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Introducao A Burocracia - Ludwig Von Mises 741-Article Text-1467-1-10-20180621

O autor critica o burocratismo e argumenta que ele é rejeitado pelos cidadãos dos Estados Unidos. Ele sustenta que a burocracia só pode ser compreendida por contraste com o funcionamento do motivo do lucro no capitalismo.

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Introducao A Burocracia - Ludwig Von Mises 741-Article Text-1467-1-10-20180621

O autor critica o burocratismo e argumenta que ele é rejeitado pelos cidadãos dos Estados Unidos. Ele sustenta que a burocracia só pode ser compreendida por contraste com o funcionamento do motivo do lucro no capitalismo.

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MISES: Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia

ISSN 2318-0811
Volume III, Número 1 (Edição 5) Janeiro-Junho 2015: 251-262

Introdução à Burocracia*
Ludwig von Mises**

Resumo: Neste artigo, o autor critica o burocratismo, mostra como ele é rejeitado
pelos cidadãos dos Estados Unidos e faz uma correlação lógica entre o burocratismo
e os regimes totalitários que dele se nutrem. Argumenta sobre a unanimidade no que
diz respeito à distinção entre dois métodos contrários de fazer as coisas: a maneira
dos cidadãos e a forma como são geridos os órgãos governamentais e os municípios.
Finalmente, sustenta que a burocracia só pode ser compreendida por contraste com o
funcionamento do motivo do lucro, tal como este funciona na sociedade de mercado
capitalista.
Palavras-Chave: Burocracia, Crítica à Burocracia, Progressismo, Burocratismo, Tota-
litarismo, Gestão de Lucro.

Introduction to Bureaucracy
Abstract: In this article, the author criticizes bureaucratism, then shows how it is re-
jected by the citizens of the United States and makes a logical correlation between
bureaucracy and the totalitarian regimes that it nourishes. He argues on unanimity
with regard to the distinction between two contrary methods of doing things: the way
of the citizens and the manner how government agencies and municipalities are ma-
naged. Finally, he sustains that bureaucracy can only be understood by contrasting it
with the operation of the profit motive as it functions in the capitalist market society.

Keywords: Bureaucracy, Criticism of Bureaucracy, Progressivism, Bureaucratism,


Totalitarianism, Profit Management.

Classificação JEL: B53, Y80

*
Texto publicado pela primeira vez em inglês no ano de 1944 como introdução do livro Bureaucracy. A presente
tradução foi feita a partir da seguinte edição: MISES, Ludwig von. The Social and Political Implications of
Bureaucratization. In: Bureaucracy. New Haven: Yale University Press, 1944. p. 1-19.
Traduzido do original em inglês para o português por Heloisa Gonçalves Barbosa
**
Ludwig von Mises nasceu em 29 de setembro de 1881 na cidade de Lviv, atualmente na Ucrânia e na época
parte do território do Império Austro-Húngaro. Estudou, a partir de 1900, na Universidade de Viena, e recebeu
o título de Doutor em Direito por essa mesma instituição em 1906. Lecionou na Universidade de Viena de 1913
a 1934, no Instituto Universitário de Altos Estudos Internacionais em Genebra de 1934 a 1940 e na New York
University de 1945 a 1969. É autor de centenas de artigos acadêmicos e de mais de vinte livros dentre os quais
se destaca o tratado de economia Ação Humana (Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010). Faleceu no dia 10 de
outubro de 1973 em Nova York, nos Estados Unidos.
252 Introdução à Burocracia

I - A Conotação Ignominiosa mento. O infalível triunfo final do socialismo


do Termo Burocracia irá abolir não só o capitalismo, mas também
o burocratismo. No mundo feliz de amanhã,
Os termos burocrata, burocrático e bu- no paraíso abençoado do planejamento total,
rocracia são obviamente vitupérios. Ninguém não haverá mais nenhum burocrata. O ho-
chama a si mesmo de burocrata ou a seus pró- mem comum será soberano; o próprio povo
prios métodos de gestão burocrática. Esses cuidará de todos os seus interesses. Somente a
termos são sempre utilizados com uma cono- burguesia intolerante pode deixar-se enganar
tação negativa. Implicam sempre uma crítica pela concepção errônea de que a burocracia
depreciativa de pessoas, instituições ou pro- fornece uma amostra daquilo que o socialis-
cedimentos. Ninguém duvida de que a buro- mo reserva para a humanidade.
cracia seja profundamente maligna e de que Assim sendo, todos parecem concor-
não deveria existir em um mundo perfeito. dar que a burocracia é um mal. Porém, não
A implicação injuriosa dos termos em é menos verdadeiro que ninguém jamais ten-
questão não se limita aos Estados Unidos e a tou determinar, em linguagem inequívoca, o
outros países democráticos. Trata-se de um que realmente significa burocracia. Em geral,
fenômeno universal. Mesmo na Prússia, o o termo é empregado de maneira frouxa. A
perfeito modelo de governo autoritário, nin- maioria das pessoas ficaria constrangida se al-
guém desejava ser chamado de burocrata. O guém lhe pedisse uma definição e explicação
wirklicher geheimer Ober-Regierungsrat1 orgu- precisas. Como podem condenar a burocracia
lhava-se de sua dignidade e do poder esta lhe e os burocratas se nem sequer sabem o que
conferia. Sua vaidade deleitava-se na reverên- significam esses termos?
cia de seus subordinados e das massas. Estava
imbuído da ideia de sua própria importância
e infalibilidade. No entanto, teria considera- II - A Condenação do Burocratismo
do um insulto deslavado se alguém fizesse o pelo Cidadão Norte-americano
desaforo de chamá-lo de burocrata. Era, em
sua própria opinião, não um burocrata, mas Caso lhe fosse solicitado que especificas-
um servidor público, mandatário de Sua Ma- se suas queixas sobre os males da crescente
jestade, um funcionário do Estado que cuida, burocratização, um norte-americano poderia
inabalavelmente, dia e noite, do bem-estar da dizer algo assim:
nação. “Nosso sistema tradicional de governo
Vale ressaltar que os “progressistas”, a norte-americano se baseou na separação dos
quem os críticos da burocracia responsabi- poderes legislativo, executivo e judicial e em
lizam por sua disseminação, não ousam de- uma divisão equitativa das competências en-
fender o sistema burocrático. Pelo contrário, tre a União e os Estados. Os legisladores, os
ao condená-lo, juntam-se àqueles a quem, em executivos mais importantes e muitos dos
outros aspectos, desprezam como “reacioná- juízes eram escolhidos por eleição. Assim, o
rios”. Isto porque, afirmam, os métodos buro- povo, os eleitores, eram supremos. Além dis-
cráticos não são, de forma alguma, essenciais so, nenhum dos três ramos do governo tinha o
para a utopia a que eles próprios almejam. A direito de interferir nos assuntos privados dos
burocracia, rebatem, é, ao contrário, o modo cidadãos. O cidadão cumpridor da lei era um
insatisfatório como sistema capitalista tenta homem livre.
chegar a um acordo com a inexorável ten- Porém, agora, nos últimos anos e, em
dência em direção ao seu próprio desapareci- particular, desde o surgimento do New Deal,
forças poderosas estão a ponto de substituir
1
O principal conselheiro do rei da Prússia era respeitado este antigo e testado sistema democrático
como o Chefe do Conselho Privado Oficial. [N. do E.].
MISES: Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia
Ludwig von Mises 253

pelo regime tirânico de uma burocracia irres- cratas como responsáveis por uma evolução
ponsável e arbitrária. O burocrata não é eleito cujas causas devem ser procuradas alhures. A
para ocupar seu cargo, mas é nomeação por burocracia é apenas uma consequência e um
outro burocrata. Ele se apropria de uma boa sintoma de fatos e transformações com raízes
parte do poder legislativo. Comissões gover- muito mais profundas.
namentais e repartições públicas emitem de- A principal característica das políticas
cretos e regulamentos que visam a gerir e di- atuais é a tendência em direção a uma subs-
rigir todos os aspectos da vida dos cidadãos. tituição do controle do governo pela livre ini-
Não só regulam questões que até então eram ciativa. Poderosos partidos políticos e grupos
deixadas ao critério do indivíduo, como não de pressão imploram, com fervor, pelo con-
se furtam a decretar algo que, na prática, cons- trole público de todas as atividades econômi-
titui uma revogação de leis devidamente pro- cas, pelo total planejamento pelo governo, e
mulgadas. Por meio desta quase legislação, para a nacionalização das empresas. Visam ao
as repartições usurpam o poder de decidir total controle pelo governo da educação e à
muitos assuntos importantes de acordo com socialização da profissão médica. Não há ne-
seu próprio julgamento dos méritos de cada nhuma esfera da atividade humana que não
caso, ou seja, de modo bastante arbitrário. As estariam dispostos a subordinar à arregimen-
sentenças e acórdãos das repartições são exe- tação pelas autoridades. Em seus olhos, o con-
cutados por autoridades federais. As supos- trole pelo Estado é a panaceia para todos os
tas revisões judiciais são, na verdade, ilusões. males.
Todos os dias os burocratas abocanham mais Estes entusiásticos defensores da onipo-
poder; muito em breve, estarão dominando o tência do governo são muito modestos quan-
país inteiro. do avaliam o papel que eles próprios desem-
Não pode haver qualquer dúvida de que, penham na evolução em direção ao totalitaris-
em essência, este sistema burocrático é antili- mo. É inevitável, alegam, a tendência em dire-
beral, antidemocrático e antiamericano, que é ção ao socialismo. Trata-se de uma tendência
contrário ao espírito e à letra da Constituição, necessária e inevitável da evolução histórica.
e que é uma réplica dos métodos totalitários Com Karl Marx (1818-1883), sustentam que
de Joseph Stalin (1878-1953) e Adolf Hitler o socialismo decerto virá “com a inexorabili-
(1889-1945). Está imbuído de uma hostilidade dade de uma lei da natureza”. A proprieda-
fanática à livre iniciativa e à propriedade pri- de privada dos meios de produção, a livre
vada. Leva à paralisia a condução dos negó- iniciativa, o capitalismo e o sistema de lucro
cios e reduz a produtividade do trabalho. Ao estão condenados. A “onda do futuro” leva os
gastar desenfreadamente, dilapida a riqueza homens em direção a um paraíso terrestre de
da nação. É ineficiente e perdulário. Embora total controle pelo governo. Os defensores do
qualifique o que faz como planejamento, não totalitarismo se autodenominam “progressis-
tem planos definidos e objetivos. Carece de tas” exatamente porque fingem ter compreen-
unidade e uniformidade; as diversas reparti- dido o significado dos presságios. E ridicula-
ções e órgãos trabalham com objetivos opos- rizam e menosprezam como “reacionários”
tos. O resultado é uma desintegração de todo todos aqueles que tentam resistir a forças que,
o aparelho social de produção e distribuição. como se diz, nenhum esforço humano é forte
Seguramente advirão pobreza e angústia. o suficiente para deter.
De modo geral, esta veemente acusação Devido a estas políticas “progressistas”,
da burocracia consiste em uma descrição ade- novos órgãos e repartições governamentais
quada, embora emocional, das atuais tendên- crescem como cogumelos. Os burocratas se
cias do governo norte-americano. Todavia, multiplicam e estão ansiosos para restringir,
passa ao largo de questões relevantes na me- paulatinamente, a liberdade de agir do cida-
dida em que aponta a burocracia e os buro- dão. Muitos cidadãos, ou seja, aqueles a quem
254 Introdução à Burocracia

os “progressistas” desprezam como “reacio- agora não divergiu da vontade declarada da


nários”, ressentem-se desta intromissão em maioria do povo soberano.
seus assuntos e culpam a incompetência e Por outro lado, é preciso ter em mente
prodigalidade dos burocratas. Até agora, po- que a delegação de poder é o principal ins-
rém, estes adversários têm sido apenas uma trumento da ditadura moderna. É em virtu-
minoria. A prova é que, nas eleições passa- de da delegação de poder que Hitler e seu
das, não tiveram condições de atingir uma gabinete governam a Alemanha. É por de-
maioria dos votos. Foram derrotados pelos legação de poder que a Esquerda Britânica
“progressistas”, os inimigos inflexíveis da quer estabelecer sua ditadura e transformar
livre iniciativa e da iniciativa privada e de- a Grã-Bretanha em uma comunidade socia-
fensores fanáticos do controle totalitário dos lista. É óbvio que a delegação de poder pode
negócios pelo governo. ser usada como um disfarce quase constitu-
É fato que a política do New Deal rece- cional para a ditadura. Todavia, decerto não
beu o apoio dos eleitores. Nem resta qual- é isso que ocorre atualmente neste país. Sem
quer dúvida de que esta política será total- dúvida, o Congresso tem, ainda, o direito
mente abandonada se os eleitores deixarem legal e o poder real para recuperar todo o
de apoiá-la. Os Estados Unidos ainda são poder que delegou. Os eleitores ainda têm
uma democracia. A Constituição ainda está o direito e o poder de reeleger senadores e
intacta. As eleições ainda são livres. Os elei- deputados que são radicalmente contrários
tores não votam sob coação. Portanto, não é a qualquer abandono dos poderes do Con-
correto dizer que o sistema burocrático obte- gresso. Nos Estados Unidos, a burocracia se
ve sua vitória por métodos inconstitucionais baseia em fundamentos constitucionais.
e antidemocráticos. Os advogados podem Também não é correto julgar inconsti-
estar corretos ao questionar a legalidade de tucional a crescente concentração de poderes
alguns pontos de menor importância. En- jurisdicionais no governo central, nem tam-
tretanto, como um todo, o New Deal teve o pouco a diminuição da importância dos esta-
apoio do Congresso. O Congresso elaborou dos que daí resulta. Washington não usurpou
as leis e disponibilizou verbas. abertamente os poderes constitucionais dos
É claro que os Estados Unidos se veem estados. O equilíbrio na distribuição de pode-
confrontados por um fenômeno que os au- res entre o Governo Federal e os Estados, tal
tores da Constituição não previram nem po- como estabelecido pela Constituição, foi gra-
deriam ter previsto: que o Congresso abris- vemente perturbado porque, em sua maior
se mão voluntariamente de seus direitos. parte, os novos poderes que as autoridades
Em diversas ocasiões, o Congresso, cedeu a adquiriram provinham da União e não dos
função legislativa para órgãos e comissões estados. Isto não é resultado de maquinações
governamentais, e relaxou seu controle do sinistras da parte de panelinhas misteriosas
orçamento por meio da atribuição de dota- Washington, ávidas para refrear os estados e
ções para grandes gastos, os quais o gover- estabelecer a centralização. É a consequência
no tem de especificar pormenorizadamente. do fato de que os Estados Unidos são uma
Não faltam contestações ao direito que tem unidade econômica com um sistema monetá-
o Congresso de delegar, temporariamente, rio e creditício uniforme e com livre mobili-
alguns de seus poderes. A Suprema Corte dade de mercadorias, capitais e pessoas entre
declarou inconstitucional a National Recovery os estados. Em um país assim, o controle go-
Administration (“Administração de Recupe- vernamental dos negócios deve obrigatoria-
ração Nacional”). No entanto, formular de- mente ser centralizado. Estaria fora de ques-
legações de poder de maneira mais cautelosa tão deixá-lo para os estados. Se cada estado
são uma prática quase constante. Seja como fosse livre para controlar os negócios de acor-
for, ao agir desta maneira, o Congresso até do com os seus próprios planos, a unidade do
MISES: Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia
Ludwig von Mises 255

mercado interno se desintegraria. O controle legislar a respeito desses limites. O Congres-


estatal dos negócios seria possível somente so seria abarrotado por uma enormidade de
se todos os estados estivessem em condições projetos de lei, cujo conteúdo estaria além do
de separar seu território do resto da nação alcance de sua competência. Os membros do
por barreiras comerciais e de migração e por Congresso não teriam nem o tempo, nem as
meio de uma política monetária e de crédito informações necessárias para examinar de
autônoma. Como ninguém sugere seriamente modo adequado as propostas elaboradas pe-
fracionar a unidade econômica da nação, tem las diversas subdivisões do OPA. Não teriam
sido necessário confiar à União o controle dos escolha a não ser confiar no chefe do escritó-
negócios. É a natureza de um sistema de con- rio e em seus funcionários e votar em bloco
trole dos negócios pelo governo visar à maior a favor dos projetos ou revogar a lei que dá
centralização. A autonomia dos Estados, tal ao Executivo o poder de controlar os preços.
como garantida pela Constituição, só é reali- Estaria fora de questão para os membros
zável sob um sistema de livre iniciativa. Na do Congresso examinarem o assunto com a
votação a favor do controle dos negócios pelo mesma consciência e escrúpulo que normal-
governo, os eleitores, de maneira implícita, mente utilizam ao deliberar a respeito de po-
embora involuntária, estão votando a favor líticas e leis.
de uma maior centralização. Os procedimentos parlamentares são
Aqueles que criticam a burocracia co- um método adequado para lidar com a ela-
metem o erro de dirigir seus ataques contra boração de leis necessárias para uma comu-
um sintoma e não apenas contra a raiz do nidade que se baseia na propriedade privada
mal. Não faz diferença se os inúmeros decre- dos meios de produção, na livre iniciativa
tos que arregimentam todos os aspectos das e na soberania dos consumidores. Em sua
atividades econômicas do cidadão são emi- essência, são inadequados para a condução
tidos diretamente por uma lei devidamente dos assuntos sob a onipotência do governo.
aprovada pelo Congresso, ou por um órgão Os criadores da Constituição nunca sonha-
ou comissão governamental ao qual o poder ram com um sistema de governo em que as
foi ouyotrgado por uma lei e pela alocação autoridades teriam de determinar os preços
de verbas. O que realmente faz as pessoas re- da pimenta e das laranjas, das câmeras foto-
clamarem é o fato de o governo adotar essas gráficas e das lâminas de barbear, das grava-
políticas totalitárias, não os procedimentos tas e dos guardanapos de papel. Porém, se
técnicos realizados para colocá-las em práti- tal contingência lhes tivesse ocorrido, decer-
ca. Pouca diferença faria se o Congresso não to teriam considerado insignificante a ques-
tivesse atribuído a esses órgãos funções qua- tão de saber se essas regulamentações devem
se legislativas, mas reservasse a si mesmo o ser emitidas pelo Congresso ou por um ór-
direito de promulgar todos os decretos ne- gão burocrático. Teriam entendido com faci-
cessários para a execução de suas funções. lidade que, em última análise, o controle dos
Uma vez que o controle de preços es- negócios pelo governo é incompatível com
teja estabelecido como uma atribuição do qualquer forma de governo constitucional e
governo, diversos preços máximos precisam democrático.
ser fixados e, à medida que se modificam as Não é por acaso que os países socia-
condições, muitos deles precisam ser repe- listas são governados de maneira ditatorial.
tidamente alterados. Este poder é exercido Totalitarismo e governo do povo são coisas
pelo Escritório de Administração de Preços irreconciliáveis. A situação não seria diferen-
(Office of Price Administration – OPA). Mas a te na Alemanha e na Rússia se Hitler e Stalin
influência de seus burocratas não seria pre- submetesse todos os seus decretos à decisão
judicada de maneira significativa se fosse ne- de seus “parlamentos”. Sob o controle dos
cessário que se dirigissem ao Congresso para negócios pelo governo, os parlamentos não
256 Introdução à Burocracia

passam de assembleias de indivíduos que di- Finalmente, é verdade que a nova po-
zem sim. lítica, embora não seja inconstitucional do
Tampouco se justifica reclamar do fato ponto de vista meramente formal, é contrá-
de que os cargos administrativos burocráticos ria ao espírito da Constituição, que equivale
não são eletivos. Só é sensato eleger executi- a uma derrocada de tudo o que era precioso
vos no caso do alto escalão. Aqui, os eleitores para as gerações anteriores dos norte-ameri-
devem escolher entre os candidatos cujo cará- canos, que deverá resultar em um abandono
ter político e convicções conhecem. Seria ab- daquilo que se costumava chamar de demo-
surdo usar o mesmo método para a nomeação cracia e que, nesse sentido, é antiamericana.
de incontáveis indivíduos desconhecidos. Faz No entanto, nem estas acusações são capazes
sentido os cidadãos votarem no presidente, de desacreditar as tendências “progressistas”
no governador ou no prefeito. Seria absurdo aos olhos dos que as apoiam, pois olham para
deixá-los votar em centenas de milhares de o passado com olhos diversos de seus críticos.
funcionários subalternos. Nessas eleições, os Para eles, a história de todas as sociedades
eleitores não têm escolha senão aprovar a lista existentes até agora é um registro da degra-
proposta por seu partido. Não faz diferença dação e da miséria humanas e da exploração
relevante saber se o Presidente ou o Governa- impiedosa das massas pelas classes dominan-
dor eleitos nomeiam todos seus assessores ou tes. Aquilo a que se denomina “individualis-
se os eleitores votam em uma lista contendo mo” na língua americana é, dizem, “um altis-
os nomes de todos aqueles a quem seu candi- sonante título para a ganância transfigurada
dato preferido escolheu como assessores. que se pavoneia como uma virtude”. A ideia
É muito correto, tal como afirmam com era “dar liberdade para fazedores de dinhei-
frequência os adversários da tendência para ro, malandros perspicazes, manipuladores de
o totalitarismo, que os burocratas tenham li- ações e outros bandidos que se sustentavam
berdade de decidir questões de importância por meio de ataques à receita nacional”2. O
vital para a vida do cidadão individual se- sistema americano é desprezado como uma
gundo seus próprios critérios. É verdade que espúria “democracia dos direitos do cida-
aqueles que ocupam os cargos não são mais dão”, e o sistema russo de Stalin é elogiado
servidores dos cidadãos, mas amos e tiranos com extravagância como o único verdadeira-
irresponsáveis e arbitrários. Todavia, não é a mente democrático.
burocracia a culpada. Trata-se do resultado A principal questão nas lutas políticas
do novo sistema de governo que restringe a atuais é se a sociedade deve ser organizada
liberdade do indivíduo para gerir seus pró- com base na propriedade privada dos meios de
prios negócios e atribui cada vez mais tarefas produção (capitalismo, o sistema de mercado)
ao governo. O culpado não é o burocrata, mas ou com base no controle público dos meios de
o sistema político. E o povo soberano ainda produção (socialismo, comunismo, economia
tem liberdade para descartar este sistema. planejada). O capitalismo é sinônimo da livre
Além disso, é verdade que a burocracia iniciativa, da soberania dos consumidores em
se imbui de um ódio implacável da empresa questões de economia e soberania dos eleito-
privada e da livre iniciativa. Contudo, os par- res em questões políticas. Socialismo significa
tidários do sistema consideram esta, precisa-
mente, a característica mais louvável de sua 2
W. E. Woodward. A New American History. New
atitude. Longe de se envergonharem de suas York, 1938. p. 808. Na sobrecapa deste livro, lê-se:
políticas antiempresariais, orgulham-se delas. “Qualquer pai sensato, hoje, conhecedor de todos os
Têm como meta o controle total dos negócios fatos, provavelmente iria julgar Benedict Arnold, de
por parte do governo e enxergam um inimigo maneira geral, muito mais satisfatório do que Lincoln
como modelo para o seu filho.” É óbvio que aqueles
público em todo empresário que deseje esca- que têm essas opiniões não irão encontrar nenhuma
par desse controle. problema em com o antiamericanismo da burocracia.
MISES: Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia
Ludwig von Mises 257

controle completo por parte do governo de to- “Porém, com a inexorável tendência
das as esferas da vida do indivíduo e a supre- rumo à concentração econômica, a situação
macia irrestrita do governo na sua qualidade mudou de forma radical. Hoje, o cenário é do-
de órgão central de gestão da produção. Não minado pelas grandes empresas corporativas.
existe solução conciliatória possível entre es- Têm-se um proprietário ausente; os proprie-
tes dois sistemas. Contradizendo uma popu- tários legais, os acionistas, não têm real voz
lar falácia, não há nenhum caminho do meio, na gestão. Esta tarefa fica a cargo de adminis-
não existe um terceiro sistema possível como tradores profissionais. As empresas são tão
modelo permanente de ordem social3. Os ci- grandes que as funções e as atividades preci-
dadãos têm de escolher entre o capitalismo e sam ser distribuídas a departamentos e subdi-
o socialismo ou, como dizem muitos norte-a- visões administrativas. A gestão dos negócios
mericanos, entre o modo de vida americano e se torna necessariamente burocrática”.
o modo de vida russo. “Os atuais defensores da livre iniciativa
Neste antagonismo, quem ficar do lado são tão românticos quanto os que louvam as
do capitalismo deve fazê-lo de maneira franca artes e ofícios medievais. Equivocam-se total-
e direta. Deve apoiar de modo positivo a pro- mente ao atribuir a gigantescas corporações
priedade privada e a livre iniciativa. É inútil as qualidades que, outrora, representavam a
contentar-se com ataques a algumas medidas excelência de negócios de pequeno ou médio
destinadas a preparar o caminho para o socia- porte. Não há qualquer hipótese de se dividir
lismo. É inútil lutar contra meros fenômenos os grandes agregados em unidades menores.
concomitantes e não contra a tendência para o Pelo contrário, vai prevalecer a tendência a
totalitarismo como tal. É inútil insistir apenas uma maior concentração do poder econô-
na crítica ao burocratismo. mico. As grandes empresas monopolizadas
irão cristalizar-se em um rígido burocratis-
mo. Seus gestores, que não são responsáveis
III - A Visão “Progressista” diante de ninguém, irão tornar-se uma aris-
do Burocratismo tocracia hereditária; os governos se tornarão
meros fantoches de uma onipotente camari-
Os críticos “progressistas” do burocratis- lha de empresários”.
mo voltam seus ataques principalmente contra “É indispensável conter o poder desta
a burocratização das grandes empresas corpo- oligarquia gerencial por meios de atos do
rativas. Raciocinam da seguinte forma: governo. São infundadas as reclamações so-
“No passado, as empresas de negócios bre a arregimentação do governo. Do modo
eram relativamente pequenas. O empresário como estão as coisas, só se pode optar pelo
tinha condições de examinar todos os seto- controle por parte de uma burocracia geren-
res de sua empresa e tomar todas as decisões cial irresponsável ou pelo governo eleito da
importantes pessoalmente. Possuía todo o ca- nação”.
pital investido ou, pelo menos, a maior parte É evidente o caráter apologético de tal
dele. Ele próprio tinha um interesse vital no raciocínio. Os “progressistas” e defensores
sucesso da empresa. Assim sendo, devotava do New Deal respondem às críticas gerais
o melhor de si para fazer sua empresa tão efi- feitas à propagação do burocratismo gover-
ciente quanto possível e para evitar o desper- namental argumentando que a burocracia
dício”. não se limita apenas ao governo, mas que
se trata de um fenômeno universal presen-
te tanto nos negócios como no governo. Seu
3
Ver: MISES, Ludwig von. The Psychological principal motivo é “o tamanho avantajado
Consequences of Bureaucratization. In: Bureaucracy.
New Haven: Yale University Press, 1944. p. 93-108.
Esp. p. 96-97.
258 Introdução à Burocracia

da organização”4. Trata-se, portanto, de um inovações que impedem que todas as unida-


mal inevitável. des de negócios degenerem até se tornarem
Este livro tentará demonstrar que ne- uma rotina burocrática ociosa. Este líder per-
nhuma empresa com fins lucrativos, não im- sonifica o dinamismo inquieto e o progressis-
porta quais sejam suas dimensões, é suscep- mo inerente ao capitalismo e à livre iniciativa.
tível de se tornar burocrática desde que sua Seria, decerto, um exagero afirmar que
gestão não tenha as mãos atadas pela inter- faltam líderes criativos deste tipo nos Estados
ferência governamental. A tendência para a Unidos de hoje. Muitos dos antigos heróis dos
rigidez burocrática não é inerente à evolução negócios norte-americanos ainda estão vivos
dos negócios. É um resultado da intromissão e ativos na gestão de suas empresas. Seria
do governo nas empresas. uma questão delicada expressar uma opinião
É resultado das políticas destinadas a sobre a criatividade de homens mais jovens. É
neutralizar o papel que desempenha a moti- necessário um distanciamento temporal para
vação do lucro no arcabouço da organização apreciar suas realizações de modo correto.
econômica da sociedade. Raramente o verdadeiro gênio é reconhecido
Nessas observações introdutórias, que- como tal por seus contemporâneos.
remos nos concentrar apenas em um aspecto A sociedade não é capaz contribuir em
das queixas populares sobre a crescente bu- nada para a geração e criação de homens en-
rocratização dos negócios. A burocratização, genhosos. Não se pode treinar um gênio cria-
afirmam, é causada pela ausência “de uma tivo. Não existem cursos de criatividade. O
liderança eficaz e competente”5. O que falta é gênio é exatamente aquele que desafia todas
“uma liderança criativa”. as escolas e regras, que se desvia das sendas
Queixar-se da falta de liderança é, no tradicionais da rotina e abre novos caminhos
campo dos assuntos políticos, a atitude carac- através de terras antes inacessíveis. O gênio
terística de todos os arautos da ditadura. A é sempre o professor, nunca o aluno; sempre
seus olhos, a principal deficiência do governo vence por esforço próprio. Não deve favores
democrático é ser incapaz de produzir gran- aos que estão no poder. Contudo, por outro
des Führers e Duces. lado, o governo pode criar condições que le-
No campo dos negócios, a liderança vam a um estado de paralisia os esforços do
criativa manifesta-se na adequação da produ- espírito criativo e o impeçam de prestar servi-
ção e distribuição às mudanças nas condições ços úteis à comunidade.
de oferta e procura e na adaptação de aper- É isso que ocorre hoje, no campo dos ne-
feiçoamentos técnicos à utilização na prática. gócios. Vejamos um exemplo apenas, o impos-
O grande empresário é aquele que produz to de renda. No passado, um talentoso recém-
mais, que oferece produtos melhores e mais -chegado deu início a um novo projeto. Era
baratos, que, como um pioneiro do progresso, modesto no começo; o indivíduo era pobre,
proporciona a seus semelhantes mercadorias seu capital era pequeno e a maior parte obti-
e serviços que até então desconheciam ou es- da por empréstimos. Quando veio o sucesso
tavam além de suas possibilidades. Podemos inicial, ele não aumentar seu consumo, mas
chamá-lo de líder porque sua iniciativa e ati- reinvestiu a maior parte dos lucros. Assim,
vidade forçam seus concorrentes ou a imitar sua empresa cresceu rapidamente. Tornou-se
suas conquistas ou a fechar seu negócio. É sua um líder em seu ramo de negócios. Sua amea-
incansável inventividade e predileção pelas çadora concorrência forçou as ricas empresas
antigas e as grandes corporações a ajustarem
4
Ver DIMOCK, Marshall E. ; HYDE, Howard K. sua gestão de acordo com as condições impos-
Bureaucracy and Trusteeship in Large Corporations. tas por sua intervenção. Não lhes era possível
TNEC Monograph, n. 11, p. 36. ignorá-lo ou entregar-se à negligência buro-
5
Idem. Ibidem, p. 44. E os artigos citados por eles. crática. Era preciso estar em guarda dia e noi-
MISES: Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia
Ludwig von Mises 259

te contra esses perigosos inovadores. Se não mitiriam utilizar seus dons. As modernas po-
conseguissem encontrar um homem capaz líticas atam as mãos dos inovadores de forma
de rivalizar com o recém-chegado para gerir tão completa quanto o sistema de guildas da
suas próprias empresas, teriam de fundi-las Idade Média.
com a dele e se renderem à sua liderança.
Hoje, porém, o imposto de renda ab-
sorve oitenta por cento ou mais dos lucros IV - O Burocratismo
iniciais do recém-chegado. Ele não consegue e o Totalitarismo
acumular capital; não consegue expandir seus
negócios; sua empresa nunca se tornará um Será demonstrado, neste livro, que são
grande negócio. Não é capaz de competir com muito antigos a burocracia e os métodos bu-
os antigos grupos de interesse. As empresas e rocráticos e que sua presença é obrigatória no
corporações mais antigas já possuem um ca- aparato administrativo de todo governo cuja
pital considerável. O imposto de renda e os soberania se estende por uma grande área.
impostos empresariais os impedem de acu- Os faraós do antigo Egito e os imperadores
mular mais capital, ao mesmo tempo em que da China construíram uma enorme máqui-
impedem o recém-chegado de acumular al- na burocrática do mesmo modo que todos os
gum capital. Ele é condenado a permanecer demais governantes. O feudalismo medieval
para sempre como uma pequena empresa. foi uma tentativa de organizar o governo de
As empresas já existentes estão resguardadas grandes territórios sem burocratas e méto-
contra os perigos que representam um re- dos burocráticos. Esses esforços fracassaram
cém-chegado de talento. Não são ameaçados redondamente, o que resultou em uma com-
por sua concorrência. Na prática, usufruem pleta desintegração da unidade política e na
de privilégios desde que se contentem com anarquia. Os senhores feudais, originalmen-
a manutenção de suas empresas nos ramos te apenas funcionários, e, como tal, sujeitos à
e no tamanho tradicionais6. Obviamente, seu autoridade do governo central, tornaram-se
desenvolvimento fica cerceado. O contínuo príncipes praticamente independentes, lutan-
sugar de seus lucros pelos impostos faz com do entre si de maneira quase contínua e desa-
que lhes seja impossível expandir seus negó- fiando o rei, os tribunais e as leis. A partir do
cios com seu próprio capital. É assim que se século XV, a repressão da arrogância dos vas-
origina a tendência para a rigidez. salos era a principal tarefa dos diversos reis
Em todos os países, todas as leis fiscais europeus. O Estado moderno foi construído
são hoje estabelecidas como se o principal sobre as ruínas do feudalismo. Substituiu a
objetivo dos impostos fosse impedir a acu- supremacia de uma multidão de pequenos
mulação de capital novo, bem como os apri- príncipes e condes pela gestão burocrática
moramentos que poderia obter. Esta mesma dos assuntos públicos.
tendência se verifica em diversas outras áreas Muito à frente nessa evolução, estavam
das políticas públicas. Os “progressistas” es- os reis de França. Alexis de Tocqueville (1805-
tão completamente equivocados quando se 1859) demonstrou como os reis Bourbon ina-
queixam da falta de liderança empresarial balavelmente visavam à abolição da auto-
criativa. Não são os indivíduos que escas- nomia dos vassalos poderosos e dos grupos
seiam, mas, sim, as instituições que lhes per- oligárquicos de aristocratas7. Neste sentido, a
Revolução Francesa só realizou aquilo que os
6
Este não é um ensaio sobre as consequências sociais e
econômicas da tributação. Assim, não há necessidade
de examinar os efeitos dos impostos sobre as heranças, 7
TOCQUEVILLE, Alexis de. The Old Regime and the
cujo impacto já é perceptível neste país há muitos anos, Revolution. Ed. François Furet e Françoise Mélonio;
enquanto os efeitos acima descritos do imposto de Trad. Alan S. Kahan. Chicago: University of Chicago
renda são um fenômeno recente. Press, 1998. [N. do E.].
260 Introdução à Burocracia

próprios reis absolutistas haviam começado. rosa. As ideias populares de interferência do


Eliminou a arbitrariedade dos reis, tornou a governo junto às empresas e de socialismo
lei suprema em matéria de administração e neutralizaram as barragens erguidas por vin-
restringiu o âmbito dos assuntos sujeitos à te gerações de anglo-saxões contra a inunda-
decisões discricionárias dos funcionários. ção do governo arbitrário. Muitos intelectuais
Não removeu a gestão burocrática; apenas e numerosos eleitores organizados em grupos
forneceu-lhe uma base legal e constitucio- de pressão agrícola e trabalhista depreciam
nal. O sistema administrativo da França no o sistema tradicional de governo americano
século XIX foi uma tentativa de, tanto quanto como sendo “plutocrático” e anseiam pela
possível, domar a arbitrariedade dos buro- adoção dos métodos russos, que não forne-
cratas por meio da lei. Serviu como mode- cem ao indivíduo qualquer proteção contra o
lo para todas as outras nações liberais que, poder discricionário das autoridades.
com exceção daquelas no âmbito do direito Totalitarismo é muito mais do que mera
consuetudinário anglo-saxão (Common Law burocracia. É a subordinação de toda a vida,
ou Lei Comum), ansiavam por tornar a lei e trabalho e lazer de cada indivíduo ao coman-
a legalidade fundamentais na condução da do de quem está no poder e ocupa um cargo.
administração civil. É a redução do homem a uma engrenagem
Não é de conhecimento geral que, em de uma abrangente máquina de compulsão
seus primórdios, o sistema administrativo da e coerção que obriga o indivíduo a renun-
Prússia, tão admirado por todos os defensores ciar a qualquer atividade não aprovada pelo
da onipotência do governo, era apenas uma governo. Não tolera nenhuma expressão de
imitação de instituições francesas. Frederico discordância. É a transformação da sociedade
II (1712-1786), o “Grande” rei, importou da em exército de trabalhadores rigorosamente
França real não apenas os métodos, mas até disciplinados, como dizem os defensores do
mesmo o pessoal para colocá-los em prática. socialismo, ou em uma penitenciária, como
Entregou a administração dos impostos sobre dizem seus adversários. De qualquer forma,
a circulação de mercadorias e a alfândega a é uma ruptura radical com o modo de vida a
uma equipe importada composta por várias que as nações civilizadas se aferraram no pas-
centenas de burocratas franceses. Nomeou sado. Não é apenas o retorno da humanida-
um francês como diretor geral dos correios e de ao despotismo oriental em que, conforme
outro como presidente da Academia. Os pru- observou G. W. F. Hegel (1770-1831), somente
ssianos do século XVIII tinham motivos ainda um homem era livre e todos os demais escra-
melhores para chamar o burocratismo de an- vos, pois aqueles reis asiáticos não interfe-
tiprussiano do que os atuais americanos para riam com a rotina diária de seus súditos. Para
chamá-lo de antiamericano. os agricultores, criadores de gado e artesãos
A técnica jurídica da atividade adminis- individualmente, havia uma esfera de ativi-
trativa nos países anglo-saxões do direito con- dades em cuja execução não eram perturba-
suetudinário (Common Law ou Lei Comum) dos pelo o rei e seus asseclas. Usufruíam de
era muito diversa daquela dos países conti- alguma autonomia dentro de seus próprios
nentais da Europa. Tanto os britânicos como lares e famílias. É diferente com o socialismo
os norte-americanos estavam plenamente moderno. É totalitário no sentido estrito do
convencidos de que seu sistema lhes forne- termo. Mantém o indivíduo em rédeas curtas
cia uma proteção mais eficaz contra a intro- desde o ventre até o túmulo. A cada instante
missão da arbitrariedade administrativa. No de sua vida, o “camarada” é forçado a obe-
entanto, a experiência das últimas décadas decer implicitamente às ordens emanadas da
claramente evidencia que não há precauções autoridade suprema. O Estado é tanto o seu
legais fortes o bastante para resistir a uma guardião como seu empregador. O Estado de-
tendência apoiada por uma ideologia pode- termina seu trabalho, sua dieta e seus praze-
MISES: Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia
Ludwig von Mises 261

res. O Estado diz-lhe o que pensar e em que As características essenciais do capitalismo


acreditar. não são menos desconhecidas do que as da
A burocracia é essencial na execução burocracia. Lendas espúrias, popularizadas
desses planos. Mas as pessoas são injustas ao pela propaganda demagógica, fundamen-
acusar o burocrata individual pelos vícios do taram uma visão totalmente deturpada do
sistema. A culpa não é dos homens e mulheres sistema capitalista. O capitalismo conseguiu
que enchem os gabinetes e repartições. São ví- aumentar o bem-estar material das massas de
timas do novo estilo de vida da mesma forma uma forma sem precedentes. Nos países ca-
que todos os demais. É o sistema que é ruim, pitalistas, a população é, hoje, muitas vezes
não seus operários obedientes. Um governo maior do que era no período que antecedeu
não pode prescindir de burocratas e métodos a “revolução industrial”, e todos os cidadãos
burocráticos. E, uma vez que a cooperação so- destas nações goza de um nível de vida muito
cial não pode funcionar sem um governo civil, mais elevado do que a dos mais abastados em
é indispensável alguma burocracia. As pes- épocas anteriores. No entanto, uma grande
soas se ressentem não do burocratismo como parte da opinião pública menospreza a livre
tal, mas da intrusão da burocracia em todas iniciativa e a propriedade privada dos meios
as esferas da vida e da atividade humanas. de produção como instituições deploráveis
Na sua essência, a luta contra a intromissão que são prejudiciais para a imensa maioria da
da burocracia constitui uma revolta contra a nação e que favorecem somente os interesses
ditadura totalitária. É um equívoco rotular a de classe egoísta constituída por um pequeno
luta pela liberdade e pela democracia como grupo de exploradores. Os políticos cuja prin-
uma luta contra a burocracia. cipal conquista consistiu em restringir a pro-
No entanto, há alguma substância nas dução agrícola e em tentar colocar obstáculos
queixas gerais contra os métodos e procedi- no caminho do aperfeiçoamento técnico dos
mentos burocráticos. Isto porque seus defei- métodos de fabricação trazem descrédito ao
tos são evidências dos defeitos inerentes a capitalismo como uma “economia da escas-
qualquer regime socialista ou totalitário. Ao sez” e falam sobre a abundância que acompa-
examinar com cuidado o problema da buro- nhará o socialismo. Os líderes sindicais, cujos
cracia, é preciso constatar, afinal, o motivo membros possuem seus próprios automóveis,
pelo qual as utopias socialistas são totalmente entusiasmam-se ao exaltar as condições dos
inviáveis e, quando postas em prática, resul- esfarrapados e descalços proletários russos e
tam necessariamente não só no empobreci- em louvar a liberdade de que os trabalhado-
mento de todos, mas também na desintegra- res desfrutam na Rússia, onde os sindicatos
ção da cooperação na vida social – resultam foram suprimidos e as greves são um ato cri-
no caos. Assim, o estudo da burocracia é um minoso.
bom ponto de partida para um estudo dos Não há necessidade de entrar em uma
dois sistemas de organização social, o capita- análise detalhada dessas fábulas. Nossa inten-
lismo e o socialismo. ção não é nem elogiar, nem condenar. Que-
remos saber o que são os dois sistemas em
questão, como funcionam e como atendem às
V - A Alternativa: Gestão de Lucro necessidades do povo.
ou Gestão Burocrática Apesar de toda a imprecisão envolvi-
da no emprego do termo burocracia, parece
Se quisermos descobrir o que realmente haver unanimidade no que diz respeito à dis-
significa a burocracia, devemos começar com tinção entre dois métodos contrários de fazer
uma análise do funcionamento do motivo do as coisas: a maneira dos cidadãos e a forma
lucro no âmbito de uma sociedade capitalista. como são geridos os órgãos governamentais
e os municípios. Ninguém nega que os princí-
262 Introdução à Burocracia

pios segundo os quais funciona um departa- A burocracia, seus méritos e deméritos,


mento de polícia diferem essencial e radical- seu trabalho e seu funcionamento, só pode ser
mente dos princípios aplicados na realização compreendida por contraste com o funciona-
de um empreendimento com fins lucrativos. mento do motivo do lucro, tal como funciona
Consequentemente, será apropriado começar na sociedade de mercado capitalista.
com uma investigação sobre os métodos em
uso nesses dois tipos de instituições e compa-
rá-las uma à outra.

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