(2020) O Manto de Penélope e A Teia de Aracne - Ideação
(2020) O Manto de Penélope e A Teia de Aracne - Ideação
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Doutoranda em Filosofia pela Universidade Federal de Goiás (UFG). E-mail: [email protected].
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Revista Ideação, N. 42, Julho/Dezembro 2020
A TÍTULO
metáfora
DO esquecida
ARTIGO
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A epígrafe é emprestada da literatura brasileira, são versos do poema intitulado 16 de junho, publicado pela poeta
no seu livro Cenas de abril, em 1979 (CESAR, 2013, p. 32).
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Texto de 1873, ditado pelo jovem Nietzsche ao seu amigo Carl von Gersdorff, publicado apenas postumamente.
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para outra. Depois de descrever esse processo de constituição das palavras, Nietzsche
desenvolve, em particular, a formação dos conceitos:
TÍTULO DO ARTIGO
TÍTULO DO ARTIGO Toda palavra torna-se logo conceito justamente quando não deve servir, como
recordação, para a vivência primitiva, completamente individualizada e única, à qual
deve seu surgimento, mas ao mesmo tempo tem de convir a um sem-número de casos,
mais ou menos semelhantes, isto é, tomados rigorosamente, nunca iguais, portanto, a
casos claramente desiguais (NIETZSCHE, 2009, p. 534).
Pode-se dizer que o conceito, ele próprio produto da atividade metafórica, desempenha
um papel privilegiado no esquecimento da metáfora, na medida em que esconde o
caráter metafórico do processo de generalização, fundando-o numa generalidade
TÍTULO DO ARTIGO essencial [...] Então, é no nível do conceito que a atividade metafórica, porque mais
oculta, torna-se mais perigosa: graças ao conceito, o homem organiza todo o universo
TÍTULO DO ARTIGO em rubricas lógicas bem ordenadas, sem saber que está, assim, continuando a atividade
metafórica mais arcaica. De fato, o conceito não é uma ideia a priori nem um modelo,
como pretende ser (KOFMAN, 1972, p. 55, tradução nossa).
4
A tradução, como é comum à nossa tradição, utiliza o referente “homem” para designar a humanidade. Optamos,
ao longo do nosso texto, por reproduzir esse uso com o acréscimo das aspas, para indicar essa conotação e, também,
para destacar essa marca patriarcal no emprego da nossa língua.
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Esse impulso à formação de metáforas, esse impulso fundamental do homem, que não
se pode deixar de levar em conta nem por um instante, porque com isso o homem
mesmo não seria levado em conta, quando se constrói para ele, a partir de suas
TÍTULO DO ARTIGO criaturas liquefeitas, os conceitos, um novo mundo regular e rígido como uma praça
forte [...] (NIETZSCHE, 2009, p. 538).
TÍTULO DO ARTIGO
Essa passagem parece concluir, com muita força e de forma bastante coadunada, a
construção argumentativa do texto de Nietzsche até aqui. Ela põe em evidência, também, a
relação entre o exercício metafórico e o ato de construir, que estamos querendo destacar.
Todavia, já quase no fim do texto, Nietzsche introduz e começa a desenvolver uma ideia
completamente nova, inesperada (e muito empolgante!): o filósofo passa a indicar a existência
de outros territórios possíveis e outra forma do “homem” se relacionar com os conceitos e com
o edifício filosófico-científico. Leiamos suas próprias palavras:
Ele [o “homem”] procura um novo território para sua atuação e um outro leito de rio,
e o encontra no mito e, em geral, na arte. Constantemente ele embaralha as rubricas e
compartimentos dos conceitos, propondo novas transposições, metáforas,
metonímias, constantemente ele mostra o desejo de dar ao mundo de que dispõe o
homem acordado uma forma tão cromaticamente irregular, inconsequentemente
incoerente, estimulante e eternamente nova como a do mundo do sonho. É verdade
que somente pela teia rígida e regular do conceito o homem acordado tem certeza
clara de estar acordado, e justamente por isso chega às vezes à crença de que sonha,
se alguma vez aquela teia conceitual é rasgada pela arte (NIETZSCHE, 2009, p. 538).5
Destacamos nesse belíssimo trecho as referências à teia, uma vez que tal uso não só
confirma a relevância da imagem da aranha, algo que já começamos a explorar, mas
principalmente porque se coaduna com a ideia que é, como veremos, o cerne desse ensaio: a
relação metafórica e etimológica entre texto e tecido. Seguindo por essa constelação metafórica
aventada pelo filósofo, poderíamos dizer, então, que o “homem” é, ao mesmo tempo, a aranha-
construtora dessas teias conceituais e, também, a presa que pode acabar capturada, caindo,
assim, na sua própria armadilha. Isto é, o “homem” corre o risco constante de acabar
aprisionado pela rigidez e regularidade das teias que “ele” mesmo constrói: há o perigo
permanente de acabar imóvel e enredado à textura impregnante de suas próprias verdades.
Porém, Nietzsche afirma que essa teia pode ser rasgada pela arte. A arte aparece aqui enquanto
força criadora e potência para a invenção de novos possíveis. Para isso, é preciso que o
“homem” tenha uma postura subversiva para com a ordem estabelecida dos conceitos. Segundo
o filósofo,
5
Os grifos em itálico são do original e os grifos sublinhados são nossos.
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tornou livre somente um andaime e um joguete para seus mais audazes artifícios: e
quando ele o desmantela, entrecruza, recompõe ironicamente, emparelhando o mais
alheio e separando o mais próximo, ele revela que não precisa daquela tábua de
TÍTULO DO ARTIGO salvação da indigência [...] (NIETZSCHE, 2009, p. 539).
TÍTULO DO ARTIGO
Para Nietzsche, o “homem” deve, portanto, ser capaz de deformar os conceitos
enrijecidos na linguagem para, assim, poder construir arranjos novos e inéditos que forcem os
limites conceituais estabelecidos e dar vazão a novas alternativas e possibilidades. Ao virar e
revirar os conceitos, volta a florescer na linguagem aquilo que ela tem de mais próprio: a força
criadora da metáfora que foi esquecida e apagada na constituição desses conceitos. Desse modo,
a linguagem é desdobrada e abre-se para a possibilidade de que as metáforas voltem a funcionar
como andaimes para novas construções. Ao transformar as construções linguísticas, conceitos
e verdades em monumentos para serem reverenciados e conservados, o “homem” perde de vista
aquilo que a linguagem pode e deve ser: um permanente canteiro de obras6.
Depois desse percurso que fizemos por Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral,
podemos afirmá-lo como sendo um texto profundamente marcado por uma engenhosa
construção metafórica. Esse comentário, porém, ainda é demasiadamente difuso. Isto porque a
presença constante de metáforas é uma das características mais sobressalentes, não só desse
texto, mas de todo o conjunto de textos que compõem a obra de Nietzsche. O uso de metáforas
é amplamente conhecido como uma das marcas distintivas do estilo de escrita do filósofo. Nesse
texto, porém, podemos perceber, de forma mais evidente, que Nietzsche não utiliza a metáfora
como um mero recurso estilístico ou retórico, ou seja, como uma espécie de adereço ou enfeite
das suas ideias: o próprio pensamento nietzschiano se constitui metaforicamente e assim se
reconhece. Isso é confirmado não somente pelo conteúdo da sua argumentação, isto é, por
aquilo que seu texto diz, nesse caso, a defesa da metáfora enquanto gênese da linguagem, mas,
principalmente, por seu texto fazer ou mostrar aquilo que está dizendo. Nesse sentido, todo
texto é erigido a partir da força construtora da metáfora, pela potência teórica e criadora do
exercício metafórico inerente à linguagem. Ao comentar esse aspecto do texto de Nietzsche,
Maria Cristina Ferraz escreve que
[…] o sentido etimológico [o de “texto” como texere: tecer, entrançar, entrelaçar], ele
mesmo metafórico, será também realizado no entrelace de metáforas que irão dar
sustentação à delicada arquitetura desse ensaio. A aposta na metáfora se confunde,
portanto, com a construção do texto e com a intensificação do que se guardou (e se
esqueceu) na própria palavra “texto”. As metáforas utilizadas nomeiam diversas
6
Essa nossa afirmação é inspirada pela frase de Georges Canguilhem (1991, p. 110) “[...] philosophie qui n’est
pas un temple, mais un chantier” e também por um aforismo de Walter Benjamin (2000, pp. 18-19) intitulado,
justamente, Canteiro de obra.
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construções possíveis, relacionadas por Nietzsche às forças que lhe dão sustentação
(FERRAZ, 2002, p. 38).
TÍTULO DO ARTIGO
Gostaríamos, então, nas pegadas das possibilidades abertas por Nietzsche, de
TÍTULO DO ARTIGO
desenterrar uma dessas metáforas esquecidas da linguagem: explorar essa relação etimológica
originária entre texto e tecido. Ora, todas as atividades associadas à tecelagem e à costura foram,
histórica e culturalmente, relegadas às mulheres e relacionadas ao universo feminino.
Suspeitamos, e é este o sentido da presente investigação, que esse esquecimento esconda
também uma relação entre a escrita e o feminino que foi apagada e suplantada ao longo da
história. Essa investigação percorrerá o seguinte trajeto: partindo do pensamento de Nietzsche,
como fizemos nesse primeiro excurso, seguiremos, agora, por um desvio de resgate metafórico
pela mitologia grega e desembocaremos, por fim, na noção de écriture féminine, concebida pelo
feminismo francês da década de 70.
Como nos esforçaremos para mostrar ao longo desse ensaio, há um vínculo profundo
entre o ato de tecer e a expressão feminina. Essa conexão entre as mulheres e a escrita foi
soterrada pelos escombros patriarcais da nossa história oficial. Quando escavamos no
esquecimento a metáfora originária do texto como tecido trazemos à tona todas as
possibilidades latentes de uma história das mulheres que foi silenciada, que não nos foi contada.
Como escreve Kathryn Kruger:
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Versos do poema Memória do livro Exercícios, publicado pela poeta brasileira em 1967 (HILST, 2002, p. 84).
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Tentar recuperar um pouco dessa história é a tarefa que nos impomos agora, nesse
TÍTULO DO ARTIGO
excurso desviante, por meio do resgate interpretativo de personagens femininas tecelãs,
TÍTULO DOnaARTIGO
enraizadas mitologia grega e no imaginário ocidental, em especial através das figuras
mitológicas Aracne e Filomela e da personagem Penélope, da Odisseia de Homero. Escolhemos
esse caminho de resgate através de referências mitológicas porque, como bem resume Werner
Jaeger (2013, p. 288), “o mito conserva sua importância como fonte inesgotável de criação
poética”. Poderíamos dizer, lembrando das observações de Nietzsche sobre a metáfora, que a
mitologia, enquanto fonte matriarcal da criação literária e poética, guarda em si aquele
esquecido arsenal metafórico da linguagem. Comecemos, então, com o mito de Aracne.
A história de Aracne foi posta no papel, pela primeira vez, pelo poeta romano Ovídio e,
ao longo da história da literatura ocidental, essa personagem reaparece e sua saga é retomada
em incontáveis obras8. Como não poderia ser diferente, em se tratando de um mito que tem suas
origens no solo fértil da tradição oral grega, existem inúmeras versões e variações dos
elementos da história. De forma geral, porém, o mito narra o seguinte: conta-se que Aracne era
uma jovem tecelã extremamente habilidosa e a fama de seus belíssimos bordados cresceu ao
ponto de despertar a curiosidade e a inveja da deusa Atena, patrona da arte da tecelagem.
Acontece que Aracne não acreditava que sua exímia aptidão fosse derivada de nenhum
ensinamento divino; creditava tal habilidade unicamente a si mesma e ao seu próprio talento.
Tal impertinência é considerada uma afronta por Atena, que vai até a tecelã questioná-la sobre
sua postura ofensiva para com os deuses e cobrar modéstia da mortal. Nesse encontro, porém,
Aracne tem a ousadia de desafiar a deusa e propõe uma competição entre elas. Atena aceita e,
em seu bordado, expõe os deuses do Olimpo em toda sua majestade, e, para dar uma lição na
rebelde, ilustra também cenas de cruéis castigos infligidos pelos deuses aos mortais que
ousaram desafiar a autoridade divina. Aracne, por sua vez, borda desenhos dos deuses em cenas
nada gloriosas, ilustra as vezes em que a paixão dos deuses por mortais havia provocado
situações desonrosas e infames. Além da zombaria, o bordado de Aracne era perfeito; a deusa
não pôde encontrar um defeito que fosse no trabalho da tecelã. Atena, então, enfurecida, rasga
o bordado de Aracne e a machuca com sua agulha. Aracne, apavorada, tenta enforcar-se, porém
a deusa não a deixa morrer, a mantém suspensa no fio e a transforma em aranha, obrigando-a,
assim, a tecer pela eternidade.9
8
A mais antiga aparição é no livro VI da obra As metamorfoses (OVÍDIO, 1983. pp. 104-107) e a reaparição
literária mais expressiva é na Divina Comédia de Dante Alighieri.
9
Para tal relato nos baseamos na obra de Ovídio (1983) e no Dicionário mítico-etimológico de Brandão (1991).
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Esse mito põe em evidência o vínculo existente entre os atos de tecer e criar. Ao
lembrarmos de referências mitológicas à tecelagem, a primeira imagem que nos vem à mente
TÍTULO DO ARTIGO
é, possivelmente, a das Moiras, as deusas encarregadas de tecer os destinos humanos. Todavia,
TÍTULO DO ARTIGO
talvez o mito de Aracne seja uma referência ainda mais interessante para pensarmos a
complexidade metafórica inerente à tecelagem. Isto porque a simbologia do ato de tecer não se
restringe somente ao sentido de predestinação, como no caso do mito das deusas fiandeiras.
Como explicitam Chevalier e Gheerbrant, o ato de tecer não significa somente predestinar, mas
especialmente a capacidade de criar, isto é, através da união de elementos diversos, os fios, criar
algo novo, novas formas: “O trabalho de tecelagem é um trabalho de criação, um parto. Quando
o tecido está pronto, o tecelão corta os fios que o prendem ao tear e, ao fazê-lo, pronuncia a
fórmula de benção que diz a parteira ao cortar o cordão umbilical do recém-nascido”
(CHEVALIER; GHEERBRANT, 2003, p. 872). Essa associação entre a tecelagem e o parto,
enquanto formas por excelência de atos de criação, torna-se ainda mais reveladora se levarmos
em consideração que a arte da tecelagem foi tradicionalmente uma atividade reservada
exclusivamente às mulheres. Há, portanto, um poderoso complexo simbólico que une a
tecelagem, a criação e o feminino.
A história de Aracne expõe, de modo exemplar, as origens mitológicas de uma metáfora
que habita o nosso imaginário ocidental: a tecedura como figuração da criação artística,
especialmente, da criação literária. Escrever é, literal e metaforicamente, a atividade de tecer
um texto, ou seja, produzir um tecido textual. A conexão metafórica entre o ato de tecer têxteis
e tecer textos é tão emaranhada que se torna impossível separá-los ou discernir com precisão
quais são os sentidos originais e quais são as derivações. Lembremos do vínculo etimológico
que une as palavras “texto” e “tecido”. Do latim textus, a palavra texto é derivada do verbo
texere, que é o ato de tecer ou entrelaçar, isto é, produzir um tecido pela justaposição de fios. E
essa não é uma característica presente apenas nas línguas derivadas do tronco latino. Essa
conexão aparece em muitas línguas, em inglês, por exemplo, o verbo “weave” define não apenas
o ato de produzir tecidos, mas, igualmente, qualquer ato criativo. Ann Bergren comenta, de
forma muito interessante, esse emaranhado metafórico:
Os gregos herdam da cultura indo-europeia uma metáfora pela qual poetas e profetas
definem-se como “tecelões” ou “costureiros” de palavras. Isto é, eles descrevem sua
atividade em termos do que é, original e literalmente, um trabalho de mulher por
excelência. Eles chamam seu produto, na verdade, de “teia metafórica”. Mas qual é,
então, o original e qual é o processo metafórico? A tecelagem é um discurso figurativo
ou a poesia é uma teia figurativa? A questão não pode ser decidida. A tecelagem como
atividade de produção de signos das mulheres é tanto literal quanto metafórica,
original e derivada (BERGREN, 1983, p. 72, tradução nossa).
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10
Na obra História dos Animais, Livro VIII (IX). No item A inteligência das aranhas, à guisa de exemplo, em
623a, lê-se: “É a fêmea que se encarrega de tecer e de caçar; o macho apenas toma parte no festim”
(ARISTÓTELES, 2008, p. 175).
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e comunicação das mulheres. As mulheres, nas sociedades antigas, teciam em conjunto para
que pudessem produzir de forma mais eficiente, assim, formavam espaços de grupos de
TÍTULO DO ARTIGO
mulheres que serviam como locais de troca e apoio entre elas. Os lugares onde as mulheres
TÍTULO DO ARTIGO
teciam eram, nesse sentido, locais de fala de mulheres e entre mulheres. É importante ressaltar,
também, que as mulheres cantavam e narravam histórias enquanto teciam. Já que as crianças
(os meninos até completarem uma certa idade) permaneciam nesses locais com suas mães, eles
funcionavam, igualmente, como espaços fundamentais de transmissão da tradição e cultura.
Sobre esse aspecto da tecelagem Françoise Frontisi-Ducroux escreve:
11
A versão do mito que possui mais notoriedade é narrada por Ovídio (1983. pp. 113-117) no livro VI de As
metamorfoses, mesmo livro em que Aracne aparece. Todavia, segundo apontam alguns estudos, o registro escrito
mais antigo se encontraria na Odisseia de Homero, pela boca de Penélope, numa versão da história bem diferente
daquela que ficará conhecida através de Ovídio. A personagem Filomela aparece, também, em obras de Sófocles
e Aristófanes.
12
Resumimos aqui o mito com base no dicionário de Brandão (1991).
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13
A palavra grega métis possui um campo semântico complexo. Detienne e Vernant, na obra que dedicam
exclusivamente ao estudo do seu significado no pensamento grego, a descrevem como “um jogo das práticas
sociais e intelectuais” (2008, p. 11) e a definem como “uma potência de astúcia e engano” (2008, p. 29).
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astuciosamente o único meio que dispõe, a tecelagem, para tramar uma enganação e poder
comandar o seu próprio destino.
TÍTULO DO ARTIGO
A tecelagem é a forma de ação de Penélope e o modo como a personagem atua na trama
TÍTULO DO ARTIGO
da Odisseia. Na verdade, poderíamos até mesmo dizer que a própria trama da Odisseia é tecida
por Penélope, na medida em que o enredo depende literalmente da sua tecelagem: é a sua
façanha de destecer que mantém o enredo da epopeia aberto. É por essa razão que alguns
estudiosos, como Vernant e Detienne (2008), apontam o ardil do destecer, secreto e noturno, de
Penélope como o maior exemplo da métis de seres não divinos representados na Odisseia.
Assim, Penélope seria a personagem mais astuciosa da Odisseia, sua métis seria inclusive
superior à de Ulisses, uma vez que é a sua ação que oferece à narrativa o tempo necessário para
o desenrolar da epopeia. A trama de Penélope, portanto, tem duplo sentido: como confecção do
enredo e como ardil, tramoia. Essa duplicidade semântica que liga a tecelagem à artimanha, isto
é, tramar no sentido de enganar, já está presente no próprio texto homérico. Como aponta Lilian
Sais:
retorne ao seu estado inicial de fio e esteja pronto, novamente, para ser retrabalhado. Por meio
de um resgate etimológico, a estudiosa traz à tona o destecer penelopiano como a primeira
TÍTULO DO ARTIGO
metáfora para o procedimento analítico e desenterra, assim, Penélope como a percursora da
TÍTULO DO ARTIGO
imagem da reflexão filosófica:
A mulher escrita
Depois desse excurso pela mitologia grega, chegamos finalmente ao terceiro e último
movimento do nosso texto. Desembocaremos agora na teoria feminista, almejando colocá-la
em perspectiva com a filosofia nietzschiana, isto é, na contraluz de alguns temas presentes no
pensamento do filósofo. Do pensamento nietzschiano, além de trazermos de volta as questões
relacionadas à linguagem, aquelas exploradas no nosso primeiro excurso, tocaremos também
em temas como o corpo e a crítica à igualdade e à masculinização da mulher. Não pretendemos,
de forma nenhuma, dar conta da totalidade dessas questões complexas (e polêmicas!) no seu
pensamento ou fixar e repetir o modo com que elas foram desenvolvidas pelo filósofo: o que
nos interessa é investigar o modo como o pensamento nietzschiano (e as brechas abertas por
ele) foi desdobrado e reelaborado por uma corrente do feminismo da década de 1970,
caracterizado por elaborações em torno do tema da diferença sexual. Não queremos uma mera
conservação imóvel do legado de Nietzsche: gostaríamos de, desapegados e esquecidos dele
próprio, abrir os ouvidos para os ecos oriundos da sua filosofia, principalmente na elaboração
da noção de écriture féminine, concebida pelas filósofas Luce Irigaray e Hélène Cixous, que
põe em evidência as múltiplas constelações entre o feminino e a escrita e desenvolve as relações
da linguagem com o corpo e a sexualidade feminina.
14
A tradução do trecho é de Dumith (2012, p. 58).
15
Poema Tato da poeta brasileira Orides Fontela, do livro Transposição, de 1969 (FONTELA, 2006. p. 22).
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O nosso intuito agora será o de mostrar o modo como a defesa de uma escrita feminina,
efetuada por uma importante corrente do feminismo, carrega vestígios do pensamento
TÍTULO DO ARTIGO
nietzschiano. A écriture féminine, traduzida como “escrita feminina” ou “escritura feminina”,
TÍTULO DO ARTIGO
ou ainda “escrita das mulheres”, foi um conceito cunhado pelo pensamento feminista na década
de 70, no interior de uma corrente conhecida como “feminismo francês” (apesar de abranger
pensadoras de outras origens!) ou “feminismo da diferença”. Hélène Cixous, ao lado de Luce
Irigaray e Julia Kristeva, são consideradas as grandes representantes da elaboração e da defesa
dessa noção dentro do feminismo.16 Importante dizer, primeiro, que essas pensadoras não
compõem um conjunto de pensamento homogêneo e que nós não entraremos nas
especificidades de suas teorias. Traremos à tona, em particular, o modo como Cixous e Irigaray
denunciam a urgência de pensar e realizar uma linguagem no feminino. As duas pensadoras
defendem uma escrita feminina na medida em que demonstram a necessidade de abrir, no
interior do espaço discursivo, uma real possibilidade de afirmação da diferença sexual
específica das mulheres. Em Le rire de la Méduse, Cixous declara:
16
Cabe notar que a obra da escritora inglesa Virginia Woolf é tida como embrionária desse conceito: sua produção
literária e, principalmente, seus ensaios sobre feminismo e crítica literária teriam influenciado os estudos
feministas posteriores e culminado na formulação teórica da noção de escrita feminina.
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uma linguagem no feminino, isto é, fundada na alteridade radical da diferença sexual da mulher,
seria um poderoso instrumento de resistência à captura dos corpos femininos.
TÍTULO DO ARTIGO
Sabemos que Nietzsche foi um crítico mordaz ao modo pelo qual a tradição filosófica
TÍTULO DO ARTIGO
desenvolve-se como um discurso de altivez e elevação da razão através da inferiorização e
rebaixamento do corpo. O tema do corpo e todo um complexo de questões relacionadas a ele
possuem, portanto, um lugar bastante relevante no interior do seu pensamento. O filósofo, muito
mais do que uma valorização ou elevação do corpo, ressignifica o seu sentido para a reflexão
filosófica. Podemos dizer que, em Nietzsche, não só o corpo é uma questão filosófica
fundamental, mas também que o corpo mesmo é filosofante. Lembremos que Nietzsche foi o
filósofo que escreveu: “De tudo escrito, amo apenas o que se escreve com o próprio sangue.
Escreve com sangue: e verás que sangue é espírito” (NIETZSCHE, 2002, p. 40). Desse modo,
esse resgate que põe em evidência a relação do corpo com a escrita é o primeiro dos ecos
nietzschianos que podemos ouvir na defesa feminista de uma escrita feminina. E esses ecos se
desdobram. Ao afirmar a retomada dos corpos femininos pela inscrição desses corpos na escrita,
Cixous está, simultaneamente, afirmando a possibilidade de uma linguagem capaz de implodir
o discurso falocêntrico:
É preciso que a mulher escreva (com) o seu corpo, que invente uma língua
inexpugnável que exploda as partições, classes e retóricas, ordenações e códigos, que
submerja, transpasse, que vá além das últimas reservas do discurso [...] Um texto
feminino não pode não ser nada menos que subversivo: quando escrito provoca um
deslocamento, vulcânico, na velha crosta imutável, carregada de investimentos
masculinos, e não há outra maneira; não há espaço para ela, se ela não é um ele. Se
ela é um ela, é para tudo esmagar, quebrar em pedaços os prédios das instituições,
soprar a lei no ar, distorcer a “verdade” pelo riso (CIXOUS, 1975, p. 55/59, tradução
nossa).
Notemos como a força subversiva que Cixous aponta na escrita feminina possui
ressonâncias com as formulações nietzschianas elaboradas no fim de Sobre verdade e mentira
no sentido extra-moral (NIETZSCHE, 2009, p. 538-539), que expomos no começo desse texto.
As afinidades são inúmeras, até mesmo as referências metafóricas são semelhantes, ambos se
valem de metáforas arquitetônicas em suas elaborações. Assim como o filósofo alemão, Cixous
indica a necessidade de uma postura subversiva com relação à ordem estabelecida do discurso,
que seja capaz de revirar por dentro a linguagem, forçando, assim, o rompimento de seus
limites. Ambos denunciam a rigidez e imobilidade do ordenamento lógico-conceitual, o
enrijecimento da linguagem, que neutraliza sua potência de criação de novos possíveis. Luce
Irigaray, por sua vez, igualmente reverbera uma outra parte importante da crítica nietzschiana
à linguagem lógica-conceitual: a igualação do não-igual através da supressão das diferenças
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(NIETZSCHE, 2009, p. 534). A filósofa afirma que “a dominação do logos filosófico decorre,
em grande parte, do seu poder de reduzir todos os outros à economia do Mesmo” (IRIGARAY,
TÍTULO DO ARTIGO
1985, p. 74, tradução nossa) [Grifos no original].
TÍTULO DO ARTIGO
Assim, o pomposo edifício filosófico-científico e seu poderoso maquinal de verdades
está sendo denunciado pelas filósofas feministas nas mesmas pegadas dos caminhos abertos
pelo pensamento nietzschiano. Elas estão, igualmente, elaborando meios e estratégias de
desconstrução. Em Nietzsche essa desconstrução é necessária porque, para o filósofo, a
conservação desse construto enrijecido anula a potência criadora ou artística do “homem”, já
que impede a liberdade de invenção e o livre jogo no interior da linguagem. Cixous e Irigaray
compartilham, em seus pensamentos, a crítica nietzschiana, mas a amplificam ao afirmarem a
necessidade de desconstrução desse logocentrismo da filosofia ocidental a partir da perspectiva
das mulheres: as filósofas denunciam essa lógica como parte integrante de um sistema
falocêntrico que opera e se afirma pela exclusão das mulheres e do feminino. Irigaray diz:
Pensar a partir do homem como um não é ainda pensar [...] a espécie humana não
pode elaborar uma civilização sem se preocupar em representar validamente os dois
sexos que a integram [...] e não é possível neutralizar a diferença homem/mulher em
nome de uma igualdade fictícia (IRIGARAY, 1992, p. 74-75)17.
17
A tradução do trecho é de Magalhães (2006, p. 15).
18
Enquanto Cixous elabora a noção de écriture féminine, Irigaray, por sua vez, cunha e utiliza o conceito parler
femme, isto é, “falar mulher” ou “fala mulher”. Os dois conceitos têm, é claro, suas particularidades, mas partilham
uma ideia e uma base teórica comum: relacionam a diferença sexual feminina ao uso da linguagem e designam a
elaboração de uma linguagem no feminino. É esse contexto comum que estamos trabalhando nesse texto, já que
não é nosso intuito adentrar nas especificidades teóricas de cada uma das pensadoras.
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Em outras palavras, a questão não é elaborar uma nova teoria na qual a mulher pode
ser o sujeito ou o objeto, mas emperrar a própria maquinaria teórica, interromper sua
pretensão de produção da verdade e do sentido de modo excessivamente unívoco. Isso
pressupõe que a mulher não aspira simplesmente se igualar ao conhecimento do
homem. Que elas não pretendem rivalizar com os homens na construção de uma lógica
do feminino que ainda assumiria a onto-teo-lógica como modelo [...] em vez disso,
pretende-se, por meio da repetição-interpretação da maneira em que o feminino se
encontra determinado no discurso – como falta, defeito, ou como imitação e imagem
negativa do sujeito – mostrar que do lado feminino é possível um excesso perturbador
dessa lógica (IRIGARAY, 1985, p. 78, tradução nossa) [Grifos no original].
19
A tradução dos dois trechos é nossa.
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TÍTULO DO ARTIGO Eu tive a sensação de que, em Nietzsche, havia um novo tipo de linguagem filosófica
por causa do trabalho sempre muito denso de escrita que, frequentemente, estava
conectado à linguagem crítica. Isso quer dizer que, através da linguagem, através da
desconstrução da linguagem, um outro poderia ser inventado. De certo modo,
Nietzsche me fez decolar e subir (IRIGARAY, 1981, p. 45, tradução nossa).
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As passagens são de nossa tradução.
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No tear — Contra os poucos que têm prazer em desatar os nós das coisas e desmanchar
sua trama, há muitos (todos os artistas e mulheres, por exemplo) que se empenham
em atá-los e confundi-los de novo, assim transformando o compreendido em
incompreendido e, se possível, em incompreensível. Não importando o que mais
resulte disso — o que foi tramado e atado sempre parecerá um tanto sujo, pois nele
trabalham e atuam muitas mãos (NIETZSCHE, 2007, p. 19).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARISTÓTELES. História dos Animais (Tomo II). Tradução de Maria de Fátima Silva. Lisboa: Imprensa
Nacional/ Casa da Moeda, 2008.
BENJAMIN, Walter. Rua de mão única. In: Obras escolhidas (Volume II). Tradução de Rubens Torres
Filho. São Paulo: Brasiliense, 2000. pp. 9-70.
BERGREN, Ann. Language and the Female in Early Greek Thought. Arethusa, v. 16, 1983, pp. 69-95.
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______. Assim falou Zaratustra: Um livro para todos e para ninguém. Tradução de Paulo Ceśar de
Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
TÍTULOHumano,
______. DO ARTIGO
demasiado humano: Um livro para espíritos livres (Volume II). Tradução de Paulo
César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
TÍTULO DO ARTIGO
OVÍDIO. As metamorfoses. Tradução de David Jardim Júnior. São Paulo: Ediouro, 1983.
PAPADOPOULOU-BELMEHDI, Ioanna. Le chant de Pénélope: Poétique du tissage féminin dans
l’Odyssée. Paris: Belin, 1994.
PRIETO ARCINIEGA, Alberto. La parole féminine dans la Grèce Ancienne. Dialogues d'Histoire
Ancienne, v. 17, n. 1, 1991, pp. 449-452.
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