Criminologia crítica: aportes
para uma distinção necessária
Gerôncio Ferreira Macedo Júnior
Publicado em 03/2018
SUMÁRIO: 1. INTRODUÇÃO; 2. A CRIMINOLOGIA ETIOLÓGICA: A CRIMINOLOGIA
DO DELINQUENTE; 3. A CRIMINOLOGIA CRÍTICA: "A CRIMINOLOGIA DA
CRIMINOLOGIA"; 4. REFERÊNCIAS; 5. NOTAS.
RESUMO: A discussão a ser travada no presente texto envolve questões metodológicas
que visam possibilitar a diferenciação entre Criminologia Etiológica e a Criminologia
Crítica, a partir do seu percurso histórico, o exame da conservação de sua estrutura
epistemológica e os seus reflexos no âmbito da Política Criminal.
PALAVRAS-CHAVE: Criminologia. Criminologia Etiológica. Criminologia Crítica.
Positivismo. Sociologia Jurídica. Labeling Approach.
1. INTRODUÇÃO
A discussão a ser travada no presente texto envolve questões
metodológicas que visam possibilitar a diferenciação entre Criminologia
Etiológica e a Criminologia Crítica. A análise da criminologia Crítica, nos dias de
hoje, impõe não apenas o estudo e entendimento de um pensamento formulado
com vistas à superação da Criminologia Etiológica, mas, sobretudo, o exame da
conservação de sua estrutura epistemológica e seus reflexos no âmbito da
Política Criminal.
Os pormenores dessa diferenciação impõem o transcurso histórico ao
período de duelo de ideias entre as Escolas Clássica e Positiva, com vistas a
situar a mudança de paradigma instaurado por essa última concepção. Já num
segundo momento, haverá a explicação e os argumentos formulados pela
criminologia crítica.
2. A CRIMINOLOGIA ETIOLÓGICA: A
CRIMINOLOGIA DO DELINQUENTE
Numa compreensão tradicional, de matiz positivista, a criminologia
etiológica é entendida como estudo das causas (biológicas, sociais e
psicológicas) do crime. O delito e a criminalidade constituem – conforme lição de
Hassemer e Muñoz Conde – “fenômenos condicionados por fatores
cientificamente investigáveis. A exclusão ou qualquer outro tipo de modificação
de tais fatores influi, segundo essa concepção, também, na conduta desviada”
[1].
Aliás, foi assim que inicialmente tomou fôlego no âmbito da história das
ideias, como um corpo de teorias de índole determinista-causal, fundado sobre
a tábua metodológica do positivismo, e dirigida a explicar o fenômeno do crime
a partir de leis gerais e previsíveis, qualificando-se, por consequência, como
ciência autônoma [2].
Essa estrutura do pensamento, cuja gênese histórica remonta aos fins
do séc. XIX e início do séc. XX teve ampla margem de aceitação graças à
transposição do recém-chegado método positivista das ciências naturais – na
qual se destaca a obra de Darwin, The origin of species, de 1859 – às ciências
humanas, sobremaneira pela divulgação dos escritos da Escola Positiva italiana,
donde se situam os nomes de Cesare Lombroso, Enrico Ferri e Rafaelle
Garófalo, cujas obras representam – conforme acentua Alessandro Baratta –
forte oposição a Escola Clássica, também italiana, de Cesare Beccaria,
Francisco Carrara e Rogmanosi, enraizada na tradição racionalista do
iluminismo [3].
O positivismo propugnava que a vinculação a quaisquer critérios
metafísicos possuía o condão de negar o status científico à determinada ciência.
Tal status, que era imanente às ciências naturais (mensuráveis por excelência),
imporia, durante o final do séc. XIX, a tentativa de definir um direito carente de
valores. De outro jeito, restaria negada a sua própria legitimação.
Nesse período, Franz von Liszt já anunciava que “o direito penal, como
qualquer ciência, só se ocupa com o homem empírico, e este absolutamente não
é livre, determina-se por ideias e representações (motivos), e consequentemente
está sujeito à lei da causalidade” [4]. Todos os fenômenos estão vinculados às
leis naturais invariáveis, de modo que para se chegar as suas estruturas, as
circunstâncias de sua produção, deve o fato ser objetivamente observável.
Anote-se, que o patrono da filosofia positiva, Augusto Comte, reconhecia a
absoluta desnecessidade de se chegar as causas primeiras ou finais. O seu
objetivo era outro:
“Cada um sabe que, em nossas explicações
positivas, até mesmo as mais perfeitas, não
temos de modo algum a pretensão de expor
as causas geradoras dos fenômenos, posto
que nada mais faríamos então além de
recuar a dificuldade. Pretendemos somente
analisar com exatidão as circunstâncias de
sua produção e vinculá-las umas às outras,
mediante relações normais de sucessão e de
similitude.” [5]
No campo jurídico, como assinala Juarez Tavares, o positivismo rompe
com a tese racionalista da correspondência entre entendimento e realidade, o
que equivale a dizer que a tese do “ser” e do “dever ser” ganha relevo,
identificando o direito com a própria norma positivada [6].
Como a Escola Clássica partia do paradigma filosófico racionalista do
iluminismo, aliada a uma concepção liberal da política e do Estado, o objeto de
estudo residia no desenvolvimento do sistema penal, e precipuamente o delito
(visto como ente jurídico; uma violação do direito), como ato de vontade que
“surgia da livre vontade do individuo, não de causas patológicas, e por isso, do
ponto de vista da liberdade e da responsabilidade moral pelas próprias ações, o
delinquente não era diferente, segundo a escola clássica, do individuo normal
[7]”. Adotava-se, portanto, um método dedutivo de investigação.
Valiosa para a Escola Clássica era a visão do Direito Penal como
instrumento de proteção da sociedade contra o crime, aplicado conforme a
necessidade e utilidade, e justaposto ao princípio da legalidade [8]. Sobressai
desse perfil a obra de Cesare Beccaria, Dei delitti e delle pene (1794), no qual o
autor busca fundamentar a legitimidade do direito de punir, assentado nas
premissas iluministas do contrato social e critérios de utilidade e necessidade,
quando da aplicação da pena [9].
Acentuava, o autor, a ideia de livre arbítrio, ou seja, o crime como um ato
de vontade do sujeito, concepção essa repugnada mais tarde pela Escola
Positiva de C. Lombroso, para quem a origem do delito deveria ser buscada não
na abstração metafísica da vontade do ser humano, senão em fatores naturais,
passíveis de investigação biológica, precisamente a hereditária [10].
Com o advento da Escola Positiva, cujo marco tem sido fixado com a
publicação da obra L’Uomo delinquente (1876), de Cesare Lombroso,
transmuda-se o objeto de observação e estudo, que passa a se identificar com
o homem delinquente. Deve-sepontuar, ademais, que o cenário político é
totalmente distinto de quando da proliferação dos ideais racionalistas do
iluminismo. Contrariamente, observava-se um descrédito quanto às reformas
penais envidadas pelo iluminismo, sobremaneira pelas altas taxas de
criminalidade e reincidência [11], por isso a razão da mudança de perspectivas.
Defensor do entendimento do delito como um ente natural, a tese
antropológica de C. Lombroso referia ao elemento atávico, i.é, “o criminoso
atávico, exteriormente reconhecível, corresponderia a um homem menos
civilizado que os seus contemporâneos, representando um enorme anacronismo
[12]”.
Por seu turno, E. Ferri inaugura uma classificação tipológica de sujeitos:
criminoso nato, ocasional, passional, habitual e louco, alterando a perspectiva
monista-antropológica de Lombroso para uma visão multifactorial (vários os
defeitos e as causas do crime), nos quais se destacava fatores antropológicos,
físicos e sociais [13].
Em continuação, atribui-se a Rafaelle Garófalo a construção da teoria do
delito natural, consoante o qual o delito constituía uma violação dos sentimentos
básicos e universais; tributa ao estudo do elemento psicológico humano a
possibilidade de explicação do crime, defendendo, inclusive, a pena de morte
nos casos em que determinada anomalia mental torne o criminoso inoperante a
conviver no círculo social [14].
Desse modo, assentando em relevo que as causas do desvio residiam
em condições ambientais, biológicas, antropológicas (Cesare Lombroso), sociais
(Enrico Ferri) ou psicológicas (R. Garófalo), e guarnecidos, agora, com um
método de investigação próprio das ciências naturais, os positivistas possuíam
um terreno fértil de investigação até então não explorado no âmbito das ciências
sociais. Há, portanto, uma cisão entre os sujeitos “normais” e os “anormais”
(delinquentes), reservando-se, para esses últimos, medidas de correção e
tratamento.
A partir disso, o delinquente é clinicamente observável na ânsia de se
buscar caracteres comuns a todos, ou ausente em tantos outros, enfim,
condicionamentos e leis gerais, concretamente especificadas. O crime é
compreendido como uma realidade ontológica, ínsita aos “anormais”, como uma
doença e por isso deve ser diagnosticada e tratada. Daí o ineditismo na
afirmação de que a criminologia ganhava “status” de ciência.
O ponto chave, ao qual se refere Figueiredo Dias, é compreender o
pressuposto fundamental do positivismo, comum aos seus adeptos: “a negação
do livre-arbítrio e a crença no determinismo e no postulado da previsibilidade dos
fenômenos humanos, recondutíveis a leis; a separação entre ciência e a moral
e a reivindicação da neutralidade axiológica da ciência; a unidade do método,
como método indutivo-quantitativo” [15], em oposição ao método dedutivo
clássico.
Na realidade contemporânea as teorias etiológicas podem ser vistas nas
mais distintas manifestações. Pode-se agrupar a criminologia tradicional da
seguinte maneira [16]: 1) teorias biológicas: analisam o delinquente em busca da
identificação de caracteres biológicos defeituosos; 2) teoria da socialização:
empreende a análise na célula familiar, em busca de falhas na construção social;
3) teorias da subcultura (chamadas técnicas de neutralização): atribui a
construção do delinquente a um defeito na adaptação às leis; 4) teoria da
anomia: buscam-se as falhas na própria estrutura social; 5) teorias multifatoriais:
atribui a uma variedade de causas a origem do crime.
A todas essas teorias devem-se anotar as críticas formuladas por
Hassemer e Muñoz Conde no sentido de que essas teorias não se interessam
no conceito de conduta desviada, mas na causa do desvio (o que será feito
apenas com o advento do labeling approuch); as causas ou condições de desvio
residem no sujeito ou nos fatores circundantes a esses sujeitos (a família, os
grupos sociais, a sociedade), excluindo quem decide (órgãos judiciários) ou
sanciona o delito; a criminologia tradicional é insuficiente para explicar
fenômenos como a delinquência de transito, a juvenil ou a econômica [17].
No entanto, com o passar do tempo observou-se que o entendimento da
criminologia reduzida à perspectiva etiológica mostrou-se fragilizada em suas
bases. A condução da explicação do crime por meio da formulação de leis gerais
e obtidas por meio da previsibilidade de certas condições acabou por ser
contestada a partir do início da década de 60, com o acolhimento de novas
perspectivas teóricas ao estudo da criminologia.
Peter-Alexis Albrecht, recordando Mazta, lembra que o fato de a
Criminologia tradicional pegar de empréstimo a máxima da prevenção – do
direito penal – acabou por tornar estéril a própria compreensão do seu objeto de
estudo (desvio), pois o que se buscava era justamente a sua eliminação [18].
Ao contrastar definitivamente as teses da escola clássica de expansão
de garantias e redução do poder punitivo, o positivismo alicerça as bases de um
direito penal de combate ao delinquente, em defesa da sociedade, caminhando
para manifestações extremas da prevenção especial, abrindo as portas dos
manicômios e do cárcere ao trancafiamento. Do encarceramento em massa
deriva a crise atual da ressocialização, cuja crítica conduziu ao mito da
prevenção especial positiva.
Assim como em outros países, o Brasil cedeu, na lavra de seus
estudiosos, a influência da cultura positivista, destacando-se, no âmbito penal
[19], entre outros, os estudos de João Viera de Araújo, Código Criminal Brasileiro
(1889); Viveiros de Castro, A Nova Escola Penal (1894); Adelino Filho, A Nova
Escola de Direito Criminal (1891); Phaelante da Câmara, Algumas Ideias
expendidas ao começar o curso do Processo Criminal na segunda cadeira da
quarta série jurídica (1891); Aurelino Leal, Germens do Crime (1896); Moniz
Sodré, As Três Escolas Penais. Clássica, Antropológica e Crítica (1907); Roberto
Lyra, Novas Escolas Penais (1936).
3. A CRIMINOLOGIA CRÍTICA:
"A CRIMINOLOGIA DA CRIMINOLOGIA"
Na década de 1960 surgiu nos EUA uma orientação criminológica,
sustentada a partir de novos pressupostos teóricos, que ficou denominada como
nova criminologia ou criminologia crítica. Conquanto divirjam os autores, quanto
a uma classificação eficaz, podem-se destacar como integrantes desse
movimento a teoria do labeling approach (de fundo interacionista simbólico) e a
etnometodologia (versão criminológica da fenomenologia sociológica) na década
de 60, e a criminologia radical (de matiz marxista) em meados dos anos 70.
Houve, na verdade, total inversão de interpretação no tocante ao objeto
da criminologia, que se transfere do delinquente (ou do crime) para o sistema de
controle criminal. Isto é, a análise passa a recair acerca dos critérios de seleção,
da origem de legitimidade dos órgãos ou agencias de controle, e, sobretudo, as
consequências da intervenção punitiva. Ou, como resume Albrecht,
“prioritariamente ao Estado, ao Direito e aos órgãos de persecução penal” [20].
Figueiredo Dias refere-se à transição metodológica que emerge da
criminologia crítica, como maior contribuição, pois, até então, atribuía-se uma
elevada carga valorativa às estatísticas oficiais como instrumento de pesquisa
da realidade [21]. Esse método, comum às doutrinas etiológico-deterministas,
muitas vezes significavam uma barreira insuperável para uma análise crítica da
realidade, especialmente pela etiqueta oficial que lavrava tais procedimentos.
Assim, com a criminologia crítica há a adoção de um ponto de vista
dinâmico e contínuo, até porque vai colher o substrato teórico de outras áreas
do conhecimento, notadamente, a psicologia, a economia, a geografia etc, bem
como bases teóricas da sociologia e filosofia.
Essa mudança de paradigma foi fomentada pela turbulência acadêmica
dos anos 60, nas universidades americanas, ambiente no qual floresceu
discussões acerca da emancipação da sociologia do terreno da filosofia social.
Como lembra Sykes, se a discussão sobre a autonomia da sociologia ainda
estava em aberto, por outro lado, não mais se discutia seu caráter objetivo, em
face de seus métodos de investigação e neutralidade [22].
O aparente consenso que dominou a década de 1950 havia dado lugar
a um locus de conflituidade, registrada no decurso da década seguinte.
Passeatas organizadas pelo movimento negro ou estudantes reivindicavam
novos direitos sociais e cívicos, o clima beligerante da época reduziu o prestígio
político das instituições, e por consequência, o predomínio de doutrinas
dominantes. A crítica acadêmica afirmava a subjetividade que imperava no
âmbito sociológico, e passava a rechaçar o mito de ciência pura. “A pretensão
de neutralidade da ciência era uma farsa” [23], dizia Sykes.
A recusa ao monismo cultural, fundante de uma criminologia do
consenso, passa a ser revisado a partir de um pluralismo axiológico ou de
perspectiva de conflito, possibilitando a encarar o direito penal como instrumento
dos detentores do poder [24]. Nesse ponto, afirma-se que a estrutura social fora
interpretada apenas em termos de consenso, esquecendo-se que é o conflito
que reside no íntimo das organizações sociais [25]. Foi um duro golpe nos
especialistas da sociologia argumentar a favor dos pressupostos de uma ciência
(criminologia) que estava inteiramente pautada em juízos de valor, totalmente
destoante com a sociologia value-free.
A crítica, portanto, converteu-se na tônica da discussão, mostrando
outros caminhos metodológicos que suscitassem modelos de análise sensitivos
com a realidade. O reencontro com Marx, a rejeição da teoria funcionalista e o
rechaço a neutralidade cientifica da sociologia integram o núcleo comum das
novas orientações metodológicas [26].
Como antecipado, a criminologia crítica, pela gama de valores que
congrega, pode ser vista a partir de três orientações científicas: o labeling
approach, a etnometodologia e a criminologia crítica.
Distanciando-se de uma concepção ontológica de conduta e rejeitando
o determinismo, o labeling approach surge como uma concepção teórica que
compreende o delinquente como uma figura estigmatizada, ao cabo de um
processo de interação entre indivíduos ou grupos. O ponto de partida não se
contenta – como o fazia a Criminologia tradicional – em combinar no mesmo
panorama a seleção da população desviante com a seleção biológica. Como
recorda Alessandro Baratta, com o labeling approach o direito penal passa de
pressuposto interpretativo de definição para objeto de análise criminológica, o
que significa uma verdadeira transição de um paradigma liberal ao crítico [27].
Com o enfoque macrossociológico, a crítica é dirigida a se verificar as
consequências, não apenas da produção das normas penais, mas de sua
aplicação no ambiente social, suscitando a discussão de pelo menos três
mecanismos, referidos por Baratta [28]: 1) mecanismo de produção das normas
(criminalização primária); 2) mecanismo de aplicação das normas (processo
penal e agências de controle, polícia juízo criminal, o qual caracteriza a
criminalização secundária); 3) mecanismo da execução da pena (pena e
medidas de segurança).
A compreensão do labeling perpassa a análise que a identidade do
indivíduo é moldada no percurso da interação social com os grupos e não um
dado cuja análise permita decifrar causas pressupostas [29]. Indagam-se, assim,
as formas de legitimação que atribuem às instâncias de reação e controle
selecionar e etiquetar o indivíduo com a pecha de desviante. Embora seja
encontrada fragmentariamente em trabalhos anteriores (Tannebaum, Lemert, H.
Garfinkel, J. Kitsuse, E. Goffman, K. Erikson etc), a obra que inaugura a
sistematização do labeling approach foi escrita por Howard Becker – Outsiders
(1963).
Anote-se que a contribuição do labeling approach vai adiante, quando
espraia seu espectro de análise para a crítica às instituições totais como locus
de estigmatização. Nesse terreno pode-se situar a obra de E. Goffman, Asylums,
de 1961.
A expressão etnometodologia, por sua vez, foi cunhada por Garfinkel –
em Studies in Ethnomethodology (1967) – e refere-se a uma perspectiva
baseada no estudo da “intersubjetividade do cotidiano, como ele é
verdadeiramente vivido pelos seus participantes” [30]. É analisar as regras e
rituais que se embrincam no dia a dia do indivíduo.
Como refere Dias:
“o comportamento desviante esgota-se
no quadro de significações assumidas
pelos participantes, devendo suspender-
se todo o juízo sobre a realidade das
normas ou da própria estrutura social
(...). O crime é visto como uma
construção social realizada na interação
entre o desviante e as agências de
controle, que a etnometodologia estuda
como “organizações”: polícia, tribunal,
prisão, hospital psiquiátrico etc” [31].
De outro lado, a criminologia radical, conforme noticia Dias, surge na
década de 1970, nos EUA, pela lavra de Schwendinger e T. Platt, da escola
criminológica de Berkeley e na Inglaterra, por influencia dos estudos de I. Taylor,
P. Walton e J. Young – sobretudo sua obra The New Criminology: For a Social
Theory of Deviance, de 1973 –, espraiando-se na Alemanha (F. Sack, J. Feest,
G. Smaus, M. Baurman), Itália (D. Mellossi, M. Pavarini, M. Simondi e A. Baratta),
Holanda, França, o restante da Europa e Canadá. No Brasil é visível na obra de
Roberto Lyra – Criminologia Dialética (1972) –, e a partir das obras de J. Cirino
dos Santos – A Criminologia da Repressão (1979) e A Criminologia Radical
(1981).
Surge como uma criminologia eminentemente marxista, tecendo críticas
tanto ao interacionismo, quanto aos estudos de etnometodologia, sobretudo em
face de seus pressupostos conservadores do status quo. A criminologia radical
ou, como afirma Baratta ao referir-se aos pressupostos da criminologia crítica,
que, no entanto, também se aplicam aqui, é “uma teoria materialista, econômico-
política, do desvio, dos comportamentos socialmente negativos e da
criminalização, um trabalho que leva em conta instrumentos conceituais e
hipóteses elaboradas no âmbito do marxismo” [32].
Visa à redefinição do objeto da criminologia e por isso, como diz Dias, é
uma “criminologia da criminologia”, pela crítica que encerra [33]. Mas não só isso.
Rechaça o próprio mecanismo capitalista que permeia a sociedade
contemporânea. Por isso mesmo, não pretende proteger a sociedade do crime,
mas o próprio indivíduo da sociedade punitiva. São claras as palavras de J.
Cirino dos Santos quando a define:
“a criminologia radical vincula o fenômeno
criminoso à estrutura das relações sociais,
mediante conexões diacrônicas entre
criminalidade e condições sociais
necessárias e suficientes a sua existência.
Como se vê, muda o objeto de análise para
o conjunto das relações sociais, mostrando
que, primeiramente, são criminosos (e
criminógenos) os sistemas sociais que
produzem, através de suas estruturas
econômicas e instituições jurídicas e políticas
do Estado, as condições necessárias e
suficientes para a existência do
comportamento criminoso (...)” [34]
Para além de um século de história do lançamento da obra L’Uomo
delinquente (1876), o determinismo endógeno das teorias antropológico-causais
ainda persiste, não tanto como parâmetro de investigação metodológica, mas na
ideologia de tratamento, objetivando substituir a sanção pela terapia impositiva,
cujo apoio teórico se faz presente no meio acadêmico, e sentido mais
drasticamente no discurso dos políticos e representações sociais, quando do
avistar de reformas político-criminais.
4. REFERÊNCIAS
ALBRECHT, Peter-Alexis. Criminologia: uma fundamentação para o Direito Penal.
Tradução: Juarez Cirino dos Santos e Helena Schiessl Cardoso. Rio de Janeiro/Curitiba: Lumen
Juris/ICPC, 2010.
BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e crítica do direito penal: introdução à
sociologia do direito penal. Tradução Juarez Cirino dos Santos. 2.ed. Rio de Janeiro: Freitas
Bastos: Instituto Carioca de Criminologia, 1999.
COMTE, Augusto. Curso de filosofia positiva. Traduções de José Arthur Giannotti e
Miguel Lemos. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
DIAS, Jorge de Figueiredo e ANDRADE, Manuel da Costa. Criminologia: o homem
delinquente e a sociedade criminógena. Editora Coimbra, 1997. Coimbra.
FREITAS, Ricardo de Brito A. P. As razões do positivismo penal no Brasil. Rio de
Janeiro: Lumen Juris, 2002.
HASSEMER, Winfried e MUNÕZ CONDE, Francisco. Introduccion a la Criminologia y
al Derecho Penal. Valencia: Tirant Lo Blanch, 1989.
LISZT, Franz Von. Tratado de Direito Penal Alemão: Tomo I. Tradução de José Higino.
Rio de Janeiro: Typographia Leuzinger, 1899.
SANTOS, Juarez Cirino dos. A Criminologia Radical. 2ª ed. Curitiba: ICPC: Rio de
Janeiro: Lumen Juris, 2006.
SYKES, Gresham M. The Rise of Critical Criminology. 65 J. Crim. L. & Criminology 206
(1974). p. 206 e segs.
TAVARES, Juarez. Teoria do injusto penal. Belo Horizonte: Editora Del Rey, 2000.
5. NOTAS
1 HASSEMER, Winfried e MUNÕZ CONDE, Francisco. Introduccion a la Criminología
y al Derecho Penal. Pág. 53.
2 Não obstante a assertiva não se configure como completamente correta, tal como
salienta Figueiredo Dias, Jorge. Criminologia: o homem delinquente e a sociedade criminógena.
Pág. 5-6, no sentido de que antes mesmo do positivismo a escola clássica já empregara métodos
de abordagem acerca do problema do crime.
3 Baratta, Alessandro. Criminologia Crítica e Crítica do direito penal, editora Revan.
Pág. 38.
4 LISZT, Franz Von. Tratado de Direito Penal Alemão: Tomo I. Tradução de José
Higino. Rio de Janeiro: Typographia Leuzinger, 1899. Pág. 123.
5 COMTE, Augusto. Curso de filosofia positiva. Traduções de José Arthur Giannotti e
Miguel Lemos. São Paulo: Abril Cultural, 1978, pág.. 43
6 TAVARES, Juarez. Teoria do injusto penal. Belo Horizonte: Editora Del Rey, 2000.
Pág.. 32 et seq.
7 Baratta, Alessandro. Criminologia Crítica e Crítica do direito penal. Pág. 31.
8 Idem.
9 Figueiredo Dias, Jorge. Criminologia: o homem delinquente e a sociedade
criminógena. Pág. 8.
10 Baratta, Alessandro. Criminologia Crítica e Crítica do direito penal. Pág. 38-39.
11 Figueiredo Dias, Jorge. Criminologia: o homem delinquente e a sociedade
criminógena. Pág. 10-11.
12 Figueiredo Dias, Jorge. Criminologia: o homem delinquente e a sociedade
criminógena. Pág.16.
13 Baratta, Alessandro. Criminologia Crítica e Crítica do direito penal. Pág. 38-39.
14 Figueiredo Dias, Jorge. Criminologia: o homem delinquente e a sociedade
criminógena. Pág.17-19.
15 Figueiredo Dias, Jorge. Criminologia: o homem delinquente e a sociedade
criminógena. Pág.12.
16 HASSEMER, Winfried e MUNÕZ CONDE, Francisco. Introduccion a la Criminología
y al Derecho Penal. Pág.54
17 Idem.
18 Albrecht, Peter-Alexis. Criminologia: uma fundamentação para o Direito Penal. Pág.
26.
19 Ver, sobre o tema, a obra As razões do Positivismo Penal no Brasil, de Ricardo de
Brito.
20 Albrecht, Peter-Alexis. Criminologia: uma fundamentação para o Direito Penal. Pág.
26.
21 Figueiredo Dias, Jorge. Criminologia: o homem delinquente e a sociedade
criminógena. Pág.43.
22 Sykes, Gresham M. The Rise of Critical Criminology. Pág. 206.
23 Idem.
24 Figueiredo Dias, Jorge. Criminologia: o homem delinquente e a sociedade
criminógena. Pág.43.
25 Sykes, Gresham M. The Rise of Critical Criminology. Pág. 206.
26 Figueiredo Dias, Jorge. Criminologia: o homem delinquente e a sociedade
criminógena. Pág.46.
27 Baratta, Alessandro. Criminologia Crítica e Crítica do direito penal. Pág.149.
28 Baratta, Alessandro. Criminologia Crítica e Crítica do direito penal. Pág.161.
29 Figueiredo Dias, Jorge. Criminologia: o homem delinquente e a sociedade
criminógena. Pág.50.
30 Figueiredo Dias, Jorge. Criminologia: o homem delinquente e a sociedade
criminógena. Pág. 54-55.
31 Figueiredo Dias, Jorge. Criminologia: o homem delinquente e a sociedade
criminógena. Pág.55.
32 Baratta, Alessandro. Criminologia Crítica e Crítica do direito penal. Pág.159.