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TEXTO 2 - Cap 7 - Sobre Condições de Possibilidade Da Subjetividade

1) O autor discute as condições de possibilidade da subjetividade, especialmente na linguagem, após o estruturalismo. 2) Ele analisa como o estruturalismo afetou a visão do sujeito como fundante e preponderante na história e epistemologia. 3) O autor defende que após o estruturalismo, especialmente quando afetado pelo marxismo e psicanálise, a posição de um sujeito individual preponderante na história ficou inviabilizada.

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TEXTO 2 - Cap 7 - Sobre Condições de Possibilidade Da Subjetividade

1) O autor discute as condições de possibilidade da subjetividade, especialmente na linguagem, após o estruturalismo. 2) Ele analisa como o estruturalismo afetou a visão do sujeito como fundante e preponderante na história e epistemologia. 3) O autor defende que após o estruturalismo, especialmente quando afetado pelo marxismo e psicanálise, a posição de um sujeito individual preponderante na história ficou inviabilizada.

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Cad.Est.Ling., Campinas, (35):95-107, Jul./Dez.

1998

NOTAS SOBRE CONDIÇÕES DE POSSIBILIDADE DA SUBJETIVIDADE,


ESPECIALMENTE NA LINGUAGEM 1

SÍRIO POSSENTI
(UNICAMP)

“A arte de “dar um golpe” é o senso da ocasião” (de Certeau)

Não há certamente nada de novo no que vou dizer hoje. Este fato, por um lado,
não tem nada de propriamente espantoso. Por outro, se a afirmação fosse absolutamente
verdadeira, isso deporia de alguma forma contra a própria tese que vou defender. No
entanto, espero que se possa considerar, em relação ao que vou dizer, e com alguma
objetividade, que pelo menos a estratégia de que vou me servir para repetir o que tenho
dito não é exatamente a que tenho usado. Nesse caso, a tese que adoto estará a salvo,
pelo menos de argumentos contra o orador.

1. Gostaria de começar mencionando uma experiência de leitor mais ou menos


militante pela qual passei recentemente e que merece ser anotada por estar
estreitamente relacionada à questão de que aqui se vai falar, embora em outro campo.
Trata-se da experiência de ler, no Caderno MAIS, do jornal Folha de S. Paulo, de
20.10.93, um texto do então prefeito de Porto Alegre, Tarso Genro, um intelectual de
esquerda bem sucedido no exercício do poder. Ao avaliar entre outras coisas algumas
das razões pelas quais alguns intelectuais de esquerda a abandonaram (e sugerir que o
PT deve sempre reanalisar suas ações políticas para descobrir se os perde por
problemas dele, partido, ou deles, intelectuais), apresentava um quadro que pode ser
considerado até certo ponto hilariante, em circunstâncias muito determinadas,
circunstâncias de qualquer forma superadas. Segundo ele, os neoliberais (por todos os
títulos, herdeiros da tradição iluminista, que, entre outras coisas, crêem em um sujeito
individual fazendo a história, já que postulam a diminuição de qualquer intervenção do
Estado no controle do “privado”) estão atraindo da esquerda todos os que perderam
qualquer dimensão utópica em relação ao papel do sujeito. Assim, está cabendo à

1
Este texto resulta de uma versão abreviada, que foi apresentada no Seminário Oswald Ducrot, em
outubro de 1996. Alguns traços daquela apresentação foram mantidos nesta versão.
esquerda (um tanto paradoxalmente, porque seria a herdeira das “estruturas”) mostrar,
tanto teórica quanto praticamente, que tal intervenção do sujeito é possível - e
empiricamente demonstrável - e que efetivamente há diferença entre exercer o poder
segundo uma ou outra perspectiva, entre fazer política de uma ou de outra forma -
especialmente, que há espaço, ou que ele pode ser construído, para fazer política de
forma não automaticamente alinhada ao que seria o único paradigma mundial. O
fundamento de uma ou outra forma de fazer política se expressa, nas atuais
circunstâncias, para uns, em considerar a globalização, primeiro, um fato evidente e,
segundo, uma fato incontornável - por isso, não haveria o que fazer senão assujeitar-se
a ela, com a perda, inclusive pelos Estados, de condições alternativas de exercício do
poder, agora (agora?) nas mãos das grandes corporações “transnacionais”; para outros,
significa propor para o Estado, e, de novo, tanto teórica quanto praticamente, papéis
ativos, embora, certamente, não à moda nem com a dimensão do poder dos Estados
concebidos como os únicos sujeitos econômicos. Mas, para tornar viável esta segunda
alternativa, seria necessário inclusive recuperar os sujeitos; recuperar tanto a crença nos
sujeitos (teoricamente) quanto formas de viabilizar uma subjetividade alternativa
(praticamente).
Uma das formas propostas por Genro é

“buscar outros potenciais progressistas que emergem de determinados setores sociais.


Refiro-me àqueles dominados pela “solidariedade individualista” (Göran Theborn), a saber,
cujo chamamento à militância combina a ação dos indivíduos solitários (que se constituem por
meio de novas formas de produção isolada) com o potencial subjetivo que eles podem
acrescentar, coletivamente, na defesa de determinados direitos”. “À medida que a história
provou nada estar assegurado no futuro, a não ser aquilo que os próprios homens farão dele,
temos é que constituir valores universais capazes de afirmar um novo projeto...”.

A experiência de leitor que vai aqui sumariamente referida torna-se ainda mais
notável se for lembrado que, na semana anterior, o mesmo veículo dedicara a maior
parte de seu espaço a uma entrevista com o presidente da República, considerado um
típico migrante da esquerda tornado adepto das teses neoliberais. Aliás, o texto de
Genro é antes de mais nada uma espécie de resposta àquela entrevista.
Explicitando a experiência de leitor: ela me interessa pelo fato de que se trata de
dar-se conta - no plano teórico - de uma aparente inversão de lugares: os liberais,
supostos defensores da liberdade do sujeito individual, uno e de razão, da livre
iniciativa, renderam-se à estrutura: existiria um mundo globalizado, e desta organização
impessoal promanam todas as determinações econômicas que obrigariam a política a
ser uma e apenas uma (na verdade, nesta concepção, a política é subsumida pela
economia - o que se pode ver até nos jornais), o resto sendo discurso saudosista de
“dinossauros”. Do outro lado está a esquerda, suposta defensora da determinação
estrutural, propondo - insisto, teórica e praticamente, - que a estrutura postulada pelos
neoliberais não existe, que a globalização é um blefe, uma hipostasia ideológica, e que
portanto existem espaços de atuação para sujeitos políticos (sejam eles Estados ou
indivíduos).
Não se deveria concluir que tal postulação signifique que essa esquerda
desconheça - ideologicamente - as condições reais impostas aos sujeitos no mundo real.

96
Dever-se-ia concluir, isso sim, que se trata exatamente de condições2, o que significa
que a situação atual não impõe aos sujeitos uma verdadeira estrutura globalizada. A
existência de blocos em disputa por mercados, de sucessivos movimentos políticos
(mais ou menos “acontecimentais”), comerciais e, especialmente, financeiros
testemunha que a história continua. Há numerosos operadores no mercado tomando
decisões - decisões condicionadas, certamente, mas que estão longe de ser apenas
automáticas e mesmo unidimensionais, podendo ser, entre outras coisas, e conforme o
caso, decisões punitivas, estimuladoras, orientadoras, além, obviamente, de serem ou
poderem ser armadilhas para capturar os incautos... Há, portanto, numerosos sujeitos
manobrando, astuciosamente, constituindo-se em usuários do sistema, e ganhando à
custa dele. Alguns desses operadores ocupam mesmo lugares estratégicos na estrutura
dos governos. No Brasil, podem-se ler denúncias, formuladas também por intelectuais
da própria direita (p. ex., Delfim Neto contra Gustavo Franco), em seus papéis de
efetivos sujeitos, na medida em que estão quotidianamente escolhendo alternativas e
implementando-as com atos de poder.
Salvo grosseiro engano, creio que não seria descabido dar continuidade àquelas
reflexões de Genro relembrando o Marx de O 18 Brumário, especialmente por sua
“pequena frase”, como a chamou Althusser: “Os homens fazem sua própria história,
mas não a fazem como querem; não a fazem sob as circunstâncias de sua escolha e
sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo
passado”.
Esta afirmação de Marx tem, entre outras, a utilidade de permitir estabelecer dois
limites para reflexões sobre o sujeito (em outras palavras, sobre as condições de
possibilidade empíricas da subjetividade): não podem ser desconsideradas, e de forma
crucial, a historicidade e a atividade do sujeito. Ficariam assim excluídas, ou, pelo
menos, em segundo plano, outras supostas características dos sujeitos ou outros lugares
de onde se originariam características dos sujeitos: por exemplo, sua autonomia, sua
liberdade de ação, por um lado, mas também seu mero papel de suporte, que decorreria
da existência de uma estrutura não mais sujeita à historicidade - por exemplo, pelo fato
de um mundo uniformizado ser a única estrutura existente, o que poderia remeter à tese
do fim da história de Fukuyama.

2. A tese que gostaria de defender nesta apresentação é relativamente banal: não é


a mesma coisa defender algum espaço para a ação (em certa medida, inclusive,
consciente) do sujeito antes do estruturalismo (ou à sua margem) e depois dele (ou no
interior de qualquer uma de suas heranças), e ainda mais, depois de o estruturalismo ter
sido afetado pelo marxismo e pela psicanálise - ou, alternativamente, depois que ambos
esses campos, (ou um deles) o tenham afetado.
Esta tese se opõe, de alguma forma, a uma leitura que Pêcheux, e, na sua esteira,
todo um grande e importante grupo fez de Saussure, em especial, de sua dicotomia
língua-fala. Voltando à minha tese, e explicitando-a: antes do estruturalismo, alguém

2
Talvez seja o momento de enunciar um truismo absolutamente literal: as condições condicionam
isto é, não determinam.

97
poderia eventualmente postular tanto uma história quanto uma epistemologia
(conseqüentemente, uma metafísica) na qual o papel do sujeito individual fosse
concebido como preponderante, fundante, se não exclusivo. Depois do estruturalismo,
tomado amplamente, em suas múltiplas manifestações (ver Deleuze (1973), esta
posição fica inviabilizada. Isso porque o

atomismo social que, durante três séculos, serviu de postulado histórico para uma análise
da sociedade supõe uma unidade elementar, o indivíduo, a partir do qual seriam compostos os
grupos e à qual sempre seria possível reduzi-los” foi “recusado por mais de um século de
pesquisas sociológicas, econômicas, antropológicas ou psicanalíticas (de Certeau, 1990).

Digo que esta tese se opõe, de alguma forma, a uma leitura que Pêcheux fez de
Saussure, porque é de Pêcheux a leitura de Saussure segundo a qual

mesmo que explicitamente ele não o tenha desejado, é um fato que esta oposição
[língua-fala] autoriza a reaparição triunfal do sujeito falante como subjetividade em ato,
unidade ativa de intenções que se realizam pelos meios colocados a sua disposição; em outros
termos, tudo se passa como se a lingüística científica (tendo por objeto a língua) liberasse um
resíduo, que é o conceito filosófico de sujeito livre, pensado como o avesso do impensável, o
correlato necessário do sistema (Pêcheux, 1969:71).

Quereria opor-me a esta leitura com base em dois argumentos. O primeiro é que o
par língua-fala é solidário, não sendo razoável, assim, ver a fala como se ela mesma não
sofresse nenhuma das constrições da língua; portanto, a fala não pode ser, sem
qualificações, o espaço da volta triunfal do sujeito livre. O segundo é uma afirmação de
Foucault, que preciso situar. Numa entrevista que deu a Bernard Henri-Lévy, e que, no
Brasil, foi publicada em Microfísica do Poder, sob o título “Não ao sexo rei”,
(Foucault, 1979) lê-se uma passagem que é, a um só tempo, curiosa e instrutiva.
Transcrevo-a, e em seguida destaco a curiosidade e a relevância. A passagem aparece
em um contexto que pode ser assim resumido: Foucault está expondo sua idéia segundo
a qual, no domínio da sexualidade, o conceito de repressão não é a melhor chave
explicativa. “...o objetivo procurado ... não era proibir. O fim era constituir”. Dessa
hipótese, ele conclui que não há uma solução para a sexualidade que seja a liberação,
pois, para ele, o discurso da liberação seria também um formidável instrumento de
controle e de poder. A passagem da entrevista que interessa diretamente é a seguinte:

B. H.-L. - Daí, suponho, o mal-entendido de alguns comentadores: “Segundo Foucault,


repressão e liberação do sexo dão no mesmo...”. Ou ainda: “O M. L. A. C. e o Laissez-les vivre
no fundo têm o mesmo discurso...”.
M. F. - Sim! A este respeito é preciso clarificar as coisas. Efetivamente, me fizeram dizer
que entre a linguagem da censura, entre o discurso dos guardiães do pudor e o da liberação do
sexo não há verdadeira diferença. Dizem que eu colocava todos no mesmo saco, para afogá-los
como uma ninhada de gatos. Radicalmente errado: não foi isto que eu quis dizer. Além disso, o
importante é que de forma alguma eu disse tal coisa.
B. H.-L. - Você admite de qualquer forma que existem elementos, enunciados comuns...
M. F. - Mas uma coisa é o enunciado e outra o discurso. Existem elementos táticos
comuns e estratégias opostas (p. 233).

98
O que há de curioso neste texto é a afirmação de Foucault de que ele não quis
dizer o que lhe atribuíram, o que alguns poderiam dizer que equivale de alguma
maneira à defesa da intenção do autor como um critério válido de interpretação ou de
atribuição de sentido (bem entendido, isso seria curioso em Foucault). É bem verdade
que, em seguida, ele acrescenta que o importante é que ele de forma alguma disse tal
coisa.
A passagem que considero relevante é o início da última resposta: “uma coisa é o
enunciado e outra o discurso”. Quero invocar o argumento de Foucault e parafraseá-lo
no domínio em que estou me situando: uma coisa é defender um espaço de atividade e
eventualmente de escolha do sujeito no quadro das “estruturas” nas quais se constitui;
outra coisa é defender a livre atividade do sujeito, decidida a seu talante, ou, ainda,
concebê-lo como o instituidor racional e livre das próprias estruturas. O enunciado
pode ser o mesmo (os homens fazem, os homens escolhem, etc), mas o discurso é outro.
Quereria dizer mais, e generalizar: a volta de um enunciado dificilmente pode ser a
volta de um discurso.
No caso do sujeito, a tese parece ainda mais forte, porque a questão fundamental
do estruturalismo em relação ao sujeito não é seu apagamento, sua eliminação, segundo
se vê em alguma vulgata, mas algo completamente diferente, e que pode ser resumida
na seguinte intervenção de Lacan, após uma exposição de Foucault sobre a questão do
autor. A apresentação desta fala, como feita por Eribon, é suficientemente melhor que
qualquer uma que eu faria3, e por isso a incorporo:

Depois, em resposta à intervenção de Lucien Goldman, que se inquietava com a “negação


do homem em geral, e a partir daí, do sujeito e também do autor”, Lacan continua: ´Desejaria
lembrar que, com ou sem estruturalismo, não se trata absolutamente, no campo vagamente
determinado por este rótulo, da negação do sujeito. Trata-se da dependência do sujeito, o que é
extremamente diferente...´ (Eribon, 1994:150).

Talvez ainda melhor seja a formulação de Deleuze (até mesmo para Lacan):

O estruturalismo não é um pensamento que suprime o sujeito, mas um pensamento que o


esmigalha e o distribui sistematicamente, que contesta a identidade do sujeito, que o dissipa e o
faz passar de um lugar a outro, sujeito sempre nômade, fato de individuações, mas impessoais,
ou de singularidades, mas pré-individuais (1973:300).

Que se possa ter pensado que o estruturalismo postulasse a negação do sujeito é


um fato que se deve a certas afirmações que foram lidas (justificadamente, a meu ver)
naquela direção, e tornaram um lugar comum associar o estruturalismo à morte do
sujeito - pelo menos, à morte de um certo sujeito. Se o estruturalismo aparece associado
de alguma forma ao marxismo e/ou à psicanálise, o fim de um certo sujeito pode ser
tornado equivalente à morte efetiva de todo o sujeito, idéia que pode derivar da

3
Mas, uso Eribon também por causa de um fato curioso. A edição de “O que é um autor?” (Foucault
1969) pela Editora Passagens, de Portugal, como era de se esperar, inclui a apresentação inicial e o debate
que se seguiu; mas, inexplicavelmente, a intervenção de Lacan foi excluída.

99
interpretação de passagens como a seguinte, que, de alguma maneira, resume o núcleo
da posição teórica da Análise do Discurso na sua primeira época:

Um processo de produção discursivo é concebido como uma máquina autodeterminada e


fechada sobre si mesma, de tal modo que um sujeito-estrutura determina os sujeitos como
produtores de seus discursos: os sujeitos acreditam que “utilizam” seus discursos quando na
verdade são seus “servos” assujeitados, seus “suportes” (Pêcheux, 1983:311).

Essa posição teórica tinha como corolário uma hipótese metodológica que
consistia em supor a possibilidade de a Análise do Discurso poder

Reunir um conjunto de traços discursivos empíricos (“corpus de seqüências


discursivas”) fazendo a hipótese de que a produção desses traços foi, efetivamente, dominada
por uma, e apenas uma, máquina discursiva (por exemplo, um mito, uma ideologia, uma
episteme) (Pêcheux, 1983:311).

Ora, são essa hipótese teórica e seu corolário metodológico que podem ser postos
em questão: tanto a tese do assujeitamento (total) do sujeito, de seu papel de mero
suporte, quanto a hipótese da máquina discursiva uniforme, estável.

3. Há várias alternativas teóricas para não aceitar a idéia de um sujeito como mero
suporte, ou melhor, para não aceitar que seja inevitável que o sujeito seja mero suporte:
uma é pôr em questão as estruturas, a própria existência de estruturas. Outra é propor a
multiplicação das estruturas, isto é, postular a existência de muitas estruturas, que, além
de serem múltiplas, mantêm entre si relações não uniformes. Por exemplo, elas podem
se opor, entrar em choque, ou complementar-se, fundamentar-se mutuamente, etc. Na
verdade, há logicamente uma terceira alternativa, provavelmente a melhor - ousaria
dizer que é a mais correta do ponto de vista empírico: mostrar que o que há são muitas
“quase-estruturas” (quase-estruturas são não-estruturas!) convivendo e mantendo entre
si relações variadas. A estratégia teórica exige, assim, movimento duplo e simultâneo:
postular que não há propriamente estruturas e que por isso sempre há brechas no
assujeitamento, por um lado; e que há muitas não-estruturas que propiciam tais brechas,
por outro.
À primeira forma corresponde, penso, a seguinte afirmação de Ginsburg:

Assim como a língua, a cultura oferece ao indivíduo um horizonte de possibilidades


latentes - uma jaula flexível e invisível dentro da qual se exercita a liberdade condicionada de
4
cada um (Ginzburg, 1976:27) .

A tese - penso que amplamente demonstrada - da preponderância do interdiscurso


sobre supostas unidades discursivas corresponde à segunda das possibilidades de
garantir a atuação dos sujeitos. Uma forma equivalente de eliminar as supostas
estruturas uniformes deriva das análises empíricas de Foucault, que levaram à
concepção das formações discursivas como dispersões. Talvez mais forte, também por

4
Penso que a “pequena frase” de Marx poderia ser posta ao lado da tese de Guinsburg.

100
mais inusitada, pode ser considerada a tese de Granger (1968), segundo a qual a
disponibilidade de várias linguagens matemáticas abre espaço para escolhas - se há
mais de uma possibilidade, a escolha é obrigatória - lá onde aparentemente, a
possibilidade do estilo parecia impossível de ser pensada. A terceira alternativa não
necessita de demonstrações específicas: bastaria unir as anteriores. Mas é possível
invocar trabalhos empíricos, como os citados por de Certeau, em especial as análises de
Bourdieu. Ou ouvir ao próprio Bourdieu:

Eu queria reintroduzir de algum modo os agentes (...) Os agentes sociais, tanto nas
sociedades arcaicas como nas nossas, não são apenas autômatos regulados como relógios,
segundo leis mecânicas que lhes escapam. Nos jogos mais complexos, eles investem os
princípios incorporados de um habitus gerador... Esse sentido de jogo (...) é o que permite gerar
uma infinidade de lances adaptados à infinidade de situações possíveis, que nenhuma regra, por
mais complexa que seja, pode prever. Assim, substituí as regras de parentesco por estratégias
matrimoniais. ... o que implica situar-se do ponto de vista dos agentes, sem por isso
transformá-los em calculadores racionais (Bourdieu, 1986: 21-22).

Àquela frase de Ginsburg, podem-se associar numerosas assertivas de de Certeau


(espero que se perceba a escolha de “assertivas”, em se tratando de de Certeau ...).
Aliás, citar de Certeau é talvez uma das novidades de minha estratégia para dizer de
novo o que sempre tenho dito, mas sem citá-lo - porque não o conhecia5.
O projeto desse autor, em A invenção do quotidiano, é publicar pesquisas que
nasceram de “uma interrogação sobre as operações dos usuários, supostamente
entregues à passividade e à disciplina” (p. 37). A menção desta suposição, que se
percebe logo não ser aceita pelo autor, pode fazer pensar em uma volta aos sujeitos
livres. O autor se dá conta dessa possível interpretação, e por isso acrescenta
imediatamente que “O exame dessas práticas não implica um regresso a indivíduos” (p.
37) - pelas razões mencionadas acima, na primeira citação que fiz do autor. Tal
postulado está fora do campo de seu trabalho, afirma, para acrescentar que “a relação
(sempre social) determina seus termos, e não o inverso, e (...) cada individualidade é
um lugar onde atua uma pluralidade incoerente (e muitas vezes contraditória) de suas
determinações relacionais” (p. 38). Seu trabalho tem o objetivo de “exumar os modelos
de ação característicos dos usuários, dos quais se esconde, sob o pudico nome de
consumidores, o estatuto de dominados (o que não quer dizer passivos ou dóceis). O
quotidiano se inventa com mil maneiras de caça não autorizada” (p. 38). A seguinte
afirmação pode ser considerada uma espécie de resumo sobre os fatos e as alternativas
de análise que eles oferecem, uma delas, de fato, esquecida:

5
Devo confessar, no entanto, a satisfação pessoal de ler em 1996 que “... o ato de falar é um uso da
língua e uma operação sobre ela” (de Certeau, 1990: 97), tendo escrito em 1986 que a noção benvenisteana
de apropriação não é a mais adequada, pois leva a excluir “o fato de que o locutor age também sobre a
língua...” (Possenti, 1988:49). Hoje, revisaria minha posição contrária à noção de apropriação, porque tem
ficado relativamente claro que a apropriação, tanto no campo teórico quanto no prático, implica sempre
alguma adequação, isto é, um trabalho, uma manobra estratégica, que resulta em tomar para si o que era do
outro.

101
A uma produção racionalizada, expansionista além de centralizada, barulhenta e
espetacular, corresponde outra produção, qualificada de “consumo”: esta é astuciosa, é
dispersa, mas ao mesmo tempo ela se insinua ubiquamente, silenciosa, e quase invisível, pois
não se faz notar com produtos próprios, mas nas maneiras de empregar os produtos impostos
por uma ordem dominante (p. 39).

Talvez se possa ver ainda mais claramente em que tipo de coisas está pensando
este autor, se se considerar a seguinte passagem, quando está expondo sua concepção
das táticas (“a tática é a arte do fraco”).

Clausewitz compara ainda a astúcia à palavra espirituosa. “Assim como a palavra


espirituosa é uma espécie de prestidigitação em face das idéias e das concepções, a astúcia é
uma prestidigitação relativa aos atos”. Isto sugere o modo pelo qual a tática, verdadeira
prestidigitação, se introduz por surpresa numa ordem. A arte de “dar um golpe” é o senso da
ocasião. Mediante procedimentos que Freud precisa a respeito do chiste, combina elementos
astuciosamente reunidos para insinuar o insight de outra coisa na linguagem de um lugar e para
atingir o destinatário. Raios, relâmpagos, fendas e achados no reticulado do sistema, as
maneiras de fazer dos consumidores são os equivalentes práticos dos chistes (de Certeau,
1990:101).

Que estes postulados não são a volta do sujeito livre é o que eu queria garantir
com a autoridade de Foucault, mediante a citação acima. Aliás, penso que não há mais
perigo de regresso do sujeito livre, até porque os únicos que o defenderiam estão hoje
submetidos ao discurso da globalização... Até mesmo Ducrot, que pôde ser considerado
um teórico do contrato entre falantes (portanto, supostamente, um lingüista de antes de
Freud e de Marx) reconhece que só se fala se houver lugares prévios (comuns) (...a
utilização da língua exige que se disponha de topoi... (Ducrot, 1988)), o que não
significa que só se fala por lugares-comuns.
Há um vício corrente que faz associar a recusa do assujeitamento à aceitação da
liberdade e da consciência total dos sujeitos. De minha parte, tenho combatido essa
simplificação grosseira, especialmente em Possenti, 1995, 1996 e 1996b. É confortável,
por isso, poder encontrar afirmações como a seguinte:

... situar-se do ponto de vista dos agentes, sem por isso transformá-los em calculadores
racionais. É preciso evidentemente retirar dessa palavra suas conotações ingenuamente
teleológicas: as condutas podem ser orientadas em relação a determinados fins sem ser
conscientemente dirigidas a esses fins, dirigidas por esses fins (Bourdieu, 1986:22).

Mas, a melhor saída para justificar uma opção teórica ainda é a prática de
consultar os fatos. (Melhor dizendo, os processos que geram os fatos, especialmente se
se é analista do discurso, pois que esta disciplina nasceu em boa parte sob a égide da
oposição entre processo e produto, sendo o discurso alinhado ao lado da primeira
categoria. Apesar disso, muito freqüentemente, acabou por considerar o
discurso-produto, em detrimento do real processo de sua produção.) Não basta, embora
isso seja necessário, pôr em questão posições teóricas invocando outras posições
teóricas - isto é, não basta tentar situar-se em campos de maior ou menor prestígio
(poder), na tentativa de deixar os adversários mal situados nos ringues teóricos, coisa
que todos fazemos, com maior ou menor galanteria. Nesse sentido, penso que sugestões

102
de trabalho como as de de Certeau são de relevância crucial. Trata-se de tentar
encontrar maneiras de descobrir o que há de não previsto, embora extremamente
condicionado, nas ações, sempre sociais, dos sujeitos.
Um excelente exemplo pode ser visto em sua tematização das pesquisas correntes
e das pesquisas possíveis sobre os provérbios. A menção é longa, mas vale a pena.
Segundo de Certeau (1990:80-81), “um dos métodos consiste em isolar primeiro os
provérbios e armazená-los, como Aarne e Propp fizeram com os contos”. Este material
poderá ser analisado quanto a seus conteúdos (p. ex., ações, temas, atores) ou quanto a
seus modos de produção (p. ex., descrevendo sua estrutura “lingüística”). “Detectam-se
então sistemas, seja de significados, seja de fabricação. ... esses métodos conseguem
definir seu objeto ... racionalizar sua coleta, classificar os seus tipos e transformar o
“dado” em algo que se pode reproduzir.” Acrescenta que, por este método, Lévi-Strauss
conseguiu “classificar uma literatura (mitos) supostamente heteróclita, encontrar um
“pensamento selvagem” e uma lógica nos corpos constituídos como estranhos, enfim,
renovar deste modo a interpretação e a produção de nossos próprios discursos”.
Contrapostos a estes passos e a seus indiscutíveis méritos, há problemas, que de
Certeau expõe assim:

O inconveniente do método, condição do seu sucesso, é extrair os documentos de seu


contexto histórico e eliminar as operações dos locutores em circunstâncias particulares de
tempo, lugar e competição. É necessário que se apaguem as práticas lingüísticas cotidianas (e o
espaço de suas táticas), para que as práticas científicas sejam exercidas no seu campo próprio.
Por isso não se levam em conta as mil maneiras de “colocar bem” um provérbio, neste ou
naquele momento e diante deste ou daquele interlocutor. Tal arte fica excluída e os seus
autores, lançados para fora do laboratório, não só porque toda cientificidade exige delimitação
e simplificação de seus objetos, mas porque à constituição de um lugar científico, condição
prévia de qualquer análise, corresponde a necessidade de poder transferir para ali os objetos
que se devem estudar. Só pode ser tratado o que se pode transportar. O que não se pode
desarraigar tem que ficar fora do campo, por definição. Daí o privilégio que esses estudos
concedem aos discursos, coisa deste mundo que é aquela que se pode mais facilmente captar,
registrar, transportar e abordar em lugar seguro, enquanto o ato de palavra não pode separar-se
da circunstância (1990:81-2).

Destaco, em primeiro lugar, a avaliação de de Certeau segundo a qual “não se


levam em conta as mil maneiras de “colocar bem” um provérbio”. Em Possenti (1995),
tentei mostrar que os traços da ação do sujeito estão freqüentemente marcados em
pequenos textos construídos sobre outros. Parecia-me que a melhor maneira de
defender meu ponto de vista era “mostrar” as pegadas do sujeito. A afirmação de de
Certeau é obviamente mais forte, na medida em que dá importância ao que não se vê
claramente, que é a própria ação de “colocar” um provérbio, sem qualquer manipulação
dele (operação de que analisei rapidamente alguns casos no texto mencionado e que
Gresillion e Maingueneau (1984) tematizaram explicitamente). A propósito destas
ações que não se vêem (certamente porque faltam olhos, e não porque as ações não se
dão), diz de Certeau (1990:83) que, “como a “carta roubada” de Edgar Poe, as
escrituras dessas lógicas diferentes são colocadas em lugares tão evidentes que nem
aparecem”.

103
4. Para finalizar, proponho uma reanálise empírica. Figueira (1997) ocupa-se,
entre outras coisas, com o sentido de algumas tentativas de J (4 anos e 6 meses) de
construir adivinhas. A literatura do campo, conforme a autora, é mais ou menos
unânime em considerar que textos como chistes e adivinhas são relativamente difíceis,
não devendo ser esperados antes de 6 anos. Figueira, no entanto, imagina tê-los mais
cedo. Trata de casos ocorridos antes dessa idade, e sua análise põe em relevo os
aspectos “favoráveis” à criança, isto é, destaca, nos textos, aspectos que podem fazer
considerar que a criança produz (e não só compreende) adivinhas antes de 6 anos.
Correndo o risco de simplificar excessivamente os fatos, penso que se pode dizer,
apesar das pistas evidentes do trabalho de apropriação da “gramática” das adivinhas
pela criança em questão, que J falha, em episódios como

J - O que é, o que é? Que quando nasce um bebê, nasce um bebê de brinco?


M - De brinco? Não sei.
J - Ué! A barriga de loja de brinco.

e como

J - O que é, o que é? Que quando o gato bebe, o gato não consiga beber o leite.
M - ...
J - O gato, a boca estava fechada.

A assunção de Figueira é que as adivinhas são um tipo de discurso que exige


conhecimento consciente (awareness) da língua (p. 1), e esta é a principal razão de elas
ocorrerem um pouco mais tardiamente. A questão de Figueira é se os jogos de
adivinhação propostos por J se conformam às verdadeiras adivinhas (p. 12). Sua
resposta é que “há uma certa sensibilidade da criança a determinado “formato” de
adivinhas, formato que se reflete nas perguntas em que vão entrar os itens lexicais que
se contradizem” (p. 13) e que, “como no caso dos adultos, não deixam de provocar no
seu parceiro o mesmo efeito de surpresa” (p. 14). Apesar dessas características das
adivinhas criadas por J, não é possível deixar de perceber que a criança não dá conta da
polissemia e da homonímia, e de outros jogos de linguagem típicos de algumas
adivinhas (como as do tipo - Qual o Estado que queria ser carro? - Sergipe (ser -
jipe)), e que suas construções se aproximam mais das adivinhas que, de alguma forma,
exploram o nonsense (como as do tipo - Como colocar quatro elefantes num fusca? -
Dois na frente e dois atrás). É fácil concordar com a autora quanto a suas afirmações
relativas ao “formato” das adivinhas de J e ao efeito surpresa que provocam. Também é
indiscutível que J evidencia capacidade de improvisação. Mas, talvez seja impossível
concordar com a análise que faz de uma das adivinhas, tematizando especificamente
seu final:

... revela a sua capacidade de improvisação, bem como seu envolvimento no espírito do
jogo, que é sua violação de expectativas: “vestido de madeira, uai!”. Resposta
desconcertante? Sim, desconcertante. Como cabe, aliás, em todo desfecho de adivinha. E nisto

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a adivinha de J não é diferente da do adulto, em particular daquelas que rompem com o
esperado, resvalando para o “nonsense” ou absurdo (p. 14).

Há aqui duas questões que merecem reanálise, a meu ver: a) a especificidade do


mecanismo que produz o efeito de surpresa (que pode derivar de um jogo de linguagem
(polissemia, homonímia, etc) ou de um jogo envolvendo “frames”, uma das maneiras de
explicar o “nonsense”; b) a necessidade de um conhecimento explícito do sujeito sobre
a característica do elemento lingüístico ou textual-discursivo (conhecimento de um
esquema, oposição entre real e não real, etc) constitutivo da adivinha. Diga-se, de
passagem, que estas duas formas de produzir adivinhas guardam semelhanças estreitas
com as técnicas básicas de produção dos chistes, segundo Freud (1905) - condensação
e deslocamento.
Em relação à primeira questão, penso que, se o efeito de surpresa não deriva dos
mesmos mecanismos que o produzem nas verdadeiras adivinhas (a descoberta da
polissemia inesperada, como em “- O que é o que é, que a gente sempre põe na pizza
depois que fica pronta? - A boca” -, ou do nonsense, como na adivinha sobre colocar
elefantes num fusca - observe-se que deve tratar-se de um carro pequeno, caso contrário
não se trataria de uma façanha), então o efeito de surpresa nada tem a ver com o que
uma adivinha produz. Se as adivinhas produzem um efeito de surpresa, isto não
significa que esta característica é suficiente para caracterizar tal tipo de texto. É
evidente que nem tudo o que produz surpresa é adivinha, mesmo que toda adivinha
produza um tipo de surpresa.
Em relação à segunda questão, a do conhecimento explícito, creio que se pode
lançar mão da mesma argumentação utilizada por Freud para distinguir chistes de
algumas espécies do cômico. Em ambos os casos, o “material” pode ser muito
semelhante, mas uma posição diferente do sujeito pode ser decisiva para distinguir um
chiste de uma ocorrência de discurso cômico, em um caso, e uma adivinha verdadeira
da tentativa abortada, em outro. Considere-se o seguinte caso analisado por Freud:

Uma menina de três anos e meio avisa a seu irmão: ‘Olha, não coma tanto pudim, senão
vai ficar doente e tomar um “Bubizin”’. “Bubizin?”, pergunta a mãe, ‘O que é isso?’ ‘Quando
fico doente’, disse a menina autojustificando-se, ‘tenho que tomar Medizin’. A criança pensava
que aquilo que o médico lhe prescrevia se chamava ‘Mädi-zin’ quando era para uma ‘Mädi
[garotinha]’ e concluíra que, quando era para um ‘Bubi [garotinho]’, devia chamar-se
‘Bubi-zin’. Esta construção assemelha-se à elaboração de um chiste verbal por similaridade
fônica e podia, efetivamente, ter ocorrido como um chiste real, caso em que o acolheríamos,
meio constrangidamente, com um sorriso. Como um exemplo de ingenuidade, parece-nos
excelente e suscita o riso. O que é que faz a diferença entre um chiste e alguma coisa ingênua?
Evidentemente, não se trata da verbalização da técnica, que seria a mesma para ambas as
possibilidades, mas de um fator que, à primeira vista, parece mesmo muito remoto a elas duas.
Trata-se meramente de que admitamos que o locutor pretendeu fazer um chiste [ênfase minha]
ou de que suponhamos que ele - a criança - tenha tentado, de boa fé, sacar uma conclusão séria
à base de sua impune ignorância (Freud, 1905:209).

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Como se pode ver, para Freud, para que um texto seja um chiste é necessário que
haja a intenção de produzir um 6 e que se conheça o que as palavras (no caso)
significam e algumas possibilidades de sua manipulação. Espero que não se entenda, no
entanto, que basta a intenção de fazer um chiste para que um texto se torne um chiste.
Isso equivaleria a desprezar praticamente toda a argumentação de Freud sobre o tema,
pois que a técnica do chiste é por ele considerada fundamental. Creio que se poderia
dizer o mesmo das adivinhas. É preciso tanto que se queira fazer uma quanto que se
saiba fazê-la. Parece que J quer fazer adivinhas. A questão é se o produto se conforma
às exigências desse tipo de texto. Diria que ainda não, e que, por isso mesmo, J ainda
está em fase de apropriação (uma das características da subjetivação), se não da língua,
pelo menos das regras de certos “gêneros” textuais. Repito aqui o que afirmei alhures:

Ao falar e ao ouvir, aciona-se um “sistema” lingüístico-verbal e outros sistemas (das


boas maneiras, da hierarquia entre falantes, das suposições derivadas do conhecimento mútuo,
enfim, da cultura, sem excluir necessariamente instâncias como inconsciente e ideologia - todos
históricos). Cada um interfere de alguma forma nos outros, colabora para constituí-lo a longo
prazo. E, a curto prazo, isto é, no evento discursivo, são ingredientes relevantes para produzir
significações. Saber manejá-los adequadamente (...) é uma das características de sujeitos
“normais” numa cultura. Não saber denuncia uma “falta”: um estágio de aquisição (o falante é
estrangeiro ou criança) ou uma forma de perda (o falante sofreu uma lesão) (Possenti,
1993a:76-77).

Poder-se-ia ver aqui (como quase sempre, a melhor ocasião para verificar um
processo é quando ele falha...) quanto algo aparentemente banal como a adivinha,
praticada por pessoas de todas as extrações sociais, exige manobras altamente
sofisticadas. Tanto que uma criança, que já mostra complexíssima competência, não
consegue ainda produzir uma adivinha verdadeira. Estamos longe, neste campo, tanto
quanto no dos chistes - mas também no da frase qualquer adequadamente enunciada,
cuja complexidade, dada a aparente banalidade, passa desapercebida, - da simples
repetição automática que nos autorizaria a conceber o falante que a produziu como
mero porta-voz, dispensado das manobras do autor. Mesmo se imperceptível (ao olhar
comprometido), o trabalho está em qualquer produto discursivo, como está em qualquer
mercadoria. Não é só a respeito de provérbios que “plantar” um adequadamente exige
complexas manobras: qualquer evento, discursivo ou não, é complexo, embora o
produto que dele resta possa parecer banal. O exemplo mostra claramente, também, que
ser sujeito de um texto não significa criar fora das regras que historicamente
constituíram gêneros, o que implica algum tipo de assujeitamento; mas também mostra,
e é o que mais me interessa, que o sujeito não é apenas o ocupante eventual de um lugar
de que um discurso se aproveita para acontecer. As manobras - regradas - do sujeito
exercem um papel fundamental.
Creio, assim, que se pode afirmar de qualquer locutor (e de qualquer discurso)
aquilo que dele diz Ansart, relativamente a um domínio específico:

6
Penso que não se deve confundir o papel da intenção em projetos como construir uma adivinha com
o papel que a intenção teria na determinação do sentido.

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O verdadeiro locutor político não é o agente dócil de uma repetição, e sim aquele que
sabe reproduzir as formas, transformando-as de acordo com as situações, e é essa manipulação
adaptada do verbo que permitirá melhor persuasão (Ansart, 1977:16).

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