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Da Teoria À Investigaçâo Empirica - 20210213 - 0001

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CAPÍTULO tr

DA TEoRTA À rxvBsTrcAÇÃo rcupÍRrca.


PRoBLEMAS METoDot-,óctcos cERAIS
João Ferreira de Almeida
José Madureira Pinto

I. rNTRODUÇÃO

A observação metódica da realidade social, tendo como objectivo explícito por à


prova afirmações e interpretações provisoriamente aceites sobre a sua configuração e
funcionamento, é hoje, tal como no domínio mais consolidado e prestigiado das ciên-
cias físicas e da natureza, prâtica coÍrente entrc. cientistas sociais (e sociólogos, em
particular).
O desenvolvimento de procedimentos padronizados de recolha de informação
sobre o real (como, porexemplo, as técnicas do inquérito porquestionário, da entÍe-
vista, da análise de conteúdo) contribuiu, sem dúvida, poderosamente para que o
processo da observação sociológica em sentido amplo se tornasse uma fase do
nabalho cientÍfico cada vez mais sistemfidca e racionalmente controlada (l). |vfas e
avanço nesta dircçção tal é um dos argumentos centrais do presente texto só é
-
possível e efectivo a partire através do contributo privilegiado de um outro elemento -
da pútica científica: a teoria (ou, como adiante se dirá, matnz teórica em sentido
estrito), entendida como ggqiglte eg3ltzado de conceitos e91 9l!p_1ol9e_it_g§
substanrtvos, isto é, referidos directa ou indirectamente ao real.

(1) Para uma classificação e descriçáo sumária das técnicas de recolha de informação em ciências
sociais, algumas delas longamente abordadas neste volume, cfr. JOÃO FERREIRA DE ALMEIDA e
JOSÉ MADLJREIRA PINTO, A investigação nas ciências sociais, Lisboa, Presenç4 1982 (3r ed.), pp.
93-114 e GEORGES GRANAI, "Técnicas do inquérito sociológico", in GEORGES GURVITCH
(ed.),Tratado de Sociologia, Lisboa" Iniciativas Editoriais, 1977, Primeiro Volume.
56 J. FERREIRA DE ALMEIDAIT. MADUREIRA PINTO DI

Deixando o essencial da fundamentação epistemológica de tal ponto de üsta para E9


os números subsequentes, limitar-nos-emos nesta altura, por via de alguns exem- _P9
plos, a tentâr sensibilizar o leior para o papel da teoria no pÍocesso de pesquisa em- do
pírica e da dernonstragão científica em geral, não sem desde já chamar a atenção para t
a especificidade e as dificuldades particulares de que a questão se Íeveste no domínio iâ,
da análise das sociedades. tet
Imagine o leitorque, munido de uma formagão básica em ciências sociais, foi en- et
carregado de estudar os fenómenos de mudança social numa colectividade pertencen- pe
te ao espaço peri-urbano de uma área fortemente industrializada. de
Numa fase de contâcto exploratório com a colectividade, a atençáo dirigir-se-á ne- eo
cessariamente, além do mais, ao conjunto de manifestações das actividades produti- cu:
vas aí desenvolvidas. sul
Supondo que, no caso, a elevada proporção de terreno agro-florcstal no espaço fí- efr
sico da colectividade de imediato sugeÍe que a agriculnra ainda é aqui a actividade S€
económica predominante, como explicar que a grande extensão de campos trabalha- hi1
dos não tenha correspondência visível numa acgão de trabalhadores e equipamentos? m
Produção sem produtores? de
O recurso ao depoimento de alguns membros mais disponíveis da colectividade úa
pode fornecervários elementos paÍaasolução do enigma, ao revelar, nomeadamente, o{
que a importância crescente do pólo urbano-industrial vizinho em termos de opornrni- dq
dades de emprego paÍa a populaçáo local foi fazendo da agricultura cada vez mais cÍi
uma actividade económica complementare de fim de semana *emboamedida "invi-
sível", pois. de
Este inquérito exploratório revelará, entnetanto, bem depressa, os seus limites. da
Cedo se verificaú, de facto, que tanüo na tentativa de explicação como na simples Sêt
caracteizaçáo descritiva do fenómeno, os depoimentos dos autóctones não só fre- m,
quentemente se apoiam nos operadores simbólico-ideológicos que noutro local deste cip
volume (Capírulo I) sáo identificados como obstáculo epistemológico auma "explica-
ção do social pelo social" ("hoje já ninguém escolhe ficar na agricultura" ; "o interesse tlrá
pela lavoura está a morrer em toda a parte"), como, por outro lado, se revelam des- fi"
coincidentes e às vezes mesmo contraditórios ("aqui já quase todos trabalham fora"; rcI
"aqui ainda üve quase toda a gente da lavoura"). ÍÍ{
Cedo se perceberá, em suma, que, à boa maneira do que a melhor literatura poli-
cial sempre nos quis ensinar, o "mistério" em causa só poderá solucionar-se se tiver- ItrI
mos podido construir, a partir de coordenadas intelecnrais táo explicitadas quanto tip
possível, u1n unto estruturado de ede devidamente espe- cei
_cificadas so o e e espaço ru- dit
ral nas sociedades ÍEl
de S soriamente validadas a esl
se chama teoria a
que, não sendo concebível a existência de operaçóes de observação e intelecçáo do tú
real destituídas de pressupostos substantivos, não há senáo vantagens em levá-las a d)
cabo de acordo e sob o comando de um "código de leitura" da realidade que em ante- mi
DATEoRIA À twnsrrcnçÃo arunÍntct 57
it
tl nores de se tenha revelado de transcender os limites da
corTente, OS ummo-
os equaclonar,
t Nestes teÍrnos, e para regÍessar ao exemplo proposto, o Íecurso ao conhecimento
já obtido sobre situaçóes estruturalmente similares às observadas, envolvendo uma in-
terpretação sobre a especificidade dos processos migratórios em regiões peri-urbanas
e respectivas funções no quadro das sociedades industrializadas, sobre a génese e
persistência de formas de agricultura a tempo parcial e sua articulaçáo com o processo
de industrialização e consolidaçáo de certas modalidades de relação salarial, sobre,
enfim, aiatuÍezaparticular da estrutura de classes em sociedades camponesas o re-
-
curso a tais elementos de coúecimento, diziamos nós, é não só necessário como in-
substituível se quisermos perceber as dinâmicas de mudança social na colectividade
em causa, desvendando além disso alguns dos seus mais impenetráveis "mistérios".
Se, mais concretamente, pudermos dispor ao longo da pesquisa de um conjunto de
hipóteses teóricas sobre o modo como o "exército industrial de Íeserva" se articula,
no espaço nacional, com um "exército agrícola de recurso", ficaremos em condições
de integrar produtivamente na análise certos indícios que, de outra forma, considera-
ríamos como fornritos, destituídos de relevância científica e, portanto, desprezíveis: é
o caso, no nosso exemplo, da presença, irregular e às vezes quase imperceptível, mas
decisiva em tennos das próprias configuragões paisagísticas locais, de mulheres,
crianças em idade escolar e idosos nos campos da colectividade.
Afirmar, a propósito das exigências da pesquisa empírica, que a teoria é um ponto
de partida insubstituível e o elemento que comanda os seus momentos e opções fun-
damentais, náo pode querer significar, entretanüo, que a aúlise de situaçóes concretas
se circunscreva necessariamente no interiorde um círculo tragado de antemão, em for-
madefinitiva, peloconjunto de hipóteses pertinentes incluídas namatrizteóricadadis-
ciplina.
Náo está excluído, em primeiro lugar, que a recolha de informaçáo sobrc uma si-
tuação concrcta que é sempre, em certa medida, única e a condensação de uma iz-
-
finidadc de dcterminações sendo embora orientada pelo quadro teórico pévio de
-,
referência, revele a necessidade de ajustar, especificar ou mesmo reformular este últi-
mo, de modo a tomálo um guia de observaçáo do rcal mais preciso eeficaz.
Assim, por exemplo, uma obsenraçáo em grande escala dos fluxos migratórios
numacolectividade como aque temos vindo aconsiderarpode imporumarevisão das
tipologias de mobilidade geográfica consagradas nas ciências sociais. Através de con-
ceitos como os de êxodo nrral, migrações sazonais e pendulares, tais tipologias pre-
dispõem o investigadoÍ para, na realidade estudada, náo encontrar senáo indícios de
repulsáo definitiva, temporária ou recoÍrente de força de trabalho dos campos para o
espaço urbano-industrial.
Ora, a obsenração metódica de uma colectividade rural pode, precisamente, reve-
lar a existência de movimenos populacionais que, embora de pequeno raio, se fazem
no sentido inverso aos anteriores: bastará para tanto que uma drástica rarefacçáo da
máo-de-obra local, com a consequente elevaçáo, até níveis excepcionais, dos salários
58 J. FERREIRA DE ALMEIDAII. MADUREIRA PINTO DA TE

e outras remunerações na agricultura, induzam autênticas migrações de substituição socied:


com origem em regióes üzinhas. Nestas circunstâncias, procurar preservar a todo o pesqús
custo a tipologia inicialmente considerada, em nome de um primado epistemológico Se
absoluto da teoria ou de um conformismo de repetiçáo, constitui necessariamente campe:
efectivo obstiáculo ao progresso ciendfico. biçáo c
Mas o papel de comando da,teoria na pesquisa empírica tem de ser ponderado a silênci,
partir de uma outra perspectiva. E que se tomarmos aquela no sentido até agora adop- considt
tado (isto é, como conjunto de conceitos construtoÍes do objecto a investigar teoria Só
-
principa[), não podemos afirmar que ela possa por si só controlar racionalmente.todas subsrir
as componentes do ciclo de observação/demonstraçáo empírica. tão. Tr
De facto, no domínio científico que nos ocupa, os processos de recolha de infor- persps
maçáo são, eles próprios, processos sociaís sui generis, pelo que, a seu propósito, se Co
colocam, com pafticular acuidade, as questões epistemológicas da relaçáo "observa- deixe «

dor/observado" que, há já algumas décadas, tanta controvérsia suscitaram no domí- que, nÍ


nio, a eles aparentemente mais estranho, das ciências físicas. verificr
A questão assume aqui especial complexidade pelo facto de a maior parte das Es
técnicas de observação disponíveis recorrerem ao depoimento dos agentes sociais vro, n€
acerca das suas próprias condições de existência. Ora, se não pudermos (e, de facto, diz resl
não podemos (2)1 afirmar que estes últimos são detentores de um conhecimento não- cias so
as relações sociais a obserar (3),
então a estratégia teórico-metodológi-
-ilusório sobre indispr
ca da pesquisa tem de englobar uma componente adequada à objectivaçáo das formas
e processos de inteligibilidade através dos quais se constrói náo só o sentido vivido
das práticas, como a sua (quasi-)racionalização discursiva no contexto pútico-social
da pesquisa empírica.
Concretizando: para se poder elaborar instrumentos e protocolos de observação 2. C
capazes de transcenderos limites de visibilidade e intelecção que, porexemplo, assi- T
nalámos em depoimentos prestados no âmbito de um estudo exploratório sobre estru-
turas produtivas numa colectividade peri-urbana, não basta accionar elementos con-
ceptuais capazes de dar conta, e com elevado grau de especificação, das parti-
cularidades da agricultura nas sociedades industrializadas (teoria principat) é 2.1. Rr
indispensável integrar, além disso, no sistema de restriçoes conceptuais (4) que -con-
dicionarão a estratégia metodológica em causa, algumas que se reportem à dimensão
simbólico-ideológica das formaçóes sociais; importará, nomeadamente, recorrer a Gi
conhecimentos (sob a forma de teorias auxiliares) aceÍcade processos sociais táo "dis- das ciê
tantes" da agricultura local como os que dizem respeito ao modo socialmente deter- das últ
minado de aceder aos instrumentos de racionalização da (e de opinaçáo sobre a) prá- tE A@Í
tica social, às técnicas sociais de camuflagem e de apresentação de si, à construção mí- gicos c

tico-ideológica de valores e interditos sociais, às sançóes e censuras impostas, em -se air


po ciel
-t posiçã
Q) Yer, de novo, Capítulo L
(3) Se o fossen! o gravador substituiria, aliás com vantagerq todos os outros iDstrumentos da
obsenração sociológica-
(4) Tomamos o vocábulo restrição no sentido da programação linear. NISBE.I

I
DA TEoRIA À twosncnçÃo nurÍntct, 59

sociedades de interconhecimento, pela interacçáo linguística em sinrações como a da


pesquisa, etc..
Se o conhecimento já obtido a este respeito demonstrar que em certas fracções do
campesinato é especialmente elevada a incidência de fenómenos de despossessão e ini-
biçáo culturais e que isso predispõe os seus membros a formas de retracçáo verbal e
silêncio defensivos, justificar-se-á que uma investigação como a que temos vindo a
considerar se restrinja a uma recolha de informação por intermédio da entrevista?
Só à luz de teorias auxiliares, que, porém, como o seu nome indica, nunca se
substituem à teoria principal, poderemos esboçarrespostas adequadas a uma tal ques-
tão. Trata-se, afinal, de conceber as relaçóes entre teoria e pesquisa observacional na
perspectiva de um racionalismo alargado ou de 2' grau.
Como já sugerimos, a inteira fundamentação de um tal modelo impõe que se não
deixe de fazer uma reflexáo autónoma sobre o estatuto dos actos epistemológicos
que, na hierarquia proposta por Bachelard, precedem o momento da "constataçáo" ou
verificação empírica a ruptura com o senso comum e a constnrção teorica.
E se, do primeiro- deles, já se trata, com poÍmenor, em capítulo autónomo do li-
vro, nem por isso deixaremos de voltar aqui a aflorar o tema, pondo-o a par do que
diz respeito a outras operações de demarcaçáo epistemológica características das ciên-
cias sociais. Quanto à construção de teorias, também lhe será dado a seguir o relevo
indispensável.

2 coNsTRUÇÃO E VERTFTCAçÃO DE TEORTAS: PROBLEMAS E CON-


TROVÉRSIAS

2.1. Rupturas e demarcações

Giddens lembrava a inexistência de distinçáo radical entre as linguagens formais


das ciências e as linguagens naturais, constituindo as primeiras extensões metafóricas
das últimas (5). Ora, essa continuidade instrumental é, como ficou visto, especialmen-
te acentuada nas ciências sociais e envolve outros operadores, como os operadores ló-
gicos de organização do raciocínio e do discurso. A mesma continuidade manifesta-
-se ainda no horizonte empírico analisado: os diversos grupos sociais alheios ao cam-
po científico não deixam de pensar sobre as sociedades de que fazem parte, em sobre-
q posição, ao menos parcial, com o trabalho de investigação que aos mesmos objectos

(5) ANTHONY GIDDENS, "Positivism and its critics", io TOM BOTIOMORE e ROBERT
NISBET (eds.), Á History of Sxiologbal Arulysis, londres, Heinemann, 1979,p.273.
f

60 J. FERREIRA DE ALMEIDAIJ, MADUREIRA PINTO DA7

se dirige, enquanto, pelo contrário, tendem a abandonar às ciências "duras" como a E

Física, a Química ou a Genética, o tratamento dos seus objectos próprios. Proximida- cess(
des instrumentais, proximidade de objectos, efeitos de familiaridade, contribuem para efeitr
tornarnecessário esse constante esforço de demarcaçáo do campo das ciências sociais dos r
em relação ao senso comum, às atribuições de sentido não especializadas. ment
- Mas o esforço de demarcaçáo prolonga-se em relaçáo a outros domínios do saber. l
E o caso de conhecimentos eruditos, como o das filosofias sociais, que estiv,eram na damt
origem do campo e continuam a interferir na construçáo dos seus objectos. E o caso, dogn
igualmente, dos pontos de vista, de certas formulações conceptuais e de procedimen- frca.
tos de pesquisa próprios de algumas ciências "duras" e que serviram de modelo, com possi
transposiçóes por vezes insuficientemente criticadas, ao que se ia fazendo na análise para
das sociedades. E o caso, finalmente, do que se verifica no próprio interior do domí- t
nio das ciências sociais: cada disciplina ou especialidade tende aí, com efeito, a preo- tend<
cupar-se com firmarfronteiras, táo nítidas quanto possível, face a disciplinas mais an- limit
tigas, influentes e consag6dss (6). dos i
Nem sempre, aliás, serão positivos os efeitos de um tal trabalho de demarcação, gem
já que ele pode conduzir, e até certo ponto tem conduzido, à fragmentaçáo artificial lidad
das ciências sociais, à indesejável feudalização, poucas vezes compensada pela busca l
de complementaridades e de recíprocas fertilizações que a pluri e a interdisciplinarida- menl
de propõem. Parece certo, de resto, que os problemas de demarcação.se tendem cada menl
vez mais a restringir, nos outros campos científicos, a questões de história da ciência dos.
e de epistemologia geral. A sua recoÍrente actualidade nas ciências sociais remete, "jog«
náo tanto paÍaa sempre invocada juventude, como para a especificidade dos respecti- cida<
vos objectos e para a presença particular, no seu desenvolvimento, de determinaçóes cioni
sociais complexas. nas c
Só um relativismo radical, ao partirda certeiraverificação da inexistência de mode- proo
los fixos e universais para reger a actividade científica, avançaria para a conclusáo de ruza1
que "(...) a única'regra'que fica de W é a de que'vale tudo"' (7) e tiraria as ineviú- 1

veis consequências individualistas: "o que resta são juízos estéticos, juízos de valor, evid,
preconceitos metafísicos, anelos religiosos; em resumo, o que resta são os nossos de- tual ,

s ejos subj ecfv6r5" (8). seu I


Sem dúvida, importa criticar as formas contemporâneas do cientismo, de uma inter
ideologia da ciência que encobre não só imperialismos disciplinares como todo um ções
conjunto de manipulaçóes simbólicas e práticas a paúir de lugares de poder. Nem se cos I
trata de, em nome duma pretensa superioridade das formas de apropriação cognitiva nem
da realidade próprias da ciência, desvalorizar outras práticas sociais com elas coexis- I
tentes. tão c
paÍa
(6) Este paÍicular esforço de demarcação eonstituiri4 na sociologi4 um evidente sinúoma de que l
imaturidade: PIOTR SZTOMPKA, Sociological Dilenunas Toward a Díalectb Paradigr4 Nova
Iorque/londres, Academic Press, 1979, pp.37 e segs., - inici
(7) PAUL FEYERABEND, Agairut nuthad: outlinc of an arurchistb theory of bwwledge,lnn- epist
dres, New Left Books, 1975, p. 296.
(8) Iden, ibidem, p.285.

I
DA TEoRTA À twnsncnçÃo nwÍrucn 61

É preciso reconhecer, em todo o caso, que a actividade científica constitui um pro-


cesso social específico, definidor de um campo e gerador de múltiplos e crescentes
efeitos. Afirmar-lhe a identidade passa pelo constante aperfeiçoamento das teorias e
dos métodos disponíveis e, em certos casos, implica a sua superação por novds ele-
mentos conceptuais e novos procedimentos de pesquisa.
As demarcações entre esse campo e o seu exterior não se fazem por recurso a man-
damentos dumarazáo metodológica transhistórica como quereria um racionalismo
dogmático -
antes se produzem e se devem situar em cada conjuntura social e cientí-
-
fica. Também o estudo dos "desejos subjectivos" dos cientistas, por instrutivo que
possa ser a respeito de certas decisões que tomam, não é necessário nem suficiente
para a análise dos processos globais a que a história das ciências procede.
A importância da história, da epistemologia e da sociologia da prática científica,
tendo por objecto as condições sociais e teóricas como um sistema mutável de
-
limites e potencialidades em que se inscrevem forçosamente as decisões individuais-
dos investigadores, deixa-se ver, por exemplo, através da regularidade com que sur-
gem simultaneamente certas descobertas em campos científicos de alta comunicabi-
lidade intemacional.
No trabalho científico, como num jogo de xadrez em certa fase do seu desenvolvi-
mento, o sistema de regras mais o estado actual do jogo envolvendo os coúeci-
mentos acumulados condicionam as opções possíveis -dos protagonistas envolvi-
dos. Muito embora não - seja nunca indiferente a competência desses protagonistas, o
"jogo" científico não se faz em princípio contra ninguém, pelo que as Íespectivas capa-
cidades,longe de umas às outras se neutralizarem, podem mesmo normalmente adi-
cionar-se. Mas diferentemente do jogo, além disso, vão mudando na ciência náo ape-
nas os conteúdos substantivos das matrizes teóricas accionadas, como ainda as regras
processuais da pesquisa, e, ao limite, as próprias racionalidades globais as padro-
nizações básicas dos caminhos de investigação. -
- objectivadas da actividade cienífica elas póprias, como é
As reconstruçóes
evidente, historicamente siruadas são, assim, muito mais- do que a descrição fac-
-
tual estrita de acontecimentos relevantes. Elas avaliam opornrnidades científicas e o
seu grau de aproveitamento real, obstáculos e limites defrontados, factores exteriores
interferentes e sentido em que se exercem. Ao analisarem retrospectivamente muta-
ções nas racionalidades táóricas e processuais, elas podem produzir efeitos heurísti-
cos próprios que não se traduzem em regras coercivas paÍa a ptática científica, mas
nem por isso deixam de fornecer referências e orientações.
Se o conhecimento se opera em constante superação de outros coúecimentos, en-
táo os exorcismos da ruptura devem deixar de ser exercícios de uma lógica abstracta,
para se efectivarem na crítica de todos os níveis e de todos os momentos da pesquisa
que tome os processos sociais como horizonte analítico. A rupfura é condição lógica
inicial do trabalho científico, mas renova-se e prolonga-se às outras duas fases que a
epistemologia de Ba.úelard propõe: a constnrção e a verificação.
62 I. FERREIRA DE ALMEIDAII. MADUREIRA PINTO DI

22. A construção da teoria


sui
po
No princípio era a pergunta.
P!
É certo que a tradição empirista-positivista implica a perspectiva de que a pesqui- -p9
va
sa constitui o registo neutro e passivo do que a "sociedade" e a "natureza" dizem a ins
quem as souber e quiser ouvir. A investigação, naturalmente armada de uma instru-
mentalidade técnica mais ou menos sofisticada, desdobrar-se-ia numa sucessáo de fa-
ry
ses autónomas e a teoria aparece subordinada exterior e posterior à recolha dos
E(
-
"dados": resulta da indução-depuração da evidência empírica. -
NT
Mesmo autores próximos do Círculo de Viena desde cedo criticaram, no entanto, pÍr
uma tal perspectiva: Karl Popper, porexemplo, nega claramente a prioridade das ob-
servações, recoúecendo que elas estão "impregnadas de teoria" 0). Lakatos, por seu
tumo, afirma que " todas as proposições da ciência são teóricas (...)" e que "uma pro- Islt
posição factual é apenas uma espécie panicular de proposição teórica" (10). E Gid- mi
dens, opondo-se a uma bem estabelecida tendência da metodologia contemporânea,
considera inaceitável distinguir linguagem de enunciados teóricos e linguagem de ric
enunciados observacionais: o que há é uma rede de sobreposições e intersecçóes da pa
mesma linguagem com conexóes mutiíveis aos objectos empíricos (ll). Fa
Admitindo que observar supõe necessariamente a categoização do que é observa- m(
do, as posições racionalistas vêm afirmar, de um modo mais geral, aunidade e a inte- mí
gração do processo de pesquisa, orientando-se o vector epistemológico, como dizia tot
Bachelard, do racional para o real. A teoria é conferido o papel de comando do con- t4
junto do trabalho científico que se traduz em articular-lhe os diversos momentos: ela bl
define o objecto de análise, confere à investigaçáo, por referência a esse objecto,
orientação e significado, constrói-lhe aspotencialidadesexplicativas e define-lhe os li- q
mites. No percurso de diversos níveis da sua especificaçáo ela produz e integra os
chamados enunciados observacionais, dá consistência à rede de relações que se esta-

g
belece em todo o processo.
As Mas o caminho
e
que a val , que lhes acrescenta novos elementos ou que os çs
contesta, tem serconcebido como e acti' gi
merro a certas
se
tr
o!É!9,,ou seja,as evidências empíricas a que a investigaçáo por ante- te
cipadas ou, pelo menos, susceptíveis de acolhimento no âmbito do questionamento P,
formulado. gr

(9) KARL R. POPPER, Objective Knowledge, An Evolwiorary Approach, Oxford" Oxford Uni- 1
venity Press, 1974,pp.71 e segs..
(10) IMRE LAKATOS, The Metlodolog of Scientific Research Progrontmes, PMosophical R
Papers, Volume I, Cambridge, Cambridge University Press, 1983, pp. l6-e_segs..
(11) ANTHONY GIDDENS, "Positivism and its critics", op. cit.,p.273. l!
DA TEuRIA À twosnetÇÃo oupÍnrct 63

Cada formaçãg_ pientíÍca p,rop§e, 4ssim, um conjqnto qrticul4do de questões a


sua plpQlel4ltica teórica gqld-ql.imita zonas de visibilidadp. FOsê -
p_roblemática,
-
ponto de partida, em cada momento, das pesquisas que se efectivam, defi4q e ácolhg
problenns de investigação, para os quais se buse,am,respqstas. Os-meios-de-as-obter,
po_r_seüxurio,-re-sidem em todo o conjunto de disponibilidades conceptuais substanti-
vas -i'r as teorias gm_s9ruido-reslrito qUg_a-disciBlina foi foi^ndo, bem como em
instnrheniõs técnicos de recolha e de- tratamenlg de informlgões ogeniza{-os-pe-.l-os
rySlg@l;45ry4rllq|çpdifi caç-ãop1ov-igólradosçarniúo§-sg$p9-s-dgpesguisa.
Neste sentidgr_qlqldiqçtpliqa científica@ -uma matriz: as
teorias em sentido amplo incluindo componentes metodológico-técnicos consti-
-
tuem o ponto de encontro-das linhas duma problemática com as colunas referentes a
problemas de pesquisa que essÍs teorias procuram apropriar cognitivamemB (12).
O indispensável isolamento, em cada pesquisa, de ceÍas dimensões da realidade
aquilo a que se pode chamar o fechamento controlado do campo analítico náo
-significa que deixem de ser accionados os diversos níveis teóricos disponíveis - nas
matrizes disciplinares das ciências sociais.
Preocupado com a questão do hiato entre as "grandes teorias" e a pesquisa empí-
rica, Merton propunha a construÉo de "teorias de médio alcance" (13) que justamente
paÍecem conduzir a abandonar os níveis de maior generalidade e abstracçâo teórica.
Fazê-lo, sob pretexto de estes estarem próximos da filosofia social, de serem inde-
monstráveis, imaturos, conflituais ou intermuúveis afirmaçóes, de resto, parcial-
mente coÍrectas - entre a pesquisa empírica e
é perder a possibilidade de fecundação
- teoria, ao mesmo tempo que se elide a pÍesença, ainda que implíci-
todos os níveis da
ta, de alguma perspectiva de conjunto sobre o social em qualquer formulaçáo de pro-
blemas de investigaçáo.
empírico tendg_19;rjgit{ gpf$ygqa gg-lgetas auxiliares ou de
9g:ftslho
tporia-§E§iõnã§ftffiãtlas-de prqpo.íiflti-§s, cõ'ncéitos eÍã§ metôdõIõLíca§-ôápazes
de analisar dimensóes da realidade sem quebra dos fluxos de dois sentidos entre o
coqiufiodoparadigma de.partida e as opeiaçóes de recolha e tratamento da informa-
ção PsÍinente.
Conferir primado à teoria não conduzirá, no entanto, ao "paradoxo da categoriza-
çáo"? Se a teoria "contamina" forçosamente a observação, se é ela que selecciona, or-
garuzae confere sentido aos "factos", não haverá circularidade em todo o processo de
pesquisa?
Comefeito, doracionalismoque atribui prioridade à problematização teórica na in-
terrogação e construção dos dados, decorreriam, em aparência, duas consequências.
Por um lado, os limites impostos ao processos de pesquisa eliminariam espaço para
eventuais falsificaçóes dos resultados teóricos obtidos, já que as respostas estariam
necessariamente contidas no conteúdo e na forma da pergunta: no limite, deixaria de
(12) Sobre o conceiro de matriz teóric4 cf. JOÃO FERREIRA DE ALMEIDA e JoSÉ MADU-
REIRA PINTO, A lrwesigação nas Ciências Sociais, op. cit., pp. ll e segs. e 64 e segs..
(13) ROBERT K. MERTON, Elénents de'Théorie et dc Méthde Sociologique, Paris, Plon,
1965, pp. 13 e segs..

-
64 ]. FERREIRA DE ALMEIDAII. MADUREIRA PINTO L

se Ér o próprio problema da verifica$o. Adiante se Íetomarâ este ponto. Por outro !


lado, sempre haveria impossibilidade de hierarquizar propostas rivais: elas seriam "in- e
cornensuráveis" porque produzidas à luz de diferentes e específicos protocolos cientí- f
ficos. Nestas condições, as escolhas efectuadas pelos investigadores teriam de ser ex- t
plicadas apenas a paúir de factores externos à prática científica que a sociologia e a
-
psicologia social contribuem para elucidar-e sem interferência significativa, portan-
1

c
'l
to, de factores decorrentes do uso crítico, parcialmente partilhado, das pdprias racio- c
.t nalidades científicas accionadas por esses investigadores. s
as matrizes ]paradismas" c
Mesmo sendo certo matriz contém um r
cleo duro" de e que resiste coú tena- d
cidade às tentatlvas eàs" no percurso das suas r
aplicações, nem por isso ela deixa igualmente de conter zonas de disponibilidade,
novas perguntas, iluminam novos pro-
novas no científico,
funcionar como limite e orientação que os processos de 2
pesquisa S aos empíricos de que se
ocupam E a pópria ciência "Ílormal", estabilizada, continuamente descobre pro-
priedades e relações entre propriedades susceptíveis de gerar efeitos em retomo sobre
as questões e as proposições hipotéticas anteriormente adquiridas. Ainda quando, em d
certo campo e em ctrto contexto de trabalho, tais proposições sejam virnralmente in- b
disputadas .- no sentido de não defrontarem altemativas coerentes e praticadas p
sempre uma matriz funciona como um sistema parcialmente descompactificado. -
Em certas circunstâncias, a visibilidade permitida pela problemática e pelas hipóte- fi
ses básicas de pesquisa levaà serendipity Os) ao elemento imprevisüo, anómalo, in- c
trigante e estratégico, suscitando a exploração - de novos caminhos. Mas ainda que !
não e "anomalias", a a espe- ç
meto- d
eoutros desenvolvimentos, cri ou as; pode con- 0
paÍaa denotaçáo SA de proposições e conceitos e para o aperfeiçoa- b
mento da respectiva operacionalizaçáo ; @y-o-s-d-ç-çqnhe- o
cimentoi na teórica da matriz d
mostrar zea
!
O "Seeredo" da Capacidaíle arrto-correctora de perCurSOSjá trilhadoS, verificável v
na actividade ciendfica, reside tantn nos inflrr*os Frovenientcs rlas evidêncies_gr_npíri- d

(*) eita de verosimilhmça, coÍiroaproximação à verdade resultando de sucessivas substi- :


fuições de"*"*
teorias, sem que todas deixem de manter carâcter conjectural, é discutido em KARL R.
POPPER, Objective Knowledge, An Evolutionary Approach, op. cit, pp. 57 e segs. e p. 80; cf.
r
igualmente, do mesmo autar, Conjectures and Refittations, Tle Growth of Scieruifrc Krwwledge, Lnn-
dres, Routledge and Kegan Paul, 19'1.2, pp.233 e segs..
(15) ROBERT K. MERTON, Elérnenrs de TMorie et de Méthode Sociologique, op. cít., pp. 47 e
se8s.. 2

I
TO DA TEqRIA À twosucAÇÃo nuPÍntct 65

rtro cas em análise, como na pe za


in- es:-_:-]S@1çias. É porque tal perspectiva constrói, nas suas diversidades históricas,
rtí- fundõíõómuns de racionalidade e de caminhos metodológicos parcialmente comu-
3X- nicáveis e partilhados, que as opções entre teorias rivais, por muito "incomensurá-
ea veis" que estas pareçam, sempre são também susceptíveis de explicaçáo por referên-
an- cia a protocolos internos que a todas englobam. A intervenção epistemológica, já pou-
io- co preocupada com o velho problema dos fundamentos de todo o conhecimento par4 i

se centrar na localização, em cada circunstância histórica, das condições teóricas e so- I

!ae ciais da actividade científica, constitui sede privilegiada de uma tal avaliação. Se a ela
rú- procede geralmente de forma retrospectiva como notava Lakatos nem por isso
na- deixa de contribuir para -
expor, de modo objectivista, a lógica -
reconstruída de todo o
üS processo, e por aí oferecer a sua presença na abertura de novos camiúos.
Ce,
ro-
6,
de 23.O problema da verificaçáo
se
no-
)re O colapso da física newtoniana, programa de investigação dotado de modelarsoli-
)m dez feita de múltiplas corroborações que tornavam imprevisível o seu abalo, contri-
buiu para pôr em causa certezas partilhadas pela comunidade científica a respeito do
: princípio da verificação.
O justificacionismo afirmava só ser científico o que pudesse ser provado, o que
fosse positivamente demonstrado pela articulação de factos repetidamente observados
com os enunciados abstractos da teoria. Observações e experimentações cuidadosa-
mente expurgadas de preconceitos e multiplicadas em diversas condições de efectiva-
ção sustentariam a inferência de enunciados gerais. A explicaçáo objectiva resultaria
do movimento inverso, ou seja, da aplicação dedutiva das leis e das teorias a novas si-
tuações observacionais singulares. Uma versáo justificacionista mais moderada, em-
bora reconhecendo a impossibilidade de provar a certezade hipóteses provenientes de
observações finitas, insiste na necessidade de demonstrar a maior ou menor probabili-
dade de verdade quanto ao conteúdo dessas mesmas hipoteses.
Popper, na esteira de Hume, mostrara já a impossibilidade de provarpositivamen-
te qualquer teoria, uma vez que a generalização se faz forgosamente a partir de obser-
e vações em número limitado. O "peú indutivo" de Bertrand Russel (t0) (o qual depois
i
de verificar ao longo de bastante tempo e em diversas circunstâncias que sempre co-
mia às 9 da manhá e daí julgou poder induzir o enunciado geral, para vir a verificar-
-lhe a falsidade na véspera de Natal, quando em vez de o alimentarem lhe cortaram o
pescoço) ilustra a ilegitimidade lógica do princípio indutivo.
Para Popper, a cientificidade de uma teoria resultará da sua disponibilidade para

(16) Cf. ALAN F. CHALMERS, Qué es esa cosa llannda cbncia?, Madrid, Siglo Veinüuno, pp.
28 e29.
66 I, FERREIRA DE ALMEIDAIJ. MADUREIRA PINTO DA

se subm€ter a testes empíricos "severos", a experiências "cruciais" capazes de a refu-


tar se náo for verdadeim (17). Sendo legítirno, sob o ponto de vista lógico, concluir pe- quel
la falsidade de um enunciado universal a partir de uma observaçáo singular contradi- "dur
tória, então as hipóteses devem ser claramente formuladas e disporem do máximo dan
conteúdo possível para poderem ser falsificáveis. O falsificacionismo popperiano, vad
propondo um racionalismo crítico de tentativa e erro em que se renuncia à demons-
I tração e à prova e se afirma que o progresso científico resulta da rejeiçáo de teorias, seu
,l
ou porque sáo infalsificáveis ou porque já foram falsificadas, estií portanto distante rela,
das variantes justificacionistas. Como em Bachelard, a progressáo da racionalidade hâr
opera-se essencialmenúe através da sempre renovada aprendizagem com o elro. prol
Pode pôr-se o problema, em todo o caso, de saber se a lógica falsificacionista dá das
adequadamente conta das práticas efectivas de investigação. pre
O "núcleo duro" de um programa de investigação, diz-nos Lakatos, é infalsificá- coil
vel por "decisão metodológica dos seus protagonistas" (18), defendido como está por vÍts.
um "cinto de protecção" maleável e evoluüvo de hipoteses auxiliares e por uma "heu- pod
rística" capaz de digerir anomalias, refinando esse cinto protector. Os cientistas têm a atq
"pele dura", defendem as suas teorias através de novas hipóteses ou ignoram as "ins-
tâncias recalcitrantes", esperando que futuros desenvolvimentos as venham domes- qua
ticu.Éessa persistência, àliás, que tem salvo programas de investigaçáo produtivos ma
contra observações que os invalidariam; e a história das ciências mostra também, por mul
outro lado, que experiências de refutaçáo consistentes surgem mútas vezes já depois nect
de mortas as teorias s6ntestadss (19). tos l
Duas importantes consequências se articulam a esta perspectiva: por um lado, a tran
refutação observacional só é considerada possível quando estrá já disponível uma teo- CAII
ria alternativa melhor; por outro, o progresso científico, a "translação de problemas", tent
pode verificar-se mesmo na ausência de expressas refuta@as (20). O "falsificacionis- pril
mo metodologicamente sofisticado" vem então insistir na necessidade de pluralismo dic;,
teórico, já que a emergência da teoria superior com mais conteúdo explicativo e pon
-
empírico náo infirmado e susceptível de conduzir à descoberta de novos factos é
semprc condição para a substituição de um programa de investigaçáo degenerativo - çoe
por um progressivo. Por isso ainda Lakatos critica em Kuhn a preeminência da "ciên- xatr
cia normal": esta, além de pouco duradoura, seria indesejável, uma vez que o seu ca-
ráctermonopolístico impediria acompetiçáocriadora entÍeprogramasdeinvestigação don
fiyals (21). mel
non
ZdÍt
(1? Cf. KARL R. POPPER, Conjectures and Refutatiow, Tle Gronth oí Scirnrrfic Knowledge,
op. ciÍ, pp. 111 e segs..
maI
(18) IMRE LAKATOS, "Falsification and the methodology of scientific research prograrilnes", hig
,z I. LAKATOS e A. MUSGRAVE (eds.), Criticism and tlre Grovvth of Kroúedge. Cambridge,
Cambridge Univenity Press, 1974, p. 133.
(19) Cf. IMRE LÁKATOS, The Metludology of Scientifrc Reseuch Progrowtcs, op. cit., pp.3 lasâ
e segs. e p. 89. coisi
(20) Iden, ibidem, pp. 35 e 36. The
(21) Idcm, ibidem, p. 69.
) DATEuRTA À twnsncAÇÃo nupÍntct 67

Todo este longo trajecto de reflexões, que aqui apenas se pode dqixar muito es-
quematicamente indicado, se foi fazendo predominantemente do lugar das ciências
"duras" e tomando-as como ponto de aplicaçáo. As tendências que revela no sentido
) da renúncia à ideia de demonstrar cada enunciado geral, da renúncia à velha perspecti-
va de que descobrir é provar, valem também, é claro, para as ciências sociais.
A própria falsificabilidade, que nenhum vício lógico condena, vê restringido o
seu alcance prático. Com efeito, é ainda herança positivista a desproblematização das
relações entre o que se chama enunciados teóricos e enunciados observacionais: não
hârazão para admitir que experiências e observaçóes sejam menos frágeis, falíveis e
provisórias do que as teorias que as seleccionaram e lhes conferem sentido. Produzi-
I das por certas hipóteses e assim partilhando com elas forças e fraquezas, nem sem-
pre tais experiências e observaçóes encontrarão espaço autónomo para se revoltarem
contra os seus próprios geradores: sofrerão de proximidade e subserviência excessi-
r vas. Resultando de paradigmas ou de teorias alternativas, observaçôes e experiências
podem calregar a suspeiçáo de "incomensurabilidade" Q2) ra sua tentativa de falsificar
a teoria rival: sofrerão, desta vez, de ex@sso de distância.
A falsificaçáo de teorias é ainda afectada por um outro conjunto de dificuldades:
quando se torna inequívoco que hipoteses mais ou menos estabilizadas accionadas nu-
ma pesquisa defrontam anomalias insuperáveis, isto é, quando algum erro nas for-
mulaçóes de partida se torna evidente, nem por isso a sua localização precisa decorre
necessariamente de tal verificação, nem por isso se identificam imediatamente os pon-
tos nevrálgicos que se trata de corrigir para resolver positivamente o problema recalci-
trante. Se assim é em geral, mais ainda nas ciências sociais, em que o fechamento do
campo analítico e o contexto teórico de corroboraçáo-falsificação sáo menos consis-
tentes: é aí muito complexa, de facto, a articulação de pressupostos gerais, de teorias
principais e auxiliares (23) funcionando em cada pesquisa, o que não deixa de preju-
dicar a transparência da remissáo dos rêsultados imprevistos e contraditórios para o
ponto preciso de inadequação teórica a corrigir.
Desculpabilizadas das impossibilidades de prova e das dificuldades de invalida-
ções concludentes pelo trajecto das suas insuspeitas irmãs, as ciências sociais náo dei-
xam, em todo o caso, de enfrentar problemas específicos.
Kuhnconsidera-as pré-paradigmáticas, ainda condenadas à incessante e esteriliza-
dora discussão das componentes substantivas e processuais mais genéricas em detri-
mento das questóes reais de pesquisa e por isso incapazes de ser e de fazer "ciência
normal". Talvez seja mais adequado considerá-las pluri-paradigmáticas. Elas cristali-
zaÍaÍn, com efeito, uma longa e parcialmente incomunicável coexistência de paradig-
mas rivais e de não-paradigmas. Estes últimos desdobram-se em inúmeras pesquisas
hiper-empiristas, sem coerência teórico-metodológica, pulverizando os factos e o seu
(22) Kuhn mosEava que, na sequência de uma revolução cientÍfica, "muitas medi@s e manipu-
lações antigas tornam-se irrelevantes e são substituÍdas por ouEas", do mesrro modo que se passa a ver
coisas novas e diferentes: Cf. THOMAS S. KUHN, The Strrcnre of Scientifrc Revoltúians, Chicago,
The Univenity of Chicago Press (Second Edition), l97Q p. 129 e pp. I I I .
(23) No sentido proposto em 1. e desenvolvido em 3..
68 I. FERREIRA DE ALMEIDAII. MADUREIRA PINTO I

sentido, sem fecundidades cruzadas possíveis. Mas mesmo os paradigmas existentes


padecem de alguma inconsistência, de alguma instabilidade metodológica, de alguma
dificuldade em articular controladamente as formulações teóricas às suas especifica-
çoes empíricas. Daí que não possam plenamente aproveitar das vantagens que Laka-
tos apontâva ao pluralismo teórico.
Parcialmente comprometida a comparabilidade de camiúos e de resultados, à ava-
liagão de fecundidade diferencial de teorias que deveria permitir a decadência de umas
e a correlativa ascensão de outras, substitui-se por vezes a oscilaçâo, frequentemente
reversível, da moda. Critérios pertinentes do campo disciplinar de pesquisa cedem o
passo a determinações sociais exteriores e sectoÍes importantes da comunidade cientí-
fica transfercm-se com arÍnas e bagagens e a ritmo r.ápido de um paradigma para ou-
tro. Essa especie de eterno Íetomo não deixa de ser racionalizada sob a forma da mo-
dernidade e da criatividade teóricas.
Nada disto afasta as ciências sociais, contudo, dos objectivos mais gerais que to-
das as outras partilham. A prova absoluta é impossível. A falsificação é fraca: falsifi-
cações concludentes só surgem através da lógica reconstruída que acumulou evidên-
cia histórica e assim, de algum modo, tendem a aparecer fora de tempo. Obrigado a
viver no provisório e no falível, razão adicional encontra o trabalho científico para
buscar corroboraçóes parciais mas rigorosas das teorias que aplica, para ter em conta
os apoios empiricamente informados que recolhe. Também não pode deixarde apren-
der com as anomalias e as contradiçóes, os eÍros e as insuficiências. Corroboragões e
anomalias funcionam como indicadores de fecundidade heurística das proposições
cienúficas, suscitam e ajustam novas questões e novas soluçóes. A lógica da verifica-
ção, sem se perder, desautonomiza-se como objectivo explícito. O problema desloca-
-se então para os procedimentos normais da pesquisa: construçáo de matrizes c@ren-
tes; sua aplicação sistemática vinculando metodologias comunicáveis; acumulaçáo de
conhecimentos provenientes dessas aplicações; esforço comparativo sobre os méritos
de paradigmas total ou parcialmente altemativos.

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