100%(2)100% acharam este documento útil (2 votos) 2K visualizações11 páginasA Paixão de Conhecer o Mundo
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A
paixao
de
conhecer
oO
mundo
Relatos de
uma professora
Madalena Freire
16" EdigaoRELATORIO DO PRE
1981 — Margo, Abril
A PAIXAO DE CONHECER O MUNDO
Gostaria de escrever este relatério sem dividi-lo em areas, sem
falar exclusivamente das atividades e de seus objetivos em si, mas tentar
passar para voces 0 “pulsar” vivo de nossas descobertas didrias, de
nossas diividas, 0 descobrir 6 mundo.
Gostaria de poder passar o vivo de nosso envolvimento, esta
constatacdo ébvia, mas intensamente forte, de que nds estamos vivendo
juntos. Nos estamos habitando, construindo esse espaco da sala, Ele é
um pedago de cada um de nds, ele é nosso.
Nosso corpo que se localizou primeiramente no espago da sala, ¢
que se alongou até & parede do parque, com o desenho do ANEQUIM
(um tubardo que mede 12 m),
ty
ealonga-se através da NAJA pelo corredor da escola... como um corpo
de um gigante que vai conquistando, aos poucos, 0 todo espacial da
——CisSCC:tstCCtiCCtiCiCiét##é«ééé#é#4..... aaaescola... ¢ que sai da escola, e comeca a conhecer as ruas
do bairro onde est a escola e onde muitos moram, com a visita a casa
da Avana.
Nés estamos juntos nos conhecendo e descobrindo ¢
conhecendo o mundo.
+ Todo esse proceso de busca e descobertas nos desvela o
proceso educativo, “a educago como um ato de conhecimento”, que
munca se esgota, que é permanente e vital.
Tio vital como foi descobrir que “borboleta pde ovo?!” Quando
descobrimos aqueles pontinhos brancos na parede, confesso que nem
eu mesma imaginava que fossem ovos.
Este instante foi de festa — todos se abracando, beijos pra c4,
beijos pra ld... E foi assim que surgiu nossa primeira palavra gerado-
ta: OVO.
— Oba! Oba!
— Viva! Viva!
Sera que é mesmo ovo de borboleta?
— E sim, Madalena! Olha ela ai do lado!
— E... e estdé morta.
— Coitada, pés tanto ovo que morreu.
Vamos contar quantos tem?
— 230 ovos!...
— Até cansei de contar...
E 0 que sera que vai sair dai?
— Borboleta. ora!
Ja direto?
— Nao...
Vamos estudar amanha no livro, pra gente saber?
—- Vamos.
No dia seguinte iniciaram nossos estudos sobre borboleta.
Descobrimos que dos ovos iriam sair larvas que iriam crescer e logo em
seguida lagartas que se transformariam em casulos e depois borboletas.
Descobrimos que as borboletas vivem para por 0s ovos, que no
se alimentam, e morrem em seguida depois de postos os ovos. A medida
em que iamos fazendo essas descobertas, iamos registrando (decidimos
fazer os registros, através de desenhos. As criancas mesmas iam
desenhando) no nosso quadro das descobertas, e 0 que ainda nao
sabiamos, ou sobre o que ndo tinhamos seguranga, anotévamos no
nosso “quadro de diividas”.
(Tenho tido sempre a preocupagio de marcar bem para as
criangas que estamos descobrindo, conhecendo, aprendendo. E tudo 0
que vamos aprendendo, socializamos. Isso tanto para as descobertas
conquistas individuais, quanto para as descobertas do grupo.)
Depois de alguns dias, antes de comegarmos a“roda”, perguntei
se alguém tinha visto os ovos da borboleta (olhavamos todos os dias
para observarmos as mudangas), e quando olho para a parede, umas
“linhas” marrons com bolinhas pretas mexendo-se, saindo dos ovos....
— Minha gente 0 que é aquilo’
— Nasceram! Nasceram! Nasceram!
— As larvas saindo do ovo,
Eu, toda arrepiada, com os olhos cheios d°4gua...
Abragos, beijos, obas e vivas, ¢ desta vez mais estridentes ¢ mais
demorados...
Um clima de emogdo e alegria nos envolvera a todos como se
estivéssemos em “estado de graca”
Baixada a “poeira”, chamei-os numa “roda” e propus que
registrassemos no papel toda a estoria da borboleta até aquele dia, eles
desenhando ¢ eu escrevendo.
(Foi com essa experiéncia de registrar a estéria da borboleta que
me deu o “estalo”!: Nos poderiamos escrever, registrar todas as
nossas experiéncias como um diario da vida do grupo. E foi assim que
nasceu NOSSO LIVRO DE ESTORIAS DO PRE...)
J4 tinhamos visto que as larvas assim que nascem jé comem, €
precisdvamos entdo pér comida para elas. E comem que folhas?19 RoGéRiO
TRouUxE UMA
GoRBOLETA vival
__Saimos para o parque a procura de folhas variadas, pois nao
sabiamos 0 que comiam.
___ Pusemos as folhas eas larvas nada de comerem.... Combinamos
ent&o que trariamos de casa outras folhas — COUVE, ALFACE e
folhas de amora.
Nada... Continuaram sem comer. Até que um dia morreram.
Constatamos que nao poderiam mesmo viver sem comer por tanto
tempo. Mas tivemos sorte, pois Marina, mae do Acaua, nos mandou
duas lagartas num vaso de samambaia. E agora tinhamos certeza de que
viveriam, pois sabiamos que cofniam folhas de samambaia.
Il, professora do jardim 1, também trouxe outra lagarta que
também comia samambaia, e logo depois Juja e Emilia trouxeram mais
quatro! Uma verdadeira’ “criagdo” de lagartas, que atualmente
observamos a espera do casulo...
Paralelo a esse estudo das borboletas, estudamos também as
aranhas € logo depois as cobras...
Fomos ao Butantd para nos certificarmos se nossas descobertas
eram corretas e para esclarecermos as diividas: “E verdade que tem
aranha de 8 olhos?”
— Que aranha é essa (a mao peluda)?
— Essa nossa aranha se chama TARANTULA. etc.
Quando escrevi TARANTULA, alguém grito
— Olha! Tem Tula.
— O que tem Tula? Aonde?
— Aqui em TARAN - TULA.
— E também tem TATU.
— Eo TA de Tamara e o TU de Tula!
E surgia, assim, nossa segunda palavra geradora: TATU.
Antes de sairmos para o Butantd, cada um pendurou o seu
“cracha” — que era um cartéo com o nome da escola, telefone ¢
enderego, ¢ assinou o nome.
_
Combinamos todas as regras, do que podia e do que nao podia
no passeio: “Todo mundo sempre junto do grupo”. “Nao correr, nem
sair na frente sem avisar para onde vai", etc.
Preparei fichas onde pudéssemos anotar, desenhando, tudo 0
que quisessem.
No Butanta ficamos loucos... Aquela variedade enorme de
cobras e de aranhas, ¢ todo mundo querendo copiar os nomes das
cobras, ¢ sem parar de desenhar.
'Fizemos nossas perguntas, mostramos nossas aranhas, ¢ para
nosso espanto, soubemos que cram muito perigosas. Simplesmente a
tarantula era uma caranguejeira...
(Chamo sempre a atengdo deles para anecessidade que temos de
ser curiosos toda vez que levantamos hipdteses sobre algum objeto em
estudo ou quando testamos o conhecimento que fizemos do objeto. Foi
(© que fiz ao irmos ao Butant& para confirmar nossas descobertas. Este
testar sempre vale para tudo. Se fazemos “tinta” com papel crepon —
vamos depois testar se virou tinta mesmo. )
Descobrimos qual a diferenga entre uma cobra venenosa ¢ uma
no venenosa.
.
«
Venenosa Nao venenosa
Que o veneno da cobra é como a saliva — jamais acaba. (Vimos
retirarem veneno.)
Mas a ida ao Butanta deixou-nos intrigados:
— Como que faz 0 soro para a mordida da cobra.
— Nao sei muito bem, mas acho que o pai do Vadico pode
explicar pra gente, sera, Vadico?
E deixei a pergunta sem resposta por uns tempos.
Depois da ida ao Butantd, observei nas cri
curiosidade em saber como era uma cobra por dentro. Tinhamos uma
cobra na classe, entéo perguntei
— Vocés topam dissecar uma cobra?
— O que é isso?
— Ff abrir a cobra e ver como é por dentro.
— Eu topo! Eu topo!
No primeiro momento pensei em eu mesma abrir a cobra, mas
depois, refletindo, cheguei a conclusdo de que 0 Jillio, pai do Rogério.
poderia dissecé-la melhor do que cu, além da oportunidade de ter uth
pai trabalhando conosco na sala, Acredito que neste processo dedescobrir, conhecer 0 mundo, estamos todos nés yuntos: eu, as criangas
e voces pais.
E importante que as criangas percebam que o professor nao &
dono do saber, que seu pai, os pais também sabem. Que podem vir a
escola TROCAR conhecimentos conosco.
Outro ponto que quis trabalhar com a vinda dos pais foia figura
masculina dentro da escola.
Essas visitas também se estenderam a um tio e a um irmao.
____ Falei com 0 Julio ¢ ele topou. Entéo marcamos o dia para a sua
vinda e aviseias criangas. Na véspera, no momento da “roda”. fizemos 0
bilhete para vocés pais comunicando a vinda do Julio. Usando o
mimedgrafo, cada um rodou o seu bilhete. Depois pedi que fizessem
uma fila e que cada um viesse me dizer 0 nome da mae e do pai para que
eu escrevesse no bilhete.
(Com esse encaminhamento senti nas criangas um sentimento
forte, que ndo sei bem explicar, mas me pareceu algo assim como se
estivessem recebendo “um diploma de filhos”... Todos numa postura
de muita atengio, responsabilidade, com o bilhete nas mios...)
____ Eo .Jillio chegou no dia seguinte, a cobra e os mater
da “roda” € a dissecaco iniciou-se.
sno meio
nt
do Julio, uma grande alegria por terem sua curiosidade desafiada. Em
certos momentos, espantos: “Cobra rem coraydu?”
No final todos se despediram etusivamente do Jilio com
— Obrigado, hiilio! Parabéns, Jiilio! Tchau, Sitio!
Transcrevo aqui as impressdes do Julio:
Gostei muito de ter dissecado a cobra no Pré. Ea sensagdo dominante foi a
sensagdo de brincar. Diverti-me enquanto desenvolvia essa atividade. Como nunca
linha dissecado essa espécie, a curiosidade prévia(por exemplo, as proporsoes dos
diversos aparelhos anatSmicos, drgaos especificos da cobra) ¢ a pesquisa torna
‘atividade muito agraddvel. O prazer advindo de poder trabathar com aescola
criangas permeou toda a atividade.
‘Contudo, devo ainda acrescentar que a minha expectativa de ampliar a
integracdo, jd existente com as criancas, era maior do que a, eu acho, quese verificou.
A DISSECAGAO
Reunimo-nos no chao, em circulo.
Coloquei a cobra (de mais ou menos 20cm), cinzenta, sobre wma placa de
isopor. na posicdo “barriga pra cima”.
‘A cobra foi aberta em planos, Inicialmente fez-se uma incisao na pele, bem
vertical, da cabeca ao rabo, destacando a pele do corpo e prendendo-a com alfinetes
no isopor. Muitas criancas trabalharam na preparacdo e colocacao dos alfinetes.
Abaixo da pele encontramos uma série dle anéis superpostos que funcionam
como tama capa de protecao para a cobra. Afastado esse conjunto de anéis (de modo
Semelhante ao feito com a pele), encontramos, logo abaixo, os drgdos internos,
‘Ofigado foi o primeiro dredo que se destacava. Pergunteids criancas o que era
aquilo ¢ a resposta foi obtida: Cod. Perguntaram pelo coracao. Retirow-se 0
‘coracdo. e passou de mio em mio.
“Expliquei o que era 0 tubo de comida (digestivo) e passei a extrai-lo. Como ele
possuivérias formas no seu trajeto (estémago, intestino, etc) apds asuaretirada,ficou
Pras facil identificar o restante dos drgdos. Finalmente identificarani-xe 08 dois
Grados amarelos (bilateral) na altura dos rins, multinodular, que logo de inicio naose
sabia 0 que era. Concluimos que erani as “vas”
A segunda visita foi o “Gogui”, pai do Acaua. Um dia o Acaua
trouxe de lanche um pao gostosissimo, perguntei quem tinha feito ¢ ele
me respondeu que tinha sido seu pai, Mandamos um bilhete para o|
Gogui no mesmo dia, dizendo que tinhamos gostado muito do pao ese
cle poderia nos mandar um para 0 nosso lanche do dia seguinte...
(Tenho lancado com freqiiéncia a proposta de“lanche para todo}
© mundo”, onde venho pretendendo viver o prazer de comermos tod
juntos, Antes cada um lanchava nas suas mesas e eu ficava de fora. Fal
sobre isso com o grupo. Disse que néo gostava de ficar por fora e fi
uma proposta: comermos como num pic-nic em volta de uma toalh:
redonda, todos juntos. Aceitaram.)
No outro dia, “pao do pai do Acaua” ¢ requijao(!) para o lanche|
Enquanto comiamos, perguntei:
~ Que tal chamar 0 Gogui pra ensinar como se faz esse pao
Ea resposta veio de boca cheia: Manda o bilhete.
Conversei com o Gogui, que me falou que poderiamos tambérabalhar com MICROORGANISMOS, partindo do. leved
Bichinhos” que no fazem mal ao homem. Concordei, passamos um
tempo i espera do fost da escola, mas enfim chegou'o dia.
___Foi uma tarde (0 Gogui ficou conosco toda de muit
agitacdo e principalmente de muito trabalho, Primciranente ec ce
Ao, anotamos todo o proceso: a receita, F enquanto esperivamos a
massa crescer, lanchamos todos em volta da nossa toalha .
Pusemos 0 pao no f
forno como a ;
eres quem carregava um importante
voltamos para a sala para fazermos “a
foi para mim fascinante.
___Descobrimos um instrumento que chamou a atengio das
ctiangas, e aproveitei para introduzi-lo como palavra geradora
PIPETA — que escrevemos, eu de um lado da mesa,e 0 Gogui do outro.
experigncia com o levedo”, que
(Gostaria de aproveitar para falar de como neste processo de
descobertas tudo anda junto. Nao existem compartimentos estanques:
citncias, plasticas, alfabetizagSo, etc. As descobertas abrangem, inva-
dem todas as Areas.
Estamos vivendo 0 deslumbrarmo-nos em descobrir. Conhecer
uma PIPETA e também como se faz pio, ¢ que “o CA de PIPOCA
junto com o PETA de PIPETA da CAPETA...”)
As impressdes do Gogui:
“Bstive com a classe do Pré e fizemos pao juntos. Em seguida comentamos a
uilizacdo de um microorganismo — a levedura — no processo de fazer pao. Indagou-
‘se a seguir sobre a existéncia de organismos muito pequenos no ambiente que nos
cerca. Coneluimos que seria possivel detectar esses bichinhos alimentando-os
‘abundantemente de maneira que cada um produzisse muitos “filhinhos”, ficando uns
sobre os outros até formar uma colénia visivel.
Investigamos os dedinhos, a superficie da mesa, chdo, macaneta da porta, o.ar,
ete. Dias depois todos viram os resultados nas placas de Petri,
‘A experiéncia foi excelente para mim. O interesse da turma foi intenso, os
‘apartes e perguntas, algumas vezes surpreendentes, sendo pela penetracdo, pelo
humor. Madalena coordena as atividades com maestria admirdvel, movenco-se sem
aparente resisténcia naquele campo altamente energético e vibrant
Pudemos observar depois de trés dias, como os microbios de nossos dedos, do
trinco da porta, da nossa toalha, etc... cresceram nas placas.
—“Puxa vida, tem tudo isso no meu dedo!”
— "Tem que lavar as méos, eu disse, tem que lavar as maos
— “E ndo pode pisar na toalha!”
O pao afinal pronto cheirando pela escola!
Demos de presente um pao a cada classe — e cada representante foi entregar
com um laco de papel envolvendo o presente, ainda quente..
Ea minha mae? Eu quero levar um pedaco pra minha mde.
E entdo uma fatia foi embrulhada para o pai e a mde: Poe o nome .Depois do Jiilio dissecar a cobra e o Gogui com o “bichinho que
nfo faz mal para o homem”, encaixei o Moisés (pai do Vadico) em
“como que faz 0 soro para a mordida da cobra” (e este sim, um bicho
que faz mal para o homem, para assim chegarmos as VACINAS). Por
que tomamos vacinas?
" Mandamos bilhete dizendo que 0 Moisés viria, e todo mundo
assinou,
Moisés viu nossas placas, sentou na roda, e comegamos a
conversa, que alias foi muito bem conduzida por ele.
E os comentarios foram surgindo: Puxa, ew pensava que
cavalo sé servia pra andar de cavalo... (quando viamos 0 processo para
obtenc&o do soro).
_____ Vimos também como o homem obtém a vacina para combater
os'micrdbios (que vimos crescer na placa) que nos causam doengas.
Como conseguimos prevenir as doencas: uma alimentagéo
adequada, As criangas mantiveram-se interessadas todo o tempo,
participando, perguntando, clareando suas descobertas.
— Subia? Eu perdi a ura com o micrdbio, fiquei com umn febrao
tum tempac
As despedidas, no final, vém sendo bastante efusivas, ¢ a do
Moisés també:
— Tehau, Moisés'..
— Viva Mois
As impresses do Moisés:
Aexperiencia
pontos que vale a pe
Chegueia
nant
nte curiosa, Teve varios
Procurei, na
escola uni tanto quanto apreensiv reidda do possivel,
puclesse ilustrar o contetido do axsunto. Ndo acheie fiquei desapontadoe
agora? Bom, o negécio éestudare verificar que forntas aplicar parame
livrar” da terminologia médica. Como fazer para dizer das anatoxinas, antigeno,
anticorpo, moléculas, proteinas, imunidade, conjugados, complementos.
‘0 dia vem chegando e a apreensdo crescendo. Confesso que estar
preocupado. Foi um dos momentos mais tensos da minha vida de professor. Nao sei
explicar por qué, mas foi
"Mas tudo cessou com 0 desenvolver da atividade. Nao sei se o foi para as
criangas, mas para mim foi extremamente rico viver este desafio.
‘O comeco foi meio confuso. Oesquenta previamente preparado evidentemente
nao funcionaria. Era necessdrio improvisar.
"E dat veio a coisa mais emocionante, e eu queria s6 ficar observando. Fo!
quando a Madd botou as eriancas para desenharem.
‘Achei simplesmente genial.
iu estava achando as coisas meioconfusas, mas a Madd conseguiti organizar,
fazendo com que as criangas desenhassem. "E de cair 0 queixo
Para ser sintélico, tive, entre muitas, duas sensacdes agraddveis ¢
verdadeiramente indescritiveis:
1 — Verificar como o espirito de criat
sendo trabalhada
ieee Testemunhar acapacidade de uma professora cujo trabalho eu jd conhecia
e considerava insuperdvel em criar, recriar e de se superar. “Pra mim uma coisa
Simplesmente fanidstica e para os nossos filhos uma experiéncia, marcante €
inesquecivel”.
bastante
idade e a formacido de nossos filhos vem
No meio desse periodo da vinda do Julio, Gogui e Moisés,
Mauricio veio me falar: Madalena, 0 meu tio sabe abrir bicho e
gente, ele pode vir aqui?
Respondi-lhe que sim ¢ aproveitei o Ricardo para dissecar a
pomba, que tinhamos achado morta no parque, para comparar seus
breaos com os da cobra e dar o salto para 0 corpo humano “por
dentro”,
£ algo muito forte o que estamos vivendo: a descoberta que “eu
sou homem, vocé é mulher”.
Conversei com o Ricardo, falei o que ja tinhamos visto com as
criancas, o que estavamos trabalhando: 1) a coluna, diferenga entre a
nossa coluna e a dos bichos; 2) diferencas entre o corpo da mulher € do
homem.
Chegou 0 dia, Ricardo apareceu com dois esqueletos, que
provocou reboligo na classe, um de macaco ¢ outro de um pissaro.
‘Comegamos a dissecagao ¢ descobrimos que aquele passaro era
uma pomba rola.
“Também fomos retirando érgio por Sérgio, como na cobra,
colocando nos vidros com alcool.
‘Com esta segunda dissecagdo observei nas criangas um maior
dominio — apropriagao do que viam: — Olha, o figado!
— Esse ndo é 0 coragdo?
Depois da pomba dissecada, comecamos a montar uma mulher
de plistico ~ um brinquedo: THE VISIBLE WOMAN, A medida em
{que Ricardo tomava cada dredo da mulher de plastico em suas maos, 8
nos mostrando onde ficava no nosso corpo.Para mim, especialmente, essa experiencia foi muito bonita. Até
entdo eu sé tinha vivido esse “despir-se” como mulher em casa, com
minhas filhas, vivé-lo em classe foi enriquecedor como mulher, mae
professora,
— Vocé tem peito como essa mulher.
— Peito homem também tem, vocé tem, Ricardo tem, mas eu
(mulher) tenho peito com mama para poder dar de mamar.
No final Ricardo recebeu varios presentes (de comida) e as
despedidas calorosas...
As impressées de Ricardo...
Queridos,
Mauricio, Rogério, Tula, Madd, Jodo, Acaud, Danny, Avana, E
Vadico, Tamara e Mada.
Quero que saibam que eu gostei muito de estar com vores naquela quarta-feira
Nos vimos juntos 0 pombo por dentro, os miisculos, o figado, os pulmées.
Alguns de voces pegaram nas partes — coracdo, tubo digestivo, tubo de ar e eu me
lembro do Rogerio, Mauricio, Tula e outros que queriam mexer em tudo. Sabe. eu
ensino, na minha profissdo, alunos que vido ser médicos e também meédicos que jd sao
Sormados e eles sdo como vocés: tem alguns que pegam em tudo e outros que ndo
Pegam, mas presiam “uma aten¢do"....e véem tudo.
Depois, quando sentamos no chido em roda todos juntos ¢ a tia Madd foi
contando as coisas do corpo e eu mostrando o esqueleto do macaco ¢ montando
‘aquela mulher transparente, voces todos comecaram a mostrar nos seus proprios
corpos, suas partes: as veias, esqueleto do peito (costelas), do braco, da méo. acabeya
como cérebro dentro, os pulmdes que se enchem de ar, as diferencas entre amulher eo
homem.
Vocés me mostraram algumas coisas nas quais eu tinha pensado, por exemplo,
aprender a estar juntos, e quando agente aprende, a gente ensinae vice-versa. Quando
essa “transa é legal”, a gente se sente bem.
Eu fiquei feliz também quando voces todos me abracaram no fim da nossa
conversa,
Foram muito carinhosos e desprendidos, pois quando comecou a chover e eu
ndo podia ir embora ganhei lanche de voces. Acaud me deu a metade do sanduiche,
com 0 pao gostoso feito pelo pai, Rogério me deuuma mexericae biscoitos, Mauricio,
metade do pao de queijo. Tudo muito gostoso.
A experiéncia para mim foi importante e fiquei impressionado (agora com a
Madd) com o jeito das atividades, a sala com ax coisas e 0 que é importante: voces
discutem e registram tudo no livro de estorias da classe. Fazem desenho e revivem as
experiéncias vividas, Vio livro (acho que foi a Avana que me mostrou) e senti que a
turma tem uma histdria e quem tem histéria fica mais gente.
Um abracdo para todos vocés,
Ricardo
(A experigncia de ter os pais trabalhando comigo
proporcionou-me elementos a mais no conhecimento das criangas, pois
Pude observd-las trabalhando com um outro educador.
Aprendi muito com todos eles, desde o conhecer os drgios da
cobra, 0 fazer 0 pio, os micrébios crescendo na placa, 0 soro, as
vacinas, até os encaminhamentos que cada um teve com cada crianga,
Para mim, como professora, foram momentos de emogao ¢
alegria,-t@-los trabalhando juntamente comigo ¢ com as criangas. Sé
lamento nio ter gravado nossos encontros.)
Antes da vinda do Ricardo tivemos a visita do Jonatham (9
anos) que foi meu aluno ha alguns anos, e que coma vivencia do Acaua
na escola, e com a vinda do pai, nao se agiientou ¢ veio também nos
visitar...
Ele nos trouxe varios presentes: um “insetario vivo”, com um
louva-deus, um bicho-pau, dois casulos(!), ovos de aranha(!) e livros
que ilustravam seus presentes.
As criangas ficaram fascinadas com os presentes, eeu ganhei um
ajudante eficiente num dia trabalhoso: “pintar a camisa do Pré”
(Aproveito para, em linhas,gerais, falar um pouco do nosso
trabalho em plastica).
Nosso trabalho esté centrado na conquista do inicio do realismo
— onde a crianga entre muitas coisas descobre que pode apresentar a
ilusio ética de que o céu vem até a terra — descobre o fundo.
Tenho sempre chamado a atengao das criangas para a
observagio do que véem; onde quer que estejam:
— Se vocé olhar para cima o que tem? Se vocé olhar para os
lados o que tem? etc.
— O céu, a parede.
Perguntas que desencadeiam descobertas, que 0 céu vem até 0
chito.
Paralelo a isso temos trabalhado técnicas de IMPRESSAO
que ressaltam FIGURA-FUNDO.Essas técnicas “invadem” todas as areas. Como foi 0 caso do ee renonie
quadro das nossas palavras: E da “valvula de incéndio”.
— Achei mais uma, de que é essa?
~ E da Sabesp — de cano d'agua.
Olha uma de gas!
E por ai foi... Seguimos a risca as indicagdes do “mapa” ¢ o que
iamos observando pelo camino, que nio tinha nas fichas, as criangas
desenhavam numas fichas sobressalentes que Zélia tinha nos dado.
Assim foi que registraram um rio que no estava nas fichas, o “ballet”
da Avana, um carro que deu uma brecada bem perto de nés.
Neste conhecer 0 mundo, os pais vém a escola ea escola vai a
casa das criangas € dos seus pais.
E foi assim que fomos a casa da Avana, a pé.
Zélia, m&e de Avana, escreveu-nos um bilhete-convite para
lancharmos.
‘Conversando com Zélia, ela me falou do que estava pensando
sobre marcar em fichas os pontos dos caminhos como indicios do cami-
nho para que pudéssemos ir seguindo. Achei dtima a idéia, e foi assim
que no dia, antes de sairmos, Zélia foi até a sala e na roda nos explicou
como que tinhamos que ir seguindo as fichas.
‘Alaide, que trabalha na casa da Avana, veio para ajudar-me na
caminhada com as criangas. Apresentei-a ao grupo ¢ outra vez
‘crachas” no pescoco. “Nao pode correr”, “néio pode passar na frente da
Madalena” e “nao pode ir atras da Alaide” (isso porque eu ia na frente e — O senhor é que é 0 dono?
Alaide atrds), e RUA! — Quem vende aqui é s6 vocé?
— Por que o senhor nao dd umas bananas pra nds?
— Mas tem que ser de graca, porque Madalena ndo tem dinheiro
para pagar...
E ganhamos catorze bananas (de presente) ¢ comemos na maior
alegria, todos rindo... ao mesmo tempo que de boca cheia: Obrigado
‘mogo, 0 senhor é legal.
E continuamos 0 caminho.
Pelo caminho, paramos num dos pontos do “mapa” que era a
quitanda, e as criangas comecaram a conversar com 0 quitandeiro:
Na rua foi um deslumbramento!
— Que placa ¢ essa no chao?
— E da Telesp — da telefénica.Afinal chegamos. Avana foi nos mostrar todas as partes de sua
casa, seu quarto seus brinquedos. .
Como os pais de Avana nao estavam em casa — meu pai e minha
mae também trabalham 0 dia inteiro —; passei para Alaide o
“comando” da roda do lanche ~ ela serviu 0 bolo que tinha feito
para nés (perguntamos a receita), uma gelatina colorida € suco.
Passamos um tempo brincando ¢ depois voltamos, agora de
carro, para a escola. E no outro dia a ligao foi sobre o caminho da casa
da Avana...
Gostaria de situar o que € a “ligdo”. Pra que a ligdo?
A ligio é 0 “didrio” do que as criangas vivem em classe, todos os
dias. Assim como eu, todos os dias, paro e escrevo o meu diario, o que
fiz, reflito sobre o que vivemos e, assim, aproprio-me do meu FAZER
cotidiano, a ligdo para as criancas é 0 registro do que VIVERAM OU
ESTAO VIVENDO, é o apropriar-se da sua pratica didria. E por issoa
ligdo “no cai do céu”, nao é pura repeti¢ao de exercicios mecanicos —
alienados da vida das criancas.
Todas as ligdes tem a ver com alguma coisa.
Muitas ligdes sdio pensadas juntamente com elas ou inteiramente
por elas como no caso das “licdes inventadas”, ¢ até rodadas no
mimedgrafo por elas.
Ainda sobre a lig, para que no se pense que o professor tem
uma condugdo espontaneista, onde tudo se espera da crianga, ¢ 0 que
no surge delas nao se trabalha, é a sistematizagao que a professora,
obviamente, tem do processo de alfabetizacdo. Em muitas ocasiées, ela
langa desafios, organiza, encaminha a curiosidade das criangas na
diregao de descobertas essenciais desse proceso, como, por exemplo, a
das familias sildbicas, de que a vogal muda o som da consoante: que
JA de JACA é da mesma familia que JU de JULIANO e JO de JOAO,
etc,
Tendo esse objetivo, a professora podera propor, por exemplo,
um exercicio em que as criangas tenham que fazer um circulo em JA
de JACA, em JU de JULIANO e em JO de JOAO.
Numa concepeo onde o professor é dono exclusivo do proceso
de alfabetizacio, onde ele acha que sé ele sabe, as criangas necessi-
tam ser ensinadas, alfabetizadas, no fundo revela um profundo
descrédito nas criangas, ¢ vé a educagao como mera transmissio de
“conhecimento”. O oposto de tudo isso se verifica na pratica em que 0
professor nao se coloca como dono exclusivo do que sabe mas, pelo
contrario, é através do que ele sabe que ele encaminha e sistematiza os
dados observados na pratica das criangas, para que elas proprias fagam
suas descobertas. Pois, sé assim, atuando, pensando, a crianga vai se
apropriando do seu proceso de alfabetizagao. E é nesse sentido que 0
professor ndo alfabetiza a crianga; ele organiza os dados para que a
crianga se alfabetize.
Especificamente quanto ao desenvolvimento da motricidade,
tenho procurado trabalhar em cima dos movimentos que observo nas
criangas — movimentos especificos ou trajetérios que vives, que
passo para o papel, chegando assim no movimento motor “fin
PAR AAAARDRDR |
PARP DALAL |
Porque nesse processo de descobrir, conhecer, registrar, elas
estiio descobrindo as suas palavras, a palavra de cada uma e do grupo.
Elas estdio descobrindo que sio “DONAS" do seu processo de desvelar
as palavras, de ler 0 mundo, de sua alfabetizagao.
Talvez se faga necessario falar aqui, em linhas gerais, de como é
visto, por nés, 0 processo de alfabetizagao, propriamente dito.
Para nés ele nao se inicia no Pré, porque o ato de ler nao se reduz
ao processo de leitura da palavra. A leitura da palavra é um momento
fundamental desse processo. Mas a crianca ja faz varias leituras do
mundo que a rodeia, antes do inicio da leitura da palavra.
F através da leitura de indicios, da representagdo simbolica, que
a crianga “escreve” o que ela ja lé do mundo, que ela busca conhecer. E
da leitura dos simbolos que mais tarde ela chega a leitura do SIGNO
—- da palavra.
Tgnorar esse processo anterior a leitura da palavra é conceber 0
proceso de 2'abetizacio como algo mecanico -- “recheado” de
eficientes técnicas ¢ métodos —- estagnado, desenraizado da vida, domundo. Por isso mesmo “a leitura da palavra da continuidade a leitura
do mundo 1, que ja foi anteriormente iniciada. Ela flui desse mundo”.
E na relacdo dinamica entre palavra e mundo que a crianga
pensa sobre seu mundo, ¢ se apropria da sua palavra — do seu processo
de alfabetizacao.
— Eu descobri TITIO.
— E como voce descobriu?
— Tem uma menina que chama TITI dai eu juntei o O e ficou
TITIO.
— Olha o que descobri: TU TAVA! (...)
— Sabia? Pato de trds prd frente o que fica? TOPA — TU
TOPA?
— Eu descobri sozinha a escrever VACA...
— Como foi que vocé descobriu?
— Eu descobri EVA e depois juntei 0 CA, virou VACA...
Desta maneira o papel do professor na alfabetizagao é 0 de quem
organiza os dados para que as criangas se apropriem do seu descobrir,
inventar palavras.
Neste sentido, o professor nao alfabetiza a crianga. Ele propicia
organizadamente 0 “espago™ para que ela “se alfabetize”. Assim cada
vez mais virando sujeito no processo de sua alfabetizacao. ela vai
criando a sua capacidade de ler palavras na crescente compreensio do
mundo em volta
Finalmente, gostaria de terminar dizendo que este relatério foi
compartilhado com as criangas. pais, irmaos ¢ Uo que trabalharam
comigo em classe ¢ na feitura deste, e que ele se completa com nossa
discussao na reuniao.
Principalmente ele € um convite a que vivamos juntos este
descobrir, este desvelar para que experimentemos juntos esta paixdo de
conhecer 0 mundo.
PS.:, Nossas lagartas viraram casuto!!!
Estamos a espera agora das borboletas.
PS.: Nasceram nossas borboletas
Madalena.
1 — Freire, Paulo: 4 fmportdincia do Ato de Ler em Trés Artigos que se Completam,
Colegio Pokimiess do Nosso Tempo, Cortes Editora, 1982
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