Participação de transexuais nas práticas corporais: problematizações potentes para a
Educação Física Escolar
Daniel Teixeira Maldonado1, Ana Lara Marcelo Costa2
Resumo
Este estudo possui como objetivo analisar as publicações realizadas
sobre a participação de transexuais nas práticas corporais, na
perspectiva de produzir problematizações que possam potencializar
esse debate nas aulas de Educação Física Escolar. Trata-se de pesquisa
qualitativa, de interpretação de documentos em ambiente virtual online.
Foram analisadas todas as reportagens publicadas no Blog Dibradoras,
jornal El País Brasil, revista Carta Capital e Portal Geledés a respeito
da temática em discussão. O material empírico foi submetido à análise
temática. Os resultados evidenciaram os seguintes temas: pioneirismo
transexual no mundo esportivo, dificuldade de aceitação e preconceito
em times e federações esportivas, debates científicos e morais e a
segregação esportiva. Em via das conclusões apresentadas, é visível que
esses meios de comunicação, ainda que em baixa quantidade de
material, buscam promover a inclusão e a aceitação dos atletas
transgêneros nas práticas corporais.
Palavras-chave
Práticas Corporais. Relações de Gênero. Transexuais. Educação Física
Escolar.
1
Doutor em Educação Física pela Universidade São Judas Tadeu, São Paulo, Brasil; estágio pós-doutoral na
Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, Brasil; professor do Instituto Federal de Educação,
Ciência e Tecnologia de São Paulo, Brasil. E-mail: [email protected].
2
Aluna do Curso Técnico em Administração integrado ao Ensino Médio do Instituto Federal de Educação, Ciência
e Tecnologia de São Paulo, Campus Jacareí, Brasil; bolsista de iniciação científica do projeto WASH. E-mail:
[email protected].
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Transexual participation in corporeal practices: intense problematizations for School
Physical Education
Daniel Teixeira Maldonado3, Ana Lara Marcelo Costa4
Abstract
This study aims to analyze publications on transexual people’s
participation in corporal practices, with the perspective of feeding the
debate with potentiating problematizations around Physical Education
Classes. This qualitative research is about document interpretation in
the virtual environment, analyzing all stories on the theme issued in the
blog Dibradoras, the newspaper El País Brazil, the magazine Carta
Capital, and the portal Geledés. Empirical material underwent thematic
analysis. Outcomes evidenced the following themes: transexual
pioneering in the sports world, acceptance difficulty, prejudice in teams
and sports federations, scientific and moral debates, and sports
segregation. This quick overview already shows that communication
media is engaged in including and accepting transgender athletes in
corporal practices.
Keywords
Corporeal Practices. Gender Relations. Transexuals. School Physical
Education.
3
PhD in Physical Education, São Judas Tadeu University, State of São Paulo, Brazil; postdoctoral internship at
the Faculty of Education, University of São Paulo, State of São Paulo, Brazil; professor at the Federal Institute
of Education, Science and Technology of São Paulo, State of São Paulo, Brazil. E-mail:
[email protected].
4
Student of the Technical Course in Administration integrated to the High School, Federal Institute of Education,
Science and Technology of São Paulo, Campus Jacareí, State of São Paulo, Brazil; scientific initiation
scholarship holder of the WASH project. E-mail: [email protected].
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Introdução
A escola pode ser um espaço privilegiado para problematizar os conhecimentos de
grupos que foram historicamente marginalizados e subjugados em diversos contextos da
sociedade. Especificamente nas aulas de Educação Física Escolar, a participação de transexuais
nas práticas corporais é um tema potente para ser problematizado, principalmente com um olhar
das Ciências Humanas e Sociais (MALDONADO, 2021).
Para Maldonado e Freire (2022) e Maldonado, Silva e Martins (2022), os currículos da
Educação Física Escolar inspirados nas teorias críticas e pós-críticas advogam pela
problematização dos marcadores socioculturais contemporâneos que constituem a sociedade
nas aulas do componente, destacando a relevância dos aspectos de gênero e de sexualidade que
forjam a cultura das práticas corporais para construção de uma estrutura social justa, equitativa
e diversa.
Dornelles, Wenetz e Schwengber (2013), Devide (2017), e Devide e Brito (2021)
organizaram obras que colocam em evidência o debate das relações de gênero e sexualidade
que abarcam o corpo e as danças, as lutas, as ginásticas, os esportes, os jogos e as brincadeiras
na sociedade contemporânea, tensionando os temas que precisam ser problematizados nas aulas
de Educação Física na Educação Básica.
Assim, Fonseca e Brito (2022) apontam que a luta por uma perspectiva inclusiva na
Educação Física Escolar se caracteriza por construções coletivas, transformações
epistemológicas do campo, organização das práticas político-pedagógicas, reconhecimento de
direitos e na mudança efetiva das concepções e propostas políticas, pedagógicas e
metodológicas da área, ressignificando processualmente, de forma colaborativa, ações
democráticas, participativas e acolhedoras aos diversos modos de ser e estar no mundo.
Essa forma de pensar a Educação Física potencializa o debate a respeito da participação
de pessoas transexuais no mundo esportivo. Camargo (2016) apresenta a ideia de corpos
dissonantes como aqueles que se colocam nos limites fronteiriços dos corpos normativos,
considerados desviantes da “norma”, afastados dos padrões de beleza, estética e/ou eficiência
idealizados e validados pelas sociedades ocidentais contemporâneas e que estão em vigor em
disputas esportivas, principalmente nos megaeventos realizados internacionalmente.
Na perspectiva de contribuir com esse debate, este estudo possui como objetivo analisar
as publicações realizadas a respeito da participação de transexuais nas práticas corporais,
visando produzir problematizações que possam potencializar esse debate nas aulas de Educação
Física Escolar.
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Método
Trata-se de pesquisa qualitativa, de interpretação de documentos (SÁ-SILVA;
ALMEIDA; GUINDANI, 2009) em ambiente virtual online. Na perspectiva de Lüdke e André
(2003), a análise documental se constitui como uma técnica valiosa de abordagem de dados
qualitativos, seja complementando as informações obtidas por outras técnicas, seja desvelando
aspectos novos de um determinado problema. São considerados documentos quaisquer
materiais escritos que possam ser utilizados como fonte de informação sobre o comportamento
humano, sendo que a escolha do material de análise nunca é aleatória. Existem sempre alguns
propósitos, ideias ou hipóteses guiando essa seleção.
Assim, esta pesquisa buscou respostas ao objetivo do estudo nos dados verbais das
reportagens disponíveis nos endereços digitais do Blog Dibradoras, no jornal El País Brasil, na
revista Carta Capital e no Portal Geledés. Essas fontes foram escolhidas pelo caráter
progressista do escopo editorial desses meios de comunicação, já que eles podem ser
considerados expressões da criatividade humana por conta da tecnologia desenvolvida em um
determinado momento histórico. Todavia, é sempre preciso reconhecer a serviço “do que” e
“de quem” os meios de comunicação estão, já que essa é uma questão de política e poder
(FREIRE; GUIMARÃES, 2003).
A investigação foi efetuada em etapas: 1. exploração de todas as abas e links disponíveis
no endereço eletrônico; 2. localização das reportagens sobre a participação de pessoas
transexuais nas práticas corporais publicadas nesses ambientes virtuais; 3. leitura e seleção de
todo o acervo digital que versa sobre a temática da pesquisa; 4. análise temática; 5. organização
dos temas em tabelas e textos descritivos.
O material empírico foi submetido à análise temática, que possibilita uma descrição
detalhada e diferenciada sobre um tema específico ou grupo de temas. Portanto, a análise
temática envolve a busca a partir de um conjunto de materiais, sejam originários de entrevistas,
grupos focais ou de uma série de textos, a fim de encontrar os padrões repetidos de significados,
a partir de um constante movimento de reflexão crítica (BRAUN; CLARKE, 2006).
Utilizamos as seis fases da análise temática nesta pesquisa, como sugerido por Braun e
Clarke (2006). Na fase 1, nos familiarizamos com os dados, mergulhando no material com a
intencionalidade de alcançar com profundidade e amplitude o conteúdo. Na fase 2, produzimos
códigos iniciais a partir dos dados. Ao iniciar a construção dos temas, entramos na fase 3 da
análise temática, que se efetivou quando todos os códigos estavam codificados e agrupados no
conjunto dos dados. Durante a fase 4, revisamos os temas e os extratos codificados, produzindo
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um refinamento da análise temática. Assim, entramos na fase 5 com a definição e denominação
dos temas. A fase 6 foi organizada pela escrita dos dados produzidos, fornecendo uma análise
concisa, coerente e lógica.
Resultados e Discussão
Para a realização deste artigo, foram analisados quatro importantes meios de
comunicação do Brasil: Portal Geledés, blog Dibradoras, revista Carta Capital e jornal El País
Brasil, que, com mais de 6.600 reportagens analisadas, apenas 16 delas se referiam à
participação de transexuais no mundo esportivo. A maioria desses canais diz ter medidas
progressistas e diversificadas, como o Portal Geledés, que discute e se posiciona sobre temas
de grupos marginalizados na sociedade, não focando somente no esporte, foram encontradas
sete notícias relacionadas ao tema estudado no site. Com um posicionamento parecido, tem-se
o blog Dibradoras, que apresenta a participação feminina no esporte, contando com uma
reportagem relacionada a transexuais no segmento. Já a Carta Capital tem como um de seus
valores e missão a diversidade esportiva. Todavia, ao pesquisar a participação de pessoas
transgêneros nesse espaço, apenas duas publicações foram encontradas. Por fim, o jornal El
País Brasil apresentou seis registros na página de esporte relacionados ao tema abordado na
pesquisa.
A seguir, será mostrada a divisão das notícias analisadas de acordo com seu tema. No
total, foram criadas três categorias temáticas para a explicação do fenômeno estudado.
Pioneirismo transexual no mundo esportivo
Esse tema foi composto por sete reportagens e mostra notícias de atletas transexuais que
foram os(as) primeiros(as) a participarem legalmente de algum esporte, bem como seus
processos e aceitações.
O esporte é uma das práticas corporais que mais possui poder de união no mundo,
unindo classes, gêneros, etnias e nações diferentes. No entanto, sabe-se que a conquista para a
diversidade nesse meio é lenta e gradual, sendo inicial e majoritariamente praticado por homens
brancos de classe média ou alta. Atualmente, a diversidade de pessoas da comunidade
LGBTQIAPN+ vem tomando cada vez mais espaço, seja na televisão, no mundo do trabalho e,
inclusive, no esporte. Esse tópico, porém, é discutido de maneira incerta, delicada e até mesmo
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preconceituosa quando se trata da participação de pessoas transexuais nas manifestações da
cultura corporal.
Ao pesquisar notícias sobre pessoas transgêneros é perceptível a pouca participação
delas em todos os aspectos da vida pública, ocupando pequenos espaços na sociedade de
maneira geral, sobretudo no Brasil, já que, segundo dados da Associação Nacional de
Transexuais e Travestis (Antra), é o país que mais mata transexuais no mundo, fazendo com
que a expectativa de vida dessa parcela da população seja de 35 anos na sociedade, como mostra
a única reportagem do blog Dibradoras sobre a jogadora argentina Mara Estefania Gomez.
Dessa forma, existir já é difícil, e participar do esporte se torna um desafio quase impossível,
principalmente quando pouco se fala do assunto, papel que seria da mídia, mas que ainda é
tímido no cenário nacional.
Pelo resultado obtido das análises, é fato que o tema ainda é pouco abordado pelos
citados veículos midiáticos, entretanto, a própria aprovação legal de transexuais nas práticas
esportivas só foi efetivada pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) em 2016. Essa medida
foi explicada nas reportagens dos sites Carta Capital, Dibradoras e El País Brasil, ao
apresentarem o processo de estreia de atletas trans no esporte. Com a notícia mais recente, a
Carta Capital divulgou em maio de 2021: “Itália tem primeira atleta transgênero vestindo a
camisa da seleção”, que mostrou a história da velocista Valentina Petrillo, que naquele ano iria
disputar o Campeonato Europeu de Atletismo Paraolímpico na Polônia como representante de
seu país, sendo a primeira a realizar tal ato, uma representação significativa no esporte e na
comunidade trans.
Nessa matéria, o autor do texto conta a trajetória de transição de Valentina no esporte e
como essa discussão se iniciou no cenário global. Explica que, até 2003, esse não era um tópico
discutido no meio, mas a partir daquele ano, o COI se mostrou disposto a estudar o tema.
Contudo, havia algumas restrições para a inclusão dos(das) esportistas, como dito no texto: “Os
atletas tinham que se submeter à cirurgia para a mudança de sexo e fazer dois anos de terapia
hormonal. Também era preciso apresentar um documento de identidade com a certificação legal
de seu gênero masculino ou feminino” (CARTA CAPITAL, 2021).
Em 2016, uma comissão médica apresentada pela Dra. Joanna Harper foi capaz de fazer
o Comitê mudar sua política, tornando possível a participação de atletas transexuais no esporte
sem que fosse necessária a obrigatoriedade da cirurgia de mudança de sexo, mas mantendo a
terapia hormonal. Com isso, a velocista que passou pelo tratamento em 2019 disse que, por
mais que seu desempenho tenha diminuído significativamente, ela está dentro dos parâmetros
estabelecidos pelo COI, e por isso atletas trans, como ela, não mantém vantagens sobre atletas
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cisgêneros – pessoas que se identificam biologicamente com o sexo em que nasceram. Além
disso, ela diz que o processo é doloroso, mas teve que o fazer para poder se sentir alinhada de
corpo e mente: “Não sinto que estou roubando nada de ninguém. Estou no lugar certo
concorrendo com as mulheres. [...] Eu me sinto mulher e é justo competir com mulheres”
(CARTA CAPITAL, 2021)
Detalhando a terapia hormonal e a estreia de uma atleta transexual no esporte, o
Dibradoras publicou em março de 2021 a seguinte reportagem: “1ª jogadora trans no futebol
argentino: ‘Hoje posso ser quem realmente sou’”, escrita pela jornalista Laís Malek, que conta
a história da atleta Mara Estefania Gomez. Nela, a autora narra a emoção da jogadora e a paixão
pelo futebol, bem como sua história ao jogar profissionalmente aos 23 anos. Apesar da
conquista, o texto também explica a medida do COI em relação a atletas transgêneros e o que
Mara, que é formada em enfermagem, pensa a respeito.
Para que um atleta transexual possa participar legalmente de jogos esportivos, o COI
determina que mulheres trans devem passar pela terapia hormonal por, pelo menos, um ano
antes das competições, ao passo que para homens trans isso não é necessário, como esclarecem
os três sites que explicam a medida. Para o procedimento, exige-se que essas esportistas
mantenham o nível de testosterona abaixo de 10 nanomols por litro de sangue (nmol/L). Atletas
como a velocista Valentina seguem o procedimento sem reclamar, pois para ela aquilo também
é necessário pessoalmente. Contudo, a jogadora Mara acredita que a medida é injusta e
perigosa, podendo causar atrofia e complicações cardiorrespiratórias. Essa regra, porém, é
atualmente indiscutível por ser colocada em questão a vantagem biológica que atletas trans são
acusados de ter por atletas e treinadores cis, devido ao nível de testosterona no sangue.
Na perspectiva de Jones et al. (2016) citado por Pereira, Garcia e Pedrosa (2020), essa
relação hormonal que representa o binarismo entre homens e mulheres tem proporcionado um
pânico moral de uma suposta “dominação trans” nas competições esportivas femininas.
Destarte, esse pensamento é problemático, pois não leva em consideração outras questões de
ordem biológica e social relacionadas ao rendimento esportivo.
Além do preconceito sofrido por toda a sociedade fora das competições, os(as) atletas
trans também têm que enfrentar essa discriminação dentro do mundo das práticas esportivas,
sustentada pelo argumento de que questões biológicas diferentes causam vantagem, como
apresenta a reportagem de Breiller Pires pelo El País Brasil, em janeiro de 2018, que conta a
história de Tifanny Abreu, jogadora que é referência até hoje no Brasil: “A primeira transexual
na superliga feminina de vôlei, entre a ciência e o preconceito”.
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Nessa matéria, o autor conta o processo de transição de Tifanny como a pioneira
brasileira, bem como a intolerância e as barreiras que enfrentou mesmo após quase dois anos
da regra do COI que autoriza pessoas trans a participarem de competições. O início da carreira
como jogadora seguiu o da maioria dos(as) atletas transgêneros: ela passou pela transição
estabelecida pelo Comitê e começou a jogar em time do gênero com o qual se identifica. No
caso da atleta, ela já jogou a superliga masculina de vôlei no Brasil, mas seu processo de
transição e estreia na liga feminina foi na Europa. Após um período jogando na Itália, em que
sofreu preconceito e resistência de adversárias, voltou para o país natal, e então enfrentou a
mesma intolerância.
Sua estreia no Bauru não a livrou de preconceitos, já que a acusaram de passar por todo
o processo de transição apenas porque teria a vantagem biológica de ter um índice maior de
testosterona em relação às suas colegas de quadra. Quando a matéria foi feita, Tifanny
registrava cerca de 0,2 nmol/L do hormônio no sangue, sendo monitorada regularmente e
estando dentro da norma imposta pelo COI. No entanto, isso não impediu que profissionais de
saúde achassem seu caso incorreto, como fez o coordenador da Comissão Nacional de Médicos
do Vôlei, João Grangeiro, que se manifestou contra a participação da atleta na liga, dizendo que
apenas a liberou para jogar porque não havia estudos científicos suficientes que a impedissem,
mas não concordava com a medida.
Apesar de expor esse e outro argumento contra a participação da atleta na Superliga,
Breiller fala em um trecho: “Enquanto Tiffany enfrenta resistência e preconceito no vôlei
feminino, ainda não há estudos científicos capazes de comprovar a suposta vantagem física de
atletas trans sobre mulheres cisgêneros” (EL PAÍS BRASIL, 2018), evidenciando o quão difícil
foi a trajetória dela enquanto mulher trans, sendo a primeira a atuar legalmente no esporte
nacional. Além da intolerância médica apresentada, companheiras de profissão também se
expressaram contra a atuação da jogadora no time, como fez a ex-jogadora de vôlei Ana Paula,
que escreveu uma carta ao Comitê Olímpico Internacional dizendo que a participação de
Tifanny é “um grande deboche às mulheres”, e que o caso dela pode incentivar homens cis a
mudarem de gênero apenas para terem vantagens no esporte, como diz que Abreu fez.
Em contraposição a esses discursos preconceituosos, o autor traz a fala de Liliane
Rocha, ativista social e fundadora da Gestão Kairós, que vê o comportamento em relação à
jogadora como ataques à população trans, dizendo: “Vejo as reações negativas à presença da
Tifanny muito mais como um reflexo de preconceito do que um levante pela igualdade no
esporte. Se não jogar no feminino, o que ela vai fazer da vida? O acesso ao trabalho é um direito
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básico” (EL PAÍS BRASIL, 2018). Assim, traz-se à tona a situação de muitas pessoas trans:
qual será o lugar deles(as) no mundo do trabalho?
Para responder tal questionamento, Pires traz dados mostrados por Rocha que
evidenciam a realidade de pessoas transexuais no Brasil, contando que a fundadora rebate que
seria absurdo um homem cis mudar de gênero no esporte para ter mais vantagens, já que, “antes
de se aventurarem pelas quadras, transexuais precisam lutar pela sobrevivência” (EL PAÍS
BRASIL, 2018). O autor também relembra que, segundo dados da Associação Nacional de
Travestis e Transexuais, a cada 48 horas é assassinada uma pessoa transgênero no Brasil,
reforçando o discurso da ativista.
Ao final da narrativa, Breiller conta que a jogadora, por conta da terapia hormonal,
diminuiu drasticamente seu desempenho em quadra, adaptando totalmente seu estilo de jogo e
seu estilo de vida como, agora, mulher. No entanto, isso não foi suficiente para impedir que a
carta de Ana Paula com o apoio de outras jogadoras de vôlei incentivasse equipes rivais a
mostrarem publicamente sua repulsa com a permanência de Tifanny na liga. Apesar do
escândalo, a ponteira do Bauru se manteve em silêncio, mas ainda assim foi símbolo de
pioneirismo e representatividade no mundo esportivo e na comunidade trans do país.
Atualmente, a brasileira é inspiração para outras jogadoras ao redor do mundo, como nos casos
anteriormente mostrados de Valentina e Mara, reportagens que fizeram questão de citar Tifanny
como exemplo transexual no esporte.
Com a intencionalidade de contrapor o discurso meramente biológico que desponta
contra a participação de atletas transexuais no esporte de acordo com a identidade de gênero,
Sant’ana (2022) ressalta que o corpo de Tifanny apresenta-se como uma figura híbrida na
medida em que borra as fronteiras existentes que distinguem homens e mulheres na prática
esportiva, já que essa relação tem se pautado pelo corpo meramente biológico. Nessa
conjuntura, Castro, Garcia e Pereira (2020) analisam que existem diferenças fisiológicas entre
os(as) próprios(as) atletas cisgêneros, produzindo reflexões sobre a possível diferença biológica
inata e massacrante entre homens e mulheres. Assim, os autores apontam que talvez seja o
momento de repensar a forma como as competições esportivas são categorizadas, uma vez que
o binarismo atual torna esse espaço excludente.
Garcia e Pereira (2019), ao analisarem a trajetória da atleta Tifanny Abreu, primeira
jogadora transexual de vôlei a atuar profissionalmente no Brasil, mencionam que o gênero é
uma construção social que atravessa as práticas corporais, já que, principalmente o mundo
esportivo, costuma excluir o que é considerado diferente, utilizando como base apenas aspectos
biológicos. Por conta disso, ao problematizar as dificuldades vivenciadas pela jogadora, os
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autores também destacam o pioneirismo dela no meio dos esportes para que mais pessoas
transexuais conquistem o seu espaço.
Assim como as esportistas apresentadas anteriormente, Omy Perdomo é uma atleta
transexual pioneira em seu país, caso evidenciado no jornal El País Brasil (2018) na matéria
“Primeira transexual a jogar na elite do vôlei espanhol”. Nesse texto, o autor narra brevemente
a trajetória de Perdomo, mostrando o orgulho e a felicidade da atleta que, após oito anos no
esporte, finalmente conseguiu vivê-lo da maneira certa para si, em uma equipe feminina na
primeira divisão. Mostra-se que, apesar de ser sua estreia, a jogadora já garantiu a vitória e
contou como foi animadora e importante para ela. Ainda, o autor relembrou, ao final do texto,
o caso de Tifanny Abreu, assemelhando-o ao de Perdomo, que também enfrenta preconceitos
dentro e fora de quadra.
A decisão do Comitê Olímpico Internacional de aceitar a participação de transexuais
nas competições esportivas é bem recente, contudo, o jornal El País Brasil já trazia uma notícia
relacionada ao tema em maio de 2014, na matéria “Meu Deus, por onde começo?”, que apesar
de não ser voltada para a atleta, traz o caso da primeira transexual aceita pela FIFA. O autor
Gorka R. Pérez desenvolve a notícia acerca do time Samoa Americana, que perdeu de 31 a 0
para a Austrália, como o técnico holandês Thomas Rongen lidou com a equipe, e, finalmente,
cita Johnny Saelu, a primeira jogadora transexual aceita pela Federação Internacional de
Futebol Associado.
Ao falar dela, o treinador Thomas diz: “Ninguém a julga por sua sexualidade ou por
questões religiosas” (EL PAÍS BRASIL, 2018), mostrando a aceitação do time, já que Johnny,
como o autor coloca, nasceu homem, mas se sente mulher. Como primeiro caso oficial de uma
transexual no futebol, apesar de aceita pela FIFA, a jogadora continuava a jogar na equipe
masculina, pois a Federação ainda a impedia de jogar em uma equipe feminina. O time dela,
porém, a tratava com igualdade dentro de campo, e com os pronomes de sua escolha fora dele.
Com uma notícia mais antiga, o Portal Geledés traz a matéria “Adolescente canadense
torna-se a primeira líder de torcida trans na sua escola”, que foi a primeira matéria de um
transexual no mundo das práticas corporais encontrada no site, em fevereiro de 2016. Nela, o
autor discorre rapidamente sobre como o esporte ajudou a estudante Phoebe Casinaro, de 16
anos, a passar pelo processo de transição, que envolvia bullying, isolamento e preconceito. Ele
cita que ser líder de torcida foi algo que aumentou a autoconfiança de Phoebe, salientando como
a prática esportiva, por mais difícil que seja o ingresso, pode ajudar pessoas trans a passarem
por esse processo.
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Em um relato mais extenso e emocionante, o autor Use Lahoz traz a história de Thomas
Page McBee na reportagem “Um homem trans sobe ao ringue”, pelo El País Brasil, publicada
em janeiro de 2019. Nessa reportagem, Lahoz narra o processo de transição de Thomas e diz
que sua transformação é dupla: primeiro, de mulher a homem; depois, de homem a homem, se
referindo ao seu ingresso no mundo do boxe. O lutador e escritor, então, falando de seus
processos, conta como surgiu a ideia de escrever um livro e sobre o que discorria, sendo
chamado Man Alive, a primeira obra que mostra a biografia do escritor e porque ele decidiu
lutar. Thomas diz que nasceu em um corpo errado, mas sempre teve dificuldade no caminho à
masculinidade, por isso, teve que aprender a ser homem, e conta como descobriu o quão tóxica
é a masculinidade.
Para o lutador, a escrita e a luta ajudaram a formar o que ele é hoje, mas com elas
descobriu que, para os homens, a violência é normalizada, até esperada, assim como a sabedoria
e a falta de afeto. Thomas diz que essas questões compõem a heterossexualidade e são coisas
ensinadas como uma convenção social, assim como a ideia de gênero, e conta que decidiu subir
ao ringue, sendo o primeiro homem trans a fazê-lo, para aprender como ser masculino e o que
seria ser masculino. De modo geral, o autor da matéria emprega relatos comoventes no texto,
que é mais extenso e conta todos os processos pelos quais Thomas passou, mostrando as
dificuldades e as experiências de um atleta transgênero pioneiro no mundo esportivo.
Por fim, Silvestrin e Vaz (2020) destacam que a visibilidade dos corpos trans masculinos
que realizam diversificadas práticas corporais coloca em evidência os limites do modelo
esportivo institucionalizado e a frágil noção de cidadania de uma estrutura societária que se
pretende democrática, mas que segue impedindo que algumas vidas sejam vividas. Portanto,
essas corporalidades desviantes produzem a necessidade de forjar outros formatos de
competições esportivas e de relações sociais que comportem uma diversidade maior de corpos
e experiências.
Dificuldade de aceitação e preconceito em times e federações esportivas
Pode-se colocar nessa categoria temática, composta por cinco reportagens jornalísticas,
as matérias que se relacionam a qualquer tipo de abordagem discriminatória que atletas
transexuais sofreram ou sofrem para conseguir praticar o esporte no gênero em que se
identificam, assim como as dificuldades que passaram e passam para tal.
É um desafio uma pessoa transexual ser aceita no mercado de trabalho. Segundo a
Antra, cerca de 90% dessas pessoas acabam na prostituição por falta de oportunidade, como
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mostra a reportagem do Dibradoras acima referenciada. Com esse cenário, a luta pelo espaço
de atletas transexuais na participação esportiva reforça ainda mais essa realidade, que é
amplificada pelo discurso biológico e homofóbico na sociedade, nos times e nas federações em
que o(a) atleta trans atua.
Em setembro de 2021, o Portal Geledés publicou a reportagem “Jogador trans abriu
mão de copa do mundo feminina para ser feliz, texto escrito por Alex Sabino e retirado de
outro jornal, a Folha de São Paulo, para mostrar a realidade de muitos atletas que já atuavam
no esporte antes da transição, mas tiveram que interromper a carreira após esse processo. Esse
é o caso de Marcelo Nascimento Leandro, que abandonou tudo para realizar a transição. O
jogador era destaque no time feminino do Corinthians, como narra o autor, mas não se sentia
ele mesmo. Então, ele abdicou da convocação para a Copa do Mundo de 2019 na França.
O autor conta que o processo de Marcelo foi um recomeço e, apesar de ter sido campeão
pelo time feminino de futebol, teve depressão em 2018, relatando que “aquele corpo de mulher
não era o seu” (PORTAL GELEDÉS, 2021). O jogador também conta como foi difícil não ter
um exemplo para seguir, já que atletas trans no esporte, especialmente no futebol, é algo raro,
e por isso foi um caminho cheio de dúvidas e incertezas, mas no final ele fez o que sempre
desejou. Como o futebol sempre foi sua paixão, o atleta diz que não vai desistir após completar
a transição e busca recomeçar em um time masculino que o aceite e o trate como sempre quis
ser tratado, como todos os atletas trans sonham.
Nesse contexto, Pisani e Pinto (2021) afirmam que o machismo e a LGBTfobia são
estruturantes do campo futebolístico, uma vez que mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ são
constantemente questionados(as) em relação à sexualidade e à identidade de gênero. Todavia,
esses(as) jogadores(as) resistem ao preconceito, tensionando normas reguladoras dos corpos e
subjetividades nos palcos que recebem as práticas de futebol.
A vontade de ingressar no esporte reconhecido socialmente com o gênero que se
identifica não é um desejo só de Marcelo, mas também de atletas como Maria Joaquina, de 11
anos, que sofreu preconceito e rejeição na patinação, como mostra a reportagem do El País
Brasil, de abril de 2019: “Criança trans é impedida de participar de competição internacional
de patinação”. Nela, Arthur Stabile e Paloma Vasconcelos contam como a menina foi rejeitada
pela Confederação Sul-Americana de Patinação e a briga dos pais para que ela possa existir
socialmente.
Os pais da menina contam que ela tinha o aval da Confederação Brasileira para disputar
em competições do seu estado e do país, chegando a já ter sido campeã do Campeonato
Brasileiro. Contudo, a Federação Sul-Americana negou a sua participação na categoria
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feminina, dizendo que os(as) atletas só poderiam participar na categoria que está no documento
de identidade, informando que seguem a regulamentação da Federação Continental de
Patinagem. O autor e a autora ainda citam que tais federações trabalham com uma política
alinhada à do COI, que estabelece um baixo nível de testosterona no sangue, medida que para
Maria Joaquina já é muito baixa, como os pais comprovaram, e mesmo assim não foi permitida
a participação da criança na referida competição.
Mais adiante, os jornalistas deixam claro no texto a luta dos responsáveis da menina,
contando a história de como Maria se descobriu e contou para os familiares, que sempre a
apoiaram e respeitaram, lutando para que pelo menos seu nome social fosse respeitado nas
competições enquanto ela não tem idade para passar pelo processo legalmente. Eles citam,
como a maioria das notícias, a história de Tifanny Abreu, que já foi relatada anteriormente,
sendo exemplo no país todo. Ao final, o veículo tentou contatar a Confederação Brasileira de
Patinação, mas não obteve resposta até o dia da publicação da matéria, fazendo algumas
indagações sobre a participação de atletas transgêneros nas competições de patinagem.
Assim como Maria Joaquina, Julle também é uma criança transexual que persiste no
esporte e sofre preconceito. Em novembro de 2018, o El País Brasil, novamente, publicou a
história dele: “Julle, o menino rejeitado no futebol por ser transexual”. O autor conta que o
menino sueco de nove anos ama futebol e jogava em um time regional desde 2016, até que, no
ano em que essa notícia foi publicada, seu time o rejeitou, decidindo que Julle treinaria na
equipe feminina dali para frente.
Diante da exclusão preconceituosa, Julle e a mãe dele denunciaram o caso para a ONG
Malmö Mot Diskriminering, o que fez com que o caso passasse a ser o primeiro de
discriminação de gênero na Suécia, que é considerada um dos países mais progressistas do
mundo quando se trata dos direitos da comunidade LGBTQIAPN+. O autor mostra como essas
questões são tratadas pela lei sueca: segundo o artigo 46, pessoas menores de 12 anos podem
mudar seu nome, desde que haja consentimento dos(das) responsáveis, além de adotar o
pronome neutro hen em 2015. Todas essas medidas não condizem com a forma que Julle foi
tratado em seu time esportivo, o que fez com que a mãe do menino relatasse que o acontecido
tenha sido ignorância.
Em outro caso de impedimento a menores de idade, tem-se o lutador Mack Beggs, na
matéria de fevereiro de 2017, publicada pelo Portal Geledés: “A polêmica de Mack Beggs,
transexual que se vê como homem, mas é invicto em torneios femininos de luta”. A discussão
se baseia no fato de que o atleta de 17 anos atua em competições femininas, mesmo estando
em processo de transição para o sexo masculino, fazendo a transição hormonal. Ele foi barrado
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pelo estado do Texas, nos Estados Unidos, que o impede de participar de competições
masculinas.
Beggs compete em torneios de escolas públicas texanas, que são regulados pelo
University Interscholastic League - UIL (Liga Interescolar Universitária), que diz que “os
lutadores devem competir de acordo com o sexo registrado no momento do nascimento”
(PORTAL GELEDÉS, 2017). Dessa forma, o atleta não para de competir, ainda que no
feminino, mas isso causa revoltas principalmente entre suas adversárias, que dizem não ser
uma luta justa, já que Mack está em processo de transição hormonal e, de 52 lutas, venceu
todas. A UIL permite o uso de testosterona para Beggs por “motivos médicos válidos”, mesmo
que isso seja contra as regras, mas não o deixa participar do masculino pelo mesmo motivo. O
autor da notícia cita, ao final, que, com toda a polêmica gerada sobre o caso, a UIL pode rever
e modificar futuramente o regulamento, mas Mack precisará continuar no campeonato
feminino até que tenha idade suficiente para avançar nas ligas e competir no masculino.
Apesar dos citados e mais inúmeros casos de participação transexual negada em times
e federações esportivas, a técnica de futebol Marina Rinaldi pôde fazer o que gosta, como
mostra a notícia de Erika Zidko, do jornal BBC, que foi publicada no Portal Geledés em
fevereiro de 2015: “Com ‘benção’ da igreja, transgênero vence preconceito e vira técnica na
Itália”. Ela lidera a equipe masculina desde que um dos padres de sua comunidade lhe fez o
convite, defendendo que sempre esteve muito envolvida nos projetos sociais da região.
Na matéria, Zidko traz todo o apoio que Marina, de 33 anos, teve de seus (suas)
amigos(as), familiares e inclusive da paróquia que participa, contando um pouco do seu
processo de transição e sua carreira. Por mais que a notícia seja antiga se comparada às outras,
a técnica diz que nunca se sentiu discriminada no lugar em que vive, e que precisou ter a bênção
e o convite da igreja para atuar no esporte, já que tinha parado sua carreira após a transição.
Com base nos materiais apresentados, é possível observar que apenas o Portal Geledés
e o El País Brasil trataram dos desafios ou do impedimento da participação de atletas
transexuais no esporte devido ao preconceito e à ignorância. Como mostrado, os(as)
jogadores(as) transexuais têm que passar pelo processo de transição e pela readequação ao
mercado de trabalho, que fica muito mais difícil quando se é um(uma) atleta transgênero, que
não tem quase nenhum exemplo a seguir, muitas vezes sendo barrado(a) de atuar no esporte,
ou, como no último caso, recebendo uma bênção religiosa para trabalhar naquilo que ama. De
modo geral, ambos os veículos apresentaram bem a problemática, contando um pouco da
história do(da) esportista, a transição, o impedimento e como os times e as federações se
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posicionaram sobre o assunto, mostrando explicitamente a realidade que esses(as) atletas
enfrentam.
Também é possível encontrar na literatura científica análises sobre o preconceito de
times e federações relacionado à participação de transexuais nos esportes. Assim,
Nascimento (2020) problematiza o caso de Tifanny Abreu, no qual a jogadora foi, por vezes,
atacada e descredibilizada, principalmente por participantes do ramo esportivo, o que acentua
a desigualdade que atletas trans enfrentam, pois a esportista já foi ofendida por companheiras
de profissão, treinadores e até políticos. Contudo, atualmente, ela é vista, em muitos
contextos, como símbolo de resistência, luta e representação nas práticas esportivas, visando
romper as normas conservadoras há muito instauradas nas práticas corporais e na sociedade
de maneira geral.
Nesse sentido, Garcia e Pereira (2019) analisaram os enunciados de seis Projetos de
Lei protocolados em Assembleias Legislativas nacionais, que visam regulamentar a
participação de atletas trans no esporte brasileiro. Como resultados, os autores observaram
que todos os Projetos se alicerçam em aspectos unicamente biológicos sobre os sexos,
apresentam fragilidades teórico-conceituais sobre as identificações e as expressões de gênero
e sexualidades, propõem como solução esportiva alternativas excludentes e/ou vexatórias ao
público de atletas trans que queiram competir no Brasil, e não apresentam indicações
bibliográficas para as afirmações feitas, evidenciando o preconceito contra as pessoas
transexuais no território brasileiro, inclusive nos espaços que envolvem as práticas da cultura
corporal.
Debates científico e moral, e a segregação esportiva
Nessa última categoria, incluem-se as notícias que debatem sobre as questões biológicas
de se ter um(uma) atleta transexual no esporte e quais questões morais implicam na efetiva
participação ou na falta de inclusão deles(as). Ainda, discute-se sobre uma certa segregação
quando são criados jogos ou torneios exclusivos para pessoas transgêneros.
Ao tentar inserir-se no mundo esportivo, o(a) atleta transgênero, além de passar pelo
preconceito social e todos os trâmites para achar um espaço no meio para competir, tem que
lidar com as questões biológicas e morais que cercam sua existência. Debates sobre a
participação do(a) esportista vêm de todos os lados, com consulta às mais diversas áreas das
Ciências Biológicas e Humanas, menos ao próprio participante, de modo que o corpo dele(a)
seja palco de discussões de terceiros. Nesse cenário, apresentam-se as notícias sobre os
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respectivos debates e a segregação de atletas da comunidade LGBTQIAPN+ no esporte. A
matéria publicada em fevereiro de 2016 na Agência Brasil e republicada no Portal Geledés
ilustra um pouco desse cenário. O título é “Travestis e Transexuais podem participar da
Olimpíada 2016 como voluntárias”, e explica sobre a reinserção desse grupo no mercado de
trabalho. Para o evento das Olimpíadas, foram escolhidas 12 mil pessoas voluntárias para se
apresentarem nas cerimônias de abertura e encerramento, como relata a autora Alana Gandra.
Por mais que a presença de transexuais e travestis nas Olimpíadas seja apenas simbólica, a ação
traz visibilidade a essas pessoas, ajudando a combater o preconceito, contando com a única
exigência de que o(a) candidato(a) tenha mais que 16 anos, ação que busca promover a
diversidade brasileira, como explica a autora.
Para as pessoas da comunidade, o Projeto Damas foi de grande ajuda para suas seleções,
como contam ex-alunos(as) do Projeto. A iniciativa é bem explicada no texto, buscando
mostrar como pessoas trans podem conquistar espaço, inclusive no esporte. O projeto tem
como propósito a capacitação de transgêneros e travestis para o mercado de trabalho e a
recuperação da autoestima deles(as), buscando a reinserção social desse grupo, já que pessoas
trans são excluídas da sociedade prematuramente. O coordenador do projeto, Carlos Alexandre
Neves Lima, diz que ele serve para “prepará-las para o mercado de trabalho para estarem aptas
a concorrer com os demais cidadãos e terem os mesmos direitos”.
Nessa notícia, Alana traz um importante dado que inspira o Projeto a existir: o fato de
mais de 90% das alunas trans estarem no mundo da prostituição quase que obrigatoriamente,
já que não há oportunidades para elas. A escritora conta que o objetivo do Damas é fornecer
meios para se obter informação e ajudar psicologicamente, aumentando a autoestima das
pessoas transgêneros, já que não há apoio social e, muitas vezes, familiar. A iniciativa ainda
conecta alunas, ex-alunas e órgãos vinculados que possam oferecer estágio e emprego para
elas. Dessa forma, a segregação em que vivem transexuais e travestis se reduz com projetos
como esse, mesmo diante de discursos preconceituosos que as afastam do convívio normal em
sociedade.
Iniciativas como as do Projeto Damas são essenciais em uma sociedade transfóbica
como a que vivemos, mostrando atitudes que federações poderiam adotar para inserir atletas
transexuais nos esportes, mas acabam contrariadas por discursos biológicos e morais. Uma
notícia de janeiro de 2018, publicada no Huff Post Brasil, e, posteriormente, no Portal Geledés,
mostra como as ligas lidam com isso: “Atletas transgêneros têm de ser incluídos no esporte,
diz Federação Internacional de Vôlei”. A escritora Andréa Mantinelli discorre sobre como as
federações esportivas lidam com casos de atletas trans em suas ligas.
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O caso que motivou a discussão a respeito do tema foi o de Tifanny Abreu, jogadora
citada anteriormente, e que, segundo Andréa, causou mal-estar na Superliga Feminina e dividiu
opiniões de especialistas. A Federação Internacional de Vôlei (FIVB) confirmou ser favorável
à participação de atletas trans no mundo esportivo, seguindo o regulamento do COI. No
entanto, desde a publicação do regulamento, a FIVB se compromete apenas a “estudar melhor”
a questão, mas diz que “a participação de transgêneros ou não nos times é responsabilidade das
federações locais” (PORTAL GELEDÉS, 2018), levando-nos a questionar qual seria o poder
e a influência das regras do COI nas federações menores.
Para garantir que a FIVB estuda a questão, Annie Peytavin, que chefiou a reunião da
comissão médica da federação de vôlei, diz que “a comissão está empenhada em estudar mais
essa questão” (PORTAL GELEDÉS, 2018), reafirmando que tomarão decisões baseadas nos
estudos mais recentes. No âmbito social, Annie fala que o objetivo da comissão é “assegurar a
escolha individual de uma pessoa” (PORTAL GELEDÉS, 2018), mas no biológico quer
assegurar condições equitativas no campo de jogo. O texto também relembra as normas do
COI, que indicam terapia hormonal e documentação atualizada obrigatoriamente para mulheres
transexuais, mas não para homens trans.
Por mais que as federações internacionais digam que a participação de transgêneros nos
campeonatos nacionais seja responsabilidade das ligas nacionais, independentemente das
normas delas, o secretário-geral da FIVB, Luis Fernando Lima, reconhece que a discussão seja
“complexa e sensível” (PORTAL GELEDÉS, 2018). Segundo ele, “precisam estar atentos às
igualdades dentro das categorias” (PORTAL GELEDÉS, 2018), tratando isso apenas de
maneira biológica, não levando em consideração que não há igualdade quando excluem atletas
trans da participação nos esportes. Novamente, a FIVB, junto ao COI e à Associação das
Federações Internacionais de Esportes Olímpicos de Verão (ASOIF), promete estudar o
assunto e rever suas regras, mas não estipula previsão para tal.
Enquanto as federações não tomam posicionamentos definitivos e justos quanto à
participação de atletas trans nos times e esportes dominados por pessoas cis, a própria
comunidade cria esses espaços. Em novembro de 2016, o Portal Geledés republicou a matéria
do Catraca Livre sobre um time formado exclusivamente por pessoas trans: “Meninos Bons de
Bola, o primeiro time de homens trans do Brasil”. Nela, o autor explica sobre a equipe
composta por 15 homens e o que os motivou a jogar futebol, que foi o preconceito sofrido em
times cis, sendo o Meninos Bons de Bola um espaço de acolhimento e prazer para esses rapazes
poderem praticar esporte sem medo.
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Durante a notícia, narra-se sobre o preconceito e a violência sofridos por esses
jogadores em outros times. No final da matéria, o autor traz o posicionamento da Federação
Internacional de Futebol (FIFA) sobre a participação de atletas transexuais no esporte:
“Nenhum tipo de discriminação tem lugar no futebol” (PORTAL GELEDÉS, 2016). Apesar
de tais palavras, a federação não motiva a inclusão de atletas trans na prática esportiva; não
discrimina, mas também não inclui, de modo que as pessoas trans, sozinhas, têm que criar
espaços e oportunidades que não lhes foram dadas, gerando, de modo simbólico, uma
segregação no mundo esportivo.
Pisani e Pinto (2021), a partir de dados etnográficos de uma pesquisa realizada com o
time Meninos Bons de Bola, o primeiro time de futebol formado exclusivamente por homens
trans no Brasil, mencionam que esses atletas têm suas subjetividades e identidades colocadas
em xeque, principalmente pelas falas e ações de jogadores de times adversários, assim como
de árbitros e bandeirinhas envolvidos em campeonatos. A invisibilização das pessoas e das
identidades trans configura-se, nesse cenário, em violência, que deveria ser coibida e
eliminada de espaços que se pretendem acolhedores das diversidades e diferenças.
É o que mostra a última reportagem analisada: “Taça da Diversidade, o torneio que une
pessoas LGBTs afastadas do futebol pelo preconceito”, publicada em junho de 2022 pela Carta
Capital, sendo a reportagem mais recente que encontramos relacionada ao tema, escrita por
Victor Ohana. Como o time Meninos Bons de Bola, o torneio tem a intenção de incluir no
esporte pessoas afastadas por preconceito e medo da violência, juntando mais de 200 pessoas
para a terceira edição da competição – a primeira ocorreu em 2016 e a segunda em 2019. Além
da Taça da Diversidade, o autor cita a Champions LiGay, que atualmente é um campeonato a
nível nacional de futebol para a comunidade, e a Taça Hornet de Futebol da Diversidade.
No decorrer do texto, Victor conta como foram criados os torneios, quais modalidades
são jogadas, cita os times mais famosos do país e os futuros projetos das ligas. Traz, ainda, a
fala de Carlos Renan dos Santos Evaldt, diretor-presidente da Taça, que diz: “Estamos aqui
para afirmar que o esporte é para todos” (CARTA CAPITAL, 2022), buscando fortemente
promover a diversidade. Alguns participantes ainda relatam como o torneio é importante para
não se sentirem sozinhos. A iniciativa, porém, parece acolhedora a princípio, mas o autor conta
como o torneio funciona: “O torneio premiará duas agremiações separadamente, uma de
pessoas cis e outra de pessoas trans” (CARTA CAPITAL, 2022). Explica, também, os núcleos:
homens gays, mulheres lésbicas, homens e mulheres e pessoas heterossexuais, havendo
homens trans, mas não mulheres trans.
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Camargo (2021) menciona que a primeira Champions LiGay ocorreu na cidade do Rio
de Janeiro, num complexo esportivo com quadra de futsal na Barra da Tijuca, em 2017. As
equipes participantes expressam-se no futebol ostentando a bandeira do movimento político
LGBTIQAPN+, com pautas contra as inúmeras discriminações sofridas no esporte.
Silvestrin e Vaz (2021) destacam a criação de diversos times de futebol formados por
pessoas transexuais, como o Transviver Futebol Clube, que surgiu no início de 2018, em
Recife, o qual faz parte da ONG Instituto Transviver, que oferece apoio psicossocial à
comunidade LGBTQIAPN+, com foco em pessoas trans, e se ergue sobre os pilares da
educação, da cultura e do esporte; o BigTBoys, do Rio de Janeiro, uma equipe de futebol
Society que foi criada na tentativa de superação da invisibilidade dos homens trans; e outros
dois times em São Paulo: o Transversão Futebol Clube e o Os T Mosqueteiros, que treinam
juntos na quadra da Casa Florescer (Centro de Acolhida Especial para Mulheres Transexuais),
que abriga mulheres trans e travestis em situação de vulnerabilidade social. Apesar de os times
serem compostos apenas por pessoas trans masculinas, as moradoras da casa são convidadas a
participar dos treinamentos e o fazem quando desejam.
Todavia, a existência dos campeonatos e o modo como eles são distribuídos,
infelizmente, reforçam a segregação esportiva. A forma como dividem a comunidade em
grupos separados não inclui pessoas trans no esporte, mas fortalece os times cisgêneros,
induzindo que transgêneros joguem separadamente, mesmo quando a intenção é promover a
diversidade. Nesse aspecto, Camargo e Kessler (2017) advertem que quando se inter-
relacionam sexualidade e sistema esportivo, os corpos aparecem como marionetes dentro do
palco da heteronormatividade, proporcionando que apenas os sujeitos considerados “normais”
tenham permissão para participar das competições esportivas, enquanto o restante deve ser
excluído por algum discurso moralista. Os conceitos proferidos por treinadores e médicos, que
na maioria das vezes privilegiam as pessoas com corpos atléticos normativos/inteligíveis,
acabam determinando o ostracismo social de qualquer atleta que fuja do binarismo
masculino/feminino.
Apenas o Portal Geledés e a Carta Capital discorreram sobre a terceira categoria,
mostrando as formas de inclusão do(a) esportista transexual no esporte e o posicionamento das
federações, que, como foi demonstrado, ainda se utilizam das análises das questões biológicas
e morais para se posicionarem quanto à participação deles e delas nas modalidades esportivas.
Além disso, é possível concluir que a forma de inclusão que a própria comunidade encontrou
para a participação de transgêneros no mundo esportivo não resolve o problema social
levantado na problemática, que é o direito da comunidade LGBTQIAPN+ de participar como
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iguais, com o gênero com o qual se identificam, dos esportes que trabalham e nos times que o
satisfazem.
Nesse contexto, Grespan e Goellner (2014) evidenciaram o processo discriminatório,
compreendendo a inserção de Fallon Fox como atleta transexual profissional do Mixed Martial
Arts, mais especificamente, a luta contra Allanna Jones, no dia 24 de março de 2013, nas
semifinais do Championship Fighting Alliance, a partir da análise de 510 comentários postados
em três meios de comunicação vinculados às lutas, buscando apreender os discursos que seus
usuários produziram sobre o tema em tela. As autoras identificaram que os argumentos
utilizados para justificar o caráter impróprio da disputa estavam assentados na utilização de
discursos jurídicos e médicos para atestar a vantagem de Fallon Fox sobre sua oponente e a
transfobia.
Todo esse preconceito e discriminação contra a participação de pessoas transexuais nas
práticas corporais ocorre porque o esporte pode ser considerado uma ferramenta que, a partir
de saberes biológicos e práticas biotecnológicas, divide a sociedade, construindo e afirmando
definições como gênero, sexo e sexualidade em atletas. As definições de gênero foram criadas
na estrutura social a partir de explicações biológicas do corpo. Portanto, o feminino e o
masculino são construções sociais que são entendidas como uma limitação, e tal prática é
visivelmente compreendida pelo esporte. Uma forma bastante relevante de se compreender essa
realidade é a existência da Agência Antidoping para competições esportivas, a qual tem o
objetivo de qualificar a capacidade biológica do(a) atleta de participar de competições sem que
haja vantagem sobre outros(as). No entanto, ao longo dos anos, foram feitos exames invasivos,
testes biológicos e pessoas intersexuais foram desclassificadas de competições esportivas em
nome de promover a igualdade nas práticas esportivas, estabelecendo padrões e excluindo uma
parcela de pessoas que não tinham a intenção de trapacear, a descaracterizando de seu sexo –
definido biológica e culturalmente (ZOBOLI; MONSKE; GALAK, 2021).
Dessa forma, existe uma universalização do corpo esportivo por meio da biologia, e o
que não se encaixa, o “degenerado”, ao ser excluído, torna-se um animal, já que não o inclui
como homem, como ser humano, sendo os corpos transexuais considerados anormais. Ainda
que haja uma ampliação das fronteiras e a abertura das normas fortemente estabelecidas na
biologia quanto às definições de gênero, sexo e sexualidade, a fisicalidade dos corpos ainda é
um forte vetor para definir o indivíduo socialmente (ZOBOLI; MONSKE; GALAK, 2021).
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Considerações finais
Os meios de comunicação utilizados para a análise da participação transexual no esporte
são tratados como progressistas e os resultados foram embasados para comprovar ou não tais
considerações. Os quatro veículos citados – Blog Dibradoras, Jornal El País, Revista Carta
Capital e Portal Geledés – trouxeram no total 16 matérias relacionadas ao tema, nas quais pode-
se ver a realidade dos(as) atletas trans no mundo esportivo. De forma geral, todos os portais
examinados trabalharam de maneira a promover a inclusão desses(as) esportistas nas práticas
corporais, trazendo os relatos pessoais de cada um(uma) que foi excluído(a) do esporte, bem
como as barreiras que enfrentaram e ainda enfrentam para conquistarem espaço e respeito.
Evidenciado como principal causa da exclusão dos(as) atletas está o preconceito, fruto da
ignorância e do desconhecimento baseado em argumentos puramente biológicos e excludentes.
A maioria das notícias apresentadas, principalmente nos dois primeiros temas, traz um
cunho emocional ao se narrar a história de vida dos(as) jogadores(as), o processo de transição,
a luta no ambiente esportivo, a busca por respeito e a aceitação ou negação. Os autores e as
autoras mostram a realidade dessas pessoas quando lutam por reconhecimento social e como
isso os(as) afeta psicológica e fisicamente, mostrando inclusive falas preconceituosas do
público, de federações e de colegas de profissão, na maioria das vezes as rebatendo com saberes
de especialistas e dados científicos, e prezando pela inclusão esportiva.
Além disso, o último tema retrata a solução que os(as) próprios(as) atletas transexuais e
homossexuais tiveram que encontrar para poder participar do esporte, como narram os(as)
autores(as), evidenciando a forma como essas competições segregam ainda mais. Esse tópico
também traz o posicionamento das federações, com os(as) produtores(as) dos textos mostram-
se preocupados(as) ao cobrar um posicionamento dessas associações e não obter uma resposta
satisfatória, deixando evidente o pouco caso ou a falta de resposta, que compõe um debate moral
e biológico no qual atletas trans são constantemente atacados sem o conhecimento científico
necessário.
Em via das conclusões apresentadas, é visível que esses meios de comunicação, mesmo
com uma produção pequena de reportagens a respeito da temática transexual no esporte, buscam
promover a inclusão e a aceitação desses(as) atletas transgêneros nas práticas corporais. Assim,
eles tentam evidenciar a realidade e combater o preconceito com a realidade estudada, e não
com falácias ignorantes, como também mostram que ocorre. Portanto, esses veículos midiáticos
têm um papel de extrema importância para levar conhecimento sobre uma realidade pouco
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falada no mundo esportivo, buscando mostrar que atletas trans existem e merecem ter seu lugar
no mundo do trabalho, no esporte e na sociedade.
Por fim, defendemos que a participação de pessoas transexuais nas práticas corporais,
que foi analisada e debatida neste artigo, seja problematizada nas aulas de Educação Física
Escolar, potencializando essas reflexões com as crianças, adolescentes, jovens e adultos que
frequentam a Educação Básica brasileira.
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Submetido em 5 de novembro de 2022.
Aprovado em 5 de abril de 2023.
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