Texto reflexivo: Angústia existencial em tempos de modernidade
líquida
Thalles Azevedo Ladeira – Módulo VI
Nesse módulo 6, foi apresentado para nós o mito do Pinóquio, um boneco feito
de madeira e que tinha o sonho de se tornar um menino, mas não um menino qualquer,
um menino de verdade. Baseado no mito do Pinóquio foi posta para nós a reflexão a
respeito do ser humano nos dias atuais: será que estamos sendo de verdade? Ou seja,
autênticos com nossas escolhas, com nossa forma de pensar e de viver, ou será que
estamos sendo subsumidos às escolhas dos nossos pais, do nosso marido e/ou esposa e
estamos deixando a vida passar sem sermos verdadeiros nas nossas decisões?
Um ser humano de verdade é aquele que precisa primeiramente se respeitar,
conhecer seus limites, suas verdades mais íntimas, e saber ser coerente com elas. Um
ser humano de verdade é aquele que não vai pela cabeça dos outros, que sabe escutar
conselhos e opiniões, mas se baseia pelos seus próprios valores. É aquele que sabe
muito bem quem é, tem um bom conhecimento de si mesmo, e sabe que está em um
processo constante de vir a ser, pois afinal de contas, o ser humano está sempre em
reforma. Um ser humano de verdade sabe exatamente onde está, e aonde quer chegar,
constrói a sua vida baseado em perspectivas.
Tudo o que Pinóquio queria ser era um menino de verdade, pois se analisarmos
bem, o boneco Pinóquio em sua versão para o teatro, vive sendo controlado por cordas
do seu dono e criador. Ele não sabe exatamente quem é, o que faz e porque faz o que
faz. Suas escolhas não são autênticas, são regidas pela vontade de outros.
Sob esse aspecto, já conseguimos traçar um panorama a respeito do que seja um
ser humano de verdade e um ser humano de mentira. Agora, eu gostaria de aprofundar
nessa questão, trazendo um elemento fundamental, que é a sociedade dos tempos atuais.
De acordo com o sociólogo e filósofo Zygmunt Bauman (2001), vivemos no
tempo presente, relações baseadas em uma modernidade líquida, ou seja, relações feitas
para acabarem a qualquer momento, pautadas em uma descartabilidade do outro quase
que instantânea.
Essa fluidez nas relações interpessoais ocorre, sobretudo mediante o advento da
era globalizada, tornando muito fácil a conexão entre uma quantidade enorme de
pessoas diariamente, independente da localidade onde elas estejam.
Isso deu para o ser humano a sensação de que: “se as relações não estiverem do
jeito que eu gosto, eu descarto e procuro outra”, ou seja, a qualquer sinal de conflito ou
adversidade, é mais fácil partir para a próxima.
Essa liquidez nas relações comprova o que Bauman (2001) vem afirmando, de
que hoje, os relacionamentos escorrem por entre os dedos e de que a mudança e a
incerteza são as únicas coisas certas e permanentes, quando nos colocamos a analisar as
relações nos tempos atuais.
Mas o que de fato tem a ver as relações líquidas trazidas por Bauman com o
mito do Pinóquio? Aparentemente nada. Mas se analisarmos com atenção, o mito do
Pinóquio, assim como a teoria de Bauman, revelam o quanto o ser humano está
precisando se tornar um ser de verdade.
Um ser humano de verdade, antes de tudo, precisa romper com as cordas da
própria efemeridade social no qual ele vive. Precisa problematizar a sociedade no qual
ele está situado e se preciso andar na contramão do que o resto das pessoas estão
fazendo. Precisa nunca desistir de si mesmo e dar valor para as relações que o cercam,
pois quando A descarta B, A está dizendo muito sobre como ele enxerga a vida e a si
mesmo.
Esse modus operandi dos tempos atuais de estar sempre à procura da felicidade
em outras pessoas, em uma dinâmica aligeirada e efêmera revela o quanto o ser humano
deposita a sua felicidade em outro alguém e não em si mesmo, e talvez essa seja a chave
para começar a pertencer a si mesmo e se tornar um ser humano de verdade.
Em suma, se voltarmos mais uma vez para o mito do Pinóquio, perceberemos
que no meio da história apareceu uma fada, que foi a responsável por transformá-lo em
menino com sua varinha mágica, e deu para ele o caminho para ele se tornar de verdade,
ao dizer que ele precisa ser sincero e verdadeiro sempre. Diante disso, só nos resta
seguir o conselho da fada e assim nos tornarmos cada vez mais de verdade, livres,
emancipados, na medida em que decidirmos ser sinceros e verdadeiros conosco.
Referência:
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de janeiro: Jorge Zahar, 2001.
Referência bibliográfica:
ZIMERMAN, D. E. Fundamentos psicanalíticos: Teoria, técnica e clínica.
Editora Artemed. Porto Alegre. 2007.