilha de Ca-
Bretschneider, Vivien de Saint-Martin, Schlegel e os mais mo- limayo, Tucumã, noroeste da Argentina. Trata-se de riacho
dernos exegetas situam Fu-Sang no Japão, na Coréia ou em e lagoa, onde a senhora das águas, em ocasiões determinadas,
Sacalina. De outro lado, Hippolyte de Paravey, d'Eichthal, hospeda conciliábulos de bruxas.
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169 MEB
MB"·REGUA - Mitica dos apapocuvas ligada à futura des-
truição do mundo. Egon Schaden resumiu a lenda: "Nhan- fim de certa mulher que anda à procura do filho atirado por
derykey está acima de nós (no zênite). Agora, cuida da Terra l\ffi feiticeiro - em outras versões, por inimigos - ao fundo
e sustém em suas mãos o suporte da Terra. No dia em que de um abismo ou em covas rasas do campo. (Ver Nzamé.)
o tirar, a Terra desmoronará. Agora a Terra está velha, as MBOIAÇU - Lenda base da série de mitos do ciclo da água.
nossas gerações já não prosperarão (neste mundo). A todos Equivale ao da Cobra-Grande e tem variantes sem fim, como
os que já morreram, havemos de rever; quando cair a noite, a Cobra -Maria, no Rio Solimões. O resumo é igual: não exis-
descerá o morcêgo, para acabar com a geração que habita esta tia noite. A Mboiaçu - Cobra-Grande, presenteia a filha,
Terra. De noite desce o tigre azul. O tigre azul desce para pelo casamento desta, com a noite encerrada no caroço de
devorar-nos." tucumã e libertada pela curiosidade dos remadores que le-
vavam o presente.
MBAEVERA-GUAÇU - Literalmente "coisa resplendente e
grandiosa". lt a mítica e sagrada cidade capital dos guara- MBOI-TATÃ - Em áreas da América espanhola, o fogo-fátuo
nis, oculta ou perdida em algum ponto da. selva brasileira. Es- é mito do ciclo dos castigos. Em Bupersticiones y Leyendas,
peram chegar a ela, em vida ou depois de morte digna, os Ambrosetti registra: "Si los compadres, olvidando el sacra-
fndios mbiá ou mbaeveraguá, habitantes da região entre o pa- mento sagrado que los une, no hicieran caso de él, faltando la
ralelo 27 e a linha tropical. Mbocabog, grande ediffcio, espé- comadre a sus deberes conyugales con su compadre, de noche
cie de templo, seria o centro da cidade, servido pelas mara- se transformaran los dos culpados em Mboi-Tatá, es decir, en
grandes serpientes o pájaros que tienem em vez de cabeza una
ney, tipo guarani de vestais.
llama de fuego. Estos se pelearán toda la noche, echándose
MBAI-AIB - Para o indígena brasileiro, fantasma, assom- chispas y quemándose mutuamente hasta Ia madrugada, para
bração, cois a má, coisa ruim, visagem. De modo geral não volver a comenzar ·la noche siguiente, y asi per secula seculo-
tem voz, fazendo-se anunciar pela das aves conhecidas como rum, aun después de muertos". Pelo nordeste brasileiro e se-
portadoras de mau agouro. O importante é não ver, não gundo Téo Brandão, de modo especial em Alagoas, o mito do
encontrar, não ser visto pelo mbai-aib, dado não existir prá- Fogo-corredor * é aparentado com o punitivo Mboi-Tatá dos
tica eficaz o bastante para curar os males dai provenientes. hispanos-americanos.
Etimolõgicamente conhece-se a opinião de Gcnçalves Dias que MBONGW.l!:: - A primeira mulher, na mitica de Uganda rela-
nos dá aiua, aiba - má e anga, alma ou espirito. Seria por- tiva às orig ens das coisas. Depois da mal sucedida tentativa
tanto a alma penada dos nossos matutos, aterrorizando, ame- divina de criar o homem com o rebelde Fam *, o grande deus
drontando. Barbosa Rodrigues defende a formação aná - pa- Nzamé *, auxiliado por Mebere *, criou um homem mortal,
rente, e anga - alma, espirito dos mortos, dos antepassados. · Sekumé *. Mas os deuses quiseram que Sekumé não ficasse
MBAMA - Um sábio espirito africano que, tomando a forma de sõzinho sôbre a Terra, entre os bichos que viviam em casais.
serpente, atendia às consultas de homens e de animais. Habi- Não fizeram a mulher, êles mesmos, os deuses. Ordenaram a
tava longe de qualquer povoação e embora não impusesse con- Sekumé que a criasse. E Sekumé a fêz do tronco de uma ár-
dições aos consulentes, êstes, quando indignos da entrevista, vore, pô-la a andar e chamou-a Mbongwé. O primeiro casal
esqueciam -se das respostas durante a viagem de volta à casa. teve três filhos: Nlkure * (O Tonto, o Mau), que foi o primeiro;
Figura com destaque no ciclo de aventuras da tartaruga Kudu, Bekolé ·*, (0 que não pensa em nada), foi o segundo e muito
auxiliou ao terceiro Mefere * (o Bom, o Capaz). Tiveram
especialmente no capitulo da árvore Bojabi •.
também muitas filhas, porém a memória dos homens não guar-
MB.l!'::RI - Para o culto afro-cubano de Abasi •, o primeiro ·homem dou nem o número nem os nomes de tais filhas. Os três
sôbre a Terra. Teve como irmão, Acué • ou Ecué, o deus filhos sim, porque foram os pais de tMas as tribos. Natural-
filho, com o qual forma a dupla de heróis civili.zadores. mente Mefere, o Bom, o Capaz, foi o pai da tribo que narrou
a Blaise Cendrars (Antologie Negre) esta história.
MBOCABOG - O grande templo ou edifício de comando, cen-
tro da mitica cidade de Mbaeverá-Guaçu *, no lendário dos MEBEFE - A segunda pessoa do deus trino Nzamé '*, dos
guaranls. mais altos do panteão de Uganda. A terceira pessoa é Nkwa.
O deus, invocado mais freqüentemente como Nzamé, fêz o céu
MBOIA - O fogo-fátuo entre os negros fons. A sua mítica e a terra, reservando o céu para si. Acomodado no céu, so-
explica o fenômeno luminoso como sendo o desespêro sem prou sôbre a terra. Da ação dêsse sôpro separaram-se a
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terra e a água. Depois, o deus criou a lua, as estrêlas, os papo. Castigado, êle foge da aldeia e é decapitado por lndios
animais, as plantas. Feito tudo isto, a primeira pes~a - inimigos. Seu irmão chega, apanha a cabeça corta.da e foge
Nzamé, perguntou às outras duas - Mebere e Nkwa - se com ela. A cabeça pede ao irmão água e frutas. O irmão en-
achavam falta de algo na criação. "Vemos muitos animais; gana. a cabeça e foge, abandonando-a. A cabeça cheg.1t rolan-
mas não vemos seu chefe. Vemos muitas plantas; mas não do no terreiro da maloca e pede debalde que a deixem entrar.
vemos seu amo." Resolveu então, o deus que era três deuses, Ela reflete em que deve transformar-se: água não posso
designar um chefe entre tõdas as criaturas. Designaram o ser. . . pedra não posso ser. . . etc. Ela resolve transformar-se
elefante, porque é sensato; o tigre em razão de sua fôrça e em Lua. Ela atir~ novelos de fio ao céu e sobe por ~les.
astúcia e o macaco pela malicia e a agilidade. Resultou que Ela se vinga na irmã que a traiu, mandando-lhe a menstrua-
faltava uma criatura para ser o amo de tôdas estas que eram ção". Tem ligação com o mito da cabeça rolante, comum a
já as melhores. Os três deuses que eram um só, olhando muitas tribos.
um para o outro, fizeram tal criatura e um deu-lhe a fôrça, MERI - Na mitica bororo, a personificação do Sol. A Lua
o outro deu-lhe o poderio, o terceiro, a formosura. E disse- estaria personificada em Ari.
ram os três: - "Toma a Terra para ti, és o amo de tudo
quanto existe. Como nós, tu tens vida, tõdas as coisas estão MEULEN - Na crença dos araucanos, o espirito que ocupa
sob teu comando. 1.:s o senhor." Em outras lendas, Mebere o vórtice dos redemoinhos de vento e dos furacões. Desejan-
é o criador único. Na Ant9logie Negre, de Blaise Cendrars, do permanecer entre os homens adotava a forma de lagarto.
comparece a lenda da criação pela mão de Mebere, nome que MICHABO - Invocação especial para Manabozho •, totem di-·
significa O Orkl.dor: "Quando as coisas ainda não existiam, vinizado dos algonquinos, indios canadenses. Esta invocação
Mebere, o Criador, fêz o homem de argila. Tomou a argila era reservada para as epopéias de caça, significando "lebre
e modelou um homem. Assim começou êste homem e co,. grande", "lebre ardilosa". São incontáveis as peripécias de
meçou-o como um lagarto. Mebere pôs o lagarto num charco suas lutas contra os lôbos que pretendiam submergir a Terra.
de água do mar. Cinco dias se passaram: passou cinco dias Michabo logra vencê-los, desposa Miskrat, animalzinho almis-
com êle no charco das águas e manteve-o lá dentro. Sete carado. Dêsse consórcio resultou a raça humana.
dias: estêve dentro sete dias. No oitavo dia, Mebere foi
MICTECACIUATL - Espôsa do rei dos infernos astecas, o
olhar e eis que o lagarto salta, e eis que salta para fora.
Transforma-se num homem. E diz ao Criador: Obrigado!" funéreo deus Mictlantecuhtli *. senhor de Mictlan *, o pais das
trevas, do frio e do nada.
MEFERE - Literalmente, quer dizer O Bom, O Capaz. Ter-
ceiro dos filhos homens do casal original Sekumé ·• e Mbongwé *, MICTLAN ~ O inferno asteca, situado debaixo da terra, para
segundo a mitica das tribos florestais do centro africano. Os além, muito além, ao norte. Era um país de trevas e de frio,
outros irmãos de Mefere e também como êle pais de tribos, reino dos sinistros Mictlantecuhtli * e sua mulher Micteca-
foram Nkure * e Bekolé *. Teve muitas irmãs cujos nomes, ciuatl *. Para ali eram expedidos os m.o rtos sem glória, os
porém, não foram reglstrados pela memória dos homens. que não mereceram nem a graça nem o furor dos deuses.
Acompanhado por um cão (o "psicopompo" dos gregos), o
MELO MORAIS FILHO, ALEXANDRE Jos~ DE - Médico formado morto vagueava durante quatro anos pelo frio e inóspito mun-
em Bruxelas. foi dos mais fecundos colaboradores de jornais do subterrâneo, sujeito aos ataques de vários monstros devo-
e revistas, quase sempre promovendo campanhas em favor· das radores, incessantemente fustigado pelos gélidos ventos de obsi·
tradições populares. A Etnografia e o Folclore representaram diana (ventos cortantes, flagelantes), até atravessar os Nove
seus principais interêsses como estudioso. Nascido em Salva- Rios, para além dos quais abriam-se os infernos. Mergulhavam
dor, a 23-2-1844 e falecido no Rio de Janeiro a 1-4-1919, dei- então no nada, tornando-se nada para todo o sempre.
xou entre outras obras, Pátria Selvagem, (1884) coletânea de
lendas; Os Ciganos no Brasil, contribuição etnográfica (1886). MICTLANTECUHTLI - Deus asteca guardião de Mictlan •. o
inferno. Trazia a face coberta por máscara esquelética e
MENSTRUAÇÃO - Curt Nimuendaju, em carta de 6 de fe· apresentava-se rodeado por bufos e aranhas. Dividi& o
vereiro de 1945, escrevia a Herbert Baldus resumindo· à lenda trono infernai com sua companheira Mictecaciuatl. •
dos cunibas (tribo aruaque, extinta, nos centros da margem
esquerda do médio Rio Juruá), que explica a menstruação como MILOMAQUI - Herói mítico dos indios iaunas, tribo da fa-
um dos motivos lunares. "Um indio costumava coabitar, in- milia lingüística tucano. A versão portuguêsa é de Herbert
cógnito, com sua irmã. Esta assinala-o com tinta de jeni- Baldus sôbre coleta de Theodor Koch-GrUnberg (Zwei Jahre
173 MIT
MIN 172
unter dern Indianern), que comenta tratar-se de uma explica- em horas, perseguindo as pessoas e as embarcações ... ". João
ção da "origem dos mistérios do herói solar difundidos por uma Felizardo nos dá movimentada versão mineira do monstro:
grande parte do norte da América Meridional". O herói produz "às vêzes vinha por cima da serra, às vêzes vinha pela várzea.
a vegetação. . . É o próprio Sol. Vem do leste, da grande E vinha derrubando tudo, arrasando tudo. Uma hora subvertia
"casa de água, anda pela Terra e sobe no fogo ao céu. A um estirão inteiro. . . Mas, ao depois, decerto de canseira,
queimação do herói pelos homens, por causa de sua qualidades entrou pela terra a dentro e garrou a dormir tôda a vida.
li: um bicho comprido ... " (Ver Pira-Nú e Yagua-ron.)
mágicas, é um traço comum de muitcs mitos. . . da América
do Sul". Eis a lenda: "Há muitos, muitos anos, veio da MITO, já o admitimos, é esfôrço do homem primitivo por expli-
grande casa de água, país do Sol, um menino que sabia can- car o mundo e a sua presença nêle. Jean Herbert (A Mitolo-
tar tão maravilhosamente que gente chegou de tôda parte gia Indu), garante-nos que "o mito é coisa profundamente res-
para vê-lo e ouvi-lo. O menino chamavt'{-se Milomaqui. Mas peitável, e todos os povos deviam orgulhar-se do patrimônio
todos os que o tinham ouvido, cairam mortos ao voltarem que conservaram". E Dupuis, escrevendo a · História de Tôdas
para casa e comerem peixe. Então os seus parentes agarra- as Religiões, diz que os mitos seriam "a História da Natureza,
ram Milomaqui. Entrementes, êste já se tinha tornado ra- principalmente a História do Céu". Düere da lenda que
paz. Queimaram-no numa grande fogueira,. por ser êle ruii'n fica muito bem definida por Barbosa Rodrigues (Poran-
.e ter morto os seus irmãos. Até morrer, porém, o rapaz con- àubei AmaiZonense): "... tradição viva do pensamento pri-
. tinuou cantando maravilhosamente, e quando as labaredas já mitivo e do desenvolvimento intelectual das épocas de sua
lhe subiam pelo corpo, cantou: - Agora morro, meu filho, origem". Via. de regra, o mito está na base da lenda, sendo
agora abandono êste mundo. - Quando o corpo se inchou esta um encaminhamento da evolução moral e intelectual. Povo
pelo calor, Milomaqui cantou ainda com voz magnifica: - em fase de afirmação, jovem, vigoroso, agressivo, aceita mitos,
Agora quebra-me o corpo; agora estou morto. - O seu corpo impõe seus mitos. 1 Povo tranqüilizado, cultiva lendas. Se aca-
rebentou. Morreu e foi consumido pelas chamas. Mas sua brunhado, desorientado, dividido ante problemas e mistérios,
alma subiu ao céu. Foi ainda no mesmo dia que da sua curva~se às superstições. Sibaritizado, ri-se dos mitos,, sorri
cinza cresceu uma fôlha oblonga e verde, ficando cada vez das lendas, recreia-se com as superstições. O mito, orienta e
maior. Estendeu-se e tornou-se, já no dia seguinte, uma ár- orgulha; a lenda, encanta; a superstição, amedronta ou ridi-
vore alta. Era a primeira paxiúba. Antes não havia culariza. Não cuidamos das superstições e não nos preocupa-
estas palmeiras. De sua madeira a gente fabricava grandes mos em separar mitos e lendas. Convivem nestas páginas, lem-
flautas que reproduziam as lindas melodias cantadas outrora brados e gratos a Sir James Fraser, de Cambridge, que, en-
por Milomaqui. Em nossos dias ainda, os homens tocam as sinando ser "a mitologia a Filosofia do Homem Primitivo" e
flautas tôda vez em que as frutas da selva estão maduras, je- lançarem os mitos "luz sôbre a evolução de nossa espécie",
juando e dançando em honra de Milomaqui que fêz as frutas profetizou e pediu que "todos os mitos do mundo sejam classi-
tôdas. As mulheres, porém, e os meninos, não podem ver ficados num Corpus Mythorum, onde, como num museu, êsses
as flautas, pois do contrário têm de morrer." fósseis do espírito poderão ser expostos de forma a ilustrar uma
etapa primitiva da marcha do pensamento, desde seus mais
MINARA - Personagem mitológica, guardiã do fogo com o humildes principios até alturas ainda desconhecidas". Os mi-
especial encar.go de não permitir que os bororos se aproprias- tos constituem importante processo de educação intelectual.
sem dêle. Acabou enganada por Fyetô * que, disfarçado em Apresentando sua coleção de lendas indígenas, Couto de Maga-
filhote de gralha branca, logrou introduzir-se no recinto onde lhães (O Selvagem, RJ, 1876) disse algo que queriamos citar
estava oculto o fogo. a propósito dêste dicionário: " . . . além do sentido simbólico
MINHOCAO - Monstro que com êste nome ou variantes lo- que as lendas possam ter. . . é muito claro o pensamento de
cais apavora as águas de quase todos os grandes rios brasi- educar a inteligência do selvagem por meio da fábula ou pa-
leiros. Não tem agilidade, não .faz nada de simpático. Nem rábola, método geralmente seguido por todos os povos primi-
mesmo lhe reconhecem a movimentação graciosa da serpente. tivos. / Todos êles (os episódios do ciclo do jabuti), foram ima-
E bem descrito pelo têrmo minhocão: molenga, repelente. Mas ginados com o fim de fazer entrar no pensamento do selvagem
é feroz e mau. Vira barcos, arrasa vilarejos, devora gente a crença na supremacia da inteligência sôbre a fôrça fisica.
e gado, derruba para dentro do rio porções de barrancos e Cada um dos episódios é o desenvolvimento ou dêsse pensa-
casas. Cardoso de Oliveira descreveu-o: " ... bicho enorme, mento geral, ou de algum que lhe é subordinado. / Ensinar
prêto, meio peixe, meio serpente, que sobe e desce êste rio a um povo bárbaro que não é a f ôrça física que predomina, e
MIX 174 175 MOR

sim a fôrça intelectual, equivale a infundir-lhe o desejo de :MOCIUAQUEZQUE - Deusas dos nauas, habitavam a porção
cultivar e aumentar sua inteligência. Cada vez que reflito na ocidental do céu e dali vigiavam os atos humanos.
singularidade do poeta indígena de escolher o prudente e tardo
jabuti para vencer aos mais adiantados animais de nossa fau- MOK-MOK - Na mitica perúvio-boliviana, o mesmo que Umi-
ta • Runa-Uma *, Kefke *, Cabeça Volante, Uma-Waqya, Uma
na, fica-me evidente que o fim dessas lendas era altamente
Pali,' Aya-Uma, Ayap-Uma, Uman Tak-Tak, Uma Pureqkeke •.
civilizador. . . / Qual seria o selvagem que depois de com-
preender. . . que um jabuti pôde por astúcia alcançar vitória MOLINA, Cristóvão de - Aproveitando-se da sua função de
apostando carreira com o heado, . . . que não ficaria anteven- visitador eclesiâstico e do cargo de capelão no hospital de
do a superioridade da inteligência sôbre a matéria?" O mesmo Cusco, aprofundou-se no estudo dos ritos dos incas e peruvia-
autor comentando a lenda "Como a noite apareceu", afirmou nos mais antigos. Por incentivo do governador Francisco de
"Esta lenda é provàvelmente um fragmento do Génese dos Toledo redigiu as Informaciones, escreveu Relación de las
antigos selvagens sul-americanos. ~ talvez o eco degradado e Fabulas y Ritos de los Incas, na qual todos os estudiosos bus-
corrompido das crenças que êles · tinham de como se formou cam informar-se acêrca da religião do antigo Peru. lt tra·
essa ordem de coisas no meio da qual nós vivemos, despida dição que tenha escrito duas outras obras que se perderam:
das formas grosseiras com que provàvelmente a vestiram as Relaci6n del Origem, Vida y Oostumbres de los Incas . .•
avós e as amas-de-leite, ela mostra que por tôda parte o ho- Cuantos Fueron y Quienes Fueron sus Mujeres y las Leyes que
mem se propôs resolver êste problema - de onde viemos?" Dieron e R elaci6n de los Huacas.
- Está reafirmada aí a finalidade dos mitos: explicar ao ho-
MONANGAHELA - Vale da Patagónia que teria tomado ou
mem o porquê da existência. Compreenderemos melhor a fun-
emprestado seu nome a um apavorante monstro solitârio. Se-
ção dos mitos se raciocinarmos com K. Th. Preuss a propósito
ria grande quanto o mamute e feroz como o tigre - segundo
dêles. São "atos de crença que dão aos acontecimentos, ocor-
o descreve a Zoologia Fantástica. Era tanto mais furioso
ridos aparentemente nos tempos primitivos, eficiência no pre-
quanto sabia-se o último membro de uma raça destinada pelos
sente." Assim, Herbert Baldus quer ver na lenda bororo
maus espíritos a esmagar sob as patas gigantescas as flores-
de Ba.cororo * e Itubore * uma lição aos bororos de hoje. Li-
tas e as aldeias. Quando os quadrúpedes maldosos estavam
ção de "como êstes antepassados dos atuais chefes. . . e devido a ponto de realizar seu intento, o Grande e Bom Espirito ami-
à sua própria coragem, inteligência e abnegação, conquistaram go dos indios ouviu os lamentos das vitimas e expedindo seus
o mundo para os homens. Mas para o funcionamento da so- raios fulminou os animais. Restou um, o Monangahela, erra-
ciedade bororo é mais importante. . . o fato de terem sido dio, furioso, enorme, vagando pela vastidão patagônica, ata·
êles os antepassados justamente dos chefes e não de outra cando e esmagando não mais aldeias e sim a quem lhe cruze
familia ou subdivisão da tribo". os caminhos das solidões geladas.
MIXCOATL - Deus das tribos setentrionais, incorporou-se ao MONDAMIM - Para os algonquinos, lndios do grupo chippewa,
panteão asteca depois da migração daquelas tribos para o figura mítica ligada à origem do milho. Enviado pelo céu
centro do México. Protegia os caçadores, era o senhor da para ensinar aos homens as técnicas e as artes, terminou mor-
Via-Láctea e tornou-se a divindade nacional de Tla.xcala, onde, to e incinerado por um dêstes. De sua sepultura brotou, logo
porém, era cultuado sob o nome de Cama.xtli •. depois, um dos melhores dons concedidos pelos deuses aos
humanos: o milho. Resumia tudo o que Mondamim não tivera
MIXCOATONTLI - Em Tlaxcala, representante de Camaxtli •, tempo de ensinar. (Ver Onatah).
girava ao redor do templo local, sustida pelos cabelos a ca-
beça decepada de mulher, jorrando sangue abundante. O sim- MONHA - Segundo Thévet em Cosmografia Umversal, obra
bolismo maior da cerimónia eram as serpentes de Coatlicue • que fica entre a curiosidade e a ciência, o deus supremo dos
- a "das anáguas de serpentes". tupis, criador de Trin-Magé de cuja cabeça nasceu Tupã.
MOCARA - Na mitologia peruana, os montes que dominam MORTE DURUMA - Na mítica dos durumas africanos, a
a paisagem, mantêm família, vicios, propriedades, sentimentos morte tem origem em uma disputa entre o camaleão e o la-
iguais aos dos homens. (Veja-se .Puihudn. OMco.) Assim o garto. O primeiro desejava que os homens gozassem eter-
Mocara viu quando a donzela Villa saía de Caparaja. Apai- namente da vida. O lagarto era contrârio a isso. Resolveram
xonando-se, tomou-a por espôsa. (Ver Livini.) decidir a pendência disputando uma corrida. O lagarto vence.
MOS 176 177 MUL

Desde então, pesaroso pela triste sorte dos humanos, o cama- MOTZ - A constelação das Plêiades entre os nauas. Nessas
leão anda tristonho e vagaroso. estrêlas foram transformados os quatrocentos companheiros de
Hunahpu. massacrados por Zipacná. (Ver Cyiucê, Ceuci, Ta-
MOSHANYANA - Herói mítico das tribos bantos. Com de-
rnecan, Nibetád.)
nominações diversas esta personagem figura nas legendas de
outras nações africanas. A primeira parte de suas proezas in- MUKUNGA MBURA - J!: o arco-iris, para certas tribos afri-
sere-se nos mitos atinentes à reformulação do mundo em se- canas. Geralmente é tomado como serpente enorme ou corno
guida ao flagelo personificado por Kholumolumo •, monstro projeção colorida de uma cobra sagrada que, em seguida às
canibal que engoliu homens, aves e animais. Uma única mu- chuvas, ergue-se para o céu, firmando-se sôbre o formiguei-
lher escapou ao devorador e dela nasceu Moshanyana, o herói ro que é sua morada. A mltica de Mukunga Mbura é com-
vingador da espécie. Ao fim de prolongado e violento com- pletada pela crença de que as pessoas devoradas por monstros
bate, depois de muitas negaças, apunhalou o monstro pelas ou por feras poderão voltar à. vida se seus familiares as in-
costas. Depois de tê.;lo sujeitado, abriu-lhe certas partes do vocarem de z:osto voltado para . Mbura.
corpo, deixando sair à luz do dia, integras e recompostos, MUUNIMA - Versão hispano-americana dos mitos da mula-
os homens, animais e aves devorados por Kholumolumo. Mo- -sem-cabeça * e da burrinha-de-padre do nordeste brasileiro.
shanyana não foi um herói modesto e conheceu a inveja de Rafael Jijena Sanchez e Bruno Jacovella (Las Super8ticione8)
seus semelhantes. Foi alvo do desprêzo dêles e de vários apud Câmara Cascudo: Geografia dos Mitos Brasileiro8, escre-
atentados. Por fim, aborreddo, deixou-se matar. Seu co- veram a respeito da Mulánirna: " ... unas veces es la barra-
ração, arrancado ao peito, não ficou entre as mãos dos matado- gana del cura; otras, el hijo sacrilego; otras, en fin, el alma
res, pois imediatamente transformou-se em pássaro e fugiu. dei cura. En Jujuy obtuvirnos esta versión: La mulánima es
MONTANUS, Arius - Autor da chamada B~blia-PoligZota, el alma de la rnujer que tiene relaciones ilicitas com el cura.
editada em Antuérpia entre 1569 e 1573. No ano 1571, o estu- Aparece de noche:' se oye prirnero un rebuzno, que termina en
un lamento de mujer. Dicen que lleva un freno de oro y que
dioso espanhol publicou um mapa-mundi com a sua concep-
cabalga en ella el demonio. Hay que desencantaria quitandole
ção a propósito do povoamento das Américas. Levantou a
el freno. Uno que lo hizo rnorió muy pronto. AI hacerle Ia
teoria de que êste continente fôra povoado pelas gentes co-
autopsia, le encontraron el corazón cubierto de pelos."
mandadas por Jectão, bisneto de Sem, filho de Noé. O pri-
meiro daqueles lideres, Ophis, conduziu sua leva para o no- MULA-SEM-CABEÇA - Também Burrinha-de-padre ou Bur-
roeste da América donde passaram ao Peru. O segundo, rinha. Misto de assombração e castigo é mito de territoriali-
Jobal, fixou-se no Brasil. E a chamada teoria da origem ju- dade nacional. Segundo a forma mais corrente, durante a
daica do homem americano. Não vingou e não ficou de todo noite de quinta para sexta-feira, mulheres que hajam man-
esquecida. Recentemente, voltou a ela o estudioso Peregrino tido relações sexuais com padres, conhecem uma espécie de
Vidal (A Améric<11 Pré-histórica). Já em 1900, o historiador antecipação do castigo que as aguarda, transformando-se em
P. De Roo insistira na tese. (Ver Ophir.) mula que, desprovida da cabeça, velocissirna, galopa às tontas
até o terceiro cantar do galo. O assombramento aumenta de
MONTESINOS, Fernando de - Ainda nôvo, havendo sido muito o ruído do seu escoicear, do patear e das mordidas que
designado vigário de Campana dei Guadalquivir, viajou du- dá no freio de ferro. Ai de quem é surpreendido por ela: mor-
rante 15 anos pela América do Sul. Sua obra é discutida e re cortado pelos cascos afiados corno navalhas. Pode ser li-
citada para efeito de comparações, porém cons.ta de quase bertada de tal pena por quem tenha coragem suficiente para
tôdas as bibliografias acêrca do Peru primitivo. São seus dominá-la e arrancar-lhe da bôca o freio de ferro. No extremo
livros: Ophi r de, Espafía ou Memorias Aintigua.g Historiales Y sul, conforme Simões Lopes (LenilG8 do Sul), ela conduzia
Politicas àel Peru; Historia Occidentalis, Vocabulario, De los "na cauda um facho de fogo, que nenhum vento ou chuva
Indios del P eru y sus Costumbres y Pacificaci6n. apagava antes de romperem as barras do dia . . . " Daniel Gou-
veia, em Folclore Brasileiro, diz que "tem por sina correr sete
MOTOCU - Entre os indígenas rnanaus do Rio Negro, no cidades tôdas as noites em que sai. . . encontrando ser huma-
Amazonas, entidade misteriosa, maléfica. Vive nas matas, tem no, mata-o de coices, livrando-se aquêle que, ao percebê-la, es-
os pés virados - os dedos voltados para trás, anda incessan- conder as unhas". Gustavo Barrosso assinalou (O Sert4o e
temente, incendiando as florestas e deixando atrás de si pe- o Mundo) : "Burra-de-Padre, eis ai o nome mais comumente
dras e deserto. dado no interior do Ceará às arnásias dos padres. Essa ex-
MUL 178 179 M".'A

pressão é ali mais generalizada do que a "mula-sem-cabeça". MUSISI - Na mitica de Uganda e territórios vizinhos, o
Quando uma dessas criaturas morre, sua alma fica a penar deus do terremoto. De seus amôres com uma jovem mortal
sôbre a terra, apresentando-se como uma "visagem" de assom- nascera Musaka •, figura de primeira grandeza na. teogonia
bração horrlvel." O mito é comum a tôda a América Latina, local.
onde figura com nomes diferentes : Mulánima, Malora, Alma
Mula, Mula Sin Cabeza, Mujer Mula, Mala Mula. Câmara MUTUM - Na mitologia tapirapé, os pais da raça foram dois
casais assim formados: a primeira mulher mutum, a se-
Cascudo (Geografia dos Mitos Brasileiros) explica: "No Bra-
gunda mulher periquito e dois homens jacus.
sil a tradição da transformação da mulher num animal liga-se
à uma idéia de castigo individual por uma conduta sacrllega. MWENEMBAGO - Em Uzaramo, Africa, demônio que à testa
A noção da pessoa do sacerdote é tão alta que a êle a purifi- de um bando de subordinados, também demônios, assombra
cação sôbre-humana só aparecerá depois de sua morte. Como as florestas. Ninguém que o encontre chega ao término da
tem as mãos, a cabeça e o peito úmidos doa Santos ôleos da viagem.
consagração, nenhum animal pode receber sua alma. Não há, MYAL MEN - Seita agressiva de negros jamaicanos que
no extenso e variado material folclórico que recolhi, exemplo transformada em sociedade secreta, desencadeou a grande
de um padre que se tornasse lobisomem." revolta coromanti de 1760. Esta rebelião eclodiu, do ponto
MULHER-CACHORRO - Conta a mitica das tribos negras de vista da luta armada, com base na crença de que os inicia-
da Africa ocidental que um dia o deus U endé '• recebeu três dos na seita estavam imunes aos efeitos das armas brancas e
homens e satisfez aos pedidos dos três : criou o cavalo para de fogo. Embora relembrando cultos africanos da Costa do
um, o cão para outro e a mulher para o terceiro. Partiram Ouro, é fruto do sincretismo dêstes com as confissões protes-
e logo dois voltaram pedindo que o cavalo e o cão fôssem tantes, como também o é a seita dos Pukkumerianos •.
transformados em mulher. Uendé acedeu, mas o dono do
cão lamentou-se sempre, pois sua mulher resultou de gênio
muito ruim, enquanto a mulher-cavalo mostrou-se terrivelmen-
te glutona. Só a mulher feita mulher deu alegria ao seu homem.
MULHER-CAVALO - Na mitica da Africa negra centro-oci-
dental, criação do deus U endé * a pedido de um dos primeiros
homens. Convidado a expor seu desejo, o homem havia con-
siderado a coisa mais importante de sua vida possuir um cavalo '
Mas vendo que outro homem pedira mulher e usufruia grande
prazer com isso, voltou ao deus e pediu que o cavalo fôsse
transformado em mulher. Uendé acedeu, porém essa mulher
não fazia mais do que comer e, sendo terrivelmente glutona,
tornou o homem infeliz. Infeliz também se considerou o ho-
mem que na mesma oportunidade pedira que seu cão fôsse
transformado em mulher e teve-a muitissimo ruim de gênio.
MULUNGU - No centro-sul da Africa, o chefe dos deuses
ou o maior dentre êles. Reunião de todos os esp1r1tos, assim
de deuses como de homens partidos da vida terrena em vá-
rios os tempos. Depois da morte corporal, e desde que o tenha
merecido, a alma do homem une-se a Mulungu.
?tIUSAKA - O deus mais alto do panteão de Uganda, onde
muitos templos lhe são dedicados. Filho do deus do teITemoto,
Musisi, com uma jovem mulher mortal, durante quatorze ge-
rações residiu no templo principal da Ilha de Brebembe. Di-
fere de outros deuses por não exigir sacrificios.
181 NER

nascido nem criado, sempre existiu. ~ mãe dos orixás das


Linhas de Umbanda. Roxo claro e branco são as suas côres
e quarta-feira o seu dia. Também chamada Anamburucu *.
NANAN-BURUKU - Divindade presente nas mitologias de
quase todos os povos negros trazidos em maior escala para o

N Brasil e de caráter variável. Em Adêle, e as gentes dali pro-


cedentes, é a divindade suprema da criação; no Dumê, seria.
a criadora do par original; em Tcheti, deusa suprema, riva-
lizando com Maú; em Dassa Zoumé, ora é suprema divindade,
ora rivaliza com Oixá; nas terras Nagô-loruba é identificada
NACAC - Em distritos aimaras do Peru, o mesmo que Ca- com Shapanan, divindade da varíola. No Brasil, fizeram-na
risiri * monstro mutilador. mãe de Omolu-Abaluaê •, a. mais velha diVi.ndade das águas,
sincretizada. com Santa Ana.
:RACACO Mito aimara do Peru. O mesmo que Nacac ou
Carisiri *. NAPJ:W - Herói civilizador e divindade dos pés-prêtos, fndios
norte-americanos. Guardava similitude com o Ictinike • dos
NACA.HUE - A deusa terra, na lenda com que os huicholes, Sioux, Manabozho • dos algonquinos, Ioskeha * dos iroqueses
do México, relatam o episódio do dilúvio. e outros.
N ACON - Para os maias do lucatã, deus g uerreiro, honrado NAREATEDI - Gêmeos heróis dos caduveos (índios de Mato
com festival de danças e cânticos chamado "Holkan-Okat", Grosso, da familia lingüística dos guaicurus). Foi iq-areatedi
realizado durante a época correspondente ao mês de maio. quem, através de curioso expediente, roubou a um velho mi-
tico, habitante do céu, as sementes das árvores que formaram
NA-ET~ - Vodu marit imo para os fons do Dahomé. Perten- as matas. Guardou-as entre os dentes, fecundando-as com a
ce à famHia dos Houlas *, vodus responsáveis pelo que su- s ua saliva. Voltou à casa do velho procurando obter as se-
cede no mar. Sua atuação se manifesta através das chu- mentes do feijão. Fracassou. O que é interpretado pelos ca-
vas que tombam nas extensões marítimas. duveos como determinação divina de que sua nação deve ser
NAMBI - Heroína ancestral das nações de Ug anda. Irmã de coletora e não lavradora. (Ver Aguaratunpa.)
Gulu, o guardião dos céus, enamorou-se de um herói huma- iq-AXIV1: - Ver Anatiuã. *.
no, Kintu '*, levou-o para ser submetido pelo irmão a inúmeras
provas. Ao fim destas casou-se com Kintu, sujeitando-se às NEGRO-D'AGUA - Mito goiano. Descreve-o Rizério Leite:
condições humanas. Teve com êle três filhos e preocupou-se " . . . homem prêto, baixo e cabe.çudo como um bugio. . . pôs
em plantar árvores. Mas, inadvertidamente, trouxe para a a cabeça de fora e deu uma risada que não acabava mais.
terra e para entre os homens o mal irremediável: a morte. Os dentes são aguçados como ferrão e brancos como leite ...
A inimiga veio disfarçada na sua comitiva, personificada na O pé se parece com o da gente, mas é mais largo adiante e
pessoa de uni seu irmão Walumbe *. Naturalmente, as primei- tem uma pele entre os dedos como o dos patos . . . Neste dia
ras vitimas de Walumbe, a morte, foram seus sobrinhos, os não pesquei um só peixe".
filhos de Nam bi. NEMKETABA - Entre os chibchas, uma das invocações do
NAMBUCURU deus uno e trino - Bochicha. *, o deus-herói civilizador. O
O mesmo que · Anamburucu, Nanã, Anã, ter ceiro nome era Zukha *.
Onanã .
NEMONTEMI - No calendário asteca, os cinco últimos dias
NANA - O mesmo que Anamburucu, Nambucuru, Anã, Onanã.
do ano. Por influências míticas de explicação esquecida, êstes
NANABOJON - Personagem heróica, semidivina, dos indios dias eram considerados por tal forma nefastos que nenhuma
chippewas, norte-americanos. Freqüentemente confundida com atividade passível de adiamento era então exercida.
entidades semelhantes, tais como Hiawatha • e Manabozho. ~ER - Entre os caingangues, o patriarca, o inventor da agri-
NANAN - Em Umbanda * a primeira, mais antiga e pode- cultura. Ao fim de seis anos de estiagem, quando só havia
rosa doa orixás, inferior apenas a Oxalá '"', pois êste não foi para beber a umidade das fôlhas do gravatá e para comer a
NER 182 183 NIN

carne da lagartixa, :Rer distribuiu as últimas porções ao seu em segurança para o outro lado do rio. Ou aparecer dotada
povo e recolheu-se ao meio do mato, para esperar a morte, de fôrça des comunal para disputar o conhecido jôgo cabo-de-
longe dos gemidos famintos da sua gente e do próprio filho, -guerra, contra o empenho somado do elefante e do hipopó-
para o qual nada havia reservado. Ao lado pousou estranha tamo, disputa que no entanto vence cortando o comprido cipó
ave que ao fim do curto diálogo, trocou a vida de :Rer pelos no momento azado.
segredos da agricultura. Comendo tam~, larva escarvada NHANDUTATA - Literalmente "avestruz-de-fogo", mito igneo
nos paus apodreci.dos, os caingangues esperaram pela chuva, se- "nas regiões que banham . Q Uruguai", segundo a "Poranduba
guiram os ensinamentos transmitidos por :Rer e obtiveram as Rio-grandense", de Carlos Teschauer. ~ uma transformação
primeiras roças em cujo solo, a seu mando, arrastaram o de Mboi-Tatá •. . l!:ste, "segundo a crença vulgar, converte-se
corpo do cacique até que, morrendo, pagasse a sua parte no em o nhandutatá . . . O avestruz-de-fogo sacudindo as asas
acôrdo feito com a ave misteriosa. no cume duma cochila ou dum cêrro acusa a existência de um
NERRIVIK - Apêlo esquimó para uma vaga divindade que tesouro escondido ou de mina rica de ouro". (Ver Zahoris).
preside "a travessa cheia de comida". 1; quem faz rolar do NHANDERYKEY - .. Her9i niitico dos apapocuvas que com
mar profundo para as terras esquimós, a foca, a morsa, a suas mãos mantém o mundo em equilibrio e· a terra em estabi-
baleia e 9 urso. Confunde-se, por vêzes; com Sedna •, a "Velha lidade. Quando se cansar e retirar as mãos, acabar-se-á o
do mar", a que dá a "vida ou a morte", através da comida nosso mundo. (Ver Mbaé-Reguá.) Habita um parafso terreal,
ou da fome. situado além da visão humana, na direção do nascente, chamado
NGAI - Entre os masais, povo pastor da Ãfrica negra, va- Yvy-Marãey *. Filho do ser supremo Nyanderuvusu * com a
riante tribal do deus criador. primeira mulher, Nyandesy *. Do pai recebeu as insignias e
o govêrno do mundo. Para alimentar o irmão Tyvyry •, depois
NGOFIO-NGOFIO - "O pássaro da morte", no ciclo dos cas- de morta a mãe, criou os frutos que se encontram pelo mato.
tigos à rebeldia contra as leis divinas, na m.i tica africana re-
colhida por Blaise Cendrars (Antologie Negre). A morte de NIANIGUGICO - O mesmo que Ninigogico *. Para os cadu-
um homem - aos olhos dos deuses - sômente se completa veos, espírito mau invocado pelos feiticeiros quando da in-
depois que o morto ouve Ngofio-Ngofio. Os que foram maus terpretação dos agouros.
e não observaram os preceitos, penam muito tempo, vagando NIBET.AD - Figura milica dos caduveos. Desceu do céu, es-
à noite pelos sítios onde viveram, até ouvir o pássaro atroz. colheu uma espôsa entre os indios e ensinou a arte da feiti-
Ouvindo-o, vão para Ototolan, o reino das trevas. Mas os çaria aos dois filhos nascidos dessa união, Gawé-txéheg e
que foram bons, "voltam à aldeia e estão de bem com os Nõmilek'a.
homens; a própria festa dos funerais alegra seus corações".
E quando ouvem Ngof10-Ngofio, começam a engordar, engor- NINA - Divindade menor do panteão inca, ligada ao ciclo
dar e estão mortos. da conquista do fogo. Restrita mais tarde à proteção da
primeira chama nos fogões domésticos.
NGOY AMA - Mitica africana de Musanye. Demônio que se
faz parecer em tudo com o homem. Sómente não alcança eli- NINA RODRIGUES, RAIMUNDO - Dos maiores etnógrafos bra-
minar a cauda, que procura manter escondida. Usa aproximar- sileiros, nasceu em Vargem Grande, Maranhão, a 4-12-1862
-se de um chefe de família, tornar-se simpático, agregar-se ao e faleceu em Paris a 17-7-1906. Lecionou Patologia Geral
clã. Depois do que, na ocasião oportuna, tranqüilamente devo- e Medicina Legal na Faculdade de Medicina da Bahia. Foi
ra o benfeitor e enfeitiça os demais membros do grupo familiar. também emérito criminalista, patologista e sociólogo. Publi-
cou cêrca de quarenta trabalhos compostos em sua maior
NGU - A tartaruga na epopéia mitica da Ãfrica negra. Tal parte com observações diretas. Iniciador dos estudos sôbre
qual o jaboti para os indígenas brasileiros, Ngu figura em de- cultura negra no Brasil, deixou, entre outras obras marcan-
zenas de estórias populares. Pode ser humilde corno na faça- tes : L'animisme /etichiste àes negres de Bahia, Bahia, 1900,
nha em que desafia a velocissima águia Kipalala • para uma da qual há tradução em português; e Os Africanos no Brasil,
corrida em disputa de uma noiva e vence-a dispondo inúme- S . Paulo, 1932.
ros de seus primos ao longo da rota, enquanto ela mesma to-
mou lugar junto ao marco de chegada. Ou pode ser gigan- NINIGO - Herói mítico dos caduveos. Foi quem "bateu a
tesca como ao engolir uma noiva e todo o seu séquito de terra, que, assim, se tornou mulher. Em seguida, fêz um
amigas para livrá-las de perigos iminentes e transportá-las homem". Dêsse modo foi povoado o mundo caduveo.
NIN 184 185 NOV

NINIGOGICO - Também Nianiguglco •, espfrito mau da mito- do pato. A filha da Cobra Grande, quando viu a estrêla
logia dos caduveos, invocado pelos feiticeiros quando da in- d'alva•. <:ll~se a .seu marido: - A madrugada vem rompendo.
terpretação dos agouros. Vou div1d1r o dia da noite. Então ela enrolou um fio e disse-
-lhe : - Tu serás cujubi. Assim ela fêz o cujubi (ave co-
NIPA - Legenda dos algonquinos, indios do Canadá, que atri- mum na Amaz~nia inferior, Oumana cujubi, Pelz.); pintou
bula à Lua podêres divinos sôbre a noite, a morte, o sono e o a cabeça do caJubi de branco com tabatinga; pintou-lhe as
frio. pernas de vermelho c01n urucu, e, então, disse-lhe: - Canta-
NKURE - Na mftica dos africanos centro-ocidentais, o pri- rás para todo o sempre quando a manhã vier raiando. Enro-
meiro dos filhos homens do casal original Sekumé * e Mbongwé •. ~ou o fio, sacudiu cinza em riba dêle, e disse: - Tu serás
Nkure significa literalmente O Tonto, O Mau. Seus irmãos, 1nambu, para cantar nos diversos tempos da noite e da ma-
também como êle pais das tribos, foram Bekolé * e Mefere •. drugada. lt desde então que os pássaros cantam em seus
tempos, e de madrugada, para alegrar o principio do dia.
NKWA - A terceira pessoa do deus uno africano Nzam6 •,
também nome da primeira pessoa. A segunda pessoa é Quando os três servos chegaram, o m6ço disse-lhes: Não
f ôstes fiéis. . . virastes macacos, andareis para todo sempre
Mebere •, que significa O Criador, tido como deus uno en-
tre certas tribos. pel<>s galhos dos paus. A bôca preta e a risca amarela que
êles têm no braço, dizem que são ainda o sinal do breu que
NOCUMA - Na mftica dos acagchmem, outrora dominantes em fechava o caroço do tucumã e que escorreu sôbre êles quando
certa região californiana, o cs.pitulo que trata da criação da o derreteram'~. Couto de Magalhães assinalou nesta lenda si-
terra e do homem. N ocuma criou a terra com forma de bola militud~ com os Vedas e o Gênese, dizendo: "a questão (de
e pô-la equilibrada sôbre o rochedo Tosaut. Os peixes dos ria- onde viemos ? ) é no fundo resolvida pela mesma forma isto
chos vizinhos terminaram por roer a pedra Tosaut em cujo é:. no principio todos eram felizes; uma desobediência,' num
interior encontraram a secreção da bexiga que, espalhando-se, episódio de amor, uma fruta proibida, trouxe a degradação."
tornou salgada a água dos mares. Foi com a terra da super-
ficie que êle modelou Ejoni •, o primeiro homem e Aã •, a NOH EK - Entre os maias do Iucatã, deusa de particular
primeira mulher. grandeza, personificada na estrêla Vênus.

NOITE - A lenda que abre a série das chamadas "Lendas NONCOMALA - Para as tribos primitivas da Costa Rica
Tupis" de O Selvagem, obra clássica do General Couto de Ma- deus que retirou a terra e as águas da escuridão do princi~
galhães, é relativa ao aparecimento da noite. Segundo Curt pio dos tempos. Desposou Rutme, espf.rito das águas, resultan-
Nimuendaju, apuà Herbert Baldus, foi narrada no dialeto tupi do ~êsse consórcio os gêmeos Sol e Lua. Irritado com o pro-
que é a Ungua geral dos indios do Pará. O próprio Couto de c~dimento dos homens, provocou o dilúvio. Ninguém sobre-
Magalhães resumiu-a: "No principio não havia distinção viveu, mas o bondoso deus Nubu * salvou algumas sementes
entre animais, o homem e as plantas: tudo falava. Também de homens para plantio posterior. Assim fêz, porém algumas
não havia trevas. Tendo a filha da Cobra Grande se casado, sementes haviam sido estragadas pela água e a espera. De-
las nasceram os macacos.
não quis coabitar com seu marido enquanto não houvesse
noite sôbre o mundo, assim como havia no fundo das águas. NOU-MOHK-MUCK-A-NAH - Cerimônia complementar àque-
O marido mandou buscar a noite, em casa de seu sogro, a la do 0-kié-pá * dos peles-vermelhas. Lembrava a chegada ao
qual lhe foi remetida encerrada dentro de um caroço de tu- mundo do primeiro homem, representado, então, por um
cumã, bem fechado, com proibição expressa aos condutores de velho revestido com quatro peles de lôbos brancos e portando
o abrirem, pena de perderem a si e a seus descendentes e a um cachimbo na mão esquerda. Narrava aos maiorais da
tôdas as coisas. A princípio, resistem à tentação; mas depois tribo, pintados de prêto, como lograra escapar ao dilúvio, gra-
a curiosidade de saber o que havia dentro da fruta os fêz ças a Grande Canoa encalhada e·m alta montanha, no oci-
violar a proibição, e assim se perderam. Tôdas as coisas dente. Cada chefe de familia levava os seus para dentro
que estavam espalhadas pelo bosque imediatamente se trans- da tenda ~ ~esta ninguém saia até a manhã seguinte, quando
formaram em animais e pássaros. As coisas que estavam ocorria a iniciação dos jovens da tribo.
espalhadas pelo rio se transformaram em patos e em peixes.
Do paneiro gerou-se a onça; o pescador e sua canoa se trans- NOVENDE - Na mitica boliviana, espécie de duende•. Baixa
formaram em pato; de sua cabeça nasceram a cabeça e o bico estatura, coberto sempre por um chapéu enorme ou por um
do pato; da canoa, o corpo do pato; dos remos, as pernas barrete vermelho ou verde. Freqüentemente veste capa ou
186 187 NZA
NSI

poncho de côres variadas e berrantes. Pode habitar o fomo abismo infinito, o mundo estará destruldo por aquêle que o
caseiro de pão ou os desvãos maiores dos telhados. Chama. a. criou.
atenção daqueles com quem pretende comunicar-se atirando-lhe NYANDESY - "Nossa mãe", na mitologia apapocuva. ~ a
pedrinhas ou mediante assobios caracteristicos. O barrete, o primeira mulher, criada pelo ser supremo, Nyanderuvusu •.
assobio e outros detalhes aparentam-no com o sacl brasileiro. Com êste teve um filho - o grande herói civilizador Nhande-
Também manifesta pontos de contato com o Chiqui • perua- rykey *. Outro filho seu e igualmente herói civilizador é
no e argentino. T'Y1Jyry *, cujo pai foi Nyanderu-Mabaekurá - "nosso pai
NSISSIM - Na mltica do centro ocidental africano ligada à conhecedor de tôdas ~ coisas" e inseparável do primeiro dos
criação do homem, é o esplrito, o sOpro criador dos deuses, sêres. Nyandesy, ao fim de sua gesta é morta pelas onças
infundido por Nzamé • ou Mebere • no homem Sekumé •. que encarnam todo o mal, as quais, porém, respeitam seus dois
Nsissim é a parte interior da criatura humana e existe in- filhos, predestinados a criarem o mundo dos apapocuvas.
serida no Gnul •, que é a parte externa, corpórea. Contudo, NYANKOMPON - Também chamado Nyame, o deus superior,
"Nsissim é o que produz a sombra - no texto de Blaise Cen- o grande espirlto dos Fanti-Ashanti da Costa do Ouro e dos
dras - AntoZogie N~gre, apud Maravilhas do Conto Africano. bush-negroes • da Guiana Holandesa.
"A Sombra e N sissim são a mesma coisa, N sissim dá vida a
Gnul Nsissim vai passear de noite, quando estamos dormindo, NYANKOMPONG - O deus tutelar, à princípio homem e de-
Nsis~m vai-se embora quando o homem morre; mas Nsissim pois elevado a mentor espiritual por ter fundado uma famllia
não morre. Sabeis onde se aloja, quando está em seu Gnul? ~umerosa, entre os negros de crença Ashanti. Tem seu simile
No õlho. Sim, habita no ôlho, e êsse ponto brilhante que mais próximo no Accompong * dos Cromantis da Costa do
vêdes no meio é Nsissim." Ouro, muito cultuado na Jamaica.
NUBU - Divindade dos indígenas da Costa Rica. Ao verifi- NYARA - Na mitofogia caingangue desempenha o papel re-
car a ira do deus criador N oncomala * contra os homens e presentado por outros heróis e heroínas na mitologia ame-
prevendo os efeitos do dilúvio provocado por aquela divi~dade, ricana. De seu corpo, arrastado e sepultado em uma roça
Nubu guardou sementes de homem, plantando-as depois da nova, brotou o milho, alimento providencial, tão importante
retirada das águas. Assim repovoou o mundo, mas de algu- que sua origem remonta ao divino.
mas sementes deterioradas nasceram os macacos.
NYPARAYA - Na mitologia dos pericues da América do
NYAME - Forma abreviada de invocar Nyankonpong •, o · deus Norte, especialmente da califórnia, o criador do céu e da
principal dos Fanti-Ashanti da Costa do O~o e dos seus terra, dispensador dos alimentos. Invisivel, informe. Casado
descendentes diretos, os bush negroes • da Guiana Holandesa. com Arayicoyondi, com a. qual teve dois filhos, Quaayayp •
("o homem por excelência") e Amayicoyondi *. Mantinha o
NYANDERU-MABAEKURA - Significando "nosso pai que sabe
céu povoado por incontáveis deuses até que teve de enfren-
tôdas as coisas", tem uma situação estranha e muito cômoda
no panteão apapocuva. Não é principal nem é muito atuante. tar e vencer a revolta de um dêles, Wac *, o preferido. Das
alturas precipitou o vencido para o fundo do mar, onde lhe
Por vêzes confunde-se a sua atividade com a de Nyanderuvusu •,
incumbe cuidar dos monstros marinhos.
0 ser s upremo, mas de modo geral é mero acompanhante
dêste. Contudo é o pai do segundo filho (o herói Tyvyry •), NZALAN - O Trovão, nos cultos africanos do centro-ocidental
de Nyandesy •, a mãe de todos os homens. centralizados em Uganda. Era o mensageiro de Nzamé *, o
NYANDERUVUSU - Traduzindo "nosso pai grande", o ser deus grande e também o executor das penas capitais. Foi êle
principal da mitologia apapocuva. Criou a Terra preenchen- o convocado por castigar com a destruição a Farn *, o pri-
do os quadrantes formados pelos braços de uma cruz de ma- meiro homem revoltado contra 0 deus criador. Chamado por
deira. De um ato seu virá a destruição do mundo. Fêz a Nzamé, "Nzalan acorreu fazendo grande estrondo. . . e o
primeira mulher - Nyandesy •, "nossa mãe", a qual veio a fogo do céu abrasou o bosque. Comparado com tal fogo, o
conceber um filho de seu próprio criador e um segundo filho incêndio de uma plantação é a chama de uma f afsca. Fii, fii,
de Nyanderu-Mabaekurá, ou seja, "nosso pai conhecedor de fií!, estava tudo em chamas .. . O primeiro homem queimou-
tOdas as coisas", o qual estava sempre ao lado de Nyanderuvusu. -se ... " O texto é o de Blaise Cendrars, da AntoZogie N~gre,
Quando aborrecer-se do mundo que criou, dará um sinal e traduzido por Maria Adelaide Baptista Nunes para Maravilhas
seu filho retirará a escora que sustenta a Terra. Caindo no do Conto Africano.
188
N ZA

NZAM:lt - Mito dos negros fons · com elementos do · fogo-


-fátuo 0 bitatá ou boitatá * brasileiro. A lenda de Nzamé foi
regist~ada por Blaise Cendrars em sua Antologie N~gre (La
Sirene, Paris, 1921) , comentado por Gustavo Barroso (O Ser- ..
. tão e 0 Mundo, RJ, 1923) e referido por Câmara Cascudo. ei:
seu dicionário de folclore. O deus Nzamé casou-se com. Mbo~a ,
môça lindíssima que lhe deu o filho Bingo.. ? meruno tirou
uns peixes ao saveiro do deus. Nzamé, 1rntado, lançou o
..
o
filho em um abismo. Mboia precipitou-se à procura do filh?.
Não o encontrou mas continua na procura, sob forma lurm-
nosa e sonora, geralmente à noite. ~ um bom exemplo e OBÃ Entre os orixás femininos da linha umbanda•, é es-
raro de convergência de mitos e de nomes (Mboia, mboi) pirito guerreiro. Coral e encarnado, suas côres; quinta-feira,
entre 0 indigena americano e elementos da mitica aahants. o seu dia.
OBAG - Na mitica dos iorubas, os ministros de Xa.ngõ, que
deram disciplina e defenderam o culto daquele orixá. Nos cul-
tos afro-baianos ~ obag são doze. Seis estão do lado direito
do rei e são: Abiódun, Onikôyi, Otum Onanxõkun, ôku_ Kaká
Nhô e Ossi Onikôyi. Quando um obag morre é imediatamente
substituido por um sucessor longamente preparado. Porém
o espfrito do morto retoma sete dias depois a fim de transmi-
tir as últimas recomendações. Não é visto mas ouvido cla-
ramente.
OBA-OGO - Ou seja, "o rei da glória" ou "o rei sobremodo
glorioso", uma das muitas invocações com que nos cultos afro-
-cubanos é distinguido o ser supremo Olorum.
OBATALA - Ou Orixalá ou Oxalá* na mitologia dos iorubas,
é o deus da Criação, pois foi o orlxá • que auxiliou Olodu-
maré - isto é, o Senhor, a criar o homem e a mulher. Olo-
dumaré fêz esboços . grosseiros em argila e confiou a Obatalá
o desenho da bôca, do nariz, dos olhos e das orelhas e a fi-
xação harmoniosa dos membros. Em seguida, Olodumaré vol-
tou a atuar, insuflando a vida às criaturas. Obatalá assiste
no templo da Ilha de Ife, que é o lugar de origem de tôdas
as coisas. Aparece quase sempre sentado, tendo ao lado a
espôsa Ye Movô. Essa junção é representativa da dualidade
"céu e água".
OBBA - Também Obbé. Nos cultos afro-cubanos é a comida
ritual dos deuses. Chamada mais comumente Calalu *, Cala-
lou des morts •, ·no Haiti. Segundo a receita de Pichardo "es
la comida compuesta de hojas de malanga, verdolagos, calabaza
y otros vegetales picados y cocidos con sal, vinagre, manteca
o aceite". CoITesponde, pràticamente, em têrmos culinários ao
caruru co~cido no Bl'c:lSil.
OBONECU~ - O mesmo que Abanecué, cerimônia de iniciação
dos fiaiügos, culto secreto afro-cubano.
191 OKI
OBB 190
ODU - Nos cultos afro-cubanos de origem ioruba, acom-
OBBONEY - Divindade negra da Jamaica, provàvelmente im- panhante sistemático do grande orixá lfá ou Bangá •, jun-
portada ao panteão dos Coromantis da Costa do Ouro. Em seu to ao qual, às vêzes, serve de intercessor.
livro Black Roadways, Martha Becwith, citada por Artur Ra-
mos (As Oulturas Negras no NóVo Mundo), filia a Obboney OGA-OGô - Invocação de Olorum, o ser supremo para os
pelo radical obia, o designativo genérico de tMas as magias, cultos afro-cubanos. Oga-Ogó quer dizer precisamente: "ser
boas ou más, nas Antilhas e na Guiana Inglêsa. glorioso e altaneiro".
OBEAH - A divindade mágica principal, o grande espirito das OGUM - Na Umbanda *, o orixá * das discórdias, da guerra.
sombras para os negros da Jamaica. Segundo Edwards, é a sig- Seu dia é quinta-feira; as insignias, espada e lança; a côr, o
nificação mais larga do Obboney • presente no culto dos Coro- encarnado; animal, o galo vermelho; bebidas, a cerveja branca.
manLis ou Kromantis da Costa do Ouro. Exigindo sacrifícios OIA - O mesmo que Iamsã *, orixá sudanês dos ventos e da
e ritos propiciatórios, Obeah passou a ser a ··e oncepção mágica tempestade. Entre os sudaneses, orixá do Rio Níger. Identi-
da vida que opera nas trevas e ·ptovoca contrariedades ficada com Santa Bárbara. Vermelho e branco são as suas
em todos os atos, disposições e momentos da vida humana. côres nos terreiros da Bahia. Sexta-feira, o seu dia. Tam-
Para aplacá-lo e mantê-lo distante dos homens, êstes criaram bém invocada como Oxum.
uma sorte de culto, na base de · exorcismos, esconjuros, of.e ren- OITIBô-CUPUAABA - Na mitica dos orizes, nação ferocís-
da e curas. sima de indios do sertão baiano, pacificada a custo já no
OBIA - Também chamados wisi *, objetos mágicos dotados século XVIII, o Oitibó-Cupaâba - ( caprimulgus grandis,
de altos podêres na crença dos bush negr.oes da Guiana Holan- Mart) tinha foros de sobrenatural e recebia reverências ca-
desa. Como Obia ou como Wisi, êstes objetos não alcançam bíveis a entidade deificada. No texto de Joseph Freyre de
a categoria de winti •, isto é, deuses. De modo geral, Obia são Monterroyo Mascarenhas ( 171.6), apuà Câmara Cascudo, vem
objetos destinados à mágia boa ("Obia é bom, protege o ho- escrito que os orizes... "reconhecem e adoram por Deus a
mem ... "), contràriamente a wisi, objetos para magia ruim. coruja chamada na sua linguagem Oitibó-Cupuaâba; e o mo-
A sorte de obia tem dois tipos: tapu e opo. Tapu é instru- t ivo da sua adoração consiste no benefício que recebem desta
mento de defesa, agindo contra fantasmas, armas de fogo, ave, que, naturalmente inimiga das cobras, numerosíssimas
calúnia, impotência sextial, esterilidade, ~oléstias, etc. Opo naquele pais, as espia nos matos e lhes tira a vida".
é magia boa, ofensiva: amuletos que permitem conquistar
o amor do homem amado ( opo uma) e da mulher amada 0-KE-HEE-DI - Na dança mitica dos peles-vermelhas, intitu-
( opo man) , bons negócios, etc. lada genericamente festa do Nou-Mohk-a-Nah •, personagem
que simbolizava o bem na luta contra o Mau Espirito que ata-
OCHANBIN - Entre os nagôs, orixá menor para a Me- cava crianças e mulheres e procurava dispersar os rebanhos
dicina e a saúde. (Ver Ajé-Xalugá •.) de bisões necessários à subsistência da tribo. A dança ter-
OCHOPANNIZTLI - No décimo primeiro mês do Xiuitl *, o minava com a vitória de 0-Ke-Hee-Di, proclamada mãe dos
ano solar e religioso dos astecas e cujo nome significa "lim- bisões, ganhando vestimenta especial e o bastão com que
peza com a vassoura", ocorriam as festas em honra das deu- conduzirá a dança no festim dos bisões.
sas da terra e da vegetação. Mulheres curandeiras e cor- OKI - "O grande espirito", o Manitou Man'ito, ou Manitu *
tesãs reconhecidas, simulavam combate, no decorrer do qual, para os hurões, índios norte-americanos. Potente, onisciente,
sacrificava-se uma mulher personificando Toei ou Tocitzin •, ora bom ora mau, afetando diretamente os sentimentos e os
a mãe dos deuses. Durante êste mês, os jovens que houves- sucessos dos humanos. O mesmo que Waikanda, Pokunt, Coen,
sem alcançado a distinção de figurar entre os guerreiros des- !nua, Orenda.
filavam ante o imperador, recebendo dêle as insignias ou as
armas. 0-KU::-PA - Festa com que inúmeras tribos peles vermelhas
comemoravam a imemorial chegada entre elas de um pássaro
OCOSINGO - Segunda das três cidades-mães da América trazendo a fôlha do salgueiro, planta important1ssima na vida
Central e da civilização maia, fun~c;i~ por Votan •, mís- das tribos. No centro da taba armavam uma barca, restos
tico sacerdote, sábio e legislador, clíefe · de uma leva imi- de memórias do dilúvio referido nas legendas. Na barca,
gratória procedente da Llbia. As outras cidades fundadas acumulavam apetrechos usados pelos feiticeiros durante a ce-
para centro do nôvo pais teriam sido Soconusco • e N achan rimônia.
ou Palenque.
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o-KIE-PA-KASIE-KA - No ciclo das cerimônias mlticas com geridas ritualmente, provocavam estado especial de embria-
que os peles-vermelhas comemoravam 0-Kié-Pa •, a chegada guez, dentro do qual o ticitZ podia identificar a origem dos
do salgueiro, de Nou-Mohk-a-Nah • o primeiro homem, era males e doenças que afligiam o seu paciente. Sómente conhe-
esta a personagem que simbolizava o espirito da desordem, cendo tal origem (castigo, perda da "estrêla", magia negra,
da oposição e terminava por enfrentar e ser vencida por 0-Ke- sofrimento ou destruição impostos ao totem do doente, etc.) é
-Hee-Di •. que os curandeiros encaminhavam o tratamento.
OLARUM - Espirito supremo em Umbanda •. lt um abso- OLOLU - Orixá menor (ver Babalá), nos cultos afro-cubanos,
luto Trino, como no Cristianismo e no Bramanismo. Seus três onde é sincretizado com São João Batista.
a.spectos têm as seguintes definições: Obatalá •, correspon-
dendo ao Pai, no cristianismo e ao Brama, no hinduísmo; OLORUM - Na mitoteologia afro-cubana, é o senhor do céu.
Oxalá •, correspondendo ao Filho, no cristianismo e Vlxenu Forma primitiva de um monoteismo negro, que na América
no hinduismo; Ifá, igual ao Espirito Santo no cristianismo e tomou novas formas e deslizou para o politeismo. Não recebe
May, no hinduismo. culto especial. Simplesmente existe, informe, inidentificável,
sem nenhum simile. Recebe inúmeros outros nome.~. em Cuba:
OLISSARA - Também chamado Lissa, é o vodu • do culto Olodunare (o que sempre é justo) : Oga-ogó (ser glorioso e
jejê, corresponde no culto nagõ (ioruba) a Oxalá•. Nos altaneiro, rei da glória); Oluwa (senhor dos senhores):
terreiros do Brasil, muito mais do que nos próprios templos Obafígidzi (o senhor nosso), EZemi, EZedi e outros ainda.
africanos, ficou estabelecida uma correspondência entre orlxás OLUWA - O senhor invocação, nos cultos afro-cubanos para
e vodus, conforme o quadro seguinte, válido principalmente Olorum.
para os terreiros da Ballia:
OMECIUATL - "A Senhora da Dualidade", formava com Ome-
Orixás Vodus tecuhtli * o "casal primordial", a Dualidade geradora, atra-
(culto nagô - nação Ioruba) (culto jejê) vés de fecundidade eterna, dos deuses e dos homens.
Exu Legba OMETECUHTLI - "0 Senhor da Dualidade" na mitologia as-
Ogum Gou teca, o cabeça do casal propiciador de tõdas as coisas.
Oxóssi Aghê Sua companheira era Omeciuatl, "a senhora da Dualidade·'.
Omolu Sakpata Residiam, nos primórdios, no mais fundo do vértice do mundo
Xangô Sobo ou Badé - "lá onde o ar é muito frio, leve e gelado", segundo a frase
Oxum Aziri registrada na História de Tlaxpala, por Mufioz Camargo. Do-
Oxalá Olissara tados de fecundidade eterna, dêles nasceram todos os deuses e
vão nascendo todos os homens. Os deuses tomaram para si
OLODUMARJJ:: - Ou Olorum, é o grande deus ioruba da cria- muitos encargos, mas com o "Casal primordial" permaneceu
ção do mundo. :8: único, supremo, distante, misterioso, neutro, sempre o privilégio de fixar o nascimento e, consequentemente,
surdo às preces. :mie quer e pode, não atende senão aos ori- o destino dos homens.
xás • e vodus. Na tarefa de criar, apenas deu os traços iniciais
OMOLU - Também Omonolu, Abaluché, Afomã, Xapanã., Oba;.
do homem e da mulher, deixando ao primeiro dos seus orlxás -
luaiê, Babalu-aiê, o mesmo que. Humoulu •.
Obatalá ou Órixalá, a tarefa de compor e terminar bôca,
nariz, olhos, ouvidos e membros. O sôpro de vida, sim, foi OM'TUt - Na mitica religiosa dos indios craôs, da região do
dado também por Olodumaré, cujo nome para os f ons e evés Rio Prêto, Bahia, o gênio mau, o diabo. Está em oposição per-
é Segbo Lissa ou Dada Segbó. No Brasil predomina a forma manente a Ipana. *, o Ente Supremo, o Gênio Bom, Deus. Se-
Olodumará, pelo contingente de iorubas trazidos ao pais. gundo porém os estudos de Teodoro Sampaio (Revista do
Instituto Histórico Brasileiro, LXXV), a idéia antõnima de
OLOKUN - Orixá * umbandista do mar. Verde e branco são Deus e do diabo, de gênios bom e mau só foi definida no es-
as suas côres; quarta-feira, o seu dia; um remo, a sua insig- pirito dos craôs depois de sua pacificação e após contato prolon-
nia; ostras e peixes a sua comida ritual e aguardente pura gado com os brancos. Em seu estado primitivo desconhece-
ou rum a sua bebida. riam tais noções.
OLOLIUHQUI - Planta sagrada, entre os astecas, ainda não ONAGAIT - Espirito supremo para algumas das tribos do
identificada exatamente pelos estudiosos. suas sementes, in- norte e noroeste argentinos, da Bollvia, Paraguai e Peru. Sua
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materialização ocorre na preciosa Caá Jhe En, chamada tam- e outras coisas mais e sempre cuidou dêles. Criou todos os
bém yerba àulce. Depois de pacificar com sua presença e pa- animais, plantas e pedras, para que a sua gente tire proveito
lavra duas nações em ponto de extinção pela guerra conti- delas. Um dia, Deus se retirou e os caduveos se espalharam
nuada, Onagait voltou ao céu deixando o corpo na Terra. pelos montes, criando filhos e formando aldeias. Não tinham
Sepultado, em poucos dias a planta benéfica nasceu sôbre a mais do que um só deus e êste tinha uma filha sõmente".
tumba permanecendo entre os homens como simbolo de do-
çura, penhor da paz. OONAWIEH UNGGI - O deus vento ou o "deus que vem com
0 vento", na mitice. dos indios cherokees, norte-americanos.
ONANÃ - O mesmo que Namburucu, Anamburucu, Nanã, Anã. É boa ou má a disposição e a atuação de Oonawieh Unggi se-
ONATAH - Na mitica dos iroqueses, indios da América do gundo a velocidade, a voz e a conseqüência do vento.
Norte, o espírito do milho, a mãe do milho. Filha da terra, OPEI.J!': - Para os fiéis dos cultos afro-cubanos, o mensagei-
foi lançada a um buraco no solo por um empurrão do Espírito ro utilizado pelo orixá 1/á ou Ban.gá para- sua comunicação
do Mal e ali permaneceu até que a fõrça generosa do Sol a com os homens, a revelação de segredos, os cultos de adivi-
fizesse germinar e ganhar a superficie sob a forma de planta. nhação e, em certas condições, os entendimentos que prece-
Entre a maioria das tribos do sudoeste americano, a idéia da dem as relações sexuais.
germinação do milho estava ligada a um grupo de donzelas
e não a uma só pessoa. A ímica exceção conhecida ao OPETE - Um winti • do panteão dos bush negroes da Guiana
gênero feminino como origem do milho é Mondamin, das tri- Holandesa, cujo simbolo material é o abutre.
bos dos algonquinos chippewa. Tratava-se de jovem de natu- OPHm - Segundo a teoria levantada em 1571 por Arius
reza divina, herói civilizador, foi morto e incinerado por um Montanus * e sustentada mais tarde por Gregório Garcia (1607),
homem. Do sitio onde übandonaram as suas cinzas brotou o P. De Roo (1900), ,Peregrino Vidal em nossos dias, Ophir -
milho.
na grafia clássica - seria o sitio do estabelecimento na Amé·
ONDEGARDO, Pólo de - Quando juiz e governador em Cusco, rica dos povoadores descendentes de Noé. Chefiados por Ophir,
homem culto quanto curioso, dedicou-se a estudar a legislação filho de Jectão, bisneto de Sem, filho de Noé, teriam fun-
e em seguida a religião dos incas. Sendo comedido e preciso, dado um reino no atual Peru. No século passado, Onffroy
deixou um trabalho famoso: Informacionea Acerca de la ReU- de Thoron retomou essa tese, porém situou Ophir no Alto Ama-
gion y Go'bierno de k>s Incas. zonas e garantiu que dali partiram navios tripulados por
tirios, levando madeiras e metais preciosos para os luxos do
ONDltS - Na mitologia afro-cubana, designações para os ori-
grande Rei Salomão, senhor em Jerusalém.
xás de terceira categoria (ver Babalá), também chamados fe-
tiches, gris-gris, eká, etc. São objetos de feitiçaria e fetiches OPOCHTLI - Isto é, "o canhoto", terceiro dos deuses invoca-
de ferro simbolizando diversos orixás. Desenvolvem funções dos pelos caçadores de aves lacustres da região de Cuitlahuac,
não especificas, originárias dos vários cultos negros influen- embora êste Opochtli fõsse originàriamente o deus particular
tes em Cuba (angola, conguense, negro-muçulmanos, etc.). de um povoado da costa, Uichilat, Seus simbolos eram a fle-
ONDRO-WATRA KROMANTI - Para os 'bush negroes da cha especial para a caça ao pato e o propulsor de dardos. Na
Guiana Holandesa, espiritos que vivem debaixo da água mitologia local, Opochtli tornou-se grande amigo de outro
e têm implicações diversas na vida do homem. deus, Uitzilopochtli *, talvez por serem ambos canhotos.

ONNIONT - Entre os hurões, indios norte-americanos, corria OPOSSUN - Entre os coras, indios mexicanos, o Opossun é
a lenda de uma serpente descomunal, armada de chifres dota- o herói da reconquista do fogo. O fogo era um bem ten eno,
dos de podêres mágicos, os quais, se possuidos por um mortal, pôsto sob a vigilância do iguano que, um dia, · brigando com a
asseguravam-lhe tôda sorte de felicidades. mulher e a sogra, levou-o para o céu. Os homens enviaram ao
céú inúmeros mensageiros buscando recuperar o seu tesouro
ONOE&RODDI - Deus-herói dos caduveos, "mandou o dilú- mas todos sairam-se mal. Vai o Opossun e rouba o fogo ao
vio para destruir tudo o que existia. Depois, só criou os ca- velho que o custodiava lá entre as nuvens, mas é alcançado,
duveos. Criou dois homens e duas mulheres. Contou-lhes furiosamente surrado ·e lançado para a Terra onde chega aos
tudo a respeito do mundo passado, destruido pelo dilúvio. Sem- pedaços. O fogo, que êle atirara antes de ser apanhado, in-
pre andou com êles e com os seus filhos. Ensinou-lhes a fa- cendeia a Terra inteira. Os homens juntam brasas sôbre o
zer pontes de ishipó para atravessar os rios, a construir casas corpo do Opossun que se reconstitui e ressuscita chamando en-
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tão a Mãe-terra - a dos seios sempre túrgidos que es- se perdeu nada. Ela amontoou-se formando um montlculo que
parge seu leite sôbre as chamas, acalmando-as e tomando s ubmergia. A galinha. . . voou para ir pousar ali. Desde que
0 fogo útil e manso ao domínio dos homens. ela se foi, se pôs a escavacar com as patas e os bicos esta
ORANIAN - Herói iorubano, segundo rei e pai do terceiro, matéria negra que se dispersou sob seu esfôrço. / E o mon-
grande conquistador, retomou de seus irmãos os bens e terras ticulo se espalhou e tomou o lugar da água. / E foi assim
que o pai, Okanbi, havia distribU1do, ao morrer. A lenda re- que na.Sceu a Terra, conforme a vontade do Todo Poderoso."
lativa à suprema cia de Oranian tem implicações importantes OREHU - Para algumas tribos aruaques, espirito das águas,
quando cotejadas com as de inúmeros outros povos africanos que metia em cabaças ou df'baixo de seixos, instruções me-
e amerindios. Na versão de José Ribeiro (Orkcás Africanos) é dicinais para as curas a serem efetuadas por Semechi, o pri·
assim: "No comêço a Terra não existia . .. / No alto estava o m eiro curandeiro das tribos.
céu. - Embaixo estava a água. / E não havia nenhum ser ani-
mando o céu, nem animava a água. / Ora, o Todo Poderoso ORENDA - Manitu, entre os iroqueses.
Olodumaré *, o Mestre e o Pai de tôdas as coisas. . . Criou ORIKI - Fórmulas rituais, louvores ou palavras de passe,
em seguida sete príncipes coroados. / Para alimento e entre- importa.1tes nas crenças dos iorubas. Na definição de José
tenimento dêstes principes êle criou em seguida sete cabeças Ribeiro: " ... êsses atos rituais, saudações, nomes, divisas,
muito grandes e cheias de Akassa, e sete sacos, nos quais louvores especiais de uma familia ou de uma divindade, são
havia coquinhos, pérolas e estofos, e uma galinha e vinte e por vêzes espécies de "canções de gesta" e de árvores genea-
uma barras de ferro. / Criou também, num espaço negro, um lógicas onde são invocados fatos em relação com a familia
pacote volumoso que não se via na natureza. / Criou enfim ou com a divindade. / A recitação de um Oriki permite ao
uma longa cadeia de ferro à qual ajuntou provisões, tesouros membro da familia, abandonado e perdido de vista desde mui-
e os sete principes. / Depois deixou cair o todo do alto do tas gerações, de s~ fazer reconhecer e de dar a prova de
céu... J Além do limite do nada não havia mais que a seu parentesco . . . / . . . pela recitação do Oriki de um Orixá
água. / Olodumaré, do alto de sua moradia divina, lançou um adepto prova sua dependência e se mostra digno de sua
uma noz de palma que caiu na água. / Logo uma gigan- proteção".
tesca palmeira se elevou até aos principes, lhes ofe·r ecendo
um abrigo vasto e seguro no meio do dilatamento de seus ga- ORIXAS - Em Umbanda •, são os grandes espiritos. Orixás
lhos. / Os principes ai se refugiaram e se instalaram com máximos são Obatalá, Oxalá e Ifá, as três denominações do
sua bagagem, abandonando a cadeia que subiu para o Todo espirito supremo Olarum. Outros orixás são: masculinos -
Poderoso. . . / Eram todos principes coroados e por conse- Xangô, Ogum, Oxóce, Ogum-megê, Irôko. Olokum. Ibêje. São
guinte queriam todos comandar; resolveram então se se- orixás femininos: Nanam ou Anamburucu, Iemanjá com
parar. / Os nomes dos príncipes eram : / Olou que se tornou uma dezena de outras invocações), Oxum, Iansãn, Obá, Os-
Rei dos Ebás. / Onsabé que se tornou Rei de Sabé. / Oran- sãe. (Ver os verbêtes respectivos.)
gun que se tomou Rei de na. / Oni que se tomou Rei de ORIXA-GUINAN - O mesmo que Ourixá-ó-cô e Gunucô.
Ifé. / Ajéro que se tornou Rei de Igero. / Alaketu que se
tornou Rei de Keto. / E o último criado, o mais jovem, Ora- ORúMBILA - Orixá menor (ver Obatalá ) dos cultos afro-
nian, que se tornou Rei de Oyo, de todo o Ioruba, isto é, de -cubanos, sincretizado com São Francisco e investido no
tôda a Terra, com supremacia sôbre todos os outros reis. / patronato da caridade.
Antes de se separar para seguir seu destino, os sete princi- ORUNL~ - Nos rituais lucumis de Cuba, entidade espiritual
pes decidiram repartir entre si a soma dos tesouros e das ligada ao acêrto e ao favor dos oráculos.
provisões que o Todo Poderoso lhes havia dado. / Os seis
herdeiros toma ram os coqueiros, as perolas, os estofos, e OSAIN - Entidade que pr~side as práticas de feitiçarias, se-
tudo que julgaram precioso ou bom de comer. Deixaram ao g undo as regras do culto Iucumi, em Cuba.
môço o pacot e de estôfo negro e vinte e uma barras de ferro. OSAI TANDO - Para os bush negroes * das Guianas, winti,
/ Os seis principes partiram à aventura nas galhadas da pal- senhor das águas e que lembra o culto dos Fanti-Ashanti
meira. J Quando Oranian ficou sõzinho, sentiu desejo de ver da Costa do Ouro, endereçado ao sagrado Rio Tano.
o que se a chava no pacote envolvido no veludo negro. Abriu
e viu uma porção de uma matéria negra que não conhecia .. . OSHô-OSm - Orixá de segunda categoria nos cultos afro-
~le pegou o estôfo. A matéria negra caiu na água . .. não -cubanos. Protetor dos caçadores, simbolizado por uma fi-
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gura de homem armado de arco e flecha ou, mais singela-
mente, por um arco distendido sustentando uma flecha.. Tem OWUO - A morte, na mítica negro-africana relatada por A.
como simile, para os afro-brasileiros, Oxóssi •. W. Cardinal, a propósito das crenças religiosas vigorantes no
Togo e regiões vizinhas. A morte era um gigante imenso,
osHUN - Freqüentemente confundido com Osunda •, êste orixá
amorfo, que não aborrecia os homens, vivia deitado, no re-
menor (ver Babalá) dos cultos afro-cubanos é invocado pe- cesso da floresta. Durante uma grande f orne, forneceu re-
los feiticeiros ilhéus que lhe dão como sincretismo local a petidamente carne a um jovem sob a condição de receber
Virgen de la Caridad dei Cobre. serviços em troca. O mõço cumpria as obrigações e em suas
OSSAÉ - Orixá feminino da linha de Umbanda, protetora ausências deixava ora um irmã-0 ora uma irmã servindo a
das florestas. Sua côr é o verde claro e o seu dia quinta- Owuo que no entanto os devorava reservando um pouco da
-feira. carne dos mesmos para o rapaz. Ao descobrir tal horror
o mõço correu à sua aldeia, reuniu o povo e convenceu-o a
OSSANHE - Também conhecido por Ossanyin, entidade de- ir com êle, longe, bem longe, botar fogo n'os cabelos do gi-
tentora do grande privilégio de governar o efeito das f ôlhas gante. Assim fizeram. Quando o fogo chegou à cabeça do
medicinais e das litúrgicas. Com isso pode dispensar ou gigante, êste morreu. O rapaz descobriu certo pó mágico
recusar a fôrça fisica, a virilidade, o poder, etc., virtudes entre a cabeleira do morto. Ninguém conhecia a utilidade
de que nem os orixás podem prescindir. O simbolo da enti- daquele pó. Um velho aconselhou experimentalmente algo
dade, principalmente sob a invocação de Ossanyin é uma fle- de que nenhum mal resultaria que se lançasse um pouco
cha de ferro com sete pontas voltadas para o alto, tendo um do mesmo sôbre os ossos amontoados na choça do gigante.
pássaro acomodado sôbre a ponta central. O rapaz aceitou a sugestão e ressuscitaram as môças e rapa-
zes devorados por Owuo. O jovem quis lançar uma pitada
OSUNDA - Orixá de segunda categoria (ver Babalá) nos
sôbre o gigante mas houve mêdo entre o povo. Mas êle insistiu
cultos afro-cubanos, é também conhecido como Ogum * e fre-
e deitou uma pitadinha sôbre o ôlho do morto. Imediatamen-
qüentemente confundido co1n Eshu • e com Oshun •. Em Cuba te o õlho se abriu; todos fugiram apovorados e, desde então,
é sincretizado com São Pedro e tem seu simile afro-brasileiro
a cada piscada daquele ôlho morre um homem. E o gigante
em Ogum. ~ o espirito da guerra.
está sempre piscando - não pode fazer outra coisa.
OTENTECUHTLI - "Senhor otomi", nome dado por algu-
mas tribos do Iucatã ao "deus velho", o deus do lume, OXALA - Em Umbanda •, a segunda denominação entre as
Xiuthcuhtli. três que compõem Olarum *, o espirito supremo. O corres-
pondente cristão de Oxalá é a Segunda Pessoa da Santissi-
OTOTOLAN - "A mansão ruim, onde se ouvem queixumes ... ", ma Trindade, ou seja, O Filho. No hinduísmo, o correspon-
o mundo das trevas e do frio na mitica das tribos africanas dente é Vixenu. ~ imenso o poder de Oxalá, o mais alto
pesquisadas por Blaise Cendrars (Antologie Negre). Ali vão de todos os orixás *. Sexta-feira é o seu dia; branco e
ter · os Bekun *, os que foram omissos ou revéis às leis divi- ouro as suas côres; um sol, a sua insignia; pão de farinha
nas, depois de um longo período em que, em seguida à morte, de trigo, a sua comida; vinhos brancos e doces a sua bebida.
vagaram como almas penadas, espiritos maus, atacantes no-
OXALUFAN - Herói peregrino, na mitologia nigeriana, tendo
turnos assombrando as próprias aldeias que habitaram em
vida. as principais aventuras (como a da viagem ao reino de Oyo),
conhecidas também na Bahia. Oxalufan, pai de Oxaguian,
OU'lr:DO - Ou ainda Ayida-Ouédo, uma das fórmulas de invo- Rei de Egjibó, projeta visitar Xangô, Rei de Oyo. Antes de
car a deusa do arco-iris nos cultos daomeanos e aquêles partir consulta um babalaô que desaconselha a viagem. Oxa-
afro-americanos dêle originários. Tem marcada presença lufan quer negociar com os presságios, desobedece e parte,
nos cultos afro-haitianos. levando três mudas de roupa, sabão indígena e manteiga de
OUR~-ô-Cô - Para os nagôs, o mesmo que Gunucô •. Karité. No caminho, o próprio Exu sai a atormentá-lo e tan-
tos sucessos maus o acometem que acaba prêso numa ca-
OVAKARU - Espírito ancestral. para os bantos e outros ne- deia do amigo Xangô. Sete anos de desgraças em todo
gros achegados a êstes. Logo após a morte, o esplrito passa- o reino levam Xangô a consultar Ifâ •, que aponta como
rá a exercer sõbre os parentes vivos o mesmo tipo de lide- causa a prisão de um inocente. Manda buscar o velho, reco-
rança - boa ou má - que o distinguira em vida. nhece o amigo, penitencia-se, cumula-o de distinções. Oxalu-
f an regressa para junto do filho. Em quase todos os ter-
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reiros da Bahia e em muitos da Africa - onde haja negros de
origem Kéto, a gesta de Oxalufan é comemorada anualmen-
te com grandes solenidades.
OXLAHUN-TI-KU - Significando literalmente "deus tru.e''
uma das invocações para Hunab-Ku - o criador do uni-
verso, dos maiores entre os deuses maias.
p
OXôCE - Orixá cujo reino são os matos. Quinta-feira é o
seu dia; o galo e o veado, seus animais; uma flexa. de es-
tanho o seu distintivo; verde a cõr de suas vestimentas;
carne de porco, amendoim, côco e milho, as suas comidas P ACARINA - Colunas de pedra que recebiam adoração dos
e mel de abelha e cachaça, a sua bebida. incas. A primeira pacarina resultara do corpo do primeiro
dos soberanos incas, Manco Capac, e fôra assim transformada
OXôLúN - O mesmo que Iemanjá, Princesa do Mar, Rainha para que os homens pudessem continuar adorando seu primeiro
do Mar, Sereia do Mar, Sereia, Sereia Mucufia, Princesa do imperador sem ofender aos sucessores. Com o correr dos tem~
Aiocá, Princesa do Orocá, Inaê, Marbõ. pos, cada tribo adotou uma pacarina por emblema do clã,
OXôSSI - Orixá * da caça, importante invocação entre os sempre invocando nela o ancestral da raça. O padre agos-
iorubas. Dizem-no proveniente de Ikijá, sitio próximo a Ijébu- tiniano e cronista colonial, Antônio de Calancha, escreveu
·Odé. Um arco e uma flecha, em ferro fundido, distinguem- a tal respeito: "Em Cusco, os índios oram a um demônio
-no. No Brasil, é conhecido também como Inlê ou Ibua- que tem aspecto de serpente. . . os habitantes de Huanaco
lama * nos cultos originários da Nigéria. Nos terreiros jejês adoram um leão (leia-se punia), os de Tiauanaco um réptil
da Bahia, também lhe dão o nome de Aghê *, invocação do enrodilhado, os de 'Tomebamba um urso e os de Cachapoya,
Daomé, pais onde dispõe de um grande templo (em Abomey) um tigre".
e é considerado um vudu que vai à caça para alimentar sua P ACARITAMBO - A mais popular das versões miticas rela-
mãe, Maou. tivas às origens da raça inca. Etimológicamente, Pacari-
OXUM-MAR~ - Orixá das águas e principalmente das chu- tambo significaria "casa da abundância". Diz o texto da
versão mais corrente: "A légua e meia de Cusco está Pa-
vas. Funciona como intermediário entre os demais orlxás
caritambo. Sôbre ela eleva-se a colina de Tambo-Tocco, isto
e os homens. Sábado é o seu dia; azul e branco as suas
é, "casa das janelas". Tais janelas tinham nomes: Maras-
cõres; uma circunferência de prata o seu símbolo; omolocô
-Tocco; Sutic-Tocco e Capac-Tocco; esta, a "janela da pom-
(se possível de feijão miúdo) a sua comida ritual.
pa" mereceu êste apelido por ser adornada de ouro e pedras
OXUM - Orixá * de Umbanda ligada aos raios, fontes e re- preciosas." .. . "Os avós dos principais clãs povoadores dos
gatos. Protetora das meninas, das môças, dos bailes, namo- vales de Cusco, vieram do nada, pelas (janelas) de Maras-
ros e casamentos. Azul e branco são as suas côres; segunda- -Tocco e Sutic-Tocco; mas de Capac-Tocco foi que saíram os
-feira o seu dia; uma pulseirinba de prata a sua insignia. quatro irmãos e as quatro irm.ã s Ayar *, fundadores da raça
O mesmo que Oiá * e Iamsã *. e da dinastia. Nos princípios pensou-se que as janelas se-
OYA - Na África, popular entre iorubas e nagôs, uma das riam cavernas nas montanhas. Estudiosos procuraram iden-
três espôsas reais de Xango * quando êste reinou em Oyo. tificar Pacaritambo com vários sitios arruinados do antigo
império. Hoje, a versão mais aceita é a de Hiram Binghan
Morta por um raio que o marido e rei atraira para o pró-
prio palácio, tomou-se na divindade do Rio Níger. ~ pois que afirma haver identificado o Tambo-Tocco ("casa das
um orixá de temperamento ardente e impetuoso que lhe vei<> janelas") no santuário do sol construido junto ao Monte
do fato de haver utilizado, às escondidas do marido, os talis- Machu-Pichu *, que seria, assim, o mítico Pacaritambo.
mãs encontrados no pais de Bariba e que transmitiam a quem PACARI-TAMBU - Ou seja, a "Caverna do Futuro", sitio
os usasse o poder de lançar fogo pela ventas. Nos terreiros de onde teriam saido, misteriosamente, no primeiro dia em
do Brasil, chamam-na Yansã * e julgam-na a única capaz que o Sol tomou seu lugar no céu, Manco Capac e seus ir-
de fazer curvar a cabeça aos Eguns ou armas dos mãos e irmãs para governar os povos. Assim, chamaram-se
mortos. Nas solenidades rituais, seus crentes levam cola- e fizeram-se chamar Churi-Inti, isto é, "filhos do Sol", e ado-
res vermelhos e na Bahia é sincretizada com Santa Bárbara. ravam e veneravam o deus Sol como seu pai.
PAC 202 203 PAT

PACHAC COILLATICA - Designação festiva com que 08 p APA - Na mitica indigena das regiões dos rios Negro e
quichuas do antiplano andino saudavam o arco-his, consi- Branco, Amazónia, conforme os depoimentos colhidos por
derado por êles o mais alegre e simpático dentre os filhos Antônio Brandão de Amorim, criatura espiritual e depois he-
do deus Sol. Interpretavam a côr amarela do arco-iris como rói carnal, companheiro de seu igual Piá *, que vieram ao
promessa de bastante chicha e de milho, a côr verde como mundo acompanhando Tupana * depois que as águas do di-
.f artura de coca. lúvio descobriram a Terra. Dispunham de podêres quase
PACHACAMAC - Ou "senhor· e guia do mundo" o grande deus iguais aos de Tupana. Enquanto êste ocupava-se em tentar
andino antecessor de Viracocha. Quando os incas conquis- com vários materiais (barro, madeira) fazer uma mulher
taram os reinos de Cuismancu e Chuquimancu, junto ao Pa- que, suportando seu amplexo sexual, o ajudasse a povoar
cifico, permitiram a continuidade do culto e das peregrinações o mundo, Papá e Piá cuidaram de refazer os animais, as
ao santuário nacional. Pachacamac era invocação ligada ao aves, os peixes e as árvores.
mar e seus problemas. Por isso, o grande templo chamava-se PAPA-FIGO - Duende do ciclo dos monstros assustadores de
Pachacamac-Irma, significando Irma o mar aberto, largo, crianças. Seria o lobisomem das cidades. Em 0Ma Grande
sem medidas. Sendo culto de origem chtoniana, discute-se e Senzala, Gilberto Freyre diz que " ... havia ainda o papa-figo,
ainda a antiguidade das ruínas do santuário e da cidade vi- homem que comia o figado de menino. Ainda hoje se afir-
zinha. As decorações têm por base homens mutilados, os ma. . . que certo ricaço de Recife, não podendo se alimentar
totens lembram plantas ou animais estilizados. Ignora-se senão de figados de crianças, tinha seus negros por tôda
o sentido de uma divindade-peixe e de outra divindade-gato parte, pegando menino em saco de estopa". :m descrito como
cercada por serpentes amistosas. Com a chegada dos es- sendo um velho sujo, horrivel, esmolambado. Em.prega doces,
panhóis, Pachacamac, cidade e templo começaram a ser des- brinquedos e a narração de histórias para atrair crianças
truidos. Hoje, são ruinas entre dunas solitárias. à saída das escolas ou aquelas cujas babás são distraídas ou
namoradeiras. Alguns comiam, mas outros vendiam a po-
PACHAYACHACHI - Ou seja, "criador do mundo", um dos
principais qualificativos do grande deus Viracocha *, entre tentados doentes, o figado dos seus prisioneiros.
os quichuas. Outros qualificativos comuns: Pachacamac, igual P ARABARA - Herói músico e dançarino da mitologia bo-
a "guia do mundo'' e Ticsi, que significa o eterno. Nas áreas roro. J!:: lembrado principalmente por lhe ser atribuida a in-
litorâneas e nas de influência mitica de Pachacamac, os qua- venção do instrumento de taquara rachada que se toca na
lificativos preferidos eram Irma e Kon. solenidade de investidura dos chefes.
PAITAITI - Traduzivel por "o pais do Ouro", estaria situa- PARANAMAIA - A Mãe-d'Ãgua ou Mãe-do-Rio, no registo
do junto às lagoas de Cuni-Cuni, nascedouros do Rio Para- de Martius (Viagem pe"lo Brasil, ID). Jt o mito de boiúna
guai. Inacessivel aos homens cobiçosos, tinha a custodiá-lo com as proporções aumentadas pelo terror. Arrebatava cri-
dois deuses: Poromoiiángara, deus-criador e Teyu-Yaguá - anças e adultos distraídos a se banharem nos igarapés. Não
o pavoroso lagarto-tigre. ibste pais do ouro povoou de vi- apresentava transformação ou atuação miraculosa - como
sões e de desejos os primeiros espanhóis chegados à América. diz Câmara Cascudo. (Ver Mboiaçu e Serpentário.)
PAJARO BRUJA - ~ o Nicticora.$ tayazu-guirra, encontra- P ARUIM - Tal palavra, que aparece no Livro II, Capítulo
diço no centro da América do Sul, especialmente no norte III, versiculo 6 dos Paralipomenos, tem sido identificada como
argentino (Córdoba, Santiago del Estero, etc.). Dizem-na a Paru - nome de dois rios an1azônicos (o Paru e o Apu-Paru),
encarnação de mulher colhida pela morte em pleno pecado e e também como a montanha rica em ouro, da mesma região.
que seu canto reproduz com exatidão o riso histérico da Seria uma prova de que a América foi povoada e serviu de
bruxa ou das bacantes. empório aos israelitas pré-salomônicos. A desinência im
hebraica, justificaria a mudança de Paru em Paruim.
P ANQUETZA.LIZTLI - "Tempo de levantar as insignias feitas
com penas de quetzal" - tal o significado do nome do dé- PATA - No rol dos deuses incas ligados às constelações (ver
cimo quinto mês do Xiuitl •, o ano religioso asteca. O ponto Collca, Chuquichinchay, Machacuay), esta era a denominação
alto do mês eram os combates simulados em honra de Uitzi- respeitosa das Três Marias. Conforme a lenda, espirito trino,
lopochtli * e a procissão em louvor do -deus Paynal, acólito sendo que o central, por boêmio e leviano, estava sob perma-
do primeiro. Do combate, apesar de simulado, resultavam nente custódia dos irmãos postados aos lados e supervisiona-
prisioneiros posteriormente sacrificados. dos, os três, pela Lua.
PAT 204 205 PIR

PATAN - o ser malévolo que na mitologia quiché, relatada a lenha. Graças ao fogo ela fazia comida cheirosa, boa. A
no Popol Vuh •, acompanhava o desapiedado Xic *. No ver- dos homens não era tão boa. Então os homens pediram-lhe
bête dedicado a êste relatam-se ações de ambos os demô- fogo. Ela recusou. Certa jovem vigiou a velha Pelenosamó
nios que, como todos os seus colegas quichés, agiam em e descobriu como ela acendia seu fogão. Vieram todos os
dupla. homens, agarraram a velha, amarraram-na de pés e mãos, jun-
PATECATL - O alegre deus asteca da bebida e da embria- taram lenha, puseram a velha sentada sôbre a lenha e aper-
guez, à qual estariam irremediàvelmente votados os homens taram-lhe o ventre com bastante fôrça. Ela defecou fogo.
nascidos na "trezena" quiauitl * a êle dedicada. Seu estêrco transformou-se em wato, as pedras de fogo do
Rorãima. Quando os homens querem acender fogo, batem as
P AXIL - Pais mitico, muitas vêzes tomado pelo Paralso por wato.
alguns historiadores, propiciou a Gucumatz *, o deus criador dos
quichés, a matéria com que êste criou os homens. Segundo PERDIDAS - Entre os esquimós, as estrêlas da constela-
Adrián Recinos, analisando o Popol-Vuh *, Paxil significaria ção de ôrion têm o nome de Perdidas. Acreditam tratar-se
"separação", extensão de águas" ou ainda "inundação". Esta de pescadores de focas que se perderam na imensidão ge-
região fértil encontrar-se-ia nas proximidades de Tabasco, lada e andam ainda lá por cima, procurando caminho de re-
junto ao Rio Usumacinta. Ali vegetava o milho, custodiado tôrno ao iglu. Tôdas as estrêlas, em tempos imemoriais, te-
pelo coiote e pelo corvo. Criado o homem, Gucumatz não riam sido homens ou mulheres.
tinha com que alimentá-lo. Viu-se obrigado a uma série de PEREGRINO VIDAL - Pseudónimo com que o religioso fran-
expedientes a fim de burlar aquêles guardas e obter o milho ciscano Frei Fidélis ( Fidélis Mott, natural do Tirol austría-
que se tornou o alimento predileto dos humanos. co, professo e atuante em residências franciscanas do Estado
de São Paulo) e~creveu numerosos trabalhos, em livros e
PEDINUCA - Deus supremo, civilizador e legislador, pai dos
deuses menores, para os guaicurus do Chaco. artigos de jornais, explicando sua tese de que o homem ame-
ricano descende de tribos sumérias e de que na língua sumé-
PEIXE-HOMEM - Parte do extenso mito do dilúvio, na tradi- ria está a chave esotérica do tupi, do naua, do othomi e de
ção dos indígenas chilenos. Quando o mar (não as chuvas), várias outras linguas americanas. Mais de duzentos artigos
começou a cobrir as terras, os homens refugiaram-se em para jornais, sôbre essa tese, foram assinados com o pseu-
um monte que prodigiosamente se alteava à medida em que dônimo de Da Motta. Seu livro, A América Pré-histórica e
as águas subiam. Mas nem todos alcançavam pôr-se a salvo, Hércules exumados da filologia sumérica é bastante citado
pois a inundação fazia-se veloz e todo aquêle que fôsse mo- neste trabalho. Faleceu em Botucatu, São Paulo, em 1968.
lhado transformava-se em peixe. Citando Diego de Rosales, PERIQUITO - Segundo lenda tapirapé, os primeiros casais
em El Diluvio según los Araucanos de la Pampa, Lehmann do mundo foram formados por dois homens jacu, uma mu-
Nitsche, a;puà Câmara Cascudo, conta que "de los que se lher mutum e uma mulher periquito. Por tal razão apre-
transformaron en peces, dicen que pasada la inundación o ciam especialmente essas aves.
diluvio, salian de el mar a comunicar con las mujeres que
iban a pescar o coger mariscos, y particularmente acaricia- PERU - Para os defensores da idéia de que os Andes como
ban a las doncellas, engendrando hijos en ellas; y que de tôda a América do Sul resulte de povoamento dos sumérios ou
haí proceden los linajes que hay entre ellos de índios que samaritanos, via Atlântida, a palavra Peru significa "DO-
tienen nombres de peces, porque muchos linajes Uevan nom- M1NIO DOS SACERDOTES", havendo tal região sido povoa-
bres de ballenas, lobos marinos, ilsas y otros peces". da pelas tribos chefiadas por Elasippos e Mestor, dois chefes
semitas que tomaram parte, com sua gente, na segunda mi-
PEJLAI - O deus das chuvas para os índios matacos. Re- gração Atlântida rumo aos Andes.
partia suas atribuições com a deusa Kasogonagá.
PIA - Companheiro de Tupana * no repovoamento da Ama-
PELENOSAMô - Na mítica dos taulipangues, da zona do zónia, depois do dilúvio. Em companhia de seu igual Papá *
Rorãima, Koch-Grünberg anotou a lenda da velha Peleno- ocupou-se em recriar os animais, as aves, os peixes e as
samó, a que descobriu o fogo de maneira peculiar: sentindo-se árvores.
aconselhada pelos espiritos, juntou lenha no fogão e acocorou- PIRACURUCA - Vila do Piauí, junto à qual teria existido,
-se sôbre os gravetos, o traseiro voltado para a abertura do em passado remoto, cidade habitada por um povo desconhe-
fogão. De seu corpo, pelo ânus, saiu muito fogo e incendiou cido. A cidade fantasma de Piracuruca é também chamada
PIR 206 207 POP

Sete Cidades, nome ainda de uma ilha misteriosa no Atlân- era chamado Tahuantinsuyu - que significa "o pais das
tico pré-colombiano. Estaria essa cidade compreendida num quatro províncias". Segundo Tello, Peru derivaria de PIRWA,
recinto fortificado com mais de meia légua de circuito. Den- nome traduzivel por "o pais da abundância".
tro, sete praças congregando um vasto arruamento, ao longo
POCAI - O Curupira * para os indios macuxis, da região do
do qual haveria ainda pilastrões arruinados e muralhas ci-
clópicas. Por tôda parte, figuras de pedra semelhantes a Rorãima.
esfinges. Gustavo Barroso descreveu pormenorizadamente esta POKlJNT - "O grande espírito", Manitou e também Man'ito •
cidade fantasma. (Ver Benigno, Riacho das Pontas.) para os shoshones, indios norte-americanos. O mesmo que
(ver ) : Oki, Wakanda, Coen, Orenda, !nua.
PIRANO - Em certas regiões do Império Inca, a parte da
cerimônia de sa.crificios humanos consistente num traço feito POMBA-GffiA - Em Umbanda * e Quimbanda, um exu • fe-
pelo dedo do sacerdote sacrificador, molhado em sangue da minino que demonstra prazer especial e:r:n atuar para fi-
vitima, de orelha a orelha dos fiéis. O nome mais comum nalidades amorosas, atendendo - segundo o Catecismo de
desta prática era VILACHA *, conforme vem nas crõnicas Umbwida, principalmente aos homens.
de Molina, Betanzos, Ondegardo e outros. PONDORO - Animal-gente, na crença do Zambese. As almas
PIRA-NU' - Versão corrente no território argentino de Mis- dos grandes chefes mortos encarnam-se em leões valentes.
siones, para o Minhocão * brasileiro. Segundo Juan Ambro- Quando um pondoro circula o rebanho ou a aldeia e o reconhe-
setti, apresenta-se como enorme peixe negro, "con la cabeza cem faminto, em busca de prêsa, antes de passar à defesa
como Ia de um caballo de grandes ojos". Atuando nos prin- armada, os aldeões tentam convencer o animal-gente de
cipais cursos d'água, vai nadando sempre na superficie, en- que tal prática não é digna da memória do antigo chefe. A
golindo quanto encontra. Usa de preferência virar as embar- forma us ual é, aproximadamente, esta: "Que espécie de
cações para devorar os tripulantes. chefe você se considera, introduzindo-se aqui, no escuro,
para roubar a nossa carne de búfalo? Belo chefe, que você
PIRIPIRI - Ente misterioso na mítica dos indios manaus. é! Não tem mais coragem do que um escaravelho!"
Exalava de seu corpo um perfume agradável e atraia muitas
mulheres. Porém, fugia a tôdas, e, quando em grupo, irri- POPOL VUH - Considerado o mais precioso documento da
tadas, pretendiam agarrá-lo, êle transformava-se em fumo literatura indígena americana, o Popol Vuh refere-se às ori-
ou em nuvem, desaparecendo. Certa vez, aconselhadas pelo gens, peregrinações e artes mágicas do povo quiché (Iucatã
grande pajé Supi, elas teceram mna rêde com seus cabelos e Guatemala, principalmente). Disse o especialista Hubert
e prenderam Piripiri, o qual, no entanto, ativando o perfume Howe Bancroft que é "em sua rude e estranha eloqüência
que exalava de seu corpo, fê-las dormir. ~le sumiu, deixando e poética originalidade, uma das mais preciosas reliquias do
entre as malhas da rêde onde fôra aprisionado, uma planta pensamento aborigine". Reúnem-se em suas páginas, ele-
desconhecida. O pajé Supi ensinou as mulheres a usar tal mentos miticos e históricos que ainda não foram de todo de-
planta para perfumar seus corpos, atraindo irresistivelmente senleados. Por essa razão não é fácil interpretar o seu con-
os homens. Chamaram à planta Piripiri-oca, ou seja, o abri- teúdo e intenção. Frei Francisco Ximénez, que o traduziu do
go de Piripiri. O herói porém subiu para o céu incorporando- quiché para o castelhano, disse, com ironia ou sinceridade,
-se à estrêla Ararapari - o boldrié de Orion. tratat'-se de contos para crianças; o Abade Brasseur que
PIRUA - Na constelação dos deuses incas, a personificação verteu o livro para o Francês, fê-lo pelo conteúdo histórico
nêle vislumbrado; Max Muller, salientou o estilo como méri-
do planêta Júpiter. Zelava pela conservação e o respeito
dos trajes festivos ou religiosos, dos tesouros sagrados e das t o principal; Rudolf Schuller pretende-o reunião de vários
provisões armazenadas. escritos pictográficos quichés; Rafael Girard garante tratar-se
de puro texto esotérico de que se perdeu a chave. De tudo
PIRUA - Segundo os apontamentos de um cronista anõnimo, isso, conclui-se a necessidade de abordá-lo por três ângulos:
teria sido êste o nome do primeiro e mais fiel dos seguido- o lingüistico, o étnico e o religioso, segundo a lição de Er-
res do grande deus Viracocha, que antecedeu os incas e in- milo Abreu Gomez. Pois muitas vêzes o sabor novelistico
diretamente preparou-lhes o terreno para o grande império. sobrenada aos demais valôres; em outras páginas é possi-
Do sitio de onde proveio ou situou-se tal personagem resul- vel sentir a inspiração de outras gentes, como a tolteca; no
taria o nome do atual Peru. Tal entendimento, porém, não geral é a vibração de um povo que começou adorando ani-
é pacifico. Sabe-se ao certo que ao tempo dos incas, o pais mais, passou aos astros e chegou à adoração dos sêres antro-
209 PRI
POR 208
final é curioso: "... no cimo da Serra de Uiriu, com o
pomorfos. Acredita-se que no incêndio da cidade de Utlatlán,
haja sido perdido o antiquissimo Popol Vuh, conservado pe- seu fiel Iure, que tremia de mêdo, cercados pelas gentes ini-
migas, que subiam lentamente para matar o herói. A multi-
los quichés guatemaltecos em forma hierogllfica. Depois
da conquista, indios cristianizados e alfabetizados, escreve- dão que subia, de repente caiu dormindo e só acordou no
ram, ainda em quiché, mas utilizando-se de caracteres oci- dia seguinte, só encontrando os rastros de Poronominare e de
dentais, as legendas transmitidas oralmente. Parece gue Jure que tomaram o caminho de Suai".
Diego Reynoso foi o mais ativo senão (como querem alguns) PORTA DO SOL - O mais belo e misterioso entre os mo-
0 único dêstes restauradores. Esta versão ficou dormida du- numentos das ruínas de Tiauanaco *. Representaria um
rante século e meio, entre os papéis da igreja de São Tomás sistema mitico cosmogônico cujo sentido ainda não foi in-
de Chichicastenango ( Chuilã), na Guatemala. Um sacer- terpretado. i'J um bloco inteiriço de andesita, medindo 3
dote mais curioso ou mais letrado, Francisco Ximénez adver- metros de altura por 4 de largura, com uma abertura cen-
tiu o valor do texto e verteu-o para o castelhano, duas vêzes: tral, estreita, de 1.67 de altura, altura esta coincidente com
a primeira literalmente, a segunda, interpretando o sentido a estatura média dos construtores, segundo o estudioso da
de algumas passagens segundo o seu entendimento da alma matéria, Ponansky. Quatro cabeças erguidas de puma e
nativa. o original também se perdeu. Ficaram a cópia e dois grupos de três condores cada, sustentam a figura cen-
as duas versões do Padre Ximénez que deram traduções em tral. Um pedestal, em forma de escada, atrai as atenções.
Inglês, Francês e Alemão. Na edição francesa de Brasseur No centro está Viracocha •, ou o Sol, deus supremo.
figura também o texto quiché, segundo Ximénez. Nas várias
citações do Popol Vuh, feitas neste Dicionário, a fonte é sem- P OTSEJLAI - Deus principal dos indios matacos. Civiliza-
pre a versão de Abreu Gomez, da editôra Espasa-Calpe Ar- dor, inventor da agricultura, criador de armas e técnicas
gentina, B.A., 1951. de luta.
PORCA-DOS-SETE-LEITõES - Mito comum a São Paulo, Mato P OUSO ALTO - Uma lapa, conhecida por tal nome, susci-
Grosso e Minas Gerais. Ocorre ao homem que caminhe em tou as mais vivas controvérsias cientificas e motivou corres-
horas mortas por estrada deserta, becos estreitos ou largos pondência entre seu entusiasta nacional - Ladislau Neto e
onde haja cruzeiro, ouvir roncar uma porca e grunhir seus Emest Renan. Levado a opinar sôbre as inscrições de Pouso
bacorinhos. Ronco e gemido são de animais necessitados Alto, Paraiba do Sul, o Instituto Histórico e Geográfico Bra-
de ajuda. Se fôr corajoso, êle procurará localizar a porca sileiro confiou seu estudo a Ladislau Neto que "traduziu-a
e os leitões. Tão logo os veja, perceberá que são visagens reconhec~ndo nos sinais caracteres de hebreu antigo, causan-
pois desaparecem de imediato. Roncam e grunhem mais além, do essa descoberta, no mundo científico europeu, uma forte
ali, acolá. Localizados, desaparecem. Na "zona velha" de repercussão e ocupando a atenção da imprensa nas grandes
São Paulo, segundo Comélio Pires, tal assombramento só cidades. / Ao fim de longas pesquisas, de várias sociedades
acontece aos homens casados que a desoras andam longe especializadas, a inscrição foi reduzida a nada pela autorida.-
de casa, em ocupações extraconjugais. Em Mato Grosso, de de Renan, quando já se haviam passado dez anos de dis-
Cuiabá, segundo Karl von den Stein, a aparição denuncia cussão sôbre o assunto". Tal é o resumo de Angyone Costa
e castiga, pelo mêdo, a quem haja recorrido ao abôrto ou a !'JÕbre a questão. A propósito de inscrições e mitica da pre-
métodos anticoncepcionais. sença de hebreus no Brasil ver os verbêtes: Manassés Ben
POROMOfí:iÃ.NGARA - Deus-criador para a região guarani- Israel, Peregrino Vidal, Montanus.
tica, zeloso guardião dos tesouros acumulados pelos deuses em PPAPP-HOL-CHAC - Terceira das pirâmides erguidas sôbre
Paitaiti *. Tinha por companheiro, nessa vigilância, Teyu- os restos mortais do grande sacerdote Zamná *, legislador, sá-
-Yaguá, o lagarto-tigre. bio e chefe das levas que teriam estabelecido a civilização
PORONOMINARE - Herói divino, personagem de um ciclo maia no Iucatã. Esta pirâmide f ôra levantada sôbre o co-
de aventuras guerreiras, maliciosas, sexuais, ambiciosas, hu- ração do semideus, enquanto a de nome Kinich-Kalompo,
morísticas, correntes na região do Rio Negro, Amazonas. Pa- sôbre a cabeça e Kabul sôbre a mão direita.
rece ocorrer no caso a migração do mito de Purrunaminari PRINCESA DO AIOCÃ - O mesmo que Princesa do Arocá,
(ver Sisiri), da bacia do Orenoco. JfJ o mesmo Macunaima • Princesa do Mar, Sereia do Mar, Sereia, Oxôlúm, Rainha
dos caribes. A série de aventuras vive na tradição oral dos
do Mar, Sereia Mucunã, Inaê, Marbô, Iemanjá.
barés, dos caribes, de quase todos os indios amazônicos. O
PUI 210
PUIHUAN CHICO - Na mitologia peruana os montes pos-
suem propriedades e sentimentos iguais aos do homem. O
Monte Puihuán é possuidor do melhor rebanho da Cordilhei-
ra. Quando reúne seu gado para ferrá-lo, faz ecoar uma
buzina de chüre de touro. Os montes vizinhos ouvem-no,
alegram-se e respondem com a própria buzina. (Ver Mocara.)
PUKKUMERIANOS - Crença e sociedade secreta de negros
jamaicanos, resultante de um sincretismo ativo do culto
Q
ob.eah • com as práticas protestantes dos inglêses dom,inado-
res. Assim, as reuniões de obeah, junto aos túmulos, com
fenômenos de possessão religiosa, realizam-se ao som de QUAAYAYP - "0 homem", primeiro filho de Amayicoyondi •,
versiculos biblicos e com prédicas revivalistas. a primeira mulher, com Niparaya •, o ser supremo, viveu en-
PUNCHAO-INCA - Com êsse grito - cuja significação é tre os pericues da Califórnia, ensinou-lhes tudo o que sabem.
"Senhor do dia!", era recebido o sol, por ocasião das festas Mas quando pretendeu impor-lhes uma legislação moral, aca-
bou morto por êles.
anuais de Inti-Baim4 •. das principais entre os incas.
QUATO - Deusa menor do panteão asteca achegada à Me-
PURUN-RUMA - Na mitologia inca do ciclo da segunda dicina. Invocada especificamente durante as massagens com
criação de Viracocha •. os Purun-Ruma foram o terceiro povo que o ticitl - sacerdote-curador, procurava minorar as do-
criado nas pedras de Tiauanaco • em seguida ao dilúvio que res do paciente. Eis a fórmula ritual: "Vós, ó cinco tonalli
afogou homens e animais. Sucedendo ao segundo dos povos que olhais todos para o mesmo lado, e vós, deusas Quato,
- os Huari-Ruma, no domínio andino, fixaram-se às mar- Caxoch, quem é ó ser poderoso e venerável que destrói o
gens do Lago Titicaca e deixaram-se ultrapassar pelo quar- nosso maceualli? Falo eu, eu o sacerdote, eu o senhor dos
to e último povo na criação de Viracocha: os Auca-Runa. feitiços. Nós o encontraremos à beira da água divina (o
E entende-se o porquê desta substituição quando se sabe mar), nós o deitaremos na água divina." Dito isto, o ticit aper-
que Auca-Ruma quer dizer: "povo de guerreiros". tava entre as suas mãos a cabeça do doente e assoprava-lhe
PYRAGUE - O mesmo que Cuarajhy-Yara •. as têmporas, passando a invocar a deusa da água.
QUAH-BEET - O ''Grande Castor", o pai dos segredos, to-
tem divinizado entre algonquinos canadenses.
QUAHOOTZE - O deus que governava os deuses, para as
tribos de Nootka, Colúmbia Britânica.
QUATRO-SOIS - Os astecas não fugiram à crença comum
aos povos centro-americanos a respeito da existência suces-
siva de quatro mundos ou existências, anteriores àquele em
que vivemos. Jtstes quatro mundos são chamados, precisa-
mente, os Quatro-Sóis (o Quinto-Sol é o nosso tempo) e fo-
ram susessivamente destruidos por uma catástrofe. A Pe-
dra dos Sóis, monumento privilegiado daquela civilização,
tem registrado por uma data a existência e o fim daqueles
mundos ou "sóis". Exemplo: a quarta época ou mundo e
que terminou por um dilúvio inexorável, assinalada como o
"sol da água", traz a data n.aui atl ou seja "Quatro-água".
O fim do nosso mundo ou "Quinto sol" está marcado desde
o momento em que o seu centro - o Sol - pôs-se em movi-
mento, natd ollin e seu simbolo principal tem o duplo senti-
do de "movimento" e de "terremoto violento", isto é: inicio
e fim do nosso mundo, o qual no momento marcado, rasgar-
QUA 212 213 QUI

-se-á qual diáfano véu, libertando das profundezas da terra do céu e reaparece, já ao fim do dia, como a estrêla da
os Tzitzimine *, "monstros do crepúsculo"• os quais lançar-se-ão tarde. Tendo atravessado o universo visivel e compreensí-
sôbre a terra liqüidando os últimos viventes. vel ao homem, rutilando pela manhã e à noitinha, era o sím-
QUAUHTECALTL - Literalmente, "companheiro da águia". bolo da. morte e da ressurreição, a prova de que os deuses
existiam. Nessas aparições propõe a idéia das estrêlas gê-
Nisto é que se tornava o guerreiro morto no campo de ba-
meas favorecendo os homens, cada uma em seu tempo e
talha ou que suportava com dignidade o sacrüicio sob a
lugar. Quetzalcoatl difere do comum dos trágicos deuses
arma do sacerdote. Entenda-se águia como o Sol. O astro
astecas. Filho de Mixcoatl * e de Chimamatl, vivia em um
rei fazia-se acompanhar por êles, em seu percurso do alvore-
misterioso pais do Oriente, emigrando por razões não bem co-
cer até o zênite. No zênite os heróis paravam, e então empre- nhecidas, para as regiões do Ocaso. Aportando a Tula *,
gavam o resto do dia em cantos de guerra, combates simulados, fundou ali um reino de justiça, amor e prosperidade, ensi-
jogos de acampamento. Ao fim de quatro anos dêsse peregrinar nando aos bárbaros da. região as artes, ciências, e leis dos
glorioso na companhia do Sol, o herói reencarnava na forma deuses. Proibiu os sacrificios humanos, no que foi único
de colibri.
entre os deuses, terminando, com tantas boas obras, por irri-
QUECHOLLI - Os astecas deram o nome de um pássaro ao tar os gênios maléficos os quais enviaram para combatê-lo
décimo quarto mês do seu ano, o Xiuitl *. Durante êste mês, um dos mais poderosos e virulentos dos deuses: Tezcatli-
festas em honra de Mixcoatl *, o deus da caça e da fabrica- poca *. Descendo dos arcanos do firmamento pelo fio de
ção feliz de flechas especiais. Em troca de tal proteção, uma aranha, baixou sôbre Tula sendo recebido com honras
o deus exigia os habituais sacrifícios. e sincero contentamento por Quetzalcoatl. O recém-chegado
ofereceu ao herói civilizador beberagem contendo um filtro
QUEEVltT - Para os abipões, o mesmo que Aharaiguichi *. bem estranho: despertou em Quetzalcoatl o insopitável de-
QUERINO, MANUEL RAIMUNDO - Nascido em Santo Amaro, .BH, sejo de abandonar Tula e regressar ao pais de origem. Foi
a 27-8-1871 e falecido em Salvador, a 14-2-1923, ao voltar do o que f êz, destruindo os palácios que havia erguido, arran-
voluntariado na Guerra do Paraguai, dedicou-se aos estudos cando as árvores que havia mandado plantar, espantando
de Desenho e Arquitetura, vivendo depois de ensiná-los. Mas os pássaros que havia domesticado. Dominando a terra as-
sua vida foi paixão permanente pelos assuntos relativos à sim arrasada, Tezcatlipoca fêz soar um tambor mágico, cujo
presença negra na Bahia. Registrou com rigor cientifico a ritmo induziu os habitantes a uma dança sem término, cada
vida religiosa, mítica e social afro-baiana. Obras principais: vez mais frenética. Dançando, terminaram por tombar em
Costumes Africanos no Brasil ( 1938,) ; uma seleção de estudos um abismo, mergulhando nas profundezas da terra. Quetzal·
reunidos no volume de 1916, A Raça Africana e Seus Costu· coatI, entre outros prodígios realizados (alguns dêles sob o
mes na Bahia; O Colono Prêto Como Fator da C(vílizaçllo Bra- nome de Xolotl *), por amor aos homens deitou-se sôbre uma
sileira (1918), Arte Culinária na Bahia (1928) e Notas do fogueira, fazendo surgir das chamas a estrêla rutilante que
Folclore Negro (1922). brilha pela manhã e ao anoitecer.
QUER-QUE-1: - Nome pelo qual, em algumas áreas de Santa QUIAUITL - Também era conhecido por êsse nome, entre
Catarina, é conhecido o Boitatá que, nesse Estado düere de os astecas o primeiro dos dezoito meses do seu ano solar:
todos os outros (boitatá, bitatá, biatatá, batatão, batatal, ba- Xiuitl •. No decorrer dêste mês sacrificavam-se crianças ao
tatá) em ação pelo Brasil. "A luz misteriosa já não mais deus da chuva, Tlaloc *. ::mste nome para o primeiro mês,
é a cobra de fogo mas um ser informe, com grandes patas quer dizer: "a árvore levanta-se". A outra denominação era
agigantadas, um ôlho enorme e faiscante de Ciclopes, apa- Atl cauaw *.
gando-se com o sinal-da-cruz, dotado de voz humana e com
o condão de irradiar desgraças. Onde êle passa deixa um QUIAUHTEOCUITLATL Significando literalmente "ouro de
rasto de infelicidades. :m invulnerável... Chamam-no assim chuva", esta pedra tinha lugar importante na mitica religio-
de quer-que-é." sa e na Medicina astecas. O cronista mais celebrado, das coi-
sas mexicanas, o Sahagún, depõe com precisão a respeito dês-
QUETZALCOATL - "Serpente-quetzal" ou "serpente de plu- se presente dos céus aos homens : " ... é boa para aquêles
mas" ou ainda "gêmeo precioso" sendo que esta interpretação que são assombrados por um trovão. E também para aquê-
é válida apenas quanto relaciona o deus asteca a Vênus, les que têm calor interno (febre). Esta pedra encontra-se
estrêla da manhã que, nascendo ao leste, desaparece a meio para o lado de Jalapa, Iztepec... quando começa a trove-
QUI 214
jar e a chover nos montes, estas pedras caem do céu, pene-
tram na terra e começam a engrossar de ano para ano e os
indios procuram-nas. . . cavam a terra e extraem de lá estas
pedras".
QUIBUNGO - Do ciclo dos monstros que aterrorizam as cri-
anças da Bahia. Nina Rodrigues descreveu-o: " ... é um bicho
R
meio homem, meio animal, tendo uma cabeça muito grande
e também um grande buraco no meio das costas, que se
abre quando êle abaixa a cabeça e fecha quando levanta. RAIRU - Na mitica dos indios mundurucus, o assistente fiel
Come os meninos abaixando a cabeça, abrindo o buraco e mas desprezado, do primeiro homem e também deus Caro
jogando dentro as crianças". Silva Campos, em Contos e Sacaibu •. ltste, querendo livrar-se do seu ministro, ardilo-
Fábulas Populares da Bahia, atribui ao africano envelhecido samente f ê-lo seguir, pelas entranhas da terra, um tatu su-
a capacidade de virar em um quibungo assim descrito: "1ll um bitamente dado à vida. Embora ser espiritual inferior ao
macacão todo peludo que come crianças." deus, Rairu sabia defender-se. Voltou ao seu chefe anun-
QUIPUCAMAYOC - Adivinhos e intérpretes de presságios ciando haver descoberto nas profundezas do mundo os homens
entre os incas. Sempre em oposição, embora pacifica, aos que faltavam na superficie. ~ ainda êle quem mais tarde
astrónomos sacerdotes, os Zlayca. Jâ no acelerar-se da de- desce, atado a um fio de algodão preparado pelo deus, para
cadência, quase no desembarque dos espanhóis tiveram a içar homens e mulheres ajudando a criar as tribos.
s ua maior divergência: interpretando vários presságios, os RAKAL-KU - Divindade ligada à morte, entre os maias.
quipucamayoc anunciaram o muito esperado retôrno do .gran- RAMOS, Alonso Gavilan - A êste monge agostiniano, na-
de deus Viracocha, ao passo em que os llayca anunciaram
tural do Peru, deve-se uma bem documentada História del
haver percebido "na lua, sinais precursores de catástrofes
Celebre Santuario de Nuestra Senora de Copacabana, obra
e desgraças". Deviam ser exímios leitores de quipos (corda
repleta de informações preciosas acêrca das práticas religio-
com nós, que substituíam os documentos escritos e eram ma-
sas e dos templos indigenas da zona do Titicaca.
nejados por funcionários e cronistas). No apogeu imperial,
só eram chamados Quipucamayoc os que houvessem estudado RAMOS, ARTUR DE ARAÚJO PEREIRA - Alagoano de Pilar (de-
sua arte na Yacha-huasi, espécie de instituto de ensino su- pois, Manguaba), nasceu a 7-7-1903 e faleceu em Paris a
perior, funcionando em Cusco. 31-10-1949 no cargo de Diretor de Ciências Sociais da UNESCO.
Sua obra ascende a 458 trabalhos - livros, artigos, monogra-
fias, ensaios. Médico voltado para a Psicanálise e a higiene
mental, dedicou-se com entusiasmo ao estudo do folclore e das
religiões negras. Lecionou Antropologia e Etnografia na Fa-
culdade Nacional de Filosofia, Rio de Janeiro, fundando em
1941 a Sociedade Brasileira de Antropologia e Etnografia. Re-
conhecido mundialmente como das mais sólidas autoridades em
Africanologia, viu muitos de seus livros vertidos para diferen-
tes idiomas e adotados em renomadas escolas. Obras mais
conhecidas: O Negro Brasileiro, 1934; O Folclore Negro do
Brasil, 1935; As Culturas Negras no Novo Mundo, 1937; A
Aculturaçdo Negra no Brasil, 1942; Introduçdo 4 Antropolo-
gia Brasileira.
RANKING, John - Estudioso da história americana, em 1829
deu a conhecer tese segundo a qual os ancestrais dos incas na
cultura e no dominio do Peru, foram uma. horda de tártaros
e mongóis que teriam como primeiro destino o Japão, obe-
RAP 216 217 RIO
decendo a um impulso de conquista do famoso Kublai-Khan •. as ligas de joelho, apanhar as tartarugas, fabricar as cordas
Desviada por ventos e temporais, a esquadra viera dar na do arco, pescar, caçar, fazer roça e construir canoas. Rarã-
América do Sul. Outros defensores dessa teoria, que tem resá ficou um dia com carajá ensinando a fazer as pulsei-
por base elementos da teogonia, da organização social, da ras .. . " etc.
conformação fisica do homem do altiplano, foram Jean Laet
e Hornius. RA.-TXA-HU-NI-KU-Í - Registro de Capistrano de Abreu, pro-
-veniente dos caxinauás, do Acre. A Lua originou-se de uma
RAPOSO, Francisco - Europeu, faiscador de ouro, ligou- cabeça humana que despegada do corpo subiu ao céu. ~
-se à mitologia das cidades arcaicas do Brasil, graças a um extensão do mito do Cumacanga - ou Curucanga - ca-
depoimento que escreveu e publicou no Rio de Janeiro e que beça separada do corpo em punição a amôres adulterinos
o inglês Coronel Fawcet reproduziu em seu famoso diário, e que transformada em bola de fogo sai pelas noites de
com estas palavras: "Em 1753, um cascavilhador de ouro, sexta-feira a assombrar o mundo. (Ver Oatecate.)
chamado Francisco Rapôso, partiu da Bahia, no nordeste bra-
sileiro, com destino ao Brasil Central. Depois de meses REGLA - Para os cultos afro-cubanos, o mesmo que linha nos
afro-brasileiros, principalmente na Umbanda. Em Cuba, jun-
de buscas infrutiferas, regressando com uma tropa, seguindo
tamente com a mais popular regla de Obata'lá {ver Babalá),
um animal, êle apercebeu-se de que poderia atravessar uma
existem as reglas ou cultos de Ochá, regkJ, de Mayumbe, ou
grande barreira de pedra, passando por um túnel. Viajando
Mayomba, regla de gangás, regla de Oongos, e outras.
por aquêle caminho durante três horas, subindo sempre e
alcançando o tôpo, deparou, a seus pés, com uma grande RIACHO DAS PONTAS - Sitio próximo a Monte Alto, na
cidade. Nenhuma fumaça, porém, dali se elevava e nenhum vertente do Rio Verde Grande, Bahla, onde estariam ainda
ruido lhe cortava o silêncio. Chegando próximo aos enormes as ruínas de uma cidade construida e habitada por um povo
muros, viu uma única entrada sob três arcos ciclópicos, fei- misterioso, primeiro dentre os povoadores da América e pro-
tos de pedra, podendo alguns dêles atingir o pêso de tre- vàvelmente provindo da Atlântida*. Na descrição de An-
zentas e cinqüenta toneladas. Passava-se por uma rua larga, gyone Costa, (Introàução à Arqueologia Brasileira, pág. 154)
pavimentada com lajes chatas recobertas de vegetação. Os é assim o local: "há, num campo, extenso alinhamento de
pórticos eram decorados com gravuras que foram tomadas pedras de cêrca de metro e meio de altura, fincadas eqlli-
como sendo de demônios e com letras que pareciam moder- distantes, desenvolvendo-se aproximadamente por um quilô-
nas. Continuando chegava-se a uma vasta praça, onde, numa metro, e não distante, sob uma esplanada rochosa, as ruinas
enorme coluna preta, havia a estátua de um homem com um de antigas e aparentes construções de pedra tôsca, sem aca-
dos braços erguidos em direção ao norte. Sôbre a porta bamento que possa dize·r se elas são obra da natureza ou
de um palácio, encontravam-se restos de pinturas e de es- trabalho do homem. Em seu aspecto êsse material revela
culturas, dentre as quais a reprodução de um homem jovem, ruinas de antigas construções em pedras tõscas, algumas de
nu da cintura para cima. A seu lado havia caracteres que grandes dimensões. Uma série de pilares parece demarcar
Francisco Rapôso copiou e que mais tarde foram identifica- construções extintas e a fisionomia do local transmite a im-
dos como sendo caracteres arcaico-gregos. Dentro de um pressão de que em Monte Alto existiu, em remoto passado,
espaçoso templo, próximo da cidade, foi encontrada uma uma cidade de que os cronistas não falam". (Ver Pira-
moedinha de ouro tendo num lado um homem ajoelhado e curuca, Benigno e Raposo).
do outro um arco, uma coroa e um instrumento musical.
RIBIMBI - Para as tribos do norte do Transvaal, Ã.fl'ica, di-
Saindo da cidade, um pouco adiante, foram vistos, numa pi-
vindade do comêço do mundo e também o primeiro vivente
roga, dois indígenas misteriosos que logo fugiram. E aquê-
les indigenas eram homens brancos." sôbre a Terra. Seu filho mais velho e sucessor, pôs ordem
na Terra e povoou-a.
RARARESA - ~ o urubu-rei disfarçando uma espécie de RIO, JOÃO DO - Pseudónimo do jornalista João Paulo Alberto
espírito ativo. O mito foi bem narrado pelo carajá Coelho Barreto, nascido no Rio de Janeiro a 5-8-1881 e ali fa-
Dyuasá ao cientista Herbert Baldus: "Quando os carajás lecido a 23-6-1921. Contista, romancista, cronista, autor de
sairam da terra, prenderam o rarãresá exigindo a entrega peças teatrais e tradutor de Oscar Wilde. Folclorista entu-
do sol que é enfeite da cabeça dêle. Depois de oferecer a siasmado, dedicou-se ao tradicional urbano, com enfoque par-
lua que é igualmente enfeite da cabeça dêle, o herói entrega o ticular nos cultos negros. Deixou um livro sõbre As Religiões
sol. Por isso há sol e o carajá pode fazer as pulseiras e ào Rio, editado em 1904.
ROM 218

ROMERO, StLVIO VASCONCELOS DA SILVEIRA RAMOS - Nasceu


em Lagarto, SE, a 21-4-1851 e faleceu no Rio de Janeiro a
18-7-1914. Aliando as atividades do magistério (Faculdade Li-
vre de Ciências Jwidicas e Sociais, Colégio Pedro II) às da
pesquisa etnográfica e folclórica, foi ainda o iniciador da mo-
derna historiografia literária no Brasil. Estudou, criticou e
divulgou pràticamente todos os aspectos do pensamento. Foi
também o pioneiro nacional no coletar e publicar cantos, con-
s
tos e poesias populares. A cada peça recolhida acrescentou aná-
lises e comentários. Tôda essa copiosa atividade clentlftca foi
desenvolvida em um tempo de completa indiferença e até hos- SACI - Mito recente, pois os primeiros registros de sua pre-
tilidade pela cultura popular do pais. Alheio a essa atmos- sença no Brasil são do século XIX. Influência portuguêsa
fera, produziu obra acima de noventa volumes, da qual desta- com aclimatação nacional. Câmara Cascudo descreve-o: "Pe-
cam-se: Cantos Populares elo Brasil, 2 vols., Lisboa, 1883; queno negrinho, com uma só perna, carapuça vermelha na
Contos Populares do Brasil, Lisboa., 1885; Novas Contribuições cabeça, que o faz encantado, ágil, astuto, amigo de fumar
Para o Estudo do Folclore Brasileiro, Rio, 1943; Folclore Bra- cachimbo, de entrançar as crinas dos animais, depois de
8'ileiro, 3 vols., Rio, 1952. extenuá-los em correrias, durante a noite, anuncia-se pelo
RUDÃ - Ou Perudá segundo Couto de Magalhães, a entidade assobio persistente e misterioso, inlocalizável e assombrador.
indigena do amor, encarregada de propiciar a reprodução dos Pode dar dinheiro. Não atravessa água como todos os en-
sêres vivos. " . . . um guerreiro que reside nas nuvens. Sua cantados. Diverte-se, criando dificuldades domésticas, apa-
missão é despertar o amor no coração dos homens, despertar- gando o lume, queimando alimentos, espantando gado, es-
-lhes saudades e fazê-los voltar para a tribo, de suas lon- pavorindo os viajantes nos caminhos solitários."
gas e repetidas peregrinações". "Parece que tinha deuses SACU-MANHA - Literalmente Mlie-do-quente, lenda tarlana
inferiores, a saber : Cairé, ou a lua cheia, Catiti ou lua que explica a conquista do fogo pelo homem. O fogo
nova, cuja missão é despertar saudades no amante ausente:" era custodiado por um jovem misterioso, habitante do fundo
" ... tinha também a seu serviço uma serpente que reconhecia do rio. Dois indlgenas que nadavam tocaram com a tanga
as môças que se conservavam virgens, recebendo delas os às costas do mõço. As tangas pegaram fogo e os nada.dores
presentes que lhe levavam, e devorando as que haviam per- tiveram o bom senso de conservá-lo no borralho. Quando
dido a virgindade." viu que dominavam bem o fogo, o môço veio à terra ensi-
RUNA-UMA - No lendário boliviano e peruano o mesmo que nar os homens a assar carne. (Ver Iuí e Tatá-Manha.)
Umita *, Kefke, Cabeça Volante, Uma-Waqya, Uma Pali, Aya-
SAKPATA - Para as gentes do Daomé, a divindade da Ter-
-Uma, Ayap-Uma, Uman Tak-Tak, Mok-Mok, Uma Pureqkeke.
ra, que pune com a varlola e outras moléstias contagiosas
aquêles que não lhe guardam o devido respeito. Xapanaa •
é o seu nome entre os iorubanos. O nome Sakpata, na velh&
Ungua Nagõ, parece significar "que golpeia e mata".
SALCAMAGHUA - Juan de Santacruz Pachacuti Yamqu• Sal-
camaghua, lndio modesto e misterioso, que o Padre Avila en-
controu na localidade de Cacha, pelo ano 1600. Aquêle lugar
está entre Cusco e o antigo templo dedicado a Viracocha •.
O padre percebeu ser o fndio um repositório palpitante
das antigas crenças - não obstante seu nome cristão
de Juan Santacruz - e de que valeria a pena conhecer
a cosmogonia e o panteão dos antigos deuses andinos.
Induziu o Salcamaghua a escrever a crônica que resultou
ser dos mais preciosos documentos de quantos hajam sido
preparados a propósito do antii'o homem andino em relação
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aos seus deuses. Foi escrita mescladamente em quichua, SARMIENTO, Pedro de Gamboa - Homem de aventura bem
aimará e um castelhano muito dificil, pois o padre deixou-o a.o modêlo dos meados do século XVI, descobridor das • Ilhas
à vontade, se bem houvesse introduzido algumas modifica- Salomon, navegador ousado, historiador capaz, exerceu fun-
ções gráficas nos esquemas, como no do templo Corincancha, ções de geógrafo no govêrno espanhol do Peru pais que co-
cte Cusco. O trabalho de Salcamaghua foi publicado em Ma- nhe~eu minuciosamente. De suas viagens, obs~rvações e en-
dri, 1879, sob o titulo: Relación de Antigüedades deste Reyno treVIstas resultou uma valiosa História de los Incas, redigida
àel Pirú en Tres relaciones de AntigUeOOdes Peruanas. Yam- no decorrer de 1570.
qui com o qual se identificou o autor, quer dizer, segundo o
editor Jimenez de la Espada: "tratamiento o apellido que SAUS~GOC1.1A. - Lagoa en La Libertad, visitada pelo fol-
se daba a los más nobles de los primitivos pobladores de clorista Junenez Borba. Diz a mitologia local que a Sausa-
aquella comarca, y cuyo origem era una fábula". gocha, certo dia, irritada com o vizinho lago de Guallas-
gón, montou a cavalo, tomou uma espada de raios de sol
SALUDADOR - No capitulo do lendário argentino que trata e pelejou contra o lago. (Ver Yarpún, Puihán, Lavini, Mo-
de sêres e elementos mágicos, gente que nasce assinalada. cara, Condorgocha.)
Em algum lugar do corpo uma cruz significando haver
nascido em uma Sexta-Feira Santa, na mesma hora em SEDNA - Entre os esquimós, a "mãe dos animais". Impera
que morreu o Crucificado. Por esta ooincidência, seu hálito no mitico pais de Adliden * ou Takánakapsaluk *, situado
e sua saliva possuem podêres mágicos e curativos. no fundo do mar, onde retém os ursos e as focas quando de-
seja punir os homens. Dela dependem as boas ou más pes-
SANT'ANA mRI, FREDERICO Jost DE, BARÃO - Nascido em carias e caçadas.
Salvador, em 1848, faleceu no Rio de Janeiro a 5-6-1901, tendo
vivido quase que permanentemente em Paris, onde desenvolveu SEK~ - Nome do segundo homem criado pelo deus africano
intensa atividade cultural, em boa parte dedicada à divulgação Nzamé *. O texto <;lessa mítica ugandense e regiões vizinhas,
das coisas brasileiras. Fundou a Associação Literária Interna- vem exposto na A.ntologie N~gre, de Blaise Cendrars. Seguimos
cional, oferecendo a presidência a Victor Hugo, Em Paris, a tradução de Maria Adelaide Baptista Nunes em Maravilhas
publicou em 1889 o seu livro Folklore Brêsilien. do Conto Africano, Cultrix, 1962. Sucedeu que depois de
Nzalan, O Trovão, por ordem de Nzamé, haver abrasado a
SAPACURU - Pássaro ( Ardeidae?) que na mitica tupi te- terra, "Deus olhou para a terra, tôda negra sem nada de
ria auxiliado a salvação de Aré • ou Tamandaré *, que é nada, ociosa. Teve vergonha e quis fazer algo melhor. Nza-
Noé o dos indios. Ensinou-o a construir forte jangada com a mé, Mebere e Nkwa reuniram conselho em sua choça e fize-
qual pôde mover-se e encontrar uma companheira. (Ver
ram o seguinte: sôbre a terra negra, coberta de carvões,
Baracura, Bariema, Jacamin.)
puseram uma nova camada de terra; brotou uma árvore,
SAPONAM - Nos cultos jejês da Bahia e outros pontos do cresceu, cresceu mais e, quando uma de suas sementes caia
Brasil, é a invocação do culto jejê para o Omolu • dos na.. no solo, nascia uma nova árvore; quando uma fôlha se des-
gõs, sendo que êstes também usam a forma Xapanaa. prendia, crescia, crescia, começava a caminhar, era um ani-
mal, um elefante, um tigre, um antilope, uma tartaruga .••
SARACURAS - Aves (Rallidae), de presença simpática na quando uma f ôlha caia na água, nadava e era um peixe,
mitica dos caingangues, aos quais teriam salvo durante o uma sardinha, um caranguejo, uma ostra, uma amêijoa ...
dilúvio. Fizeram as águas baixar até a altura dos narizes A terra voltou a ser o que havia sido .. . " Faltava um chefe
dos homens, graças a um incessante trabalho de fazer e ati- para mandar em tudo. Os deuses resolveram fazê-lo mas
rar cestinhos de terra conduzidos no bico. Assim é que fi- dessa vez foram prudentes, disseram: "Na verdade - re-
zeram surgir a Serra Geral. (Ver Bapacuru, Bariema, Ja- plicou Nzamé - faremos de nôvo um homem, um' homem
camin.) como Fam; as mesmas pernas, os mesmos braços, mas voltar-
SARIEMA - (Microdactydae), pássaro mitico dos carajás. A -lhe-emos a cabeça e verá a morte." Assim se fêz. Por isso
tribo vivia oculta. Segundo Karl von den Steinen, debaixo os homens nascem, vivem, porém conhecem a morte. Uma
da terra e conforme o Padre Colbachini, no fundo do Rio vez criado, Sekumé recebeu dos deuses a recomendação para
Araguaia. A Sariema é que fê-la subir à superfície, movendo-a fazer uma companheira, de um tronco de árvore. Obedeceu
com a estridência de seu grito. (Ver Bapacuru, Baracura, e chamou Mbongwé • à primeira mulher. Teve com ela
Jacamin.) inúmeras filhas, cujos nomes a memória dos homens não
SER 222 22.3 SIN

guardou, e três filhos: Nkure, Bekol~ e Mefere, que foram porém, formaram uma barreira de proteção em volta de
os pais de tôdas as tribos. Quando o mundo estava povoado Tonapa.
e dominado pelos homens, Deus chamou a todos êles - Se-
kumé, Mbongwé e seus filhos e lhes deu as suas leis. Disse: SILLAM AIPANE - Para os esquimós, a "Morada dos Ven-
"Aqui estão as leis que vos dou para o futuro e a que deve- tos", o sitio onde reside a morte e de onde parte para
reis obedecer: Não roubareis dentro de vo.c;sa tribo"; "Não colhêr vidas humanas.
matareis a quem não vos tiver feito mal"; "Não ireis comer SILLAM INNUA - Para os esquimós, divindade que governa
os outros de noite". :m tudo quanto vos peço. Os que segui- os ventos e portanto a responsável pelo frio, o degêlo, a vinda
rem meus mandamentos serão recompensados, eu lhes darei ou a falta dos rebanhos de animais necessários à sobrevi-
sua paga; aos outros castigarei." vência do homem. Literalmente: "O senhor dos ventos".
SEREIA MUCUNÃ - O mesmo que Iemanjá, Rainha do Mar, SILVA RAMOS, Bernardo de Azevedo da - Estudioso brasi-
Princesa do Mar, Princesa do Arocâ, Princesa do Aiocá, Se- leiro que após viajar pelo Egito, Síria e Grécia interessou-se
reia do Mar, Ser~ia, Oxôlúm, Inaê, Marbô. pelas já então famosas inscrições rupestres de Itacoatiara.
SERPENTA.RIO - Constelação que na Amazónia anuncia o Afirmou haver identificado nelas o Fenicio, escrita com
verão, abrindo o tempo das roças. Barbosa Rodrigues em que se havia familiarizado durante aquelas viagens e pela
Poranàuba e Couto de Magalhães em O Belvagem, registam: via da numismática. Mas não sabendo ler o Fenicio, pro-
"uma môça engravidara de cousa-má, maá-a'ua ou bebendo ôvo curou buscar a chave do mesmo no dialeto samaritano, do
de mutum, onde havia um cabelo humano, tendo uma grande Hebraico. Transportou para o Samaritano algumas das ins-
cobra por filho, seguindo-a por tôda parte. A mulher conseguiu crições, sem obter tradução satisfatória. Solicitou então ao
esconder-se; a cobra procurou-a, chamando-a, no fundo do rabino de Manaus fizesse uma segunda tradução. Esta sim,
rio e pela mata, e, desiludida, voou para o céu, onde se trans- no entender da Silva Ramos, redundou em sucesso. As pala-
formou na constelação. vras formavam sentido e os fatos referidos remontavam à
expansão dos ferucios-cananeus pelo norte africano. Pros-
SHANGô - l\'.: o mesmo Xangô • dos cultos afro-brasileiros. seguindo o levani.amento das inscrições rupestres conside-
E sta forma gráfica Shangó, segundo Arthur Ramos (As Cul- rou haver encontraao uma delas em Chinês, duas em Arabe,
tu.r as Negras no Nôvo Mundo}, melhor representa a fonaçã:o uma em hieróglifos, muitas em Grego. Estas, trabalhou-as
dada pelo povo cubano à palavra em questão. Shangó é segundo o Grego primitivo, cujo caracterlstico eram as frases
o segundo dos três grandes orixás do culto afro-cubano. Go- curtas. Obteve avisos, decretos, noticias.
verna o raio e as guerras, sincretiza com Santa Bárbara
("Shangó es Santa Barbara macho", dizem os negros ilhéus}, SIMÕES LOPES NETO, JOÃO - Nasceu em Pelotas, RS, a.
e ali é representado por um boneco de madeira envolto em um 9-3-1865 e ali faleceu a 14-6-1916. Apaixonado pelo seu povo
lenço branco com franjas vermelhas, adornado de colares e sua terra, abandonou o curso de Medicina. no Rio de Janeiro
também vermelhos, portando uma espécie de coroa na cabeça. para ser comerciante, corretor, industrial ~ jornalista em sua
cidade. Escreveu com brilho sôbre a cultura popular gaúcha,
SI-AN -- Os templos votados ·pelos chimus de Pacasmayu à abordando usos, costumes, lendas, mitos, tradições, Apesar da
deusa-Lua tinham êsse nome que significa "casa da Lua". forma peculiar que deu a êsses escritos, são êles fonte segura
A serpente e a rapôsa representavam, esotericamente, a deu- de informação, principalmente quanto à mitica dos pampas.
sa. Em Cusco e em Tiauanaco, a serpente ganhava maior Obras: Contos Gauchescos, Pelotas, 1912; Lendas do BuZ (Po-
presença enquanto em Pachacamac a representação cabia à pulário}, Pelotas, 1913; Cancioneiro Guasoa, Pelotas, 1910.
rapôsa. A deusa-Lua recebeu o culto dos mais antigos das
várias civilizações andinas, embora na costa do pacifico fôs- SIN - Entre os haidas, habitantes da Colúmbia Britànica,
se chamada Mama-Quilla •. deus afeito a atender aos pedidos humanos e propiciador
SICASICA - Aldeia na margem oriental do Lago de Titicaca. das boas pescarias.
Figura na mitologia aimará, como uma espécie de Sodoma do SINCRETISMO - Os umbandistas proclamam uma correspon-
altiplano. Seus habitantes, vivendo na mais completa im- dência e mais do que isso, uma identificação de espiritos, guias
piedade, recusaram-se a ouvir o taumaturgo Tonapa •. Como de velhas crenças africanas e amerlndias, com santos cató-
êste insistisse, atearam fogo ao monte de palha onde o santo licos. O "Catecismo de Umbanda" explica assim o sincre-
homem dormia e prepararam-se para lapidá-lo. As chamas, tismo: "Pelo seu grau de evolução, êsses santos corres-
8
SIS 224 SOR
225
pondem a alguns dos espiritos venerados peJ.os africanos, chefia do sacerdote, sábio e legislador Votan *. As demais
desde a antiguidade. Pela sua tradição oculta, os prêtos cidades-mães teriam sido Ocosingo e Nachan ou Palenque.
sabiam que São Jorge corresponde a Ogum. Também, para
não serem castigados, os escravos disfarçavam o culto que SOL _ Tempo do Deus e pai dos incas, depois de Manco Capac e
praticavam, alta noite no mato, longe das senzalas." Eis as de Yupanqui Pachacutec. A sintese de Garcllaso de la Vega é
correspondências principais segundo os umbandistas: Oxalá = esclarecedora: "Quando o inca Manco Capac compreendeu
Jesus Cristo; Xangô = São Jerônimo; Ogum = São Jorge; 0
partido que podia tirar da velha lenda se~do ª. ~ual o
Oxocê = São Sebastião; Ogum-Marê = São Bartolomeu; sol havia brilhado por primeiro vez acima da ilha <:r1ticaca),
Iroko = São Francisco de Assis; Ibejê ou Ibeji = São Cosme e quando percebeu que, para os indios, o lago e a ilha er~
e São Damião; Denan = Sant'Ana; Icmanjá = Nossa Senho- lugares sagrados, inventou uma segunda lenda: êl~ próprio
ra da Conceição; Oxum = Santa Catarina; Iamsã = Santa e sua espôsa eram filhos do Sol. Seu pai os enviara para
Bárbara; Obá = Santa Joana D'Arc; Ossãe = Maria Madalena. instruir 09 homens e governá-los, em seu pró~rio beneficio ...
SISffiI - Entre os maipures da Venezuela, o primeiro dos Acreditando nessas lendas, os incas e os povos por ê~~s con-
homens, filho de um ser indefinido, Purrunaminari (ver Poro- quistados consideravam a ilha um santuário. Ali edificaram
nominare), com uma virgem belissima, Tapani-Marru. Não magnifico templo consagrado ao sol, de paredes cobertas com
houve contato carnal entre ambos, mas apenas desejo reci- placas de ouro; todos os anos, as províncias do império lhe
proco, o que bastou para que a · virgem desse à luz Sisiri, enviavam oferendas de valor considerável, em forma de ouro
predestinado a defender a terra, fundar cidades e matar os e prata, para agradecer ao deus-sol os benef~cios concedidos
monstros que assombravam a região. no decurso do ano. o templo era tão magnif.1co quanto o de
cusco. Além dos metais prectosos que serviam p~a a fa-
SITUA - Grande festa religiosa dos incas, uma das quatro bricação dos objetos de culto, a ilha encerr~va tais quanti-
principais do ano, a segunda pela ordem. Era a festa da pu- dades de ouro e prata que os relatos que a isso refer~m Pª,:
rificação pelo fogo. Promoviam-se desfiles noturnos, à luz recem por demais f antâsticos para corresponder à. realldade.
de luminárias diversas e abluções dos fiéis, em meio a cân-
ticos -apropriados. Terminava pelo sacrifício de uma mulher. SORIMAO UYPffiUNGAUA - Lenda anot8:da por .B~rbosa Ro-
A melhor descrição dêsse sacrificio é de Cristóvão de Moli- drigues (Poranduba Amazonense - Anais d~ Biblioteca Na-
na*: "no cortejo marchava uma bela mulher chamada Coya • - .-7 vol XIV) Procura explicar o catachsma que rasgou
cio·rWN, • • d "Há
Pacsa; filha do governador, ia ser imolada como espôsa do 0 vale amazônico e ergueu a Cordilheira dos An es. .
sol. :msse rito tinha por fim dar uina espôsa ao deus que muitos anos a Lua era noiva do Sol, que com ela qu~na se
se pretendia honrar". Dêsse tributo sõmente era excetuado casar mas se isso acontecesse, se se casassem, destnnr-se-ia
Viracocha, porque "como criador de tôdas as coisas, não 0
m~ndo. ' o amor ardente do Sol queimaria o mundo ? a
tinha necessidade de receber mulheres por êsse processo, dado Lua com suas lágrimas inundaria tôda a Terra; por isso
que tôdas lhe pertenciam". Pedro de Gamboa. Sarmiento *, não puderam se casar. A Lua apagaria o fogo; o fogo eva-
que escreveu sua história dos incas baseado em de.p oimentos poraria a água. Separaram-se, então, a Lua para um
diretos, procurou estabelecer comparações entre a Situa e lado e 0 Sol para 0 outro. Separaram-se. A Lua chorou
a festa cristão-popular de São João: fogos, fogueiras, cân- todo 0 dia e tôda a noite, foi então que as lágrimas corre-
ticos apropriados, procissões até um curso de água, ablu- ram por cima da terra até ao mar. . O .mar embraveceu e
ções, etc. As outras três festas principais mito-populares dos por isso não pôde a Lua misturar as lagr1mas com as águas
incas eram a Capac-Raimi *, Inti-Raimi • e Amoray •. d mar que meio ano corre para cima, meio ano para
o
baixo. ' Foram as lágrimas da Lua que d eram ongem . ao
SOBO - Entre os negros f ons e cultos daomeanos, entidade
pertencente à "família" dos Heviossos •, administradores do nosso Rio Amazonas."
trovão. Sua atividade especifica é perseguir com raios e
trovoadas os malfeitores, ladrões e feiticeiros. Pode tam- SORRO _ Entre os negros africanos da nação Oji, trata-se
bém, a seu talante, fulminar as árvores que lhe desagradem. de um vago mundo superior, pôsto além da vista, compreen-
são e alcance dos homens. A mesma palavra - segundo
SOCONUSCO - Primeira das cidades fundadas na América faz notar Tylor, é empregada para designar o céu, a chuva
Central, pelos misteriosos imigrantes orientais que, proceden- e 0 trovão. Tem ainda algo a ver com o deus supremo, Olo-
tes da Líbia, teriam iniciado ali a civilização maia, sob a rum •, cuja figura; entre aquêle povo, é incerta e obseura.
SUM
STI 226 227
STILES, Ezra - Orientalista defensor da tese segundo a qual cnas se tornavam contra êles, e os matos lhe faziam caminho
os cananeus*, premidos pelo conquistador judeu Josué, teriam por onde passasse".
passado em massa para o Egito, daí para o Norte da Ãfrica sUM:mRIO - Ou xumério, povo e idioma mesopotàmicos, a~
e em seguida, atravessando o oceano, vieram povoar a América. quais alguns autores querem ligar o povoamento da Amén-
STRADELLI, ERMANO DE - Natural de Borgotari, Piacenza, ca, tal como Silva Ramos* deseja ligá-lo aos samaritanos e
Itália, nasceu de fam.flia nobre (Condes de Stradelll), a 0
rabino português Manassés * deseja remontar aos descen-
8-12-1852, e veio morrer em Umirizal (próximo a Manaus) em dentes do patriarca Noé. O mais recente paladino da tese
24-3-1926. Ao viajar pela Amazónia, em 1879, interessou-se suméria é Peregrino Vidal (A América Pré-histórica e Hér-
pela mitica do ind.io brasileiro, e ligando-se à expedição do Ba- cules Exumados da Filologia Bumérica - ed. autor, SP, 1959):
rão de Parim.a, pôde percorrer as regiões do rio Purus e aflu- "Com o sumério conseguimos soletrar e analisar os numero-
entes. Viajou também pelo Madeira. Foi laurear-se em Di- sos topônimos que salpicam o mapa americano, intraduz~veis
reito em Pisa, mas retornou à América do Sul, tentando local!· com 0 tupi; como também, mediante o sumério, descobnmos
zar as nascentes do Orinoco. Em 1888 fixou-se no Amazonas, nas lendas túpicas do Amazonas, um segundo sentido, muito
onde foi advogado e promotor público e demarcou terras. Essas outro e mais vasto que a tradução dada do tupi. Encontra-
atividades eram meios para aprofundar estudos etnográficos e mos nelas o histórico do povoamento da América ... / ... a
demopsicológicos. Em 1893 naturalizou-se brasileiro. Publi- Iingua suméria antiga era a mãe de tôdas as linguas ameri-
cou, entre outros trabalhos: Duas Lendas Amazônicaa, Pia- canas 0 naua o othomi, e outras; os primitivos americanos
' '
cenza, 1900; Leggenda dell'Jurupari, Roma, 1890; Leggenda deZ falavam o sumério, que deixaram gravado nos t opô~~
iumos.,,,
Tarta, Roma, 1896; Iscrizioni indígena della regione dell'Maupés, (págs. 3 e 4.)
Roma, 1900; "Vocabulário nheengatu-português e português-
-nheengatu", revista do IHGB, tomo 104, vol. 158, 1926.
STUDART, GUILHERME, BARÃO DE - Natural de Fortaleza, CE,
nasceu a 5-1-1856 e ali faleceu a 25-11-1938. Médico culto e
caritativo, aproximou-se das camadas populares e recolheu
dêsse contato conhecimentos profundos da Demopsicologia, que
reuniu em copioso arquivo e divulgou em vários trabalhos. Em
1900, o Papa Leão XIII agraciou-o com o titulo de barão pe-
los seus trabalhos filantrópicos. Deixou-nos: "Notas sôbre a
linguagem e costumes do Ceará", Revista Lusitana, Lisboa.,
-
1892; "Usos e superstiçõea cearenses", Revista da Academia
Oearense, 1910.
SUMm - Homem branco que, em diferentes idades, com vários
nomes, surgiu nas praias de tôdas as civilizações americanas,
ensinou técnicas e artes, ditou regras morais, foi amado,
aceito, odiado e atraiçoado, retirando-se afinal, caminhando
de costas sôbre as águas do mar. Sumé, é como o conhe-
ceram os indios brasileiros. O Padre Nóbrega registrou
(1549): "dizem êles que Zomé passou por aqui, e isto lhes
ficou por dito de seus passados e que suas pisadas estão
sinaladas junto de um rio; as quais eu fui ver por mais cer-
t eza e vi com os próprios olhos, quatro pisadas mui sina-
lada.s com seus dedqs, as quais algumas vêzes cobre o rio,
quando enche; dizem também que, quando deixou estas pisa-
das, ia fugindo dos indios, que o queriam frechar, e chegan-
do ali, se lhe abrira o rio e passara por meio dêle à outra
parte, sem se molhar, e dali foi para a ln.dia. Assim mes-
mo contam que, quando o queriam frechar os indios, as fre-
229 TAT

o mesmo sôbre um jenipapelro. Os quatro comeram frutos


enquanto a água cobriu o mundo. Depois, desceram, sepa-
raram-se, Tamandaré fundou a raça dos tupinambás e Ari-
cute a dos tornimis. Segundo Batista Caetano, Tamandaré
vem de tab-moi-nda-ré - "aquêle que fundou povo".

y. TAMBATAJA - - Árvore da região amazônica com origem ex-


plicada pela seguinte lenda indigena: ao morrer a amada,
um indio cavou para si uma sepultura junto à da mulher e
ali se arrojou perecendo por inanição. Entre as duas sepul-
turas nasceu o tarnbatajá cuja peculiaridade mais notória
TAGUAPACA - Figura rnftica do ciclo incaico de Viracocha são as fôlhas que parecem unidas, maior uma, menor a
Pachacaiachi. A tradução literal de Taguapaca, seria "qua- outra, sirnbolos daquele amor.
tro oculto". Em muitas lendas aparece confundindo com o T AMECAN - As Plêiades para os incllgenas rnacuxis. Sete
herói Tonapa •, em outras é um discipulo pobre, menos dis- lndiozinhos órfãos, que padeciam fome e miséria em casa da
tinguido pelo deus que o submete com freqüência a rigorosas. avó, pediram auxilio à estrêla Ueré que fêz levantar um
provas. :li:, portanto, um herói lunar, dos que necessitavam vento brando a cujo embalo os meninos, cantando e dançan-
s eguidamente recorrer a Pariacaca. do, foram subindo e transformando-se em estrêlas. (Ver Oyiu-
TAGUAPACAC - Na lenda do deus andino Viracocha *, fun- c ê, Oeuci, Nibetád e Motz.)
dador das nações peruvianas, Taguapacac tem muito de Noé T AMOANCHAN - O jardim paradisíaco na mítica dos as-
e de Lúcifer dos cristãos. Depois de haver destruido a sua tecas, residência das grandes deusas terrestres, pois são elas
primeira Humanidade desatinada e entregue ao pecado_, Virà- as fontes da vida. Ali nasciam as plantas e as sementes ger-
cocha mandara sôbre a Terra um dilúvio purificador porque minavam percorrendo um longo caminho debaixo da terra.
exterminador - o Uno Pachacuti *. Salvara Taguapacac e Uma vez saidas de Tamoanchan, sementes e raizes já não
mais dois homens. Taguapacac era seu predileto e com êle dependiam das deusas terrestres mas dos deuses da chuva.
repovoaria o mundo. Para dar inicio à nova Humanidade di- Havendo chuva e bençãos dos deuses, as plantas nasceriam
rigiram-se - o deus e seus escolhidos - para a região no ieste, região do sol nascente, país da juventude e da abun-
do Lago Titicaca. Depois de alguns sucessos, Taguapa.cae dância, também chamado "o pais vermelho", por ser o nas-
deixou-se perder pelo orgulho de ser o predileto e 0 predes- cedouro do sol.
tinado. Irritado por ver assim frustrado o seu impulso se-
TAQUATU - Para os fueguinos, gigante violento, invisivel,
lecionador, Viracocha amarrou Taguapacac de pés e mãos
cuja canoa voga silenciosa e rápida tanto na água quanto
e atirou-o no meio do Lago, depois do que, dirigindo os re-
no ar. Toma homens e mulheres desatentos e leva-os para
manescentes, caminhou para a região onde f êz erguer a me-
trópole de Tiauanaco. regiões misteriosas de onde jamais alguém retornou.

TAK.ANAKAPSALUK - Sítio imaginário, muito grato à ima- TAPI't RAPE - No mbyá-guarani, o nome da Via-Láctea,
ginação dos esquimós. Situado no fundo do Oceano, abriga a com o significado de "o grande caminho dos tapires". No
residência de Sedna, a "mãe de todos os animais". Os feiticei- guarani clássico, com o mesmo significado, Mhorevi Rape.
ros tribais descem periódicamente até aquêle sitio a fim de TATA-MANHA - A "mãe-do-fogo", na lenda amazônlca ex-
dispor com a "mãe dos animais" pescas favoráveis. (Ver plicativa de corno o homem obteve o fogo. Tupã deixou o
Adliden.) fogo sôbre urna pedra, veio o jacaré, engoliu-o. Vários ani-
TAM~NDARm - Filho de Sumé * ou Sommay, é o Noé dos mais tentaram obter o fogo, embriagando o jacaré. Iui *, o
ind1os tupinambás. Seu irmão, Aricute, voltando de uma chefe das rãs, cons eguiu vinho de macoari, o jacaré bebeu,
expedição guerreira atirou pa.ra a cabana de Tarnandaré o ficou embriagado, foi morto pelos indios que porém não en-
braço decepado de um inimigo. Por castigo, a aldeia sumiu contraram o fogo em seu ventre. Chamaram o japu, pás-
e Tarnandaré bateu o chão com seu calcanhar fazendo bro- saro sabido, o qual com o bico retirou o fogo escondido na
tar uma fonte cuja água cobriu a serra. Tarnandaré tomou orelha do jacaré. Por isso o bico do japu ficou vermelho.
a mulher e subiu para o ôlho de uma palmeira. Aricute fêz (Ver 8acu-Manha.)
TAT 230
231 TEO
T ATHLA - O fogo conseguido pelos guaranis do Chaco Pa-
raguaio, violando o segrêdo de certo pássaro misterioso que de tôdas as mãos femininas que auxiliassem um parto. A
o mantinha guardado em um charco, sitio onde acorria para parturiente, de modo particular, estava sob as atenções de
preparar sua comida. Desde então o pássaro voltou à comi- outra deusa, Ayopechcatl *. O domínio da deusa Temazcal-
da crua e quando se sente mal por causa disso arremessa con- teci era o Temazcalli - recinto preparado nas casas de boa.
tra os homens tempestades violentíssimas. fanúlia para uso da mulher grávida e de sua parteira. Am-
TAU - Gênio maléfico, segundo o folclorista paraguaio N ar- bas toi:riavam, em tempos fixados, um banho de vapor, cui-
ciso R. Colman. Seu sétimo filho, nascido de Karaná, resul- dando a parteira para que a deusa favorecesse o banho e
tou em Jhuisô *, ou Jhuicho, versão guarani do lobisomem. a paciente. Para isso, entre nuvens de vapor, massageava
habilidosamente o ventre da cliente, enquanto fazia mil re-
TAUNTON - Rio no Estado norte-americano de Massachu- comendações sõbre o melhor comportamento da futura mi•
setts em cujas margens descobriu-se a Dighton Rook •, objeto durante a gravidez.
das mais contraditórias versões pseudocientificas a propósito do TEMPO -, Deus cultuado nos candomblés de Angola e · do
povoamento da América. ·
Congo. Em Angola, também chamado Katendê. :m o mesmo
TAWISCARA - Divindade e herói nútico dos indios iroqueses. Lôko dos jejês, incorporando vários espiritos inferiores habi-
Neto da Lua e filho de virgem, ajudante do irmão gêmeo Ios- tantes das árvores.
lkeha • nas proezas hercúleas com que libertou a Terra e os TENTltN - Monte da Ilha de Chiloé, em cujo cimo a mito-
homens de inúmeros monstros vorazes. logia indigena situa o refúgio dos únicos viventes - homens
TECOLOTL - Espécie de Plutão dos astecas. Literalmente, "o e animais - escapos ao dilúvio. Os que fugiam às águas mas
mocho noturno", soberano do reino das sombras. foram alcançados por estas antes de chegar ao Tentén, trans-
formaram-se em peixes. Os deuses, apiedados da antiga con-
TECPANCALTZIN - Penúltimo soberano tolteca, tem sua vida dição humana dos novos peixes, concederam que, findo o di-
e seus feitos situados entre a história e a lenda. Faz parte da lúvio, êles fecundassem as mais distraídas das mulheres que
mitica, o nascimento, no ano 1 200 d. C., de um filho, Topiltzin *, f ôssem à pesca e com isso a sua estirpe continuasse existindo
resultante dos amôres com uma donzela proibida, Xochitl *· sôbre a Terra.
Ao alcançar cinqüenta anos de idade, conforme a lei ancestral,
Tecpancaltzin deveria passar o cetro ao filho. Porém, ciente TEOTIHU~CAN - Local de trevas, sítio onde, segundo a mi-
de que, por vias daqueles amôres, precisava quebrar o tabu da tologia asteca, reuniram-se os deuses criados pela fecundi-
ira divina, coroou o filho, então com quinze anos, porém deu- dade de Ometecuhtli * e Omeciuatl *. O primeiro passo na
-lhe dois co-participantes do trono. Os três foram, de acôrdo criação do mundo foi colocar o Sol no firmamento, o grande
com a predição, os últimos governantes dos toltecas. Tonatiuh *. O téxto completo dessa gesta divina vem em
"Llave dei Náhuatl", Manuscrito de Madri e em Garibay.
TECUILHUITONTLI - Neste sétimo mês do ano asteca (ver
TEOTLALLI TITIC - · Literalmente significava para os aste-
Xiuitl), os ritos principais eram reservados aos salineiros. Ocor-
cas "a região debaixo da planicie divina". Inferno privile-
ria o sacrificio de uma mulher personificando Uixtociuatl •, a
deusa da água salgada. giado, onde o Sol, ao morrer todos os dias, era recolhido,
para ·renascer com fôrças renovada.$, brilhante e fecundo, na
TECZISTECATL - Para os antigos mexicanos de Anahuac di- manhã 'seguinte. Com isto, ensinava aos fiéis que o Homem
vindade lunar da procriação. ' e a Natureza não padecerão da morte eterna, mas serão
TEHARONHIAW AGON - Para os onondagas, indios norte- renovados. Esta idéia era repetida pela estrêla Vênus (Quet-
-americanos "aquêle que ergueu o céu", o inspirador dos zalcoatl • ) , pelo milho que seca, m<?rre e renasce; pela Lua,
pensamentos alegres. pelas chuvas.
TEMAUKL - O deus principal, o pai dos deuses entre os onas. TEOTLECO - No ano religioso e solar dos astecas, êste era
o décimo segundo mês. Seu nome indica "o regresso dos deu-
TEMAZCALTECI - Divindade asteca encarregada de proteções ses", ou seja, o tempo em que os deuses propunham-se a ou-
variadas. Literalmente, significa "a avó do banho de vapor". vir e proteger ou castigar os humanos. O primeiro dos
Também conhecida e invocada sob a denominação Teteo Innan, deuses no cortejo, era o grande Tezcatlipoca •, e o último
avó dos deuses. Com êste vocativo, era protetora especifica era o velho deus do lume, ao qual, para que fõsse propicio
e jamais faltasse nos lares. ofereciam-se sacrificios humanos.
233 TIA
'I'EO 232
venerada", "a nossa avó", a "serpente mulher", a "borboleta
TEOYAOMI'QUI - Pa.ra os astecas, divindade que se ocupava de obsidiana", deusas admiráveis e temiveis, fontes de vida
com os mortos em guerra. Seu idolo, de pedra, era um e de morte. A estatuária asteca representa-as com um extra-
conglomerado de formas repulsivas. ordinário equilíbrio entre o realismo nos pormenores e 0 sim-
TEPEILHUITL - Décimo terceiro mês do ano asteca, seu bolismo mais esotérico na concepção. Têm feições semi-
nome significa "em honra aos montes". Era o tempo de pre- -humanas, semi-animais e ornamentos macabros. Os hinos
parar com massas especiais, pequenas imagens representando comparam-nas com as flôres amarelas e brancas que desa-
os montes (ou seja - os deuses da chuva). Tais imagens brocham quando vem a chuva, ou nô-las mostram no "diVino
eram comidas pelos fiéis no decurso de cerimónias durante campo de milho", centlateomilco, brandindo os chocalhos má-
as quais sacrificavam-se cinco mulheres e um homem per- gicos que fazem surgir a planta nutritiva. São as grandes
sonificando as divindades agrárias. mães que deram o ser aos jovens deuses do milho, Centeotl,
TEPEU - Um . dos três deuses quichés, guardiães dos segre- · da música, da dança e das flôres, Xochipilli * e Macuilxo-
dos da vida, da morte, da terra e dos sêres que a habitam. chitl. Nelas se resumem os dois aspectos, o benéfico e o te-
São os "avós do gênero humano" e têm sua história narra- mivel do mundo e da vida" - no resumo de .Jacques Sous-
da no Popol Vuh *. Os outros dois eram Gucumatz * e telle (A Vida Quotidiana dos Astecas).
Hurakán *. TEZAUCIGUA - Deusas terríveis, permaneciam no terceiro
TEPEYOLLOTL - Divindade menor dos astecas, um dos se- céu aguardando o fim do mundo para devorar os últimos
nhores da noite e dos mistérios que ela oculta. astecas.
TEREPOMONGA - Mito brasilindio anotado por Fernão Car- TEZCATLIPOCA - Deus asteca residente nas paragens da
dim: "Há uma cobra que anda no ma.r; o seu modo de viver Ursa Maior, senhor do céu noturno, mago multiforme que
hé deixar se estar muito queda e qualquer cousa viva que podia acompanhar os acontecimentos de todo o mundo atra-
lhe toca fica nela tão fortemente apegada, que de nenhuma vés do seu mágico espelho de obsidiana. A principio, deus
maneira se pode bolir, e desta maneira come e se sustenta. privativo de uma tribo setentrional, incorporou-se ao panteão
Algumas vêzes sae fora do mar, e torna se muitQ pequena, asteca em uma das invasões tribais do pais. Seu nome signi-
e tanto que a atacão, pega, e se vae com a outra mão fica: "escuro senhor do céu noturno".
para desapegarem ficão também pegadas por ela, e depois
fazse tão grossa como hum bom tirante, e assim leva a pes- TEYú-YAGUA - O lagarto-tigre, animal e deidade, que em
soa para o mar e a come." companhia e sob as ordens do deus-criador Poromofiángara *
montava guarda à entrada do fabuloso Paitaitl *, o "pais do
TERRA-MONSTRO - Na mitologia asteca representativa, ouro", na região guaranitica.
muitas vêzes a Terra comparece sob a figura de monstro
de mandibulas largamente abertas, que devora o Sol decli- TIAUANACO - Chamada pelos . incas Huina~ Marca - "A
nante e também o sangue dos sacrificados e os despojos cidade eterna", e pelos arqueólogos e estudiosos - "a Baal-
de todos os mortos. Vale dizer: tudo voltava ao seio da Terra. bek do Nôvo Mundo" foi o grande centro da civilização incai-
ca. Dista 90 quilómetros de La Paz (Bolivia), está no cen-
TESCHAUER, CARLOS, PE. - Nascido em Birstein, Hesse, Ale- tro de uma estepe árida, a 4 000 metros de altitude, confron-
manha, a 10-4-1851 radicou-se no Rio Grande do Sul e dali tante com Quimsa Chata e Achuta, próxima do Lago de Ti~
não mais se retirou, vindo a falecer em São Leopoldo, a 16-8-1930, ticaca. Diz uma lenda aimará: "Antes que as estrêlas
depois de proficuo trabalho no campo da Etnografia, De- brilhassem no firmamento, Tiauanaco existia." Varios ame-
mopsicologia e Folclore. Naturalizado em 1891, legou-nos, en- ricanistas situam aqui o berço do homem americano. l1.l cer-
tre outros trabalhos: Avifauna e Flora nos Costumes, Supers- to que figura na pré-história e na história de tôdas as ci-
tições e L endas Brasileiras, Pôrto Alegre, 1925; Pora.nduba vilizações andinas. A principal destas pré-civilizações, cha-
Riograndense, Pôrto Alegre, 1929. mada precisamente de Tiauanaco, figura nos restos arqueo-
TETEOINNAN - Divindade lunar asteca, "Mãe de muitos lógicos com o seguinte simbolismo: "pirâmides com degraus
deuses". figurando a terra e o céu, cruzes de braços iguais, simbolo
do fogo, do Sol e da Lua, condor e condor-real, coroas, em-
TETEO INNAN UCUIC - Ou seja, "Canto da Mãe dos Deu-
ses'', binário ou relação asteca de "um grande número de blemas da luz, do movimento e do poder, círculos concêntricos
representando os signos celestes, muitas vêzes associados a
divindades terrestres, "a mãe dos deuses", "a nossa mãe
TIB 234 2.35 TIN

uma cabeça de puma, animal simbólico do Sol e da Terra, acha êste mar verdadeiro e a terra que o circunda, que se
peixe e caracol, animais que pertencem ao mito dos planaltos pode chamar nm continente no sentido próprio da palavra.
andinos, e por fim o ôlho alado, curioso emblema" - na des- Pois bem, nesta ilha Atlântida, os reis haviam formado um
crição de Siegfried Huber. Uns traduzem Tiauan.aco como império grande e maravilhoso. l!:ste império era dono da
significando areia séca e outras como pedra ào meio. Ainda ilha inteira e ainda de muitas outras ilhas e porções do con-
outros querem-na signüicando "luz morrente'', por ser o sitio tinente. Além disso, do nosso lado, dominava desde a Llbia
de sacriffcios humanos oferecidos a Ka Ata Killa - a lua até o Egito e a Europa até Tirrênia (que é a Itália ocidental).
minguante. E sta potê.ncia, tendo concentrado uma vez tôdas as suas fôr-
TIBARAN~ - lt o rouba-crianças de uso matogrossense, no ças, empreendeu a tarefa de avassalar de um só impeto o
ciclo da angústia infantil. Tem sido descrito como wn indio vosso território, o nosso e todos aquêles que se encontram
1) dêste lado do estreito. Foi então, ó Sólon, que o poderio
muito velho, rosto completamente enrugado. Surge misterio-
samente, ao escurecer, com passos silenciosos e cautos. Não da vossa cidade fêz brilhar aos olhos de todos o seu herolsmo
se interessa por uma criança qualquer mas pelas que asso- e a sua energia. Pois superou a todos os demais pela for-
biam. Aproxima-se destas e pede fumo. Não sendo atendido, taleza de sua alma e pela sua arte militar. . . Mas, nos tempos
carrega com a criança. Etimolôgicamente, Tibarané designa- que se seguiram, houve tremores de terra espantosos. No
ria ave noturna, de canto continuo e tênue, considerada agou- espaço de um só dia e de uma noite terriveis, todo o vosso
renta e por isto muito temida pelo povo. exército foi tragado pela terra, e da mesma maneira a Ilha
Atlântida afundou-se no mar e desapareceu. Eis por que
TIBIARI - Na mítica dos indigenas amazónicos dos Rios ainda hoje êste oceano é difícil e inexplorável, pelo obstá-
Negro e Branco, segundo os apontamentos colhidos por An- culo dos fundos lamacentos e muito rasos que a ilha deposi-
tónio Brandão de Amorim, india de rara beleza e de poucos tou ao submergir-se". A maioria dos que acreditam na
escrúpulos, que, vivendo nas margens do Rio Uaupés, aflu- existência da Atlântida, afirmam que, antes da tragédia,
ente do rio Branco, exibiu seus encantos ao deus Tupana .aquela população dinâmica, evoluída, havia promovido o re-
quando êste decidiu fixar-se na região, em seu propósito conhecimento e a conquista da América do Sul, se não das
de gerir o mundo recriado depois do dilúvio. Tupana e Ti- três Américas.
biari deram-se a amôres entusiasmados. Mas o marido de
Tibiari não estêve pelos autos e, sendo detentor de certos TINCUA - lt o cocculus cornutus, L., passarinho conhecido
podêres de feitiçaria, transformou a adúltera em pássaro no centro su1 do pais sob os nomes de "Alma-de-gato" ou
e submeteu o deus Tu pana a um vexan~e inusitado: flexou-o "Alma-de-caboclo". Nas demais regiões costuma ser chama-
nas nádegas. Depois do que, Tupana só pôde emigrar dei- do também Sincuan. Os brancos confundem-no por vêzes
xando sem seus cuidados a região do Uaupés. com o cocculus cayanus que é, na verdade, o Mati-taperê. O
indio, porém , distingue-os sempre. Na mitica amazonense,
TlLO - Para a gente de Baronga, Africa, o céu, a· região está ligado aos maus presságios e aos monstros fluviais. O
misteriosa para além do azul e das nuvens, centro de todo
filho de certo chefe, encantara-se no ventre de peixe voraz,
o poder cósmico. Sitio paradisi~o. reservado como prêmio
para os bons. · a pira1ba, a qual atacava a gente ousada o bastante para
I penetrar o lago de sua residência. Exigira por tributo uma
TIMEU - Um dos diálogos de Platão em que se dá noticia criança por dia, até que as mães, preocupadas com o des-
sôbre o mitico continente da Atlântida *. Enquanto o diálo- povoamento de suas choças, a conselho de pajé muito sábio
go Orítias. se dedica à civilização dos atlantes, Timeu localiza teceram uma rêde com os fios de seus cabelos. Só com esta
a Atlã.ntida : "Naquele tempo podia-se atravessar êste mar rêde a piraiba foi apanhada. Abriram-na e o filho do chefe
(o nosso Atlâ ntico) . Havia uma ilha em frente a êsse es- transformou-se 'e m pássaro - o Tincuã, que apareceu já
treito a que chamais as Colunas de Hércules. Essa ilha era voando, fugindo às mãos que desejavam aprisioná-lo. Como
maior do que a Libia e a Ãsia reunidas, e os viajantes da- em seguida morreram todos os participantes da pesca.ria, os
quele tempo podiam passar dela_ às outras ilhas e destas indios ficaram sabendo que o Tincuã, com sua visagem ou
ganhar todo o continente na margem oposta dêste mar que seu canto, anuncia a presença da morte na vizinhança. Al-
merecia realment e o seu nome. Porque, de um lado, no inte- guns estudiosos, Barbosa Rodrigues à frente, querem en-
rior dêsse estreito de que falamos, parece que há uma gar- contrar aqui reminiscência de mitica euro-asiática. Lembra
ganta muito a pertada, e, do outro lado, do lado de fora, se especialmente a lenda filipina de Puookamoa, Maiu a Iao.
TIT 236 237 TLA

TITI - Isto é, a "puma de olhos de rubi", primeiro culto sico, violenta as donzelas que encontra nos caminhos dos
dos primitivos habitantes das margens do Lago de Titicaca. bosques onde vive.
Exigia sacrificios humanos anuais. Foi substituido pelo
culto a Viracocha e depois das imposições religiosas de Manco TLACAXIPEUALIZTLI - Sob a cruel denominação de "es-
Capac e de Yupanqui Pachacutec, pelo culto ao deus-sol. folamento dos homens", era o segundo dos dezoito meses
do Xiuitl *, o ano solar dos astecas. Os homens eram frecha-
TITICACA - Lago no planalto central andino, considerado dos em honra ao deus Xipe-Totec *.
berço das mais antigas civilizações sul-americanas. Estende-
-se por 8 340 km de área, na altitude de 3 800 m sõbre o TLAELQUANI - Significando literalmente "a comedora de
nivel do mar. Segundo a lenda aimara, teria nascido de imundicies", era o apelido com que os fiéis de Tlazolteotl •
um lençol de gêlo espargido na cordilheira pelo deus-avô invocavam a deusa na cerimónia da confissão dos pecados que,
Khunu *. O lago prõpriament~ dito, unido à Lagoa Poopo, uma única vez na vida realizavam, em comum, diante de um
atualmente sêca, formava um imenso mar interior, · em sacerdote. "Comedora .de imundicies" quer dizer, portanto :
~ujas margens formaram-se . e pereceram civilizações de es-
"a que recebe e anula os pecados".
tágiQ, esplendor e destinos diversos. -:- Notar· que a etimologia TLAHUIZCALPANTECUHTLI - Ou "o senhor da Casa do
. da palavra ainda é discutida. De qualquer modo, era o ' nome Alvorecer", isto é, Vênus, a estrêla matutina, deusa no pan-
da ilha principal do lago. Os espanhóis é que estenderam teão asteca. Surgindo no céu mexicano com vivo esplendor,
ta} nome ao lago. Alguns lingüístas traduzem TiUcaca por era tido como o coração do grande Quetzalcóatl *, fixado no
"rÓCha sagrada", embora os índios locais digam que a pala- céu no preciso instante em que a sua forma corpórea era
vra significa "rocha do jaguar". Ponanski, cientista apaixo- incinerada na Terra.
nado pela região, descobriu ali ruinas de um templo ao deus- TLALOC - O deus de máscara de serpente no panteão dos
-jaguar. Uma referência mitológica segundo a qual a Amé- astecas agricultores sedentários do planalto central. Depen-
rica do Sul teria sido povoada por descendentes de f enicios, dem do arbitrio de Tlaloc a chuva fecundante, a tempestade
sirios e libaneses de há muito estabelecidos na desemboca- arrasadora ou a sêca abrasante. Nas orações a Tlaloc,
dura do Amazonas, refere haver sido o lago, o objetivo e o registradas no Códe:c de Flortmce, t. m, p. 208, citada por
fixador da terc~ira leva de imigrantes que deixou aquêle re- J. soustelle, lê-se: "ó meu senhor, princlpe-feiticeiro, é a
duto amazônico. Chefiados por Ayar Topa *, êsses imigran.;. ti verdadeiramente que pertence o milho." Embora dispuses-
tes foram atraidos e deixaram-se estabelecer sôbre as mar- se a seu talante daquelas f ôrças da natureza, Tlaloc não as
gens de alguns afluentes maiores. Ergueram a primeira ci- manejava pessoalmente, deixando a tarefa para os Tlaloque •,
dade sôbre um cêrro vizinho ao Lago. Nos afluentes have- pequenos deuses auxiliares. Reservava-se porém o trabalho
ria grande quantidade de ouro em pó e no cêrro a prata mais de acumular as nuvens sôbre os cumes dos montes.
pura brilharia à superficie da terra.
TLALOCAN - Espécie de paraiso que o deus asteca Tlaloc "'
TITITL ·- Ainda não se conhece a etimologia do décimo séti- reservava para os seus fiéis - geralmente ·camponeses -
mo mês Xiuitl *, do ano asteca. Durante sua fluência, havia o que houvessem sucumbido a uma destas cau8a morti8 de-
sacrificio de uma mulher que personalizava e honrava a deu- nunciadoras do favor divino: afogamento, raio ou doença ori-
sa Ilamatecuhtli. Depois das cerimõnias religiosas, bata- ginada pela água (por exemplo a hidropisla). Paraiso para
lhas carnavalescas com projéteis florais entre rapazes e môças. agricultores, Tlalocan era idealizado como jardim de verdura.
e de flôres permanentemente debaixo de chuva morna. Rei-
TITLACAOAN - Uma das invocações do poderoso deus cen- nariam ali a abundância, o sossêgo, o júbilo pacifico dos la-
tro-americano Tezcatlipoca *. Descreveu-a o clássico Saha· vradores.
g ún : "Criador do céu e da· terra e era todo-poderoso, dava
aos vivos tudo quanto de mister para comer, beber e rique- TLALOQUE - Número indefinido de pequenos deuses aste-
zas: o dito Titlacaoan era invisivel como a escuridão e o cas que auxiliavam o grande deus da chuva - Tlaloc • ,_ na
ar; quando aparecia e falava a algum homem, era como som- tarefa de distribuir as águas fecundantes. Eram divindades
bra e sabia os segredos que havia nos corações." cultuadas pelos agricultores sedentários do planalto central
mexicano.
THRAUCO - Na mítica chilena, versão de sátiro ou duende.
Mas, sem usar as atenções preliminares do duende • clás- TLALTECHTLI - "O Senhor da Terra", divindade asteca li-
gada à morte do homem. Jamais representado sob figura
I
TLA 238 239 TOJ

humana ou semelhante a outro deus mas sim qual monstro outros que o processo é mais simples. Basta à bruxa dizer:
informe geralmente lembrando o sapo, rodeado por animais "Estira-te, pele!" e eleva-se aos ares com facilidade.
peçonhentos e tendo uma. serpente ao redor do que seria a
cintura. TLOQUE NAHUAAQUE - Literalmente quer dizer em asteca
"o da vizinhança próxima". Religiosamente representava
TLAPALLAN - Cidade mitica, refúgio de Quetzalcóatl des- o ponto extremo a que chegara o asteca no propósito de po-
tronado e onde o deus-herói viveu até 104 anos, quando mor- voar com deuses maiores e menores o seu panteão. Jtste Tlo-
reu. O historiador indígena Ixtlilxóchitl escreveu que o herói que Nahuaque era simplesmente "o deus desconhecido", rece-
"partió para Tlapallán caminando de noche por desiertos hasta anao os astecas que o fato de não haverem localizado, reco-
que llegó a aquel lugar donde vivió después casi trelnta a.fios, nhecido e cultuado um certo deus, atrairia a cólera dêste.
servindo y regalado por los Tlapaltecas". Os Anais de Chl- O rei Nezaualcoyotl, dos que mais temeram os deuses, ergueu
malpahin registran ser Tlapallán a mesma terra de Nonou- a Tloque Nahuaque um templo terminado por uma tôrre de
alco, vale dizer, território entre os maias e os astecas. nove andares representando nove céus. ltsse deus, que nin-
TLAXOCHIMACO - Significando "oferenda de flôres", o nono guém "tinh~ visto ou conhecido até então", não era repre-
mês do Xiuitl *, o ano asteca. Dos poucos meses sem sacrl- sent890 por qualquer .e státua ou 1dolo e freqüentemente re-
ficios humanos. Em honra do deus Uitzlipochtli * ornamentava- cebia também o nome de Ipalnemohuant.
-se seu templo com flôres colhidas nos campos, celebravam-se TOCI - Ou Tocitzin, deusa mexicana, avó de todos QS homens,
banquetes com danças e cantos. coração do mundo, alma da terra, representada na forma de
TLAZOLTEOL - Deusa asteca, cuja invocação estava restri.. um sapo tendo o corpo tomado por bôcas abertas a simboli-
zarem a ·umidade terrestre necessária à vida. ·
ta aos · tepoxtlatos, sacerdotes encarregados da instrução dos
'
mom.axtlis. :Blstes, que também podiam colocar-se sob a TOHOSSUS - Na mitologia Mahi, no curso do Rio Ouemê, e
proteção da deusa, estudavam nos livros sagrados os proces- no do Daomé, os Tohossus são vodus habitantes dos pânta-
sos e as drogas para curar os males corpóreos dos homens, nos,. significando aquêle nome: . "senhores das águas". Vez
pois da vontade .dos deuses é que nasciam as doenças. por outra, passam a viver entre os homens tomando o corpo
de uma criança monstruosa. Quando ocorre u1n nascimento
TLAZONTEOTL - Deusa do amor carnal, do sexo · e que, assim, o povo toma ciência de que os Tohossus da região
por decorrência dêsses atributos, era também a custódia da manifestam um claro descontentamento. Nos primitivos tem-
confissão que a comunidade religiosa asteca fazia ante um pos, a própria criança era lançada aos pAntauos em meio
sacerdote, uma vez na vida. Embora figurasse freqUente- a sacrificios aplaca~ores da ira dos Tohossus. l Ver a lenda
mente ao lado das deusas "Grandes Mães dos deuses" (ver de Zomadonou).
Teteo Innan Icuic) parece ter sido divindade importada ao
culto dos huaxtecas, gente do nordeste do México. Invocada TOHWYIO - Santo tutelar dos deomeanos, que os fiéis su-
nas cerimônias de maior exaltação dos fiéis por tlae°lqu.a.tJ1f, põem tenha sido a principio igual a êles próprios e. tenha
ou seja, "A comedora de imund!cies" significando aquela que fundado uµia famllia, cujos destinos ainda aco1npanha.
recebia, comia os pecados dos crentes. Invocação carinhosa TOJn., - Senhor do fogo, na mitologia quiché. Conta o Po-
para Cihuacóatl *, deusa protetora dos amôres carnais. pu1 Vuh * que nos começos da peregrinação do povo quiché,
TLECUILE - No México, especialmente em Hidalgo, Michoa- seu primeiro avô, Balam Quitzé * encontrou-se, e seus seguido-
cán, Zacatecas e no Istmo de Tehuantepec, braseiro onde a res, em ponto de morrer de frio. Rogou a Tojil que lhe desse
bruxa deixa, para que não se esfriam e percam vitalidade, o fogo anunciado como legado do homem. Depois de expor
os membros retirados do corpo, para voar. A linda môça que sua gente à privações purificadoras, Tojil, na obscuridade que
se vai transformar em bruxa emprega um dêates métodos: lhe era propicia, golpeou com uma pedra o couro de sua san-
corta .a mbas as pernas à altura dos joelhos; apenas a perna dália. . Brotou uma . chispa, logo mais um brilho e pronta-
esquerda conservando a direita para orientar o vôo; deixa mente "a chama do primeiro fogo a luzir esplendoroso".
em terra tão-sõmente os pés. Sempre no braseiro ou Tlecui- Tojil tomou o fogo nas mãos e entregou-o a Balam Quitzé
Ie. Troca os olhos pelos de um gato. Estando pronta e no para repartir entre a gente que grandemente se regozijou e
instante de levantar vôo diz: "Sem Deus e sem Maria!", teve Animo para -continuar a viagem. Durante a peregri-
fórmula que a preserva de encontros funestos. Acreditam nação, o povo quiché comunicava-se com o deus · Tojil atra-
'
241 TON
'l'OL 240
os falsos deuses fugiram, mas os homens, enraivecidos corn
vés dos "avós dos povos" (Balam Quitzé, Balam Acab, a sua pregação, prenderam-no, flagelaram-no e amarraram-
Mahucutah e Iqui Balam), os quais ouviam a voz do deus -no a três grand~~ pedras. Iam atirá-lo ao lago quando
mas não podiam, ainda, distinguir a forma corpórea do mesmo. três esplêndidas águias baixaram do céu e com seus bicos
TOL-LAN - Nome dado, provàvelmente pelo ano 676 d. C., cortaram as amarras, libertando o prisioneiro. Tonapa di-
à antiga povoação de Maenchi *. A partir dessa mudança rigiu-se à praia do lago, estendeu seu manto sôbre as
Tol-lan tornou-se centro da raça e da cultura Tolteca, pala- águas e vog~ndo sôbre o manto rumou para o promontório
vra esta composta de Tol, indicando, como primeira silaba, de Copacabana. A vegetação aquática abria-se diante do
o centro e origem da raça; Teca designando que o grupo hu- manto e êsse canal navegável permanece livre até hoje,
mano pertencia aos huastecas. em memória dessa soberba navegação. Tonapa prosseguiu
em sua peregrinaçã.O. Como sinal de sua fôrça celestial, onde
TONACAYOHUA Uma das invocações da deusa asteca Chi- pousava 9s pés, deixava pegadas impressas· fundo na rocha
comecóatl •. màis dura. Onde repousava, esculpia as formas do corpo.
TONALPOUALLI - Literalmente significaria, em asteca, "a Certa vez, quando duas montanhas disputavam o cetro da
contagem dos dias". Era contudo um calendário divinató- maior altitude, Tonapa · interveio em favor do Monte Ilimani
rio ligando o destino de criaturas a signos animais e à von- e com sua funda . cortou o pico de outro monte, o qual por
tade dos deuses. Conhecido de todos os povos mexicanos, causa disso . ainda hoje se. chama Muratata •, que significa "o
mas adotado entusiàsticamente pelos astecas, baseava-se nas decapitado", enquanto o monte ·nascido daquele pico cortado
combinações de treze números e de vinte nomes, na seguinte e atirado a distância~ chama-se Sajama que quer dizer "pôsto
relação: . cipactli (crocodilo) ; eecatl: (vento) ; calli. (casa) ; fora". Depois de mil prodigios, Tonapa foi aprisionado pelos
C!'etzpalin (lagarto); coatl (serpente); miquiztli (morto); sacerdotes de Titic.a,ca e pôsto, amarrado sôbre uma jangada,
mazatl (cabrito); tochtli (coelho); atz (água); itzcuintli (cão); ao sabor das vagas. Embora não houvesse vento na ocasião
ozomatli (macaco); malinalli (erva sêca); acatl (cana); oce- a jangada rumou para o sul, atravessou o perigoso Estreito
lotl (jaguar); quauhtli (águia); cozcaquauth (abutre); ollin. de Tiquina e aproando para terra abriu a uma distância tão
(movimento ou tremor de terra) ; tecpatl (sílex) ; quiauitl longa um sulco tão .profundo que é hoje ainda o leito do Rio
Desaguadero. Na Lagoa de Aullaga, Tonapa desapareceu.
(chuv~); xocitl (flor). A cada nome ~e dia correspondia
um signo. As combinações entre números e signos resul- Acreditam os aimarás que ·no dia da Páscoa, a palmeira so-
tava em duzentos e sessenta dias iguais a um ano divinató- litária em que Tonapa se converteu, floresce e o herói sai
a passear pelos campos. Mais ao sul, ergue-se uma colina
rio que começava em 1 cipactli e terminava em 13 xochitl.
Os números 7, 10, 11, 12 e 13 eram favoráveis, 9 · era com o n~me Tonapa - santuário aimará.
nefasto e os demais indiferentes. Todos êles influiriam TONATIUH - O Sol, como deus, para os astecas. Os deu-
na vida do homem ligado a números ou signos. ses nascidos do casal primordial, · Ometecuhtli • e Omeciuatl •,
reunidos em Teotihuacan •, cuidavam da criação do mundo
TONAPA - Herói, semideus ou deus da mitologla perua-
e dos homens. Faltava o Sol, a nascer do sangue e do sa-
na, especialmente dos collas, guardou-se em mistério. Su-
crificio. Um dêles, pequena divindade leprosa e coberta de
cedeu a. Viracocha, mas segundo algumas passagens, seria
úlceras assumiu o encargo sacrificial: atirou-se à fogueira
um enviado retardatário daquele, ou o próprio deus retor-
nando sob disfarce e pseudônimo a ·ver como andava a acesa pelos deuses e, uma vez consumido, renasceu sob a
forma de astro. Porém, astro imóvel, quêdo no firmamento.
sua criação. Missionários espanhóis, à vista dos prodfgios
Abrasava uma parte do mundo sem iluminar, aquecer e fer-
~ue dêle ~arravam os índios e a forma pela qual os pra-
tilizar a outra. Urgia fazê-lo correr o caminho do céu. Con-
ticava, quiseram vê-lo como um dos primeiros cristãos, che-
sultaram-no sõbre o que era preciso prover para que se moves-
gado à América, da ÃSia, por vias aventurosas. Diz a len-
se. Que era preciso o sacrificio de todos os filhos de Citlacue •,
da colla : "Em tempos que a memória não situa, junto
respondeu. Um dos deuses, irritado, pôs-se a disparar fle-
ao L~go de Titicaca, um homem por noll!e Tonapa fazia
chas contra o céu. Cansado, o Sol apanhou uma delas e
pro?igios entre gente que havia muito renegara os bons
devolveu-a, matando o atirador. Vendo isto, os demais deu-
ensinamentos e vivia mergulhada em vícios e na devassi-
ses deram-se morte. E o Sol principiou a mover-se. Mas
dão. . Tonapa andou de aldeia em aldeia, pregando a fé para que êle prosseguisse sua marcha, impedindo que as tre-
primitiva e verberando a imoralidade. Vendo-o e ouvindo-o,
TOP 242 243 TUL

vas prevalecessem, requeria, diàriamente, o seu alimento ideal: TOZOZTONTLI - Terceiro mês do ano solar asteca. Signi-
chalchiuatl, sangue dos homens. ficando "pequena vigilia" era dedicado ao culto de Coa-
TOPJ!'J - O ser benfazejo por excelência na mitologia cain- tlicue *, a quem se faziam grandes oferendas de flôres.
gangue. Luta e recebe a permanente oposição de Akritõ •, TRENTEN - Para os araucanos do sul do Chile, cobra mi-
o ser malfazejo. tológica que orientou, protegeu e alimentou os poucos homens
que puderam fugir ao dilúvio, refugiando-se em um cêrro.
TOPILTZIN - Rei histórico-legendário, filho dos amôres de
Findo o dilúvio tais homens fundaram a raça araucana e
Tecpancaltzin • e da donzela sagrada Xochitl •, levou para o
prestaram grandes homenagens a Trenten.
poder, assumido aos quinze anos, a necessidade de dividir o
govêrno com dois homens do agrado divino. Foram êles TSUI GOAB - Significando literalmente, em lingua hoten-
Cuautli e Maxtlatzin. Ao fim de alguns anos, quatro · cala- tote, "joelho ferido", o primeiro e mitológico chefe das tribos
midades naturais ( sêcas prolongadas, chuvas torrenciais, ter- de Khoikhoi. Desde cedo conduziu seu povo contra o im-
remotos, granizadas violentas) devastaram o pais, deixando-o placável inimigo Gaunab. A cada encontro, embora derro-
sem lavouras, sem florestas, cidades devastadas. O povo tado ou não definindo a luta, Tsui Goab adquiria novas fôr-
doente e faminto começou a acreditar no castigo divino aos ças e malicia guerreira, até que se encontrou em condições
amôres de que nascera o seu rei. Assim, não houve maior de matar o adversário. Nesse combate final, Gaunab avariou
entusiasmo defensivo quando o pais foi invadido e destroçado para sempre o joelho de Tsui, donde provém o nome de
por hordas migratórias, em ·Totolápan, ano 1321, calendário guerra do herói. Passou a residir entre as nuvens, na parte
Gregoriano. A batalha é histórica. Diz Alfredo Chavero em. ensolarada do céu. Sábio, profeta, generoso para com o povo,
seu Fin de la Monarquia Tolteca que aquêle dia assinalou o suas aparições freqüentes motivavam grandes festas.
fim "del reinado tolteca y el comi.e nzo dei dominio de los Az- TSUL 'KALU - Entre os cherokee norte-americanos, divin-
tecas". Mesclam-se na história de Tecpancaltzin, de Xochitl dade da caça. Habitava as montanhas ao redor do Rio Azul.
e de seu filho Topiltzin, a realidade e a mitica. TULA - Reino histórico mitológico dos toltecas, cujo flores-
TOPODUM - Jacaré, caimão, ou qualquer animal que nas cimento é situado nos séculos X e XI. Quetzalcoatl •, o grande
grandes extensões liquidas mas especialmente à beira-mar, deus "serpente de plumas" ensinara aos toltecas tôdas as
ataque os homens. J!'J um vodu da familia dos Houlas • técnicas e artes. Mas a evolução e a felicidade dos homens
e recebe o respeito dos negros fons e de outras tribos ligadas enciumara. Tezcatlipoca *, o "escuro deus do céu noturno",
à cultura religiosa do Daomei. o qual, através de vanados artifícios alcançara triunfar sôbre
Quetzalcoatl - o radioso - obrigando-o a exilar-se do Mé-
TORNAQ - Entre os esquimós, alma-rem.édio que por vêzes xico. Aqui, a lenda divide-se. Para uns, o deus amigo dos
é segunda alma de cada individuo, por vêzes gênio tutelar toltecas. desgostoso, abrasou-se em uma pira. Para outros 1
indefinido, seja na sua formação, seja na sua atuação. Ape- afastara-se para o mar alto. Neste ponto juntam-se a lenda
nas se sabe que é sempre benéfico, ,espécie portanto de anjo- e a História. O triunfo do mal, explicado mitolõgicamerite,
-da-guarda. Nagual * entre as tribos mais primitivas , da significou, no campo da História, a. ruina do reino de Tula
América Central. sob o avanço de hordas dos nômades do norte, os Chichime-
TORNARSUK - Para os esquiniós, ser que governa os es- cas - isto é, os bárbaros. Entre essas muitas tribos de pas-
piritos e que existe em tôda:s as coisas ·da natureza. tôres e caçadores vinham os mexica, falando a lingua na-
htt~tl que viria a se impor sôbre os dialetos locais.
TOTEM - Palavra com que os in{lios ojibwa - ou os al-
gonquinos - da América do Norte designavam a. representação TULIVIEJA - Monstro corrente no Panamá, ligado ao ciclo
dos castigos. Narciso Garay (Tradiciones y Cantares de Pa-
material dos espirito~ protetores. Estendeu-se tomando a
namá) ·apud Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros,
si~nificação de emblema protetor das ,pess9as, tribos e na-
ções indigenas. · , · · · narra a punição da môça que tendo um parto às escondidas
da família, atirou o filho ao rio. Marcando-a para exemplo
TOXCAL - O nome dêste quinto mês do Xiuitl * o ano as- de castigo e símbolo de remorso eterno, diz o mito: "Era
teca, parece significar o perlodo da sêca. Fest~s em honra un pecado muy grande y Dios lo castigó en el acto, con-
de Tezcatlipoca *, ao qual era. sacrificado- um rapaz que du- virtiendo. a la culpable en Tulivieja, mónstruo horrendo que
, rante um ano vivera como grande séilhor à espera. dêsse por cara tenia un colador de cuyos huecos salían pelos lar-
momento. gos y cerdosos; por manos, garras; el cuerpo de gato y pa-
TUP 244 245 TYV
tas de caballo. Conc;lenada a buscar su hijo hasta el fin
TZAPOTLATENAN - Deusa asteca cuja intervenção bené-
de los siglos, pasa el tiemPo recorriendo los orilla.s de los
1ios. llamando sin cesar a .s ua criatura con un reclamo pa- fica resultava na cura das úlceras de tôda espécie, de molés-
recido al de las aves y sin que nadie le responda jamás. A tias do couro cabeludo e da rouquidão.
veces reasume su forma primitiva y se baíia en los rios, bella TZEGUA - Nos caminhos solitários da Guatemala, ser fan-
como el sol; pero el menor rui do la vuelve a su estado mons- tástico, maléfico. Apresenta muitos pontos de semelhança
truoso y entonces prosigue su eterna peregrinación." com o Calchona, do Chile.
TUPANA - Variação de ·rupã, · na mítica dos indigenas ama- TZITE - Matéria de que foi feito o homem, na terceira ten-
zónicos dos rios Negro e Branco. l!: como figura na coletânea. tativa dos deuses Tepeu, Gacumatz e Hurakán segundo a
de lendas realizada por António Brandão de Amorim. Eis o mitologia quiché. (Ver G~nese Quické e Oinza.s Qttiché.)
resumo de C. Cascudo: "Na formação do mundo êle tira Depois de haverem sepultado em cinzas os sêres broncos fei-
a pele para fazer .a Terra e quando, depois do dilúviQ, veio tos em madeira, os deuses enviaram o dilúvio que purificou a
com Papá e Piá, tão poderosos quanto êle, fêz uma mulher Terra. Em seguida, tomaram o tzite e fizeram o homem;
de tabatinga (barro branco), mas esta se quebrou no am- da espadana fizeram a mulher. Logo perceberam que ainda
plexo sexual do deus. Tupana fêz outra mulher, desta vez dessa vez não haviam atingido sua finalidade. Homem e
de samauneirá. (Eriodendrum samauma, Mart.) ·. Dela des- companheira eram fragéis e duros de compreensão. Envia-
cendemos todos. Papá e Piá refizeram os animais, aves, ram pois o pássaro Xecotcovah * que cravou suas garras
peixes e árvores. Noutra lenda a ação de Tupana é tentar no solo e com o bico arrancou a pupila dos olhos daqueles
apagar o fogo que seu igual Ndué acendeu. No Rio Uaupés, sêres. Veio em seguida o cruel felino Cotzbalam * que ata-
afluente do Rio Negro, Tupana conquista a fácil e linda Ti- cou o homem e a mulher, despedaçou seus corpos, rasgou
biari. O marido de Tibiari transformou a mulher ·e m pássaro suas veias, mascou seus ossos. Outras feras, não menos
e flexou Tupana nas nádegas, de tal forma que o obrigou cruéis, devoraram os · despojos. Escureceu a Terra e vozes
a emigrar. Noutras regiões Tupana é casado com Massari- de pequenos sêres, até então desapercebidos, gritavam amea-
cado e tem relações amorosas com outras mulheres. Para ças em meio às trevas, apavorando os remanescentes. Junta-
vingar-se, Massaricado cede ao assédio de um indio capaz ram,.se-lhes as vozes das pedras de moer, dos cães, doá ma-
de transformar-se em arara. Tupana surpreendeu-os e ma- deiros, de todos os instrumentos que haviam servido aos
tou o índio. Massaricado foi transformada em pedra. homens. E os homens não tiveram lugar aigum onde refu-
TUPI - Segundo um mito que Simão de Vasconcelos foi o giar-se. Pereceram quase todos. Os poucos salvados na
primeiro a registrar, já em pleno seiscentismo, TUpi seria floresta, tornaram-se monos, e isto explica que êstes semelhem
um dos heróis povoadores do Brasil indigena, vindo, com seu e evoquem os primitivos stres humanos da terra quiché. (Ver
irmão Guarani *, de remota e misteriosa região além do mar. Balam Quitzé.)
TUTU - lt o bicho-papão segundo as mães-pretas e as babás TZITZIMINE - Nas crenças astecas referentes ao principio
fiéis ao dialeto angolês ou quimbundo, que amamentaram ge- e ao fim dos mundos (quatro) que antecederam o nosso e a
rações de brasileiros. Naquele dialeto, tutu é corrutela de êste em que vivemos, na simbologia dos "Quatro Sóis" *, os
quitutu, que significa papão. Em alguns Estados, as varian- Tzizimine, "monstros do crepúsculo", são criaturas pavorosas.
tes são mais de designação (tutú-marambaia, tutu-marambá, Habitando os fundos da Terra, serão libertados por violen-
tutu-do-mato, tutu-zàmbê) do que de função. Não há. quem tos terremotos os quais destruirão as obras dos homens dei-
desconheça a cantiga de embalar: "Tutú Marambá, / Não xando a êstes cruéis libertos a tarefa de liquidar os sobre-
venhas mais cá, / Que o pai do menino, / Te manda matá.'' viventes.
TUTU-ZAMB~ - Monstro do ciclo da angústia infantil, é TYVYRY - Herói dos apapocuvas, irmão do grande civili-
modalidade do t-utu * inicial, presente "nos lábios das amas zador Nhanderykey *, ao qual serviu de companheiro. Repe-
de todo o Brasil", o animal informe e negro de tôdas as his- tição · apapocuva do mito geral da dualidade dos heróis civi-
tórias destinadas a manter quietas as crianças. O zamb~ lizadores. Filho de Nyanderú-Mbaekurá *, herói-divindade e
ou zambeta provém, segundo Câmara Cascudo, do têrmo de Nyandesy *, a primeira mulher, auxiliou seu irmão a dar
quimbundo nzumbi, ou seja, espectro, duende, fantasma, re· forma e sentido ao mundo criado pelo ser supremo Nyande-
forçado pela figura de aleijão, de cambaio, ou de torto expres- rú.vusú *. Morta a mãe, vitima das onças, estava a · perecer
sa pela mesma palavra. de fome quando seu poderoso irmão criou os frutos do mato
para alimentá-lo.
'
247 UIT

para me dar prazer. / Uendé deu-lhes tudo . . . / Os três


homens vão-se embora. Mas sobrevêm fortes chuvas que,
durante três dias, os mantêm encerrados nos matagais. A
mulher fêz a comida para os três. Os homens dizem: Vol-
temos perante Uendé. Chegam lá. Então todos lhe pedem

u mulheres. E Uendé anui em transformar o cavalo em mu-


lher e os cachorros também em mulheres. Os homens vão-se
embora. Mas a mulher tirada do cavalo é glutona; as mu-
lheres tiradas dos ca chorros são más e a primeira mulher, a
que Uendé havia dado a um dêles, é boa; é a mãe do gêne-
ro humano".
UAKONYINGO - Também Wakonyingo. Na Ãfrica central
e centro-sul, espiritos pigmeus de boa 1ndole. São timidos, UEY-TECUILHUITL - No oitavo mês do Xiuitl *, o ano so-
caridosos e generosos. Do tamanho de crianças, têm con· lar asteca, havia distribuição de viveres entre a população
tudo cabeça tão grandemente desproporcionada e pesada que pobre e o sacrificio ritual de uma mulher personificando Xi-
não conseguem levantar-se sôzinhos quando acordam. Os que lonen, a deusa do trigo nôvo. O nome dêste mês significa
ficaram propositadamente velando ajudam os que se deitaram. "festa grande dos senhores", contràriamente ao nome do
Mas quando se enleiam na floresta e caem, usam uma buzina mês anterior (Tecuilhuitontli *) que quer dizer "festa peque-
de chifre com a qual pedem socorro a fim de poder levantar-se, na dos senhores''.
pois permanecer no solo é perigoso. Feliz do homem que UEY-TOZOZTLI - O quarto mês do ano solar asteca, signi-
ouvindo tal apêlo, presta socorro a um dêles, erguendo-o. Re- ficava "a grande vigília" (ver Tozoztontli) e durante seu de-
cebe as maiores provas de gratidão. curso homenageava-se Centeotl •, o deus do milho, e sua espô-
sa Chicomecoatl *. Oferendas de flôres e de alimentos, can-
U ALRI - Indígena idoso, iniciado por Jurupari ·• ·ao qual tos e danças pelas môças no templo da deusa.
traiu revelando os segredos da iniciação. Por suas malfazen- UITZILOPOCHTLI - Para os astecas, um deus poderoso, in-
ças tornou-se odiado pelos zelosos seguidores de Jurupari. domável, quase familiar, que durante século e meio guiou o
Terminou queimado vivo e de l!IU&s cinzas é que nasceram povo em sua migração e fixação sôbre as ruinas do reino de
todos os répteis venenosos e os insetos incômodos. Tula. A páginas 62 a 66 da Crónica Mex:J,cayotl, coletânea
UAUIARA - O bôto •, para os índios do Pará e do Amazo- de apontamentos redigidos em língua nahuatl, vêm narrado
nas. Couto de Magalhães registra: "A sorte dos peixes foi o prodígio maior do deus em favor de seu povo: " . . . o deus
corifiada ao Uauiará. . . . Ainda hoje no Pará não hâ uma só chamou o sacerdote Quauhcoatl ( Serpente-Aguia) e lhe dis-
povoação do interior que não tenha para narrar ao viajante se: "ô Quauhcoatl ! . . . vai pois, agora já, descobrir o cacto
uma série de histórias, ora grotescas e extravagantes, ora tenochtli no qual estará pousada jubilosamente uma águia ...
melancólicas e ternas, em que êle figura como herói. O 1!'.: ali que será a nossa cidade México-Tenochtitlan, ali onde
Uauiará é um grande amador das nossas indias; muitas delas reinaremos, que nos encontraremos aos diferentes povos, que
atribuem seu primeiro filho a alguma esperteza dêsse deus, que os conquistaremos com a nossa flecha e o nosso escudo. ~
ora as surpreendeu no· banho, ora transformou-se na figura ali que será a nossa cidade. . . ali, onde a águia solta o
de um mortal para seduzi-las; ora arrebatou-as para debai- seu grito, abre as asas e com.e, ali onde nada o peixe, ali
xo d'água, onde a infeliz foi forçada a entregar-se a êle. Nas onde a serpente é devorada, México-Tenochtitlan, e muitas
noites de luar, no Amazonas, conta o povo do Pará, que mui- coisas ali se farão !" Quauhcoatl reuniu prontamente os me-
tas vêzes os lagos se iluminam e que se ouvem as cantigas xicanos e relatou-lhes as palavras do deus. Penetraram en-
das festas e o bate-pé das danças com que o Uauiará se tão, com o sacerdote à frente, nos pântanos, por entre as
diverte." (O Sel vagem.) plantas aquáticas e os juncos, e de repente à beira de uma
UEND~ - Na mitica das tribos negros da antiga Africa caverna viram a águia, erguida sôbre um cacto, devorando
Ocidental francesa, deus responsável pela diversidade obser- alegremente uma serpente . . . o deus chamou-os e disse-lhes :
vada no gênio das mulheres. Diz a lenda colhida por Blaise "~ aqui, ó mexicanos!" Então êles choraram . . . bradan-
Cendrars que "três homens compareceram sucessivamente pe- do . . . "Aqui será a nossa cidade!" Isso ocorreu no ano ome
rante Uendé, para expor-lhe suas necessidades. O primeiro acatl, ou seja, 1 325. Uitzilopochtli significaria "o colibri da
disse: Quero um cavalo. O outro disse : Quero cachorros esquerda", ou seja, "o canhoto". Durante certo periodo, êle
para caçar na mata. O terceiro disse: Quero uma mulher
UIX 248 249 UPO

terá sido a polarização deificada da f ôrça destruidora do prendimento decorre da qualidade de bruxa da pessoa que
Sol que estraga os ali~entos, faz endoi~ecer os ~omens.. e pro- perde a cabeça. Outras vêzes é devido à sêde com que
voca as sêcas destruidoras. Sua mae, Coathcue ( a que pessoas inocentes mas preguiçosas vão para a cama. Tam-
tem saia de serpente") - havia dado à luz, antes dêle, bém pode suceder como castigo àqueles individuos que recor-
aos inumeráveis deuses englobadamente conhecidos como "os rem com freqüência a palavrões e blasfêmias. Uma vez
quatrocentos do sul", e também à divindade lunar Coyol- desprendidas e voando ou saltando, as cabeças agarram-se
xauhqui * - senhora das trevas noturnas. Em seguida, foi fe- aos peitos das mulheres ou ao pescoço dos homens. Em cer-
cundada por um môlho de plumas descido do céu, havendo tos casos, passam por entre as pernas da vitima o que é
seu filho deus nascido já com a sua "serpente de fogo" aviso de morte próxima. Segundo os apontamentos do mitó-
(xiuhcoatl). Logo depois de nascido, expulsou do panteão logo Morote Best, não está excluído que a cabeça se implan-
e do coração dos homens os seus irmãos e sua irmã, com te sôbre os ombros da vitima tornando-a horrendamente bi-
a facilidade diária do Sol ao dissipar as trevas e apagar as céfala. Herança da mítica inca, na Bolivia é chamada Ka-
estrêlas. tekate. Nas demais áreas também conhecida, temerosamente,
UIXACHTECATL - Monte mais ou menos sagrado dos me- como Uma; Wagya, Qepqe, Uma Pali, Runa-Uma, Aya-Uma,
xicanos, em cujo alto cimo, celebravam a cerimónia do Aya~Uma, Uman Tak-Tak, Keke, Mok-Mok, Uma Pureq1ceke.
Lume Nôvo ou do "atar dos anos" com que inauguravam UNANANA BOSELE - Mito zulu de várias interpretações.
a passagem de um século. O século mexicano ou asteca du- Certa mulher, muito pobre, e suas duas crianças, foram en-
rava cinqüenta e dois anos e a última cerimónia da "atadura golidas por um elefante. Dentro do elefante a mulher en-
dos anos" foi celebrada no decurso do ano 1507, Calendário controu, aprisionados, todos os espíritos bons e maus, des-
Gregoriano, sob o reinado de Montezuma II, Xocoyotzin ("o tinados a atuar no mundo, porém retidos ali. Ela deu-se
mais nôvo" ) .
UIXTOCIUATL - A deusa asteca da água salgada, protetora
bem com todos. .Como suas duas crianças tivessem fome,
socorrendo-se das habilidades de alguns dos espiritos, cortou
dos salineiros. A água doce era dominio da deusa Chal- e assou sucessivos pedaços das partes internas do elefante.
chuihtlicue *. Afinal, o elefante morreu, vitima dessa atividade da mulher.
UMA PUREQKEKE - O mesmo que Umita, Cabeça Volan- Foi quando ela abriu uma passagem entre as costelas do
te, Uma Waqya, Kefke, Uma Pali, Runa Uma, Aya-Uma, animal, deixando sair os espiritos que a fizeram riquíssima.
Ayap-Uma, Umam Tak-Talk, Mok-Mok no lendário perúvio- UNKTAHE - Para os dacotas, indios norte-americanos, di-
-boliviano. vindade da água, grande mágico, insuflador de sonhos e
UMBANDA - Culto africano que no entender dos editôres mestre em feitiçarias.
do Catecismo de Umbanda (Edições Corinto, RJ) "em con- UNKULUNKULU - O deus da criação para os zulus. Fêz
tato com o catolicismo e o espiritismo e com as crendices os homens de hastes da cana selvagem. Unkulunkulu não se
dos indígenas do Brasil, tornou-se em um sincretismo mágico deu ao trabalho de escolher determinadas hastes, usou-as
-religioso, com base na mitologia dos africanos e dos ame- tôdas. Por isso há homens gordos e homens magros, baixos
rindios". "Umbanda é palavra africana, significando ora o e altos, curvos e empertigados.
sacerdote, ora o local onde se praticava o culto.'' No UNO PACHACUTI - A grande inundação que assolou o mun-
Brasil, Umbanda é praticada através dos médiuns, dirigidos do, desatada como castigo divino contra a perversidade do
pelo chefe do terreiro, babalorixá. Finalidade da ação me- homem, segundo a crença dos mais antigos povos peruvia-
diúnica: "estabelecer uma relação mais freqüente entre os nos. O universo desta lenda é o do Lago Titicaca *. Os cien-
mundos da matéria e o espiritual - diz o citado Catecismo. tistas que estudaram a região concordam em que em tempo
Samuel Ponze afirma em Lições de Umbanda que a "Um- imemorial, na fase mais antiga da civilização de Tiaua-
banda vem dos lêmures, existe . . . antes dos Atlantes que naco •, um súbito e irregular degêlo andino provocou gran-
deram origem aos Toltecas. . . lendo-se as obras de Madame de desbordamento do lago, com destruição de cidades, cul-
Blavatsky, Annie Besante e C. W. Leadbeater." ' turas e vidas. Depois da grande inundação, Viracocha *, o
UMIT A - Entre os remanescentes indigenas e os fundos de deus pai dos homens, voltou à Terra e retomou sua tarefa
religião fetichista da Bolivia, Peru, norte do Chile e Argen- criadora, gerando uma nova Humanidade.
tina, mito da cabeça que se desprende do corpo e sai voando, "O'-PORA - Duende aquático da região argentina de Missio-
se fôr de mulher~ saltando, se de homem. As vêzes, tal des- nes, variante ativa e violenta do bôto *. Na linguagem do
UPU 250
natural, significa: ú-, água; póra, morador. De fato, ha-
bita as aguadas permanentes. Sempre que sente dese-
jos amorosos, transforma-se em homem moreno, simpático,
forte, atraindo mulheres para colóquios que, algumas vêzes,
terminam pela morte da incauta.
UPUPIARA - Criatura monstruosa, marinha, descrita por vá-
rios cronistas coloniais brasileiros. Tratado com destaque
por Gabriel Soares, em seu "Roteiro do Brasil": " ... se en-
V
contram na Bahia e nos recôncavos dela, muitos homens
marinhos, a quem os indios chamam pela sua lingua upupia-
ra, os quais andam pelo rio d'água doce pelo tempo do verão, VAI'úALE - No mito de Gilijoaibu • dos indios taulipangues,
onde fazem muito dano aos índios pescadores e mariscado- esta heroina, Vaiúale, tem papel de personagem grega e Ien1-
res que andam em jangadas, onde os tomam, e aos que an- bra de perto a mulher de Putifar. Induz o cunhado a rela-
dam pelas bordas da água, metidos nela". Leia-se também ções amorosas, prende-o na rêde com o pêso de seu corpo
o que escreveu Fernão Cardim sôbre os Igupiara •. c~rta a perna do marido para afastá-lo de sua choça. Ter~
URABA - Duende que, em forma de morcêgo gigantesco, mina transformada em tatu, enquanto o marido ainda é cons-
enchia de pavor as noites e as cami.nhadas dos primeiros es- telação no céu taullpángue e o cunhado e os filhos que teve
panhóis descidos e fixados na América Central. Acreditava- com êle são araiuág, insignificantes animaizinhos que vivem
-se f ôsse em seu sangue particularmente espêsso e por êle nas altas copas furtando mel às colmeias.
fornecido voluntàriamente em certas oportunidades, que os VAQ~~O BORG~S - Em tôda região do Brasil onde haja
indigenas revoltados embebiam suas flechas, tornando-as ex- atividade pastonl, cavalga a mítica do vaqueiro misterioso,
tremamente mortais. que, º':1 é chama.do assim mesmo, ou se chama Borges, como
URANCHILLAY - Deus inca personificando a constelação da em Minas Gerais e Goiás ou se chama Ventura, como no
Lira. (Ver Machacuay, Oolla, Ohuquichinchay.) nordeste. Câmara Cascudo retrata-o: " . .. misterioso, sa~
URCOS - Primitivamente, uma aldeola no alto vale de Cusco dor de segredos infalfveis, mais destro, mais hábil, mais afoi-
e depois local de um esplêndido santuário dedicado ao deus to, melhor cavaleiro que todos os outros reunidos. Ninguém
Viracocha *. Diz a mitologia dos collas e dos incas que Vi· sabe onde êle mora nem a terra em que nasceu. Vence a
racocha fazia constantes peregrinações por vales e monta- todos os companheiros. Recebe o pagamento. Desaparece
nhas, a fim de conhecer e afervorar a adoração dos seus para surgtr, vinte, cinqüenta léguas diante noutra fazenda,
fiéis. Em Urcos, recebera homenagens especialmente ca- repetindo as façanhas julgadas sobrenaturais. Monta um
lorosas. Em recompensa, o próprio deus esculpiu a sua imagem cavalo velho ou uma égua aparentemente imprestável e
e entregou-a ao povo. Para a imagem foi construido um cansada. Mal vestido, humilde, sofrendo remoques, . . . ter-
santuário, objeto de valiosas doações. Saqueado pelos espa- mina sendo o primeiro, o mestre supremo, aclamado como um
nhóis, a parte de Francisco Pizarro compreendia uma cadeia herói. desejado pelas. mulheres, convidado para os melhores
de ouro puro, avaliada, na ocasião, em 17 00 pesos. lugares pelo fazendeiro. Recusa tôdas as seduções e re-
URUTAU - Na mítica dos primeiros tempos da colonização, mergulha no mistério". Em alguns lugares, certamente por
a fantasia dos cronistas aceitou e ampliou a crença indigena confluência de mitos, viram-no transformar-se em onça. No
de que o triste urutau fôsse o pássaro do diabo - o Uyra sertão do Urucaia fêz vinte e oito léguas, a galope, em ses-
Jeropary. O melhor texto a respeito é o de Ivo D'Evreux senta minutos. Nas versões nordestinas, denuncia aquêles
(Viagem ao Norte do Brasil): "há também certos pássaros que enriqueceram mediante pactos com o diabo ou êle pró-
noturnos que não cantam, mas que têm um piado queixoso, prio é o diabo ou o pactuante com êste.
enfadonho e triste, que vivem sempre escondidos, não sain- VARNHAGEN, Francisco Adolpho de - Visconde de Pôrto
do dos bosques, chamados pelos indios Uyra _ Jeropary - Seguro, historiador brasileiro que, depois de estudos com-
pássaros do diabo, e dizem que os diabos com êles convi- parativos entre as línguas tupi, certos dialetos caribes e lín-
vem, que quando põem é um ôvo em cada lugar, e assim guas turAnias ou mongólicas sugeriu a tese de que tribos de
por diante, que são cobertos pelo diabo e que só comem cários •, da Asia Menor, emigrando em massa, houvessem
terra." produzido a raça tupi depois de uma estada nas Antilhas.
253 VIR
VAZ 252
habitantes receberam-no muito mal e o divino entendeu cas-
v AZACA - Na mítica taulipangue, árvore prodigiosa, ligada tigá-los. No fraseado pitoresco de Pedro Sarmiento de Gam-
ao ciclo de Macunaima. Especificamente, aparece na lenda ~oa (História de los Incas), o episódio vem narrado assim:
da grande f orne, parte da lenda geral do dilúvio. ~ra ime~a · · . levantadas las manos puestas y rostro al cielo, bajó
e produzia tôdas as frutas boas: banana, mamao, acaJu, f~ego de ~o alto... y abrasó todo aquel lugar; u ardia Ia
milho. o aculi, que então era homem, descobriu a árvore que t1err8: Y p1~ como paja". O povo, assustado, pediu cle-
depois foi mandada derrubar por Macunatma e posta abaixo mência. V1racocha foi prodigiosamente ao lago e apagou o
por Manape e Anzikilan. Tombou para o norte, originando fogo. Sob o reinado dos incas, construiu-se em Vilcanota um
08 bananais nativos que alimentam os demônios da serra santuário destinado a memorar o episódio.
(Mauari), e de seu tôco formou-se o Monte Rorãima.
VffiACOCHA - O maior, mais presente e poderoso dos deuses
VENTO-DE-LESTE - Na mítica dos iroqueses, indios norte- na mitologia incaica e de quase todos os povos da região do
-americanos, os ventos tinham boa participação. O Vento- Lago de Titicaca *. Viracocha Pachacaiachi - seu nome in-
-de-Leste contava a seu crédito com uma façanha muito teiro - quer dizer: "0 Criador de Tôdas as Coisas". Depois
memorada: ajudara seu irmão, Hi'nun *, a exterminar os do Uno Pachacuti •, o dilúvio andino, desceu à Terra, criou
gigantes de pedra que ameaçavam o equilibrio da Terra e homens e apiedado dêles, que erravam sem direção nem des-
a existência dos homens. tino, deu-lhes por chefes a seus filhos Manco Capac (ver
VENTOS SAGRADOS - Algumas tribos esquimós acreditam Mairubi) e a irmã dêste, Mama Oclo *, os primeiros incas.
existirem vozes e mandados divinos em ventos que sopram Gostando de. experimentar antes de considerar definitivo seu
trabalho, Viracocha começou criando um mundo estranho,
de quatro direções : Pauna, o do leste; Sauna, o do oeste;
sem Sol nem estrêlas. ".:S:le deu também origem a uma raça
Kauna, o do sul; .A.una, o do norte.
d? gigantes, pesadões e grosseiros, que f êz surgir de pedras
VERRIL - Ruth Verril, arqueóloga norte-americana, co-autora pintadas. Depois, verificando que tais sêres eram maiores
com o marido, Alpheus Hyatt Verril, do livro Arnericas An- do que êle próprio, raciocinou: "mais prudente é não criar
cient Civilizations, fêz a 240 quilômetros de Cusco, uma das homens dêsse por~e. Melhor será que tenham o meu tama-
mais perturbadoras descobertas ligadas às origens mito- nho. Eis por que Viracocha terminou criando homens à sua
-históricas do povoamento sul-americano e da procedência semelhança, tais como existem em nossos dias." Ordenou
dos pré-incas. Trata-se de uma inscrição pré-incaica, que que os homens guardassem harmonia entre si, obedecessem
ela identificou como sendo "uma forma de escrita linear ar- a um código moral e o servissem e honrassem. Uma parte das
caica, do tempo do Rei Menés", ou seja, de 2 900 anos a. C. suas criaturas, deixou-se dominar pelo orgulho de ser ho-
Um trecho dessa inscrição dizia: "Terra do crepúsculo . . . mem e entregou-se a várias formas de pecados, entre elas
sob a direção de Gin-Tin, na companhia do deus do fogo - a da devassidão. Encolerizado, Viracocha dispersou-os, trans-
Men, da colônia do vale do Indus ... " Querem os autores da formando os devassos em pedras, outros pecadores em ani-
descoberta que ela seja nitidamente sumeriana, o que quer mais, afogando a maioria nas águas ou sepultando-os em
dizer, mediterrânea. fendas subitamente abertas no solo. Mandou em seguida o
grande dilúvic;> - Uno Pachacuti * - para cobrir o mundo.
VIBOREROS - Ou "Negados de Dios", na América hispA.nlca, Poupou três indivíduos destinados ao repovoamento. Quando
indivíduos que mercê o emprêgo de artes mágicas dominam as águas desapareceram e a terra ofereceu-se ao Sol, tomou
as piores víboras e põem-nas a seu serviço ou de quem os um daqueles três, Taguapacac *, e levou-o para a região do
toma a sôldo. Titicaca. Ali, ordenou ao Sol que brilhasse e à Lua e às
VILACHA - Nos sacrificios humanos praticados pelos incas, estrêlas que tomassem lugar no céu até o final dos tempos.
vilacha era a cerimônia consistente no desenho que o sacri- Mas, descuidado de detalhes, Viracocha fizera a Lua mais
:ticador fazia, com um dedo molhado no sangue da vitima, brilhante do que ·o Sol o que a fêz adorada por muitas tribos
em seu próprio rosto e em seguida no rosto dos assistentes do ~ltiplano. Um dia, enciumado, o Sol lançou um punhado
que pedissem e merecessem tal honraria. Em certas regiões de cinzas à face da Lua. Tornou-a de brilho opaco e de côr
do império, chamavam a êsse ritual Pira.no* cinérea, ganhando para si os adoradores dela. Taguapacac
VILCANOT A - No ciclo . mltico da peregrinação de Vira- também se perdera pelo orgulho e fôra lançado às profunde-
zas do lago e então Viracocha, com os justos remanescentes,
cocha, depois de haver criado o Sol, a Lua e os homens, às
fundou a primeira casa de oração - Huaca - e foi para o
margens do Titicaca, o deus cruzou o vale de Vilcanota. Os
VOD 254
255 VOD
sitio de Tiauanaco "'. Na superficie · ·polida de uma pedra
imensa escreveu os nomes das nações que desejava criar, rios cultos ligados à expressão. Parece haver estado inicial-
desenhou pessoas pequenas e grandes, gordas e magras. As- mente ligada a restos do culto daomeano sobrevivente na Ilha
soprando sôbre as pedras, infundia-lhes vida e mandava-as de Haiti. Diz Arthur Ramos: "a palavra vodu ficou sendo
povoar diferentes regiões. Os quatro povos então criados qualq~er coi~a sinistra, a infundir calafrios de pavor ao in-
(Huari Viracocha-Ruma *, Huari-Ruma *, Purun-Ruma * e c?ns~!ente l~itor de algumas destas narrativas cinematográ-
Auca-Ruma *) dominaram sucessivamente o mundo que Vira- ficas . . ~nce-Mars, em Ainsi parla Z'Oncle, citado por A.
cocha· lhes destiriara. Antes de se dispersarem, as nações que Ramos 1ns1ste em que vodu é uma religião "porque todos os
falavam uma lingua única ergueram a cidade de Tiauanaco adeptos crêem na existência dos sêres espirituais que vi-
mas, tão logo deixaram-na, passaram a falar linguagem dife- vem em alguma parte do universo em estreita intimidade
rente e -já não se compreenderam. Depois de muitas peripécias com os humanos cuja atividade êles dominam". "~stes sê-
Viracocha considerou finda sua missão terrena e caminhando, res invisíveis constituem um Olimpo inumerável formado de
de costas, sôbre o mar, desapareceu no horizonte. ~sse o deuses, dentre os quais os maiores tomam ·o titulo de Papa
mito conforme o texto do cronista. indigena Huanan Poma ou Grande Mestre e têm direito a homenagens particulares."
de Ayala, seguida e aceita por Sarmiento. Segundo Rodolfo "O Vodu é uma religião porque, através da confusão das
Kusch (América Profunda), ainda existe no antiplano, no legendas e a corrupção das fábulas, se pode depurar uma
coração das massas aimarás, um fenômeno chamado Vira- te?l.ogia, um sistema de representação graças ao qual, pri-
cochaismo. Viracocha era também chamado, segundo o mes- mitivamente, nossos antepassados africanos explicavam os
mo autor - Illa Ticci Vira Cocha Pachayachachic, ou seja - fenómenos naturais e que estão, de modo latente, na base
"o senhor dos quatro elementos: fogo, terra, água e ar". José das crenças anárquicas sóbre as quais repousa o catolicismo
Imbelloni (Segunda Esfinge Indiana, Ed. Hachette, Buenos hibrido de nossas massas populares." Segundo o Dr. Dor-
Aires), Illa se refere ao fogo; Ttcci à terra; Vira, ao ar e sainvil, o vodu é "uma psico-neurose religiosa, racial, heredi-
Cocha à água. A representação de Viracocha adota sempre tária, caracterizada por um desdobramento da personalidade
a forma andrógina. Depois da conquista, algo de cristianis- com alterações funcionais da sensibilidade, da n-1otilidade e
mo revestiu o mito de Viracocha, tomando menos fácil dis- predominância dos sintomas pitiáticos". Por fim" - diz
tinguir o teor primitivo. Assim, aceita-se com reservas a Arthur Ramos - "dentro do nome vodu, englobam outros
afirmação do cronista quichua Santa Cruz Pachacuti-Yamqui autores tôda uma série de fenómenos ligados à mala vita dos
segundo a qual Viracocha fincara uma cruz em uma colina negros haitianos : práticas de feitiçaria, crendices e abusões
e ministrara o batismo com água a alguns príncipes. Outra de várias procedências." Na descrição do Moreau de Saint-
parte que parece acrescentada ao mito é a do final da pe- -Méry, o "'vodu era um culto celebrado pelos negros, à noite,
regrínação de Viracocha pela Terra. Depois de percorrer em lugar escuro, inacessível à curiosidade dos estranhos. A
o norte do futuro império, assinalando sua rota com inúme- divindade do culto é a cobra sagrada. A própria grafia da
ras criações e havendo fundado a cidade imperial de Cusco, palavra vodu foi distorcida, tentada, modificada por autores
subiu a um monte, reuniu as turbas e anunciou muitos acon- franceses (vaudou, vaudoux, vaudon, vôdou) e inglêses (woodoo
tecimentos que teriam lugar no futuro. Disse que surgiriam e hoodoo). Quanto à origem da palavra, querem alguns
inúmeros falsos Viracocha dos quais os homens deveriam franceses e inglêses, filiá-la à vaudoiste, bruxaria francesa
desconfiar em beneficio de sua fé e de sua salvação. No medieval, provindo do nome dos hereges Valdenses ou vou-
tempo devido, êle próprio enviaria seus mensageiros, os quais dois. O nome designou, por algum tempo, as piores bruxa-
seriam "homens de pele branca e barbados". 1:stes homens rias e teria sido empregado, naquela colónia, para designar
restaurariam a verdade, a fé e a tranqüilidade entre os ho- práticas dos negros escravos. Mas outros autores, negros
mens. Terminado o discurso, entrou pelo mar adentro, ca- p~cipalmente, preferem vê-la provir de vodun, espíritos que
minhando sôbre as ondas. animam culto restrito de igual nome no Daomé. Os vodus
VODU - Uma das palavras mais excitantes, mais explicadas africanos teriam, no Haiti, mesclado com elementos de outros
e menos pacificas da mitologia afro-americana. Lendas, fil- cultos (sudaneses, bantos) e com santos católicos, passando a
mes, sensacionalismo jornalístico não contribuiram senão para chamar-se voduns para as massas e Zois (pronunciar em
complicar o melhor entendimento do complexo conteúdo da Francês) para os mais aproximados das elites aominantes.
palavra e do que ela significaria para os exercitantes dos va- Os lois correspondem, em número e funções aos vodus dao-
meanos.
VOD
256

VODUN - J;':J a forma estritamente daomeana de pronunciar


(com o u da palavra comum vodu, acentuadamente anasala-
do) o têrmo genérico correspondente a espírito ou a santo.
No panteão do Daomé e povos africanos e afro-americanos
influenciados pelo culto daquele país, os voduns exercem
marcante influência. Há-os no ar, na terra, nas águas, nos
montes, nos vales, no raio, no vento, na tempestade. Tal
como no culto ioruba, seu semelhante próximo, o culto dao-
w
meano divinizou tôdas as fôrças da natureza. Os principais
voduns são: A ido, Hwedo, Gu, Loko, Aizu, Akazu, Adjakapa, WAC - No panteão dos pericues californianos, um dos deu-
Xebioso. Foram todos transplantados para as circunstâncias ses do cortejo de Niparaya *, o ser supremo. Revoltando-se
locais da escravidão negra em terras americanas. (Ver Vodu.) contra êste e vencido, foi precipitado para o fundo do mar
onde cuida dos monstros abissais.
VOTAN - Isto é, "o cabeça", segundo o estudioso Marcelino
Machuca Martínez. Sacerdote negro, oriundo da Libia e que, WAIKURU - Na mítica bororo, esphitos de feiticeiros fale-
dizendo-se detentor da sabedoria outorgada ou haurida nos cidos. São sempre daninhos, perturbando os homens. Para
templos da deusa Maia, teria sido o primeiro sábi~ a pisar agir melhor, assumem a forma de índios velhos.
terras da América Central onde fundaria a civilização que WAISA - Entre os bush negroes da Guiana Holandesa, uma
em homenagem àquela deusa recebeu o nome de Maia. Fun- das invocações para o vodu Mama Fo Gran ou ainda Ma
dou as cidades: Soconusco, Ocosingo, e Nachan, sendo que Fo Doti - a Mãe Terra.
esta posteriormente passou a chamar-se Palenque. Orde- W AK - O deus máximo para os galas, africanos.
nou a fusão de seus homens com a raça local, por meio de (

WAKANDA "ó grande espírito", Manitou e também


casamentos; repartiu as terras de cultivo, reformou os hábi-
Man'ito *, para os sioux, índios norte-americanos. O mesmo
tos de construir e lavrar, introduziu artes, ciências e técnicas
que (ver) : Oki, Pokunt, Coen, Orenda, Inua.
industriais. Em viagens continuas erigiu templos e fundou
cidades desde Palenque até Término, no Gôlfo do México. W AKONYINGO - Para alguns povos centro africanos, raça
Enviou seu filho Zamnâ * a reconhecer e povoar a ilha que lendária de anões dotados de cabeças enormes, guardiães
mais tarde veio a ser chamada Cuba. Quando faleceu, de- dos acessos a Kibo *, o paraíso, o lugar das delícias.
pois de estruturar um reino, foi por tal forma chorado pelo WALUMBE - A morte, nos mitos de Uganda do ciclo de
povo que depressa ganhou créditos de deus. Gulu-Nambi-Kintu. Walumbe está personificada em um dos
filhos de Gulu * ou Kulu, o deus que é também o céu. Vivia
no céu, sem ter o que fazer entre imortais. Quando a irmã
Nambi *, apaixonada pelo mortal Kintu * aceitou descer para
a Terra, Walumbe baixou em companhia da irmã e do cunha-
do e sendo a própria morte, começou a colheita entre os so-
brinhos. Nambi, desesperada, pediu a Gulu que repatriasse o
terrível Walumbe. Gulu apiedou-se e chamou o filho. Wa-
lumbe não atendeu. Então Gulu enviou seu outro filho,
Kaikuzi *, com ordens de prender Walumbe e conduzi-lo para
o céu. Os irmãos Kaikuzi e Walumbe, empenham-se em
uma interminável série de perseguições e de fugas.. Sempre
que está prestes a ser aprisionado, Walumbe encontra refú-
gio nas profundezas da Terra que é o reino da morte. Kaikuzi
confessa ao cunhado ser impossível deter a morte. Se os
mortais querem vencê-lo deverão preocupar-se em estar sem-
pre à frente dela, gerando filhos e mais filhos. Kintu aceita
o conselho e libera Kaikuzi que retorna ao céu.
W ATA UINEWA - O grande deus dos yámanás.
258 259 'WUL
WAU
danças do Tigri winti, de Opete winti, etc. A pessoa que
wAUKHEON - Na mítica dos dacotas, norte-americanos, pás-
tem o winti chama-se ai do winti, que literalmente quer di-
saro figurado pela "nuvem-que-traz-o-trovão". Existe em per-
zer "cavalo de santo".
manente conflito com Unktahe *.
WISAHA - Personificação da luz, divindade e herói civili-
WEDO - T ambém Ouédo, é a deusa daomeana do arco-iris. zador dos sacs, indios da América do Norte. Atuação e
Em algumas regiões africanas mas especialmente entre os peripécias temàticamente iguais àquelas de outras persona-
negr os do H aiti filiados aos cultos daomeanos, Wedo ou gens miticas norte-americanas : Manabozho • e Michabo • para.
Ouédo é. intimamente ligado ao culto do seus lois • principal - os algonquinos, Ioskeha * para os iroqueses; Ictinike, para
D amballah *, a cobra. os sioux; Napiw, para os pés-prêtos; Wisaketchak, para os
WILLCAS - Na mitologia dos Huarochiri, antigos aborigi- crees, etc.
nes argentinos, os Willcas eram irmãos gêmeos, produtos WISAKETCHAK Herói civilizador e divindade cultural dos
da união do Céu e da Terra. Entre suas andanças aven- cree, incllos norte-americanos. Guardava muitos pontos de
tnrosas destacam-se a chegada à cova sinistra de Wa-Kon, contato com outras divindades e heróis míticos de tribos ame-
o monstro aterrador e devorador que lhes come a mãe ter- ricanas: Manabozho * ou Michabo,* dos algonquinos; Ioskeha *,
rena, as muitas provas de coragem, sagacidade, pertinácia dos iroqueses; Ictinike * dos siouan; Napiw, dos pés-pretos;
e r esistência física a que são submetidos e, por fim, a trans- Wisaha, dos sacs; etc.
formação de ambos em Sol e Lua.
WISI - Objetos mágicos que sem nunca se confundirem com
WINTI - Deuses ou espíritos menores no panteão dos Fanti- os winti, .isto é, deuses, são dotados de podêres extraordiná-
-Ashanti da Costa do Ouro e seus descendentes diretos, os rios e figuram destacadamente na mitica dos Fanti-Ashanti
'bush-negroes da Guiana Holandesa . São Winti principais: da Costa do Ouro e dos 'bush negroes da Guiana Holandesa.
Asase, a Mãe-Terra; Osai Tondo, o rio sagrado do F anti, na ~stes objetos mágicos são chamados Obia *, quando destina-
Mrica; Opete, o abutre; Tigri, ou Dyebi, ou Dyadya; Obia- dos à mâgica boa, pois de forma geral Wisi é instrumento
-Kromansi; Nengerekondre Kromanti, etc. Por três manei- de mágica ruim. (''Wisi wroko tw111!(Ja Yorka" - wisi tra-
ras uma pessoa pode assegurar-se a proteção de um winti. balha por meio de fantasmas) . O feiticeiro wisi apela para
A mais comum é a aquisição por herança. Dentro de cada as almas dos mortos e aprisiona-as para usá-las como es-
)
familia que já a possua, o \vinti passa de homem para homem, cravas.
de m ulher para mulher, quando do falecimento do possuidor.
WULBARI - O deus da cria~ão, na mitica das tribos afri-
O segundo método é a escolha do próprio deus. Se descon-
canas estudadas por Blaise Cendrars, no principio dos tem-
tente com a pessoa em cujo corpo esteja, pode deixá-lo e
pos vivia ao lado dos homens, 1eitado sôbre a Mãe Terra.
passar para outro corpo. O terceiro processo é o da inicia-
Mas os homens deram pa:ta se fazer incômodos ao deus.
ção. Desde cedo a criança é votada ao culto do winti. Se
Começou com a velha que morava vizinha e que tôdas as
ela demonstra, em tenra idade, propensão para o canto, a dan-
vêzes em que se punha a fazer fufu diante da choça, batia
ça, etc., dá com isso demonstração de que foi possuida pelo
em Wulbari com a mão de seu pilão. O deus reclamou, a
deus. Não há instrução especial para esta iniciação. "Quan-
velha não lhe deu ouvidos, o deus apartou-se dos mortais.
do o winti entra no indivíduo, é o próprio espírito que canta
Mas o fogão dos homens lançava fumaça em seus olhos di-
as canções, f ala as linguas, e dança as danças" - dizem os vinos que estavam sempre ardendo e doendo. Irritado e can-
bush negroes. Uma vez unido a um winti, a pessoa deve
sado, Wulbari abandonou a Terra e situou-se no espaço, for-
observar certas regras, prescrições especiais para cada winti,
mando uma côrte de animais, para seu serviço. Tudo cor-
proibições, t abus, etc. Trefu é a abstinência, por imposição
reu bem até quando Anansi *, a aranha, mostrou ser demasiado
do winti, de certos alimentos. Assim o Papa-winti proíbe ambiciosa. Foi posta à prova por Wulbari e saiu-se bem naque-
comer bananas; o winti A isa não permite o peixe aos seus
las em que era necessário astúcia, coragem, simulação e .ha-
adeptos. Em compensação, exigem certos alimentos: arroz bilidade comercial. Chegou a trocar uma espiga de nulho
kriori (nunca o arroz importado) ; obia-fatu ou seja, óleo
por cem escravos pro;.:!edentes das melhores familias da im-
de certas palmeiras, para as frituras; bebidas doces, etc. Os portante cidade de Yendi. Mas quando se propôs conquistar
winti também se distinguem pelás côres: os Kromanti, que- o Sol, a Lua e a escuridão para satisfazer a. Wulbari que
rem a côr azul; Leba, a preta, etc. As fest as e danças do lhe pedira algo indefinido, liberou um fôrça desastrosa para.
culto winti celebram-se em épocas determinadas, cada qual
o homem : a cegueira.
com ritmos e instrumentos especiais. Existem, assim, as
9,
261 XIU

ção esta que os decepcionara a ponto de votarem a sua ex-


tinção. Cegos, os .homens tornaram-se prêsa fácil da fera
Cotzbalam • que os deveria devorar.
XELHUA - Gigante mitico do velho México. Salvara-se do

X dildvio no tôpo da Montanha Tlaloc •.


trutor da pirâmide de Cholula.
Semideus, cons-

XIBILHA - Entre os ma.ias denominação para o esphito mau,


o diabo, significando "aquêle que desaparece".
XAMAM EK - Divindade que entre os maias representava XIC - Na mitologia quiché relativa aos sêres malévolos, Xic
a Estrêla Polar e tinha a seu cargo orientar os viajantes. e seu igual Patán * eram os piores. Encarniçavam-se parti-
cularmente contra os homens que morriam sõzinhos pelos des-
XANGô - Entre os iorubas, ·a divindade do trovão. Já foi campados e as florestas, os que faleciam repentinamente, os
do raio, nos antigos tempos. Por isso, quando uma casa é que agonizavam pondo sangue pela bôca e aos que encontra-
tocada pelo raio, seu dono deve dar pesados óbolos aos sa- vam morte violenta. O seu agir ma.is tipico consistia em
cerdotes de Xangô. O animal indicado para sacrificios é o apertar fortemente a garganta da vitima e saltar sõbre seu
carneiro, pela f ôrça de sua marrada. Ainda hoje, na Africa, peito até que as costelas entrassem pelos pulmões.
durante a cerimônia de iniciação, os noviços dançam portan-
do sôbre a cabeça uma jarra dotada de vários orificios atra- XICCO - Gruta nas proximidades de Tlalmanalco, onde, se-
vés dos quais se pode ver um fogo vivo. Estas danças são gundo a mitica quiché-tolteca, refugiou-se Quetzalcoatl •, pro-
executadas ao som do tambor "bata", enquanto em idêntica nunciando, dali, sentenças, avisos e profecias. Também os
cerimônia, nos terreiros do Brasil, são utilizados outros ti- xalca conheciam Xicco, a gruta que levava ao centro da ter-
pos de tambor. Segundo os iorubas, Xangô foi o quarto so- ra, com o mesmo signi.ficado do ômphalos grego.
berano lendário do Reino de Oyo. Podendo lançar o raio a XIPE TOTEC - Ou, na lingua dos astecas, "nosso senhor, o
seu talante, fê-lo indiscriminadamente, criou inimigos, des- esfolado", divindade terrível, importada do panteão das tri-
truiu os amigos e quando fêz liquidarem-se os dois últimos bos bárbaras da. costa do Pacífico. Protegia a corporação
generais dedicados (Timi e Bgonka), foi obrigado a exilar-se dos ourives e presidia a regularidade das chuvas da prima-
e no exilio enforcou-se. Livre de seu domínio o raio passou vera. Para que estas fôssem satisfatórias, o deus cruel
a cair onde bem quis. Outra versão diz que de tanto dis- exigia, no decurso do mês Tlacaxipeuakiztli, sa.crificios de ho-
parar impensadamente o raio, recebeu um em seu próprio mens robustos. Ligadas a postes votivos, as vitimas eram
palácio, com a morte das mulheres e dos filhos. Raivoso, en- crivadas de flechas, pois o seu sangue, correndo pela terra,
furnou-se pela terra, transformado em orixâ. Uma das es- motivaria Xipe Totec a fazer correr igualmente a chuva.
pôsas tornou-se o Rio Niger, outra o Rio Oxum e a terceira As vitimas eram esfoladas e os sacerdotes recobriam-se com
o Rio Obá. Nos centros umbandistas do Brasil é orixá que a sua pele rapidamente pintadas de amarelo. A simbologia
rege os relâmpagos, raios, coriscos, tempestades, penedias, dêste ato era lembrar que a terra "muda de pele" no co-
pedras, pedreiras. Propicia a sabedoria, a paz, a justiça, a mêço da estação das chuvas, quando as searas vicejam.
prosperidade. Seu sincretismo católico é com São J erônimo
e com o paganismo é Júpiter. Seu dia é quinta-feira, seus XIQUffiIPAT - Um dos sêres malévolos aos quais a mitolo-
animais o galo, o cágado, o bode, o carneiro. Côr da veste : gia quiché atribuia a tarefa de enfermar o sangue dos habi-
vermelha; simbolos: lança e machadinha; comidas: caruru, tantes de Xibalbá. Tinha por companheiro, nessa ação de-
tartaruga, galo. Bebida: cerveja preta. moniaca, Cuchumaquic • e por adversários principais os bon-
dosos feiticeiros irmãos Ahpú *.
XAPANA - O mesmo que Afomã, Abaluché, Omolu, Omono-
lu, Obaluaiê, Homoulu, Babalü-aiê. XIUITL - O ano solar, religioso, dos astecas. Contava tre-
zentos e sessenta e cinco dias, dividido em dezoito meses de
XECOTCOVAH - Na mitologia .quiché, segundo o Popol vinte dias. A êstes meses acresciam-se cinco dias considera-
Vuh *, pássaro ferocissimo, enviado pelos deuses Tepeu, Ga- dos nefastos - nemontemi *. Cada mês era designado por
cumatz e Hurakan * para arrancar os olhos aos homens que um nome próprio, referente, na maioria dos casos, a ritos
êles próprios haviam criado da matéria chamada tzite, cria- religiosos. Atl caualo, Tlacaxipeuakiztli, Tozoztontli, Uey-
xoc 262
-tozoztli, Toxcal, Etzalqualiztli, Tecuilhuitontli, Uey-tecuilhuitl,
Tlaxochimaco, Xocotl-uetzi, Ochpaniztli, Teotleco, Tepeilhuitl,
Quecholli, Panquetzallztli, Atemoztli, Tititl, Izzalll (ver verbê-
tes respectivos) •
XOCHIPILLI - Literalmente "o príncipe das flôres", deus
asteca da juventude, dos jogos atléticos, da música. Sua
estátua era das melhor trabalhadas entre aquelas dos deuses. y
XOCHITL - No limite da legenda com a história, era memo-
rada entre os toltecas como a jovem que mantendo amôres
com o Rei Tecpancaltzin *, deu-lhe um filho, Topiltzin •. ~ste
subindo ao poder com quinze anos, recebeu dois co-regentes Y AGUA-RON - Juan Ambrosetti relaciona êste mito fluvial
e com êstes perdeu o reino e a glória na batalha de Toto- entre as assombrações que percorrem os rios do norte argen-
lápan, 1321 da nossa era. tino, especialmente nas aguas de Missiones. Descreve-o como
um peixe monstruosamente grande, capaz de cavar túneis
XOCOHUETZIN - Festa civico-religiosa dos nauas e tepane- sob a terra, longe do curso do rio. Essa manobra é destina-
cas. Homens de representação social iam ao mato, "corta- da a provocar desbarrancamento e a atirar para a. água gente
ban um grande árbol en el monte, de veinte y cinco brazos e animais de que devora tão-sõmente os pulmões.
de largo: quitaban todas las ramas y gajos dei cuerpo dei
madero y hacianlos côncavos: echaban aquel madero encima YAGUATY - Da 1nitica uruguaia, segundo o pesquisador Flan-
de ellos y atábanle con maromas; llevábanlo arrastrando y gini. Lenda ligada ao ciclo do pássaro chamado no Prata
él no llegaba al suelo, porque iba sobre otros maderos para de Chajá ( Ohau..na Torquata) , ciclo do qual é a única narra-
que no se rozava la corteza". Na entrada da povoação, acor- tiva dramática não amorosa. Tôdas as mais têm por base
riam ao seu encontro as senhoras da sociedade, com fumegan- o fato comprovado de que êsse pássaro é estritamente monó-
tes chávenas de chocolate para os senhores e flôres para os gamo e de que os casais de Chajá separam-se apenas pela
que conduziam o madeiro. Erigiam-no solenemente no adro morte. Apontado pelos antigos aborigines como exemplo de
do templo, onde ficava até à véspera da festa, quando o lealdade, êste sentimento cristalizou-se na lenda de Yaguaty.
abatiam, "muy poco a poco porque no se quebrase o hendiese O jovem assim chamado foi designado para sentinela sôbre
Y asi le iban recibiendo con unos maderos atados de dos en o grande rio. Confiada na vigilância do seu melhor guerreiro,
dos, que llarnam cua.htomacatl, o ponianle en tierra sin que a tribo adormeceu em paz. O inimigo aproximou-se sorra-
recibiesse dafios y dejábanle así". No dia seguinte, os sa- teiramerlte, surpreendeu e abateu Yaguaty, avançando em
cerdotes paramentados enfeitavam-na com papelotes e pu- seguida sôbre a ald.6ia. Agonizando, Yaguaty fêz um su-
nham-lhe a efigie de idolo. premo esfôrço para cumprir o dever de sentinela. De seu
coração, lacerado pelos golpes do inimigo voou um pássaro
XOCOTL-UETZI - O décimo mês do calendário religioso as- negro que ultrapassando invasores despertou os homens da
teca - quer dizer "os frutos caem". Celebravam-se honras aldeia aos gritos de "Cha-há! Cha-há!" ou seja "Vamos!
ao deus do lume e sacrificavam-se prisioneiros ao deus Xiuh- Vamos!" Despertos, os homens organizaram-se, repeliram o
tecuhtli ou U eueteotl. Durante as festas, os moços disputa- atacante e findo o combate foram à procura de Yaguaty.
vam um jôgo que em tudo é semelhante ao pau-de-sebo atual. Encontraram-no morto, dilacerado, tendo o pássaro negro
XOLOTL - Deus da cabeça de cão, por vêzes um disfarce aninhado onde fôra o coração.
do grande Quetzalcoatl *. Assim baixou ao centro da Terra, YAHUAR KKOCHA - Também Yaguar Cocha, literalmente
a Mictlan o inferno, onde recolheu as ossadas sêcas dos mor- "lago de sangue" no velho idioma dos montanheses incas. Sitio
tos de muitas gerações para com elas criar novos homens e ao pé de montanha misteriosa, não identificada, nos Andes.
povoar o México asteca. Talvez a única ou pelo menos uma das pouquissimas lendas
X-TABAI - Em Mérida, Iucatã, espirito feminino de longos românticas dos incas. Era um lago de sangue, formado
cabelos, a serviço dos "Senhores da b~loresta.", custódios das mercê os sacrificios dos jovens enamorados e levados ao sui-
árvores altas e aglomeradas. Com seus longos cabelos seduz cidio, pela bela Kereninca *. A mitica de Y ahuar KKocha
e mata os homens que pretendam derrubar tais árvores. figuraria no repertório de todos os bons amautas, que a
repetiriam ante o público extasiado em tôdas as festas popu-
YAK 264 265 YOR

lares incas antes e depois da conquista espanhola. Historica- el menor objeto de su pertenencia. . . vivendo la vida del sal-
mente, sitio onde o exército do cafiaris, derradeiros resisten- vaje y con la unica esperanza de que un dia, Dios tenga
tes aos incas, foi totalmente massacrado pelo imperador piedade de ellos y les devolveria en el cielo lo que libre-
Huayna Capac. mente habian abandonado en Ia tierra en castigo de discordias
Y AKA.MOUCH - Entre os fueguinos, casta de feiticeiros, bru- intestinas".
xos, curandeiros que recebe seus podêres através de pacto YEMANYA - Orixã de segunda categoria, nos cultos afro-
feito com os podêres das trevas. -cubanos, deusa dos rios e das fontes, mantendo sincretismo
YARP'ON - Laguna, próxima de Ancash, no Chiquiân. Tem religioso com a Virgem de Regia, a patrona dos marinheiros
por vêzo transformar-se en1 linda jovem de escorridos cabe- cubanos com santuário na Baía de Havana. No culto afro-
los, um pente de ouro na mão. A aproximação de caçador -brasileiro de origem ioruba, encontra simile em Iemanjã *·
ou viajante, a laguna, em forma de mulher, posta-se no ca- YIACATECUTLI - Deus dos mercadores astecas.
minho, penteia-se, reqüesta o homem e leva-o para as profun-
didades do seu leito de onde jamais voltará. YIYI - A aranha africana. Na origem das coisas teria sido
um homem. Transformado em aranha, presta serviços aos
YASTAY - Versão do norte argentino para o Caipora * bra- mortais, servindo-lhes como intermediário junto às divinda-
sileiro. Protetor e senhor da caça grossa, guia as manadas des. Oráculo acessivel e preciso. Atribui-se-lhe a proeza de
de guanacos e vicunhas. Fá-las escapar ao caçador ou pro- haver trazido o fogo da casa do homem, no céu. Quando as
picia o encontro e o abate de algumas peças se previamente donzelas a serviço do Sol vêm beber a água dos rios e dos
houver recebido coca e farinha de chaclion (farinha de milho). lagos, servem-se das teias de Yiyi para subir e descer. Yiyi
Quebrar o trato é enfrentar a morte. Sua figura visivel é
vê tudo, sabe tudo, mas é discreto e recolhido.
a de um homem baixo, gordo, escurecido pelo vento e o frio,
usando um chapelão de lã de guanaco. Tal qual o Caipora YOLIAGMTLAQUALOZ - Significando, literalmente, "manjar
do nordeste brasileiro, faz-se acompanhar por um cão negro. da alma". Na religião maia, era a comunhão, bem aproxima-
Y ATIRI - Uma das formas de designar o bruxo no altiplano da do ponto de vista do ritual, de como a entendem os cató-
boliviano. ~. de modo especifico, o bruxo habilidoso no pre- licos. Os sacerdotes preparavam êste manjar do coração e do
paro de danos mediante a utilização de sapos nos quais vai sangue de uma criança, misturando-os ao uZi. Em melo a
enfiando espinhos de cardo no decorrer de um cerimonial cerimónia especial, celebrada a.uualmente no dia pacs do dé-
adequado. O sapo, depois, é enrolado em trapos e deixado cimo quinto mês, o yoliagmtlaqualoz era distribuido aos fiéis.
no poço ou na fonte de que se serve a vitima contra a qual Os homens deviam ter mais de 26 anos e as mulheres mais
o dano ou feitiço é endereçado. de 16. A mltica do alimento espiritual vem tratada por
Soto-Hall, em Los MayM, apud. Luis Amaral, As América8
YBYPYTE - N orne guarani do sitio histórico de Cerro Corrá. antes dos Europeus, pág. 426.
Nas proximidades, erguem-se muralhas ciclópicas estendidas
pela selva por vários quilómetros. Alguns querem ver ali YORKA - Os espíritos dos mortos que rondam os vivos imis-
obras defensivas na extremidade sul do império inca. Ou- cuindo-se na vida dos bush negroes da Guiana Holandesa.
tros estudiosos paraguaios (Lufs A. Lohner, En eZ Sendero O · culto dos yorka não se confunde com o de Akra *, as almas,
des los AtZantes; major Marcial Samaniego, J. B. Ota.fio) e não são winti, isto é, deuses. Há dois tipos de yorka: um
atribuem-lhe origem mais remota e misteriosa. Seria tes- antepassado, espirlto familiar, geralmente amistoso e o yorka
temunho de civilização transplantada por uma elite fugida à propriamente dito, espirita mau. Pelo seu "trabalho" ao re-
Atlântida antes que o cataclisma afundasse aquela ilha- dor do homem é possível distingui-los. O yorka familiar
-continente. Segundo a autoria citada, "cuentam los indios pode aborrecer-se e tornar-se mau, trazendo desgraças e do-
dei lugar: Hace mucho tiempo existia en este paraje una enças para a família. Dai ser aconselhável mantê-lo satis-
gran ciudad. Por razones olvidadas, los habitantes no llega- feito por meio de danças, ritos fúnebres e jantares nos quais
ron a mantener la buena armonia y la paz entre ellos. En- o prato principal é arroz sem sal nem pimenta. Quanto ao
tondes los ancianos llamados en consejos, resolvieran en yorka maléfico, é o terror maior das florestas, das estradas e
castigo, abandonar el lugar y ordenaron a la población a de- das trevas. Yorka não parece têrmo ashanti e sim derivado
jar suas casas y sus bienes y a alejarse hacia el imenso ori- de Yoroka, dos indios caribas, entre os quais também signifi-
zonte dei Alto Paraná. Abandonaron el recinto sin Uevar ca alma, espirito.
YOR 266
YOROKA - Ou Iroko, entre os índios caribas, o espírito, a
alma e também o culto e as cerimônias que se lhe tributam
para mantê-lo satisfeitos e afastado dos viventes.
YOULLIECimCATL - Um dos únicos dois deuses dos na:uas.
Descreveu-o o Arcebispo Plancarte y Navarrete: "deus invi-
sível e impalpável, favorecedor, amparo, todo-poderoso, por
cuja virtude todos vivem. o qual só por seu saber rege e
impõe sua vontade a tôdas as coisas".
z
YRIS - Para os indígenas do Caribe, formava com Akambo
o mais alto par de eRpíritos divinos. ZAMBI - Ente supremo para os bantos. Em a.!guns dialetos
a forma gráfica e oral é N'Zambi. Muito embora os bantos
YUBECAIGUAYA - Deusa chibcha, essencialmente má e con- houvessem deslizado de urna crença monoteista para uma com-
tra cujas malfeitorias in,·ocava-se o poderio da deusa Chia *. plicação de entidades e de ritos, incorporando crenças de trl·
YULEDIDI - Lenda recolhida por A. V. Fritch ("Nouvelle bos vizinhas, Zambo permanece no ápice-centro de suas crenças.
contribuition à l'étude de la vie et du langage des Kaduveo", Mesmos os bantos convertidos ao cristianismo mantêm a ten-
JournaJ de "la Société des Américanistes, Paris, 1933) entre dência de designar Cristo por Zambi.
os f.ndios caduveos, da f amilia lingüistica dos guaicurus. A ZAMG:Blr:TO - Em Hog-Bonu (Pôrto Nôvo) e ao longo do vale
versão portuguêsa é de Egon Schaden. Yuledidi, mulher soli- africano do Rio Uemê, o Zamgbéto é um feroz guarda-noturno
tária, coabitou com onças, parindo um filho. Matou-o, di- que zela pelos bens dos homens e dos reis. Exerce seu oficio
vidiu-o em dois pedaços. De cada pedaço formou-se uma espancando violentamente os ladrões, aos quais se apresenta,
criança. As duas passaram a exigir napiquenapa (bebida de repentinamente, sob a forma de pedra envôlta em palha, maior
mel e cêra). Saf.ram os três pelo mundo. E as crianças do que um homem de estatura comum, gritando com voz fa-
chamaram-se Nareatedi. Roubando sementes a uma velha, nhosa e dançando ameaçadoramente à volta do surpreendido.
plantaram as árvores que formaram as florestas. Desobe-
deceram a um bom velho que os protegia e acabaram mor- ZAMNA - Segundo La America Prehistórica do Ministério da
tas pelo raio. Educação da Guatemala, Zamná foi o filho predileto do grande
sacerdote Votan *, chefe de emigrantes líbios que fundaram a
YUM-CHAC - Divindade menor no panteão maia-asteca. Deus civilização maia. Zamná povoou a ilha que viria a ser Cuba
dos lavradores sedentários do planalto que recorriam a êle pe- até a morte do pai, no continente. Então, aproximadamente
dindo chuvas bem dosadas. 100 anos a. C., entrou pela foz do Rio Pánuco, deixou ali um
YUM KAX - Divindade maia, protetor dos bosques. Por ex- grupo de seus maias e continuou a navegação para o Sul e de-
tensão, encarregado, juntamente com outros deuses e deu- pois para Este até desembarcar em definitivo na costa oriental
sas, de propiciar a boa colheita do milho. do Iucatã. Herdeiro da inteligência e dos conhecimentos pater-
nos, curava as enfermidades, conhecia todo o passado, profe-
YUM-KAAX - Deus menor do panteão maia-asteca. Invocado tizava o futuro, deu nome a tôdas as coisas e acidentes geo-
particularmente pelos agricultores sedentários, era a divin- gráficos do Iucatã e traçou as primeiras letras e as primeiras
dade afeta aos campos trabalhados. idéias do que viria a ser a ciência e a literatura dos maias. Suas
#
YVY-MARAEY - Para os apapocuvas, a terra paradisiaca, sem leis e seu govêrno foram tão sábios que em vida foi chamado
males, acessivel aos viventes e, segundo a opinião mais co- "Rocio celeste" e ao morrer, depois de muito chorado, teve o ca-
mum entre os pajés, situada na direção do nascente, além dáver dividido em três partes. Sôbre cada uma delas, levaram-
do oceano. lt ali a morada de Nhanderykey *, o grande herói -se pirâmides em sua homenagem. Sôbre a cabeça, a pirâmide
civilizador que mantém o equilíbrio do mundo. de Kinich-Kalompo; sôbre a mão direita, Kabul; sôbre o cora-
ção, Ppapp-Hol-Chac. Tais pirâmides ainda existem.
ZANGANO - Nos Andes Venezuelanos, o mes mo que Cereton '~
nos Estados de Lara e Falcón.
ZANIAPOMBO - Ser superior, deus supremo, para as gentes
dos candomblés, próximas de Angola e Congo. :S:dison Carnei-
ZAO 268 269 ZOM

ro, citando Ladipô Sôlankê, identifica Zaniapombo com Olônln • saguillo, onde se supõe esteja a Bogotá de hoje, e procura-
dos nagôs (significando - o senhor do céu), Olodumaré (o se- va harmonizar a sua autoridade com a do chefe religioso, o
nhor do destino eterno), Obá Orún (rei do céu); 1!'.:lêdá, (Cria- Zipa *.
dor do Universo); ôduduwa (ser que existe por si mesmo) e
ZELAÇÃO - Serpente mãe do ouro. Nome são franciscano
ôbatalá (rei ou ser imortal). No Grande Congo é Zambi- para a Mãe do Ouro *.
-ampungu. Nas áreas negras muçulmanizadas, figuram as
fórmulas Niçace e Allah. E. Carneiro pensa ver na forma ZIMWI - O diabo, entre os swahilis africanos. Um zimwi
Zaniapombo influência da representação católica do Espirito possuidor de grande tambor de som enfeitiçante ouviu
Santo. uma donzela swahili a cantar. Planejando tirar partido da-
quela voz, raptou a môça e prendeu-a no tambor mágico o
ZAORtS - Mitica indesligável do ciclo do ouro e dos tesou- qual dêsse modo obteve um sont · especialis$imo e podêres
ros enterrados por jesuitas expulsos e por principes incas tor- maravilhosos. O Ziwmi andou de lá para _cá com o seu tam-
turados por espanhóis. li: portanto freqüente em tôda a bor. Mas quando alcançou a aldeia da prisioneira. os pais
América do Sul, sendo mais encontradiço no sul do Brasil, no dela reconheceram a voz da filha no rufo do tambor. De-
Paraguai, nos paises ào Prata, no Chile, no Peru. Zaori é ram muita cerveja ao Zimwi. Quando êle dormiu sob o
aquêle que nasce em Sexta-feira da Paixão. Nada lhe pode efeito da bebida. os pais abriram o tambor, libertaram a
estar oculto. Seus olhos, por fôrça daquele nascimento, são môça substituindo-a por uma serpente venenosa. O diabo
dotados de um poder criptoscópico sem limites. Gema no acordou, percutiu o tambor e obteve um som horrivel. Abriu-o
centro de uma pedra. jóia no tronco de árvore, tesouro enter- para verificar o que havia ocorrido, a serpente atacou-o e
rado a grande profundidade, veio aurífero perdido por mine- mordeu-o até matá-lo. Desde então - diz a lenda - os
radores são revelados ao seu olhar. Cervantes jâ citava um zimwi tomam cuidados especiais quando decidem aborrecer
dêles (Entremes del viejo celoso) que "ve siete estados de- os homens da raça swahili.
bajo de la tierra". Tamanho poder não pode ser exercido ZIPA - No reino nútico criado por Bochica * na região dos
para uso próprio. Favorece sempre a outrem. O Zaori é Chibchas (Venezuela-Colômbia), o titulo do chefe religioso
um pobre, um desapegado. li: mito que vem do árabe pela sediado no templo de Tunja.
via dos tesouros escondidos por visigodos e mouros nos chãos
da Espanha e de Portugal. ZO - Vodu haitiano que preside aos jogos e inspira ou arrui-
ZAPALO - Herói de lenda dos indios umutina do Alto -
na os jogadores segundo estejam ou não em suas graças.
ZOMADONOU - Mito daomeano ligado ao culto dos Tohos-
Paraguai, recolhida por Harald Schultz e adaptada em versão
livre por Herbert Baldus. Zapalo adormece desejando que sus *. Na versão de José Ribeiro é assim: "Akaba, rei do
a estrêla mais brilhante do céu se transformasse em mulher Daomé, tinha tido um filho anormal. A gravidez da Rainha
e viesse dormir com êlt. Acorda com duas formosas jovens Kuandê tinha sido dolorosa e agitada, duas vêzes a gravidez
à sua frente. O amor foi estragado por questão de alimen- se manifestou no dorso, duas vêzes no peito, duas vêzes não
tação. Elas não queriam carne de caça, queriam almécega sentiu nada; duas ou três vêzes depois a gravidez se ma-
(espécie de goma, resina de aroeira). Fizeram-.no subir nifestou novamente. A parteira ficou espantada quando o
em uma árvore, subir, subir até acabar no céu, pois a árvore menino Zomadonou veio ao mundo, porque êle tinha seis olhos,
crescia prodigiosamente. No céu, foi êle quem passou mal. dois sôbre a fronte, dois atrás da cabeça e dois no peito.
Ali, todos comiam apenas almécega. A convivência mostrou- Tinha dentes, cabelos e barba e desde seu nascimento, se
-se impossivel. Fizeram-no descer para a terra dentro de tinha pôsto a caminhar e a falar; além disso tinha nascido
um pote ligado a uma corda. Antes de pisar o solo a corda com uma grande bolota nas nádegas, que balançava quando
partiu-se. Os cacos do pote transformaram-se em jabu- êle andava; no dia seguinte, êle entrava a engordar, e desa-
tis e cágados e a corda em cobra. Até então, cobra. ja- parecia e rolava por terra como uma bola e declarava que
butis e cágados não existiam. (Ver Gilijoaibu, Imaherô.) era Zomadonou; no dia seguinte êle estava mudado em um
grande pássaro que pescava peixes no pântano e cantava
ZA.QUE - Com o significado de "o rei", "o che.fe máximo", que era Zomadonou; em seguida estava de nôvo como ho-
era o título do soberano administrativo· e- politico do reino es- mem. As pessoas estavam muito surprêsas por essas ma-
tabelecido pelo herói mitico Bochica * nas áreas ocupadas nifestações. 1!'.:le desapareceu ainda, mas um caçador o en-
pela Colômbia e a Venezuela. O Zâque tinha sede em Tra- controu à borda de um pântano e êle contava que era o filho
271 ZUP
ZOM 270
vendidos pelos feiticeiros e ficaram debaixo da terra à es-
de Akaba chamado Zomadonou; pouco depois ouviram-no pera de serem resgatados para Deus. A lenda mais difun-
cantar em um rio, outra em um riacho. Akaba enviava al- dida é a de que êles retomariam, em certas condições, os
guém para procurar seu filho mas, ainda que todo o mundo trabalhos a que se dedicaram em vida. Assim, haveria en-
o ouvisse em suas canções, ninguém o encontrava. / Se êle genhos moendo, colheitas completadas pelos zombies. São
cantasse na fonte, os que vinham procurar na água ouviam vários os cultos exigidos por êles. Freqüente é o mangé
as canções na água e no ar; as pessoas não sabiam o que zombie,, oferendas de alimentos.
fazer. Akaba o fazia procurar inutilmente. / O Rel Agajá,
irmão e sucessor de Akaba, o fêz procurar por seu turno, sem ZUHUYZUB - Um dos dois deuses protetores dos caçadores,
sucesso e êle teve mesmo um filho anormal, chamado Kpelú. no Iucatã. A primeira destas divindades era Acamum •.
Tinha vinte dedos, dez em cada mão, dois olhos normais ZUKHA - Um dos três nomes dados pelos chibchas ao deus-
e dois sôbre a nuca, tinha manchas de côr, como grossos -rei civilizador e legislador Bochicha •, também conhecido
pêlos pelo corpo. Tinha nascido com dentes e com grandes como Nemketaba.
cabelos que lhe cobriam a face e êle predizia o futuro e êle
também desapareceu e nllo pôde ser encontrado. / O Rei ZUMBI - Literalmente, em quibungo, fantasma, espectro,
Tegbessou, sucessor de Agajá, teve também um filho anor- duende. Confunde-se com o deus dos cabindas nzámbi. Pelo
mal, Adomu, que tinha quase as mesmas caracteristicas de nordeste brasileiro, um dos nomes, por confusão, do saci *.
Kpelú. . . / passavam-se coisas estranhas e inexplicáveis; ZUPAY - Nas áreas bolivianas, norte-argentina e peruana, o
ninguém sabia nem supunha que os Tohossus fôssem os au- gênio do mal, correspondente em tudo ao Afiá * dos gua-
tores. Transportava pessoas de grande distância, separava ranis.
subitamente os que eram unidos, tirava os pratos de alimen-
tos no momento do repasto, matava as pessoas fazendo-as
reaparecer vivas adiante; todos estavam desorientados e não
sabiam mais na sua confusão, se ela aparecia de dia ou de
noite. / Um belo dia Zomadonou, Kpelú e Adomu se puseram
à frente de um exército de anões que fizeram sair de um pân-
tano. Deram-lhes, a cada um, caça-môscas que matavam
as pessoas com o simples contato, e obrigaram os daomeanos
a fugir para longe de Abomey. Somente um certo Abada
Homedovo, atacado de vermes, da Guiné, ficou na cidade.
Não podendo se deslocar, se refugiou em uma árvore. Des-
-
coberto pelos anões, foi salvo pelas relações de amizade
que êle tinha cultivado com um Tohossu de Savalu, chamado
Azaka, com o qual tinha o hábito de caçar. Depois de uma
deliberação, Abala foi curado de seu mal com ajuda de uma
fõlha que lhe deu Zomadonou; recebeu um Assoguê (incisão
feita com um cuia) com a qual poderia chamar os Tohossu
e recebeu as indicações a transmitir a Tegbessou sôbre o modo
pelo qual o culto aos Tohossus deveria ser estabelecido ...
/ A paz reinou no nôvo Daomé".
ZOMBIES - Os mortos e o culto ao espirito dos mortos, que
passando do Daomé às Antilhas, tomou caracterlsticas espe-
ciais no Haiti. A primeira dessas práticas é o preparo da
comida ritual, o oalalou des morls * junto ao túmulo. Há vá-
rios tipos de mortos que merecem cultos. Viens-'Viens são
os espiritos comuns; Zutins, os das crianças mortas sem ba-
tismo. Porém o mais espetacular na encenação, no presti-
gioso terror que o cinema, a literatura e até mesmo o turis-
mo enfatizaram é o dos zombies, as almas dos que foram
273
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www.etnolinguistica.org
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Este livro foi composto e
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• Paiva, 60 - São Paulo,
nos trinta dias do mês de
janeiro de 1913.

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