CONTRAPONTO 1
LITERATURA DE CORDEL NO ENSINO DE HISTÓRIA: UMA
PROPOSTA METODOLÓGICA
Ronyere Ferreira
Graduando em História e bolsista do Programa
Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência –
PIBID/UFPI.
Francisco Oliveira
Graduando em História e bolsista do Programa
Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência –
PIBID/UFPI.
Vilmar Aires
Mestre em Educação, professora da Universidade
Federal do Piauí, e coordenadora da área de
História PIBID/UFPI.
RESUMO: Este artigo realiza uma RESUMEN: En este artículo se presenta
análise reflexiva sobre o ensino de un análisis reflexivo de la enseñanza de
história na educação básica, assim como la historia en la educación básica, así
propõe a produção de textos como propone la producción de textos
característicos da literatura de cordel propios de literatura del cordel, como
como resultado de um projeto didático. resultado del un proyecto educativo.
As ponderações aqui desenvolvidas Las ponderaciones desarrollados aquí se
originaram-se em experiências enquanto originó en experiencias mientras actúa
atuantes do Programa Institucional de el Programa Institucional de Iniciación
Bolsa de Iniciação à Docência – de subvención para la enseñanza –
PIBID/UFPI com estudantes da rede PIBID/UFPI con estudiantes de
pública de ensino, utilizando esta escuelas públicas, utilizando esta
técnica em sala de aula. Nesta tarefa técnica en el aula. En esta tarea nos
dialogamos com autores como diálogo con autores como CABRINI
CABRINI (2000), MICELI (2006), (2000), Miceli (2006), Botelho (2012)
BOTELHO (2012), FONSECA (2003), FONSECA (2003), entre otros. Como
dentre outros. Como resultado, resultado, destacamos la posibilidad de
destacamos a possibilidade de diversificar y mejorar la enseñanza de la
diversificar e melhorar o ensino de historia comenzando por el enfoque de
história a partir da abordagem de la metodología para romper el
metodologias que quebrem o monopólio monopolio del manual de enseñanza.
didático do manual. Palabras clave: Historia; Educación;
Palavras-chave: História; Ensino; Literatura del cordel.
Literatura de cordel.
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INTRODUÇÃO
Na contemporaneidade, parece unânime o discurso sobre a necessidade de
criarmos ou colocarmos em prática novas metodologias de ensino na educação básica.
Um modelo tradicional baseado na negação da autonomia dos estudantes durante o
processo de ensino/aprendizado mostrou-se infrutífero. Em meio aos ecos sobre a
calamidade atual do ensino, em que todas as áreas de licenciatura exigem por
reformulações metodológicas, qualquer fracasso oriundo de uma tentativa de mudança
não parece trazer dano algum, pois, segundo Cabrini (2000), torna-se algo difícil
imaginar a situação da educação pior do que já está.
Perante os frequentes desenvolvimentos tecnológicos e os novos interesses
despertados por novas demandas sociais, criou-se como meta a consolidação de
professores e estudantes autônomos, capazes de produzir conhecimento e não aterem-se
exclusivamente aos livros e diretrizes oficiais. Contudo, apesar do inquestionável e
frequentemente divulgado caos didático do aparelho de instrução formal brasileira, não
será aqui proposto – e nem aparenta racionalidade – uma extinção dos recursos e
metodologias de ensino até então existentes e predominantes, nem mesmo do “odiado”
livro didático, este que é desprezado verbalmente por docentes que, muitas vezes, vivem
a repetir lições bem semelhantes às de outrora. Professores que
[...] anseiam pela chegada dos profetas do “novo” ensino que –
afinal!- vão dizer a eles o que e como ensinar nas aulas de história.
Enquanto isso a questão de fundo continua sendo o para quê, por quê e
para quem esse ensino pode ter algum tipo de serventia, e a escola
prossegue sendo o espaço privilegiado de conhecimentos inúteis, o
que – para o bem ou para o mal – não é atributo apenas das aulas de
história. (MICELI 2006:36)
Considerando-se que esperar pela providência divina pode ser um tanto
incerto, este artigo trata-se de uma proposta metodológica: produzir literatura de cordel,
de forma metódica, juntamente com estudantes da educação básica, partindo do
pressuposto de que uma das melhores formas de se ter ciência dessa matéria é
possibilitando a transformação dos discentes em seres ativos no processo de
aprendizagem, anseio que esta metodologia parece suprir, ainda que parcialmente. O
uso deste procedimento didático pelos professores faz destes, assim como dos
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estudantes, verdadeiros pesquisadores, o que na contemporaneidade é considerado
essencial, pois há uma espécie de senso comum – apesar de quase nunca aplicado – de
que não existe ensino sem pesquisa, assim como pesquisa sem ensino.
Este artigo vos chega como o produto parcial de reflexões realizadas para o
uso em sala de aula das ferramentas do cordel, experiência esta realizada com alunos do
7° ano do ensino fundamental do Centro de Ensino de Tempo Integral Darcy Araújo,
escola de tempo integral da rede estadual de ensino do Estado do Piauí, no tocante aos
debates comemorativos ao dia do Piauí, na forma de projeto de intervenção didática
pelo Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência – PIBID/UFPI,
financiado pela CAPES.
O presente artigo foi organizado nas seguintes partes: Abaixo ao monopólio,
na qual dialogamos com autores que tomaram como objeto de pesquisa os usos do livro
didático em sala de aula. Em momento posterior, desenvolvemos uma articulação entre
a teoria utilizada para embasar o projeto didático e as problemáticas da prática. Como
notas de fins, destacamos a importância de dinamizar o ensino de história, assim como
quebrar a exclusividade dos livros ou manuais, estes que somente informam sobre uma
visão de mundo, uma forma de conceber o passado em detrimento às demais.
Por fim, para não enxotarmos os leitores, pomos fim aos esclarecimentos
cabíveis às introduções. Nas sessões seguintes analisaremos a produção sistemática de
literatura de cordel em sala de aula com alunos do ensino fundamental, método que
contribui para que os estudantes deixem, afinal, de “associar o domínio do
conhecimento de História à capacidade de memorização, em detrimento da análise e
interpretação que deveriam instrumentalizar reflexões críticas sobre a existência
humana de outras épocas e lugares.” (BOTELHO 2012:02).
ABAIXO AO MONOPÓLIO
Nossos adolescentes também detestam a História. Voltam-lhe ódio
entranhado e dela se vingam sempre que podem, ou decorando o
mínimo de conhecimento que o ‘ponto’ exige, ou se valendo
lestamente da ‘cola’ para passarem nos exames. Demos ampla
absolvição à juventude. A História como lhes é ensinada é, realmente,
odiosa (MENDES, 1935 apud NADAI, 1993:01)
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Antes de passarmos precisamente às reflexões sobre a metodologia proposta,
acreditamos na pertinente de algumas considerações sobre o recurso mais utilizado e
enraizada na educação básica há décadas, o livro didático, este que “é, de fato o
principal veiculador de conhecimentos sistematizados, o produto cultural de maior
divulgação entre os brasileiros que têm acesso a educação escolar” (FONSECA 2003:
49) e está, supomos, intimamente ligado à epígrafe com a qual iniciamos esta sessão.
O manual didático resume em poucos volumes “toda” história da humanidade
considerada “digna” de ser estudada, ao passo que detém, de forma consolidada, um
estável patamar na hierarquia dos recursos utilizados no ensino básico. Contudo, nos
últimos anos insurgiram-se fortes críticas ao seu uso, originando muitas pesquisas que
lhe tomara como objeto. Muitas as análises críticas sobre o livro didático, muitas delas
embasadas em pesquisas consistentes, mas que pouco parece abalar as políticas
educacionais, estas que seguem sem esboçar grandes questionamentos.
Entre os manuais, diversos são os livros que trazem sucessões governamentais
rigidamente datadas, com breve resumo dos principais acontecimentos “importantes”.
Em outros casos, com o intuito de negar o rótulo de positivistas, segue-se pequenas
narrativas baseadas em fontes pouco diversificadas. Diante de tais características,
geralmente, a análise reflexiva sobre o passado, que deveria auxiliar na formação
intelectual dos estudantes é substituída por tópicos que em pouco ou nada contribuem
para o conhecimento sobre o passado e suas heranças.
Segundo Fonseca, quando o livro didático passou a ser adotado no Brasil
durante o regime militar como uma política de estado, se transformou em um canal
privilegiado para a difusão de certos saberes históricos – abordagens historiográficas –,
principalmente a chamada “história tradicional” ou “positivista” e a “história nova”
francesa. Em bem menor escala, encontra-se ainda nesses materiais didáticos análises
fundamentadas no “materialismo histórico” e na “história social inglesa”. Além dessa
pouca diversidade na perspectiva apresentada, outro ponto que Fonseca critica é a
simplificação do conhecimento histórico que é divulgado por essas publicações:
A necessidade de simplificação, para alguns especialistas, tem uma
função didática: auxiliar na implementação dos programas de ensino,
nos planejamentos de unidade e na sequência lógica dos conteúdos.
Outra função bastante difundida é a de permitir aos alunos uma visão
de toda a [...] história geral difundida pelos europeus. Essa
simplificação faz com que a simplificação dos temas em meros fatos
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supere até mesmo a simplificação imposta pelos livros didáticos.
(FONSECA 2003:52-53)
Os autores dos livros didáticos buscam, portanto, facilitar a compreensão dos
estudantes da educação básica sobre o conhecimento histórico, processos estes que não
raramente acarretam em deformidades analíticas, com manutenções e construções de
certas memórias em detrimento de outras consideradas menos importantes, relegando a
determinadas minorias e grupos vencidos o simples papel de coadjuvantes. Alguns fatos
são escolhidos para estudo ao passos que outros são silenciados, isso sem que haja
critérios explícitos.
Tais escolhas, não raramente, levam-nos a pensar que suas essências não estão
enraizadas em um simples equívoco ou perspectiva analítica, mas, quiçá em um projeto
que visa sobrepujar identidades de regiões inferiorizadas economicamente. Segundo
Miceli esses desacertos:
[...] não são nem distorções, nem inocentes, mas conformam uma
filosofia da História que alimenta visões de mundo e orienta práticas
sociais [...] servindo para justificar não só as formas mais explícitas e
abrangentes de dominação e exploração sociais, como também o
combate das diferenças e o extermínio das particularidades que se
manifestam até nas relações pessoais mais próximas (MICELI
2006:33)
Diante dos argumentos citados, torna-se evidente a sedução existente na
proposta de extinguir definitivamente o livro didático da educação básica brasileira. No
entanto, apesar do encanto, tal sugestão tende a trazer mais malefícios que benefícios,
pois a História é uma disciplina que está fadada ao fracasso na ausência de leitura. O
embate, antes de ter como foco principal o manual em si, deve ter o seu monopólio
dentro da sala de aula e sua exclusividade como recurso de ensino.
Para tal tarefa, o mais cabível parece ser a organização e uso de textos
alternativos, como livros paradidáticos e artigos de vulgarização do conhecimento
científico de revistas especializadas,1 assim como o devido planejamento visando
resultados que não desemboque exclusivamente na resolução de questões em exercícios
1
Uma revista de vulgarização científica que parece suprir em boa parte nosso anseio é a Revista de
História da Biblioteca Nacional. Com edições mensais, a publicação traz dossiês temáticos com artigos de
especialistas de diversas universidades, brasileiras e estrangeiras, assim como artigos de temáticas livres
que se relacionam com o cotidiano dos estudantes, indicações de filmes e leituras para docentes ou
discentes que pretendem aprofundar o conhecimento. Esta revista, ao ser utilizada como recurso didático,
possibilita a percepção da complexidade dos processos históricos e suas diversas possibilidades
interpretativas.
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e provas escritas. Assim, desconstrói-se a imagem do livro didático como “senhor da
verdade”, pondo-lhe sob suspeita e questionamentos explícitos perante os agentes do
processo de ensino/aprendizagem.
Contudo, mostra-se inocência ou casuísmo pormos todo o ônus da atual
situação da educação nos manuais didáticos, deixemos uma boa parcela para a
considerável parte de professores que, devido sua desatualização, estão
temporariamente na jurisdição da incapacidade de trabalharem meios alternativos, pois
esses exigem o emprego da criticidade, pesquisa, conhecimento minimamente
aprofundado e atualizado sobre os conteúdos vinculados.
Por fim, acreditamos que a busca por novas metodologias, como a produção de
literatura de cordel pelos estudantes, pode ser eficiente para uma maneira mais eficiente
de se compreender o conhecimento histórico, correspondendo assim ao pressuposto de
que o livro didático é uma fonte do conhecimento histórico, portanto, como todas elas,
passíveis a diversos questionamentos sobre seus conteúdos, autores e condições de
produção.
ENTRE A TEORIA E A PRÁTICA
Para trabalharmos a literatura de cordel com os estudantes do 7° ano do ensino
fundamental, visando a produção deste gênero literário como resultado de um projeto
didático no ensino de história para exposição nas comemorações alusivas ao dia do
Piauí, 19 de Outubro, buscamos primeiramente elaborar uma proposta escrita e
fundamentada, com o intuito de delimitarmos os passos a serem seguidos e os objetivos
a que gostaríamos de alcançar. Para isso, tomamos como exemplo as seguintes
indicações de Selva Fonseca:
O desenvolvimento de um projeto, em linhas gerais, é composto de
três grandes etapas ou fases: a primeira refere-se à formulação do
problema, ao planejamento, às discussões, à elaboração do projeto, à
formação dos grupos. A segunda etapa é [...] as atividades, as aulas, as
discussões dos resultados. A terceira fase é a da apresentação dos
resultados, da globalização, da socialização dos saberes... (FONSECA
2003: 109-110)
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O projeto prometia êxitos ainda nas fases de preparação por dois motivos.
Primeiramente, mantemos uma posição de indiferença à concepção de que a educação
básica tem como objetivo principal a simples transposição do conhecimento produzido
nos meios acadêmicos; Em segundo lugar, a empreitada envolvia de forma intensa pelo
menos duas áreas do conhecimento distintas, a História e a Literatura,
interdisciplinaridade esta que
[...] pressupõe a integração entre os conteúdos e as metodologias de
disciplinas diferentes que se propõem a trabalhar conjuntamente
determinados temas. Não é uma simples fusão ou justaposição, mas
uma “interpenetração” de conceitos, dados e metodologias.
(FONSECA 2003:106)
Porém, mesmo estando cientes de que a interdisciplinaridade não consistia
exatamente na solução para os males do ensino de história, assim como em outras
disciplinas, ela é uma via para chegarmos a um possível fim do isolamento científico em
que estão imersos alguns – se não a maioria – dos diversos agentes da educação básica
brasileira.
Inicialmente, buscamos situar sistematicamente os estudantes sobre o projeto
que seria realizado, buscando conscientizar sobre os benefícios daquela novidade e
conseguir colaborações que pudessem ser incorporadas ao documento escrito.
Debatemos conceitos e características básicos da literatura de cordel, assim como
tratamos a história desse gênero literário, aproximando-os dessa forma do que seria
posto em prática conjuntamente nas aulas seguintes.
Houve o esclarecimento das origens da literatura de cordel, suas principais
características, tipos e tipos do gênero, este que se desenvolveu na Europa durante o
período histórico moderno, principalmente em Portugal, abordando diferentes teátcas.
Como destaca Linhares
A literatura de Cordel teve sucesso, em Portugal, entre os séculos XVI e
XVIII. Os textos podiam ser em verso ou prosa, não sendo invulgar
trata-se de peças de teatro, e versavam sobre os mais variados temas.
Encontram-se farsas, historietas, contos fantásticos, escritos de fundo
histórico moralizantes, etc., não só de autores anônimos, mas também
daqueles que, assim, viram a sua obra vendida a preço, como Gil
Vicente e Antônio José da Silva, o Judeu. Exemplos conhecidos de
França, A princesa Magalona, histórias de João de Calais e A Donzela
Teodora. (LINHARES 2006, apud SANTANA e BATISTA)
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Em outras partes do mundo o cordel também foi difundido. Na França, eram
carregados em mochilas. Nos meios urbanos essa literatura era alastrada através dos
jornais de sátiras populares ou denominada “canard”. É interessante observarmos que
em outros países como a Inglaterra, Holanda e Alemanha os cordéis eram semelhantes
aos nordestinos no tocante a forma literária escrita e visual. A colonização portuguesa
foi um dos principais fatores responsáveis por trazer essa forma de manifestação
cultural para o Brasil, isso em folhas esparsas e até mesmo em manuscritos. Somente
depois de algum tempo, com o aparecimento das tipografias fixou-se realmente no
nordeste brasileiro.
O cordel quando “desembarcou” em terras brasileiras era usado para contar
histórias passadas em períodos remotos, versando sobre o amor, sobre conquistas, sobre
viagens marítimas, sobre histórias de reis e rainhas, enraizadas ainda no período
medieval e na mentalidade dos ouvintes. Segundo Lacerda e Neto
O cordel é um folheto com poemas rimados, que trata de temas
diversos, que vão de romances, histórias de valentia, humor, oração, até
aos últimos acontecimentos do dia a dia. O nome “cordel” vem da
Península Ibérica [...] deve ao costume, na Espanha e Portugal, de se
colocarem os livretos sobre barbantes (cordéis) estendidos, em feiras e
lugares públicos, de forma semelhante à roupa em varal (LACERDA;
NETO 2010: 224)
Após as incertezas, esperanças iniciais e os primeiros debates visando a
compreensão dos estudantes sobre o que seria a literatura de cordel e suas principais
características, houve a divisão da turma em pequenos grupos, cada qual responsável
por desenvolver uma temática que seria pesquisada. As temáticas escolhidas foram:
Independência do Brasil; Batalha do Jenipapo; primeira capital do Piauí; Piauí atual e
escravidão no Piauí.
Sobre cada temática os grupos desenvolveram textos iniciais, que
posteriormente ganharam detalhes estéticos e informações de pesquisa. Os textos, em
sua maioria eram formados por três estrofes, contendo quatro versos cada. A partir
destas composições, além de possibilitarmos outro tipo de envolvimento dos estudantes
com os conteúdos abordados, ainda foi possível identificar as variadas formas de
compreensão dos processos históricos por parte dos estudantes. Observemos um dos
cordéis produzidos pelos alunos no decorrer do projeto:
Bom é nela viver
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Oeiras era seu nome
Se tornou a capital
Até hoje existe
Com arquitetura colonial...
...Tem belo estilo colonial
Tudo começou do gado
Para homenagear um conde
Oeiras foi o nome de agrado
No cordel acima, percebe-se que o estudante utilizou como temática a primeira
capital do Piauí, analisando rapidamente sua fundação por meio da expansão da
pecuária e o fato de ser a cidade mais antiga do estado. A partir destes versos,
percebemos a compreensão do conteúdo por parte do aluno, uma vez que Oeiras tem
seu surgimento motivado pela criação bovina na antiga fazenda de gado Cabrobó, no
vale do Riacho Mocha, quando em meados do século XVII a pecuária era empurrada
pela coroa portuguesa para o interior no intuito de deixar as terras litorâneas disponíveis
ao plantio da cana de açúcar.
Observamos ainda o destaque para o nome da cidade, onde só em 1761, dois
anos após se tornar capital deixou de ser Vila da Mocha, passando a chamar-se Oeiras,
em homenagem ao ministro português Sebastião José de Carvalho Melo, então conde de
Oeiras e futuro Marques de Pombal.
Para o desenvolvimento dos textos, distribuímos e analisamos juntamente com
os estudantes textos de diferentes livros didáticos, artigos alternativos de revistas,
vídeos e cordeis de diferentes temas, resultando em algumas indagações e conjecturas
sobre os conteúdos. Durante as aulas, não utilizamos somente uma metodologia,
tornando o debate mais dinâmico. Segundo Fonseca
[...] devem ser usadas todas estratégias necessárias para atingir os
objetivos propostos: aulas expositivas, debates, leituras, vídeos,
pesquisas, entrevistas e outras. O conhecimento construído vai sendo
sistematizado no decorrer das ações, assim como as habilidades vão
sendo desenvolvidas. (FONSECA 2003: 113)
Os estudantes desenvolveram, com a orientação dos bolsistas do Programa
Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência, textos rimados sobre as temáticas que
foram pesquisadas e analisadas sobre a história do Piauí, expondo-os após a confecção
no pátio da unidade escolar em cordões de barbante, alguns ainda foram declamados por
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seus autores. O desenvolvimento da atividade comprovou que é uma forma de estimulá-
los para a história e para outras disciplinas, como já destacou Alves:
Abordar a presença da Literatura de Cordel em sala de aula implica
refletir, entre outras coisas, sobre as concepções de leituras, literatura
e ensino […] Seria propor uma forma de estimular os alunos a
enxergarem o que há por trás dessas produções textuais […] Vozes
essas capazes de expressar questões morais, políticas, sociais,
econômicas e culturais. (ALVES, 2008. P. 108)
O projeto didático desenvolvido possibilitou algumas ponderações sobre as
exigências pedagógicas contemporâneas, mostrando a obrigatoriedade de uma cansativa
pesquisa sobre os conteúdos abordados e dos recursos a serem utilizados, além do
aumento significativo do material a ser analisado e reescrito posteriormente. Ao
desvencilharmos do manual didático como único recurso pedagógico, percebemos que
os estudante precisam, frequentemente, serem estimulados à leitura, oferecendo-lhes
uma outra maneira de estudar o passado, sem a preocupação de decorar frases e
argumentos com o intuito lançá-los no dia do exame mensal ou bimestral. Os discentes
tiveram de absorver certos conteúdos – para muitos inéditos –, analisá-los e finalizar o
processo com a transformação dessas informações em algo “novo”, em outro meio de
transmitir este conhecimento.
Todos os envolvidos no projeto didático, professores, estudantes e bolsistas,
tiveram de esquecer o hábito docente e discente, automatizado após anos de leitura,
decoração e reprodução, de devorar materiais didáticos oficiais, tidos quase sempre
como detentores da verdade, para voltar-se a leituras e analises diferentes, para
transformarem-se produtores do conhecimento, exercício esse que se trata de um
pressuposto metodológico:
A produção de conhecimentos como atividade docente não significa
que o professor realize a soma das atividades de ensino e pesquisa,
mas significa pensar o ensino como processo permanente de
investigação e de descobertas individuais e coletivas. Produzir novos
conhecimentos é um pressuposto metodológico que pode nortear ou
não a prática docente, dependendo da visão do professor. (FONSECA
2003: 123)
Agindo dentro da atividade docente com o propósito de produzirmos saberes,
negando diariamente a reprodução, contribuímos para o rompimento dos discursos que
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buscam atribuir a construção e produção do conhecimento único e exclusivamente aos
acadêmicos, catedráticos “neutros” e especializados.
Ao finalizarmos o projeto didático, tivemos de voltar atenção para outro ponto:
a quantificação do trabalho realizado pelos estudantes. Não sabíamos como desenvolver
a avaliação objetiva das atividades realizadas. Como atribuir uma nota? Deveríamos
privilegiar somente o produto final e utilizar a hierarquia escolar na equação? Ou seria
melhor considerarmos todo o processo e de forma coletiva, juntamente com os
estudantes?
Perante as incertezas socializadas no parágrafo anterior, chegamos a
conclusões não inéditas, percebendo assim que com o emprego deste procedimento, ou
talvez de todo projeto pedagógico que procure dinamizar de forma sistemática o ensino,
a avaliação
[...] não possui o caráter de classificação. Já não cabe mais avaliar
para excluir, sentencionar, aprovar ou reprovar. A avaliação deixa de
ser classificatória e passa a ser diagnóstica e processual, assumindo
um caráter de globalidade. (FONSECA 2003: 115)
Com o projeto posto em prática, saltou aos olhos a certeza da tentativa, a
confiança de que ensinar história é um processo de reflexão e não de esmero esforço de
decoração e reprodução. Constatamos ainda uma verdadeira hostilidade dos estudantes
em relação à disciplina, uma espécie de ódio encravado à um conhecimento que
geralmente repassado sem finalidade, sem sentido. Contudo, resistência que pode ser
dissolvida com aulas menos individualistas, guiadas por protagonistas, sem
individualismos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Por meio do projeto didático realizado com os estudantes do sétimo ano do
Ensino Fundamental, acreditamos que foi possível modificarmos as visões discentes
sobre a história, sobre o professor e sobre os livros didáticos. Os dois últimos,
provavelmente, deixaram de figurar na mentalidade daqueles discentes como senhores
precisos do conhecimento sobre o passado, soberanos de saberes cristalizados.
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Muitos foram os desafios, algumas vitórias e fracassos, pois cada aluno que
não conseguimos estimular – provavelmente em uma parcela considerável – à reflexão
significou um malogro não somente para o professor ou para a escola, mas para toda a
sociedade. No entanto, os estudantes que conseguimos atingir são as provas de que
nosso objetivo foi atingido, pois incitou debates e ponderações sobre conteúdos que são
excluídos dos currículos educacionais oficiais, desta forma, omitidos na realidade
escolar local.
As experiências com os estudantes durante a confecção dos cordeis garantiram
a sobrevivência da certeza de que as vivências do passado são capazes de envolver a
juventude, tal quanto os conhecimentos divulgados por disciplinas exatas e pontos
biológicos. Aprendemos que assim como alguma coisa desenvolve-se em chumaços de
algodão, não estamos como os profetas da antiguidade, pregando no deserto, em solo
infértil.
Portanto, para um fim de “conversa”, o cordel e sua produção, trabalhados com
alunos de forma sistemática são defendidos por nós como forma de envolver pesquisa e
curiosidade, transforma estudantes e professores em reais agentes do processo de ensino
e liberta-os do costume pernicioso de repetir disciplinadamente os preceitos contidos
nos livros didáticos. Uma dose de ousadia no cotidiano escolar, uma subversão da
hierarquia do conhecimento e dos procedimentos de ensino que sem inovações
metodológicas, estão esgotados, capengas.
REFERÊNCIAS
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MICELI, Paulo. Por outras histórias do brasil. PINSK, Jaime (Org.). In: Didática e
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CONTRAPONTO: Revista do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História do
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