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PROCESSO Nº: 0801588-72.2022.4.05.8500 - AÇÃO CIVIL
PÚBLICA
AUTOR: MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PARTE AUTORA: CONSELHO DE ARQUITETURA E URBANISMO
SEÇÃO SERGIPE - CAU/SE e outros
ADVOGADO: Hugo Seroa Azi e outros
RÉU: MUNICIPIO DE ARACAJU
SENTENÇA
1. RELATÓRIO
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, CONSELHO DE ARQUITETURA E
URBANISMO DE SERGIPE (CAU/SE), GRUPO CRILIBER - CRIANÇA E
LIBERDADE (ORGANIZAÇÃO NÃO-GOVERNAMENTAL VINCULADA À
COMUNIDADE REMANESCENTE DO QUILOMBO MALOCA) e a
ASSOCIAÇÃO PADRE LUIZ LEMPER (ASSOCIAÇÃO PRIVADA EM
DEFESA DA COMUNIDADE TRADICIONAL "CATADORES DA
MANGABA") ajuizaram AÇÃO CIVIL PÚBLICA COM PEDIDO DE
TUTELA DE URGÊNCIA contra o MUNICÍPIO DE ARACAJU e a
EMPRESA MUNICIPAL DE OBRAS E URBANIZAÇÃO - EMURB, por
meio da qual pretendem:
EM SEDE DE TUTELA DE URGÊNCIA
a) seja determinado aos réus que se abstenham de enviar à
Câmara de Vereadores de Aracaju, o novo projeto do Plano Diretor
do Município de Aracaju, até que sejam corrigidas as falhas
apontadas nesta ação e autorizada a remessa por este Juízo.
b) seja determinado que o Município de Aracaju e a EMURB, no
prazo de 20 (vinte) dias, entreguem perante este juízo, e publique
em seu site, na área própria dos documentos referentes ao PDDU,
para que possam ser disponibilizadas ao CAU, IAB, CREA, OAB,
UFS, Associação do Território da Comunidade Maloca, Associação
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Padre Luiz Lemper, representante da comunidade tradicional
Catadoras de Mangaba e demais entidades signatárias da Carta
Aberta mencionada nesta ACP e constante de anexo juntado, toda
a documentação por estes solicitada para permitir a adequada
análise do projeto de Plano Diretor de Aracaju.
c) após entrega da documentação completa, seja ordenado aos
réus que concedam o prazo de 30 dias para que estas entidades,
comunidades e qualquer cidadão, querendo, se manifestem
perante o Município de Aracaju e EMURB, apresentando suas
contribuições para o PDDU, sem limitação de caracteres em seus
textos.
d) enquanto os réus apresentam os documentos e as entidades
analisam a documentação, sejam também compelidos a identificar,
com apoio antropológico, que pode inclusive advir da Universidade
Federal de Sergipe, as comunidades tradicionais presentes no
território aracajuano (pescadores tradicionais, comunidade
quilombola, grupos indígenas desaldeados, comunidades de
terreiro, comunidades extrativistas, dentre outros), pronunciando-
se especificamente sobre a comunidade da Prainha, localizada no
Bairro Industrial, agendando para cada uma dessas comunidades,
de forma específica uma consulta prévia, livre e informada, nos
termos da Convenção Internacional 169 OIT.
e) após passada a fase de consultas às comunidades tradicionais,
seja determinada ao Município de Aracaju e à EMURB, a realização
de novas audiências públicas, mais abrangentes quanto aos
bairros dessa Capital, após o recebimento das contribuições da
sociedade civil, a fim de discutir os pontos apresentados, de modo
que o Município de Aracaju e EMURB possam formar juízo razoável
sobre o que deve ou não ser modificado no projeto para envio ao
CONDURB e após à Câmara de Vereadores.
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f) fixe este juízo prazo para a comprovação do atendimento a cada
item da liminar concedida e pena pecuniária para hipótese de
descumprimento ou mora.
PEDIDOS PRINCIPAIS
a) sejam citados os acionados para que compareçam à audiência
de conciliação, cuja designação o MPF requer desde já, e para que,
caso a tentativa de composição reste frustrada, responda à
presente demanda no prazo legal, sob pena de revelia, nos termos
do art. 344 do Código de Processo Civil.
b) que o Município de Aracaju e a EMURB sejam ao final
condenados à obrigação de não fazer, consistente em não
encaminhar o projeto de PDDU de Aracaju à Câmara de
Vereadores, enquanto não forem concedidos os documentos
solicitados pelas autarquias e entidades da sociedade civil e
disponibilizados os mesmos documentos a toda a população para
que seja verdadeiramente possível a participação popular
qualificada na construção do Plano Diretor de Desenvolvimento
Urbano de Aracaju.
c) que o Município de Aracaju e a EMURB sejam ao final
condenados à obrigação de não fazer, consistente em não
encaminhar o projeto de PDDU de Aracaju à Câmara de
Vereadores, enquanto não forem realizadas as consultas prévias,
livres e informadas à comunidade quilombola Maloca e às
comunidades tradicionais aracajuanas, as quais devem antes ser
identificadas pelo Município.
d) que o Município de Aracaju e a EMURB sejam ao final
condenados à obrigação de não fazer, consistente em não
encaminhar o projeto de PDDU de Aracaju à Câmara de
Vereadores, enquanto não forem realizadas novas audiências
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públicas para aumentar a participação popular dos diversos bairros
da cidade nas discussões, bem como enquanto não for permitida a
participação virtual sem limite de caracteres no sistema ofertado
pelo Município de Aracaju e EMURB para a sociedade civil.
e) sejam os acionados condenados a suportar os ônus de
sucumbência e demais despesas processuais.
f) seja determinada a cominação de multa diária, no valor a ser
determinado por Vossa Excelência, para o caso de
descumprimento das ordens judiciais emitidas durante o
processamento do feito.
g) sejam intimados o CAU/SE, IAB/SE, OAB/SE, CREA/SE, UFS,
IFS, Fundação Cultural Palmares, INCRA/SE, Associação Padre Luiz
Lemper e Associação do Território da Comunidade Quilombola
Maloca para informar se possuem interesse em intervir neste
processo judicial e em que qualidade.
Requer provar o alegado por meio de todas as provas admitidas
em lei, em especial, do Inquérito Civil que instrui a presente Ação
Civil Pública, bem como dos demais meios de prova que serão
especificadas oportunamente após a efetivação do contraditório e
a definição dos eventuais pontos controvertidos da demanda.
Narraram, em síntese:
A presente Ação Civil Pública tem por objetivo a obtenção de tutela
jurisdicional apta à efetivação de medidas que garantam a
regularidade e o caráter participativo no âmbito do Plano Diretor
de Aracaju, o qual está sendo confeccionado pelo Município de
Aracaju e EMURB para posterior envio à Câmara de Vereadores de
Aracaju.
A garantia dessa regularidade e caráter participativo, por sua vez,
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colaborarão para a defesa do meio ambiente, especialmente das
áreas de preservação permanente do Município, muitas delas
constituídas de APPs de rios federais, a exemplo do Rio Sergipe e
do Rio Vaza-Barris, de manguezais, como também para a defesa
dos direitos de comunidades tradicionais e étnicas, como a
comunidade quilombola Maloca (quilombo urbano), a comunidade
tradicional Catadora de Mangabas e comunidades pescadoras
ribeirinhas, grupos albergados pela Convenção 169.
Aportou na Procuradoria da República notícia de fato noticiando
que diversos órgãos como CAU/SE, IAB, CREA/SE, OAB e pessoas
jurídicas, totalizando mais de 40 (quarenta) entidades,
identificadas na documentação anexa, formaram uma frente de
ação para debater tecnicamente o Projeto do Plano Diretor de
Aracaju (Frente da Sociedade Civil Pelo Plano Diretor de Aracaju).
Essas entidades apontaram diversas irregularidades na condução
do Plano Diretor, as quais comprometem gravemente o caráter
participativo do Plano, colocando em risco direto o meio ambiente
e as comunidades tradicionais presentes no Município de Aracaju.
Segundo a representação:
DAS COMUNIDADES TRADICIONAIS
Vem apontar 02 (duas) graves irregularidades da Ementa do
Projeto do Plano Diretor da Cidade Aracaju. 1 - A ementa do plano
diretor de Aracaju não mapeou ou identificou nos mapas,
anexos ou no corpo do projeto de lei nenhuma das
comunidades tradicionais do município de Aracaju.
[...]
A frente entende que há um grave risco de violar-se diversos
direitos dessas comunidades, conforme a Resolução 169 da OIT.
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Ora, não houve nenhum tipo de consulta prévia com as
referidas comunidades que, repisa-se, sequer são mencionadas no
atual documento do PDDU 2021.
DO MEIO AMBIENTE
O mapeamento das áreas de proteção ambiental (APPS, APAS,
Áreas de Risco) estão desatualizadas. Os mapas, muitas vezes se
contradizem, estando uma área como Zona de preservação e em
outro mapa como zona de adensamento urbano. Além disso,
várias áreas estão faltando. Igualmente, não houve qualquer
mapeamento da fauna e da flora do município.
OUTRAS VIOLAÇÕES
Aliás, o PDDU foi elaborado pela EMURB, empresa de urbanização,
ou seja, órgão não qualificado para elaborar o projeto de lei,
constando no projeto qualquer assinatura técnica do projeto ou
discriminação da equipe de trabalho. Por exemplo, não houve um
biólogo.
[...]
os órgãos técnicos jamais tiveram acesso aos dados, gráficos,
demais mapas e planilhas quesubsidiaram a ementa do plano
diretor, o que os impossibilitou de atuar tecnicamente no processo
de revisão do Plano Diretor.
[...]
Em breve resumo, esses são os elementos que atraíram a
competência do Parquet no feito, ainda que existem diversas
outras violações procedimento, como por exemplo, a absoluta
ausência de diagnóstico da cidade, não apresentação dos dados
subsidiaram a ementa e a violação da participação popular.
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[...]
Requer a atuação do MPF no procedimento da revisão do plano
Diretor de Aracaju para que se garanta o direito das comunidades
tradicionais de influir em seu território, conforme Resolução 169
da OIT, assim como pelo adequado mapeamento das regiões de
preservação permanente e ambientais.
O intuito da Frente é possibilitar o debate e exposições de ideias
de forma técnica e ampla, de modo a contemplar todas as
organizações signatárias e demais que viriam a se somar a esse
debate público, e defender o direito ora negado a estas
comunidades e a um meio ambiente ecologicamente saudável,
cominado ao Direito à Cidade.
CARTA ABERTA ENVIADA AO PREFEITO EM SETEMBRO DE
2021
Do procedimento de revisão do PDDU de Aracaju em 2021
Soubemos com muito otimismo em anúncio publicado no site da
prefeitura, no último 13 de agosto, que foi dado início ao processo
de Revisão do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU)
de Aracaju. Trata-se de uma demanda antiga da sociedade
aracajuana e das entidades que aqui subscrevem este documento,
considerando que o plano vigente é do ano 2000, não atendendo a
Lei Federal 10.257/2001, o Estatuto da Cidade, que traz que a lei
que institui o plano diretor deve ser revista, pelo menos, a cada
dez anos. Ou seja, em 2010 deveria ter sido atualizada essa lei
municipal, instrumento básico que orienta a política de
desenvolvimento e expansão urbana.
Nos anos de 2010, 2015 e 2018 foram iniciados processos de
revisão pela municipalidade, mobilizando equipes técnicas,
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sociedade e erário, sem levá-los até sua etapa final de aprovação
na Câmara Municipal, demovendo expectativas dos que
participaram ativamente para que findasse na atualização da lei,
com o devido êxito.
Ao mesmo tempo que vemos de forma positiva a retomada desta
pauta pela atual gestão, preocupa-nos a condução proposta, em
especial, os documentos disponibilizados, prazos e o formato do
processo participativo.
A partir de informações divulgadas no site da prefeitura e
complementadas em reunião do Conselho de Desenvolvimento
Urbano da Prefeitura de Aracaju, o CONDURB, no último dia 24 de
agosto, o processo se dará nas seguintes etapas e prazos:
1. Consulta Pública Virtual, com prazo de sugestões até 17 de
setembro.
2. Audiências Públicas, em 8 localidades, reuniões com previsão de
participação de 150 pessoas, durante os meses de setembro e
outubro, distribuídas em 2 reuniões semanais (ainda não
publicizadas).
3. Condurb. No âmbito deste Conselho, a Revisão do PDDU será
debatida em 4 reuniões, distribuídas uma a cada semana,
finalizando até dezembro 2021, e
4. Câmara Municipal, última etapa do processo.
Os documentos que estão disponibilizados para a consulta pública
tratam da Minuta da Lei da Revisão do PDDU e seus anexos:
tabelas, quadros e mapas. Documentos esses construídos,
segundo informações dos técnicos da prefeitura em Condurb, pela
reunião de materiais coletados dos processos de revisão do PDDU
dos anos anteriores, sendo os dados mais recentes datados de
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2018 e, que não foram tornados públicos para análises e
sugestões na fase já aberta da Consulta Pública.
Do diagnóstico
Do ponto de vista dos documentos que subsidiam o Plano Diretor,
entende-se que a revisão deve ser amparada por Diagnóstico que
reúna estudos técnicos e análises sociais e econômicas construídas
com ampla participação da sociedade, tanto no processo de
elaboração, no executivo, quanto durante sua tramitação pelo
legislativo, destacando a necessidade de informações atualizadas,
por exemplo, dados dos impactos da pandemia de COVID-19 para
a cidade de Aracaju.
O Diagnóstico é o documento que subsidia na elaboração de
Planos Diretores as Propostas e Estratégias de Ações e Políticas
para a cidade, e, esse conjunto de documentos, são subsídios da
Minuta de um Plano Diretor. Para garantir ampla participação no
debate, esse material deve ser publicizado e "traduzido" a
fim de garantir o direito à informação, meio de permitir à
população condições para participar efetivamente e tomar decisões
acerca do plano proposto.
A Minuta do Plano e seus anexos somente, como estão
disponibilizados, não garantem a compreensão da problemática e
pressupostos que subsidiaram o documento que está posto em
análise e o formato, em linguagem técnica, não permite adequada
participação para aqueles que não detém o conhecimento
específico que requer a leitura do material disponibilizado.
Dos prazos e formatos
Do ponto de vista dos prazos estabelecidos e do formato do
processo participativo proposto, entende-se que para garantir um
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amplo debate público, é necessário além de documentos
compreensíveis à população, prazos e espaços diversos em
diferentes formatos para a construção da escuta, diálogo e
reflexão para que ocorram sugestões acerca dos temas que
ancoram o debate da revisão e do planejamento futuro da cidade.
O processo aberto ao público geral está restrito a dois formatos:
Consulta Pública Virtual e Audiências Públicas presenciais, ambas
acontecerão, se considerando o dia da divulgação no site, em
apenas 2,5 meses, prazo muito curto para garantir tempo de
análise do material, maturação do processo para posterior
sugestões.
Entendemos que a consulta por meio virtual é um meio inacessível
à maior parte da população que não acessa a internet, ou quando
o faz, é com pacotes de dados limitados que não dão condições de
baixar os documentos disponíveis. Então, caberá à maior parte da
população o espaço das audiências públicas que serão
territorializadas em 8 localidades.
Ainda não foi publicizada a divisão territorial para as audiências,
mas se considerarmos que Aracaju tem cerca de 38 bairros, as
audiências poderão reunir cerca de 4 a 5 bairros de uma só vez,
mas com previsão de participação de apenas 150 pessoas. Ou
seja, para a população em geral, a oportunidade de participação
do processo de Revisão do PDDU se dará através de um único
encontro em um evento que reunirá muitas pessoas, sendo um
modelo que não oportuniza espaço de escuta e debate, e ainda
promove aglomeração, cuidado que precisa ser levado em conta,
em meio ao atual momento de pandemia.
Entendemos que em substituição, a prefeitura poderia optar por
um número maior de audiências públicas, que podem ter
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diferentes formatos, como oficinas, seminários temáticos etc., com
a participação de grupos menores, seja por bairro, seja por temas,
envolvendo grupos diversos da sociedade civil e com prazos mais
estendidos, que pudessem ter como objetivo a escuta e coleta de
informações e posteriormente, apresentação das propostas,
estratégias e instrumentos para o plano proposto.
Entendemos que a municipalidade, ao abrir o processo de Revisão
do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de Aracaju, é uma
das maiores interessadas para que este processo resulte numa lei
que equalize os conflitos urbanos, que proponha diretrizes,
instrumentos, políticas, orçamentos que buscarão caminhos para
uma cidade justa e que, o primeiro passo do diálogo entre
governo, legislativo, judiciário e sociedade, com sua pluralidade de
atores e atrizes políticos e temas, deva ser a pactuação para que
este processo seja amplamente participativo e democrático.
Nesse contexto, as instituições que subscrevem esta Carta Aberta
vêm a público solicitar:
1. Ampliação dos prazos do processo participativo da Revisão do
PDDU Aracaju.
2. Que o Processo Participativo conte com diferentes espaços e
formatos para garantir a escuta e debates para construção de
Diagnóstico; Propostas e Estratégias; e a Minuta do PDDU.
3. A lista de participantes de cada atividade realizada deverá ficar
disponível publicamente e também no site da prefeitura, em
formato aberto.
4. Disponibilização dos documentos que subsidiaram a Minuta e
suas fases: Plano de Trabalho (metodologia do processo); Leituras
Técnicas e Comunitárias (Diagnóstico); e, Formulação e Pactuação
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das Propostas (bases filosóficas, objetivos, diretrizes, estratégias e
sistema de gestão) e a Minuta propriamente.
5. Todos os documentos recebidos ao longo do processo (como
estudos e propostas) devem ser tornados públicos de forma
imediata (em formato de imagem do original e em formato
aberto), garantindo a identificação do remetente.
6. Somente os documentos que forem submetidos dentro dos
canais de comunicação estabelecidos em suas etapas deverão ser
considerados; e
7. Ampla campanha de divulgação para dar conhecimento às
cidadãs e cidadãos de Aracaju da programação e atividades do
processo participativo da Revisão do PDDU.
Entendemos que são elementos necessários para uma gestão
responsável com a cidade e a participação social de seus
habitantes e pedimos que o Sr. Prefeito se envolva pessoalmente e
garanta que esse processo seja exemplar.
Contamos, dessa forma, que a prefeitura e seu corpo técnico
conduzam um processo comprometido por uma cidade melhor
para toda a população e nós, representantes de diversas
entidades, nos colocamos desde já à disposição para a construção
conjunta desse processo.
OFÍCIO ELABORADO POR COMISSÃO TÉCNICA DA UFS
Cumprimentando-o cordialmente e em atenção à minuta
apresentada para a revisão do PLANO DIRETOR DE
DESENVOLVIMENTO URBANO do município de Aracaju, no qual
Vossa Senhoria dispõe em meio virtual, para atendimento ao
município, no que concerne a análise técnica e sugestões ao
documento, nós professores do Instituto Federal de Sergipe vimos
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por meio deste, conforme designação em portaria N° 2232, de 28
de setembro de 2021, IFS, à qual compõe a Comissão para Análise
e Participação na atualização do Plano Diretor da cidade de
Aracaju, tendo como atribuição a atualização do documento
disponibilizado pela Prefeitura, com duração de 01/09/21 a
05/10/21, entregar o nosso hall de sugestões para as possíveis
alterações do documento, no sentido de que sejam devidamente
acatadas, caso seja possível tecnicamente.
Aproveitamos a oportunidade para declarar a nossa insatisfação
com o processo, ao nosso ver, não participativo por parte da
maioria da população, pois a condução deste, além de ser com um
prazo de tempo extremamente curto, não contemplou audiências
públicas em todos os bairros, nem muito menos diagnósticos que
puderam embasar os estudos, enfim, a análise foi realizada de
maneira "apressada" não da forma que gostaríamos, mais
democrática.
No nosso caso em particular estamos em período de férias
escolares e não pudemos marcar encontros com os estudantes
para discutir sobre os assuntos referentes à cidade, além de claro,
todo o processo pandêmico que estamos passando, entendemos
que os estudantes poderiam também participar e contribuir com
este processo de forma mais direta. Além disso, entendemos que a
minuta apresentada não garante a compreensão das questões e
problemáticas pela maioria da população desta cidade, o que
prejudica e muito o processo participativo, mesmo assim estamos
entregando conforme o prazo estipulado, nossas contribuições nas
próximas folhas.
OFÍCIO DO "MOVIMENTO TUDO PARA TODOS"
Expõe que a plataforma de consulta pública criada pelo Município
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limita a participação pública a 500 caracteres, fator visto como
extremamente ceifador do direito de participação num processo
tão complexo e cheio de questões como o Plano Diretor do
Município. Além disso, outros pontos são apresentados como
irregulares, dentre os quais destacam-se os seguintes, a
demonstrar que o documento não dá a devida atenção às
comunidades tradicionais existentes no Município, certamente o
que decorreu da ausência de consulta livre, prévia e informada
especialmente prevista em Convenção Internacional para esses
povos em particular.
Áreas Especiais de Povos e Comunidades Tradicionais são áreas
dos grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem
como tais, que possuem formas próprias de organização social,
que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição
para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e
econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas
gerados e transmitidos pela tradição.
Adicionar parágrafo único A diretriz básica para os Povos e
Comunidades Tradicionais visa garantir a defesa dos seus
interesses nas questões surgidas em decorrência da titulação de
suas terras e apoiar as políticas, programas e ações
governamentais que as assistem tendo como base o Decreto
federal nº 6.040 de 07, de fevereiro de 2007."
MANIFESTAÇÃO DA PROFESSORA DOUTORA MYRNA
LANDIM DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE (NÚCLEO
DE ECOSSISTEMAS COSTEIROS ECOS E NÚCLEO DE PÓS-
GRADUAÇÃO EM ENSINO DE CIÊNCIAS E MATEMÁTICA)
No documento elaborado pela Prof. Doutora, mais uma vez é
denunciado o déficit de documentação à disposição da população
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para análise da proposta de novo Plano Diretor, bem como a
impossibilidade de uma participação qualificada da sociedade civil
ante às barreiras impostas pelo Município de Aracaju neste
processo.
Confira-se:
"(...) Todos os mapas nos anexos estão apresentados em formato
.pdf, não georreferenciados. Isso significa que não é possível:
1. examiná-los a partir de outras bases de dados ambientais
(drenagem....) e/ou fotografias aéreas e imagens de satélite; e
2. examinar as propostas do PDDU de forma integrada.
Este fato dificulta, se não impede, a verificação de eventuais
problemas ou inconsistências na atual proposta do PDDU.
Cito como exemplo o ANEXO XII (Sistema Viário), com várias vias
PLANEJADAS sobre áreas ambientalmente vulneráveis, que, temo,
serão aprovadas junto com o PDDU como um "cheque em branco"
(ou escrito de uma forma que não podemos enxergar muito bem o
que assinamos) pela comunidade!
Infelizmente, venho verificando essa prática em todas as
comissões relativas à gestão ambiental de que venho participando
em Sergipe (conselhos de unidades de conservação,
gerenciamento costeiro GERCO). Em todas venho insistindo, sem
sucesso, na solicitação dos mapas em formato georreferenciado.
Creio que é importante destacar que:
1. A solicitação dos arquivos georreferenciados não implica em
despesa adicional por parte dos órgãos públicos (já que estes
foram utilizados pelas empresas contratadas para a elaboração dos
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mapas).
2. Isso permitirá uma análise mais criteriosa por parte dos
membros e órgãos da sociedade que dispõem de meios para essa
análise.
Por este motivo, esse material deveria ser automaticamente
disponibilizado juntamente com os demais arquivos (a lei de
acesso à informação não nos daria, enquanto cidadãos, esse
direito?).
Somente ontem, sábado, descobri que os arquivos
georreferenciados relativos à revisão do PDDU talvez estejam
disponíveis via solicitação à Coordenadoria Geral de
Desenvolvimento Urbano (Seplog) e na Diretoria de Urbanismo da
Emurb, já que "mapas e dados georreferenciados do município"
estariam disponíveis "nos setores citados acima".
No entanto, considerando o fato de o PDDU não ter sido ainda
aprovado em lei é provável que os arquivos correspondentes a
revisão em curso não estejam ainda sendo disponibilizados.
[...]
Considerando:
1. a relevância do PDDU para a gestão do socioambiental do
município.
2. a importância de garantir a efetiva participação popular na sua
análise.
3. a necessidade de tempo hábil para que essa análise se
processe; e
4. o fato de que estamos há mais de 20 anos sem atualizar o
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PDDU de Aracaju (instituído por Lei Complementar N° 42/2000)
não se justifica a pressa em se realizar uma análise de documento
de tão grande magnitude e importância em tão pouco tempo
(cerca de 15 dias).
Segundo notícia vinculada pela prefeitura, essa avaliação pela
comunidade apresenta um prazo extremamente exíguo para
permitir uma efetiva mobilização popular e uma adequada reflexão
e análise criteriosa das propostas apresentadas para a ordenação
do uso do solo em Aracaju:
Das notícias
LINK: https://www.aracaju.se.gov.br/noticias/92444/
prefeito_edvaldo_anuncia_cronograma_de_audiencias_publicas_pa
ra_revisao_do_plano_diretor_de_aracaju.html :
1. 20/09/2021: "Prefeito Edvaldo anuncia cronograma de
audiências públicas para revisão do Plano Diretor de Aracaju"
2. 21/09/2021: primeira das audiências públicas, no Colégio
Estadual Governador Augusto Franco, no bairro Santos Dumont.
[...]
3. 14/10/2021: quinta (e última?) das audiências públicas, na
EMEF Prof. Florentino Meneses, bairro Areia Branca.
De forma complementar, a prefeitura disponibiliza um site na
internet para a participação dos que não puderem e/ou quiserem
participar das audiências públicas:
LINK:
https://www.aracaju.se.gov.br/noticias/92444/
prefeito_edvaldo_anuncia_cronograma_de_audiencias_publicas_pa
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Processo Judicial Eletrônico: https://pje.jfse.jus.br/pje/Painel/painel_usuario/documentoHTML.sea...
ra_revisao_do_plano_diretor_de_aracaju.html.
No entanto, embora não esteja informado no site, soube,
informalmente, que o prazo para envio das contribuições
encerraria em 05/10/201, antes mesmo da última das audiências
públicas, o que não faz o menor sentido.
Ainda pior, pela minha experiência, acredito que o sistema de
consulta popular funciona como uma espécie de "caixa preta". A
população envia suas contribuições e a prefeitura faz o que acham
melhor (ignorar?) com elas. Pelo menos, no tocante à minha
participação no processo de consulta pública para a criação da
Unidade de Conservação Extrativista das Mangabeiras em agosto
de 2020, nunca fui informada do resultado dessa consulta. Na
verdade, o que vi foi uma notícia referente à derrubada das
mangabeiras posteriormente à acima referida consulta
LINK:
https://www.f5news.com.br/cotidiano/pma-inicia-construcao-na-
invasao-das-mangabeiras-e-mpf-ajuiza-acao.html
Se o objetivo desta administração é o de garantir a ampla de
democrática participação da população, parece que essa
determinação não está sendo, ao menos completamente,
cumprida.
Percebe-se, na verdade, que antes da aprovação açodada de uma
revisão de plano diretor, de 20 anos atrás seria necessário,
inicialmente o desenvolvimento de ações que visassem uma
análise diagnóstica da situação socioambiental da cidade de
Aracaju, permitindo, dessa forma a revisão das regras de
funcionamento do município. Como bem pontuou o conselheiro
federal do CAU, Ricardo Mascarelo, "não se trata da quantidade de
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audiências e divulgação":
"Ele destacou também que o Plano tem quatro fases, a primeira é
de trabalho e mobilização social, a segunda é o diagnóstico, para
entender como está Aracaju. "A cidade mudou muito de 2000 a
2020, só o Bairro Jabotiana recebeu 10 mil pessoas nesse período,
e há ainda a questão da Zona de Expansão e aí entra também a
questão ambiental da fauna e da flora, que é fundamental", frisou.
LINK:
https://oabsergipe.org.br/blog/2021/09/24/oab-discute-plano-
diretor-com-representantes-da-sociedade-civil/
Entendo que o "diagnóstico, para entender como está Aracaju",
deve, logicamente, vir antes da proposição das regras de
funcionamento da cidade."
Com base na documentação anexa, foi instaurado inquérito civil
público, o qual, após analisado, levou o MPF à conclusão de que os
insistentes reclamos apresentados por diversas autarquias e
entidades da sociedade civil não estavam sendo atendidos pelo
Município de Aracaju no processo de desenvolvimento no novo
Projeto de Plano Diretor do Município, embora reuniões já tivessem
sido realizada e todas os argumentos já tivessem sido expostos.
Ademais, por meio da imprensa sergipana, especialmente pelas
notícias veiculadas nesta Capital, e que podem ser alvo de acesso
por este Juízo ao clicar nos links abaixo, pode-se também observar
a intensa insatisfação da sociedade com a forma pouco
democrática e participativa como o processo de formulação do
PDDU de Aracaju está sendo realizado:
LINKS:
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Processo Judicial Eletrônico: https://pje.jfse.jus.br/pje/Painel/painel_usuario/documentoHTML.sea...
https://www.f5news.com.br/cotidiano/em-carta-aberta-cause-
pede-maior-dialogo-sobre-o-plano-diretor-de-aracaju.html
https://xodonews.com.br/noticia/57177/plano-diretor-
manifestacao-suspende-audiencia-publica-em-aracaju
https://a8se.com/noticias/sergipe/manifestantes-paralisam-
audiencia-publica-sobre-o-plano-diretor-na-zona-sul-de-aracaju/?
amp
https://fanfl.com.br/cidades/2021/10/23368/movimentos-fazem-
reivindicacoes-e-audiencia-publica-sobre-o-.html
https://twitter.com/portalfanfl/status/1445683902463549440?
t=_thACVtQf3vhzkrXzGjODw&s=08
https://twitter.com/mtst/status/1445713785306574849?
t=FmHM3y-2mqTgUwTFnkM2Gw&s=08
https://www.faxaju.com.br/index.php/2021/09/02/revisao-do-
plano-diretor-de-aracaju-deve-ter-o-protagonismo-da-populacao-
defende-professora-angela-melo/
https://ajunews.com.br/cidades/manifestantes-alegam-terem-
sido-barrados-durante-revisao-do-plano-diretor-em-aracaju-veja-
video/
Assim, para defender os interesses da coletividade, no que diz
respeito ao caráter participativo do Plano Diretor, o que é previsto
em lei justamente para prevenir danos, os quais no presente caso,
já se delineiam pelo menos quanto ao meio ambiente e às
populações tradicionais protegidas pela Convenção Internacional
OIT 169, é que não resta outra medida a não ser recorrer ao
judiciário para correção das ilegalidades.
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[...]
DO DIREITO VIOLADO
PONTO 1 - CARÁTER PARTICIPATIVO DO PLANO DIRETOR,
PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA PUBLICIDADE DOS ATOS
DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA:
[...]
Ora, se os cidadãos não conhecem e não têm acesso à
documentação necessária para participarem da formulação do
Plano Diretor, esses jamais conseguirão atender às necessidades
dos cidadãos. Essa foi uma reclamação presente nas missivas de
todas os órgãos e entidades da sociedade civil, conforme se vê na
documentação anexa.
Outro ponto objeto da irresignação da sociedade civil foi o fato de
que até o presente momento, vários segmentos da sociedade não
puderam participar dos debates nas audiências públicas realizadas.
As poucas audiências públicas aconteceram durante a pandemia,
com restrição do número de participantes e em apenas poucos
bairros da capital, o que inviabilizou uma enormidade de grupos
sociais que possuem especificidades próprias como moradia em
áreas de preservação permanente, em áreas consideradas de
risco, em trechos litorâneos etc. Mais um evidente decréscimo de
participação social que viola a obrigação legal de debate com os
vários segmentos da sociedade.
[...]
Importa destacar, ainda, que as Audiências Públicas realizadas
obtiveram, no máximo, a presença de 100 (cem) à 120 (cento e
vinte) pessoas, contando com os funcionários públicos da
prefeitura municipal e das secretarias. Ou seja, a participação
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popular foi, evidentemente, de baixa densidade. Os dados
corroboram os fatos. Os requeridos previram e realizaram tão
somente 08 (oito) audiências públicas, ao contrário da última
tentativa de revisão, em que a gestão municipal de 2011/2012
convocou cerca de 35 (trinta) e cinco audiências públicas.
Portanto, cada Audiência englobou cerca de 06 (seis) bairros de
Aracaju, haja vista que a capital hoje comporta 48 (quarenta e
oito bairros). Assim, cada uma das 08 (oito) audiências
representava uma fração ideal de cerca 112.102,00 (cento e doze
mil e cento e dois) cidadãos aracajuanos.
Ora, a presença de tão somente cerca de 100 (cem pessoas)
equivale a 0,1% de participação popular para cada bairro nas
audiências públicas. Ao total, caso se arredonde a participação
popular nas audiências para 1.000 (mil) pessoas no processo
inteiro, chega se a um percentil de participação de 0,14%.
Ainda que se admita a presença de cerca de 1.366 pessoas nas
audiências públicas presenciais e 2.052 visualizações na
transmissão pelo canal do Youtube, cuja transmissão iniciou-se
apenas a partir da 4ª Audiência Pública, a interação de 3.418 (três
mil quatrocentos e dezoito) pessoas é representativo de uma
participação de 0,5% da população aracajuana.
Conforme apontam os números, a efetiva participação popular e
democrática na cidade não ocorreu.
Além de vários segmentos não terem tido a oportunidade de
participar de audiências públicas, ainda se defrontaram com a
limitação de apenas 500 caracteres para apresentação de suas
opiniões sobre o inteiro teor e os múltiplos pontos presentes no
Projeto de Plano Diretor.
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[...]
Igualmente trágico porque, em que pese tenha havido a
disponibilização digital com cerca de 807 contribuições ao total,
não houve adequação do sistema para pessoas com deficiências,
por exemplo.
A conduta do Município de Aracaju e da EMURB também viola o
princípio constitucional da publicidade dos atos da administração.
PONTO 2 - CONSULTA PRÉVIA, LIVRE E INFORMADA DE
COMUNIDADES TRADICIONAIS:
[...]
Dentre as comunidades citadas na documentação apresentada
pelo representante da notícia de fato trazida a conhecimento do
Ministério Público Federal, o MPF reconhece pelo menos duas
comunidades indubitavelmente protegidas pela Convenção 169
OIT e que tem seus territórios encravados na área urbana de
Aracaju. São elas a Comunidade Quilombola Maloca, uma das
poucas comunidades quilombolas urbanas do Brasil e a
comunidade Catadora de Mangaba, localizada no bairro Santa
Maria.
Contudo, os representantes apontam outras comunidades tidas
como tradicionais, e essa tradicionalidade o MPF desconhece, pois
é preciso que sejam feitos estudos antropológicos para constatar
essa tradicionalidade, a qual deve passar pelo próprio
autorreconhecimento dessas populações. Mas há indícios robustos
de que a comunidade da Prainha, por exemplo, uma comunidade
ribeirinha citada na representação, possa a ter atributos que lhe
configure como comunidade tradicional, conforme estudo que
segue anexo a esta ACP. O problema é que o Município de Aracaju,
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sem garantir a participação da sua Secretaria de Inclusão Social
no processo de formulação do PDDU, deixou de realizar qualquer
levantamento sobre as comunidades tradicionais presentes na área
do Município e, portanto, as desconsiderou por completo, sequer
assegurando o direito à consulta prévia, livre e informada.
Ora, essas comunidades terão que suportar impactos em seus
espaços de vida e de manifestações culturais causados pelo novo
plano diretor e apenas se o conhecerem e o discutirem com os
proponentes (Município e EMURB) é que terão condições de
participar do processo e comunicar aos réus as suas reivindicações
e posições sobre o novo plano diretor proposto. Portanto, o
Município e a EMURB deixaram de identificar as comunidades
tradicionais presentes no ambiente urbano municipal e, na forma
da Convenção OIT 169, realizar a específica consulta prévia, livre e
informada.
[...]
A jurisprudência pátria já reafirmou diversas vezes que
comunidades quilombolas e comunidades tradicionais são povos
protegidos pela Convenção Internacional OIT 169, mas o Município
de Aracaju e a EMURB agiram como se esses povos não existissem
no território aracajuano.
[...]
O Movimento das Catadoras de Mangaba em prol da preservação
das árvores e do seu modo de vida se insere numa política pública
estabelecida em nível nacional. Nesse sentido, há regulamentação
da noção de população tradicional através de lei (Decreto n.
6.040/2007) e a criação de órgão específico dentro do Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais -IBAMA para
tratar do tema, o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da
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Sociobiodiversidade e Populações Tradicionais - CNPT, hoje
integrado na estrutura do Instituto Chico Mendes de Conservação
de Biodiversidade - ICMBio.
[...]
Em 2010, o Estado de Sergipe editou a Lei n. 7.802/2010,
atribuindo alta relevância à respectiva comunidade tradicional, ao
reconhecer as catadoras de mangaba como grupo cultural
diferenciado e estabelecer o autorreconhecimento como critério
jurídico de identificação, a partir da constatação do seu modo de
vida calcado na atividade extrativista de subsistência a partir da
catação desses frutos.
[...]
No Município de Aracaju, constatou-se em 2016 uma área de
mangabeira com total de 18.014 ha, sendo 284 de áreas naturais,
com acesso livre em 27,45 ha e acesso por doação em 257,32 ha.
No âmbito do território da capital, foi registrada a comunidade da
Prainha, no bairro Santa Maria, com um total de 496 famílias,
sendo 35 delas de catadoras de mangaba, cujas atividades, por
ordem de importância, se restringe ao trabalho assalariado e à
extração da mangaba, como meios de subsistência.
O relatório de situação e diagnóstico das famílias de catadoras de
mangaba da região do Santa Maria, com a composição dos lotes
de mangabeiras e suas famílias, caracteriza todos os terrenos que
compõem a atividade extrativista na comunidade Prainha, com as
respectivas famílias e seus membros, que subsistem do manejo da
mangaba há mais de 50 anos.
Ainda segundo esclarecimentos fornecidos pela Associação Luiz
Lemper, em 20/03/2018, as catadoras e os catadores de mangaba
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da comunidade Prainha estimam que a área por eles trabalhada
compreende 5 mil pés de mangaba e se divide em 11 áreas
circunvizinhas.
[...]
De outra parte, ratificando a omissão do Município de Aracaju no
diagnóstico das comunidades étnicas e tradicionais presentes em
seu território, temos a comunidade quilombola Maloca, a qual
também foi esquecida. A comunidade quilombola Maloca é
composta por quase cem famílias e tem seu território localizado no
Município de Aracaju/SE. A comunidade foi reconhecida pela
Fundação Cultural Palmares por meio da n. 8, de 30 de janeiro de
2007, publicada no Diário Oficial da União em 7 de fevereiro de
2007, tornando-se o primeiro quilombo urbano oficialmente
reconhecido do Estado de Sergipe, e o segundo do Brasil.
O INCRA, então, por meio da sua Superintendência Regional em
Sergipe, instaurou o procedimento administrativo de n.
54370.000320/2007-66, para tratar sobre a identificação,
delimitação e titulação do território da comunidade Maloca.
No bojo deste procedimento, foi elaborado pelo INCRA o relatório
técnico de identificação e delimitação (RTID) do território
quilombola, tendo sido publicado no DOU de 3 de abril de 2017. O
RTID, confeccionado minuciosamente após a realização dos
estudos técnicos devidos, delimitou todo o território da
comunidade Maloca, que possui uma área total de 9.328,41 m²e
um perímetro de 1.395,96 metros.
A Presidência nacional do INCRA, por meio da Portaria n. 855, de
21 de maio de 2018, publicada no DOU de 23 de maio de 2018 (id.
4058500.4104919), declarou e reconheceu como território da
comunidade quilombola Pontal da Barra os imóveis delimitados no
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RTID anteriormente publicado, concluindo que a área em questão
fora ocupada e vinha sendo utilizada pela comunidade Maloca ao
longo da sua existência, de modo que deveriam fazer parte do seu
território.
[...]
Assim, estamos falando de pelo menos duas comunidades
comprovadamente submetidas às proteções da Convenção 169
OIT e que pleiteiam territórios dentro do perímetro urbano do
município de Aracaju, razão pela qual o Plano Diretor não pode
avançar sem consulta específica a essas comunidades, sobre pena
de violação da Convenção Internacional que propugna a defesa de
direitos humanos culturais.
PONTO 3 - DA NÃO APRESENTAÇÃO DE DOCUMENTAÇÃO
COMPROBATÓRIA DE RESPONSABILIDADE TÉCNICA DOS
PROFISSIONAIS RESPONSÁVEIS POR ATIVIDADES
PRIVATIVAS OU COMPARTILHADAS DE ARQUITETURA E
URBANISMO NO ÂMBITO DA REVISÃO DO PLANO DIRETOR
DE DESENVOLVIMENTO URBANO DO MUNICÍPIO
Comprova-se nos documentos juntados que, por meio do Ofício
008/2021, datado de 19/10/2021 e encaminhado ao Sr. Antônio
Sérgio Ferrari Vargas, secretário municipal da Infraestrutura, fez-
se menção à necessidade de apresentação de documentação
comprobatória de responsabilidade técnica (RRT ou ART) de todos
os profissionais responsáveis técnicos por atividades privativas ou
compartilhadas de Arquitetura e Urbanismo, executadas, em
execução ou a serem executadas no âmbito da Revisão do Plano
Diretor de Aracaju/SE. Contudo, na ocasião o CAU/SE sequer
obteve resposta quanto ao mencionado questionamento.
Nesse ponto, cumpre esclarecer que Lei n. 12.378/2010 prevê que
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cabe ao arquiteto e urbanista a supervisão, coordenação gestão e
orientação técnica do plano diretor. Com o advento da referida lei,
restou estabelecido que as atividades de planejamento urbano e
regional constituem atribuições de arquitetos e urbanistas e/ou de
empresas registradas nos Conselhos de Arquitetura e Urbanismo.
Portanto, toda e qualquer atividade técnica de planejamento
urbano e regional deve ter como responsável técnico um arquiteto
e urbanista.
Vejamos o disposto no art. 2º da mencionada Lei:
Art. 2° As atividades e atribuições do arquiteto e urbanista
consistem em:
[...]
Parágrafo único. As atividades de que trata este artigo aplicam-se
aos seguintes campos de atuação no setor:
[...]
V - do Planejamento Urbano e Regional, planejamento físico-
territorial, planos de intervenção no espaço urbano, metropolitano
e regional fundamentados nos sistemas de infraestrutura,
saneamento básico e ambiental, sistema viário, sinalização,
tráfego e trânsito urbano e rural, acessibilidade, gestão territorial
e ambiental, parcelamento do solo, loteamento,
desmembramento, remembramento, arruamento, planejamento
urbano, plano diretor, traçado de cidades, desenho urbano,
sistema viário, tráfego e trânsito urbano e rural, inventário urbano
e regional, assentamentos humanos e requalificação em áreas
urbanas e rurais.
No mesmo sentido dispõe a Resolução nº 51/2013-CAU:
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Art. 2º - No âmbito dos campos de atuação relacionados nos
incisos deste artigo, em conformidade com o que dispõe o art. 3°
da Lei n° 12.378, de 2010, ficam especificadas como da
competência e habilidade do arquiteto e urbanista, adquiridas na
formação do profissional, as seguintes áreas de atuação: (Redação
dada pela Resolução CAU/BR nº 210, de 24 de setembro de 2021)
[...]
V - DO PLANEJAMENTO URBANO E REGIONAL:
a) coordenação de equipe multidisciplinar de planejamento
concernente a plano ou traçado de cidade, plano diretor, plano de
requalificação urbana, plano de habitação de interesse social e
plano de regularização fundiária. (Redação dada pela Resolução
CAU/BR nº 210, de 24 de setembro de 2021).
Consequentemente, a atuação de arquitetos e urbanistas é
imprescindível no que se refere à coordenação da elaboração do
Plano Diretor (ou na sua revisão decenal, conforme estabelece o
art. 40, §3º do Estatuto da Cidade), bem como no caso de
emendas ou substitutivos promovidos pelo Poder Legislativo, haja
vista que qualquer alteração ao projeto apresentado pelo Poder
Executivo deve ser embasada tecnicamente mediante atuação de
arquiteto e urbanista, sob o devido Registro de Responsabilidade
Técnica. Nesse sentido foi enviado o já mencionado Ofício
008/2021, contudo, o CAU, na ocasião, não obteve qualquer
resposta, em clara afronta aos dispositivos legais acima citados.
Ressalte-se que o arquiteto e urbanista é o profissional
competente para analisar tecnicamente normas relativas ao
desenvolvimento urbano, políticas de orientação da formulação de
planos setoriais, critérios de parcelamento, uso e ocupação do solo
e zoneamento, previsão de áreas destinadas a moradias
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populares, com garantias de acesso aos locais de trabalho, serviço
e lazer, proteção ambiental e ordenação de usos, atividades e
funções de interesse zonal.
Imprescindível a participação de arquiteto e urbanista em
emendas/substitutivos promovidos pelo Legislativo, mediante
Registro de Responsabilidade Técnica, o que não foi comprovado
pelo município, mesmo após provocação do CAU/SE em já
mencionado mandamus.
Nesse sentido, observados os requisitos do supracitado art. 41 do
Estatuto da Cidade, bem como o artigo 4º, I e II, da referida lei, o
processo deve ser conduzido pela equipe técnica e política da
prefeitura, coordenada por um arquiteto e urbanista, em conjunto
com a Câmara de Vereadores, envolvendo todos os segmentos
sociais presentes na cidade.
Portanto, o processo legislativo em matéria urbanística exige
estudos técnicos prévios às proposições, às emendas, aos
substitutivos e às alterações legislativas, o que, destaque-se, não
ocorreu ou não foi demonstrado no processo em análise,
demonstrando-se a ilegalidade do PDDU e, mais uma vez, a falta
de transparência em todo o trâmite.
Apresentaram fundamentos para embasar a pretensão e anexaram
documentos, entre os quais o Inquérito Civil n°
1.35.000.001199/2021-55.
Intimados, o município de Aracaju e a EMURB manifestaram-se
previamente nos id.'s 4058500.5807482 e 4058500.5809462,
respectivamente.
Decisão de id. 4058500.6371021 reconheceu a legitimidade ativa
do Ministério Público Federal e declarou a competência da Justiça
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Federal para o processamento do feito. Além disso, concedeu
parcialmente a tutela de urgência, determinando aos réus:
1) que se abstenham de enviar à Câmara de Vereadores de
Aracaju o novo projeto do Plano Diretor do Município de Aracaju,
até ulterior deliberação deste Juízo;
2) no prazo de 20 (vinte) dias, entreguem a este Juízo, e publique
em seu site, na área própria dos documentos referentes ao PDDU,
para que possam ser disponibilizadas ao CAU, IAB, CREA, OAB,
UFS, Associação do Território da Comunidade Maloca, Associação
Padre Luiz Lemper, representante da comunidade tradicional
Catadoras de Mangaba e demais entidades signatárias da Carta
Aberta mencionada nesta ACP e constante de anexo juntado, toda
a documentação que foi por eles solicitada para permitir a
adequada análise do projeto de Plano Diretor de Aracaju; e,
3) após disponibilizada a documentação acima, os demandados
garantam o prazo de 30 dias para que essas entidades,
comunidades e qualquer cidadão, querendo, manifestem-se
perante o Município de Aracaju e a EMURB, apresentando suas
contribuições para o PDDU, sem limitação de caracteres em seus
textos, que deverão ser informados nos autos.
Agravo de instrumento n° 0813287-49.2022.4.05.0000 interposto
pelo Município de Aracaju. O órgão julgador manteve a decisão
proferida por este juízo.
Citado, o Município de Aracaju apresentou contestação no id.
4058500.6469423, alegando, em resumo: a) a ilegitimidade ativa
do MPF; b) que todas ações municipais na elaboração do
anteprojeto de revisão do PDDU de Aracaju estão de acordo com a
legislação de regência; c) que a fundamentação jurídica da
presente ação civil pública é ampla e abstrata, de modo a implicar
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Processo Judicial Eletrônico: https://pje.jfse.jus.br/pje/Painel/painel_usuario/documentoHTML.sea...
uma interferência indevida na atividade típica do Poder Executivo,
devendo o feito ser extinto por representar uma ofensa direta ao
princípio da separação dos poderes; d) a impossibilidade de o Poder
Público garantir o fornecimento de dados brutos para que todo o
procedimento seja submetido ao crivo de todos os autores e
instituições interessadas, porque esse compartilhamento
inviabilizaria a revisão pretendida; e) que a concessão do pedido
liminar impõe obrigação de fazer sem amparo legal, visto que o art.
40 do Estatuto da Cidade não prevê o compartilhamento de todos
os documentos que serviram para a construção do projeto de lei do
plano diretor, mas sim documentos e informações produzidos no
processo de elaboração do referido plano; f) inaplicabilidade da
convenção 169 da OIT ao caso. O diploma internacional invocado
direciona-se a comunidades não integradas à coletividade nacional,
e as comunidades referidas na inicial e contidas no Município de
Aracaju compõem a sociedade aracajuana, logo, gozam dos direitos
humanos no mesmo grau que o restante da população. Não pode
ser exigida a consulta prévia contida na Convenção n.º 169 da OIT.
As comunidades do Quilombo Maloca e dos Catadores de Mangaba
integram a sociedade aracajuana cuja participação na revisão do
Plano Diretor foi amplamente oportunizada.
Quanto às acusações relacionadas à responsabilidade técnica do
Plano Diretor, pontuou que não é razoável paralisar o processo de
revisão do PDDU por ausência de documento de responsabilidade
técnica, visto que os estudos foram feitos por servidores do
Município de Aracaju devidamente habilitados. Ademais, ainda que
reste indispensável a expedição de ART/RRT, essa é uma
irregularidade sanável. Pugnou, ao final, pelo reconhecimento da
legalidade da atuação da Administração municipal no processo de
elaboração do anteprojeto de revisão do PDDU e o indeferimento de
todos os pleitos da exordial. Juntou documentos.
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Citada, a EMURB apresentou contestação no id. 4058500.6485820,
alegando, em síntese: a) sua ilegitimidade passiva; b) reforçou que
os requisitos e etapas necessários ao processo de revisão do Plano
Diretor foram atendidos e amplamente publicizados; c) que as
alegações da inicial foram pouco conexas e sem respaldo
probatório; d) pugnou pela total rejeição dos pedidos da inicial.
Juntou documentos.
Acostados aos autos pelo município de Aracaju (id.
4058500.6580231 e seguintes) os documentos referentes ao
PDDU, em cumprimento ao item 2 da decisão que concedeu a
tutela de urgência de id. 4058500.6371021.
Réplica do MPF no id. 4058500.6604256.
Réplica do Grupo Criliber no id. 4058500.6643560.
Réplica do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Sergipe (CAU/
SE) no id. 4058500.6942553.
Réplica da Associação Padre Luiz Lemper no id. 4058500.6959542.
Decisão de id. 4058500.7243332 reconheceu a ilegitimidade
passiva da EMURB e esclareceu que a possibilidade do controle
judicial do processo de revisão do anteprojeto do PDDU de Aracaju
não constitui uma violação ao princípio da separação dos poderes.
Audiência pública designada para o dia 25/08/2023, com ofícios
encaminhados ao Prefeito de Aracaju, ao representante do
Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano e Ambiental
(CONDURB), aos Secretários Estadual e Municipal de Assistência
Social, ao Secretário Municipal do Meio Ambiente, ao Presidente da
Câmara Municipal desta cidade, CREA/SE, INCRA/SE e à IAB/SE,
OAB/SE, UFS, Fundação Cultural Palmares para, querendo,
participarem do ato.
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Realizada a audiência pública, foi concedido o prazo de 10 (dez)
dias para as partes se manifestarem (id. 4058500.7310055).
Petição da Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Sergipe, id.
4058500.7319568, para sua admissão no processo na qualidade de
amicus curiae.
O Município de Aracaju manifestou-se no id. 4058500.7336089.
Reiterou a preliminar de ilegitimidade passiva do MPF citando
precedente do STJ (RESP 1.687.821 - SC). Defendeu a revogação
da Convenção 169 da OIT pelo Decreto nº 10.088/2019 desde
05/11/2019, mencionando o entendimento do STF no julgamento
da ADC 39/DF.
Pugnou pela reconsideração da decisão de id. 4058500.6371021,
com o acolhimento da preliminar levantada ou, alternativamente,
que a ação em questão seja julgada totalmente improcedente.
Irresignado com a exclusão da EMURB da lide, o Ministério Público
Federal comunicou a interposição do Agravo de Instrumento n°
0811366-21.2023.4.05.0000, pendente de julgamento. Além disso,
na peça de id. 4058500.7343162, requereu:
a) reconsideração da decisão de id. 4058500.7243332.
b) intimação pessoal do prefeito para comprovar o cumprimento
da decisão de id. 4058500.6371021.
c) designação de audiência de conciliação a fim de promover uma
solução amigável e efetiva da lide.
d) a intimação do IBAMA e do INCRA para se pronunciarem sobre
a possibilidade de participarem na ação como amicus curiae, nos
termos do art. 138 do CPC.
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Manifestação do CAU no id. 4058500.7350148. Comunicou que os
itens 2 e 3 da tutela de urgência deferida ainda não tinham sido
cumpridos pelo Município. Pugnou, ao final, pela total procedência
da demanda.
Manifestação do GRUPO CRILIBER - CRIANÇA E LIBERDADE no id.
4058500.7351570. Informou que o Decreto 10.088/2019 não
revogou a Convenção 169 da OIT e pediu a condenação do
Município em litigância de má-fé.
Manifestação da ASSOCIAÇÃO PADRE LUIZ LEMPER no id.
4058500.7365919, nos mesmos termos da petição do GRUPO
CRILIBER - CRIANÇA E LIBERDADE.
Petição do INCRA e da FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES - FCP, id.
4058500.7369986, para admissão no processo na qualidade de
amicus curiae.
O Município de Aracaju informou o cumprimento dos itens 2 e 3 da
tutela de urgência deferida (id. 4058500.7426407).
O Ministério Público Federal manifestou ciência quanto ao
cumprimento da tutela de urgência pelo réu (id.
4058500.7444250).
Decisão de id. 4058500.7553088: a) reforçou o interesse federal da
demanda, a legitimidade ativa do MPF e a inaplicabilidade do
precedente do STJ (RESP 1.687.821 - SC) ao caso; b) manteve a
exclusão da EMURB; c) indeferiu o pedido de audiência de
conciliação; d) incluiu a Ordem dos Advogados do Brasil Seccional
Sergipe, o INCRA e a Fundação Cultural Palmares - FCP como
amicus curiae, para que apresentassem informações e
esclarecimentos relevantes antes das alegações finais. Ao final,
fixou o prazo para os memoriais de ambas as partes.
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Embargos de declaração opostos pelo Município de Aracaju/SE
contra a referida decisão.
Petição do MPF para apresentar suas alegações finais somente após
os esclarecimentos prestados pelos amicus curiae (id.
4058500.7624876).
Petição do INCRA pedindo dilação de prazo por mais 10 (dez) dias
(id. 4058500.7640158) em 08 de dezembro de 2023. Mesmo após
exceder significativamente esse prazo, o INCRA não emitiu parecer.
A Fundação Cultural Palmares - FCP requereu a juntada da NOTA
TÉCNICA nº 59/2023/CP01DPA/DPA/PR (id. 4058500.7640171).
Resposta do MPF e do Grupo Criliber - Criança e Liberdade aos
embargos de declaração opostos pelo Município (ids
4058500.7675567 e 4058500.7731371). Demais autores não se
manifestaram.
Manifestação da OAB/SE (id. 4058500.7712345).
Decisão de id. 4058500.7846732 não conhecendo os embargos.
Alegações finais dos autores nos ids 4058500.7914907,
4058500.7923765 e 4058500.7926703.
Alegações finais do Município de Aracaju/SE no id.
4058500.7928662.
É o que importa relatar.
Decido.
2. FUNDAMENTAÇÃO
Das questões prévias e/ou preliminares
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Todas as questões prévias já foram amplamente examinadas nas
decisões de ids 4058500.6371021, 4058500.7243332 e
4058500.7553088.
Passo ao exame do mérito.
Do mérito
Da vigência da Convenção 169 da OIT e o fundamento do
direito à consulta livre, prévia e informada das comunidades
tradicionais
Em seus memoriais, o Município mencionou novamente que a
Convenção 169 da OIT foi revogada pelo Decreto nº 10.088/2019
e, desde 05/11/2019, não produz efeitos no Brasil, não haveria,
portanto, a necessidade de questionar, no plano interno, eventual
direito à consulta livre, prévia e informada das comunidades
tradicionais existentes em Aracaju/SE. Em reforço, citou o
julgamento da ADC 39/DF.
Por ocasião da decisão de id. 4058500.7553088, assim me
manifestei:
Tal alegação não merece prosperar.
O Decreto n° 10.088/2019 revogou o Decreto 5.051/2004 (que
tinha promulgado a Convenção 169 da OIT) apenas para
consolidar, em todos os seus anexos, os atos normativos já
editados pelo Poder Executivo federal que dispunham sobre a
promulgação de convenções e recomendações da OIT, ratificadas
pela República Federativa do Brasil, e em vigor.
Assim, atualmente, a Convenção 169 da OIT está em vigência no
Brasil pelo Decreto no 10.088/2019, anexo LXXII.
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Ressalto ainda que o direito à consulta livre, prévia e informada das
comunidades tradicionais, conforme jurisprudência da Corte
Interamericana de Direitos Humanos123, também encontra seu
fundamento em outras normas de direito internacional:
1. Convenção Internacional sobre a Eliminação de todas as Formas
de Discriminação Racial (CIEDR), promulgada pelo Brasil em 1969:
Artigo II
[...]
2) Os Estados Partes tomarão, se as circunstâncias o exigirem, nos
campos social, econômico, cultural e outros, as medidas especiais
e concretas para assegurar como convier o desenvolvimento ou a
proteção de certos grupos raciais ou de indivíduos pertencentes a
estes grupos com o objetivo de garantir-lhes, em condições de
igualdade, o pleno exercício dos direitos do homem e das
liberdades fundamentais.
Artigo V
De conformidade com as obrigações fundamentais enunciadas no
artigo 2, os Estados Partes comprometem-se a proibir e a eliminar
a discriminação racial em todas suas formas e a garantir o direito
de cada um à igualdade perante a lei sem distinção de raça, de cor
ou de origem nacional ou étnica.
[...]
e) direitos econômicos, sociais e culturais [...]
Artigo VII
Os Estados Partes, comprometem-se a tomar as medidas
imediatas e eficazes, principalmente no campo do ensino,
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educação, da cultura e da informação, para lutas contra os
preconceitos que levem à discriminação racial e para promover, o
entendimento, a tolerância e a amizade entre nações e grupos
raciais e étnicos assim como para propagar oa objetivo e princípios
da Carta das Nações Unidas, da Declaração Universal dos Direitos
do Homem, da Declaração das Nações Unidas sôbre a eliminação
de tôdas as formas de discriminação racial e da presente
Convenção.
2. Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (PIDCP),
promulgado em 1992:
ARTIGO 1°
1. Todos os povos têm direito à autodeterminação. Em virtude
desse direito, determinam livremente seu estatuto político e
asseguram livremente seu desenvolvimento econômico, social e
cultural.
2. Para a consecução de seus objetivos, todos os povos podem
dispor livremente de suas riquezas e de seus recursos naturais,
sem prejuízo das obrigações decorrentes da cooperação econômica
internacional, baseada no princípio do proveito mútuo, e do Direito
Internacional. Em caso algum, poderá um povo ser privado de
seus meios de subsistência.
3. Os Estados Partes do presente Pacto, inclusive aqueles que
tenham a responsabilidade de administrar territórios não-
autônomos e territórios sob tutela, deverão promover o exercício
do direito à autodeterminação e respeitar esse direito, em
conformidade com as disposições da Carta das Nações Unidas.
3. Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais
(PIDESC), também promulgado em 1992:
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ARTIGO 1º
1. Todos os povos têm direito a autodeterminação. Em virtude
desse direito, determinam livremente seu estatuto político e
asseguram livremente seu desenvolvimento econômico, social e
cultural.
2. Para a consecução de seus objetivos, todos os povos podem
dispor livremente de suas riquezas e de seus recursos naturais,
sem prejuízo das obrigações decorrentes da cooperação econômica
internacional, baseada no princípio do proveito mútuo, e do Direito
Internacional. Em caso algum, poderá um povo ser privado de
seus próprios meios de subsistência.
3. Os Estados Partes do Presente Pacto, inclusive aqueles que
tenham a responsabilidade de administrar territórios não-
autônomos e territórios sob tutela, deverão promover o exercício
do direito à autodeterminação e respeitar esse direito, em
conformidade com as disposições da Carta das Nações Unidas.
No caso do Povo Saramaka Vs. Suriname, por exemplo, a Corte
IDH enfatizou:
E.2.a) Direito a ser consultado e, se for o caso, a obrigação de
obter consentimento
133. Primeiro, a Corte manifestou que ao garantir a participação
efetiva dos integrantes do povo Saramaka nos projetos de
desenvolvimento ou investimento dentro de seu território, o
Estado tem o dever de consultar ativamente esta comunidade,
segundo seus costumes e tradições (par. 129 supra). Este dever
requer que o Estado aceite e ofereça informação e implica numa
comunicação constante entre as partes. As consultas devem
realizar-se de boa fé, através de procedimentos culturalmente
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adequados e devem ter como objetivo alcançar um acordo. Além
disso, o povo Saramaka deve ser consultado, de acordo com suas
próprias tradições, nas primeiras etapas do projeto de
desenvolvimento ou investimento e não unicamente quando surja
a necessidade de obter a aprovação da comunidade, se for o caso.
O aviso com antecedência proporciona um tempo para a discussão
interna dentro das comunidades e para oferecer uma adequada
resposta ao Estado. O Estado, além disso, deve assegurar-se de
que os membros do povo Saramaka tenham conhecimento dos
possíveis riscos, incluindo os riscos ambientais e de salubridade, a
fim de que aceitem o projeto de desenvolvimento ou investimento
proposto com conhecimento e de forma voluntária. Por último, a
consulta deveria levar em consideração os métodos tradicionais do
povo Saramaka para a tomada de decisões.
134. Ademais, a Corte considera que, quando se trate de
projetos de desenvolvimento ou de investimento de grande
escala que teriam um impacto maior dentro do território
Saramaka, o Estado tem a obrigação não apenas de
consultar os Saramaka, mas também deve obter seu
consentimento livre, prévio e informado, segundo seus
costumes e tradições. A Corte considera que a diferença
entre "consulta" e "consentimento" neste contexto requer
maior análise.
135. A este respeito, o Relator Especial da ONU sobre a situação
dos direitos humanos e das liberdades fundamentais dos povos
indígenas observou, de maneira similar, que:
[s]empre que se realize [projetos de grande escala] em
áreas ocupadas por povos indígenas, é provável que estas
comunidades tenham que atravessar mudanças sociais e
econômicas profundas que as autoridades competentes não
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são capazes de entender, muito menos de antecipar. [O]s
principais efeitos [] incluem a perda de territórios e de
terra tradicional, o desalojamento, a migração e o possível
reassentamento, esgotamento de recursos necessários para
a subsistência física e cultural, a destruição e contaminação
do ambiente tradicional, a desorganização social e
comunitária, os impactos sanitários e nutricionais negativos
de longa duração [e], em alguns casos, abuso e violência.
Em consequência, o Relator Especial da ONU determinou
que "[é] essencial o consentimento livre, prévio e
informado para a proteção dos direitos humanos dos povos
indígenas em relação com grandes projetos de
desenvolvimento".
Além dessas fontes, há ainda a Convenção sobre a Proteção e a
Promoção da Diversidade das Expressões Culturais, Decreto n°
6.177/2007, que destaca a importância dos conhecimentos
tradicionais como fontes de riqueza material e imaterial, permitindo
que indivíduos e povos expressem e compartilhem suas ideias e
valores.
Assim, nos termos ora delineados, reputo sem razão os argumentos
do Município de Aracaju/SE quanto à ausência de base para o
direito à consulta objeto desta ação, visto que essa garantia está
expressamente estabelecida na vigente Convenção 169 da OIT,
decorre de outras normas de direito internacional já incorporadas
ao plano interno e é amplamente reconhecida pela jurisprudência
da Corte Interamericana de Direitos Humanos (Caso do Povo
Saramaka Vs. Suriname; Caso do Povo Indígena Kichwa de
Sarayaku Vs. Equador; Caso Comunidade Garífuna Triunfo de la
Cruz e seus membros Vs. Honduras e Caso Comunidades Indígenas
Membros da Associação Lhaka Honhat (Nossa Terra) Vs.
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Argentina).
Do direito à consulta livre, prévia e informada das
comunidades tradicionais e a Dignidade da Pessoa Humana
Em sua inicial, o MPF evidenciou a ausência de um debate
específico entre o Município réu e as comunidades tradicionais de
Aracaju/SE, no processo de confecção do anteprojeto de revisão do
Plano Diretor.
Na documentação examinada no inquérito civil esclareceu que pelo
menos duas comunidades são indubitavelmente protegidas pela
Convenção 169 OIT: a Comunidade Quilombola Maloca, uma das
poucas comunidades quilombolas urbanas do Brasil, e a
Comunidade Catadora de Mangaba, localizada no bairro Santa
Maria.
Além disso, sinalizou:
A ementa do plano diretor de Aracaju não mapeou ou identificou
nos mapas, anexos ou no corpo do projeto de lei nenhuma das
comunidades tradicionais do município de Aracaju. Eis as
comunidades que faltaram:
1. Quilombo Urbano da Maloca; 2. Comunidade das Mangabeiras
(Bairro Santa Maria); 3. Aloque (Bairro Jabotiana); 4. Canal do
Bugio (Bairro Bugio); 5. Comunidade da Maloca (Bairro Cirurgia);
6. Comunidade da Prainha (Bairro Industrial); 7. Comunidade do
Barrozinho (Bairro Farolândia); 8. Comunidade do Capitão (Bairro
Porto Dantas); 9. Comunidade Pôr do Sol (Bairro Coqueiral); 10.
Comunidade São Sebastião (Manuel Preto - Bairro Industrial); 11.
Fundo da antiga Lixeira o Santa Maria (Bairro Santa Maria); 12.
Guaxinim (Povoado Rubalo); 13. Invasão da Vibra (Bairro
Industrial);14. Jardim Recreio (Bairro Santa Maria); 15. Matinha
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(Bairro Industrial);16. Novo Horizonte (Bairro Santa Maria); 17.
Ocupação Centro Administrativo (Bairro Capucho); 18. Paraisópolis
(Bairro Santa Maria); 19. Ponta da Asa (Bairro Santa Maria); 20.
Ponta da Asa (Bairro Soledade); 21. Povoado Areia Branca
(Localidades: Zenza, Vazia Grande, Cabrocô, Suíça, Malvinas,
Matapuã); 22.Povoado São José (Três porquinhos, Gameleira); 23.
Povoado Robalo.
[...]
Há indícios robustos de que a comunidade da Prainha, por
exemplo, uma comunidade ribeirinha citada na representação,
possa a ter atributos que lhe configure como comunidade
tradicional, conforme estudo que segue anexo a esta ACP.
O problema é que o Município de Aracaju, sem garantir a
participação da sua Secretaria de Inclusão Social no processo de
formulação do PDDU, deixou de realizar qualquer levantamento
sobre as comunidades tradicionais presentes na área do Município
e, portanto, as desconsiderou por completo, sequer assegurando o
direito à consulta prévia, livre e informada.
Ademais, registro que no id. 4058500.7277248 a Procuradoria
Federal junto à Fundação Cultural Palmares indicou interesse em
participar da audiência pública realizada por este Juízo na medida
em que "há uma comunidade quilombola urbana (Maloca) que pode
ser impactada pelas decisões e acordos judiciais firmados."
O Município de Aracaju/SE, por sua vez, tanto em sua contestação
quanto em suas alegações finais, argumentou que a Convenção
169 da OIT não se aplica às duas comunidades tradicionais
mencionadas pelo MPF, pois já estão devidamente integradas à
sociedade e não são consideradas povos tribais:
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Note-se que o inciso II ressalta que os Povos e Comunidades
Tradicionais incluem indígenas e quilombolas, tratando-se,
portanto, de um gênero que abriga os povos indígenas e
quilombolas, desde que preservem características que os
distingam socialmente. É necessário destacar a relevância de tais
comunidades e o respeito que merecem por sua origem, todavia, o
diploma internacional que se pretende aplicar se direciona a
comunidades não integradas e as comunidades contidas no
Município de Aracaju compõem a sociedade aracajuana.
[...]
A Convenção que submete o Poder Público à consulta prévia dos
povos tradicionais, deve ser interpretada de maneira estreita. Se a
consulta ocorre, ainda que dentro de um procedimento de consulta
a toda a sociedade, ela não pode ser desconsiderada. Pretende-
se assegurar que os povos tribais tenham voz, mas não se
pode advogar a tese de supremacia destes povos a ponto de
ser exigido que o Poder Público promova um procedimento
diverso em relação a estes, salvo se forem verificadas
peculiaridades que dificultem a comunicação ou o entendimento
em relação à proposta pública.
[...]
Válido ainda salientar que o próprio artigo 6º da Convenção 169
da OIT, no seu item 2, estabelece que "As consultas realizadas na
aplicação desta Convenção deverão ser efetuadas com boa fé e de
maneira apropriada às circunstâncias, com o objetivo de se chegar
a um acordo e conseguir o consentimento acerca das medidas
propostas". No contexto dos autos, há de se reconhecer que a
consulta primeiramente realizada, de maneira apropriada às
circunstâncias dos autos, atingiu o objetivo estabelecido na
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referida Convenção." (grifos nossos)
[...]
Não há distinções em relação à capacidade de compreensão
da comunidade quilombola Maloca foi retratada no
documentário "Quilombo Urbano Maloca", acessível pelo
YouTube de pouco mais de 07 (sete) minutos, no qual os
relatos demonstram o quão integrados estão à sociedade
aracajuana. No início demonstra-se a melhoria urbana de
pavimentação das ruas e moradores que afirmam fácil acesso ao
posto de saúde, saneamento e fornecimento de energia e água.
[...]
Sendo assim, registra-se, desde já, que a consulta prévia
conforme contida na Convenção n.º 169 da OIT não pode
ser exigida. Todavia, a consulta lhes foi formulada, afinal,
integram a sociedade aracajuana cuja participação na
revisão do Plano Diretor foi oportunizada amplamente.
Das declarações ora transcritas e demais documentos acostados ao
feito, é indubitável que o Município de Aracaju, no processo de
revisão de seu Plano Diretor retomado em 2021, não realizou a
consulta livre, prévia e informada exigida pela Convenção 169 da
OIT às Comunidades Quilombola Maloca e Catadora de Mangaba, e
tampouco fez um levantamento prévio da existência de outras
comunidades tradicionais eventualmente existentes em seu
território.
A Convenção 169 da OIT é um importante instrumento jurídico
internacional para a proteção dos direitos dos povos tradicionais,
quilombolas e indígenas. Ela reconhece a diversidade sociocultural
dos Estados-Nação (constitucionalismo multicultural) e afirma
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importantes direitos fundamentais como a autodeterminação, o
autorreconhecimento e a participação dos povos:
Artigo 1°
1. A presente convenção aplica-se:
a) aos povos tribais em países independentes, cujas condições
sociais, culturais e econômicas os distingam de outros setores da
coletividade nacional, e que estejam regidos, total ou
parcialmente, por seus próprios costumes ou tradições ou por
legislação especial.
b) aos povos em países independentes, considerados indígenas
pelo fato de descenderem de populações que habitavam o país ou
uma região geográfica pertencente ao país na época da conquista
ou da colonização ou do estabelecimento das atuais fronteiras
estatais e que, seja qual for sua situação jurídica, conservam
todas as suas próprias instituições sociais, econômicas, culturais e
políticas, ou parte delas.
2. A consciência de sua identidade indígena ou tribal deverá
ser considerada como critério fundamental para determinar
os grupos aos que se aplicam as disposições da presente
Convenção.
3. A utilização do termo "povos" na presente Convenção não
deverá ser interpretada no sentido de ter implicação alguma no
que se refere aos direitos que possam ser conferidos a esse termo
no direito internacional.
[...]
Artigo 6°
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1. Ao aplicar as disposições da presente Convenção, os governos
deverão:
a) consultar os povos interessados, mediante procedimentos
apropriados e, particularmente, através de suas instituições
representativas, cada vez que sejam previstas medidas
legislativas ou administrativas suscetíveis de afetá-los
diretamente.
b) estabelecer os meios através dos quais os povos interessados
possam participar livremente, pelo menos na mesma medida que
outros setores da população e em todos os níveis, na adoção de
decisões em instituições efetivas ou organismos administrativos e
de outra natureza responsáveis pelas políticas e programas que
lhes sejam concernentes.
c) estabelecer os meios para o pleno desenvolvimento das
instituições e iniciativas dos povos e, nos casos apropriados,
fornecer os recursos necessários para esse fim.
2. As consultas realizadas na aplicação desta Convenção deverão
ser efetuadas com boa fé e de maneira apropriada às
circunstâncias, com o objetivo de se chegar a um acordo e
conseguir o consentimento acerca das medidas propostas.
Artigo 7º
1. Os povos interessados deverão ter o direito de escolher suas,
próprias prioridades no que diz respeito ao processo de
desenvolvimento, na medida em que ele afete as suas vidas,
crenças, instituições e bem-estar espiritual, bem como as terras
que ocupam ou utilizam de alguma forma, e de controlar, na
medida do possível, o seu próprio desenvolvimento econômico,
social e cultural. Além disso, esses povos deverão participar da
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formulação, aplicação e avaliação dos planos e programas de
desenvolvimento nacional e regional suscetíveis de afetá-los
diretamente.
2. A melhoria das condições de vida e de trabalho e do nível de
saúde e educação dos povos interessados, com a sua participação
e cooperação, deverá ser prioritária nos planos de
desenvolvimento econômico global das regiões onde eles moram.
Os projetos especiais de desenvolvimento para essas regiões
também deverão ser elaborados de forma a promoverem essa
melhoria.
3. Os governos deverão zelar para que, sempre que for possível,
sejam efetuados estudos junto aos povos interessados com o
objetivo de se avaliar a incidência social, espiritual e cultural e
sobre o meio ambiente que as atividades de desenvolvimento,
previstas, possam ter sobre esses povos. Os resultados desses
estudos deverão ser considerados como critérios fundamentais
para a execução das atividades mencionadas.
4. Os governos deverão adotar medidas em cooperação com os
povos interessados para proteger e preservar o meio ambiente dos
territórios que eles habitam.
Ao enfatizar o autorreconhecimento como critério essencial para a
identificação de povos tradicionais, quilombolas e indígenas, e ao
prever formalmente a necessidade de consulta prévia desses
povos, a Convenção 169 da OIT rompe com o paradigma
integracionista/de assimilação cultural da normativa internacional
anterior (Convenção 107 da OIT de 1957), estabelecendo a defesa
da diversidade cultural como um imperativo ético inseparável do
respeito à dignidade humana.
Nessa perspectiva, o art. 5º, § 2º, da Constituição Federal
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estabelece:
DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer
natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros
residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à
igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
[...]
§ 2º Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não
excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela
adotados, ou dos tratados internacionais em que a República
Federativa do Brasil seja parte.
A consulta prévia às comunidades tradicionais, como verdadeira
garantia de continuidade desses grupos, promove, na verdade, a
preservação de sua cultura, valores e modos de vida. Sem ela, é
inviável assegurar a proteção efetiva das práticas sociais, culturais,
religiosas e espirituais das minorias tradicionais.
É um verdadeiro direito fundamental cultural na medida em que
assegura a participação ativa das comunidades tradicionais nas
decisões que impactam suas vidas, terras e recursos naturais,
conectando-se à própria identidade/cidadania dos "povos indígenas
e tribais":
A perda da identidade coletiva para os integrantes destes grupos
costuma gerar crises profundas, intenso sofrimento e uma
sensação de desamparo e de desorientação, que dificilmente
encontram paralelo entre os integrantes da cultura capitalista de
massas. Mutatis mutandis, romper os laços de um índio ou de um
quilombola com o seu grupo étnico é muito mais do que impor o
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exílio do seu país para um típico ocidental4.
Não bastasse, não é apenas o direito dos membros de cada
comunidade tradicional que é violado quando não são efetivadas as
medidas necessárias à sua preservação. Todos os brasileiros, das
presentes e futuras gerações, também perdem, ficando privados do
acesso a um "modo de criar, fazer e viver", que compunha o
patrimônio cultural do país:
CONSTITUIÇÃO FEDERAL
Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos
culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e
incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.
§ 1º O Estado protegerá as manifestações das culturas populares,
indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes
do processo civilizatório nacional.
[...]
Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de
natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em
conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à
memória dos diferentes grupos formadores da sociedade
brasileira, nos quais se incluem:
I - as formas de expressão;
II - os modos de criar, fazer e viver;
[...]
§ 1º O Poder Público, com a colaboração da comunidade,
promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro, por meio
de inventários, registros, vigilância, tombamento e
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desapropriação, e de outras formas de acautelamento e
preservação.
Registro ainda que o art. 5º, § 1º, da Constituição, determina que
"as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm
aplicação imediata", podendo ser prontamente invocadas pelos
jurisdicionados.
Nesse sentido, dado que o direito à consulta livre, prévia e
informada das comunidades tradicionais é, na verdade, uma
verdadeira garantia da dignidade da pessoa humana em um Estado
pluriétnico e, considerando o reconhecimento de seu caráter
vinculante pela Comissão e pela Corte Interamericanas de Direitos
Humanos, concluo que o Município de Aracaju/SE, no âmbito do
processo de revisão do Plano Diretor, deve adotar todas as medidas
necessárias para identificar as comunidades tradicionais existentes
em seu território e realizar as respectivas consultas conforme seus
protocolos específicos ou mediante procedimentos apropriados às
suas tradições.
A não observância dessas medidas, nos termos da Convenção 169
da OIT, constitui grave violação de direitos humanos.
Demais irregularidades no processo de revisão do Plano
Diretor de Aracaju e os prejuízos à efetiva participação
popular
No que diz respeito à elaboração do Plano Diretor e à sua
fiscalização, o art. 40 do Estatuto da Cidade preceitua:
Art. 40. O plano diretor, aprovado por lei municipal, é o
instrumento básico da política de desenvolvimento e expansão
urbana.
[...]
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§3° A lei que instituir o plano diretor deverá ser revista, pelo
menos, a cada dez anos.
§4° No processo de elaboração do plano diretor e na fiscalização
de sua implementação, os Poderes Legislativo e Executivo
municipais garantirão:
I - a promoção de audiências públicas e debates com a
participação da população e de associações representativas dos
vários segmentos da comunidade;
II - a publicidade quanto aos documentos e informações
produzidos;
III - o acesso de qualquer interessado aos documentos e
informações produzidos.
Por outro lado, a Lei Orgânica do Município de Aracaju fixa:
Art. 54. Os atos administrativos de competência do Prefeito devem
ser expedidos com observância das seguintes normas:
I - decreto, numerado em ordem cronológica, nos seguintes casos:
[...]
g) medidas executórias do Plano Diretor de Desenvolvimento
Integrado do Município;
[...]
Art. 105. A iniciativa das leis complementares e ordinárias cabe a
qualquer membro ou Comissão da Câmara de Vereadores, ao
Prefeito e ao povo, na forma e nos casos previstos nesta Lei
Orgânica.
§ 1º Consideram-se leis complementares, entre outras de
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caráter estrutural:
[...]
IV - Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Código de
Obras e Urbanismo.
§ 2º As leis complementares serão aprovadas por maioria absoluta
dos membros da Câmara de Vereadores, salvo maiores exigências
desta lei.
[...]
Art. 180 A política de desenvolvimento urbano deve ser orientada
pelas seguintes diretrizes:
I - gestão democrática e incentivo à participação popular na
formação e execução de planos, programas e projetos de
desenvolvimento urbano, como forma reconhecida do exercício
da cidadania;
[...]
Art. 219. O Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano deve ser de
iniciativa do Poder Executivo e submetido à aprovação da
Câmara dos Vereadores que o aprovará, pelo voto da maioria
absoluta de seus membros e deverá ser revisto, pelo menos a
cada dez anos, observado o mesmo quórum. (Redação dada pela
Emenda à Lei Orgânica nº 45/2010)
Quanto à participação popular, a Constituição Federal dispõe:
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união
indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal,
constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como
fundamentos:
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[...]
Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por
meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta
Constituição.
Com base no amplo acervo normativo acima transcrito, é evidente
que não há verdadeira democracia sem a participação popular
efetiva durante a elaboração/revisão de um Plano Diretor.
No caso dos autos, o MPF, lastreado em uma série de provas
coligidas no bojo do Inquérito Civil n° 1.35.000.001199/2021-55,
demonstrou claramente ter havido obstrução da participação
popular nos trabalhos de elaboração do anteprojeto de revisão do
PDDU de 2021:
"O mapeamento das áreas de proteção ambiental (APPs, APAS,
Áreas de Risco) está desatualizado. Os mapas, muitas vezes se
contradizem, estando uma área como Zona de preservação e em
outro mapa como zona de adensamento urbano. Além disso,
várias áreas estão faltando. Igualmente, não houve qualquer
mapeamento da fauna e da flora do município."
"Os documentos que estão disponibilizados para a consulta pública
tratam da Minuta da Lei da Revisão do PDDU e seus anexos:
tabelas, quadros e mapas. Documentos esses construídos,
segundo informações dos técnicos da prefeitura em Condurb, pela
reunião de materiais coletados dos processos de revisão do PDDU
dos anos anteriores, sendo os dados mais recentes datados
de 2018 e, que não foram tornados públicos para análises e
sugestões na fase já aberta da Consulta Pública."
"A Minuta do Plano e seus anexos somente, como estão
disponibilizados, não garantem a compreensão da problemática e
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pressupostos que subsidiaram o documento que está posto em
análise e o formato, em linguagem técnica, não permite adequada
participação para aqueles que não detém o conhecimento
específico que requer a leitura do material disponibilizado."
"Se os cidadãos não conhecem e não têm acesso à documentação
necessária para participarem da formulação do Plano Diretor, esses
jamais conseguirão atender às necessidades dos cidadãos. Essa foi
uma reclamação presente nas missivas de todas os órgãos e
entidades da sociedade civil, conforme se vê na documentação
anexa."
"Ainda pior, pela minha experiência, acredito que o sistema de
consulta popular funciona como uma espécie de "caixa preta". A
população envia suas contribuições e a prefeitura faz o que acham
melhor (ignorar?) com elas. Pelo menos, no tocante à minha
participação no processo de consulta pública para a criação da
Unidade de Conservação Extrativista das Mangabeiras em agosto
de 2020, nunca fui informada do resultado dessa consulta. Na
verdade, o que vi foi uma notícia referente à derrubada das
mangabeiras posteriormente à acima referida consulta (https://
www.f5news.com.br/cotidiano/pma-inicia-construcao-na-invasao-
das-mangabeiras-e-mpf-ajuiza-acao.html)."
"Os vários segmentos da sociedade não puderam participar dos
debates nas audiências públicas realizadas. As poucas audiências
públicas aconteceram durante a pandemia, com restrição do
número de participantes e em apenas poucos bairros da capital, o
que inviabilizou uma enormidade de grupos sociais que possuem
especificidades próprias como moradia em áreas de preservação
permanente, em áreas consideradas de risco, em trechos
litorâneos etc. Mais um evidente decréscimo de participação social
que viola a obrigação legal de debate com os vários segmentos da
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sociedade."
"A participação popular foi, evidentemente, de baixa densidade. Os
requeridos previram e realizaram tão somente 08 (oito) audiências
públicas, ao contrário da última tentativa de revisão, em que a
gestão municipal de 2011/2012 convocou cerca de 35 (trinta) e
cinco audiências públicas. Portanto, cada Audiência englobou cerca
de 06 (seis) bairros de Aracaju, haja vista que a capital hoje
comporta 48 (quarenta e oito bairros). Assim, cada uma das 08
(oito) audiências representava uma fração ideal de cerca
112.102,00 (cento e doze mil e cento e dois) cidadãos
aracajuano."
"Além de vários segmentos não terem tido a oportunidade de
participar de audiências públicas, ainda se defrontaram com a
limitação de apenas 500 caracteres para apresentação de suas
opiniões sobre o inteiro teor e os múltiplos pontos presentes no
Projeto de Plano Diretor."
"A conduta do Município de Aracaju e da EMURB também viola o
princípio constitucional da publicidade dos atos da administração."
Importa pontuar que os documentos que instruíram a inicial
representam a insatisfação de diversas autarquias e segmentos da
sociedade civil (mais de 40 entidades), que não tiveram suas
reclamações ouvidas ou puderam efetivamente debater e participar
do processo de revisão do Plano Diretor de Aracaju, retomado
durante um contexto pandêmico.
Nesses termos, verifico que o Município réu também violou o direito
dos cidadãos aracajuanos de participarem efetivamente das
decisões relativas à revisão do Plano Diretor, impedindo suas
manifestações sobre questões relevantes relativas ao direito a um
meio ambiente sadio e ecologicamente equilibrado.
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Da exclusividade de atuação de arquitetos e urbanistas na
coordenação da elaboração da revisão do PDDU
Os autores desta ação também apontaram que, na revisão do
PDDU de Aracaju/SE, não foram seguidas as regras e competências
relacionadas à responsabilidade técnica do planejamento urbano.
Alegaram que a coordenação da revisão do Plano Diretor de Aracaju
não foi feita por profissional legalmente qualificado e defenderam
que "toda e qualquer atividade técnica de planejamento urbano e
regional deve ter como responsável técnico um arquiteto e
urbanista."
Sem razão, contudo, os autores.
Nos termos da lei n° 5.194/66, a função de Coordenador da equipe
técnica para revisão do Plano Diretor pode também ser atribuída a
profissionais com formação em Engenharia Civil:
Art. 1º As profissões de engenheiro, arquiteto e engenheiro-
agrônomo são caracterizadas pelas realizações de interesse social
e humano que importem na realização dos seguintes
empreendimentos:
[...]
c) edificações, serviços e equipamentos urbanos, rurais e
regionais, nos seus aspectos técnicos e artísticos;
[...]
Art. 7º As atividades e atribuições profissionais do engenheiro, do
arquiteto e do engenheiro-agrônomo consistem em:
[...]
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b) planejamento ou projeto, em geral, de regiões, zonas, cidades,
obras, estruturas, transportes, explorações de recursos naturais e
desenvolvimento da produção industrial e agropecuária.
Nesse sentido, a escolha de um profissional específico pelo Poder
Público para coordenar a equipe técnica na revisão do Plano Diretor
não implica, por si só, ilegalidade, desde que assegurada a
participação dos demais profissionais com qualificação equivalente
na referida equipe multidisciplinar:
DIREITO ADMINISTRATIVO. CREA/PR. CAU/PR. MANDADO DE
SEGURANÇA. VIOLAÇÃO DO PRINCÍPIO DO LIVRE EXERCÍCIO DAS
PROFISSÕES. NÃO COMPROVADO. EQUIPE MULTIDISCIPLINAR.
1. É possível verificar que o referido edital nº 02/2018 não excluiu
o engenheiro civil da composição da equipe multidisciplinar.
2. O fato do poder público eleger um profissional específico para a
coordenação da equipe não importa em violação ao livre exercício
da profissão.
3. Não restou demonstrada a alegada ilegalidade, em mandado de
segurança, onde o direito líquido e certo, representado por uma
ilegalidade praticada pela autoridade apontada coatora, deve ser
cristalino.
4. Sentença mantida. (TRF4 5008400-85.2018.4.04.7000, QUARTA
TURMA, Relatora MARIA ISABEL PEZZI KLEIN, juntado aos autos
em 05/09/2019)
ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. MANDADO DE
SEGURANÇA. EDITAL DE LICITAÇÃO. MODALIDADE TOMADA DE
PREÇOS. ARQUITETOS E ENGENHEIROS. EQUIPARAÇÃO LEGAL.
É defeso à Administração Pública proceder à discriminação entre o
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arquiteto e o engenheiro na hipótese em que a lei os equipara,
ressalvada justificativa plausível, lastreada em fundamentos que
autorizem a distinção.
In casu, o edital para a Tomada de Preços nº 08/2017 não excluiu
o engenheiro civil da composição da equipe multidisciplinar. Não
há qualquer ilegalidade no fato de poder público eleger um
profissional específico para a coordenação da equipe, visto que o
edital para a Tomada de Preços nº 08/2017 exigiu que a empresa
licitante - candidata a elaborar a revisão de todas as leis e anexos
que compõem o plano diretor do Município de Renascença -
possua uma equipe multidisciplinar com os seguintes profissionais
(item 5.1.2 do edital): arquiteto e urbanista, engenheiro civil,
engenheiro ambiental, geólogo, economista, administrador,
advogado, cientista social ou assistente social e geógrafo. (TRF4,
AC 5051185-96.2017.4.04.7000, QUARTA TURMA, Relatora
VIVIAN JOSETE PANTALEÃO CAMINHA, juntado aos autos em
06/12/2018)
Da litigância de má-fé do Município de Aracaju
O GRUPO CRILIBER - CRIANÇA E LIBERDADE, na peça de id.
4058500.7351570, requereu a condenação do Município réu em
litigância de má-fé, alegando que o argumento da revogação da
Convenção 169 da OIT pelo decreto 10.088/2019 é falso.
A litigância de má-fé caracteriza-se pelo agir em desconformidade
com o dever jurídico de lealdade processual, ainda que não se
tenha obtido qualquer resultado ou causado algum prejuízo ou
dano processual. Sua configuração, entretanto, não decorre
automaticamente da prática do ato processual pela parte,
pressupondo a verificação do elemento subjetivo, consistente no
dolo ou culpa grave da parte.
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A boa-fé na atuação processual das partes presume-se. A má-fé,
ao contrário, demanda prova:
[...] Para aplicação da pena por litigância de má-fé é
imprescindível a constatação do dolo ou culpa grave, necessários
para afastar a presunção de boa-fé que norteia o comportamento
das partes.[...] (TRF4, Terceira Turma, AC
50004951820174047015, rel. Rogerio Favreto, j. 27 set. 2019);
[...] 2. A caracterização da litigância de má-fé não decorre
automaticamente da prática de determinado ato processual, mas
depende da análise de elemento subjetivo. A presunção é no
sentido de que as pessoas, de regra, procedem de modo probo,
altivo e com boa-fé, valores positivos que pautam a conduta social
em geral e são deveres dos que participam do processo judicial
(art. 5º do CPC). (TRF4, Primeira Turma, AC
50120766520184049999, rel. Alexandre Gonçalves Lippel, j. 19
set. 2019).
Não verifico a existência de dolo processual por parte do réu.
3. DISPOSITIVO
Ante o exposto, julgo parcialmente procedentes os pedidos autorais
para determinar ao Município de Aracaju/SE que o projeto de
revisão do PDDU somente deve ser encaminhado à Câmara de
Vereadores depois de:
1. ser feito um levantamento prévio das comunidades tradicionais
existentes em seu território, bem como realizadas consultas livres,
prévias e informadas às Comunidades Quilombola Maloca e
Catadora de Mangaba, e a todas as demais identificadas no
levantamento realizado, conforme a Convenção 169 da OIT. Essas
consultas deverão seguir os protocolos específicos de cada grupo e,
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na ausência, adotar procedimentos apropriados às suas tradições. É
fundamental que essas comunidades tenham consciência
inequívoca dos impactos que o anteprojeto de revisão do Plano
Diretor terá sobre suas vidas e participem ativamente desses
debates, nos termos da jurisprudência da Corte Interamericana de
Direitos Humanos.
2. ser assegurada aos cidadãos aracajuanos a ampla e efetiva
participação popular, com enfoque na transparência e publicidade
adequada dos atos relativos à revisão do PDDU. Deve ser elaborado
um diagnóstico atualizado da cidade Aracaju, atrelando a
participação popular em todas as fases, desde a discussão do plano
de trabalho até a sua confecção e proposição em audiências
públicas. Todos os dados técnicos (tabelas, quadros e mapas),
documentos e informações devem ser atualizados e disponibilizados
em linguagem acessível, de modo que os aracajuanos tenham a
real consciência de como a cidade está no momento e como poderá
ficar com as propostas de revisão.
3. serem garantidas audiências públicas proporcionais à atual
quantidade de bairros em Aracaju, com ampla divulgação e tendo
como norte a maior participação popular possível. Deve ser
assegurada também a participação virtual sem diminuto limite de
caracteres.
Fixo multa de 1.000.000,00 (um milhão de reais) em caso de
descumprimento de qualquer dos itens acima, salientando que o
Prefeito municipal poderá incorrer em improbidade administrativa,
nos termos do art. 52, VI, do Estatuto da Cidade, sem prejuízo de
outras cominações legais.
Sem custas e honorários advocatícios, na forma do art. 18, da Lei
nº 7.347/85.
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Sentença não sujeita ao duplo grau.
Interposto recurso de Apelação, determino de logo a intimação da
parte contrária para, querendo, apresentar contrarrazões no prazo
legal, com posterior remessa ao TRF-5.
Após o trânsito em julgado, dar baixa.
Intimar.
Encaminhar desta sentença ao Presidente da Câmara Municipal de
Aracaju, mediante ofício.
Comunicar esta sentença ao Relator do Agravo de Instrumento n°
0811366-21.2023.4.05.0000.
Telma Maria Santos Machado
Juíza Federal
1Caderno de Jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos N° 11: Povos Indígenas e Tribais/Corte
Interamericana de Direitos Humanos. -- San José, C.R.: Corte IDH, 2022. Tradução de María Helena Rangel.
Disponível em: https://www.corteidh.or.cr/sitios/libros/todos/docs/cuadernillo11_2022_port.pdf. Acesso em: 20 maio
2024.
2BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Sentenças traduzidas da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Povo
Saramaka (Tribal) Vs. Suriname. Disponível em: https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/2016/04/
cc1a1e511769096f84fb5effe768fe8c.pdf. Acesso em: 20 maio 2024.
3BRASIL. Ministério Público Federal. Convenção 169/OIT: vigor ou denúncia? Impactos da eventual saída do Brasil
do tratado internacional. Disponível em: https://youtu.be/PvyU-V3bGfk. Acesso em: 20 maio 2024.
4SARMENTO, Daniel. A garantia do direito à posse dos remanescentes de quilombos antes da desapropriação.
In:___. Pareceres Jurídicos: Direito dos Povos e Comunidades Tradicionais. Deborah Duprat, org. Manaus: UEA,
2007.
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Processo Judicial Eletrônico: https://pje.jfse.jus.br/pje/Painel/painel_usuario/documentoHTML.sea...
Processo: 0801588-72.2022.4.05.8500
Assinado eletronicamente por: 24052020172645000000008115925
Telma Maria Santos Machado - Magistrado
Data e hora da assinatura: 27/05/2024 07:57:54
Identificador: 4058500.8094095
Para conferência da autenticidade do
documento:
https://pje.jfse.jus.br/pje/Processo/
ConsultaDocumento/listView.seam
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