APOSTILA - PARTE 1
MEDICINA FELINA:
7 vidas de cuidados
Veterinarius E.J.
Apostila - "Medicina Felina: 7 vidas de cuidados"
Autor: Veterinarius Empresa Júnior, vinculada à Universidade Federal de Viçosa
Junho de 2021
Colaboradores:
Alana Souza Câmara
Ana Maria Barros Marques
Daiene Gaione Costa
Inara Vitória Cunha de Cássio
Isabella Cristina Rocha Fernandes
Isabella Velasco Barbosa Garcia
Júlia Pandolfi Rocha
Lauren Cardinelli Gerheim de Vasconcellos
Mariana Lourdes Tibério Pereira
Mariana Santos Leite Quaresma
Maria Paula dos Santos Ribeiro
Pedro Vieira Monteiro
Vitória Régia Melo Silva
Revisão:
Alana Souza Câmara
Gabriela Castro Lopes Evangelista
Lorraine Rossi Signorelli Machado Dornelas
Luís Felipe de Moura Pedrosa
Mariana Silva Leite
Edição e arte: Lauren Cardinelli Gerheim de Vasconcellos
Orientação: Professor Doutor Artur Kanadani Campos
SUMÁRIO
Módulo 1 - Processo de domesticação e aspectos comportamentais
Introdução à domesticação do gato ....................................................................... pág. 3
Dicas gerais de como conquistar a confiança do gato ....................................... pág. 3
Aspectos importantes na convivência com os felinos......................................... pág. 5
Comparação entre gato doméstico e gato selvagem ......................................... pág. 10
Hábitos alimentares dos felinos: animais carnívoros .......................................... pág. 11
Comportamento natural da espécie ....................................................................... pág. 12
Necessidades de cada fase de vida ......................................................................... pág. 22
Comportamentos esperados dos gatos ................................................................ pág. 29
Módulo 2 - Abordagem do paciente felino
Manejo amigável do felino .......................................................................................... pág. 39
Abordagem do felino na rotina clínica ..................................................................... pág. 40
Orientações ao tutor sobre preparação dos pacientes ...................................... pág. 44
Módulo 3 - Vacinação
Introdução ...................................................................................................................... pág. 47
Importantes doenças prevenidas pela vacinação ................................................ pág. 48
As três classes de vacinas ........................................................................................... pág. 52
Classificações da vacina felina ................................................................................... pág. 53
Vacinas disponíveis ....................................................................................................... pág. 57
Importância e orientações ao médico veterinário ................................................ pág. 61
Local de aplicação ......................................................................................................... pág. 63
Sarcoma de aplicação .................................................................................................. pág. 67
Efeitos colaterais da vacina ......................................................................................... pág. 71
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SUMÁRIO
Módulo 4 - Manejo nutricional
Alimentação úmida vs. seca....................................................................................... pág. 74
Perigos da ração a granel .......................................................................................... pág. 76
Aspectos essenciais das rações para gatos .......................................................... pág. 77
Obesidade ..................................................................................................................... pág. 79
Ingestão de água ......................................................................................................... pág. 83
Gratificação, comedouros alternativos e enriquecimento alimentar ............. pág. 85
Enriquecimento ambiental e bem-estar animal .................................................. pág. 88
Módulo 5 - Análise laboratorial
Estresse de coleta ........................................................................................................ pág. 95
Tipo de material e técnica de coleta ........................................................................ pág. 96
Erros pré-analíticos ...................................................................................................... pág.106
Módulo 6 - Doenças
Doenças infecciosas .................................................................................................... pág. 109
Doenças dermatológicas ............................................................................................ pág. 124
Endocrinopatias ............................................................................................................ pág. 129
Doenças cardiovasculares ......................................................................................... pág. 139
Doenças gastrointestinais .......................................................................................... pág. 144
Doenças respiratórias ................................................................................................. pág. 148
Doenças do trato urinário .......................................................................................... pág. 151
Distúrbios musculoesqueléticos ............................................................................... pág. 160
Referências ................................................................................. pág. 164
Módulo 1 - Processo de Domesticação e
Aspectos Comportamentais
Introdução à domesticação do gato
Os gatos possuem uma fama errônea de serem imprevisíveis, pois já se
compreende que são verdadeiros apreciadores da rotina, apesar de
manifestarem ocasionalmente comportamentos um tanto peculiares.
Sabe-se também que esses animais possuem características próprias bem
marcantes e talvez sejam essas particularidades que tornam a convivência
com um gato uma experiência tão interessante, curiosa e encantadora.
Dessa forma, vamos apresentar algumas dicas de como conviver com
esses animais, aprendendo a respeitar a individualidade de cada um e
tornando a relação entre tutor e pet cada vez melhor.
Dicas gerais de como conquistar a confiança do gato
1. Respeite o espaço dele
Com uma convivência harmoniosa, tem-se o respeito às características
individuais de cada felino. Uns gostam mais de carinho, outros são mais
solitários. É preciso estar atento à personalidade e aos anseios de cada
felino e só se consegue isso através de tempo, respeito e muita calma
durante o convívio. Se você não entende quem é seu gatinho e do que ele
gosta, pode piorar essa relação, mesmo que tenha a intenção genuína de
agradar.
Não há problema em pegar o gato no colo, se ele gostar disso. A dica é:
atenção às reações após um contato. O gato demonstra satisfação e gosta
do que está sendo feito? Então pode ser feito. O gato demonstra medo,
ansiedade, agressividade? Então não deve ser feito nunca mais. O melhor
que você pode fazer é ficar no mesmo espaço que ele e deixar que ele se
aproxime, uma vez que isso dá sensação de controle para ele.
Para isso, é interessante sentar no mesmo cômodo, de preferência de
costas ou de lado para parecer menos agressivo. Deve-se evitar olhar
diretamente para os olhos deles (isso soa ameaçador para um gato) e é
fundamental manter a calma e realizar atividades habituais e tranquilas
3
durante a interação. É imprescindível que o gato se sinta à vontade para
iniciar o contato com o humano. Enquanto aguarda, uma boa alternativa é
ouvir uma música tranquila, ter no ambiente um análogo sintético de
feromônio felino, uma caminha confortável e brinquedos.
Pode ser necessário vários dias até que o gato comece a se habituar e a
criar confiança, demonstrando estar pronto para iniciar o contato. Não é
aconselhável acelerar ou perder a paciência, uma vez que essa fase é
crucial para os próximos passos. Uma dica é deixar algo com o seu cheiro
no mesmo cômodo que o gatinho, como uma blusa. Assim, ele pode se
acostumar com o cheiro aos poucos.
2. Torne o ambiente seguro
Para que um animal confie em você, ele precisa confiar no ambiente em
que se encontra para, assim, se sentir seguro. Um gato amedrontado tende
a se esconder e a evitar contatos, podendo ficar encurralado em móveis.
Para incentivá-lo a sair, você precisa oferecer alternativas que ele considere
seguras, como tocas, caixas de papelão, túneis e prateleiras.
Posicione os esconderijos em locais estratégicos, como perto de uma
janela, num cantinho que bata sol, perto de onde você vai ficar. Priorize
tocas que tenham duas saídas e evite colocar em cantos nos quais o gato
poderia se sentir encurralado, ou seja, é importante que ele saiba que tem
uma rota de fuga.
3. Use comida
Petiscos, sachês e até a própria ração, podem ser boas opções, desde que
usadas com moderação. Comer é um hábito agradável para o gato e pode
ser associado a você. Faça um caminho de petiscos pelo chão ou deixe um
pratinho de sachê atrás de você quando estiver no cômodo. Lembra aquela
blusa com o seu cheiro do item 1? É uma ótima ideia colocar uma comida
perto dela!
Quando o gato finalmente se aproximar, dê-lhe alguma recompensa, por
exemplo carinhos físicos e verbais, petiscos e brinquedos. Assim, ele irá
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perceber que chegar perto de você é algo positivo.
4. Brinque
Quando se trata de gatos, pode-se dizer que brincar é uma ótima opção.
Um gato realmente traumatizado dificilmente terá coragem de sair para
perseguir um brinquedo, mas, assim que ele começar a ganhar confiança,
mantenha-o ativo.
Tenha bons brinquedos, principalmente os de vara, penas e fitilhos, que
são de grande atração para os felinos e tente incentivá-lo a sair do
esconderijo para perseguir a presa. Certifique-se de que ele consiga pegar
o brinquedo algumas vezes e deixe-o curtir por um tempo antes de guardá-
lo.
Aspectos importantes na convivência com os felinos
QUAIS OS TIPOS DE RAÇÕES EXISTENTES?
Temos dois tipos básicos de refeição para eles, as secas e as úmidas, e
devemos utilizá-las de forma que isso traga interesse pelo felino em comer
essa ração. Porém, deve-se atentar ao fato de que não são todos os gatos
que gostam de variedade na comida. Geralmente os que gostam foram
apresentados a diversas texturas e sabores durante a fase de
neuroplasticidade, que vai da segunda à oitava semana de vida do gato.
A ração seca:
Sua principal vantagem é por ser um alimento completo e balanceado.
Existem diversas apresentações no mercado, de diversos sabores e preços,
para cada necessidade que o felino possa ter. Outra vantagem é a
durabilidade, durando muito mais tempo do que as rações úmidas, que
uma vez abertas e não consumidas por um curto período de tempo, devem
ser descartadas.
A ração úmida:
A vantagem é que ela possui muita água em sua composição, além de ser
mais palatável; sendo assim, “mais saborosa”. No entanto, como
desvantagem, apresenta maior predisposição ao desenvolvimento de
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acúmulo de placas bacterianas nos dentes, o que pode resultar em tártaro.
Por fim, ao pensar nos alimentos dos gatos, o que você deve ter em
mente é a idade do felino, seu estilo de vida e se há alguma patologia.
Consulte o seu médico veterinário de confiança sobre isso e selecione a
opção ideal para você e seu bichano.
AS UNHAS DO GATO DEVEM SER CORTADAS?
Os felinos que vivem na natureza e até mesmo os que têm contato com
as ruas conseguem desgastar e/ou afiar suas unhas naturalmente. Por esse
motivo, gatos que vivem indoor devem ter arranhadores de diferentes
tamanhos e em diferentes sentidos (horizontal e vertical). No geral, não há
necessidade de cortar as unhas se o felino consegue realizar esse hábito. Já
os que vivem somente dentro de casa e não conseguem desgastá-las o
suficiente, é indicado o corte, principalmente nos gatos mais idosos que
têm dificuldade em realizar seus cuidados próprios devido às doenças
articulares.
Quando estiver pronto(a) para cortar as unhas dele, separe as
ferramentas necessárias: cortador de unhas para gatos e uma toalha
grossa. Comece brincando com as patas de seu gato para que ele se
acostume a ter pessoas tocando em seus dedos. Aperte com gentileza a
parte acolchoada para expor as unhas, trate-o bem, falando de forma
suave enquanto trabalha, sente-se no chão ou em uma cadeira e segure
seu gato com o dorso dele apoiado em seu colo, para que consiga segurar
uma pata com uma das mãos e o cortador com a outra. Se seu gato lutar
demasiadamente nessa posição ou tentar lhe arranhar, envolva-o na toalha
grossa, expondo a cabeça e a pata, segurando firme. Posicione seu polegar
no topo da pata e seus outros
dedos debaixo dela e pressione
um pouco para expor as garras.
Corte a ponta de cada garra,
incluindo a do dedo do lado.
Não corte a parte branca, e
tenha cuidado para evitar a veia
que há em cada garra.
Imagem 1: unha de gato com descrição dos
elementos; área sensível, unha e linha de corte.
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DAR BANHO NO GATO É NECESSÁRIO?
Gatos são extremamente conscientes da higiene pessoal, gostam de exibir
uma pelagem limpa e bem cuidada, por isso se limpam por meio de
lambidas durante todo o dia. Mas sabe-se que algumas experiências que os
gatos resolvam experimentar podem ser um tanto caóticas, como o contato
com uma substância oleosa ou grudenta, o que pode demandar uma
intervenção humana. Apesar disso, a maioria dos gatos não precisa ser
banhada. Uma boa escovação (diariamente, para felinos peludos, e menos
regularmente para gatos de pelagem curta) ajuda a manter saudáveis a pele
e o pelo.
Se o animal estiver com forte odor, tente usar xampu ou mousse a seco
ou lenços sem perfume e sem álcool, em vez de submetê-lo a um banho
completo. Se você perceber que o gato realmente precisa tomar um banho,
comece enchendo a pia ou a banheira com água na temperatura ambiente,
apenas o suficiente para molhar as patas. Use um copo para jogar água no
dorso (a torneira pode ser assustadora), faça uma massagem gentil, seque
com a toalha e deixe-o ir embora. Acostume-o a sessões curtas sem xampu,
então adicione, gradualmente, uma rápida massagem com a espuma do
xampu e lave tudo.
A IMPORTÂNCIA DE BRINCAR COM O GATO:
Assim como peixes têm o corpo adaptado para nadar e pássaros para
voar, os gatos têm o corpo adaptado para caçar. Boa parte do físico de um
gato tem relação com a caça: dentes e garras de predador, patas com
almofadas silenciosas, nariz 40 vezes mais potente que o humano, olhos
que enxergam no escuro, orelhas rotativas que captam o ultrassom emitido
pela presa, bigodes que detectam movimento apenas pela vibração do ar,
dentre outros. Porém, no ambiente domiciliar ocorre uma redução dessas
características naturais, que precisam ser constantemente estimuladas.
Uma boa alternativa é realizar brincadeiras interativas.
Um gato sem caçar ou brincar é como um peixe que não pode nadar ou
um passarinho impedido de voar. As consequências físicas e psicológicas
disso são inúmeras, desde depressão, apatia, medo, ansiedade, compulsões,
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até mesmo obesidade e problemas de comportamento, mesmo que
nenhum desses sintomas seja percebido pelo proprietário.
Por isso a brincadeira interativa
é fundamental, tanto quanto
água, ração e proteção. Enquanto
os últimos contribuem para a
saúde física, as brincadeiras
atuam na saúde mental, o que,
por consequência, sempre acaba
refletindo no corpo também.
Imagem 2: mulher brincando com uma vareta, interagindo
com um gato
Mas atenção: é muito importante que o gato consiga pegar a presa
algumas vezes. Ela pode até escapar de novo, mas ele precisa sentir que
realizou a tarefa. Por este motivo, brincar com um laser é interessante se
ao final você recompensá-lo com sachês de comida, por exemplo.
COMO DAR REMÉDIO PARA O GATO?
O ideal é dar comprimido ao gato com
auxílio de mais uma pessoa, para que
uma possa segurar o animal, enquanto a
outra administra o medicamento. Se isso
não for possível, outra opção é sentar-se
e segurá-lo entre as pernas.
Com a mão esquerda, segure
firmemente a mandíbula do gato,
passando sua mão por trás da cabeça,
segurando na região da nuca do felino.
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Erga a cabeça do gato em aproximadamente
45º e com os dedos ou um aplicador,
coloque o comprimido dentro da boca do
animal, o mais próximo da base da língua
possível. Após a administração, segure a
boca do gato fechada e espere que ele
realize a deglutição.
Para ter certeza de que o comprimido foi
ingerido, observe se o gato lambe o nariz
depois desse processo. Em grande parte
dos casos ele vai lamber o nariz depois
de engolir, pois faz parte do reflexo
natural de deglutição natural.
Depois da administração do comprimido,
o ideal é dar um reforço positivo para o
gato, como um petisco, para que ele
associe o comprimido a algo bom e não
tente fugir na próxima tentativa.
Imagens 3 a 7: desenhos de gatos demonstrando a melhor forma de administração de remédios para felinos
domésticos.
COMO IDENTIFICAR PATOLOGIAS NO GATO?
Os gatos frequentemente escondem sinais de dor, fraqueza e/ou
machucados e por isso é necessário ficar atento(a) para alguns pontos que
podem indicar problemas de saúde no felino e, para isso, o tutor deve estar
sintonizado a quaisquer indicações sutis. Aqui estão algumas pistas para
buscar e relatar ao veterinário.
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Mudanças no nível normal Excreção em locais não
de atividade. habituais.
Mudanças nos hábitos de Mudanças nos hábitos
sono. alimentares.
Mudanças nas interações Começar a ingerir lixo
sociais. repentinamente.
Mudanças nos hábitos de Perda de peso considerável.
limpeza. Mau hálito.
Esconder-se e recusar
atenção constantemente.
Comparação entre gato doméstico e selvagem
Inicialmente, deve-se entender
a diferença entre um animal
selvagem e um doméstico:
Selvagem é o animal que não
foi domesticado pelo homem e
vive em estado selvagem na
natureza, habitando seu
ecossistema de origem e
constituindo populações que
Imagem 8: comparação de medidas básicas entre um gato
estão sujeitas à seleção natural. doméstico e um gato selvagem africano.
Doméstico é o animal cuja espécie descende de um ancestral selvagem
(como os cães dos lobos) mas que passou por uma seleção artificial para
conviver conosco. Esses animais apresentam diferenças significativas em
seu comportamento, anatomia e genética em relação aos ancestrais
selvagens. Por isso, muitos tornam-se dependentes das pessoas e têm
dificuldade em sobreviver sozinhos.
Os gatos são considerados animais “semidomésticos”, já que optaram por
viver perto das pessoas mas não passaram por uma seleção artificial como
a dos cães. Isso quer dizer que eles, em sua maioria, gostam de conviver
conosco e adoram uma cama quentinha, mas também mantêm seus
instintos selvagens. O DNA deles, inclusive, é muito semelhante ao DNA de
seus ancestrais selvagens, o gato selvagem africano.
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Hábitos alimentares dos felinos
GOSTO NÃO É TUDO
Gatos têm a reputação de serem comedores meticulosos e há uma
explicação científica para isso. Eles têm apenas 473 papilas gustativas em
comparação as mais de 9 mil que os seres humanos têm. Assim, pelo fato
de as papilas gustativas dos felinos serem menores em número e
pobremente desenvolvidas, os gatos dependem mais do olfato que do
paladar. Eles não adotam o lema canino de “comer primeiro, perguntar
depois” quando se trata de comida.
O PODER DA PROTEÍNA
Você pode se perguntar se há problema em alimentar seu gato com
comida para cachorro. A resposta é: com certeza. Cães e gatos têm
diferentes necessidades alimentares. A ração canina não possui alguns
nutrientes que os gatos precisam, como a taurina. Esse aminoácido é
necessário para a saúde dos olhos dos gatos, pois digere gorduras e
mantém os músculos cardíacos saudáveis. Gatos são carnívoros e cães são
onívoros. Isso significa que gatos precisam de maior quantidade de
proteína animal que cães. Algumas mordidas no prato do cachorro não fará
mal, mas garanta que a principal refeição de seu gato seja ração para
felinos, não comida para cães.
DEIXAR A COMIDA À VONTADE OU PROGRAMAR HORÁRIOS
ESPECÍFICOS PARA ALIMENTAÇÃO?
Muitos gatos, não importa se vivem sozinhos ou com outros, parecem se
dar bem com a comida à vontade. Comem a quantidade de que precisam e
param, ficando mais confortáveis em mordiscar dez a vinte vezes ao dia.
Alguns gatos, no entanto, enxergam a comida à vontade como um bufê
ininterrupto e se enchem até extrapolar o limite. Por isso, é fundamental
observar o comportamento do felino e, a partir de seus hábitos, definir o
que é mais apropriado para o oferecimento da comida.
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LEITE
Embora muitas pessoas acreditem que gatos e leite combinam, assim
como os ratos e o queijo, médicos veterinários são contra o ato de fornecer
ao gato um grande pires de leite. Gatos adultos não produzem lactase
suficiente para digerirem de maneira adequada a lactose encontrada no
leite. Mesmo em pouca quantidade, o leite pode provocar alterações no
trato gastrointestinal, como diarreia e vômito.
Comportamento natural da espécie
Segundo uma pesquisa feita pela Faculdade de Medicina Veterinária da
Universidade de São Paulo (USP), quase 20% dos domicílios brasileiros
possuem pelo menos um gato de estimação e, destes, 45% consideram o
animal como um “filho”.
Essa relação entre humanos e felinos
começou a se desenvolver há milhares
de anos. Segundo registros
antropológicos, a domesticação dos
gatos se iniciou há mais de nove mil
anos, na revolução neolítica, quando o
homem deixou seus hábitos nômades e
caçadores para algo mais sedentário e
agrícola. Nessa fase, a espécie
precursora Felis lybica já despertava
interesse pelo seu comportamento
único, carismático, independente e
superior; perpetuando-se como um dos
Imagem: gato-selvagem-africano, Felis silvestris animais mais presentes em nosso
lybica.
cotidiano.
Contudo, o termo “domesticação” é algo muito discutível entre autores
até os dias de hoje. Segundo alguns, os felinos passaram por um processo
de “autodomesticação”, já que os humanos influenciaram pouco ou nada
nessas mudanças. Outros autores afirmam que o mais correto é dizer que
os felinos ainda estão em um longo processo de domesticação, visto que as
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suas características comportamentais e adaptativas estão ainda muito
relacionadas às características dos seus ascendentes.
O comportamento dos felinos também está relacionado a outros fatores
além da evolução, como eventos embrionários e fetais, questões
hereditárias, sociais, ambientais e sobre a habilidade materna.
ORIGEM E DOMESTICAÇÃO DOS FELINOS
Segundo a "Teoria da Evolução" de Charles Darwin, os gatos descendem
da família Felidae, mais especificamente do gênero Felis. A espécie Felis
lybica foi classificada como subespécie da atual Felis catus após análise
filogenética, devido a padrões genéticos semelhantes e ao maior potencial
de domesticação em comparação com outros felídeos africanos. Esse
possível precursor do gato doméstico moderno costumava viver em regiões
como o Oriente Médio e África.
Dessa forma, diferente
do que muitos pensam, a
relação entre felinos e
humanos começou a ser
concretizada na Ásia e
norte da África bem antes
do Império Egípcio existir.
Segundo estudos, a
escolha por uma local fixo
de moradia pelo homem
ainda na Era Neolítica
levou a um aumento
significativo de roedores, Imagem: as subespécies dos felinos e suas áreas de origem
criando um atrativo para a instalação dos felinos nesses locais.
Com o tempo, a proximidade entre as duas espécies foi aumentando e
ambas foram beneficiadas. Os gatos passaram a ter maior chance de
sobrevivência e melhor desempenho produtivo, e o homem tinha seu
estoque de alimento preservado dos ratos. Essa aproximação foi registrada
em inúmeros artefatos históricos egípcios, como amuletos e referências
que demonstram o animal em momentos de caça, em cerca de 2300 a.C.
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Lá, o animal era adorado
como um deus, considerado
como animal sagrado e até
mumificado por famílias
ricas. Essa herança seguiu
presente na cultura grega e
romana e, a partir daí, o
animal conquistou outras
sociedades.
Imagem: múmias de gatos encontradas no Egito.
Na Idade Média, entretanto, os gatos começaram a ser associados à
bruxaria, principalmente os de coloração preta que, segundo declaração do
papa Gregório IX, seriam relacionados ao “demônio”. Na Europa, o animal
também começou a ser associado à peste negra, devido à transmissão
ainda não conhecida pela pulga do rato.
Este período de baixa popularidade da espécie felina teve fim apenas na
metade do século XVIII, quando voltaram a conviver com os humanos pelo
fácil tratamento e pela beleza. A partir daí, consolidaram-se como animais
de companhia para os seres humanos, tal qual vemos em nossa sociedade
atual.
FATORES DO DESENVOLVIMENTO COMPORTAMENTAL DOS GATOS
O desenvolvimento comportamental dos gatos se dá por uma complexa
relação entre fatores hereditários e ambientais:
Fatores pré-natais:
Ainda no útero, a nutrição e o ambiente em que a mãe vive podem refletir
no comportamento futuro do filhote. Segundo estudos (Gallo, 1980), gatas
que possuem restrição nutricional durante a gestação e lactação irão gerar
gatos mais emotivos e inquietos, menos interativos com a mãe e com o
ambiente. Além disso, a agressividade da mãe nesses casos resulta em
maiores problemas nos filhotes quanto ao desenvolvimento do Sistema
Nervoso Central e quanto ao desenvolvimento neonatal, como a sucção ao
mamar, abertura de olhos, crescimento, locomoção e interação.
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A presença da mãe também é de suma importância, já que o animal
nasce dependente dela para se alimentar, limpar, regular sua temperatura
e outras atividades básicas. Outros estudos (Seitz, 1959) afirmam que
filhotes separados das mães antes de duas semanas de vida demoram
mais para se recuperar de estímulos intensos e apresentam dificuldades de
aprendizado.
Já os fatores genéticos
paternos influenciam no
temperamento do filhote.
Segundo estudos (McCune,
1995), machos mais sociáveis
geram filhos com menos
problemas comportamentais,
mais exploradores e
sociáveis. Imagem: a nutrição e o ambiente em que a mãe vive podem refletir
no comportamento do filhote.
Desenvolvimento após o nascimento:
Os gatos possuem períodos de desenvolvimento pós-nascimento mais
curtos que o dos cães. Esses se dividem em etapa neonatal (0-7 dias),
transição (7-14 dias), socialização (14 dias a 7 semanas), juvenil (7 semanas
a 19 ou 23 semanas – maturidade sexual) e adulta (após a maturidade
sexual).
Nas primeiras fases, o vínculo do gatinho com a mãe é a principal forma
de aprendizado comportamental pela observação. A partir da etapa de
socialização, o animal passa a ter maior independência em relação à mãe, e
avança para sequências comportamentais mais complexas ao desenvolver
relações pessoais com outros
animais. Por fim, com o
amadurecimento sexual, o animal
se torna adulto e busca pela
reprodução e defesa territorial. A
maturidade social ocorre com
cerca de 36 a 48 semanas de
idade.
Imagem: nas primeiras fases, o vínculo do gatinho com a
mãe é a principal forma de aprendizado comportamental
pela observação.
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COMPORTAMENTO E ORGANIZAÇÃO SOCIAL DOS FELINOS
Como explicado anteriormente, o processo de domesticação dos gatos se
relaciona com o desenvolvimento da agricultura pelo homem e com uma
alta concentração de recursos alimentares. Dessa forma, como a densidade
populacional de uma colônia de gatos é ligada principalmente à quantidade
de alimentos disponíveis, os felinos criaram grupos populacionais
complexos logo em suas primeiras organizações.
Gatos são naturalmente sociáveis, mas podem viver de forma
independente conforme as características do ambiente em que vivem
(como quantidade de alimento, dominância, sexo dos outros animais, por
exemplo.). Por isso, eles são considerados “caçadores solitários”, devido a
suas altas necessidades energéticas. Viver em grupo apresenta, porém,
maiores benefícios do que viver em isolamento, o que faz com que os gatos
desenvolvam fases gregárias que são responsáveis pelas interações no
ambiente em que os animais vivem.
As relações dos gatos em uma colônia formam combinações e interações
únicas, que se tornam responsáveis pela formação da personalidade
individual de cada um de seus membros. Alguns hábitos reforçam a
identidade criada ali, como lamber uns aos outros, deitar-se juntos e
esfregar-se sobre diferentes superfícies de forma a disseminar o odor
característico dos membros daquele grupo.
Imagem: colônia de Gatos.
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COMPORTAMENTO ALIMENTAR DOS GATOS
O gato doméstico mantém muitos hábitos alimentares de seus
antepassados. Como o precursor Felis lybica vivia em regiões de clima árido,
a ingestão de nutrientes e água dependia da caça de pequenos animais
como camundongos, satisfazendo suas necessidades hídricas, nutricionais
e energéticas.
Dessa forma, o gato é
classificado como carnívoro
estrito ou obrigatório, e
portanto, possui adaptações
anatômicas, nutricionais e
fisiológicas para se abastecer
com essa dieta de alto valor
proteico, baixo conteúdo de
carboidratos, níveis
Imagem: a ingestão de nutrientes e água dependia da caça
moderados de gordura e alta de pequenos animais como camundongos.
umidade.
Os padrões específicos do comportamento alimentar felino vem de
comportamentos instintivos e adquiridos:
Características instintivas:
Os felinos apresentam alta
atividade noturna devido à
grande vulnerabilidade das
presas durante a noite. Além
disso, seus sentidos são
altamente especializados,
sua anatomia é específica e o
seu comportamento
predatório é intenso.
Imagem: apresentam anatomia específica ao comportamento noturno.
Por seu alto requerimento diário, os gatos devem caçar inúmeras vezes
ao dia. O gasto energético com essas atividades predatórias (6-8 horas
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diárias) é muito grande, e por isso esses animais desenvolveram o hábito
de cochilar várias vezes ao dia, podendo chegar a 16 horas totais.
Também seguindo seu comportamento natural, os gatos tendem a se
alimentar de 6 a 20 vezes ao dia em pequenas refeições, mesmo para
aqueles animais com dieta ofertada. Isso reforça a necessidade de uma
alimentação controlada, e não ad libitum (à vontade), buscando evitar
problemas em dois extremos: obesidade e anorexia.
Características adquiridas:
Segundo estudos (Faraco et al., 2013), as preferências gustativas dos
gatos filhotes estão ligadas à composição do líquido amniótico durante a
gravidez e, consequentemente, com as substâncias absorvidas pela mãe
durante a fase de gestação e lactação. Essas preferências seguem se
formando no período de desmame (1º ao 6º mês de vida), quando há maior
aceitabilidade a novos sabores que serão introduzidos pela mãe. Dessa
forma, os filhotes acabam reproduzindo os hábitos alimentares maternos.
Quando não há presença da mãe nesse processo, estudos
(Zernicki&Stasiak, 2000) afirmam que felinos domésticos têm menor
capacidade de percepção do
gosto do alimento. Além
disso, há fatores genéticos
que também influenciam nas
predileções individuais,
motivo pelo qual alguns
gatos que recebem dietas
idênticas durante o período
receptivo de palatividade
podem apresentar
Imagem: as preferências gustativas dos filhotes estão ligadas à preferências alimentares
composição do líquido amniótico e com as substâncias absorvidas
pela mãe durante a fase de gestação e lactação. distintas.
COMPORTAMENTO HIGIÊNICO DOS FELINOS
Os gatos passam grande parte do seu tempo de vigília realizando
autolimpeza com a língua, dentes e membros. Esse comportamento é uma
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de suas principais atividades, e ocorre antes do repouso, após refeições,
em período de sono, momentos de estresse e como forma de evitar brigas.
Na primeira semana de vida,
os gatinhos são lambidos por
suas mães com o objetivo de
manter sua saúde, removendo
sujidades, pelos soltos e
ectoparasitos, estimulando
micção e defecação. Ao
aprender esse ritual, o gatinho
passa a iniciar essas práticas
por conta própria quando Imagem: as mães lambem os filhotes para remover as sujidades
chega a duas semanas de vida. e manter sua saúde.
Por fim, quando adulto, o animal passa a gastar de 30 a 50% do seu
tempo com essa prática.
COMPORTAMENTO ELIMINATÓRIO
Os comportamentos eliminatórios dos gatos consistem na eliminação de
urina e fezes e estão ligados a cerca de 60% dos possíveis transtornos
comportamentais relatados na rotina clínica de felinos; ou também
relacionados a patologias. O ato de “borrifar” a urina (spraying) e urinar ou
defecar fora da caixinha de areia pode ocorrer como forma de demarcação
territorial, comunicação social e sexual e por preferência do animal. O local
de eliminação deve estar sempre adequado ao nível de limpeza, tipo de
bandeja e material utilizado como substrato.
Esses hábitos também foram
herdados de seu precursor, o
gato doméstico Felis lybica.
Como este vivia originalmente
em regiões desérticas, a baixa
ingestão de água a que estava
habituado fez com que sua
anatomia e fisiologia se
adaptassem.
Imagem: Gato Selvagem Africano, Felis lybica, em habitat natural
– Deserto de Kalahari, África do Sul.
19
Os gatos apresentam urina concentrada que é eliminada em baixo
volume (20-40 mL/kg/dia) e frequência (três vezes ao dia em média). Além
disso, a alta atividade noturna dos felinos leva a uma maior ocorrência de
micção no período da manhã.
Outro reflexo do comportamento primitivo é a lambedura da região
perineal pela gata mãe (reflexo anogenital), com objetivo de estimular a
eliminação de excretas. Nesse momento, a mãe acaba ingerindo-as e,
segundo alguns autores, essa é uma maneira de evitar odores atrativos
para os predadores e perpetuar a espécie.
O ato de enterrar excretas na
fase adulta também segue esta
mesma lógica. É uma atividade de
grande gasto energético e de
tempo. Fêmeas são mais
meticulosas nesse processo, pois
têm o intuito de ocultar
completamente os odores de
outros felinos e animais de outras Imagem: o ato de enterrar as próprias fezes tem o intuito de
evitar odores atrativos para predadores.
espécies.
Já o spraying, além de ser uma forma de eliminação fisiológica da urina,
serve também como meio de comunicação. O animal adota postura
diferente da usual, em pé, com cauda erguida e direcionando a urina em
superfícies verticais, de forma que a urina seja projetada sob uma maior
área e que os odores fiquem na altura da cabeça dos felinos que passam
pelo local. A marcação de território pela borrifação apresenta menores
volumes em comparação com o ato fisiológico, não há enterramento da
excreta e ocorre com maior frequência.
Na urina, serão encontradas grandes
quantidades de felinina, um aminoácido
exclusivo do gato doméstico e de linces, e
que é precursor de feromônios. O odor irá
indicar o status social ou sexual do animal.
Os outros felinos irão responder por meio
do flehmen ou gape (semi abertura da boca,
indicando ação do órgão vomeronasal),
captando os feromônios e interpretando-os. Imagem: reflexo de Flehmen.
20
COMPORTAMENTO SEXUAL DOS FELINOS
O ciclo reprodutivo dos felinos tem influência da duração das horas de
luz do dia. Em períodos de dias mais longos (primavera e verão), inicia-se a
temporada reprodutiva, marcada por inúmeras repetições de cio e
elementos comportamentais. O ciclo estral da fêmea dura de 14 a 20 dias.
As gatas domésticas tendem a atingir a puberdade entre 5 e 9 semanas
de vida, sendo essa data influenciada pela raça, peso corporal, presença de
machos na colônia e fotoperíodo. Já os machos, atingem a maturidade
sexual completa entre o 9º e 10º mês de vida, podendo apresentar
comportamentos sexuais a partir do 4º mês devido a ação da testosterona
no Sistema Nervoso Central.
No estro, as fêmeas demonstram a maior parte de seus padrões
comportamentais voltados à reprodução: vocalizam com mais frequência e
por mais tempo, ficam mais agitadas,
seu apetite diminui, ronronam,
friccionam-se em objetos, apresentam
micção mais frequente e postura de
cio (lordose, agachamento, cauda
lateralizada, membros torácicos
pressionados no chão e membros
pélvicos alternando em extensão).
Imagem: postura de cio.
Já os machos são atraídos pelos
feromônios eliminados pela fêmea
e iniciam seu comportamento de
corte: demarcação de território,
comportamentos de dominância e
intimidação (como luta, por
exemplo) e vocalização em altas
frequências sonoras.
Imagem: acasalamento felino.
21
Necessidades de cada fase de vida
O comportamento e as necessidades felinas muitas vezes são
desconhecidos pelos tutores de gatos. Isso pode comprometer não apenas
a qualidade de vida do animal, como também pode estar relacionado à
saúde do gato, o que pode favorecer o desenvolvimento de doenças.
Geralmente, esses tutores apenas levam seus gatos ao médico veterinário
quando já se encontram em situações extremas, decorrentes de alterações
comportamentais significativas, designadas agressivas ou inapropriadas
pelo tutor. Esses comportamentos podem resultar em abandono e
eutanásia, o que é extremamente injusto com os felinos.
Além disso, sabe-se que a espécie felina é estoica, ou seja, são seres
acostumados a “esconder a dor”, porque na natureza são presas fáceis.
Agindo assim demonstram menos suscetibilidade aos predadores e se
protegem.
Desse modo, é nossa função, como médicos veterinários, orientar os
tutores a respeito das necessidades da espécie que, quando não
respeitadas, podem comprometer não somente o relacionamento tutor-
animal, mas também a saúde do felino. Portanto, precisa-se ter
conhecimento das necessidades ambientais do animal para que se forneça
uma vida saudável e de qualidade.
Felinos são animais que, devido ao comportamento ancestral selvagem,
sobrevivem de caças solitárias, evitando e escapando de possíveis ameaças
por meio de caças em territórios familiares, garantindo, assim, sua
segurança. Dessa maneira, quando ameaçados, agem de acordo com a
premissa “luta ou fuga”, sendo o primeiro método de defesa que deve ser
evitado (que acontece quando se leva o animal em lugares desconhecidos,
como a clínica veterinária, ou mesmo quando se coloca um novo gato em
seu ambiente familiar, por exemplo). Também, como mecanismo de defesa,
os animais não costumam demonstrar sinais clínicos, como dor,
dificultando, assim, a detecção de doenças. Por isso a importância da
orientação aos tutores quanto à medicina preventiva desses animais e aos
exames de rotina, a fim de detectar precocemente possíveis enfermidades.
22
Socialmente, os felinos conseguem sobreviver em conjunto com outros
gatos (em colônias), quando os recursos estão bem disponíveis, e, quando
solitários, sobrevivem em busca dos recursos em maiores territórios.
Quando os felinos convivem com outros animais, a preferência deve ser
por animais da mesma espécie, podendo conviver em harmonia,
geralmente dormindo e brincando juntos. No entanto, caso as
necessidades ambientais não sejam atendidas, a convivência com outros
gatos pode se mostrar conflituosa e, às vezes, até mesmo agressiva.
Não raro, há confusão por parte dos tutores quanto à convivência entre
os gatos residentes de uma casa. Por exemplo, se os gatos se alimentam
juntos, isso não quer dizer necessariamente que eles são grandes amigos.
Eles podem comer juntos porque não há outros recursos disponíveis para
eles em outros locais. Porém, isso não deve ser levado como regra. É
preciso observar e entender cada caso. Dessa forma, observa-se que o
gato pode separar horários distintos para a realização de suas atividades
em relação aos outros gatos na residência, a fim de garantir seu senso de
controle.
Por isso, é importante ter múltiplos locais com os recursos necessários
de alimentação, ingestão hídrica, caixas de areia e locais de descanso, a fim
de que os gatos possam realizar suas atividades ao mesmo tempo, porém
em áreas distintas, reduzindo assim, competições por recursos, estresse e
mesmo o bullying entre os animais.
A introdução de novos gatos deve ser gradual, permitindo que o primeiro
morador felino sinta-se no controle (com recursos em múltiplos locais),
evitando comportamentos agressivos e estresse dele em relação aos gatos
introduzidos.
DICA:
Quando for adotar mais um gatinho, opte pela adoção de um animal
mais jovem. Os gatos adultos têm maior tolerância e aceitam melhor
filhotes em sua colônia do que gatos mais velhos.
23
Existem cinco pilares essenciais que devem ser estudados e levados em
conta no que se diz respeito a um ambiente saudável para seu felino,
sendo eles:
LOCAL SEGURO
Os gatos precisam de locais seguros, como locais elevados e com recursos
que lhes dê a sensação de possibilidade de reclusão e isolamento para que
garanta seu sentimento de segurança.
DICA:
Um local seguro pode ser
construído ou mesmo adquirido.
Pode ser feito com uma caixa de
papelão com uma abertura, e um
telhado, permitindo acesso fácil e
visualização pelo animal, garantindo
sua sensação de segurança. Também,
há a opção de comprar os poleiros,
que permitem que o felino se Imagem: ambiente (que pode ser criado em
alongue, ou instalar prateleiras, em casa com papelão) como local seguro à
espécie felina, por permitir que o animal se
diferentes alturas, o que dará a esconda e tenha acesso ao local pelo
telhado construído.
sensação de conforto, segurança,
controle e ainda funciona como
ótimo exercício físico. Ademais, a
caixa transportadora (como gaiolas
de arame abertas), utilizada
principalmente para levar o animal à
clínica, precisar ter o cheiro do
animal, e deve ser colocada como se
fosse uma mobília, deixando-a
disponível no ambiente para que o
gato entre e saia quando quiser e
possa até mesmo tirar umas sonecas
dentro dela. Imagem: casinhas, caixas e camas são
importantes para acomodação, permitindo
conforto, segurança e controle pelos
felinos.
24
RECURSOS AMBIENTAIS
Os felinos necessitam de recursos mínimos, como comida, água, caixas
sanitárias, brinquedos, locais para se alongar e dormir. Porém, esses
recursos não podem e não devem ser únicos, principalmente em
ambientes com mais de um gato. Assim, é interessante ter múltiplos locais
com esses recursos, permitindo que o animal se sinta seguro e evite brigas
e competições por recursos. Também é importante que os recursos não
sejam muito próximos uns dos outros (por exemplo, comida e água juntos),
sendo necessário que sejam separados e permitam que o animal procure
por eles e possa usufruir de forma individual.
DICA:
Deixe os recursos em diversos locais do ambiente, inclusive em
ambientes externos (exceto alimentos a que outros animais consigam ter
acesso), para que os felinos possam alcançá-los, porém sem intimidações
por outro felino, evitando estresse e mesmo doenças. Por exemplo, caso
tenha dois gatos em casa, é importante ter 3 caixas de areia em locais
distintos da casa (o valor mínimo da quantidade de recursos é calculada
pela equação n+1).
BRINCADEIRAS E COMPORTAMENTO PREDADOR
Apesar dos felinos poderem conviver em colônias, eles são caçadores
solitários. Esse comportamento precisa ser respeitado, permitindo que o
animal tenha oportunidades, por meio de brincadeiras e interação com o
tutor, de realizar atividades pseudopredatórias a fim de conquistar seus
recursos de sobrevivência. O comportamento predador dos felinos
consiste em localizar, capturar, matar e preparar sua presa, sendo
atividades que consomem grande energia de seu dia, tanto física quanto
mental.
DICAS:
25
Pode-se utilizar a comida para
despertar esse comportamento
predatório, escondendo-a em
diversos locais do ambiente
(incentivando a localização do
recurso pelo gato) ou mesmo
comedouros interativos, que
dificultem a fácil alimentação
(estimulando refeições pequenas
e frequentes).
Imagem: brinquedos interativos que podem ser
feitos em casa ou comprados, que incentivam o
comportamento normal predatório dos felinos.
Também são importantes
brincadeiras que possam
imitar esse comportamento
nos felinos, por meio de
varinhas com pelos, simulando
presas voando ou movendo-se
rapidamente, porém, sem
esquecer de permitir que o
animal pegue o brinquedo no
Imagem: comedouros interativos que podem ser feitos em
casa ou comprados, a fim de estimular a cognição e os final, representando o
instintos naturais do felino momento da captura ou
recompensando o animal com
petiscos. Esconder os
brinquedos em diversos locais
permite que o animal os
procure, e utilizar aqueles que
possam ser manipulados,
pelas patas e boca, estimula a
captura e manipulação da
“presa”.
Imagem: felino brincando com varinha, simulando presa no
comportamento de caça da espécie.
26
INTERAÇÃO SOCIAL
Apesar do que muitos pensam, os gatos são sim animais que gostam de
interação social! Eles se beneficiam de interações sociais regulares e
amigáveis com os humanos e outros animais que tenham sido
devidamente socializados e adaptados. Principalmente com gatos jovens, o
manejo adequado de socialização leva a melhores interações sociais,
reduzindo o medo e estresse desses animais para com os humanos. No
entanto, esse contato varia de acordo com o gato, sendo algo individual
(cada animal determina seus gostos quanto às interações com os tutores,
por exemplo, quanto a acariciar, brincar ou ser pego), mas que, em alta
frequência e baixa intensidade com humanos, dá ao gato a sensação de
controle, em que ele pode iniciar, modular e até mesmo encerrar as
interações com seus tutores quando desejar.
DICA:
É primordial que não se force as interações com os felinos, possibilitando-
os que iniciem essa atividade, para que eles mantenham o controle da
situação. Inicie com contatos suaves, evitando olhar fixamente ao animal, e
permita que o animal cheire suas mãos para que se familiarize. Caso o
animal se apresente relaxado, pode-se fazer carinhos suaves na cabeça e
pescoço, evitando as regiões abdominais. Caso tenha mais de um gato em
casa, busque dar atenção individualmente a cada um, sem intervenções de
outros gatos.
Filhotes devem ser socializados aos humanos quando num período de 2-
8 semanas de vida, com interações suaves, frequentes e mais longas (ideal
que seja feito por menor número de pessoas possível), gerando melhores
resultados de interações sociais, tornando-os animais mais adaptados e
menos estressados. Porém, experiências negativas nesse momento podem
resultar em animais mais estressados e medrosos no futuro.
Felinos mais velhos podem alterar um pouco suas interações com
humanos, sendo algo normal, porém todas as alterações comportamentais
também podem estar relacionadas a enfermidades, sendo indicado a
consulta com médico veterinário para melhores avaliações.
27
RESPEITO DO OLFATO FELINO
O olfato é o principal sentido do felino, o que assegura segurança e
compreensão no seu dia a dia. Esse sentido auxilia na detecção de
feromônios, que estabelecem limites de segurança, além de fornecer
informações sobre o estado físico e emocional do felino que realizou essa
marcação como feromônio.
DICA:
Evite interferir nesse sentido dos gatos, por meio da redução do uso de
substâncias que possam perturbar a percepção sensorial dos felinos ou
alterar seus próprios cheiros e do ambiente em que vivem. Quando for
necessário expor o animal a diferentes cheiros, pode-se esfregar um pano
com o respectivo cheiro que se deseja introduzir em suas glândulas
odoríferas (como nas regiões interdigital, perioral, temporal, nas bochechas
e cauda) ou então utilizar sprays com feromônio sintético junto ao novo
cheiro. O uso de feromônios sintéticos pode auxiliar na redução da
ansiedade e melhorar a alimentação e uso da caixa de areia.
Além disso, é importante que existam locais adequados para que o
animal possa fazer suas marcações de segurança, como arranhadores.
Animais que estiveram fora do ambiente familiar por certo tempo (como
idas em clínicas e hospitais veterinários) ficam mais vulneráveis, o que pode
predispor a interações negativas com outros animais, sendo necessário
mantê-los em ambientes separados para que se acostumem novamente ao
“novo cheiro”. Outra opção é utilizar feromônios sintéticos para facilitar
esse processo de reintegração do animal.
Imagem: localização das Glândulas Odoríferas nos felinos. Imagem: felino realizando marcações territoriais,
esfregando-se no local para liberação de
secreção da glândula odorífera
28
Comportamento esperado dos gatos
COMPORTAMENTO NATURAL
O comportamento natural dos felinos é uma combinação de sua
predisposição genética, do aprendizado sob experiências anteriores e do
meio em que está inserido, sendo alguns comuns a todos os indivíduos da
espécie, enquanto outros são específicos de cada indivíduo.
O entendimento dos padrões do comportamento felino auxiliam a
identificação de comportamentos normais e anormais como também
comportamentos de adaptação e má adaptação. Para melhor
compreensão, é necessário avaliar as características físicas do animal, visto
que estes fatores estão associados e permitem determinar as necessidades
comportamentais do felino.
OLHOS
Os olhos dos felinos possuem características que os permitem enxergar
e caçar sob a luz tênue. A córnea é abaulada, o que garante maior
penetração de luz (5 vezes maior que a do ser humano) e a retina
apresenta 25 bastonetes para cada cone sensível à cor, o que garante que
os gatos enxerguem em baixas quantidades de luz, formando, no entanto,
uma imagem difusa e sem grande distinção de cores. Isto porque devido à
pouca variedade de cores das presas e ao fato de tratar-se de um animal
de caça noturna, não há necessidade de enxergar variadas cores. Além
disso, sob a retina desses animais há um tapete lúcido que reflete a luz
garantindo que uma maior quantidade chegue aos bastonetes, fator que é
responsável pela coloração verde/amarelada dos olhos felinos diante da
luz.
A dificuldade em pegar alimentos da mão do tutor pode ser explicada
pelo cristalino, que por ter uma capacidade limitada de acomodação, faz
com que a visão seja melhor acerca de 2 a 6 metros a partir do objeto
visualizado. Já a sua capacidade de julgar distâncias para pular e pegar
presas se dá pela sobreposição binocular, que é de cerca de 98°.
29
As pálpebras dos felinos se abrem entre os 11º e 21º dias de vida, por
isso, seus olhos não são funcionais ao nascimento e a visão se desenvolve
com a experiência. Caso os filhotes sejam abrigados em ambientes que não
mostrem linhas horizontais, a visão não é desenvolvida adequadamente,
apesar de ainda assim apresentarem olhos estrutural e funcionalmente
normais.
OUVIDOS
Os animais são capazes de
captar o som circundante, uma
vez que cada orelha é capaz de
se movimentar de forma
independente e girar quase
180°. Para localizar o som e
orientar sua cabeça, os felinos
relacionam as diferenças de
tempo para que o som alcance
cada orelha, as diferenças de
nível entre as aurículas e os Imagem: olhos em fenda e orelhas móveis característicos dos
felinos
efeitos da amplificação
direcional das orelhas.
OLFATO
Os filhotes usam o olfato e o tato para encontrar as mamas da mãe. Isso
ocorre devido à mielinização dos nervos olfatórios (diferente dos outros
neurônios ao nascimento), na qual o impulso é passado rapidamente ao
cérebro, garantindo um olfato bem desenvolvido. Os odores são utilizados
para identificar a presa e os rastros deixados por outros gatos, sendo isso
importante para sua organização social e reprodução.
O ato de abrir a boca ou Flehmen é observado após o gato encontrar
algum odor, seja por inspiração ou por lambedura, como, por exemplo, a
reação de abrir a boca quando gatos machos encontram a urina de outro
macho. Essa reação decorre do órgão vomeronasal, pois ao abrir a boca e
inspirar, o animal bombeia saliva e odor para o órgão.
30
TATO
Para os felinos, o tato é um sentido de grande importância em suas
relações dentro dos grupos sociais, o que pode ser comprovado pela
importância do contato físico para eles. No entanto, a preferência do
contato é individual entre os animais, de forma que alguns optam por
contatos mais leves enquanto outros preferem contatos mais intensos. Os
gatos não reagem à temperatura no corpo até esta alcançar 51 a 54°C, já
as mucosas nasais são altamente sensíveis às mudanças de temperatura e
são utilizadas para localização de presas.
Além disso, os gatos possuem vibrissas táteis na face e nos membros
torácicos. Na face, as vibrissas são conhecidas como os famosos “bigodes”
e estão dispostas em fileiras nos lábios superiores; já as fileiras dos lábios
inferiores possuem movimentação independente das outras. Os bigodes
são importantes durante a localização da presa, da água e dos alimentos,
visto que os felinos não conseguem enxergar objetos próximos à face,
como citado anteriormente. Há ainda outras vibrissas, como as localizadas
na face posterior de ambos os carpos, dorsais ao coxim acessório; o tufo
superciliar localizado acima de cada olho e os tufos genais localizados entre
as orelhas e a mandíbula. Essas vibrissas e esses tufos auxiliam na
conscientização do espaço e no momento da caça.
Imagem: vibrissas dos gatos domésticos.
31
PALADAR
Os gatos possuem papilas em formas de cogumelo na parte frontal e nas
laterais da língua, e papilas em forma de taça na parte de trás da língua,
que permitem que sintam o gosto salgado, amargo e ácido. Diferentemente
dos outros mamíferos, não possuem a habilidade de sentir o gosto doce,
pois o receptor para doces é constituído por duas proteínas codificadas
pelos genes Tas1r2 e Tas1r3, e nos gatos o gene Tas1r2 não codifica a
proteína normal dos mamíferos.
LINGUAGEM CORPORAL
Os gatos são muito expressivos e se comunicam utilizando a linguagem
corporal: modificam sua postura, a posição dos membros e das orelhas, o
tamanho das pupilas e o eriçar de pêlos, numa tentativa de parecerem
maiores do que são.
Quando confiantes, os gatos ficam de pé sobre as quatro patas, com a
cauda para cima e as orelhas voltadas para frente. Quando estão
preparados para lutar, ficam de pé, eriçam os pelos e a cauda e arqueiam
as costas. No entanto, quando estão com medo, seu corpo fica próximo ao
chão e mantém os membros pélvicos prontos para a luta.
Quando interessados, curiosos e alertas, as orelhas dos gatos ficam
viradas para frente; quando assustados, ansiosos, medrosos e até
agressivos, as orelhas tendem a estarem planas, podendo até mesmo se
localizarem viradas para trás.
Eles mantêm os olhos fixos e intensos em outros gatos ou pessoas como
sinal de agressividade ou para controle da situação. Já em casos de contato
tranquilo e amistoso, o contato visual é frequente e os gatos piscam
diversas vezes, olhando profundamente nos olhos um do outro. Quando
pouco confiantes, os gatos evitam o contato com a pessoa ou animal,
desviando o olhar ou ainda realizando algum comportamento deslocado,
como a autolimpeza intensa em momento não usual para a atividade,
demonstrando ansiedade e evitação.
32
A cauda permanece vertical
em casos de cumprimentos,
durante brincadeiras e
abordagens sexuais das
fêmeas, e acredita-se que a
cauda elevada seja um
reconhecimento do status
social mais elevado de outro
gato, como os filhotes fazem
com a mãe. A cauda baixa é
Imagem: gato com pêlos eriçados e costas arqueadas na tentativa
vista em casos de agressão,
de parecer maior. assim como a cauda em
posição côncava (vertical na base e curvada com as extremidades para o
chão), que também pode ser entendida como brincadeira. Quando entre as
pernas, indica que o gato deseja evitar qualquer embate.
VOCALIZAÇÕES
Alguns sons são observados em circunstâncias específicas, como o som
feito pela mãe para os filhotes. Porém, em suma, os sons produzidos
podem ser subdivididos em três categorias principais.
Boca inicialmente fechada e posteriormente aberta
Ronronar: é um som monótono observado em diferentes situações, mas
principalmente durante o contato felino-felino e felino-humano. Também
pode ser detectado em casos de dor extrema, como uma tentativa do
animal em se acalmar.
Miado trinado/ estridulação/ cumprimento: ocorre durante o contato
felino-felino ou ainda diante do contato com uma pessoa conhecida de que
se gosta.
Boca inicialmente aberta e posteriormente fechada
Miado: som de comunicação geral com diferentes significados devido às
diferenças individuais entre gatos e às interações com o ser humano, no
caso de miados direcionados para pessoas.
33
Miado longo: versão de alta intensidade do miado comum. Não possui
um significado claro durante a interação felino-felino, porém no caso de
interação felino-humano pode ser indicativo de que o animal está
desejando algo, como comida.
Nesta classificação há também o chamado da fêmea e o chamado do
miar - alto estridentemente.
Sons com a boca aberta/ Sons de agressão
Rugido, uivo e rosnado: são utilizados quando o animal está atacando ou
ameaçando ativamente.
Sibilo e som de cuspir: ocorrem em casos de agressividade defensiva,
quando o gato está sendo ameaçado ou atacado.
SINAIS DE ODOR
Devido às glândulas localizadas ao longo da cauda, cantos da boca e
laterais da testa, cada animal apresenta um cheiro particular, o que permite
aos gatos reconhecer os membros de seu grupo social ou com o qual
tenha conflito. Eles podem ainda cheirar ao redor do ânus como forma de
cumprimento.
Para disseminar seu odor, os gatos esfregam a cabeça contra objetos,
pessoas e outros animais, identificando os membros de seu grupo social
particular. Esta prática é tão importante que animais que se afastam do
grupo são rejeitados até que possuam o mesmo cheiro novamente.
A urina pode ser considerada um sinal de odor prolongado quando
borrifada em superfícies verticais a fim de informar o sexo e a condição
sexual aos outros gatos. O odor característico da urina se dá por meio de
substâncias químicas voláteis que possuem a felinina, um aminoácido
exclusivo de algumas espécies da família Felidae. Essa substância é
encontrada em maiores concentrações nos machos íntegros, seguidos
pelos machos castrados e fêmeas, e apesar de sua função biológica não
estar definida, acredita-se que seja um precursor do feromônio.
34
APRENDIZADO
Os padrões de comportamento para alimentação, caça, autolimpeza,
marcação de território e reprodução são instintivos e refinados por meio
do aprendizado e experiências adquiridas a partir do método de tentativa e
erro. Portanto, animais inexperientes sabem caçar instintivamente e sua
técnica é aprimorada com a experiência.
Por isso, ao explorar algum objeto repetidas vezes, os gatos podem
desejar uma compensação, que age como reforço positivo. Algo aversivo
pode acontecer, atuando então como um reforço negativo. Ainda, pode
simplesmente não ocorrer estímulo algum, passando a ideia de que não é
necessário interagir com o objeto em questão.
Além disso, é possível que os filhotes aprendam por meio da observação
da mãe que demonstra comportamentos de caçar e de matar, como
também os gatos são capazes de aprender ao observar outros gatos
adquirirem uma nova habilidade.
CAÇA E ALIMENTAÇÃO
Os gatos são animais carnívoros obrigatórios, evoluídos para a caça de
pequenos animais. Geralmente quando lhes é dado um alimento palatável,
o primeiro comportamento é cheirar o alimento e lamber os lábios para
posteriormente consumi-lo. Quando o alimento não é palatável, após
cheirá-lo o gato lambe o focinho, podendo iniciar a autolimpeza de todo
corpo.
AUTOLIMPEZA
O ato de se lamber é de grande importância na higienização e é visto
como comportamento natural da espécie, mas também pode ser
observado em casos de ansiedade, o que pode favorecer a perda de pelos
e a formação de lesões cutâneas. Essa ação também pode ser realizada em
outro gato ajudando a criar ou reforçar uma ligação social, sendo nestes
casos denominado de alocuidados de higiene, observado entre membros
de um mesmo grupo social.
35
A autolimpeza também pode ser caracterizada como um sinal de
desligamento, com o objetivo de evitar encontros agressivos com outro
gato. Cerca de 8% do tempo em que os gatos permanecem acordados são
utilizados para a autolimpeza, atividade favorável ao animal, visto que a
lambedura auxilia na remoção de pelos soltos e parasitos da pele.
ORGANIZAÇÃO E DENSIDADE SOCIAL
O modo de vida e organização social dos gatos é variável: eles podem
viver como animais solitários e/ou intolerantes a outros felinos, podem ser
membros de grandes comunidades ou podem, ainda, variar entre esses
extremos. Como dito anteriormente, suas presas são pequenos animais,
mais facilmente caçados individualmente, o que faz com que os gatos
sejam caçadores solitários.
Apesar disso, geralmente, esses animais são uma espécie social
formadora de grupos sociais complexos, que têm sua composição
influenciada pela distribuição e a abundância de alimentos, como também,
pelo sexo dos gatos. Em áreas de alimento abundante, os gatos se unem
formando grupos estruturados.
Em uma colônia, ou seja, em uma população de gatos, há relações de
agregação e de antagonismo. Nas relações de agregação, os animais se
cumprimentam, esfregam cabeça e corpo, podem balançar a cauda e
lamber uns ao outros, a fim de criar um odor de identificação dos membros
do grupo.
Já as relações de antagonismo
tendem a ser raras em colônias
selvagens. Isso porque os gatos
que não possuem uma boa
convivência usualmente se
evitam e fazem rodízios de
acesso às áreas compartilhadas. Imagem: gatos juntos compartilhando espaços de sono
36
Além disso, frequentemente as mães formam grupos com seus filhotes e
podem criá-los isoladamente ou em grupo com outras mães. Nesse caso,
os filhotes deixam o ninho de forma mais precoce (até 10 dias antes)
quando comparado aos animais criados em ninhada única.
Os machos podem associar-se a grupos por períodos breves, o que
aumenta a probabilidade de acasalamento em cios futuros com as fêmeas
do grupo em questão, sem, no entanto, reduzir o tempo disponível com
outras fêmeas.
Os gatos são formadores de territórios delimitados a partir de sinais
visuais e olfativos, por meio de arranhões em superfícies verticais e
depósito de urina e/ou fezes. Ao redor do território está a amplitude do lar
que pode ser compartilhada com outros gatos. Além disso, sua extensão
territorial está diretamente associada à densidade de fontes de alimentos.
Em regiões de alimento abundante as amplitudes do lar podem possuir
apenas 0,08 hectares para fêmeas e 0,85 hectares para machos, enquanto
que em regiões escassas as áreas possuem cerca de 270 hectares para
fêmeas e 420 hectares para machos.
ROTINA E HÁBITOS FELINOS
Os gatos são considerados animais crepusculares, isto é, são mais ativos
durante o amanhecer e anoitecer, passando a maior parte do dia
descansando. Em dias quentes, os animais passam a maior parte do tempo
deitados/estirados, enquanto que em dias frios ficam deitados e/ou
enrolados. Ademais, cerca de 50% do tempo dos gatos é gasto em
atividades de autolimpeza e autocuidados de sobrevivência, tais como caça
e alimentação.
No entanto, esses animais também são passíveis de distúrbios
comportamentais. Dentre eles podemos citar: estresse, ansiedade,
Síndrome de Pandora, medos e fobias.
37
ANOTAÇÕES
38
Módulo 2: Abordagem do
Paciente Felino
No atendimento de felinos, é necessário que a equipe veterinária esteja
apta para realizar o manejo adequado do animal, uma vez que isso
interfere diretamente na qualidade e na eficiência do atendimento.
Para isso, a equipe veterinária precisa ser prévia e adequadamente
preparada para lidar com os pacientes felinos. Além disso, é muito
importante que os tutores sejam orientados com muito cuidado para que
tenham capacidade de lidar com seus gatos. O objetivo de um manejo
amigável ao felino é a diminuição do medo, da agressividade e do estresse
do paciente, já que isso pode resultar em alterações nos exames físicos e
laboratoriais, e, então, ocasionar equívocos na interpretação desses
exames e do diagnóstico, assim como nos tratamentos e nas medicações
prescritas.
Fortalecer o vínculo veterinário-tutor-felino também é o intuito desse
manejo e, para isso, deve-se entender as particularidades de cada paciente
e de cada espécie, realizando um atendimento específico para cada caso,
conforme as normas exigidas pelo The International Society of Feline Medicine
(ISFM) e American Association of Feline Practitioners (AAFP). Dessa forma, o
tutor sentirá maior segurança e conforto ao observar o bem-estar do felino
durante a ida à clínica veterinária, propiciando o acompanhamento correto
da saúde do animal por meio de consultas periódicas e de terapia
preventiva. Logo, haverá aumento da expectativa de vida desses animais, o
que evidencia a necessidade do manejo adequado para melhorar a
qualidade do atendimento a esses pacientes.
Manejo amigável do felino
Para implementar o manejo amigável do gato, é importante que a equipe
veterinária utilize técnicas adequadas durante o atendimento ao animal
para promover seu bem-estar. Nesse processo, é necessário conhecimento
e respeito ao comportamento natural do felino.
39
O manejo amigável para felinos, conhecido como catfriendly, é um
conjunto de ações que visa o conforto do paciente, a segurança da equipe
veterinária e a confiança do tutor. Os objetivos dessa técnica são:
Diminuição do medo e da dor do paciente.
Aprovação e confiança do cliente.
Detecção precoce de alterações clínicas relevantes para a
saúde do paciente.
Redução de lesões ao tutor e aos veterinários causadas
pelo felino.
A recepção da clínica veterinária também deve ser treinada para o
manejo amigável dos felinos e para as orientações que devem ser passadas
ao tutor, sejam elas por telefone ou presencialmente. Essas medidas
resultam em um ambiente confortável e seguro para o felino e para o tutor.
Abordagem do felino na rotina clínica
RECEPÇÃO DO TUTOR E DO GATO:
Na recepção, é necessário que o ambiente disponha de uma área de
espera e de uma recepção exclusiva para felinos com o objetivo de diminuir
os estímulos estressantes resultantes da presença de outros animais.
Como resultado de uma recepção exclusiva, garante-se um ambiente de
espera tranquilo e silencioso para o animal bem como um lugar com um
número menor de pessoas e trânsito de pets.
A recepção deve ser dividida de forma que os felinos não interajam uns
com os outros a fim de diminuir o contato visual entre eles e a
possibilidade de conflito. Além da estrutura da área de recepção, é
necessário ter cuidado com os odores presentes no ambiente, que podem
facilitar o aparecimento precoce de estresse, anteriormente à consulta
médica. Assim, o ambiente deve ser ventilado e evitar estímulos odoríferos.
40
Uma alternativa é usar odores positivos ao felino, como o Feliway spray.
Para otimizar a consulta e prover um atendimento eficaz e confortável, a
sugestão é trabalhar com horários agendados. Assim, reduz-se o tempo de
espera e a ansiedade resultante disso, tanto para o felino quanto para o
tutor.
CUIDADOS NO CONSULTÓRIO:
Ao entrar no consultório, a
caixa transportadora deve
ser aberta para que seja
oferecida ao paciente a
escolha de permanecer ou
não na caixa e ele sairá
apenas quando sentir-se
seguro. Enquanto o
veterinário conversa com o
tutor para realização da Imagem: felino na caixa de transporte.
anamnese e entendimento do quadro clínico, ele deve estar atento à
postura e às expressões faciais e corporais do paciente, as quais
demonstram seu estado emocional.
Durante a consulta, é esperado que o gato explore o consultório por
conta própria, demonstrando segurança. Caso isso não ocorra, o médico
veterinário deve lentamente aproximar a sua mão do felino para que ele
possa cheirá-la, numa tentativa de tornar a interação positiva para ele. Se o
gato continuar relutante, uma opção é remover a parte superior da caixa
transportadora para que o gato possa permanecer na metade inferior
durante parte do exame físico. Se não houver a opção de remover a parte
superior da caixa e o gato permanecer relutante, pode-se apoiar o
abdômen do paciente e tracioná-lo para fora da caixa gentilmente. É
contraindicado sacudir a caixa de transporte em sentido angulado para que
o gato saia por gravidade.
41
Quando o felino sair da caixa transportadora, rapidamente guarde-a,
evitando que ele retorne para dentro. A presença de um cobertor do
animal que já possui seu cheiro pode agir positivamente para que se sinta
mais confortável no consultório.
A contenção do paciente é individual: alguns se sentem bem apenas com
um carinho na cabeça e no queixo, outros ficam mais seguros quando o
veterinário usa o próprio corpo para a contenção, enquanto outros
necessitam de contenção com toalha ou até mesmo de contenção química.
Ainda há pacientes que se sentem bem com distrações, como brinquedos e
petiscos. É preciso conhecer o paciente e suas particularidades.
Para a realização do exame
físico, o recomendado é iniciar
por áreas que apresentem
menor desconforto para o
animal até chegar às regiões de
dores e/ou ferimentos. Antes
mesmo de começar a consulta,
é importante que o clínico
tenha os materiais e
equipamentos necessários para
Imagem: contenção de um paciente felino para a realização
o atendimento do paciente, do exame físico.
com o objetivo de reduzir o tempo de manuseio, o trânsito de pessoas e
barulhos para o felino. Assim que finalizar o exame físico, deve-se
apresentar a caixa de transporte para que ele entre, caso queira. Se não
quiser, temos uma boa notícia: ele amou a consulta e se sente muito
confortável nesse ambiente.
É importante desenvolver um
atendimento personalizado e
adequado para cada paciente e
documentá-lo, explicitando quais
técnicas de manejo funcionaram, e
guardá-lo juntamente ao histórico
do animal, o que contribui para
Imagem: exame físico e ausculta de gato durante o
atendimento médico veterinário. agilizar e melhorar futuras visitas
ao veterinário.
42
DURANTE A REALIZAÇÃO DE PROCEDIMENTOS:
Para a realização de procedimentos na rotina clínica, deve-se considerar a
menor manipulação do felino e mantê-lo na posição mais confortável para
ele, sempre que possível. O uso de toalhas e objetos do próprio paciente
ou do tutor são muito bem-vindos para o manuseio e para a coleta de
amostras biológicas.
RETORNO PARA CASA:
Ao retornar para casa depois de uma visita ao estabelecimento veterinário
ou de uma hospitalização, é normal que o gato apresente alterações
comportamentais causadas pelo estranhamento do ambiente. Nessas
situações, o recomendado é que o tutor retorne à rotina do animal,
observe as atitudes dele e tenha cuidado para não reforçar
comportamentos indesejados.
Se o tutor tiver mais de um gato e apenas um deles for para a consulta
com o veterinário, algumas medidas podem ser tomadas para que brigas e
rejeição por parte dos felinos que ficaram em casa sejam evitadas. Se já é
esperado que esse comportamento ocorra quando um deles precisa ir ao
veterinário, é preciso atenção. Isso porque, em caso de residências com
mais de um gato, é possível que os outros felinos não aceitem
imediatamente o seu retorno. Devido aos diferentes odores que o paciente
pode trazer do ambiente em que estava, os demais animais da casa podem
estranhar os cheiros e ficarem estressados com o gato que está sendo
reintroduzido.
Como solução, ao chegar da clínica veterinária, o animal pode permanecer
na caixa transportadora até que os outros felinos se familiarizem com os
odores novos. Se a interação for positiva, ele está pronto para voltar ao
convívio com os outros. Em caso de não aceitação, nem sob essas
condições, uma alternativa seria separar o gato que voltou do veterinário
em um ambiente exclusivo para ele e com todos os recursos necessários.
Dessa forma, é preciso observar o comportamento de todos os felinos e
aumentar o contato gradativamente, respeitando o tempo de cada gato.
43
Além disso, pode-se envolver
o paciente que está sendo
reintroduzido com uma toalha
ou cobertor que possua o
cheiro dos demais animais da
casa, na tentativa de transferir o
aroma familiar para o animal
que está com o odor diferente.
Quem dita os próximos passos
e o tempo em que eles ocorrem Imagem: interação olfativa entre felinos no mesmo ambiente.
são os próprios felinos, por isso, é importante estar atento aos sinais.
Orientações ao tutor
A maioria dos gatos não se sente confortável em ser transportado em um
automóvel, em andar numa caixa de transporte ou em ir a uma clínica
veterinária. Dessa forma, mesmo que o tutor não faça nada fora do comum
para levar o gato ao veterinário, eles sentem sua ansiedade e linguagem
corporal, devido ao enrijecimento do seus músculos, e podem associar à
ida à clínica. Portanto, deve-se ensaiar as visitas ao veterinário, assim como
os exames clínicos.
Nesse contexto, a caixa de transporte do pet deve ser confortável, ser
espaçosa o suficiente para que ele se movimente e apresentar uma boa
ventilação. A parte superior da caixa deve ser removível para que seja mais
fácil colocar o gato lá dentro. É indicado o uso de Feliway spray, catnip,
brinquedos e patê para que a entrada na caixa seja mais atrativa e
espontânea.
É imprescindível habituar o gato a ser tocado, uma vez que os gatos
podem não ser muito acostumados ao toque humano, especialmente por
aquele feito pelo veterinário, e podem ficar estressados com a nova
sensação. Para reduzir a ansiedade, é indicado que a manipulação comece
gradativamente.
44
Visitas ao veterinário podem ser
estressantes tanto para o tutor
quanto para o gato. Ao permanecer
calmo e positivo durante a consulta, o
tutor faz com que seu gato se sinta
mais seguro e confortável com a
situação.
Imagem: acostumando o felino ao toque
Uma dica é transformar a caixa de
transporte em algo familiar: ao invés
de deixá-la sempre guardada e
utilizá-la somente quando for a hora
de levar o animal ao veterinário, essa
caixa pode ficar aberta num cantinho
da casa, com uma coberta bem macia
e com um brinquedo que ele goste.
Imagem: a caixa de transporte pode ser utilizada com
Assim, o felino vai entrar todos os um cobertor macio para que o gato se familiarize.
dias na caixa e não irá associá-la a
algo negativo. Ademais, outra dica, é
não levar o animal à clínica ou ao
hospital sem o auxílio de uma caixa
de transporte, uma vez que ele
precisa ser transportado de uma
forma segura e confortável. Por fim, é
necessário dirigir com tranquilidade,
evitando fazer curvas bruscas ou
passar por ruas muito esburacadas e
evitar sacudir a caixa em geral
Imagem: a caixa de transporte é uma forma de
durante o manuseio. transporte segura e confortável para seu gato.
É indicado que o tutor procure um local mais calmo para se sentar ao
chegar na clínica e coloque a caixa de transporte em uma altura de média a
alta: pode ser na cadeira ao lado ou em um local propício para isso, se a
clínica possuir. O ideal é deixar a parte da frente voltada para si e não para
outros animais. Se o gato for ansioso, medroso ou reativo, mesmo em uma
clínica específica para felinos ou mista, é imprescindível levar uma toalha
para cobrir a caixa enquanto estiver na recepção, assim, ele não fica
exposto aos diferentes sons e odores do local.
45
ANOTAÇÕES
46
Módulo 3 - Vacinação
Introdução
O sistema imunológico dos felinos engloba tecidos e órgãos distribuídos
pelo organismo, acrescidos de uma rede celular especializada em defesa,
na qual destacam-se, no combate a infecções, os glóbulos brancos -
leucócitos, presentes na corrente sanguínea e no sistema linfático - cuja
atividade concentra-se no reconhecimento e na destruição de potenciais
invasores antes que se multipliquem. Toda a estrutura imunológica dos
gatos visa a abnegar infestações virais, bacterianas ou agentes diversos, em
prol da integridade física (e psicológica) do animal. Vale lembrar, todavia,
que o sistema está passível a respostas inadequadas e. portanto, podem
ocorrer reações de hipersensibilidade (alérgicas) e doenças autoimunes.
Para auxiliar a dinâmica infecciosa, a vacinação ordena a síntese de
anticorpos para variados microrganismos, como o Herpesvírus felino 1
(FHV-1) e o Calicivírus felino (FCV), sendo específico a cada animal o
protocolo dirigido por um médico veterinário. Diferentes hábitos refletem
distintas abordagens, a exemplo: vacinação para animais ambientados em
abrigo difere dos felídeos residentes em domicílio, assim como daqueles
com acesso irrestrito às ruas (semidomiciliados, regime que não é
recomendado).
O ambiente no qual o gato
está inserido, seus hábitos e as
circunstâncias de contato com
outros animais, interferem
profundamente em sua condição
de saúde, fatores de risco e, por
via de regra, em seu protocolo
vacinal. Imagem: vacinas para gatos são muito importantes
para a proteção do animal
47
Importantes doenças prevenidas pela vacinação
Existem ainda duas doenças (prevenidas por imunização ativa) que
merecem destaque neste conteúdo: Raiva e FeLV. Ambas de natureza viral,
a primeira tem caráter zoonótico (pode acometer indivíduos humanos),
enquanto a última está entre as principais causas da imunossupressão em
gatos. Tais doenças podem evoluir para quadros clínicos extremamente
graves, elevando as chances de o felino ir a óbito.
A RESPEITO DA RAIVA
Doença infecciosa viral aguda causada pelo vírus do gênero Lyssavirus, da
família Rabhdoviridae, que acomete diferentes espécies de mamíferos,
dentre os quais incluem-se felinos e seres humanos. De extrema relevância
à saúde pública, a letalidade da raiva atinge aproximadamente 100% dos
pacientes. A veiculação facilitada em ambiente urbano (passível de ser
transmitida por cães e gatos) pode ser eliminada a partir das eficazes
medidas preventivas atuantes no mercado, tais como a prática de
bloqueios de foco, vacinação humana e animal e a oferta de soro
antirrábico humano. Vale reforçar o papel do médico veterinário de
impulsionar a conscientização perante esses fatores, assim como de
promover a compreensão dos riscos da doença e da essencialidade da
vacinação. A transmissão ocorre, sobretudo, a partir do contato com a
saliva de animais infectados, com destaque para a mordedura, podendo
também ser disseminada através de arranhadura e/ou lambedura.
Vale ressaltar cuidados comuns à população, tratando-se de uma doença
de caráter zoonótico. Orienta-se evitar contato com felinos de vida livre,
visando à prevenção contra possíveis mordidas ou arranhaduras. Além
disso, métodos de controle populacional de animais nesta situação
também é um tópico discutido por parte dos médicos veterinários. Nesse
sentido, dentre as possibilidades, encontram-se sistemas de captura para
castração e devolução ao local de origem ou captura e adoção por parte da
comunidade. Independentemente dos sistemas aderidos, é papel do
médico veterinário estimular a castração de animais semidomiciliados
(regime não recomendado) ou não, bem como a permanência desses no
48
interior de suas casas (felinos domiciliados), para prevenção dessa e de
outras zoonoses, como a DAG (Doença da Arranhadura do Gato ou
bartonelose) e a esporotricose.
A doença se manifesta de duas formas: “furiosa" ou "silenciosa":
Forma “furiosa” da raiva: quadro clínico mais comumente
associado, tem como sintomas: tremores; desorientação; contração
muscular; mandíbula caída; salivação; mudanças de apetite; convulsões;
estrabismo; menores reflexos palpebrais, de córneas e pupilas;
abocanhamento e mordedura repentina; respostas emocionais
exorbitantes (irritabilidade e/ou medo excessivos); fotofobia; ataxia e
paralisia. O quadro progride sequencialmente para coma e óbito por
parada respiratória.
Forma "silenciosa" da raiva: (menos comum em gatos, porém
com possibilidade de ocorrência) a forma silenciosa acarreta paralisia dos
neurônios motores inferiores, progredindo a partir da lesão de contato
(mordida, por exemplo) até envolver todo sistema nervoso central, levando
rapidamente a coma e óbito por insuficiência respiratória.
A eliminação do vírus através da saliva em felinos transcorre de 2 a 5
dias antes do surgimento dos sinais clínicos apresentados e persiste
continuamente (período de transmissibilidade) até o óbito do animal. O
quadro progride rapidamente e, em muitos casos, o óbito acomete o
animal em cerca de 5 a 7 dias após a manifestação dos sintomas da raiva.
A vacinação antirrábica sofre variações conforme a localização (em um
país onde a doença é endêmica ou não), sendo exigida por lei quando a
região é endêmica para a raiva. Além disso, pode ser requisitada
legalmente em viagem internacional em companhia do felino. O quadro
clínico surge entre 2 semanas e vários meses após a infecção, a depender
do local de entrada do vírus no organismo. Qualquer comportamento
agressivo inexplicável ou alterado repentinamente deve ser considerado
suspeito.
49
A RESPEITO DA FELV, RETROVÍRUS FELINO
As retroviroses FIV
(Imunodeficiência viral
felina) e FeLV (Leucemia
Viral Felina) estão entre as
maiores causas da
imunossupressão em
gatos. A vulnerabilidade
imunológica trazida por
esse quadro pode elevar
de forma expressiva as Imagem: a vacinação é de extrema importância na prevenção da
leucemia viral felina
chances de mortalidade e
de infecção por doenças originadas de diversos agentes infecciosos, o que
pode evoluir para casos de desnutrição e ocasionar dificuldade de
cicatrização e surgimento de feridas em diferentes hospedeiros da família
Felidae, além de, possivelmente, afetar o ciclo reprodutivo.
Pesquisas com ensaios imunológicos e cultivo de linhagens celulares
realizadas ao longo dos anos possibilitaram elucidar quase toda a biologia
do vírus da leucemia viral felina. Sua replicação é restrita ao momento de
divisão celular e é, geralmente, possível detectar anticorpos contra ele
entre 2 e 3 semanas após o contato inicial. O vírus da FeLV é eliminado na
saliva, fezes e outros fluidos corporais durante a fase virêmica, mas,
raramente, as infecções originam-se em mordidas e arranhaduras
decorrentes de briga, as quais ocorrem majoritariamente por contato com
secreções salivares de forma prolongada, como através de recipientes
compartilhados de comida ou água e lambeduras. Além disso, fêmeas em
período de gestação e amamentação podem transmitir a doença para os
filhotes. Sua atuação é dada sobre o sistema imunológico do animal,
destruindo leucócitos e hemácias, podendo acarretar quadros
cancerígenos, como linfoma, leucemia e anemia, além de possíveis
infecções devido à baixa imunidade. Inicialmente, o vírus replica-se no
tecido linfoide e, então, é disseminado para outros órgãos por meio de
monócitos e linfócitos.
50
Infecções por retrovírus evidenciam a integração permanente do DNA
viral (provírus) no genoma do hospedeiro, portanto, uma vez infectado, o
felino não elimina o vírus do organismo. Apesar disso, o provírus não
permanece necessariamente ativo no genoma do hospedeiro a todo
momento. O curso da infecção pode seguir diferentes formas:
Infecção progressiva:
Engloba a replicação intensa do vírus. Desse modo, agentes oportunistas
e microrganismos patogênicos podem acarretar leucose e infecções das
mucosas. Esse quadro infeccioso origina-se de uma resposta imunológica
deficiente contra os vírus do FeLV e pode , geralmente, acarretar óbito do
animal ao longo do tempo.
Infecção regressiva:
Nesse quadro, a resposta imune contra as partículas virais trabalha de
forma eficaz. A replicação do vírus é contida antes de alcançar a medula e,
normalmente, os animais não apresentam nenhum sinal de quadro
infeccioso, sendo o vírus eliminado da circulação sanguínea. Geralmente, os
anticorpos podem ser detectados até 8 semanas após a infecção inicial.
Infecção abortiva:
Ocorre em alguns gatos imunocompetentes, que conseguem impedir a
replicação viral por meio de uma resposta imune humoral mediada por
células efetivas, eliminando as células infectadas pelo FeLV. Esses gatos não
se tornam virêmicos. Resultam negativos em testes de cultura viral,
antígeno viral p27, RNA viral e DNA pró-viral, embora possam exibir altos
níveis de anticorpos neutralizantes. Essa infecção foi observada em felinos
experimentalmente infectados.
Infecção focal:
Notam-se focos de replicação viral em alguns órgãos, como baço,
glândulas mamárias, intestino e linfonodos.
51
Felídeos infectados pelo vírus da FeLV devem ser mantidos isolados de
outros animais. Tal ação tem como objetivo evitar a exposição ao FCV
(calicivírus felino), por exemplo, e prevenir a transmissão do retrovírus.
Determinados gatos FeLV-positivos assintomáticos devem ser vacinados
contra o calicivírus por vacinas compostas por vírus morto. Reaplicações
frequentes da vacina podem ser necessárias, já que tais animais possuem
resposta imune deficiente, se comparada a de gatos hígidos (porém, vale
lembrar que o protocolo é definido individualmente). A vacinação é
amplamente aconselhável por assegurar que animais em potencial risco
não sejam infectados e, por essa razão, deve-se somar técnicas de manejo
na prevenção, como o uso de detergentes, por exemplo (o vírus torna-se
instável fora do hospedeiro). Para prevenção da FeLV, existem no mercado
diferentes tipos de vacina, todas de alta eficácia (tanto por vírus atenuado
quanto vacinas recombinantes). Felinos que fizeram uso da vacina não
apresentam viremia e não disseminam o vírus para outros não vacinados.
OS DESAFIOS DA VACINAÇÃO CONTRA FIV
“ A vacinação para prevenir
infecções pelo FIV ainda mostra
desafios para a medicina
veterinária. A única vacina
comercialmente disponível (Fel-
O-Vax ® FIV, Fort Dodge Animal
Health) utiliza o vírus atenuado
combinado com adjuvantes.
Essa formulação é composta de
dois subtipos distintos do FIV (A Imagem: teste rápido para diagnóstico de FIV/ FeLV.
e D), sendo que a eficácia e a
imunidade cruzada para outros subtipos ainda são insatisfatórias” (Tratado
da Medicina Interna de Cães e Gatos).
As três classes de vacinas
A Associação Mundial de Veterinários de Pequenos Animais (WSAVA),
American Association of Feline Practicioners (AAFP) e European Advisory Board
on Cat Diseases (ABCD), consensos reconhecidos mundialmente, definem
três classes de vacinas: “recomendadas”, “opcionais” e “não recomendadas”.
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Vacinas recomendadas:
Indicadas a quaisquer felinos e existentes no mercado brasileiro na
forma tríplice [herpesvirose, panleucopenia (FPV) e calicivirose] e
antirrábica. Tais vacinas combatem enfermidades endêmicas de alto grau
de mortalidade ou que ameaçam a saúde pública de forma geral;
Vacinas opcionais:
Vacinas quádruplas (calicivirose, herpesvirose, panleucopenia felina,
clamidiose) ou quíntuplas (calicivirose, herpesvirose, panleucopenia,
clamidiose e FeLV - leucemia viral felina) existentes no mercado brasileiro. A
indicação é para riscos específicos de contágio, com base na avaliação
felina individual de vantagens e riscos.
Vacinas não recomendadas:
São aquelas cuja veracidade não é amplamente comprovada pela baixa
oferta de dados de confirmação da eficácia do produto.
Classificações da vacina felina
Imagem: anticorpos maternos são transferidos através da amamentação
53
VACINAS DE VÍRUS ATENUADO (VVA):
De modo geral, dispensam adjuvantes. Compreendem a classe de
vacinas que apresentam agentes atenuados ou modificados vivos em sua
composição sendo, portanto, passíveis de induzir quadros clínicos discretos
quando há variação da patogenicidade. Inclui, também, a classe de vacinas
que apresentam organismos atenuados para redução da virulência. Sua
administração induz a imunidade do animal sem desenvolver patologias
significativas no tecido ou sinais clínicos de doença infecciosa.
Tais vacinas promovem a imunidade à medida em que seus agentes
atenuados infectam as células do hospedeiro fomentando um processo de
replicação restrito, o que estimula a produção de interferona e, por
consequência, induz mais rapidamente a imunidade se comparada às
vacinas inativadas. O processamento do antígeno endógeno pelas células
infectadas estimula uma resposta imune com predominância Th1 mediada
por células T citotóxicas CD8+.
Vacinas do tipo VVA podem apresentar alguns riscos, dentre os quais
podem ser citados a reversão da virulência do agente vacinal e a
possibilidade de causar danos aos fetos. A respeito do primeiro, a reversão
está relacionada à atenuação inadequada do agente. O segundo, por sua
vez, pode ser comprovado pelas vacinas contra o Parvovírus felino, cuja
possível replicação nos tecidos fetais acarreta malformação e aborto. Além
disso, outro ponto a ser analisado é a sensibilidade dessas vacinas a
variações de temperatura durante a estocagem, sendo essencial a
manutenção rigorosa da cadeia de frio para seu armazenamento
(conservada entre 2 e 6 graus).
Vacinação inicial em ausência de MDA (‘’anticorpos maternos’’,
do inglês “Maternal Derived Antibodies”): uma dose é suficiente. Em
ambientes de maior probabilidade infecciosa, recomenda-se duas
doses iniciais separadas por três semanas. A imunidade é adquirida de
7 a 10 dias após a segunda dose.
54
VACINAS INATIVADAS:
Para infectar, replicar ou induzir sinais clínicos característicos da doença
infecciosa, os agentes inativados necessitam de forma geral da presença de
um adjuvante para ampliação de sua potência e fortalecimento da resposta
imune do felino, o que pré-dispõe maior grau de reações alérgicas e/ou
anafiláticas adversas.
Se comparada a resposta imune das VVA (tipo Th1), as vacinas inativadas
induzem uma resposta do tipo Th2, sendo mediada por células CD4+. Tal
resposta pode ser inapropriada no desenvolvimento de proteção contra
alguns tipos de patógenos, como os vírus em geral, mas confere maior
segurança por eliminar integralmente as chances de reversão de virulência
(virulência residual do agente vacinal). Para tal, os adjuvantes têm o papel
essencial de promover uma imunidade mais duradoura a partir de
diferentes mecanismos de resposta imune. Além disso, normalmente,
requerem múltiplas doses (independentemente da idade do animal) para
induzir o efeito desejado, ao passo que acarretam a formação imune mais
tardia e de menor potência em comparação às VVA.
Como visto, a justificativa pela qual são empregados adjuvantes
encontra-se na potencialização da resposta imune do hospedeiro. Entre os
mais recorrentes exemplos utilizados na vacinação humana e veterinária
estão os sais de alumínio, dentre os quais destacam-se hidróxido e fosfato.
Todavia, a utilização desses químicos permite a ocorrência de efeitos
adversos de gravidade variável, desde reações alérgicas e inflamatórias
locais à formação de granulomas que possivelmente progridem para
sarcomas de aplicação em gatos, por exemplo. Porém, evidências recentes
apontam que o alumínio dos adjuvantes não é, por si só, carcinogênico,
mas relacionado à inflamação que, por sua vez, promove a patogênese do
tumor local.
Vacinação inicial em ausência de MDA: com exceção da raiva
(comumente dose única e imunidade alcançada após cerca de 28 dias),
são aplicadas duas doses separadas por 3 a 4 semanas. A imunidade é
atingida aproximadamente de 7 a 10 dias após a última aplicação. Em
55
campanhas de vacinação, a indicação de dose de reforço em
primovacinados é empregada, haja vista a duração de imunidade (DI)
pós-vacinal, que varia conforme o conteúdo antigênico, tipo de vacina,
via de administração e a resposta imune específica do felino. Tais
alternâncias corroboram com o quadro comum de necessidade de
reforço, sendo que, em duração mais curta de imunidade, há
necessidade de 2 ou 3 doses na primoimunização.
VACINAS RECOMBINANTES:
Não há reversão de virulência. Integram bactérias ou vírus de sequências
genéticas recombinadas, possibilitando mecanismos de resposta antigênica
direcionada. A primeira vacina comercial produzida com a tecnologia
recombinante tipo 1 foi uma vacina contra o vírus da leucemia felina (FeLV).
O advento de inovações tecnológicas permitiu maior segurança, eficácia e
estabilidade nos produtos biológicos, sendo as técnicas empregadas pela
biologia molecular capazes de manipular genes selecionados codificadores
de antígenos-chave.
Dessa forma, a classe de vacinas recombinantes provém de diferentes
mecanismos de engenharia genética. Nesse contexto, as vacinas
recombinantes tipo 1 são advindas do desenvolvimento de proteínas
purificadas utilizadas na vacinação. As vacinas tipo 2, todavia, estão
relacionadas à atenuação de agentes vacinais. Por fim, as recombinantes
tipo 3 compreendem aquelas que não utilizam de patógenos vivos
atenuados, mas da inserção de fragmentos de DNA em vetores virais que
culminam no estímulo da imunização do hospedeiro. Tal modernização
tecnológica permitiu ainda a criação de vacinas de DNA que induzem a
imunização do hospedeiro a partir da inoculação de fragmentos de DNA
inseridos em plasmídeos.
Vacinação inicial em ausência
de MDA:
Raiva: dose única, imunidade após
28 dias.
FeLV: duas doses separadas por 3
a 4 semanas, imunidade atingida
de 7 a 10 dias após a última dose. Imagem: administração de vacina em felino
56
Vacinas disponíveis
Após explicitar as diferentes classes de vacinas existentes no mercado
(recomendadas, opcionais e não recomendadas), suas divisões (infecciosa e
não infecciosa) e duas das principais enfermidades por elas prevenidas
(raiva e FeLV), elas serão abordadas, individualmente, nos tópicos listados
abaixo:
HERPESVÍRUS FELINO (FHV)-1 (RINOTRAQUEÍTE):
Herpesvírus felino-1 (FHV-1; VVM, produtos sem adjuvante, parenterais
e intranasais estão disponíveis); FHV-1 (inativada, com adjuvante,
parenteral).
Essencial. As vacinas contra o FHV1/FCV contendo MLV (Modified Live
Virus - vírus vivo modificado) são essencialmente combinadas entre si,
seja como produtos bivalentes ou em combinação com antígenos
vacinais adicionais (por exemplo, o FPV).
CALICIVÍRUS FELINO (FCV) (CALICIVIROSE):
Calicivírus felino (FCV; VVM, produtos sem adjuvante, parenterais e
intranasais estão disponíveis); FCV (inativada, parenteral sem adjuvante;
contendo duas cepas de calicivírus); FCV (inativada, com adjuvante,
parenteral).
Essencial. As vacinas contra o
FHV1/FCV contendo vírus vivo
modificado (MLV) são combinadas
entre si essencialmente, seja como
produtos bivalentes ou em
combinação com antígenos vacinais
adicionais (por exemplo, o FPV).
Imagem: a calicivirose felina é uma
enfermidade de caráter respiratório que
afeta felinos domésticos
57
CLAMIDIOSE FELINA (CHLAMYDIA FELIS):
Clamidiose Felina; Chlamydia felis (avirulenta viva, sem adjuvante,
parenteral). Chlamydia felis (inativada, com adjuvante, parenteral);
Não essencial. Costuma ser utilizada sob regime de controle em
animais de abrigo (com múltiplos gatos), por exemplo, em que já houve
infecções associadas à doença clínica. Há relatos de que a inoculação
acidental na conjuntiva promove sinais clínicos de infecção.
VÍRUS DA LEUCEMIA FELINA (FELV):
Vírus da leucemia felina (FeLV; vírus Canarypox com vetor recombinante,
sem adjuvante, parenteal).
Não essencial. O teste do FeLV deve ser realizado antes da
administração, visto que gatos positivos para FeLV não devem ser
vacinados.
Vírus da leucemia felina: FeLV (inativada, com adjuvante, parenteral)
FeLV (subunidade de proteína recombinante, com adjuvante,
parenteral).
Não essencial. O teste do FeLV deve ser realizado antes da
administração da vacina, uma vez que gatos positivos para FeLV não
devem ser vacinados.
VÍRUS DA IMUNODEFICIÊNCIA FELINA (FIV):
Vírus da imunodeficiência felina (FIV; inativada, com adjuvante,
parenteral);
Não essencial. A vacinação induz a síntese de anticorpos indistinguíveis
dos desenvolvidos pela infecção pelo FIV, conforme detectado
clinicamente através de kits de teste. Foram relatados alguns testes
sorológicos discriminatórios.
BORDETELLA BRONCHISEPTICA:
Bordetella bronchiseptica (avirulenta viva, sem adjuvante, intranasal);
58
Não essencial.
A vacinação contra a Bordetella
bronchiseptica pode ser
considerada em circunstâncias
em que os gatos possam estar
sob risco específico de infecção
(por exemplo, gatos em
grandes grupos).
Imagem: Bordetella bronchiseptica
PERITONITE INFECCIOSA DO FELINO (FIP):
Peritonite infecciosa do felino (FIP; VVM, sem adjuvante, intranasal);
Não recomendada. Há limitados estudos desenvolvidos sobre a
temática. Somente animais comprovadamente negativos para o
anticorpo do coronavírus no período da vacinação são prováveis de
desenvolver algum grau de imunidade. Raramente um felino após as 16
semanas de idade encontra-se negativo para o anticorpo do
coronavírus.
ANTIRRÁBICA:
Raiva (vírus Canarypox - com vetor recombinante, sem adjuvante,
parenteral);
Essencial em áreas onde a doença é endêmica. Vacinas recombinantes
contêm vírus particularmente seguros, visto que possuem apenas o
gene da glicoproteína G do vírus da raiva, relevante para a proteção,
sendo avirulentas em todas as espécies aviárias e mamíferas testadas.
Os poxvírus (vaccinia e canarypox) e o adenovírus expressam a
glicoproteína, sendo rotineiramente aplicadas em gatos (vetor de
canarypox) pela via parenteral.
Raiva (inativada, produtos com adjuvante estão disponíveis, parenteral);
Essencial em áreas onde a doença é endêmica. Mais estáveis à
temperatura ambiente, a autoinoculação não determina riscos
(diferentemente das contendo VVM). Vacinas inativadas são regra
perante a proteção individual dos pequenos animais.
59
Mecanismos e duração da imunidade (DI) - ANTIRRÁBICA
A raiva felina é controlada sobretudo pelo uso de vacinas inativadas.
Entretanto, na Europa e nos Estados Unidos, a vacina antirrábica com vetor
canarypox recombinante é licenciada e amplamente usada em gatos por
não estar associada à inflamação no local da injeção causada pelas vacinas
antirrábicas com adjuvante (Day et al. 2007).
A DI após a infecção natural não pode ser avaliada, pois, após a infecção
com o vírus de campo, a doença é fatal tanto para gatos quanto para cães.
A DI após inoculação de produtos inativados e recombinantes
disponíveis no mercado é de 3 anos, conforme desafio e estudos
sorológicos realizados (Jas et al. 2012).
A titulação de anticorpos costuma alcançar níveis protetores semanas
após a vacinação. Quando forem necessários testes sorológicos, o intervalo
entre vacinação e teste é essencial e variável conforme o produto. A folha
de dados e os requisitos legais devem ser consultados.
Existem vacinas que protegem comprovadamente contra o vírus da raiva
por cerca de 3 anos, porém, a legislação nacional (ou local) pode exigir
reforços anualmente.
O Grupo de Diretrizes de
Vacinação (VGG) incentiva todos
os legisladores a formularem
políticas que concordem com os
avanços científicos. Algumas
vacinas podem possuir duração
da imunidade confiavelmente
restrita a 1 ano (antirrábicas
fabricadas nacionalmente, por
Imagem: recomenda-se a aplicação na cauda ou nos
exemplo). membros - torácicos e pélvicos.
60
Importância e orientações ao médico veterinário
Por fim, faz-se necessário ressaltar algumas diretrizes a serem seguidas
pelo profissional responsável e o tutor do felino, conforme as posições que
os competem.
Consideram-se aptos à vacinação animais clinicamente hígidos, com
apetite e comportamento padrão, com ausência de febre ou outras
alterações diagnosticadas após o exame físico, o qual deve ser
necessariamente realizado de forma completa antes da aplicação de
qualquer vacina no animal.
O ciclo de imunização felina é de caráter individual e extremamente
necessário à manutenção da saúde animal. Sendo assim, não há um
“calendário vacinal” padrão referente à espécie como um todo, mas sim um
protocolo variável conforme as necessidades e hábitos de cada felino.
É de fundamental importância que a vacinação, como procedimento
médico, propicie auxílio às necessidades de bem-estar felinas, sendo o
protocolo vacinal específico ao paciente e a execução deste restrita ao
médico veterinário, conforme a Resolução nº 1321 de 24 de abril de 2020,
emitida pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), no Art. 4º,
capítulo II: “É privativo do médico-veterinário atestar a sanidade, a
vacinação e o óbito dos animais.”
Imagem: o protocolo vacinal varia conforme a fisiologia própria de cada
felino
61
Apesar de muitas das vacinas serem comuns aos animais, o protocolo é
característico à fisiologia do indivíduo. A formação acadêmica confere ao
profissional saber intervir sobre as reações adversas que poderão vir a
acometer o gato. Vale lembrar, porém, que os benefícios da imunização
ativa superam com clareza tais riscos, que raramente acontecem. Para
melhor explicitar as diretrizes, recomenda-se a leitura completa da
resolução. Destaca-se, sobre essa temática, a “Seção II”:
Seção II: Da Carteira de Vacinação:
“Art. 6º A carteira de vacinação, além de observar o contido nos artigos 2º e
3º desta Resolução, deve conter:
I – data de cada ato de vacinação com a identificação do nome, número da
partida, fabricante, dose e data de fabricação e validade da vacina utilizada;
II – data prevista para a revacinação, quando for o caso.
§ 1º A carteira de vacinação do animal deve ser única, permanente e
atualizada pelo médico-veterinário responsável pelo ato de vacinação e
revacinação.
§ 2º O médico-veterinário deve se negar a dar continuidade no
preenchimento da carteira de vacinação quando esta não atender o
disposto nesta Resolução.
§ 3º A carteira de vacinação ou de aplicação de qualquer produto em
animal só pode ser assinada após concluído o trabalho.
§ 4º É facultado ao médico veterinário confeccionar a carteira de vacinação,
respeitado o disposto neste artigo”.
Por fim, vale acrescentar informações essenciais para o exercício das
aplicações. Indica-se que, a depender da vacina, as aplicações deverão ser
empregadas após a sorologia do felino para a patologia em questão, para
prevenção de reações desnecessárias. Desta forma, é importante lembrar
que felinos devem ser testados para FIV e FeLV antes de quaisquer
aplicações, visto que animais positivos para a última se encontram
imunossuprimidos e, por isso, é indicada a aplicação de vacinas que
inoculam vírus inativados.
Por via de regra, cabe ao médico veterinário oferecer ao proprietário a
indicação, para averiguar a titulação de anticorpos presentes para
imunidade protetora contra tais doenças, mas o tutor poderá fazer a
escolha a depender de sua disponibilidade financeira.
62
Local de aplicação
Além dos tipos de vacinas e
suas respectivas eficácias, há
outros fatores aos quais o
médico veterinário deve se
atentar, como a via de aplicação
utilizada. Essa via pode impactar
na eficácia e na durabilidade da
vacina e, por isso, deve ser
administrada de forma
Imagem: o gato e a vacinação.
adequada. De acordo com as
indicações do guia sobre
vacinação da American
Association of Feline Practitioners
(AAFP) de 2013, a aplicação deve
ser feita de forma subcutânea o
mais distal possível nos
membros torácicos, pélvicos ou
na região da cauda. Essa forma
de aplicação permite identificar
mais facilmente a presença de
sarcoma de aplicação, evitando
o desenvolvimento de tumores
e a consequente realização de
cirurgias em locais de maior Imagem: locais de aplicação recomendados e não
complexidade. Dessa forma, recomendados
caso ocorra o desenvolvimento de sarcoma de aplicação, os membros
podem ser amputados sem comprometer a sobrevivência do animal.
É contra indicada a aplicação da vacina na porção interescapular dorsal,
na qual a margem cirúrgica não é ideal. A aplicação intramuscular também
não é indicada, pois dificulta a identificação precoce de um possível
crescimento de tecido indesejado.
63
Algumas indicações de aplicações de vacinas são: para a vacina trivalente
de panleucopenia, herpesvírus e calicivírus, deve-se fazer a aplicação
debaixo do cotovelo direito; para o Vírus da Leucemia Felina (FeLV), faz-se
abaixo do joelho esquerdo; e para a raiva, abaixo do joelho direito.
Imagem: administração da vacina trivalente debaixo do
cotovelo direito.
Imagem: administração da vacina de FELV abaixo do joelho
esquerdo.
Imagem: administração da vacina da raiva debaixo do joelho
direito.
64
O guia de vacinação da WSAVA (World Small Animal Veterinary Association),
assim como o da AAFP, também indica a aplicação da vacina de FeLV o mais
distal possível na pata traseira esquerda e a da raiva o mais distal possível
na pata traseira direita. Outra opção, que aparenta apresentar uma maior
tolerância entre os felinos, é a cauda.
Um estudo realizado em
um grupo chamado TNR
(trap-neuter-return)
mostrou que gatos
adultos que receberam a
vacinação trivalente no
terço distal do rabo e a
antirrábica inativada a 2
cm de distância da
trivalente, tiveram todos
soroconversão para os
vírus da trivalente e quase Imagem: locais de Vacinação recomendados pela American Association
of Feline Practitioners (AAFP).
todos - apenas um não
apresentou - para o vírus da raiva. Outra opção também apresentada
nesse guia é a aplicação na pele lateral do abdômen.
Ademais, deve-se manter o registro do local de aplicação das vacinas de
cada felino para que possa haver uma rotação nos locais de aplicação. O
registro deve ser realizado no cartão de vacina ou no prontuário junto com
todas as doses e medicamentos aplicados e, desta forma, essas
informações podem ser usadas para revezar entre os locais de aplicação, o
que possibilita optar pela aplicação em um local e, no ano seguinte, alternar
entre outros. A conclusão geral sobre o local de aplicação é que existe um
consenso de que essa deve ser feita em locais que minimizem o impacto de
uma remoção cirúrgica de tumor causado por sarcoma, contudo, não há
um consenso sobre o local de aplicação considerado mais adequado; cada
um possui suas particularidades.
65
Dessa maneira, dentre as recomendações, sugere-se que ao montar o
protocolo de vacinação de um felino, sempre se deve levar em conta o risco
à patogênese do sarcoma do local de aplicação em felinos (FISS) e,
portanto, incluir principalmente as vacinas consideradas essenciais, que
são particulares de cada região, para evitar injeções desnecessárias. As
vacinas consideradas não essenciais devem ser analisadas pelo médico
veterinário responsável em cada caso, que deve avaliar o risco geográfico
de contaminação das respectivas doenças. Por exemplo, na região sudeste
do Brasil, onde há uma grande contaminação por FeLV, deve preocupar-se
com a vacinação específica, enquanto que na região norte, onde existe uma
menor contaminação, outros fatores devem ser levados em conta, como o
contato com outros animais e o bem-estar do felino. Dessa maneira, é
possível evitar aplicações desnecessárias que possam trazer problemas
futuros ao animal.
Nesse sentido, destaca-se que, em todos os guias citados anteriormente,
independentemente dos riscos de aplicação, os benefícios da imunidade
protetora os superam. Portanto, é muito importante que todos os felinos
sejam vacinados conforme seu protocolo individual, analisado por um
médico veterinário, de acordo com suas necessidades, levando em conta
idade, contato com outros felinos, estado nutricional, saúde, estresse,
dentre outros. Principalmente para vacinações essenciais, recomenda-se
que as aplicações da vacina trivalente, Raiva, FeLV e Chlamydia felina sejam
administradas de forma subcutânea. A trivalente também pode ser
administrada por via intranasal, assim como a de Peritonite Infecciosa
Felina (PIF) e a de Bordetella.
Sendo assim, a localização da aplicação vacinal deve ser de extremo
cuidado e, embora uma quantidade relativamente pequena de gatos seja
realmente afetada por efeitos adversos à forma de aplicação, é importante
prevenir o aparecimento de tumores relativos ao FISS que podem
prejudicar a qualidade de vida do paciente, podendo, até mesmo, levá-lo a
óbito.
66
Sarcoma de Aplicação
O sarcoma de aplicação é caracterizado pela presença de um nódulo
solitário firme ou difuso, no qual houve previamente a administração de
uma vacina ou fármaco. Desde 2013, o ano em que se fez as
recomendações sobre a aplicação em locais distais dos membros torácicos
e pélvicos no guia de AAFP, cujas observações foram amplamente adotadas
por clínicas veterinárias, houve uma guinada no cenário do sarcoma de
aplicação, visto que os tumores começaram a aparecer nos membros dos
felinos, possibilitando cirurgias de remoção mais bem sucedidas, como
esperado. As principais vacinas envolvidas com essa patologia são a
antirrábica, a de FeLV e, também, por via subcutânea e intramuscular, a
trivalente. Os felinos vacinados para FeLV possuem um risco três vezes
maior que os não vacinados para desenvolvimento do sarcoma. A maioria
dos tumores dessa condição são classificados como fibrossarcomas, sendo
esse tipo histológico mais comum em felinos, o qual pode, entretanto, se
manifestar de outras formas. Nessa classificação, existem dois tipos de
apresentação clínica: a solitária, na qual o vírus do sarcoma felino (FeSV)
não está envolvido, e o multicêntrico, presente em gatos mais jovens -
geralmente até os 4 anos - que é causado pelo FeSV, um Oncornavirus da
família Retroviridae. Os sarcomas de injeção são mais facilmente
diagnosticados em gatos de até 3 anos e a baixa prevalência dessa
neoplasia em relação ao número de vacinas administradas indicam fatores
inerentes ao paciente.
FATORES DE INFLAMAÇÃO E CARACTERÍSTICA
Imagem: felino com sarcoma de aplicação.
67
O sarcoma foi identificado pelo Serviço de Patologia Cirúrgica da
Universidade da Pensilvânia como muito frequente em locais de prévia
administração de vacinas e seus adjuvantes, compostos presentes em
alguns tipos de vacina e que parecem desempenhar papel na infecção. Os
compostos de alumínio presentes nestes adjuvantes, tendo em vista a
persistência imunológica e inflamatória desse produto, podem levar o felino
a desenvolver essas neoplasias, as quais apresentam acentuada a
moderada invasão no local em que se encontram, sendo raro o
acometimento dos linfonodos da área.
Geralmente, são massas estáveis que subitamente começam a crescer.
Apenas a inflamação causada pela vacinação não é suficiente para induzir a
neoplasia. Fatores que envolvem o paciente também interferem no
surgimento dessas massas, de forma que os fibroblastos e miofibroblastos
das células (que atuam na cicatrização) aparentam sofrer alterações na
presença de antígenos, como os dos adjuvantes da vacina, e se tornam
malignos, desenvolvendo o sarcoma. Os sarcomas de tecidos moles são
protuberantes, palpáveis e com consistência de semi firme a firme. São
encontrados na derme, no
tecido subcutâneo, no
tecido muscular e músculo-
facial mais profundo. Na
presença de qualquer
nódulo no local de
aplicação que persista por
mais de três meses após a
vacinação e que cresça
subitamente, desconfie do
Imagem: característica do nódulo resultante do sarcoma de
fibrossarcoma vacinal. aplicação.
DIAGNÓSTICO
Primeiramente, é preciso realizar uma anamnese referente às possíveis
aplicações vacinais ou as de outros medicamentos e comparar se coincide
com o local de surgimento do nódulo ou não. É importante perguntar
sobre o surgimento e o tempo de crescimento, bem como anotar o
tamanho, a cor e o aspecto geral da massa.
68
Para diagnóstico, é essencial a realização do exame histopatológico para
análise do material, mas também deve-se realizar os exames físicos,
checando a forma, consistência e aderência do nódulo. Além disso, deve-se
checar mucosas e tempo de preenchimento capilar, palpar linfonodos,
fazer auscultação, checar se há aumento do volume abdominal, entre
outros procedimentos realizados para um exame clínico completo.
Também são utilizados no diagnóstico a biópsia incisional, a tomografia, a
radiografia do tórax e a radiografia e ultrassonografia do abdômen para a
análise de metástases, que se manifestam comumente nos pulmões e nos
linfonodos. Apesar da patologia apresentar uma baixa taxa de ocorrência
de metástases (10-24%), é importante se atentar aos exames. A observação
por microscópio pode ser dificultada e, por isso, a tomografia
computadorizada ou a ressonância magnética podem ajudar na avaliação
do sarcoma e do seu contato com tecidos adjacentes e ossos, tornando-se
um auxiliar importante na preparação para ressecção cirúrgica.
Por fim, exames complementares como hemograma completo, bioquímico
e urinálise podem ser feitos para conhecimento da saúde geral do felino. A
sorologia do vírus da imunodeficiência felina (FIV) e FeLV, principalmente
FeLV, pode auxiliar na avaliação do prognóstico.
Imagem: características citológicas do FISS. Imagem: características histológicas do FISS.
69
TRATAMENTO
A abordagem para todos os casos de sarcoma é a ressecção cirúrgica, a
qual deve ter um planejamento prévio adequado para evitar chances de
recidivas, uma vez que, no caso dessa patologia, são altas: cerca de 30 a
70% em períodos aproximados de 6 meses. Em humanos e cachorros é
comumente utilizada a ressecção em blocos, mas isso não é possível nos
felinos, com exceção dos membros, que podem ser amputados. Assim, o
tratamento, independente do prognóstico, consiste na inicial ressecção
radical, porém, na presença de tumores grandes, ou seja, em prognósticos
desfavoráveis, não há como saber se apenas um procedimento cirúrgico
será eficiente e, por isso, o tratamento é comumente associado à
quimioterapia ou à radioterapia.
Essas são terapias que
devem ser associadas à
ressecção e não apresentam
muitas respostas isoladas. A
quimioterapia pré-operatória
tem o intuito de diminuir o
tumor e a pós-operatória de
aumentar o tempo livre da
doença, eliminando possíveis
Imagem: preparo para ressecção cirúrgica do sarcoma de
metástases. aplicação.
PREVENÇÃO
Como o sarcoma de aplicação possui um tratamento difícil, o ideal é
apostar na profilaxia. A prevenção consiste, como mencionado, em
elaborar um plano de vacinação adequado: não aplicar vacinas
desnecessárias e não vacinar para doenças de fácil manejo e tratamento
clínico. Assim, é essencial seguir os protocolos de vacinação indicados pelo
AAFP e WSAVA. Além de realizar a aplicação nos membros torácicos e
pélvicos da forma mais distal possível, o ideal é não misturar vacinas e não
aplicá-las no mesmo dia. Ademais, quando possível, evitar a via
intramuscular e utilizar a subcutânea para causar menos irritação nos
locais aplicados. O médico veterinário também deve alertar os tutores para
observarem o crescimento de qualquer massa no local de aplicação da
vacina ou do fármaco.
70
Efeitos colaterais das vacinas
De acordo com a Diretriz de Vacinação WSAVA, eventos adversos são
definidos como "quaisquer efeitos colaterais ou consequências não
pretendidas (incluindo falta de proteção) associadas à administração de
uma vacina [...]” e podem estar relacionados ou não à vacinação. Por isso,
todos os eventos adversos devem ser relatados, estejam diretamente
associados à vacina ou não. Qualquer lesão, toxicidade ou reação de
hipersensibilidade pode corresponder a efeitos colaterais, assim, é
recomendado que todos os médicos veterinários participem da vigilância
referente às vacinas, relatando todas as reações observadas ao fabricante
e/ou ao órgão regulamentador, se existir. Isso pois os fabricantes e os
órgãos regulamentadores só conseguem observar efeitos tardios a partir
dessa comunicação e é por esse meio que são alertados para eventuais
problemas relacionados à segurança e à eficácia de seu produto, o que
pode levar a investigações adicionais. Dessa forma, mais estudos
epidemiológicos e laboratoriais irão complementar as informações sobre a
vacina em questão, inclusive recriando-a de acordo com os efeitos
adversos encontrados e fornecendo, assim, mais segurança aos animais.
PREVALÊNCIA DE EFEITOS ADVERSOS PÓS VACINAÇÃO
Como todo produto biológico, a vacina não é desprovida de risco.
Entretanto, dentre as vacinas atualmente disponíveis no mercado, as felinas
apresentam bons registros de segurança e de eficácia. Os sintomas mais
comuns após a vacinação são: letargia, anorexia, febre e inflamação local na
região de aplicação. Em alguns casos, pode haver anafilaxia, embora não
seja muito comum. Os efeitos adversos são raros em felinos, apesar disso
poder ser, em parte, relacionado ao descuido de médicos veterinários e
tutores em relatarem os efeitos colaterais aos órgãos responsáveis. Um
estudo realizado no hospital Banfield Pet Hospitals nos EUA, de 2002 a 2005,
em que 0.5 milhões de gatos foram vacinados e as reações adversas
coletadas dentro de 30 dias, apresentou uma taxa de 0.52% de efeitos
adversos. Cerca de 92% desses eventos ocorreram nos 3 primeiros dias
após a aplicação e o principal efeito coletado dentre 1699 de 2560 gatos foi
a letargia (54%). Outros efeitos foram dor ou inchaço no local de
71
aplicação (25%), vômito (10%), edema facial ou periorbital (6%) e prurido
generalizado (2%). Quatro gatos vieram a óbito, sendo dois deles atribuídos
à anafilaxia. Nesse estudo, nenhuma vacina foi considerada mais reativa. O
risco foi maior entre gatos com aproximadamente 1 ano de idade e entre
aqueles que receberam
vacinas diferentes
concomitantemente. Em
outros estudos, a taxa de
reação fica entre 1 e 3%,
mas isso pode variar de
acordo com o uso de
produtos diferentes,
modo de aplicação e
com a forma de vigilância
Imagem: gato apresentando vômito, um dos possíveis efeitos colaterais da
do país. vacina.
REAÇÕES ALÉRGICAS E MONITORAMENTO PÓS VACINAÇÃO
Apesar de raras, a anafilaxia ou reações alérgicas são as reações
adversas mais comuns após a vacinação. Nos gatos, essa reação pode se
manifestar como diarreia, vômito, dificuldade respiratória, prurido facial ou
generalizado, inchaço facial ou colapso. Em casos como esses, a
revacinação deve ser evitada já que a reação costuma ser uma
hipersensibilidade a algum ingrediente vacinal. Contudo, caso não seja
possível, é indicado que se use um tipo de vacina diferente. O médico
veterinário também pode pré medicar o paciente com antialérgicos, como
anti-histamínico e glicocorticóide (2020 AAHA/AAFP Feline Vaccination
Guidelines), 20 minutos antes da aplicação e mantê-lo na clínica ou hospital
para observação após vacinado. Além disso, recomenda-se que os
veterinários e tutores monitorem os gatos pós vacinação usando o método
“3,2,1” em que é necessário fazer biópsia em qualquer massa presente se:
(3) permanece presente até 3 meses após a vacinação; (2) possui mais de 2
cm de diâmetro e (1) está aumentando de tamanho 1 mês após a
vacinação. Caso o felino apresente massa com algum desses critérios, o
ideal é que a biópsia não seja feita por punção aspirativa de agulha fina,
pois esse método geralmente não consegue identificar a patogênese do
sarcoma do local de injeção, aumentando o risco de mortalidade por essa
patologia.
72
ANOTAÇÕES
73
Módulo 4 - Manejo Nutricional
Alimentação úmida x seca:
Devido a sua praticidade, as rações secas são as mais utilizadas pelos
tutores. Esse tipo de alimento possui maior durabilidade, pois pode ser
armazenado à temperatura ambiente e permanecer por mais tempo na
vasilha em que o animal se alimenta.
Imagem: gato se alimentando em um comedouro
Os preços são bastante variáveis, tendo em vista a existência de diversas
categorias, tal como as rações “standard”, “premium” e “super premium”; além
das categorias com especificidades de acordo com a idade e higidez do
felino. As rações standard são de menor custo devido aos tipos de
ingredientes usados em sua formulação, porém, possuem menor
digestibilidade e absorção de nutrientes, sendo necessário ofertá-las ao
animal com maior frequência. Já as rações premium possuem maior
absorção e aproveitamento pelo animal devido a sua maior qualidade
nutricional, que proporciona diversos benefícios para pele, para os pelos e
para o trato intestinal, por exemplo. Essa categoria de ração pode ser
ofertada em menor quantidade ao longo do dia, gerando, ainda assim,
sensação de saciedade. Por fim, as rações super premium, apesar de seu
preço mais elevado, possuem em sua composição ingredientes
selecionados que proporcionam alta digestibilidade, além de excelente
qualidade voltada para a saúde e para o bem-estar animal.
74
Os felinos são animais que, naturalmente, ingerem menos água e têm
maior tendência a doenças renais. Isso ocorre pois são menos sensíveis à
desidratação e levam mais tempo para restabelecer seu balanço hídrico
através do consumo espontâneo de água. Ademais, são capazes de
produzir urina mais concentrada, o que os ajuda a compensar a perda
excessiva de água. Todas essas adaptações indicam que a baixa ingestão
hídrica notada no comportamento dos felinos decorre de seu processo
evolutivo a partir de carnívoros que habitavam zonas desérticas.
Desse modo, a melhor maneira de garantir o consumo adequado de
água por esses animais é através da oferta de água fresca e limpa a todo
momento e, também, por meio da introdução de uma dieta úmida. Além do
cheiro e do sabor mais atraentes para os felinos, esse tipo de alimentação
possui maior grau de umidade e uma textura macia, o que facilita a
trituração e a deglutição pelos gatos, principalmente pelos filhotes e pelos
idosos. Essa dieta, no entanto, pode gerar custos mais elevados e
apresentar menor durabilidade pois requer armazenamento mais
cauteloso, o que talvez seja mais trabalhoso para tutores que permanecem
longos períodos fora de casa.
Imagem: comedouro com ração úmida e comedouro com ração seca.
Dessa forma, o ideal seria a combinação das dietas, levando sempre em
conta as especificidades nutricionais de cada gato, avaliadas por um
médico veterinário capacitado. A avaliação de um profissional é sempre
necessária, sendo imprescindível também caso haja interesse em introduzir
uma alimentação mais natural ou mais orgânica (não proveniente de
processamento industrial), para que não ocorra nenhum déficit nutricional
durante esse manejo.
75
Perigos da ração a granel e riscos dessa alimentação
As rações a granel são aquelas que ficam disponíveis em grandes
compartimentos nas lojas especializadas e são pesadas de acordo com a
demanda do cliente. Esse tipo de alimentação surgiu com o intuito de gerar
menores custos aos tutores, tendo em vista que não há gastos com
embalagens. Entretanto, as rações nessas condições ficam expostas ao
ambiente, podendo ser contaminadas por microrganismos, sobretudo, por
bolores e leveduras, o que pode causar a perda de seus nutrientes.
Por isso, torna-se
perceptível uma diferença
no índice de vários
compostos em
comparação à indicação
no pacote original. Dessa
forma, apesar da elevação
no preço, a embalagem
industrial é essencial para
garantir a durabilidade e a
qualidade do alimento
oferecido ao animal. Imagem: expositor de ração a granel
Além disso, comumente, as rações de menor custo (standard), que são
ofertadas nessas condições, possuem corantes alimentícios em sua
formulação com o intuito de melhorar a aparência desses alimentos.
Todavia, esses compostos não possuem valor nutricional algum e podem
aumentar os índices de sódio no alimento, bem como diminuir a carga
proteica, além de ocasionar alergias, indigestão e problemas mais graves a
longo prazo, como o comprometimento das vias urinárias. Sendo assim,
esse tipo de alimentação pode e deve ser eliminado da dieta dos felinos
domésticos.
76
Aspectos essenciais das rações para gatos
Os rótulos das rações são de extrema importância para os tutores, uma
vez que grande parte desses consumidores dependem exclusivamente das
informações ali contidas para avaliar o valor nutricional e a palatabilidade
do alimento que irão fornecer ao seu animal.
Ao observarmos a composição de uma ração, é necessário notar os
chamados “níveis de garantia”. O Ministério da Agricultura exige que seja
declarado nos rótulos os seguintes níveis: umidade (máx.); proteína bruta
(mín.); extrato etéreo (gordura - mín.); fibra bruta (máx.); matéria mineral
(máx.); cálcio e fósforo (mín.). As rações standard apresentam valores mais
próximos do mínimo recomendado para proteínas e gorduras, e mais
próximos do máximo recomendado para fibras, matéria mineral e cálcio. As
rações premium possuem níveis intermediários, enquanto que as super
premium têm níveis elevados de proteína e de gordura e níveis inferiores
de fibras e de material mineral. Ao analisarmos os níveis de garantia de
uma ração, devemos observar o quanto eles se afastam dos mínimos e dos
máximos. A Fediaf (Federação Europeia da Indústria de Alimentos para
Animais de Estimação) recomenda níveis proteicos para gatos no mínimo
entre 25 e 33%, e de gordura no mínimo 9%.
Ao tentar decidir entre rações com níveis de garantia e ingredientes
semelhantes, é possível escolher a melhor por meio da análise de presença
de ingredientes funcionais, os quais além de funções nutricionais básicas,
geram também benefícios fisiológicos e metabólicos. Os mais frequentes
nos alimentos de felinos são os prebióticos; os probióticos; os
antioxidantes naturais; a L-carnitina; a glucosamina; a condroitina; os ácidos
graxos poli-insaturados e os minerais quelatados. Todos esses compostos
são mais comumente encontrados em rações super premium, uma vez que
sua adição eleva o preço do alimento.
Além disso, é imprescindível observar não somente um nível proteico
elevado, mas também quais e quantas são as fontes dessas proteínas. As
proteínas de origem animal possuem alta palatabilidade, digestibilidade e
são ricas em aminoácidos essenciais. Contudo, quando avaliamos outras
fontes, como farinhas de carne e de ossos, as mais utilizadas pela indústria,
77
elas podem conter matéria mineral acima do recomendado na
alimentação. Um modo de reduzir esse problema é associando as fontes
de origem animal com as de origem vegetal.
Nesse contexto, também é válido analisar as fontes de carboidratos.
Arroz, milho e sorgo são ingredientes energéticos que apresentam boa
digestibilidade para gatos. Outros ingredientes, como farelo de trigo e de
arroz, são menos energéticos e podem apresentar excesso de fibras, que
são de grande importância, porém, sempre na quantidade adequada e sem
exageros.
Com relação à quantidade de gordura, suas fontes podem ser animal ou
vegetal. A maioria das rações possui ambas, o que as tornam mais
palatáveis, mas encarecem o produto. Rações standard contêm níveis bem
próximos aos mínimos recomendados, enquanto as super premium
contêm níveis mais elevados. A gordura é a principal fornecedora de
energia em rações, então, deve estar presente em todos os alimentos para
gatos em quantidades moderadas, conforme os parâmetros. De maneira
geral, os alimentos com quantidade muito baixa de gordura são de
qualidade inferior, exceto quando se trata das rações light, indicadas para
casos específicos a depender de cada animal.
Sobre o processamento do alimento industrializado, é necessário que
ele esteja bem moído e cozido. Ao partir o grão da ração, é possível notar
que os de melhor qualidade não apresentam partículas grandes ou mal
processadas em seu interior, mas são homogêneos e aerados. Além disso,
os de qualidade superior não geram quantidade excessiva de pó no fundo
da embalagem.
Por fim, deve-se notar que algumas rações, sobretudo as standard e
algumas premium, contêm uma lista de substitutivos, ingredientes que não
fazem parte da composição básica do produto, mas que o fabricante pode
acrescentar a qualquer momento. Isso não indica que a ração é de má
qualidade, no entanto, a qualidade desses substitutivos deve ser
individualmente avaliada. Caso sejam poucos ingredientes e todos eles de
qualidade igual ou superior àqueles da composição básica, não há
problemas. Mas caso sejam em quantidade muito grande e de qualidade
inferior, essas rações devem ser evitadas.
78
Obesidade
A obesidade é um problema muito recorrente em cães e gatos e pode
ser descrita como uma patologia na qual o acúmulo de gordura corporal é
a principal característica, sendo esse acúmulo danoso à saúde do animal,
como afirma German (2006). Segundo Carciofi (2005), as causas da
obesidade podem ser divididas em naturais ou adquiridas, sendo as
naturais fatores genéticos, raça, idade e alterações hormonais; enquanto as
causas artificiais são exemplificadas pelo sedentarismo/falta de atividade
física, castração, utilização de medicamentos e pela oferta irresponsável de
alimentos. Outro ponto importante demonstra o tutor como a principal
causa de vícios alimentares do animal (Aptekmann et al., 2014).
Além disso, o ambiente
também é outra variável
imprescindível, uma vez
que esse influencia
diretamente nos hábitos,
no comportamento e na
alimentação do animal, o
que pode ocasionar a
obesidade. Imagem: gato com obesidade
Segundo Feitosa et al. (2015), a obesidade está intimamente relacionada
ao manejo nutricional e a deposição anormal de gordura, no entanto, caso
não seja tratada, pode ocasionar o aparecimento de doenças secundárias,
as quais desencadeiam respostas do sistema imunológico, digestivo,
cardiovascular, respiratório e osteoarticular. Consequentemente, há a
diminuição da qualidade e da expectativa de vida do animal, além de deixá-
lo mais suscetível a patologias de caráter infeccioso. Ademais, em casos de
procedimentos cirúrgicos, a obesidade pode agir como complicador
durante a realização (Lazzarotto, 1999).
Dessa forma, o manejo nutricional dos gatos torna-se muito importante
para o manuseio da doença. Assim, como exemplo, o cálculo da ração é um
dos fatores para o sucesso do tratamento da obesidade que tem por
objetivo provocar a redução do peso corporal dos animais.
79
No entanto, para que o manejo alimentar, visando a perda de peso, seja
instituído é muito importante que seja feito um levantamento do histórico
completo do animal por meio de uma anamnese detalhada e por meio da
realização de exames laboratoriais, como urinálise, proteína total e
fragmentada, perfil hepático, prova de função renal, hemograma, e, se
possível, eletrocardiograma e radiografias, principalmente em animais
idosos ou excessivamente obesos. Essas informações são importantes para
identificação do estado geral do animal e também do estado endócrino,
bem como para a avaliação de complicações patológicas secundárias que
podem necessitar de adaptações específicas durante o processo de
emagrecimento (Lazzarotto, 1999).
Os tutores desempenham papel fundamental durante o tratamento.
Sendo assim, eles devem adotar a postura de não oferecerem ao animal
nenhum tipo de alimento que não esteja dentro do planejamento
estratégico e de seguirem rigorosamente o plano de exercícios físicos,
determinando assim o sucesso do tratamento (Mendes et al., 2013).
O manejo nutricional deve ser feito de forma que haja um aporte calórico
estrito, como foi relatado por Case et al. (2010). Foi analisado que uma
redução de 60 a 70% da quantidade de calorias para gatos seja necessária
para que haja a perda de 1,0 a 1,5% do peso corporal a cada semana. No
entanto, é analisado que uma perda superior às porcentagens propostas
pode gerar complicações secundárias, como a lipidose hepática felina, a
qual é consequência do catabolismo acelerado de gorduras. Para que isso
seja evitado, é necessário que se reavalie o peso do animal com frequência
e, caso necessário, podem ser feitas modificações na dieta de modo a
acompanhá-lo durante o processo de emagrecimento. Segundo Freeman et
al. 2011 e Veiga (2008), com a restrição alimentar espera-se que haja uma
redução de 15% do peso corporal em um período de 10 a 20 semanas.
TRATAMENTO DA OBESIDADE FELINA
Normalmente, as dietas devem apresentar níveis elevados de proteína
como energia metabolizável (EM) e baixos níveis de gorduras e
carboidratos. Um gato obeso normalmente deve consumir entre 130 a
150kcal/dia para poder estimular a perda de peso. Deve-se atentar para o
80
fato de que essa redução deve ser de gordura e não de massa magra,
portanto, manter os níveis protéicos na ração é muito importante para essa
manutenção. Nesse caso, muitas rações úmidas podem ser consideradas
prejudiciais à dieta, pois, além de apresentarem alta taxa de gordura e
calorias, seus constituintes protéicos não apresentam boa digestibilidade e
absorção (ZORAN, 2009).
A suplementação com L-carnitina é importante e auxilia na manutenção
da massa magra durante a perda de peso. A L-carnitina estimula a oxidação
de gorduras liberando energia para síntese de proteínas quando
necessário (GERMAN, 2010) e auxilia no transporte de ácidos graxos para
as mitocôndrias, onde ocorre a conversão em energia (GUIMARÃES &
TUDURY, 2006).
A perda de peso de forma rápida deve ser evitada em animais obesos,
por estimular o catabolismo e ocasionar, possivelmente, a instalação de
doenças metabólicas permanentes. Portanto, é importante estabelecer os
níveis calóricos a serem administrados durante o tratamento. Para isso,
pode-se utilizar a fórmula matemática:
DER (Kcal ME/d) = RER x 0,8
Sendo DER o quanto de energia deve ser perdido por dia, multiplicado
pela ME, que corresponde a energia metabolizável por dia, que é igual a
energia necessária em repouso (RER, que corresponde à [70x IMCF
(Kg)0,75] x 0,8) (BECVAROVA, 2011).
Outra forma de cálculo para o estabelecimento do tratamento da
obesidade é dividido em fases que estabelecem quantas calorias devem ser
consumidas pelo animal e quantas gramas de ração ele precisará consumir
por dia, facilitando o estabelecimento do tratamento. Porém, esse
tratamento deve ter um acompanhamento semanal para o
estabelecimento de novos parâmetros e ajustes (GUIMARÃES & TUDURY,
2006).
81
Tabela - adaptada: exemplo de programa de emagrecimento e controle da obesidade felina.
Disponível em: GUIMARÃES & TUDURY, 2006
Ademais, o estímulo à atividade física é outro ponto importante a ser
considerado, mas isso não é uma tarefa fácil, e envolve uma mudança na
rotina do gato que causa a redução de horas de sono. O estímulo pode ser
por meio de brinquedos, penas em hastes, casas para animais, túneis,
prateleiras de acesso, bolas de liberação gradual de alimento; com atenção
à quantidade de ração que está contida na dieta do animal. O estímulo
para o animal andar, pular e realizar atividades físicas é necessário, mas
deve ser realizado de forma tranquila para evitar possíveis estresses e
comportamentos agressivos ao animal. Assim, o proprietário precisa ter
insistência, em virtude dos gatos serem teimosos quanto às mudanças de
estilo de vida (Germany, 2010).
De acordo com Becvarova (2011), as avaliações metabólicas devem ser
realizadas também como forma de avaliação da condição metabólica do
animal, a fim de se analisar uma possível melhora ou a presença de um
catabolismo exagerado, o que pode refletir na perda de massa magra e no
desenvolvimento de doenças.
82
Ingestão de água
A água é um dos nutrientes mais importantes para a sobrevivência dos
seres vivos. Mesmo que um animal perca quase toda a sua gordura
corporal, e mais da metade de suas proteínas, ele ainda consegue
sobreviver. No entanto, caso o animal perca cerca de 10% da água corporal,
isso resultaria em sua morte. A água está em grandes porcentagens no
corpo dos animais e dos seres humanos, sobretudo, localizada em órgãos,
tecidos e células, onde possui funções essenciais à vida, por exemplo, na
ocorrência da maioria dos processos metabólicos e das reações químicas,
na atuação como um solvente que facilita as reações celulares, como um
meio de transporte para substâncias e gases essenciais à respiração e por
possuir um alto calor específico que absorve o calor gerado pelas reações
metabólicas. Contribui, ainda, para a regulação da temperatura corporal,
participa do processo de digestão e de hidrólise de macromoléculas, facilita
a interação entre componentes dos alimentos com as enzimas digestivas e
participa da excreção de substâncias pelo rim.
Todos os animais sofrem perdas diárias de água que ocorrem por meio
da via urinária, por meio da urina; da via digestiva, por meio das fezes; da
via respiratória, durante a respiração, e por meio dos processos de
regulação da temperatura corporal, que liberam água. Em virtude disso
tudo, o consumo de água deve ser realizado de forma a suprir essas
perdas. Dessa forma, a ingestão de água por um animal de estimação é
feita a partir de três fontes possíveis.
1. Água presente em alimentos;
2. Água metabólica;
3. Água potável.
Nesse sentido, a ração comercial seca pode conter até 7% de água; já as
dietas úmidas, contém cerca de 84%. Isso exemplifica que, dentro dos
limites, aumentando-se o teor de água de um alimento, esse torna-se mais
aceitável pelo animal, o que é exemplificado pelo aumento do consumo da
ração seca quando o proprietário adiciona um pouco de água antes da
alimentação, conforme analisado por Case et al. (2011). Assim, um estudo
83
comprovou que cães e gatos conseguem viver sem fonte de água potável,
apenas com o consumo de dietas com teores de água superiores a 67% de
umidade. Os cães e gatos possuem a habilidade de compensar as
mudanças da quantidade de água de forma eficiente, aumentando ou
diminuindo a ingestão da água. Analisando isso, os gatos são menos
assertivos quanto a essa habilidade, o que faz com que sejam mais
propensos a consumir menores quantidades de água em comparação aos
cães.
Água metabólica é a água produzida durante a oxidação dos nutrientes
que contêm energia no corpo. O oxigênio se combina com os átomos de
hidrogênio contidos em carboidratos, proteínas e gorduras para produzir
água. O metabolismo da gordura produz a maior quantidade de água
metabólica com base no peso, e o catabolismo da proteína produz a menor
quantidade. A taxa de água metabólica depende da taxa metabólica de um
animal e de seu tipo de dieta. Mas, independentemente desses fatores, a
água metabólica é bastante insignificante porque é responsável por apenas
5% a 10% da ingestão diária total de água da maioria dos animais ( CASE et
al., 2011).
A última fonte de ingestão de água é a ingestão voluntária, sendo essa
dependente de fatores externos, como a temperatura do ambiente, o tipo
de dieta, o nível de exercício físico, o estado fisiológico e a saúde do animal.
Com isso, tem-se que há um aumento do consumo de água com o
aumento da temperatura do ambiente ou com o aumento do exercício
físico, por exemplo. Além disso, a quantidade de calorias consumidas é
outro fator relevante, visto que, se a ingestão de energia aumenta, mais
resíduos metabólicos são produzidos e o calor produzido pelo
metabolismo de nutrientes expande. Nessas circunstâncias, o corpo requer
mais água para excretar resíduos na urina e para contribuir com a
termorregulação ( CASE et al., 2011).
O tipo e a composição da dieta também podem afetar a ingestão
voluntária de água. O aumento do teor de sal da dieta causa um aumento
na resposta do consumo em cães e gatos. Quando o nível de sal na dieta
de um grupo de felinos aumenta de 1,3% para 4,6%, a ingestão voluntária
84
de água quase dobra. Geralmente, se água fresca e limpa e quantidades
adequadas de uma dieta bem balanceada estão disponíveis, a maioria dos
animais de estimação saudáveis é capaz de regular com precisão o
equilíbrio da água por meio de ingestão hídrica (CASE et al.,2011).
Imagem: gato ingerindo água
Gratificação, comedouros alternativos, enriquecimento alimentar
Dentro do manejo nutricional para gatos, nota-se uma relação direta com
enriquecimento ambiental, haja vista que consiste na identificação e na
promoção de estímulos que estavam ausentes e que são necessários para o
bem-estar físico e psicológico do animal. Nesse sentido, o enriquecimento
ambiental é parte de um processo dinâmico que inclui mudanças
estruturais no ambiente e no manejo de práticas de incentivo a fim de
aumentar oportunidades de escolha de comportamentos específicos da
espécie, como afirmou Shepherdson (1998, 2003), podendo ser naturais ou
desenvolvidos.
Para promover o bem-estar animal, as práticas de enriquecimento
ambiental reduzem o estresse causado pelo ambiente cativo, identificando e
minimizando recursos que causem estresse crônico e/ou promovendo
assistência para que os animais criem habilidades para lidar com estímulos
promotores de estresse agudo (Mellen & MacPhee, 2001; Vasconcellos,
2009).
Enriquecer o ambiente para felinos em cativeiro, por exemplo, em
zoológicos, implica um conhecimento prévio sobre os aspectos desses
carnívoros, principalmente os relacionados ao forrageamento baseado na
caça e conectado à extensa ocupação territorial (Quirke et al., 2013; Skibiel et
al., 2007).
85
Dessa forma, segundo Mellen e Shepherdson (1997), a preparação das
técnicas de enriquecimento para felinos devem conter práticas que se
assemelham à condições similares às presentes no ambiente natural
desses animais, como a introdução de um mesmo tipo de substrato, de
vegetação e de áreas elevadas para que os felinos possam escalar e
ocupar. Além disso, devem promover oportunidades para os animais
receberem alimentos como consequência de suas ações, a partir de
técnicas que envolvam a resolução de problemas e, assim, a aprendizagem.
As práticas de enriquecimento ambiental podem ser classificadas em
cinco categorias: cognitiva (ocupacional), alimentar; sensorial, social e
estrutural (físico). Assim, uma maior ênfase será dada à categoria de
enriquecimento alimentar, sendo esse o foco neste momento.
Felinos são os carnívoros mais especializados, adaptados para serem
excelentes predadores, o que significa que os comportamentos
relacionados à caça são essenciais para esses animais (Bashaw et al., 2003;
Szokalski et al., 2012; Wooster, 1997). Os métodos que incluem a
introdução de novos itens, pequenas mudanças na rotina e no
fornecimento dos alimentos podem estimular o comportamento de caça,
quando são projetados para esse fim (Szokalski et al., 2012). Além de
estimular os comportamentos envolvidos na caça, esses enriquecimentos
também ajudam a reduzir o estresse e a expressão de comportamentos
anormais, bem como a aumentar a atividade e os comportamentos
exploratórios (Ellis, 2009). Por fim, outro ponto importante e que pode
auxiliar no enriquecimento alimentar é a alternância do tempo de
alimentação, o que diminui a previsibilidade do animal, reduzindo assim o
Pancing. Pacing, caracterizada pelo andar de um lado para o outro ou em
uma mesma rota em alta frequência e sem função aparente, é a
estereotipia mais frequente em felinos cativos e pode representar até 23%
da atividade destes animais nesse tipo de ambiente (Mohapatra et al.,
2014).
As estratégias de enriquecimento alimentar são consideradas como as
principais e como a categoria de enriquecimento mais utilizada pelas
instituições, de acordo com uma pesquisa realizada em 25 zoológicos na
Austrália, Nova Zelândia, Cingapura e Reino Unido (Hoy et al., 2010).
86
De acordo com o Manual de Boas Práticas na Criação de Animais de
Estimação, a alimentação fracionada é fundamental, principalmente em
comparação a um pote transbordando de ração, que pode deixar a ração
do fundo velha e com perda de palatabilidade, o que desestimula a
alimentação e é um fator para o desenvolvimento da obesidade. Assim,
para que o enriquecimento ambiental seja o mais efetivo, a distribuição das
porções do alimento em vários potes distribuídos no ambiente, é de
extrema importância. O mesmo deve ser feito com a água, mas esta deve
ser oferecida de forma irrestrita e de boa qualidade. O uso de potes
interativos que estimulam atividades no animal durante a alimentação são
recomendados, de acordo com o Manual citado anteriormente. Dessa
forma, a dieta pode ser oferecida em quatro porções diárias, diminuindo
assim o “tédio” e criando uma expectativa no animal para o momento da
alimentação que, consequentemente, ocasionará um aumento na
satisfação do animal ao se alimentar e promoverá uma diversidade de
comportamentos. Logo, alimentos e água em locais altos são considerados
os preferidos dos felinos.
Imagem: gato interagindo com alimentadores quebra-cabeça
87
Enriquecimento ambiental e bem-estar animal
O enriquecimento ambiental foi apresentado originalmente em
zoológicos com o intuito de aumentar a qualidade de vida dos animais em
cativeiro. Esse objetivo se manteve, porém, com o crescimento da
quantidade de animais domésticos e de animais de companhia, que
ocasionou também o aumento de uma demanda por parte dos tutores de
melhorar o bem-estar animal, sobretudo, por meio do enriquecimento
ambiental. Nesse sentido, um dos pilares principais do enriquecimento
relaciona-se ao comportamento natural da espécie, uma vez que é
imprescindível para a melhor escolha das adaptações ao ambiente.
O enriquecimento ambiental alimentar tem como objetivo fornecer o
alimento, ou novos tipos de alimentos, de forma que o comportamento
natural do animal seja estimulado, o que pode melhorar a experiência da
alimentação. Como exemplos, pode-se fazer alterações nas escalas de
alimentação, de modo que o animal não consiga prever temporalmente e
espacialmente esse momento, ou seja, não crie a antecipação "pré-
alimentação''. Assim, o enriquecimento ambiental alimentar é um dos mais
utilizados, visto que é mais aceito pelos gatos.
Ademais, outras formas de enriquecimento também são de extrema
importância, como o uso de incentivos para estimular os sentidos do
animal pela aplicação de cheiros, sons, texturas e imagens com o objetivo
de estimular o olfato, a audição, o tato, e a visão, respectivamente.
Outro ponto importante está no enriquecimento cognitivo, o qual
envolve problemas que induzem o animal a resolvê-los e, assim, a
exercitarem-se mentalmente, promovendo, posteriormente, premiações e
recompensas que estimulem o comportamento.
O enriquecimento ambiental social relaciona-se com a integração entre
os indivíduos, o qual pode ser interespecífico, com indivíduos de outras
espécies, ou intraespecífico, com indivíduos da mesma espécie. Por fim,
tem-se o enriquecimento ambiental físico, o qual consiste na modificação
estrutural do ambiente de forma temporária ou permanente.
88
Nos carnívoros domésticos, principalmente no gato, apesar de não
possuir a necessidade de caçar para suprir suas demandas alimentares e
energéticas, o padrão de alimentação possui características relacionadas à
caça. A caça para os felinos domésticos ocorre por estímulo, e não é
associada unicamente ao estado de saciedade do indivíduo, ou seja, a
saciedade não inibe o comportamento de caça, sobretudo quando se
relaciona à fase consumatória - realização da ação. No entanto, a fome é
um fator facilitador, uma vez que estimula a fase apetitiva, de acordo com
Mentzel (2013).
Os gatos são caracterizados como carnívoros estritos, por isso, há
necessidade de um requerimento proteico maior em comparação a outros
felinos. Além disso, possuem uma menor capacidade mastigatória, o que
faz com que a textura do alimento torne-se algo importante para a
aceitação do animal. Os gatos são caçadores solitários de pequenas presas
e seu paladar é pouco desenvolvido em comparação com o dos seres
humanos, devido a um número menor de papilas gustativas. Como
preferência alimentar, os gatos preferem alimentos em temperaturas de
30°C, o que se aproxima do comportamento natural desses em consumir
presas recém-mortas, haja vista que o aquecimento deixa a presa com um
sabor mais agradável e aumenta a liberação de ácidos graxos voláteis.
NECESSIDADES AMBIENTAIS
Os gatos precisam de oportunidades para exibir comportamentos
lúdicos e predatórios, o que faz com que necessitem de uma rotina com
brincadeiras curtas e frequentes. Há também a necessidade de brinquedos
com que possam brincar sozinhos, além daqueles que dependem da
interação com os humanos. Em relação aos comportamentos predatórios
naturais, a alimentação pode ser feita de forma que estimule o animal a
mimetizar a caça, utilizando da exploração, perseguição, tocaia, captura e
do consumo de alimentos (Ramos, 2014). Ainda, é preciso que o ambiente
seja seguro, com áreas privativas, protegidas, reclusas e altas. Isso tanto
para os ambientes internos quanto externos, de forma que se passe a
impressão de segurança e isolamento ao animal, de maneira que o gato
possa monitorar o espaço, fazer o controle do ambiente, manter a
preservação da sua individualidade, relaxar e descansar.
89
Por fim, é de extrema importância que se tenha ambientes com
recursos múltiplos e separados, como alimento, água, caixa sanitária,
pontos para observação, brinquedos e arranhadores nos ambientes
internos e externos; tanto para gatos que vivem sozinhos, quanto para
gatos que vivem em grupos. Assim, ocorre a promoção das interações
positivas, regulares, consistentes, previsíveis, além de um ambiente
compatível às capacidades sensoriais do gato, como a olfação, audição,
visão ou detecção de feromônios (Ramos, 2014).
APLICAÇÕES PRÁTICAS DO ENRIQUECIMENTO AMBIENTAL PARA GATOS
Enriquecimento alimentar
1. Adição de carne na dieta
Utilização de pedaços de carne cozidos sem sal nem temperos, são
uma boa opção de enriquecimento ambiental alimentar para gatos,
assim como pedaços congelados. Um ponto importante é a checagem
da procedência da carne que será oferecida e da data de validade.
Com o oferecimento da carne na dieta, torna-se imprescindível o
cálculo correto da quantidade de ração para que essa seja dada em
quantidades adequadas.
2. Uso de ração úmida
O uso de rações úmidas aumenta a ingestão de água e aproxima os
gatos de um comportamento natural: consumo de pequenas presas,
que são fontes de muita água.
3. Alimento aquecido
A temperatura é um fator que aumenta a palatabilidade e o consumo
do alimento uma vez que o torna mais prazeroso para os felinos.
4. Alimento e água em superfícies elevadas
Os gatos são apreciadores de superfícies altas, como prateleiras e
estantes, e gostam de se alimentar sobre determinada altura,
aumentando o consumo.
90
5. Alimento escondido e/ou jogado no ambiente
O alimento jogado ou escondido no ambiente induz o animal à caça,
estimulando-o mentalmente e fisicamente. O uso de brinquedos
estimula o gato nesse momento também.
6. Vegetais:
Os gatos comem vegetais, sobretudo grama, a fim de reporem fibras.
Dessa forma, é interessante deixar um vaso disponível com grama ou
outra variedade de vegetal em um local que o animal tenha acesso e
possa consumir.
7. Fontes de água
Os gatos são caçadores solitários, o que faz com que tenham uma
maior cautela na hora de ingerir algum tipo de líquido. Isso explica um
menor consumo em potes que a água não é constantemente renovada
porque não a consideram como uma água fresca, parecendo assim,
inapta para o consumo.
Assim, o uso de fontes de água são uma alternativa para a resolução da
problemática, uma vez que quando os gatos se deparam com a água
corrente, o consumo de água é maior.
A explicação da água corrente se dá porque na natureza essa é mais
limpa por estar em constante movimentação e renovação.
Enriquecimento sensorial
O enriquecimento sensorial para os
felinos pode ser feito a partir do uso de
brinquedos texturizados e por meio de
barulhos, cheiros e gostos variados. No
entanto, é preciso notar que os gatos
possuem a sua individualidade e, portanto,
reagem de forma diferente a esses
estímulos. Brinquedos com cheiro e gosto
de alimentos ou brinquedos que produzem
sons, por exemplo, são uma maneira de
mimetizar uma presa na natureza.
Imagem: arranhador para gatos
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O uso de arranhadores é algo indispensável, e estão presentes no
mercado em diversos tamanhos, formatos e com diferentes texturas. A
diferença de terrenos é algo favorável ao desenvolvimento tátil, uma vez
que os coxins têm contato com superfícies variadas. Por fim, o uso de
feromônios também geram satisfação aos gatos, como exemplos tem-se o
Feliway, Felifriend, dentre outros.
Enriquecimento cognitivo
Jogos, como tabuleiros e peças nas quais é possível esconder petiscos e
estimular o gato a realizar ações, como abrir gavetas, retirar peças,
dentre outros, a fim de ter acesso ao petisco.
Brincadeiras, com o uso de brinquedos, como ratinhos de diversos
materiais, bolinhas com guizo, penas que simulam voo de pássaros,
laser, dentre outros.
Imagem: ratinhos de brinquedo Imagem: tabuleiro usado como forma de
enriquecimento ambiental cognitivo.
Enriquecimento social
Este tipo de enriquecimento deve ser realizado desde a infância do
animal, de maneira a criar um hábito de convivência com outros
animais.
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Consiste na interação do
gato com outras espécies
de animais, assim como
com outros gatos. Essas
interações precisam
ocorrer com tranquilidade
e calma, sempre associadas
a estímulos positivos, de
forma a amenizar o Imagem: interação entre cão e gato
estresse. É uma forma de
estimulação cognitiva também, uma vez que o animal estará mantendo
contato com outros animais.
Enriquecimento físico
A fim de suprir as demandas comportamentais e características da
espécie felina, pode-se utilizar estantes fixas, de forma que criem um
ambiente para que o gato possa ter o comportamento de isolar-se.
Uso de tocas pelo ambiente, a
fim de aumentar a segurança
dos animais.
Uso de múltiplas caixas de
areia, comedouros, fontes de
água, arranhadores em diversos
cômodos e ambientes
contribuem para o sucesso do
enriquecimento ambiental
físico.
Imagem: toca para gato
93
ANOTAÇÕES
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