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Corumbá e o Banho de São João: História e Cultura

Esta cartilha, do Núcleo de Estudos de Inovação Social da Fronteira (Neisf), é resultado do projeto de pesquisa "O Banho de São João: uma análise do patrimônio imaterial e a produção de material didático para o fomento da história de Corumbá".
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Corumbá e o Banho de São João: História e Cultura

Esta cartilha, do Núcleo de Estudos de Inovação Social da Fronteira (Neisf), é resultado do projeto de pesquisa "O Banho de São João: uma análise do patrimônio imaterial e a produção de material didático para o fomento da história de Corumbá".
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© Coleção Neisf Educacional, 2023

Projeto Gráfico e Coordenação Editorial: Douglas Voks


Diagramação: Imaginar o Brasil Editora

Apoio Editorial:
Bolsistas: Guilherme Cunha e Leonardo Cuellar
Ilustrações: Hemilly Ariane Moreira (@ilustra_hemilly)
Revisão: Anderson Luís do Espírito Santo e Vivian Veiga da Silva

Imaginar o Brasil Editora


Florianópolis – SC – Brasil
www.imaginarobrasileditora.com
[email protected]

É permitida a reprodução e a aplicação desse material em sala de aula e em outros


espaços educacionais e culturais, desde que devidamente referenciada a autoria.
Proibida a comercialização. Para mais, contate: https://obisfron.com.br/contato/
2 3
O banho de São João é uma festividade religiosa que ocorre no município de
Corumbá (Mato Grosso do Sul), na virada do dia 23 para 24 de junho, data que
celebra o dia de João Batista, profeta que utilizava o batismo como símbolo de
purificação da alma e tem, como uma de suas práticas, a descida da Ladeira
Cunha e Cruz com o andor para banhar a imagem do Santo na prainha, à
margem direita do rio Paraguai.

Cultura é a maneira própria de existir, pensar e agir de cada


sociedade, se manifestando de maneira material (comidas, roupas,
utensílios, arte etc.) e de maneira imaterial (hábitos, costumes,
linguagens, crenças, religiões, conhecimentos etc.). A elaboração da
cultura permite ao ser humano habitar o mundo e compreender o
mundo.

Celebrado há mais de 100 anos, essa manifestação cultural conquistou


expressividade nos últimos anos, principalmente após 2021,
quando foi reconhecida como um
Patrimônio Histórico Imaterial é
Patrimônio Histórico Imaterial tudo aquilo que não podemos tocar,
de Corumbá. No entanto, a sua mas que marca a história ou
história e a sua origem nos identidade de um local ou povo. Isso
remetem a um passado bem significa que ele diz respeito às
práticas que se manifestam em
distante que se entrelaça com a saberes, ofícios e modos de fazer;
própria história de Corumbá. É isso que celebrações, tradições, folclore;
relatamos a seguir. formas de expressão musicais ou
lúdicas.

5
A Guerra da Tríplice Aliança foi um conflito armado que ocorreu entre 1864 a
1870, no qual os países que formavam esse agrupamento (Brasil, Argentina e
Uruguai) lutaram contra o Paraguai. Nessa disputa, Corumbá acabou sendo
Corumbá está localizada na fronteira oeste do Brasil com a Bolívia, na margem
diretamente afetada. Primeiro, porque o seu desenvolvimento econômico estava
direita do rio Paraguai. Foi fundada em 1778, como um vilarejo para atrelado ao rio Paraguai, sendo um importante entreposto comercial na rota de
delimitar e assegurar parte dos territórios portugueses na capitania do Mato navegação que ligava Cuiabá (capital da província do Mato Grosso), com o
Grosso. Sua principal função era a de expandir e proteger as fronteiras do restante do país. No decorrer da guerra, essa rota ficou bloqueada, fazendo com
Brasil, sobretudo contra os invasores espanhóis. Devido à sua localização que Corumbá passasse por uma grande crise devido a sua principal atividade
estratégica, que por muito tempo a configurou como entreposto da capital econômica, o comércio, ter diminuído significativamente. Segundo, porque
entre os anos de 1865 e 1867, Corumbá foi tomada e ficou sob controle das
Cuiabá, e a sua importância comercial, em 1850 foi elevada à categoria de
tropas paraguaias, até a sua retomada pelo governo brasileiro em 13 de junho de
município (SENA, 2012). Essas características, somada ao fato de estar 1867.
localizada na fronteira, permitiu a entrada de diferentes g r u p o s de
imigrante.
Corumbá foi se formando por uma multiplicidade étnica, que marcou as Dentre as várias contribuições culturais da população negra, uma das que mais
suas relações sociais e culturais, a qual se acentuou após a Guerra da se destaca é a religiosa, afinal, as culturas africanas que aportaram no Brasil
Tríplice Aliança , pois, nesse momento, o município passou por um com a escravidão trouxeram consigo referências bastante diversas, como
acelerado crescimento econômico, o que fez com que diversas pessoas os cultos aos Orixás, aos Voduns e aos Inkices.
vindas de outras regiões do Brasil e de outros países se estabelecessem em No Brasil, essa manifestação estabeleceu
Corumbá, todas elas trazendo consigo suas tradições, religiosidades e diálogo direto com o cristianismo e com as
costumes que marcaram profundamente a cultura local. religiões dos povos nativos, que Orixás, Voduns e Inkices são
resultou nas religiões afro-brasileiras ou divindades personificadas com
Dessa diversidade étnica, uma grande contribuição cultural vem das elementos da natureza das
afrodescendentes, promovendo um
populações negras. Em 1800, Mato Grosso possuía uma população de 25.821 religiões de matriz Africana.
Sincretismo Religioso.
pessoas, das quais, 16,42% eram de população branca e o restante de
pretos e pardos, escravos ou livres. Além disso, o fim da Guerra da Tríplice
Aliança, em 1870, propiciou a entrada de novos fluxos de população negra para o
Pantanal. Escravos que combateram na guerra em troca da liberdade ao final do
Sincretismo pode ser compreendido como a fusão de diferentes cultos ou
conflito, permaneceram, em muitos casos, nas cidades de Corumbá e Ladário, doutrinas religiosas, com a reinterpretação de seus elementos. Dentro das
e aí estabeleceram morada e constituíram família. O declínio das minas de senzalas, durante o período da Escravatura no Brasil, era proibido o culto a
metais preciosos de Mato Grosso, que já havia dispersado significativo qualquer ritual que não fosse o católico. Assim, para poderem cultuar os seus
contingente de mão de obra cativa para fazendas e cidades da região no Orixás, Inkices e Voduns, os negros foram obrigados a usar como camuflagem
altares com as imagens de santos católicos, cujas características melhor
momento do pós-guerra, também contribuiu para ampliar o fluxo desses correspondiam às suas Divindades Africanas. Era debaixo desses altares que eles
trabalhadores que, na condição de escravos, vieram trabalhar na abertura de escondiam os assentamentos dos Orixás, dando assim origem ao chamado
fazendas de gadona porção centro-sul do Pantanal (BANDUCCI, 2007). sincretismo. Mesmo usando imagens e crucifixos, os seus cultos e rituais
inspiravam perseguições por parte das autoridades e pela Igreja Católica, que
viam asmanifestações religiosas africanas como rituais de bruxaria.

6 7
O final da guerra trouxe também um grande aumento populacional para Corumbá,
que passou a receber várias levas de imigrantes. Em 1876, por exemplo, foram
1.276 estrangeiros que chegaram à cidade, vindos do Paraguai, Itália, Argentina, João Batista foi o homem que, de certa forma, abriu as portas para a missão de
Espanha, França, Alemanha, Inglaterra, Chile, Suíça, Portugal, Grécia, Áustria, Jesus. Pregador itinerante nascido na Judeia, ele se tornou líder religioso de um
México, Prússia, além de indivíduos oriundos do continente africano e grupo de judeus da época, exaltando a importância de valores como retidão e
asiático. Grande maioria desses imigrantes veio através de navegação fluvial, da prática da virtude. No intuito de purificar as almas, lançava mão do batismo —
já que no momento esse era o meio de transporte mais veloz para chegar à Província. realizado em cursos d'água, em cerimônias epifânicas. O batismo não foi uma
Entre o total de imigrantes que ingressaram em 1876, a superioridade era invenção de João, pois já era praticado na época. A novidade trazida por ele foi
o de paraguaios e isso é resultado dos problemas econômicos que o o fato de que ele não restringia a participação aos judeus, permitindo também
Paraguai passava após a derrota na guerra. (SOUZA, 2004). Porém, o cenário que o ritual servisse para a conversão dos considerados pagãos — e isso
econômico de Corumbá não era dos melhores. As atividades comerciais motivou polêmicas em seu meio (VEIGA, 2022).
voltavam a se reestabelecer lentamente e havia um amplo abandono da região
pela administração imperial. Para estimular o desenvolvimento econômico e a ocupação desse território, o
governo republicano promoveu políticas de isenção fiscal para o comércio praticado
Em toda essa conjuntura, não se sabe ao certo quando se iniciam as em Mato Grosso, visando atrair mais indústrias. Isso se somava ao
festividades do banho de São João em Corumbá. Durante o período fortalecimento econômico dos principais países industrializados europeus,
colonial, os jesuítas realizavam festividades em homenagem a João Batista que passavam por amplo desenvolvimento decorrente da segunda revolução
e, nesse mesmo período, as populações nativas realizavam rituais de industrial e, com isso, buscavam por novos mercados consumidores,
purificação no rio Paraguai. Provavelmente a devoção ao santo se misturou voltando-se especialmente para os países sul-americanos. Com isso,
com as tradições indígenas, razão pela qual se passou a dar o banho no São Corumbá acabou sendo beneficiada com investimentos estrangeiros que, na
João nas águas do rio Paraguai, tendo um significado de purificação e passagem do século XIX para o século XX, começaram a investir de forma
renovação. Porém, é a partir do fim da Guerra da Tríplice Aliança o momento significativa no setor industrial e mercantil de todo estado, tendo Corumbá como
mais provável que essa festividade tenha se popularizado, visto que a polo centralizador dasatividades econômicas (QUEIROZ, 2008).
cidade passava por um crescimento populacional e econômico, os quais
possibilitaram novas dinâmicas sociais e culturais. É nesse contexto que os fluxos migratórios, sobretudo os
internacionais, vão se intensificar e fomentar a atividade
comercial de Corumbá, que teve a sua área portuária
Foi só a partir de 1889, com o advento da República, que trazia consigo a
desenvolvida. Entre 1880 e 1910, a cidade passou a abrigar mais
ideia de progresso e de uma nova sociedade, que Corumbá passou a
de vinte nacionalidades. Tais fluxos eram compostos por
experimentar ciclos de desenvolvimento e crescimento econômicos que lhe
europeus vindos de Portugal, Espanha, Itália, Alemanha, França,
garantiram lugar de destaque no cenário regional e internacional. É nesse
Macedônia, Inglaterra, Síria, Líbano, Turquia, México e países do
período, por exemplo, que se iniciaram as atividades industriais na região, com próprio continente, como da Argentina, Paraguai, Bolívia, Chile e Uruguai
implantação de charqueadas no curso do rio Paraguai e com o ciclo da erva-mate (OLIVEIRA; JUNQUEIRA, 2016).
no Sul do estado.

8 9
E você, conhecia essa parte da história de Corumbá? Isso foi fundamental para o “choque cultural” que tão bem ilustra a nossa cidade. Abaixo,
são apresentadas algumas imagens que ilustram esse momento de expansão econômica e a consequente chegada dos imigrantes.

10 11
Na descida da Ladeira até o Porto Geral os andores são saudadose
acompanhados por pequenas bandas de músicos
O Banho de São João de Corumbá possui uma série de rituais. Os preparativos para executar o tradicional hino de São João. O Cururu é uma musicalidade e
se iniciam com os cuidados dedicados ao Santo nas casas dos festeiros, Siriri é uma dança com origem
ritual conta também com a presença dos indígena, muito presente nas
incluindo a realização de novenas, confecção e decoração de altares e andores, cururueiros, músicos que entoam os regiões interioranas e
oferta de alimentos, rezas e terços, giras em terreiros, tradicionais cantos e ritmos das festas da ribeirinhas dos estados de
levantamento de mastros, queima de fogueiras, oferendas, região, o cururu e o siriri, com suas violas Mato Grosso e Mato Grosso
procissões com andores, entre outros. No momento da festa, os de cocho, confeccionadas em madeira do Sul.
devotos costumam rezar o terço, puxado por rezadores inteiriça, esculpida e escavada em formato de
experientes, tanto nas festas católicas quanto nas de matriz afro- viola. No passado o número de cururueiros
brasileira. Em seguida, o mastro com a bandeira de São João é presentes na festividade era muito grande, já
erguidodiante das casas e a fogueira é acesa. no tempo presente eles se fazem em menor
número (IPHAN, 2019). Segundo o Instituto
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
No dia 23/6 é erguido o mastro, e ele só é baixado no dia
29/6, dia de São Pedro. Segundo o festeiro Alfredo Ferraz, – Iphan (2019), o ritual do Banho de São
“quando São João nasceu, Izabel, que era prima de Maria, João é um momento de adoração, de
da Virgem Maria mãe de Jesus, elas combinaram que, como gratidão por graças alcançadas, de
ela morava na região do deserto da Judéia, assim que renovação de promessas, da fé, da
João nascesse mandaria fazer uma fogueira e erguer um amizade e carinho com o santo.
tronco de uma árvore com uma bandeira, simbolizando o 2 Viola de Cocho
nascimento de João. Aí, quando João nasceu, Zacarias, pai
de João, preparou uma fogueira bem grande e ergueu um
tronco de uma árvore com uma bandeira sinalizando o
nascimento de seu filho. Por isso na festa não pode faltar Da mesma forma, é o momento em
o mastro, porque o mastro simboliza o nascimento que os festeiros e as festeiras
de São João, simboliza que naquela casa, naquela família, demonstram, não apenas ao santo,
celebra-se o dia de São João Batista” (IPHAN, 2019).
mas para toda c o le ti vid a d e , a
3 Mastro de São João dimensão de sua fé e de sua devoção. Os
festeiros e as festeiras entram com os
Na sequência, o andor é retirado do altar e conduzido pelos adultos para fora andores no rio, seguidos por devotos
do ambiente privado, contorna por três vezes o mastro, com rezas e cantorias, e devotas, e fazem orações ao santo,
e, em seguida, é conduzido em procissão em direção ao rio Paraguai. Durante o realizam seus pedidos, agradecem
trajeto, os participantes do cortejo cantam ladainhas, dão vivas e gritos em os favores, renovam suas alianças e
homenagem ao santo(IPHAN, 2019). clamam por saúde, para si e para os
familiares.

4 Andor do Santo

12 13
O banho de São João de Corumbá é uma grande festividade coletiva, composta Mas, o mês de junho não é um momento de adoração apenas a São João (24
por dezenas de núcleos familiares. Até 2022, mais de 80 famílias2 são de junho). Cidade religiosa, Corumbá também cultua Santo Antônio (13 de junho)
registradas oficialmente como festeiros – denominação dada à pessoa e São Pedro (29 de junho), que possuem suas comemorações e seus andores
responsável por abrir a sua casa para as celebrações religiosas e festivas específicos. Mas nem todas as famílias festeiras participam das três
para São João Batista. celebrações. Isso varia e, na maior parte, é cultuado pelas comunidades,
caso de São Pedro, que é intensamente louvado pela comunidade que vive
no bairro Beira Rio.

Veremos, nas próximas páginas, que o banho de São João de Corumbá é


uma festa geracional, pois as tradições são passadas dentro das famílias por
várias gerações. O festeiro ou a festeira é uma liderança, que pode herdar
esse posto ou se oferecer para assumir tal posição dentro da sua família. Isso
geralmente ocorre quando alguém busca pagar uma promessa alcançada.
Também ocorre dessa liderança ser passada para outro familiar (o sucessor)
que é preparada pela liderança atual(antecessor).

Esse é o caso do festeiro Pedro Paulo Miranda.


Em sua família, a festividade se iniciou há
Na cartilha utilizamos os
58 anos (1965), quando sua mãe fez uma termos festeiros e festeiras
promessa para São João Batista salvar a para destacarmos a
vida do seu filho que estava à beira da morte. importância da participação
Segundo Pedro, “a simbologia da festa do banho das mulheres nos festejos do
de São João para nós como festeiros é muito Banho de São João. Olhando o
profunda. Tem vários segmentos, no meu caso, cadastro de festeiros, é
da minha comunidade, a festa até hoje é realizada possível observar que 70%
devido a uma graça alcançada. Tem gente que faz são mulheres. Portanto, é
por devoção ou por fé, mas muitos fazem por graça fundamental dar visibilidade
alcançada”. Nas palavras de Pedro, fica para a contribuição feminina
na construção e na
evidente também o espírito coletivo e
preservação dessa
comunitário da devoção ao santo, pois, para manifestação cultural.
muitos, a festividade não é mais apenas algo
familiar, envolve também toda uma
comunidade.

A carta ao seguir narra, nas palavras de Pedro, como funciona a


organização do banho de São João. Nesse caso, vemos que as decisões
começam logo após o festejo de São Pedro (29 de junho), ocasião em que são
definidas as tarefas e elencadas as pessoas que participarão no próximo
2
Esses números se referem aos cadastrados na Prefeitura Municipal de Corumbá e que recebem auxílio. ano.
Contudo, o número pode ser bem maior.

14 15
Arraial da Família Miranda Assim, as comemorações e os rituais religiosos transcendem os espaços
privados e ocupam os espaços públicos no dia 23 de junho, momento em
A celebração ganhou proporções comunitárias e, hoje, não se restringe apenas que festeiros e festeiras ocupam as ruas de Corumbá em direção à ladeira
a família Fulano, incorpora também outros personagens do bairro. Isso demonstra o
Cunha e Cruz para dar o banho do santo no rio Paraguai.
comportamento coletivo em torno dessa celebração e a importância para essas
famílias. Essa perspectiva geracional pode ser compreendida pela longevidade dessa
Na noite de São João, a gente tem a parte religiosa, que é a reza, o acendimento tradição. O primeiro registro histórico sobre o banho de São João nos leva para o
da fogueira, erguemos o mastro com a bandeira de São João, e só depois vamos para o final do século XIX. Em 1882, um jornal de Corumbá chamado “O Iniciador”
rio Paraguai. Corumbá, talvez, seja uma das poucas cidades que tem como um dos publicou a seguinte notícia sobre a festividade: “Diversas imagens de São João,
pontos altos da festa o banho de São João, no rio Paraguai. Na noite do dia 23 de junho apesar do cortante frio que reinou na noite de 23, foram levadas em procissão
a cidade fica em procissão. E o momento de levar o andor com a imagem de São João até o porto da cidade, em cujas águas sofreram o indefectível banho
para o rio Paraguai, simbolizando o batismo, como foi o batismo de São João em Cristo
tradicional. Havia tantas procissões e andores do Santo quantos fossem os
e de Cristo em João, nas águas do rio Jordão.
festeiros. Tratava-se de pessoas que cumpriam promessa. Todas as procissões
E aí, como que a gente se organizava, né? Como a tradição começou entre a acabavam se encontrando na ladeira central, de acesso ao porto e ao rio
família e entre os integrantes do Centro Espírita que frequentávamos, era feito um Paraguai”.
sorteio. Depois de a gente arriar o mastro na noite de São Pedro, pegávamos dois
chapéus de palha, num chapéu colocávamos o nome das pessoas e no outro as funções. Segundo o historiador João Carlos de Souza (2004), esse é um dos primeiros
"Dona Maria, a senhora ano que vem vai trazer 5 litros de licor" - então ela já sabia que registros que temos do Banho de São João. Chama atenção que, em 1882, o
no próximo ano ela levaria o licor. "Senhor João vai trazer uma caixa de fogos", que São jornal já nominava o evento de “tradicional” e isso pode indicar que essa
João sem foguetórios não tem graça né? festividade em Corumbá é ainda mais antiga.
Assim, íamos dividindo as tarefas e sorteando as funções: a rainha do Isso pode ser correlacionado com outro importante registro que ocorreu nos
ramalhete (trazer as flores que enfeitam o andor), a rainha da coroa (ornamentar a anos de 1930, quando um viajante chamado Rezende Rubim passou por
coroa), o capitão do mastro (responsável por pintar e ornamentar o mastro). O mastro é Corumbá e publicou um livro com as suas impressões sobre a cidade, dando
um dos símbolos da festa de São João. Nele vai a coroa e a bandeira com a imagem do
destaque para o Banho de São João. Segundo Rubim, não havia diferenças
santo. Normalmente nas cores vermelho e branco, que significa vida (vermelho) e paz
sociais durante a descida da ladeira e o banho no rio, pois “tanto pobres
(branco).
quanto ricos levam a sua imagem até o rio, desde a mais modesta até a mais
Então era feito todo esse sorteio. As pessoas já levavam pra casa até o
papelzinho de qual era a sua responsabilidade. E assim foi por muitos anos. Mas, a
suntuosa, recebem dos fieis as homenagens que têm direito” (RUBIM, 1930,
partir do momento que a festa cresceu muito, a gente já não realiza o sorteio só dentro p. 28).
do nosso quintal, ou direcionado a família, ou aos participantes lá do Centro Espírita. Nessa manifestação, o rio desempenha um papel fundamental, pois, na
Hoje, ela já foi pra rua, então a gente organiza de uma forma diferente. Fico eu como o tradição popular, acredita-se (como ainda muitos grupos acreditam) que
responsável, e o meu filho e a minha esposa lideram os demais, que ajudam na
na passagem de 23 para 24 de junho as águas do rio Paraguai tornavam-se
organização. Além do andor e do mastro, temos a confecção das bandeirolas, e ali como
a comunidade já percebeu que a festa foi pra rua, é de todos. Hoje, graças a Deus já
milagrosas, no mesmo momento em que as águas começavam a baixar. No
temos membros que moram ali na comunidade que já se prontificam da bandeirola, Pantanal, o rio está sujeito ao ciclo das águas que coincide respectivamente
outro pergunta se está precisando de lâmpadas e assim a gente vai - cada um vai com o solstício de verão (em dezembro, cheias) e de inverno (em junho,
somando o esforço e preparando a festa do próximo ano. A celebração ganhou vazante), quando ocorre a festa do Santo. No passado, esses ciclos eram
proporções comunitárias e, hoje, não se restringe apenas a família Fulano, incorpora regulares ocorrendo a cada 6 meses. Apartir desses ciclos, advém a crença
também outros personagens do bairro. Isso demonstra o comportamento coletivo em do povo de que do momento exato em que a imagem de São João era
torno dessa celebração e a importância para essas famílias. banhada, o rio Paraguai começava a baixar (MACÊDO, 1983).

16 17
Dentre as várias simbologias e sincretismos, o banho de São João foi
Em Corumbá, essa simbologia do batizado ganhou força por conta das águas do adquirindo novos significados ao longo do tempo. Por exemplo, na tradição
rio Paraguai e é ainda mais forte por conta da coincidência dos fenômenos da popular cristã, Santo Antônio é visto como o santo casamenteiro, mas, em
natureza através do ciclo das águas, incorporada dentro da lógica Corumbá, é São João quem ganha essa função. Segundo D. Reginalda,
pantaneira na qual a vazante do rio inicia um período de abundância e não se sabe ao certo quando e por que São João se tornou um santo
prosperidade com aumento das áreas de pastagem e depeixes. casamenteiro, mas, na simbologia popular, algumas pessoas, ao pedirem
ao santo um casamento, foram atendidas e a partir daí criou-se a ideia de
Outra festeira de Corumbá é a senhora que ele poderia ser também casamenteiro.
Reginalda Mendes Vera, responsável
por um dos arraiais mais famosos da Desde então, homens ou mulheres solteiras que querem ter seu pedido
cidade, o Arraiá da Concha. Nessa atendido precisam passar sete veze debaixo do andor cantando “Deus
comunidade, o banho do santo também salve São João Batista sagrado, no ano que vem quero estar casado”.
remete à religiosidade cristã e representa o Contudo, não é apenas para pedir casamento que os devotos
batismo de Cristo no rio Jordão, Nas passam por debaixo dos andores. Muitos devotos passam
palavras de Reginalda: “O banho de São pedindo graças. Essa prática de fé e devoção acaba se misturando
João é tradicional, muitas pessoas pensam com rituais festivos e alegres. Assim, o banho de São João transcende um
que esse banho é apenas um banho, ritual cristão e se transforma em um momento de festividade, alegria e
mas ele é muito importante, pois, a meia comemorações. Ao longo de todo festejo, encontramos muita música,
noite (do dia 23 para 24), para quem está danças e uma rica culinária.
na beira do rio Paraguai, aquelas águas se
tornam milagrosas. Então, tenho para mim
que quem acredita e que tem fé em São
João sabe disso, e aquela água é tão sagrada
que a gente leva uma garrafinha para trazer Devota Reginalda Mendes Vera com o
aquela água para casa”. seu andor nas vésperas do São João

Figura 6 - Alunos da Escola da Autoria Júlia Gonçalves Passarinho descendo a ladeira Cruz e Souza.
Foto extraída do site da secretaria Estadual da Educação, 2022.

Dona Reginalda Mendes Vera banhando o Santo no rio Paraguai

18 19
Nessa manifestação religiosa, encontramos também uma aproximação cumprimentam, é uma tradição. Quando um andor vai descendo a ladeira e
cultural resultante da interação na fronteira Brasil-Bolívia, onde Corumbá está outro vai subindo, ou mesmo nas ruas dos arredores, ao se encontrarem os
localizada. Aqui, o limite internacional (que delimita os dois países) não inibe as andores se cumprimentam, agachando três vezes. Quando isso acontece, as
intensas relações sociais e culturais, pois as tradições e costumes circulam pessoas explodem de alegria. É uma emoção renovada toda vez que a gente
livremente entre Corumbá (Brasil) e Puerto Quijarro (Bolívia). Durante as desce em procissão, desce a ladeira e sobe a ladeira. No nosso caso, não é um
festividades do Banho de São João, a presença boliviana é constante e trajeto curto, pois nós moramos numa comunidade bem afastada do rio
duas santas católicas de grande devoção para os bolivianos, a Virgem de Paraguai. Mas a gente vem, sempre participa. Você acha força, vem na raça,
Urkupiña (imagem ao lado) e a Virgem de Cotoca (ambas sobe e desce a ladeira, volta pra casa e continua a festa madrugada fora”.
representando a Virgem Maria),
acompanham o andor dos devotos
bolivianos de São João, durante a
descida da Ladeira Cunha e Cruz para o
ritual do banho.

Apesar de ser uma manifestação religiosa


advinda do catolicismo, o banho de São
João de Corumbá incorpora outras
religiosidades, como, por exemplo, da
Umbanda e do Candomblé. Os rituais
festivos e de devoção ao santo são
realizados em diversos terreiros da
cidade. São João Batista é considerado
santo justiceiro, por isso a sua imagem é
associada a Xangô.

Essa mistura de simbologias e crenças divide um espaço de


harmonia, pois, independente da crença, o que prevalece é a fé de cada
um. Nas palavras da festeira Reginalda Mendes Vera, “essa mistura é
muito boa, porque cada um vai com a sua tradição, cada um tem a sua fé.
Não importa se é de umbanda, candomblé ou católico, ali se reúne todos Figura 7 - Encontro de andores e respectiva saudação (ato de agachar).
por um só motivo, a fé”. Foto extraída do site da Secretaria Estadual da Educação, 2022.

Para que essa tradição e manifestação cultural não se perca e continue por
O festeiro Pedro Paulo Miranda complementa afirmando que: “O São muitos anos, é fundamental que a salvaguarda do Banho de São João se inicie
João tem esse sincretismo religioso. Ali junta à umbanda, o candomblé, nas escolas, que os estudantes e as estudantes aprendam, desde cedo, a
o católico e o apostólico. Ele tem essa força de poder de aglutinar. São sua importância histórica, cultural, religiosa e econômica dessa tradição, pois
João sempre aglutina, ele não é de espalhar, ele é de aglutinar, São João cabe aos jovens de hoje perpetuar anossa cultura e identidade no futuro.
tem esse poder. Na ladeira, quando a gente se encontra, os andores se

20 21
Figura 9 - Alunos da Escola da Autoria Júlia Gonçalves Passarinho descendo a ladeira Cruz e Souza para banhar
o santo no rio Paraguai. Foto extraída do site da secretaria Estadual da Educação/ MS

Figura 8 - Alunos da Escola da Autoria Júlia Gonçalves Passarinho descendo a Figura 10 - Alunos da Escola da Autoria Júlia Gonçalves Passarinho descendo a ladeira Cruz e Souza para banhar
ladeira Cruz e Souza para banhar o santo no rio Paraguai. o santo no rio Paraguai. Foto extraída do site da secretaria Estadual da Educação/ MS

22 23
Agradecemos, inicialmente, a todos os festeiros e todas as festeiras
de Corumbá, que através da sua fé e devoção, mantém viva essa tradição
que se perpetua na história de Corumbá. Em especial, agradecemos à festeira
Reginalda Mendes Vera e ao festeiro Pedro Paulo Miranda, que dispuseram do
seu tempo para conceder uma entrevista para essa pesquisa.
Agradecemos à Fundect, pela concessão das bolsas que permitiu
realizar essa pesquisa e disseminar a cultura científica entre os discentes de
São João já vai embora, ensino médio.
Agradecemos ao Neisf pelo apoio nessa jornada e colaboração para
para esse mundo além. o endossamento da pesquisa.
Por fim, agradecemos à Escola da Autoria Júlia Gonçalves Passarinho
(JGP) que a todo tempo incentivou a realização e a divulgação dessa pesquisa.
Ele vai, mas ele volta,
para o ano que vem! BANDUCCI JÚNIOR, A. A natureza do pantaneiro: relações sociais e representação
de mundo no Pantanal da Nhecolândia. Campo Grande/MS: Editorada UFMS, 2007.
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN. Dossiê de
Ele vai, mas ele volta, Registro Banho de São João de Corumbá/Ladário – MS: subsídios para registrocomo
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Música entoada após o banho de São João, quando os festeiros e as festeiras estão indo embora,
subindo a Ladeira Cunha e Cruz.
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