0 notas0% acharam este documento útil (0 voto) 299 visualizações15 páginasHistória Social Da Moda, Cap. A Moda Na Era Pós-Industrial - Daniela Calanca
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‘OBRA ATUALIZADA CONFORME
‘O NOVO ACORDO |
DDALNGUA PORTUGUESA.
Dados Intornacionals de Catalogagao na Publicacao (CIP)
(Cémara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Calanca, Daniola
Historia social da moda / Daniela Calanca ;tradugao de Re-
rnato Ambrosio. -2* edigao ~ Sao Paulo : Edtora Senac Sdo
Paulo, 2011
“Titulo original: Storia sociale della moda
Bbblograia.
ISBN 978-85-7350-757-8
1. Moda — Aspectos sociais 2. Moda ~Histéria 3. Vestudrio
— Aspectos sociais 4. Vesturio — Aspectos sociais~ la
|. Thue,
08-00547 ‘c0D-391.009
Indice para catalogo sistematico:
1, Moda : Aspectos socials : Historia 991.009moda na era pés-industrial
tre moda e antimoda
tificar um tinico percurso na moda de hoje, pode-se dizer, é0mesmo que, _|A tegmeniagao
foricamente falando, orientar-se em um labirinto de linhas e contornos, —|%"092
superficies ¢ figuras caleidoscopicas, Nesse sentido, ¢ arduo tentar abordar
moda de hoje a partir de um tinico ponto de vista, sobretudo, quando se
stata que:
nos deparamos com um quadro geral da moda que perdeu a sua imagem,
de sisterna unitério e circunserito, para se despedagar em pequenos frag-
mentos. Um fenémeno que jé tinha comegado na primeira metade dos anos
1980, mas que agora parecer ter sido elevado & enésima poténcia, com
um crescimento exponencial de trends, na maioria das vezes, em declarada
antitese entre si, que produzem um clima de incerteza geral, no qual fica
realmente dificil se orientar e distinguir um fio condutor comum.*
perspectiva dos estudos relativos ao estilo, essa heterogeneidade co-
Joca o problema de como justificar a coexisténcia de propriedades volumétri
1 Grandi, A. Vacca & S. Zannier, La moda ne secondo dopoguera (Bolonka: Clueb, 1992). p.164. Ver
também A. Grassi, “Moda frantumata”, em Gap, marco de 1988, p.77;G. Borili, "10 anni di moda.
1980-1990. Cronache-tendenze- protagonist", suplemento da revista Donna, abril de 1990,Moda
neobarroca
)pbs-moderno |
| (190 tia Socal ds mo
cas, materiais ¢ cromaticas tao distantes entre si, de como avaliar uma moda
que, de um lado, celebra a liberdade do corpo com transparéncias e nude look ¢
do outro, torna © corpo pesado, revestindo-o com tecidos rigidos € acessirios
que criam um efeito imobilizante. Fragmentagao dos padroes ¢ dos estilos se
as caracteristicas pelas quais a moda exprime valores como ironia, juventuie
cosmopolitismo, indiferenca pelo cuidado no vestir se, possibilidade de exibit
estilos “pobres”. A tendéncia moderna segundo a qual, culturalmente, tudo ¢
legitimo e nao se fala mais de moda, mas de modas, pode ser comprovada peli
fato de que a moda ¢ a arte atual apresentam semelhangas na experimentagie
multidisciplinar ¢ na auséncia de regras estéticas gerais. Na moda e na arte
criacao esta livre para transitar por toda parte. excesso, a desmedida qua
titativa e qualitativa, o virtuosismo, a transgressio presentes em muitas (et)
déncias da moda s2o hoje accitos tanto esteticamente como socialmente e, por
0, tornam pouco claros os limites que hoje determinam o gosto. Qualiclades
como 0 excesso, a desmedida, 0 actmulo, polimorfismo eclético, a instabl
lidade, a perda de interesse permite definir a moda do final dos anos 1980)
como neobarroca, ¢ para essa definigao contribui, sem davida, a propensio ii
artificio, ao inauténtico, ao falso.’ Esse componente esta presente em multi
tendéncias e se manifesta tanto no uso de materiais sintéticos, como os falyow
repteis, 0 couro falso, as falsas peles, tecidos elasticos, acessorios em plexiglas
ou em falso metal, como na cenografia teatral dos desfiles. A fragmentagito di
moda reflete a fragmentacao cultural do pés-moderno.’ Assim definido nite
por ser péos-cronologico, mas por ser pos-tematico, o pos-modernismo ~ come
foi codificado por Lyotard em 1979 — contrapde-se a modernidade, entendidi
como vontade de construir sistemas, tcorias, interpretacdes totalizantes, come
sistema que acredita na racionalidade, no valor positivo da ciéncia e da tecno
logia, acredita no progresso do desenvolvimento historico e do pensamento!
O pas-moderno, ao contrario, ¢, nesse sentido, também pos-industrial, enfath
2aa parte ambigua e contradit6ria da racionalidade, tem uma visao critica da
ciéncia e da tecnologia, e prope uma concepcao do saber sem os fundamentoy
que estdo na base do projeto moderno. O pos-modernismo implica, portant,
£0. Calabrese, Ltd neobarroca (Roma/Bark: Laterza, 1987), p. 49. Ver também N, Gaspetinl "LA
nuova eta barroca",em Donna outubro de 1987
CE. F. D'Agostni, Breve storia cella losofa nel Noweento. Lianomalaparadigmatica (Turi: inal
1999), pp. 265-280
CE J-F Lyotard, Lacondignepostmoderna (Milo: Felerinlli, 1996), p. 24 passin
al 101 |
{A moda na era pos-indh
© fim das fronteiras nao s6 entre “altas” culturas e “baixas” culturas, mas tam
bem entre diferentes formas culturais.
Ora, mesmo radicada em um contexto historico-cultural que nao € nem
um pouco univoco, a fragmentagao da moda esta ligada tambem, e sobretudo, a
‘um fendmeno historico bem preciso, isto ¢, as modas juvenis que surgiram de-
pois da Segunda Guerra Mundial, denominadas “antimodas”, apesar de o fend
‘meno da antimoda ser mais antigo.’ Tornando absoluta a distancia em relagdoa
tudo o que é conforme a regra estética e moral, o elemento central da antimoda
consiste na referencia a ideais, valores e concepgdes da existéncia radicalmente
postos aos paclrdes vigentes. & um fendmeno que assume formas ¢ temas de
diversas fontes culturais, como a indignacao contra o utilitarismo, naturalismo
salutar, protestos feministas, ceticismo conservador, a “des-identificacao” das
minorias ¢ a afronta da contracultura. Os representantes da contracultura, 0
‘beatniks dos anos 1950, os hippies dos anos 1960 ¢ os punks dos anos 1980 (com as
suas subdivisdes estilisticas, como skinheads, roqueiros, metaleiros, etc. .)tentam
diminuir a importincia dos grupos culturais dominantes. Os cabelos compri-
dos, 0s colares, os braceletes, 0s tecidos floridos sto simbolos que marcam radi-
calmente a oposicao a tudo o que é dominante, Os estilos proclamam, por assim
dizer, a ruptura, o desprezo pelos valores comumente aceitos. Nesse sentido,
9s anos 1960 sio um perfodo de grande revolucao em todo o mundo ociden-
tal Dos Estados Unidos a Holanda, as jovens geragdes recusam os modelos
existentes e procuram novas formas que possam manifestar uma ruptura com
‘aordem constituida, Trata-se de um fendmeno de massa que atinge todos os
Ambitos da existencia cotidiana, das relagdes entre os sexos a concepcao de
trabalho e tempo livre (Figura 1). O principal veiculo dessa situacao sio 0 rock
ingles e 0 americano. A imagem dos cantores de rock, assim como os versos de
suas cancdes, representam em si uma mensagem de ruptura, Personagens como
Mick Jagger, lider dos Rolling Stones, considerado no seu tempoo homem mais
legante do mundo do rock, ostentam jabots, veludos, lame, meias-calgas, peles,
potas a mosqueteiro, roupas em tecido de tapecaria, usam brincos ¢ colares,
ms 28 m F. Davis, Moda,
3 CEG. Lipoversky, Linperodelfimero (Milao- Garzanti,!989), p. 128. Ver também F. Davi
cia us Iu aon eerie 1953), p.159 psa: A Gncchi Ruscone “Lsntino
WW AA, Lamoda tla. Bellon alo in, vl (Mio: lest
ani mies
we :
19 cc scone Nall Lame Lc de Cet Bet
1996), p. 138 pusim,| 192
Figura
1960.
© Fon Cha
Stud
Tosto maquiado, Desde o século XVIILo homem n:
vistosa e sexualmente provocatori
Maquiagem muito marcada, cabelos longos ¢
aderentes, botas acima do joelho e,
lo apresenta uma imagem ti
a.’ No campo feminino se ver
4.0 mes
cheios, calgas apertadas, malhay
nao menos importante, a revolucionaria mi
rtala pouco abaixo da virilha,idealizada pela inglesa Mary Quant.
Esse novo trae, inicialmente limitado ao mundo do rock, difunde-s- primeing
nosambientes proximos ao espetaculo ea arte depois por toda parte. A can
‘eristica dessa antimoda € estar fora de qualquer padrao e imposicao, permitir 9
¢acla um a mais completa liberdade de vestir se. No contexto dessa liber
o blue jeans torna-se a roupa-metafora por exceléncia, verdadeiro “uniforms da,
Jovens” (Figura 2). Assim como a t-shirt de
Dean tornam-se,
hissaia,
ans 8
Marlon Brando, os jeans de James
no imaginario coletivo, sinais exteriores da juventude rebelcle
bide.
E.G Lehnert, Storiadella mada del XX seco (Mil
lao: Ready made, 2000), pp. 65-66. Ver também Mt
Quant, Quan by Quant (Londres: Cassell, 1966),
193
dos anos 1950.° Criados na costa oeste dos Estados Unidos, em meados do sé
culo XIX, por Morris Levi Strauss, um vendedor ambulante bavaro de origem
eS —
por Jakob Davis Youphes, socio de Levi Strauss que, em 1873, patenteia o siste
ma de fixagao dos botoes ¢ bolsos por meio de rebites, o que caracte
até hoje. Sera necessario, todavia, esperar mais de um século antes que esse tipo
de calcas de trabalho conquiste uma po
; 0, depois de va
versal que tem até hoje. De fato, ¢ somente no final dos anos 1960, depois de
¢ décadas prece
rias tentativas de conquistar um amplo mercado de massas nas déc: wt pre
a ed e i es de classe, sexo,
dentes, que o blue jeans consegue superar quase todas as divisdes de classe,
idade ¢ ultrapassar os limites regionais, nacionais e ideologicos para se tornar a
a os jeans foram aperfeigoados
. emigrado havia pouco para Sao Francisco, 0s j pe
© jeans
igdo de relevo € 0 reconhecimento uni
CLG ep) Dr al i Cot D>,» W> Vern
at a i 7 m; L. Passerini, “La giovinezza metafora de194 t6na w
peca de vestuario universalmente mais aceita. Segundo os historiadores do cow
tume, 0 jeans sofreu um processo de legitimacao cultural que o levou a adquitit
significados diferentes daqueles iniciais, de outra forma nao se explicaria como
essa peca de roupa monocromatica ¢ nada refinada conseguiu exercer tal {asc
nio." Considerando sua origem, a longa identificagao com a imagem clo trib
Ihador, do duro trabalho fisico, do Oeste americano, os sociélogos afirmam ue
grande parte da mistica do blue jeans parece derivar de sentimentos populares de
democracia, igualdade, independencia, liberdade ¢ fraternidade, No continenté
americano, depois dos operarios, os primeiros a usar jeans, nos anos 1930 ¢ 1940),
sao 0 pintores ¢ os artistas do sudoeste dos Estados Unidos. Nos anos 1950),
sao os bandos de motociclistas “delinquentes” (os bikers) e, nos anos 1960, 0%
hippies que aderem ao jeans. Guardadas as diferencas, esses grupos colocan s@
em forte oposigao a cultura dominante,conservadora e consumista da socied
de americana. Dada a origem desses grupos, o blue jeans oferece um meio visivel
para proclamar o sentimento de rebeliao contra o sistema, €a isso se acrescent
© fato de que, economicamente, sio acessiveis a todos. No final dos anos 1950),
© jeans ja € usado por quase todos os jovens da classe média nas atividades 1
ar livre, mas, até meados dos anos 1960, esse traje nao ¢ aceito totalmente, poll
ainda ¢ associado a grupos de ma fama, Os produtores de jeans, ent, Langa
grandiosas campanhas publicitarias para romper a ligacao simbolica com esses
grupos ¢ convencer os consumidores de que os jeans so apropriados a todos €
podem ser vestidos em muitas ocasides. Davis observa que, em too caso, A
lado da estratégia de mercado, o que torna global a atracao exercida pelo jeans
€a implicagao “antimoda’”, constituida pelas alusdes historicas, visivelmente
Persuasivas, & democracia rural, ao homem comum, a simplicidade, a modeéstli,
a visio romantica do Oeste americano com a figura do caubsi livre e indepen
dente." Todavia, assim que os jeans conquistam o mercado de massa, diversi
estratagemas so utilizados para mesclar essas mensagens. Imagem que ev
ca um tipo de pobreza “vistosa”, os jeans desbotados € pufdos, por exemplo,
tornam-se logo mais apreciados do que os jeans novos e azul-escuros. Dale @
sucesso, no comego dos anos 1970, dos jeans deshotados ¢ esgarcados, 08 pit
dutores comecam a fabricar calgas jé desbotadas, lavadas com pedra-pomes oll
com Acido, que parecem usadas, e poupam assim o consumidor médio da neces
"CEC. Jasper, “History of Costume: Theory and Instruction”, em Clothingand Textile Research out
W(4), pp. 16.
"E Davis, Moda, cultura identta,linguaggio,cit., p71
195 |
moda na era pos-ndustial
ssidade de ter de usé-las muito para gasta-las. Por outro lado, quase simultanea-
mente, surge uma série de estratagemas e expedientes para “des-democratizar”
(08 jeans e, 20 mesmo tempo, aproveitar-se de seu fascinio universal. Aparecem
$9 jeans de grife, que ostentam, bem visiveis, a assinatura do estlista; ans com
pordados, com ornamentos em metal, brilhantes ¢ outros recursos decorativos,
com corte e modelo para mulheres, criangas, velhos; jeans combinados a
utras pecas de roupa, em clara contradicao simbolica, como jaquetas esporti-
-vas, peles, saltos agulha, camisas de seda.”
Em estreita relagao com 0 que se diz sobre o jeans, a minissaia, peca de
-yestuario hoje universal, representa uma ruptura na historia das mulheres, vis
to que a logica tradicional da roupa feminina prescrevia que ela deveria ter, em
primeiro lugar, a fun¢ao moral de cobrir e esconder o corpo. Desse ponto de
‘vista, a minissaia qualifica-se como uma importante marca feminina, que ret
ine em seu percurso historico valores de liberdade em oposicao as censuras dos
guardides da moral. Se notarmos bem, a0 longo do século XX, o encurtamento
2 id. pp. 72-76.
Figura :
Minivost
rupluydecoration |
Historia social da mod
da barra do vestido coincide com momentos de emancipacao feminina (Figura
3;p.195). Nos anos 1920, as saias charleston marcam de maneira provocatori
crise definitiva das crinolinas, das saias duplas, a discussao de pudores hase
dos no imaginatio masculino, segundo os quais seria mais erstico 0 que nd
ve do que aquilo que se vé, Simbolo ¢ artifice da moda feminina das primeiray
décadas do século XX, Coco Chanel indica uma forma de liberagao que di
respeito principalmente ao comprimento das saias e dos cabelos." Se por volt
dlos anos 1950 a saia no joelho ¢ introduzida como uma pega adlequuaca a0 yt
pel produtivo das novas geracdes de mulheres trabalhadoras, a minissaia doe
anos 1960 pode ser considerada, por sua vez, um verdadeiro sinal de emanh
pacao na direcao do anticonformismo."* Nas revistas mais representativis
Pertodo, a minissaia, vestida por modelos como Twiggy, Jean Shrimpton 0)
Penélope Tree, fotografadas por Richard Avedon ou Helmut Newton, tori
se um simbolo de liberdade sem limites também na alta-costura." De volta
moda no come¢o dos anos 1980, apos um periodo de perda de prestigio, hoje
a minissaia ndo € mais vista como um elemento de contestacao explicit dp
um sistema de modas dominantes. Contudo, pode-se dizer que ela contipiiy
a ser aquela pega de vestuario que rompe a precipua funcio moral ca rp
esconder 0 corpo da mulher. A minissaia aparece, por isso, como tum “objelit
que consegue fazer sempre com que o corpo feminino fale na sua totalidade
Corpos em movimento
A caracteristica essencialmente opositiva que permeia as antimodas dentity
dla atual fragmentacao cultural fica evidente também, por exemplo, na hil
decoration ~ expresso que data de 1978, quando Kakir Musafar, pioneli
Promotor da body decoration, a usa pela primeira vez. A body decoration est I)
sada aos Modern Primitives, uma “comunidad expandida” que propoe moss
CEA. Gigli Marchetti, Dall nina all el
ti, Dalla crnolina alla mingoa. a doma abit ca soit dal XVII al XX
Golo Cheb) cap VVeramben Fake Room ae oe aol
den Onoento, vo. IV Roma Bar: Laterza, 191), F.Thebaua (org), Stra dle donc CM Aa
Nocera, vol V (Roma/Bar Latera. 1992) F. Gandol, Ge cgomele (Mov 2a 00
vo Basin
CE. E. Morini, Stora dela moda (Milo: Skira, 2000), p. 183 passim, Ver também A. Mack
hr (Londres: B-Hatsod 1982). Moran, Cal (Palermo: Nove 193)
ban A. Pell
CE. P. Calefato, Mass moda (Genova: Costa & Nolan, 1996), pp. 8586. Ver t
Capitan, Moda italiana anni Cinguantac Sessanta (Florenga: Cantinl, 1991).
© CEP. Calefato, Mass moda, cit. p. 87 passim
[A moda na era p6s-industial
alternativos de viver 0 corpo, decorando-o, submetendo-o a provas rituais,
_principalmente com a pratica da tatuagem.” Para Mark C. Taylor, autor do
“ensaio Pierced Hearts and True Love. A Centaury of Drawings for Tattoos, a difusto
contemporanea da tatuagem pode ser interpretada como sendo a combinacao
de dois fatores histéricos e culturais. De um lado, a afirmacao da tematica neo-
primitiva como reagao ao desencanto moderno. De outro, a influencia exercida
pela body art dos anos 1960 e 1970 (com artistas e performers como Gina Pane,
Chris Burden e Vito Acconci).* Em um contexto social que coloca no primeiro
plano os valores do lucro ¢ do consumo, observa Taylor, a condicao geral de
_anomia ¢ de frustracao das mais elementares exigéncias espirituais conduz
(08 corpos a “guiar uma rebelito” para reconquistar espacos de vida e de livre
‘expressio. Sob esse aspecto, o que desencadeia um processo de reapropriacao
do corpo ¢ a insatisfagio gerada por estilos de vida considerados cada vez mais
inumanos, que deixam pouco espaco ao jogo, & criatividade e ao puro sentir do
‘corpo. Para alguns, a body decoration contemporanea insere-se plenamente no
grande circo da moda. Para outros, o boom das decoragdes corporeas represen-
ta a manifestacdo de desejos neotribais readaptados para uso e consumo de
‘uma geracio desprovida de raizes, espiritualidade, ritos de passagem e sentido
sgeral da existéncia, que encontra na intervengio no corpo a chave de acesso a
‘uma dimensio de vida diferente. Deixando de lado as diversas avaliagdes, po-
demos sustentar que por tris das decoragdes permanentes gravadas no corpo
= como tatuagens, body piercing, esculturas da carne, etc. ~ ha um problema de
redefinicao do proprio corpo no mundo contemporaneo. Hoje se fala de Tat-
‘too Renaissance, de um renascimento, justamente porque a pratica de tatuar-se
€ antiquissima.” Temos testemunhos em Xenofonte, Hipocrates e Herddoto.
Entre os mais antigos exemplos de tatuagens conhecidos, ha aqueles perten
sntes mtimia de uma sacerdotisa egipcia da deusa Hathor, chamada Amunet,
e viveu em Tebas por volta de 2200 aC. A tatuagem, feita sobre seu ventre,
/provavelmente tem significados ligados @ fertilidade.®” Foram encontradas
foutras duas mamias femininas tatuadas, do mesmo periodo, uma das quais,
CL.B. Marenko, Ibvidaxion, Cop intranstocalchiie della nina carne (Roma: Castelveechi,1997),p. 104
Ibid, pp. 64-69.
Ibid, p. 58. Ver tambem A. Bonito Oliva,“ coepo glorioso”,em VV. AA. L’Asinne la Zebra Origin
< tendee dl tatuagiocontemporanco (Roma: De Luca, 1983), pp. 58-61; V. Lautman, The New Tatoo
(Nova York: Abbeville Press, 1994); A. Castellani, Rill per lapel Storia cultura del tatuagio (Ge
nova: Costa & Nolan, 1995).
B, Marenko,thridasion Corp in transto cache della uo care, cl. p59 passinTatuagem e
animoda
¢ra uma dancarina; mas, pelo que se sabe até agora, nao se faziam tatuagens
em homens. No entanto, a descoberta mais extraordinaria € 0 corpo de una
“mulher do gelo”, encontrado em 1993 na Sibéria, onde tinha ficado sepulti
da no solo gelado por 2550 anos. A mulher pertencia a uma tribo guerteira
nomade, os Pazyryk, dos quais encontramos testemunhos em Herddoto, qc
08 descreve como um povo sem cidade, cujas mulheres eram guerreiras como
os homens. A mulher do gelo apresenta numerosas tatuagens bem conserva
das. A interpretacao corrente ¢ que esse povo tinha elahorado uma forma de
transmissio do saber por meio da visualidade. A tribo escocesa dos Picty tei
esse nome por causa da pritica de tatuar e pintar 0 corpo, fato que aterrorisz
as legioes romanas que detém suas incursdes na Britdnia no século Il d¢
Também no Império Romano sio citados exemplos da pratica de tatuagens,
tanto que Constantino promulgou um decreto para proibi-la, recorrendo
Passagem biblica do Levitico 19:28, na qual se condenam as marcas sobre a pele,
Marco Polo conta a respeito de populagdes tatuadas no sul da China, assim
‘como os viajantes no Novo Mundo narram o habito dos indigenas de se tatuat
A partir do século XVII, também as cortesas comecam a tatuar-se; difunde se
4 identificacao da tatuagem com 9 mundo dos marginais, das prostitutas ¢
dos criminosos. Mas ¢ principalmente a partir do século XIX que o mundo
ocidental elabora a nogao de “primitivo” como defini¢ao operativa ¢ funcional
Para uma alteridade que, de outro modo, seria irredutivel. Nogao essa que ¢
enfatizada pela exibicao da tatuagem como um espeticulo exotico, Em 1830)
havia pessoas tatuadas que, para ganhar a vida, exibiam-se como atracao em
citcos, o mais famoso deles era o P. T. Barnum’s American Circus. © corpo
tatuado ea antiga arte da tatuagem, na falta de um contexto sociocultural que
estimale a sua apreciagdo, descambam em entretenimento aberrante.” E pate
ce ser evidente também que para quem praticaa tatuagem nao se trata de uma
moda, mas de antimoda (Figura 4). As reflexes de Betti Marenko, estuclioss
de semiotica ¢ sociologia, ela mesma tatuada, constituem um referente sign
ficativo para compreender o que comporta a decoracao permanente do carp,
Marenko esta convencida de que a diferenga ¢ hoje a unica opcao existencial
Posstvel para viver livremente uma identidade nade, de contornos incertos,
sempre pronta a se questionar, sempre dispontvel a um overlaping construtivo,
‘uma sobreposicao com as outras identidades. Uma identidade que est sem
*thidem. CE. P. Calefato, Mass Moda, cit. pp. 76-77
J A moda na era pés-industial
pre a procura do éxtase inebriante da experimenta¢ao, do provar, da emogao
da risada” As expressoes da diferenca sao maltiplas, mas, em todos os casos,
no fundo, ha a ebriedade do inusual.
Nesse quadro, 0 corpo contemporaneo seria um corpo flutuante, que se
transforma como se fosse levado pela forca indomavel do desejo; quem opta
pela diferenga assume a fisionomia de um corpo *pos-humano”, O corpo con
temporaneo que muda coloca’se em uma encruzithada entre o hipertecnologi
coe oneotribal. E um corpo inprogress, pds-organico, que nasce da contaminacao
de tecnologia ¢ carne, arcaismos ¢ metal, pele e tinta.”* Diante da derrocada
do modemo ¢ de seus paradigmas de pensamento, observa Marenke, ganha
espaco a exuberdncia do primitivo. Valores tribais, sentimento de pertenci-
mento a um grupo, ritualismo transformador, que tem NO corpo sett intérprete
principal e um estilo de vida simples, natural, que eavalia a carnalidade e seus
sentidos, constituem os parametros da concepgao implicita na exuberancia
do primitiv. A difusio das tatuagens deve ser lida, portanto, como cea
festagao de uma tensio voltada para a existéncia baseada naqueles valores,
¢, portanto, nao dominada pela competicao, pelo dinheiro, pelo tempo lee
¢ onganizado ¢ pelo lucro a qualquer custo. No contexto da homologagao ho-
dierna, o retorno ao primitivo é considerado o meio para a liberacao de um
desejo reprimido, que nao pode exprimir-se, negado por simulacros de uma
sociedade normatizada, Nesse sentido, 0 desejo liberta-se, torna-se visivel por
meio da decoragao corporea:
E somente 0 desejo que da forma a tatuagem. Gravar um sinal 6 encarnar
um desejo. [...] A tatuagem 6 erotismo e violéncia, Combina dor, amor e
prazet.[..] Para quem 0 faz, é a decisdo de construir para si uma armadura
psiquica [...]. Tatuar-se deixa forte e livre. Define 0 amor por si mesmo [...]. E
uma barreira contra os assaltos de forgas hostis [..]. Esta sempre presente a
procura espasmédica, As vezes obsessiva, de uma dimensao na qual pode-
mos nos ver diferentes de como nascemos,vajando para a frente no tempo
, a0 mesmo tempo, para tr. [..] A tatuagem toma-se uma religido paga
pessoal, de conexdo espiritual com os antepassados e de elevacao do pré-
carne, cit, pp. WL
B. Marenko, Ibridagioni Corp in transit alchimic dlla nuova carne, cit. P. ae
® thi, p 14 pasim, CET. Macri, Il corpo postrganico.Sconfinament della performance (Genova: Costa &
Nolan, 1996),
JO con
contempprio espirito, Ea
‘periéncia mistica da viagem para dentro de si, & procura
Caquela parte adormecida que nao pode mais ser ignorada.*
Pratica absolutamente narcisista, a tatuagem faz do corpo o espelho dk
tum se transformado pelo poder de um imaginério decomposto em sonhos
ou obsessdes. Nesse sentido, sustenta Marenko, o neotribalismo é
0 uma expll
cacao insuficiente, A motivacao vai
: além da producao de corpos diferentes ¢
lc um imaginario povoado de corpos diferentes a que
hoje assistimos, por igi
anecessidade de analisar as novas politic.
as do corpo em relacao ao imaginatli
coletivo. Para Marenko, os desenhos ¢ as marcas inscritos no corpo obi
Fepensar os modos de representacao do corpo e de
subverteras suas maltiplis
formas de rigidez
Esses desenhos e marcas sobre e do corpo so, antes
tudo, sinais; sinais de uma mutacao em curso que de
tal, Grafites ¢ ratuagens pe
ser reconhecida con)
encem ao mundo da inscri¢ao, no qual o sigho et
si vem antes do contetido; cles sao a afirmacao d.
la forga da diferenca contra
Ibid, pp. 69-70.
equivalente informe. © espaco do agir deve ser inventado, suas modalidades
serio aquelas da imaginacao, da criatividade transversal, do ecletismo margi
nal, de um desvio visivel, de uma alte
dade irredutivel que se manifestara no
espaco mental subtraido do lugar comum, que exprimira a forga do desejo,
desejo ha muito negado. £ o desejo, portanto, que tem a fungao catalisadora
as, ¢ liberd-lo significa realizé-lo, Ainda que se proponha
situar-se o mais distante posstvel das normas ¢ dos valores correntes (homo
logacao, sucesso, dinheiro), a filosofia subjacente a body decoration, de fato, nao
esta longe do sistema te6rico que forja os mecanismos da moda cont
nea.* A marca ou desenho tatuado na pele, mesmo sendo algo que nao se pode
mudar, paradoxalmente responde a logica da moda, a tensdo voltada a real
cao de si, ao desejo de gozar 0 aqui e agora da existéncia, ao prazer de mudar
pelo gosto da transformacao, da metamorfose do eu, do novo, para exprimir-se
atéo fim de maneira diferente dos outros. Que depois se trate de body decoration
de recursos e ener,
npora
za
ou fisiculturismo, a questao parece ser sempre a mesma, € parece plausivel
afirmar que muda a forma, mas nao 0 contetido. Até onde ¢ possivel consta
tar com base em reconstrucées historicas, pode-se propor como ideia geral
que a cultura do corpo uma forma peculiar de realizacao de si, e nao apenas
de ostentacao de status. Entre moda ¢ antimoda, a cultura do corpo aparece
epresentativos desde © comeco do século XX
e torna-se, depois da Segunda Guerra Mundial, um fendmeno de massa. De
fato, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a0 lado da palavra-chave charme,
refinamento, como aquilo que faz a diferenea, a imagem de um corpo jovem,
saudavel
como um dos simbolos mais
, sobretudo, belo torna-se um sonho de massa em virtude também
do aumento das possibilidades econdmicas de todos.” Em 1952, um jornalista
italiano observou:
As mulheres geralmente consideradas “como se deve" dos Estados Unidos
gastaram 1,5 milh3o de délares (900 milhdes de liras) s6 em bubble bats,
isto 6, banhos de espuma. Para pintar as unhas, gastaram cinco vezes mais,
dez vezes mais para limpar a pele do rosto e quatorze vezes mais para pin-
tar os labios de vermelho. Em xampus, 44 vezes mais e, com perfumes,
cinquenta vezes mais. Os cuidados com a pele Ihes custaram 70 milhd
Cf. B, Marenko,lbridazioni Corpin ransitocalchimie della nuova carne, cit. p. 101; G. Lipoversky,, Lim
perodellcfmero, cit. p. 125 passim.
CCE. F, Giroud, “Charme o sex- appeal”, em Grazia, n® 659, 4 de outubro de 1953, pp. 1213. Ver tam.
bem E. Morini, Storia della moda, cit, pp. 275°311| 0a Hist6ria social da moda
de délares (42 bilhées de lras), com os cabelos, 110 milhdes de délares
(66 bilhoes de liras), com os cilios [..] 2 bilhdes de liras. Essa avalanche de
bilhdes para os tratamentos de beleza chega a um total que supera em mui
to 0 orcamento da maior parte das nagdes da Terra. Esses sfo os Estados
Unidos, mas eles nao estéo s6s. Cada uma das jovens que trabalham nas
fabricas da Europa ocidental consome hoje mais produtos de beleza do que
uma duquesa ha cem anos.”
Os Estados Unidos demonstram a sua superioridade nao somente em)
despesas com tratamentos estéticos, mas também nos meios de divulgacto
adotados pelas empresas produtoras de cosméticos. Na Italia € somente com
© boom econdmico que esse tipo de moda come¢a a ter seu lugar. Todo © corpo
humano ¢ atingido por esse fenémeno, que influencia nao apenas seus hibi
tos, mas também sua forma e estrutura, seu estado de satide e de doenga. A
tendéncia iniciada no comego do século XX, que prevé um corpo saudavel,
em continuo treinamento fisico, dedicado ao esporte, torna-se uma moda
de massa, assim como a moda do bronzeado e do fisiculturismo. Em 1972
moda sto os “musculos primitivos”, “Agora que vocés aprenderam todas as
dietas e estao magrissimas, chegou a hora de plasmar o corpo como aquele
de uma bailarina. A escola mais estimulante € aquela de Bob Curti, bailaring
€ coredgrafo. Frequentando o centro internacional de danca, ao som de bon
80s afro-cubanos, voces voltario a ser primitivas e ageis.”* O corpo deve set
nao somente magro, mas também esguio, Agil, musculoso como nas culturay,
pré-industriais, nas civilizagdes ainda nao sujeitas aos tabus sexuais ¢ ao dis
tanciamento dos valores corporais. Nos anos 1970, os tratamentos estéticos
de massa se espalham do rosto para o corpo. O mercado lanca diversas linhas
de produtos para endurecer, tonificar a pele, para cuidar das estrias, curar @
celulite. S40 langados varios 6leos, como aquele de tartaruga, lubrificante ¢
utriente; sio aconselhados os produtos naturais. Tudo por um corpo mente
voltado para a juventude, um ideal que, nos anos 1980, encontra na popstar Ma
donna (famosa desde 1983, ano do langamento de seu primeiro LP, Madonna) 0
exemplo mais significativo.” Brincando com todos os tabus e clichés mais co.
P.M. Mac Patrick, "La battaha della belleza",em Grasa n€ 585.10 cle malo de 1952p. 2
S. Riva, “Moda flash. Notizie e duriosita da rutto il mondo", em Vogue. n® 243, janeiro de IP)
bp. 46-49, Ver também S. Grandi, A. Vaceari & 8, Zannier, Lamoda nl secondo dopoguerra(Bolonha
‘Clueb, 1992), p. 11 passim. -
CLG. Lehnert, Stora della moda del XX secolo, cit, pp. 84-87,
‘A moda na era ps-industia
muns, Madonna apresenta seu corpo como algo extremamente “sexualizado”
e, a0 mesmo tempo, construido: € um corpo construido, o resultado de aero:
bica, musculagao e dietas. Madonna, se prestarmos bem atengio, personifica
o credo dos anos 1980, segundo o qual ¢ possivel modelar-se tornar-se o que
se desejar. As dietas, o fisioculturismo outras formas de exereicios fisicos
so os meios para chegar & meta, para alcancar um “eu” ideal que significa umm
corpo ideal. E o sonho norte-americano, o desejo de autorrealizacao. O ideal
de beleza veiculado por Madonna € esguio, agil, esportivo, sem negar sua fe
minilidade nem sua sensualidade. Inicialmente o look de Madonna é aquele do
movimento punk, tipo bad girl, que adota penteados excéntricos e estilos dife-
rentes ao mesmo tempo: crucifixos,jaquetas, camisetas, braceletes de couro,
passando por corpetes de couro e de litex pretos, meias de renda ¢ ligas. Em
pouquissimo tempo ela se torna uma estrela famosa, escandalosa e chocante.
O corpete que em 1990 Jean Paul Gaultier desenhou para o seu Blond Ambition
Tour obtém enorme sucesso no mundo inteiro. Por certo periodo, Madonna se
apresenta como a reencarnacao de Marylin Monroe, ¢ os scus cabelos cor de
platina viram moda, Em seguida continua a citar diversas estrelas do pasado,
para transforma-las em um produto atual e, ao mesmo tempo, explosivo, que
encarna a realizagio do desejo de milhdes de jovens.
De resto, na Italia tambem resiste ainda hoje o sonho da beleza e da sat
de do corpo, se for verdade que os italianos do ano 2000 constituem uma “so-
ciedade das emogdes”, como resulta do 34° relatorio Censis:
uma sociedade que no abre mao de sonhar. E sonha com o amor, que volta
a prevalecer sobre 0 sexo separado dos sentimentos; sonha em ser se
bela, gastando para cuidar do corpo 35 bilhdes por ano. Sonha em escapar
das angustias cotidianas escolhendo metas aventurescas ou esportes rad
cais. Sonha os sonhos possiveis.”
Prét-4-porter versus haute couture?
[A fragmentacao dos estilos ¢ dos padrdes e a auséncia de regras estéticas que
caracterizam a moda de hoje, pode-se dizer, tém a sua maxima expressio nas
criagdes prét-a-porter. Expressao lancada na Franca por Jean Claude Weill em
cca ecreativa. Cosi cresce la nuova Italia, em LaRepubblica, 2 de deze
M.S, Conte, “Ottimista
bro de 2000, p. INovos ciadores
de mod
| 204 Histéria social da m
bs
1949, a partir da expressao norte-americana ready to wear, pode ser consideracha
uma verdadeira revolugao, pois muda completamente a logica da produce
industrial. Diferentemente das confeccoes industriais em série, concentra se
em produzir industrialmente pecas de vestudrio acessiveis a todos, mas «la
moda, inspiradas nas tiltimas tendéncias." Nese sentido, 0 prét-a-porter uni
fica indastria e moda, difunde pelas ruas estilos e gostos, estetizando a moult
industrial e massificando a grife. De fato, hoje sao famosas tanto as marcas da
haute couture como aquelas do prét-a-porter. Dior, Chanel, Benetton, Moschino,
Versace, Dolee & Gabbana, etc. A partir dos anos 1950, os industriais euro.
peus compreendem a necessidade de utilizar estilistas para oferecer, seguinlo
9 exemplo norte-americano, roupas que tenham como valor agregado gosto ¢
moda." Em 1957 acontece o primeiro salao do prét-a porter feminino. A produ
Gao de roupa de massa segue, em parte, o caminho aberto pelo design industrial
nos anos 1930. O objetivo € produzir tecidos, las, roupas que unam novidade,
fantasia, criatividade, estetica, imitando o principio das colegoes de estacio.
Com a estilizagao, a roupa industrial de massa adquire um novo status, torn
“se verdadeiramente produto de moda. Todavia, desde o final dos anos 1950,
© prét-a-porter nao cria uma estética, por assim dizer, mas repropoe a logica
recedente: a imitacao das novas formas lancadas pela haute couture. Ea partir
dos anos 1960 que o prét-a-porteratinge sua verdadeira razao de ser, elaborando
Toupas marcadas mais pelos critérios de audicia, juventude e novidade, que
pelo de perfeigao “classica”
Afirma-se uma nova geracao de criadores que nao pertence a alta-cos
tura, Em 1959, Daniel Hechter lanca o estilo Babette ¢ sobretudo do tipo
alado. Em 1960, Cacharel reinventa o chemisier para mulher em madras, seme
Ihante a camisa masculina, Em Londres, em 1963, Mary Quant cria 0 Ginger
Group, que inventa a minissaia, Nos anos 1970 ¢ 1980 uma segunda e terceira
leva de estilistas trazem inovacdes que deixario marcas.” Se a haute couture
Uinha imposto, desde a metade do século XIX, valores como elegancia, requin
te, luxo, a partir dos anos 1960 esses valores so minados na base." Apesar
CEG. Lipovetsky, Limpero dellefmero, cit. p. 109 passim. Ver tambem E, Morini, Storia della maa,
cit, p. 275 passim,
ES. Grandi, A. Vaccari &S. Zannier, Lamoda ne secondo dopoguera, cit, pp.55-60, Ver também Per
tuna storiadella moda prone. Problem rierche. Ata do V.
ae pron, Probl he, Ata do V Convegno Internazionale del Cisst, Florenga,
idem,
LG. Lipoveesky, Limpero deltefimero, cit, p. IL
a pos industria al
isso, tenta manter a vocacao “revolucionaria” do estilo. Primeiramente com
Courreges, que, na colecao de 1965, introduz o estilo curto ¢ arquitetonico ¢
liberta a mulher dos saltos altos, da “escravidao” do sutia, das roupas justas ¢
a veste de maneira que favoreca a liberdade de movimento. A minissaia, que
tinha aparecido em 1963, adquire um verdadeiro estilo com Courréges. Com
as botas sem saltos, o branco candido, as meias de colegiais ¢ as geometrias di
namicas, ele afirma na moda a ascensio de valores proprios dos jovens, O novo
modelo, que substitui aquele dos anos 1920, é o da menininha. Além disso, a
alta costura legitima o uso de calcas femininas. Em 1966, Yves Saint-Laurent
inclui as calcas em sua colegio, coloca nos seus desfiles modelos com smok:
ings femininos ¢ introduz 0 jeans na sua colegio, quando os jovens j4 0 usavam_
havia tempos. De instituicao inovadora, que impulsiona a moda de ponta,
a haute couture transforma-se em institui¢ao de prestigio que legitima o que €
inventado em outros ambitos. Assim, ainda que, em 1959, Pierre Cardin te~
nha apresentado a primeira colegao “prét-¢-porter couture” nas grandes lojas de
departamento Printemps e, em 1963, inaugurado o primeiro atelié desse tipo
de moda, pode-se dizer que o prét-a-porter marca o fim da roupa sob medida ¢
da moda que, até aquele momento, estava sob o dominio requintado da haute
couture. Desse ponto de vista, a difusao do prét-@-porter ¢ dos ateliés de criagao
€o aspecto que resume esquematicamente a transformagao do sistema. Desa-
parece quase completamente na moda a oposi¢o estrutural entre roupas sob
medida e roupas em série, gracas aos aperfeigoamentos tecnolégicos da indiis
tria do vestuario ¢ ao desenvolvimento da estilizacao e do prét-a-porter. Hoje
a tendéncia € considerar as criagdes do prét-a-porter como a parte mais viva
da moda, A moda industrial nao € mais a e6pia degradada dos modelos mais
cotados, ela conquista cada vez mais sua autonomia por meio da estilizagao de
pesquisa. O prét-d-porter estetiza a moda industrial e massifica um simbolo de
distincao que antes era muito seletivo: a grife. A série industrial sai do anoni:
mato, personaliza-se, conquista uma imagem de marca, um nome que aparece
em todos os lugares: na imprensa, nos cartazes publicitarios, nas lojas, nas
roupas. Hoje a haute couture nao produz mais de 3 mil pecas por ano. A moda
feminina, observa Lipovetsky, pode libertar-se de seu dominio somente gragas
aos novos valores introduzidos pelas empresas envolvidas na producao e no
5 CF. G. Vergant (ong), Digionari della mada, cit, p. 176. Ver também L. Benalm, Yes Sait Lavrent
(Paris: Grasset, 1993).
IAgiconsumo de massa. O cres¢
mento da cultura jovem ao longo dos anos 1950 ¢
altan
do aespontaneidade, a ironia ea liberdade. O imaginario juvenil daqueles ano.
determinou a indiferenca em relagao ao vestuatrio da haute couture, identificado
como stmbolo do que era velho, Com sua grande tradigao de requinte, como
seus modelos reservados a mulheres adultas e bem de vida, essa instituicio
foi desacreditada pela nova exigéncia do individualismo moderno: parecer jo
vem. Hoje o que vale, como ja dissemos, ¢ parecer jovem, valorizar a si mesmo
agradar, surpreender, confundir. A juventude se impos como novo canone dle
imitacao social. O look juvenil € 0 novo centro propulsor da imitacao. Culto
da juventude e culto do corpo caminham juntos e chamam constantemente
4 atengao sobre o Eu, exigem auto-observacio narcisista, obrigam a estar in
formados sobre as novidades a usi-las. A fase da maxima distincao entre os
sex0s acabou, os comportamentos sao identicos.*
1960 acelerou a difusao dos valores hedonisticos e anticonformistas, €
Desde seu surgimento, o prét-a-porter representa uma inovacao, pois Io
ica implicita nele €a de eliminar da imagem publica a conotacao negativa das
confecgdes em série tradicionais. intencao ¢ dar um novo valor estilistico ao
produto industrial associado as fibras sintéticas, Entre 1950 1960 surgem o
Primeiros atcliés estilisticos que fornecem consultorias qualificadas para as
indistrias que querem se manter atualizadas. Quando o atelié do estilista se
associa aos critérios da producao industrial, o universo das propostas indus
triais adquire um novo valor. Do bindmio inchstria-projeto estilistico se esp
ra um produto atual e de prego acessivel. Nesse cenario se modifica também
© significado da palavra estilista, que até os anos 1950 tinha uma conotagio
depreciativa.” Nos projetos industriais o estilista era quem agia sobre a exte
rioridade dos objetos sem modificar seu significado intrinseco e funcional: no
entanto, quando ele comega a atuar na industria da moda, torna-se um mito
Entre 1960 ¢ 1970 o balanco das induistrias de vestuario cresce continuamente
tanto nos Estados Unidos como na E Em janeiro de 1964, um editorial
da revista semanal Amica, intitulado “A moda esportiva vem do ready-to-wear
ingles", coroa a Inglaterra a rainha do prét-a-porter
ro)
CLG. Lipovetsky, Limperodeltcfimero cit, pp. 120-126,
CEG. Dorfles, Intrvducione al disegno industrial. Linguaggio storia della producione in serie (Tuten:
Finaual, 1972), p. 52 passim. Ver tambem E, Morini & N, Bocca, “Lo stilismo nella moda femmini
ler,em VV. AA., Lamoda italiana, vo. I, cit, pp. 64-179.
HA alguns anos, justamente gragas & imaginagao e ao estilo imeverente de
lum grupo de designers de vanguarda, Londres ja é copiada até pelas cos-
tureiras francesa [.... Os criadores ingleses do ready-to-wear [...] foram,
ode-se dizer, os primeiros a interpretar em escala internacional a formula
beatnik nascida nos Estados Unidos em um circulo bastante restrito de inte-
lectuais [.] vale a pena ficar de olho neles.
A situacao na Italia, porém, nao se apresenta em termos positivos.”* Na
Italia fascista, o Ente Nazionale della Moda [Instituto Nacional da Moda|
idealizado por Vladimiro Rossini na primeira metade dos anos 1930, com sede
em Turim, € 0 orgao do governo que censura todos os modelos de inspiracao
francesa. Esse Instituto impde aos costureiros que pelo menos 25% de suas
colegdes sejam em estilo italiano, ¢ assim deixa a Italia praticamente fora do
Capa 6 Rice carte vincent della Moda Kalan, Vera, asa Ba Nats
Figuraia social dam
circuito produtivo internacional (Figura 5, p. 207). Alem disso, as tentativas
da politica autarquica de criar um sistema organico de colaboragao entre cos
tureiros, artesios ¢ empre
pois da Segunda Guerra Mundial, em 1948, sobre as cinzas do Ente Nazionale
della Moda, nasce o Centro Italiano della Moda de Milio, sob a tutela de Fran
co Marinotti, e 0 ano de 1951 marca o nascimento da alta-costura it:
1952 acontecem as primeiras tentativas dessa colabora¢ao: “Ao cotonificio Val
di Susa, ao Italviscosa, ao Lini c lane Rivetti, cabem o mérito de terem entendi
do antes que a alta-costura nao pode existir, como nao existiria a haute couture
parisiense, sem o apoio da industria textil”.”” Mas, nos Estados Unidos, ja no
inicio dos anos 1950, toda grande confeccao produz duzentas pecas de roupa
por dia, Na Europa as pessoas se vestem recorrendo aos ateligs dos grandes
criadores ou confiando na propria costureira. Somente no final da década come
ana Europa a verdadeira confeccao. E nesse periodo que comeca a funcionar
a maquina das manifestagdes promocionais para a industria da moda pronta
Em meados dos anos 1950, Turim recebe o 1° Salao do Mercado Internacional
do Vestuario (Samia), que apresenta uma ampla panoramica do melhor da con
fecao italiana. Em 1958, em Milo, nasce o Comité de Moda dos Industriais,
de Vestuario, para coordenar ¢ prever a escolha das linhas, dos tecidos ¢ das
cores (Figura 6). Em 1965, 0 GFT (Grupo Financeiro Textil), com a intengao de
Jangar uma nova linha “20 anos”, patrocina um laboratorio antropométrico part
adequar os cortes 20s novos padrdes estéticos da clientela jovem: busto chato,
quadris estreitos, pernas longas. O filtro desse sistema produtivo € o sistema de
consumo, o estilista ¢ aquele que deve identificar as exigencias e as necessida
des do mercado antes de desenhar suas colegoes, ja que sto destinadas a uma
ampla gama de consumidores. Por volta de 1978 as maiores grifes do prét-<-porter
ja sto conhecidas; a industria aposta sempre na imagem e no nome do estilista,
que se torna o verdadeiro protagonista do sucesso. A moda capta prontamen
te novas instancias de diferenciacao ¢ de personalizagao que o mercado exige,
concentrando-se mais sobre os aspectos de comunicacao dos produtos que nos
funcionais e utilitarios. Entre os anos 1970 e 1980, a moda italiana consolida sua
relagao com o mercado mundial, como acontece, por exemplo, com Armani, que
‘em 1980 veste Richard Gere no filme Gigolé americano.
ios do ramo téxtil mostram os seus limites. De
raliana. Em
“Trionfo a Firenze”, em Grazia 2 de fevereiro de 1953, p. 45.
Nao s6 moda
No inicio dos anos 1980, comeca-se a falar de moda em termos de cultura pro
jectual, e ndo como uma area especifica e distinta do contexto geral do design
espacial e objectual.” Se o design projea ambientes e mobilias, analogamente,
pormeio daagao doestilista, a moda torna-se “design do corpo”, “projeto do mo
vimento e da relacao impessoal”, A nova relagao que se estabelece entre moda
e design, que equipara a roupa a um objeto, e como tal se submete aos mesmos
parametros ¢ mesma praxis projectual, consente a influéncia reciproca en:
tre os dois sistemas, desde sempre mantidos separados. Moda e design tomam
estradas paralelas, estabelecem um intercambio pelo qual se, de um lado, os
estilistas entram em outros setores da produgao industrial, como a decoragio,
0 projeto de objetos, as ceramicas, os tecidos €a roupa para.a casa, de outro, os
© Cl, Lipovetsky, Limperdelehmero ct, p 168 asin. Ver também S. Grand A. Vaccart & 8, Zan
tr Laman nd doc 19415, G. Bunch 6 A.C. Quinta, Ma dl
fiaba al design. tala 19511989 (Novara: De Agostini, 1989),
Figura 6© mad n tly |
[210 Hist6ra social da moda
arquitetos desenham roupas, estampas para a seda das gravatas. O novo bind
mio moda-design afirma-se também em numerosas mostras organizadas, entre
as quais a de maio de 1982, no Massachusetts Institute of Technology de Bos
ton ¢ aquela no PAC de Milo, em 1983, por ocasiao da Trienal, ¢ esta no cen
tro do debate internacional promovido pelo Congresso Icsid (International
Council of Societies of Industrial Design), também em Milo, em 1983. A nova
relagao de colaboracao entre moda e design permite definitivamente ao estilista
sair da “guetizacao” do papel de couturier, oficializando uma identidade pro
fissional diferente, do designer industrial de produtos de vestuario." O sucesso
mundial da moda nos anos 1980 se deve, sobretudo, a habeis estratégias de
marketing. Particularmente importante ¢ o papel do executivo milanés Bepp«
Modenese, que, por volta do final dos anos 1970, consegue fazer com que Mi
a0, tradicional centro industrial, prevaleca sobre Roma e Florenca. Madenese
consegue aproximar 0 mundo do design da industria textil. Em 1979 organiza
© primeiro desfile de moda na Feira de Miléo.* A partir daquele momento se
verifica uma sucesso de “aliancas”, como aquela que se estabelece entre Ar
manic o Grupo Financeiro Textil, ou entre Ferre, 0 arquiteto estilista, e a casa
Dior, cuja direcao artistica ele assume em 1989. O vestuario e os acessérios nao
80 08 tnicos “objetos” nos quais se configura a uniao entre estilo ¢ moda. A
Italia garante uma posic2o relevante no mercado internacional gracas ao made
inItaly, um dos fatores de desenvolvimento do mundo produtivo italiano desde
fim da Segunda Guerra Mundial até hoje. Os especialistas consideram esse
fator um fendmeno complexo, que envolve diferentes setores da procucio ¢
supera tanto as classicas separacdes geograficas entre areas desenvolvidas ¢
areas estagnadas do pais, como a tradicional distingao entre grande industria
€ pequena empresa artesanal. Recentemente, o made in Italy foi definido como
um conjunto de bens e servigos que sao realizados com um grau elevado de es
pecializagao em relagao a aspectos considerados peculiares, como 2 qualidade,
ainovacao, o design, a assisténcia aos clientes, a competitividade dos pre¢os no
mercado, a capacidade de criar “imagens”. Um conjunto de bens e scrvicos,
*thdem
CLG. Lehnert, Stviadellamodadel XX ecol, ch
cic p. 325 pasin
CLM. Fortis, Imad in aly (Bolonha: i Mulino, 1998). p. 7 passim. Ver também M. Fortis, Cres
economicaespecializazioni prod Sistem: locale imprese del made in Italy (Mili: Vita e Pensiro,
1996); M. Fortis, L'gppoo del "sistema moda-arred casa alla blanca commerciale italiana (Bolona: No
‘misma, 1985).
«pp. 76-77. Ver também E. Morini, Storiadella mode,
o
‘Amoda na era pbs-industial an
portanto, que, acima de tudo, traz a mente a ideia de “exceléncia’, ¢ nio a
origem do bem. Hoje, todavia, para muitos o made in Italy €, simplesmente, um
sindnimo de moda, de universo de producdes manufatureiras que vao do setor
téxtil e de vestuario ao de couros e calgados, do setor de oculos ao de ouri-
vesaria, no qual a Italia conseguiu conquistar um espaco relevante no plano
internacional gracas a criatividade de seus estilistas. Na realidade, como ob:
servam os especialistas do setor, os setores da producao nos quais a Italia tem
© primado produtivo e comercial internacional, as especializagdes que podem
realmente ser etiquetadas madc in Italy nao se limitam exclusivamente ao ambi
toda moda do vestuario."' De fato, depois de anos de crescimento gradual, mas
constante, ce numerosas empresas especializadas e zonas industriais, a Italia
jf se tornou o pais-guia também para os produtos de todo o sistema “mobilia-
casa’, dos materiais requintados para a construgdo (como as ceramicas ¢ os
banheiros) a mobilia (como cozinhas, sofas de couro, moveis para o quarto €
a sala), das torneiras ¢ registros as panelas e pequenos eletrodomésticos, dos
grandes eletrodomésticos as lampadas ¢ as técnicas de iluminacao em geral
‘Alem disso, a producao “excelente” concerne a diversos bens ligados ao tempo
livre e ao lazer, como as bicicletas ¢ 0s calados esportivos. A Italia conquistou
espacos relevantes em muitas produgdes agricolas ¢ alimentares tipicas, como
a fruta, os tomates em conserva, azeite, massas, vinhos, em virtude também da
crescente atencao dedicada pela comunidade cientifica aos efeitos benéficos
da “dieta mediterranea”. Além do estatuto de exceléncia, entre as massas €
as torneiras, entre os tecidos de seda e a ourivesaria, entre os sofas de couro
eas botas de montanhismo e caminhada ou os culos produzidos na Italia,
existem alguns denominadores comuns muito especificos. Em primeiro lugar,
a arte comum ao trabalhar certas matérias-primas, arte que se traduz ou na
primazia mundial que a Italia detém quanto aos volumes manufaturados des
sas matérias-primas (como acontece com o ouro, a la, a seda, os couros, as
ceramicas, 0 trigo duro, os marmores € granitos, o lato, etc.), ou nos niveis
técnicos clevadissimos atingidos pelas empresas italianas a0 manufaturar cer
tas matérias-primas para fins especificos (como, por exemplo, o plastico nas
botas para esqui, os metais ¢ as ligas especiais nas armagies para dculos, ¢
também nas coroas ¢ nos pinhdes dos conjuntos mecanicos das bicicletas).
Por outro lado, alguns elementos tipicos do sistema “moda”, como a pesquisa
4M. Fonts, IImade in ely, cit, p.B.| 212 Histéria social da mada
cem design, de novas e inovadoras solugdes no emprego dos materiais, das co
res ¢ das linhas, sio comuns também as produgdes do sistema “mobilia-casa”
ou para os produtos destinados ao tempo livre; basta pensar nas torneiras,
também elas de grife, como as pecas de roupas de estilistas reconhecidos.* |
necessario considerar também o setor “induzido” pelo made in Italy, de modo
particular aquele das maquinas especializadas. A lideranca aleancada pela Ita
liana producao de bens do sistema “moda-decoracao-casa-lazer-alimentagio”
permitiu-lhe conquistar também niveis altissimos de especializagao nas ma
quinas utilizadas em tais setores, Podemos concluir que:
arte de trabalhar as matérias-primas, acrescentou-se a arte de construir as
melhores méquinas do mundo para transformar essas mesmas matérias-
-primas, e também para a sua dosagem, a manufatura e embalagem dos
produtos acabados. Tudo isso ¢ [..] 0 made in Italy, isto é, @ parte mais vital
da economia italiana, baseada em pequenas empresas e em zonas indus-
triais, capaz de conquistar posigdes de lideranga em mercados de todo
mundo. Néo sé moda, portanto.*®
® thidem,
“© id, ps.