0 notas0% acharam este documento útil (0 voto) 194 visualizações18 páginasO Fascínio Pela Arte - Sarah Kofman
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sobre Aladonma, le sobre tea,
de Leonardo Da Vine
bra publicada com 0 apoio
‘do Ministério da Cultura da Panga
‘C1P-Beisi, Catalogacdo
radu Maria lgnez Due Estrada revisiotecnt-
iia Moraes Rego, — Rio de Janeito: Rekime:Dumara, 1996
96-0229
‘Tedos os direitos reservados. A reprodugio nio-autorizada desta publicagto,
Por qualquer meio, ses cla otal ou pare, consti oligo da lei 5.988,
~ a
oa
SUMARIO
‘A FASCINAGKO PELA ARTE
A.arte como modelo de conhecimento
dos processos psiquicos .
‘Aate, modelo de compreensio do psiquismo -
Awtrernemcio br Soxtos
Obra ce arte e sonhos tipi
Procedimentosaréicos e procdimentos do sono
AGRON ees eeee f
O comhectmento endopsiguico do poeta
© MEropo be Lerrura pe Freup
A obra de arte como texto a decifrar ..
© sonho, paradigma da obra de artesentantes uma metafisica, a uma ideologia, aos interesses
que pertencem, apesar de tudo".
ida por caust da adesto de seus repre
O FASCINIO PELA ARTE
A arte como modelo de conhecimento
dos processos psiquicos
proporcionado pela ciéneia (a
icologia tradicional) motiva essa fascinacao.
‘A interpretacdo dos sonhose em Delirose
de Jensen. Nessas obras, 0 conhecimento dos art
izado por Freud como con-
traprova de sua primeira t6pica, © corrobora em particular a
descoberta do tico do Edipo es
mente, pois elas s6 revelam.
numa deformagao: cariter circul
que nos remeterd necessari
mais especifica-
mente dos processos do sonho, os procedimentos das obras de. O Ghiste conduz. ao segundo momento do encaminh:
:no, que se encontra encetado na Gradiva, verd
Aarte, modelo de compreensio do psiquismo
A INTERPRETAGAO DOS SONHOS:
Obra de arte e sonhos tipicos
Nessa obra, a aproxi intervém
quando Freud aborda a anilise dos sonhos tipicos, que sto
caracterizados por sua relacao com uma fantasia univ
dda a desejos infantis comuns a todos os homens. Sua exp:
ddos graus de recalque, segundo 0
primeiro exemplo 0 sonho de nudex ¢ a
£ um sonho mareado pelo contras-
do sonhador e a indiferenga dos espectado-
res. Sua explicacio final se encontra no desejo infantil de exibi-
yadora trai uma
ie do sonho desejos
Na base do sonho, portanto, existe u ibranca (ou uma
) da nossa infincia: *
sal. A especificidade dos
mesmo se € um significado
agao, Sao dadlos
to de um para
parece, que ele alude a um mito
Mas em seu Prefdicio a 3* edigdo de 1911, Freud
as préximas edigdes devertio acentuar mais os lagos
liferentes producdes psiquicas e culturais~ [AINFANCIA DA ARTE:
-xistirem, dl
buscar um conta
uso da ling
precissrio, do outro lado, estudar cor
ros Mot
(Dichtungsstoffen) certamente nao sio nem isoladas
O poeta
um sonho, do qual
Segunda contraprova da analise
ritico, Keller, diz que Homero captou ess:
‘mais profunda e mais permanente da dade, Para Freud,
mas essa esséncia ndo € de natureza
“A esséncia profunda e eterna do homem
simples *
do segundo exemplo de sonh
exposicao ipo rei, de S6fock
radigmatico que nos oferece quase sem disfarce
revelador desta “essét -
al antes: "A Antigilidade nos
um tema legendario cujo
86 pode ser compreendido se
da nos comovemos com a tragédia d
» contraste entre o destino © a
do mat
porque ele teria podido ser © nosso, porque no nosso nasci-
mento © oriculo pronunciou contra nés a mesm
imeiro édio. Nossos sonhos 0 te
Edipo, que mata seu pai e casi-se com sua mai
desejos da nossa infiincia",
© final do texto fecha 0 circulo: ele comecara por um test
que é
etior da pega a chave para a tagédia de
, em altima andilise, © que permite interpretar a tragédia1 pelo proprio text
consola Edipo, a quem 0 oracul
um sonho que quase todos os homens
nao pode ter qualquer significagai
*Muitas pessoas, em seus sonhos, parti
Segue-se uma segunda contraprov:
ee
0 se comporta, por assim dizer, c
como um neurético histérico. Tau
Epocas e que progresso secul
iva da humanidade, Em
jos subjacentes na crianga sdo expos
Hamlet, elas permanecem recaleadas
, como acontece com
luc eles desencadeiam’.
erpretagdo dos so
de modelos de compreensio
‘O FASCINIO PELA ArerE a
para estahelecer a significagao de
m outro elemento. A ambigilidade dos diferentes elemen-
afinal de contas, a servira [AINFANCIA DA ANTE
ico € que as indeterminagdes, que quiscram usar como
Argumento contra 0 cariiter concludente de nossas interpretagd-
es de sonhos, so normalmente inerentes a todos esses sistemas
de expressio pri
A obra de arte & it
areaica. Gomo 0 sonho, ela nao fala e seu objetivo tltimo nao &
4 comunicacto, Como ele, em certa medica, ela busca dissimu-
seu sentido. Mas, como a eserita, ela deve petmanecer com-
preensivel, embora a natureza do material que usa deva forgil
a inventar um sistema de expressividade proprio, produzindo a
significincia dos seus significantes.
‘0 sonho niio tem nenhum meio para representar as re
des légicas entre os pensamentos que o compdem (...) Esse
defeito de expressio esti ligado a natureza da matéria psiquica
de que o sonho dispoe. As artes plisticas, pintura ¢ escu
comparadas poesia que, ela, pode encon-
impossi
cessas duas artes, em seu esforgo para exprim
Antigamente, quando a
‘este handicapr o pintor colocava diante da boca dos individuos
que ele representava umas bandeirolas nas quais € s
Palavras que niio conseguia fazer compreender”.!*
Esse texto permite compreender melhor o que Freud enten-
de por “expressividade” da arte no Moisés de Michelangelo
por que é impossivel separara “forma” do “fundo”. Se com esses
termos Freud ainda parece prisioneiro da logica da repre-
sentago, de fato ele nfo 0 € mais: a arte, como o sonho da qual
ela € © paradigma, se rege por processos dotados de uma
expressividade propria, engendrando um texto especifico que
nilo é a tradugdo de um texto preexistente; no sonho como na
ico texto, que desvela seu sentido em
nho, a expres-
da censura, mas
da arte, como o do sonho, “representa” muito mais no sentido
de Darstellung do que de Vorstellung, isto 6, muito mais no
‘OFASCINIO PELA ARTE “8
sentido de uma figuragao do que de uma representaco referen-
te a uma presenga © a um significado externos. Entretanto,
mesmo regendo-se por
€ a ate no silo menos dependentes d:
neles nem da que os censura. 86 que, e1
de representagio, mas de conflitos de forcas que se encontram
' pelo texto da arte assim como pelo do sonho.
sim que, no sonho como na arte, as relagdes logicas se
m por meio de procedimentos figurativos especificos.
variagao na figuracdo transforma o sentido das 1
Goes estabelecida mesma forma como a pintura acabou
encontrando o meio de exprimir (Zum Ausdruck zu bringen)
que nao fosse com bandeir intengdes dos personagens
que representava © sonho
consegue extrair algui
. 262).
m todo © seu capitulo sobre o trabalho
Particular no subtitulo consagrado ao trabalho de
Freud sempre tome a pintura ou a escultura
se declara simples profano ¢ atribui
estetas de profissio 0 conhecimento formal
\G40 de seu valor estético! £ assim que,
Se associam a0 contetido rep:
Psiquica, Freud compara as fontes
Daratos, dos quais uma pessoa pode se s
quanto um material. precioso t
Quando u
indicagdes para seu uso.
com uma pedra rara, seu
Cor, suas manchas determinam a figuracdo, en-
simples © abundante ele pode
mente representadlo,
2. ssrutira gral do sono com freqignelacomparada a
uma omodern
ea arte como tradugbes dk
nova estrutura que tem suas proj
0 escttor politico, -O que de melhor vocé sabe no pode ser
ssses meninos", diz Goethe. A deformagao da expr
varia conforme a suscetibilidade da censura: deveriam ser evi-
im a importincia dos personagens por
‘Os reis cram figurados duas ou tes vez
S que as pessoas da corte ou que os inimigos vencidos
ferior diante de seu superior recorda esse antigo
jento de figuracao”.2*
‘A figuracio de imagens compostas,
yento que parece extraordinirio
Apesar disso, “ele encontra seu equivalentelos uns dos outros. Entretanto, 0 pro-
o de claboragio tem a particu-
1r, nessa
se sirva do proced
mento de fusio ou de c
n geral, em levar
contriirio, se esforga em cond
indo, como se faz com uma ch
sentidos na qual possam se encontrar as du:
mo no do sonho,
€ 0 mesmo, mi intengio que preside a sua
formagao. As criagdes fantisticas da vigilia so determina
destinam a causar, as imagens com
permanece exterior
sua forma: aquilo que ha de comum no pensamento do sonho.
Apesar disso, 0 sonho nao negligencia as caracteristicas me-
ramente formais da figuragto: € nisso o paradigma da obra de
arte cabe ainda melhor do que nos outros casos
é que Freud se interroga sobre a expressividade de
set rengas de intensi-
wens, as diferencas de nitidez das diferen-
artes do sonho ou de sonhos inteiros comparados uns com
utros remetem a diferencas no trabalho de condensacio e,
portanto, a diferenas de investimento nas diferentes repre~
sentagdes.
‘A obscuridade do sonho era um pedago do material que o
provocara. Uma parte deste contedido havia sido representad
sob a forma do sonho. A forma do sonho ou a forma pela qu
eleéso éempregada com uma frequéncia espantosa para
representar (Darstellung) seu contetdo oculto (verdeckren)"?
A expresso de um pe 10 do sonho pode até
bre as possibilidades de expressiio de um outro pensa-
mento, comandar a escolha de uma expressio em lugar de uma
ocasidio sobre as pos
nckando-os © oper
. Os melhores poemas sio aqueles
busca da rima, mas ond
io se percebe
Depois de Freud, Saussure € Jakobson também indicardo
que todo texto postico é comandado por um pretexto que 0
a (que € feita de palavra) nao
ras precedentes, e que elas ndo sao escothidas diretamen-
te pela consciéncia formadora, Sendo a pergunt
imediatamente por tris do v
a palavra indutora,
ponto de anular © papel da su
entretanto, que esta 86 pode produrir seu textc
i
is de Saussure.
na arte, a consideragio da figurabilidade € fundamen-
representadas por meio de
: *Exatamente como 0 pintor que ret
i$ ou em um Parnaso todos os fil6sofos ou todos
embora eles nunca tenham estado juntos nessas
condigdes: elas formam, pelo pensamento, uma comunidade
desta espécie”.%
De uma maneira geral, o sonho repete em seus procedimen-
tos de figuragao os modos do pensamento arcaico. [assim que,representando a freqiiéncia pela acumulagi0,0 sonho
lavra a sua concepedo primitiva. O terme
Jes temporais em rekicdes
bem como 0 emprego de
ares, a0 fol-
sonho transforma, assim, as rel
.81 Este modo de pensar,
as representagdes coletivas po}
10 mito, as lendas, aos ditados, aos proves
dilhos correntes, permitem qualificar tanto a escrita do sonho
‘em que ela desempenhou © papel
por seus leitores do que uma escrita
requer ser decifrada, mas oferece a este trabalho 0 ob
Ora, ¢ € este o quinto ponto da compa
através do mesmo contraste que se
métodos da pintura e da escultura, conforme os di
nardo da Vinci: “per via di porré’ e “per via di levare’S®
resistencia 2 interpretagaio dos sonhos encontra seu modelo cle
ller compara o artista a quem sonha: “Parece-me
igencia impoe a
tudo se passa como se o artista tivesse retirado
vigia as por idéias se precipitam todas junt:
LU encany rea aneh »
inciastes cedo dem:
por culpa da vossa esteri
Assim, seja para a fonte do sonho, para sua estrutura geral e
nterpretagio, o modelo
d € sempre a arte. Modelo ar
se juntam na arte os processos secundirios; a arte
a comunicavel a escrita narcisica do sonho.
1, A arte, como 0 sonho, tem procedimentos de expresso
prios ¢ é fundamental levar em consideragao a figurabilida-
le; ambos sio intraduziveis para a linguagem da raza0. Cada
tem sua propria lingua de sonho, e mesmo cada sonha-
6pri assim como cada artista tem seu
). Mas 08 pensamentos inconscientes niio so tra-
idos nem mesmo transcritos em linguagem cle sonho ou em
igem da arte: no existe um texto prelimin:
texto.35 O texto do contetido latente
obra, detalhes que parecem insignificantes e inexpressi
ie a deformagio do texto implica a presenca de
origindrio transformado, e sim de sentido
que, como tal, é exigéncia de substituto ¢ de “suple:
le", Esta € origindria se faz repeticlo € na
arte, secundarios‘cm um outro texto é querer fazer a economia da economia, A
cscrita psiquica é um Gnico sistema energético. O sonho econo-
miza a palavra, que el
ndo se pode transformar a escrita em palavra.36
2. 0 sonho como a arte é um enigma figurativo, As analogias
estabelecidas por Freud entre o sonho e a arte, longe de convi
43, Mas se a arte é, por sua vez, um enigma, € que os processos
primarios devem estar na obra ndo s6 de uma maneira dl
eles perderi
conhece ou
doneurético, que é comandado pore
‘0s comanda. O paradigma repetido da obra de arte na Traum-
deutung convida a passar ao segundo momento: analisar a ol
de arte para nela descobrir os processos semethantes aos que
‘em seu ensaio sobre a Gradiva de Jensen
que se opera mais claramente a conversio: a obra de arte, de
modelo te6rico, torna-se por sua vez, objeto de investigacio,
AGRADIVA
O comhecimento endopsiquico do poeta
Nesse texto, Freud manifesta uma admiragao declarada pelos
escritores e poetas que, sem empregar qualquer esforco, pos-
suiem um conhecimento mais acertado dos processos psiquicos,
mérbidos ou normais, do que a psiquiatria e a psicologia
cionais. Mas aos poucos o objetivo polemico da obra se revela:
© romance serve de suporte a psicanilise para impor ao grande
piiblico © a psiquiatria sua nova visio a respeito do psiquismo.
Ao mesmo tempo, Freud se espanta com este “saber” das r0-
maneistas; sua interrogagao o conduz ao segundo momento da
cia entre estes © 0s
E assim que Freud
conduta dos hetéis, como faria com os.
isa do her6i ao proprio autor, do qu:
-xos. A obra engendra aquele que é seu
devem ser compreendidos como du-
© proprio Freud apresenta fre-
© proceso, 0 soterramento de
8.” Na Gradiva, ele*
“Os po
sao aliados preciosos e seu testemunho deve ser muito aprecia-
do, pois eles conhecem entre 0 céu e a terra muitas coisas que
iéncia” (p. 33). A quem objetasse que o ponto de
Vista do autor é sempre subjetivo, Freud responde propondo
acrescentar ao método ge! étodo
Yo, 0 que permitiria, através da com!
renciais, ler o universal
parece muito superior, talvez a Gnica que
se justifique seguir, pois ela nos evita de saida o prejuizo a que
nos expde a concepcio unicista da arte ce um poeta. Este ponto
de vista unilateral desaparece quando nossas pesquisas se es-
tendem a um conjunto de indlividualidades poétieas, eada uma
diferente da outra, may que devem se ombrear com os 1
profundos conhecedores , que estamos acostu-
mados a honrar nos poetas” (p. 34).
Mais adiante, Freud reconhece a superioridade do conheci-
mento dos pintores sobre o da ciéncia; uma gravura de Félicien
Rops sugere methor que qualquer explicag.io racional o proces-
so de recaleamento: “O artista figurou 0 caso tipico do recalque
‘nos santos € nos penitentes. Um monge asceta fugiu sem dtivida
nenhuma das tentagdes do mundo ao pé da cruz que carrega 0
Salvador. Bis que a cruz se desfaz como uma sombra ¢ que em
seu lugar, como se fosse seu intérprete, se ergue radiosa a
rem de uma mulher magnifica € nua, na mesma pose da
crucificagao. Outros pintores, com sentido psicolégico menos
agudlo, em tais figuracdes da tentagao representaram 0 pecado
numa atitude de desafio para com a cruz (...) Rops parece ter
sabido que 0 recalcamento, em seus meandros, emerge da
stdncia recalcante” (pp. 60-61).
Depois, ele alca a “fantasia” de Jensen a dignidade de um
cestudo psiquistrico: “Nés, leitores, certamente ficamos estupe-
fatos de nos ver lidando com Norbert Hanold ¢ Zoé Bertgang
em todas as expressdes de seus psiquismos, em seus atos €
_gestos, como personagens reais € nilo criagdes posticas, assim
como se 0 espitito do romancista fosse um meio absolutamente
205 raios do real e sob nenhum aspecto refratario ou
mais estranha porque
de estudo psiquidtrico” (p. 67)
dois pontos parecem inverossimeis ¢ arbitrtios,
mas 0 conhecimento das fontes do autor permitiria exp!
icas: tudo na obra € explicavel e conforme 3
‘O poeta fez um estudo psiquit
podemos comparar nossa compreen:
P. 69).
Entretanto, Freud parece surpreso com este “saber
espantoso que © po podido compreender aquilo!
Considerar a obra do romancista como um estudo psiqui
la do ponto de vista da verdade, nao seri
‘dade da obra de arte e ser enre
do signo? Nao se deve deixar a ciéncia (a psiquiatria, no
o) a preocupacio de fazer seus proprios estudos? A essas
Freud responde irem uma especifi-
ico perfeitamente correto,
p da vida psiq
bem
beleza, poi
mente como tal: “Na verdade, nenhum verdadeiro poeta
ver obedeceu a esta ordem. A descrigio (Schilderung),
»gica humana € de fato seu dominio proprio. Ele
‘e mesmo
‘© poeta nio cedeu 0 passo ao psiquiatra nem 0 psiquiatra
0 pocta, ¢ 0 tratamento postico de um tema psiquiitrico pode
ser correto sem que a beleza seja perdida”.*t
profundidade no romance de Jensen. A relagio entre os dois
Personagens, Norbert e Zoé, representa em profundidade aque-laexistente entre
ista €a psicanilise. Certo, Norbert
arquedlogo. Mas ele
que ele comeca
artista,
€ entendido de uma
Norbert, como oai
studo da Gradiva de Jensen, podemos tirar um certo
ro de conclusoes:
1, O artista tem um conhecimento superior ao da psicologia
nal € da psiquiatria
que vemos ser preenchida pelo poeta. A ciéncia
inda nao suspeita da importincia do recalcamento, ela no
reconhece que tem necessidade absoluta do inconsciente para
cexplicar 0 universo das manifestacdes psicopatol6gicas. Ela nio
‘0s sintomas como formagdes de compromissos” (p. 79)..
fa confirma os resultados da psican:
abe deples
petaide sama mesigtion de adeatecao-rshesaagcle bee
do artista, Freud acaba por se perguntar (p. 81) como o poeta
podia ter chegado ao mesmo saber que © médico, ou pelo
wenos como podia ter chegado a fazer como se soubesse a3
yesmas coisas; mais do que um saber, trata-se do jogo de um
ud fala desse saber como de um “conhecimento
Mas © que isso quer dizer € qual
verdade de um tal saber? Este conhecimento é o pri
poetas, dos homens 10s, de certos doentes, dos s
exterior, Assim, este conhecimento oscuro “naturalmente nada
surpreendente que o poeta saiba sem saber
‘© que ndo possa situar 0 lugar da verdade de seu discurso. O
conhecimento endopsiquico € um conhecimento na sombra: 0
que se encontra projetado no mundo exterior é o testemunho
do que foi apagado da consciéncia. Na parandia sdo projetadascomo que uma
to, forca que compare
percepedo endopsiquica (4 psicopatologia da vida cotidiana),
dle modo que 0 doente introduz as relagde:
dade exterior por meio da projegio, ¢
que foi omitido no psiquismo"."
© mesmo processo interfere no hi
animist
it a respeito da
concepeio mitolé-
ica do mundo nao é senao “uma psicolo,
do exterior" 45
© supensticioso procede de acordo com 0 mesmo desloca-
mento: "E porque o supersticioso nad sabe da motivagio de
seus préprios atos acidentais e porque esta motivacio proc
se impor a consciéncia que ele & obrigado a destoca
do-a no mundo exterior" 46
Imente, em O poeta e a imaginagao (1908), Freud mos-
ta que o poeta retira seu material do tesouro popular constitul-
do pelos mitos, as lendas ¢ os contos, ¢ que “tudo lev:
que 0s mitos, por exemplo, stio muito provavelmente ves
deformados de fantasmas de desejos comuns a nagoes int
© representam sonhos seculares da jovem humanidade”.
E verdade que, nesse texto, Freud toma como exemplo so-
bretudlo obras sem grande originalidade ¢ autores sem preten-
. Quanto aos outros, podemos dizer que eles proj
suas obras os seus fantasmas individuais, que devem, contudo,
terum fundo de verdade universal para poder interessar o leitor
Seja 0 conhecimento obscuro do paranéico, o do homem pr
tivo na fase animista, 0 do supersticioso e do pot
apesar de
superioridade do poeta sobre os outros ho-
mens € ser mais “introvertido’
das relagdes recaleadas,
0 que Ihe permite ficar a escuta
ja © sentido literal, seja o sentido
lig
que parte de detalhes negligenciados por qualquer outro méto-
seu
tenha sua importincia © que
(p. 95). Que 0 proprio autor ignore
ber. Jensen foi interrogado a
spretacdo dos sonhos
ma negativa e de mau humor: apenas
fera muito prazer com isso.
estudo sobre 24 horas na vida
, este também niio reconhe-
intencdes na interpretacio proposta. Esse desacordo
declaradas do a
que fala “de verdad
+ buscado no exterior, embora nao seja independiente do
mo do escritor, Mas 0 que pode ser 0 psiquismo, ele
PrOprio, sendo um texto, para poder ser “representado” por um
texto? Como se articulam 0 texto da obra ¢ 6 texto
5 0 text
0 estruturar 0s seus fantasmas? Seja como for, Freud,
tanto no seu estuclo sobre Jensen c sobre Stephan
Zu nente nas
expresses do romancista: "Nos deixamos que ele fornecesse 0
texio da Gradiva, ele
mos que o poeta pode perfeitamente ignorar essas
regras € essas intengdes, a ponto de negar de boa-fé ter conhe:
cimento delas-e, entretanto, nada encontramos em sta ol
no esteja vex da mesma fonte, tral
sobre © mesmo objeto, cada um com seus métodos préprios, €
a conformidade dos resultados parece testemunhar que ambos
trabalhamos bastante. Nosso enc:
servagio consciente dos processos psiquicos anormais em al-
‘guém, a fim de poder adivinhar e enunciar as suas leis. O poeta,
decerto, faz. iss0 de outro modo; ele concentra sua atencio no
inconsciente de sua propria alma, aguga o ouvido para todas as
suas virtualidades e Ihes confere expresso artistica, 20 invés de
recalcic-las pela eritica consciente. Ele aprende pelo interior de
simesmo 0 que nés aprendemos pelos outros: quais so as leis
que regem a vida do inconsciente; mas ele nao tem a menor
necessidade de exprimi-las ou de percebé-las claramente; gra
Freud ao
a rompe. Mas convida,
Freud pass
as para uma certa de:
‘modelo paradigmitico confirmador do conhe
o: ela propria se torna objeto de investigagio. O
do que
da mesma maneira que as desenredamos dos casos m
0 poeta € o médico, compreenderam mal
n6s dois 0 compreendemos muito bem’. (P.
‘A proposito de 24 horas na vida de uma mulher, ele opoe
intengbes confessas do artista aquilo que seu texto diz
“De uma maneira declarada, esta pequena
mostrar que uma mulher € um ser irresponsivel e a tal ponto
surpreendendo a si propria conduzida a uma
inesperada, Mas a is clo que isso.
‘uma interpretagao analitica, € porque representa
coisa completamente diferente”. As intengoes declara-
das sio apenas uma fachada dada pelo
nificagio analitica. O texto 6, assim, urn
esconde, que mascara seu sentido: apenas certos detalhes di
mulidos na trama do tecido fornecem 0 fio que permite desco-
brit Caujilecken) o segreclo do texto. “Isso € tio caracteristico
natureza da criagdo artistica que autor, um amigo meu, po
assegurar que a interpretagio que eu the cava era perfeitamente
verdade de seu discurso. Fi
pertencente 4 ideologi
processo printirio. Mais que do
do neurético, do h
ia em seu estudo sobre
sm si algo de infantil. A obra de arte, quedivis6ria. No Apéndice a segunda edicdo da Gradiva (1912),
‘reud escreve: "Nos cinco anos que decorreram desde que
dente daquilo que tem a
idade de produzir um prazer
vida ea
pequena
Jensen, que os sonhos inventados por
veis as mesmas interpretagdes que 0s sonhos re:
que na produgio do poeta estio
A Maneira que Os so%
p.76).
A partir da Gradiva efetwa-
‘de 1969 (retomado em
10 de sedluzit, de proporcionar ao piblico certos efeitos,
de afeto. Quer dizer que a arte se submete ao principio do
as poem as
saginacdes em harmonia com a realidade.
(0 dispor de certas qual
Proprio inconsciente. Mas ha uma circunstinciIhidem, p. 223.
le decifragao ea impos
smo certos sabats de Goya, certas Ressurrelgbes e transfiguragoes de“Constructions en analyse’
261 e sex. A Interpretagao dos sonhos,
237.
feréncta para todo,{que mostra com que exalt
gem em.
1p. 231-232, Em francés, em Cing psychanalyse
ratos')
44, Totem e tabu, E.S.B., XI, ed. bolso alema, p. 103, Cf, também Carta
a Flless 78, de 12 de dezembro de 1897,
45. A Psicopatologia da vida cotidiana, p. 217,
46. tbidem,
47. CE. A Interpretagiio de sonhos, E.8.B,,1V e V, p.99, nota 1 acrescentadks
em 1909.
48. Em Dostoitesht e o parrictdto, BS.B. XX1, GW., XIV, p. 145 e seg
Literary history, volume XN
, Grades au pled deta lettre, PALF, 1983.
51. Beitrage zur Psychologie des Liebeslebens,
‘sicologia do amor! (1910) (inicio), BS.B,
O METODO DE LEITURA DE FREUD
A obra de arte como texto a decifrar
© sonho, paradigma da obra de arte
faz & por assim
sscobrir (anfilec bruta (Rofistoff) que