MODALIDADES DE APRENDIZAGEM
Ancorada na Epistemologia Genética de Piaget, Fernández defende que desde o
nascimento o indivíduo cria maneiras de adquirir conhecimento, de aprender,
entretanto, para que a aprendizagem ocorra faz-se necessário a presença do ensinante
(aquele que ensina), do aprendente (aquele que é ensinado), de um vínculo entre eles
e um terceiro elemento, que é o objeto de conhecimento.
Desse modo, na descrição da referida autora o molde ou matriz primordial da
aprendizagem constrói-se a partir das primeiras experiências corporais com o
ensinante primário; a mãe ou alguém que exerça a função da maternagem:
“A modalidade de aprendizagem é um molde relacional, armado entre a
mãe como ensinante e o filho como aprendente, que continua construindo-
se nas posteriores relações entre personagens aprendentes e ensinantes
(pai, irmãos, avós, vizinhos, grupos de pertencimento, meios de
comunicação, professores) ao longo de toda a vida.” (FERNÁNDEZ, 1994, p.
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Assim, uma aprendizagem normal supõe uma modalidade de aprendizagem em que há
equilíbrio entre assimilação e acomodação; isto é, sem que uma se sobreponha a
outra.
Fernández discorre que a inteligência é uma das estruturas que intervém no processo
de aprendizagem, contudo, esta não pode ser separada do desejo e da corporeidade,
motivo pelo qual a autora utiliza o conceito modalidade de aprendizagem ao invés de
modalidade de inteligência. (FERNÁNDEZ, 1991).
Todavia, em Fernández, para além de Piaget e Paín, esse processo é ressignificado ao
incorporar quatro níveis de estruturação da aprendizagem, que se entrelaçam e se
afetam: o organismo biológico herdado, a inteligência como estrutura lógica e
cognitiva, o corpo constituído na relação com o outro e o desejo que responde por
uma significação simbólica.
Desse vínculo desenvolver-se-ão as modalidades de aprendizagem e de ensinagem
singulares do sujeito; ou uma modalidade de operar a inteligência de acordo com o
tipo de equilíbrio alcançado entre a assimilação e a acomodação. (FERNÁNDEZ, 1991).
A fim de entendermos esses processos assimilativos-acomodativos, recorremos
novamente à Alícia Fernández (2001), que explana que na presença de vinculação
negativa desenvolvem-se a escassez ou o excesso, denominados como
hipoassimilação, hiperassimilação, hipoacomodação e hiperacomodação, que
ocasionarão uma modalidade de aprendizagem enrijecida, sem flexibilidade e
sintomática no sujeito.
Na hipoassimilação observamos esquemas empobrecidos, que geram déficit lúdico,
criativo e imaginativo; enquanto na hiperassimilação os esquemas são internalizados
de modo prematuro, com predomínio do lúdico, da fantasia e da subjetividade
excessiva, que gera resistência aos limites e desrealiza de modo negativo o
pensamento.
Na hipoacomodação observamos que não foi respeitado o ritmo do aprendente e sua
necessidade de repetir experiências e de ter mais contato com os objetos, desse modo
por essa falta de estimulação há déficit simbólico e dificuldade de internalizar os
esquemas e imagens. Na hiperacomodação há o reduzido contato com a subjetividade,
superestimulação da imitação o que acaba por gerar submissão, falta de iniciativa e
obediência acrítica.
Para efeito de melhor compreensão e intervenção psicopedagógica sobre as
modalidades de aprendizagem sintomáticas, as mesmas seguem expostas e
esquematizadas em três grupos:
Hipoassimilação - hipoacomodação: esta modalidade é caracterizada pelo
empobrecimento e esquematização dos objetos com déficit lúdico e criativo,
sendo que os indivíduos em questão são tímidos e tem baixa autoestima,
dificuldade de entrar em contato com o conhecimento e medo de se expressar.
Hipoassimilação – hioeracomodação: nesta modalidade o indivíduo apresenta
pobreza subjetiva e déficit lúdico e criativo e superestimulação da imitação. No
ambiente escolar são os “copistas”, que precisam de um modelo e têm
dificuldade de produção autoral.
Hiperassimilação – hipoacomodação: nesta modalidade há o predomínio da
subjetividade, da criatividade fragmentada e sem sequência lógica, da mistura
do real com o imaginário. No ambiente escolar têm dificuldade de realizar as
atividades propostas e não conseguem ficar por muito tempo realizando a
mesma atividade.
Assim, a intervenção psicopedagógica eficiente começa por identificar a modalidade de
aprendizagem e atuar a fim de mobilizá-la e proporcionar a equilibração que advém dos
processos de assimilação e acomodação.
Referências
FERNÁNDEZ, Alícia. A Inteligência Aprisionada. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.
FERNÁNDEZ, Alícia. A Mulher escondida na Professora. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1994.
FERNÁNDEZ, Alícia. Os Idiomas do Aprendente. Porto Alegre:Artes Médicas, 2001.