Os Espaços e A Organização Escolar No Colégio Jesuítica
Os Espaços e A Organização Escolar No Colégio Jesuítica
Resumo
Ao artigo pretende ser um contributo à história das instituições educativas em Portugal, ao analisar os
espaços escolares no Colégio de São Fiel dos jesuítas (1863-1910), de ensino elementar e secundário.
A nossa argumentação, de teor histórico-descritivo e hermenêutico, versa sobre a organização escolar
(os espaços e o tempo escolar) naquele colégio e as suas relações e implicações na vida e no processo
educativo dos alunos colegiais. A análise está dividida em 4 pontos: o ensino jesuítico nos colégios
(características); os espaços escolares no pensamento e ação dos jesuítas; a organização escolar no
Colégio; arquitetura do tempo escolar como categoria estruturante na vida do colégio. Estes pontos
permitem-nos compreender o funcionamento organizacional daquele colégio, convertendo-o num
património histórico-educativo e num lugar de memória socio-histórica.
Palavras-chave: Ensino dos jesuítas. Colégio São Fiel. Espaço educativos. Organização escolar.
História das Instituições Escolares.
Educação em Foco, ano 23, n. 40 - mai./ago. 2020 - p. 207 - 227| e-ISSN-2317-0093 | Belo Horizonte (MG)
THE SPACES AND SCHOOL ORGANIZATION
IN A PORTUGUESE JESUIT COLLEGE
(COLLEGE DE S. FIEL -1863-1910)
Abstract
The article intends to be a contribution to the history of educational institutions in Portugal, by
analyzing the elementary and secondary education school space at the Collegium de São Fiel dos
Jesuits (1863-1910). Our discussion, of historical-descriptive and hermeneutic content, deals with the
school organization (school spaces and time) in that school and its relations and implications in the
life and educational process of high school students. The analysis is divided into 4 points: Jesuit
teaching in schools (characteristics); school spaces in Jesuit thought and action; school organization at
the College; school time architecture as a structuring category in the life of the school. These points
allow us to understand the organizational functioning of that school, converting it into a historical-
educational heritage and a place of socio-historical memory.
Keywords: Jesuit teaching. Collegium São Fiel. Educational space. School organization. History of
School Institutions.
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MARTINS
Introdução
A História das Instituições Educativas (HIE) dedica-se a analisar o que se passa no
interior e na vida (escolar) dos estabelecimentos de ensino (criação, evolução e extensão),
desde a apreensão de elementos educacionais identitários, dos elementos de arquitetura e
dos agentes e atores (professores, alunos, funcionários) às propostas pedagógicas e
curriculares, conferindo descrições de um cenário sociocultural que se manteve e/ou se
transformou ao longo dos tempos. Ora esta forma historiográfica permite estudar a história
da educação, superando a dicotomia de ensino entre o particular/privado, com os seus
respetivos matizes, que perpassam os objetivos de criação e desenvolvimento das
instituições, das interações professores-alunos, da organização escolar, do currículo, das
atividades, da disciplina comportamental e formação para os valores. Neste sentido
histórico-descritivo debruçamo-nos sobre um colégio jesuítico de ensino em Portugal: o
Colégio de São Fiel (1863-1910), no contexto da época.
Entre a conceção de espaço e de lugar ou local há algumas considerações relevantes,
por exemplo, Margarida Felgueiras (1998) considera o local em que a vida institucional
ocorreu, com os materiais, artefactos, móveis e utensílios, os espaços e seus objetos, ou
seja, como um “sítio histórico”, cuja consideração é indispensável para que se possa fazer
interpretações, relatos sobre a história institucional. Outros estudiosos (BURKE, 2005;
ESCOLANO BENITO, 2000 E 2007; DOMÈNECH & VIÑAS, 1997; VIÑAO, 1993-1994
e 2006) incluem como elemento indispensável na composição da HIE a consideração aos
espaços com a base material da educação. A HIE utiliza a dimensão temporal, indagando
sobre o período de tempo abrangido, descrevendo, analisando (historicidade reflexiva) e
compondo narrativas dos vários momentos da existência duma instituição, pois todos os
factos educativos são (socio)históricos. Assim, para Certeau (1996, p. 200) os relatos da
HIE ‘[...] produzem geografias de ações” e organizam caminhos de análise histórica.
Analisaremos os espaços educativos (organização escolar) no Colégio de São Fiel
(administração pelos jesuítas de 1863-1910), instalado na freguesia do Louriçal do Campo,
que pertenceu ao concelho de S. Vicente da Beira (extinto em 1895) e depois ao de Castelo
Branco e que sucedeu ao ´Orfanato/Seminário para Meninos Órfãos’ (1850-1862), criado
por Frei Agostinho de Anunciação (José Bento Ribeiro Gaspar). A evolução do colégio,
desde a sua origem, obedeceu a três períodos distintos: Orfanato até 1852 dando assistência
e educação a meninos órfãos e pobres; de Seminário, que coincide com a Portaria de 1852
de autorização do Ministério de Instrução de abertura do estabelecimento de ensino indo
até 1862, altura em que entram os jesuítas na instituição, ajudando Frei Agostinho; e o de
Colégio de São Fiel que vai de 1863 até ao encerramento em 1910, destacando a data de
1873 da compra ‘oficial’ (escritura) a Frei Agostinho por parte de três religiosos ingleses
(George Lambert, Ignacius Cory Scoles e Henry Foley), residentes em Londres.
De facto, o nosso propósito argumentativo, de teor hermenêutico, versa sobre os
espaços e as suas relações com o processo educativo dos alunos nos colégios dos jesuítas.
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Estes estabelecimentos foram criados no séc. XVI e mantiveram-se até à expulsão pelo
Marquês de Pombal, nos finais do séc. XVIII, regressando os jesuítas no século XIX
criaram colégios e seminários que se mantiveram até à implantação da República, em 1910.
Particularmente incidiremos num desses colégios dos jesuítas: o Colégio de São Fiel, irmão
mais novo do Colégio de Campolide em Lisboa, criado em 1858. Ao longo dos seus 47
anos de existência teve uma enorme procura das famílias, com a intenção de que os seus
filhos recebessem uma boa formação e disciplina adequada, constituindo-se num centro de
cultura no interior do país.
O marco teórico-conceptual proveio da consulta e análise documental: Arquivo da
Cúria Provincial da Companhia de Jesus (Lisboa), facultado pelo seu arquivista; à Revista
Brotéria; às fontes primárias publicadas na época; e fontes secundárias relacionadas com a
temática. Todo o ambiente institucionalizado do colégio, formado por professores, alunos e
funcionários, o meio físico-geográfico envolvente, as normas disciplinares e de ensino, os
hábitos sociais, as atividades, etc. estavam orientados à concretização do processo
educativo dos seus colegiais, na base da Ratio Studiorum. Pretendemos converter esta
análise ao Colégio de S. Fiel em património histórico-educativo e num lugar de memória
social e individual, seja no âmbito da arquitetura e dos seus espaços (interior, exterior) que,
inicialmente foi Seminário (1852-1862) e depois colégio de ensino elementar e secundário
(seguiam mais ou menos o plano curricular da época), seja na análise à sua cultura
educativa, especialmente à organização escolar, à metodologia de ensino e as atividades
curriculares e extracurriculares.
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regras e os mesmos métodos foram generalizados nos diversos países da Europa, dando
certa relevância à organização temporal dos estudos, ao converter-se no código escolar
obrigatório para os jesuítas (MIRANDA, 2011). Neste documento há instruções muito
precisas quanto ao uso do tempo para todos os níveis de ensino, ministrados, destacando a
uniformização das práticas, pois cada classe era anual, tinha o seu professor próprio, com
aulas diárias, de manhã e de tarde em que os alunos se exercitavam na escrita e na
composição, dentro e fora da aula, com uma insistência na redação dos textos que
deveriam ser recitados de cor. Ora o método de ensino seguido, em qualquer das
disciplinas, exigia longa preparação por parte do professor e grande esforço de memória
dos alunos que tinham de saber de cor o que fora estudado na aula anterior
(COMPANHIA DE JESUS, 1996).
Cada colégio jesuíta integrava uma ampla rede escolar, sujeita a um governo central,
dotado de uma hierarquia bem definida, repartindo a autoridade por diversos níveis, que ia
desde o provincial ao professor de cada classe, passando pelo reitor, prefeito geral e os
prefeitos de estudos. Os colegiais usavam um uniforme na vida do internato, que no
Colégio de São Fiel era batina, estola encarnada ou castanho escuro e boné especial, feitos
por alfaiates da instituição ou mandados fazer no exterior. Havia outras vestimentas de gala
para os atos solenes (cerimónias, festejos das congregações), outro para os passeios e
visitas (traje normal) e, ainda para os recreios e estudos (camisas largas).
O prefeito de estudos incumbia-se de anotar em livro próprio, o registo de
identificação do aluno ao entrar no Colégio, para além de tomar nota da data de admissão e,
por fim, colocava o admitido numa classe e com o professor que mais lhe conviesse. O
mesmo cuidado se verifica em relação ao final e início dos anos letivos, em que a promoção
geral e solene entre os graus de ensino fazia-se uma vez por ano, depois das férias anuais.
Os semestres e os anos correspondiam a um percurso escolar pré-determinado, e não a um
conjunto aleatório de matérias e de cursos. Também no que respeita à avaliação, a Ratio
procura fundar práticas específicas, na base do rigor e até de certo sentido de ‘vanguarda’,
com a criação de instrumentos de precisão na avaliação. O professor tinha o dever de
entregar ao prefeito um registo dos alunos (Catalogum Discipulorum) por ordem alfabética
das suas avaliações, mas durante o ano podia revê-lo e atualizá-lo, com particular cuidado,
quando se aproximasse o exame geral. Esse catálogo não era apenas uma lista de nomes,
mas um registo de informação detalhada sobre o aproveitamento de cada aluno, em que
distinguia o maior número possível de graus de aproveitamento: excelentes alunos, bons
alunos, alunos medianos, alunos duvidosos, alunos a reter e por último, alunos a excluir.
Este sistema de classificações desenvolvia um ensino diferenciado, de acordo com as
necessidades individuais dos alunos.
De facto, em todos os colégios existia o mesmo plano de estudos, auxiliado por
um conjunto de manuais e textos de estudo. O currículo de estudos refletia um quadro
epistemológico, impregnado de aristotelismo e de escolástica. Ao enveredar pela via
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escolar a Companhia de Jesus não ignorou o elevado estatuto que a ciência e a filosofia
natural que tinham alcançado a partir do séc. XVI. Opor-se-lhe, teria ido contra todas
as evidências; ignorá-lo teria implicado o nível de exigência intelectual do próprio
ensino e poderia comprometer os discursos teológico e científico. Daí que a intenção
foi proliferar os colégios de ensino, expandindo o seu curriculum de lógica, ciência e
filosofia natural (FRANCA, 1952). De forma prescritiva o Ratio Studiorum não era
essencialmente de teor filosófico e científico, já que convergia mais para os estudos
literários, a retórica e educação para a eloquência. Mesmo impregnada de aristotelismo
e escolasticismo, a Ratio apresentava-se inovadora ao integrar e valorizar o saber
humanístico (filologia, retórica, poesia e pensadores pagãos) e daí o ensino ser
humanístico e filosófico-científico. Nos colégios ensinava-se mais a Gramática, as
Humanidades e a Retórica do que a Filosofia e Teologia (COMPANHIA DE JESUS,
1996). Essa formação humanística ia desde a filosofia e a teologia às línguas, à
literatura, à retórica, à história, ao teatro e à leitura de clássicos pagãos, que
educativamente contribuíam para o primado da palavra falada e escrita, que era um
aspeto prestigiante da formação. Não nos esqueçamos que, para além da existência de
boas bibliotecas, salas de aula e de estudo, gabinetes dos prefeitos, capela, refeitório e
camaratas, os colégios tinham espaços destinados a oficinas de imprensa, laboratórios,
museus, observatórios astronómicos, teatros e salão para representação de espetáculos
e saraus, sala de atos (onde se atribuía em junho os prémios de mérito aos alunos), etc.
Assim vistos, os colégios eram de lugares de ensino, que ultrapassavam a esfera
eclesiástica e alcançavam grande importância cívica e social.
Do primado da palavra decorria toda uma pedagogia específica, que se exprimia
num conjunto de práticas codificadas no Ratio que tinham a sua origem no Modus
Parisienses e até nas escolas jeronimitas dos Irmãos da Vida Comum (FRANCA, 1952). A
originalidade metodológica estava na sua aplicação sistemática, rígida e coerente. Por isso,
em cada colégio, havia a divisão em classes (cada uma com o seu mestre, de acordo com
níveis de aprendizagem), a observância do princípio da ordem e progressão entre as classes,
de acordo com objetivos, com um sistema eficaz de emulação (entre classes, entre
pequenos grupos dentro da mesma classe e entre pares de alunos) e/ou a ordenação das
matérias por graus de dificuldade. Todas estas estratégias de ensino converteram-se em um
cânon de pedagogia. De facto, a Ratio não legislava só sobre a praelectio (lição magistral)
do professor, mas também sobre a variedade de atividades práticas (didática do ensino) a
realizar pelos alunos individualmente em termos de assimilação/retenção do objeto da
lição. Destacamos nessas práticas a ausência de preconceitos contra a memória ou contra a
repetição (MONTEIRO, 1991). Pelo contrário, havia a noção clara de que aprendizagem
constituía um processo individual, que envolvia mais do que o simples intelecto. Após a
praelectio, os exercícios consistiam em repetições orais, composições escritas,
declamações, debates, disputas de perguntas - respostas, concursos de poesia e prosa,
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exposição pública de poesias, e até representações teatrais – ora com a simplicidade dos
meios da sala de aula, ora com a solenidade de atos públicos (MIRANDA, 2011).
Em geral, o dia escolar nos colégios era constituído por 4 horas de lições e 4 horas
de exercícios variados. Isto é elucidativo de que a repartição do tempo era a característica
da conceção global de ensino. Daí que a pedagogia inaciana subjacente dava tanto valor aos
exercícios como às lições (LOPES, 2002). Metodologicamente no exercício de ‘perguntas’
os alunos, frequentemente divididos em dois grupos, faziam perguntas uns aos outros. Este
tipo de exercício de memorização dos textos, das regras de gramática, estudadas na lição
precedente, tomava um aspeto de combate e de jogo. Durante as repetições os alunos
repetiam, efetivamente, a lição de cor. O ensino é essencialmente oral, era necessário que o
aluno retivesse o que foi dito. Para melhor memorizar, era-se obrigado a repetir, esta
conceção pedagógica é coerente: organiza o seu funcionamento, sua repartição do tempo
em função dos objetivos (ROMEIRAS, 2015).
Lembramos que, após a expulsão dos jesuítas pelo Marquês de Pombal nos finais do
séc. XVIII, eles começam a crescer em número no País (prioritariamente estrangeiros) no
séc. seguinte, realizando cerimónias religiosas ou abrindo e administrando instituições de
ensino (ASSUMPÇÃO, 1982), como foi o caso do Colégio de S. Fiel que, pouco a pouco,
deixou de acolher e assistir meninos órfãos/pobres e passou a dedicar-se ao ensino.
A arquitetura dos edifícios e dos espaços do Colégio articulou-se, em certa
medida, com o número crescente de alunos e da pedagogia (inaciana) de ensino, próprias
dos fins da educação jesuítica (FERRÃO, 1910; GANDRA, 1982). De facto, os jesuítas
davam relevância aos edifícios destinados a seminários, colégios ou casas. Nas
Constituições Gerais e Regulamento da Companhia de Jesus apenas e, de forma indireta,
se fala da saúde e da higiene dos edifícios, recomendando-se que os mesmos se
localizassem em lugares sãos, arejados, soleirados e higiénicos. Assim, os projetos de
construção (ou ampliação) desses estabelecimentos eram remetidos ao Padre Geral da
Companhia para que os aprovasse. Esta norma não significava uniformidades nas
soluções arquitetónicas propostas. Ou seja, as diferenças tinham em conta: o predomínio
dos internados (número de alunos), as camaratas (espaço), os refeitórios, as salas de aula
e estudo e o espaço envolvente (localização). Os colégios que tinham no seu plano de
estudos o curso ou disciplinas de ciências incluíam espaços próprios para museus,
gabinetes e laboratórios. Por isso, tendo em conta esta relação arquitetura - ensino, o
Colégio de São Fiel inseriu-se num lugar e espaço próprio, constituindo um dos
elementos fundamentais de atratividade para a ação educativa o enquadramento físico –
espacial (localizado no interior do país, na zona da Serra da Gardunha na região da Beira
Baixa, com condições florestais e de fauna específica), onde se materializava e fluía a
mensagem pedagógica, espargida nos diversos espaços. A educação tinha uma cadência,
um ritmo e uma governação organizacional que se encaixava na grandeza da sua
arquitetura (frontaria e/ou fachada do edifício, varandas e janelas).
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falantes naturais dessas línguas (P. Zimmerman, Barret, Garnier, Lethiec…), as aulas de
alemão eram dadas por um português.
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mesma sala, a fim de se confrontarem (‘disputas’), mostrando cada aluno os seus próprios
conhecimentos, recitando poemas, fazendo discursos ou argumentações fundamentadas. De
vez em quando estas atividades eram públicas, exibindo os seus talentos perante gente
convidada (programa de sessões da Academia Literária e Academia Científica). Cabia ao
professor levar o aluno a exercitar, não tanto a memória, como a imaginação e a razão. Ele
observa, analisa as palavras, ações, o rendimento escolar e disciplinar, compara e critica
hábitos impróprios de estudo, desenvolve o gosto pela pesquisa e investigação, tendo em
vista a formação do critério duma apreciação pessoal.
A adaptação do aluno à organização escolar dos espaços estava estruturada num
plano de progressão, numa complexidade de métodos pedagógicos e disciplinares, em
que o professor era como um “[...] decifrador da matéria/conteúdos”, desenvolvendo o
raciocínio dos alunos, a partir dos compêndios e textos selecionados, de modo a
promover a assimilação e reflexão desses conteúdos curriculares, num esquema fixo de
“[...] decorar, repetir e exigir” (BARROSO, 1995, p. 139). Destacamos no caso da
decuriae (=decúrias, grupos de alunos e/ou grupos associados à sua congregação
religiosa, que se agrupavam voluntariamente para praticarem algum culto espiritual,
retiro ou exercício de devoção), que poderia ser também aplicada fora das classes.
Essas decuriae eram também relacionados com o aspeto de classificação dos alunos,
uma vez que a graduação dos alunos por mérito era muito próxima à graduação
individual. Outra forma de agrupar os alunos no Colégio era a sua integração nas duas
Academias existentes: a Literária e a Científica. Entendia-se por Academia a união de
alunos (distinção relativa ao talento e à piedade, atitude moral), selecionados entre
todos eles, que, sob a presidência de um jesuíta, se congregavam para realizarem
atividades científicas e literárias (ROMEIRAS, 2015). À Academia pertenciam todos
os membros das congregações religiosas do Colégio e os alunos frequentadores das
aulas/disciplinas. As virtudes cristãs, o empenho no estudo e a observância da
disciplina escolar, constituíam as qualidades dos membros da Academia, que serviam
de modelo aos outros alunos (método de emulação).
Paralelamente ao currículo estabelecido e às correspondentes atividades de cada
matéria disciplinar, propostas pelos professores, estes desenvolviam nos alunos outras
atividades de complemento na sua formação, mantendo os princípios da pedagogia
inaciana e da Ratio. Por exemplo, o Colégio pela ação de alguns professores
desenvolveu o ensino musical (canto coral), constituindo um orfeão/coro, uma banda
filarmónica, muito prestigiada nas redondezas, abrilhantando as festividades da
instituição ou em atos e festividades nas povoações limítrofes. Também as artes
dramáticas (expressões), a poesia, o teatro (encenação, representação de peças de teatro
profanas e religiosas, de tragicomédias clássicas, dramas de Marcelino Mesquita, etc.),
as récitas e composições literárias.
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Aniko Husti (1985, p. 119) refere as raízes monásticas do tempo escolar nos
métodos adotados pelos colégios jesuítas:
A grande importância que o Ratio Studiorium concede à organização
temporal dos estudos é a razão que nos conduz a fazer a análise desta
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(inverno) ou às cinco e meia (verão), sob o som de despertar da sineta, seguindo-se meia
hora para a higiene pessoal e arranjo da camarata, o estudo (sala de estudo), o pequeno-
almoço (pão e manteiga abundante, chá açucarado) e o recreio. A partir das nove
iniciavam-se as aulas nas várias matérias curriculares, com recreio e estudo (vigilância do
Prefeito numa espécie de púlpito) até às 12h:30min, terminando com o almoço por volta
das 13 horas. No espaço do refeitório, sob vigilância do prefeito da divisão (havia 5
divisões) os alunos sentavam-se em bancos corridos nas mesas retangulares do refeitório e,
terminada a refeição seguia-se o estudo, as aulas, o recreio, a merenda, o estudo, aulas e
estudo até por volta das 19h:30min momento da leitura religiosa, terço e estudo. O
jantar/ceia realizava-se por volta das oito ou oito e meia (verão), seguindo-se a ida à capela
(meditação) e o recolhimento às camaratas e imposição do silêncio. Nas quintas-feiras à
tarde o recreio integrava atividades desportivas até à leitura religiosa, terço e tempo livre
antes da ceia/jantar.
Aos domingos o tempo no colégio tinha outra distribuição organizativa: levantar,
higiene (pessoal e da camarata), o estudo, a oração e a confissão por volta das sete da
manhã, seguido da missa, pequeno-almoço, recreio, estudo, reuniões das congregações
(duração de duas horas e meia) e estudo até à hora do almoço. Na parte da tarde havia
recreio, jogos, passeios à serra, tempo livre, higiene pessoal (no verão os alunos
banhavam-se num grande tanque, espécie de piscina) com uma duração total de três a
quatro horas, seguindo-se as visitas dos familiares, depois o estudo/tempo livre até às oito
ou oito e meia, momento da ceia/jantar. Após esta refeição tinham meditação, logo
seguido de recolhimento à camarata, com a presença habitual do prefeito. Assim, decorria
a rotina da vida semanal do aluno no Colégio de São Fiel, num sistema de internado e
regime de estudo.
Além disso, as horas de estudo não eram excessivas para evitar que a aprendizagem
fosse uma carga grande e, por isso, nos sábados reviam as lições/matéria e as academias em
dias feriados ou determinados também expunham as suas sessões. Era uma forma de ocupar
os tempos livres. O funcionamento da biblioteca está adequado a toda a organização escolar
estabelecida. Os professores preparavam o seu material didático de suporte à aprendizagem
e no final do ano preparavam para os alunos essa relação de livros e textos necessários aos
alunos no curso letivo seguinte.
Por conseguinte, o Colégio não deixava ao acaso a organização do tempo dos seus
membros. Na convicção de que o descanso era tão necessário como o trabalho escolar e, daí
que a Ratio prescrevia: os dias de aulas e os de descanso semanal, os tempos letivos e os de
recreio; o trabalho coletivo e individual; as pausas letivas, as férias e os feriados. Chegava
mesmo a estabelecer o princípio de que ninguém se aplique ao trabalho por mais de duas
horas seguidas, sem interromper o estudo por um pequeno intervalo de tempo. Foi, assim,
que historicamente na educação se elaborou um documento destinado a responder às
necessidades de preparar os professores para a sua atividade educativa (MIRANDA, 2011).
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Por isso, o magistério dos professores era precedido por um período de exercício no ensino,
no seio de uma academia privada, sendo obrigação do reitor manter o entusiasmo dos
professores, com diligência e afeição.
Toda a regulação do tempo estava determinada pelo toque de campainha que
submetia à disciplina a vida do Colégio, justificando-se como um instrumento de
formação, na base do respeito, da convicção do cumprimento das regras e na promoção
de hábitos favorecedores à socialização e ao civismo dos alunos. Havia, pois, uma ordem
e uma metodologia de orientação na distribuição do tempo escolar que assentava: no
horário das aulas e das matérias do plano de estudos, na distribuição das
tarefas/atividades (graduação), no estudo e nas tutorias de apoio dadas pelos professores;
na ordem do ambiente educativo (salas de aula e de estudo), na firmeza das relações
pedagógicas (o aluno aproximava-se do professor com boas maneiras e em respeito); na
correção disciplinar do comportamento dos alunos, com a consequente atribuição de
prémios no final do ano letivo (fitinhas, cruzinhas, santinhos), que era um incentivo para
eles estudarem, para além do elogio e destaque em quadro na sua participação de
‘disputas’ nas aulas.
Na verdade, no Colégio de São Fiel, era nítida a opção pelo ensino científico, em
detrimento do ensino humanístico. Embora se mantivesse o objetivo principal de formar cristãos
cultos, rompera-se aquela síntese entre Humanidades, Artes e Ciências, que presidia ao espírito
da Ratio. Havia uma razão para essa rutura. Falsamente acusados de obscurantistas, os seus
jesuítas antecessores tinham sido expulsos, no tempo do Marquês de Pombal como responsáveis
pelo atraso da cultura científica em Portugal. Quando finalmente puderam regressar às salas de
aula, os jesuítas perceberam que tinham de vencer aquelas acusações e recuperar a credibilidade
científica que lhes fora roubada. Daí o grande investimento no ensino e na prática das ciências
naturais, nos colégios de Campolide e de S. Fiel, de que a Revista Brotéria (1902-2016)
constitui uma das maiores heranças deste último colégio.
Idéia(s) a reter
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Os espaços e a organização escolar num colégio
português dos jesuítas (Colégio de S. Fiel - 1863-1910)
Educação em Foco, ano 23, n. 40 - mai./ago. 2020 - p. 207 - 227 | e-ISSN-2317-0093 | Belo Horizonte (MG)
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MARTINS
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