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O HISTORIADOR E A LITERATURA COMO FONTE HISTÓRICA Leandro Dos Santos Fernandes

Através deste trabalho apresenta-se o valor dos textos literários para a construção do saber histórico. Além disso, analisa, de uma forma clara e precisa, a interdisciplinaridade entre Literatura e História e as contribuições da primeira para a segunda dentro de uma análise contextual. Para tais fins utiliza-se referenciais bibliográficos que se debruçam sobre tal questão, autores que abordam com devido conhecimento os levantamentos pertinentes de tal tema.
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O HISTORIADOR E A LITERATURA COMO FONTE HISTÓRICA Leandro Dos Santos Fernandes

Através deste trabalho apresenta-se o valor dos textos literários para a construção do saber histórico. Além disso, analisa, de uma forma clara e precisa, a interdisciplinaridade entre Literatura e História e as contribuições da primeira para a segunda dentro de uma análise contextual. Para tais fins utiliza-se referenciais bibliográficos que se debruçam sobre tal questão, autores que abordam com devido conhecimento os levantamentos pertinentes de tal tema.
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Anais Eletrônico

IX EPCC – Encontro Internacional de Produção Científica UniCesumar


Nov. 2015, n. 9, p. 4-8
ISBN 978-85-8084-996-7

O HISTORIADOR E A LITERATURA COMO FONTE HISTÓRICA

1
Leandro dos Santos Fernandes

RESUMO: Através deste trabalho pretendo apresentar o valor dos textos literários para a construção do saber
histórico. Além disso, tenho o propósito de analisar, de uma forma clara e precisa, a interdisciplinaridade entre
Literatura e História e as contribuições da primeira para a segunda dentro de uma análise contextual. Para tais fins
utilizei referenciais bibliográficos que se debruçam sobre tal questão, autores que abordam com devido
conhecimento os levantamentos pertinentes de tal tema.

PALAVRAS-CHAVE: História; Literatura; Pesquisa histórica.

1 INTRODUÇÃO

Uma das maiores dificuldades do ensinar História está em aproximar o conteúdo apresentado à realidade
atual, ou, a sua importância para o cenário seja social, político em que estamos inseridos. Creio que a junção da
Literatura no ensino Histórico seria uma ferramenta fundamental para realizar esse processo, uma ferramenta
infelizmente pouco utilizada na educação brasileira.
Acredito que a Literatura tem um papel fundamental no auxílio de diversas questões complexas do ensino
de História, e que seria de extrema importância para se criar nos alunos uma maior interação das questões
históricas e a importância das mesmas em suas vidas, Lukács trabalha sobre essa abordagem com maestria “A
Literatura vale algo – e, então, vale muito – precisamente quando traduz para a forma um passo real dado pelo
movimento.” (2010, p. 291). Ou seja, a Literatura em muitas vezes é um relato do real e pode ser aliado ao curso
dos contextos históricos a quais pretendemos estudar.
Existem diversas questões problemáticas que um profissional do ensino na área de História pode refletir,
por ser uma ciência a qual está aberta aos mais diversos pensamentos e vertentes filosóficas. Lecionar História
sempre foi uma prática em constante transmutação, hoje novamente existe a necessidade de uma abordagem
diferenciada de como construir o saber histórico. Somente compreender como e porque ocorreu certos fatos
históricos já não se mostra suficiente, é necessário realizar uma edificação de um olhar mais aberto e profundo
sobre tais fatos, como demonstra Ruiz:

Ensinar a edificar o próprio ponto de vista histórico significa ensinar a construir conceitos
e aplica-los diante das variadas situações e problemas; significa ensinar a selecionar,
relacionar e interpretar dados e informações de maneira a ter uma maior compreensão
da realidade que estiver sendo estudada; ensinar a construir argumentos que permitam
explicar a si próprios e aos outros, de maneira convincente, a apreensão e compreensão
da situação histórica; significa, enfim, ensinar a ter uma percepção o mais abrangente
possível da condição humana, nas mais diferentes culturas e diante dos mais variados
problemas. (RUIZ, 2009, p. 78).

A literatura pode ser um dos aparatos a realizar a construção de um saber histórico mais profundo e
intenso, pois é uma opção para se analisar e comparar com as demais fontes históricas, o historiador deve estar
atento a utilização dessa espécie de fonte e os devidos cuidados que se necessita ao realizar estudos sobre a
mesma.
São inúmeros os literatos a quais podemos encontrar aspectos dos diversos períodos da história da
humanidade, tomando como alguns exemplos, encontramos na ironia e sarcasmo de Machado de Assis em suas
obras como Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba, onde se é possível ter uma visão da sociedade
brasileira no final do século XIX nos mais variados sentidos, toda a relação sociocultural do final do período
monárquico e a crescente pujança dos ideários republicanos no Brasil, ou todo o drama e tragédia em Jude the
obscure (“Judas, o obscuro”) de Thomas Hardy, demonstrando todos os anseios e sonhos de um simples
trabalhador britânico ao tentar vencer o destino a qual foi proposto pela sociedade em que está inserido, revelando
um mundo distante dos personagens demonstrados por exemplo por Jane Austen, além disso em tal obra fica
evidente as diversas relações estreitas e divergentes do campo e a cidade na Inglaterra do período final do século
XIX.

1
Graduado em História pela Universidade Estadual de Maringá – UEM – Maringá – PR. Pós graduando do Curso de Especialização em
Metodologia do Ensino de História e Geografia do Centro Universitário Cesumar – UNICESUMAR, Maringá – PR.

IX EPCC – Encontro Internacional de Produção Científica UniCesumar


03 a 06 de novembro de 2015
Maringá – Paraná – Brasil
Anais Eletrônico
IX EPCC – Encontro Internacional de Produção Científica UniCesumar
Nov. 2015, n. 9, p. 4-8
ISBN 978-85-8084-996-7

Através da leitura de tais obras citadas acima, entre outras, e o estudo dos diversos pesquisadores que
trabalham com essa relação tão próxima entre literatura e história, iniciou-se a ideia de realizar tal trabalho, com o
intuito de acrescentar e dialogar com algumas concepções a quais possam realizar uma junção mais proveitosa
dessas duas áreas de extrema importância para o conhecimento humano.

2 A LITERATURA SOBRE A ÓTICA DO HISTORIADOR

O Historiador ao se defrontar com uma obra literária como fonte histórica, deve atentar-se a diversos
aspectos de grande relevância para que compreenda e dialogue de uma forma clara e objetiva com esse tipo de
fonte. Ao analisar-se uma narrativa literária é necessário pensar em questões importantes que ultrapassam o
simples limite da escrita em si, por exemplo, contextualizar o texto ao qual se realiza o estudo, pesquisar onde e
quando foi produzida a obra, compreender em que ambiente social, político estava inserido o autor ao criar tal
narrativa, pois são características totalmente perceptíveis em obras literárias, e são pontos importantes para
conseguir alcançar maior aprofundamento cientifico-histórico sobre essa fonte (BARROS, 2004 apud BORGES,
2010, p. 96).
Ao realizar uma análise sobre uma obra literária para a utilização da mesma como fonte de estudo, é
necessário ter a perspicácia de compreender os meandros dessa escrita, ou seja, não realizar uma análise como
uma fonte que tem como única utilidade amparar as demais fontes clássicas, mas sim entender que a literatura
transcende muitos valores socioculturais que são passíveis de inúmeras interpretações, e que cabe ao historiador
conseguir assimilar a conjunção da pesquisa histórica com o estudo em específico da literatura, são cuidados
extremamente valiosos, pois realizando uma análise sobre tais obras como simples fontes documentais o
historiador corre o risco de perder todo encanto e magnitude da literatura, como nos demonstra Chartier:

Porque há historiadores que se interessam em fazer leituras das obras literárias, mas
frequentemente sem sucesso, pois as liam como se fossem um documento singular que
ilustrava os resultados ou que corroborava o que as fontes e as técnicas clássicas da
história tinham mostrado. Assim, é uma leitura redutiva, puramente documental e que
destrói o próprio interesse de se confrontar com a literatura. (CHARTIER, 2001, p. 91).

Existem diversos pontos a quais o historiador deve-se levar em consideração ao realizar o estudo da
literatura, além dos pontos a quais foram demonstrados acima, como a contextualização e os diversos aspectos
socioculturais que possam envolver uma obra literária, existem outros fatores importantes que se deve
compreender ao utilizar a literatura como fonte de pesquisa histórica, por exemplo, o leitor a qual é destinada a
obra. Eis um fator intrigante e um tanto tortuoso ao utilizar a literatura como fonte de pesquisa histórica, realmente
não é uma tarefa fácil assimilar a qual tipo de leitor foi destinado ou imaginado pelo autor de certas obras, porém a
resposta se encontra na própria narrativa, o historiador deve estar atento ao discurso que está inserido na mesma,
a linguagem sobre o qual o autor se propõe a utilizar, organização das ideias no texto, para que se possa chegar
cada vez mais próximo de um entendimento quanto aos diversos aspectos que envolvem uma obra literária, como
fica evidenciado neste trecho de Borges:

Tais questões dizem respeito a aspectos elementares de nosso aparato básico de


instrumentais de trabalho de investigação histórica. Assim, devemos ficar atentos aos
mecanismos de funcionamento da comunicação, do pensamento, das variadas práticas
socioculturais, das visões de mundo e das memórias. Os tipos de textos, a língua que
falamos e na qual escrevemos, a linguagem pratica socialmente, que organizam a
compreensão das experiências sociais, e a linguagem particular de uma produção, seja
literária ou de outros objetos simbólicos, os quais representam tais experiências e formas
de compreensão e interpretação dos seus significados e sentidos, requerem ser
problematizados. (BORGES, 2010, p.97).

Através de alguns textos literários podemos exemplificar a construção do pensamento histórico, utilizando
de um método comparativo entre a história e a literatura, é o que alguns historiadores como Hartog propõem,
seguindo o método proposto pelo mesmo, Ruiz explicita:

A convenção da veracidade, própria da história, e a convenção da ficcionalidade, própria


da literatura, permitem-nos estabelecer um método que, seguindo as diretrizes de
Hartog, poderá ajudar-nos a elaborar essa abordagem comparativa.
Podemos trabalhar os diferentes modelos históricos através de um documento ou de um
texto literário clássico. Podemos usar, como método de trabalho em salas de aulas, tanto
um texto de Tucídides, para mostrar a “História, mestra da vida”, como um texto do A
vida e as estranhas aventuras de Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, tanto um texto de
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Marx, para identificar uma “história teleológica”, como a Utopia de Thomas More; tanto
um documento da “história presente” como uma leitura de Palomar, de Ítalo Calvino.
(RUIZ, 2009, p.78).

A utilização de uma obra literária como fonte de conhecimento histórico requer o levantamento de algumas
questões, por exemplo, qual o assunto abordado, quais as ideias principais presentes no texto, a obra possui um
olhar crítico, de passividade ou de legitimação de algum processo histórico? Caso tenha, qual a relação do autor
perante esse processo estudado? Estes são alguns cuidados que um professor de História precisa atentar-se ao
utilizar esse tipo de fonte em sala de aula, tendo como um objetivo maior uma contextualização com o presente,
realizando uma problematização do texto, propondo aos alunos uma indagação sobre a obra, para que os
mesmos possam compreender o contexto a qual pretende demonstrar o professor:

O principal é saberem que a forma literária contém uma temporalidade e de que modo
ajuda na compreensão de alguns aspectos de determinada época que se quer estudar.
Nesse sentido, o professor deve propor problemas a serem refletidos durante a leitura de
determinado fragmento de uma obra literária; sempre com o intuito de um convite à
leitura mais ampla, assim, esse tipo de inciativa tem como objetivo muito mais propor
problemas do que resolver questões históricas e/ou historiográficas a partir da literatura.
Noutro sentido, é preciso que a problematização proposta constitua uma relação com o
presente, com a realidade por nós vivida, sobretudo porque a questão, específica do
professor de história, não é recuperar do passado literário um conjunto de textos que não
aludam a uma especificidade histórica ou não estabelecem qualquer relação com o
nosso presente. (PIRES, 2006. P.10).

Um dos diferenciais do historiador ao se aprofundar nos estudos da literatura, é a questão da estética da


obra, o historiador pode ampliar o seu leque de opções documentais para a literatura marginal, ultrapassando a
necessidade de compreensão somente dos grandes clássicos, pois a sua análise pode estar baseada em
questões socioculturais ou políticas de um texto, ou seja, por mais que seja uma literatura de pouco valor estético,
para o historiador pode ser uma fonte essencial para compreender diversas questões sobre a sociedade ou época
a quais estas obras fazem parte, pois independente da “aparência” a qual demonstra à escrita, elas podem ser
essenciais para um conhecimento histórico mais aprofundado, Pesavento trabalha com essa questão da seguinte
forma:

Por outro lado, esta utilização da Literatura pela História como fonte implica uma certa
relatividade do estético, pois o texto literário de que se vale o historiador pode passar ao
largo dos critérios ou cânones consagrados pela crítica. Assim a literatura medíocre, de
pouco valor, vulgar, mas de consumo em uma determinada época, pode dizer muito
sobre o gosto, as preferências, as sensibilidades dos homens em um certo momento.
Versos de pé quebrado, folhetins muito distantes do que seja a alta literatura ou
romances populares revelam um horizonte de expectativas pertinente, por exemplo, ao
imaginário das camadas populares de um momento dado da história. Isto não quer dizer,
em absoluto, que a escrita da História não tenha, entre as suas preocupações a estética,
mas sim que, quando usa a Literatura como fonte, o nível desta fonte, enquanto escrita,
pode ser baixo sem que isto invalide o seu caráter de marca ou registro de historicidade.
(PESAVENTO, 2003, p. 40).

Porém ao utilizar uma literatura com um menor rigor estético, o historiador deve atentar-se para a
apropriação de sentidos desse tipo de escrita, ou seja, ter certo cuidado para não criar sentidos e intenções a
quais o autor não possuía ao escrever. As obras clássicas estão inseridas dentro de um cânon, a qual possui sua
validade e importância e não deve ser ignorado, assim como, devemos compreender que algumas obras não
fazem parte dessa linha de medida a qual a tornaria como uma literatura de alto valor estético, devido a uma série
de questões como o mercado literário, editoras, livrarias, instituições de ensino. Chartier nos mostra como essa
questão é estreita e interessante:

Contudo, introduzir obras ignoradas pelo cânon é algo um tanto paradoxal. Se, por um
lado, implicar rejeitar os mecanismos que estabeleceram as seleções, por outro,
estabelecem-se obras anteriormente marginalizadas como obras legítimas. Isso deve a
que se lhes atribui algo da densidade, da complexidade e da pluralidade reconhecível
nas obras clássicas. Assim, vemos que inclusive nas perspectivas mais políticas, que
recusam a escolha do repertório canônico a partir da crítica do mesmo tipo que os
aplicados a Shakespeare, a Molière ou a Lope de Veja. Quero dizer que há, nestas
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obras ignoradas e marginalizadas, algo que pode abri-las a reapropriações; e


encontramos de novo a questão de porque é possível a sobrevivência cultural.
(CHARTIER, 2001, p. 106).

3 O HISTORIADOR E O LITERATO

A figura do autor literário e do historiador estão ao mesmo tempo interligadas, porém possuem suas
divergências. As semelhanças se encontram através das narrativas históricas a quais possuem algumas
características da narrativa literária, tornando a escrita acadêmica do historiador menos convencional, podemos
citar como exemplos de historiadores que mesclam essas duas narrativas: Carlo Ginzburg, Lawrence Stone, Peter
Gay, Robert Darnton entre outros. Esses autores conseguiram conciliar de uma forma incrível o estudo cientifico
com a beleza da escrita literária:

Os adeptos dessa tendência têm dado mostras de que estilo e pesquisa não se opõe, ao
contrário se completam e uma pesquisa de alto cunho científico pode ser valorizada por
um estilo que revele trabalho e preocupação com o modo de dizer, isto é, uma pesquisa
ganha valor com estilo literário.
O discurso literário resulta de uma reflexão e se constitui em uma mediação social, tal
como o discurso histórico. Daí ser possível através das técnicas de expressão literária,
tais como os modos de narrar e construir pontos de vista, poder-se revelar a história.
(SANTOS, 2007, p. 07).

Quanto aos aspectos diferenciais entre o escritor de narrativas literárias e o pesquisador do campo da
história, temos a questão da ficção e veracidade dos fatos, enquanto o historiador possui uma preocupação de
maior proporção quanto ao questionamento dos acontecimentos para encontrar a resposta mais próxima do real, o
escritor literário não tem essa necessidade ou podemos dizer “peso sobre as costas”, ele pode transitar entre a
imaginação e a realidade de uma forma mais espontânea, pode vivenciar, se tornar cúmplice do fato-ficção
(SANTOS, 2007).
Um dos aspectos interessantes ao se estudar a literatura como fonte histórica é a questão dos
sentimentos que envolvem essa escrita, já salientamos os aspectos socioculturais e políticos que podem envolver
uma narrativa desse tipo, porém o historiador deve lidar com o aspecto sentimental a qual poderia estar inserido o
autor da obra, ou seja, o autor pode demonstrar através do texto uma realidade embasada pela sua percepção do
momento:

A literatura registra e expressa aspectos múltiplos do complexo, diversificado e


conflituoso campo social no qual se insere e sobre o qual se refere. Ela é constituída a
partir do mundo social e cultural e, também, constituinte deste; é testemunha efetuada
pelo filtro de um olhar, de uma percepção e leitura da realidade, sendo inscrição,
instrumento e proposição de caminhos, de projetos, de valores, de regras, de atitudes,
de formas de sentir... Enquanto tal é registro e leitura, interpretação, do que existe e
proposição do que pode existir, e aponta a historicidade das experiências de invenção e
construção de uma sociedade com todo seu aparato mental e simbólico. (BORGES,
2010, p.98).

O campo de visão do literato e do historiador possuem suas diferenças, porém, analisando de uma
maneira mais profunda percebemos que, os dois têm diversas semelhanças no modo de analisar a realidade,
cada qual com a sua carga de conhecimento e objetivos. São diferentes formas de registrar os fatos, o historiador
possui como objetivo alcançar o nível mais próximo de veracidade de tal acontecimento, para isso utiliza-se das
diversas ferramentas e métodos possíveis, já o literato também pode demonstrar através de uma obra um
acontecimento real, porém de uma maneira ficcional, se utilizando dos diversos recursos literários, creio que esses
dois campos, o da História e da Literatura se entrelaçam nesse momento, pois é quando surge uma necessidade
de compreensão por parte dos estudiosos de ambas as partes, Santos através dos estudos das ideias do
historiador Hayden White nos mostra a semelhança do olhar do literato e do historiador sobre a realidade:

Como estabelece Hayden White em seu ensaio, as ficções da representação factual, a


realidade pode ser representada de forma indireta pelo romancista, que usa a
imaginação, mediante a figuração da linguagem, enquanto o historiador registra
propostas que afirma corresponder aos detalhes extratextuais. Porém, todo discurso
escrito revela uma forma de conhecimento mimético, isto é tanto a ficcional quanto o não
ficcional representam apenas a realidade acontecida ou imaginada. Tanto os história
quanto romance ou poesia são textos e como tais necessitam ser entendidos através
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dos recursos de conhecimento específicos para leitura de palavras escritas. Enfim,


literatura e história limitam-se em um trópico sutil, os limites do discurso, isto é, gêneros
discursivos, mas diferentes, que utilizam recursos narrativos similares com intenções
distintas. (SANTOS, 2007, p. 09).

Portanto por mais que haja alguns aspectos que possam dificultar a conjunção das disciplinas de História
e Literatura, fica evidente que existem mais pontos que possam auxiliar a interdisciplinaridade entre as mesmas, o
trabalho em conjunto entre os profissionais de ambas as áreas seriam de extrema importância para uma maior
abrangência no estudos das obras literárias, procurando um distanciamento de análise superficiais sobre as
mesmas, compreendendo-se assim que se trata de um objeto de extremo valor histórico, pois são frutos de um
olhar diferenciado sobre a realidade, a qual o historiador não possui ainda tanta intimidade. Se relacionando com
essa espécie de fonte é possível criar-se novos modos de se descrever o saber histórico, claro sempre vinculado
nos objetivos e métodos específicos da área da História, porém tornando o campo de visão do historiador mais
profundo e claro, pois a literatura tem como um dos propósitos também trazer além do prazer da leitura em si, o
conhecimento de realidades a qual o leitor não está inserido, através dessa ótica é possível utilizar a obra literária
como importante ferramenta de estudos sobre diversos fatos históricos.
Um dos aspectos que cria uma ligação profunda entre História e Literatura, seria a recriação do real
através do conceito de representação na construção de um imaginário social, pois ambas em suas devidas formas
tem como preocupação o real. Outra questão que indica um laço estreito entre a ciência histórica e a arte literária,
seria o tempo, na História demonstra-se o que poderia ter se passado ou que se passou e na literatura nem
presente nem passado, pois a literatura pode inventar um passado ou construir um futuro, por isso a importância
de se analisar o período em que a obra literária analisada foi produzida. (PESAVENTO, 2003). Referente a
questão do imaginário podemos estabelecer uma conexão sobre compreender o que julgamos ser ficção, temos
como conhecimento comum que ficção se trata de tudo aquilo que não possui veracidade, porém ao se utilizar a
literatura como fonte de pesquisa histórica essa percepção tem que alterar-se, compreender que a ficção nada
mais se baseia na ideia de homens que a escreveram, sendo influenciados por diversos aspectos que os rodeiam,
como demonstra Sandra Pesavento:

Ora, situar a ficção para além do verdadeiro e do falso é não somente restabelecer o
imaginário como fundamento do ser, como capacidade humana originária, possível de
recriar o mundo por um mundo paralelo de sinais e nele viver; é também admitir que,
como analisa Castoriadis, tudo o que existe é identificado, percebido, nomeado,
qualificado e expresso pelo pensamento e pela linguagem. Estamos, pois, diante, de
uma construção social da realidade, obra dos homens, representação que se dá a partir
do real, que é recriado segundo uma cadeia de significados partilhados. Entre estas
formas de recriação do mundo, de forma compreensiva e significada, se situariam a
História e a Literatura, como diferentes discursos portadores de um imaginário.
(PESAVENTO, 2003, p.35).

Abordando essa concepção de ficção, Pesavento (2003) nos propõe a compreender a História como uma
ciência que trabalha com a ficção, pois o historiador tem a necessidade de recriar ideias, sentimentos e formas de
um mundo a qual não faz parte, porém com ferramentas podemos assim dizer diferentes do literato, tendo que
analisar, selecionar suas fontes para compreender aspectos de uma sociedade a qual não esteve inserido, isso
torna a História e Literatura ainda mais próximas:

O fato da História se encontrar no domínio do não verificável – pois não seria possível
repetir a experiência do tempo já vivido – Paul Ricoeur se posiciona pela ficcionalização
da História, situando a atividade do historiador como a construção imaginária de um ter
sido, induzindo o leitor a ver como, ou seja, a tomar a sua narrativa sobre o passado
como o próprio passado, ocupando o lugar deste. Tal como ele, Hans Robert Jauss
também se posiciona por esta postura que faz a História uma quase Literatura:
historiadores fazem ficção, pois não recolhem simplesmente o passado dos arquivos.
Eles constroem uma experiência do vivido, reconstituem uma temporalidade que só pode
existir pelo esforço da imaginação, e transpõem esta representação do passado para
uma narrativa. (PESAVENTO, 2003, p. 37).

Através desse entendimento quanto a relação História, literatura e ficção, podemos compreender que a
realidade pode ser demonstrada de formas diferentes, neste caso o literato que utiliza da imaginação tendo como
ferramenta a figura de linguagem e o historiador que utiliza de métodos específicos para construir elementos
extratextuais das narrativas literárias. Porém os dois são frutos da realidade, cada qual do seu modo, tanto a
escrita ficcional quanto a não ficcional, pois ambas são construídas através do pensamento de pessoas que são
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influenciadas pelos diversos fatores de seu tempo e respectivas sociedades, sendo estes mesmos fatores
essenciais para uma maior utilização das obras literárias como fontes históricas.

4 CONCLUSÃO

A interdisciplinaridade entre História e Literatura se torna cada vez mais ampla e evidente, realizando a
análise dos diversos autores que trabalham com o tema é possível perceber o quanto a Literatura está se
tornando um campo fértil para os estudos históricos, uma oportunidade imensa de ampliar o horizonte sobre
diversas questões que a História ainda busca solucionar, conhecer ou simplesmente ampliar, rever aquilo que já
foi proposto, existem diversos historiadores que realizam estudos de extremo valor para uma maior compreensão
dessa relação tão próxima e o número tende a crescer, o estudioso do campo da História busca novos ares, é um
momento de ampliar o leque de opções quanto ao estudo de fontes documentais, e a Literatura é uma grande
aliada para esse propósito.
Porém por ser uma fonte documental um tanto quanto diferente das demais, exige do historiador maiores
cuidados ao utilizar das mesmas, são diversos aspectos que podem fazer diferença ao realizar estudos sobre
obras literárias, os autores a quais pesquisei para embasar este trabalho possuem opiniões semelhantes sobre os
métodos a serem utilizados no estudo da literatura para a pesquisa histórica, porém alguns pontos divergem, o
que é interessante para quem pretende iniciar pesquisas nesse âmbito, pois auxiliam a ampliar o campo de visão
sobre essa questão. Outro ponto importante que vale ressaltar, é a profundidade de conhecimento histórico que se
pode encontrar em uma obra literária, lendo sobre os diversos métodos propostos para a realização de uma
pesquisa histórica envolvendo a literatura, pode-se entender como a relação autor-obra, pois se estende além
desse conceito, envolve muitas vezes toda uma sociedade ou um período de tempo histórico.
Acredito que ainda existam algumas lacunas a serem preenchidas na área da Literatura como fonte de
saber histórico, existem muitas obras que ainda podem contribuir com o conhecimento de diversas áreas da
história e não foram exploradas por historiadores. Uma das questões levantadas pelos autores que se debruçam
sobre o tema e acredito ser interessante para o campo da História, consiste na análise de obras além do cânon
distinguido pela crítica literária como uma literatura de alto padrão, claro que existem muitos clássicos a serem
analisados e que necessitam do olhar do historiador, porém a literatura dita “marginalizada” também possui um
espaço vago a ser debruçado pela visão histórica, porém como demonstrado neste presente trabalho, realizar tais
estudos com os devidos cuidados necessários ao se debruçar sobre esse tipo de fonte.
A Literatura é uma arte essencial para a humanidade, seja para a realização do prazer da leitura, seja
para a necessidade de um conhecimento maior sobre diversos assuntos. Neste âmbito do conhecer, o escrito
literário se encaixa perfeitamente enquanto objeto da História, pois a Literatura revela anseios e sentimentos de
uma sociedade, afinal, se trata das ideias de homens que, ao criar tais obras, eram influenciados pelos aspectos
socioculturais e políticos de sua época.

REFERENCIAS

BORGES, Valdeci Rezende. História e Literatura: Algumas Considerações. Revista de Teoria da História Ano 1,
Número 3, 2010. Disponível em: < http://www.historia.ufg.br/up/114/o/ARTIGO__BORGES.pdf>. Acesso em: 20
ago. 2015.

CHARTIER, Roger. Cultura Escrita, Literatura e História. Porto Alegre: Artmed, 2001.

LUKÁCS, György. Marxismo e teoria da literatura. 2 ed. São Paulo: Expressão Popular, 2010.

PESAVENTO, Sandra Jatahy. O mundo como texto: leituras da História e da Literatura. Revista História da
Educação, Número 14, 2003. Disponível em: <http://seer.ufrgs.br/asphe/article/view/30220>. Acesso em: 20 ago.
2015.

PIRES, Sidney Oliveira Júnior. A obra literária como recurso no ensino de História. In: Anais do XVIII Encontro
Regional de História – O historiador e seu tempo. ANPUH/SP – UNESP/Assis, 2006. CD-ROM. Disponível em:
<http://www.anpuhsp.org.br/sp/downloads/CD%20XVIII/pdf/ORDEM%20ALFAB%C9TICA/Sidney%20Oliveira%20
Pires%20Junior.pdf>. Acesso em: 21 ago. 2015.

RUIZ, Rafael. Novas formas de abordar o ensino de História. In: KARNAL, Leandro (Org.) História na sala de
aula: conceitos, práticas e propostas. São Paulo: Contexto, 2009. p. 75-91.

SANTOS, Zeloí Aparecida Martins dos Santos. História e Literatura: Uma relação possível. Revista
Científica/FAP, Ano 2, V. 2, 2007.

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