A ABOLIÇÃO DO
HOMEM
C. S. Lewis
Este material é exclusivo para uso pessoal. Dessa forma,
a comercialização ou distribuição é proibida.
Sobre o Clube
Seja bem-vindo ao nosso primeiro Clube do Livro Coram
Deo! Seguindo a proposta do nosso projeto educacional, o
clube tem como o objetivo facilitar a compreensão e a prática
de uma educação cristã clássica, seja homescholling ou escolar.
Louvamos a Deus por essa oportunidade e pelo desafio que Ele
tem colocado em nossas mãos. Esperamos abençoar a vida de
todos aqueles que entendem a necessidade de uma educação
mais bíblica e piedosa.
O Clube do Livro, inicialmente, focará apenas na Educação
Cristã Clássica. Mas, para dar um gostinho de ´´quero mais``,
temos projetos de ampliar o Clube do Livro para atendermos às
necessidades das mães e professores.
Estamos muito felizes que você esteja nessa caminhada
conosco! Vamos lá?
INTRODUÇÃO
Aula 01
Introdução
A Abolição do Homem é considerada uma das obras mais complexas de C. S.
Lewis. Na verdade, grande parte do público leitor considera a leitura dos livros
de Lewis difícil, pois o autor foi um grande erudito do século XX.
O objetivo dessa leitura é destrinchar as ideias de Lewis e responder às
perguntas: O que Lewis queria dizer com isso? Será que isso é realmente
relevante para os dias de hoje?
Para responder a esses questionamentos é importante conhecer bem o
autor e as suas características.
Quem foi C. S. Lewis?
Clive Stape Lewis nasceu em 29 de Novembro de 1898, no norte da
Irlanda, filho de Albert J. Lewis e Florence Augusta e irmão de Warren Lewis.
Apelidado como ´´jack``, Lewis cresceu rodeado de livros. Ambos os pais
gostavam de histórias e isso possibilitou o acesso aos livros desde de novo.
A sua família frequentava a Igreja Anglicana.
Na Irlanda, a família de Lewis estabeleceu-se em Little Lea. Nessa casa,
a grande imaginação de Lewis, tão presente em todas as suas obras,
floresceu-se. Depois do falecimento de sua mãe, Lewis foi matriculado na
escola e iniciou os seus estudos que o levariam a ser um importante mestre
de literatura.
Já jovem, Lewis ´´fazia sua ´religião` a partir de suas lembranças,
experiências e descobertas literárias, a partir de sua mais profunda
subjetividade`` (DURIEZ, 2018, 31). Tutoreado por William Kirkpatrick, Lewis
ingressou em Oxford.
Nessa época, Lewis alistou-se para servir na Primeira Guerra Mundial
.Depois disso, ele retornou aos estudos em Oxford. Um episódio importante
na vida de Lewis foi o batismo de sua imaginação. Segundo o autor, na leitura
de Phantastes, de George MacDonald - importante autor de fantasia cristã-, a
sua imaginação fora transformada.
Quem foi C. S. Lewis?
Já como mestre na Universidade de Oxford, Jack inciou suas pesquisas
sobre a tradição medieval. Suas primeiras aulas eram sobre filosofia, o que
explica o caráter de seus escritos. Lewis era considerado ´´o homem mais lido
de sua geraçãp, alguém que lia tudo e se lembrava de tudo o que lia`` (DURIEZ,
2018, 59).
C. S. Lewis considerava-se um ateu, mas, com a influência de sua amizade
com Barfield e J.R. R. Tolkien, a sua conversão tornou-se realidade.
Descrevendo-se como o mais relutante convertido de toda a Inglaterra, Lewis
chegou à fé cristã porque reconheceu que todo o seu anseio pela Alegria
concretizava-se somente em Cristo Jesus.
A partir disso, o querido Jack começou a escreve suas reflexões sobre
cristianismo, congregando na Igreja Anglicana. As Crônicas de Nárnia surgiram
a partir de sua fé centrada em Cristo Jesus. Assim, lemos lindas passagens,
como:
´Saberia que, se uma vítima voluntária, inocente de traição, fosse executada no lugar de um
traidor, a mesa estalaria e a própria morte começaria a andar para trás.``(LEWIS, 2009,156).
´Estou do lado de Aslam, mesmo que não haja Aslam. Quero viver como um narniano, mesmo que
Nárnia não exista. (LEWIS,2014, 160).
Com ênfase na língua e na literatura, Lewis foi extremamente importante
para o mundo da educação e sua relação com o cristianismo. E esse será o
foco da nossa primeira leitura: compreender as implicações dos escritos de
Lewis para a educação cristã.
Antes de começarmos, porém, é importante destacar que Lewis não era
um teólogo. Todos os seus escritos foram escritos de forma informal, por isso
tudo que lermos deve passar por um filtro teológico, ou seja, precisamos
refletir, seriamente, se o que esse grande autor fala condiz com toda as
Escrituras. Tal cuidado é importante, pois o autor, por exemplo, não
considerava que a Bíblia é infalível.
Salmo 11
A primeira frase de A Abolição do Homem diz:
´O Mestre disse: Aquele que ataca um fundamento pelo lado errado destrói toda a
estrutura.`` Confúcio, ANalectos, II. 16
A frase de Confúcio pode nos dar um norte para o tema do livro: quando
os fundamentos são atacados, toda a estrutura é destruída. Isso significa que
quando a moral, a verdade, a bondade e a beleza são questionadas e
colocadas como relativas, a estrutura da vida humana é corrompida.
O Salmo 11.3 diz:
´Quando os fundamentos estão sendo destruídos, que pode fazer o justo?``
Esse salmo de Davi nos mostra o Rei sendo ameaçado e perseguido.
Inicialmente, Davi é aconselhado a fugir e salvar a si mesmo, em vez de confiar
em Deus (11.1,2). Os fundamentos do seu Reino estavam sendo atacados,
destruídos. Então, surge o versículo três com a pergunta: que pode fazer o
justo? Ou o que o justo está fazendo?
O questionamento também é colocado diante de nós nesse livro. Muitas
vezes os fundamentos morais serão questionados e o que nós faremos?
´No Senhor me refugio. O Senhor está no seu santo templo; o Senhor tem o
seu trono nos céus. Seus olhos observam; seus olhos examinam os filhos dos
homens. O Senhor prova o justo, mas o ímpio e a quem ama a injustiça, a sua
alma odeia. Pois, o Senhor é justo, e ama a justiça; os retos verão a sua face. `
Salmo 11.1,4,5,7
Diante do estado da educação, podemos nos questionar o que devemos
fazer. Davi nos lembra que, apesar da iniquidade deste mundo, Deus controla
o universo como Rei. Nada escapa à sua atenção, nem mesmo as ações
ímpias. Ele é justo e podemos confiar em sua soberania e bondade!
Assim, ao refletirmos sobre a educação devemos ter como refúgio o
Senhor! Nele, e apenas nele, poderemos trabalhar para dar uma educação
cristã e significativa.
Contexto Histórico na Época que “Abolição
do Homem” foi escrito
A década de 1940 certamente foi um período histórico
assombroso, como disse Steve Turley (2018), ao analisar “A
Abolição do Homem” em seu livro “Educação Clássica vs
Educação Moderna: A visão de C. S. Lewis”.
Segunda Guerra Mundial, o ataque japonês a Pearl Harbor, o
advento da bomba atômica, a escalada dos EUA como uma
superpotência global, o estabelecimento da OTAN e a fundação
da República Popular da China: acontecimentos que marcaram
o mundo e, também, a vida de Lewis.
Lewis foi convocado para a Primeira Guerra, sabia o que estava
acontecendo naquele exato momento, da guerra de ideias e
ideologias; inclusive Lewis fala aos soldados em campo de
guerra através de um programa de rádio que, mais tarde, se
transformaria no livro “Cristianismo Puro e Simples”, que traz
complementaridade ao que Lewis escreve em “A Abolição do
Homem”.
Nosso autor sabe do que fala ao
escrever sobre fundamentos sendo
destruídos, guerras ideológicas
disfarçadas de ensino didático. Ao
longo do livro poderemos entender
como a preocupação de Lewis se
encaixa perfeitamente aos dias atuais
em que enfrentamos uma guerra
cultural pela alma de nossos filhos.
Objetivos do Livro
O título inicial de A Abolição do Homem era: Reflexões
sobre a Educação com Especial Ênfase ao Ensino de
Inglês no Ensino Avançado. A partir disso, podemos
elencar como um dos objetivos do livro refletir sobre a
educação.
A cosmovisão presente nos livros didáticos.
Como o material didático utilizado e, para além, a
postura do docente pode influenciar a cosmovisão da
criança.
Como o subjetivismo é perigoso para a educação e para
a sociedade em geral.
A existência da Lei Natural (Tao).
A relação entre os valores humanos universais, a
educação e a sobrevivência da raça humana.
Como ler
Para ler A Abolição do Homem, recomendamos as
seguintes observações:
Entender o significado de abolição:
Abolição significa a ´´total extinção, anulação ou
supressão``. Assim, a essência do livro de Lewis é analisar
como uma educação que desvaloriza os valores humanos
gera a extinção do homem.
Entender o significado de Tao:
Neste livro, Lewis nomeia Tao aquilo que ele chamou
de Lei Natural em Cristianismo Puro e Simples. O que seria
essa Lei Natural, ou Tao? É a ´´ideia humana de
comportamento digno`` (LEWIS,2017,31). Por isso, o Tao
pode ser definido como o padrão universal, presente em
todas as culturas, de comportamento moral.
Isso, nos lembra o seguinte versículo:
´´ De fato, quando os gentios, que não têm a Lei, praticam
naturalmente o que ela ordena, tornam-se lei para si mesmos,
embora não possuam Lei; pois mostram que as exigências da
Lei estão gravadas em seu coração. Disso dão testemunho
também a sua consciência e os pensamentos deles, ora
acusando-os, ora defendendo-os.`` Romanos 2.14,15
No Apêndice, Lewis apresenta essa Lei, chamada Tao,
por meio da normas de conduta de várias culturas.
Recomendamos a leitura inicial do apêndice para
compreender o primeiro capítulo.
“HOMENS SEM
PEITO”
Aula 02
Epígrafe
Então, ele deu a ordem de matar
E assassinou as criancinhas
Esse é um trecho de uma cantiga inglesa tradicional que retrata
sobre o “massacre dos inocentes” feito por Herodes.
C. S. Lewis nos induz a pensar sobre a morte dos inocentes;
Herodes matou corpos. Professores subjetivos matam mentes.
Subjetivismo
O subjetivismo é a ideia de que não há outra realidade além da
realidade do sujeito.
Uma ideia totalmente contrária ao cristianismo, que se baseia
em fatos e eventos objetivos.
A fé cristã não é subjetiva.
Lewis ataca cosmovisões com uma apologética ofensiva cheia
de argumentos anti-subjetivismo, como veremos ao longo
desse capítulo.
O Livro Verde
Para tratar sobre a abolição do homem, C. S. Lewis vai refletir
sobre um livro que lhe foi enviado, e o chama de “Livro Verde”,
e seus autores de Gaius e Titius. A intenção de Lewis não era
expor ou prejudicar os autores e o livro, mas, refletir sobre os
livros-textos (livro didáticos) usados nas escolas e em como o
uso desses materiais estariam (e estão), tonando os homens
sem peito.
Hoje sabe-se que o livro
tinha como título “O controle
da língua: uma abordagem
crítica para ler e escrever”
(The Control of Language: A
Critical Approach to Reading
and Writing - Alec King,
Martin Alfred Ketley) e foi
amplamente usado nos
anos finais do ensino nas
escolas inglesas.
O que preocupa Lewis no “Livro Verde”
No capítulo 2 do Livro Verde, os autores contam a famosa
história do poeta inglês Samuel Taylor Coleridge junto à uma
queda d’água, observando a reação de dois turistas àquela
cachoeira. Um diz que a cachoeira é “sublime”, o outro diz que
é “bela”. Gaius e Titius defendem que quando um homem diz
que a cachoeira é sublime, ele está dizendo que tem
sentimentos sublimes; eles menosprezam o sentimento
verdadeiro, que seria de veneração em contemplar a beleza da
cachoeira.
Lewis percebe o perigo do subjetivismo nas explicações que os
autores dão, visto que esses o aluno que lê essa passagem do
Livro Verde vai acreditar em duas sentenças:
1. que todas as afirmações que contêm um juízo de valor são
declarações sobre os estados emocionais de quem afirma.
2. que todas as declarações desse tipo carecem de
importância.
JUÍZO DE VALOR:
AVALIAÇÃO SOBRE ALGO OU
ALGUÉM BASEADA EM MEUS
SENTIMENTOS E GOSTOS PESSOAIS.
O que preocupa Lewis no “Livro Verde”
No capítulo 4 do Livro Verde, os autores citam uma propaganda
de um cruzeiro marítimo que dizia: aqueles que comprarem a
passagem para o cruzeiro navegariam pelas águas do Oceano
Atlântico que Drake de Devon navegou; em busca do tesouro
das Índias; e levaria para casa um tesouro de momentos
dourados e cores cintilantes.
Obviamente um comercial com uma redação ruim que explora
de forma banal e sentimentalista as emoções das pessoas.
Gaius e Titius, ao invés de analisar e criticar de forma literária a
propaganda, compará-la com grandes textos literários ingleses,
destacaram coisas banais como: o navio não navegaria nas
mesmas águas navegadas por Drake; os turistas não teriam
nenhuma aventura e nenhum tesouro para levar de volta para
casa.
Lewis argumenta que qualquer um com conhecimento um
pouco menor que Gaius e Titius já conseguiria compreender
que o comercial não estava, de fato, trazendo uma proposta
real aos turistas. Eles não ensinam o que propuseram: língua
inglesa. Eles ensinam os alunos a criticarem de forma subjetiva
todo e qualquer texto, não sabendo reconhecer quando estão
diante de uma grande obra literária.
Ao mesmo tempo que não ensinam nada sobre letras, extirpam
da sua alma, muito antes de ter crescido o bastante para
escolher, a possibilidade de ter experiências defendidas por
grandiosos pensadores. O aluno só conseguirá menosprezar as
obras literárias a partir de seus sentimentos.
Para quem Gaius e Titius escreveram
O Livro Verde foi usado nos anos finais da educação básica da
Inglaterra.
Filosofia ou Linguagem?
Lewis diz não querer afirmar que Gaius e Titius tiveram a
intenção de tratar de filosofia, mas que o próprio poder das
palavras deles dependia do fato que eles estavam lidando com
um garoto: um garoto que supõe estar se preparando para as
provas de inglês e não tem noção de que a ética, a teologia e a
política estão em jogo.
Não era uma teoria sendo inculcada na mente das crianças,
mas um pressuposto. Mais tarde esse aluno usará da
subjetividade sem ao menos perceber que o faz!
Gaius e Titius não escreveram uma crítica literária, não
ensinaram gramática, mas ensinaram aos alunos a terem
prazer em sua própria sabedoria.
Essa seria a única lição aprendida na aula de língua inglesa,
embora não tivessem aprendido nada de inglês.
A intencionalidade dos autores
Até aqui, Lewis partiu do pressuposto de que Gaius e Titius não
tinham a visão geral do que estavam fazendo, sequer poderiam
ter tido a intenção de que suas ações possam gerar
consequências de maior alcance do que de fato terá.
Mas, e se essa for de fato a intenção dos autores?
A intencionalidade dos autores
Os autores de um livro-texto de linguagem podem ter a
intenção de fazer “um limpa” nos valores tradicionais e dar
início a um novo conjunto de valores.
Se essa for a posição de Gaius e Titius, trata-se de uma posição
filosófica e não literária.
Os sentimentos devem ser contidos?
Lewis acredita que os autores do Livro Verde não tinham a
intenção de serem filósofos, mas que, na verdade, não tinham
a capacidade de fazer uma crítica literária, e, portanto,
preferiam menosprezar e banalizar os sentimentos, pois a
juventude é sentimentalista.
C. S. Lewis porém diz não concordar com a aniquilação dos
sentimentos e diz, o que talvez seja a frase mais conhecida
deste livro: “a tarefa do educador moderno não é derrubar
florestas, mas irrigar desertos”.
Lewis diz que para cada aluno seu que precisa ser contido no
excesso de sentimentos, três precisam ser despertos do sono
da fria vulgaridade.
Presas fáceis do propagandista
Lewis alerta que quanto mais ajudamos os nossos jovens a
esvaziar sua sensibilidade, mais os tornamos presas fáceis do
propagandista.
A defesa certa contra sentimentalismos falaciosos é incutir
sentimentos corretos.
FALÁCIA: A PALAVRA TEM ORIGEM NO TERMO
EM LATIM “FALLACIA”, AQUILO QUE ENGANA
OU ILUDE. DESTA FORMA, FALÁCIA SERÁ ALGO
ENGANOSO. AS FALÁCIAS SÃO CONSTRUÍDAS
POR RACIOCÍNIOS APARENTEMENTE CORRETOS
QUE LEVAM À FALSAS CONCLUSÕES.
Mas, e se a intenção for outra?
Lewis levanta a hipótese de que Gaius e Titius de fato sabem o
que estão fazendo e o querem fazer: eles acreditam que uma
boa educação deve construir certos sentimentos e destruir
outros.
Para refletir sobre isso, Lewis faz uma digressão - ele vai longe
para explicar o que quer dizer.
Os tempos modernos e nossos precursores
Os professores e as pessoas em geral costumavam acreditar
que o universo é de uma natureza tal que certas reações
emocionais da nossa parte pode ou não concordar com ele - ou
seja, os objetos não são meros receptores, devem merecer
nossa aprovação ou desaprovação.
Quando o turista diz que a cachoeira é sublime, ele está dando
uma resposta justa e ordenada ou apropriada à queda d’água.
Esse homem não estava descrevendo suas emoções, mas
dizendo que a cachoeira merecia tal sentimento de veneração.
E não havia o que concordar ou discordar de tal afirmação,
como Gaius e Titius fizeram.
Lewis cita Shelley, um poeta inglês, que compara a
sensibilidade humana a uma lira eólica (uma harpa que tem
suas cordas tocadas pelo vento, não por um músico.), mas diz
que a sensibilidade se distingue da lira, pois os sentimentos
podem ser “tocados”, há como ajustar, acomodar suas cordas
aos movimentos de quem atoca.
VEJA COMO FUNCIONA
UMA LIRA EÓLICA -
HARPA DO VENTO
O TAO
Santo Agostinho define a virtude como ordo amoris, a
condição ordenada das afeições: cada objeto está de acordo
com aquele grau de amor apropriado para ele.
Aristóteles diz que o objeto da educação é nos deleitarmos e
sofrermos com aquilo que deve nos causar deleite e
sofrimento.
Platão diz, na República, que o jovem bem-nutrido é uma
pessoa que veria mais claramente o que está errado, o que está
desordenado , em obras do ser humano ou da natureza e faria
isso de forma natural, na tenra idade, admiraria a beleza e
odiaria o que é feio.
Aristóteles e Platão acreditavam que o jovem deveria ser
treinado em suas afeições de forma ordenada desde cedo para
que ao chegar na idade do raciocínio ele não seja um
“animalzinho humano”, um homem corrupto, que tem
dificuldades em receber os princípios da Ética, da Razão.
Lewis cita que há algo em comum em todas as culturas, há essa
busca pela ordenação das afeições, que existe algo maior que a
própria existência, uma caminho, uma via que todo homem
deve trilhar.
No hinduísmo, com a RTA ( / r ɪ t ə / ; sânscrito ऋत RTA "ordem,
regra; verdade".
Na cultura chinesa, o Tao - Natureza, Caminho, Estrada, Via.
Para Confúcio. a harmonia com a Natureza.
Para os judeus, a Lei.
O TAO
Ele se refere a essa concepção como Tao e diz que o que é
comum a todos e algo que não devemos negligenciar é a
doutrina do valor objetivo, a convicção de que certas atitudes
são realmente verdadeiras, e outras realmente falsas em
relação ao que é o universo e o que nós somos.
Ou seja, em toda cultura existe uma explicação para o que é o
ser humano e em como ele se relaciona com o Universo.
Lewis cita o exemplo sobre como tratamos velhos e crianças,
mesmo que não gostemos da presença de um ou outro,
sabemos como devemos tratá-los. Isso não diz respeito aos
nossos sentimentos em si, mas como ordenamos eles ao
mundo em nossa volta.
Nenhuma emoção é um juízo. Pode ser racional ou irracional
quando se conforma ou se deixa de se conformar à razão.
Lewis escreve: “O coração nunca toma o lugar da mente.
mas ele pode, e deve, obedecer a ela.”
No mundo do Livro Verde, como Lewis diz, não existe a
possibilidade dos sentimentos serem ordenados. São emoções
fora da Razão, que não podem nem sequer serem
consideradas um erro, pois quem as define está
completamente fora do Tao.
Para Lewis, quem está dentro do Tao deve treinar seu aluno a
reagir de forma apropriada em fazer aquilo que consiste a
natureza do homem. Quem está fora do Tao buscará remover
da mente do aluno o máximo de sentimentos possíveis para
então treiná-lo em outros sentimentos fora da justiça com a
ordem cósmica, através de sugestão, encantamento... falácias.
Educação Clássica vs Educação Moderna
Aqui entra a visão de C. S. Lewis sobre a educação clássica
versus a educação moderna.
Lewis diz que a velha educação se empenhava numa iniciação
dos seus alunos, a nova educação meramente os condiciona.
A velha lidava com os seus alunos como pássaros adultos lidam
com seus filhotes quando lhe ensinam a voar; a nova lida como
um domesticador de aves, com um propósito que as próprias
aves desconhecem.
A antiga era uma espécie de difusão - homens transmitindo
humanidade para outros homens; a nova não passa de
propaganda.
Homens sem Peito
Finalizando capítulo 1, Lewis nos revela o que quer dizer com
“Homens sem Peito”.
O homem sem auxílio de suas emoções treinadas se portará
como um animal.
O silogismo não seria útil num campo de batalha, o mais puro
sentimentalismo sobre uma bandeira, um país ou um
regimento seria de mais utilidade.
SILOGISMO, QUE TEM ORIGEM NA PALAVRA GREGA
SYLLOGISMOS (“CONCLUSÃO” OU “INFERÊNCIA”), É
UMA FORMA DE RACIOCÍNIO BASEADA NA DEDUÇÃO.
ESTA LINHA DE PENSAMENTO, CRIADA PELO FILÓSOFO
ARISTÓTELES, UTILIZA DUAS PREPOSIÇÕES INICIAIS
PARA SE CHEGAR A UMA TERCEIRA, QUE NO CASO É A
CONCLUSÃO.
Homens sem Peito
A cabeça governa os membros inferiores por meio do peito.
Cabeça: pensamentos e emoções
Peito: ordenação dos pensamentos e emoções - sentimentos.
O peito é o trono da Magnanimidade - a virtude de ser grande
de mente e coração. Abrange, geralmente, uma recusa em ser
mesquinho, uma disposição para enfrentar o perigo e ações
para fins nobres.
Lewis diz que homens como Gaius e Titius não se destacam de
outros seres humanos por estarem buscando a verdade. Pelo
contrário, são homens que têm uma carência de emoções
férteis e generosas, que são atrofiados de peito, e por isso,
suas cabeças parecem ser maiores do que de outro, quando,
de fato, não é.
Lewis ainda cita que veremos muitas afirmações de que nossa
civilização precisa de mais movimento, de dinamismo, de
criatividade ou de abnegação, mas, na verdade, removemos o
órgão (peito) e estamos exigindo que ele funcione.
O que Gaius e Titius defendem tira a humanidade dos seres
humanos, torna-os “Homens sem Peito”.
Citações
“Tenho minhas dúvidas se estamos prestando a devida atenção à
importância dos livros-textos usados nas escolas de ensino básico.”
“Para cada aluno meu que precisa ser protegido contra um leve
excesso de sensibilidade, há três que precisam ser despertos
do sono da fria vulgaridade”
“A tarefa do educador moderno não é derrubar florestas, mas
irrigar desertos.”
“Nenhuma emoção é, em si mesma, um juízo.”
“O coração nunca toma o lugar da mente, mas ele pode, e deve,
obedecer a ela.”
“A antiga [educação clássica] era uma espécie de difusão -
homens transmitindo humanidade a outros homens; a nova
[educação moderna] não passa de propaganda.”
“Prefiro jogar cartas com uma pessoa cética em relação aos
valores éticos, mas criada para crer que “cavalheiros não
trapaceiam” a jogar com um filósofo moral e irrepreensível
que tenha sido criado entre trapaceiros”
“Criamos os homens sem peito e esperamos deles a virtude e a
iniciativa. Zombamos de honra e ficamos chocados ao descobrir
traidores em nosso meio. Nós os castramos e exigimos dos
castrados que sejam frutíferos”
Referências
DURIEZ, Colin. J.R.R. Tolkien e C. S. Lewis: o dom da
amizade. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2018.
LEWIS, C.S. Cristianismo Puro e Simples. Rio de Janeiro:
Thomas Nelson Brasil, 2017
LEWIS, C. S. A Cadeira de Prata. São Paulo: WMF Martins
Fontes, 2014.
LEWIS, C. S. O Leão, o Guarda-Roupa e a Feiticeira. São
Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.
TURLEI, Steve. Educação clássica vs. educação moderna: a
visão de C. S. Lewis. São Paulo: Trinitas, 2018