Da Contingência Histórica À Felicidade Eterna (Evig Salighed) o Problema de Migalhas Filosóficasanalisado A Partir de Lessing e Paul Tillich
Da Contingência Histórica À Felicidade Eterna (Evig Salighed) o Problema de Migalhas Filosóficasanalisado A Partir de Lessing e Paul Tillich
JONAS ROOS(*)
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REVISTA BRASILEIRA DE FILOSOFIA DA RELIGIÃO / BRASÍLIA / V. 8 N.º 1/ JUL. 2021 / ISSN 2358-8284
DOSSIÊ KIERKEGAARD E A FILOSOFIA DA RELIGIÃO
DA CONTINGÊNCIA HISTÓRICA À FELICIDADE ETERNA
INTRODUÇÃO
Este artigo toma como ensejo a tradução, por Álvaro Valls, do texto de Gothold
Ephraim Lessing Sobre a demonstração do Espírito e da força1, publicado originalmente
em 1777, e traduzido no presente número da Revista Brasileira de Filosofia da Religião,
pela primeira vez, até onde se tem notícia, para a língua portuguesa. Kierkegaard, leitor
atento de Lessing, parte, através do pseudônimo Johannes Climacus, justamente de uma
problemática elaborada pelo pensador alemão no referido texto e que expressa, nos termos
de Climacus, o problema de se fundamentar uma felicidade eterna, ou seja, uma verdade
religiosa, a partir de um saber histórico e de toda a contingência que lhe é inerente. Em
outros termos, como se dá a passagem da relatividade do histórico para a verdade
pretendida pelo religioso? Tratar-se-ia, nos termos de Aristóteles, de uma metabasis eis
allo genos?
Este problema é central para a Filosofia da Religião, uma vez que muitas religiões,
e, no caso específico com o qual se ocupa Lessing mais especificamente, o cristianismo,
partem de relatos históricos e de toda a contingência inerente a eles, mas pretendem
fundamentar toda uma visão de vida e de mundo em nada contingente. Este artigo explora
esta tensão específica primeiramente a partir do texto de Lessing e depois mostra como
esta tensão se expressa em Migalhas Filosóficas. Posta esta questão o texto procura
mostrar como a designação felicidade eterna pode ser iluminada pelo conceito de
preocupação última como descrito por Paul Tillich, especialmente em sua Teologia
Sistemática e em Dinâmica da Fé, e vinculado à sua análise do conceito de fé. Esta
vinculação será crucial para o esclarecimento do problema porque embora, no caso de
Climacus, evig Salighed (felicidade eterna) e Tro (fé) sejam conceitos distintos, parece
evidente não haver evig Salighed sem Tro, ou seja, a compreensão da primeira é
necessariamente dependente de sua vinculação com a segunda.
1
O título do texto, no original, é Über den Beweis des Geistes und der Kraft. Trata-se de uma referência a
1 Coríntios 2.4. Na tradução da Bíblia de Jerusalém: “minha palavra e minha pregação nada tinham da
persuasiva linguagem da sabedoria, mas eram uma demonstração de Espírito e poder, a fim de que a vossa
fé não se baseie sobre a sabedoria dos homens, mas sobre o poder de Deus”.
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Neste ponto me ocupo apenas com a descrição da argumentação de Lessing a fim de chegar à problemática
que me interessa. Importante notar, contudo, que com relação à diferença entre quem teria presenciado por
si mesmo os milagres e cumprimentos de profecias e quem só teria acesso a relatos de terceiros Climacus,
embora parta do problema colocado por Lessing, não o acompanha neste ponto. Pelo contrário, em
Migalhas Filosóficas elimina a distinção entre o que denomina de discípulo contemporâneo [do mestre] e
discípulo de segunda mão. A esse respeito ver os capítulos IV e V de Migalhas Filosóficas.
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seria o caso de Orígenes – não apenas citado por Lessing, mas também autor da epígrafe
escolhida para seu texto3 – que, embora não tivesse mais um acesso a uma demonstração
dos milagres de Cristo, presenciaria ainda a ocorrência de outros milagres e, assim, teria
acesso àquilo que Lessing denomina como demonstração da demonstração (LESSING,
20054).
O problema se mostra para Lessing, então, como o de, não tendo nem a
demonstração, nem a demonstração da demonstração, como crer a partir de algo muito
mais fraco do que essas, ou seja, os relatos históricos de terceiros. O autor pontua a
seguinte questão: “[...] o que leio em historiadores fidedignos será, sem exceção,
igualmente tão certo para mim quanto aquilo que eu mesmo experiencio?” (LESSING,
2005, p. 85. Grifo no original).
O autor expressa essa tensão de forma bem concisa, nos seguintes termos:
“verdades históricas contingentes jamais podem vir a ser a demonstração de necessárias
verdades da razão.” (LESSING, 2005, p. 85, Grifo no original).
É preciso considerar que a diferença entre esses dois tipos de verdade é qualitativa,
de modo que um aumento quantitativo na primeira (um aumento em relação à certeza
histórica) não gera a segunda (uma verdade lógica e a certeza nela implicada, por
3
Como epígrafe, temos o seguinte: “... pelos extraordinários milagres cuja realidade pode-se demonstrar
de muitas maneiras, e, muito especialmente, pelo rasto que deixaram nos que vivem segundo a vontade do
Logos.”
(Orígenes, Contra Celso, apud LESSING, 2005, p. 83).
4
Faço uso da tradução de Álvaro Valls do texto de Lessing. Uma vez que a referida tradução ainda não está
publicada enquanto este texto é escrito, para referência utilizo a paginação do texto em inglês.
5
Com o uso do termo “exigir” sigo a tônica do texto de Lessing. Poder-se-ia, contudo, mudando um pouco
a tom, falar da certeza oferecida pela religião No século XX, Rudolf Bultmann, por exemplo, estará atento,
seguindo o espírito da Reforma, a que a fé não se torne uma obra ou, se quisermos, uma exigência. Se for
entendida como o que é oferecido, como no caso de Migalhas Filosóficas (cf. Capítulo I, por exemplo,
embora a questão atravesse a obra como um todo), por exemplo, disso não segue que não exija um
envolvimento subjetivo de aceitação. Adiante tangenciarei novamente a questão a partir de Paul Tillich e
da dialética entre exigência e promessa.
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exemplo). Tanto Kierkegaard quanto Lessing não parecem negar a lei dialética da
passagem da quantidade à qualidade em termos gerais, ou no que se aplica à natureza, por
exemplo, mas a negam com relação a decisões existenciais6. Para um pensador subjetivo7
as decisões existenciais se dão no limite do conhecimento, por mais que se o tenha
acumulado. A existência, nesse sentido, implica, necessariamente, em saltos, no modo
como Lessing e Kierkegaard o compreendem8.
Se, por um lado10, Lessing distingue entre o que chama de verdades contingentes
da história e verdades necessárias de razão, na citação acima passa a abranger questões
existenciais ao sugerir que não colocaríamos em risco qualquer coisa que fosse de grande
e duradoura importância, cuja perda fosse irreparável, em função de um saber histórico.
Neste ponto configura-se uma cisão fundamental, e entre esses dois tipos de verdades
6
Por decisão existencial compreendo, em sentido kierkegaardiano, aquela que afeta a constituição do si-
mesmo. Em poucas palavras: se o si-mesmo se constitui enquanto síntese de finitude e infinitude, se a má
relação entre esses polos constitui o desespero, e se uma boa ou adequada relação é o que estabelece o si-
mesmo enquanto indivíduo em sua liberdade, as decisões que afetam essa estrutura ou relação do si-mesmo
em sua existência podem ser chamadas de decisões existenciais. O pano de fundo para essa compreensão
encontra-se desenvolvido de modo mais completo em A Doença para a Morte, do pseudônimo
kierkegaardiano Anti-Climacus.
7
Importante terminologia de Pós-escrito relacionada fundamentalmente a Lessing. (KIERKEGAARD,
2013a)
8
O salto não é aqui compreendido como consequência de um aumento quantitativo, antes, como ruptura
em relação a ele. Esse ponto diz respeito a questões existenciais, outro é o caso com relação à natureza,
onde o tempo todo diante de nossos olhos um aumento na quantidade de algo gera uma qualidade nova
(conforme o conhecido exemplo do aquecimento da água que, a 100 ºC ao nível do mar, muda do estado
líquido para o gasoso). Com relação ao tema do salto e sua inevitabilidade em relação a questões
existenciais, disso não se pode derivar, pelo menos para Kierkegaard, que qualquer salto seja igualmente
válido. Este, obviamente, é um outro problema que exige um tratamento específico.
9
Poeta grego que acompanhava Alexandre nas campanhas. Nota do tradutor.
10
O presente parágrafo e os dois que o seguem baseiam-se em ROOS, 2015, p. 58-59.
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tem-se aquilo que Lessing chama de um “horrível e largo fosso11 que eu não consigo
transpor, por mais frequentemente e seriamente que eu tenha tentado o salto 12 .”
(LESSING, 2005, p. 87).
E o que faz a religião senão partir de relatos históricos, de relatos que sempre nos
fornecem certezas contingentes e, a partir deles, propor verdades que tenham um caráter
absoluto 13 ? No caso do Cristianismo, por exemplo, com o qual Lessing está lidando
diretamente, o que são os evangelhos senão relatos históricos – e, portanto, contingentes
– que querem fundar toda uma visão, em nada contingente, sobre tempo, eternidade, vida,
morte, amor, justiça etc.? Como resolver a questão? Colocando o problema em termos
mais existenciais, em que tipo de verdade se pode fundamentar o sentido da vida? Vimos
que Lessing opera com a distinção entre verdades históricas contingentes, de um lado, e
necessárias verdades da razão, de outro. Para estas últimas, mencionei como exemplo as
verdades da matemática e da lógica, que, como se sabe, repousam em fundamento
epistemológico diferente daquele das verdades contingentes da história. Entretanto, e
11
der garstige breite Graben (Nota do Tradutor).
12
Sprung (Nota do tradutor).
13
É claro que o modo de lidar com o que se entende como absoluto varia tanto na história das religiões
quanto, mais especificamente, na história da teologia cristã, e apresenta uma série de dificuldades e aquilo
que pode se chamar de más compreensões. Disso não segue, contudo, que o conceito de absoluto deva ser
abolido ou mesmo evitado.
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A construção aqui traduzida por felicidade eterna consta no original como evig
Salighed. Evig diz respeito ao adjetivo “eterno” e Salighed pode ser traduzido por
santidade, beatitude, salvação15, felicidade, felicidade suprema16 ou felicidade eterna17.
Mesmo quando traduzido por felicidade, normalmente o termo carrega uma conotação
religiosa, e nesse sentido se difere de lykke, ou seja, felicidade, especialmente no sentido
14
Na primeira edição (1844) essas perguntas estão impressas na folha de rosto do livro.
15
Na primeira epístola de Paulo a Timóteo, 2.4 se lê: “o qual deseja que todos os homens sejam salvos e
cheguem ao pleno conhecimento da verdade”. O termo aqui traduzido por salvos é, em versões atuais da
bíblia dinamarquesa, traduzido por “frelses” (salvos, na voz passiva), mas na edição de 1830, que
Kierkegaard utilizava, o termo era salige, relacionado, portanto, ao substantivo Salighed.
16
Conforme, por exemplo, a tradução de Elisabete Souza em KIERKEGAARD, 2013b, p. 66 e 67.
17
A tradução de Salighed por felicidade eterna é possível, a depender do contexto, mesmo em casos em
que o adjetivo evig não esteja presente.
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de sorte ou fortuna. Salighed tem um sentido rico e multifacetado não apenas na língua
dinamarquesa, mas na obra de Kierkegaard como um todo18.
18
Interessante notar que no grande dicionário dinamarquês Ordbog over det Danske Sprog, no verbete
Salighed, quatro dos exemplos referentes à literatura dinamarquesa remetem à obra de Kierkegaard. Cf.
https://ordnet.dk/ods/ordbog?query=salighed. Acesso em 12 de junho de 2021.
19
Neste ponto do texto, no que diz respeito ao pensamento de Tillich, faço uso de algumas passagens, com
alterações, anteriormente desenvolvidas por mim em ROOS, 2021, p. 24-32.
20
Importante observar que entrega da subjetividade não significa negação da subjetividade. O ponto que
atravessa tanto o entendimento de Tillich quanto o de Kierkegaard é o de que a subjetividade é fundada não
por si mesma, mas por algo que a transcende. O que precisa ser entregue, com relação à subjetividade, é a
tentativa de auto fundamentação.
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Ao final desse trecho há uma nota de rodapé que deixa explícita a conexão com
Migalhas Filosóficas:
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Nesses termos, a preocupação última é universal. Não se pode viver sem uma
preocupação última à medida que não se pode viver sem um centro de sentido. Tillich
(1965) entende que uma tradução para esta ideia poderia ser “seriedade incondicional”,
embora com certa perda de sentido. A esse respeito, o autor pondera o seguinte:
Não há nada que você tome com seriedade incondicional? Pelo que, por exemplo, você
estaria pronto a sofrer ou até mesmo morrer?” Então você descobrirá que até mesmo o
cínico toma o seu cinismo com seriedade incondicional, para não falar de outros, que
podem ser naturalistas, materialistas, comunistas, ou o que quer que seja. Eles certamente
tomam algo com seriedade última (TILLICH, 1965, p. 8).
Dois aspectos andam sempre juntos com relação àquilo que toca alguém
incondicionalmente. De um lado uma dedicação total ou sujeição incondicional e de outro
uma promessa de realização suprema. Sem a articulação simultânea e complementar
desses dois aspectos perde-se o sentido próprio de preocupação última. Importante notar
que essa mesma dialética se mostra como central em Temor e Tremor, atravessando a
obra em sua análise da dialética da fé e de seus temas correlatos. É clara nesse texto
kierkegaardiano a tensão explorada entre, de um lado, nos termos de Tillich, uma
“sujeição incondicional”, que chega ao ponto de entregar o filho da promessa para
sacrifício, e, de outro, a “promessa de realização suprema”, articulada na esperança de
retornar com o filho e se tornar pai de uma grande nação. No caso de Kierkegaard, fora
dessa dialética não se compreende seu conceito de fé enquanto duplo movimento como
desenvolvido em Temor e Tremor.
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Aqui também as promessas são de uma indefinição simbólica, se bem que no centro se
encontre a realização da vida nacional e pessoal. Como ameaça, porém, surge a exclusão
dessa realização; ela significa decadência do povo ou extinção do indivíduo. Para o
homem do Antigo Testamento a fé é o estar possuído última e incondicionalmente por
Javé e por tudo aquilo que ele representa através de seus mandamentos, ameaças e
promessas (TILLICH, 1996, p. 7).
De qualquer modo, o que está em questão aqui é aquilo que pode ser um centro
de sentido, é aquilo pelo que se colocaria a própria vida em jogo – dedicação suprema e
realização suprema. A construção “realização suprema”, contudo, deve ser tomada com
certo cuidado. Não se trata de uma solução final para os problemas da existência. A partir
da preocupação última a realização suprema é experimentada como algo que já está
presente, mas que ainda não é pleno. De semelhante modo, os termos dedicação suprema
ou entrega total nada têm a ver com fanatismo religioso. Tais termos dizem respeito
àquilo que é centro de sentido e que, portanto, não pode se restringir a uma parte da
personalidade. É nesse sentido que não há “lugar” onde se pudesse estar ausente de tal
preocupação. E uma vez que, assim entendida, a preocupação abrange a totalidade do ser
humano, seja seu sentimento, sua emoção ou sua razão, ela propicia justamente o oposto
das atitudes fanáticas e que provocam cisões, tanto na estrutura do eu quanto na relação
deste com o outro.
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Dado que o ser humano é uma síntese do temporal e do eterno, a felicidade da especulação
que um especulante pode ter será uma ilusão, porque ele, no tempo, quer ser somente
eterno. Aí reside a inverdade do especulante. Por isso, acima desta felicidade está o
interesse infinito, apaixonado, pela própria felicidade eterna. Ele é superior
precisamente porque é mais verdadeiro, porque expressa decididamente a síntese.
(KIERKEGAARD, 2013a, p. 61. Grifo meu).
Voltando à exposição de Tillich, acima foi dito que um cínico, por exemplo, toma
o seu cinismo com seriedade incondicional, e que o mesmo pode acontecer com
naturalistas, materialistas ou outros. Isso pode sugerir que tudo poderia ser
adequadamente relacionado a uma preocupação última. Tillich considera ainda o caso em
que o sucesso na vida, o status social e a ascensão econômica se transformam em
preocupação incondicional. Neste ponto, é importante considerar atentamente a crítica
que tece:
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esclarecedor simplesmente afirmar que tal infinito seria Deus. Esta afirmação ainda não
esclareceria o que fundamentaria a divindade na ideia de Deus. O encaminhamento do
problema estaria, então, justamente em entender Deus a partir do elemento do
incondicional. Só pode ser rigorosamente pensado como fonte da fé aquilo que pode ser
concebido como tendo incondicionalidade, como o que tem validade última (TILLICH,
1996, p. 11).
21
A esse respeito ver o capítulo III de Migalhas filosóficas: O paradoxo absoluto – um capricho metafísico.
Sobre as provas da existência de Deus e a subjetividade nelas envolvida: “no começo de minha prova eu já
pressuponho a idealidade, e pressuponho que terei sucesso em levá-la até o fim; mas o que é isso senão
pressupor que o deus existe e que é confiando nele que começo?” (KIERKEGAARD, 1995, p. 68).
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Vê-se, pois, facilmente (se é que de resto se precisa demonstrar o que implica a despedida
da inteligência22) que fé não é um conhecimento; pois todo conhecimento é ou bem o
conhecimento do eterno, que deixa excluídos o temporal e o histórico como indiferentes,
ou bem conhecimento puramente histórico; e nenhum conhecimento pode ter como objeto
este absurdo, de que o eterno seja o histórico. (KIERKEGAARD, 1995, p. 91).
22
Esta formulação poderia sugerir certo irracionalismo em Kierkegaard, e, sem dúvida, um afastamento
com relação a Tillich. Kierkegaard e Tillich possuem diferenças significativas em vários pontos, mas não
penso que um suposto irracionalismo da parte de Kierkegaard constitua um deles. A razão para isso é a de
que Kierkegaard é polêmico, especialmente com Migalhas filosóficas, ao que entende como excessos da
mediação, que a tudo explicaria. Em contraposição a tal entendimento, e de modo polêmico, Kierkegaard
procura pensar limites para a mediação e se refere à despedida da inteligência. Não se trata de despedir a
inteligência como um todo, é claro, mas de reconhecer seus limites diante de questões existenciais, como a
fé, por exemplo. Sobre tais questões há importantes esclarecimentos em EVANS 1989 e 1992.
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Vê-se, pois, facilmente (se é que de resto se precisa demonstrar o que decorre da
despedida da inteligência) que a fé não é um ato da vontade; pois todo querer humano só
é capaz de alguma coisa no interior da condição. (KIERKEGAARD, 1995, p. 92).
Mas, para que o mestre possa dar a condição, ele tem que ser o deus, e para colocar o que
aprende na posse dela ele tem que ser homem. Esta contradição é, por sua vez, o objeto
da fé, e é o paradoxo, o instante. Que o deus já tivesse de uma vez por todas dado ao
homem a condição, é o eterno pressuposto socrático, que não se choca hostilmente contra
o tempo, mas é, isto sim, incomensurável com as determinações temporais; mas a
contradição está em que ele receba a condição no instante, condição que, sendo uma
condição para a compreensão da verdade eterna, é eo ipso a condição eterna. Se as coisas
se passam de outra maneira, então permanecemos na reminiscência socrática.
(KIERKEGAARD, 1995, p. 92).
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Um ato de fé é realizado por um ser finito, que está tomado pelo infinito e para este se
volta. Trata-se de um ato no âmbito do finito, com toda a limitação que como tal lhe é
própria; mas também é um ato do qual participa o infinito transcendendo os limites do
finito. Fé é certeza na medida em que ela se baseia na experiência do sagrado. Mas ao
mesmo tempo a fé é cheia de incerteza uma vez que o infinito, para o qual ela está
orientada, é experimentado por um ser finito. (TILLICH, 1996, p. 15).
A partir disso, o critério para avaliar a fé, à medida que isso é possível, deixa
obviamente de ser a tão comum inclusão ou não da dúvida no ato de fé. O que Tillich
propõe nesse contexto como critério é justamente a pergunta pela seriedade com que se
está preocupado pelo incondicional. É claro que se trata de um critério frágil e subjetivo,
mas não se consegue estabelecer critérios diferentes para questões existenciais.
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Sem risco não há fé. Fé é justamente a contradição entre a paixão infinita da interioridade
e a incerteza objetiva. Se eu posso apreender objetivamente Deus, então eu não creio;
mas, justamente porque eu não posso fazê-lo, por isso tenho de crer; e se quero manter-
me na fé, tenho de constantemente cuidar de perseverar na incerteza objetiva, de modo
que, na incerteza objetiva, eu estou sobre “70.000 braças de água”, e contudo creio.
(KIERKEGAARD, 2013a, p. 215)
23
Ainda a título de exemplo veja-se a ênfase no arriscar em A Doença para a Morte: “Heroísmo cristão,
que em verdade talvez seja visto bem raramente, consiste em arriscar completamente tornar-se si mesmo,
um ser humano individual, este ser humano individual específico, completamente só diante de Deus,
sozinho nesse enorme esforço e nessa enorme responsabilidade”. Tradução minha. KIERKEGAARD,
2006, p. 117.
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ato da pessoa inteira. Trata-se daquele que é simultaneamente o ato mais íntimo e mais
global do ser humano (TILLICH, 1996, p. 7). Tillich afirma que a fé “não tange somente
o espírito ou apenas a alma ou exclusivamente a vitalidade, e sim ela é a orientação da
pessoa inteira em direção ao incondicional” (TILLICH, 1996, p. 69). Neste sentido, a fé
não deve ser entendida como uma função a mais que o ser humano possui entre outras.
Como um ato global, a fé envolve os elementos conscientes e inconscientes, racionais e
não-racionais, mas não se restringe a eles, os transcende em um movimento extático. A
fé não se restringe à razão e também não nega a razão e a vontade, ela os transcende,
conservando-os. Enquanto participação com todo o ser, a fé diz respeito à certeza
existencial, como vimos. Em outros termos a fé diz respeito ao sentido da vida, e este,
evidentemente, não pode estar circunscrito a alguma faculdade ou aspecto isolado da vida.
Enfim, a partir da análise que se seguiu procurei mostrar que a noção de evig
Salighed, com um sentido mais pressuposto do que propriamente desenvolvido em
Migalhas filosóficas, bem como a ideia de fé que com ela necessariamente se articula,
ganha em profundidade ao ser confrontada com as elaborações de Tillich sobre
preocupação última e fé. Procurei mostrar ainda que a tensão entre um saber histórico e a
felicidade eterna deve ser compreendida em toda a sua radicalidade e em seus
desdobramentos, que são muitos, para que se entenda não apenas Migalhas filosóficas,
mas um dos problemas centrais do pensamento de Kierkegaard.
24
Tenha-se em mente que essas duas obras foram escritas simultaneamente e publicadas com apenas quatro
dias de diferença, Migalhas Filosóficas a 13 de junho de 1844 e O Conceito de Angústia a 17 de junho de
1844.
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A proposta desse texto, contudo, não foi a de uma comparação ponto a ponto entre
os autores. A questão crucial, ao contrário, foi a de tentar mostrar que quando se entende
felicidade eterna em relação com o que Tillich chama de preocupação última, e com o
entendimento de fé que aí se articula (uma vez que felicidade eterna e fé são certamente
ideias distintas, porém não separáveis), a dialética pensada por Kierkegaard talvez ganhe
novamente algo de sua tensão originária.
25
Esta discussão, como se sabe, é central no Pós-escrito às Migalhas Filosóficas.
26
A esse respeito ver ROOS, 2018.
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Por outro lado, contudo, é preciso dizer que o diagnóstico do referido livreiro não
é compreensível. Se o problema de Migalhas Filosóficas é teológico, ele também é,
mutatis mutandis, existencial. É claro que é possível olhar para todas as principais
questões da teologia como existenciais. O que quero dizer, contudo, é que o problema de
Migalhas filosóficas, para além de seu âmbito teológico, é, mutatis mutandis, um
27
Aqui, especificamente, o termo é utilizado em sentido mais amplo, referindo-se ao histórico, no sentido
em que Kierkegaard o utiliza para intitular sua publicação que polemiza com a igreja dinamarquesa. Cf.
KIERKEGAARD, 2019, p. 29.
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JONAS ROOS
problema da existência como um todo. Todos nós temos de tomar decisões que para nós
têm um caráter fundamental, tem o caráter, quer sejamos religiosos, quer não, de uma
preocupação última, incondicional. Tais decisões, contudo, nunca podem ser baseadas em
mais do que conhecimentos aproximativos e insuficientes. Nesse sentido, todos estamos
diante do feio e largo fosso do qual fala Lessing e, nesse sentido, o problema de Migalhas
Filosóficas diz respeito a todos nós. Acima citei um trecho de Pós-escrito no qual
Climacus afirma que “tão logo se exclui a subjetividade e se tira da subjetividade a paixão,
e da paixão o interesse infinito, não resta absolutamente nenhuma decisão, nem sobre este
problema”, ou seja, sobre o problema de uma paixão infinita e pessoalmente interessada
na felicidade eterna, nem, e aqui é importante prestar atenção em como Climacus conclui,
“nem sobre qualquer outro” (KIERKEGAARD, 2013a, p. 38). No limite, toda decisão
existencial enfrenta o problema colocado por Lessing e desenvolvido por Climacus em
Migalhas filosóficas.
REFERÊNCIAS:
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KIERKEGAARD, Søren (2019). O Instante: como Cristo julga a respeito do cristianismo oficial
& Imutabilidade de Deus – Um Discurso. Trad. de A. L. M. Valls, M. G. de Paula. São Paulo:
Liber Ars.
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DA CONTINGÊNCIA HISTÓRICA À FELICIDADE ETERNA
KIERKEGAARD, Søren (2009). Temor e Tremor. Trad., int. e notas de Elisabete M. de Sousa.
Lisboa: Relógio D’Água Editores.
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religieuse Smaa-Afhandlinger; Sygdommen til Døden; “Ypperstepræsten”; “Tolderen”;
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ROOS, Jonas (2021). “Religião, fé e preocupação última a partir de Paul Tillich” in Pensar a
Religião: temas e conceitos filosóficos contemporâneos, por ROOS, Jonas; PIEPER, Frederico.
(Orgs.). São Paulo: Liber Ars: 21-39.
ROOS, Jonas (2018). “Conteúdo e forma: Kierkegaard e Tillich em Diálogo” in Paul Tillich e a
linguagem da religião, por TADA, Elton Sadao; SOUZA, Vitor Chaves. (Orgs.). Santo André:
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TILLICH, Paul (2005). Teologia Sistemática. 5 ed. revista. Trad. de Getúlio Bertelli e Geraldo
Korndörfer. Revisão de Enio Mueller. São Leopoldo: Sinodal.
TILLICH, Paul (1996). Dinâmica da Fé. Trad. de Walter O. Schlupp. São Leopoldo: Sinodal.
TILLICH, Paul (1965). Tillich in Dialogue. Ed. por BROWN, Mackenzie. New York: Harper
Colophon Books.
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