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UNIVERSIDADE ESTADUAL DO SUDOESTE DA BAHIA - UESB
CURSO: Filosofia – Turma: 2021.2
DISCIPLINA: Problemas metafísicos I
PROFESSOR: Gilson Ruy Monteiro Teixeira
DISCENTE: Marta Maria Amorim Silva Barbosa
O ovo e a galinha
Desde o início, o texto O ovo e a galinha causa tanto estranhamento quanto
surpresa e fascínio, reações próprias diante de fenômenos que mobilizam o
insondável da existência. O texto aborda a experiência de olhar para além de ver o
objeto, instigando uma posição reflexiva acerca do mistério da existência, do mundo,
das coisas. Assim, é possível fazer uma interlocução com a metafísica.
A filosofia suspende o aspecto prático ou objetivo do mundo, buscando, entre
outras coisas, o sentido metafísico do existir (arché). Para tanto, questiona o mundo
e os objetos do mundo. É a partir da experiência de estar no mundo que se faz a
filosofia – o estranhar, o inquirir, o investigar. É o que faz exatamente Clarice
Lispector diante de seu cotidiano – comum, utilitário, pragmático: “De manhã na
cozinha sobre a mesa vejo o ovo. Olho o ovo com um só olhar. Imediatamente
percebo que não se pode estar vendo um ovo” (LISPECTOR, 1977).
O ovo, assim como qualquer ente do mundo, menos revela ou responde
sobre si, embora somente o próprio ente possa se dar a conhecer, quanto mais se
conhece minuciosamente. Clarice parece estar diante de questões ontológicas e
ousiológicas: o que é aquele ente a que se chama ovo? O que é um ovo? Qual a
sua substância? É possível apreender com os sentidos a substância? O que são os
entes do mundo e como entrar em relação com eles próprios, não com a sua
imagem física, se é que existe a substância? Clarice está diante de um múltiplo? De
um singular? De um universal? Se a autora não pode ver o ovo é porque ele não
existe ou não é empiricamente acessível? Onde está o ovo real?
Ver um ovo nunca se mantém no presente: mal vejo um ovo e já se torna ter
visto um ovo há três milênios. — No próprio instante de se ver o ovo ele é a
lembrança de um ovo. — Só vê o ovo quem já o tiver visto. — Ao ver o ovo
é tarde demais: ovo visto, ovo perdido. — Ver o ovo é a promessa de um dia
chegar a ver o ovo. — Olhar curto e indivisível; se é que há pensamento;
não há; há o ovo. — Olhar é o necessário instrumento que, depois de
usado, jogarei fora. Ficarei com o ovo. — O ovo não tem um si-mesmo.
Individualmente ele não existe. Ver o ovo é impossível: o ovo é supervisível
como há sons supersônicos. Ninguém é capaz de ver o ovo. O cão vê o
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ovo? Só as máquinas vêem o ovo. O guindaste vê o ovo (LISPECTOR,
1977, s/p.).
Podemos especular acerca da teoria aristotélica das causas, segundo a qual
todos os seres corpóreos da natureza (todos os objetos, todas as coisas, todos os
entes, todos os seres vivos ou inanimados) são compostos de matéria e forma
(hilemorfismo). Clarice parece intrigada com tais questões – causa formal (o que dá
forma ao objeto), causa material (de que o objeto é feito), causa eficiente (o que fez
o objeto) e causa final (para que serve o objeto):
O ovo terá sido talvez um triângulo que tanto rolou no espaço que foi se
ovalando. — O ovo é basicamente um jarro? Terá sido o primeiro jarro
moldado pelos etruscos? Não. O ovo é originário da Macedônia. Lá foi
calculado, fruto da mais penosa espontaneidade. Nas areias da Macedônia
um homem com uma vara na mão desenhou-o. E depois apagou-o com o
pé nu (LISPECTOR, 1977, s/p.).
A causa material e a causa formal explicam a constituição das coisas. O ovo é
um ovo por causa da forma do ovo (causa formal/ideia) e por causa da sua
materialidade (a matéria específica que compõe o ovo). A causa eficiente e a causa
final explicam a transformação, o movimento, a mudança e a finalidade, objetivo,
função, sentido ou direção, respectivamente, que são inerentes aos seres (BRASIL
PARALELO, 2022):
O ovo não existe mais. Como a luz da estrela já morta, o ovo propriamente
dito não existe mais. — Você é perfeito, ovo. Você é branco. [...] O ovo é a
alma da galinha. A galinha desajeitada. O ovo certo. A galinha assustada. O
ovo certo. Como um projétil parado. Pois ovo é ovo no espaço. [...] E a
galinha? O ovo é o grande sacrifício da galinha. O ovo é a cruz que a galinha
carrega na vida. O ovo é o sonho inatingível da galinha. A galinha ama o
ovo. Ela não sabe que existe o ovo. Se soubesse que tem em si mesma um
ovo, ela se salvaria? Se soubesse que tem em si mesma o ovo, perderia o
estado de galinha. Ser uma galinha é a sobrevivência da galinha. Sobreviver
é a salvação. Pois parece que viver não existe. Viver leva à morte. Então o
que a galinha faz é estar permanentemente sobrevivendo. Sobreviver
chama-se manter luta contra a vida que é mortal. Ser uma galinha é isso. A
galinha tem o ar constrangido. [...] De repente olho o ovo na cozinha e só
vejo nele a comida. Não o reconheço, e meu coração bate. A metamorfose
está se fazendo em mim: começo a não poder mais enxergar o ovo. Fora de
cada ovo particular, fora de cada ovo que se come, o ovo não existe. Já não
consigo mais crer num ovo. Estou cada vez mais sem força de acreditar,
estou morrendo, adeus, olhei demais um ovo e ele foi me adormecendo
(LISPECTOR, 1977, s/p.).
Para Aristóteles, os entes na natureza estão se movendo em direção a algum
fim, mesmo que não o saibam (BRASIL PARALELO, 2022). Clarice observa isso
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tanto no ovo, quanto na galinha e em si mesma. Observa a transformação mútua
que ovo, galinha e ela sofrem seja do ponto de vista físico seja intrínseco. O ovo,
algumas vezes, é tomado como potência, outras vezes como ato, numa relação de
reciprocidade com a galinha. A finalidade da galinha, em certos momentos, é o ovo.
A finalidade do ovo particular é a comida.
E eis que não entendo o ovo. Só entendo ovo quebrado: quebro-o na
frigideira. É deste modo indireto que me ofereço à existência do ovo: meu
sacrifício é reduzir-me à minha vida pessoal. Fiz do meu prazer e da minha
dor o meu destino disfarçado. E ter apenas a própria vida é, para quem já
viu o ovo, um sacrifício. Como aqueles que, no convento, varrem o chão e
lavam a roupa, servindo sem a glória de função maior, meu trabalho é o de
viver os meus prazeres e as minhas dores. É necessário que eu tenha a
modéstia de viver (LISPECTOR, 1977, s/p.).
Aristóteles assevera que a matéria é potência pura, não determinada. Quando
há determinação ou forma, deixa de ser matéria pura, deixa de ser potência e passa
a ser ato. Para que assim seja, “essa determinação deve ser externa à matéria que
receberá a forma”. Algo já existente e externo, portanto, que já tem forma, faz com
que a matéria indeterminada assuma uma forma, passando a ser algo em ato. Isso
porque a matéria pura não possui operações próprias (BRASIL PARALELO, 2022).
Segundo Aristóteles, algumas vezes, esse agente externo pode causar
acidentalmente uma transformação alheia à causa final – acaso ou sorte (causa
eficiente). Todavia, “não há puro acaso. Para ser entendido como acaso, o efeito é
referenciado à finalidade primária. Considerado isoladamente, terá suas quatro
causas, se considerado paralelamente” (BRASIL PARALELO, 2022):
Pego mais um ovo na cozinha, quebro-lhe casca e forma. E a partir deste
instante exato nunca existiu um ovo. É absolutamente indispensável que eu
seja uma ocupada e uma distraída. Sou indispensavelmente um dos que
renegam. Faço parte da maçonaria dos que viram uma vez o ovo e o
renegam como forma de protegê-lo. Somos os que se abstêm de destruir, e
nisso se consomem. Nós, agentes disfarçados e distribuídos pelas funções
menos reveladoras, nós às vezes nos reconhecemos. [...] A todos os
agentes são dadas muitas vantagens para que o ovo se faça. Não é caso de
se ter inveja pois, inclusive algumas das condições, piores do que as dos
outros, são apenas as condições ideais para o ovo. Quanto ao prazer dos
agentes, eles também o recebem sem orgulho. [...] Há casos de agentes
que se suicidam: acham insuficientes as pouquíssimas instruções
recebidas, e se sentem sem apoio. Houve o caso do agente que revelou
publicamente ser agente porque lhe foi intolerável não ser compreendido [...]
Esses casos extremos de morte não são por crueldade. É que há um
trabalho, digamos cósmico, a ser feito [...] (LISPECTOR, 1977, s/p.).
Todos os corpos são formados pela matéria primeira que não possui qualquer
forma e é chamada de pura indeterminação. “A matéria pura, sem forma, ainda não
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é algo. Não é sujeito, nem objeto, nem coisa, nem ser, em suma, não é”. Só será se
e quando receber a forma e for identificada – “tudo o que identificamos já possui
forma, ou não identificaríamos. Para existir, é necessário que a matéria receba uma
forma. Quando isto acontece, podemos conhecê-la pelos sentidos” (BRASIL
PARALELO, 2022).
O ovo não tem um si-mesmo. Individualmente ele não existe. [...] Só quem
visse o mundo veria o ovo. Como o mundo, o ovo é óbvio. [...] O ovo é uma
coisa suspensa. Nunca pousou. Quando pousa, não foi ele quem pousou.
Foi uma coisa que ficou embaixo do ovo. — Olho o ovo na cozinha com
atenção superficial para não quebrá-lo. Tomo o maior cuidado de não
entendê-lo. Sendo impossível entendê-lo, sei que se eu o entender é porque
estou errando. Entender é a prova do erro. Entendê-lo não é o modo de vê-
lo. — Jamais pensar no ovo é um modo de tê-lo visto. — Será que sei do
ovo? É quase certo que sei. Assim: existo, logo sei. O que eu não sei do ovo
é o que realmente importa. O que eu não sei do ovo me dá o ovo
propriamente dito. — A Lua é habitada por ovos. [...] O ovo é uma
exteriorização. Ter uma casca é dar-se. [...] Quanto ao corpo da galinha, o
corpo da galinha é a maior prova de que o ovo não existe. Basta olhar para
a galinha para se tornar óbvio que o ovo é impossível de existir
(LISPECTOR, 1977, s/p.).
Os sentidos só percebem as formas acidentais, não são capazes de perceber
a matéria primeira dos corpos existentes nem a forma substancial dos corpos
(BRASIL PARALELO, 2022):
Ver o ovo é impossível: o ovo é supervisível como há sons supersônicos.
Ninguém é capaz de ver o ovo. O cão vê o ovo? [...] — Não toco nele. A
aura de meus dedos é que vê o ovo. Não toco nele. — Mas dedicar-me à
visão do ovo seria morrer para a vida mundana [...] — O ovo é invisível a
olho nu (LISPECTOR, 1977, s/p.).
O texto defronta-se com a questão da etiologia:
É necessário que a galinha não saiba que tem um ovo. Senão ela se
salvaria como galinha, o que também não é garantido, mas perderia o ovo.
Então ela não sabe. Para que o ovo use a galinha é que a galinha existe.
Ela era só para se cumprir, mas gostou. O desarvoramento da galinha vem
disso: gostar não fazia parte de nascer. Gostar de estar vivo dói. — Quanto
a quem veio antes, foi o ovo que achou a galinha. A galinha não foi sequer
chamada. A galinha é diretamente uma escolhida. — A galinha vive como
em sonho. Não tem senso da realidade. Todo o susto da galinha é porque
estão sempre interrompendo o seu devaneio. A galinha é um grande sono.
— A galinha sofre de um mal desconhecido. O mal desconhecido da galinha
é o ovo. — Ela não sabe se explicar: “sei que o erro está em mim mesma”,
ela chama de erro a sua vida, “não sei mais o que sinto”, etc (LISPECTOR,
1977, s/p.).
A questão teológica também está posta no texto de Clarice. O que garante a
existência do ovo é o esquecimento. É ninguém saber ou lembrar que ele existe. É o
mistério, o enigma, o segredo que, afinal, leva a Deus.
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Eu te amo, ovo. Eu te amo como uma coisa nem sequer sabe que ama
outra coisa. — Não toco nele. A aura de meus dedos é que vê o ovo. Não
toco nele. — Mas dedicar-me à visão do ovo seria morrer para a vida
mundana, e eu preciso da gema e da clara. — O ovo me vê. O ovo me
idealiza? O ovo me medita? Não, o ovo apenas me vê. É isento da
compreensão que fere. — O ovo nunca lutou. Ele é um dom. — O ovo é
invisível a olho nu. De ovo a ovo chega-se a Deus, que é invisível a olho nu.
[...] Por devoção ao ovo, eu o esqueci. Meu necessário esquecimento. Meu
interesseiro esquecimento. Pois o ovo é um esquivo. Diante de minha
adoração possessiva ele poderia retrair-se e nunca mais voltar. Mas se ele
for esquecido. Se eu fizer o sacrifício de viver apenas a minha vida e de
esquecê-lo. Se o ovo for impossível. Então livre, delicado, sem mensagem
alguma para mim — talvez uma vez ainda ele se locomova do espaço até
esta janela que desde sempre deixei aberta. E de madrugada baixe no
nosso edifício. Sereno até a cozinha. Iluminando-a de minha palidez
(LISPECTOR, 1977, s/p.).
Com base no hilemorfismo, a inteligência humana é incapaz de apreender a
forma substancial e a matéria indeterminada por estar vinculada ao corpo e os
sentidos só percebem os acidentes. Todavia, pela dedução, pode inferir conteúdos
inacessíveis pela experiência sensível (BRASIL PARALELO, 2022).
É possível perguntar se toda essa reflexão que a autora faz é fruto de uma
decisão consciente ou de uma epifania como alguns especialistas acreditam. Isso é
importante porque podemos entender a reflexão filosófica como algo voluntário,
consciente, racional ou como um fenômeno que escapa a razão.
Referências
LISPECTOR, Clarice. O Ovo e a Galinha. In A Legião Estrangeira. São Paulo:
Ática, 1977.
BRASIL PARALELO. Teoria das quatro causas segundo Aristóteles. Como
entender porque cada coisa existe. 20/07/2022. Disponível em
https://www.brasilparalelo.com.br/artigos/teoria-das-quatro-causas. Acesso em 22 de
novembro de 2022.