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Humberto R. Maturana, Francisco J. Varela - A Árvore Do Conhecimento - As Bases Biológicas Da Compreensão Humana-Palas Athena (2001)

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yuri.athayde
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ií p|

| HUMBERTO R. MATURANA
FRANCISCO J. VARELA

A ÁRVORE DO CONHECIMENTO
as bases biológicas da compreensão humana
A Árvore do Conhecimento constitui um marco no que se
refere à reflex ão sobre como conhecemos o mundo.
Suas idéias têm um caráter revolucionário e abrem uma perspectiva
ampla e múltipla, que inclui em especial a biologia, a sociologia,
a antropologia, a epistemologí a e a ética.

Do modo como foi trabalhado pelos dois autores, esse entrelaçamento


de disciplinas produziu resultados surpreendentes, que são
apresentados por meio de uma linguagem clara e precisa.
Tais características permitem que o texto seja facilmente
compreensí vel por um público diversificado, que vai desde o leitor
m édio interessado nessas áreas at é estudantes e acadê micos.

Com justiça, o livro de Maturana e Varela vem sendo citado em v á rias


das rela ções que destacam as obras mais importantes do século 20.
O ponto de parada de A Árvort do Conhe -
cimento é suipreendentemente simples:a vida
é um processo de conhecimento; assim, se o
objetivo é compreend ê -la, é necessário en-
.
tender como os seres vivos conhecemo mun-
do. Bs o que Humberto Maturana e Francis-
co Várela chamam de biologia da cognição. AARVORE DO
fr
Ese é a sua tese central: vivemos no mun-
do e por isso fazemos parte dele; vivemos CONHECIMENTO
com os outros seres vivos, e portanto com - As Bases Biol ógicas
partilhamos com eles o processo vital. Cons- da Compreensão Humana
truímos o mundo em que vivemos ao longo
de nossas vidas. Por sua vez, ele também nos
constrói no decorrer dessa viagem comum.
Assim, se vivemos e nos comportamos de um
modo que toma insatisfatória a nossa quali-
dade de vida, a responsabilidade cabe a nós.
As id éias de Maturana e Varela contêm
nuanças que lhes proporcionam uma leveza
e uma perspicácia que constituem a essência
de sua originalidade. Para eles, o mundo não
é anterior à nossa experiência. Nossa trajétó- ;
ria de vida nos faz construir nosso conheci-
mento do mundo-mas este também constrói
seu próprio conhecimento a nosso respeito.
Mesmo que de imediato não o percebamos,
somos sempre influenciados e modificados !
pelo que experienciamos.
Para mentes condicionadas como as nos-
sas não é nada fácil aceitar esse ponto de vis-
ta, porque ele nos obriga a sair do conforto e
da passividade de receber informações vin -
das de um mundo já pronto e acabado-tal
como um produto recém-saído de uma linha l!
8
de montagem industrial e oferecido ao con- i
sumo. Pelo contrário, a id éia de que o mun-
do é construído por nós, num processo in- 1
cessante e interativo, é um convite à partici- \
pação ativa nessa construção. Mais ainda, é
um convite à assunção das responsabilidades
que ela implica.
A ÁRVORE DO
CONHECIMENTO
As Bases Biológicas
da Compreensão Humana

Humberto R. Maturana
e Francisco J. Varela

Tradu çã o
Humberto Mario tti e Lia Diskin

Biblioteca Particular

. .
Prof Sérgio Augusto F Souza

Editora Palas Athena


i£i

Título original: El árbol del conocimiento


Copyright © 1984 by Behncke, Maturana, Varela Sumário
&-
Wt'rV

aí-
¡RV m- Coordenação editorial:
Revisã o de provas:
Emilio Moufarrige
lucia Brandão Saft Moufarrige
Diagramação: Maria do Carmo de Oliveira
Capa: í cio Zabotto
Maur Prefácio: Humberto Mariotti 07
Impressão: Gráfica Palas Atbena
CAPíTULO I
Conhecer o conhecer 21
Catalogação na Fonte tio Departamento Nacional do Livro CAPíTULO il
M 445a A organização do vivo 39
Maturana, Humberto R.
A á rvore do conhecimento: as bases biológicas da compreensã o
CAPíTULO III
humana / Humberto R . Maturana e Francisco J . Varela ; tradu ção: História , reprodu ção e hereditariedade . . . 65
Humberto Mariotti e Lia Diskin ; ilustra ção: Carolina Vial , Eduardo
RI -
Osorio, Francisco Olivares e Marcelo Maturana Monta ñez São Paulo : CAPíTULO IV
Palas Athena , 2001. A vida dos metacelulares 85
í 288 pá gs. : il. ; I 6x 23cm CAPíTULO V
- - -
ISBN 85 72420 32 0 (broch.) A deriva natural dos seres vivos 105
! CAPíTULO VI
1. Teoria do conhecimento. I. Título. Domínios comportamentais . . . . 135
CAPíTULO VII
CDD: 121 Sistema nervoso e conhecimento 157
CAPíTULO VIII
4’ ediçã o, março, 2004 Os fenômenos sociais 199
CAPíTULO IX
Todos os direitos reservados e protegidos Domínios lingüísticos
pela Lei 9610 de 19 de fevereiro de 1998. e consciência humana 227
H proibida a reprodu ção total ou parcial , por quaisquer meios ,
sem a autorização prévia , por escrito, da editora.
CAPíTULO X
Direitos adquiridos para a língua portuguesa , pela
A á rvore do conhecimento . . . . 261
EDITORA PALAS ATHENA Glossá rio 275
-
Rua Serra de Paracaina , 240 - Cambuci 01522-020 - Sã o Paulo , SP - Brasil Fonte das ilustrações 279
-
fone: (11) 3209.6288 fax : (11) 3277.8137
www. palasathena.org editora@ palasathena.org

2004
Outro olhar, O ponto de partida desta obra é surpreendente-
outra visã o mente simples: a vida é um processo de conheci-
mento; assim, se o objetivo é compreendê-la , é
necessá rio entender como os seres vivos conhe-
cem o mundo. Eis o que Humberto Maturana e
Francisco Varela chamam de biologia da cognição.
O modo como se dá o conhecimento é um
F dos assuntos que há séculos instiga a curiosidade
humana . Desde o Renascimento, o conhecimen-
í to em suas diversas formas tem sido visto como a
representação fiel de uma realidade independen-
-
wr te do conhecedor. Ou seja, as produções artísti-

i •
*. *
cas e os saberes não eram considerados constru -
ções da mente humana . Com alguns intervalos
de contestação (como aconteceu logo no início
do século 20, por exemplo), a idéia de que o
mundo é pré-dado em relação à experiência hu -
mana é hoje predominante - e isso talvez mais
m por motivos filosóficos, políticos e económicos
* do que propriamente por causa de descobertas
científicas de laboratório.
Segundo essa teoria , nosso cé rebro recebe
passivamente informações vindas já prontas de
fora . Num dos modelos teó ricos mais conheci-
dos, o conhecimento é apresentado como o re-
sultado do processamento ( computação) de tais
8 A Á RVORE DO CONHECIMENTO PREFáCIO 9

informações. Em conseqiiência , quando se inves- O representacionismo é um dos fundamentos


tiga o modo como ele ocorre (isto é, quando se da cultura patriarcal sob a qual vive hoje boa parte
fa2 ciência cognitiva), a objetividade é privilegia- do mundo, inclusive as Américas. A esse respei-
da e a subjetividade é descartada como algo que to, lembremos um dado histórico comentado por
poderia comprometer a exatidão científica. Tal Hannah Arendt1 em relação aos bóeres, europeus
modo de pensar se chama representacionismo, e em sua maioria descendentes de holandeses que
constitui o marco epistemológico prevalente na iniciaram a colonização da África do Sul no sé-
atualidade em nossa cultura. Sua proposta cen- culo 17. O contato com os nativos sempre os cho-
tral é a de que o conhecimento é um fenômeno cava , diz Arendt. Para aqueles homens brancos,
baseado em representações mentais que fazemos o que tornava os negros diferentes não era pro-
do mundo. A mente seria, então, um espelho da priamente a cor da pele, mas o fato de que eles
natureza . O mundo conteria “ informações” e nossa se comportavam como se fizessem parte da natu-
tarefa seria extrai-las dele por meio da cognição. reza. Não haviam, como os europeus, criado um
Como aconteceu com muitas outras, essa po- â mbito humano separado do mundo natural.
sição teórica também produziu conseqviências Do ponto de vista dos bóeres, essa ligação tão
prá ticas e éticas. Veio, por exemplo, reforçar a íntima com o ambiente transformava os nativos
F
crença de que o mundo é um objeto a ser explo- em seres estranhos. Era como se eles não perten-
I rado pelo homem em busca de benef ícios. Essa cessem à espécie humana. Por serem parte da
convicção constitui a base da mentalidade extra- natureza , eram vistos como mais um “recurso” a

tivista e com muita freqiiência predatória - do-
minante entre nós. A idéia de extrair recursos de
ser explorado. Por isso, era “ justo” que fossem
amplamente utilizados como produtores de
um mundo-coisa , descartando em massa os energia mecâ nica no trabalho escravo, ou então
-
subprodutos do processo, estendeu se às pessoas, simplesmente massacrados. Eis um exemplo do
que assim passaram a ser utilizadas e, quando se tipo de alteridade gerado pelo modelo mental
revelam “inú teis” , são também descartadas. Como fragmentador. A fragmentação traduz a separa-
todos sabem, a exclusão social alcança hoje em ção sujeito-objeto, principal característica da con-
muitos países proporções espantosas, em espe- cepção representacionista. Hoje, mais do que
cial no continente africano e na América Latina . nunca, o representacionismo pretende que con-
Ao nos convencer de que cada um de nós é se - tinuemos convencidos de que somos separados
parado do mundo (e, em conseqiiência , das ou- do mundo e que ele existe independentemente
tras pessoas), a visão representacionista em mui- de nossa experiência.
tos casos terminou desencadeando graves distor- Foi exatamente para mostrar que as coisas não
ções de comportamento, tanto em relação ao am- são tão esquemáticas assim que surgiu A Á rvore
biente quanto no que diz respeito à alteridade. do Conhecimento. Eis a sua tese central: vivemos
10 A Á RVORE DO CONHECIMENTO PREFáCIO 11

no inundo e por isso fazemos pane dele; vive- modo interativo, o que nos revela como as coisas
mos com os outros seres vivos, e portanto com- se determinam e se constroem umas às outras.
partilhamos com eles o processo vital. Constru í- Por serem assim , a cada momento elas nos sur-
mos o mundo em que vivemos durante as nossas preendem , revelando-nos que aquilo que pensá-
vidas. Por sua vez, ele també m nos constrói ao vamos ser repetição sempre foi diferença , e o
longo dessa viagem comum . Assim, se vivemos e que julgá vamos ser monotonia nunca deixou de
nos comportamos de um modo que torna insatis- ser criatividade.
fatória a nossa qualidade de vida , a responsabili- Tomemos ainda outra metáfora: não são só os
dade cabe a nós. timoneiros que dirigem os navios. O meio am-
Ao contrá rio das tentativas anteriores de con- biente também pilota as embarcações, por meio
testar pura e simplesmente o representacionismo, das correntes mar ítimas, dos ventos, dos aciden -
as ideias de Maturana e Varela têm nuanças que tes de percurso, das tempestades e assim por dian-
lhes proporcionam uma leveza e uma perspicá- te. Dessa forma os pilotos guiam , mas també m
cia que constituem a essê ncia de sua originalida- são guiados. Não há velejador experiente que
de. Para eles, o mundo não é anterior à nossa não saiba disso. Portanto, pode-se dizer que cons-
experiê ncia . Nossa trajetória de vida nos faz cons- tru ímos o mundo e, ao mesmo tempo , somos
F
truir nosso conhecimento do mundo - mas este constru ídos por ele. Como em todo esse proces-
também constrói seu pró prio conhecimento a so entram sempre as outras pessoas e os demais
nosso respeito. Mesmo que de imediato n ão o seres vivos , tal construção é necessariamente
percebamos, somos sempre influenciados e mo- compartilhada.
dificados pelo que vemos e sentimos. Quando Para mentes condicionadas como as nossas não
damos um passeio pela praia , por exemplo, ao é nada fácil aceitar esse ponto de vista , porque
fim do trajeto estaremos diferentes do que está- ele nos obriga a sair do conforto e da passividade
vamos antes. Por sua vez, a praia também nos de receber informações vindas de um mundo já
percebe. Estará diferente depois da nossa passa- pronto e acabado - tal como um produto recé m-
gem: terá registrado nossas pegadas na areia - sa ído de uma linha de montagem industrial e ofe-
ou terá de lidar também com o lixo com o qual recido ao consumo. Pelo contrá rio, a idé ia de
porventura a tenhamos polu ído . que o mundo é constru ído por nós, num proces-
Do mesmo modo, as á guas de um rio vão abrin- so incessante e interativo, é um convite à partici-
do o seu trajeto por entre os acidentes e as irre- pação ativa nessa constru ção. Mais ainda , é um
gularidades do terreno. Mas estes também aju- convite à assunção das responsabilidades que ela
dam a moldar o itinerá rio, pois nem a correnteza implica. Não se trata , porém , de uma escolha re-
nem a geografia das margens determinam isola- tórica , e sim do cumprimento de determina -
damente o curso fluvial: ele se estrutura de um ções que derivam da nossa pró pria condição de
12 A Á RVORE DO CONHECIMENTO PREFáCIO 13

viventes. Maturana e Varela mostram que a idéia com o ambiente , no qual , é claro, estão os
de que o mundo não é pré-dado, e que o cons - demais seres vivos. Em meados dos anos 60, Varela
truímos ao longo de nossa interação com ele, não tornou-se aluno de Maturana. A seguir, já tam-
é apenas teórica: apóia-se em evidências concre- bém professor, continuou a trabalhar com ele na
tas. Vá rias delas estão expostas - com a freq üen- Universidade do Chile . Juntos escreveram um
te utilização de exemplos e relatos de experimen- primeiro livro: De Máquinas y Seres Vivos. Una
tos - nas páginas deste livro.
Teoría de la Organización Biológica? Tempos
Em suma: se a vida é um processo de conhe- depois, a instauração do regime militar no país, a
cimento, os seres vivos constróem esse conheci-
partir de 1973, fez com que os dois autores fos-
mento não a partir de uma atitude passiva e sim
sem para o exterior, onde continuaram a traba-
pela interação. Aprendem vivendo e vivem apren-
lhar separadamente.
dendo. Essa posição, como já vimos, é estranha a
Em 1980, de volta ao Chile, retomaram a cola-
quase tudo o que nos chega por meio da educa-
ção formal.
bora ção. Por essa época , a organização dos Esta-
dos Americanos (OEA) buscava novas formas de
abordar a comunicação entre as pessoas e o modo
t
As teorias de Maturana e Varela constituem uma como ocorre o conhecimento. Por intermédio de
Um pouco de
í concepção original e desafiadora , cujas conse- história
Rolf Behncke, também chileno e ligado a essa
qiiências éticas agora começam a ser percebidas instituição, Maturana e Varela começaram a ex-
com crescente nitidez. Nos ú ltimos anos, por por os resultados de suas pesquisas em uma sé rie
exemplo, tal compreensão vem se ampliando de de palestras, assistidas por pessoas de formação
modo significativo e tem influenciado muitas áreas heterogénea . A transcrição e edição dessas apre-
do pensamento e atividade humanos. A Árvore sentações resultou num livro, publicado em 1985
do Conhecimento tornou-se um clássico, ou me- em edição não-comercial para a OEA. Essa obra
lhor, recebeu o justo reconhecimento de seu clas- constitui, com algumas modificações, o que é hoje
sicismo inato. Por isso, é importante contar aqui A Á rvore do Conhecimento. Desde a sua primeira
as linhas gerais de sua história.2 edição destinada ao pú blico - em 1987 -, ela ja-
Tudo começou na década de I960, quando mais deixou de despertar atenção, gerando co-
Maturana , professor da Universidade do Chile, mentá rios, resenhas, aná lises, pesquisas, outros
intuiu que a abordagem convencional da biolo- livros. Tudo isso compõe hoje uma ampla biblio-
gia - que basicamente estuda os seres vivos a grafia, espalhada por áreas tão diversas como a
partir de seus processos internos - podia ser biologia , a administração de empresas, a filoso-
fertilizada por outro modo de ver. Tal aborda- fia , as ciê ncias sociais, a educação, as neurociên-
gem os concebe em termos de suas interações cias e a imunologia.
14 A ÁRVORE DO CONHECIMENTO PREFáCIO 15

O centro da argumentação de Maturana e Varela Desdobramentos obras - uma contribuição relevante à compreen-
é constituído por duas vertentes. A primeira , como são daquilo que talvez seja o maior problema
vimos, sustenta que o conhecimento não se limi- epistemológico de nossa cultura: a extrema difi-
ta ao processamento de informações oriundas de culdade que temos de lidar com tudo aquilo que
um mundo anterior à experiência do observador, é subjetivo e qualitativo.
o qual se apropria dele para fragmentá-lo e Mas temos outra limitação. Para nós, não é
explorá-lo. A segunda grande linha afirma que fácil aceitar que o subjetivo e o qualitativo não se
os seres vivos são autónomos, isto é, autoprodu- propõem a ser superiores ao objetivo e ao quan-
tores - capazes de produzir seus próprios com- titativo; e que não pretendem descartá-los e subs-
ponentes ao interagir com o meio: vivem no co- titui-los, mas sim manter com eles uma relação
nhecimento e conhecem no viver. complementar. Não entendemos que todas essas
A autonomia dos seres vivos é uma alternativa instâ ncias são necessá rias, e que é essencial que
à posição represeñtacionista. Por serem autóno- entre elas haja um relacionamento transacionai,
mos, eles não podem se limitar a receber passi- uma circularidade produtiva. Tal situação tem
vamente informações e comandos vindos de fora. produzido, como foi dito, conseqiiências éticas
Não “funcionam” unicamente segundo instruções importantes. Parece incrível, mas muitas pessoas
externas. Conclui-se, então, que se os conside- (inclusive cientistas e filósofos) imaginam que o
rarmos isoladamente eles são autónomos. Mas se trabalho científico deve afastar de suas preocupa-
os virmos em seu relacionamento com o meio, ções a subjetividade e a dimensão qualitativa -
torna-se claro que dependem de recursos exter- como se a ciência não fosse um trabalho feito
nos para viver. Desse modo, autonomia e depen- por seres humanos. Maturana e Varela mostram,
dência deixam de ser opostos inconciliáveis: uma com abundância de exemplos e constatações, que
complementa a outra. Uma constrói a outra e por a subjetividade (tanto quanto a objetividade), e a
ela é constru ída , numa dinâ mica circular. qualidade (tanto quanto a quantidade), são na
Mas o que fazer para que o ser humano se verdade indispensáveis ao conhecimento e, por-
veja também como parte do mundo natural? Para
tanto, é preciso que ele observe a si mesmo en-
II tanto, à ciência.

quanto observa o mundo. Esse passo é funda-


mental, pois permite compreender que entre o 0 agora e o futuro Hoje, os dois autores seguem caminhos diferen-
observador e o observado (entre o ser humano e tes. No entanto, a diversidade de suas linhas de
o mundo) não há hierarquia nem separação, mas trabalho atuais não elimina um traço básico do
sim cooperatividade na circularidade. Na verda- ideá rio original: o que sustenta que os seres vi-
de, Maturana e Varela dão - não apenas com este vos e o mundo estão interligados, de modo que
livro, mas com o conjunto de suas respectivas não podem ser compreendidos em separado.
PREFáCIO 17
16 A Á RVORE DO CONHECIMENTO

Outro ponto de convergê ncia é o que diz que , se a ciência (o universo da objetividade) da expe-
o conhecimento não é passivo - e sim construído riência humana (o domínio da subjetividade ).
pelo ser vivo em suas interações com o mundo -, Há anos que a Associação Palas Athena , por
a postura de só levar em conta o que é observa - meio de sua Editora , pretende lançar uma tradu-
do deixa de ter sentido. A transacionalidade en- ção d' A Árvore do Conhecimento. Esse desejo sem-
tre o observador e aquilo que ele observa , além pre traduziu a certeza não apenas da importâ ncia
de mostrar que um não é separado do outro, tor - da obra , mas também da afinidade entre as idéias
na indispensável a consideração da subjetividade dos cientistas chilenos e os princípios da Asso-
do primeiro, isto é, a compreensão de como ele ciação. Eis por que agora a concretização do proje-
experiencia o que observa . to é para todos nós um acontecimento da maior
Maturana permanece no Chile , de onde sai importâ ncia , que queremos compartilhar.
periodicamente para cursos, conferências e se - Humberto Mariotti
miná rios em vá rios países do mundo, inclusive o
Brasil. Aprofunda seu pensamento sobre a biolo-
gia do conhecimento e a respeito de sua concep -
ção de altendade, que chama de biologia do amor.
A transacionalidade da biologia do conhecimen-
to com a biologia do amor compõe a base do
que ele denomina de Matriz Biológica da Exis- P.S. Este livro já estava traduzido e seu texto pre-
tência Humana . parado quando recebemos a notícia do falecimen-
Varela trabalha em Paris, onde desenvolve duas
, to de Francisco Varela . É com pesar que registra-
linhas complementares de pesquisa. A primeira mos essa imensa perda. Que esta tradução se in-
.
consta de estudos experimentais sobre a integra- corpore às muitas homenagens que a sua memó-
ção neuronal durante os processos cognitivos. A ria merece e certamente receberá. A elas soma-
outra consiste em investigações sobre a consciên- mos também a nossa gratidão, pelo privilégio de
cia humana Tais pesquisas proporcionam contri- ter convivido com seus ensinamentos e de poder
buições à sua escola de estudos cognitivos - a continuar aprendendo com eles.
ciência cognitiva enativa (teoria da atuação). Em
linhas gerais, essa teoria sustenta que é preciso
levar em conta não apenas a objetividade, mas
também a subjetividade do observador, que ha-
via sido preterida pelos modelos teóricos repre-
Humberto Mariotti É médico, psicoterapeuta e coordenador do Grupo de Estudos
sentacionistas de ciê ncia cognitiva. Ou seja, pre- 1 de Complexidade e Pensamento Sistémico da Associação Palas
tende lançar uma ponte sobre o fosso que separa -
Athena, em São Paulo. E-mail homariot@ uol.com.br
- ._-~--~
REFERêNCIAS

1. ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo. São Pau-


lo: Companhia das Letras, 1998, págs. 222, 223.
2. MATURANA , Humberto R., VARELA , Francisco J.
-
Preface. The Tree of Knowledge. The Biological
Roots of Human Understanding. Boston e Londres:
Shambhala , 1998, págs. 11-13.
3. MATURANA, Humberto, VARELA, Francisco. De Má-
quinas y Seres Vivos: Una Teoría de la Organización
Biológica. Santiago: Editorial Universitá ria, 1973
-

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9
dom ínios lingu ísticos
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-
i
biol ógica

3
A grande tentação Na Fig. 1 admiramos o Cristo Coroado com Espi-
nhos, do mestre Hertogen-bosch , mais conheci-
do como Bosch .
fen ô menos histó ricos
1
Essa representa ção tão pouco tradicional da
1
linguagem
consciê ncia reflexiva
conserva çã o

1reproduçã- oI
J
varia çã o
coroação com espinhos pinta a cena quase em
plano ú nico, com grandes cabeças e , mais do que
!i i retratar um incidente da Paixão, aponta para um
r sentido universal do demoníaco em contraste com
o reino dos céus. No centro, Cristo expressa uma
8 4 imensa paciê ncia e aceita çã o. Entretanto , seus
II fenô menos culturais
perturbações torturadores não foram pintados aqui como em
fen ô menos sociais ——
| acoplamento
estrutural ontogenia
tantas outras composições da é poca e do próprio
Bosch , com figuras extraterrenas que o agridem
li
I
unidades de terceira
ordem
L unidades de segunda ordem diretamente, puxando seus cabelos , ferindo a sua
! clausura operacional carne. Os verdugos do Cristo aparecem com qua-
tro tipos humanos que, na mente medieval, re-
presentavam uma visão total da humanidade. Cada
:l
7 5 um desses tipos é como que uma grande tenta-
ção para a amplitude e a paciência da expressão
atos cognitivos
correla ções internas 6 r
deriva
filogenia
histó ria de
de Cristo. São quatro estilos de aliena ção e perda
natural interações da equanimidade interior.
ampliação do
dom í nio de intera ções
comportamento
— sistema
nervoso conserva çã o
da adapta çã o
seleçã o
estrutural
Há muito o que contemplar e refletir sobre
plasticidade contabilidade lógica essas quatro tentações. Para nós, porém, no início
estrutural determinação estrutural do longo itinerá rio que será este livro , o persona-
representação / . 1. Cristo coroado de espi-
solipsismo gem do canto inferior direito é particularmente
í ; íw, :. de Hieronimus Bosch,
5èu do Prado, Madri . importante . Segura Jesus pelo manto. Firma -o
m
m
V CONHECER O CONHECER 23
m t 22 A Á RVORE DO CONHECIMENTO

-
contra o solo. Segura o e restringe sua liberdade
fixando sua perspectiva . Parece estar dizendo:
“ Mas eu sei, já o sei”. Eis a tentação da certeza .
Tendemos a viver num mundo de certezas, de
solidez perceptiva não contestada, em que nos-
sas convicções provam que as coisas são somen-
te como as vemos e não existe alternativa para
aquilo que nos parece certo. Essa é nossa situa-
ção cotidiana , nossa condição cultural, nosso
modo habitual de ser humanos.
Pois bem, todo este livro pode ser visto como
um convite à suspensão de nosso hábito de cair
na tentação da certeza. Isso é duplamente neces-
sá rio. Por um lado, porque se o leitor não sus-
pender suas certezas, não poderemos comunicar
aqui nada que fique incorporado à sua experiên-
P cia como uma compreensão efetiva do fenôme-
t no do conhecimento. Por outra parte, porque
aquilo que este livro precisamente irá mostrar, ao
estudar de perto o fenômeno do conhecimento e
nossas ações dele surgidas, é que toda experiên-
cia cognitiva inclui aquele que conhece de um
modo pessoal, enraizado em sua estrutura bioló-
gica , motivo pelo qual toda experiência de certe-
za é um fenômeno individual cego em relação ao
ato cognitivo do outro, numa solidão que (como
veremos) só é transcendida no mundo que cria-
mos junto com ele.

Nada do que vamos dizer será compreendido de As surpresas do olho


maneira verdadeiramente eficaz, a menos que o
leitor se sinta pessoalmente envolvido, a menos
que tenha uma experiência direta que ultrapasse Fig. 2. Experiência do
ponto cego.
a simples descrição.
24 A Á RVORE DO CONHECIMENTO CONHECER O CONHECER 25

Portanto, em vez de falar sobre como a apa - zona da retina de onde sai o nervo óptico, que
rente solidez de nosso mundo experiencial se portanto n ão tem sensibilidade à luz. É o chama-
torna rapidamente suspeita quando o observa - do ponto cego. Entretanto, o que muito raramen-
mos de perto, iremos demonstrar esse fato por te se destaca quando se dá essa explicação é: por
meio de duas situa ções simples. Ambas corres- que não andamos pelo mundo com um buraco
pondem ao â mbito de nossa experiê ncia visual desses o tempo todo? Nossa experiência visual
cotidiana. corresponde a um espaço contínuo e, a menos
Primeira situação: cubra seu olho esquerdo e que façamos essas engenhosas manipulações, não
olhe fixamente para a cruz desenhada na pá gina percebemos que de fato há uma descontinuidade
23, mantendo-a a uma distância de cerca de qua- que deveria aparecer. Nesse experimento do pon-
renta cent ímetros. Você observará entã o que o to cego, o fascinante é que não vemos que não
ponto negro da figura , de tamanho nada despre- vemos .
zível, desaparece de repente! Experimente girar Segunda situa ção: tome dois focos de luz e
um pouco a página ou abrir o outro olho. É tam- disponha-os como na Fig. 4 (isso pode ser feito
bém interessante copiar o mesmo desenho em simplesmente com um cilindro de cartolina , do
outra folha de papel e aumentar gradualmente o tamanho de uma pequena l â mpada potente,
ponto negro, até ver qual é o tamanho máximo e usando um papel celofane vermelho como
necessá rio para o seu desaparecimento. Em se- filtro) . A seguir, interponha um objeto - sua
guida , gire a página , de modo que o ponto B mã o, por exemplo - e olhe para as sombras
ocupe o lugar que antes ocupava A , e repita a projetadas sobre a parede. Uma delas parecerá
observação. O que aconteceu com a linha que azul-esverdeada! O leitor pode experimentar di-
cruza o ponto? ferentes papéis transparentes de cores diversas
Com efeito, essa mesma situação pode ser ob- diante das lâ mpadas, bem como diferentes inten-
servada sem nenhum desenho em papel: basta sidades de luz.
substituir a cruz e o ponto pelos polegares. O Aqui, a situação é tão surpreendente quanto
dedo aparece como que sem sua ú ltima falange no caso do ponto cego. De onde vem a cor azul-
(experimente!). Por falar nisso, foi assim que essa esverdeada , quando o que se espera é a branca ,
observação se tornou popular: Marriot, um cien- Fig . 3. Os dois círculos desta ! a vermelha ou misturas das duas ( rosado)? Estamos
tista da corte de um dos Lu íses, mostrou ao rei , página foram impressos coin ¡ acostumados a pensar que a cor é uma qualidade
mediante esse procedimento, como ficariam seus a mesma tinta . No entanto, o li dos objetos e da luz que deles se reflete. Assim ,
de baixo parece rasado, por j jj
súditos sem cabeça antes de decapitá-los. causa de seu entorno verde.
Sombras coloridas. se vejo verde deve ser porque uma luz verde
A explicação normalmente aceita para esse fe- Moral da histó ria : a cor nã o è chega até meus olhos, ou seja , uma luz com um
uma propriedade das coisas; MH -Sí-,:
nô meno é que , nessa posição específica , a ima- Btik certo comprimento de onda . Agora , se usarmos
ela é inseparável de como es- jBjS
gem do ponto (ou do dedo, ou do súdito) cai na tamos esinitur.ido' para \ ê - Bí
l ã . ljKjf &v um aparelho para medir a composição da luz
26 A ÁRVORE DO CONHECIMENTO CONHECER O CONHECER 27

nessa situação, descobriremos que não há ne- explicação de como vemos as cores não é sim-
nhum predomínio de comprimentos de onda cha- ples e não tentaremos fornecê-la com detalhes
mados verdes ou azuis na sombra que vemos aqui. Contudo, o essencial é que para entender o
-
como azul esverdeada , e sim apenas a distribui- fenômeno devemos deixar de pensar que a cor
ção própria da luz branca. No entanto, a expe- dos objetos que vemos é determinada pelas ca-
riência de azul-esverdeado é, para cada um de racterísticas da luz que nos chega a partir deles.
nós, inegável. Em vez disso, precisamos nos concentrar em com-
Esse belo fenômeno das chamadas sombras preender como a experiência de uma cor corres-
coloridas foi descrito pela primeira vez por Otto ponde a uma configuração específica de estados
von Guericke em 1672, quando ele notou que de atividade no sistema nervoso, determinados
seu dedo se tornava azul na sombra entre uma por sua estrutura. Com efeito, embora não o fa-
vela e o sol nascente. Em geral, diante desse fe- çamos neste momento, é possível demonstrar que,
nômeno (e de outros semelhantes) as pessoas como tais estados de atividade neuronal (como a
dizem: “ Bem, mas qual é realmente a cor?” , como visão do verde) podem ser desencadeados por
se os dados fornecidos pelos instrumentos de uma variedade de perturbações luminosas (como
medição de comprimento de onda fossem a ú lti- as que tornam possível ver as sombras colori-
ma resposta. Na verdade, esse experimento sim- das), é possível correlacionar o nomear das cores
ples não nos revela uma situação isolada, que com estados de atividade neuronal, porém não
possa (com se faz com freqiiência) ser considera- com comprimentos de onda. Os estados de ativi-
da marginal ou ilusória. Nossa experiência de um dade neuronal deflagrados por diferentes pertur-
mundo feito de objetos coloridos é literalmente bações estão determinados em cada pessoa por
independente da composição dos comprimentos sua estrutura individual , e não pelas característi-
de onda da luz que vem de cada cena que obser- cas do agente perturbador.
vamos. Com efeito, se levo uma laranja de dentro O que foi dito é válido para todas as dimen-
de casa até o pá tio, ela continua sendo da mesma sões da experiência visual (movimento, textura ,
cor. No entanto, no interior da casa ela era ilumi- forma etc.), bem como para qualquer outra mo-
nada por, digamos, uma luz fluorescente, que tem dalidade perceptiva. Poderíamos falar de situa-
uma grande quantidade de comprimentos de onda ções similares, que nos revelam, de um só golpe ,
chamados azuis (ou curtos), enquanto que no que aquilo que tomávamos como uma simples
sol predominam comprimentos de onda chama- captação de algo (tal como espaço ou cor) traz a
dos vermelhos (ou longos). Não há maneiras de marca indelével de nossa própria estrutura. Por
estabelecer uma correspondência entre a tremen- enquanto, teremos de nos contentar somente com
da estabilidade das cores com as quais vemos os as observações e experiências acima , e confiar
objetos do mundo e a luz que deles provém. A em que o leitor de fato as tenha feito e que ,
28 A Á RVORE DO CONHECIMENTO CONHECER O CONHECER 29

portanto , estejam frescas em sua memória as evi-


dências de como é escorregadio o que ele estava
'/ 5i - mm-
habituado a considerar como muito sólido.
Na verdade tais experimentos - ou muitos ou-
tros similares - contêm de maneira capsular o
sabor da essência do que queremos dizer. Eles
nos mostram como nossa experi ê ncia est á
indissoluvelmente atrelada à nossa estrutura .
Não vemos o “ espaço” do mundo, vivemos nos-
so campo visual ; não vemos as “ cores” do mun-
do, vivemos nosso espa ço cromá tico. Sem dú vi-
da nenhuma - e como de alguma forma desco-

briremos ao longo destas páginas , estamos num
mundo. No entanto, quando examinarmos mais
de perto como chegamos a conhecer esse mun-
do, descobriremos sempre que não podemos se-
parar nossa história das ações - biológicas e so-
ciais - a partir das quais ele aparece para nós. O
mais óbvio e o mais próximo são sempre dif íceis
de perceber.

No zoológico do Bronx, em Nova York , há O grande escândalo


um grande pavilhão especialmente dedicado Fig. 5. Mãos que desenham, De observadores, passamos a observados ( por
aos primatas. Lá é possível ver os chimpanzés,
- dljffljfe: Escher. nós mesmos). Mas o que vemos?
gorilas, gibões e muitos macacos do novo e do ;£ m O momento de reflexão diante de um espelho
velho mundo. Chama a atenção, porém , que no é sempre muito peculiar, porque nele podemos
fundo existe uma jaula separada , com fortes gra- tomar consciência do que, sobre nós mesmos,
des. Quando nos aproximamos, vemos uma ins- não é possível ver de nenhuma outra maneira:
cri ção que diz: “ O primata mais perigoso do como quando revelamos o ponto cego, que nos
planeta ”. Ao olhar por entre as grades, vemos mostra a nossa própria estrutura , e como quando
com surpresa a nossa própria cara: o letreiro es- suprimimos a cegueira que ela ocasiona , preen-
clarece que o homem já matou mais espécies no chendo o vazio. A reflexão é um processo de
planeta que qualquer outra espécie conhecida . conhecer como conhecemos, um ato de voltar a
------- ,---~

30 A Á RVORE DO CONHECIMENTO CONHECER O CONHECER 31

nós mesmos , a ú nica oportunidade que temos de


descobrir nossas cegueiras e reconhecer que as Os aforismos-chave do livro
certezas e os conhecimentos dos outros são, res- "Todo fazer é um conhecer e
pectivamente , tão aflitivos e tão tênues quanto todo conhecer é um fazer ”
os nossos. “Tudo o que é dito é dito por algu ém"
! ' Essa situa ção especial de conhecer como se
conhece é tradicionalmente esquiva para nossa
cultura ocidental , centrada na a ção e não na re-
flexão, de modo que nossa vida pessoal é , geral-
mente, cega para si mesma. Parece que em algu- olhando para essas coisas por meio desses pro-
ma parte há um tabu que nos diz : “ É proibido cessos. Não temos outra alternativa , pois há uma
conhecer o conhecer” . Na verdade, é um escâ n- inseparabilidade entre o que fazemos e nossa
dalo que não saibamos como é constitu ído o experiê ncia do mundo, com suas regularidades:
nosso mundo experiencial , que é de fato o mais seus lugares p ú blicos, suas crianças e suas guer-
próximo da nossa existência. Há muitos escâ ndalos ras atómicas.
f no mundo, mas essa ignorâ ncia é um dos piores.
Talvez uma das razões pelas quais tendemos a
O que podemos tentar - e que o leitor deve
tomar como uma tarefa pessoal - é perceber tudo
evitar tocar as bases de nosso conhecer, é que o que implica essa coincidê ncia contínua de nos-
isso nos dá uma sensa ção um pouco vertiginosa , so ser, nosso fazer e nosso conhecer, deixando
dada a circularidade resultante da utilização do de lado nossa atitude cotidiana de pô r sobre nos-
instrumento de análise para analisar o próprio sa experiê ncia um selo de inquestionabilidade ,
instrumento de aná lise: é como se pretendêsse- como se ela refletisse um mundo absoluto.
mos que um olho visse a si mesmo. Na figura 5, Por isso, na base de tudo o que iremos dizer
que é um desenho do artista holandês M.C. Escher, estará esse constante dar-se conta de que não se
essa vertigem está representada com muita niti- pode tomar o fen ômeno do conhecer como se
dez, por meio das mãos que se desenham mu - houvesse “fatos” ou objetos lá fora , que algu ém
tuamente, de tal modo que nunca se sabe onde capta e introduz na cabeça . A experiê ncia de
fn está o fundamento de todo o processo: qual é a qualquer coisa lá fora é validada de uma maneira
particular pela estrutura humana , que torna pos-
mão “ verdadeira”?
De modo semelhante, embora tenhamos visto sível “a coisa ” que surge na descrição.
que os processos envolvidos em nossas ativida - Essa circularidade, esse encadeamento entre
des, em nossa constituiçã o, em nossa atua ção a ção e experiência , essa inseparabilidade entre
como seres vivos, formam o nosso conhecer, ser de uma maneira particular e como o mundo nos
propomo-nos a investigar como conhecemos parece ser, nos diz que todo ato de conhecer
ill
VI
32 A Á RVORE DO CONHECIMENTO
CONHECER O CONHECER 33
faz surgir um mundo. Essa característica do
conhecer será inevitavelmente um problema nos- Esses dois aforismos deveriam ser como fa-
so, nosso ponto de vista e o fio condutor de tudo -
róis, a lembrar nos permanentemente de onde
o que apresentaremos ñas páginas seguintes. Tudo viemos e para onde vamos.
isso pode ser englobado no aforismo: todo fazer Costuma-se imaginar que esse fazer surgir o
é um conhecer e todo conhecer é um fazer . conhecimento seja algo difícil, um erro ou resí-
duo explicativo que precisa ser erradicado. Da í,
Quando falamos aqui em ação e experiência ,
não nos referimos somente àquilo que acontece por exemplo, dizer-se que a sombra colorida é
uma “ilusão de ótica” e que “ na realidade ” não
em relação ao mundo que nos rodeia no plano
existe cor. O que estamos dizendo é justamente
puramente “ físico”. Essa característica do fazer hu
- o oposto: esse caráter do conhecer é a chave
mano se aplica a todas as dimensões do nosso
viver. Aplica-se, em particular, ao que estamos
mestra para entendê-lo, não um resíduo incómo -
do ou um obstáculo. Fazer surgir um mundo é a
fazendo aqui e agora , os leitores e nós. E o que
estamos fazendo? Estamos na linguagem, moven-
dimensão palpitante do conhecimento e estar as -
sociado às raízes mais fundas de nosso ser cogni-
-
do nos nela, numa forma peculiar de conversa
- tivo, por mais sólida que seja a nossa experiê n -
ção - num diálogo imaginado. Toda reflexão, in
clusive a que se faz sobre os fundamentos do
- cia. E, pelo fato dessas raízes se estenderem até a

conhecer humano, ocorre necessariamente na lin


-
própria base biológica como veremos -, esse

guagem, que é nossa maneira particular de ser


- fazer surgir se manifesta em todas as nossas ações
e em todo o nosso ser. Não há dúvida de que ele
humanos e estar no fazer humano. Por isso, a se manifesta em todas as ações da vida social
linguagem é também nosso ponto de partida, humana nas quais costuma ser evidente, como
nosso instrumento cognitivo e nosso problema. no caso dos valores e das preferências. Não há
O fato de não esquecer que a circularidade entre descontinuidade entre o social, o humano e suas
ação e experiência se aplica também àquilo que raízes biológicas. O fenômeno do conhecer é um
estamos fazendo aqui e agora, é muito importan- todo integrado e está fundamentado da mesma
te e tem conseqiiências-chave, como o leitor ver
á forma em todos os seus âmbitos.
mais adiante. Esse ponto não deve ser jamais es
-
quecido. Para tanto, resumiremos tudo o que foi
Nosso objetivo, portanto, está claro: queremos
dito num segundo aforismo, que devemos ter em
mente ao longo deste livro: tudo o que é dito é
Implicação examinar o fenômeno do conhecer tomando a
dito por alguém . Toda reflexão faz surgir um universalidade do fazer no conhecer (esse fazer
mundo. Assim, a reflexão é um fazer humano, surgir um mundo), como problema e ponto de
realizado por alguém em particular num deter
- partida para que possamos revelar seu fundamen -
minado lugar. to. E qual será nosso critério para dizer que obti-
vemos êxito em nosso exame?

1
i
if
<

35
34 A Á&VORK DO CONHECIMENTO CONHECER O CONHECER
Uma explicação é sempre uma proposição que Explicação do conhecer
I reformula ou recria as observações de um fenô- I. Fenômeno a explicar: ação efetiva do ser
meno, num sistema de conceitos aceitá veis para vivo em seu meio ambiente;
um grupo de pessoas que compartilham um cri- II. Hipótese explicativa: organizaçã o autó-
4 té rio de valida ção. A magia , por exemplo, é tão
noma do ser vivo. Deriva Rlogenética e
ontogenética , com conservação da adap-
explicativa para os que a aceitam como a ciê ncia tação (acoplamento estrutural);
III. Dedução de outros fenômenos: coorde-
I o é para os que a adotam. A diferença específica
entre a explica ção mágica e a científica está no
nação comportamental nas interações re-
correntes entre seres vivos e coordena-
modo como se gera um sistema explicativo cien- Conhecer ção comportamental recursiva sobre a
ff coordenação comportamental;
t ífico, o que constitui de fato o seu crité rio de Inheccr é uma ação efetiva , ou IV. Observações adicionais: fenômenos so-
1 valida çã o. Dessa maneira , podemos distinguir uma efetividade operacional no
•ja , ciais, domínios lingüísticos, linguagem e
Smínio de existência do ser vivo. autoconsciê ncia.
essencialmente quatro condições que devem ser
satisfeitas na proposiçã o de uma explicação cien -
tífica , as quais n ã o necessariamente ocorrem de
i modo seq ü encial , mas sim de maneira imbricada: Esse ciclo de quatro componentes não é estra-
nho ao nosso modo cotidiano de pensar. Com
a . Descrição do fenômeno ou fen ômenos a ex-
<- freqii ê ncia , nós o usamos para dar explica ções
plicar, de maneira aceitável para a comunida -
de fenômenos tão variados como o enguiço do
de de observadores;
automóvel ou as elei ções presidenciais. O que os
b. proposição de um sistema conceituai capaz
cientistas fazem é tentar ser plenamente consis-
de gerar o fenômeno a explicar de modo acei-
tentes e expl ícitos em relação a cada uma das
tá vel para a comunidade de observadores ( hi-
etapas, e deixar um registro documentado, de tal
•et.

• r pótese explicativa );
forma que se crie uma tradição que vá além de
I c . dedu ção, a partir de b., de outros fenômenos
ã. 1’
uma pessoa ou gera ção.
m não explícitamente considerados em sua pro-
Nossa situa ção é exatamente a mesma . Tanto
p posiçã o , bem como a descrição de suas con-
di ções de observação na comunidade de ob-
servadores;
o leitor como nós próprios estamos transforma -
dos em observadores que fazem descrições. Como
observadores, escolhemos precisamente o conhe-
d . observa ção desses outros fenômenos, dedu -
cer como fenômeno a ser explicado. Alé m disso,
zidos a partir de b.
o que dissemos torna evidente qual será nossa
Somente quando esse crité rio de valida çã o é descrição inicial do fenômeno do conhecer: já
satisfeito uma explicação é considerada cient ífi- que todo conhecer faz surgir um mundo, nosso
i ca . E uma afirmação só é científica quando se ponto de partida será necessariamente a efetivi-
fundamenta em explicações cient íficas. dade operacional do ser vivo em seu dom ínio de

.vi
1, I
'

36 A Á RVORE DO CONHECIMENTO
ñ
m existência . Em outras palavras, nosso marco ini-
m • L
cial, para gerar uma explicação cient íficamente
validá vel , é entender o conhecer como ação efe-
l tiva , ação que permita a um ser vivo continuar
sua existência em um determinado meio ao fazer
surgir o seu mundo. Nem mais, nem menos.
E como saberemos quando tivermos chegado
i a uma explicação satisfató ria do fenômeno do
conhecer? Bem , a esta altura o leitor poderá ima-
m ginar a resposta : quando tivermos proposto um
li sistema conceituai capaz de gerar o fenômeno
cognitivo como resultado da a ção do ser vivo. E,
também , quanto tivermos mostrado que esse pro-
. cesso pode resultar em seres vivos como nós pró-
. prios , capazes de produzir descrições e refletir
sobre elas, como conseqiiê ncia de sua realização
como seres vivos, ao funcionar efetivamente em
seus domínios de existência. A partir dessa pro-
posição explicativa , perceberemos de que modo
podem ser geradas todas as dimensões do co-
nhecer que nos são familiares.
.
. Eis o itinerá rio que propomos ao leitor nestas
páginas. Ao longo dos capítulos que se seguirão,
desenvolveremos tanto essa proposição explica-
..áT* tiva, quanto sua conexão com vá rios fenômenos
'
'
adicionais, tais como a comunicação e a lingua-
gem. No final dessa viagem, o leitor poderá reler
estas páginas e avaliar o proveito de ter aceitado
nosso convite para observar de outra maneira o
fenômeno do conhecer.
í
m I
"

/r
. • IS
10

conhecer o conhecer 1
. experiência cotidiana
ética
fenômeno do conhecer fenomenología
biológica
explicação
científica
observador
'
mi sfe:
-
I
9 ação
3
domínios linguísticos fenômenos hist óricos

linguagem conservação — variação


consciência reflexiva reproduçã o

1
8
Ill
perturbações
-rrvr fenômenos culturais i

fenômenos sociais
| acoplamento
estrutural
¿ <
|

unidades de terceira - unidades


i I
de segunda order 3®
km
ordem
clausura operacional

¿5 7 5
atos cognitivos

correlações internas

6 r
deriva
filogenia

história d<
«
5

natural interaçõe
9
f
ampliação do comportamento — sistema conservação seleção
domínio de interações nervoso
da adaptação estrutu
plasticidade contabilidade lógica
estrutural - determinação estrutura
representação /
1 solipsismo —

-
I;
*
40 A Á RVORE DO CONHECIMENTO A ORGANIZAçãO DO SER VIVO 41

Nosso ponto de partida foi tomar consciência de


que todo conhecer é um fazer daquele que co- * 10
nhece, ou seja , que todo conhecer depende da
estrutura daquele que conhece. Esse ponto de
*>
partida fornece a pista do que será nosso itinerá-
rio conceituai ao longo destas páginas: como ocor- E
re esse fazer surgir o conhecer por meio do fa- . i
zer? Quais são as raízes e os mecanismos desse I
modo de operar? 4 -»
Diante de tais perguntas, o primeiro passo de
t
I I
nosso percurso é o seguinte: o fato de que o
conhecer seja o fazer daquele que conhece está
enraizado na própria maneira de seu ser vivo,
em sua organização. Sustentamos que as bases m
m
11
Stâncias na Via Láctea
iÇão do nosso Sol em
>ito.
-10

-15 -1« -5 +5 10 5

biológicas do conhecer não podem ser enten-


didas somente por meio do exame do sistema viagem por alguns marcos da transformação ma-
i

nervoso. Parece-nos necessá rio compreender terial que tornaram possível o aparecimento dos
como esses processos se enraízam na totalidade B seres vivos.
do ser vivo. Na figura 6, pode-se admirar a galáxia chama-

v-:-
Em conseqiiência , neste capítulo discutiremos
alguns aspectos ligados à organização do ser vivo. Si m .
da M104, da constelação de Virgem, popularmente
-
conhecida como galáxia chapé u. Além de sua
Notemos que essa discussão não é um adorno
biológico, nem uma espécie de recheio académi- m
I beleza, ela tem para nós um interesse especial:
nossa própria galáxia , a Via Láctea, nos pareceria
1
camente necessá rio para os que não têm forma- ter uma forma muito semelhante, se pudéssemos
ção em biologia. Neste livro, ela é uma peça fun- vê-la de longe. Como não podemos, devemos
11 ii damental para a compreensão do fenômeno do nos contentar com um diagrama como o da figu-

m conhecimento em toda a sua dimensão.


I
1
ra 7, que inclui algumas dimensões do espaço
estelar e das estrelas. Elas fazem com que nos
sintamos humildes, quando as comparamos com
fi -
Para dar os primeiros passos no que se refere Breve história as nossas. As unidades da escala estão em quilo-
i
à compreensã o da organiza ção do ser vivo, da Terra parsecs, e cada um deles equivale a 3.260 anos-
veremos primeiro como sua materialidade po- luz. Dentro da Via Láctea, nosso sistema solar
« de servir-nos como guia para o entendimento de
s I ocupa uma posição bem mais periférica , está a
qual é sua chave fundamental . Façamos uma cerca de 8 quiloparsecs do centro.

É
I
A Á RVORE DO CONHECIMENTO ORGANIZAçãO DO SER VIVO 43
42

'/2 yr

Fig. 8. Esquema da seq üénciaj em rea ções termonucleares, ao longo de um tem-


Nosso Sol é urna entre varios milhões de ou- de transformações de umil
tras estrelas que compõem essas estruturas estrela desde a sua formação| po de cerca de 8 bilhões de anos. Quando uma
.
multifacetadas que são as gal á xias. Como surgi- fração do hidrogé nio condensado é consumida ,
a seqiiê ncia principal termina num processo de
ram as estrelas? Uma proposta de reconstru ção
para essa história é a que se segue. transforma ções mais dramá ticas. Primeiro, a es-
O espaço interestelar contém enormes quanti- trela se transforma num gigante vermelho, em
dades de hidrogé nio. Turbulê ncias nessas mas- seguida numa estrela pulsante e, finalmente, numa
sas gasosas produzem verdadeiros bolsões de supernova , quando entã o explode num verda-
gases em alta densidade , que estão ilustrados na deiro espino cósmico , no qual se formam os ele-
mentos pesados. O que resta de matéria no cen-
primeira etapa da Fig. 8. Nesse estado, algo mui-
to interessante começa a acontecer: produz-se um tro da estrela entra em colapso e se torna uma
equilíbrio entre a tendência à coesão pela gravi- estrela menor, de densidade muito alta , chamada
dade e a propensão à irradiação, fruto de rea ções de “ anã branca ”.
termonucleares no interior da estrela em forma- Nosso Sol está num ponto mais ou menos in-
Sjf termediá rio de sua seqiiê ncia principal, e espera-
çã o. Essa irradiação, visível do exterior, permite -
se que continue irradiando durante pelo menos
nos perceber as estrelas tal como as vemos no
três bilhões de anos antes de se consumir. Pois
cé u , mesmo a grandes distâ ncias.
Quando os dois processos se equilibram, a es - bem: em muitos casos, durante essa transforma-
ção, uma estrela agrupa ao seu redor um halo de
trela entra no que se chama “seqil ê ncia princi-
-
pal' ( Fig. 8), ou seja , em seu curso de vida como matéria que capta do espaço interestelar. Esse halo

estrela individual . Durante esse per íodo , a maté - gira em torno dela , mas depende energéticamente
ria que se condensou é gradualmente consumida
!í do curso de transforma ções da estrela. A Terra e
:
44 A Á RVORE DO CONHECIMENTO A ORGANIZAçãO DO SER VIVO
..
..

Fig 9. Comparação em escala de modelos


outros planetas de nosso sistema planetá rio são -
desse tipo, e devem ter sido captados como re- -molecularesda água (na parte superior); um

manescentes da explosão de uma supernova , a


julgar por sua riqueza de á tomos muito pesados.
^ á cido (Usina ) no meio; e uma proteína
amino
& enzima ribonuclease) na parte inferior.

Segundo os geofísicos, a Terra tem pelo menos


cinco bilhões de anos e uma história de inces-
sante transformação. Se a tivéssemos visitado há
3r. quatro bilhões de anos e passeado por sua su-
perf ície, teríamos encontrado uma atmosfera cons -
tituída por gases como metano, amónia, hidrogé-
a nio e hélio. Com certeza , uma atmosfera muito
i diferente da que conhecemos hoje. Distinta , en-
v -í tre outras coisas, por estar constantemente sub-
metida a um bombardeio energético de radiações
ii ultravioletas, raios gama , descargas elétricas, im-
pactos meteóricos e explosões vulcânicas. Todos
esses aportes de energia produziram (e continuam
produzindo), na Terra primitiva e em sua atmos-
fera , uma contínua diversifica ção das espécies
moleculares. No começo da história da estrela
havia, fundamentalmente, homogeneidade mo-
lecular. Depois da formação dos planetas, um
.
contínuo processo de transformação química pro-
duziu uma grande diversidade de espécies mole-
P culares, tanto na atmosfera quanto na superf ície
. da crosta terrestre.
No entanto, dentro dessa complexa e contí-
iif í nua história de transformações moleculares, para
;.s

nós é particularmente interessante o momento
em que se acumulam e se diversificam as molé-
culas formadas por cadeias de carbono, ou mo-
léculas orgâ nicas. Dado que os á tomos de car-
bono podem formar, sozinhos e com a participa-
M ção de muitas outras espécies de átomo, uma

í
" -
*
47
A Á RVORF. DO CONHECIMENTO ORGANIZAçãO DO SER VIVO
46
^ A Fig. 10 mostra fotos tiradas em microsc
ópio
quantidade ilimitada de cadeias distintas em ta- agru-
eletrónico, nas quais aparece esse tipo de
manho, ramificação, dobradura e composição, a
pamento molecular, formado há mais de 3 4 bi
, -
diversidade morfológica e qu ímica das moléculas
orgâ nicas é, a princípio, infinita . É precisamente Ihões de anos. Poucos casos dessa espécie foram
a diversidade morfológica e química dessas mo- encontrados, mas eles existem. Há outros exem-
: léculas que torna possível a existência de seres plos encontrados em depósitos fósseis mais re -
centes do ponto de vista geológico, com
menos
vivos, ao permitir a diversidade de reações mole-
de dois bilhões de anos. Os pesquisadores classi
-
culares envolvidas nos processos que os produ-
zem. Voltaremos ao assunto. Por enquanto, po- ficaram esses agrupamentos moleculares como
demos dizer que quem passeasse pela Terra pri- os primeiros seres vivos fósseis, na verdade como
as
mitiva veria a contínua produção abiogênica (sem fósseis de seres vivos que ainda hoje existem:
a participação de seres vivos) de moléculas orgâ- bactérias e as algas.
nicas, tanto na atmosfera quanto em mares agita-
dos, como verdadeiras sopas de reações mole-
culares. A Fig. 9 mostra um pouco dessa diversi-
dade. Nela se vê uma molécula de água, que tem Distinções
apenas formas muito limitadas de associação, em
comparação com algumas moléculas orgânicas.
*
'
• O ato de designar qualquer ente, objeto coisa
unidade, está ligado à realiza çã
tinção que separa o designado e o
o de um
,
ato de
ou
dis
distingue de um
-
fundo. Cada vez que fazemos referência a algo, im-
, estamos especificando um
pl ícita ou explicitamente
critério de distinção que assinala aquilo de
que fala-
Quando, nos mares da Terra primitiva , as trans- O aparecimento mos e especifica suas propriedades como ente
, uni-
formações moleculares chegaram a esse ponto, dos seres vivos dade ou objeto .
e não
chegou-se também à situação na qual era possí- Essa é uma situação totalmente cotidiana
ú nica, na qual estamos submersos de modo neces -
vel a formação de sistemas de reações molecula- sário e permanente.
res de um tipo peculiar. Isto é: devido à diversifi-
1 cação e plasticidade possíveis na família das mo-
léculas orgâ nicas, tornou-se por sua vez possível
* a formação de redes de reações moleculares, que
Unidades
produzem os mesmos tipos de molécula que as
integram e, também, limitam o entorno espacial Uma unidade (entidade, objeto torna-se
) -
de
finida por um ato de distin ção. Cada vez que
no qual se realizam. Essas redes e interações mo- fazemos referência a uma unidade em nossas
leculares, que produzem a si mesmas e especifi- descrições, tomamos impl ícita a operação de
cam seus próprios limites são, como veremos distinção que a define e torna possível.
adiante, seres vivos.
;

>
,' í
'

48
A Á RVORE DO CONHECIMENTO SER VIVO
A ORGANIZAçãO DO

-
Pois bem: essa afirmativa “ isso é um ser vivo
fóssil” - é muito interessante e convém examiná
la de perto. O que permite que um pesquisado
-
r
diga algo assim? Sigamos passo a passo. Em pri-
meiro lugar, foi necessário fazer uma
observação
e dizer que aqui existe alguma coisa, pequenos
glóbulos que podem ser vistos de perfil ao
1 mi-
croscópio. Em segundo lugar, observa se que es-
-
sas unidades assim apontadas se parecem , em
sua morfologia , com seres vivos atualmente exis
tentes. Como há evidências convincentes de
-
que
essa aparência é peculiar aos seres vivos e que
-
esses depósitos datam de uma era compatível com
a história de transformações da crosta e da
WÊSmm
at-
mosfera terrestre, ligadas a processos próprios
aos
seres vivos que conhecemos a conclusão é que
são seres vivos fósseis. F¡g. to. Acima: fotografias de propriedades. Porém , como saber quando a lista
: fósseis do que se presume que est¿ compieta ? Por exemplo , se construirmos
Em outros termos, no fundo o pesquisador está 3 tenham sido bactérias encon-
propondo um critério que diz: os seres vivos tradas em depósitos de mais -
uma máquina capaz de se reproduzir mas que
que de três bilhões de anos. Abai- é feita de ferro e plástico, não de moléculas orgâ-
existiam anteriormente têm de parecer (neste xo: fotografias de bactérias
caso, nicas -, podemos dizer que ela está viva?
' em sua morfologia) com os atuais. Isso
que devemos dispor, mesmo de modo implícito,
implica parável à dos fósseis reprodu-
-
vivas atuais, cuja fornia é com
Queremos propor uma resposta para essa per-
zidos à esquerda. gunta, de uma maneira radicalmente diferente
de algum critério para saber e classificar
quando dessa tradicional enumeração de propriedades e
um ente ou sistema atual é um ser vivo e
quando
I não o é.
Essa situa ção nos deixa diante de um proble
que simplifica muito o problema. Para entender
essa mudança de visão, temos de nos dar conta
ma difícil: como saber quando um ser
- de que o próprio fato de perguntarmos como se
é vivo? reconhece um ser vivo já indica que temos uma
Quais são os nossos critérios? Ao longo
da histó- idéia , mesmo que implícita , de qual é a sua or-
ria da biologia, foram propostos muitos
I e todos eles apresentam dificuldades. Por
critérios ganização. É essa a idé ia que determinará se
: exem- aceitaremos ou não a resposta que nos for pro-
plo, alguns propuseram que o critério fosse
posição química. Ou a capacidade de
a com - posta. Para evitar que tal idéia implícita seja uma
movimen- armadilha que nos ofusque , devemos estar
1 to. Ou, ainda, a reprodução. Ou, por
fim, alguma
combinação desses critérios, ou seja, uma lista de conscientes dela ao considerarmos a resposta
seguinte.

i
I.
f.

3 50 A Á RVORE DO CONHECIMENTO A;ORGANIZA<;AO DO SER VIVO


51
O que é a organização de algo? É alguma coi- Fig. 11. O experimento de
sa ao mesmo tempo muito simples e potencial- Miller como metáfora dos even-
tos aa atmosfera primitiva .
mente complicada. Trata-se daquelas relações que
têm de existir, ou têm de ocorrer, para que esse
algo seja. Para que eu julgue esse objeto como
sendo uma cadeira , é necessá rio que reconheça
que certas relações acontecem entre as partes que

4
chamo de pés, espaldar, assento, de tal maneira
que é possível sentar nela. Que seja feita de ma-
§
*&
deira, com pregos, ou de plástico e parafusos, é
.if inteiramente irrelevante para que eu a qualifique
ou classifique como cadeira. Essa situação - na
qual reconhecemos implícita ou explícitamente a
organização de um objeto ao indicá-lo ou distin-
guido -, é universal, no sentido de que é algo
que fazemos constantemente como um ato cog-
nitivo básico. Este consiste em nada mais nada
menos que gerar classes de qualquer tipo. Assim,
a classe das cadeiras ficará definida pelas rela-
ções que devem ser satisfeitas para que eu classi-
fique algo como cadeira. A classe das boas ações
ficará definida pelos critérios que eu estabelecer
que devam ocorrer entre as ações realizadas e
suas conseqiiências, para que as considere boas.
. Illllll I É simples apontar para uma determinada or-
1 ganiza ção ao indicar os objetos que formam uma

Ii:: classe. Mas pode ser complexo e dif ícil descrever


com exatidão e de modo expl ícito as relações
que constituem tal organização. Assim, na classe
das cadeiras parece fácil descrever a organização
“cadeira", mas o mesmo não acontece com a classe
das boas ações, ao menos que se compartilhe
uma quantidade imensa de bases culturais.

m
1
llj I f
il
*¡ 52 A ARVORE DO

CONHECIMENTO¡ AORGANIZRçãO DO SER VIVO 53
1
í
4
Quando falamos dos seres vivos, já estamos essa membrana não apenas limita a extensão da
^ II supondo que há algo em comum entre eles , do rede de transformações que produz seus compo-
contrá rio não os colocaríamos na mesma classe nentes, como também participa dela . Se não hou-
li que designamos com o termo “vivo”. O que não vesse essa arquitetura espacial, o metabolismo
está dito, poré m, é qual é a organização que os celular se desintegraria numa sopa molecular, que
i; define como classe. Nossa proposta é que os se- se espalharia por toda parte e não constituiria
res vivos se caracterizan! por - literalmente - pro- uma unidade separada como a célula .
duzirem de modo cont ínuo a si pró prios , o que O que temos então é uma situa ção muito es-
indicamos quando chamamos a organização que pecial , no que se refere às relações de transfor-
os define de organização autopoiética. Funda- mação qu ímica: por um lado, é possível perceber
í fi mentalmente, essa organizaçã o é proporcionada
|l
I por certas relações que passamos agora a deta -
li lhar e que perceberemos mais facilmente no pla-
no celular. A origem das moléculas orgâ nicas

11
Hil
Em primeiro lugar, os componentes molecula -
res de uma unidade autopoiética celular deverão :
juando se discute a origem das molé-
culas orgâ nicas, que são compar
á veis às
surpreenderia com o resultado se n ã o
tivesse acesso à totalidade da seqU ê ncia
histórica.
se encontram nos seres vivos (como
estar dinamicamente relacionados numa rede con- O i$ bases nudeot ídicas , os aminoácidos ou Uma das evidências mais cl ássicas de
t ínua de interações. Atualmente se conhecem ís cadeias proteicas), tende-se com fre- que nã o há descontinuidade nessa trans-
i jílência a pensar que a possibilidade de formação por etapas foi propocionada por
I muitas transformações qu ímicas concretas dessa
jue elas se tenham produzido esponta - um experimento realizado por Miller, em
rede e o bioqu ímico as chama, coletivamente, de
metabolismo celular.
Pois bem: o que é peculiar a essa din â mica
— .
¡ ieamente é demasiado pequena , e que é
«fnreci.so que haja alguma diretividade no
hrocesso. Segundo a reconstrução que es-
1953, como se vê na Fig. 11. A ideia de
Miller foi simples: colocar dentro de um
frasco de laborató rio uma atmosfera que
ioçamos, não se trata disso. Cada uma das imitasse a primitiva , tanto em composição
celular, em comparação com qualquer outro con- tapas descritas surge , inevitavelmente , quanto em radiações energéticas. Ele a pôs
junto de transforma ções moleculares nos proces- :òmo consequê ncia da anterior. Mesmo em prá tica , fazendo com que uma descar-

i sos naturais? É muito interessante: esse metabo-


lismo celular produz componentes e todos eles
••
gpioje em dia , se tomamos uma imitação da
R
Ip
ítmosfera primitiva e produzimos a agita-
ção energética adequada , produzem-se
Bjrmoléculas orgâ nicas de complexidade
ga el é trica atravessasse uma mescla de
amon íaco, metano, hidrogé nio e vapor
d’água . Os resultados das transformações
moleculares podem ser obtidos por meio
integram a rede de transformações que os pro-
1; duzem. Alguns formam uma fronteira, um limi-
gp ícompará vel à dos seres vivos atuais. Do da recirculação da água e aná lise das subs-
K ' niesmo modo, se concentrarmos suficien- tâ ncias ali dissolvidas. Para surpresa de
M ll '
'
I te para essa rede de transforma ções. Em termos toda a comunidade científica , Miller obte-
f temente uma massa gasosa de hidrogénio ,
-
r produzem se em seu interior reações ve uma produção abundante de molécu -
morfológicos, podemos considerar a estrutura que s% termonucleares, que dão origem a novos las como as tipicamente encontradas nos
possibilita essa clivagem no espaço como uma
.
^
í elementos atómicos que antes nã o esta - organismos celulares atuais, tais como os
membrana . No entanto, essa fronteira membra- Ujj. vam presentes. A histó ria que estamos es- aminoá cidos alanina e ácido aspá rtico e
Bffao outras moléculas orgâ nicas , como a uréia
m nosa não é um produto do metabolismo celular
tal como o tecido é o produto de um tear, porque
çando é o relato de sequências que ocor-
¡§ rem de modo inevitável, e alguém só se
f e o ácido succínico.

i
; â.

m
|f-
& 54 A Á RVORE DO CONHECIMENT O i ORGANIZAçãO DO SER VIVO 55

Organizaçã o e estrutura
if* exemplo) depende da integridade dos processos
que o tornam possível. Se interrompermos (em
Entende-se por organização as rela ções que devem ocor-
W i » algum ponto ) a rede metabólica celular, depois

m
rer entre os componentes de algo, para que seja possível

i reconhecê-lo como membro de uma classe específica . En


tende-se por estrutura de algo os componentes e relações
que constituem concretamente uma unidade particular e
- de algum tempo observaremos que nã o existe
mais nenhuma unidade a observar! A caracter ísti -
ca mais peculiar de um sistema autopoiético é
configuram sua organizaçã o. aj
Assim , por exemplo, numa descarga de banheiro a or- que ele se levanta por seus pró prios cordões, e
ia-
7
ganização do sistema de regulação do nível de água consis- se constitui como diferente do meio por sua pró-
te nas relações entre um aparelho capaz de detectá -lo e
7 pria dinâ mica, de tal maneira que ambas as coi-

outro mecanismo capaz cortar o fluxo de entrada do l íqui- ; -'-¡â


do. No banheiro de uma casa, essa espécie de artefato se sas são insepará veis.
configura por meio de um sistema misto de plástico e me- O que caracteriza o ser vivo é sua organização
tal , que consiste numa bóia e numa válvula de passagem.
Mas essa estrutura especifica poderia ser modificada , subs- autopoiética . Seres vivos diferentes se distinguem
tituindo-se o plástico por madeira , sem alterar o fato de que porque têm estruturas distintas, mas são iguais
ela continuaria sendo uma descarga.
em organização.

W I? !
uma rede de transformações dinâ micas, que pro- Autonomia e O reconhecimento de que aquilo que caracte-
duz seus próprios componentes e é a condição ^ autopoiese riza os seres vivos é sua organiza ção autopoiética ,
=5 de possibilidade de uma fronteira ; de outra parte permite relacionar uma grande quantidade de
3 vemos uma fronteira , que é a condição de possi- sm
m bilidade para a operação da rede de transforma-
Bp dados emp í ricos a respeito do funcionamento
celular e sua bioqu ímica. A noção de autopoiese,
ss ções que a produziu como uma unidade: portanto , nã o está em contradição com esse cor-
'i po de dados. Ao contrá rio, apóia-se neles e se
Dinâ mica
propõe , expl ícitamente , a interpretar esses dados
Fronteira
ú (metabolismo) ( membrana)
a partir de um ponto de vista específico, que des- '
taca o fato de que os seres vivos sã o unidades
-i
| r! autónomas .
É importante notar que nã o se trata de proces- Utilizamos a palavra autonomia em seu senti-
|I I|ji sos seq ü enciais, mas sim de dois aspectos de um m
11 ,
fenômeno unitá rio. Não é que primeiro haja a
fronteira , a seguir a dinâ mica , depois a fronteira
etc. Estamos falando de um tipo de fenômeno no
-m .. v
do corrente. Vale dizer, um sistema é aut ó nomo
se é capaz de especificar sua própria legalidade,
aquilo que lhe é pró prio. Não estamos propondo
que os seres vivos são os ú nicos entes autóno-
qual a possibilidade de distinguir algo do todo tH mos; certamente não o são. Porém, é evidente
í (alguma coisa que posso ver ao microscó pio, por I que uma das propriedades mais imediatas do ser

1JL
m
m
i
i
56
A Á RVORE DO CONHECIMENTO 4 ORGANIZAçãO DO SER VIVO 57

, investigadas como sistemas. Entretanto, o que lhes


vivo ésua autonomia. Propomos que o modo é peculiar é que sua organização é tal que seu
sistemas
o mecanismo que faz dos seres vivos único produto são eles mesmos. Donde se con-
autónomos, é a autopoiese, que os caracteriza
clui que não há separa ção entre produtor e pro-
1 como tal.
A indagaçã o sobre a autonomia do
ser vivo é
condição de
duto. O ser e o fazer de uma unidade autopoiética
são inseparáveis, e isso constitui seu modo espe-
' tão velha quanto a pergunta sobre a cífico de organização.
estar vivo. Só os biólogos contemporâ
neos se sen-
ão: como é Como toda organização, a autopoiética pode
tem incomodados diante da quest M T obtida por meio de muitas espécies
vivo? diversas
possível compreender a autonomia do ser
.

.
de componentes No entanto, devemos tomar
De nosso ponto de vista , porém , essa
pergunta
, que nos per- consciência de que no âmbito molecular de ori-
se transforma em um fio condutor gem dos seres vivos terrestres, apenas algumas
a autono-
mite perceber que para compreender espécies moleculares devem ter tido as caracte-
a organiza ção
1!
mia do ser vivo devemos entender
que o define como unidade. Perceber
os seres rísticas que permitiram a constituição de unida -
mos- des autopoiéticas, dando início à história estrutu -
vivos como unidades autónomas permite
S trar como sua autonomia - em geral
vista como ral à qual nós próprios pertencemos. Por exem -
ícita ao plo, foi necessá rio contar com moléculas capazes
algo misterioso e esquivo - se torna expl
de formar membranas suficientemente está veis e
unidades
indicar que aquilo que os define como
é a sua organização autopoiética , e que é nela plásticas para serem, por sua vez, barreiras efica-
1
i que eles, ao mesmo tempo, realizam
cam a si próprios.
Nossa abordagem, então, corresponde
e especifi-

a pro-
zes e de propriedades mutantes que permitissem
a difusão de moléculas e íons por longos perío
dos, em relação às velocidades moleculares. As
moléculas que formam as lâminas de mica, por
-
for-
ceder de modo científico: se não podemos
necer uma lista que caracterize o ser
vivo , por exemplo, formam barreiras de propriedades de
rgidas para permitir que elas par
-
que então não propor um sistema que , ao fun- masiadamente í
ticipem de unidades dinâmicas (células), em rá-
-
cionar, gere toda a sua fenomenol
ogía? A evi-

! dência de que uma unidade autopoi


exatamente essas características pode
que
ética tem
ser en-
sabemos
pidas e contínuas trocas moleculares com o meio.
Somente quando, na história da Terra, ocorre-
ram as condições para a formação de moléculas
ms 1
contrada olhando-se para tudo o
sobre metabolismo e estrutura celular
em sua orgâ nicas como as proteínas - cuja flexibilidade
e possibilidade de complexificação é praticamente
interdependência .
É claro que o fato de que os seres
vivos têm -
ilimitada , foi que aconteceram as circunstâncias
que tomaram possível a formação de unidades
I uma organização não é exclusivo deles, mas
comum a todas as coisas que podem
sim
ser autopoiéticas. Com efeito, podemos supor que

m 11
II
1 fw iS¿ If

58 SKR VIVO 59
A ARVORE DO CONHECIMENTO '
j -ííÍ A ORGANIZA çãO DO

As c élulas e suas membranas


A membrana celular desempenha um dos diversos espaços internos da célula. É
papel muito mais rico e diversificado do o que se pode ver nas figuras que acompa -
que uma simples linha de demarcaçã o es- nham este texto.
í pacial de um conjunto de transformações Essa arquitetura interior e a dinâmica
¡¿ qu ímicas, porque participa da cé lula tal
celular constituem, como já destacamos,
;s *í<
;Como os demais componentes. O interior faces de um mesmo fen ô meno de
"
da célula contém uma magnífica arquitetu - autoprodu ção. Assim, por exemplo, den-
[ Kj, ra composta de grandes blocos molecula- tro das cé lulas existem organelas especiali-
*
ti iBfries , através dos quais transitam múltiplas zadas como as mitocôndrias, em cujas pa -
; espécies orgâ nicas em contínua mudança. redes se situam , em seqiiências espaciais
£Íl£ precisas , enzimas que , na membrana
"M
tpDo ponto de vista operacional a membra-
na faz parte desse interior, o que é correto mitocondrial , se comportam como verda-
9I
c tanto para as membranas que limitam os deiras cadeias transportadoras de el étrons.
K


um MSI espaços celulares adjacentes ao meio exte- Esse processo constitui a base da respira -
ção celular.
1
'
rior, quanto para as que limitam cada um

Si
m
m
Ei

¥*SÍ
. -¿WÇ.
quando ocorreram, na história da Terra , todas as
condições suficientes , a formação dos sistemas
autopoiéticos se deu de forma inevitável.
Esse momento é o ponto que pode ser indica-
do como a origem da vida. Isso nã o quer dizer
que ele ocorreu num só instante e num ú nico
lugar, nem que possamos atribuir-lhe uma data .
Tudo nos faz pensar que, dadas as condições para
a origem dos sistemas vivos, estes se originaram
mm* muitas vezes, ou seja , muitas unidades autopoié-
ticas com muitas variantes estruturais surgiram em
111 muitos locais da Terra , ao longo de talvez muitos
milhões de anos.
i Hg. 12. Fotografia tirada ao O aparecimento de unidades autopoié ticas
microscópio eletró nico , mos- sobre a superf ície da Terra delimita um marco na
trando uni corte de uma célu -
Ii la de sanguessuga , na qual história do nosso sistema solar. É preciso que isso
||i aparecem membranas c com - seja bem compreendido. A forma çã o de uma uni-
ponentes intracelulares ( em dade determina sempre uma série de fen ômenos
aumento aproximado de
20.000 vezes). associados às características que a definem , o que

( u
ii li

?- A Á RVORE DO CONHECIMENTO ORGANIZAçãO DO SER VIVO 61

nos permite dizer que cada classe de unidades


especifica urna fenomenologia particular. Assim ,
.- :Sh as unidades autopoiéticas especificam a fenome-
nologia biológica como urna fenomenologia que
lhes é pró pria, e que tem características diferen-
tes da fenomenologia física. Isso se dá não por-
M que as unidades autopoiéticas violem nenhum
- -
aspecto da fenomenologia f ísica já que, por te-
rem componentes moleculares, devem satisfazer
1 às leis físicas mas porque os fenômenos que
1 geram , em seu funcionamento como unidades
.
autopoiéticas, dependem de sua organiza ção e
. .. .
de como esta se realiza, e não do caráter físico de
seus componentes. Estes apenas determinam seu

- espaço de existência.
Assim, se uma célula interage com uma molé-
cula X, incorporando-a a seus processos, o que
acontece como conseqiiência da interação não
a* está determinado pelas propriedades dessa mo-
iJ lécula, e sim pela maneira como ela é “vista ” ou
-
tomada pela célula, ao incorporá la à sua dinâ mi-
- i ca autopoiética. As mudanças que possam ocor-
rer nela, em conseqiiência dessa interação, serão
as determinadas por sua própria estrutura como
unidade celular. Portanto, na medida em que a
organização autopoiética determina a fenomeno-
logia biológica - ao configurar os seres vivos como
unidades autónomas será chamado de biológi-
co todo fenômeno que implique a autopoiese de
pelo menos um ser vivo.
10 2
, ¿
HISTORIA: REPRODUÇÃO
unidade
E HEREDITARIEDADE
S
Ê
• Ê
conhecer o conhecer
I
ética
1
experiência cotidiana
- — organização
L
estrutura

autopoiese J m
fenômeno do conhecer fenomenología
I biológica
explica ção
cientí fica
observador
I
9
Bill
açã o

dominios linguísticos
linguagem
consciência reflexiva
Bll 8B
$
ÉÈ 1
m
mSÊ S3

8 4
perturbações
fenômenos culturais
— acoplamento ontogenia
fenômenos sociais — - estrutural

unidades de terceira - - unidades de segunda ordem


ordem
clausura operacional
1
7 5
ill —
atos cognitivos
correlações internas 6 r
deriva
filogenia

história de _
natural interações
ampliação do
domínio de interações
comportamento — sistema conservação seleção
nervoso
da adaptação estrutural
plasticidade contabilidade lógica
estrutural determinação estrutural
representação /
solipsismo js - 14. Unia ilas primeiras di-
feôes de urn embrião de rato .
u

II
in ! ¡I ;
66 A Á RVORE DO CONHECIMENTO H ¡lóf üA, REPRODUçãO E HEREDITARIEDADE 67

1
!!

'1 Neste capítulo, falaremos de reprodução e here-


ditariedade. Duas razões o tornam necessá rio.
Uma delas é que nós, como seres vivos - e, como I Fenômenos históricos
veremos, como seres sociais -, temos uma histó- ¡Scla vez que, num sistema, um estado
ria: somos descendentes por reprodução não aírge como modificação de um estado
gevio, temos um fenômeno histórico.
apenas de nossos antepassados humanos, mas
| também de ancestrais muito diferentes, que re- f
trocedem no tempo mais de três bilhões de anos.
A outra razão é que, como organismos, somos
|! !
!i seres multicelulares e todas as nossas células são como um processo complexo de reordenação de
descendentes - por reprodução - da célula parti- elementos celulares, que resulta na determina-
. cular que se formou quando um óvulo se uniu ção de um plano de divisão. O que acontece nes-
m com um espermatozóide e nos deu origem. Por-
tanto, a reprodução está inserida em nossa histó-
I se processo? Em geral, o fenômeno da reprodu-
ção consiste em que a partir de uma unidade - e
9 ria como seres humanos e em rela ção com nos- por meio de um determinado processo - origina-
..
. sos componentes celulares individuais - o que , se outra da mesma classe. Ou seja : origina-se
curiosamente, faz de nós e de nossas células se- outra unidade, que um observador pode reco-
res da mesma idade ancestral . Além disso, do
sn nhecer como definida pela mesma organização
ponto de vista histórico o mesmo vale para todos que a original.
os seres vivos e todas as células contemporâ- f É evidente, pois, que para que haja reprodu -
neas: compartilhamos a mesma idade ancestral. ção têm que ocorrer duas condições básicas: a
Assim, para compreender os seres vivos em to- unidade original e o processo que a reproduz.
das as suas dimensões - e com isso entender a No caso dos seres vivos, a unidade original é
nós mesmos torna-se necessário entender os um vivente, uma unidade autopoiética. E o pro-
r mecanismos que fazem do ser vivo um ser histó-
:
cesso - que veremos adiante - tem de terminar
3'-
rico. Com essa finalidade, examinaremos primei- J
ji* ; ; com a formação de pelo menos outra unidade
ro o fenômeno da reprodução. autopoiética , distingu ível da que se considera
como a primeira .
O leitor atento terá percebido a esta altura que,
A biologia estudou o processo da reprodu ção a Reprodução: como ao ver assim o fenômeno da reprodu ção, estamos
partir de muitos pontos de vista e, em particular, ela acontece? afirmando que ele não é constitutivo do ser vivo,
no plano celular. Mostrou , há muito tempo, que e que portanto - e como já deveria ser evidente -
uma célula pode dar origem a outra por meio de não faz parte de sua organização. Estamos tão
uma divisão, e então se fala em divisão (ou mitose) acostumados a ver os seres vivos como uma lista
I
i
Hi I:
r

68 A Á RVORE DO
CONHECIMENTO i
H
ITóRIA, REPRODUçãO E HEREDITARIEDADE 69

reprodu çã o se torna complicada, e que conse-


1 Organiza çã o e historia
À dinâmica de qualquer sistema no pre- pelo homem, porque temos acesso a to-
q üé ncias esse lato traz para a historia dos seres
sente pode ser explicada mostrando xs vivos. Entretanto, acrescentar algo a urna diná-
relações entre suas partes e as regulari-
dos os detalhes de sua produção. Contu
do, a situação não é simples quando se
- mica estrutural é muito diferente de modificar as
dades de suas interações, de modo a fa- trata de seres vivos, porque sua génese
zer com que sua organiza ção se tome e história jamais nos são diretamente vi-
características essenciais de uma unidade, o que
evidente. Poré m , para que possamos síveis e só podem ser reconstru ídas de implica mudar a sua organização.
compreender isso de modo cabal, o que modo fragmentário.
! *
'

queremos nao c apenas vé-Io como urna


unidade funcionando em sua diná mica
-
intema, mas também em süa circunstan- os de gerar Para compreender o que acontece na reprodu-
cia, no entorno ou contexto com o qual
I seu funcionamento o conecta. Essa com - ção celular, vejamos várias situações que dão ori-
preensâo requer que se adote sempre um gem a unidades de uma mesma classe e procure-
certo distanciamento de observaçã o - mos, ao distingui-las, perceber o que é próprio
uma perspectiva que , no caso dos siste-
£ mas históricos, implica uma referência à da reprodu ção celular.
origem. Isso pode ser fácil , por exemplo,
nos casos atuais das máquinas projetadas
Ré plica: Falamos de ré plica ( ou , às vezes, de
produção) cada vez que temos um mecanismo
que, em seu funcionamento, pode gerar repeti -
de propriedades (e a considerar a reprodução uma damente unidades da mesma classe. Por exem-
delas), que isso pode parecer chocante à primei- plo, uma fá brica é um grande mecanismo produ-
ra vista. No entanto, o que estamos dizendo é tivo que, por meio da aplicação repetida de um
simples: a reprodução não pode ser parte da or mesmo procedimento, produz em série réplicas
ganização do ser vivo, porque para que algo se
- de unidades da mesma classe: tecidos, automó-
reproduza é necessá rio primeiramente que ele veis, pneumá ticos ( Fig. 15).
esteja constitu ído como uma unidade e tenha uma O mesmo ocorre com os componentes celu-
organização que o defina . Essa é a lógica simples lares. Isso pode ser visto com muita clareza na
que usamos no cotidiano. Dessa maneira, levan- produ ção de proteínas. Nela os ribossomos, os
i |i
do às ú ltimas conseqiiências essa lógica trivial, ácidos nucléicos mensageiros e de transferência ,
seremos obrigados a concluir que, se falarmos da e outras moléculas constituem em conjunto a
reproduçã o dos seres vivos, estamos implicando maquinaria produtiva - e as proteínas constituem
que eles devem poder existir sem se reproduzir. o produto.
Basta pensar nas mulas, para perceber isso. Pois O fundamental no fenômeno de ré plica está
bem , o que estamos discutindo neste capítulo é em que o mecanismo produtivo e o replicado
como a dinâ mica autopoié tica no processo da são sistemas operacionalmente diferentes: o me-
canismo produtor gera elementos independentes
70 A Á RVORE DO CONHECIMENTO jMforoRiA, REPRODUçãO E HEREDITARIEDADE 71

Fig. 15. Um caso de réplica. dele mesmo. É importante notar que, em conse-
q üé ncia de como ocorre o fenómeno da ré plica ,
as unidades produzidas são historicamente inde-
pendentes umas das outras. O que acontece a
qualquer delas em sua história individual nã o
afeta as que lhes sucedem na série de produ ção.
O que acontecer ao meu Toyota , depois que eu
o comprar, em nada afetará a fá brica Toyota , que
continuará produzindo imperturbavelmente os
seus carros. Em suma: as unidades produzidas
por ré plicas não constituem entre elas um siste-
ma histórico.

Cópia: Falamos de cópia cada vez que temos


uma unidade modelo e um procedimento de pro-
jeção para gerar outra que lhe é idê ntica . Por
exemplo, esta folha de papel, se passada por uma
máquina reprodutora produzirá uma cópia , como
se diz na linguagem cotidiana. A unidade mode-
lo é esta página , e o procedimento é o modo de
funcionar com proje çã o ó ptica da m áquina
reprodutora .
Agora podemos distinguir, nessa situação, dois
casos essencialmente diferentes. Se o mesmo
modelo é utilizado para fazer, de modo sucessi-
vo, muitas cópias, tem-se uma série de cópias
historicamente independentes umas das outras.
Por outro lado, se o resultado de uma có pia é
usado como modelo para fazer a seguinte, pro-
duz-se uma sé rie de unidades conectadas, por-
que o que acontece a cada uma delas durante
seu futuro individual , antes que sejam usadas
como modelo, determina as caracter ísticas da
có pia seguinte. Assim , se uma có pia desta página
72 A ÁRVORE DO CONHECIMENTO ÓRIA, REPRODUçãO E HEREDITARIEDADE 73
é por sua vez copiada pela mesma máquina , é
cem à mesma classe da original, isto é , tê m a
evidente que o original e as outras duas cópias
mesma organiza ção que ela . O mesmo não acon-
diferem ligeiramente entre si. Se repetirmos esse
tece com a fratura de outras unidades, como um
mesmo procedimento, é óbvio que depois de mui - rádio ou uma cédula de dinheiro. Nesses casos, a
tas cópias algu é m poderá notar a progressiva trans-
fratura da unidade original a destrói: deixa dois
forma ção delas, numa linhagem ou sucessão his-
fragmentos e não duas unidades da mesma clas-
tórica de unidades copiadas. Um uso criativo desse
fenômeno histórico é aquilo que, em arte, se co-
se que ela.
Para que na fratura de uma dada unidade ocor-
nhece como anamorfose (Fig. 16), que constitui
ra o fenômeno da reprodução, sua estrutura tem
um excelente exemplo de deriva histó rica .
de se organizar de uma maneira distribuída , não
compartimentalizada. Dessa maneira , o plano de
Reprodução: Falamos de reprodução quan-
fratura pode separar fragmentos com estruturas
do uma unidade sofre uma fratura que resulta
capazes de configurar de modo independente a
em duas unidades da mesma classe. Isso aconte-
organização original. O giz ou o cacho de uvas
ce, por exemplo, quando um pedaço de giz é
têm esse tipo de estrutura, e admitem numerosos
quebrado por pressão, dando origem a dois frag-
planos de fratura, porque os componentes que
mentos. Ou quando se parte em dois um cacho
configuram suas respectivas organizações se re-
de uvas.
petem de forma distribu ída e não compartimen-
As unidades que resultam dessas fraturas não
i - -: : tg. l ó. Um caso de cópia com talizada em toda a sua extensão (cristais de cál-
são idênticas à original nem entre si, mas perten-
Sbstituição de modelo. cio, no caso do giz, e uvas no cacho).
1
74 A Á RVORE DO CONHECIMENTO L-óRIA, REPRODUçãO E HEREDITARIEDADE 75

.S
Há muitos sistemas que preenchem esses re- Fig. 17. Ura caso de reprodu-

1 quisitos, e por isso o fenômeno da reprodução é


muito frequente na natureza. Exemplos: cristais,
MH ção por fratura.

madeiras, comunidades, estradas ( Fig. 17). De


outra parte , um rádio ou uma moeda não admi-
*3 tem reprodução, porque as relações que os defi-

mi nem não se repetem ao longo de suas extensões.


Há muitos sistemas dessa classe, como x ícaras,
pessoas, canetas-tinteiro, a declaração dos direi-
tos humanos... A incapacidade de admitir repro-
mm
c.- du ção é também um fenômeno muito freq üente
y no Universo. O interessante é que a reprodução
como fenômeno não se restringe a um determina-
do espaço nem a um grupo particular de sistemas.
'.7
O fundamental no processo reprodutivo (dife-
rentemente da réplica ou da cópia) é que tudo
ocorre na unidade como parte dela, e não há
separação entre os sistemas reprodutor e repro-
duzido. Tampouco se pode dizer que as unida-
des que resultam da reprodução preexistam, ou É1
estejam em formação, antes que aconteça a fratu-
I! ra reprodutiva: elas simplesmente não existem.
;
Além disso, embora as unidades resultantes da
fratura reprodutiva tenham a mesma organizaçã o
que a unidade original e tenham, portanto, as-
pectos estruturais semelhantes a essa organização,
. .1
têm também aspectos estruturais diferentes, tan-
to dela quanto entre si. Isso acontece não apenas
I
porque são menores, mas também porque suas
1 estruturas derivam diretamente da estrutura da
I unidade original no momento da reprodu ção, e
recebem, ao formar-se, componentes diferentes
dela , que não estão uniformemente distribu ídos
76 A Á RVORE

e que são função de sua história individual de


mudança estrutural.
DO CONHECIMENTO
^
JJSTóRIA, REPRODUçãO E HEREDITARIEDADE
;
Durante a mitose, ou divisão celular, todos os
processos que ocorrem ( b- j ) consistem em uma
77

Por causa dessas características , o fenômeno descompartimentalizaçào celular. Tal é facilmen-


da reprodu ção gera necessariamente unidades te percept ível na figura , em que se vê a dissolu -
historicamente conectadas, que por sua vez so- ção da membrana nuclear (com uma ré plica das
frem fraturas reprodutivas e formam , em conjun- f 18. Mitose ou reprodu ção
duas grandes hé lices duplas de DNA ) , e no des-
to, um sistema histórico. B fratura em uma cé lula locamento de cromossomos e outros componen-
£ial. O diagrama mostra as tes, o que possibilita um plano de fratura . Tudo
Sentes etapas de descom- isso acontece sem interrupção da
Bmentalização, que tomam autopoiese ce-
Em todo esse processo, o que acontece com as A reproduçã o celular feível a fratura reprodutiva. lular e como resultado dela. Assim , como parte
células? Se tomarmos qualquer uma delas no que da dinâ mica da célula , produzem-se modificações
se chama de estado de interfase, isto é, quando estruturais, como a forma ção de um fuso mitótico
(d-h ), que tornam possível uma clivagem da cé-
não está em processo de reprodução, e a fratu-
rarmos, não obteremos duas células. Durante a lula assim disposta.
interfase, uma célula é um sistema compartimen- Visto dessa maneira , o processo de reprodu-
talizado, ou seja , h á componentes seus que estão ção celular é simples: uma fratura em um plano,
segregados do resto ou se apresentam em quan- que gera duas unidades da mesma classe. Nas
tidades ú nicas, o que impossibilita um plano de células eucarióticas (com n ú cleo), mais recentes,
fratura reprodutiva. Isso acontece em particular o estabelecimento desse plano e a mecâ nica da
com os ácidos desoxirribonucléicos (DNA ), que fratura é um delicado e complexo mecanismo de
fazem parte dos cromossomos, e que na interfase coreografia molecular. No entanto, nas células
estão recolhidos ao n úcleo e separados do resto mais antigas (ou procarióticas) - que n ão tê m
da célula por uma membrana nuclear (Fig. 18 a). a mesma compartimentaliza çã o mostrada na

O~
k
A Á RVORE CONHECIMENTO
wm
78 DO

^ produtiva
K ó RL\ , REPRODUçãO E HEREDITARIEDADE
]ST

[ereditariedade Independentemente de como ela se gera , toda


79

]>•
ir
p> Hereditariedade
vez que ocorre uma série histórica acontece o
fenômeno hereditário . Isto é, encontramos o
Entende-se por hereditariedade a invariâ ncia trans- reaparecimento de configurações estruturais pró-
geracional de qualquer aspecto estrutural numa prias de um membro de uma série na série se-
linhagem de unidades historicamente conectadas. guinte. Isso se evidencia tanto na realiza ção da
organização própria à classe como em outras ca-
racter
ísticas individuais. Se pensarmos, mais uma
vez, no caso da série histórica de sucessivas có-
pias de papel feitas em má quina , teremos que,
Fig. 18 o processo é de fato mais simples. Em por mais que as primeiras cópias sejam diferen-
todo caso, é evidente que a reprodução celular tes das últimas, certas relações de preto e branco
ocorre como se discutiu acima, e não é uma ré- das letras permanecerão invariantes. Tal fato per-
r plica ou cópia de unidades. mite a leitura e possibilita dizer que uma é cópia
Entretanto, ao contrário dos exemplos de re- da outra. Precisamente no momento em que a
produção antes mencionados, na reprodu ção ce- cópia se torne tão difusa que não seja possível lê-
lular ocorre um fenômeno peculiar: é a própria la, essa linhagem histórica terá terminado.
dinâ mica autopoiética que torna efetiva a fratura
í 1-
Da mesma maneira , nos sistemas que se re-
num plano adequado. Não é necessá rio nenhum
produzem a hereditariedade acontece em cada
; agente ou força externa. Podemos imaginar que
nas primeiras unidades autopoiéticas isso não
instâ ncia reprodutiva como um fenômeno cons -
titutivo dela, ao produzir duas unidades da mes-
ocorreu assim, e que na verdade sua primeira
m
11 í;
reprodu ção foi uma fragmenta ção resultante de
choques com outros entes exteriores. Na rede
ma classe. Exatamente porque a reprodução ocor-
re quando surge um plano de fratura numa uni-
J'
histórica assim produzida, algumas variantes che- dade de estrutura distribu ída , haverá necessaria-
garam à fratura como resultado de sua própria mente uma certa permanência de configurações
dinâ mica interna , e dispuseram de um mecanis- estruturais de uma geração para outra.
mo de divisão que produziu uma linhagem ou Assim, como o resultado da fratura reproduti-
Kl sucessão histórica está vel . Estamos longe de sa-
ber como tudo isso aconteceu, e provavelmente
va é a separação de duas unidades com a mesma
organização - mas com estruturas diferentes da
essas origens estejam perdidas para sempre. Tal unidade original -, a fratura reprodutiva produz
circunstâ ncia , porém , não invalida o fato de que a variação estrutural. Ao mesmo tempo mantém
vf " '
a divisão celular é um caso particular de repro- constante a organização. O fenômeno da repro-
II dução que podemos, legítimamente, chamar de dução implica , necessariamente, a geração tanto
auto-reprodução. de semelhanças quanto de diferenças estruturais
1
80 A Á RVORE DO CONHECIMENTO TóRIA, REPRODUçãO E HEREDITARIEDADE 81
"filhos" e “ irmã
entre “ pais ” , os”. Chamamos de entre indivíduos de uma linhagem e, ao mesmo
hereditários aos aspectos da estrutura inicial da tempo, há aspectos estruturais que variam conti-
nova unidade que avaliamos como idê nticos aos nuamente e não permanecem constantes por mais
1 1 da unidade original. Aos aspectos da estrutura de uma ou duas gerações. Assim, por exemplo, o
inicial na nova unidade que julgamos diferentes modo de síntese das prote ínas com a participa -
da unidade original, chamamos de variação re- çã o do DNA permaneceu invariante em muitas
N produtiva . Em conseqviência , cada nova unida- linhagens, mas o tipo de proteínas sintetizadas
ill 1 de começa obrigatoriamente sua história indivi-
i dual com semelhan ças e diferenças estruturais em
mudou muito na história dessas linhagens.
O modo de distribuição da variâ ncia ou inva-
rela ção às suas antecessoras. Tais diferenças se- riâ ncia estrutural , ao longo de uma á rvore de
rão conservadas ou perdidas de acordo com as linhagens históricas , determina as diferentes

i
* circunstâ ncias de suas respectivas ontogenias ,
como veremos em detalhes adiante. Por enquan -
maneiras segundo as quais a hereditariedade se
h
to, o que nos interessa é ressaltar que o fenôme-
no da hereditariedade - e a produção de diferen-

1 /
ças estruturais nos descendentes - é próprio do
fenômeno da reprodução e, certamente, não é
m1 5 A idé ia de informa ção genética

menos vá lido na reprodução dos seres vivos. mi i tos componentes celulares (os DNAs ) de
grande estabilidade transgeracional. Se-
Na reprodu ção celular, há muitas inst â ncias gundo, porque dizer que o DNA conté m
3
nas quais é possível detectar com precisão as cir- o necessá rio para especificar um ser vivo
cunstâ ncias estruturais que determinam tanto a retira esses componentes ( parte da rede
autopoiética ) de sua inter-relação com
varia çã o quanto a conservaçã o da semelhança. todo o resto da rede. É a totalidade da
Assim, há alguns componentes que admitem pou - rede de interações que constitui e espe-
§ cas variações em seu modo de participa ção na cifica as características de uma determi-
nada célula , e não um de seus compo-
autopoiese, mas admitem muitas peculiaridades nentes. É claro que modificações nesses
na maneira como se realiza essa participação. Tais componentes - chamados genes tê m -
conseqiiê ncias dramá ticas para a estru -
¡I Á componentes participam de configurações estru -
tura de uma célula. O erro está em con -
I turais fundamentais, que se mantêm de gera ção fundir participação essencial com respon-
"
a geração ( do contrá rio, não haveria reprodu ção ) sabilidade ú nica . Com o mesmo argumen -
to, seria possível dizer que a constitui-
com apenas ligeiras variações.
I) Os mais conhecidos são os DNAs ( ácidos nu - l’
Com freqiiê ncia , ouvimos que os genes
contêm a “informação" que especifica um
ção política de um país determina a sua
história. Trata-se de um evidente absur-
cleicos) ou genes , cuja estrutura fundamental é ser vivo. Trata-se de um erro, por duas do: a constituição pol ítica é um compo-
replicada na reprodu ção com pouca variaçã o. Co-
t . razões fundamentais. Primeiro, porque nente essencial qualquer que seja a his-
confunde o fenômeno da hereditarieda- tória , mas não contém a “informação” que
mo resultado , encontram-se grandes invari â ncias de com o mecanismo de réplica de cer- especifica essa histó ria.

t
I
.
I

82 A Á RVORE DO CONHECIMENTO
I distribui de geração em geração, que percebe-
mos como sistemas genéticos (hereditá rios) dife-
l|
rentes. O moderno estudo da genética se con-
1 centrou especialmente na genética dos ácidos nu-
i cléicos. Contudo, há outros sistemas genéticos (he-
reditá rios) que apenas começamos a compreen-
der. Estes permaneceram ocultos sob o brilho da
genética desses ácidos. Um exemplo são os liga-
dos a outros compartimentos celulares, como as
mitocôndrias e as membranas.

.
:
10
unidade
A VIDA DOS METACELULARES
conhecer o conhecer 1 organiza ção estrutura

ética
experiência cotidiana L autopoiese J
fenômeno do conhecer fenomenologí a
biológica
explicação
científica
observador
!
9 ação
3
dominios linguí sticos fenômenos históricos
linguagem
consciência reflexiva
conservação — varia çã o

reprodução

8 4
perturbações
fenômenos culturais

fenômenos sociais — acoplamento


estrutural
ontogenia
unidades de terceira ir-
- - unidades de segunda orde
ordem
clausura operacional

7 5
atos cognitivos —
correla çõ es internas 6 deriva
r filogenia

história de
natural interações
ampliação do
domínio de interações
comportamento — sistema I
nervoso conservação seleção
da adaptação estrutural
plasticidade contabilidade lógica
estrutural determinação estrutural
representação /
solipsismo
KgFig. 19. Agua, óleo cie
|
lfi &Giuseppe Ardmboldu
h

86 A Á RVORE DO CONHECIMENTO VIDA nos Mi- i . u H r i \ RHS 87

A ontogenia é a história de mudanças estrutu-


I É evidente que essa situa ção será simétrica , se a
coplamento
i rais de uma unidade, sem que esta perca a sua
organização. Essa contínua modificaçã o estrutu-
ftrutural olharmos do ponto de vista de qualquer das duas
unidades. Isto é: para a célula da esquerda , a da
ral ocorre na unidade a cada momento, ou como direita é apenas mais uma fonte de intera ções, e
i uma alteração desencadeada por interações pro - como tal indistinguíveis daquelas que nós, como
venientes do meio onde ela se encontra ou como observadores, classificamos como provenientes
resultado de sua dinâ mica interna . A unidade do meio “ inerte”. De modo inverso, para a célula
,
-
celular classifica e vê a cada instante suas contí da direita a outra é uma fonte a mais de interações,
1 nuas interações com o meio segundo a sua estru-
tura. Esta, por sua vez, está em constante mu-
que perceberá segundo sua própria estrutura .
:
• . Isso significa que duas (ou mais) unidades
dança devido à sua dinâmica interna. O resulta- autopoiéticas podem estar acopladas em sua on-
do geral é que a transformação ontogenética de togenia , quando suas interações adquirem um
í uma unidade não cessa até que ela se desintegre. cará ter recorrente ou muito estável. Toda onto-
Para abreviar toda essa situa ção , quando nos genia ocorre em um meio que nós, como obser-
referirmos a unidades autopoiéticas usaremos o
I 1 diagrama:
vadores, podemos descrever como tendo uma
estrutura particular, tal como radiação, velocida-
de, densidade etc. Dado que também descreve-
mos a unidade autopoiética como tendo uma
I estrutura particular, ficará claro que as interações
- se forem recorrentes entre unidade e meio -
: constituirão perturba ções recíprocas. Nessas in-
||
tera ções, a estrutura do meio apenas desenca-
1 deia as modifica ções estruturais das unidades
Mas o que acontece, quando não considera - autopoiéticas (não as determina nem as informa).
'
mos a ontogenia de uma unidade e sim a de duas A recíproca é verdadeira em relação ao meio. O
ou mais delas, vizinhas em seu meio de intera- resultado será uma história de mudanças estrutu-
ções? Podemos abreviar essa circunstâ ncia do rais mútuas e concordantes, até que a unidade
seguinte modo: e o meio se desintegrem: haverá acoplamento
estrutural.
Entre todas as interações possíveis, podemos
encontrar algumas que são particularmente re-
correntes ou repetitivas. Por exemplo, se obser-
varmos a membrana de uma célula , veremos que
há um constante e ativo transporte de certos íons
I , ¡I
88 A Á RVORE DO CONHECIMENTO
íiyiDA DOS METACELULARES 89

(como o sódio ou o cálcio) através dela, de tai I

maneira que, na presença desses ions, a célula


reage incorporándoos à sua rede metabólica. Esse & & -í
transporte iônico ativo acontece de forma muito
regular, e um observador poderá dizer que o aco-
plamento estrutural das células em seu meio per-

t
í
mite as interações recorrentes delas com os ions
nele contidos. O acoplamento estrutural das cé -
t i t 1
lulas permite que essas interações ocorram so-
1 mente em certos ions, pois se outros ions (como
II césio ou litio, por exemplo) forem introduzidos
1. 20. Ciclo da vida dos
no meio, as mudanças estruturais que eles de- |ysaruni , com formação de
sencadearão na célula não serão conciliáveis com femódio por fusão celular.
a realização da autopoiese dessa célula.
Mas por que, em cada tipo celular, a autopoiese '
.T-
: se dá com a participação de uma certa classe de
I | interações regulares e recorrentes, e não de ou - em estreita junção com outras células, como meio
i
tras? Essa pergunta só tem resposta na filogenia de realização de sua autopoiese. Tais sistemas são
¡Í
ou história da estirpe celular correspondente e é:
o tipo de acoplamento estrutural atual de cada
m o resultado da deriva natural de linhagens nas
quais se manteve essa junção.
célula é o estado presente da história de transfor- Um grupo de animais unicelulares, chamados
i;
mações estruturais da filogenia a que ela perten- U
" mixomicetos, representa uma excelente fonte de
ce. Ou seja: é um momento na deriva natural exemplos que mostram com clareza esse proces-
:
t dessa linhagem , que resulta da contínua conser
vação do acoplamento estrutural de cada célula
- so. Assim, nos Physamm, um esporo germina e
dá origem a uma célula (ver Fig. 20). Se o am-
:: no meio em que ele se realiza. Assim , no presen- biente é úmido, a ontogenia dessa célula resulta
.
te da deriva celular natural do exemplo acima , as no crescimento de um flagelo e na capacidade
m membranas funcionam transportando ions de de movimento. Se o ambiente é mais seco, a on-
sódio e cálcio e não outros. togenia resulta em células do tipo amebóide. O
O acoplamento estrutural com o meio como acoplamento estrutural entre essas células leva a
condição de existência, abrange todas as dimen- uma junção tão íntima que elas acabam se fun-
sões das interações celulares e, portanto, também dindo. Forma-se então um plasmódio, que por
as que têm a ver com outras células. As células m sua vez leva à formação de um Corpo frutífero
dos sistemas multicelulares normalmente existem macroscópico que produz esporos. (Note-se que
I
!l i 1
90 A Á RVORE DO CONHECIMENTO tVlDA DOS METACELUIARES 91
no desenho a parte de cima corresponde a um
logia das células que as integram. Essa unidade
grande aumento no microscópio; a de baixo re-
de segunda ordem, ou metacelular, terá um aco-
fere-se a um aumento muito menor).
plamento estrutural e uma ontogenia adequados
Nesses eucariontes filogeneticamente primiti-
à sua estrutura como unidade composta. Em par-
vos, o agregamento celular estreito culmina na
ticular, como se vê no exemplo recém-descrito ,
construção de uma nova unidade. Forma-se en-
os sistemas metacelulares terão um domínio de
tão o corpo frutífero, como resultado da fusã o
ontogenia macroscópico, e não microscópico co-
celular. Esse corpo frutífero constitui de fato uma
mo o de suas células.
unidade metacelular, cuja existência é historica-
Um exemplo mais complexo é o de outro
mente complementada pelas células que lhe dão
mixomiceto, o Dycostelium (Fig. 21). Nesse gru-
origem na realização do ciclo vital da unidade
po, quando o meio tem certas características mui-
orgâ nica a que pertence (e que é definida por
to especiais, os indivíduos amebóides são capa-
esse ciclo vital). Nesse ponto, é preciso prestar
Fig. 21. Ciclo de vida zes de se agregar para formar um corpo frutífero
atenção: a formação de unidades metacelulares
Dycostelium (fungo de limo), como o do exemplo anterior, porém sem fusão
capazes de dar origem a linhagens - como resul- com corpo frutífero formado
por agrupamento das células
celular. No entanto, aqui também encontramos,
tado de sua reprodu ção no plano celular - pro-
duz uma fenomenolog ía diferente da fenomeno-
que surgem da reproduçã o de J.T. Bonner, Proc. Nati. na unidade de segunda ordem , uma clara diver-
uma célula -esporo fundadora. iad . Sei. USA 45: 379, 1959. sificação dos tipos celulares. Assim, as células da
Pr
ft!
! ;
92 A Á RVORE DO CONHECIMENTO
mm
WDA DOS MHTACELULARES
93
: ponta serão capazes de gerar esporos, enquanto Em outras palavras, a vida de um indivíduo mul-
'
! as da base não o são, e se enchem de vacúolos e ticelular como unidade transcorre no operar de
paredes, o que proporciona um apoio mecâ nico I seus componentes, mas não está determinada
r '

a todo o sistema metacelular. Aqui percebemos pelas propriedades destes. Entretanto, cada um
que no dinamismo dessa íntima junção celular, desses indivíduos pluricelulares é o resultado da
i, como parte de um ciclo de vida , as mudanças divisão e da segrega ção de uma linhagem de cé-
1 estruturais experimentadas em cada célula - em lulas que se originam no momento da fecunda-
ii sua história de interações com outras células -
são necessariamente complementares entre si e 1 ção de uma ú nica célula - ou zigoto -, que é
produzida por alguns órgãos ou por partes do
limitadas por sua participação na constituição da organismo multicelular. Se não houver geração
unidade metacelular que integram. Em conse- de novos indivíduos, não haverá continuidade da
qiiência, as modificações estruturais ontogenéticas linhagem. E, para que haja novos indivíduos, é
de cada célula são necessariamente diferentes - preciso que sua formação comece a partir de uma
:i . e dependem de como elas participam da consti- E* célula. É tão simples assim: é a lógica de sua cons-
tuição da referida unidade e do futuro de suas tituição que exige que cada organismo metacelu-
interações e relações de vizinhança. lar seja parte de um ciclo no qual há uma etapa
5
unicelular necessá ria.
Hf, I Contudo, é na fase unicelular de um organis-
Insistamos: a íntima junção entre as células que Ciclos de vida i!
mo multicelular, durante a reprodução, que acon-
II —
descendem de uma ú nica célula e que resulta tecem as variações geracionais. Portanto, não há
numa unidade metacelular - é uma condição in- diferença no modo de estabelecimento das linha-
teiramente consistente com a continuação da gens dos seres vivos multicelulares e unicelulares.
autopoiese dessas células. Mas certamente não é Em outros termos, o ciclo de vida de um metace-
imprescindível, na medida em que na filogenia lular constitui uma unidade na qual a ontogenia
dos seres vivos muitos permaneceram como do organismo se dá em sua transformação de
unicelulares. Nas linhagens em que se estabe- unicelular a multicelular até a reprodução. Mas a
lece um agregamento celular que resulta num reprodução e as variações reprodutivas aconte-
metacelular, as conseq úências para as respecti- §: •
cem passando pela etapa unicelular.
vas histórias de transformações estruturais são É preciso entender que todos os seres vivos
profundas. Vejamos mais de perto essa situação. :
multicelulares conhecidos são variações elabo-
É evidente que a ontogenia de um metacelular radas sobre o mesmo tema - a organização e a
será determinada pelo domínio de interações que
i filogenia da célula . Cada indivíduo multicelular
ele especifica como unidade total , e não pelas in- representa um momento elaborado da ontoge-
terações individuais de suas células componentes. ii nia de uma linhagem , cujas varia ções continuam
I
94 A Á RVORE DO CONHECIMENTO I toA DOS METACELULARES 95
v;
sendo celulares. Nesse sentido, o aparecimento se enriquecem com os efeitos combinatórios das
da multicelularidade não introduz, basicamente, ¡
alternativas estruturais de um grupo de seres vi-
nada de novo. Sua grande novidade consiste em vos. Esse efeito de aumentar a variabilidade -
que torna possível muitas classes diferentes de
i indivíduos, ao possibilitar muitas linhagens di-
I que por sua vez torna possível a deriva filogené-
tica , como veremos no próximo capítulo -, expli-
versas como distintos modos de conserva ção do ca por que a sexualidade é praticamente univer-
acoplamento estrutural ontogénico com o meio. sal entre os seres vivos, por facilitar a multiplica-
A riqueza e a variedade dos seres vivos sobre a ção das linhagens.
:
f Terra se devem ao aparecimento dessa variante
ou desvio multicelular das linhagens celulares que
continuam até hoje , na qual nós mesmos estamos
mpo de Uma forma elegante de ver esse fenômeno vital
I incluídos. I insformações dos metacelulares e seus ciclos de vida, é compa-
I Notemos, porém, que a reprodução sexuada
iM
' Q raro tempo que eles levam para cobrir um ciclo
de organismos multicelulares não faz exceção à vital completo de acordo com o seu tamanho. A
caracterização fundamental de reprodução que í
§
figura 22-a, por exemplo, mostra um diagrama
vimos no capítulo anterior. Com efeito, a repro-
do mesmo ciclo que discutimos antes - o de um

r
r dução sexuada requer que uma das células do
organismo multicelular adquira uma dinâ mica
mixomiceto. Coloca num eixo o tempo que cada
etapa leva para se completar e em outro o tama-
operacional independente (como o espermato- nho atingido. Assim, a formação de um corpo
zóide). A seguir, ela deve fundir-se com outra :]
frutífero de 1 cm demora mais ou menos um dia.
célula de outro organismo da mesma classe para í O esporo, que mede cerca de 10 milionésimos
formar o zigoto, que constitui a fase unicelular de metro, forma-se em aproximadamente um
desse ser vivo. Há alguns organismos multicelu - I minuto.
lares que podem, além disso - ou exclusivamen- $ Na figura 22-b observa-se a mesma história ,
te - reproduzir-se por simples fratura . Quando
desta vez em relação à rã. O zigoto, que dá ori-
isso acontece, a unidade de varia ção na linha- gem a um adulto, forma-se em mais ou menos
gem não é celular: é constituída por um organismo.
um minuto, enquanto que um adulto formado
As consequências da reprodu ção sexual resi- leva quase um ano para crescer vá rios centíme-
I dem na rica recombinação estrutural que dela
tros. O mesmo é válido para a maior árvore do
resulta. Por um lado, isso permite o entrecruza- mundo - a sequoia -, que alcança 100 metros de
mento de linhagens reprodutivas. Por outro, per- altura com um tempo de formação de mil anos
mite um aumento muito grande nas variações (Fig. 22-c), ou para o maior animal do mundo -
: estruturais possíveis em cada instâ ncia reproduti- d J.T. Bonner, Size and
Princeton University a baleia azul -, que atinge até 40 metros em 10
va. Dessa maneira , a genética e a hereditariedade anos (Fig. 22-d).
. ffiss , 1965.

T
'

V
-
IT : .!
96
A ARVORE DO CONHECIMENTO DOS METACELULARES 97
a. c.

'

m
i.*

b. cl .
m
m
m
v
nil

ajt
i'

%
m
4 .
' Fig. 22. Exemplos das rela ções
entre o tamanho alcançado e
o tempo necessá rio para
3
!
i alean çá-lo, nas diferentes eta-
pas dos ciclos de vida de qua-
HU
f,
tro organismos.
Hl
II
,
m
'
98 A Á RVORE CONHECIMENTO
^ yiDA nos METACELULARES
DO •
99
!

I
1
i i
Independentemente do tamanho e do aspecto
externo, em todos esses casos as etapas são sem -
pre as mesmas: a partir de uma célula inicial , o
etapa reprodutiva seguinte, com a forma ção de
um novo zigoto. Dessa maneira , o ciclo geracional
é uma unidade fundamental que se transforma
processo de divisão e diferenciação celular gera no tempo. Urna forma de tornar isso evidente é
um indiv íduo de segunda ordem pelo acoplamen - pôr, num gráfico, a relação entre tempo de re-
i
to entre as cé lulas resultantes dessas divisões produ ção e tamanho (Fig. 23 ). Uma bactéria que
celulares. O indivíduo assim formado tem uma Eig. ¿í . Tempo de transforma - não está acoplada a outras tem uma reprodu ção
ontogenia de extensão variada , que conduz à Çào em uni e metacelulares.
muito rá pida e, portanto, seu ritmo de transfor -
mações é igualmente acelerado. Um efeito ne-
4 cessá rio da formação de indivíduos de segunda
1 ordem por agrega çã o celular é a necessidade de

Ia
tempo para o crescimento e a diferenciação das
células. Portanto, a freqiiência de gerações será

I \
algae • beech
• • • balsam whale
muito menor.
Essa visã o torna claro para nós que há uma
•• •
_ rhinoceros elephant
elk bear » human grande semelhan ça entre os metacelulares, tal
como há entre as células. Apesar de sua assom-
brosa diversidade aparente, todos eles conservam
large oyster
• a reprodução por meio de uma etapa unicelular
T\•
mouse 4 * ü rd
snail chameleon como caracter ística central de sua identidade como
sistemas biológicos. O fato de haver esse elemento
comum entre a organização de todos os organis-
i- mos não interfere na riqueza de sua diversidade,
já que esta ocorre na varia ção estrutural . Per ou-
tro lado, ela nos permite perceber que toda essa
• paramecium
variação acontece em torno de um tipo funda-
dillinium • ' »• .
• V >

i tetrahymena •• taylfra
-
'•
'Vw
^ mental , o que resulta em modos diferentes de

spirochete .
dimensionar universos de interação por parte de

1 •.
E coh

aureus
diferentes unidades com a mesma organiza ção.
Isto é: toda varia çã o ontogénica resulta em uma
Day i V\Wk i Month i Year to Years forma diferente de ser no mundo, porque é a
estrutura da unidade que determina como ela
interage com o meio e que mundo configura.
p W 100 A Á RVORE DO
CONHECIMENTO DOS METACELULARES 101

Metacelularidade e sistema nervoso autopoiéticos de segunda ordem são também sis-


I. -
Neste livro, sustentamos que não é possí todas são parte do organismo a cuja legali- temas autopoiéticos de primeira ordem? O corpo
-
vel entender como funciona o sistema ner- dade devem ajustar se. Perder de vista
as
voso, e portanto a biologia do conhecer, ra ízes orgâ nicas do sistema nervoso repre
frut ífero de um mixomiceto é uma unidade
sem compreender onde funciona o sistema senta uma das maiores fontes de confusã
- autopoiética? E a baleia?
II nervoso. A diferenciação celular própria dos no que se refere ao seu modo efetivo de
metacelulares, com e sem sistema nervoso, funcionar. Este será o tema de um dos ca
o
Estas não são perguntas fá ceis. Não temos cla-
¡I tem uma lógica comum , da qual o tecido pítulos seguintes,
- reza sobre como descrever as relações entre com-
í nervoso não escapa. Na baleia azul há bi- ponentes de um organismo, de modo a que sua
lhões de células muito diferentes, mas to- organiza çã o se revele como uma autopoiese
I das elas estão inseridas numa legalidade de
i
t acoplamento recíproco, que torna possível
a unidade de segunda ordem que é essa
baleia . De modo semelhante, o sistema
molecular como ocorre na célula , circunstância
que conhecemos com muitos detalhes. No caso
dos metacelulares, temos hoje em dia um conhe -
nervoso conté m milhões de células, mas
cimento muito menos preciso dos processos
moleculares que os constituiriam como unidades
II autopoiéticas comparáveis às células.
Falamos de metacelulares para nos referirmos a A organização dos Para as finalidades deste livro, vamos deixar
toda unidade em cuja estrutura é possível distin- metacelulares em aberto a questão de se os metacelulares são
guir agregados celulares intimamente acoplados. ou não sistemas autopoiéticos de primeira ordem.
A metacelularidade apareceu em todos os reinos O que podemos dizer é que eles tê m uma
(as grandes divisões dos seres vivos): procariontes,
I‘ clausura operacional em sua organização: sua
eucariontes , animais, plantas e fungos. É uma identidade está especificada por uma rede de
possibilidade estrutural desde o início da história processos dinâ micos, cujos efeitos não saem des-
mais precoce dos seres vivos. £Q sa rede. Porém, quanto à forma explícita de tal
Entretanto, o que é comum a todos os meta- organização, não diremos mais nada . Essa atitu -
celulares dos cinco reinos é que eles incluem de não constitui uma limitação de nossos propó-
células como componentes de sua estrutura . Por sitos no momento: como já dissemos, qualquer
essa razão, diremos que os metacelulares são sis- que seja a organização dos metacelulares, eles
temas autopoiéticos de segunda ordem. Cabe en- são compostos por sistemas autopoiéticos de pri-
tão a pergunta: qual é a organização dos metace-
meira ordem , e formam linhagens por meio da
lulares? Já que as células componentes podem reprodu ção no plano celular. Trata-se de duas
estar relacionadas de muitos modos diversos, é
condições suficientes para assegurarmos que tudo
evidente que os metacelulares admitem distintos o que acontece neles - na qualidade de unidades
tipos de organização, como organismos, colónias
e sociedades. Contudo, seriam alguns metacelula-
aut ó nomas - ocorre com a conserva çã o da
CQ L. Margulis, Five Kingdoms, autopoiese das células componentes, bem como
res unidades autopoiéticas? Ou seja, os sistemas Freeman , São Francisco, 1982. com a manutenção de sua própria organização.
I
102 A Á RVORE DO CONHECIMENTO|
11
f! f Simbiose e metacelularidade
Il i i!
O que dissemos neste capítulo pode ser
resumido assinalando que se duas unida -
as organelas de uma célula (isto é, as mito-
có ndrias, os cloroplastos e seu n úcleo, por
I- des autopoiéticas estabelecem relações re- exemplo) parecem ter sido ancestralmente
i

i correntes, como se vê no diagrama abaixo, procariontes de vida livre.
Mas é a alternativa (b) do diagrama que
mais nos interessa neste capítulo: a recor-
rência de acoplamentos nos quais as célu-
i; las participantes conservam seus limites
individuais, ao mesmo tempo em que esta-
belecem , por meio desse acoplamento, uma
nova coerência especial, que distinguimos
essas recorrê ncias podem derivar, em prin- como unidade metacelular e que vemos
I1 '
cípio, em duas direções: como sua forma.

li
l ri
I
o=o
Uma direção (a) leva à imbricação das
fronteiras de ambas as unidades, e essa si-
tuação conduz ao que correntemente se
conhece como simbiose. A simbiose pare-
ce ter sido muito importante na transição
dos sistemas autopoiéticos (sem comparti-
! | mentos internos ou procariontes) para cé-
lulas internamente compartimentalizadas ou
eucariontes (ver Fig. 14). Com efeito, todas

Em conseqiiê ncia , tudo o que diremos a seguir


se aplica tanto aos sistemas autopoié ticos de pri-
meira ordem quanto aos de segunda ordem . Não
faremos distin ção entre eles, a menos que isso
seja estritamente necessário.
£Q L. Margulis, Symbiosis in
Cell Evolution. Freeman , São
Francisco, 1980.

' i
K --

.
I\
,s si
B
i '] ' A* ! '
S-

m i; ;

10 2 i A DERIVA NATURAL
unidade
- Ü * DOS SERES VIVOS .>
1’

conhecer o conhecer 1 organização estrutura y-f ;

i
experiência cotidiana LautopoieseJ
ética W '

fenômeno do conhecer fenomenologia


r
. I
biológica
explica çã o I B
!b cientifica
observador
i
w
9 a çã o
3 i;
a
l i; dominios linguísticos
fenômenos históricos
. linguagem
Li
I consciência reflexiva
conserva çã o — variação
1 H çã- oI
reprodu

í
Pj
i; ;

I m
I
li m
8 4 I

II perturbações
fenómenos culturais

|— acoplamento
fenómenos sociais
—estrutural ontogenia
— mm
! ti
' unidades de terceira
ordem
L unidades de segunda ordem
W
clausura operacional

7 5
atos cognitivos —
Ss
correlações internas 6 deriva

r
stória de
ampliação do
domínio de interações
comportamento — sistema
nervoso
nr
conserva çã o
da adaptação
1
""'T
seleção
estrutural n
plasticidade contabilidade lógica
estrutural i
determinação estrutural
i
representação / ?ír> iranfid ¿ ’

solipsismo
I

Hg. 24. Charles Darwin .


1
I

106 A ÁRVORE DO CONHECIMENTO IERIVA NATURAL DOS SERES VIVOS 107

Nos três capítulos anteriores, formamos uma ¡déia


de três aspectos fundamentais dos seres vivos.
Ü : históricos de transforma ção estrutural não pode
haver entendimento do fenômeno do conhecer.
Em primeiro lugar, entendemos como eles se Na realidade, a chave da compreensão da ori-
constituem como unidades, como sua unidade gem da evolução repousa sobre algo que já nota-
fica definida pela organização autopoiética que mos nos capítulos anteriores: a associação ine-
i: lhe é peculiar. Em segundo lugar, explicamos de i rente que há entre diferenças e semelhanças em
: que maneira essa identidade autopoiética pode cada etapa reprodutiva, a conserva ção da organi-
H
adquirir complexidade reprodutiva , e assim ge- zação e a mudança estrutural. Porque há seme-
rar uma rede histórica de linhagens produzidas lhanças, existe a possibilidade de uma série his-
pela reprodução seqüencial de unidades. Por úl-
tórica ou linhagem ininterrupta. Porque há dife-
timo, vimos de que maneira os organismos celu-
renças estruturais, existe a possibilidade de varia-
' lares - como nós próprios - nascem do acopla- ções históricas nessas linhagens. No entanto, para
mento entre células descendentes de uma ú nica.
sermos mais precisos, por que se produzem e se
Vimos ainda que todos os organismos, como estabelecem certas linhagens e não outras? Por
unidades metacelulares intercaladas em ciclos que, quando olhamos em torno, nos parece que
Vi ! geracionais que sempre passam pelo estado
o peixe é tão naturalmente aquá tico e o cavalo é
unicelular, não são mais do que variações funda- tão adequado à planície? Para responder a essas
mentais do mesmo tema.
perguntas, precisamos primeiro examinar mais de
li Tudo isso resulta em que há ontogenias de perto e mais expl ícitamente como ocorrem as
seres vivos que são capazes de se reproduzir e interações entre os seres vivos e o ambiente que
filogenias de diferentes linhagens reprodutivas que i os rodeia.
se entretecem em uma gigantesca rede histórica
i . ¡I
que, por sua vez, representa uma assombrosa va- m
riação. Podemos constatar isso no mundo orgâ-
gDeterminismo e A história das mudanças estruturais de um dado
nico que nos rodeia, composto de plantas, ani- Kacoplamento ser vivo é sua ontogenia. Nessa história todo ser
! ]! mais, fungos e bactérias, bem como nas diferen- lestrutural vivo começa com uma estrutura inicial , que
ças que observamos entre nós, como seres hu-
condiciona o curso de suas interações e delimita
ll III manos, e outros seres vivos. Essa grande rede de as modificações estruturais que estas desenca-
transformações históricas dos seres vivos é a tra- deiam nele. Ao mesmo tempo, o ser vivo nasce
ma de sua existência como seres históricos. Nes- num determinado lugar, num meio que constitui
te capítulo, retomaremos vários dos temas dos
o entorno no qual ele se realiza e em que ele
anteriores, para compreender essa evolu ção interage , meio esse que também vemos como
orgâ nica de maneira global e geral, já que sem dotado de uma dinâ mica estrutural própria , ope -
uma compreensão adequada dos mecanismos racionalmente distinta daquela do ser vivo. Isso

m
108 A Á RVORE DO CONHECIMENTO IéRIVA NATURAL DOS SERES VIVOS 109

é crucial . Como observadores, distinguimos a tratar com unidades estruturalmente determina -


unidade que é o ser vivo de seu pano de fundo, das. Isto é: só podemos lidar com sistemas nos
e o caracterizamos com uma determinada orga- quais todas as modifica ções estão determinadas
nização. Com isso, optamos por distinguir duas por sua estrutura - seja ela qual for e nos quais
estruturas, que serão consideradas operacional- essas modificações estruturais ocorram como
mente independentes entre si - o ser vivo e o resultado de sua própria dinâ mica, ou sejam de-
-
meio e entre as quais ocorre uma congruência sencadeadas por suas interações.
estrutural necessária (caso contrário, a unidade Com efeito, em nossa vida cotidiana atuamos
desaparece ). Nessa congruência estrutural, uma como se tudo o que encontramos fossem unida-
perturbação do meio não contém em si uma des estruturalmente determinadas. O automóvel,
especificação de seus efeitos sobre o ser vivo. o gravador, a máquina de costura ou o computa-
Este, por meio de sua estrutura , é que determina dor, são sistemas com os quais lidamos como se
quais as mudanças que ocorrerão em resposta . tivessem uma determinação estrutural. Se assim
Essa interação não é instrutiva , porque não de- não fosse, como explicar que, quando surge um
termina quais serão seus efeitos. Por isso, usa- defeito tentamos modificar-lhes a estrutura e não
mos a expressão desencadear um efeito, e com outra coisa? Se, quando pisamos no acelerador
ela queremos dizer que as mudanças que resul- do carro, descobrimos que ele não avança , ne-
tam da interação entre o ser vivo e o meio são nhum de nós imagina que algo está errado com
desencadeadas pelo agente perturbador e deter- o pé que pisa. Supomos que o problema está
minadas pela estrutura do sistema perturbado. O no acoplamento entre o acelerador e o sistema
mesmo vale para o meio ambiente: o ser vivo é de injeção de combustível, ou seja, na estrutura
uma fonte de perturbações, e não de instruções. do veículo. Assim, os defeitos das máquinas cons-
Pode ser que o leitor, a esta altura, esteja pen- tru ídas pelo homem são mais reveladores de seu
sando que tudo isso parece muito complicado e efetivo funcionamento do que as descrições que
que, além do mais, é próprio apenas dos seres deles fazemos quando não acontecem. Na au-
vivos. Exatamente como no caso da reprodução, sência de falhas de funcionamento, abreviamos
trata-se de um fenômeno absolutamente corren- nossa descrição dizendo que demos “ instruções”
te, cotidiano. Assim, não percebê-lo em toda a sua ao computador para que ele nos dê o saldo de
obviedade é uma fonte de complicações. Dessa nossa conta corrente.
maneira , vamos nos deter mais um pouco no exa - Essa atitude cotidiana (que apenas se toma mais
me daquilo que ocorre toda vez que distingui- sistemá tica e explícita na ciência , com a aplica-
mos uma unidade e o meio no qual ela interage. ção rigorosa do critério de validação das afirma-
Na verdade, a chave para a compreensão de ções científicas) não é adequada somente aos sis-
tudo isso é simples: como cientistas, só podemos temas artificiais , mas també m aos seres vivos e

Ü
;

; 110 A Á RVORE DO CONHECIMENTO IpERIVA NATURAL DOS SERES VlVOS 111

íamos ao
sociais. Se assim não fosse , jamais ir seres humanos. Mas, como é bem sabido, as
¡ i
médico quando nos sentíssemos mal, nem mu - mesmas balas são meras perturbações para a es-
daríamos a administração de uma empresa que trutura dos vampiros, que precisam de estacas de
não estivesse funcionando a contento. Nada dis- l§25. A corneia, como toda madeira no coração para sofrer uma alteração
so contradiz a possibilidade de que optemos por j Hfclade, tem seus quatro do- destrutiva. Ou, ainda , é óbvio que um choque
não explicar muitos fenômenos de nossa expe- ^
nHKtjínios: a) de mudanças de
po; b) de mudanças des- grave contra um poste é uma interação destrutiva
para uma motocicleta, mas é uma simples pertur-
riência humana. Entretanto, se decidimos propor ffijyas; c) de perturba ções;
i: uma explicação científica, teremos de considerar
as unidades que estudamos como estruturalmen-
rde interações destrutivas.
.
bação para um tanque etc. (Hg. 25).

te determinadas.
Tudo isso se torna expl ícito pela distinção de
quatro domínios (ou â mbitos, ou classes) espe-
cificados pela estrutura de uma unidade específica:

a) Domínio das mudanças de estado: isto é, as


I : mudanças estruturais que uma unidade pode : $
sofrer sem que mude a sua organização, ou
seja , mantendo a sua identidade de classe;
.!
,
b) Domínio das mudanças destrutivas: todas as
modificações estruturais que resultam na per-
da da organização da unidade e, portanto, em V
B
seu desaparecimento como unidade de uma
certa classe;
c) Domínio das perturbações: ou seja, todas as
interações que desencadeiam mudanças de
estado;
I -
d) Domínio de interações destrutivas , todas as
"j
perturbações que resultam numa modificação
destrutiva.
I;
Assim, supomos, com alguma razão, que as
balas de chumbo disparadas a curta distância em
'
geral desencadeiam em quem as recebe mudan-
ças destrutivas especificadas pela estrutura dos
U-
I
\

II
g

I
¡' Jit 112 A ARVORE DO CONHECI MENTO KOERJVA NATURAL DOS SERES Vrvos 113
||
ÍÉ ¡ Num sistema din â mico estruturalmente deter-

Si minado, já que a estrutura est á em cont ínua mu -


dan ça , seus dom ínios estruturais também sofre-
Curva perigosa: a seleção natural

11m rão variação , mas a cada momento sempre esta -


rao especificados por sua estrutura presente. Essa
incessante modifica ção de seus domínios estru -
de. essa descrição não é inteiramente ade-
quada, já que em cada ontogenia só ocor-
re uma série de interações e só se desenca -
!I turá is será um tra ço próprio da ontogenia cie cada deia uma sé rie de modificações estruturais.
Assim, o conjunto das altera ções que o
unidade dinâ mica , seja ela um toca-fitas ou um observador vê como possíveis é apenas o
!?

leopardo. que ele imagina , embora sejam possíveis
Enquanto uma unidade n ão entrar numa para histó rias diferentes. Nessas circunstâ n-
ii intera ção destrutiva com o seu meio, nós, obser-
cias, a palavra “seleção” sintetiza a com-
. preensão que o observador tem do que
vadores, necessariamente veremos que entre a acontece em cada ontogenia , embora esse
i estrutura do meio e a da unidade h á uma compa- entendimento surja de sua observação com-
parativa de muitas outras ontogenias.
1
1! tibilidade ou comensurabilidade. Enquanto exis- L palavra "seleçã o” é trai çoeira neste con- Há outras expressões que poderiam ser
tir essa comensurabilidade, meio e unidade atua - ;xto, e é preciso ter certeza de que n ão usadas para descrever esse fenômeno. Con-
Bill!
I1 rão como fontes de perturbações m ú tuas e de- ^
corrugaremos, sem dar-nos conta de uma
êrie de conota ções que pertencem a ou-
tudo, a razão pela qual nos referimos a ele
em termos de uma seleçã o de caminhos
sencadearão mutuamente mudan ças de estado. tros domínios e não ao fenômeno do qual de mudança estrutural, é que a palavra já é
1
1
I A esse processo continuado, demos o nome de KBfírios ocupamos. Com efeito, com freqíiên- insepará vel da história da biologia desde
SPcia pensamos no processo de seleçã o como que Darwin a utilizou. Em sua obra A Ori-
acoplamento estrutural. Por exemplo, na história gíum ato de escolher voluntariamente entre gem das Espécies, esse autor assinalava pela
do acoplamento estrutural entre as linhagens de jpnuitas alternativas. É fácil cair na tentação
|»1
h
primeira vez a relação entre variaçã o
automóveis e as cidades, há modificações dra- Ejde pensar que algo similar ocorre aqui: por gcracional e acoplamento estrutural . Mos-
m á ticas em ambos os lados , mas em cada um
¡
Suas perturbações, o meio estaria “escolhen- trou também que era “como se" houvesse
gdo” quais das m ú ltiplas modificações pos- uma seleção natural , compará vel - por seu
elas ocorrem como expressã o de sua pró pria di- ajisíveis ocorrerão. efeito separador - com a seleção artificial
i)
1 :1 nâ mica estrutural , provocadas pelas intera ções se- ¡
P,; Isso é exatamente o contrário do que que um fazendeiro faz das variedades de
| ’de fato acontece, e seria contraditório com seu interesse. O próprio Darwin foi muito
i
letivas com o outro. |ó fato de que estamos lidando com siste- claro, ao destacar que nunca pretendeu uti-
f mas estruturalmente determinados. Uma lizar essa palavra em outro sentido a n ão
1 3; interação não pode especificar uma mu- ser o de uma metáfora adequada. Entre-
E dança estrutural, porque esta é determina- tanto, pouco depois, com a divulgação da
1 ú do o que foi dito anteriormente é válido para lj; da pelo estado prévio da unidade em ques- teoria da evolução, a ideia de "seleção na-
Ontogenia e seleção

::
ii qualquer sistema e portanto para os seres vivos.
Estes não são ú nicos, nem em sua determina çã o
m '
tã o, e não pela estrutura do agente pertur-
bador, como discutimos na seção anterior.
tural ” passou a ser interpretada como uma
fonte de interações instrutivas do meio. A

nem em seu acoplamento estrutural . O que lhes m. Aqui falamos de seleção, no sentido de que
o observador pode notar que , entre as
esta altura da história da biologia seria im -
possível mudar sua nomenclatura , e por
I é próprio é que neles a determina ção e o acopla -
mento estrutural se dã o na cont ínua conserva ção
g
M ij
, muitas mudanças que vê como possíveis,
!£ . cada perturbação desencadeou ( "
escolheu ')
% uma e não outra desse conjunto. Na verda- ontogenia!
1
isso é melhor utilizá -la e entendê-la ade-
quadamente. A biologia também tem sua
¡I
da autopoiese que os define , seja ela de primeira 'i -
T

;l ' ,11
1
Ill A.
.
114 A Á RVORF. DO
CONHECIMENTO NATURAE DOS SERES VIVOS
VA 115
ou de segunda ordem, e tudo fica subordinado a um cont ínuo “seletor ” das mudanças estruturais
essa ¿observaçã o. Assim, a autopoiese das célu- que o organismo experimenta em sua ontogenia.
las qu é compõem um metacelular també m se
Num sentido estrito, acontece exatamente o
- subordina à sua autopoiese como sistema auto-
mesmo com o meio. Em sua própria história , ele
poiético de segunda ordem. Portanto, toda mu-
dança estrutural acontece num ser vivo necessa ou os seres vivos que com ele interagem operam
riamente demarcada pela conservaçã o de
- como seletores de suas mudanças estruturais. Por
sua exemplo, o fato de que , entre todos os gases
autopoiese. As interações que desencadeiem nele

i I mudanças estruturais compatíveis com essa con


servaçào serão perturbadoras. Do contrá rio, se
-
-
possíveis, foi o oxigé nio que as células dissipa-
ram durante os primeiros milhões de anos após a
rão interações destrutivas. A contínua mudan origem dos seres vivos, teria determinado modi-
ça
!
li 1
estrutural dos seres vivos com conservação de ficações estruturais na atmosfera terrestre. De
modo que hoje esse gás existe em porcentagem
sua autopoiese acontece a cada instante, inces
- importante como resultado dessa história. Por sua
1

: santemente e de muitas maneiras simultâ neas.


É

m
k;
o palpitar da vida.
Agora notemos uma coisa interessante: quan-
do nós, como observadores, falamos do que acon
vez, a presença de oxigénio na atmosfera teria
selecionado variações estruturais em muitas linha-
gens de seres vivos que, ao longo de sua filogenia,
M tece com um organismo numa interação espec
ífi-
- levaram à estabilização de formas que funcionam
í ca, estamos numa situação peculiar. Por um
lado,
como seres que respiram oxigénio. O acoplamen-
temos acesso à estrutura do meio, por to estrutural é sempre mú tuo; organismo e meio
1 outro à
estrutura do organismo. Assim, podemos consi sofrem transformações.
derar as muitas maneiras pelas quais ambas po
- Nessas circunstâ ncias - e diante desse fenô-
deriam ter mudado ao se encontrar, caso houves
- meno de acoplamento estrutural entre os orga-
sem ocorrido outras circunstâ ncias de interação
- nismos e o meio como sistemas operacionalmen-
que podemos imaginar em conjunto com as que -
te independentes , a manutenção dos organis-
de fato ocorrem. Dessa maneira, podemos imagi mos como sistemas dinâ micos em seu meio apa-
nar como seria o mundo se Cleópatra tivesse
- rece como centrada em uma compatibilidade or-
sido ganismo/meio. É o que chamamos de adapta-
feia. Ou , numa linha mais séria, como seria
esse ção. Por outro lado, se as interações do ser vivo
menino que nos pede esmola , se tivesse sido
ali- em seu meio se tomam destrutivas, de modo que
mentado adequadamente quando bebê. Sob essa
ele se desintegra pela interrupção de sua auto-
i perspectiva , as mudanças estruturais que de
ocorrem numa unidade aparecem como “selecio
fato poiese, diremos que o ser vivo perdeu a sua adap-
- tação. Portanto, a adaptação de uma unidade a
nadas” pelo meio, mediante o contínuo jogo das
interações. Assim, o meio pode ser visto um meio é uma conseqúência necessá ria do aco-
como plamento estrutural dessa unidade nesse meio,
A Á RVORE
I
Í
116 DO
CONHECIMENTO
o que não é de admirar. Em outras palavras:
a ontogenia de um indivíduo é uma deriva de
^ RIVA NATURAL DOS SERES VIVOS 117

desde as suas origens até os nossos dias, em todo


o seu esplendor.
modifica ções estruturais com invariâ ncia da
Essa figura se parece naturalmente com uma
organização e, portanto, com conservação da
á rvore, e por isso é chamada de história filogené-
adaptação.
tica das espécies. Uma filogenia é uma sucessão
Repitamos: a conservação da autopoiese e a
de formas orgânicas geradas seqüencialmente por
manutenção da adaptação são condições neces-
sá rias para a existê ncia dos seres vivos; a mudan- rela ções reprodutivas. As mudanças experimen-
tadas ao longo da filogenia constituem a altera-
ça estrutural ontogenética de um ser vivo num
ção filogenética ou evolutiva.
meio será sempre uma deriva estrutural congruen-
te deste com o meio. Essa deriva parecerá ao
Na Fig. 27, por exemplo, temos uma recons-
trução da deriva de um grupo particular de meta-
observador “selecionada" pelo meio, ao longo
da história de interações do ser vivo enquanto celulares, invertebrados marinhos muito antigos,
' ele viver. conhecidos como trilobites. As variações em cada
1 etapa reprodutiva na fase unicelular do animal
geram, como se vê em cada momento da história
(í dos trilobites, uma grande diversidade de tipos
' A esta altura, já temos à mão todos os elementos
necessá rios para entender em seu conjunto a gran-
Filogenia e evolução dentro desse grupo. Cada uma dessas variações
tem um acoplamento com o meio que representa
de série de transformações dos seres vivos du
- uma variante de um tema central. Durante essa
rante a sua história, e para responder às questões
longa seqOência , houve, na Terra, dramá ticas va-
com que começamos este capítulo. O leitor aten-
riações geológicas, como as que ocorreram no
! to terá percebido que, para nos aprofundarmos
mais nesse fenômeno, o que fizemos foi obser
final do per íodo conhecido como triássico, há
; - cerca de 200 milhões de anos. O registro fóssil
var, com um microscópio conceituai, o que acon-
tece na história das interações individuais. Com-
nos revela que, durante esse tempo, a maioria
preendendo como isso acontece em cada caso, e
das linhagens de trilobites desapareceu . Ou seja ,
durante esses momentos do devir estrutural dos
sabendo que haverá modificações em cada etapa
P' reprodutiva , poderemos projetar-nos em uma
trilobites e de seu meio, as variações estruturais
produzidas nessas linhagens não foram comple-
escala de tempo de vários milhões de anos. As-
mentares às variações estruturais contemporâ-
sim, será possível ver os resultados de um nú me
- neas do meio. Em conseqiiê ncia , os organismos
ro muito (mas muito!) grande de repetições do
que constituíam essas linhagens não conserva-
mesmo fen ômeno de ontogenia individual, se-
guida de mudanças reprodutivas. Na Fig. 26, te-
ram sua adapta ção, não se reproduziram, e assim
I foram interrompidas. As linhagens nas quais isso
mos uma visão global da história dos seres vivos,
i -
aconteceu mantiveram se por muitos milhões de
119

Fig. 26. As grandes linhas da


evolu ção orgâ nica , desde as
origens procariontes até nos -
Hl sos dias, com toda a varieda-
de de unicelulares, plantas,
animais e fungos , que surgem
das ramificações e entrelaça -
mentos por simbiose de mui-
tas linhagens originá rias.
:
I I
:

:

trilobites para cada um dos tipos de animais e


plantas hoje conhecidos. Nã o há um só caso da
III história estrutural dos seres vivos que não revele
Indi que cada linhagem é uma circunstâ ncia específi-

il ca de variações sobre um tema fundamental, que


acontece numa seqiiência ininterrupta de etapas
anos mats. Por hm , novas, repetidas e drásticas reprodutivas, com manutenção da autopoiese e
: li mudan ças no meio dos trilobites acabaram fa - da adaptação.
zendo com que eles não conservassem a sua adap- Notemos que esse caso, como todos, revela
tação. Dessa maneira , todas as linhagens se ex- que há muitas variações de uma estrutura que
.
tinguiram . são capazes de produzir indivíduos viá veis num
!
' O estudo dos restos fósseis e da paleontologia determinado meio. Todas elas são igualmen-
:
permite construir histórias semelhantes à dos te adaptadas - como já vimos - e capazes de
;l

li» 9
r
120

Recente

Terciário
Philocerida Lytocerida
A Á RVORF. DO CONHECIMENTO
^^^ JDERIVA NATURAL DOS SERES VIVOS 121

numa visão retrospectiva , que mostra que há li-


nhagens que desaparecem, revelando que as con-
figurações estruturais que as caracterizam não lhes
• permitiram conservar sua organização, bem como
;
Ammonitida
Cretáceo m a adaptação que assegurava a sua continuidade.
No processo da evolução orgâ nica , uma vez cum-
:
í i* i prido o requisito ontogénico essencial da repro-
du ção, tudo é permitido. Seu não-cumprimento
¿‘ Jurássico
está proibido, pois leva à extinção. Veremos adian-
te como isso condiciona de maneira importante a
f Triássico
\ 11 Ceratitida
UJLu) LW ~ ~iI I
l
história cognitiva dos seres vivos.
i
t
Permiano
Goniatitida leriva natural Vejamos essa deslumbrante á rvore da evolução
B orgânica a partir de uma analogia. Imaginemos
Sr uma colina de cume agudo. Figuremos que a partir
I
Carbon ífero desse pico jogamos encosta abaixo gotas d’água,
í; i
Prole : int
Clymenida
t sempre na mesma direção, embora pela mecâ ni-

i:
i
I Devoniano
Fig. 27. Expansão e extinção
em linhagens de um grupo de
ca do lançamento haja variações no seu modo de
cair. Imaginemos, por fim, que as gotas sucessi-
Anariestida
-
trilobites, animais que existi
ram entre 500 e 300 milhões vamente lançadas deixem uma trilha sobre o ter-
de anos passados. reno, que constitui a marca de sua descida .
: i
Como é evidente, se repetirmos muitas vezes
o nosso experimento, teremos resultados ligeira-
mente diversos. Algumas gotas descerão direta-
continuar a linhagem a que pertencem no meio mente para a direção escolhida ; outras encontra-
em que ocorrem, seja este mutante ou nã o, pelo rão obstáculos, que contornarão de maneiras di-
menos durante alguns milhares de anos. Esse caso, versas, por causa de suas pequenas diferenças de
entretanto, também revela que as diferentes li- peso e impulso, e se desviarão para um lado ou
nhagens que originam as distintas variações es- para o outro; talvez haja leves mudanças nas cor-
truturais - ao longo da história de um grupo í;
— rentes de vento, que levem outras gotas por ca -
diferem na oportunidade que têm de manter minhos muito sinuosos, ou que as façam distan-
ininterrupta a sua contribuiçã o à variedade do ciar-se bem mais da direção inicial. E assim inde-
grupo num meio em mutação. Isso se observa finidamente .
122 A Á RVORE DO CONHECIMENTO Ü®5ERT/A NATURAL nos SERES VIVOS
'

í Eig . 28. A deriva natural


i dos seres vivos , vista pela
metáfora das gotas d’água.

I/_:'~
^ áfcl -
V
'
I
124 A Á RVORE DO CONHECIMENTO K-)ERIVA NATURAL DOS SERES VIVOS
Tomemos agora essa série de experimentos e,
seguindo as trilhas de cada gota , superponhamos I
todos os caminhos conseguidos. Com isso, pode-
remos de fato imaginar que as tivéssemos lança- m
do todas juntas. O que obteremos será algo como ; I
o ilustrado na Fig. 28.
: Essa figura pode, adequadamente , ser chama-
da de representação das mú ltiplas derivas natu-
11! rais das gotas d’água sobre a colina , o resultado
de seus diferentes modos individuais de interação
com as irregularidades do terreno, os ventos e -
tudo o mais. As analogias com os seres vivos são
óbvias. O cume e a direção inicial escolhida equi-
¡¡;
valem ao organismo ancestral comum, que dá i
I
I |!
origem a descendentes com ligeiras variações |g. 29 . Deriva natural dos
estruturais. A repetição m últipla equivale às mui- .: feres vivos como distâncias de
©mplexidade em relação à
í tas linhagens que surgem desses descendentes. A | a origem comum.
colina é, com certeza , todo o meio circundante
dos seres vivos, que muda segundo o devir, que
em parte é independente do devir dos seres vi-
vos e em parte depende deles, e que aqui asso- sejam mantidas. Organismos e meio variam de
ciamos com a diminuição da altitude. Ao mesmo modo independente; os organismos variam em
;!
tempo, a cont ínua descida das gotas d’água , com
incessante conservação da diminuição da ener-
I cada etapa reprodutiva e o meio segundo uma
dinâ mica diferente. Do encontro dessas duas va-
gia potencial , associa-se à conservação da adap
ta ção. Nessa analogia pulamos as etapas repro-
- m ria ções surgirão a estabilização e a diversifica ção
fenotípicas, como resultado do mesmo processo
dutivas, porque o que nela representamos é o de conservação da adaptação e da autopoiese, a
devir das linhagens, não o seu modo de formação. depender dos momentos desse encontro: estabi-
No entanto, ainda assim essa analogia nos mostra lização, quando o meio muda lentamente; diver-
que a deriva natural ocorrerá seguindo os cursos sificação e extensão quando ele o faz de modo
possíveis a cada instante, muitas vezes sem grandes abrupto. A constâ ncia e varia ção das linhagens
variações na aparência dos organismos (fenotipo) dependerão, portanto , do jogo entre as condi-
e freq ú entemente com m ú ltiplas ramifica ções, ções históricas em que elas ocorrem e as proprie-
a depender das relações organismo-meio que dades intrínsecas dos indivíduos que as constituem.

M
I

NATURAL DOS SERES VIVOS 127


126 A Á RVORE DO CONHECIMENTO
Por isso haverá , na deriva natural dos seres vivos, Mais ou menos adaptado
muitas extin ções, muitas formas surpreendentes
e muitas formas imaginá veis como possíveis, mas quanto um ser vivo não se
daptado a seu meio, e que
que nunca veremos aparecer. o de adaptação
em relação a isso sua condiseçãmantém. Disse-
Imaginemos agora outra visão das trajetórias Invariante , ou seja , ela
da deriva natural dos seres vivos. Olhemos de ^fes
(los também que nesse sentido todos os se-
vivos são iguais enquanto estão vivos .
cima . Dessa maneira , a forma primordial agora dizer
5o entanto, com frequência ouvimos
está no centro, e as linhagens dela derivadas se Re há seres mais ou menos adaptados, ou
distribuem ao seu redor, como ramificações que Hjé estão adaptados como resultado de sua

surgem do centro e se distanciam cada vez mais


IpÕria evolutiva.
K Como muitas das descrições sobre
a evo-
dele, à medida que os organismos que as consti- bioló gica que herdamos dos textos es-
lUção
tuem se diferenciam da forma original . É o que colares, essa também é inadequada , como-
& conclui de tudo o que dissemos. Na me
mostra a Fig. 29. Ca jhbr das hipóteses, o observador pode intro-
Olhando por esse â ngulo, vemos que a maio- duzir um padrão de comparação ou referên-
ria das linhagens de seres vivos que atualmente cia, que lhe permita fazer comparações e falar
fle eficácia na realização de uma função. Por
encontramos são sobretudo parecidas com as pri- exemplo, podemos medir o quão eficazes
meiras unidades autopoiéticas: bactérias, fungos, são, em relação ao consumo de oxigénio,
¡diferentes tipos de animais aquá ticos e mos-
algas. Todas essas linhagens equivalem a trajetó- jtrar que , diante do que nos parece o mesmo
rias que se mantêm perto do ponto central. Em esforço, alguns consomem menos do que
seguida , algumas trajetórias se separam para cons- outros . Seria o caso de descrever estes como
mais eficazes e melhor adaptados? Certamente
truir a variedade dos seres multicelulares. Algu- que não , porque na medida em que todos
mas delas se separam ainda mais, para constituir estão vivos , todos satisfizeram os requisitos
/ necessá rios para uma
ontogenia ininterrupta.
vertebrados superiores: aves e mam íferos. Como
As comparações sobre eficá cia pertencem ao
no caso das gotas d’água, se houver um mínimo / dominio de descrições
feitas pelo observa -
suficiente de casos e tempo, muitas das linha- dor, e não têm relação direta com o que acon-
tece com as histórias individuais de conser-
gens possíveis, por estranho que pareça, ocorre-
rão. Além disso, algumas das linhagens se inter-
f
/vação da adaptação.
Para resumir: não há sobrevivência do
, o que há é sobrevivência do apto.
rompem porque chega um momento, como no ¡
I mais -aptode condições necessárias, que po-
Trata se
caso dos trilobites, em que a diversidade repro- 5E dem ser satisfeitas de muitas maneiras,
e não
dutiva que elas geram não é comensurá vel com a ¿. da otimiza ção de critérios alheios à própria
variação ambiental. Termina então a conserva- |
| £ sobreviv ê ncia .

ção da adaptação, porque essas linhagens pro-


duzem seres incapazes de se reproduzir no meio
ffi Conceito original de Fig. 30. Diferentes maneiras de nadar.
em que lhes cabe viver. Ra ú l Berrios.

:
I

128 A Á RVORE KRIVA NATURAE DOS SERES Vrvos 129


DO
CONHECIMENTO 1
No sistema das linhagens biológicas, há mui- I Para entender o fenômeno evolutivo o biólo-
tas trajetórias que podem ser de longa duração e go está numa situação comparável, embora os
sem grandes variações em torno de uma forma fenômenos que o interessam sejam regidos por
fundamental. Há também muitas que envolveram leis muito diferentes das que regulam os fenôme-
grandes mudanças geradoras de novas formas e, nos f ísicos, como já vimos quando falamos da
por ú ltimo, muitas que se extinguiram sem pro- conservação da identidade e da adaptação. As-
duzir ramificações que tivessem chegado ao pre- sim o biólogo pode, confortavelmente, explicar
sente. Em todos os casos, todavia , trata-se de
grandes linhas evolutivas na história dos seres
derivas filogenéticas nas quais se conserva a or- vivos, com base em seu acoplamento estrutural
ganização e a adaptação dos organismos que com-
com um meio mu íante (como no caso das mu-
põem as linhagens enquanto elas existem. Além | danças ambientais a que nos referimos quando
disso, não são as variações do meio, vistas pelo
falamos dos trilobites). Mas ele também joga as
observador, que determinam a trajetória evolutiva
das diferentes linhagens. É o curso que segue a * mãos para o alto, quando se trata de explicar as
conservação do acoplamento estrutural dos or- transformações detalhadas de um grupo animal.
ganismos em seu próprio meio ( nicho), que eles Para tanto, precisaria reconstruir não apenas to-
definem e cujas variações podem passar inadver- das as variações ambientais, como também o
tidas a um observador. Quem pode observar as modo como esse grupo específico compensou
tênues variações na força do vento, no leve atri-
í tais flutuações segundo a sua própria plasticida-
to, ou nas cargas eletrostá ticas que podem de- de estrutural. Em suma, vemo-nos forçados a des-
sencadear modifica ções nas trajetórias das gotas crever eada caso como resultante de variações
do exemplo ilustrado na Fig. 28? O físico se de- aleatórias, já que a descrição do transcurso de
sespera, atira as mãos para o alto e fala simples- suas variações só é possível a posteriori. Da mes-
mente de flutuações aleatórias. No entanto, ape- ma maneira que observaríamos um barco à deri-
sar de usar a linguagem do acaso, ele sabe que va, movido por variações do vento e da maré,
em cada situação observada há processos subja- inacessíveis à nossa previsão.
centes perfeitamente deterministas. Ou seja , sabe Podemos então dizer que uma das partes mais
que para poder descrever a situação das gotas interessantes da evolução é a maneira como a
d’água , precisa de detalhes descritivos que lhe coerência interna de um grupo de seres vivos
são praticamente inacessíveis. Mas também sabe compensa uma determinada perturbação. Por
que esses detalhes podem ser ignorados se ele se exemplo, se há uma mudança importante na tem-
limitar a uma descrição probabilística que, ao peratura terrestre, só os organismos que sejam
supor uma legalidade determinista, prevê a clas- capazes de viver dentro das novas faixas térmi-
se de fenômenos que podem ocorrer, mas ne- cas poderào manter ininterrupta a sua filogenia.
nhum caso específico. No entanto, a compensação da temperatura pode

I
II
I
"
1 s
iff 130
1
n A Á RVORK DO COMID I ,\||- NTo j BgmvA NATURAL DOS SHRKS VIVOS 131
m ;! dar-se de vá rios modos: por meio do espessa-
o tô nus muscular durante a marcha . Em outras
!!: mento da pele , de modifica ções das taxas meta
cl 1 bólicas, grandes migrações geográ ficas etc.
- palavras, já que todo sistema autopoiético é urna
I Em unidade de múltiplas interdependencias, quando
i cada caso, o que vemos como adapta ção a frio
uma de suas dimensões é atetada o organismo
inclui também o resto do organismo de
II forma inteiro experimenta mudanças correlativas, em
N
i i
global, já que o espessamento da pele, por
exem- muitas dimensões ao mesmo tempo. Mas é claro
pio, implica necessariamente mudanças
correlatas, que tais mudanças, que nos parecem corresponder
n ã o apenas na pele e nos m úsculos,
como tam- a alterações ambientais, não são causadas por
Ir i bém no modo como os animais de um grupo
se estas: elas ocorrem na deriva configurada no en-
i
: reconhecem entre si, e a maneira corno é regulado
contro operacional mente independente de orga-
nismo e meio. Como n ã o vemos todos os fatores
que participam desse encontro, a deriva nos pa-
I Evolução: deriva natural rece ser um processo aleató rio. Mais adiante ve-
f remos que não é assim, ao nos aprofundarmos
mais nos modos como o todo coerente que é um
f Com efeito, atualmente nã o há um qua
dro unificado de como acontece a evolu -
- organismo experimenta mudanças estruturais.
jj:
çào dos seres vivos em todos os seus as- Em resumo: a evoluçã o é uma deriva natu -
*: ;
pectos. Há m ú ltiplas escolas de pensamen-
ral , produto da invariâ ncia da autopoiese e da
' to, que questionam seriamente a compre-
ensão da evolução por seleçã o natural que adapta çã o. Como no caso das gotas d’água, n ão
dominou a biologia nos ú ltimos cinquenta é necessá ria uma direcionalidade externa para ge-
I anos. Contudo, quaisquer que sejam as
Para a completa compreensão deste livro,
novas ideias propostas para o detalhamento rar a diversidade e a complementaridade entre
é importante perceber que aquilo que
dis- dos mecanismos evolutivos, elas nã o po- organismo e meio. Tampouco é necessá ria tal
semos sobre a evolução orgânica é sufi dem
ciente para entender as características b
- negar o fenômeno da evolução. Mas orientação para explicar a direcionalidade das
á- nos livrarão da ideia popularizada da
sicas do fenômeno da transformação hist evo- variações de uma linhagem, nem se trata da
. rica dos seres vivos. Além disso, nã o é -
ó lu çào como um processo em que existe
cessá rio examinar deialhadatnente os me- um mundo ambiental, ao qual os seres vi-
ne otimização de alguma qualidade específica dos
I 1
canismos subjacentes.
- vos se adaptam de modo progressivo, seres vivos. A evolução se parece mais com um
E otimizando o seu modo dc explorá-lo. Pro-
i.
íl
Por exemplo, p únicamente não
mos em tudo o que hoje se conhece sobre
toca- pomos que a evolução acontece como um m escultor vagabundo, que passeia pelo mundo e
fenômeno de deriva estrutural , sob cont í- ff recolhe um barbante aqui, um pedaço de lata ali ,
como a genética das popula ções tornou ex
- nua seleção filogenética , na qual n ão há
plícitos alguns aspectos do que Darwin '
um fragmento de madeira acolá , e os junta da
mou de “modificação por meio da descendên- biente
cha progresso nem otimização do uso do am-
i cia . Do mesmo modo, tamb

- . O que há é apenas a conservação maneira que sua estrutura e circunstâ ncia permi-
ém não fala- da adaptação e da autopoiese, num
mos da contribuição do estudo dos ó
f sseis cesso em que organismo e ambiente per -
pro tem, sem mais motivos que o de poder reuni-
para o conhecimento dos detalhes das
trans- manecem num cont ínuo acoplamento
- los. E assim, em seu vagabundear vão sendo pro-
formações evolutivas de muitas espécies.
trutural .
es- í duzidas formas intricadas, compostas de partes
harmónicamente interconectadas que não são
»
n
I
132 A Á RVORK DO CONHECIMKNR0 I
fa I produto de um projeto, mas da deriva natural.
Do mesmo modo, sem obedecer a outra lei que
não a da conservação da identidade e da capaci-
dade de reprodu ção, surgimos todos nós. Essa
lei nos conecta a todos naquilo que nos é funda-
mental: a rosa de cinco pétalas, o camarão de rio
ou o executivo de Santiago.

£
,

H
I
i
i

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lif 1
lilt.
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:
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I,! unidade
Kl! conhecer o conhecer 1 organização estrutura

J ética
experiência cotidiana L autopoiese
fenômeno do conhecer I
fenomenologia
i! biológica
explicação
li! li A!' cientifica
observador
llí
I
!H
9 ação

dominios linguí sticos


I I
linguagem
fenó menos historí eos

conservação — variação
i consciência reflexiva
reproduçã o
'
I

ki -i
8

,
II fenômenos culturais
'
perturbaçõ es
I
— acoplamento
m
fenómenos sociais ontogenia
M estrutural
¡
unidades de terceira i
ordem — unidades de segunda ordem
clausura operacional

7
atos cognitivos I I

i
correlações intemas 6
ampliação do
domínio de interações
comportamento — sistema
nervoso
| plasticidade contabilidade lógica
estrutural
representação /
solipsismo tFig. 31. Orangotango toman-
lo um rato de um gato.
136 A ARVORE DO CONHECIMENTO COMPORTAMENTAIS 137

Quando nos encontramos com um adivinho Entretanto, é preciso tornar clara a distinção
/
profissional, que nos promete com sua arte pre- entre determinismo e previsibilidade. Falamos em
dizer o futuro, em geral experimentamos senti- previsão cada vez que , depois de considerar o
mentos contradit órios. Por um lado nos atrai a estado atual de um sistema qualquer que estamos
idé ia de que algu ém, olhando para nossas mã os observando, afirmamos que haverá um estado
e baseando-se num determinismo para nós subseq ü ente, que resultará de sua dinâ mica es-
inescrutá vel , possa antecipar nosso futuro. De trutural e que também poderemos observar. Uma
outra parte, a idé ia de sermos determinados, ex- previsão, portanto, revela aquilo que nós, como
plicá veis e previs íveis nos parece inaceitá vel. observadores, esperamos que aconteça.
Gostamos do nosso livre arbítrio e queremos es- Dessa maneira , a previsibilidade nem sempre
tar alé m de qualquer determinismo. Mas ao mes- é possível. Há diferença entre afirmar o cará ter
mo tempo queremos que o médico possa curar estruturalmente determinado de um sistema e sus-
nossos males, tratando-nos como sistemas estru - tentar a sua total previsibilidade. Isso acontece
turalmente determinados. O que isso nos revela ? porque , como observadores, podemos não estar
Que relação existe entre o nosso ser orgâ nico e o em condições de conhecer o necessá rio sobre o
nosso comportamento? Nosso propósito, neste e funcionamento de um certo sistema que nos ca-
nos próximos capítulos , é responder a estas per- pacite a fazer previsões sobre ele. Assim, ningué m
guntas. Para tanto, começaremos reexaminando discute que as nuvens e os ventos obedecem a
mais de perto como é possível compreender um certos princípios relativamente simples de movi-
dom ínio comportamental em todas as suas possí- mento e transforma ção. Entretanto, a dificuldade
veis dimensões. de conhecer todas as vari á veis relevantes faz da
meteorologia uma disciplina com poderes limita-
dos de previsão. Nesse caso, nossa limitação de-
corre de incapacidade de observação. Em outras
Como já vimos , só podemos produzir uma expli- Previsibilidade e
! *-*
circunstâ ncias, nossa incapacidade é de outra ín-
»
cação cient ífica na medida em que tratarmos o sistema nervoso
dole. Há fen ômenos como a turbulê ncia , para os
fenômeno que nos interessa explicar como resul-
quais nem sequer temos elementos que nos per-
IIP tado do funcionamento de um sistema estrutural-
mitam imaginar um sistema determinista detalha -
mente determinado. Na verdade, a an á lise do
! mundo e dos seres vivos que até agora apresen -
do que lhes dêem origem. Aqui , nossa limitação
de previsã o revela nosso déficit conceituai. Por
! . tamos foi toda feita em termos deterministas ,
m fim , há sistemas que mudam de estado quando
mostrando como o Universo visto dessa forma se
ill

torna compreensível, e como o ser vivo surge
são observados, de modo que a própria inten ção
do observador de prever seu curso estrutural os
1 I1 dele como algo espontâ neo e natural .
I retira de seu dom í nio de previsão.
I
II
i
B
138 A Á RVORE DO CONHECIMENTO 1 PUNIOS COMPORTAMENTAJS 139
/
Em outras palavras, o que nos parece necessá- instante, como resultado de seu acoplamento es-
rio e inevitável permite que nos vejamos como trutural. Escrevemos estas linhas porque estamos
observadores capazes de fazer previsões efica- constitu ídos de uma certa maneira e seguimos
zes. Os fenômenos que vemos como aleatorios uma certa ontogenia específica. Ao ler isto, o lei-
fazem de nós observadores incapazes de propor
para eles um sistema explicativo científico.
Ter em mente essas condições é particularmen-
m tor entende o que entende porque sua estrutura
presente - e portanto, de modo indireto, sua his-
tória - assim determinam. Num sentido estrito ,

11
te importante, quando estudamos o que aconte - \ :v nada é acidental. No entanto, nossa experiência
ce com a ontogenia dos organismos multicelula- é de liberdade criativa e, do nosso ponto de vis-
>! res dotados de sistema nervoso, aos quais em ta , o fazer dos animais superiores parece impre-
geral atribu ímos um vasto e rico domínio com- It visível. Como é possível essa imensa riqueza na
portamental. Isso ocorre porque, mesmo antes conduta dos animais dotados de sistema nervo-
: .
de esclarecer o que pretendemos ao falar do sis- so? Para entender melhor essa pergunta, precisa-
tema nervoso, podemos estar certos de que ele - mos examinar mais de perto o funcionamento do
f! como parte de um organismo - terá de funcionar sistema nervoso, em toda a riqueza dos domí-
:
nesse organismo, contribuindo a cada momento nios de acoplamento estrutural possibilitados por
Ni-
' i
para a sua determinação estrutural. Essa contri- sua presença.
buiçã o refere-se tanto à sua própria estrutura I
ií quanto ao fato de que os resultados de seu fun-
cionamento (a linguagem, por exemplo) serão 0e sapos e Todas as variedades de sapos - tão conhecidos e
parte do meio. E este, a cada instante, funcionará rheninas-lobo populares em nossos campos - se alimentam de
como seletor na deriva estrutural do organismo pequenos animais, como minhocas, mariposas e
Iv : : que nele conserva a sua identidade. Com ou sem moscas, e seu comportamento alimentar é sem-
sistema nervoso, o ser vivo funciona sempre em pre o mesmo: o animal se volta para a presa,
seu presente estrutural. O passado, como refe- E lança sua língua longa e pegajosa , recolhe-a com
I rência de interações já ocorridas, e o futuro como a presa a ela aderida e a engole rapidamente.
referência a interações a ocorrer, são dimensões Para essa função, a conduta do sapo é sabidamente
i
valiosas para que, como observadores, nos co- precisa , e o observador vê que a direção em que
muniquemos mutuamente. Mas não fazem parte ele lança a sua língua aponta sempre para a presa.
do funcionamento do determinismo estrutural do Q Assim sendo, é possível fazer com o sapo um
organismo a cada momento. experimento muito revelador. Toma-se um girino,
Dotados ou não de sistema nervoso, todos ou larva de sapo, corta-se a borda de seu olho -
os organismos, inclusive nós mesmos, funcio-
m R.W. Sperry, J.
-
respeitando o nervo óptico e faz-se com ele um
nam como funcionam e estão onde estão a cada Weurophysiol. 8:15, 1945. -
giro de 180 graus. Deixa se que o animal assim
:
li
140 A Á RVORE c
DO CONHECIMENT O ! ggpMlN ;' O
'
< ! 141

retina onde se forma a imagem da presa estivesse


em sua posição normal.
Esse experimento revela , tie forma dramá tica,
que para o animal o acima e o abaixo e o adiante
e o atrás não existem em relação ao mundo exte-
rior, do mesmo modo que existem para o obser-
vador. O que há é uma correlação interna entre
o lugar onde a retina recebe uma determinada
perturba ção e as contrações musculares que mo-
vem a l íngua , a boca , o pescoço e, por fim , o
corpo inteiro do sapo.
Em um animal com o olho virado, ao colocar
a presa abaixo e à frente fazemos cair uma per-
turbação visual acima e atrás na zona da retina
que habitualmente está localizada à frente e abai-
operado complete seu desenvolvimento larvar e xo. Para o sistema nervoso do sapo, isso desen-
Fig. 32. Erro tie pontaria ou
sua metamorfose , até que se transforme num expressão de uma correlação cadeia uma correla çã o sensório- motora entre a
adulto. Toma -se agora o sapo experimental e, com interna inalterada ?
posição da retina e o movimento da língua , e
-
o cuidado de cobrir o olho virado, mostra se a
ele uma minhoca. A l íngua se projeta para diante
não uma computação sobre um mapa do mun-
do, como pareceria razoá vel a um observador.
e acerta perfeitamente o alvo. Repetimos o expe-
Esse experimento - como muitos outros que
rimento, dessa vez cobrindo o olho normal. E foram feitos desde os anos 50 - pode ser visto
verificamos que o animal lança a língua com um como prova direta de que o funcionamento do
desvio de exatamente 180 graus. Ou seja , se a sistema nervoso é a expressão de sua conectivi-
presa está abaixo do animal ou à sua frente, como dade ou estrutura de conexões , e que o compor-
seus olhos apontam um pouco para o lado ele tamento surge de acordo com o modo como se
gira e projeta a língua para cima e para trás. Cada
estabelecem nele suas relações internas de ati-
vez que repetimos a prova, ele comete o mesmo vidade. Voltaremos ao assunto de modo mais
tipo de erro: desvia-se em 180 graus e é in ú til
explícito. No momento, queremos chamar a aten-
insistir. O animal com o olho virado jamais muda
ção do leitor para a dimensão de plasticidade
esse novo modo de lançar a l íngua com um des- estrutural que a presença do sistema nervoso in-
vio em relação à posição da presa, que é igual à
troduz no organismo. Isto é: sobre como a histó-
rotação imposta pelo experimentador ( Fig.
32). ria das intera ções de cada organismo resulta num
O animal atira sua l íngua como se a zona da
caminho específico de mudanças estruturais - que
142 A Á RVORE DO CONHECIMENTO JUNIOS COMPORTAMENTAIS 143

constitui uma historia particular de transforma- \ Todo ser vivo começa sua existência com uma
ções de uma estrutura inicial, na qual o sistema estrutura unicelular específica , que constitui seu
nervoso participa , ampliando o dominio de esta- ponto de partida. Por isso, a ontogenia de todo
dos possíveis. ser vivo consiste em sua contínua transforma ção
Se separarmos de sua mãe, por poucas horas , estrutural. Por um lado, trata-se de um processo
um cordeirinho recém-nascido, e em seguida o
devolvermos, veremos que o pequeno animal se
f que ocorre sem interromper sua identidade nem
desenvolve de um modo aparentemente normal.
r seu acoplamento estrutural com o meio, desde o
seu início até a sua desintegração final . De outra
Ele cresce, caminha , segue a mãe e não revela
parte, segue um curso particular, selecionado em
nada de diferente, até que observamos suas inte-
sua história de interações pela seqiiência de mu-
rações com outros filhotes de carneiro. Esses ani- I danças estruturais que estas desencadearam nele.
mais gostam de brincar correndo e dando mar-
Dessa maneira , o que foi dito para o cordeirinho
radas uns nos outros. Já o cordeirinho que sepa-
não é uma exceção. Como no exemplo do sapo,
ramos da mãe por algumas horas não procede
assim. Não aprende a brincar; permanece afasta-
parece-nos muito evidente , porque temos acesso
do e solitá rio. O que aconteceu? Não podemos I; a uma série de interações que podemos descre-
dar uma resposta detalhada , mas sabemos - por ver como “seletoras” de um certo caminho de
I
tudo o que vimos até agora neste livro - que a
dinâ mica dos estados do sistema nervoso depen- í¡
r
.
mudança estrutural que, no caso em pauta, reve-
lou-se patológico quando comparado com o cur-
de de sua estrutura . Portanto, também sabemos so normal.
que o fato desse animal se comportar de maneira CÀ O que foi dito também ocorre com os seres
diferente revela que seu sistema nervoso é dife- humanos, como mostra o caso dramático das duas
rente do dos outros, como resultado da privação meninas indianas de uma aldeia bengali do norte
materna transitória. Com efeito, durante as pri- da índia. Em 1922, elas foram resgatadas (ou ar-
meiras horas após o nascimento dos cordeirinhos, rancadas) de uma família de lobos que as haviam
as mães os lambem continuamente, passando a criado em completo isolamento de todo contato
língua por todo o seu corpo. Ao separar um de- humano (Fig. 33) . Uma das meninas tinha oito
les de sua mãe, impedimos essa interação e tudo anos e a outra cinco. A menor morreu pouco
o que ela implica em termos de estimulação tá til, depois de encontrada e a maior sobreviveu cerca
visual e , provavelmente, contatos qu ímicos de de dez anos, juntamente com outros órfãos com
vá rios tipos. Essas interações se revelam no ex- os quais foi criada. Ao serem achadas, as meni-
perimento como decisivas para uma transforma- nas não sabiam caminhar sobre os pés e se movi-
ção estrutural do sistema nervoso, que tem con- am rapidamente de quatro. Não falavam e tinham
; seq üéncias aparentemente muito alé m do sim- BG3 C. MacLean , The Wolf rostos inexpressivos. Só queriam comer carne crua
1 UI i
mChildren , Penguin Books,
ples lamber, como é o caso do brincar. e tinham há bitos noturnos. Recusavam o contato
gNova York , 1977.
;
|!

I &
A Á RVORE DO
CON HEC IME NTO ÜÍ NIOS COMPORTAMENTAIS

Lv»
*-
*• *
» Fig - 33. a ) Modo lupino
\ri correr da menina bengali, |.
a
‘1 gum tempo depois de ser .
'

contrada. Comparar com o


en
bo da fotograf ía b. c )
lo-
do como aprendeu d )
Comen -
,

a sentiram como completa


Nunca
mente humana.
-

b
humano e preferiam a companhia de cães ou lo-
bos. Ao serem resgatadas, estavam perfeitamente
sadias e nã o apresentavam nenhum sintoma de
debilidade mental ou idiotia por desnutrição. Sua
separação da família lupina produziu nelas uma
profunda depressã o, que as levou à beira da
morte , e uma realmente faleceu .
A menina que sobreviveu dez anos acabou
mudando seus h á bitos alimentares e ciclos de vida
e aprendeu a andar sobre os dois pés, embora
sempre recorresse à corrida de quatro em situa-
ções urgentes. Nunca chegou propriamente a fa-
lar, embora usasse algumas palavras. A fam ília do
k
146 A Á RVORE DO CONHECIMENTO UNIOS COMPORTAMKNTAIS 147

missionário anglicano que a resgatou e cuidou 6


dela, bem como outras pessoas que a conhece -
ram com alguma intimidade, jamais a sentiram
como verdadeiramente humana.
Esse caso - que não é o ú nico - mostra que
embora em sua constituição genética a anatomia
e a fisiologia fossem humanas, as duas meninas
i nunca chegaram a acoplar-se ao contexto huma-
no. Os comportamentos que o missionário e sua
família queriam mudar nelas, por serem aberrantes
no â mbito humano, eram inteiramente naturais
para as meninas lupinas. Na verdade, Mowgii, o ÁGUIA
menino da selva imaginado por Kipling, jamais
poderia ter existido em carne e osso, porque sa-
bia falar e comportou-se como um homem quan-
do conheceu o ambiente humano. Nós, seres de
carne e osso, não somos alheios ao mundo em
que existimos e que está disponível em nosso
existir cotidiano.

Atualmente, a visão mais difundida considera o Sobre o fio


sistema nervoso um instrumento por meio do qual da navalha is. 34. César, segundo a me- com determinação estrutural. Portanto, a estrutu-
o organismo obtém informações do ambiente, que Bpra representacionista. ra do meio não pode especificar suas mudanças,
a seguir utiliza para construir uma representa- mas sim apenas desencadeá-las. Na condição de
ção de mundo que lhe permite computar um observadores, temos acesso tanto ao sistema ner-
comportamento adequado à sua sobrevivência voso quanto à estrutura do meio em que ele está.
nele (Fig. 34). Esse ponto de vista exige que o w Por isso, podemos descrever a conduta do orga-
meio especifique no sistema nervoso as caracte- nismo como se ela surgisse do funcionamento de
rísticas que lhe são próprias, e que este as utilize S C l l sistema nervoso via representa ções do meio,
na produção do comportamento - tal como usa- ou como expressão de alguma intencionalidade
mos um mapa para traçar uma rota. na busca de uma meta . Mas essas descrições não
No entanto, sabemos que o sistema nervoso, refletem o funcionamento do sistema nervoso em
como parte que é de um organismo, funciona ar si: têm apenas um cará ter de utilidade comunica-
148 A Á RVORE DO CONHECIME
tiva para nós, observadores, e n ã o um valor
explicativo cient ífico.
Se refletirmos um pouco sobre os exemplos
que demos acima, perceberemos o seguinte: na
' verdade, nossa primeira tendência , ao descrever
jl i o que acontece em cada caso, centra -se de uma
forma ou de outra na utilização de alguma metá -
fora sobre a obtenção de "informações” do meio.
A seguir, essas informações seriam representadas
1
d
I 1
“ internamente ”. Contudo, nossa argumenta çã o
anterior deixou claro que o funcionamento desse
í tipo de metáfora contraria tudo o que sabemos
¡

I sobre as seres vivos. Encontramo- nos, pois, diante


1 '
de dificuldades e resistê ncias, porque nos parece
que a ú nica alternativa à visão do sistema nervo-
i ff so como funcionando com representações é a
negação da realidade circundante. Com efeito, se
1

I I o sistema nervoso não funciona - e nem pode


funcionar - com representações do mundo que : 35. A Odisseia epistemo possível. Temos de aprender a andar sobre
nos cerca , como entã o surgiu a extraordin á ria gica : navegando entre o re -
¡moinho Caribdes do so-
uma linha mediana , sobre o próprio fio da na-
1
eficácia operacional do homem e dos animais, e sismo e o monstro Cila do valha ( Fig. 35).
sua imensa capacidade de aprendizagem e mani- ¡sentacionismo . De fato, por um lado temos a armadilha de
! pula ção do mundo? Se negarmos a objetividade supor que o sistema nervoso funciona com re-
íl de um mundo cognoscível , n ão cairemos no caos presentações do mundo. É uma cilada , porque
da total arbitrariedade, pois assim tudo se torna nos cega para a possibilidade de explicar como
m- - possível? funciona o sistema nervoso , momento a momen-
E como andar sobre o fio de uma navalha. De to, como um sistema determinado e com clausura
1 um lado há uma armadilha : a impossibilidade de operacional, como veremos no capítulo seguinte.
compreender o fenômeno cognitivo se assumi- Por outro lado, temos a outra armadilha , que

I i
mos um mundo de objetos que nos informam , já
que não h á um mecanismo que de fato permite
tal “ informação”. De outra parte , nova armadilha:
nega o meio circundante e supõe que o sistema
nervoso funciona totalmente no vazio, o que leva
a concluir que tudo vale e tudo ê possível. É o
o caos e a arbitrariedade da ausência do mundo extremo da solidão cognitiva absoluta , ou sollpsis-
objetivo, donde se conclui que tudo parece ser mo (da tradição filosófica clássica , que afirmava

!•

il
I
150 A Á RVORE plÍNIOS COMPORTAMENTAIS 151
DO CONHECIMEMTO
que só existe a interioridade de cada um). Trata- unidade segundo suas interações com o meio, e
se de uma cilada , porque não permite explicar a \ descrever a historia de suas inter-relações com
adequação ou a comensurabilidade entre o fun- ele. Nessa perspectiva - na qual o observador
cionamento do organismo e o de seu mundo. pode estabelecer relações entre certas caracterís-
Esses dois extremos - ou armadilhas existi-
- ticas do meio e o comportamento da unidade - a
ram desde as primeiras tentativas de compreen- dinámica interna desta é irrelevante.
der o fenômeno do conhecimento em suas raízes Nenhum desses dois domínios possíveis de des-
mais clássicas. Atualmente, predomina o extre- crição é problemático em si. Ambos são necessá-
mo representacionista; noutras épocas, prevale- rios para o pleno entendimento de uma unidade.
ceu a visão oposta. I É o observador quem os correlaciona a partir de
Queremos propor agora um modo de cortar sua perspectiva externa. É ele quem reconhece
esse aparente nó górdio, e encontrar uma manei- que a estrutura do sistema determina suas intera -
ra natural de evitar esses dois abismos que cer- I ções, ao especificar que configurações do meio
cam o fio da navalha. Na realidade , o leitor aten- podem desencadear no sistema mudanças estru-
to já deverá ter-se adiantado ao que vamos dizer, turais. É ele quem reconhece que o meio não
pois é o que está contido nas páginas anteriores. especifica ou instrui as mudanças estruturais do
A solução encontrada foi a de manter uma clara sistema. O problema começa quando passamos,
contabilidade lógica. Ela equivale a não perder sem perceber, de um domínio para o outro, e
de vista aquilo que vem sendo exposto desde o começamos a exigir que as correspondências que
começo: tudo o que é dito é dito por alguém. podemos estabelecer entre eles - pois podemos
Como todas as solu ções para aparentes contradi- ver os dois ao mesmo tempo - façam de fato
ções, tudo consiste em sair do plano da oposição parte do funcionamento da unidade: nesse caso,
e modificar a natureza da pergunta, passando para o organismo e o sistema nervoso. Se mantiver-
um contexto mais abrangente. mos límpida a nossa contabilidade lógica , essa
Na realidade, a situação é simples. Como ob- complicação se dissipará. Tomaremos consciên-
servadores, podemos ver uma unidade em domí- cia dessas duas perspectivas e as relacionaremos
nios diferentes , a depender das distinções que num domínio mais abrangente por nós estabele-
fizermos. Assim, por um lado podemos conside- cido. Dessa maneira, não precisaremos recorrer
rar um sistema no domínio de funcionamento de às representações nem negar que o sistema ner-
seus componentes, no â mbito de seus estados voso funciona num meio que lhe é comensurável,
internos e modificações estruturais. Partindo des-
se modo de operar, para a dinâmica interna do v como resultado de sua história de acoplamento
estrutural.
sistema o ambiente não existe, é irrelevante. Por Talvez tudo isso se tome mais claro por meio
outro lado, também podemos considerar uma de uma analogia . Imaginemos uma pessoa que
152 A Á RVORE DO CON HECI MEN TO [ÍNIOS COMTORTAMKNTAIS 153
viveu toda a sua vida num submarino e que, nunca
lógica , não devemos confundir o funcionamento
tendo sa ído dele, recebeu um treinamento per-
feito de como operá-lo. Agora estamos na praia e do submarino em si, sua dinâ mica de estados,
vemos que o submarino se aproxima e emerge com seus deslocamentos e mudanças de posição
graciosamente. Pelo rádio, dizemos ao piloto: no meio. A dinâ mica dos estados do submarino -
“ Parabé ns, você evitou os recifes e veio à com seu piloto que não conhece o mundo exte-
tona rior - nunca acontece num funcionamento com
com muita elegância; as manobras do submarino
foram perfeitas" . Dentro da embarcação, porém , representações de mundo vistos pelo observador
nosso amigo se surpreende: “Que história é essa externo. Não implica “ praias” , nem “ recifes”, nem
de recifes e de emergir? Tudo o que fiz foi mover “superf ície ”, mas apenas correlações entre indi-
alavancas, girar botões e estabelecer certas rela- cadores, dentro de certos limites. Entidades como
ções entre os indicadores de umas e de outros, praias, recifes ou superf ícies são vá lidas unica-
na seqíiência prescrita à qual estou acostumado. mente para um observador externo, não para o
Não fiz manobra alguma e não sei de que sub I submarino nem para o piloto, que funciona como
- um componente dele.
marino você está falando. Deve ser brincadeira ”.
Para o homem dentro do submarino só exis Nessa analogia, o que é válido para o subma-
tem as leituras dos indicadores, suas transições
- rino o é também para todos os sistemas vivos:
e para o sapinho de olho virado, para a menina-
as maneiras de obter certas relações específicas
entre elas. Somente nós, que estamos de fora lobo e para cada um de nós , seres humanos.
,
vemos como mudam as relações entre o subma
rino e seu ambiente. Percebemos que sua con
-
duta existe e que ela pode parecer mais ou me-
- ¡"omportamento e O que chamamos de comportamento, ao obser-
nos adequada, de acordo com as conseqiiências sistema nervoso var as mudanças de estado de um organismo em
que produzir. Se temos de manter a contabilidade seu meio, corresponde à descrição que fazemos
dos movimentos do organismo num ambiente que
assinalamos. A conduta não é alguma coisa que
o ser vivo faz em si , pois nele só ocorrem mu-
dan ças estruturais internas, e n ão algo assinalado
Comportamento por nós. Na medida em que as mudan ças de es-
-
Chama se comportamento às mudanças de pos- tado de um organismo (com ou sem sistema ner-
tura ou posição de um ser vivo, que um observa
- voso) dependem de sua estrutura - e esta de sua
dor descreve como movimentos ou ações em re-
la ção a um determinado ambiente. -
história de acoplamento estrutural , essas mu-
danças de estado do organismo em seu meio se-
rão necessariamente congruentes ou comensurá-

!
veis com ele, quaisquer que sejam as condutas e

1
154 A Á RVORE DO CONHECIMENTO
os ambientes que descrevamos. Por isso, o com-
portamento, ou configuração específica de movi-
I
mentos, parecerá ou não adequado a depender
do ambiente em que o descrevermos. O êxito ou í
fracasso de uma conduta são sempre definidos
pelo âmbito de expectativas especificadas pelo I
observador. Se o leitor adotar os mesmos movi-
mentos e posturas que agora adota ao ler este
livro no meio do deserto de Atacama , sua con-
duta será não apenas excê ntrica , mas também I
patológica.
Assim, o comportamento dos seres vivos não
i é uma invenção do sistema nervoso e nã o está
í exclusivamente ligado a ele, já que o observador
verá comportamentos ao observar qualquer ser
¡

J
vivo em seu meio. O que a presença do sistema
nervoso faz é expandir o domínio de condutas
i possíveis, ao dotar o organismo de uma estrutura
espantosamente versátil e plástica. Esse é o tema
do próximo capítulo.

I
II i
iu
ivI: m
¡i
I: í

!.
m
Ii ¡ :
.

mm
10 2 SISTEMA NERVOSO
unidade
I E CONHECIMENTO
conhecer o conhecer 1 organiza ção estrutura
i
ética
experiência cotidiana L autopoiese l -

fenômeno do conhecer fenomenolog í a


biológica
explicação
cientifica
J observador
,
9 açã o
3
y . domí nios linguí sticos fenômenos históricos
I linguagem conservaçã o — variação
consciência reflexiva 1
reprodu
H ção
J
i

8 4
¡I perturbações
!
! fenômenos culturais
VI:; fenômenos sociais
— acoplamento
ontogenia _
estrutural

i,1
' U unidades de terceira
ordem — unidades de segunda ordem
i
clausura operacional

•li . p
K
i;: E v ;íi
’jll .V 7 5
m .
* •.
atos cognitivos
. ]
L!
r filogenia

1; I
I 6 deriva
natural
história de
interações
if ; -
ji ampliação do
dominio de interações
comportamento — sistema
nervoso
I
conservação seleção _
da adapta çã o estrutural
plasticidade
ti : II estrutural
contabilidade lógica
representa ção /
determinação estrutural

solipsismo ») Fig. 36. Neurõnios. Desenho dc


Ei Santiago Ramón y Ca jal.

liv

9.9 It
i
íi 158 A Á RVORE DO CONHECIMENTO NERVOSO E CONHECIMENTO
Neste capítulo, queremos examinar de que ma-
f l neira o sistema nervoso expande os dominios
de intera ção de um organismo. Já vimos que o
SB comportamento nã o é uma invenção do sistema
1 nervoso. Ele é próprio de qualquer unidade vista
:
num meio onde especifica um domínio de per-
É
lii turba ções, e manté m sua organização como re-
sultado das mudanças de estado que tais pertur-
i bações nela desencadeiam.
É importante ter isso em mente, porque em

IIPi1H geral vemos o comportamento como algo carac-


terístico de animais com sistema nervoso. Contu-

III do , as associações habituais com a palavra com-


portamento vê m de a ções como andar, comer,
procurar etc. Se examinarmos mais de perto o
IIP! que todas essas atividades - em geral ligadas à

1
:

noção de conduta têm em comum , veremos
que todas elas se referem a movimento . Entre-
tanto, o movimento, seja sobre a terra ou na água ,

1
;
' não é uma caracter ística universal dos seres vi-
vos. Entre as muitas formas resultantes da deriva
natural, há muitas das quais ele está excluído.
/

Consideremos , por exemplo, a planta lustrada na História natural do


; lii 1' figura 37. Quando cresce fora d’água , a sagitá ria movimento
tem a forma que se vê na ilustração. No entanto,
quando o nível da água sobe e a submerge, a $2
planta muda de estrutura em alguns dias e assu-

ifi
me sua forma aqu á tica , vista na parte de baixo da
ilustra ção. A situação é totalmente reversível e
I ocorre com transformações estruturais bastante
Hf complexas, que implicam uma forma diversa de
diferencia ção das vá rias partes da planta . Esse é
EFig. 37. Sanitaria sagilufolia
Em suas formas aqu á tica e
[terrestre.

I! if
I
I 160 A Á RVORE DO CONHECIMENTO Em NERVOSO E CONHECIMENTO 161

l. um exemplo que poderíamos descrever como instâ ncias de comportamento. O que nos interes-
comportamento, na medida em que há modifica- sa ressaltar é que em geral é mais fá cil chamar a
ções estruturais que são observá veis na forma da Rj uma de comportamento e à outra não, somente
planta , como compensação de certas perturba- porque somos capazes de detectar movimento
[ f !' ções recorrentes do meio. Todavia , essa situa ção na ameba mas não na sagitá ria . Ou seja: há uma
é normalmente descrita como alterações no de- continuidade entre a motilidade da ameba e a
senvolvimento do vegetal e nã o como comporta- grande diversidade de condutas dos animais su-
I I
¡I mento. Por quê? [ periores , que sempre vemos como formas de
Comparemos o caso da sagitá ria com a con- movimento. Em contraste , as modifica ções de
duta alimentar de uma ameba prestes a ingerir diferencia ção da sagitária parecem distanciar-se
ii um pequeno protozoá rio por meio da extensão do que nos é mais familiar como movimento , dada
I
de seus pseudópodos (Fig. 38). Tais pseudópodos a sua lentidão, e as vemos apenas como mudan-
sã o expansões ou digita ções de protoplasma , ças de forma .
associá veis a mudan ças na constituiçã o fisico- Na realidade, do ponto de vista do apareci-
I 1 qu ímica local do có rtex e da membrana celular.
O resultado é que o protoplasma flui em certos
mento e transforma çã o do sistema nervoso, a pos-
sibilidade de movimento é essencial, e é isso que
pontos e empurra o animal numa direção ou faz com que a história do movimento seja tão
¡I noutra , configurando o seu movimento amebóide. r fascinante. Exatamente como e por que motivo é
Em contraste com o que acontece com a sagitá ria , o que veremos pouco a pouco, ao longo deste
i ninguém tem d ú vidas em descrever essa situação capítulo. Antes , porém, examinemos de modo
;
tf como um comportamento. mais abrangente os casos gerais. Consideremos
í, Do nosso ponto de vista , é claro que entre como ocorrem as possibilidades de movimento
U ambos os casos há uma continuidade. Ambas são -
Fig. 38 Ingestão. em todo o â mbito natural.

i £Q Na Fig. 39, foram postos num gráfico o tama-


nho das distintas unidades naturais, em função
li
i de sua capacidade de movimento, medido em
termos de velocidades má ximas. Dessa forma ,
torna-se evidente que , nos extremos do grande e
ij
do pequeno, as galá xias e as partículas elementa-
¡¡ ,
l í lii; res são capazes de movimentos muito rá pidos,
iii da ordem de milhares de quilómetros por segun-
3 j.T. Bonner, lhe Evolution do. No entanto, quando consideramos as molé-
'

f Culture in A nimal Societies,


cuias grandes, como as que constituem os seres
li rinceton University Press ,
980 vivos, o movimento será cada vez mais lento, à
MA NERVOSO E CONHECIMENTO 163
162 A Á RVORE DO CONHECIM ENTO
medida que aumenta o tamanho e as moléculas
se movem num meio viscoso. Assim, há molé-
fL - i°' 2

10 '°
culas, como muitas das proteínas de nosso orga-
10"
nismo, que são tão grandes que seu deslocamen-
to espontâ neo é desprezível , quando comparado
à motilidade das moléculas menores. 10‘
É nessas circunstâ ncias que ocorre , como vi-
If , 10;
mos no capítulo II, o aparecimento dos sistemas
autopoiéticos, tornado possível pela existência
1
dessa variedade de moléculas orgâ nicas de gran- 0
IO 2
'

de tamanho. Uma vez formadas as células de ta-


I í
-
ío 4
manho muito maior, a curva mostra essa guinada
-
brusca , na qual a história das transformações ce
lulares permite o surgimento de estruturas como
flagelos ou pseudópodos. Estes possibilitam mo- Partícula.'
tem por segundo ) elemen - í
vimentos considerá veis , porque põem em jogo 1012
lares é
forças muito maiores que as da viscosidade. Além 10-’ 4

disso, quando os organismos pluricelulares sur-


tv 10* IO2 IO1 1 10' 102 10> 104 10' IO6 107 10" ’
10 10'°
gem , alguns deles desenvolvem, por meio da di- Velocidade (centímetros por segundo)
ferencia ção celular, capacidades de locomoção I
muito mais espetaculares. Assim , um ant ílope I
pode correr a uma velocidade de vá rias dezenas |g. 39. Relações dc tamanho mento está , essencialmente, ausente como modo
de quilómetros por hora , apesar de ser de um
tamanho muitas vezes maior que a pequena mo-
l écula que se desloca (em média ) à mesma
^ velocidade na natureza. ( je ser £ presumível que isso esteja relacionado

com o fato de que as plantas se mantêm pela


fotossíntese, desde que para tanto disponham de
r um aporte local constante de nutrientes e água
velocidade. Portanto, os metazoá rios e os orga- -
nismos unicelulares móveis criam um â mbito de no solo , e de gases e luz na atmosfera . Isso per-
movimento que , para o seu tamanho, é ú nico mite a conservação da adaptação sem desloca-
na natureza . mentos grandes e rá pidos. Mas també m é certo
Não percamos de vista , contudo , que o apare- que a condição séssil é perfeitamente poss ível
cimento dessa classe de movimento não é uni- sem fotossíntese, como podemos ver nos m últi-
versal nem necessá rio para todas as formas de plos exemplos de linhagens de animais como os
seres vivos. As plantas são um caso fundamental picorocos. Estes moluscos, embora descendentes
resultante de uma deriva natural na qual o movi- de ancestrais com motilidade, adotaram esse modo

fm
I
1
í

i
164 A Á RVORE DO
CONHECIMENTO 1 NERVOSO E CONHECIMENTO 165

de vida ao encontrar condições locais de nutri- uma correlação recorrente ou invariante entre uma
ção que lhes permitem a conservação da adapta- área perturbada - ou sensorial - do organismo e
ção - como ocorre nas plantas sem desloca- uma á rea capaz de produzir movimento - ou
mentos durante a maior parte de sua ontogenia. motora que mantém invariante um conjunto
Para um observador, é evidente que no movi- de relações internas na ameba.
mento h á m ú ltiplas possibilidades , muitas das Outro exemplo pode tornar essa idéia mais
quais aparecem realizadas nos seres vivos como clara. A Fig. 40 mostra um protozoá rio que tem
resultados de sua deriva natural. Assim, os orga- uma estrutura muito especializada chamada
[40. Correlação sensório-
nismos móveis não só baseiam sua reprodução
Jjra na natação de um flagelo, que ao bater é capaz de deslocá-lo em
no movimento, como também sua alimentação e ffijzoã rio. seu meio aquoso. Nesse caso específico, o flagelo
modos de interação com o meio. É em referência 1 bate de tal forma que arrasta a célula por trás
a esses seres vivos, nos quais a deriva natural dele. Ao nadar assim às vezes o protozoá rio se
levou ao estabelecimento da motilidade, que o ,I encontra com um obstáculo, com o qual colide.
sistema nervoso adquire importâ ncia. Veremos O que acontece nessa situação? Há um compor-
agora , com mais detalhes, esse aspecto. tamento interessante de mudança de orientação:
: F
o flagelo se dobra ao topar com o obstáculo. Essa
dobladura desencadeia modificações em sua base
K Voltemos um pouco à ameba que está a ponto Coordenação inserida na célula, ò que por sua vez deflagra
iII F de engolir um protozoá rio. O que acontece nes-
sa seqúência pode ser resumido assim: a presen-
sensório-motora
unicelular
mudanças no citoplasma que o fazem girar um
'
pouco, de modo que ao reiniciar seus batimentos
i ça do protozoá rio gera uma concentração de subs- o flagelo leva a célula para uma direção diferen-
tâ ncias no meio que são capazes de interagir com .
í
te. Como resultado, vemos que o protozoário toca
a membrana da ameba , desencadeando mudan- o obstáculo e depois se torce e foge dele. Outra
Hl1 ças de consistência protoplasmá tica que resultam
1 na formação de um pseudópodo. Este, por sua & ,
vez, como no caso da ameba , o que ocorre é que
está sendo mantida uma certa correlação interna
vez, produz alterações na posição do animal, que entre uma estrutura (sensorial) capaz de admitir
se desloca , modificando assim a quantidade de certas perturba ções e uma estrutura (motora) ca-
moléculas do meio que interagem com sua mem- paz de gerar um deslocamento. O interessante
brana. Esse ciclo se repete, e a seqúência de des- desse exemplo é que as superf ícies sensorial e
locamento da ameba , portanto, produz-se por
sm meio da manutenção de uma correlação inter-
na entre o grau de modificação de sua membra-
motora são a mesma e, portanto, seu acopla-
mento é imediato.
Vejamos ainda outro exemplo desse acopla-
; i, !
na e as mudanças protoplasmá ticas que percebe- I: mento entre superfícies sensoriais e motoras. Há

I mos como pseudópodos. Ou seja, estabelece-se bacté rias (unicelulares) que têm, como alguns

illi í
-1 I

I
166 A Á RVORE DO CONHECIMENTO ] jjMA NERVOSO E CONHECIMENTO
protozoários, flagelos de aparência semelhante. 142. Um pequeno
No entanto, como se vê na Fig. 41, esses flagelos pterado: a hidra.
funcionam de forma muito diferente. Em vez de G3
bater, como no caso anterior, simplesmente gi-
ram fixos sobre sua base, de maneira a constituir
uma verdadeira hélice propulsora para a bacté-
ria . Além disso, os giros tornam possíveis ambas
as direções. Contudo , há uma delas em que a


coordenação das rotações resulta num nítido des-
locamento da bactéria , enquanto que na direção
oposta essa coordena çã o faz com que a bactéria ___
simplesmente balance aos solavancos, sem sair
do lugar. É possível seguir os movimentos de uma ^ y '
dessas bactérias sob o microscópio, e observar Fig. 41. Propulsão flagelar da
,
suas mudanças em condições diferentes e con- 1 acté ria
Ü troladas. Se a pomos, por exemplo, num meio
em que num canto tenhamos colocado um grão £
de açúcar, observa-se que ela logo deixa de ficar
aos solavancos, muda a direção de giro dos
flagelos e se dirige para a zona de maior concen-
tração de a çú car, seguindo o seu gradiente de I
concentra ção. Como isso ocorre? Acontece que como quimiotaxia, e é um caso de conduta de
na membrana da bactéria há moléculas especiali- nível unicelular, do qual se conhecem muitos de-
zadas, capazes de interagir especificamente com talhes moleculares.
1
os açúcares. Assim , quando há uma diferença de Ao contrá rio dessas bacté rias, a sagitá ria de
concentração em seu pequeno entorno, produ- que falamos - bem como outras plantas - não
zem-se alterações no interior, que determinam a têm uma superf ície motora que as dote de movi-
mudança na direção de giro do flagelo. Portanto, mento. De fato, encontramos entre as bactérias
a cada momento se estabelece de novo uma rela- casos que são, por assim dizer, um meio-termo
ção está vel entre a superf ície sensorial da bacté- entre a capacidade de movimento e a ren ú ncia a
ria e sua superf ície motora. Isso lhe possibilita o ele. O Caulobacter, por exemplo, quando está
comportamento nitidamente discriminatório de num meio de alta umidade, fixa-se ao solo por
dirigir-se para as zonas de maior concentração meio de um pedestal, numa forma do tipo vege-
£ . =
H. Berg, Sei Amer. 233
tal. Entretanto, quando acontece um per
de certas substâ ncias. Esse fenômeno é conhecido .
36 1975. íodo de

ir I
168 A Á RVORF. DO CONHECIMENTO [STEMA NERVOSO E CONHECIMENTO 169

dessecamento, a bacteria se reproduz, e as novas 43. Esquema da diversi-


células crescem com um flagelo capaz de trans- KSILK chilar nos tecidos da
'Jí ' >

Sffhitlra. com destaque para os


porta-las a um ambiente mais ú mido.
^Bfeur ó nios.

Vimos, nos exemplos anteriores, que o movimento Correla ção sensorio-


r dos unicelulares - ou conduta de deslocamento motora multicelular
- baseia-se numa correlação muito específica entre
as superficies sensoriais e as superficies respon-
É sá veis pelo movimento, ou motoras. Vimos tam-
:

; bém que essa correlação se faz por meio de pro- y
; cessos no interior da célula , ou seja, mediante

K< transforma ções metabólicas pró prias da unidade


celular. O que acontece no caso dos organismos
metacelulares?
i1
Examinemos novamente essa situa ção, por
Ih meio de um exemplo. A Fig . 42 mostra a fotogra-

í: ái
fia de urna hidra, como as que podem ser encon-
tradas na lagoa do Parque O’Higgins de Santia -
go. Esses metazoá rios pertencem ao grupo dos
l! celenterados , uma linhagem de animais muito
I Ü! íji antigos e primitivos, formados por urna dupla
camada de células em forma de vaso. Eni sua
borda, alguns tentáculos permitem que o animal
se mova na água e capture outros animais, que
ingere e digere por meio da secreção de sucos interior. Também encontramos nas hidras algu -
digestivos. Se observarmos a constituição celular mas cé lulas de cará ter motor, dotadas de fibrilas
I desse animal, veremos urna dupla camada. Urna contrateis, dispostas tanto longitudinalmente quan-
P
se volta para o interior e outra para o exterior. to radialmente na parede do animal (Fig. 43). Ao
Hl Nessas duas superficies encontramos uma certa se contrair em diferentes combinações, essas cé-
diversidade de cé lulas. Assim , há células com lan- lulas musculares produzem toda a diversidade de
cetas, que ao serem tocadas lançam seus projé- movimentos do animal.
teis ao exterior, enquanto outras tê m vacú olos É evidente que para que ocorra uma a ção coor-
capazes de secretar líquidos digestivos para o denada entre , digamos, as cé lulas musculares dos

Bll I
170 A Á RVORE DO CONHECIMENTO 1 EMA NERVOSO E
" CONHECIMENTO 171

tentáculos e as células secretoras do interior, é entre si por meio da rede interneuronal para in-
preciso que haja algum tipo de acoplamento en- tegrar, em seu conjunto, o sistema nervoso.
tre elas. Não basta que estejam simplesmente dis- I:
postas nessa dupla camada.
Para entender como se dá esse acoplamento, rutura neuronal Os neurônios se distinguem por terem ramifica-
basta observar com mais detalhes o que há entre ções citoplasmá ticas de formas específicas que se
as duas camadas celulares. Ali encontramos célu- estendem por enormes distâ ncias, da ordem de
las de um tipo muito peculiar, com prolongamen- í
dezenas de milímetros no caso das maiores. Essa
tos que se estendem por distâncias consideráveis característica neuronal universal, presente em to-
dentro do animal. A peculiaridade dessas células dos os organismos dotados de sistema nervoso,
é que por meio de seus prolongamentos elas determina o modo específico pelo qual este par-
põem em contato elementos celulares topográfi- ticipa das unidades de segunda ordem, que inte-
camente distantes. Trata-se de células nervosas, gra ao pôr em contato elementos celulares situa-
ou neurônios , em sua forma mais simples e pri- dos em muitas partes diferentes do corpo. Não
mitiva. A hidra tem uma das formas mais simpli- devemos desprezar a delicada série de transfor-
ficadas de sistema nervoso que se conhece, cons- mações de crescimento necessá rias para que uma
titu ído por uma rede que inclui essa classe parti-
cular de células, assim como receptores e efetores.
-
célula que medindo inicialmente uns poucos
milionésimos de metro - chega a ter ramificações
Geralmente, o sistema nervoso desse animal apa- de forma específica que podem atingir dezenas
rece como um verdadeiro emaranhado de inter- de milímetros, numa expansão de vá rias ordens
conexões, que se estendem para todas as partes de magnitude (Fig. 44).
de seu corpo através do espaço entre as células. É por meio de sua presença f ísica que os
Dessa maneira , ele possibilita a interação de ele- neurônios acoplam , de muitos modos distintos,
mentos sensoriais e motores distantes. grupos celulares que de outra maneira só pode-
Desse modo temos, em todos os detalhes, a riam acoplar-se pela circulação geral dos humo-
mesma situação existente no caso do comporta- res internos do organismo. A presença física de
mento unicelular. Uma superf ície sensorial ( nes- um neurônio permite o transporte de substâ ncias
te caso, células sensoriais), uma superf ície motora
entre duas regiões por meio de um caminho muito
(aqui, células musculares e secretoras) e vias de
específico, que não afeta as células circundantes
interconexão entre ambas as superf ícies (a rede e sua entrega local.
neuronal). O comportamento da hidra (alimenta- A particularidade das conexões e interações
ção, fuga , reprodu ção etc.) resulta das diferentes que as formas neuronais tornam possíveis consti-
maneiras como essas duas superf ícies - a senso- tui a chave mestra do funcionamento do sistema
rial e a motora - se relacionam dinamicamente nervoso.
172 A Á RVORE "EMA NERVOSO E CONHECIMENTO 173
DO CONHECIMENTO
As influências recíprocas que ocorrem entre Estas são liberadas (ou recolhidas) nos terminais
os neurônios são de muitos tipos. A mais conhe- ; e desencadeiam mudanças de diferenciação e cres-
cida de todas é uma descarga elétrica , que se cimento nos neurô nios, nos efetores e nos
propaga em alta velocidade pelo prolongamento sensores com os quais eles se conectam.
neuronal chamado axônio, como se fosse um ras- Com que tipos de célula os neurônios se co-
tilho de pólvora. É por isso que freq üentemente nectam? Na realidade, eles se ligam a quase to-
se diz que o sistema nervoso funciona à base de dos os tipos celulares de um dado organismo,
trocas elétricas. Mas isso não é totalmente corre- porém o mais comum é que cheguem, com suas
to, já que os neurônios não interagem apenas expansões, a outros neurônios. Essas expansões
por meio desse tipo de trocas. Também o fazem nervosas - conhecidas como dendritos e termi-
í
- e de modo igualmente constante - por meio de g. 44. O neurônio e sua -
nais axônicos são por sua vez muito especiali-
substâ ncias transportadas no interior dos axônios. tensão.
[ zadas. Entre essas zonas e os corpos celulares

P
I
I

1
174 A Á RVORE 1 175
DO CONHECIMENTO ÍEMA NERVOSO E CONHECIMENTO
se estabelecem os contatos chamados sinapses.
i Sinapse
1 listas constituem o ponto em que efetivamente
se produzem as influencias m ú tuas no acopla- de todos as neurónios que se conectam
[ sinapse é o ponto de contato estreito
mento entre um neurônio e outro. As sinapses, litre os neurónios ou entre os neurónios e com ele - ou o inverso (Fig. 46) por
i ¡Utras células, como no caso da sinapse meio da difusão de metabólitos. Estes saem,
portanto , são as estnituras efetivas que permitem .
uromuscular. Nesses pontos, as membra- penetram pelas superficies siná pticas e
ao sistema nervoso a realização de interações es- 3 '
de ambas as células aderem intimamen- sobem pelos axónios ou dendritos até os
pecíficas entre grupos celulares distantes. i -3iasAlém disso, nesses locais as membranas respectivos corpos celulares. Desse duplo
8* 1£ especializam na secreção de moléculas tráfego elétrico e metabólico depende, a
Embora no sistema nervoso a esmagadora
maioria dos contatos sin á pticos ocorra entre
i «¿ped á is, os neurotransmissores. Por isso,
um impulso nervoso que percorre um
cada momento, o estado de atividade e o
estado estrutural de cada neurônio no sis-
neurónios, estes fazem sinapses com muitos ou - neurô nio e finalmente chega a uma termi- tema nervoso.
tros tipos de células do organismo. Tal é o caso nação siná ptica , produz a secreçã o do
péurotransmissor. Este cruza o espaço exis-
das células que denominamos coletivamente de tente entre as membranas e desencadeia
superficie sensorial. Na hidra , por exemplo, essa á uma alteração elétrica na célula seguinte.
i
Somente por meio de especializações como
\ superficie sensorial inclui todas as células capa- fesas é possível entre os neurónios - assim
t bs çomo entre eles e outras células - uma ¡n-
zes de responder a perturbações específicas, se- ?! j
ja do meio (como as células com lancetas), seja rtl
' fluencia m ú tua e localizada , e não difusa
[generalizada , como ocorreria se as intera-
e

do próprio organismo (como as células quimio- Eções se dessem por meio de modificações
receptoras). Do mesmo modo, há neurónios que b ¡ da concentração de algumas moléculas na
- corrente sanguínea.
se conectam com células da superficie motora , I
i Sobre cada neurônio, em sua á rvore
especialmente as musculares, numa configura ção :
• ¡ dendr ítica , há muitos milhares de termina-
i

muito precisa. Para resumir, o sistema neuronal : íçôes siná pticas de centenas de neurónios
diferentes. Cada uma dessas terminações
[
está inserido no organismo por meio de m ú lti- \ i j dará uma pequena contribuição à totalida-
i| Fig .
45. Reconstru ção tridimensional de
plas conexões com muitos tipos de célula . For- i :
[ de da mudança do neurônio ao qual se todos os contatos siná pticos recebidos pelo
corpo celular de um neurônio motor da
ma-se assim uma rede tal que entre as superficies j: conecta . Alé m disso, cada neurônio é capaz
de influenciar quimicamente a estrutura medula espinhal.
sensorial e motora há sempre uma teia de inter-
conexões neuronais, o que constitui o conjunto I
que chamamos de sistema nervoso.
.
1:
:
Essa arquitetura fundamental do sistema nervoso A rede interneuronal
é universal e vale não apenas para a hidra mas
também para os vertebrados superiores, inclusive
o homem . A ú nica diferença está não na organiza-
ção fundamenta ] da rede geradora de correlações
mm* i

176 A Á RVORE DO
CONHECIMENTO 1 IMA NERVOSO E CONHECIMENTO 177

sensório-motoras, mas na forma como essa rede variações em torno do mesmo tema. Nos vermes,
se implementa , por meio de neurônios e cone- -
por exemplo , o tecido nervoso entendido como
xões que variam de uma espécie animal para -
uma rede de neurô nios foi separado como um
outra. Com efeito, o cadastro dos tipos neuronais compartimento em forma de cordã o dentro do
que encontramos nos sistemas nervosos dos ani- animal , com nervos por onde passam conexões
mais revela uma enorme diversidade. Algumas que v ã o ou vê m das superf ícies sensoriais e
dessas variedades aparecem na Fig. 46. Além dis- motoras ( Fig. 47). Cada variação no estado motor
so, se pensarmos que no cé rebro humano h á ft do animal será produto de uma certa configura-
certamente mais de IO10 , e talvez mais de 10 nde ção de atividade em certos grupos de neurônios
neurônios (dezenas de bilhões), e que cada um que se conectam aos m úsculos ( neurônios moto-
deles recebe m ú ltiplos contatos de outros res). Mas essa atividade motora gera mudanças
neurônios - e por sua vez se conecta com muitas m ú ltiplas, tanto nas células sensoriais localizadas
células a combinatória de interações possíveis nos m úsculos, quanto na superf ície de contato
é mais do que astronómica. com o meio e nos próprios neurônios motores.
Mas insistamos: a organiza ção básica de um Fig - 46. Diversidade neurona! Esse processo se realiza por meio de mudanças
sistema nervoso tão imensamente complexo como (da esquerda para a direita): I na própria rede de neurônios interpostos ou -
célula bipolar da retina ,
o do homem segue , no essencial , a mesma lógica po celular de um neurôcor - 1- interneurônios - que os interconecta . Dessa
nio 1
que a da humilde hidra . Na série de transforma- motor da medula espinhai , cé- maneira , há uma cont ínua correlação sensório -
ções das linhagens que vão desde a hidra até os lula mitral do bulbo olfatorio, motora, determinada e mediada pela configura -
cé lula piramidal do có rtex
mamíferos, deparamos com desenhos que são cerebral de um mamífero. ção da atividade dessa rede interneuronal . Como
pode haver uma quantidade praticamente ilimi-
tada de estados possíveis dentro dessa rede, os
comportamentos possíveis dos organismos tam-
bé m podem ser praticamente ilimitados.
Esse é o mecanismo-chave por meio do qual
o sistema nervoso expande o domínio de intera-
ções de um organismo: acopla as superf ícies
sensoriais e motoras, mediante uma rede de
neurônios cuja configuração pode ser muito
variada . Tal mecanismo é eminentemente sim-
ples. Mas, uma vez estabelecido , permitiu , na
filogenia dos metazoá rios, uma variedade e uma
;
diversificação imensa de dom ínios comportamen-
i
tais. Com efeito, os sistemas nervosos de diversas

,
178 A Á RVORE NERVOSO E CONHECIMENTO 179
DO
CONHECIMENTO^L A

espécies se diferenciam , essencialmente, apenas movimento dá origem a uma mudança da ativi-


nas configura ções específicas de suas redes dade sensorial , ao diminuir a pressão sobre o
interneuronais. neurônio sensitivo. Com isso se estabelece uma
No homem , cerca de 1011 (cem bilhões ) de in- i certa relação recíproca entre as superf ícies sen-
Ri
terneurônios interconectam em torno de 106 (um soriais e as motoras. Descrito de fora , o que acon-
milhão) de neurônios motores, que ativam uns teceu foi que a mão se afastou da influê ncia de
poucos milhares de m ú sculos, com aproximada - um est í mulo doloroso. Descrito da perspectiva
mente 107 (dezenas de milhões ) de células senso- J s* do sistema nervoso, ocorreu a manutenção de
riais distribu ídas como superf ícies receptoras em I uma certa correlação sensório-motora em seu in-
vá rios locais do corpo. Entre os neurônios moto- terior, por meio de uma rede neuronal . Contudo,
res e os sensoriais interpõe-se o cé rebro , gigan- como nesse mesmo neurônio motor podem in-
tesco conglomerado de interneurônios que os I fluir muitos outros neurônios - que têm origem,
interconecta (a uma razão de 10/ 100.000/1) numa por exemplo, no có rtex cerebral -, o comporta-
dinâ mica sempre em mudança. mento de deixar a mão sob um excesso de pres-
Por exemplo, a Fig. 48 esquematiza um neu - são també m é possível . Mas isso levaria ao es-
rô nio sensorial da pele , capaz de responder ( ele- tabelecimento de um novo equilíbrio interno ,
tricamente) a um aumento de pressão nesse pon-
to. O que causa essa atividade? Bem, esse neurô- f.
nio se conecta com o interior da medula espi- I
nhal, onde faz contatos com muitos interneurô- Fig. 47. Desenho do sistema !
E
nervoso de uma minhoca
nios. Entre estes, alguns estabelecem contato di- (Tubulanus annulata), mos
í reto com um neurônio motor, que por sua ativi- trando o agrupamento de neu-
- •
.
í

dade é capaz de desencadear a contração de um rônios em uma corda ventral, j


1, com uma porção cef á lica !
,•
mú sculo, o que resulta num movimento. Esse avolumada

ig. 48. Correlação sensó rio-


iotora no movimento do
180 A Á RVORE DO CONHECIM ENTQ IA NERVOSO E CONHECIMENTO 181
implicando outros grupos neuronais diversos dos
envolvidos no caso da retirada da mão. n úcleo geniculado lateral do tá lamo (NGL) -, ve-
Imaginemos agora , a partir de situações espe- ' rifica-se que essa estrutura não age simplesmente
cíficas e isoladas como o exemplo anterior da como uma estação de passagem da retina ao
pressão dolorosa , um organismo em funciona- córtex. Para ela convergem muitos outros cen-
mento normal. A cada momento, veremos que o tros, com múltiplos efeitos, que se superpõem à
sistema nervoso estará funcionando segundo m úl ação retiniana. É o que nos mostra o diagrama
- do box, no qual uma das estruturas que afetam o
tiplos ciclos internos de interações neuronais
(como o dos neurônios motores e as
I NGL é, precisamente, o próprio córtex visual. Ou
fibras sen-
soriais do músculo) numa mutação incessante. seja , ambas as estruturas estão numa relaçã o de
Essa imensa atividade é superposta e modulada [ efeito m ú tuo e não de simples seqú encialidade.
pelas modificações na superf ície sensorial devi- Basta contemplar essa estrutura do sistema ner-
das a perturbações que são independentes do voso - embora não seja possível entrar nos mui-
organismo ( como no caso da pressão sobre a tos detalhes das relações de atividade que, em
pele). Como observadores, estamos habituados a —
cada momento, ali se especificam para nos con-
dirigir nossa atenção para o que nos parece mais vencermos de que o efeito de projetar uma ima-
gem sobre a retina não é como ligar de uma li-
-
acessível as perturbações externas. Assim, ten-
nha telefónica para um receptor. É mais como
demos a pensar que elas são determinantes. No
entanto, tais perturbações externas, como acaba- uma voz ( perturbaçã o), que se soma às muitas
mos de dizer, só podem modular o constante ir e vozes de uma agitada sessão de transações na
vir dos equilíbrios internos. Essa idéia é impor bolsa de valores (relações de atividade interna
- entre todas as projeções convergentes), na qual
tante, e pode ser ilustrada com o que ocorre no
sistema visual. Em geral, pensamos na percepção cada participante ouve o que lhe interessa.
visual como uma determinada opera ção sobre a
l
imagem retiniana , cuja representaçã o será em
seguida transformada no interior do sistema ner- gausura operacional Começamos dizendo que o comportamento é a
voso. Essa é a abordagem representacionista do ro sistema nervoso descrição - feita por um observador - das mu-
fenômeno. Entretanto, ela desaparece logo que danças de estado de um sistema em relação a um
nos damos conta de que, para cada neurônio da meio, ao compensar as perturba ções que dele
retina projetado sobre o nosso córtex visual , co recebe. Dissemos també m que o sistema nervoso
- não inventa o comportamento, mas sim o expan-
nectam-se a essa mesma zona mais de cem
neurônios que provêm de outras partes do córtex. de de forma dramá tica . Agora deve estar mais
E mais: antes de chegar ao córtex quando a claro o que queremos dizer com “expandir". Sig-
-
projeção da retina entra no cérebro, no chamado nifica que o sistema nervoso surge na história
filogenética dos seres vivos como um tecido de
1
. I
h

182 A Á RVORE DO CONHF.CIMEN'TQ EMA NERVOSO E CONHECIMENTO 183


células peculiares, que se insere no organismo neurônios, que contribuem com sua mudança de
de tal maneira que acopla pontos nas superf ícies atividade para as alterações de estados globais de
sensoriais com pontos nas superf ícies motoras. f toda a rede. Essas modifica ções podem ou não
Assim , ao mediar esse acoplamento com uma rede resultar numa mudança em algum ponto das su-
de neurônios, amplia -se o campo das possíveis perf ícies motoras. For exemplo, uma baixa da con-
correla ções sensório-motoras do organismo e se centra çã o de glicose no sangue pode, mediante
expande o domínio do comportamento. certas correlações internas, levar à secreção de
Torna -se claro , pois, que a superf ície sensorial mais insulina pelas células do pâ ncreas. Como
não apenas inclui as células que vemos externa - resultado, a correlação sangu ínea da glicose se
mente como receptores capazes de ser perturba- mant ém dentro de certos limites.
dos pelo ambiente, como também todas as cé lu - í
Assim, o sistema nervoso contribui ou partici -
las capazes de exercer influê ncia sobre o estado -
( pa no funcionamento de um metazoá rio ao se
da rede neuronal. Por exemplo, em algumas ar- :
.
{*. constituir - por meio de m ú ltiplos circuitos en-
t é rias h á células quimio-receptoras capazes de ser í tremeados - num mecanismo que conserva as
espec í ficamente modificadas por mudanças de const â ncias internas, que são essenciais para a
concentraçã o no meio sangüíneo de um verte - manutençã o da organização do organismo em sua
é.

í
brado. Essas células por sua vez modificam certos I totalidade .
Sob esse â ngulo , é evidente que o sistema ner-
voso pode ser definido, no que se refere à sua
j organização, como dotado de uma clausura ope-
Conexões da via visual
Nesse quadro, o diagrama ilustra as m ú lti- xões que recebe de muitos lugares dife- racional . isto é, est á constitu ído de tal maneira
plas conexões presentes no n ú cleo geni- rentes do cérebro. Um diagrama semelhante que quaisquer que sejam suas mudanças elas
culado de um mamífero. Esse n ú cleo é a ( com outros nomes ) poderia ser desenha
região mais proeminente de conexões en-
- geram outras modificações dentro dele mesmo.
I do para qualquer outro n úcleo do sistema
tre a retina e o sistema nervoso central. Cada nervoso central. Assim, seu modo de operar consiste em manter
um dos nomes indicados no diagrama cor-
i córtex occipital certas relações entre seus componentes invariantes
responde a um agregado distinguível de
neurô nios em diferentes regiões do siste- diante das perturbações que geram , tanto na di-
col ículo superior
ma nervoso central , incluindo o córtex ce- nâ mica interna quanto nas intera ções do organis-
rebral. Como é evidente, a retina não afeta Ü mo de que faz parte. Em outras palavras, o siste-
o cérebro do mesmo modo que uma linha
telefónica encontra uma estação de relevo n ú cleo reticular ma nervoso funciona como uma rede fechada de
i rio NGL, pois para este convergem simul- do t á lamo
retina
K -í mudanças de relações de atividade entre seus
taneamente m ú ltiplos caminhos de inter-
.
conexòes. F m conseq úê ncia , a retina pode componentes.
i
-
modular - mas não especificar o estado
dos neurônios no nú cleo geniculado , que
hipotá lamo Locus coertileus
Dessa maneira , quando experimentamos uma
pressão excessiva num ponto do corpo, pode-
será constitu ído pela totalidade das cone - NGL núcleo geniculado lateral mos dizer, na condição de observadores: “ Ah! A
flip
!
*

184 A Á RVORE DO
CONHECIMENTO ;MA NERVOSO E CONHECIMENTO 185

contração deste musculo fará com que eu levan -


te o braço!”. Contudo , sob o ponto de vista do
funcionamento do sistema nervoso propriamen -
-
te dito como no caso do nosso amigo do sub-
marino o que ocorre é apenas a manutenção
da constâ ncia de certas relações entre elementos
sensoriais e motores, que foram transitoriamente
perturbados pela pressão externa. A relação in-
terna que se mantém , nesse caso, é relativamente
simples: é o equilíbrio entre a atividade sensorial
e o tônus muscular. Não é fá cil explicar de modo
sucinto o que determina o equil íbrio do tônus
muscular em relação ao restante da atividade do
sistema nervoso. Contudo, em princípio todo
Fig. 49 comportamento é uma visão externa da dança de
relações internas do organismo. Encontrar, em
História natural do sistema nervoso
cada caso , os mecanismos exatos de tais coerên-
da terra - há um sistema nervoso tipica- cias neurais, é a tarefa que se abre ao investigador.
mente concentrado em grupos celulares.
j O que dissemos mostra que o funcionamento
Estes assumem a forma de ganglios distri-
buídos de modo segmentar ao longo de : do sistema nervoso é plenamente consistente com
todo o animal, mas são interconectados por sua participação numa unidade autónoma , na qual
uma leve concentração cefá lica. Em outros
animais a concentração cef á lica pode ser
todo estado de atividade leva a outro estado de
enorme, como se vê claramente na lagosta atividade nela mesma , dado que seu modo de
e, mais ainda , no homem. operar é circular, ou em clausura operacional.
O resultado disso é que o funcionamen-
Nos celenterados como a hidra, o sistema to do sistema nervoso se diversifica tremen-
Portanto, por sua própria arquitetura , o sistema
nervoso está distribu ído de modo unifor
me por todo o organismo. O mesmo não
- damente, com o aumento da variedade dos nervoso n ão viola, e sim enriquece, esse cará ter
modos de interações neuronais que traz autónomo do ser vivo. Começam a tornar-se cla-
acontece com outros animais, como por consigo o crescimento da porção cefá lica.
exemplo os mam íferos. Há duas tendê n- É o que se vê em todas as linhagens de ros os modos pelos quais todo processo de co-
cias fundamentais na transformação do sis
tema nervoso, na história dos seres vivos:
- vertebrados, cefalópodes e insetos (Fig. 44). nhecer está necessariamente baseado no organis-
Em outras palavras, esse aumento de mas-
mo como uma unidade no fechamento operacio-
1) a de reunir os neurônios num comparti-
mento (cordão nervoso); 2) a de concen-
sa encef álica amplia enormemente as pos - nal de seu sistema nervoso. Da í se segue que
sibilidades de plasticidade estrutural do or-
trar um volume neuronal maior na extre-
midade cef á lica ícefaliza ção). Assim , nos
ganismo, o que é fundamental para a ca - fig. 49. Tamanho relativo da
todo conhecer é fazer, como correlações sensó-
pacidade de aprendizagem , tema sobre o
rio-efetoras nos domínios de acoplamento estru-

animais segmentados como os vermes qual voltaremos a falar adiante. íorçâo cefá lica do sistema
Jervoso em vá rios animais. tural em que existe o sistema nervoso.
I I

186
A Á RVORE DO
CONHECIMENTO 1 IMA NERVOSO E CONHECIMENTO 187
Mencionamos vá rias vezes que o sistema nervo
so está em contínua mudança estrutural, ou
- Plasticidade modificar drasticamente o modo de operar de
seja,
tem plasticidade. Na verdade, essa é uma grandes redes neuronais.
dimen-
são fundamental de sua participaçã o na Imaginemos um exemplo. Tomamos a pata de
consti-
tuição do organismo. Com efeito, a presen um rato e, localizando um dos músculos que acio-
ça dessa
plasticidade se traduz pelo fato de que nam os dedos, isolamos o nervo que desce da
o sistema
medula espinhal e o inerva. A seguir, cortamos o
-
nervoso, ao participar por meio dos órgãos sen
soriais e efetores - nos domínios de intera
- i
nervo e deixamos que o animal se recupere. De-
ção do
organismo que selecionam sua mudan pois de um certo tempo o reabrimos e examina-
ça estrutu-
ral, participa também da deriva estrutural mos o m úsculo. Veremos entã o que ele está
deste,
com conservação de sua adaptação. atrofiado, reduzido. No entanto, não fizemos ne-
Entretanto, a mudança estrutural do sistema nhuma alteração em sua alimentaçã o e irriga ção
nervoso normalmente não ocorre sob a forma de sanguínea. Só cortamos o tráfego elétrico e quí-
il mico que normalmente existe entre o músculo e
alterações radicais de suas grandes linhas
de co-
nexão. Em geral, estas são invariantes e s i o nervo ao qual ele se conecta. Se deixarmos que
ão habi-
tualmente as mesmas em todos os indivíduos í o nervo cresça novamente e volte a inervar o
de
uma espécie. Entre o zigoto fecundado e músculo, este se recuperará e a atrofia desapare-
o adul-
to - no processo de desenv
olvimento e diferen- cerá. Outros experimentos revelam que algo pa-
ciação celular -, à medida que se recido acontece entre muitos (senão todos) os
multiplicam os
neurônios vão se ramificando e se
conectando,
- :: elementos neuronais que compõem o sistema
segundo uma arquitetura que é própria nervoso. O nível de atividade e o tráfego quími-
da espé-
cie. O modo exato como isso ocorre, co entre duas células - nesse caso, uma muscular
mediante
processos de exclusiva determinaçã e um neurônio - modulam a eficácia e o modo
o local, é um
dos maiores e mais interessantes enigma de interação que ocorre entre elas durante sua
s da bio-
logia moderna. contínua mutação. Ao cortar o nervo, mostramos
Onde acontecem as mudanças de maneira dramática esse dinamismo.
estruturais,
i senão nas grandes linhas de conexão? í A plasticidade do sistema nervoso se explica
A respos
ta é que elas não ocorrem nas porque os neurônios não estão conectados como
conexões que
ligam grupos de neurô nios, mas se fossem fios com suas respectivas tomadas. Os
sim nas ca-
racterísticas locais dessas conex
ões. Ou seja, as pontos de interação entre as células constituem
modificações se dão no plano das ramific delicados equilíbrios dinâmicos, modulados por
ações
finais e nas sinapses. Nesses lugares um sem-número de elementos que desencadei-
, as altera-
ções moleculares resultam em am mudanças estruturais locais. Estas são o resul-
mudanças na
eficácia das interações siná pticas, tado da atividade dessas mesmas células, e tam-
que podem
bém de outras, cujos produtos viajam pela corrente
.* .

188 A ARVORE DO
CONHECIMENTO irEMA NERVOSO E CONHECIMENTO
, 189

0 cérebro e o computador insetos , por exemplo, parece que a plasticidade


é bem mais limitada , em parte por seu n ú mero
O sistema nervoso também n ào é
presentacionista , porque em cada intera ção
re- menor de neurônios e seu tamanho reduzido. Por
é seu estado estrutural que especifica isso, o fenômeno de mudança estrutural se mani-
quais
as perturbações que são possíveis, e
mudanças elas podem desencadear em
que festa com vigor entre os vertebrados e , em espe-
sua cial , entre os mam íferos . Dessa forma , toda
dinâ mica de estados. Seria um erro, por
tanto, definir o sistema nervoso como - interação, todo acoplamento, interfere no funcio-
ten-
do entradas ou sa ídas, no sentido
tradicio- namento do sistema nervoso, por causa das mu -
nal. Isso significaria que tais entradas e sa
ídas tomariam parte na definiçã o do
- danças estruturais que nele desencadeia . Toda
É interessante notar que a clausura opera siste-
cional do sistema nervoso nos diz que seu
- ma , como acontece com o computador
e experiência é modificadora , em especial em rela-
outras má quinas produzidas pela engenha
: funcionamento não cai em nenhum dos ria . Fazer isso c inteiramente razoá vel quan
- ção a nós, embora às vezes as mudanças não
- r-
extremos: nem o representacionista nem o
solipsista.
O sistema nervoso não é solipsista por
do projetamos uma máquina na qual o prin-
cipal é saber como queremos interagir com
-
sejam completamente visíveis.
Percebemos isso em relação ao comportamen-
I que, como parte do organismo , participa
das interações deste com o seu meio, que
- ela. Mas o sistema nervoso ( ou organismo
não foi projetado por ningu ém: é o resul-
tado da deriva filogenética de unidades
)
to. Não temos , atualmente, um quadro nítido de
quais são as mudanças estruturais do sistema ner-
!? nele desencadeia continuamente mudan-
centradas em sua própria dinâmica de es-
ças estruturais que modulam sua dinâmica VOSO dos vertebrados implicadas nessa plastici-
tados. Assim , o adequado é reconhecê lo
de estados. De fato, é fundamentalmente
como uma unidade definida por suas rela - - dade. Tampouco há uma descriçã o clara de como
' por isso que nós, como observadores, te
mas a impressão de que as condutas ani
- ções internas, nas quais as interações só essa constante especificação do modo de interação
mais são, em geral, adequadas às suas cir-
- atuam modulando sua dinâmica estrutural,
neuronal resulta em alterações bem definidas, que
isto é, como uma unidade dotada
cunstâ ncias. Eles n ão se comportam como de
se estivessem seguindo sua própria deter-
clausura operacional. Dito de outro modo: podemos observar na conduta. Mais uma vez , essa
o sistema nervoso não “ capta informações" circunstâ ncia constitui uma das á reas mais im-
minação, independcntemente do meio. Isso
do meio, como frequentemente se diz. Ao
ocorre assim , embora fiara o funcionamento
contrá rio, ele constró i um mundo, ao es portantes da pesquisa neurobiológica atual.
do sistema nervoso não exista o fora nem -
o dentro, mas sim a manutenção de corre
pecificar quais configurações do meio são No entanto, quaisquer que sejam os mecanis-
lações próprias que estão em cont ínua
- perturbações e que mudanças estas desen
- mos exatos que intervêm nessa constante trans-
cadeiam no organismo. A metáfora tão em
mudança . É o que acontece com os instru formação microscó pica da rede neuronal duran-
mentos indicadores do submarino do nos
- voga do cérebro como um computador não
- só é ambíg üa como está francamente equi te as intera ções do organismo, tais mudanças
so exemplo.
vocada.
-
nunca podem ser localizadas nem vistas como
algo próprio de cada experiência . Ou seja , não
podem jamais ser de tal natureza que possamos
sangu ínea e banham os neurônios. Tudo
isso é encontrar “a” recordação de seu nome em algum
II parte da dinâmica de intera ções do
organismo lugar da cabeça de um cachorro. Isso é impossí-
em seu meio.
vel, em primeiro lugar, porque as mudanças es-
Nà o se conhece sistema nervoso que
í
I não apre- truturais desencadeadas no sistema nervoso sã o
sente algum grau de plasticidade.
Mas entre os necessariamente distribuídas como resultado de
" I

190 A Á RVORE DO CONHECIMENTO EMA NERVOSO E CONHECIMENTO 191

modificações de atividade relativa numa rede porta mentos Dissemos e repetimos - para que não fosse es-
neuronal. Em segundo lugar, porque a conduta de Itos e comporta- quecido - que todo comportamento é um fenô-
responder a um nome é uma descrição feita por |ntos aprendidos meno relacional que nós, como observadores,
um observador de certas ações resultantes de de- percebemos entre organismo e meio. Contudo, o
terminadas configurações sensório-motoras. E es- â mbito de condutas possíveis de um organismo é
tas, por força de seu funcionamento interno, impli- determinado por sua estrutura , já que é ela que
cam, num sentido estrito, todo o sistema nervoso. especifica seus domínios de interação. Por isso,
A riqueza plástica do sistema nervoso não se cada vez que, nos organismos de uma mesma
deve a que ele guarda representações ou “engra- espécie, se desenvolvem certas estruturas inde-
mas” das coisas do mundo, mas à sua contínua pendentes das peculiaridades de suas histórias
transformação, que permanece congruente com de interação, diz-se que tais estruturas estão ge-
as transformações do meio, como resultado de
1 neticamente determinadas, e que os comporta-
cada interação que o afeta. Do ponto de vista do mentos que elas possibilitam (caso ocorram) são
observador, isso é percebido como uma aprendi- instintivos . Quando, pouco depois de nascer, o
zagem adequada . Acontece, poré m , que os bebê pressiona o peito de sua mãe e suga o ma-
neurônios, o organismo de que eles fazem parte milo, ele o faz independentemente de ter nasci-
e o meio em que este interage, funcionam reci- 1 do de parto natural ou cesariana, ou de se veio
procamente como seletores de suas mudanças ao mundo num luxuoso hospital de Santiago ou
estruturais correspondentes e se acoplam estru- no interior.
turalmente entre si. O funcionamento do orga- % Ao contrá rio, se as estruturas que tomam pos-
nismo, incluindo o sistema nervoso, seleciona as 1 síveis determinadas condutas nos membros de
mudanças estruturais que permitem que ele con- uma espécie se desenvolvem somente se há uma
tinue a funcionar. Do contrário se desintegrará. 3 história particular de interações, diz-se que as es -
Para um observador, o organismo parece mo- 4 truturas são ontogenéticas e que as condutas são
ver-se adequadamente num meio muíante, e por
isso ele fala em aprendizagem. Em seu modo de
J aprendidas. Nossa menina-lobo do capítulo an-
terior não teve as intera ções sociais que toda crian-
entender, as mudanças estruturais que ocorrem
1 ça tem, e seu comportamento de correr sobre os
4
no sistema nervoso parecem corresponder às cir- dois pés, por exemplo, não se desenvolveu . Até
cunstâ ncias das interações do organismo. Para o em coisas aparentemente tão elementares como
funcionamento do sistema nervoso, porém , só m correr, dependemos de um contexto humano, que
existe uma deriva estrutural contínua , que segue nos rodeia como o ar que respiramos.
o curso que , a cada instante, conserva o acopla- 4I Notemos bem que as condutas inatas e as
mento estrutural (adaptação) do organismo a seu aprendidas são, na qualidade de comportamen-
meio de interações.
1 i to, indistingu íveis em sua natureza e realização.

I .1
192 A Á RVORE NERVOSO CONHECIMENTO 193
DO
CONHECIMENTO MA E

A distinção está na história das estruturas que as jihecimento e No capítulo anterior, falamos de dominios com-
tornam possíveis. Portanto, a possibilidade de [ema nervoso portamentais. Neste, examinamos os fundamen-
classificá-las como uma ou outra dependerá de tos da organizaçã o do sistema nervoso. Com isso,
termos ou não acesso à história estrutural perti- movemo- nos mais e mais para perto dos fenó-
nente. No funcionamento presente do sistema menos que , no cotidiano, designamos como atos
nervoso n ão há tal distinção. de conhecimento. Agora estamos em condições
É importante perceber que atualmente tende- de refinar nosso entendimento sobre o que signi-
mos a considerar a aprendizagem e a memória fica dizer que um ato é cognitivo.
I como fenômenos de mudança de comportamen- Se pensarmos por um momento sobre o crité-
to que acontecem quando se “capta ” ou quando rio que utilizamos para dizer que algu é m tem
se recebe algo vindo do meio. Isso implica su- conhecimento, veremos que o que buscamos é
por que o sistema nervoso funciona com repre- uma a ção efetiva no domínio no qual se espera
sentações. Vimos que essa suposição obscurece uma resposta . Isto é, esperamos um comporta-
e complica muito o entendimento dos processos mento efetivo em algum contexto que assinala-
cognitivos. Tudo o que dissemos aponta para a mos ao fazer a pergunta . Assim , duas observa-
compreensão da aprendizagem como expressão ções do mesmo sujeito, sob as mesmas condi-
do acoplamento estrutural, que manterá sempre ções - mas feitas com perguntas diferentes
uma compatibilidade entre o funcionamento do podem atribuir diferentes valores cognitivos ao
organismo e o meio em que ele ocorre . Quando, que é visto como o comportamento desse sujeito.
como observadores, examinamos uma seqiiê n- Uma história da vida real ilustra claramente
cia de perturba ções compensadas pelo sistema esse ponto. Certa ocasião, num exame , foi pro-
nervoso de uma ou muitas maneiras possíveis, posto a um jovem estudante universitá rio o se-
parece-nos que ele internaliza algo do meio. Mas guinte: “Calcule a altura da torre da Universidade
já sabemos que fazer uma descrição como essa usando este altímetro”. O estudante tomou o ins-
seria perder nossa contabilidade l ógica . Seria trumento e um barbante comprido, subiu à torre,
tratar algo que é ú til à nossa comunica ção entre amarrou o altímetro ao cordel e o deixou cair
observadores como um elemento operacional cuidadosamente até a base do edif ício. Em segui-
do sistema nervoso. Descrever a aprendizagem da , mediu o comprimento do barbante: trinta
como uma internalização do meio confunde as melros e quarenta cent ímetros. No entanto, o pro-
coisas, porque sugere que na dinâmica estrutural fessor considerou errada a resposta. O estudante
do sistema nervoso ocorrem fenômenos que só fez um pedido ao diretor de sua escola e conse-
existem no dom ínio de descrições de alguns or- guiu uma nova oportunidade. De novo o profes-
ganismos que - como os nossos - são capazes sor lhe disse: “ Calcule a altura da torre da Uni-
de linguagem. versidade com este alt ímetro" . O jovem aluno
« PUM 1

' - ff 7
• '

194 A Á RVORE NERVOSO E CONHECIMENTO 195


DO
CONHECIMENTO ¡A

tomou o aparelho e foi aos jardins vizinhos à


torre, munido de um goniómetro. Colocando-se Conhecimento
a uma distâ ncia precisa dela , usou a longitude do
falamos em conhecimento toda vez que observamos um com-
ímetro para triangulá-la. Seu cá lculo foi de trinta
alt portamento efetivo (ou adequado) num contexto assinalado,

metros e quinze centímetros. O professor mais nu seja , num domínio que definimos com uma pergunta
uma vez disse que ele estava errado. Novo pedi - Explícita ou implícita) que formulamos como observadores.
do do estudante, nova oportunidade para proce-
der ao exame e, outra vez, o mesmo problema ...
O estudante utilizou seis procedimentos diferen-
tes para calcular a altura da torre com o altíme- em todas as formas particulares da cognição hu-
tro, sem usá-lo como altímetro. É evidente que, mana , teremos, naturalmente, de descrever todos
dentro de um certo contexto de observação, o os processos específicos e concretos que ocor-
aluno revelou muito mais conhecimento do que jr
rem na geração de cada um dos comportamen-
lhe era pedido. Mas no contexto da pergunta do tos humanos, em seus diferentes domínios de
professor seu conhecimento era inadequado. acoplamento estrutural . Para tanto, seria neces-
Notemos bem , então, que a avaliação de se há sá rio examinar de perto o funcionamento do sis-
ou não conhecimento ocorre sempre num con- 4 tema nervoso humano, o que não é a inten ção
texto relacional , no qual as mudanças estruturais deste livro.
. que as perturbações desencadeiam num organis- Resumindo, o sistema nervoso participa dos
mo aparecem para o observador como um efeito fenômenos cognitivos de duas maneiras comple-
sobre o ambiente. É em relação ao efeito espera- mentares. Elas tê m a ver com seu modo específi-
do por ele que o observador avalia as mudanças co de funcionar como uma rede neuronal com
estruturais que são desencadeadas no organismo. clausura operacional que faz parte de um orga-
Sob esse ponto de vista , toda interação de um nismo metacelular.
organismo, toda conduta observada , pode ser ava- A primeira - e mais óbvia - ocorre pela am-
liada por um observador como um ato cognitivo. pliação do domínio de estados possíveis do orga-
Da mesma maneira, o fato de viver - de conservar nismo, que surge da imensa diversidade de con-
ininterruptamente o acoplamento estrutural como figurações sensório-motoras que o sistema ner-
ser vivo - corresponde a conhecer no âmbito do voso pode permitir. Essa é a chave de sua partici-
existir. De modo aforístico: viver é conhecer (vi- pação no funcionamento do organismo.
ver é ação efetiva no existir como ser vivo). A segunda se dá pela abertura do organismo
Em princípio, isso é suficiente para explicar a para novas dimensões de acoplamento estrutu-
participação do sistema nervoso em todas as di- ral , ao possibilitar que ele associe uma grande
mensões cognitivas. No entanto, se quisermos diversidade de estados internos com a grande di-
compreender a participação do sistema nervoso versidade de interações em que pode participar.

b
196 A Á RVORE DO
CONHECIMENTO P
A presença ou ausê ncia de um sistema nervo-
so determina a descontinuidade que há entre os
organismos cuja cognição é relativamente limita-
da , e os que são capazes uma diversidade em
princípio sem limites, como o ser humano. Para
assinalar sua importâ ncia central, ao símbolo que
representa uma unidade autopoiética (celular ou I
metacelular): i
I
k

devemos agora acrescentar a presença de um siste-


ma nervoso, que também funciona com clausura
operacional , mas como parte integrante do orga -
nismo. De modo abreviado, podemos ilustrá-lo
assim:

Quando, num organismo, existe um sistema


nervoso tão rico e vasto como o do homem , seus
domínios de interação permitem a geração de i
novos fenômenos, ao possibilitar novas dimen-
sões de acoplamento estrutural. Foi isso, em ú lti-
ma análise, que tornou possíveis a linguagem e a
autoconsciê ncia humanas. Esse é o terreno que I
percorreremos nos próximos capítulos.
A
y
10
unidade

conhecer o conhecer 1 organizado estrutura

ética
experiência cotidiana L autopoiese J
fenômeno do conhecer fenomenologí a
biológica
explicação
cientifica
observador
ação
9 3
domínios linguísticos fenômenos históricos
:
linguagem conservação — variação
consciência reflexiva reprodução

8
fenômenos culturais w perturba ções

I — acoplamento
:
fenômenos sociais estrutural
ontogenia —
U
unidades de terceira
ordem
— unidades de segunda ordemH
clausura operacional ——

7 5
atos cognitivos —
correla ções internas
rr

6 r
deriva
filogenia

história de
natural interações
ampliação do comportamento — sistema
domínio de interações nervoso conserva ção seleção
da adaptação estrutural
plasticidade contabilidade lógica I
determina ção estrutural
1 ,
estrutural I
representação /
solipsismo — - .
i 50 Desenho de
te de Juste

íB
-
TsS ÍÇ&i
1

200 A Á RVORE DO
CONHECIMENTO «FENóMENOS SOCIAIS 201

Consideremos uma situação completamente pa- é uma fenomenolog í a peculiar, da qual nos
ralela à do capítulo IV, a propósito da origem dos ocuparemos neste capítulo e nos seguintes. Tra-
metacelulares. Ou seja , em vez de examinar ape- ta-se da fenomenología dos acoplamentos de ter-
nas um organismo com seu sistema nervoso, ceira ordem.

Foplamentos de A esta altura de nossa exposição, não parece es -


frceira ordem tranho que tais acoplamentos possam ocorrer,
porque basicamente neles operam os mesmos
I mecanismos que já discutimos, em rela ção à cons -
tituição de unidades autopoiéticas de segunda
vejamos o que acontece quando esse organismo ordem. De fato, uma vez originados os organis-
entra em acoplamento estrutural com outros or- mos com sistema nervoso - se eles participam
ganismos. em interações recorrentes tais acoplamentos
3 acontecem com diferentes complexidades e esta-
bilidades, mas são o resultado natural da con-
gruência de suas respectivas derivas ontogénicas.
Como é possível entender e analisar esses
acoplamentos de terceira ordem?
Bem , em primeiro lugar é necessá rio perceber
que tais acoplamentos são absolutamente neces-
Como no caso das interações celulares nos sários, em alguma medida , para a continuidade
metacelulares, é evidente que, do ponto de vista í. de uma linhagem nos organismos com reprodu-
da dinâ mica interna de um organismo, o outro ção sexuada, já que ao menos os gametas devem
representa uma fonte de perturbações que são se encontrar e fundir-se. Além disso, em muitos
indistingu íveis das que provêm do meio “inerte” . 1 dos animais que necessitam de intercurso sexual
No entanto, é possível que essas interações para a procriação, os filhotes precisam de algum
I
entre organismos adquiram, ao longo de sua on- cuidado por parte dos pais. Desse modo, é co-
togenia , um cará ter recorrente e , portanto, g mum a ocorrência de algum grau de acopla-
que se estabeleça um acoplamento estrutural que mento comportamental na geração e criação dos
permita a manutenção da individualidade de filhotes.
. 6
ambos, no prolongado devir de suas interações. Esse fenômeno é praticamente universal. Por
Quando esses acoplamentos acontecem entre isso, ocorre que os distintos grupos de animais
organismos com sistema nervoso, o resultado i o apresentam com uma grande variedade de

l
i
I

202 A Á RVORE DO
CONHECIMENTO FENôMENOS SOCIAIS 203

formas específicas. Como humanos, criados numa americanos, por exemplo, o macho se acasala com
cultura patriarcal, tendemos a pensar que o natu- um harém de fêmeas (poliginia ), cada uma das
ral é que a fêmea cuide dos filhotes e o macho se quais põe um ovo dentro de um buraco. Uma vez
encarregue da proteção e do sustento. É de su- este cheio, o macho se incumbe de cuidar deles.
por que essa imagem está parcialmente baseada Essa inclinação doméstica do macho se en-
no fato de que somos mamíferos, com períodos contra , em forma mista, em outra ave sul-ameri-
mais ou menos longos de lactação, nos quais a cana , a jaçanã. Nesse caso, a fê mea define um
criança permanece necessariamente ligada à mãe.
Não há nenhuma espécie de mamífero em que a
II território mais ou menos vasto, onde prepara vá-
rios ninhos e ao qual permite a entrada do mes-
amamenta ção seja responsabilidade do macho. mo n ú mero de machos ( poliandria ). Depois da
Contudo, essa divisão tão nítida de papéis está fertilização, deposita um ovo em cada um dos
longe de ser universal. Entre os pássaros, há uma ninhos e constrói mais um para si mesma , no
grande variedade. Em muitas aves, tanto o ma- qual deposita outro ovo. Dessa maneira , tanto
cho quanto a fêmea podem produzir no papo fêmeas quanto machos têm o prazer de criar os
uma espécie de produto leitoso que é regurgitado passarinhos (Fig. 51).
para os filhotes. Além disso, nos avestruzes sul- Entre os pingiiins ocorre outra variação ainda
mais notável. Para eles, conseguir alimento para
I os filhotes é aparentemente mais difícil e requer
a participação de ambos os pais. Como são cui-
dados, porém , os pequenos pingiiins? É interes-
sante: alguns dos adultos do grupo permanecem
fI por perto e cuidam do conjunto, formando uma
verdadeira creche.
No caso do peixe espinhoso, chega-se a um
extremo. O macho constrói um ninho, seduz a
3 ¡ fêmea para que ela ponha nele os ovos e a seguir
. ) a expulsa (Fig. 52). Uma vez sozinho, vai agitan-
do a cauda e fazendo com que a água que banha
! os ovos circule até que estes se rompam. Em se-
guida , passa a cuidar dos peixinhos até que eles
se tornem independentes. Ou seja , nesse caso é
t- o macho que se encarrega das crias, e sua rela-
ção com a fêmea dura apenas o tempo necessá -
Fig. 51. Jaçanl rio à corte e à desova.

í
\

204 A Á RVORH DO CONHECIMENTO '


I FENóMENOS SOCIAIS 205
Há outros exemplos, nos quais o extremo está sistema nervoso, a variedade possível é imensa.
do lado da fêmea , que tem a maior parte da res- Em conseq üéncia , a história natural resulta numa
ponsabilidade pelos filhotes. Poder íamos conti- lista também muito variada. É necessá rio ter isso
nuar citando muitos outros casos de maneiras de em mente, para compreender a dinâ mica social
satisfazer o acoplamento obrigatório para a pro- humana como um fenômeno biológico.
criação e a criação. É evidente que não há papéis 1
fixos. Tampouco os há ñas sociedades huma- i
nas, em que existem numerosos casos tanto de fétos sociais Embora praticamente universais, os acoplamentos
poliandria quanto de poliginia , e nos quais a di-
visão das tarefas de criação dos filhos varia de 1 comportamentais sexuais e de criação de filhotes
não são os ú nicos possíveis. Há muitas outras
um extremo a outro. Com efeito, já que esses formas de acoplamento comportamental que os
acoplamentos ocorrem com a presença de um incluem e vão muito além deles, ao especificar,
1 entre os indivíduos de um grupo, coordenações
comportamentais que podem durar a vida inteira.
O caso mais clássico e notável de um acopla-
A
mento tão estreito que engloba toda a ontogenia
dos organismos participantes é o dos insetos so-
ciais. Esses animais compreendem muitas espé-
cies entre as várias ordens de insetos. Em muitos
i
-
t deles se originaram , de modo paralelo, mecanis-
mos muito semelhantes de acoplamento. As for-
i migas, os cupins, as vespas e as abelhas são exem-
plos bem conhecidos de insetos sociais.
Na Fig. 53, por exemplo, vêem-se vá rios indi-
víduos que se encontram entre as formigas
mirmicíneas, um dos grupos bem estudados. Ve-
mos que há uma grande variedade de formas entre
I os indivíduos participantes, e sua morfologia é
diversa de acordo com as atividades que normal-
mente realizam. Assim, a maior parte dos indiví-
a duos da Fig. 54 são fêmeas estéreis, que desem-
penham tarefas como coletar alimentos, defesa ,
Fig. 52. Momentos do com - cuidado dos ovos e manutenção do formigueiro.
portamento de corte do pei-
xe espinhoso. Os machos ficam recolhidos ao interior, onde se
!

ff .
206 A ARVORF. DO CONHF.CIMENTQ I FENóMENOS SOCIAIS 207

encontra a fêmea que geralmente é a ú nica fé rtil, I í O mecanismo de acoplamento entre a maio-
a rainha ( Fig . 53, g ). É notá vel ver que há fê meas ria dos insetos sociais se faz por meio do inter-
;
com mandíbulas enormes, capazes de exercer ; i câ mbio de substâ ncias. É, portanto, um acopla -
grande pressão. São muito maiores que as fê- I -
mento químico. Estabelece se um fluxo contínuo
meas operá rias (Fig. 53, e e / ). A maior parte das de secreções entre os membros de uma colónia:
formigas de uma colónia como essa nã o tem ne- eles trocam conte ú dos gástricos cada vez que se
nhuma participação na reprodução, que está restri- encontram , como se pode constatar observando
ta à rainha e aos machos. Entretanto, todos os qualquer fila de formigas na cozinha . Desse con-
indivíduos de um formigueiro estão estreitamente tínuo intercâ mbio qu ímico - chamado trofolaxe
acoplados em sua dinâ mica estrutural fisiológica. (Fig. 54) -, resulta a distribuição, por toda a po-
pulação, de uma certa quantidade de substâ n-
cias, entre elas os hormônios responsáveis pela
diferenciação e especificação de papéis. Assim, a
I rainha só é rainha na medida em que é alimenta-
da de um certo modo, e não por hereditariedade.
Basta retirá-la de seu lugar, para que , de imedia-
to, o desequil íbrio hormonal produzido por sua
r
ausência resulte na alimentação diferencial de
algumas larvas, que se desenvolverão como rai-
nhas. Vale dizer: toda a ontogenia de um dado
indivíduo, como membro da unidade social, está
f. atrelada à sua contínua histó ria de interações
trofol á ticas seletivas. Estas, de modo din â mico ,
encaminham , mantêm ou modificam sua manei-
!•
ra particular de desenvolvimento.
Os processos e mecanismos detalhados da de-
| 1’ terminação das castas, dos modos de cooperação
| entre diferentes espécies, de organiza ção territo-
rial, e muitos outros aspectos da vida dos insetos
Fig. 53. Diferentes morfolo - I sociais, têm motivado muitos estudos. São uma
gias nas castas tlas formigas ’ «
mirmicíneas ( Pbeidole kingi 3 fonte sempre renovada de circunst â ncias, que
-
iiistabilis ). Indiv íduos da cas " j revelam as formas mais inesperadas de acopla-
ta operá ria : de (a) a (0. A raJ- ’«
mento estrutural entre esses organismos. No en-
nha aparece em ( g) e o ma | - ¿|
cho em ( h ). : tanto, em todas elas é evidente um grau de rigidez
I
: J
A Á RVORE FENóMENOS SOCIAIS 209
208 DO
CONHECIMENTO
Fig. 54. Mecanismo e inflexibilidade. Talvez isso não deva surpreen-
de acoplamento en - der-nos tanto, pois os insetos (como muitos ou-
tre os insetos sociais:
trofolaxe. tros invertebrados ) estã o essencialmente organi-
zados com base numa armadura externa de
quitina. No interior dessa armadura se inserem
os m úsculos que a movem. Essa arquitetura im-
plica uma limitação do tamanho máximo que esses
animais podem alcançar, e portanto o tamanho
de seu sistema nervoso. Nessas circunstâncias, os
insetos não se distinguem individualmente por
sua variedade comportamental e capacidade de
aprendizagem. Por outro lado, os vertebrados têm
um esqueleto interno - no qual se inserem os
músculos - e são capazes, em princípio, de cres-
cimento prolongado. Assim , não têm uma limita-
ção tão estreita de tamanho. Isso possibilita orga-
nismos maiores (mais células), com sistemas ner-
vosos maiores, o que por sua vez permite uma
maior diversidade de estados e, portanto, de com-
portamentos.

rtebrados sociais Imaginemos um rebanho de ungulados, como os


antílopes, que vivem em terrenos montanhosos.
Quem alguma vez tentou aproximar-se deles no-
tou que tão logo se chega a uns cem metros de
distâ ncia todo o rebanho foge. Em geral, correm
até chegar a uma elevação maior, de onde vol-
tam a observar o estranho. No entanto, para pas-
sar de um cume a outro precisam percorrer um
vale, o que lhes impede a visão do visitante. Aqui
se torna evidente um acoplamento social: o reba-
nho se move numa formação que tem à frente o
macho dominante, seguido das fêmeas e dos
210 A Á RVORE DO
CONHECIMENTO I FENôMENOS SOCIAIS 211

filhotes. Na retaguarda vão os outros machos, um


dos quais fica para trás, no cume mais próximo,
e manté m o estranho sob suas vistas enquanto os
demais descem. Assim que chegam a uma nova
elevação, ele volta a juntar-se ao rebanho (Fig. 55).
Essa forma peculiar de comportamento, na qual
i

>
distintos animais cumprem papéis diferentes, per-
mite que os membros desses rebanhos se rela-
cionem em atividades que não lhes seriam possí-
veis como indivíduos isolados. O exemplo que
acabamos de ver se refere à fuga astuciosa , mas é
fácil encontrar exemplos do inverso. É o caso )

dos lobos, que também vivem em grupos, coor-


denando seus comportamentos por meio de mui-
tas interações olfativas, faciais e corporais, como
mostrar os dentes, abaixar as orelhas, mover e
abaixar a cauda , como vemos nos cães domésti-
cos. Tal grupo, como unidade social , é capaz de
perseguir, acossar e matar um gigantesco alce (Fig.
4
*
56), façanha que não estaria à altura de nenhum
lobo isolado. no social entre os cervos.
-
Fig. 55. A fuga como fenôme
56. A caça como fenôme- Entre esses vertebrados, vemos modos de
Isocial entre os lobos. interação fundamentalmente visuais e auditivos,
que lhes permitem gerar um novo domínio de
fenômenos que os indivíduos isolados não pode-
riam produzir. Neste ú ltimo caso, parecem-se com
os insetos sociais, mas diferem deles pela maior
flexibilidade dada por seu sistema nervoso e seu
acoplamento visual-auditivo.
No caso dos primatas, há situações essencial-
ta mente comparáveis. Por exemplo, entre os ba-
buínos que habitam as savanas africanas - e que
(. De Vore e K.R. Hall, em tê m sido minuciosamente estudados em seu com-
fmate Behavior , Holt ,
(muito diferente da
ijnharclt , Winston , Nova portamento de grupo natural
Ik, 1965, págs. 20-53. conduta em cativeiro!) -, ocorre uma contínua
'

212 A Á RVORF. DO
CONHECIMENTO 213
e múltipla interação gestual , postural (visual) e
tá til entre todos os indiv íduos do grupo. Nesse
caso, o acoplamento intragrupal tende a estabe-
lecer uma hierarquia de dominação entre os ma-
chos. Essa hierarquia (e a coesão do grupo) é
nítida quando observamos os animais migrarem
de um lugar para outro, ou enfrentar um preda- I s' N
dor como um leão. Assim, quando o grupo mi- 1 ( 9 9 9 9 s.
\ íí rt crtcty
gra, os machos dominantes, as fêmeas e os filho- ^ 'Wor í ?
tes vão no centro; outros machos, adultos e jo-
vens, e as fêmeas, colocam-se estrategicamente 4.
à frente e atrás (Fig. 57). Durante longas horas
do dia, os babu ínos costumam brincar e catar
pulgas uns nos outros, mantendo uma contínua
interação. Nesses grupos, além disso, é possível : 5S . Esquema comparati- possível dá a cada grupo de babuínos um perfil
observar o que se pode chamar de temperamentos p distribuição tie indiví-
próprio. Cada indivíduo está continuamente ajus-
individuais, que fazem de alguns babuínos indi- babuínos e chimpanzés.
tando sua posição na rede de interações forma-
víduos irritadiços, outros sedutores, outros explo- das pelo grupo, segundo sua dinâ mica particular,
Fig. 57. Um grupo de
radores etc. Toda essa diversidade comportamental babu ínos se desloca. que resulta de sua história de acoplamento estru-
tural grupai. Entretanto, mesmo com todas as di-
ferenças, há um estilo de organização grupai dos
babuínos que se generaliza de bando a bando e
que, desse modo, reflete a linhagem í f logenética
compartilhada por todos eles.
strutura correspondente
tos babuínos habitantes da
Diferentes grupos de primatas mostram mo-
tvana. dos e estilos de interação muito variados. As
strutura correspondente haimdr íades do norte da África são habitualmen-
os chimpanzés da selva.
í Fronteira de um te muito agressivas, e suas hierarquias de domi-
[grupo fechado. nação são muito rígidas. Por sua vez, os chim-
Fronteira de um panzés têm uma organização grupai muito mais
tempo aberto.
fluida e variável e criam grupos familiares exten-
sos, que permitem muita mobilidade individual
(Fig. 58). Assim , cada grupo de primatas tem suas
peculiaridades.
,1

A Á RVORE : is FENôMENOS SOCIAIS 215


214 DO CONHECIMENTO >
\
Entendemos como fenômenos sociais os ligados Fenômenos sociais e instintivo ou aprendido das condutas sociais, po-
às unidades de terceira ordem. Apesar da varie- comunicação deremos também distinguir entre formas filoge-
dade de estilos de acoplamento que temos nos néticas e ontogenéticas de comunicação. Assim,
esforçado para apresentar, é evidente que ao fa- o peculiar da comunicação não é que ela resulte
lar de fenômenos sociais referimo-nos ao que de um mecanismo distinto dos demais comporta-
acontece num tipo particular de unidades. A for- mentos , mas sim que ocorra no dom ínio do aco-
ma como se realizam as unidades dessa classe plamento social. Isso vale também para n ós, como
varia muito, desde os insetos até os ungulados ou descritores de nossa própria conduta social , cuja
os primatas. O que é comum a todas elas é que, complexidade não significa que nosso sistema
quando se estabelecem acoplamentos de terceira nervoso funcione de modo diferente.
ordem, as unidades resultantes, embora sejam tran-
sitórias, geram uma fenomenología interna espe-
cífica . Essa fenomenologí a se baseia no fato cultural Um belo caso de comunicação ontogénica é coti-
de que os organismos participantes satisfa- dianamente acessível no canto de certos pássa-
zem suas ontogenias individuais principal - ros, entre outros o papagaio e seus parentes pró-
mente por meio de seus acoplamentos mútu- ximos. Em geral esses animais vivem na selva
os, na rede de interações recí procas que for- densa, em meio à qual não estão em contato vi-
mam ao constituir as unidades de terceira or- sual. Nessas condições, é o seu canto que permi-
dem. Os mecanismos mediante os quais essa rede te o estabelecimento de um casal , por meio da
e as unidades que a constituem se estabelecem produ ção de um cantar comum . Por exemplo, a
variam em cada caso, mas mantêm sua coesão. Fig. 59 mostra o espectrograma de duas aves afri-
Toda vez que há um fenômeno social há um canas. (Espectrograf ía é uma forma de captar o
acoplamento estrutural entre indivíduos. Portan- som e pô-lo no papel em duas dimensões , como
to, como observadores podemos descrever uma uma nota ção musical contínua ). Olhando um
conduta de coordena ção recíproca entre eles.
Entendemos como comunicação o desencadea-
mento m ú tuo de comportamentos coordenados Espectrograma
que se dá entre os membros de uma unidade
25 metros 10 metros
social . Dessa maneira , entendemos como comu- 4
nicação uma classe particular de condutas que Freqiiência -
acontece com ou sem a presença do sistema
nervoso, no funcionamento dos organismos nos
0.5 0.5 0.5
sistemas sociais. Como acontece com todo com-
59. Dueto vocal entre
Ig . tempo (segundos )
portamento , se pudermos distinguir o cará ter uas aves africanas.
*» -

216 A Á RVORE DO CONHECIMENTO bs FENóMENOS SOCIAIS 217

espectrograma, parece que cada ave canta a me- Fenômenos sociais


lodia completa . Mas isso não acontece: é possí-
vel mostrar que ela é na realidade um dueto, em b Entendemos como fenômenos sociais os
jj. ligados à participação dos organismos na
que cada membro do casal constrói uma frase que [ constituição de unidades de terceira ordem.
é continuada pelo outro. Tal melodia é peculiar a
cada casal e se torna específica durante a historia
de seu acasalamento. Nesse caso (diferentemen-
te do que acontece em muitos outros pássaros), fe -
essa comunicação, essa coordena ção comporta - Comunicação
mental do canto , é claramente ontogé nica. í Como observadores , chamamos de comu-
nicativos os comportamentos que ocorrem
Com esse exemplo , queremos ressaltar que a num acoplamento social , e de comunica-
melodia específica de cada casal será ú nica em 1 ção à coordenação comportamental que ob-
relação à sua história de acasalamento. Se tomar- servamos como resultado dela.
mos outro casal de aves, observaremos que ele
especificou uma melodia diferente. Além disso,
quando desenvolverem comportamentos de as ilhas britâ nicas, de modo que em pouco tem-
acasalaçâo , os filhotes de cada casal o farão pro- po todos os chapins haviam aprendido o truque
duzindo melodias diferentes das geradas por de como conseguir um bom desjejum.
seus pais. A melodia particular de cada casal li- Os vertebrados têm uma tendência essencial e
mita-se à dura çã o da vida dos indivíduos que a ú nica: a imitação . Não é fácil dizer exatamente
compartilham . o que é a imitação em termos de fisiologia nervo-
F.ssa situa ção é bem diferente de outra condu- sa , mas ela é ó bvia no que se refere ao compor-
ta , també m claramente ontogé nica , que podemos tamento. Por meio dessa constituição , o que co-
ilustrar com um caso registrado na Inglaterra . Há meçou como uma conduta focal de alguns chapins
não muitos anos, em Londres e vizinhan ças, fo- azuis se espalhou rapidamente. Portanto, a imita-
ram introduzidas novas garrafas de leite cobertas ção permite que um certo modo de intera ção vá
por uma fina l â mina de alumínio, em vez de pa - além da ontogenia de um indiv íduo e se mante-
pelão. Essa nova cobertura era suficientemente nha mais ou menos invariante através de gera-
delgada para ser furada pelo bico de um pá ssaro. ções sucessivas. Se os filhotes dos chapins azuis
Assim , poucos dias depois da mudança algumas da Grã-Bretanha não fossem capazes de imitar, o
aves, como os chapins azuis, aprenderam a per- há bito de comer a nata das garrafas de leite teria
furar as embalagens e a se alimentar com o cre- de ser inventado de novo a cada geração.
i -
me sobrenadante. O interessante é que esse com- Outro caso famoso de permanê ncia transgera-
portamento se expandiu do foco central a todas cional social de um comportamento aprendido

'

!
218 A Á RVORE DO CONHECIMENTO 219
I Os FENóMENOS SOCIAIS
A met á fora do tubo para a comunicaçã o Altruí smo e egoísmo
|O estudo dos acoplamentos ontogé nicos en- dualista , na qual o benef ício de um indiví-
Nossa exposição nos levou a concluir que municado e faz parte daquilo que se des- :
tre os organismos, e a valorizaçã o de sua duo implica o prejuízo de outro. Do contrá-
do ponto de vista biológico não existe “ in- loca pelo conduto. Estamos habituados a grande universalidade e variedade, apontam- rio, seria uma inconsistência .
formaçã o transmitida " na comunica ção. falar da " informação" contida numa ima- nos um fenômeno pró prio do social. Pode- Com efeito, ao longo deste livro vimos
Existe comunicação cada vez que h á coor- gem , num objeto ou , de modo mais evi- se dizer que quando o antílope fica para que a existência do ser vivo na deriva natu-
trás e se arrisca mais do que os outros é o ral - tanto ontogen é tica quanto fdogenética
denaçã o comporta mental num dominio de dente, na palavra impressa . - não acontece na competição e sim na con-
grupo que se beneficia diretamente, e n ão
acoplamento estrutural. Segundo nossa análise, essa metáfora é servação da adaptação. É um encontro indi-
necessariamente ele. Também pode ser dito
Essa conclusã o só é chocante se n ão fundamentalmente falsa , porque supõe a 1 que quando uma formiga operá ria n ão se vidual com o meio que resulta na sobrevi-
questionarmos a metáfora mais comum para existê ncia de uma unidade n ão estrurural- reproduz e , em vez disso, ocupa-se de con- vência do apto. Nós. como observadores,
a comunicação, que se popularizou com ntente determinada na qual as interações seguir alimento para todas as crias do for - podemos mudar de nivel de referê ncia cm
os assim chamados meios de comunicaçã o. -
sã o instrutivas como se aquilo que acon- . -
migueiro trata se de novo do grupo como nossa observação e considerar també m a
unidade grupai de que participam os indiv í-
Trata-se da metá fora do tubo, segundo a tece a um sistema , durante uma interação, beneficiado e nã o dela diretamente .
qual a comunicação é algo que se produz fosse determinado pelo agente perturba - Tudo acontece como se houvesse um duos. Para esta , em sua dinâmica como uni-
num ponto, é levado por um conduto (ou
l equilíbrio entre a manuten ção e a subsistên- dade, a conservação da adaptação é tam-
dor e não pela dinâ mica estrutural desse
tubo) e é entregue no outro extremo, o sistema . Mas é evidente, no próprio coti - cia individual, e a manutenção e a subsis- bém necessariamente vá lida em seu dom í-
tência do grupo como unidade mais ampla , nio de existência. Para o grupo como uni-
receptor. Portanto, há um algo que é co- diano, que a comunicação não acontece
que engloba o indiv íduo. De fato, na deriva dade. os componentes individuais sã o irre-
assim: cada pessoa diz o que diz ou ouve natural se consegue um equil íbrio entre o levantes e todas eles são, em princ í pio, subs-
o que ouve segundo sua própria determi- individual e o coletivo, na medida em que titu íveis por outros que possam cumprir as
:
naçã o estrutural. Da perspectiva de um ob-
servador, sempre há ambiguidades numa
-
os organismos ao acoplar-se estruturalmen-
te em unidades de ordem superior (que têm
mesmas rela ções. Por outro lado, para os
componentes como seres vivos, a individua-
intera çã o comunicativa. O fenômeno da co- seu próprio dom ínio de existência ) - incluem lidade é sua condição de existência . É im-
municação não depende daquilo que se en - a manutenção dessas estruturas na dinâ mi
.
- portante não confundir esses dois níveis
fenoménicos para a plena compreensão dos
trega , mas do que acontece com o recep- ca de sua própria manutenção
tor. E isso é um assunto muito diferente de Os otólogos chamaram de “ altruístas” as fenômenos sociais. O comportamento do
ações que podem ser descritas como tendo antílope , ao ficar atrás, tem a ver com a con-
“transmitir informaçã o".
efeitos benéficos sobre o coletivo, escolhen- serva ção do grupo e expressa caracter ísti-
I do assim um termo que evoca unia forma cas próprias desses animais em seu acopla-
de comportamento humano carregada de mento grupai, na medida cm que o grupo
conotações éticas. Isso aconteceu talvez existe como unidade . Ao mesmo tempo ,
registrou -.se nos estudos de primatas feitos num m porque eles adquiriram, vinda do século 19,
a idéia de que a natureza era “ vermelha nas
poré m , essa conduta altru ísta em relação â
unidade grupai se realiza no ant ílope indi-
arquipélago do Japã o, onde se conserva uma re- dentes e nas garras" , como disse um con- vidual , como resultado de seu acoplamento
serva de macacos que foram detalhadamente es- temporâ neo de Darwin . Muitas vezes ou - estrutural num meio que inclui o grupo. Ex-
vimos que as propostas de Darwin têm a ver pressa , assim, a conservação de sua adapta -
tudados (Fig. 60 ). Como parte do estudo, os pes- com a lei da selva: cada um cuida de seus pró- ção como indivíduo. Portanto, não há con -
quisadores colocaram batatas e trigo na praia . prios interesses, de modo egoísta e às custas tradição no comportamento do ant ílope, na
dos demais , numa implacá vel competiçã o. medida em que ele se realiza, em sua indi-
Dessa maneira , os macacos, que normalmente Essa visão do animal como um ser egoís- vidualidade, como membro tio grupo: é “al-
habitam a selva adjacente ao mar, iam para as ta é duplamente falsa. Em primeiro lugar, truisticamente" egoísta e “egoísticamente” al-
porque a história natural nos diz que não é tru ísta . porque sua realização individual in-
praias onde se tornavam mais visíveis. Com o assim, seja por onde for que a olhemos. As clui sua pertença em relaçã o ao grupo que
passar do tempo eles se familiarizaram cada vez instâ ncias de comportamento que podem ser í ntegra .
descritas como altru ístas sã o quase univer- Todas essas considerações sã o també m
mais com o mar e assim foram mudando de I sais. Em segundo lugar, essa idéia é falsa vá lidas para o dom ínio humano , embora mo-
comportamento. Uma das observações feitas ao porque os mecanismos que podem ser pos- dificadas segundo as características da lin-
. . y. Primatui
S3 S. Katvamtir i tulados para entender a deriva animal não guagem como modo tie acoplamento social
longo dessas modifica ções foi que uma fê mea ¿A ), 1959. requerem, em absoluto, essa visã o indivi- dos seres humanos, como veremos adiante.

;
220 A Á RVORH Os FENóMENOS SOCIAIS
DO CONHECIMENTO 221

Organismos e sociedades
Os organismos e as sociedades pertencem à priedades das células que o compõem. A BKcional (comportamentai) desse sistema . Os mento em meio a ele. Isso ocorre numa con-
mesma classe de metassistemas formados estabilidade gen é tica e ontogenética dos pro- Blforganismos requerem um acoplamento es- t ínua aprendizagem social , que é definida
pela agrega ção de unidades autónomas, que cessos celulares que constituem os organis- litrutural
não-lingu ístico entre seus compo- por seu próprio funcionamento social ( lin-
podem ser celulares ou metacelulares. O ob-
servador pode distinguir os diferentes me-
-
mos de cada espécie e também a existê n-
cia de processos orgâ nicos que podem eli-
B £. nenies; os sistemas sociais exigem compo-
K j, nentes acoplados estruturalmente em domí-
g üístico), e que é possível graças aos pro-
cessos genéticos e ontogénicos que permi-
tassistemas membros dessa classe pelos di- minar as células que saem da norma - mos- gnios lingu ísticos, nos quais eles (os compo- tem sua plasticidade estrutural .
versos graus de autonomia que percebe tram que é assim que as coisas acontecem. BM' nentes) possam operar com a linguagem e Organismos e sistemas sociais humanos
como possíveis em seus componentes. As - Nos sistemas sociais humanos o quadro K ser observadores. Em consequê ncia , para o são, pois, casos opostos na série de metas-
sim, se ele os ordena em sé rie, segundo o
grau em que seus componentes dependem
é diferente. Como comunidades humanas
eles també m têm clausura operacional , que
H funcionamento de um organismo o ponto
B|central c ele próprio - e disso resulta a res-
sistemas formados pela agregação de siste-
mas celulares de qualquer ordem. Entre eles
- na sua realização como unidades autóno- ocorre no acoplamento estrutural de seus B í triçã o das propriedades de seus componen- estão - além de diversos tipos dc sistemas
mas - de sua participa ção no metassistema componentes , No entanto, os sistemas so
que integram , os organismos e os sistemas ciais humanos também existem como uni - ts jf tes. Já para a operação de um sistema social sociais formados por outros animais - cer-
sociais humanos se colocarão nos extremos dades para seus componentes no dom
- fè jjl humano, o ponto central é o domínio lin - tas comunidades humanas. Por incorporar
ínio 11 güístico gerado por seus componentes e a mecanismos coercitivos de estabilização a
opostos da série. Os organismos seriam da linguagem . A identidade dos sistemas so-
metassistemas com componentes de auto- ciais humanos depende, portanto, da con
-
i
Sdiçào é necessá ria para a realização da lin-
-
Bei amplia çã o das propriedades destes. Essa con todas as dimensões do comportamento de
seus membros, tais comunidades constitu -
nomia m ínima , ou seja , com componentes serva ção da adaptação dos seres RKguagem, que constitui seu domínio de exis- em sistemas sociais humanos desvirtuados,
humanos
de muito pouca ou nenhuma dimensão de não apenas como organismos -num sentido & tê ncia. O organismo restringe a criatividade que perderam suas características específi-
existência independente. Já as sociedades geral -, mas também como componentes dos gg; individual das unidades que o integram, pois cas e despersonalizaram seus componentes.
humanas seriam metassistemas com compo- dom ínios ling üísticos que eles constituem EE. estas existem para ele; o sistema social hu -
nentes de autonomia máxima , isto é, com
. Assumiram, assim , a forma de organismos,
Pois bem: por estar associada a seus com- E mano amplia a criatividade individual de seus como foi o caso de Esparta . Organismos e
componentes de muitas dimensões de exis- portamentos lingüísticos, a história evolutiva Bp componentes, pois esta existe para eles. sistemas sociais humanos nã o podem , pois,
tência independente. As sociedades forma- do homem é uma história na qual se sele equipanir-se sem distorcer ou negar as ca-
das por outros metacelulares, como as de cionou a plasticidade comportamental on -
gE A coerência e a harmonia nas relações e
- 1 interações dos componentes de cada orga - racterísticas pró prias de seus respectivos
insetos, ficariam situadas em diferentes pon- togé nica que torna possível os dom ínios jí nismo específico se devem, em seu desen- componentes.
tos intermediá rios. No entanto, as diferen-
-
lingüísticos e na qual a conservação da
ças entre esses diversos metassistemas sã o adapta ção do ser humano como organismo
ç.volvimento individual, a fatores genéticos e
i ontogé nicos que demarcam a plasticidade
Qualquer análise da fenomenologí a so-
cial humana que não leve em conta as con -
operacionais. Dadas algumas transformações requer que ele funcione nesses domínios c
nas respectivas dinâ micas internas e de re- conserve essa plasticidade , Dessa maneira ,
l estrutural de seus componentes. A coerên
l cia e a harmonia nas relações e interações
- siderações acima será deficiente , porque
negará os fundamentos biológicos dessa fe-
-
lação, eles podem deslocar se em uma ou assim como a existência de um organismo
ent outra direção da sé rie. Vejamos agora as
|dos integrantes de um sistema social devem- nomenologí a.
requer a estabilidade operacional de seus » se à coerência e à harmonia de seu cresci-
diferenças entre os organismos e os siste- componentes, a existência de um sistema
mas sociais humanos. social humano exige a plasticidade opera -
,
\
Na qualidade de sistemas metacelulares, B
os organismos têm clausura operacional, que
acontece no acoplamento estrutural das cé-
lulas que os compõem. Na organização de ;

um organismo, o central está em sua manei-


ra de ser unidade num meio em que deve
t >
funcionar com propriedades está veis que lhe Autonomia Autonomia
permitam conservar sua adaptaçã o nele, Organismos Insetos sociais Esparta Sociedades
mínima dos máxima dos
quaisquer que sejam as propriedades de seus Humanas
Componentes componentes
componentes. A conseqiiência evolutiva fun
damental dessa circunstâ ncia é que a con-
- I'.
servação da adaptação dos organismos de
uma determinada linhagem seleciona , de
<
modo recorrente, a estabilização das pro-
r ‘

A ARVORE DO
CONHECIMENTO |)s FENóMENOS SOCIAIS 223

Fig. 60. Macaco do Japão|ava ilha . Os mais velhos eram sempre os mais lentos
-
suas batata.» .
para adquirir a nova forma de comportamento.
Chamaremos de condutas culturais as confi-
Conduta cultural gurações comportamentais que , adquiridas onto-
genéticamente na dinâ mica comunicativa de um
Entendemos por meio social , são está veis através de gera ções. Esse
conduta cultural
a estabilidade nome não deve surpreender, porque se refere
IBS '
transgeracional de precisamente a todo o conjunto de intera ções
K configurações
comunicativas de determina ção ontogenética que
HR comportamentais
K' ontogené ticamente permitem uma certa invariâ ncia na histó ria de um
Readquiridasna din â mica grupo , ultrapassando a história particular dos in-
Hc comunicativa de um divíduos participantes. A imitação e a contínua
meio social.
seleção comportamental intragrupal desempe-
nham aqui um papel essencial , na medida em
que tornam possível o estabelecimento do aco-
plamento dos jovens com os adultos, por meio
do qual é especificada uma certa ontogenia, que
se expressa no fenômeno cultural . Assim , a con -
inteligente, chamada Imo, um dia descobriu que ti duta cultural não representa uma forma essen-
podia lavar as batatas na água , removendo delas cialmente distinta em relação ao mecanismo que
a areia que as tornava incómodas para comer. a possibilita . O cultural é um fenômeno que se
Em questão de dias, os outros macacos, em espe- viabiliza como um caso particular de comporta-
cial os jovens, passaram a imitá-la e lavavam suas mento comunicativo.
batatas. Em pouco meses , esse novo comporta - ?

mento se estendeu a todas as colónias adjacentes.


Imo revelou -se uma macaca verdadeiramente
brilhante, porque alguns meses depois de ter in-
ventado a lavagem das batatas criou outra con -
duta , que consistia em tornar o trigo misturado
com a areia - e portanto dif ícil de comer mer-
gulhá -lo no mar, deixar que a areia ca ísse no
fundo e recolhê-lo , já limpo , à superf ície. Essa
segunda inven ção de Imo, assim como a ante-
rior, expandiu -se gradualmente pelas col ó nias da

p
)\

10
unidade

conhecer o conhecer
ética
1
experiência cotidiana

fenômeno do conhecer
rr organização
L autopoiese
estrutura
J
i fenomenologia
biológica
explicação
científica
observador
I :
9 ação
3
domínios linguísticos fenómenos históricos

linguagem conservação — variação


consciência reflexiva reprodução

8 4
fenómenos culturais

fenómenos sociais

-j
perturba ções

| acoplamento
estrutural
ontogenia
v — t felL 4. m
tf
< ^3
C
01
ii

=£:
*
<535
= >
unidades de terceira
ordem
-p unidades de segunda ordem
clausura operacional
áü £\ :
^3 .
,
JJX
* • s. / jTf X
7 m tn
r- ê S
i
/CV.
atos cognitivos

6 r filogenia
HL fi.IL ~QEV a».
ê EL
correlações internas deriva história de

ampliação do
natural interações Z
¿X.
r/ «

comportamento — sistema
conservação seleção
Kl
-
dominio de interações nervoso •* 1£
7 &
plasticidade
estrutural I
contabilidade lógica

representação /
da adaptação estrutural
determinação estrutural
3 II 2
n * ¿f ] 3
ui V
? -< >
I¿ 3
? j
£v-
. *
solipsismo
Pig. 61 Hieróglifos egipcios. & —
cf í * 11
~
*
»

I
mm

228 A Á RVORE DO CONHECIMENTO íMíNIOS LING üíSTICOS E CONSCIêNCIA HUMANA 229


O gato de um amigo nosso o acordava todas as
manhãs ao nascer do sol , caminhando sobre o mente na realização de suas respectivas autopoie-
piano. Se esse amigo se levantava , encontrava o ses. Dissemos que os comportamentos que ocor-
- rem nesses domínios de acoplamentos sociais são
junto à porta que dava para o jardim para que ele
a abrisse, e então saía, muito contente. Se o nos- comunicativos e podem ser inatos ou adquiridos.
so amigo não se levantasse, o gato voltava a an- Para nós, como observadores, o estabelecimento
dar sobre o teclado, produzindo um ruído não ontogé nico de um domínio de condutas comuni-
muito harmonioso. cativas pode ser descrito como o estabelecimen-
Seria perfeitamente natural descrever o com- to de um domínio de comportamentos coorde-
portamento desse gato como se ele “significasse” nados associáveis a termos semânticos. Isto é,
o desejo de que seu dono o deixasse sair para o como se o determinante da coordenação com -
jardim. Isso corresponderia a fazer uma descri portamental assim produzida fosse o significado
ção semântica dos comportamentos de nosso
- do que o observador pode ver nas condutas, e
amigo e de seu gato. No entanto, sabemos tam- não no acoplamento estrutural dos participantes.
bém que as interações deles só ocorreram como É essa qualidade dos comportamentos comuni-
um desencadeamento m ú tuo de mudanças de cativos ontogé nicos - de poderem aparecer
estado, segundo suas respectivas determinações como semâ nticos para um observador - que trata
estruturais. Trata-se de uma nova ocasião para cada elemento comportamental como se fosse
manter a clareza da nossa contabilidade lógica e uma palavra que permite relacionar essas condu-
poder caminhar sobre o fio da navalha, fazendo tas à linguagem humana. É tal condição que res-
a diferença entre o modo de operar de um orga- saltamos, ao designar essa espécie de classe de
nismo e a descrição de seus comportamentos. condutas como constituintes de um domínio
Sem d ú vida , h á muitas circunstâ ncias, como a lingüístico que se forma entre os organismos
do nosso amigo, em que podemos aplicar uma participantes.
descrição semântica a um fenômeno social. Isso se O leitor não precisa de exemplos de domínios
faz freqüentemente como um recurso literá rio ou lingüísticos. Vimos vários deles no capítulo ante-
metafórico, que torna a situação comparável a uma rior. Mas não os assinalamos dessa maneira , por-
i
1
interaçã o lingüística humana, como nas fá bulas. que o tema era o social em geral . Por exemplo, o
Tal circunstâ ncia requer um exame mais preciso. 1
cantar em dueto é um exemplo elegante de in-
teração lingüística. Um bom exercício para o lei-
tor será voltar atrás e rever o capítulo anterior, com
No último capítulo, vimos que dois ou mais orga o olhar disposto a descobrir quais dos comporta-
- Descri ções mentos comunicativos ali descritos podem ser tra-
nismos, ao interagir de modo recorrente , geram
semâ nticas tados como lingüísticos, e verificar como neles
um acoplamento no qual se envolvem reciproca-
surge a possibilidade de descrições semâ nticas.
m
.

A Á RVORE I0M ÍNIOS LING ÜÍSTICOS E CoNSOÉ NCIA HUMANA 231


230 DO CONHECIM
Notemos que a escolha dessa designação -
como o termo “ato cognitivo” , que vimos ante-
-
í Dom í nio ling üí stico

riormente - não é arbitraria . Equivale a afirmar Bi Toda vez que um observador descreve os condutas condutas
K comportamentos de interação de organis- ontogénicas comunicativas
'

que os comportamentos lingüísticos humanos são, K mos como se o significado que ele acre -
de fato, condutas que ocorrem num domínio de K dita que essas condutas têm para os parti -

acoplamento estrutural ontogénico que nós, se- & cipa mes determinassem o curso de tais
K interações, ele faz uma descrição em ter-
res humanos, estabelecemos e mamemos como ; mos semânticos.
resultado de nossas ontogenias coletivas. Em ou - Chamamos de linguística uma con-
tros termos , quando descrevemos as palavras Ef duta comunicativa ontogénica , ou seja, um
K comportamento que ocorre num acopla -
como designadoras de objetos ou situações no E|: mento estrutural ontogénico entre orga- condutas
mundo, fazemos, como observadores, uma des- Ej nismos, e que pode ser descrito em ter- ling üísticas
tt; mos semâ nticos por um observador.
crição de um acoplamento estrutural que n ão re-
Chamamos de domí nio lingüístico
flete o funcionamento do sistema nervoso, pois E; de um organismo ao â mbito de todos as
este nã o funciona com representações de mundo. |seus comportamentos ling üísticos. Os - i-
Em contraste, as condutas comunicativas ins-
|domínios lingüísticos são em geral variá-
| veis, e mudam ao longo das ontogenias

tintivas cuja estabilidade depende da estabili- * dos organismos que os produzem.
í
dade genética da espécie, e não da cultural - não
constituem, de acordo com o que dissemos , um
dom í nio lingüístico. Isso acontece justamente
porque as condutas lingüísticas são a expressão entre os organismos, as recorrê ncias de intera -
de um acoplamento estrutural ontogénico. A cha- ções que levam a uma coordena ção comporta -
mada “linguagem” das abelhas, por exemplo, não
, mental , podem ser in ú meros (“ mesa ” , table, Tafet ) .
é uma linguagem , mas um caso misto de com- O que importa é como suas estruturas acolhem
portamento instintivo e lingüístico. Trata-se de essas interações e nã o os próprios modos de
uma coordena ção comportamental fundamental- intera çã o. Se não fosse assim , os surdo-mudos
mente filogené tica , que apresenta algumas varia- não teriam linguagem, por exemplo. Trata -se , efe-
ções grupais , ou “dialetos ” , de determina ção on - tivamente, de uma deriva cultural, na qual como -
togé nica .
)
na deriva filogenética dos seres vivos - não há
Por esse â ngulo, o cará ter aparentemente tão um desenho, e sim um arcabouço ad hoc, que
arbitrá rio dos termos semâ nticos (existe alguma vai sendo constituído com o que se dispõe a cada
relação entre a palavra “ mesa ” e o objeto mesa? ) momento.
é algo totalmente previsível e consistente com o Com essas determinações in mentis, se obser-
mecanismo subjacente ao acoplamento estrutu- varmos a hist ória natural veremos que embora o
ral . Com efeito , os modos como se estabelecem, homem não seja o ú nico possuidor de um domínio
- wm

232 A Á RVORE DO CONHEC IMENTO bo.MIMOS LlNOI IsTK


'
Os I- C o.\ S( 1 ENO [ A Hl '
MANA 233

elementos do domínio comum entre seres huma-


A linguagem nos, sejam objetos, estados de â nimo, intenções
Operamos na linguagem quando um observa- e assim por diante. Em si essa condição não é
dor percebe que temos como objetos de nos -
sas distinções linguísticas elementos do nosso
peculiar ao homem, embora sua variedade de
termos semânticos seja muito maior do que a
domínio lingüístico.
dos outros animais. O fundamental , no caso do
homem, é que o observador percebe que as des-
crições podem ser feitas tratando outras des-
crições como se fossem objetos ou elemen-
lingüístico, este é muito mais abrangente no ser tos do domínio de interações . Ou seja , o pró-
humano e inclui bem mais dimensões de sua vida prio domínio lingüístico passa a ser parte do meio
do que ocorre com qualquer outro animal. de possíveis interações. Somente quando se
Não faz parte da intençã o deste livro discutir
produz essa reflexão lingüística existe lingua-
em profundidade todas as muitas dimensões da gem , o observador surge e os organismos parti-
linguagem humana , o que por si só gerada outro cipantes de um domínio lingüístico passam a fun-
volume. No entanto, para nossos propósitos po- cionar num domínio semâ ntico. Do mesmo modo,
demos identificar a caracter
ística-chave da lingua- é só quando isso acontece que o domínio se-
gem , que modifica de maneira tão radical os do- mâ ntico passa a ser parte do meio no qual os que
mínios comportamentais humanos, possibilitan- nele operam conservam sua adaptação. Isso acon-
do novos fenômenos, como a reflexão e a cons- tece a nós, humanos: existimos em nosso funcio-
ciência . Essa característica é que a linguagem namento na linguagem, e conservamos nossa
permite, a quem funciona nela , descrever a si
adaptação no domínio de significados que isso
mesmo e à sua circunstâ ncia. É a esse respeito faz surgir. Fazemos descrições das descrições que
que falaremos neste capítulo. fazemos... (como o faz esta frase)... Somos obser-
Ao observar o comportamento de outros ani- i vadores e existimos num domínio semâ ntico cria-
mais ( humanos ou n ão) num domínio lingüísti-
do pelo nosso modo lingüístico de operar.
co, vimos que nós, como observadores, pode- Nos insetos, como já vimos, a coesão da uni-
mos tratar suas interações de maneira semâ ntica , dade social é proporcionada por uma interação
1
como se elas assinalassem ou denotassem algo
qu ímica , a trofolaxe. Entre nós, humanos, a “tro-
do meio. Ou seja, num domínio lingüístico pode- folaxe” social é a linguagem, que faz com que
mos sempre tratar a situação como se estivésse- existamos num mundo sempre aberto de inte-
mos fazendo uma descrição do meio comum aos rações lingüísticas recorrentes. Quando se tem
organismos em interação. No caso humano, para
uma linguagem , não há limites para o que é pos-
o observador as palavras em geral denotam
sível descrever, imaginar, relacionar. A linguagem
234 A Á RVORE DO CONHECIMENTO DOMINIOS LING üíSTICOS E CONSCI ê NCIA HUMANA 235

permeia , de modo absoluto, toda a nossa ontoge- I


nia como individuos , desde o modo de andar e a
postura até a política. Contudo, antes de exami-
nar em profundidade essas conseq üéncias da lin-
guagem, vejamos primeiro como foi possível o
seu aparecimento na deriva natural dos seres vivos.

Durante muitos anos, existiu em nossa cultura História natural da


um dogma de que a linguagem era absoluta e linguagem humana
exclusivamente um privilégio humano , a anos- K Fig. 62. O Ameslan nâo é uma
luz de distancia da capacidade de outros animais. K linguagem foné tica e sim
Em tempos mais recentes, essa idéia começou a « “ideográfica ”. Aqui, o gorila
1Koko aprende o gesto corres-
abrandar-se de um modo notável. Em parte, isso í pondenie a “ máquina".
se deve a estudos cada vez mais numerosos sobre
a vida animal, que revelam em algumas espécies - os Gardner - pensou que o problema podia
- como os macacos e os golfinhos - possibilidades estar não na capacidade lingüística do animal,
muito mais ricas que as que nos sentíamos incli- mas no fato de que suas habilidades não eram
nados a reconhecer neles. Mas, sem dúvida, o vocais e sim gestuais, o que é proverbial nos
que mais contribuiu para esse abrandamento foi macacos. Dessa maneira, decidiram repetir o ex -
o fato de que os primatas superiores são capazes perimento dos Kellog . Mas dessa vez utilizaram
de aprender a interagir lingüísticamente conosco como sistema de interações lingüísticas o Ameslan ,
de uma maneira cada vez mais ampia . que é um idioma gestual mais rico e mais amplo,
É de supor que desde é pocas antigas o ho- intemacionalmente utilizado pelos surdo-mudos
mem tenha tentado ensinar a fala a macacos como Q3 (Fig. 62). Washoe, o chimpanzé dos Gardner, re -
os chimpanzés, tão parecidos com ele. Entretan- velou que não só podia aprender o Ameslan como
to, foi só na década de 1930 que a literatura cien- se tornou há bil com ele, de tal modo que era
tífica registrou um propósito sistemá tico, por parte tentador dizer que o animal aprendera a “falar” .
do casal Kellog, nos Estados Unidos. Eles criaram O experimento começara em 1966 , quando
um chimpanzé ao lado de seu próprio filho, com Washoe tinha um ano. Ao completar 5, ele havia
a intenção de ensiná-lo a falar. Foi um fracasso aprendido um repertório de cerca de duzentos
quase completo. O animal era incapaz de repro- gestos, incluindo alguns que equivaliam às fun-
duzir as modulações vocais necessá rias à fala. No I £3 R . A . Gardner e B.T. ções de verbos, adjetivos e substantivos da lin-
i Gardner, Science 165: 664,
entanto, vários anos depois, outro casal nos EUA I 1969. guagem falada (Fig. 63).
m ¡5
'

B DOMíNIOS LINGüíSTICOS E CONSCIêNCIA HUMANA 237

criar novas gestualidades, que pareceram adequa-


das no contexto das observações. Assim, de acor-
do com Lucy , outra chimpanzé treinada com
Washoe, uma melancia era uma “ fruta-beber” ou
um “doce-beber", e um rabanete forte era uma
“comida-chorar-forte”. E , embora lhe houvessem
ensinado um gesto para “geladeira ”, Washoe pre-
feria usar a proposição “ abrir-comer-beber” . Sig-
nificaria isso que Washoe e Lucy estariam refle-
tindo sobre suas ações, e revelando recorrê ncias
por meio do Ameslan?
O fato de que um primata possa interagir usan-
do os gestos do Ameslan, não implica necessaria-
I mente que ele possa fazer uso de sua reflexibili-
dade potencial para distinguir elementos no do-
mínio lingüístico como se fossem objetos, como
Pois bem, o simples fato de aprender a fazer
certos movimentos com a mão para receber as
Fig. 63. interação lingüística
interespecífica.
fazem os humanos. Por exemplo, num experi -
mento recente, comparou-se a habilidade de três
respectivas recompensas não é por si mesmo uma chimpanzés, todos eles treinados em formas de
grande façanha, como sabe qualquer treinador intera ção lingüística essencialmente equivalentes
de circo. A pergunta é: Washoe usava esses ges- 03 ao Ameslan. Um deles - Lana - diferia dos outros
tos de tal maneira que convencessem a quem o
observava de que se tratava de uma linguagem ,
-
dois Sherman e Austin - porque o treinamento
destes dera especial ênfase ao uso prá tico dos
como é evidente quando se conversa em Ameslan signos e objetos na manipulação do mundo por
com um surdo-mudo? Quinze anos depois - após chimpanzés, durante suas interações com os hu-
muitas horas de pesquisa , e muitos outros chim- manos e entre eles próprios. Lana , ao contrá rio,
panzés e gorilas treinados por diversos grupos a aprendera uma forma de interações lingüísticas
resposta ainda é acaloradamente controvertida. mais estereotipadas, por meio de um computa-
Porém , tudo parecia indicar que Washoe - como dor, na qual a ênfase era mais sobre a associação
outros de seus congéneres - adquirira de fato de signos com objetos. O experimento consistia
uma linguagem .
Em certas ocasiões, por exemplo - embora até
em ensinar os três animais a distinguir duas clas
LQ E.S. Savage-Rumbaugh, ses de objetos: comestíveis e não-comestíveis ( .
-
Fig
hoje poucas -, esses animais foram capazes de D.M. Rumbaugh, S.T. Smith e
J . Lawson , Science, 210: 922,
64 ), que deveriam separar em duas bandejas. A
combinar seu limitado repertório de gestos para S 1981. seguir, eles receberam uma nova série de objetos

:
t
1
%
y
238 A Á RVORE DO Co N HECIM E NTo DOM í NIOS LING üíSTICOS E CONSCIêNCIA HUMANA 239

corretamente os diferentes objetos segundo esses


lexicogramas. Por fira , a prova era associar corre-
tamente o lexicograma a uma nova sé rie de obje-
tos. Nesse novo experimento, Lana fracassou dra-

z S
< > maticamente, em comparação com seus congéneres.
O experimento revelou que Lana operava num
dom ínio lingüístico, sem utilizar os elementos
deste para nele fazer distin ções, como ocorre
quando se transferem ou se generalizam catego-
rias. Por sua vez, Sherman e Austin eram capazes
disso , como mostrara o experimento anterior.
/ Tornou-se claro que eles haviam sido treinados
5
num contexto interativo e exploratorio de opera-
cionalidade lingüística mais rica , por envolver
diretamente a convivência com outros animais e
não apenas um computador. Isso fez uma dife-
rença fundamental em suas ontogenias em rela-
ção à de Lana.
1 Todos esses estudos sobre as capacidades lin-

güísticas dos primatas superiores o gorila tam-
bé m é capaz de aprender a interagir com os sig-
nos do Ameslan - são muito importantes para a
compreensão da história lingüística do homem.
I Com efeito, esses animais pertencem a linhagens
I paralelas e muito próximas à nossa, e se parecem
tanto conosco que 98% de seu material gené tico
nuclear se superpõe ao humano. Essa pequena
diferença de componentes, contudo, é responsá-
e lhes pediram que os pusessem nas bandejas Fig. 64. Capacidade de gene- vel pelas grandes diferenças nos modos de vida
correspondentes. Nenhum desses animais teve ralização, segundo diferentes
histórias de aprendizagem lin-
que caracterizaram as linhagens dos homin ídeos
problemas para realizar sua tarefa . O passo g üística . e dos grandes macacos, ou antropóides. Num
seguinte foi mostrar a eles imagens vis íveis
ou lexicogramas - do comest ível e do não-co-
— caso, elas levaram ao desenvolvimento habitual
da linguagem , e no outro não. Assim , quando
mestível , e depois pedir-lhes que classificassem submetidos a um acoplamento lingüístico rico -
®»/: -
y
I

240 A Á RVORE DO CONHECIMENTO DOM í NIOS LING üíSTICOS E CONSCIêNCIA HUMANA 241


como aconteceu com Washoe esses animais são
capazes de entrar nele. Mas a magnitude e o ca-
Homem
moderno

rá ter dos dom ínios lingu ísticos em que partici-


pam se revelam limitados. Não sabemos se isso
se deve a limitações lingüísticas intrínsecas ou ao
â mbito de suas preferências comportamentais.
Com efeito, esse fato não nos deve surpreender,
pois sabemos que a divergência histórica entre
hominídeos e antropóides deve ter envolvido di-
ferenças estruturais no sistema nervoso, associa-
das a seus modos de vida tão distintos.
Não conhecemos com precisão, e talvez não
conheçamos nunca , os detalhes da história das
transformações estruturais dos hominídeos. Infe-
lizmente, a vida social e lingüística não deixa fós-
seis e não é possível reconstrui-la. O que pode-
mos dizer é que as mudanças nos primeiros
hominídeos, que tornaram possível o aparecimen-
to da linguagem , tê m a ver com sua história de
animais sociais, de relações interpessoais afetivas
e estreitas , associadas à coleta e à partilha de ali-
mentos. Neles coexistiam as atividades aparente- Fig. 65. Nossa linhagem. A linhagem de homin ídeos à qual pertence-
mente contraditórias de ser parte integrante de mos tem mais de quinze milhões de anos (Fig.
um grupo muito ligado e, ao mesmo tempo, sair 65). No entanto, não foi senão há cerca de três
e afastar-se por períodos mais ou menos longos, milhões de anos que se consolidaram os traços
coletando e caçando. Uma “ trofolaxe" lingüística estruturais essencialmente idênticos aos atuais. En-
com capacidade de tecer ( recursivamente) uma tre os mais importantes: o andar bípede e ereto,
trama de descrições, é um mecanismo que per- o aumento da capacidade craniana (Fig. 66), uma
mite a coordena ção comportamental ontogénica , conformaçã o dentá ria específica - associada à
como um fenômeno que admite um caráter cul - alimentação on ívora , mas baseada principalmen-
tural, ao permitir que cada indivíduo “ leve ” o gru- te em sementes e nozes - e a substituição dos
po consigo, sem necessidade de interações físi- ciclos estrais de fertilidade das fêmeas por mens-
cas contínuas com ele. Examinemos isso um pou- truações. Estas fizeram com que a sexualidade
co mais de perto. feminina se tornasse contínua e não mais sazonal,
242

^
CONHECIMENTO I BOM í NIOS Lí NCüíSTICOS E CONSCIêNCIA HUMANA
A ÁRVORE DO 243

Podemos imaginar esses primeiros homin ídeos


2050
como seres que viviam em pequenos grupos ou
famílias extensas, em constante movimento pela
savana ( Fig. 67). Alimentavam-se sobretudo do
1850
que coletavam: sementes duras - nozes, bolotas -,
mas também da caça ocasional. Como seu andar
1650 era bípede, tinham as mãos livres para carregar
tais alimentos por longos trechos até seu grupo
1450 de base, e não eram obrigados a levá-los no apa-
relho digestivo, como todo o resto do reino ani -
mal. Os achados fósseis indicam que seu com-
1250
portamento de transportadores era parte integran-
I
te da conformação de uma vida social na qual
1050
fêmea e macho - unidos por uma sexualidade
fO
:
I
permanente e não sazonal como a dos outros
primatas - compartilhavam alimentos e coopera-
850
1 l
¿
vam na criação dos filhotes. Isso ocorria no do-
650

150

1
! t Ii l l mínio das estreitas coordenações comportamen-
tais aprendidas (lingüísticas) que acontecem na
incessante coopera ção de uma família extensa .
Esse modo de vida de constante cooperação e

250
I média estatística
coordena ção comportamental aprendida teria
constitu ído o â mbito lingti ístico. Sua conserva-
ção teria levado a deriva estrutural dos homin ídeos
pelo caminho do contínuo incremento da capa-
e possibilitou a cópula face a face. É certo que cidade de fazer distinções nesse mesmo âmbito
nem todas essas transformações - que distinguem de coordenações comportamentais cooperativas
os hominídeos de outros primatas - aconteceram entre indivíduos que convivem de modo íntimo.
de modo simultâneo, mas sim em momentos e Tal participa ção recorrente dos homin ídeos nos
ritmos distintos, ao longo de vá rios milhões de domínios lingüísticos por eles produzidos em sua
anos. Em algum período, enquanto ocorriam es- socialização deve ter sido uma dimensão deter-
sas transições, o enriquecimento do domínio lin
-
güístico associado a uma sociabilidade recorren- Fig. 66 . Comparaçã o da
minante na eventual ampliação desses domínios.
capacidade craniana dos
At é que surgiu a reflexão que deu origem à
te levou à produção da linguagem.
hominídeos. linguagem - o momento em que as condutas
I
I
-s
li 244 A ÁRVORE DO
CONHECIMENTO aDOMí NIOS LINGüíSTICOS K CONSCIêNCIA HUMANA 245
r . yéç*.'
fiSiíe "cesvisie' '

Distribuição mundial de caçadores-coletores: 10.000 a .C.
. i ! lingüísticas passaram a ser objeto da coordena -
ção comportamenlal lingüística, da mesma ma -
neira que as ações no meio sã o objetos das coor-
denações comportamentais. Por exemplo, na in-
timidade das intera ções individuais recorrentes,
que personalizam o outro com uma distinção lin-
g üística particular que funciona como apelativo
individual , poderiam ter ocorrido as condições
para o aparecimento da reflexão lingüística.
Essa foi , até onde podemos imaginar, a histó-
Popula çã o mundial: 10 milhões ria da deriva estrutural dos hominídeos que le-
Porcentagem de caçadores-coletores: 100%
vou ao aparecimento da linguagem. É com essa
herança e com essas mesmas características fun-
Localidades conhecidas de caçadores-coletores contempor
â neos damentais que funcionamos hoje em dia, numa
deriva estrutural por meio da qual se conservam
a socializaçã o e a conduta lingüística acima
descritas.

Janelas As características ú nicas da vida social humana e


W experimentais seu intenso acoplamento lingüístico geraram um
§ para o mental fenômeno novo , ao mesmo tempo tão próximo e
tão distante de nossa própria experiência: a men-
Popula ção mundial: 3 bilhões te e a consciência . Será possível fazer algumas
Porcentagem de caçadores-coletores: 0,01% perguntas experimentais que nos revelem esse
fenômeno de modo mais detalhado? Bem, uma
1 . Esquimós - Alasca 8. Bosquímanos de
t forma seria perguntar a um primata: “ Como se
2. Esquimós - Territórios Kalahari - África do Sul, sente sendo um macaco?” Infelizmente parece que
do Noroeste Botsuana
3. Esquimós - Groenl â ndia 9. Bihar - índia Central a resposta não virá nunca, por causa das limita-
Fig. 67. No per
íodo neolítico, 4. Akuri - Suriname 10. Ilhéus andamaneses - ções que temos para construir com eles um do-
5. Pigmeus - Zaire Ilha dc Andamâ
as populações humanas eram
6. Ariangulos - Tanzania -
11. Rucs Tailâ ndia mínio de convivência que admita essas distinções
coletoras-ca çadoras ( mapa
acima ). Essas origens estão —
Iioni Tanzania
Sanye - Tanzania
12. Abor
-
ígenes australianos
Austrá lia
comportamentais (“sentir se”) como distinções lin-
-
ocultas nos estilos de vida 7. Korokas - Angola -
? Presença não verifteada gü isticas na linguagem . A riqueza (diversidade)
atuais ( mapa inferior). -
Bantos Angola de caçadores-coletores das interações recorrentes é que individualiza o

I
246 A Á RVORE DO CONHECIMENTO DOMí NIOS LíNGüíSTICOS E CONSCIêNCIA HUMANA 247

reflexo com todo tipo de gestos. Os gorilas, po-


rém, quando confrontados pela primeira vez com
.. t B
5' . £ um espelho parecem surpresos, mas logo se acos-
Q |

wn
1 tumam ao efeito e o ignoram. Para explorar mais
'Ji esse habituar-se à própria imagem, que surge de
* il
modo tão diferente do que ocorre com outros
animais, foi realizado um experimento. Um gori-
1
y la foi anestesiado e pintou-se, entre seus olhos,
' um ponto colorido que só podia ser visto ao es-
:
4- s pelho. Quando o animal saiu da anestesia e foi
posto diante do espelho - surpresa! sua mão
7 j
w
V
se dirigiu ao ponto colorido em sua própria testa
.. vü para examiná-lo. Era de supor que ele a estende-
r. ria para tocar o ponto na imagem, onde a estava
< vendo. Pensou-se que esses experimentos pode-
\ T
riam indicar que, pelo menos nos gorilas Ce em
outros primatas superiores), há uma certa possibi-
lidade de auto-imagem e portanto de reflexão.
¿ass Está longe de ser claro quais seriam os mecanis-
' mos recursivos que permitiriam tal reflexão - se
é que existem. E se existem, talvez sejam muito
outro na coordena ção lingüística , o que torna Fig. 68. O calcanhar de limitados e parciais. O mesmo não acontece com
possível a linguagem e determina seu cará ter e Aquiles para a habilidade o homem, no qual a linguagem faz com que essa
lingüística oral humana capacidade de reflexão seja insepará vel de sua
amplitude. Em todo caso, fica a pergunta. (colorido).
Talvez uma forma mais óbvia de contrastar a identidade.
experiência dos primatas com a humana não seja Uma ampla janela , que permite perceber o
por meio da linguagem , e sim aproveitando esse papel desempenhado pelo acoplamento lingüís-
objeto tão ligado à reflexão - o espelho. Em ge- tico na produção do mental nos humanos, surgiu
ral , os animais tratam comportamentalmente sua de algumas observações feitas com pacientes sub-
imagem ao espelho como se fosse a presença de metidos à neurocirurgia. Os estudos mais notá-
outro animal. Um cão late ou abana a cauda para veis são uma série feita em um n ú mero já bastan-
a sua imagem; os gatos procedem de modo equi- te grande de pessoas que sofrem de epilepsia.
valente. Entre os primatas, os macacos têm uma Cü G. Gallup, Amer. Scient .
Trata-se de uma síndrome que, em sua pior for-
conduta claramente parecida e respondem a seu 67: 417, 1979. ma , produz epicentros de atividade elétrica que
5W

248 A Á RVORE DO CONHECIMENTO ÍDOMíNIOS LINGüíSTICOS E CONSCIêNCIA HUMANA 249

se expandem por todo o córtex, sem nenhuma LAQV í UTACOíA fixamos o olhar de um individuo e controlamos a
regulação (Fig. 69)-
Como conseqüéncia , a pessoa sofre convul-
CljIHB0MAM4 localização em seu campo visual das imagens-
estímulo, podemos escolher entre interagir pre-
sões e perda de consciência, além de uma série i ferencialmente com o córtex direito ou o esquerdo.
de outros sintomas bastante incapacitantes. Em
casos extremos dessa doença , tentou-se, há al-
guns anos, evitar a invasão transcortical da ativi-
^ Nessa situação experimental, descobrimos que
é possível encontrar distintos comportamentos,
caso a interação com a pessoa ocorra pela direita
dade epiléptica cortando a conexão mais impor- Irap ou pela esquerda. Por exemplo, um indivíduo se
tante entre os hemisf é rios cerebrais, o corpo fjli , senta diante de uma tela , com a instrução de es-
caloso (Fig. 70). O resultado foi que a epilepsia £ gX colher, entre vá rios objetos - que não pode ver -
r
do indivíduo melhorou até certo ponto, mas os aquele que corresponde à imagem projetada (Fig.
hemisférios deixaram de funcionar como uma uni- 72). Se no lado esquerdo ( hemisfério direito) pro-
dade, como acontece nas pessoas normais. í Fig. 69. Ataque epilético de jetamos a imagem de uma colher, ele não terá
Já mencionamos que certas zonas do córtex E uma inca , segundo gravura da dificuldade para encontrar, pelo tato, a colher que
precisam estar intactas para que a fala seja possí- i época. está sob sua mão e mostrá-la . Mas se agora, em
vel. Na realidade, em quase todos os humanos vez da imagem de uma colher, mostramos a pala-
basta que haja integridade dessas regiões num só vra “colher”, o indivíduo não reage. Quando ques-
lado preferencial, mais comumente o esquerdo. tionado, confessa que não viu nada. Interações
É por isso que se diz que há uma lateralização na faladas ou escritas que só envolvem o córtex di-
linguagem. O que acontece, então, em relação à reito são, em geral , ininteligíveis para adultos
interação lingüística, com os indivíduos em que depois da secção do corpo caloso. Nesses casos,
os hemisférios foram desconectados? eles não podem interagir com o córtex esquerdo
Nas situações dp dia-a-dia não se nota nenhu- na linguagem escrita, do mesmo modo que um
ma diferença. Com efeito, esses pacientes opera- bebê ou um macaco. Contudo, pessoas assim são
dos podem retomar suas vidas habituais, e não perfeitamente capazes de participar, pelo campo
seria possível distinguir uma pessoa operada se a visual esquerdo, de outros domínios lingüísticos,
encontrássemos num coquetel. Mas há maneiras como mostram os mesmos experimentos.
de produzir, em laboratório, uma interação pre- Imaginemos agora que em vez de mostrar a
ferencial com o hemisfério esquerdo e direito do essa pessoa uma colher, em seu hemisfério direi-
cérebro em separado. Esses experimentos se ba- to, lhe mostremos a imagem de uma bela mode-
seiam na anatomia do sistema visual, no qual tudo lo nua, diante da qual ele se ruboriza. Ato contí-
o que vemos com o lado esquerdo estimula neurô- nuo, perguntamos: “O que aconteceu?” A respos-
nios que se encontram no córtex direito e vice- m R.W. ta do indivíduo é: “ Mas doutor, que máquina di-
Sperry, ‘lhe Harvey
versa (ver diagrama na Fig. 71). Desse modo, se Lectures 62: 293, 1968. vertida essa sua...” Ou seja , a pessoa com quem
I

¡L
JflPpBPk

DOMINIOS Lí NG üíSTICOS E CONSCIENCE HUMANA

estamos conversando por meio de perguntas e Fig. 70. Desconexã o inter-


da linguagem falada, em intera ções que só en - hemisf érica no tratamento da
epilepsia : o corpo caloso
volvem seu hemisfério esquerdo, simplesmente
seccionatlo aparece colorido.
não é capaz de fazer descrições orais das intera-
ções que ocorreram no seu hemisfé rio direito , Fig. 71. Geometria da proje-
ção da retina no córtex. Per-
do qual o esquerdo está desconectado. Não há turbações localizadas no lado
recursividade sobre aquilo a que n ão há acesso. esquerdo afetarão exclusiva-
mente o córtex do lado direito.
Esse indiv íduo, acoplado à nossa linguagem, não
viu uma mulher nua. Para ele, a ú nica coisa que
aconteceu foi uma mudança de tônus emocional,
Podemos ir mais longe. Acontece que há uma
que por certo tem a ver com as ligações de ambos
pequena percentagem de seres humanos nos
os hemisférios com outras á reas do sistema nervo-
IX) quais a destruição de qualquer dos hemisf é rios
so que estão intactas. Diante dessa altera ção emo-
cional , o hemisfério lingüístico constró i uma his-
ÊQ M.S. Gazzaniga e J. E . n ão interfere na linguagem. Ou seja , indivíduos
LeDoux, The Integrated Mind,
nos quais existe apenas uma leve lateraliza ção.
tória e diz: “Que máquina divertida o senhor tem ”. Cornell University Press, Nova
York , 1978. Felizmente para nós, uma dessas raras pessoas
'r
V

1 252 A Á RVORF. DO CONHECIMENTO DOMí NIOS LING üíSTICOS E CONSCIêNCIA HUMANA 253

a pergunta: “O que você quer ser quando cres-


cer?” foi respondida assim: “Piloto de automóvel
de corrida ”. O que é fascinante , porque a mesma
Fig. 72. Situação experimen-
questão, apresentada ao lado direito, tivera como
tal para o estudo comporta - resposta: “ Desenhista ”.
mental de pessoas com secção Tais observações indicam que nesse caso, quan-
do corpo caloso. Coloca-se o
indivíduo cie modo que não do se interage com ambos os hemisférios, encon-
possa ver suas mãos nem o tram-se comportamentos que em geral identifica-
objeto a ser manipulado. A
seguir, são mostradas imagens mos como próprios de uma mente consciente
ã direita ou à esquerda de seu capaz de reflexão, o que é muito importante. A
campo visual, que ele deve diferença entre Paul e outros pacientes - que é,
identificar com as mã os ou
com a fala. : claramente, a duplicação de sua capacidade de
linguagem oral, com a participação independen-
te de ambos os hemisférios na reflexão linguísti-
foi um paciente submetido à comissurotomia e
voluntá rio do mesmo tipo de experimentos que | -
ca falada nos mostra que sem a recursividade
descrevemos. A diferença essencial é que é pos- lingüística não há linguagem nem parece gerar-
sível interagir agora pela esquerda ou pela direita se uma mente, ou algo identificável como tal, em
com a linguagem e, em ambos os casos, pedir nosso domínio de distinções.
respostas que exijam reflexão lingüística . Paul , O caso de Paul nos mostra algo mais. No cur-
um rapaz nova-iorquino de 15 anos, por exem- so de uma interação lingüística oral, parecia que
plo, era capaz de escolher a colher quando esta o hemisfério esquerdo era o predominante nele.
era pedida por meio da palavra escrita , em am- Por exemplo, quando se projetava uma ordem
bos os hemisférios. escrita para o hemisf é rio direito, tal como “ ria ”,
Em conseq üéncia , projetou -se para Paul uma Paul de fato fingia rir. Quando perguntavam ao
nova estratégia experimental . O pesquisador co- hemisf é rio esquerdo o porquê do riso, o rapaz
meçava com uma pergunta oral como: “ Quem...?” respondia algo como: “É que vocês são engraça-
e os espaços em branco eram completados por dos...”. Quando surgiu a ordem “ Coce-se” , a res-
uma imagem projetada num dos campos visuais, posta sobre porque se coçava foi: “Tenho cocei-
como por exemplo: “É você?”. Essa pergunta , '
ra ”. Ou seja , o hemisfério predominante não teve
apresentada em ambos os lados, recebeu a mes- problemas para inventar alguma coerência des-
ma resposta: “ Paul ”. Diante da questão; “ Que dia critiva para explicar as ações que vira ocorrer
será amanhã?” , a resposta foi , adequadamente: mas que estavam fora de sua experiê ncia direta ,
“ Domingo”. Quando feita ao hemisfério esquerdo, devido à sua desconexão com o outro hemisfério.
254 A Á RVORE DO CONHECIMENTO I DOMíNIOS Lí NG üíSTICOS E CONSCI êNCIA HUMANA 255

Todos esses experimentos nos dizem algo funda- O mental e a conserva como unidade sob as contínuas pertur-
mental sobre a maneira como, na vida diá ria, or- consciência bações do meio e as de seu próprio funciona-
ganizamos e damos coerência a essa continua mento. Depois, vimos que o sistema nervoso gera
concatenação de reflexões que chamamos de uma dinâmica comportamental ao produzir rela-
consciencia , e que associamos à nossa identida- ções de atividade neuronal interna em sua clausura
-
de. Por um lado, mostram nos que o modo de operacional. O sistema vivo, em todos os níveis,
operar recursivo da linguagem é condição sine -
organiza se de maneira a gerar regularidades in-
qua non para a experiência que associamos ao ternas. No domínio do acoplamento social e da
mental. De outra parte, essas experiências funda- comunica ção (na “ trofolaxe ” lingüística), produz-
mentadas no lingüístico se organizam com base se o mesmo fenômeno. Só que a coerência e a
numa variedade de estados de nosso sistema ner- estabilização da sociedade como unidade se pro-
voso aos quais, como observadores, não temos duzirá, dessa vez, mediante os mecanismos tor-
necessariamente acesso direto. No entanto, nós nados possíveis pelo funcionamento lingüístico e
sempre os organizamos de maneira que elas se sua ampliação na linguagem. Essa nova dimen-
encaixem na coerência de nossa deriva ontogé- são de coerência operacional é o que experimen-
nica. No domínio lingüístico de Paul, não é pos- tamos como consciência e como “ nossa ” mente.
sível que ele ria sem uma explicação coerente Sabemos que as palavras são ações, e não coi-
para essa ação. Portanto, sua vivência atribui a sas que passam daqui para ali. É nossa história de
esse estado alguma causa como “é que vocês são interações recorrentes que nos permite um efeti-
engraçados” , conservando com essa reflexão a vo acoplamento estrutural interpessoal. Permíte-
coerência descritiva de sua história. nos também descobrir que compartilhamos um
Aquilo que, no caso de Paul, pode revelar-se mundo que especificamos em conjunto, por meio
até certo ponto como consciências desconectadas de nossas ações. Isso é tão evidente que é literal-
que funcionam por meio do mesmo organismo, mente invisível para nós. Só quando nosso aco-
mostra-nos um mecanismo que opera constante- plamento estrutural fracassa em alguma dimensão
mente dentro de nós. Tudo isso nos mostra que, do nosso existir, refletimos e nos damos conta de
na rede de interações lingüísticas na qual nos mo- até que ponto a trama de nossas coordenações
vemos , mantemos uma contínua recursão des- comportamentais na manipulação de nosso mun-

critiva - que chamamos de “eu” , que nos do - e a comunica ção - são insepará veis de nos-
permite conservar nossa coerência opera- sa experiência. Esses fracassos circunstanciais em
cional lingüística e nossa adaptação ao do- alguma dimensão de nosso acoplamento estrutu-
mínio da linguagem. ral são comuns em nossa vida cotidiana , desde
A esta altura de nossa apresentação, tal não comprar um pão até educar uma criança. Cons-
nos deve surpreender. Vimos que um ser vivo se tituem a motiva çã o para novas maneiras de

I
256 A Á RVORE DO CONHECIMENTO DOM í NIOS LING üíSTICOS E CONSCIêNCIA HUMANA 257

acoplamento e novas descrições - e assim cid um calendário e ler a Bíblia todas as tardes, isso só
infinitum. A vida humana cotidiana e o acopla- é possível se nos comportarmos como se existis-
mento estrutural mais atual estão tão cheios de sem outros, já que é a rede de interações lingüísti-
textura e estrutura que nos assombramos ao cas que faz de nós o que somos. Nós, que como
examiná-los. Por exemplo, o leitor terá prestado cientistas dizemos todas essas coisas, não somos
aten ção ã incrível trama subjacente à conversa- diferentes.
ção mais banal , em relação aos tons de voz, às A estrutura obriga . Por sermos humanos, so-
seqiiê ncias de uso da palavra , às superposições mos inseparáveis da trama de acoplamentos estru-
de ação entre os interlocutores? Em nossa onto- turais tecida por nossa pennanente “trofolaxe ” lin-
genia , temos nos acoplado assim por tanto tempo güística. A linguagem não foi inventada por um
que ela nos parece simples e direta . Na verdade, indivíduo sozinho na apreensão de um mundo
a vida comum de todos os dias é uma filigrana de externo. Portanto, ela não pode ser usada como
especificidades na coordenação comportamental. ferramenta para a revelação desse mundo. Ao con-
Dessa maneira , o aparecimento da linguagem trá rio, é dentro da própria linguagem que o ato de
no homem , e també m no contexto social em que conhecer, na coordenação comportamental que é

ela surge, gera o fenômeno inédito até onde
sabemos - do mental e da autoconsciê ncia como
a linguagem , faz surgir um mundo. Percebemo-
nos num m útuo acoplamento lingüístico, n ão por-
a experiê ncia mais íntima do ser humano. Sem o que a linguagem nos permita dizer o que somos,
desenvolvimento histórico das estruturas adequa - mas porque somos na linguagem, num contínuo
das, não é possível entrar no domínio humano - ser nos mundos ling üísticos e semâ nticos que
como aconteceu com a menina-lobo. Por outro geramos com os outros. Vemo-nos nesse acopla-
lado, como fenô meno na rede de acoplamento mento, não como a origem de uma referê ncia nem
social e lingüístico, o mental não é algo que está em relação a uma origem, mas como um modo
dentro de meu crâ nio. Não é um fluido do meu de contínua transformação no devir do mundo
cé rebro: a consciência e o mental pertencem ao lingüístico que constru ímos com os outros seres
domínio de acoplamento social, e é nele que ocorre humanos.
a sua dinâmica. É também nesse domínio que o
mental e a consciência funcionam como seletores
do caminho que segue nossa deriva estrutural
ontogé nica . Além disso, dado que pertencemos a
um dom ínio de acoplamento humano, podemos
considerar-nos como fontes de intera ções lin -
güísticas seletoras de nosso devir. Contudo, como
Robinson Crusoé entendeu muito bem ao manter
S' Z ã

- -
;

10 2
unidade
A ÁRVORE DO CONHECIMENTO
conhecer o conhecer 1 organização estrutura

ética
experiência cotidiana Lautopoiese J
fenômeno do conhecer fenomenología
biológica
explica ção
científica O conhecer e o Como as mãos do gravador de Escher ( Fig. 5 ),
observador
conhecedor este livro também seguiu um itinerá rio circular.
9 ação
3 Partimos das qualidades de nossa experiência ,
comuns à nossa vida social conjunta. A partir da í,
domínios linguísticos fenômenos históricos fizemos um longo percurso pela autopoiese ce-
I
linguagem conservação — varia ção lular, a organização dos metacelulares e seus do-
consciência reflexiva reprodução mínios comportamentais, a clausura operacional
do sistema nervoso, os dom í nios lingüísticos e a
linguagem . Ao longo desse percurso fomos ar-
mando, gradualmente e com peças simples , um
8 4 sistema explicativo capaz de mostrar como sur-
perturbações
gem os fenômenos próprios dos seres vivos. Dessa
fenômenos culturais I maneira, terminamos mostrando como os fenô-
fenômenos sociais
unidades de terceira
— acoplamento
-Ij estrutural
ontogenia . —
menos sociais fundamentados num acoplamento
lingüístico - dão origem à linguagem. Mostramos
— unidades de segunda ordem
ordem também como a linguagem, partindo de nossa
clausura operacional
experiência cotidiana do conhecer nela , nos per-
mite gerar a explicação de sua origem. O come-
7 ço é o final.
5 Assim , cumprimos a exigência que nos pro-
cognitivos _
atos

correlações internas 6 r
deriva
filogenia
história de _
pusemos ao começar, isto é, que a teoria do co-
nhecimento deveria mostrar como o fenômeno
natural interações
ampliação do comportamento — sistema do conhecer gera a pergunta que leva ao conhe-
domínio de interações nervoso conservação seleçã o
da adaptação estrutural cer. Essa situação é muito diferente das que en -
plasticidade contabilidade lógica
estrutural determinação estrutural contramos comumente, em que o fenômeno de
representação / perguntar e o questionado pertencem a dom í-
solipsismo
nios diversos.

..
A Á RVORE A ÁRVORE CONHECIMENTO 263
DO CONHECIMENTO DO

e defender sua validade. Com efeito, se simples-


mente supomos que há um mundo que é objeti-
vo e fixo, não é possível entender como funcio-
na nosso sistema em sua dinâmica estrutural, pois
ele exige que o meio especifique o seu funciona-
mento. Por outro lado, se nao afirmamos a obje-
tividade do mundo, parece que estamos dizendo
que tudo é pura relatividade, que tudo é possível
na negação de toda e qualquer legalidade. Vémo-
nos, então, diante do problema de entender como
nossa experiencia está acoplada a um mundo que
vivenciamos como contendo regularidades que
resultam de nossa historia biológica e social.
Mais urna vez temos de caminhar sobre o fio
da navalha , evitando os extremos representacional
(ou objetivista) e solipsista (ou idealista). Nessa
trilha mediana , encontramos a regularidade do
mundo que experienciamos a cada momento, mas
Pois bem, se o leitor seguiu com seriedade o sem nenhum ponto de referência independente
que foi dito nestas páginas, se verá obrigado a de nós mesmos, que nos garanta a estabilidade
ver todas as suas ações e o mundo por elas gera-
do - saborear, preferir, rejeitar ou conversar -
absoluta que gostaríamos de atribuir às nossas
descrições. Na verdade, todo o mecanismo da
como um produto dos mecanismos que descre- geração de nós mesmos - como descritores e
vemos. Caso tenhamos conseguido seduzir o lei- observadores - nos garante e nos explica que
tor para que ele veja a si próprio como tendo a nosso mundo, bem como o mundo que produzi -
mesma natureza desses fenômenos, este livro mos em nosso ser com os outros, será precisa;
cumpriu o seu primeiro objetivo. mente essa mistura de regularidade e mutabili-
-
Fazer isso certamente nos deixa em uma situa dade, essa combinaçã o de solidez e areias move -
ção inteiramente circular, que produz alguma diças que é tã o típica da experiencia humana
vertigem - algo parecido ao que se vê na gravura quando a olhamos de perto.
das mãos de Escher. Essa vertigem vem do fato Entretanto, é evidente que não podemos sair
de que aparentemente não temos um ponto de desse círculo e saltar para fora de nosso dom ínio
referência fixo e absoluto, ao qual possamos cognitivo. Seria como, por um fiat divino, mudar
ancorar nossas descrições e, desse modo, afirmar a natureza do cé rebro, modificar a natureza da
264 A ÁRVORE CONHECIMENTO 265
DO CONHECIMENTO A ÁRVORE DO

linguagem e alterar a natureza do porvir, ou seja, biológica e sua cultura . A tradição é ao mesmo
a natureza da natureza. Estamos continuamente tempo uma maneira de ver e de agir, e també m
imersos nesse circular de uma interação a outra, uma forma de ocultar. Toda tradição se baseia
cujos resultados dependem da história. Todo fa- naquilo que uma história estrutural acumulou
zer leva a um novo fazer: é o círculo cognitivo como óbvio, como regular, como estável, e a re-
que caracteriza o nosso ser, num processo cuja flexão que permite ver o óbvio só funciona com
realização está imersa no modo de ser autónomo aquilo que perturba essa regularidade.
do ser vivo. Tudo aquilo que, como seres humanos, temos
Por meio dessa contínua recursividade , todo em comum, é uma tradição biológica que come -
mundo produzido oculta necessariamente suas çou com a origem da vida e se prolonga até hoje ,
origens. Do ponto de vista biológico, não há como nas variadas histórias dos seres humanos deste
descobrir o que nos aconteceu para que obtivés- planeta. Por causa de nossa herança biológica
semos as regularidades do mundo com as quais comum temos os fundamentos de um mundo
estamos acostumados, desde os valores ou pre- comum, e n ão nos parece estranho que para to-
ferências até as tonalidades das cores e os odo- dos os seres humanos o céu seja azul e que o sol
res. O mecanismo biológico nos indica que uma nasça a cada dia. De nossas heranças lingüísticas
estabilização operacional na dinâmica do orga- diferentes surgem todas as diferenças de mundos
nismo não incorpora a maneira como ele se ori- culturais, que como homens podemos viver e que,
ginou. Nossas visões de mundo e de nós mes- dentro dos limites biológicos, podem ser tão di -
mos não guardam registros de suas origens. As versas quanto se queira.
palavras na linguagem (na reflexão lingüística) Todo conhecer humano pertence a um desses
passam a ser objetos que ocultam as coordena- mundos e é sempre vivido numa tradição cultu-
çoes comportamentais que as constituem opera- ral. A explicação dos fenômenos cognitivos que
cionalmente no domínio lingüístico. Por isso, apresentamos neste livro se localiza na tradição
nossos “ pontos cegos ” cognitivos são continua- da ciê ncia e se valida por meio de seus critérios.
mente renovados e não vemos que não vemos, No entanto é uma explicaçã o singular, pois
não percebemos que ignoramos. Só quando al- mostra que ao pretender conhecer o conhecer,
guma interação nos tira do óbvio - por exemplo, encontramo-nos nitidamente com nosso próprio
quando somos bruscamente transportados a um ser. O conhecer o conhecer não se dispõe como
meio cultural diferente -, e nos permitimos refle- uma árvore com um ponto de partida sólido, que
tir, é que nos damos conta da imensa quantidade cresce gradualmente até esgotar tudo o que há
de relações que consideramos como garantidas. para conhecer. Assemelha-se mais à situação do
A bagagem de regularidades próprias do aco- rapaz na Galeria dos Quadros de Escher (Fig. 73).
plamento de um grupo social é sua tradição O quadro que ele vê transforma-se de modo
A ÁRVORE DO CONHECIMENTO 267

O conhecimento Segundo o texto bíblico, quando Ad ão e Eva co-


do conhecimento meram o fruto da á rvore do conhecimento do
obriga bem e do mal, viram-se transformados em outros
seres e não mais voltaram à antiga inocencia .
Antes, seu conhecimento do mundo se expressa-
va em sua nudez , e eles se moviam com ela e
nela , na inocê ncia do mero saber; depois, sabiam-
se desnudos: sabiam que sabiam.
Ao longo deste livro, percorremos a “á rvore
do conhecimento” , e a vimos como o estudo cien -
t ífico dos processos a ele subjacentes. E , se se-
guimos seus argumentos e internalizamos suas
conseqiiências, também nos demos conta de que
eles são inescapá veis. O conhecimento do co-
nhecimento obriga . Obriga -nos a assumir uma
atitude de permanente vig ília contra a tentaçã o
da certeza , a reconhecer que nossas certezas nã o
são provas da verdade, como se o mundo que
cada um vê fosse o mundo e não um mundo
que constru ímos juntamente com os outros. Ele
nos obriga , porque ao saber que sabemos não
podemos negar que sabemos.
Por tudo isso que dissemos aqui , esse saber
que sabemos leva a uma ética que é inevitável e
que não podemos desprezar. Nela , o ponto cen-
tral é que assumir a estrutura biológica e social
gradual e imperceptível... na cidade em que está
a galeria! Não sabemos onde situar o ponto de
Fig. 73. A galeria de quadros, í do ser humano equivale a colocar no centro a
M - Esther,
reflexão sobre aquilo de que ele é capaz e que
partida: fora , dentro? É a cidade ou a mente do
o distingue . Equivale a buscar as circunstâ ncias
rapaz? O reconhecimento dessa circularidade
que permitem tomar consciência da situação em
cognitiva , porém, não constitui um problema para
que se está - qualquer que seja ela - e olhá-la a

a compreensão do fen ômeno do conhecer, pois
partir de uma perspectiva mais abrangente, a partir
na verdade ela fundamenta o ponto de partida
de uma certa distâ ncia. Se sabemos que nosso mun-
que permite sua explicação cient ífica .
do é sempre o que constru ímos com os outros, | ^
fe®
268 A ÁRVORE DO CONHECIMENTO A ÁRVORE DO CONHECIMENTO 269

cada vez que nos encontrarmos em contradição


ou oposição com outro ser humano com o qual Ética
desejamos conviver , nossa atitude não poderá
Todo ato humano ocorre na linguagem . Toda ação
ser reafirmar o que vemos do nosso próprio pon- na linguagem produz o mundo que se cria com os
to de vista. Ela consistirá em apreciar que nosso outros, no ato de convivê ncia que dá origem ao
humano. Por isso, toda ação humana tem sentido
ponto de vista é o resultado de um acoplamento
é tico. Essa ligação do humano ao humano é, em
estrutural no dom ínio experiencial , tão válido última instância , o fundamento de toda ética como
quanto o de nosso oponente, mesmo que o reflexão sobre a legitimidade da presença do outro.
dele nos pareça menos desejável . Caberá , pois,
a busca de uma perspectiva mais abrangente, de
um dom ínio experiencial em que o outro tam-
bém tenha lugar e no qual possamos construir que habitualmente chamamos de amor. Além do
um mundo juntamente com ele. mais, tudo isso nos permite perceber que o amor
O que a biologia nos mostra - se é que temos ou , se não quisermos usar uma palavra tão forte,
razão em tudo o que dissemos neste livro - é que a aceitação do outro junto a nós na convivên-
a unicidade do ser humano, seu património ex- cia , é o fundamento biol ógico do fenômeno so-
clusivo , está num acoplamento estrutural social cial. Sem amor, sem aceitação do outro junto a
em que a linguagem tem um duplo papel. Por nós, não há socializa ção, e sem esta não há hu-
um lado, gerar as regularidades próprias do aco- manidade . Qualquer coisa que destrua ou limite
plamento estrutural social humano, que inclui, a aceitação do outro, desde a competiçã o até a
entre outros , o fenômeno das identidades pes- posse da verdade, passando pela certeza ideoló-
soais de cada um. De outra parte , constituir a gica , destrói ou limita o acontecimento do fenô-
dinâ mica recursiva do acoplamento estrutural meno social. Portanto, destrói també m o ser hu -
social , que produz a reflexividade que conduz mano, porque elimina o processo biológico que
ao ato de ver sob uma perspectiva mais ampla . o gera . Não nos enganemos. Não estamos mora-
Trata-se do ato de sair do que até esse momento lizando nem fazendo aqui uma prédica do amor.
era invisível ou inamovível , o que permite ver Só estamos destacando o fato de que biologica-
que como seres humanos só temos o mundo que mente, sem amor, sem aceitação do outro, não
criamos com os outros. há fenômeno social . Se ainda se convive assim
A esse ato de ampliar nosso dom ínio cogniti- vive-se hipocritamente , na indiferença ou na ne-
vo reflexivo - que sempre implica uma experiê n- gação ativa.
cia nova podemos chegar pelo raciocínio ou , Descartar o amor como fundamento biológico
mais diretamente , porque alguma circunstância do social, bem como as implicações éticas dessa
nos leva a ver o outro como um igual , um ato din â mica , seria desconhecer tudo o que nossa
270 A Á RVORE DO CONHECIMENTO A ÁRVORE DO CONHECIMENTO 271

história de seres vivos de mais de três bilhões e por meio deles, num processo que configura o
meio de anos nos diz e nos legou. Não prestar nosso porvir. Cegos diante dessa transcendência
atenção ao fato de que todo conhecer é um fa- de nossos atos, pretendemos que o mundo tenha
zer, não perceber a identidade entre ação e co- um devir independente de nós, que justifique nos-
nhecimento, não ver que todo ato humano , ao sa irresponsabilidade por eles. Confundimos a
construir um mundo na linguagem , tem um cará- imagem que buscamos projetar, o papel que re-
ter ético porque ocorre no domínio social - tudo presentamos, com o ser que verdadeiramente
-
isso é igual a não permitir se ver que as maçãs constru ímos no nosso viver cotidiano.
caem para baixo. Proceder assim, sabendo que Chegamos ao final. O leitor não deve buscar
sabemos, seria um auto-engano, uma negação aqui receitas para o seu fazer concreto. A inten-
intencional. Para nós , portanto, tudo o que disse- ção deste livro foi convidá-lo a uma reflexão que
mos neste livro não só tem o interesse de toda o leve a conhecer o seu conhecer. A responsabi-
exploração científica , como o de proporcionar- lidade de transformar esse conhecimento na car-
nos a compreensão de que somos humanos na ne e no osso de suas ações está em suas m ãos.
dinâ mica social . Liberta-nos de uma cegueira fun- Conta-se que havia uma ilha , que ficava em
damental: a de não percebermos que só temos o Algum Lugar, em que os habitantes desejavam
mundo que criamos com os outros, e que só o intensamente ir para outra parte e fundar um
amor nos permite criar um mundo em comum B mundo mais sadio e digno. O problema era que
3
com eles. Se conseguimos seduzir o leitor a fazer a arte e a ciê ncia de nadar e navegar ainda não
essa reflexão, este livro cumpriu seu segundo tinham sido desenvolvidas - ou talvez tivessem
objetivo. sido há muito esquecidas. Por isso, havia habi-
Afirmamos que, no âmago das dificulda- tantes que simplesmente se negavam a pensar
des do homem atual, está seu desconhecimen- nas alternativas à vida na ilha , enquanto que ou-
to do conhecer . tros tentavam encontrar solu ções para os seus
Não é o conhecimento, mas sim o conheci- problemas, sem preocupar-se em recuperar o
mento do conhecimento, que cria o comprome- conhecimento de como cruzar as águas. De vez
timento. Não é saber que a bomba mata , e sim em quando, alguns ilhé us reinventavam a arte de
saber o que queremos fazer com ela que deter- nadar e navegar. Também de vez em quando
mina se a faremos explodir ou nã o . Em geral , chegava a eles algum estudante, e então aconte-
ignoramos ou fingimos desconhecer isso, para cia um di á logo assim:
evitar a responsabilidade que nos cabe em todos “ Quero aprender a nadar. ”
os nossos atos cotidianos, já que todos estes - “O que quer fazer para conseguir isso?”
Q I. Shah , The Sufis, Anchor
sem exceção - contribuem para formar o mundo “ Nada . Só quero levar comigo uma tonelada
Books, Nova York, 1964, págs.
em que existimos e que validamos precisamente 2-15. de repolho.”
A ARVORE DO CONHECIMENTO

10 2
unidade

conhecer o conhecer 1 organização estrutura

ética
experiência cotidiana L autopoiese J
|
fenômeno do conhecer fenomenologí a
biológica
explicação
cientí fica
observador
"

m
I
ação
9 3
domí nios linguísticos fenômenos históricos
I I
linguagem conservação — variação
consciência reflexiva reprodução

m
"Que repolho?” 8 4
"A comida de que vou precisar no outro lado, perturbações
ou seja lá onde for.” I :
fenômenos culturais
— acoplamento |
"Mas h á outras coisas para comer no outro I estrutural
ontogenia
fenômenos sociais
|
lado.” unidades de terceira - - unidades de segunda ordem
" Nã o sei o que quer dizer. Não tenho certeza . ordem
clausura operacional —
Tenho de levar meu repolho.” m
“ Mas assim não vai poder nadar. Uma tonela-
da de repolho é uma carga muito pesada .” 5
“Então não posso aprender. Para você, meu
7 - -H
filogenia
repolho é uma carga . Para mim, é um alimento atos cognitivos —
essencial . ” correlações internas 6 deriva
natural
história de
intera ções
_

“Suponhamos que - como numa alegoria - os ampliação do comportamento — sistema seleção


nervoso conservação
dominio de interações estrutural
repolhos representem ideias adquiridas, pressu - da adaptação
plasticidade contabilidade lógica
postos ou certezas.” estrutural I determinação estrutural
representação /
“Hum... Vou levar meus repolhos para onde solipsismo
haja alguém que entenda as minhas necessidades."

Glossário

:•

Acidos nucleicos Cadeia de nucleótidos. Ver ADN ou ARN.


la ADN (ácido Principal componente dos cromossomos. Participa, d <
-
-
T des< ixirribonucléico ) modo crucial, da sáltese de proteínas celulares, po
meio da especificação de sua seqüéncia de aminoáci -
dos, que se faz por intermédio do ARN.
Aminoácidos Moléculas orgá nicas componentes das proteínas. Cad
C:lel:
aminoácido é formado por um grupo amínico, un
grupo ácido e um residuo molecular peculiar a cad;
tipo de aminoácido. Existem cerca de 20 aminoácido
ñas proteínas dos seres vivos, como lisina, alanina -
leucina etc.
Antropóides Conjunto dos primatas chamados superiores, que inclu
os gorilas, os chimpanzés, os gibões e os orangotangos
Ano- luz Unidade de distancia astronómica , que corresponde ;
distancia que percorreria um raio de luz em um ano
A velocidade da luz é de aproximadamente 300.0
300.0Ü\
CK
quilómetros por segundo.
ARN (ácido Ácido nucléico que partidpa na síntese de proteína;
ribonucleico) no citoplasma celular.
Axónio Extensão protoplasmática neuronal ú nica , que habí
tualmente é capaz de conduzir um impulso nervoso
Bacterias Seres vivos unicelulares sem compartimentalizaçâc
interna (procariontes).
Cerebelo Lobo da porção cefálica do sistema nervoso dos ver
tebrados, que participa ativamente na regulação fin;
da atividade muscular.
A Á RVORE
276 DO CONHECIMENTO
' iff
¡ , GLOSSá RIO 277

Receptiviclade sexual periódica, sazonal ou mensal, -


In uilria Hormônio secretado no pâ ncreas, que participa na
nos mam íferos em geral e nos primatas em particular. I regulação da absorção da glicose.
Grandeza que caracteriza a freqiiência de vibra ções om primen to de onda Conjunto dos processos de transformação qu ímica dos
Metabolismo celular
das diferentes cores do espectro da luz visível e, em componentes celulares que ocorrem permanentemente
geral , das diferentes radiações eletromagnéticas.
no interior de uma célula.
Camada celular ( neuronal) mais externa dos hemisfé- l' UTi
Mitose Processo de descompartimentalização celular que leva
rios cerebrais.
à reproduçã o de uma célula .
Componentes nucleares formados por ácidos nucléi-
cos altamente comprimidos e proteínas. São facilmente
’ «ü Krt -oiniw
Mixoinicetos Grupo de organismos eucariontes, cujo ciclo de vida
implica fases com indivíduos amebóides dispersos e
visíveis durante a divisão celular, e seu n ú mero é fixo
para cada espécie viva. fases de agrega ção celular, com ou sem fusão.

Conjunto de axônios que interligam o córtex de am - vorpo caloso m::


í Z Ñ ervo óptico Feixe de fibras nervosas que conectam a retina com o
cé rebro.
bos os hemisférios cerebrais. I ‘

Extensões protoplasmá ticas neuronais de n ú mero e Neurô nio Célula própria do sistema nervoso que se caracteriza
Dendritos
forma variados, que não conduzem impulsos nervosos. por ter axônio e dendritos.
I
Fase celular envolvida por uma camada resistente. esporos Netirmrausmissor Substâ ncia secretada nos terminais sin á pticos que de-
sencadeia mudanças elétricas no neurônio receptor.
Células com compartimento nuclear e outras estrutu- -
J .ucuriotTtes
ras, tais como mitocôndrias, cloroplastos etc. I Nuclcó t kl.o Moléculas orgânicas componentes dos ácidos nucléi-
Conjunto dos fenômenos associados às interações de
cos. Cada nucleótida é formada pela união de uma
torncnologia
uma classe de unidades. molécula de açú car (ribose), ou desoxirribose, um áci-
do fosf órico e uma base nitrogenada ( purinas ou
Ó rgão celular em forma de filamento móvel. ; lago lo
1 pirimidinas).
Restos ou pegadas mineralizados deixados por um Fóssil História de transformações de uma unidade , como
Ontogenia
ser vivo. resultado de uma história de interações, a partir de
Células que se fundem durante a reprodução sexuada, sua estrutura inicial.
como o espermatozoide ou o óvulo. Unidade multicelular resultante da fusão de vá rios in-
Piase ódr
Unidade descritiva hereditá ria na genética dos ácidos tt -u divíduos unicelulares.
nucléicos, que corresponde a um segmento de ADN.
Procnrioiu - - Células sem compartimento nuclear.
Cada urna das porções encefá licas simétricas do siste-
ma nervoso dos vertebrados. Prote ,: Moléculas orgâ nicas formadas pela união em cadeia
de numerosos aminoácidos. Essa cadeia se dobra es-
Conjunto das espécies do homem atual e suas formas
ancestrais.
Homin tacos m> pacialmente de maneiras diversas, segundo sua com-
posição de aminoácidos.
i

L .
278 A Á RVORE DO CONHECIMENTO
Célula eucarionte de vida livre. Protozoá rio Fonte das ilustrações
Extensão protoplasmá tica das células amebóides. Pseudo pixios
Unidade de distância astronómica , que corresponde a Quiloparscc
aproximadamente 3-260 anos-luz.
Transformações de partículas elementares que ocor- Reações
rem sob altíssimas temperaturas (da ordem de 10.000 termonucleares
graus).
Recorrente, que volta sobre si mesmo. Recursivo
Fig. 1 - Cristo coroado de espinhos, de Hieronimus
Bosch, Museu do Prado, Madri.
Ponto de contato íntimo de dois neurônios, em geral Sinapse
entre o axônio de um neurônio e os dendritos ou o -
Fig. 5 Mãos que desenham, de M.C. Escher, 1948
(28,5x34 cm), litografia reproduzida de The
corpo celular do outro.
Graphic Work of M .C. Escher, Meredith Press, Nova
Literalmente do grego: fluxo de alimentos. Trofolaxe York , 1967.
Célula resultante da fusão de dois gametas (células Zigoto Fig. 6 -
Reprodu ção da fotografia de uma galáxia.
sexuais), que é o ponto de partida no desenvolvi- Cortesia de Hale Observatories.
mento de um metacelular com reprodução sexuada.
Fig . 8 - Extra ído de F. Hoyle , Astronomy and
Cosmogony, Freeman , San Francisco, 1975,
pág. 276.
-
Fig. 9 Adaptado de R. Dickerson e I. Geis, The
Structure and Action of Proteins, Harper & Row,
Nova York, 1969.
Fig. 10- Extraído de L. Matgulis, Symbiosis in Cell
Evolution, Freeman , San Francisco, 1981, pág. 117.
Fig. 12 - Microfotografia de um embrião de sangues-
suga . Cortesia do Dr. Juan Ferná ndez, Departa-
mento de Biologia, Faculdade De Ciências Bási-
cas, Universidade do Chile.
Fig. 14 - Primeira divisão de um embrião de rato.
£ Microscopía de varredura. Cortesia dos Drs. Carlos
Doggenweiler e Luís Izquierdo, Departamento De
Biologia, Faculdade de Ciê ncias Básicas, Univer-
sidade do Chile.

1
-

Macurana e Varela mostram que a idéia


de que o mundo não é pré-dado, e que o
construimos ao longo de nossa interaçã o
com ele, não é apenas teórica: apóia-se em
evidencias concretas. Varias delas estão
expostas - com a freq ü ente utilização de
exemplos e relatos de experimentos- ñas
páginas deste livro.
As teorias dosdois autores constituem uma
concepção original e desafiadora, cujas con-
sequências éticas agora começam a ser per-
cebidas com crescente nitidez. A Árvore do
Conhecimento tomou-se um clássico, ou me-
lhor, recebeu o justo reconhecimento de seu
classicismo inato.Tudo isso compõe hoje uma
ampla bibliografia, espalhada por áreas tão
diversas como a biologia, a administração de
empresas, a filosofia, as ciências sociais, a
educação, as neurodêndas e a imunologia.

Humberto R. Maturana - Ph.D. em


Biologia (Harvard, 1958). Nasceu no Chile.
Estudou Medicina (Universidade do Chile)
e depois Biologia na Inglaterra e EUA. Como
biólogo, seuinteresse se orienta para a com-
preensão do ser vivo e do fundonamentodo
sistema nervoso, e também para a extensão
dessa compreensãoao âmbitosodalhuma-
no. É professor da Universidade do Chile.
Francisco J. Varela - Ph.D. em Biologia
(Harvard, 1970). Nasceu no Chile. Depois
-
de ter trabalhado nos EUA, mudou se paraa
França, onde passou a ser diretor de pesqui-
sasno CNRS (Centro National de Pesquisas
Científicas) no Laboratório de Neurodêndas
Impresso nas oficinas
da Gráfica Palas Athena.
Cognitivas do Hospital Universitário da
Salpê trière, em Paris, além de professor da
Escola Politécnica, também em Paris.

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