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Gil Vicente, Farsa de Inês Pereira

1) O documento discute a obra de Gil Vicente, dramaturgo português do século XVI, focando-se na peça Farsa de Inês Pereira. 2) Apresenta o contexto histórico e literário de Gil Vicente e sua vasta obra dramática. 3) Descreve as características do texto dramático e como a Farsa de Inês Pereira se encaixa nesse formato, incluindo detalhes introdutórios e indicações cênicas.

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Gil Vicente, Farsa de Inês Pereira

1) O documento discute a obra de Gil Vicente, dramaturgo português do século XVI, focando-se na peça Farsa de Inês Pereira. 2) Apresenta o contexto histórico e literário de Gil Vicente e sua vasta obra dramática. 3) Descreve as características do texto dramático e como a Farsa de Inês Pereira se encaixa nesse formato, incluindo detalhes introdutórios e indicações cênicas.

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3.

Gil Vicente, Farsa de Inês Pereira

Conteúdos essenciais

a. Contextualização histórico-literária

Entre o final da idade Média e as primeiras manifestações do Renascimento em Portugal, ou


seja, no período que corresponde ao último quartel no século XV, início do século XVI, há um
autor que se destaca no panorama literário português: Gil Vicente. Autor de transição entre os
dois períodos referidos, a sua obra é disso reflexo, bem como uma grande diversidade,
plasticidade ou até modernidade, em alguns aspetos.
• Tendo vivido entre 1460-1470, a sua obra foi organizada por dois dos seus filhos, que
editaram a Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente.
• Foi no ambiente da corte que produziu a sua obra dramática, tendo a primeira – o Auto
da Visitação ou Monólogo do Vaqueiro – sido representada em 1502
• Até 1536, ou seja, ao longo de 34 anos, Gil Vicente terá escrito cerca de 50 peças1.
De entre a sua vasta produção, centraremos a nossa atenção em duas obras, a saber: a Farsa de
Inês Pereira (1523) e o Auto da Feira (1527).
Nota
• De acordo com as Aprendizagens Essenciais, deve ser lida na íntegra uma das peças
vicentinas mencionadas: Farsa de Inês Pereira ou Auto da Feira.
O “O pai do teatro literário português” colheu inspiração nas manifestações teatrais pré-
vicentinas, como os momos, os mistérios, as moralidades e os milagres, com as suas temáticas
profanas e religiosas. A Farsa de Inês Pereira é um exemplo do auto profano e o Auto da Feira é
um exemplo do auto religioso.
Deste elenco, constatamos que as obras dramáticas de Gil Vicente podem ser agrupadas sob a
designação de comédias, farsa ou moralidades. Trata-se de uma classificação tripartida deixada
pelo próprio Gil Vicente, mas que “não significa que as obras incluídas em cada grupo apresentem
uma perfeita homogeneidade entre si”
Gil Vicente viveu num tempo de mudanças e as peças estudadas são um testemunho da
sociedade portuguesa do século XVI.
Se a época de ouro das Descobertas trouxe novos conhecimentos, novas culturas, novos hábitos,
trouxe igualmente novos problemas, pois à volta da corte gravitam muitos parasitas da
sociedade, para além de a pequena nobreza não trabalhar (porque considera o trabalho é
indigno) por isso estar cada vez mais pobre, ainda que mantenha uma postura de arrogância.
No fundo, chega-se à conclusão de que a riqueza, o luxo e a ostentação resultantes dos
descobrimentos tiveram como contraponto a decadência dos costumes e valores, a degradação
mural e humana, que Gil Vicente captou e espelhou na sua obra através das chamadas
personagens-tipo.

1in Luiz Francisco Rebello, História do Teatro Português, Europa-América, 1972


Assim, se, por um lado, a sua obra é “acabamento das melhores tradições de teatro medievo
europeu”1, revelando uma religiosidade pura e tradicional, articulada em torno de questões como
o Bem e o Mal o Céu, o Inferno, a Salvação, a ordem do mundo, por outro lado, já “participa […]
de uma incipiente na atmosfera humanista e renascentista”, patente, por exemplo, na critica
social, na sátira comportamental, na postura anticlerical, denotando que Gil Vicente é um homem
atento ao que o rodeia e é um homem do seu tempo.

Características do texto dramático

O texto dramático e a sua representação teatral são indissociáveis, sendo que só quando
apresentado diante dum público se concretiza efetivamente. Nesta ordem de ideias, o estudo de
um texto dramático implica a análise do código verbal e de códigos não verbais. Há a considerar,
estão, dois textos: em que formaliza pelo diálogo, remetendo pela oralidade (falas das
personagens); e um outro, didascálico, que implica outros códigos para além do linguístico
(informações cénicas que reforçam o visual, o sonoro, o cinético).
Embora o texto vicentino não apresente esta divisão é comum os textos dramáticos
apresentarem:
• Atos – partes que assinalam uma pausa, acompanhada, muitas vezes, da mudança do
cenário;
• Cenas – partes que marcam a entrada e a saída de personagens em palco;
Texto principal: conjunto de atos linguísticos, de falas, de réplicas, com que os atores comunicam
entre si. É, efetivamente, o texto que aparece nos diálogos, nos monólogos, nos solilóquios e nos
apartes (comentários dirigidos apenas à plateia, para que os outros atores não os possam ouvir).
Texto secundário (ou didascálico): conjunto de indicações cénicas (ou didascálias) dirigidas ao
encenador, ao autor, ao leitor e que visam concretizar os seguintes aspetos:
• Listagem inicial de personagens;
• Informações relativas ao espaço e ao tempo;
• Apontamentos sobre a estrutura externa da obra – atos, cenas, quadros –, com
referência à entrada e à saída de personagens;
• Indicações sobre os adereços que povoam o espaço cénico e sobre a indumentária dos
atores;
• Indicações sobre gestos, posturas, tom de voz dos atores;
• Indicação do nome da personagem antes de cada fala;
• Indicação do momento da entrada em cada cena de uma personagem, do percurso
• a realizar;
• Informações sobre o guarda-roupa, etc.

A Farsa de Inês Pereira inicia-se com uma didascália que disponibiliza informação pertinente:

A seguinte farsa de folgar (1) foi representada ao muito alto poderoso rei D. João, o terceiro
(2) do nome, no seu Convento de Tomar (3), era do Senhor de M.D.XXIII (4).
O seu argumento é – porquanto duvidavam certos homens de bom saber se o autor fazia de
si estas mesmo obras, ou se as furtava de outros autores (6), lhe deram este tema sobre
fizesse – um exemplo comum que dizem: “Mais que asno que me leve, que cavalo que me
derrube”. (5) E sobre este motivo se fez esta farsa.

Assim, desde o primeiro momento é dado a conhecer:


(1) De que tipo de peça se trata;
(2) Para quem foi representada, isto é, quem foi o espectador privilegiado;
1in António José Saraiva, Óscar Lopes, História da Literatura Portuguesa, Porto Editora, 2001
(3) o espaço em que decorreu a representação - o Convento de Tomar;
(4) o tempo;
(5) o argumento da peça, referindo-se o mote que funcionou como ponto de partida;
(6) as razões que levaram a que tivesse sido indicado ao autor um tema.
A acompanhar esta didascália encontra-se ainda, segundo a edição de 1562 da Copilaçam de
todalas obras de Gil Vicente1, uma listagem das figuras, ou seja, das personagens da farsa.

Exemplo de texto dramático em verso


Vem Pêro Marques e diz: Texto principal:
- Monólogo de Pêro Marques enquanto se
Pêro Homem que vai aonde eu vou
dirige a casa de Inês Pereira (vv. 2-10).
não se deve de correr;
- Diálogo entre Pêro Marques e a Mãe –
ria embora quem quiser,
apesar de Pêro se dirigir a Inês Pereira,
que eu em meu siso estou.
quando chega a casa dela (vv. 12-16), quem lhe
Não sei onde mora aqui:
responde é a Mãe e é com ela que ele trava,
olhai que m’esquece a mi!
primeiro, um diálogo.
Eu creio que nesta rua,
- Aparte de Inês Pereira – perante a pergunta
e esta parreira é sua;
de Pêro Marques, que revela a sua ignorância,
já conheço que é aqui.
Inês Pereira não consegue evitar um
Chega a casa de Inês Pereira: comentário depreciativo sobre ele; as outras
personagens em cena não ouvem este
Digo que esteis muito embora. comentário (ele é dirigido apenas ao público).
Folguei ora de vir cá.
Eu vos escrevi de lá Texto secundário ou didascálias:
uma cartinha, senhora: - Indicação das personagens (a negrito).
E assi que de maneira… - Sinalização do aparecimento de uma
Mãe Tomai aquela cadeira. personagem (a itálico) - "Vem Pêro Marques e
Pêro E que val aqui uma destas? diz".
Inês (Oh, Jesu! Que João das bestas! - Referência ao percurso a realizar pela
Olhai aquela canseira!) personagem (a itálico) - "Chega a casa de Inês
Pereira".
Assentou-se com as costas pera elas e diz: - Indicação do posicionamento da
Pêro Eu cuido que não estou bem… personagem em palco e relativamente às
Mãe Como vos chamais, amigo? outras personagens (a itálico) - "Assentou-se
com as costas pera elas e diz".
Gil Vicente, Farsa de Inês Pereira,
Porto Editora, 2014

Farsa de Inês Pereira

c. Natureza e estrutura da obra: a farsa

Tendo em conta a classificação tripartida de Gil Vicente sobre as suas obras – farsas, comédias
e moralidades –, a peça que vamos agora estudar é uma farsa. Convém, porém, referir que na
Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente o título que surge é Auto de Inês Pereira, o que se
explica pelo facto de, na Idade Média, o termo "auto" se aplicar a qualquer peça de teatro. 2

1Para o estudo desta peça de Gil Vicente seguimos a edição da Porto Editora (2014), a qual, por sua vez, segue a
Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente, 1562 – Livro quarto.
2Veremos melhor a definição de auto no subcapítulo seguinte quando abordarmos o Auto da Feira.
A farsa, presidida pelo mote já referido, pode ser resumida da seguinte forma:
"Inês Pereira, uma jovem caprichosa e ambiciosa, vê-se pressionada a casar com Pêro
Marques, o asno, lavrador simples e sem cultura, mas está encantada pelo galante
combatente Brás da Mata, que encarna o "cavalo. É neste momento de escolha de
pretendentes (e suas consequências) que se centra a mais famosa farsa escrita por Gil Vicente
e, sem dúvida, uma das mais divertidas e satíricas da vida quotidiana do seu tempo."1

Sendo Gil Vicente um artista da corte, esta farsa tinha como fito divertir o rei, a sua família e,
naturalmente, os cortesãos.
A farsa, enquanto género, apresenta características próprias e que estão presentes no auto
vicentino:

Características do género farsa Farsa de Inês Pereira


Curta extensão – normalmente, O texto vicentino não é muito extenso (1116 versos) e,
a peça apresenta apenas um ato quanto à sua estrutura externa, não está dividido nem em
e não tem divisão cénica atos nem em cenas, embora exista uma estrutura tripartida
(introdução, desenvolvimento, conclusão - cf. p. 102)
Representação de "cenas da vida O texto vicentino apresenta, através da sátira, várias cenas
profana” através da sátira da vida profana, tais como:
> a realização de trabalhos domésticos, nomeadamente
a costura, atividade de que Inês não gosta;
> a intervenção de uma Alcoviteira, que dá a conhecer a
Inês Pereira um possível marido - Pêro Marques;
> o casamento de Inês Pereira com o Escudeiro e os
festejos que então ocorreram;
> a ida do Escudeiro para a guerra;
> o casamento de Inês Pereira com o lavrador Pêro
Marques.
Reprodução do "ambiente Estas e outras cenas retratam a vida quotidiana daquela
popular” da época e de época, em especial a de figuras que se enquadram no
flagrantes da vida quotidiana ambiente popular – a Mãe de Inês Pereira é referida como
uma "mulher de baixa sorte" e as restantes personagens
integram-se claramente nesse ambiente (a Alcoviteira, os
Judeus, o Lavrador, o Escudeiro, o Moço, o Ermitāo).
Apresentação de um conflito A peça revela um conflito entre forças opostas, entre mãe
entre "forças opostas", no e filha – Inês Pereira, uma jovem "muito fantesiosa", deseja
âmbito das relações sociais casar com um "homem discreto" e "que saiba tanger viola".
(pais/filhos; amos e criados; A Mãe, porém, mais experiente, deixa-lhe alguns
marido e mulher) conselhos: "Não te apresses tu, Inês,/ maior é o ano qu'o
mês"; "Muitas vezes, mal pecado, /é melhor boa simpreza".
Inês replica, mostrando até alguma aspereza para com ela:
"Que tendes de ver co isso?/Todo o mal há de ser meu".
Estrutura que pode ir da mais A intriga desta peça tem um princípio, um meio e um fim,
simples intriga a “justaposição de sendo, por isso, mais complexa, quando comparada com a
episódios", ou até uma intriga de outras farsas; de facto, podemos reconstituir toda uma
mais complexa “com princípio, história e não apenas um episódio.
meio e fim”
Número reduzido de Em cena, há um número muito reduzido de personagens,
personagens – podendo estas algumas das quais consideradas personagens-tipo, isto é,
ser o “retrato vivo de certos personagens que representam um determinado grupo
tipos” ou personagens que social e/ou profissional, o seu modo de agir, os seus
apresentam já "uma vivência comportamentos, como é o caso da Alcoviteira, dos
psicológica acentuada”2 Judeus, do Escudeiro, do Moço.
Porém, nesta farsa, encontramos também uma
personagem com uma vivência psicológica mais densa e
cujo comportamento sofre, inclusive, alguma variação –
Inês Pereira.
1Da contracapa da edição da Porto Editora.
2A partir de Teresa Gonçalves, Dicionário de Termos Literários, in
http://wv.edtixom.pt/index.php?opu'on=com_mtree&task=viewlinkSilirik_id-1858alternid-2 (texto adaptado e
consultado em 06-05-2015)
d. Caracterização das personagens
Relações entre as personagens

O estudo das personagens será feito tendo em conta:


• o papel que desempenha na intriga - personagem principal, secundária ou figurante;
• as características (qualidades, defeitos, modo de ser e de agir) que lhe podem ser
atribuídas, em função de uma caracterização:
→ direta - feita de modo explícito pela própria personagem, por outra(s) ou por
informação apresentada nas didascálias;
→ indireta - deduzida pelo leitor/espectador a partir das atitudes e do comportamento
das personagens;
• qual a relação que estabelece com as restantes personagens.
Relativamente ao papel que cada personagem desempenha, convém referir que muitas das
figuras desta farsa, à semelhança do que se verifica em outros textos vicentinos, representam um
determinado grupo social e/ou profissional, naquilo que ele tem de sui generis, de particular, em
termos de comporta mento. São, por isso, consideradas personagens-tipo, figuras que encarnam
uma maneira de ser comum ao grupo a que pertencem e que, por essa razão, não expressam
densidade psicológica nem dinamismo. São personagens planas, com uma vida interior estática.
No entanto, são fundamentais para a dimensão satírica de que se reveste esta obra de Gil Vicente,
como veremos posteriormente.

Inês Pereira
Inês Pereira é a protagonista da farsa, já que toda a intriga se desenvolve em torno do seu desejo
de casar (para ascender socialmente e ter mais liberdade) e das escolhas que faz nesse sentido.
Logo de início, esta figura feminina surge-nos como alguém muito descontente com a vida que
leva:
"Renego deste lavrar Inês sente-se "cativa" da vida doméstica que leva e
e do primeiro que o usou; gostaria de ter a mesma vida folgada das outras
ao diabo que o eu dou, jovens. Nessa medida, representa um grupo social
que tão mau é d'aturar. com formas típicas de estar, de pensar e de se
Oh, Jesu! Que enfadamento, comportar. No entanto, como veremos, é uma
e que raiva e que tormento, personagem que apresenta densidade psicológica e
que cegueira, e que canseira! que vai evoluir ao longo da peça.
Eu hei de buscar maneira
d'algum outro aviamento."1
Sendo "muito fantesiosa", Inês constrói uma imagem idealizada de marido:
"Porém, não hei de casar "Leixai-me ouvir e folgar,
senão com homem avisado1, que não m'hei de contentar
ainda que pobre pelado², de casar com parvoíce.
seja discreto em falar." Pode ser maior riqueza
que um homem avisado?3"
Gil Vicente, Op. cit.
1Sabido.
Gil Vicente, Op. cit.
2Sem vintém. 3Sabido.

A Mãe e a Alcoviteira, Lianor Vaz, tentam orientá-la, mas Inês mostra-se decidida e irredutível nas
suas opiniões: "Folgaste vós na verdade/casar à vossa vontade?/ Eu quero casar à minha".
1Gil Vicente, Farsa de Inês Pereira, Porto: Porto Editora, 2014
Assim, Inês acabará por aprender às suas custas, como, aliás, a própria o afirmara: "Que tendes
de ver co isso?/Todo o mal há de ser meu". De facto, numa primeira fase, enganada pelo Escudeiro
Brás da Mata e pela sua aparência, Inês opta pelo pretendente mais galante, que representa o
"cavalo" do mote inicial da peça. Depressa, porém, percebe a má escolha que fizera e arrepende-
se.
Constata-se, pois, uma mudança de atitude da parte da protagonista, que revela, inclusive, um
plano futuro a fim de se vingar do sucedido.
Depois de ter sido “derrubada" pelo "cavalo", Brás da Mata, Inês escolhe a personagem que
representa o "asno", o Lavrador Pêro Marques, pois, tendo aprendido por experiência própria –
"Sobre quantos mestres são/experiência da lição", reconhece que:
"Quero tomar por esposo asno que me leve quero,
quem se tenha por ditoso e não cavalo folão.2
de cada vez que me veja. Antes lebre que leão,
Por usar de siso mero1, antes lavrador que Nero."
1Senso comum. 2Fogoso Gil Vicente, Op. cit.

Dos exemplos dados, conclui-se que as características apresentadas sobre esta personagem
foram, sobretudo, depreendidas a partir daquilo que ela diz ou faz, ou seja, trata-se de uma
caracterização indireta. No entanto, algumas personagens apontam características a Inês Pereira.
Por exemplo, a Mãe afirma que ela é preguiçosa e pergunta-lhe: "Como queres tu casar/com fama
de preguiçosa?", reforçando, assim, um traço do carácter da filha que já poderia ser intuído
através do seu monólogo inicial. Neste caso, estamos perante uma caracterização direta que é
feita por outra personagem - heterocaracterização. A própria Inês Pereira também se
autocaracteriza, quando, por exemplo, afirma "Mas eu, mãe, sam aguçosa".

Mãe
Esta "mulher de baixa sorte" (caracterização direta, apresentada na didascália inicial), bastante
perspicaz (ver as respostas que dá à Alcoviteira, quando esta relata o seu encontro com um
clérigo), manifesta opiniões totalmente discordantes das da filha relativamente ao casamento e
ao marido que esta deveria escolher. Analisando as suas falas, repletas de provérbios e de
expressões populares, e as suas atitudes – caracterização indireta –, podemos dizer que a Mãe é
a voz do bom senso, da razão e também da experiência: "Mata o cavalo de sela, /e bom é o asno
que me leva", "Muitas vezes, mal pecado, /é melhor boa simpreza".
A Mãe quer ajudar Inês, daí que, ao saber da proposta da Alcoviteira, elogie a filha, caindo
mesmo no exagero de dizer – "Hui! E ela sabe latim, /e gramática e alfaqui (sábio muçulmano - a
Mãe pensa que esta palavra designa uma ciência dificil, por isso não a utiliza adequadamente), /e
tudo quanto ela quer."
Por outro lado, dá conselhos a Inês, sempre que um dos pretendentes a vai visitar, mostrando,
assim, o seu cuidado, a sua preocupação. Outras vezes, coloca perguntas à filha, esperando dessa
forma levá-la a refletir e a ponderar melhor sobre o seu futuro, fazendo referência à necessidade
de garantir um futuro seguro em termos monetários e aludindo à vantagem de ter um marido
trabalhador, do mesmo nível social.
O discurso da Mãe incorpora, no fundo, a crítica ao desejo de promoção social tão comum na
época. Inês não quer casar com um seu igual, isto é, com um homem da mesma classe, mesmo
que este seja, como Péro Marques, "um bom marido, /rico, honrado, conhecido" e que não
pretenda dote ("em camisa vos quer”). Almeja, sim, o matrimónio com alguém da corte, com um
homem que toque viola, que seja galante e saiba falar.
A Mãe, porém, é mais realista e interessa-se pela condição económica do Lavrador, daí o cómico
de linguagem na referência ao morgadio - "De morgado1 é vosso estado? / Isso viria dos céus!".
Ainda assim, Inês decide casar com o Escudeiro, pelo que, à Mãe, nada mais resta senão aceitar
e abençoar a união, preparando uma festa e deixando a filha entregue ao marido.
A partir do casamento, a Mãe não volta a aparecer, como se a sua missão já tivesse sido
concluída e "todo o mal" fosse agora responsabilidade da escolha que Inês fez.
1Primogénito, herdeiro de todos os bens familiares.
Lianor Vaz
Esta personagem-tipo, uma Alcoviteira, é uma mulher cujo ofício consistia também em
“arranjar” casamentos, apresentando pretendentes. Assim, é ela quem dá a conhecer Pêro
Marques a Inês e à sua Mãe, considerando-o "um bom marido, /rico, honrado, conhecido" e esse
casamento abençoado – “Eu vos trago um casamento/em nome do Anjo bento".
Lianor Vaz partilha das opiniões da Mãe quanto à escolha que Inês devia fazer e expressa-o
através de expressões populares: "Filha, ‘No Chão do Couce, / quem não puder andar choute.’/
Mais quero eu quem m'adore,/que quem faça com que chore".
Porém, tal como a Mãe, a Alcoviteira não consegue, inicialmente, convencer Inês a optar pelo
lavrador e é só após a morte do primeiro marido de Inês que Lianor Vaz aparece e aconselha-a
novamente, chamando a atenção para as vantagens económicas de tal união.
Com Lianor Vaz também se denuncia o comportamento devasso do clero, através do encontro
com o clérigo que a assedia, o que constitui um exemplo de critica social.

Pêro Marques
Retrato fiel do camponês, do homem rústico e simples, Pêro Marques é uma personagem-tipo
e aparece como o primeiro pretendente, aquele que, apesar de todos os elogios feitos pela
Alcoviteira, é desprezado por Inês Pereira.
Esta, aliás, não hesita em caracterizá-lo de uma forma bastante negativa e sarcástica, tecendo
comentários pejorativos sobre ele quer às outras personagens quer ao público, através de
apartes:
• "Viste tão parvo vilão?/Eu nunca tal coisa vi/nem tanto fora de mão."
• "(Oh, Jesu! Que João das bestas!/Olhai aquela canseira!)"
Esta caracterização direta (heterocaracterização) decorre dos comportamentos e atitudes que
Péro Marques revela não só antes de conhecer Inês (por exemplo, a carta que lhe escreve, numa
linguagem muito rudimentar), como no momento em que se encontra com ela. Veja-se, por
exemplo, a situação cómica que se cria quando Pêro Marques, não sabendo para que serve a
cadeira, se senta ao contrário (de costas) ou quando procura, em vão, as peras no chapéu. Neste
caso, o leitor/espectador pode inferir outras características desta personagem (caracterização
indireta), um vilão, isto é, aquele que não é nobre.
Para além disso, Pêro Marques também se autocaracteriza como sendo um homem de bem ("eu
de bem er também") e sério, decente ("como homem de bom pecado"). No entanto, para Inês,
estas qualidades não são de valorizar, antes pelo contrário. Atente-se, por exemplo, na
ridicularização que ela faz quando se apercebe do desconforto que Pêro Marques sente ao estar
sozinho com ela.
Por fim, a imagem do camponês inocente, ingénuo e desajeitado fica completa no último
episódio da peça, quando o vemos a transportar Inês, agora sua mulher, às costas, levando-a ao
encontro do Ermitão e entoando o verso "Pois assi se fazem as cousas", tal como Inês lhe pedira.
Pêro Marques encarna, então, o papel de marido obediente, crédulo (“I onde quiserdes ir/vinde
quando quiserdes vir, /estai onde quisendes estar") e enganado pela mulher.

Escudeiro Brás da Mata


O segundo pretendente de Inês Pereira parece corresponder ao perfil que ela tinha em mente
para marido. Com efeito, fazendo jus aos rasgados elogios dos Judeus, o Escudeiro, também ele
personagem-tipo, parece ser um homem encantador, hábil com as palavras e com os
instrumentos musicais, como se autocaracteriza:
• "Sei bem ler, / e muito bem escrever, /e bom jogador de bola, /e quanto a tanger
viola,/logo me vereis tanger."
Mas, na verdade, o Escudeiro é um homem falso, pretensioso, pelintra e prepotente, traços
caracterizadores que podem ser deduzidos a partir dos diálogos que trava com o seu Moço
(caracterização indireta) ou a partir dos apartes que este último produz (caracterização direta):
"Esc. Moço, que estás lá olhando?
Moço Que manda Vossa Mercê?
Esc. Que venhas cá.
Moço Pera quê?
Esc. Por que faças o que eu mando!
Moço Logo vou.
(O Diabo me tomou:
sair-me de João Montes
por servir um tavanês,
mor doudo que Deus criou!)"

Concretizado o casamento, o Escudeiro revela a Inês a sua verdadeira personalidade, como


marido autoritário e insensível, impedindo-a de socializar ou de estar sequer à janela, dando-lhe
a liberdade de apenas ir à igreja.
Inês percebe, então, o engano em que caíra. Ela própria, depois de saber da morte do Escudeiro
às mãos de um pastor, quando fugia da batalha, traça o seu último e fiel retrato, realçando a sua
cobardia: "Guardar de cavaleirão / barbudo, repetenado, que em figura d'avisado / é malino e
sotrancão"

Personagens Caracterização e relações estabelecidas


Judeus – Desempenham um papel semelhante ao da Alcoviteira e têm por missão
Latão e apresentar a Inês o segundo pretendente: o Escudeiro Brás da Mata.
Vidal São personagens cómicas recorrem a uma linguagem caricatural, patente, por
exemplo, nas hesitações do seu discurso ou no retrato exagerado que
apresentam do Escudeiro: "Soubemos d'um escudeiro/ de feição
d'atafoneiro,/que virá logo essora,/ que fala, e como ora fala,/ qu'estrugirá esta
sala!/ E tange, e como ora tange,/e alcança quanto abrange/, e se preza bem
da gala.";
Pertencem a um grupo – a comunidade judaica –, daí a linguagem contribuir
para a sua caracterização indireta como personagens-tipo (vejam-se os versos
da cantiga que Vidal entoa, aquando da cerimónia de casamento de Inês com
o Escudeiro, e que fazem parte dos rituais judaicos).
São gananciosos, pois, concretizado o casamento, exigem logo a quantia de
dinheiro devida.
Funcionam como uma única personagem: um completa o outro, não só ao nível
do discurso, como também ao nível de atitudes e comportamentos ("Tu e eu
não somos eu?").
Moço É criado do Escudeiro, acompanha-o ao longo da peça e é uma voz crítica do
amo.
Leva uma vida dura, de pobreza e é maltratado:
Esc. Não dormes tu que te farte?
Moço. No chão e o telhado por manta [...];
É fiel, contudo, ao seu senhor, fazendo o que este lhe pede - por exemplo, antes
de partir para Marrocos, o Escudeiro ordena ao Moço que vigie Inês Pereira.
Este, embora a contragosto, cumpre o pedido.
Ermitão É um ermitão que se distingue dos eremitas ou monges que viviam isolados
(num ermo) para se dedicarem inteiramente a Deus e que viviam da fé e da
caridade das pessoas que os ajudavam e os alimentavam; o seu Deus é Cupido,
como ele próprio afirma.
Seduz Inês Pereira e representa a vida de liberdade - "a boa vida" - que a moça
pretendia levar, com a aprovação do próprio marido, que não vê maldade em
nada.
Representa uma crítica ao clero, à sua devassidão e à imoralidade.
Figurantes Integram o grupo de moças e mancebos que festejam o casamento de Inês
Luzia Pereira com Brás da Mata, cantando e dançando.
Fernando São os únicos que falam, expressando a sua alegria e desejando o melhor para
os recém-casados, apesar da sua intervenção reduzida.
e. A representação do quotidiano

Uma das características da farsa, enquanto género, é representar flagrantes da vida quotidiana.
Daí que na Farsa de Inês Pereira seja possível identificar vários episódios que espelham os hábitos,
os costumes, as crenças, os modos de vida das pessoas daquela época, em especial aqueles que
diziam respeito:
• ao casamento – o texto vicentino dá-nos a conhecer as conceções antagónicas de Inês
Pereira, da Mãe e de Lianor Vaz em relação a este assunto, para além de todo um
conjunto de aspetos relaciona dos com o casamento: a intervenção da Alcoviteira e dos
Judeus, os encontros com os pretendentes, as regras, o dote, a festa, a vida em casal;
• ao estatuto da mulher, sobretudo da mulher solteira - os casamentos eram, regra geral,
combinados, funcionando como um negócio entre duas partes, sem que a jovem solteira
tivesse qualquer participação. Neste caso, apesar de haver intermediários entre Inês
Pereira e os pretendentes, a última palavra é da protagonista, que, no entanto, não
consegue, com o primeiro casamento, alcançar aquilo que tanto desejava: libertar-se do
"cativeiro" da vida doméstica e ascender socialmente;
• à vida doméstica – acompanhamos a protagonista nos seus afazeres domésticos,
assumindo a postura típica da mulher do povo que trata da casa. No seu monólogo inicial,
Inês está em casa, a costurar; depois, já casada e fechada em casa, também costura;
• à vida palaciana – apesar da vida de aparências que existia na corte e que está bem
espelhada no comportamento do Escudeiro, muitos eram os que ambicionavam fazer
parte desse mundo, como Inês. Ela quer "ouvir e folgar" e, por isso, pretende inicialmente
casar com um homem "discreto", "avisado", que saiba "tanger" viola;
• à vida do campo, simples, autêntica, mas pouco considerada – Pêro Marques representa
esse tipo de vida, em oposição à vida fútil, falsa da corte. Curiosamente, esta vida simples,
de trabalho, garante mais sustento que a vida ociosa dos fidalgos pelintras;
• à vida do clero – o encontro de Lianor Vaz com um clérigo devasso e o de Inês Pereira
com um Ermitão devoto de Cupido denunciam comportamentos imorais da parte de
elementos do clero.

f. A dimensão satírica

O teatro de Gil Vicente é eminentemente satírico. Na realidade, um dos principais objetivos do


dramaturgo, ao escrever e encenar as suas peças, era chamar a atenção para as mudanças que
afetavam a socie dade de quinhentos e que, na sua perspetiva, a corrompiam, traduzindo-se em
comportamentos viciosos como, por exemplo, o desejo de promoção social das camadas mais
baixas, o parasitismo da nobreza, o adultério, a devassidão e a imoralidade do clero.
Estes comportamentos são denunciados, essencialmente, através das personagens-tipo e do
cómico. Efetivamente, a representação do quotidiano ganha uma outra projeção graças às
personagens-tipo. Na verdade, na sua individualidade de personagem, elas incorporam modos
de estar, de pensar e de sentir específicos de um grupo social e/ou profissional que, assim,
adquire mais impacto. Na Farsa de Inês Pereira, podemos reconhecer os seguintes tipos:
• a Alcoviteira (Lianor Vaz) e os Judeus (Latão e Vidal) – figuras gananciosas que agem com
um fim económico;
• o Vilão (isto é, o homem do povo), lavrador (Pêro Marques) – personagem rústica, serve
para fazer rir a gente da corte, com a sua ignorância e simplicidade;
• o Escudeiro (Brás da Mata) – género de parasita, ocioso e vadio, que imita os padrões da
nobreza – toca guitarra, verseja, faz serenatas, finge ser bravo, mas é medroso e
explorador do Moço. Não trabalha e passa fome;
• o Ermitão – há uma desconformidade entre os atos e os ideais, pois, em lugar de praticar
a austeridade, a pobreza e a renúncia ao mundo, busca a riqueza e os prazeres
mundanos.
Em última análise, podemos ainda dizer que cada uma destas personagens ilustra um
determinado conjunto de defeitos e de vícios que Gil Vicente, através do seu olhar perspicaz,
queria criticar. Daí que as personagens-tipo sejam cruciais para a sátira social que o dramaturgo
pretendeu concretizar.
As personagens-tipo ajudam, pois, a compor o quadro do quotidiano e da sociedade à época de
Gil Vicente, permitindo ao dramaturgo expor e satirizar atitudes e valores, muitas vezes através
do riso. Nesse sentido, as personagens-tipo podem também contribuir para o cómico.
O cómico é, aliás, outro instrumento de que Mestre Gil se serve para criticar os seus Com efeito,
o teatro de Gil Vicente é o melhor exemplo da máxima "ridendo castigat mores", isto é, a rir
contemporâneos castigam-se, corrigem-se os costumes. Nesse sentido, ao criar personagens,
situações ou discursos que fazem o público rir, o dramaturgo pretende, com algum
distanciamento e de uma forma divertida, por a descoberto, muitas vezes ridicularizando, um
comportamento, uma ação, um valor que, na sua ótica, é moralmente condenável.
Na Farsa de Inês Pereira, podemos identificar exemplos de cómico de carácter, de situação e de
linguagem. Antes de analisarmos alguns, gostaríamos, porém, de salientar que não raras vezes
eles se entrelaçam, ou seja, o efeito cómico pode resultar da personalidade da personagem e/ou
da situação em que esta se encontra, bem como da linguagem que utiliza.

Tipos de cómico Farsa de Inês Pereira


Cómico de carácter – Pêro Marques e o Escudeiro mostram, sem sombra de dúvida,
assenta na personalidade,que são personagens cómicas. O primeiro é o retrato fiel do
no modo de ser da provinciano desajeitado e desconhecedor das convenções
personagem, traduzindo- sociais; o segundo estava arruinado e era cobarde, embora
se, muitas vezes, na sua aparentasse ser rico e elegante.
incapacidade para se Pêro Marques, quando visita Inês pela primeira vez, revela
integrar num determinado imediatamente o seu lado cómico, pois não se integra de maneira
ambiente, meio social alguma no ambiente urbano: por exemplo, não sabe para que
serve uma cadeira e senta-se ao contrário, ficando de costas para
as outras personagens em cena; em vez de presentes elegantes,
traz peras para oferecer à jovem, mas não as encontra no chapéu,
onde apenas estão um pente, um novelo e contas de vidro.
O Lavrador, contrariamente à conduta de outros homens da
cidade, mostra-se inquieto quando se apercebe de que a Mãe de
Inês os deixou a sós: "Vossa mãe foi-se? Ora bem,/ sós nos leixou
ela assi?/Cant'eu' quero-me ir daqui,/ não diga algum demo
alguém..."
O desconcerto de Pêro Marques é ainda evidente durante a
cerimónia de casamento, denotando uma vez mais que é um
homem simples: "Há homem empacho má hora/quanto a dizer
abraçar;/depois que a eu usar/ entonces poderá ser."
Quanto ao Escudeiro, a sua faceta cómica reside precisamente no
contraste que ele patenteia entre o ser e o parecer, ou seja, entre
aquilo que ele revela quando está com o Moço (é pelintra,
autoritário, arrogante) ou com Inês, já sua mulher (é severo,
insensível), e aquilo que ele manifesta quando primeiro a
conhece (é afável, cortês, galante).
Cómico de situação – Pêro Marques revela as suas atitudes desajeitadas, e que já foram
baseia-se na intriga, no abordadas.
próprio desenrolar dos
episódios, que podem Para além dele, outras personagens protagonizam situações
provocar desencontros, cómicas, como é o caso dos Judeus. Ao quererem
contrastes, o inesperado desenfreadamente dar a conhecer a Inês Pereira o fruto do seu
ou o insólito trabalho e o pretendente encontrado, interrompem-se um ao
outro, repetem frases, mandam o outro calar-se:
Vid. Judeu, queres-me leixar?
Lat. Leixo, não quero falar.
Vid. Buscamo-lo...
Lat. Demo foi logo!
Outra situação cómica é a morte do Escudeiro fanfarrão às mãos
de um pastor mouro, quando tentava fugir "da batalha pera a vila
/ a meia légua de Arzila". O comentário de Inês Pereira, depois de
saber da boa nova, acentua esse lado cómico e a duplicidade do
Escudeiro: "Pera mim era valente,/ e matou-o um mouro só."
Por fim, a cena final, mostrando Inês às costas de Pêro Marques,
que canta uma cantiga sobre um "marido cuco", isto é, traído, é
toda ela cómica, já que o Lavrador se comporta verdadeiramente
como o "asno" referido no mote.
Cómico de linguagem – Péro Marques, por exemplo, utiliza, na carta que escreve a Inês,
resulta da desadequação uma linguagem recheada de termos e expressões provincianas,
do que é dito ou do modo que provocam o riso ao leitor/espectador e até mesmo à própria
como é dito relativamente protagonista quando a lé: "Viste tão parvo vilão'?/ Eu nunca tal
ao contexto envolvente; cousa vi nem tanto fora de mão".
pode ser produzido No seu discurso, Péro Marques recorre a uma linguagem
através da ironia, do provinciana, por vezes confusa, que serve, simultaneamente,
sarcasmo, de apartes ou para completar a sua caracterização: "Mais gado tenho eu já
outros comentários, de quanto,/e o maior de todo o gado,/ digo maior algum tanto."
trocadilhos e jogos de Também a linguagem dos Judeus é risível, fruto sobretudo de o
palavras, de expressões seu discurso ser repetitivo e hesitante, mas também de registo
populares, de calão, entre popular, assumindo até, por vezes, o calão: "Foi a coisa de
outros meios maneira,/ tal friúra e tal canseira,/ que trago as tripas
maçadas:/assi me fadem boas fadas/ que me saltou caganeira?”
As repetições pela ordem inversa ou como se fossem um eco,
para além das hesitações sobre quem fala primeiro, acentuam o
carácter cómico desta dupla.
A ironia está presente nas expressões usadas por Inês para se
referir a Péro Marques, especialmente nos seus apartes: "Ei-lo, se
vem penteando:/ será com algum ancinho?".
Também é recorrente nas falas do Moço e nos apartes que ele
profere sobre o seu amo: "(Como a rei, corpo de mi! Mui bem vai
isso assi.)"
Os trocadilhos e os jogos de palavras são outra forma de criar um
efeito cómico ao nível da linguagem. Encontramos exemplos da
sua utilização no discurso do Moço e também no da Mãe quando
usa o verbo "conhecer" no sentido literal do termo; por seu lado,
a Alcoviteira atribui-lhe o sentido de ter relações íntimas com
alguém: "Mana, conhecia-t'ele?/ Mas queria -me conhecer!"
Outro exemplo caricato ocorre quando a Mãe, já entusiasmada
com o possível casamento da filha, julga ter ouvido Péro Marques
dizer que era "morgado", isto é, filho único ou filho mais velho,
portanto, com direito de herança. Mas não. Afinal, embora rico,
o Lavrador era apenas possuidor da maior parte do gado.
g. Linguagem e estilo

Para além de poder ser um elemento ao serviço da comicidade, a linguagem em Gil Vicente é
um importante elemento de caracterização das personagens. De facto, nos seus textos, o
dramaturgo procurou sempre adequar a linguagem de cada personagem ao grupo social a que
pertencia ou à atividade que desempenhava. Nesse sentido, verificamos que na Farsa de Inês
Pereira:
• Pêro Marques fala como lavrador que é, ou seja, de forma simples, provinciana e, por
vezes, até confusa, visto que não era instruído.
• Inês Pereira, a Mãe e Lianor Vaz falam como as mulheres do povo, recorrendo a
expressões populares e a provérbios ("ante a Páscoa vêm os Ramos", "maior é o ano que
o mês", "Mata o cavalo de sela/e bom é o asno que me leva", "No Chão de Couce,/ quem
não puder andar choute", "Quem bem tem e mal escolhe,/por mal que lhe venha não
s'anoje", "Antes lebre que leão").
• Brás da Mata, como pretende enganar Inês, fala com ela de um modo galante, sendo o
seu discurso rebuscado e em tom hiperbólico ("Senhora, eu me contento/receber-vos
como estais;/se vós não vos contentais, / o vosso contentamento/pode falecer no mais");
porém, com o Moço, já usa uma linguagem mais coloquial e agressiva ("Faria bem de t'a
quebrar/na cabeça, bem migada”), tal como fará com Inês, depois do casamento ("Juro
ao corpo de Deus /que esta seja a derradeira! / Se vos eu vejo cantar, / eu vos farei
assoviar...").
• Os Judeus recorrem a uma linguagem de cariz popular e, a dada altura, para criar um
efeito de verosimilhança, usam mesmo fórmulas macarrónicas dos rituais judaicos ("Alça
manim dona, ó dona, ha, / arrea especulá, /bento o Deu de Jacob,/bento o Deu que a
Faraó/espantou e espantará").
Por outro lado, tratando-se de um texto literário, está permeado de recursos expressivos que lhe
conferem novos sentidos, para além do óbvio. Assim, nesta farsa, podemos identificar, entre
outros, os seguintes recursos expressivos:

Ironia Ex.: "I-vos vós embora à guerra,/que eu vos guardarei oitavas."


Manifestação através da (Moço)
qual se dá a entender o A "oitava" era a prestação que os lavradores pagavam ao proprietário
contrário do que se diz; das terras. Só os grandes proprietários a recebiam. Ao proferir esta
por exemplo, o aparente frase, o Moço está a ser, naturalmente, irónico, pois o Escudeiro não
elogio é, na verdade, uma tem terras, logo, não pode receber nada.
crítica.
Ex.: "Bem sabedes vós, marido, quanto vos amo." (Inês)
Inês profere estas palavras, mas vai encontrar-se com o Ermitão.
Comparação Ex.: "Coitada, assi hei de estar / encerrada nesta casa / como panela
Relação de semelhança sem asa que sempre está num lugar?" (Inês)
entre duas Inês lamenta a sua sorte, comparando-se a um objeto inútil.
entidades/realidades,
estabelecida por uma Ex.: "Estareis aqui encerrada / nesta casa tão fechada, / como freira
expressão comparativa. d'Odivelas” (Escudeiro)
Brás da Mata compara a situação de Inês - estar fechada em casa - à
clausura de uma freira, o que acentua a "violência" da sua decisão.
Interrogação retórica Ex.: "E assi hão de ser logrados/dous dias amargurados, / que eu
Formulação de uma possa durar viva?" (Inês)
pergunta para a qual, na A pergunta de Inês Pereira é uma mera forma de ela continuar a
verdade, não se pretende expressar o descontentamento pela vida que leva.
uma resposta, mas apenas
dar ênfase ao que se Ex.: "E nasceu-te algum unheiro/ou cuidas que é dia santo?" (Mãe)
enuncia. Esta pergunta tem um tom irónico, pois a Mãe pretende apenas que
Inês abandone o seu ócio.
Metáfora Ex.: "porque a moça sisuda / é uma perla pera amar" (Mãe)
Relação de semelhança, A Mãe, procurando ajudar a filha a causar boa impressão ao
entre dois termos, sem a Escudeiro, aconselha-a a mostrar-se séria e reservada, para assim ser
presença explícita do digna de louvor, apreciada e valorizada, tal como uma pérola.
elemento comparativo
(como, parecido com, Ex.: "Marido cuco me levades"
etc.). "Sempre fostes percebido/ pera cervo" (Inês)
Inês refere-se a Pêro Marques como marido "cuco", pois, tal como a
ave, ele repete a mesma frase - "Pois assi se fazem as cousas".
Apelida-o também de "cervo", aproximando-o deste animal que tem
ramificações. Estas duas metáforas salientam, portanto, a sua
condição de marido traído.
Metonímia Ex.: "Renego deste lavrar" (Inês)
Emprego de um termo O termo "lavrar", neste contexto, é sinónimo de costurar. Ora, com
que, por uma relação esta afirmação assertiva, Inês está não só a manifestar o seu
semântica ou de profundo desagrado relativamente à costura (a "parte"), mas a toda
proximidade, pode a vida doméstica ("todo") de que a costura é apenas um exemplo.
designar outro, através de
uma relação entre a parte Ex.: "que não m'hei de contentar/de casar com parvoíce." (Inês)
e o todo, o continente e o Ao dizer isto, Inês está a revelar que não quer casar com um homem
conteúdo, o signo e o que parvo, ou seja, provinciano, simples, como era Péro Marques. Neste
ele significa, entre outras. caso, o defeito (parvoíce) representa o portador do defeito (Pêro
Marques).
Síntese de conteúdos
Farsa de Inês Pereira
Classificação da obra Farsa de folgar
Contexto de produção Ilustrar o mote – "Mais quero asno que me leve, que cavalo que me
derrube."
Características do Representação de cenas da vida profana através da sátira
género literário: farsa Reprodução do ambiente popular da época e de flagrantes da vida
quotidiana
Apresentação de um conflito entre forças opostas
Estrutura interna - intriga com um princípio, meio e fim
Estrutura externa - não se organiza em atos ou em cenas
Número reduzido de personagens, algumas delas personagens-tipo
Intriga Três momentos-chave
• Inês solteira – do monólogo inicial de Inês Pereira até ao momento
em que se encontra com Pêro Marques e recusa casar com ele
• Inês casada com o Escudeiro – da chegada dos Judeus
casamenteiros, que dão a conhecer o Escudeiro, até ao monólogo
em que Inês, já casada e fechada em casa, lamenta a sua sorte
• Inês casada com o Lavrador (vilão) – do momento em que Inês
recebe a carta que anuncia a morte do Escudeiro até ao final, quando
vai ter com o Ermitão, às costas do marido
Personagens Protagonista – Inês Pereira – duplo estatuto:
• representa a moça da vila com pretensões a ascender
socialmente através do casamento;
• é dotada de alguma densidade psicológica, pois evolui ao
longo da peça, alterando o seu comportamento
(personagem dinâmica).
Personagens-tipo
• a Alcoviteira - Lianor Vaz
• o Vilão - Pêro Marques
• os Judeus - Latão e Vidal
• o Escudeiro - Brás da Mata
• o Ermitão
Representação do Episódios que espelham o modo de vida da época; a dissolução dos
quotidiano costumes; o ser vs. o parecer; o estatuto da mulher; as relações
intergeracionais; a pobreza da baixa nobreza; a vida cortesã vs. a vida
campestre.
Dimensão satírica Através do recurso a personagens-tipo e ao cómico (de linguagem,
de carácter ou de situação), Gil Vicente pretende criticar:
• a moça da vila que manifesta uma ambição desmedida de
promoção social (Inês Pereira, num primeiro momento);
• a mulher falsa que engana o marido (Inês Pereira, que, depois de
ter sido iludida por Brás da Mata, prefere um marido "manso");
• o Escudeiro pretensioso, pelintra, autoritário e cobarde (Brás da
Mata);
• o marido ingénuo e enganado (Péro Marques); . o Ermitão devasso
que não respeita a Deus;
• a Alcoviteira sempre interessada em promover uniões (Lianor Vaz);
• os Judeus preocupados com o seu proveito.

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