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HISTORIA DO COTIDIANO
EDA VIDA PRIVADA
Mary Del Priore
Nico um tempo que reclama sem cessar 0 sensacional, o extraor-
nario, o exdtico, se no, ao menos, o diferente ¢ o novo. Por isso
mesmo, so imensas as dificuldades para nomearmos a complexidade
© a riqueza que esto mais préximas de nés, impregnadas da aparente
banalidade do cotidiano, Recusamo-nos a admitir habitualmente que
© desconhecimento mais digno de curiosidade nio esté longe e sim a0
lado, sob os nossos olhos.
Juntamos, dia apés dia, as pequenas coisas de nosso cotidiano
imediatamente apés esquecemos o trabalho de construgio empreen-
dido, nada descjando modificar, nem colocar em discussdo, como se
tudo fosse simples € evidente. Esquecemo-nos de que somos, antes
de tudo, uma seqiiéncia de gestos laboriosamente apreendidos nas
circunstincias mais diversas, Esquecemo-nos, também, de que esta
seqiiéncia de gestos que compdem o cotidiano tem, por sua vez, uma
hist6ria no seio da ciéncia hist6rica.!
Como historicizar a nogéo mesma de vida cotidiana? Seré ela uni-
versal e, portanto, valida para todas as épocas histéricas? Serd ela
globalizante ¢, logo, passtvel de se estender ao conjunto de uma
formagao social? O que entendemos, normalmente, por vida cotidiana?
No sentido comum, o termo remete, com imediatismo, 3 vida privada
259¢ familiar, as atividades ligadas 8 manutengio dos lagos sociais, 20
trabalho doméstico ¢ &s priticas de consumo. Séo assim, exclutdos os
campos do econémico, do politico c do cultural na sua dimensto ativa
€ inovadora.
Aeevidéncia mesma de uma “vida cotidiana” constitui um meca-
nismo magistral de dicotomizagio da realidade social. De um lado,
temos uma esfera onde se produzem bens uma atividade produtiva,
um lugar de acumulagio e, por isso mesmo, de transformagio. Ai
localizado, encontramos 0 campo onde se articula o futuro de uma
formagio social, onde se concentra tudo o que faz a Histéria. De outro
lado, temos uma esfera de “reprodugio”, ou scja, de repeticio do
existente, um espago de priticas que regeneram formas, sem, contudo,
‘modificé-las nem individualizé-las. Um lugar de conservacio, de per-
‘manéncias culturais ¢ de rituais: um lugar “privado” da Histéria.
Nesta perspectiva, todo o individuo que age na primeira esfera,
4 da acumulagio e do poder, vé-se constitufdo como ator potencial da
Histétia; todo 0 individuo inserido na segunda, a da reproducio,
encontra-se despossuido de ago, acha-se a margem do controle sobre
as mudangas sociais e da participacao no movimento da Historia, salvo
quando esté associado a um movimento coletivo de revolta. Assim, a
oposicdo entre dois espacos portadores de historicidade e de rotineira
cotidianidade recobre, de fato, a oposi¢go entre “detentores” c “ex-
cluidos” da Histéria.?
A clivagem do século XVIII
Arepresentagio citada se alimenta da oposigao entre vida piblica
¢ vida privada. Ora, trabalhos recentes de historiadores mostraram que
tal oposico nao existe desde sempre.’ Poder-se-ia datar do século
XVIII a emergéncia, no Ocidente, da “vida privada” e do que consti-
tuiu-se 0 seu contetido no sentido que atualmente Ihe emprestamos.
Nesse século, fundamental em tantos aspectos, assistiu-se a uma
clivagem na vida social que, nos meios burgueses da época, é repre~
sentada pela auronomia de uma vida privada e familiar, distinta da vida
publica,
Essa clivagem esté ligada 4 instauragio de relagdes de produgio
capitalista das quais © meio burgués era o detentor. Tais relagdes
evaram a separagio dos espagos de produgao das condigées materiais
de vida, daqueles de reprodugio da existéncia. Essas transformagoes
sociais globais, por sua vez, conduziram os meios burgueses a procurar
260Oe
um modo de vida especifico. Dessa forma, 0 espago privado identifi-
cou-se, rapidamente, como espago familiar e doméstieo,
Os signos dessa privatizagio da vida familiar sio mtlkiplos. Eis
Que aparece uma nova arquitetura de interiores nas casas, tornadas
¢xclusivamente entao lugares de moradia endo mais de produgio.e de
Fens; mudanga que acabou por transformar,igualmente, as clegbes
familiares. Uma dupla reorganizagao estava em curso: um nove agen-
Clamento espacial separa as pegas de recepeao daquclas utilizades
cotidianamente, conferindo a cada uma sua principal fungao, Por
éxemplo, o quarto de dormir se autonomiza, excluindo os visitantes
Os quartos dos empregndos e servidores s8o distanciades dee egas
usadas por seus senhores, Na frente da casa instalamese as pecas
estinadas sociabilidade — salas, sala de jantar, escritbrio, as eee,
capelas; no fundo, instalam-se os quartos ¢ as cozinhas,
E no movimento de uma transformagio profunda das relagées
Socials que a “vida cotidiana” vai se redefinindo e tomando as forimes
cada Em atti. A nogio de “vida cotidiana”, f6rmula vazia que a
ada Gpoca serve para preencher um contetido diferente, toma assim,
Sct’ sentido modemo; pode-se, portanto, falar de “invengao do coridiy,
‘no em torno do século XVIII!
Historicidade e cotidiano
historiadores do cotidiano em dois aspectos essenciaiss nav ox interes-
Savam elo cotidiano da sociedade em que eles, autores e seus leitony
Meant {nas por aquele dos *povos selvagens”, ou de gentes cujo
afastamento, no espago e no tempo, tornava ;possivel conhecer
direramente. Além disso, construiram um saber de aspecto menor e
{Raging um quase divertimento com os dadoshistéricos que-em neds
“explicavam” a Histéria,
261seriam interpretados com igual dimensio cien-
aempregada para a andlise das “grandes obras de
-da arqueologia, correntes mais profundas viriam alimentar
sabordagem histérica. Incentivada por Lucien Febvre, uma certa
-democratizagio da hist6ria no sentido de dar voz aos humildes encon-
tra na histéria do cotidiano uma aplicagao pratica; somada a cla,
correntes sociolégicas sob as mais diversas formas e teorias fizeram do
“coletivo” e da cultura de massas 0 seu campo de investigagao, con-
tribuindo para aumentar os atrativos do estudo do cotidiano.’ Mas vale
sublinhar que, no entender de Le Goff, o cotidiano s6 tem valor
histérico e cientifico no interior de uma anilise de sistemas hist6ricos
que contribuam para explicar seu funcionamento; ele excmplifica
invocando a sociedadefeudalde Marc Bloch, particularmente os capitulos
sobre as formas de sentir e pensar, inti «das a.uma andlise
cerrada da sociedade feudal; ou 0 processo civilizador de Norbert Elias,
um estudo da cultura curopéia através da vida cotidiana desde a
sociedade de corte A das Luzes.
Le Golf debita, todavia, a Fernand Braudel a contribuigéo deci-
siva para que os estudos sobre 0 cotidiano saissem do anedético. Em
artigo datado de 1958 e publicado nos Aumales sobre “A Longa Dura-
do”, este notével historiador insistia na importéncia de c6digos ali-
mentares ¢ do vestudtio como mais determinantes na vida dos grupos
sociais do que as instituigées politicas ou as regras juridicas e adminis-
trativas. Em Givilsation matérielle, économie et capitalime, publicado em
1967, dedica 0 volume 1 as “Estruturas do Cotidiano”, insistindo para
que se fizesse deste uma Hist6ria-problema ¢ nio uma Histéria-des-
critiva. A arquitetura do conjunto de sua obra organiza-se por niveis: a
vida material no subsolo, a economia de mercado a seguir, e depois 0
mosaico cambiante de uma geografia de riquezas ¢ de dindmicas bem
ou mal partilhadas entre vilas ou nagdes.?
‘Tomemos ao acaso o primeiro volume. A partir das paginas 178 ¢
seguintes o paragrafo sobre “Alimentos cotidianos: laticinios, gorduras,
vos”. Em menos de ecm linhas o leitor iré da Franga ao Mediterraneo,
recuard do século XVIII a0 ano de 1572, depois ao de 1543, indo até
inspecionar as leiterias da ‘Turquia e da Pérsia. Braudel ensina como
distinguir 0 essencial da futilidade através dos recursos da etnologia.
Da mesma forma ele analisa “o pio de cada dia”. Ultrapassando 0
estudo das “grandes fomes”, do prego do pio ou do comércio de gros
que teriam alimentado a pesquisa dos economistas, debruga-se no
exame dos regimes cal6ricos, da mesa ¢ de seu savvir vivre, dos cardé-
262 Copios, € da andlise do supérfluo ¢ do extraordinério, E ele nio trata
apenas da histéria do poe do vinho, mas também daquela da utilizagio
da carne ¢ do peixe, das fortunas consticuidas com 0 comércio do cha
¢ do café, das conquistas do alcool e das bebidas espirituosas — a
cerveja, por exemplo —e do fumo.
Apesar do conceito inovador, Braudel ndo escapou as eriticas. O
arquedlogo italiano Andrea Carandini reprovou-o por nao explicitar
claramente o que queria dizer com “civilizacdo material”, e de recorrer
apenas a metéforas e a imagens literdrias para descrevé-la. O certo é
que para esse notavel autor o estudo da civilizagio material — pelo
menos do periodo entre os séculos XV e XVIII — ¢ indissocisvel do
estudo sobre 0 capitalismo. A civilizagdo material parece até mesmo
subordinada a este fendmeno hist6rico. De fato, para Braudel, a vida
‘material é como o andar inferior de uma construgio cujo andar superior
€ constituido pela economia. Mas nao s6. Fernand Braudel afirmou
através de seu livro, além da dignidade dos estudos sobre a vida
‘material, aimportancia da hist6ria das massas no cotidiano; ele dedicou
belas paginas “aos gestos repetidos, as historias silenciosas e como que
esquecidas dos homens, ’s realidades de longa duragio cujo peso foi
imenso e 0 rufdo, imperceptivel”.
De suas premissas, devemos reter que a cultura material a ser
estudada deve ser aquela das maiorias ¢ que a vida material e a vida
econdmica so, ao mesmo tempo, estreitamente ligadas embora bas-
tante distintas. A vida majoritéria é, assim, feita de utensilios, de
objetos ¢ de gestos do comum dos homens; apenas esta vida thes
concerne na sua cotidianidade; cla os absorve em scus pensamentos €
tos; €, por outro lado, ela se estabelece de acordo com o “possivel e 0
impossivel” das condigées de vida ccondmica,
‘Temos af 0 encontro da Histéria com a antropologia, invocado
por Le Goff, para enraizar os estudos sobre o cotidiano no coragio da
investigacio hist6rica. Mas € Georges Duby que, no preficio a Histoire
ela vie privée, amarra as caracteristicas desta historia do cotidiano e da
vida privada; cla seria mais um programa de pesquisas do que um
balango.* Ela teria a preocupacao de nao confundir uma historia do
privado com uma histéria do individualismo (evitar-se-ia passar da
historia da casa, para hist6ria do quarto e, finalmente, da cama), Ela
se vincularia ao estudo de uma area claramente demarcada pelo vo-
cabulério corrente & que se opde & nocio de “pablico”: rea esta que
€ zona de imunidade, que € respaldada no aconchego e na protegio,
onde 0 individuo pode abandonar as armas das quais esté munido no
espaco ptiblico, Esta rea & a “familiar” c doméstica,
263Ela € também uma zona de segredos. No privado, diz Duby,
encerra-se 0 que sc tem de mais precioso, 0 que néo pertence’ a
ninguém a nio ser a si préprio, 0 que nao interessa a ninguém, ¢ que
€ proibido de se divulgar ou de se expor porque é muito diferente das
aparéncias que a honra exige que esteja a salvo em piblico. Mas de
onde vem este interesse pelo “cotidiano da maioria”?
A histéria de um conceito
“Forgado, gragas aos grandes fatos que precisa descrever, a
6 escutar tudo 0 que se Ihe oferece com uma certa im
Portancia, ele nio admite em cena que 0s reis, 08 ministrs,
08 generais do exército © coda a classe de homens famosos
ujos talentos ou falhas, manipulagées ou intrigas, produzi-
ram as misérias ou a prosperidade do Estado, Mas os bur-
ucses em suas cidades, o camponés em sua casa, 0 nobre
tem seu castelo, os franceses, enfim, em meio aos seus
trabalhos e prazeres, no seio de suas famflas ede seusfilhos,
cis 0 que no pode nos apresentar.”
Nio sio palavras de Lucien Febvre exprimindo-se sobre as i
suficiéncias dos historiadores hodiernos, mas de Legrand D’Aussy,
contemporineo quase obscuro das Luzes, no prefiicio de seu Histoire
dela vie privée des francais (3 vols.) publicado em 1782. O texto revela
que a hist6ria da vida privada no é uma abordagem nova e, sim, que
© grupo de historiadores ligados aos Annales — como o jé citado Jacques
Le Goff — a recuperou para associé-la & emergéncia de uma histéria
antropolégica. Vamos, aqui, recuperar sua trajetéria historiogritica,
para depois analisar suas perspectivas metodolégicas.
Legrand D'Aussy sonhava em realizar uma hist6ria social dos
mores franceses, cujo projeto empacou em trés volumes sobre uma
“historia da alimentagio”: simultaneamente descrigao de produtos, de
técnicas ¢ de comportamentos alimentares, © autor seguia um plano
temético, utilizando uma abordagem mais estrucural do que factual,
Sua historia dos mores nao se reduzia a um encadeamento pitoresco
do relato de inovagées, mas propunha uma compreensio dos compor-
tamentos herdados (logo, das permanéncias) dos fendmenos de
adaptacao ¢ invengao que Ihes eram impostos.
Assombra das Luzes, alguns viajantes, médicos eruditos ¢ admi-
nistradores pablicos inauguraram um olhar etnolégico sobre suas
Préprias sociedades, diferentemente daquele lancado pelos enciclo-
264pedistas, por Montaigne, Buffon ou mesmo Rousseau, sempre interes-
sados nos “povos sem histéria”, ou seja, “os selvagens”. Legrand
D’Aussy pertencia ao primeiro grupo. A corrente de idéias na qual se
inscreveu desenvolveu-se sob a Revolugéo ¢ o Império, produzindo
virias obras do tipo: “Quadro Histérico” ou “Hiistéria Navural” de tal
qual provincia ou nacio. A tradigio cientifica desses autores definia
a identidade de uma sociedade pela reconstituigao histérica de seus
costumes e de suas maneiras de viver o cotidiano.
Vale lembrar que essa preocupacdo é téo antiga quanto o espirito
histérico, Nao podemos nos esquecer de que Herédoto, na pesquisa
que realizou “a fim que 0 tempo nio abolisse o trabalho dos homens”,
descreveu em detalhe os costumes dos lidios, dos persas ¢ dos egipcios,
para explicar os conflitos entre os gregos ¢ os birbaros. Ora, 0 que o
historiador retém do passado corresponde intimamente ao que ele
‘quer compreender ou justificar na sociedade que o cerca. Assim sendo,
‘0 estudo das formas da vida cotidiana faz parte da ciéncia histérica
desde que esta teve como principal preocupagio retracar o itinerdrio
© 0 progresso da civilizacao.
Legrand D'Aussy é seguido, no século XIX, por Jules Michelet.
Este, através de um projeto de “ressurreigéo integral do pasado”,
passa, também, a descrever, mais além das peripécias do exercicio do
poder, as condigdes de existéncia dos grupos mais obscuros da so-
ciedade. Quando Michelet mostra os efeitos de uma moda alimentar
‘como 0 consumo do café sobre a sensibilidade e 0 comportamento das
lites francesas do século XVIII ou quando pinta a atmosfera tragica
do século de Luis XIV dominado pelas crises alimentares ¢ a miséria
popular cotidiana, é por um viés essencialmente etnolégico que aborda
a realidade histérica.
J4 para o grupo ligado & chamada vole des Annales, uma concepgao
multidimensional da realidade social (no interior da qual cada dimen-
sao desenha a sua propria histéria e encontra uma forma de articulagdo
para fabricar 0 movimento de uma dada sociedade) passa a enformar a
concepgio de histéria da vida cotidiana: o cotidiano ¢ 0 estudo da vida
privada so, essencialmente, uma maneira de abordar a hist6ria
econdmica ¢ social. Vale sublinhar que para os autores ligados a esse
grupo, a hist6ria da vida cotidiana no € definida somente pelo estudo
do hatitual por oposicio ao excepcional (ou ao factual), nem é, tam-
pouco, concebida como a descrigéo do cendrio de uma época: Sua
concepgio é mais ampla.
Desde a imponente compilagdo de A. Franklin, La vie prieve
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Problemas de abordagem da historia da vida
cotidiana e privada
‘Quando falamos de “hist6ria", pensamos imediatamente em um
Proceso especffico de afirmagio através do qual um fenémeno ou uma
pratica se inscrevem no tempo ou produzem uma natureza propria,
Quando falamos de “cotidiano”, temos de desvendar o que recobre
este conceito: o estudo das sociabilidades? A andlise de situagics €
“historias de vida” com sua bagagem de sociolingiistica? A etnografia
€ a antropologia da vida material? Uma enorme série de campos
espago-temporais ¢ relacionais parece querer estilhagar esse objeto his-
t6rico numa pluralidade de temas probleméticos, bem como de com-
plexos instrumentos de andlises.
Alguns obsticulos metodolégicos, jé estudados, devem ser evi-
tados.* Primciro, porque h4 tantas anilises da vida cotidiana quanto
existem pesquisas histéricas baseadas em abordagens funcionalistas
ou interpretagées estrutural-marxistas via o conceito de “classes”. O
que se aprendeu é que ambas empobrecem o objeto; quer porque se
esgotam em tipologias descritivas sem qualquer valor heurfstico, quer
Porque se atém a historias de vida segundo uma estrutura que obriga
© pesquisador a manusear uma dupla linguagem, sem conseguir articu-
lar uma verdade singular ¢ uma verdade estrutural. Nao basta, pois,
admitir que a Histéria é a hist6ria de uma longa exploragio do homem
pelo homem sem tentar entender o que isto realmente significou para
‘08 “explorados” ou para os “excluidos””
Existem, também, neste sentido tantas “cotidianidades” quanto
“temporalidades” e a grande questo em aberto ainda € 0 embri-
camento dos tempos historicos. Esta é uma questo contemporinea 4
dialética estrutural e a critica que Ihe fazia Marx a abstracao da idéia
de progresso. Inscrita na problemstica do desenvolvimento desigual ¢
largamente ilustrada pelos trabalhos de Braudel e da escola dos Annales,
a questo da articulagdo de temporalidades especiticas “relativamente
auténomas” (“tempo curto” © “tempo longo”, “tempo do senhor" €
“tempo do camponés”, “tempo do rel6gio” ¢ “tempo do campanério”)
atravessa a andlise da vida cotidiana, mas a atravessa do exterior. Ela
parece estranha a questies que exigem, de seus objetos de estudo,
outras interrogagées descritivas palpaveis do tipo: “como isto circula?
‘ou “como isto se comunica?”
Quando falamos em “cotidiano” e “vida privada,” devemos tam-
bém tentar ultrapassar a oposicio entre “detentores” ¢ “exeluidos",
atentos para evidéncias de que, no interior das semoventes relagées
anentre os dois grupos, inscreve-se outra coisa além de uma configuragio
sucedendo-se a outra; inscrevem-se formas de visibilidade e de modos
de enunciacio préprios a fazer emergir cada grupo enquanto sujeito da
hhist6ria; ndo simplesmente como objeto da historia, suscetiveis de
+hist6ria como tudo o que muda, mas autores da mudanga, inscrevendo
acoletividade num destino vireual, resultado de um possfvel ou de uma
promessa. Nao se trata, apenas, de fazer a hist6ria do cotidiano ou da
vida privada resgatando a sua evolugdo ou condigio. Trata-se de
deslocar 0 campo de possfveis definindo uma historicidade especifica.
Nio se trata de discutir o espago do piblico em oposigio ao privado,
mas de tentar perceber qual a natureza do espaco que diferentes
grupos sociais ocupam. Trata-se, ainda, de interpretar 0s usos ¢ repre-
sentagées que fazem os diversos grupos sociais deste espaco.
Esta é também a histéria dos modos ¢ das manciras através das.
quais 0s diferentes grupos podem se constituir sujeitos. Mas 0 que
quer dizer isto? Tornar-se sujeito nfo é somente o crescimento do
poder fisico, do poder do corpo; é também o reconhecimento da
valorizagio de uma imagem. , portanto, o jogo dos modos de subjeti-
vaciio que fazem e desfazem uma identidade, tecendo outra, desmon-
tando € remontando os dados que definem 0 campo dos possiveis,
agenciando, além disso, o direito ¢ a capacidade, o texto ¢ a realidad,
as palavras € 0s corpos. Pensemos, por exemplo, no substantive
invocado por Louis-Auguste Blanqui, lider socialista da
revolugdo de 1848, perante 0 juiz que Ihe pergunta qual a sua profissio
© que se indigna com sua resposta: “proletério” nao é uma profissio ou
uma ocupacio que ele, juiz, possa entender. E uma profissao no sentido
mais antigo porquanto, inteiramente novo; é uma declaragdo de per-
tencaauma comunidade que leva, precisamente, em conta os que “niio
contam”. Tais substantivos de classes que nao so reconhecidos ligam-
se a ages que no respondem a nenhum protocolo, nem a nenhuma
aprendizagem definida, mas que demarcam um sem-fim de trajetos
novos, deslocando sujeitos histéricos ¢ os fazendo viajar entre os espa-
cos materiais € os espacos simbélicos, entre as palavras e os corpos,
entre as condigdes ¢ os saberes.
E certo, também, que a hist6ria do cotidiano ¢ da vida privada
no é s6 aquela dos “trabalhos e dos dias”, pois pensar exclusivamente
esta diferenga autoriza a instituir uma divisio entre um mundo quase
srhistérico © um mundo da transformagio. Nele encontrarfamos a
divisfo cléssica entre uma hist6ria das massas, que € aquela dos
“trabalhos ¢ dos dias", © uma hist6ria dos espacos © grupos privile-
giados, que sio 0 teatro e 0s atores das transformagées. Ora, este
272universo s6 € considerado imével por aqueles que o tomam por um
mundo fechado sobre si mesmo, baseado na economia de subsisténcia
© nos gestos imemoriais. Este universo no existe mais sobretudo
depois que a revolugio politica ea revolucio industrial comegaram a
deslocar a divisdo de propricdade para a das ocupagées. Para tomar
outro exemplo, pensemos que o mundo rural nao é imével pela simples
razio que ele € 0 mundo da terra; antes de ser o mundo dos gestos.
imemoriais, ele € 0 mundo da propriedade ¢ esta nao cessa de provocar
movimento, mobilidade ¢ transformagao. Quem passa do mundo rural
para o mundo da cidade néo passa de uma imobilidade & outra, pois é
capaz de se mostrar de uma criatividade diabélica nas adaptagécs que
odeslocamento exige. Esta premissa pode ser vlida para outras formas
de mobilidade espacial, mas também social, politica, religiosa ete.
Pensar o que muda no cotidiano € na vida privada é pensar as
relagbes entre os miltipos deslocamentos e as formas pGblicas em que
se afirma a ruptura das relagbes de dominagio. Ha uma grande com-
plexidade entre os deslocamentos materiais ¢ as clivagens subjetivas
que modificam as relagées da ordem dos nomes e dos discursos, bem
‘como a ordem dos corpos ¢ das condigdes que configuram 0 espaco, no
interior do qual as relagdes entre 0s grupos sociais so percebidas.
Relagdes que tornam vistvel o invisivel, ou que dizem o que estava
silenciado, Pensar a histéria do cotidiano e da vida privada é, sobretudo,
pensara solidez de palavras ¢ de coisas, ¢ as articulagdes entre palavras
© coisas que fixam as relagdes legitimas ¢ ilegitimas entre a ordem dos
corpos e a ordem dos discursos.®* No interior desta histéria, como
ensina Michel de Certeau, “inventa-se o cotidiano” gracas as “artes de
fazer", herdeiras da métis grega e conjunto de espertezas sutis ¢ de
‘Gticas de resisténcia através das quais o homem ordinério se apropria
de espago, inverte objetos © cédigos, usando-os a sua maneira.?* A
“massa” aparentemente sem qualidade, décil ¢ passiva € capaz. de
Colocar em uso uma arte de viver que passa pela adaptacio, pelo “jeito”,
pela improvisagio e pela negociagao. Ea inventividade do “mais fraco”
emagio. Elaé que nos guia no territ6rio de estudos sobre a vida privada
€ 0 cotidiano.
Historia da inteligéncia ordindria, da criagdo efémera, da ocasido
¢ da circunstancia, a histéria do cotidiano e da vida privada nao esté
Cega as realidades politicas nem 3s temporalidades. Sob a maciga
realidade dos poderes e das instituigdes e da cficécia mesma de seu
funcionamento, de Gerteau discerne um permanente movimento de
microrresisténcias que inauguram, por sua vez, microliberados que
mobilizam recursos impensavcis entre as pessoas comuns. Parecendo
: 7 273submeter-se ao poder, os “mais fracos” inventam, rapidamente, como
metaforizar a ordem dominante fazendo suas leis ¢ representagdes
funcionarem sob outro registro.
Em nossas sociedades — explica de Certeau —as titicas desse
“saber fazer” tornado arte multiplicam-se proporcionalmente a0 esgo-
tamento das estabilidades locais; nao mais obedecendo a uma comu-
nidade fechada, tais téticas se propagam, errantes, em um sistema tio
vvasto quanto imbricado, mas garantido por continuidades ¢ permanén-
cias. “Que se pense na imemorial simulacZo dos animais para escapar
a seus predadores”, sugere 0 autor. Estas téticas traduzem até que
ponto a inteligéncia € indissociével dos combates © dos prazeres
cotidianos que ela mesma articula. Gragas a elas, cada um vive melhor
a ordem social, ou o seu oposto, a violencia das coisas.
Histéria dos anti-heréis ¢ das anti-herofnas, de criaturas or-
dindrias, do “homem sem qualidades” — descrito por Musil —, a
historia da vida cotidiana e privada é, finalmente, a histéria dos
pequenos prazeres, dos detalhes quase invisfveis, dos dramas abafados,
do banal, do insignificante, das coisas deixadas “de lado”. Mas nesse
inventirio de aparentes miudezas, reside a imensiddo ¢ a complexi-
dade através da qual a histéria se faz e se reconcilia consigo mesma.
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