Capítulo 1
CLÍTICO ACUSATIVO, PRONOME LEXICAL E
CATEGORIA VAZIA NO PORTUGUÊS
DO BRASIL'
Maria Eugênia Lamoglia Duarte
1. INTRODUÇÃO
Na realização do objeto direto correferente com um SN mencio
nado no discurso (doravante objeto direto anafórico ), o português
falado no Brasil tende, com freqüência cada vez maior, a substituir o
clítico acusativo de 3. pessoa pelo pronome lexical (forma nominativa
do pronome em função acusativa), por SNs anafóricos (forma plena
do SN correferente com outro SN previamente mencionado) ou por
uma categoria vazia (objeto nulo). Esta pesquisa sociolingüística, que
Segue o modelo proposto por Labov (1972, 1982), procurou buscar os
contextos lingüísticos e extralingüísticos que estariam atuando na rea
lização da variável, além de investigar a avaliação por parte dos infor
mantes sobre cada uma de suas formas variantes, importante elemento
para a implementação de novas formas no sistema lingüístico.
Ocorpus utilizado para aanálise provém de gravações da fala
natural, obtidas através de entrevistas com 50 paulistanos nativos, e
da linguagem da televisão.
Na seleção dos informantes, dois fatores sociais foram levados
2.° e onta:
3.° o nível de escolaridade (1 grau completo ou incompleto,
graus) e a faixa etária (de 22 a 33 anos, de 34 a 46 anos e
acima de 46 anos). Considerando-se, pois, três níveis de escolaridade
e três faixas etárias, obtém-se um total de nove células ou grupos de
invensformentreantes. Foi ainda formado um décimo grupo, constituído de jo-
15 e 17
anos, cursando a 8. série do 1.° grau, com o pro-
19
modalidade de fala
pósito de trazer para o corpus uma foram
usada por uma
cada um desses grupos
geração mais nova. Para
5 informantes, totalizando 50
gravação .
entrevistas em cerca de 40
entrevhorasistados de
Afala veiculada pela televisão compreende 4 horas de
de episódios de novelas e 4 horas de entrevistas, 0 que
de uma
gravação
trouxe a0
corpus dois diferentes níveis de formalidade
fala que atinge opaís de ponta a ponta e tem, sem dúvida,
normalizadora.
modalumaidadeforçade
aum só tempo inovadora e
2. O ENVELOPE DE VARIAÇÃO
Computadas todas as ocorrências de objeto direto anafórico na
fala dos informantes e nos textos gravados da fala da media,
isoladas e quantificadas as seguintes variantes: foram
a) uso do clítico acusativo
(1) Ele veio do Rio só pra me ver. Então eu fui ao
aeroporto
buscá-lo.
b) uso do pronome lexical
(2) Eu amo oseu pai e vou fazer ele feliz.
c) uso de SNs anafQricos, representados por:
SNs lexicais plenos
(3) Ele vai ver a Dondinha e o pai da Dondinha manda a
Dondinha entrar, ele pega um facão.
SNs lexicais comn determinante modificado
(4) Então o meu filho ficou morando no
apartamento, mas
ele reclamava muito do barulho, e a gente foi na onda
dele de vender esse
demonstrativo issO
apartamento.
(5) No cinema a ação vai e volta, No teatro você não pode
fazer isso.
d) uso da categoria vazia objeto SNJ
(6) (0 Sinhozinho Malta está tentando Convencer o Zé das
Medalhas a matar o Roque...) Mas ele é muito medroso.
Quem já tentou matar (e] foi o empregado da Porcina.
20
Ontem ele quis matar lel, a empregada é que salvou le].
Ele estava prontinho pra dar o tiro, quando a Mina che
gou lá, passou um pito nele e convenceu [e] que ele não
devia matar (e].
0 cômputo geral dos dados, distribuídos segundo as variantes,
abaixo.
pode ser visto na tabela 1
Tabela 1. Distribuição dos dados computados segundo a variante usada.
Variante Ocorrências %
clítico 97 4,9
pronome lexical 304 15,4
[SNe] 1235 62,6
SNs anafóricos 338 17,1
Total 1974 100,0
3. O FENÔMENO LINGÜÍSTICO
Abusca dos condicionamentos lingüísticos atuantes na realização
da variável levantou fatores de natureza morfológica, sintática e se
mântica, que serão apresentados separadamente, mas cuja interação é
extremamente importante, como se verá ao final desta seção.
3.1. 0 condicionamento morfológico
Aforma em que se encontra o verbo da oração em que o objeto
direto anafórico ocorre revela que, do total de clíticos no corpus, 39
(0.20) precedem o verbo, num tempo simples do indicativo (nota
damente o presente e o passado dos verbos ver e conhecer) e 58
09.8%%) são enclíticos). Destes, apenas 3se pospõem ao gerúndio ou
un tempo simples do indicativo: os 55 restantes seguem o infinitivo,
Oque revela certa preferência pela forma lo sobre aquela que se cons
o com um único fonema . É absolutamente nulo o uso do clítico
On o imperativo, tempos compostos e locuções verbais com gerundio.
ver
O pronome lexical, embora ocorrendo com todas as formas
bais, privilegia os tempos simples, o imperativo e as locuções com
infinitivo e gerúndio, enquanto o uso da categoria vazia supera todas
21
as demais variantes, independentemente da forma verbal, só
do para os SNs anafóricos nas construções com gerúndio. perden-
3.2. O condicionamento sintático
O levantamento de natureza sintática levou em conta a
verbal e a estrutura projetada pelo verbo, assim distribuídas:regência
a) o verbo é transitivo direto e a frase se constrói comn
direto (SN ou S) apenas, como em (7) e(8). objeto
(7) Ele foi levar um carro em Guarujá pra filha dele
estava noiva e, na volta, um carro mata ele, sabe? que
(8) Em vez de vir curar brasileiro, vem matar
brasileiro. Fle
não pode fazer o que não sabe e ele quer fazer [e].
b) o verbo é transitivo direto e a frase se constrói com
direto (SN ou S) e um predicativo, como em (9) e (10).obieto
(9) Eu não tenho nada pra reclamar dela
não. Eu acho ela
sensacional.
(10) Eu queria ter uma irmã. Eu acho [e] tão bom!
c) o verbo é transitivo direto e
indireto e a frase se
uma das três formas: OD(SN) + OI(SN), OD(S) constrói+
de
OD(SN) + OI(S), como em (11), (12) e (13), OI(SN),
mente. respectiva
(11) Conta essa história do seu avô de novo.
Você já contou
[e] pra ele?
(12) Eu fui ganhar a chave de casa com
dezenove anos. Eu
conto le] pra todo mundo.
(15) Uma parou agora porque o marido dela estábem demaiS.
Então o marido proibiu ela de trabalhar.
d) o verbo étransitivo direto e a frase se constrói da segu
forma: OD(SN) +S(infinitivo ou gerúndio), como em (14)
e (15).
(14) Ontem ele foi ao cardiologista. Eu já deixei ele
cardiologista sozinho há muito tempo.
22
(15) Quando nós estávamos assim saindo da loja nós vimos
eles quase parando o carro.
Examinemos a tabela 2, que mostra a relevância do condiciona
mento sintático.
Tabela 2. Distribuição das variantes usadas segundo a estrutura sintática da
frase.
Estrutura da frase Variantes
pronome
clítico [SNe] Total
lexical SN
quant. % quant. % quant. %quant. % quant.
OD (SN) 80 5,4 207 14,1 267 18,2 917 62,3 1471 100,0
30 19,0 126 79,7 158 100,0
OD (S) 2 1,3
OD (SN) + PRED. 7 5,9 42 35,6 14 11,9 46,6 118 100,0
OD (S) + PRED. 2 15,4 11 84,6 13 100,0
OD (SN) + OI (SN) 2 1,7 4,2 19 16,1 92 78,0 118 100,0
OD (S) + OI (SN) 16 100,0 16 100,0
OD (SN) + oI (S) 21,8 9 39,1 2 8,7 7 30,4 23 100,0
OD (SN) +S 1 1,8 41 71,9 4 7,0 11 19,3 57 100,0
97 304 338 1235 1974
Total
Observe-se, inicialmente, que, em estruturas simples SVO
se oobjeto é um SN, o uso da categoria vazia (62.3%o) supera sua
realização fonológica, quer pelo clítico ou pronome lexical, quer pelos
SNs anafóricos; com objeto sentencial, porém, 0 apagamento (79.7%)
SÓ tem um concorrente distante: os SNs anafóricos (19%).
Caso semelhante ocorre nas estruturas simples construídas com
objeto direto e indireto (cf. ex. (11) e (12)): se o objeto é um SN, o
índice de apagamento é de 78%, passando a ser categórico (100%)
com objeto sentencial .
Examinemos agora estruturas sintaticamente mais complexas. Nas
configurações com predicativo (cf. ex. (9) e (10)), em que o objeto e
O predicativo constituem quase uma outra oração (semi-clause), cresce
atendência à realização fonológica do objeto, particularmente com o
pronome lexical (35.6%), quando este é um SN. Ainda assim a cate
goria vazia está presente (46.6%), de forma significativa. Se o objeto
éum S, mais uma vez o uso da categoria vazia sobe (84.6%) e seu
unico concorrente são, noyamente. os SNs anafóricos (15.4o).
23
Passemos às duas últimas estruturas apresentadas na tabela 2
nas quais o preenchimento do objeto supera significativamente
apagamento. Tanto nas construções com objeto sentencial preposici
nado (cf. ex. (13), como nas estruturas com reduzidas de infinitivo o
gerúndio (cf. ex. (14) e (15)) o verbo da subordinada projeta 11e
estrutura com agente, que vem a ser exatamente o objeto da matri
(port-manteau sintático). A força dessa função real do SN sujeito/
agente determina, sem dúvida, uma tendência maior àrealizacão
do objeto superficial, com preferência, naturalmente, pelo pronome
lexical: o pronome sujeito.
3.3. O condicionamento semântico
Um último fator lingüístico considerado, o traço [+ animado]
do objeto, mostrou-se extremamente importante na escolha da variante
candidata à representaço do objeto anafórico, como é possível ver
na tabela 3.
Tabela 3. Distribuição das variantes usadas segundo o traço semântico do objeto.
Traço Variantes
pronome
SN (SNel
clítico lexical
quant. % quant. % quant. quant. %
[+ animado] 76 78,4 281 92,4 99 29,3 293 23,7
[ animado] 21 21,6 23 7,6 239 70,7 942 76,3
Total 97 100,0 304 100,0 338 100,0 1235 100,0
Enquanto ouso do clítico e do pronome lexical é fortemente
condicionado pelo traço [+ animado] do objeto, a preferência pela
categoria vazia e pelos SNs anafóricos recai sobre os objetos com ante
cedente [ animado].
Ocruzamento dos dois últimos fatores examinados mostra Clara
mente a força que ambos exercem na escolha das variantes. A tabela 4
resume as estruturas sintáticas apresentadas na tabela 2 em três gru
POS: estruturas simples (aquelas em que o objeto tem uma só funça0)
estruturas com predicativo e estruturas complexas (aquelas en y
objeto é sujeito/agente da subordinada).
24
Tabela 4. Distribuição das variantes usadas segundo a estrutura sintática da
frase e o traço [t animado] do objeto.
Estruturas (ta)
Variantes
pronome
clítico (SNe) Total
lexical SN
quant. quant. % quant. % | quant. quant. %
OD (SN/S) [+a) 65 10,7 195 32,2 83 13,7 263 43,4 606 100,0
[-a) 19 1,6 17 1,5 233 20,1 888 76,8 1157 100,0
OD (SN/S) + PRED [+a) 7,6 36 54,5 10 15,2 15 22,7 66 100,0
[-a) 2 3,1 6 9,2 6 9,2 51 78,5 65 100,0
OD (SN) + S (+a] 6 7,8 50 64,9 6 7,8 15 19,5 77 100,0
[-a] 3 100,0 3 100,0
Total 97 304 338 1235 1974
Apenas nas estruturas simples, segundo a tabela 4, o traço [+
animado] deixa de ter força decisiva na realização fonológica (56.6%)
ou não fonológica (43.4%) do objeto. Nas demais configurações, ao
contrário, esse traço constitui importante condicionamento, favorecen
do sua realização pelo pronome lexical (54.5% das orações com pre
dicativo e 64.9% das estruturas complexas) einibindo o uso de [SNe].
Quanto ao traço - animado], sua- atuação no sentido de favo
recer o apagamento do objeto, independentemente da estrutura sin
táica, não deixa dúvidas: a categoria vazia ocorre em 76.8% das
estruturas simples, 78.5% das estruturas com predicativo e 100%
das complexas 8
Em resumo, os condicionamentos lingüísticos nesta seção eviden
ciam que:
a) anão-realização fonológica do objeto direto anafórico é favo
recida pelo traço [- animado] de seu antecedente. Daí os
casos de apagamento, categórico ou quase categórico, dos
objetos representados por Se daqueles que se seguem a um
imperativo ou a um verbo transitivo direto e indireto, geral
mente marcados por esse traçO;
b) a realização fonológica do objeto, que se faz preferencialmen
condiciona
te com o pronome lexical, encontra-se fortemente
da à maior complexidade da estrutura sintática associada ao
traço [+ animado] do antecedente;
25
traço, porém noen
c) em estruturas simples associadas a esse
nece certa variabilidade (cf. tabela 4): o traço não é decisivo
fenômeno
na escolha da variante. Eé justamente este
extralinei
mostrará aimportância da atuação de contextos
ticos, nos quais a variabilidade é condicionada por fatores
1974) co
sociais e estilísticos (v. a esse respeito Sankoff,
se verá na seção seguinte;
d) ouso de SNs anafóricos parece partilhar dos condicionamen.
tos ao uso da categoria vazia. O exame dos condicionamentos
sociais e estilísticos, aseguir, trará outras informações a esse
respeito.
4. OFENÔMENO EXTRALINGÚÍSTICO
Nesta seção serão examinados separadamente os dados da fala
natural e os dados da fala da media, além dos resultados dos testes
de produção e percepção da variável aplicados aos informantes.
4.1. Ocondicionamento social: escolaridade e faixa etária.
Os gráficos 1 e 2 aseguir apresentam o percentual de ocorrên
cias das variantes, de acordo com o nível de escolaridade e a faixa
etária dos grupos de informantes.
Gráfico I. Uso das variantes segundo a escolaridade.
%
100 17 CLÍTICO 8PRON. LEXICAL SN (SN
90
80
70 65.9
63.9 65.0
60,7
60
50
40
30
23.5
21.0 21.6
20 18.8
10 |1.7
9,8
64
5.0
(Zero)
0
Joveas 1 grau 2 grau 3 grau
26
Gráfico 2. Uso das variantes segundo a faixa etária.
%
1007 CLÍTICO PRON. LEXICAL SN (SN)
90
80
67.6
70 65.8
60.8 61.2
60 -
50
40
30 23.5
20.7
18.0
20 13.5
16.1
13.3
10.7
10 - 5.0
5.7
3.0
(zero):
0 jovens - 15 a 17 anos 22 a 33 anos 34 a 46 anos acima de 46 anos
Oprimeiro ponto a chamar a atenção é a ausência absoluta de
clíticos na fala dos jovens, enquanto para os demais grupos seu uso
cresce ligeiramente com o nível de escolaridade e permanece variável
em relação à faixa etária. O uso do pronome lexical, ao contrário,
mais freqüente na fala dos jovens (23.5%), decresce à medida que
escolaridade e faixa etária sobem, chegando a 9.8%% entre os infor
mantes com 3.° grau. Quanto ao uso de SNs anafóricos, que como o
uso de clíticos aumenta juntamente com a escolaridade e a faixa etária,
éinteressante observar que entre os informantes situados no nível de
escolaridade e faixa etária mais altos seu uso supera o do pronome
lexical. O favorecimento de [SNe] por todos os grupos mostra o está
gio de implementação da variante no sistema lingüístico.
Uma análise das ocorrências de objeto em cada um dos dez gru
pos separadamente permitiu observar que o comportamento dos in
formantes acima de 46 anos, com o 1. grau, épraticamente idêntico
ao dos jovens, não havendo ocorrências de clíticos e apresentando os
mais altos índices de uso do pronome lexical.
Ocruzamento dos fatores sociais e lingüísticos revela um dado
importante sobre o uso do pronome lexical. Na fala dos informantes
com nível de escolaridade mais alto. ouso dessa estratégia está con
27
dicionado à maior complexidade da estrutura da frase, como mostee
tabela 5.
Tabela 5. Uso do pronome lexical segundo a estrutura sintática da frase
escolaridade dos informantes.
Escolaridade Estrutura
Simples Complexa Total
quant. % quant. quant.
jovens (1.° grau) 40 90,9 4 9,1 44 100,0
1.° grau 73 84,9 13 15,1 86 100,0
2.0 grau 59 65,5 31 34,5 90 100,0
3.0 grau 19 38,8 30 61,2 49 100,0
Total 191 78 269
Éainda a escolaridade, associada à faixa etária do informante,
que permite explicar a variabilidade que permanece quanto à rele
vância do traço [+ animado] na realização do objeto em estruturas
simples. Enquanto os informantes com nível de escolaridade e faixa
etária mais baixos optamn por sua realização fonológica, através do
uso do pronome lexical, aqueles que se situam no outro extremo privi
legiam seu apagamento ou simplesmente recorrem aos SNs lexicais.
Estáaí também uma pista a respeito do maior índice de ocorrências
dessa última variante na fala desses informantes.
4.2. O condicionamento estilístico
Quando se compara a fala dos informantes com a das novelas e
entrevistas de TV, nota-se uma alteração na escolha das variantes,
como mostra a tabela 6.
Tabela 6. Distribuição das variantes segundo o tipo de texto.
Texto Variantes
pronome
clítico (SNe] Total
lexical SN
quant. % quant. % quant. % quant. %
quant.
fala natural 61 4,0 269 17,8 221 14,6 964 63,6 1515 100,0
novela (TV) 16 5,6 33 188 66,5 283 100,0
11,7 46 16,2
entrevista (TV) 20 11,4 2 1,1 7 40,3 83 47,2 176 100,0
Total 97 304 338 1235 1974
28
Observe-se a semelhança entre a fala natural e o texto das nove
las, com baixo percentual de clíticos e preferência pelo objeto nulo.
Afala das entrevistas de TV, ao contrário, se não privilegia o clítico
sobremaneira o
(0 que aliás vem atestar seu desaparecimento), evita
pronome lexical, preferindo os SNs lexicais anafóricos, que aqui com
petem com a categoria vazia.
uma mo
A mesnma alteração encontrada nas entrevistas de TV,
dalidade de fala mais planejada, pode ser observada na fala dos in
formantes, obtida no teste de produção aplicado após a entrevista,
diferentes
objeto em
que consistia de perguntas diversas contendo um informantes
tipos de estruturas. Com exceção do grupo de jovens e dos
idên
acima de 46 anos com 1.° grau, que apresentam comportamento
mos
tico ao que se observou durante a entrevista, os demais grupos
uso
traram-se sensíveis àmudança de contexto, revelando aumento no
lex0
de clíticos e de SNs anafóricos, diminuição no uso de pronomes
faixa etária
cais e de objeto nulo, proporcionalmente àelevação da
e nível de escolaridade, chegando-se, com o grupo acima de 46 anos
lexicais, 51,1%
e 3.° grau, a 31,1% de clíticos, 2,2 %de pronomes atestam
de SNs anafóricos e 15,6% de objetos nulos. Tais resultados
a atuação dos fatores sociais e da maior ou
menor formalidade do
contexto na realização da variável.
A força dos fatores lingüísticos levantados na seção anterior,
porém, mantém-se, como revela a tabela 7 na página seguinte.
Como se vê, os mais altos percentuais de clíticos recaem sobre
estruturas simples e os de pronomes lexicais sobre estruturas complexas
cujo objeto apresenta o traço [+ animado], enquanto o traço [- ani
mado] continua condicionando o uso do objeto nulo e inibe categori
camente ouso do pronome lexical. Só os grupos com 3.° grau prefe
rem os SNs anafóricos àcategoria vazia em estruturas simples e com
plexas com esse traço.
Tais resultados levam-nos à constatação de que a escola é um
instrumento que municia o indivíduo com a habilidade de usar o clí
tico e esse fator, associado à idade, é relevante na realização desta
variante. Mas fica também claro que, mesmo habilitado a usá-la, o fa
lante o faz de modo parcimonioso, buscando formas substitutivas,
como SNs e [SNe]. A razão dessa aparente relutância em usar, de um
29
Tabela 7. Distribuição das variantes produzidas em testes segundo a escolaridade
obieto
do informante, o tipo de estrutura e 0 traço do antecedente do
(+a]
dftieo pron,lex, SN (SNo] aftico pron.lex. SN (SNol
SIMPLEs
%
13.3 6.7 80,0 100.0
jovens
3.7 14.8 29.6 51.9 5,9 94.1
1 grau
26.7 33.3 40.0 25.0 8.3 66.7
2 grau
41.5 2.4 41.5 14.6 17.8 42.9 39.3
3 grau
PRED
ESTRUTURAS dtico proa, lex. SN [SNo1 aftico pron. leX. SN (SNo
+
SN
%
COMPLEXAS:
jovens 80.8 20,0 20.0 80.8
1 rau 25.0 75.0 22.2 77.8
2 grau 50.0 50,0 20.0 80.0
3 grau 10.0 20.0 30.0 40,0 69.2 30.8
S
+
SN dftico pron, lex. SN ISNol
COMPLEXAS:
jovens 17.8 22.2
1 rau 20.0 20.0 60.0
2° grau 8.3 41,7 16.7 33.3
3 grau 23.1 7.7 S7.7 11.5
lado, o clítico, e, de outro, o pronome lexical será evidenciada através
do teste de percepção da variável.
4.3. Apercepção da variável
Realizado num contexto ainda mais formal, o teste em que se
léem ao informante sentenças ou fragmentos de diálogos contendo as
variantes e se pede sua opinião sobre sua boa formação, traz impor
tantes contribuições para a análise do fenômeno em questão.
A reação dos informantes com 1. grau , àexceção do grupo de
jovens, confirma sua produção semelhante em situação natural e em
situação de teste não distinguindo as variantes. Quanto aos demais
informantes, pode-se dizer que a forma pela qual avaliam as ditere
representações do objeto condiz com os condicionamentos lingüísticos
apontados.
30
Aaceitação do clítico [+ animado] em estruturas simples, com
tempos imples do indicativo, é sensivelmente superior à sua aceita
cão em sentenças que contenham um imperativo ou um tempo com
posto, em estruturas complexas ou ainda naquelas em que o objeto é
[- animado], independentemente da configuração sintática.
Frases como
(16) Não sei por onde anda a Maria. Não a tenho visto ultima
mente.
(17) Coitada da menina! Deixe-a em paz!
(18) O senhor não pode acreditar neles. Eu os vi abrindo a porta
do meu carro.
são consideradas pedantes, podendo trazer estigma sobre os que as
utilizam 10, Para os informantes, embora não seja certo, é muito mais
coloquial e natural dizer:
(19) Coitada da menina! Deixa ela em paz!
(20) Eu acho ela sensacional.
(21) O senhor não pode acreditar neles! Eu vi eles abrindo a
porta do meu carro!
Por outro lado, em estruturas simples, com o presente e o passa
do, exceto para os jovens, émenor a aceitação do pronome lexical,
Como em:
(22) Eu vi ele ontem no cinema.
Assim, sem consciência das pressões lingüísticas, o falante aceita
o pronome lexical exatamente naquelas configurações de processa
mento sintático mais complexo (a semi-clause e o port-manteau sintá
tico), considerando-as menos sofisticadas do que aquelas em que ocor
re o clítico.
A anáfora zero do objeto [- animado] passa quase inteiramente
despercebida, sendo natural sua aceitação em todos os tipos de estru
31
Mesmo com traço + animado] sua aceitação é razoável por
turas.
que se situam num nível do
parte dos informantes, exceto aqueles
estranheza construções de aue
escolaridade mais alto, a quem causam
natural:
eles próprios fazem uso na fala
mas depois eu
(23) No princípio ele não concordava comigo,
assim.
convenci [e] de que ele não devia agir
SNs anafóricos
Talvez essa reação explique a alta incidência de
na fala desses informantes.
Como se vê, anoção de variante estigmatizada muda conforme
o contexto. Usar oclítico em situações informais é uma atitude tão
estigmatizada quanto usar o pronome lexical em situações formais.
Isso, entretanto, limita-se, na prática, a frases simples. A redução do
estigma sobre o uso do pronome pleno nas configurações complexas
ea dificuldade em usar corretamente o clítico nessas estruturas por
parte daqueles que dizem saber usálo quando necessário garantem a
manutenção do pronome lexical no sistema e sugerem sua provável
vitória na luta travada entre as duas variantes.
Que acategoria vazia objeto se encontra implementada no siste
ma lingüístico é desnecessário enfatizar. Sua ocorrência em artigos de
jornais revistas, na literatura e em traduções, em contextos que não
têm a intenção de reproduzir a língua falada, atesta isso e distingue
o português do Brasil das suas línguas irms, exigindo uma análise que
leve emn conta o discurso.
Diante desta fotografia da variável objeto direto anafórico, o que
se constata éque suas formas variantes esto social e lingüisticamente
condicionadas e desempenham importante papel na caracterizaça0 do
estilo, sendo o uso da variante padrão, quase extinto na fala, resul
tado de aprendizagem formal. Se a escola deseja (e pretende, de tato,
se isso for desejável) permitir ao aluno acesso a uma norma Cutes
garantindo-lhe a possibilidade de dominar diferentes estilos, a pesqu
sa sociolingüística pode fornecer-lhe elementos indispensáveis à ela-
boração de programas de ensino mais realistas e eficazes, alem
trazer subsídios valiosos ao desenvolvimento da teoria lingüístiCa.
32
BIBLIOGRAFIA
LABOV, W. - Sociolinguistic patterns, Philadelphia, University of Pennsylvania
Press, 1972.
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MALKIEL, Y. (orgs.) Perspectives on historical linguistics, Philadelphia,
John Benjamins Publishing Company, 1982.
OMENA, N.P. de - Pronome pessoal de terceira pessoa. Suas formas variantes
em função acusativa. Dissertação de Mestrado, PUC, Rio de Janeiro, 1978.
SANKOFF, G. "A Quantitative Paradigm for the Study of Communicative
Competence", em BAUMAN, R. & SHERZER, J. (orgs.) Explorations in
the ethnography of speech, Cambridge University Press, 1974.
1. Este artigo éum resumo de parte da dissertação de mestrado apresentada
à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em dezembro de 1986,
sob o título: VARIAÇÃO E SINTAXE: Clítico Acusativo, Pronome Le
xical e Categoria Vazia no Português do Brasil.
2. O termo anafórico não tem aqui o sentido estrito da classificação choms
kyana, segundo o qual a categoria vazia objeto não está em relaço ana
fórica com seu antecedente.
3. Omena (1978) jáhavia constatado a total ausência de clíticos na fala de
informantes não alfabetizados.
4. Olimite mínimo de 22 anos deve-se ao fato de que somente a partir dessa
idade seriam encontrados informantes com o 3.° grau completo.
5. Do total de 50 entrevistas, 30 foram conduzidas por mim e 20, cedidas
pelo banco de dados da PUC-SP.
6. Não faz parte desta pesquisa análise de condicionamentos fonológicos à
realização da variável, o que não implica na negação de sua possível rele
vância no desaparecimento do clítico na língua oral.
7. 0 apagamento do objeto sentencial já se encontra de tal forma implemen
tado no português do Brasil que se poderia estranhar a manutenção de
Ocorrências como (8), (10) e (12) no corpus. O fenômeno é, entretanto,
conseqüência de importantes condicionamentos lingüísticos atuando no apa
gamento do objeto em outras configurações.
8. Embora raras na amostragem, tais estruturas podem apresentar objeto/
sujeito [-animado], como:
Depois eu já ponho o 6leo, a cebola, o alho. Aí eu jogo o tomate e
deixo [e] cozinhar bastante.
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informantes com o 1. grau limitaram-se a fazer comentários não no
9. Os
tinentes, atendo-se ao conteúdo das sentenças lidas.
estruturas foram mo.
10. As reações desfavoráveis à presença do clítico nessas
nifestadas com exclamações como:
Nossa! Tácerto, mas é esquisito! As pessoas não falam assim,
Como?!
Certíssima! (risos)
Só o Jânio!
Ai, que rebuscamento!
Chique!
Pedante!