28º CONGRESSO ANUAL DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA DA UNB
Efeito da infusão direta de gás ozônio uterino em éguas
no perfil inflamatório da endometrite
Natália Castro Diniz¹, Rodrigo Arruda²
Resumo
Objetivou-se avaliar a eficácia da ozonioterapia no tratamento da endometrite persistente
pós cobertura em éguas, quando comparado com tratamento controle Foram utilizadas 16 éguas
com histórico de subfertilidade.O grupo controle G1 (n=7) recebeu o tratamento de lavagem uterina
com soro ringer lactato sem a utilização do ozônio; o grupo G2 (n=9) recebeu o tratamento de
infusão direta de gás ozônio intrauterino, na concentração de 40 mcg por 10 minutos. Utilizou-se
como parâmetros de eficiência dos tratamentos a citologia uterina. Nas avaliações de citologia
uterina, o número médio de neutrófilos/campo passou de 9,14 ± 3,02 para 7,71 ± 3,59 no grupo
controle, e de 10,67 ± 3,84 a 2,89 ± 3,59 no G2. A partir dos resultados, conclui-se que o tratamento
com gás ozonizado mostrou-se eficaz em modular a resposta inflamatória uterina em éguas.
Palavras chave: Citologia; inflamação uterina; equino; reprodução; ozônio.
1 Discente do curso de medicina veterinária – FAV/UnB, e-mail: nataliacastrodiniz2016@gmail.
2 Professor Orientador da FAV/UnB, Laboratório de Reprodução Animal, DF, e-mail:
[email protected]Abstract
The objective of this study was to evaluate the effectiveness of ozone therapy in the
treatment of post-mating persistent endometritis in mares, when compared to control treatment.
lactate without the use of ozone; the G2 group (n=9) received the treatment of direct infusion of
intrauterine ozone gas at a concentration of 40 mcg for 10 minutes. Uterine cytology was used as
parameters of treatment efficiency. In uterine cytology evaluations, the mean number of
neutrophils/field increased from 9.14 ± 3.02 to 7.71 ± 3.59 in the control group, and from 10.67 ±
3.84 to 2.89 ± 3, 59 in the G2. From the results, it is concluded that the treatment with ozonized gas
was effective in modulating the uterine inflammatory response in mares.
Keywords: Cytology; uterine inflammation; equine; reproduction; ozone.
Introdução
O ambiente uterino equino passa por diversos desafios durante o período reprodutivo,
principalmente relacionados a concepção - seja esta envolvendo biotécnicas reprodutivas ou monta
natural - e o período gestacional. A endometrite pós-cobertura é um dos mecanismos de defesa do
organismo equino. Esta reação é caracterizada pela infecção e/ou inflamação da parede endometrial,
que pode se tornar persistente por diversos fatores. As éguas podem ser classificadas de acordo com
sua capacidade de resolução da inflamação, podendo ser suscetíveis (mais de 48 horas com
endometrite) ou resistentes (resolução em menos de 48 horas). Esse retardo decorre de um
desequilíbrio dos mecanismos pró e anti-inflamatórios, que desempenham um papel fundamental na
imunopatogênese da endometrite (Canisso et al., 2020).
Esta afecção destaca-se como a maior causa de infertilidade nas éguas (Brinsko et al., 2011),
sendo apontada como a terceira afecção clínica mais comum depois da cólica e das afecções do
trato respiratório, tornando o ambiente uterino desfavorável ao concepto, reduzindo assim o
potencial reprodutivo da égua e sucesso de gestações futuras (Troedson, 1999).
Terapias convencionais como lavagem uterina, agentes ecbólicos, anti-inflamatórios e
antibióticos, apesar de utilizadas em larga escala, vem se mostrando com eficácia limitada, tendo a
resistência antimicrobiana como um dos fatores para a busca de terapias alternativas, como por
exemplo acupuntura, plasma rico em plaquetas, e a terapia com ozônio (O3) (Canisso et al., 2016).
A ozonioterapia vem sendo largamente estudada e aplicada como tratamento complementar
em diferentes afecções (principalmente em feridas extensas, infecções fúngicas, bacterianas e virais,
e lesões isquêmicas) pelas propriedades antimicrobianas e de estímulo ao sistema imunitário
(MORETTE, 2011). O ozônio atua principalmente por ação oxidativa contra fungos, vírus e
bactérias, já que estes microorganismos não possuem um sistema protetor efetivo contra a oxidação,
sendo altamente suscetíveis (Viglino, 2008). Outras vantagens podem ser elencadas como o
potencial para melhorar o sistema imune, não acarretar resistência bacteriana, além de ser um
tratamento de baixo custo.
O estudo trata-se de uma avaliação da ozonioterapia como tratamento para éguas com
endometrite persistente pós-cobertura em comparação com tratamento convencional,
Metodologia
Todos os procedimentos foram aprovados pelo Comitê de Ética em Experimentação Animal
do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília, sob protocolo no.
23106.068932/2018-12. Os dezesseis animais que foram selecionados eram raças Mangalarga
Marchador e Quarto de Milha, com idades de cinco e dez anos e pesavam entre 350 e 500 kg. Todos
eram criados extensivamente e provenientes de haras e fazendas dos estados do Distrito Federal e
Goiás. A seleção foi feita baseando-se no histórico de idade, o histórico de infertilidade e a
inflamação uterina. Posteriormente, estas foram encaminhadas a uma seção de exames uterinos, e
apenas as positivas para cultura e citologia foram incluídas no experimento.
As éguas foram acompanhadas durante ciclos consecutivos durante o experimento, sendo o
primeiro cio a fase de seleção, onde houve coleta de material biológico para a citologia (por meio de
escova ginecológica). O segundo ciclo constituiu a fase de tratamento, e o terceiro ciclo a fase de
avaliação da resposta do tratamento, por meio de uma nova citologia para comparação dos
parâmetros. O tratamento foi iniciado a partir da identificação de útero com edema no mínimo 2 (de
uma escala de 0 a 5, segundo Ginther (2007).
As éguas positivas na fase de seleção foram separadas em duas modalidades de tratamento:
Grupo tratamento controle (G1) – a lavagem uterina com soro ringer lactato e com uma posterior
aplicação via intramuscular de 20 UI de ocitocina (Ocitocina Forte UCB, São Paulo, Brasil); Grupo
tratamento (G2): lavagem uterina e posterior infusão direta do gás ozonizado no útero com o auxílio
de uma pipeta de inseminação para equinos (Provar, São Paulo, Brasil) e de um equipo na
concentração de 40 mcg com duração de 10 minutos. O procedimento foi repetido por dois dias
seguidos, e em seguida aplicação via intramuscular de 20 UI de ocitocina no segundo dia (Ocitocina
Forte UCB, São Paulo, Brasil).
A citologia foi realizada durante o estro com coletor estéril descartável para equinos
(PROVAR, São Paulo, Brasil) com escova ginecológica em sistema de dupla proteção. Com a
utilização de luva de palpação e circundando a extremidade do coletor entre o polegar e a palma da
mão, foi introduzido pela vagina até atingir a cérvix, onde se rompeu a camisa sanitária permitindo
que a escova entre em contato com a mucosa uterina e suas secreções. Realizou-se movimentos
circulatórios com a escova, que permaneceu em contato com a mucosa uterina por 40 segundos para
a absorção do muco. Na retirada, a escova foi recolocada dentro da proteção do coletor, para ser
retirado do trato reprodutivo sem que tenha contato com os ambientes cervical, vaginal e vulvar.
Após a realização do procedimento, foram realizado movimentos de rolamento com a
escova citológica em uma lâmina histológica para deposição do material uterino coletado e fixado
com álcool 70º. Após a secagem, as lâminas foram coradas com panóptico rápido, enviadas para o
laboratório feita a contagem dos polimorfonucleados (neutrófilos) por campo com microscópio
óptico (Cocchia et al. (2012).
Resultados
De acordo com os exames de citologia uterina pré e pós-tratamento foram observadas a
média de neutrófilos/campo nos tratamentos G1, G2, respectivamente de: 9,14 ± 3,02 para 7,71 ±
3,59; 10,67 ± 3,84 para 2,89 ± 3,59 (Gráfico 1)
Gráfico 1: Média do número de neutrófilos/campo encontradas no exame de citologia pré e pós tratamento,
G1(tratamento de lavagem uterina com ringer lactato) de 9.14 para 7.71, G2 (tratamento com infusão de gás
ozônio) 10.67 para 2.89.
Em relação a percentagem de neutrófilos na citologia uterina antes e após tratamento
obteve-se como resultado, respectivamente, 57,14% (4/7) entre 7,5-10 neutrófilos para 42,86% (3/7)
entre 5-10 neutrófilos no grupo G1, 44,44% (4/9) entre 7,5-10 neutrófilos para 77,78% (7/9) entre
0-5 neutrófilos no grupo G2.
Discussão
O experimento foi o primeiro no mundo a utilizar a ozonioterapia na endometrite persistente
pós-cobertura, dados publicados em periódico internacional (Journal of Equine Veterinary Science)
em Janeiro de 2022 (Avila et al., 2022). Foi possível observar que o ozônio diminuiu a resposta
inflamatória pela redução do número de neutrófilos por campo, sendo eficaz para o controle da
inflamação. Muitos estudos mostraram que o O3 estimula ou modula um número de células do
sistema imune, de maneira adaptável de acordo com o estado inicial do animal, tipo de tratamento e
concentração do O3.
Além da redução do número de neutrófilos quando a inflamação já está instalada, outros
estudos propõem a utilização do ozônio de forma preventiva, já comprovada eficácia em melhorar a
fertilidade das vacas Simental (Zobel et al., 2014), por meio da ação no processo inflamatório e
infeccioso tornando ambiente uterino mais propício para as gestações subsequentes.
Já em éguas, foi investigada a viabilidade de seu uso também de modo preventivo para
propor seu uso posterior em animais com endometrite, com a objetivo de verificar se a terapia com
O3 melhorou o estresse oxidativo durante condições patológicas. Comprovou-se que o O3 tem a
capacidade de promover a angiogênese endometrial sem induzir dano tecidual, o que é altamente
benéfico para a recuperação pós-parto (Almeida, 2021). Na infusão de gás, o O3 ativa o
metabolismo dos eritrócitos e células imunes e mostra a capacidade de reagir com muitos
compostos, como fosfolipídios, lipoproteínas, envelopes de células bacterianas e capsídeos virais,
além de demonstrar um efeito timicrobiano (Ferreira, 2021)
A terapia intrauterina com ozônio também demonstra ter propriedades imunoestimuladoras,
imunomoduladoras e anti-inflamatórias (Ganaie et al. 2018), e a forma de infusão proposta
apresenta baixo custo e abordagem prática para a tratamento da subfertilidade em animais
domésticos. O tratamento de infusão de gás O3 age através do efeito anti-inflamatório pela inibição
de citocinas pró-inflamatórias e fosfolipase A2 e pelos efeitos estimulantes de citocinas
imunossupressoras, como interleucina-10 e fator de necrose tumoral-β1 (anti-inflamatório e reparo
tecidual) (Bocci, 1993)
Por meio dessas respostas positivas pode-se inferir que o tratamento com ozônio fornece um
ambiente uterino mais favorável para inseminação, fertilização e desenvolvimento inicial do
embrião, reduzindo as condições patológicas do útero que poderiam dificultar o sucesso destas
técnicas (Samardžija et al., 2017).
Conclusão
A ozonioterapia é uma terapia complementar eficiente e com muitas possibilidades de
utilização, seja de modo terapêutico ou preventivo. Além disso, suas vantagens de baixo custo e uso
prático podem favorecer seu uso e resultados em maior escala nas unidades de reprodução equina,
facilitando uma menor ocorrência de problemas de fertilidade.
Sugerem-se ainda maiores estudos acerca da associação da infusão de gás ozônio a outros
protocolos terapêuticos, tanto convencionais quanto alternativos, quantificando sua contribuição na
eficiência dos tratamentos escolhidos.
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