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Direitos Humanos: Contradições e Possibilidades (Prof. Elídio Marques)

Uma reflexão acerca dos Direitos Humanos no debate contemporâneo e suas relações complexas, contraditórias e dialéticas com as lutas sociais e políticas.
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Direitos Humanos: Contradições e Possibilidades (Prof. Elídio Marques)

Uma reflexão acerca dos Direitos Humanos no debate contemporâneo e suas relações complexas, contraditórias e dialéticas com as lutas sociais e políticas.
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Direitos Humanos: para um esboço de uma rota de colisão com

a ordem da barbárie

ELÍDIO ALEXANDRE BORGES MARQUES1

“Na luta de classes, todas as armas são boas: pedras, noites, poemas”
(Paulo Leminski)
A locução “Direitos Humanos” tem ocupado no debate contemporâneo –
nas Universidades e também nos espaços políticos internacionais e nacionais –
um espaço tão grande quanto o gigantesco leque de significados semânticos e
políticos que lhe são atribuídas e de suas consequentes implicações
societárias possíveis. Muito especialmente no âmbito acadêmico, os “diálogos”
acerca do tema – se é que neste caso se possa falar de “um” tema –
encontram-se frequentemente turvados por falsos desacordos e acordos
produzidos pela extrema elasticidade com que o significante tem sido tratado.
Parecendo certo que não faria sentido utilizarmos uma expressão que
abarcasse todas as dimensões da vida humana e parecendo ainda mais
correto que não há reflexão possível acerca de uma que possa significar
qualquer coisa, a depender da voz que a empregue, faz-se necessário, pelo
menos, apresentar o feixe de significados e implicações com os quais aqui se
trabalha. Uma demarcação um pouco mais precisa permitirá, na melhor das
hipóteses, restabelecer minimamente o diálogo entre os diferentes atores
vinculados às diferentes áreas de conhecimento que se debruçam sobre os
Direitos Humanos, muito especialmente o Direito, as Ciências Sociais, o
Serviço Social e as Relações Internacionais. E, sobretudo, aos que atuam no
terreno das transformações sóciopolíticas do mundo, uma apreensão mais
consistente deste conjunto normativo.
Assume-se que o objetivo deste texto não é o do “esclarecimento
imparcial” acerca de fatos e termos em torno da temática, mas o de contribuir
para uma reflexão acerca da participação dos Direitos Humanos nos projetos e
processos de antagonismo à ordem vigente, uma ordem de barbárie, e de sua
1
Professor Adjunto do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos Suely Souza de
Almeida da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NEPP-DH/UFRJ), Doutor pela Escola de Serviço
Social da UFRJ, Mestre em Ciências Jurídicas (Teoria do Estado e Direito Constitucional) pela PUC-Rio
e Graduado em Direito pela PUC-Rio.

1
superação no caminho de um mundo livre, justo e solidário. E é por via deste
compromisso que se pretende dialogar com o Serviço Social e contribuir com
seus debates.

Os “senões” de onde não começamos


Os Direitos Humanos não podem ser reduzidos ao seu “momento
jurídico”, como tendem a fazer alguns profissionais do campo do Direito. De
resto, parece que nada de importante que se refira ao Direito possa sê-lo, mas
o desenvolvimento desta afirmativa fugiria largamente ao escopo deste artigo.
Do mesmo modo, os Direitos Humanos não podem ser tratados seriamente de
forma apartada de seu ineliminável “momento jurídico”, como parecem tender a
fazer alguns dos interlocutores do campo das Ciências Sociais de forma geral.
Pelo menos uma parte decisiva do significado de “Direitos Humanos” diz
respeito a um conjunto normativo – padrões de “dever ser” – de elevado grau
de positivação (ou seja, traduzido em normas postas, estabelecidas). Tratá-los,
como muitas vezes acontece, como um tema meramente especulativo – como,
aliás, jamais é feito em relação às normas que tratam das finanças, do
mercado, assalariamento – é já começar por tentar derrotá-los. Assume-se esta
dupla relativa tomada de distância como nota prévia desta contribuição: o
“tema Direitos Humanos” não se cinge nem pode ser utilmente tratado com o
abandono dos conteúdos jurídico-normativos dos Direitos Humanos. Estes
últimos é que serão aqui priorizados.
Parece importante afastar ainda, desde logo, para esclarecimento dos
pressupostos da argumentação que aqui se desenvolve – sem nenhuma
intenção de desqualificação de correntes e pensadores e de forma meramente
preliminar – algumas das “objeções” (ou “senões” ou “justificativas para o
ceticismo”) frequentemente entreouvidas no campo de debates a que se
destina prioritariamente este trabalho, o Serviço Social.
O primeiro “senão” aqui afastado é o que diz respeito à suposta “falta de
legitimidade” dos Direitos Humanos. Na sua justificativa frequentemente
recorda-se que a Declaração Universal de 1948 não foi aprovada pela
unanimidade dos Estados, tendo havido algumas abstenções dentre os
presentes nas Nações Unidas e muitos povos que não estavam ali

2
representados2. Tal argumento padece de uma fragilidade importante:
desconhece que não há uma identidade absoluta entre “Direitos Humanos” e a
conhecida “Declaração Universal” e ainda que aquelas abstenções foram
amplamente superadas nas décadas que se seguiram. Desde logo, pelos
próprios Estados, que aderiram maciçamente a um amplo e complexo sistema
de consagração de tais direitos e ainda por inúmeros atores da sociedade civil,
muito especialmente os ligados aos movimentos sociais que, não sem razão,
vem mobilizando instrumentos e argumentos vinculados aos Direitos Humanos
em suas lutas nacionais e internacionais.
O fato mais importante é que o núcleo fundamental dos Direitos
Humanos goza de um grau de legitimidade – em profundidade e extensão –
que se pode afirmar superior ao de outros sistemas normativos de incidência
global, como os que dizem respeito ao comércio e às finanças internacionais 3 e
ao sistema de “segurança” – aquele que trata do “uso legítimo” da força em
âmbito mundial4. Seja pela “via pedestre” – mais burocrática – dos tratados e
suas ratificações, exigida pelos mais positivistas, seja pelo movimento mais de
fundo correspondente à construção de uma compreensão compartilhada no
plano mundial, dificilmente outro sistema normativo setorial encontrará paralelo
em sua legitimidade quanto o da proteção da pessoa humana. Esta “objeção”
tem se tornado muito mais um caminho de debates acadêmicos ocidentais do
que tem sido ancoradas em resistências democráticas aos referidos conteúdos
normativos mundo afora.
Uma segunda e relevante objeção frequente – especialmente no campo
da crítica à ordem – é a que aponta a utilização dos “Direitos Humanos” como
legitimação da intervenção dos Estados e interesses econômicos “centrais” nas
regiões periféricas/dependentes. Esta abordagem parte de uma confusão
2
Tal “objeção” aparece incorporada como um dos pressupostos em um dos textos de maior difusão no
debate brasileiro e com o qual, mais pelo impacto que teve do que por considerações de qualquer outro
tipo, o “diálogo” torna-se difícil de ser evitado: SANTOS, Boaventura de Sousa. Por uma concepção
multicultural de Direitos Humanos. In DHNet: Direitos Humanos na Internet, Natal, s/d, disponível em
http://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/boaventura/boaventura_dh.htm, consultado em outubro de
2010.
3
Os “centros institucionais” dos sistemas normativos sobre o comércio e as finanças internacionais,
nomeadamente a Organização Mundial do Comércio – a OMC – e Fundo Monetário Internacional – o
FMI – tem, apenas a título ilustrativo, sistemas decisórios concentrados em poucos Estados cada qual com
“pesos” distintos. E tiveram um histórico de constituição e atuação fortemente contestados por
movimentos sociais e forças políticas opositoras em diversas regiões do mundo.
4
Como é de amplo conhecimento, o Conselho de Segurança das Nações Unidas, com 15 integrantes, é
marcado pela existência de membros permanentes e com “poder de veto”: EUA, China, Rússia, Reino
Unido e França.

3
conceitual que é preciso afastar: o uso retórico legitimador não pode ser
confundido com os conteúdos normativos correspondentes aos Direitos
Humanos. A defesa destes, portanto, não apenas não está comprometida
como precisará se opor decididamente àquele. É bem conhecida a utilização
de acusações de violações de direitos como instrumento de deslegitimação de
adversários dos Estados centrais. Nenhum significante está isento de sua
apropriação falseadora e com “Direitos Humanos” não seria diferente. O que
não se pode perder de vista é que não apenas os movimentos de resistência
são capazes de incorporar o discurso de denúncia das violações de direitos,
como são os objetivamente mais interessados na realização dos conteúdos de
tais direitos.
No campo de oposição à ordem estabelecida – no qual se aponta a
propriedade privada dos meios de produção como um elemento em frontal
contradição com os interesses das maiorias – algumas vezes aparece a
“reserva” segundo a qual “os Direitos Humanos” protegeriam “a propriedade”.
Na realidade, não existe um “direito humano à propriedade dos meios de
produção”, mas apenas uma interdição da privação arbitrária e discriminatória
da propriedade. Em outros termos, segundo o sistema internacional de
proteção, as eventuais restrições à propriedade devem gozar de legitimidade
legal e democrática (não arbitrariedade) e não podem servir a discriminações
odiosas (por exemplo, a perseguição de minorias étnicas, religiosas ou
políticas). Qual projeto ou processo transformador atual é incompatível com
algum destes requisitos? O “argumento” mencionado, vindo de onde vem,
acaba por ser uma espécie de tentativa de “doação” ao adversário, tanto mais
que os interessados em manter a grande propriedade privada tem inúmeros
outros recursos para fazê-lo que não o do apelo político aos Direitos Humanos,
bem ao contrário dos não proprietários. A propriedade deve ceder tanto quanto
for necessário para a realização dos Direitos Humanos, uma vez que sua frágil
menção – sequer presente nos Pactos de 66, pilares da normatização em tela
– a coloca muitíssimo distante do regime especial de intangibilidade 5.

5
“Direitos intangíveis” são os que não podem ser suspensos nem sofrer restrições por ponderações frente
à necessidade de preservar outros direitos. Para a maior parte dos instrumentos formais de proteção e
autores são eles, pelo menos, os seguintes: o direito de não ser torturado nem submetido a tratamentos
cruéis, desumanos e degradantes, o direito a não ser reduzido à condição de escravo ou servo ou a
condição análoga, o direito à vida (ao menos no sentido da interdição da execução arbitrária), o direito à
irretroatividade da lei penal nacional e o direito à liberdade de pensamento (embora a liberdade de

4
A “segunda vida” da modernidade capitalista: ruptura na
continuidade
A apresentação de uma contribuição aos debates em torno dos Direitos
Humanos nos exige uma certa definição acerca do alcance “temporal” do
termo. Aqui, assume-se que o sentido que se considera útil para efeitos
teóricos e políticos alcança o conjunto normativo erigido a partir do segundo
pós-guerra. Eventuais extensões de significado aos “direitos” típicos das
chamadas “revoluções burguesas” provocam mais confusão que
esclarecimento ao subestimarem uma ruptura fundante neste terreno,
exatamente a que se deu em meados do século passado.
A conjuntura do imediato pós-guerra, que não pode ser aqui revisitada
em detalhes, precisa ser retomada em alguns de seus traços determinantes
para que se compreenda a afirmação anterior. É razoavelmente corrente a
literatura sobre o período referir-se ao “choque” provocado pela constatação da
barbárie produzida pelo nazismo, cujos “campos de extermínio” ascenderam à
condição de uma espécie de símbolo-síntese do abominável e inaceitável para
a comunidade internacional. Aqui, não se subestima nem a extensa
dramaticidade daqueles espaços da morte e ainda menos o impacto produzido
pelo reconhecimento de sua existência.
O que a literatura dominante – ou, mais precisamente, afinada com os
setores socioeconomicamente dominantes – não pode apresentar
suficientemente é o caráter do regime que produziu aquela barbárie
reconhecida. É preciso recordar que o nazismo foi uma “solução” apoiada pela
maior parte da burguesia alemã frente à crise do liberalismo e à ascensão dos
movimentos operários. Grandes grupos econômicos – até hoje em franca
atuação – não apenas o financiaram como se beneficiaram fartamente da
utilização da mão de obra gratuita dos “campos”, que não foram apenas de
extermínio, mas também desta forma limite e especialmente lucrativa de
exploração. O nacionalismo agudizado e o antisemitismo foram colocados em
marcha contra os judeus e outros grupos permitindo, simultaneamente, a
expropriação de segmentos que haviam se instalado por razões históricas na
banca e no comércio e a eliminação direta de uma parte importante do

expressão possa, excepcionalmente, sofrer restrições justificadas).

5
movimento operário. A ideia de que toda aquela experiência tem como causa,
fundamento e objetivo um abstrato “preconceito” não faz mais do que obliterar
seu conteúdo de classe. O nazi-fascismo não foi o “raio em céu azul” na
trajetória da modernidade capitalista, mas uma sua expressão máxima e
possível da racionalidade do lucro, com a subseqüente subordinação da
técnica e da vida humana à finalidade da manutenção das condições de
reprodução da ordem. Não compreender isso e se deter no “horror” e no
“choque” frente à barbárie de ontem – como frente à de hoje – é abrir mão da
crítica útil e comprometida com sua superação. Sobre isso parece importante
repetir a lapidar “tese sobre o conceito de História” de Walter Benjamin, escrita
em plena “meia noite do século”:

A tradição dos oprimidos nos ensina que o "estado de exceção" no qual vivemos é a
regra. Precisamos chegar a um conceito de história que dê conta disso. Então surgirá
diante de nós nossa nossa tarefa, a de instaurar o real estado de exceção; e graças a
isso, nossa posição na luta contra o fascismo tornar-se-á melhor. A chance deste
consiste, não por último, em que seus adversários o afrontem em nome do progresso
como se este fosse uma norma histórica. – O espanto em constatar que os
acontecimentos que vivemos ainda sejam possíveis no século XX não é nenhum
espanto filosófico. Ele não está no início de um conhecimento, a menos que seja o de
mostrar que a representação da história donde provém aquele espanto é insustentável.
(BENJAMIN apud LÖWY, 2005, p. 83)

Além do caráter do modelo derrotado na Segunda Guerra, é necessário


remontar à configuração da coalizão vitoriosa. Uma parte das elites
econômicas do ocidente aliou-se ou estabeleceu alguma forma de composição
com os nazistas, sendo o caso francês o mais emblemático, deixando a
resistência interna sob a responsabilidade, em grande medida, dos movimentos
operários e socialistas. Além disso, a União Soviética foi um ator decisivo no
combate ao nazismo, especialmente no terreno central de disputa, o continente
europeu. A “correlação de forças” no imediato pós-guerra estava marcada,
portanto, pelo peso muito significativo destes atores não capitalistas.
O “sistema jurídico-político” – nos seus aspectos institucionais e
especificamente normativos – do pós-guerra se (re)construiu em um contexto
marcadamente distinto daquele que correspondera à emergência do modelo de
Estado-nacional moderno (“burguês”). Desta vez, o “projeto societário” da
classe mundialmente dominante aparecia como fortemente contestado e sua
superação tornara-se uma possibilidade bastante concreta para uma grande

6
parcela da humanidade. A ascensão, derrota e subseqüente reconhecimento
de seu caráter de barbárie daquela radicalização de aspectos da modernidade
capitalista obrigou, em certa medida, a uma semi-falência, a uma “concordata”,
desta própria modernidade capitalista. Aquele “sistema jurídico” mundial pós-
guerra é a expressão imediata da crise decorrente do forte questionamento
dirigido às bases da ordem estabelecida.
Advoga-se aqui, portanto, que se é verdade que o pós-segunda guerra
não correspondeu a uma ruptura absoluta com as expressões político-jurídicas
da modernidade capitalista, é inegável que abalou de forma substancial suas
bases. Aspecto marcante – e o mais relevante para a linha argumentativa que
aqui se desenvolve – é o que diz respeito à “proteção” das pessoas. No quadro
tradicional do “paradigma westfaliano”, sobre o qual se organizou o poder
político nos últimos três séculos, a “responsabilidade” sobre as pessoas – ou a
capacidade de decidir como e o que fazer com elas – era uma atribuição, em
última instância, exclusiva do Estado. O Estado emergira na modernidade
capitalista como a fonte precípua de normatividade capaz, inclusive, de decidir
até que ponto as normas provenientes de outras “fontes” – como as Igrejas –
seriam incorporadas ou toleradas. O quadro jurídico-político do pós-segunda
guerra produz uma gigantesca fratura na fonte tradicional de normatividade ao
subtrair do Estado – nacional, moderno, burguês – uma substantiva esfera de
proteção das pessoas, correspondente ao conteúdo material dos chamados
“Direitos Humanos”, restringido-lhe as atribuições e quebrando seu virtual
monopólio na produção do Direito. Juridicamente falando – e, em boa medida,
também politicamente – nada menos do que o trato com os sujeitos da História
deixa o âmbito de uma “liberalidade” dos Estados, expressão de sua soberania
como poder incontestável, para incorporar-se ao da “autonomia e dignidade”
dos humanos. Este deslocamento, mesmo que no plano político-jurídico formal,
não pode ser subestimado.
Assim, o momento histórico inaugurado pelo fim da Segunda Guerra não
sendo o último minuto da modernidade capitalista é a expressão do esforço
desta em “reencarnar”, “reinventar-se” em novas bases, cedendo na “margem
de manobra” do seu instrumento típico de poder – o Estado – e vendo-se
constrangida a renovar em bases mais universais e amplas as “promessas”
que não fora capaz de cumprir na etapa anterior, a que decorreu das

7
“revoluções burguesas” – que se dão nas suas diferentes formas nos séculos
XVII, XVIII e seguintes – até meados do século passado. E aqui temos uma
chave fundamental: não se trata de considerar que aumentaram as
possibilidades de cumprimento daquelas promessas nesta nova etapa, mas de
refletir acerca do acirramento das contradições entre “promessas” e realidade a
partir da sua “renovação” no imediato pós-segunda guerra.

A novas promessas não cumpridas da modernidade capitalista


O termo “promessa da modernidade” tem na noção de direitos
subjetivos uma boa tradução de seus conteúdos. Corresponde a uma parte
muito importante da ideologia concernente à fundação da modernidade
capitalista, a que aponta no horizonte a “emancipação”, o aumento da esfera
de liberdade, como “prêmio” a ser pago “a todos” pelo assentimento,
participação, conformidade com tal “ordem”. Nos diferentes momentos de
construção desta “ordem”, seja quando ela ainda é um projeto antagonista, seja
quando se estabelece revolucionariamente (ou por sucessivas pactuações),
seja quando se consolida ou ainda quando enfrenta seus antagonistas – o que
não acontece necessariamente em seqüência linear – estão presentes as
“ofertas” ou “promessas” capazes de suscitar adesões – devidamente postadas
ao lado das “baionetas”, capazes de provocar temor. As referidas “promessas”
– ínsitas à ideologia liberal – nunca podem ser completamente realizadas na
“ordem burguesa”e ficam permanentemente como sinais no terreno no qual se
travam as batalhas entre a sua manutenção e a sua superação. Para
estabelecer e manter a ordem a classe dominante precisa prometer mais do
que pode cumprir sem colocar em causa a sua própria existência. Este é um
traço importante de sua existência. A questão é que a correspondente
positivação de direitos subjetivos vai, contrariamente às intenções dos que se
veem obrigados a fazê-la, criando pontos de referência, de apoio, no caminho
dos segmentos socialmente subalternizados. Os “fogos de artifício” iludem,
mas também podem lançar luzes importantes sobre o caminho.
A contradição entre promessas e manutenção da ordem não deixou de
existir da etapa posterior às “revoluções burguesas” e a atual. O que se
considera aqui é que nesta “segunda vida” da modernidade capitalista, com a
forte internacionalização e amplificação das promessas que não podem ser

8
satisfatoriamente por ela cumpridas, antecedida decisivamente pelas lutas de
trabalhadores e outros grupos oprimidos nos últimos séculos, a administração
de tal contradição tornou-se potencialmente mais difícil para os “de cima”, na
medida em que os pontos de referência foram se tornando mais visíveis e, ao
mesmo tempo, mais necessários.

A “ordem” está contra os Direitos Humanos6


Um aspecto que merece ser melhor refletido é do significado das
violações dos Direitos Humanos. Nunca deixaram de estar gravemente
presentes na realidade mesmo dos Estados formalmente mais comprometidos
com estes direitos e menos ainda se tomarmos em conta suas práticas
externas. A bomba atômica, lançada depois já que o desenho da ordem
internacional do pós-guerra estava esboçado e que sua “carta constituinte”, a
que criou as Nações Unidas, assinada, é o cartão de visitas que apresentou a
maior potência mundial do período: uma bomba para civis, massiva, de efeitos
cruéis e a longuíssimo prazo: último ato da Segunda Guerra e primeiro ato da
Guerra “Fria” que a seguiu. A disputa Leste/Oeste foi pano de fundo de
inúmeras e violentas intervenções pontuais ou de grande porte geradoras das
maiores violações. A prática, portanto, nunca deixou dúvidas sobre a
sinceridade e a profundidade do compromisso da grande maioria dos governos
– fundamentalmente representações políticas das elites economicamente
dominantes – com os Direitos Humanos. Pouco ou nenhum compromisso para
além da retórica ou, nos melhores casos, numa efetivação seletiva e de baixa
densidade. Portanto, apontar que tais direitos são violados, por si, não
apresenta nada de novo na realidade contemporânea.
No entanto, produzem-se permanentes novidades no campo das
violações dos Direitos Humanos. Neste novo século, as que tem sido
perpetradas pelos Estados mais poderosos assumiram um novo patamar,
buscando o enquadramento de todas as formas indóceis de comportamento
político, a segurança do capital e de sua reprodução e a exploração máxima
das vantagens da colocação dos trabalhadores em concorrência em escala
mundial.
6
Este e o próximo ítem baseados em intervenção do próprio autor no plenário da Assembléia Legislativa
do Rio de Janeiro, por ocasião de sessão comemorativa do 61º aniversário da Declaração Universal dos
Direitos Humanos.

9
Estes ataques deram-se pela produção de novas legislações nacionais
inaceitavelmente restritivas das liberdades de todos os suspeitos de serem
potencialmente “perigosos”, tendo aí na mira trabalhadores migrantes, minorias
étnicas, nacionais, religiosas.
Outros ataques aos Direitos Humanos deram-se fora das fronteiras
daqueles Estados: pelo estabelecimento de prisões internacionais
completamente ao arrepio do Direito Internacional; pelo seqüestro e
reintrodução de práticas abjetas de tortura em supostos adversários políticos -
recentemente assumida inclusive pelo próprio presidente à época da potência
dominante - pela violência inaudita que joga à morte ou em modernos campos
de concentração milhares de migrantes em busca da sobrevivência. A mesma
que foi negada pela história de pilhagem, de manipulação e exploração
produzida pelos mesmos Estados que defendem suas fronteiras dos “migrantes
indesejáveis”.
O que se deve sublinhar é que trata-se de um equívoco – e um equívoco
que tem conseqüências importantes – tratar o vigoroso conjunto de violações
contemporâneas aos Direitos Humanos como correspondente a meros erros,
falhas, deslizes, imperfeições, ou a um suposto “atraso” deste ou daquele
Estado ou um mau funcionamento da “ordem”.
Veja-se um exemplo. Relatórios de agências internacionais bastante
confiáveis para o sistema, como o Banco Mundial 7, demonstram que uma
adequada gestão dos fluxos migratórios – ou seja, o controle de onde está a
mão-de-obra – reduz de maneira importante o salário médio dos trabalhadores
empregados E, claro, aumenta a taxa média de lucro dos “investidores”. Do
mesmo modo, também demonstram que a imensa maioria das pessoas
economicamente ativas do mundo (sabendo-se que perto da metade da
humanidade está abaixo da renda de dois dólares por dia) 8 está inserida,
mesmo que não formalmente, no mercado de trabalho (ou seja, só faz sentido
falar em exclusão se for para falar de exclusão em relação ao acesso a direitos,
porque para ser explorado ninguém está excluído; os muito pobres do mundo

7
Pode-se consultar, entre outros: BANCO MUNDIAL. Global Economic Prospects 2006: Economic
Implications of Remittances and Migration.
8
ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL do TRABALHO (OIT). Global Employment Trends, 2006.

10
não são muito pobres porque não têm trabalho, são muito pobres porque são
muito explorados e recebem salários muito baixos). E a desigualdade no plano
mundial permaneceu aumentando a níveis estratosféricos nas últimas décadas.
A violência destes Estados, seletiva, dirigida a certos setores, aparece
assim como perfeitamente funcional, útil mesmo ao funcionamento do
capitalismo contemporâneo. O trabalhador amedrontado não se organiza, não
exige, submete-se a condições de trabalho degradantes e salários
relativamente menores. Além disso, produz, pela concorrência de sua oferta, a
redução do poder de barganha mesmo dos setores tradicionalmente mais
organizados.
Ao prender, executar ilegalmente, torturar, vilipendiar, manietar o espaço
de liberdade de alguns dos trabalhadores (geralmente escolhidos entre os que
supostamente têm maior potencial de desenvolverem comportamentos
considerados “não-conformes” para o sistema) o Estado não está, portanto,
simplesmente errando, cometendo um deslize, mas corroborando com um
modelo de reprodução da ordem do capital; produzindo um efeito dissuasivo
contra a organização e a capacidade reivindicatória das maiorias.
As violações dos Direitos Humanos, tragédia para seus portadores, são
pelo menos muito úteis – e talvez necessárias – para a manutenção desta
ordem que assim, faz por merecer o epíteto de “ordem de barbárie”.
E isto deve levar a um ponto importante: se é verdade que quase todos
os responsáveis políticos nacionais e internacionais afirmam seu compromisso
com os Direitos Humanos – sendo de lembrar e de nos causar escândalo que
em alguns casos nem mesmo este compromisso “da boca pra fora” existe – é
verdade também que aqueles que estão comprometidos com a reprodução
desta ordem sócio-econômica só podem fazê-lo de forma hipócrita; cínica. Esta
ordem é inevitavelmente produtora de violações, restrições, constrangimentos
aos Direitos Humanos.

As lutas pela transformação do mundo e as lutas pelos Direitos


Humanos
Até buscou-se reforçar a percepção de que os Direitos Humanos
construíram-se na contradição viva, em luta, com a ordem vigente. E se por

11
esta são assimilados aqui e ali o são na forma de promessas ilusórias ou
concessões que pretende passageiras. Herrera Flores (2009) é bastante
original e instigante ao defini-los como resultado de uma “vontade antagonista”
e os apresenta, de forma que pensamos vir em reforço do esboço aqui
apresentado como, simultaneamente, resultantes e potencializadores das lutas
contra a ordem vigente.

Em um sentido mais amplo, continuamos definindo os direitos humanos, agora a partir


de um plano político, como ´os resultados do processo de luta antagonista que se
deram contra a expansão material e a generalização ideológica do sistema de relações
imposto pelos processos de acumulação do capital´. Quer dizer, estaríamos
especificando politicamente os direitos não como entidades naturais ou direitos
infinitos, mas como reações antagonistas frente a um determinado conjunto de
relações sociais surgidos em contexto preciso temporal e espacial: a modernidade
ocidental capitalista.
(...)
E, num sentido marcadamente social, os direitos humanos são ´o resultado de lutas
sociais e coletivas que tendem à construção de espaços sociais, econômicos, políticos
e jurídicos que permitam o empoderamento de todas e todos para poder lutar plural e
diferentemente por uma vida digna de ser vivida´. (...) Enfim, quando falamos de
direitos humanos como produtos culturais antagônicos às relações capitalistas, o
fazemos do ´resultado histórico do conjunto de processos antagonistas ao capital que
abrem ou consolidam espaços de luta pela dignidade humana´.” (HERRERA FLORES,
2009, pp. 193-4)

Os Direitos Humanos – sucedâneos que são das promessas


emancipatórias da modernidade – não podem avançar consistentemente sem o
recuo desta ordem com a qual estabelece contradições insanáveis e não se
realizarão plenamente sem a sua suplantação.
Parece então importante frisar um aspecto que diz respeito às relações
entre a luta pela transformação do mundo e as lutas pelos Direitos Humanos.
Aquilo que alternativamente poderíamos chamar do lugar que ocupam num
projeto emancipatório, ou seja, de transformação profunda da ordem vigente.
Neste tema parece necessário apresentar algumas propostas. A
primeira delas é abandonar qualquer instrumentalização “oportunista” dos
Direitos Humanos, que não serão construídos se forem restringidos à condição
de “escudo” dos que temporariamente estão “por baixo” na ordem social e que,
portanto, poderiam ser abandonados prontamente em momentos de correlação
de força mais favorável. Este instrumentalismo, mesmo que disfarçado, corrói
até mesmo a eficiência destes como direitos de defesa. Parece também
importante assumir que a necessidade dos Direitos Humanos universalmente

12
protegidos, para além das circunstâncias ocasionais e das correlações de força
de cada momento, decorre da universal fragilidade humana diante da força
física, das tecnologias de produção dos diferentes tipos de dor e da
circunstância existencial de que todos, em diferentes momentos históricos,
podemos estar na situação do vulnerável. Decorre, do mesmo modo, da
universalidade da capacidade de errar, de tornar os outros vulneráveis e de
violar suas esferas de dignidade e autonomia, mesmo tendo em mente as mais
grandiosas intenções e os melhores planos para o futuro coletivo; a História o
demonstrou tragicamente.
Assim, os que se comprometem com as lutas pela mudança do mundo
ou bem entendem os Direitos Humanos como uma parte essencial – e,
portanto, não temporária, não descartável – deste caminho ou estarão apenas
alimentando os rios do ressentimento e do ódio, primos torpes da consciência
libertadora, e não poderão nunca fazer mais que outros mundos terríveis, ao
invés do que precisamos e merecemos.
A segunda, diretamente vinculada à primeira, é que os trabalhadores, os
discriminados, os oprimidos do mundo apropriem-se plenamente dos “pontos
de apoio”, das contraditórias renovadas “promessas” correspondentes aos
Direitos Humanos, percebendo que a contradição se dá entre seus conteúdos e
os “donos do mundo” que eventualmente com eles acenam. A contradição é
um problema para a conservação e uma trilha de possíveis para a mudança.
Isto para nada implica num substitucionismo programático: cabe aos
movimentos, aos próprios oprimidos o desenvolvimento de seus programas.
Mas os marcos já colocados e que em realidade foram por eles próprios
construídos não precisam ser subestimados.
Uma terceira proposição diz respeito a uma certa abordagem acercas
das relações entre lutas sociopolíticas e lutas por Direitos Humanos. Se é
verdade que podem ser defendidos por quaisquer segmentos socioeconômicos
e por um leque de posições políticas que inclui setores conformados à ordem
vigente, é uma verdade ainda mais importante afirmar que podem ser
defendidos consequentemente ou apenas cinicamente. E consequentemente
só podem ser pelos que se colocam pela superação da contradição entre a
ordem da barbárie contemporânea e os conteúdos normativos dos Direitos
Humanos pela afirmação destes e suplantação daquela. Parece útil a

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elucidação proposta a seguir acerca das relações entre “lutas de classe” e
“lutas por direitos”:

A luta de classes não é uma entidade misteriosa que existira por trás deste conflito: ela
existe através deste conflito. Claro, não é o Direito que, em última análise, regula este
conflito, são as relações de força sociais. No entanto, a dimensão jurídica do conflito
não desaparece pois este deságua em uma nova reformulação de seus direitos (...). A
luta pelo direito (pelos direitos) é uma dimensão constitutiva das lutas de classes.
(ARTOUS, 2005, p. 74)

É importante dizer, por fim, que as lutas pelos Direitos Humanos não
devem ser apenas pelo respeito aos conteúdos mínimos dos direitos que já
estão formalmente consagrados, mas pelo desenvolvimento dinâmico dos seus
significados e pela consagração de novos direitos. Um elemento relevante das
imbricações aqui destacadas – entre lutas políticas e sociais e lutas por direitos
– está no reconhecimento de que estas sofrerão uma permanente tensão pela
sua apresentação em formas apassivadoras. A luta pelos conteúdos
normativos enunciados pode ser eficaz e parte importante das outras lutas
mencionadas se retomarem permanentemente o seu conteúdo revolucionário.
É à manutenção da ordem que interessa a absorção deste caráter
revolucionário na apresentação de uma versão moralizante, dos Direitos
Humanos como “manual de bom comportamento” e/ou como limite redutor de
horizontes. Parte importante da disputa então localiza-se no próprio terreno da
construção de seu significado e caráter.
Assim, neste alargamento de fronteiras, faz-se necessário denunciar e
construir mais fortemente o combate ao genocídio econômico, que é esse que
está sendo produzido pelos grandes grupos transnacionais nos países mais
pobres; o genocídio das patentes farmacêuticas abusivas quando há enormes
contingentes populacionais adoecidos; o genocídio da oligopolização da
produção de alimentos, de fornecimento de água, do conhecimento científico e
biotecnológico; Ao contrário, a democratização do acesso ao conhecimento
precisa ser um dos grandes direitos deste novo século. Isso só é possível com
o controle público, coletivo, de todo o conhecimento que seja essencial a essa
mesma vida pública, coletiva.
Precisa-se tirar o véu da inocência destas grandes corporações e de
suas supostas “responsabilidades social e ambiental” e lembrar que pelo

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mundo sustentam governos violadores de direitos (e por eles são defendidos) e
grupos paramilitares assassinos, que confirmam que a violência dos fortes e a
modernização econômica frequentemente apresentam-se de mãos dadas.
Precisa-se afirmar que o direito a deixar um país também é um direito a
ser acolhido em outro, especialmente se esse outro é a antiga metrópole formal
ou a nova metrópole econômica e se esta saída resulta da falta de meios para
a consecução de uma vida digna.
Precisa-se consagrar de maneira inequívoca o direito à diferença –
contraface necessária do direito à igualdade –, a liberdade de orientação
sexual e os direitos reprodutivos como parte indispensável dos Direitos
Humanos. Consagrar ainda o direito à Memória e à Verdade, abrir os porões do
passado de violações, responsabilizar quem precisa ser responsabilizado,
reparar os atingidos, inclusive simbolicamente, virar a página deste passado
insepulto de violações que se querem esquecidas por anistias ilegitimamente
autoconcedidas.
O controle democrático sobre a terra, seus recursos, os frutos do
trabalho que nela se dão, é o grande direito humano a ser construído nos
tempos que virão.

O arco: o ponto de partida de um caminho que já começou mas ao


qual ainda precisamos chegar
Os Direitos Humanos já existem, não existem, já começaram a existir e
é preciso que venham a existir. Já existem como normas, como “dever ser”,
juridicamente postas e impregnadas na consciência de uma parte já bastante
importante da humanidade. Não existem como realidade da ordem vigente, que
os viola diuturnamente, das formas mais sutis às mais brutais, mesmo quando
precisa dizer que os defende. Já começaram a existir porque servem de
referência, fortalecem e podem ser alavancas de movimento dos “de baixo”,
são trilhas precárias no lugar onde precisam construir largos caminhos. E ainda
precisamos chegar aos Direitos Humanos se não aceitarmos para a
comunidade humana outro destino que não a plena realização de suas
potencialidades de liberdade real, igualdade de fato e fraternidade na prática.

Referências Bibliográficas

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ARTOUS, Antoine. Marx et le droit légal: retour critique. In: HANNE,

Didier e ARTOUS, Antoine. Droit et Émancipation. Paris: Sylepse, 2005.

BANCO MUNDIAL. Global Economic Prospects 2006: Economic


Implications of Remittances and Migration.
HERRERA FLORES, Joaquín. Teoria Crítica dos Direitos Humanos – os
Direitos Humanos como Produtos Culturais. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009.
LÖWY, Michael. Walter Benjamin: aviso de incêndio: uma leitura das
teses “sobre o conceito de história”. São Paulo, Boitempo, 2005.
ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL do TRABALHO (OIT). Global
Employment Trends, 2006.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Por uma concepção multicultural de
Direitos Humanos. In DHNet: Direitos Humanos na Internet, Natal, s/d,
disponível em http://www.dhnet.org.br/ , consultado em outubro de 2010.

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