Bulhões & Advogados Associados S/S
EXCELENTÍSSIMO SENHOR DESEMBARGADOR FEDERAL PRESIDENTE DO
TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 4ª REGIÃO
“No caso, ainda que a decisão transcrita pelo Juízo a quo e o
mandado tenham consignado que a medida não ficasse restrita a um
andar, não há duvidas de que a possibilidade de busca e apreensão em
qualquer andar ou sala do edifício, se assim entendesse pertinente a
autoridade policial, só poderia se dar em relação à empresa Galvão
Engenharia S/A, sob pena de ampliação irrestrita da constrição.
Como já mencionado, são exigidas fundadas razões para a determinação
de busca e apreensão, não se podendo acolher o mandado genérico,
franqueando amplo acesso a qualquer lugar. Tratando de decorrência
natural dos princípios constitucionais que protegem tanto o
domicílio, quanto a vida privada e a intimidade do indivíduo, torna-
se indispensável que o magistrado expeça mandados de busca e
apreensão com objetivo certo e contra pessoa determinada. Não é
possível admitir-se ordem judicial genérica, conferindo ao agente da
autoridade liberdade de escolhas e opções a respeito dos locais a
serem invadidos e vasculhados (NUCCI, Guilherme de Souza. Código de
Processo Penal Comentado. 14 ed. Rio de Janeiro: Forense, 2015, pp.
601/602).
No caso, os documentos anexados à inicial pela requerente deixam
claro que se trata de pessoas jurídicas diferentes, com CNPJ e
endereço distintos e estatuto social próprios, ainda que
pertencentes ao mesmo grupo econômico” (Acórdão com que a eg. 8ª
Turma do TRF/4ª Região, sendo Relator o eminente Desembargador
Federal João Pedro Gebran Neto, cassou decisão do MM. Juiz Federal
da 13ª Vara de Curitiba que havia convalidado busca e apreensão
realizada para além do local delimitado pelo mandado de busca e
apreensão para atingir no mesmo edifício empresa de um mesmo grupo
econômico diversa da que era alvo da medida constritiva).
ODEBRECHT S/A., pessoa jurídica de direito privado
com matriz inscrita no CNPJ 05.144.757/0001-72, com endereço na
Avenida Luis Viana, 2.841, Edifício Odebrecht, Bairro Paralela,
Salvador, Bahia, CEP 41.730-900, e filial inscrita no CNPJ sob o nº.
05.144.757/0004-15, com endereço na Rua Lemos Monteiro, 120, 15º
andar, Edifício Odebrecht, Butantã, São Paulo/SP, CEP 05.501-050 e
ODEBRECHT ENGENHARIA DE PROJETOS LTDA., pessoa jurídica de direito
privado inscrita no CNPJ 15.122.275/0001-75, com endereço na Rua
Lemos Monteiro, 120, 12º andar, parte “G”, Edifício Odebrecht,
Butantã, São Paulo/SP, CEP 05.501-050, vêm respeitosamente a Vossa
Excelência, por seus advogados signatários, constituídos nos
precisos termos dos inclusos instrumentos de mandato,
substabelecimentos e respectivos dos seus atos constitutivos (anexo
01), impetrar o presente
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MANDADO DE SEGURANÇA1
(com pedido de medida liminar)
em face de ato praticado pelo MM. JUIZ FEDERAL DA 13ª VARA FEDERAL
DE CURITIBA – SEÇÃO JUDICIÁRIA DO PARANÁ nos autos do Pedido de
Busca e Apreensão Criminal nº. 5024251-72.2015.4.04.7000 (Processo
Eletrônico – E-Proc V2-PR – anexo 02 – cópia integral),
consubstanciado nas ilegais e abusivas buscas e apreensões criminais
realizadas em 19/06/2015 em desfavor das impetrantes, que são
pessoas jurídicas autônomas, com estatutos e endereços próprios e
administrações distintas e independentes, sendo a primeira a holding
do grupo Odebrecht e a segunda uma sua empresa integrante –- o que
fazem com fundamento na Súmula nº. 202/STJ e nos arts. 5º, XXXV, LIX
e LXIX, da Constituição Federal e 1º e 5º, II, a contrario sensu, da
Lei nº. 12.016/2009, bem como nas razões a seguir expostas.
Destaca, desde logo, a tempestividade da presente
impetração: o ato coator foi praticado em data de 19/06/2015,
consoante documentos constantes do anexo 02, sendo certo que o prazo
de 120 (cento e vinte dias) a que alude o art. 23 da Lei nº.
12.016/2009 terminaria na data de anteontem, 16/10/2015 (sexta-
feira). Nada obstante, desde o dia 15/10/2015, véspera do último dia
do dies ad quem da impetração, a impetrante se viu impossibilitada
de protocolar o seu pedido no sistema ePROC, em razão de sua
indisponibilidade para o usuário, pois “o link de dados que permite
a comunicação entre a Justiça Federal do Paraná e o TRF4 esteve
inoperante”, entre pelo menos o dia 15/10/2015 (18:20:00) e o dia
16/10/2015 (20:00:00), nos termos da certidão anexa expedida pela
Justiça Federal da 4ª Região e “confeccionada com base nos registros
do sistema e-PROC V2 da Seção Judiciária do Paraná”.
Embora o óbice acima certificado já bastasse para
justificar a impetração do presente writ na próxima segunda-feira,
19/10/2015, por ser o primeiro dia útil seguinte à resolução do
problema (que, registre-se, ocorreu apenas no dia de hoje,
17/10/2015, sábado), a teor do art. 10, § 2º, da Lei nº. 11.419/2006
e do art. 6º, § 2º da Resolução nº. 17, de 26 de março de 2010, do
1 Art. 20 da Lei nº. 12.016/09: “Os processos de mandado de segurança e os
respectivos recursos terão prioridade sobre todos os atos judiciais, salvo
habeas corpus”.
2
Presidente do TRF da 4ª Região, a impetrante está protocolando o
mandamus antecipadamente na data de hoje, após a indisponibilidade
verificada, que, aliás, se estendeu por todo o dia de sexta-feira,
16/10/2015, conforme se colhe de print da tela do sistema e-PROC
emitido às 21h30.
ANTECEDENTES DA IMPETRAÇÃO
Em data de 15/06/2015, o MM. Juiz Federal da 13ª
Vara Federal de Curitiba/PR, Seção Judiciária do Paraná, nos autos
do Pedido de Busca e Apreensão Criminal nº. 5024251-
72.2015.4.04.7000 (Processo Eletrônico – E-Proc V2-PR), deferiu uma
série de “medidas de investigação” e de “medidas coercitivas
relacionadas a assim denominada Operação Lavajato, especificamente
em relação a executivos das empreiteiras Odebrecht e Andrade
Gutierrez” (evento 8 do anexo 02), tendo como base “representação da
autoridade policial” (evento 1 do anexo 02) e parecer com que o
Ministério Público Federal “posicionou-se favoravelmente aos
requerimentos da autoridade policial”, a par de ter agregado
“requerimentos próprios” (evento 22 do anexo 02).
Ao deferir aqueles pedidos, o MM. Juiz Federal da
13ª Vara Federal de Curitiba/PR, a quem se aponta como autoridade
coatora, noticiou que tramitam por aquele “Juízo diversos
inquéritos, ações penais e processos incidentes relacionados à assim
denominada Operação Lavajato”, sendo certo que “[a] investigação,
com origem nos inquéritos 2009.7000003250-0 e 2006.7000018662-8,
iniciou-se com a apuração de crime de lavagem consumado em
Londrina/PR, sujeito, portanto, à jurisdição desta Vara, tendo o
fato originado a ação penal 5047229-77.2014.404.7000”.
Acrescentou, então, em síntese, que, “na evolução
das apurações, foram colhidas provas, em cognição sumária, de um
grande esquema criminoso de cartel, fraude, corrupção e lavagem de
dinheiro no âmbito da empresa Petróleo Brasileiro S/A – Petrobras
cujo acionista majoritário e controlador é a União Federal”. Nesse
contexto, Sua Excelência prosseguiu dizendo que “[g]randes
empreiteiras do Brasil, entre elas a OAS, UTC, Camargo Corrêa,
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Odebrecht, Andrade Gutierrez, Mendes Junior, Queiroz Galvão,
Engevix, SETAL, Galvão Engenharia, Techint, Promon, MPE, Shanska,
IESA e GDK teriam formado um cartel através do qual teriam
sistematicamente frustrado as licitações da Petrobras para a
contratação de grandes obras”.
Ainda segundo a autoridade coatora, “as empresas,
em reuniões prévias às licitações, definiriam, por ajuste, a empresa
vencedora dos certames relativos aos maiores contratos”, enquanto
“às demais cabia dar cobertura à vencedora previamente definida,
deixando de apresentar proposta na licitação ou apresentando
deliberadamente proposta com valor superior àquela da empresa
definida como vencedora”, propiciando, desta forma, “que a empresa
definida como vencedora apresentasse proposta de preço sem
concorrência real”.
Em contrapartida, averbou Sua Excelência que “as
empresas componentes do cartel, (sic) pagariam sistematicamente
propinas a dirigentes da empresa estatal calculados em percentual,
de um a três por cento em média, sobre os grandes contratos obtidos
e seus aditivos”, sendo certo que entre os recebedores de propinas
estariam os “dirigentes da Diretoria de Abastecimento, da Diretoria
de Engenharia ou Serviços e da Diretoria Internacional,
especialmente Paulo Roberto Costa, Renato de Souza Duque e Nestor
Cuñat Cerveró”.
E mais: no curso da investigação, teriam surgido
“elementos probatórios de que o caso transcende a corrupção –- e
lavagem decorrente -– de agentes da Petrobras, servindo o esquema
criminoso para também corromper agentes políticos e financiar, com
recursos provenientes do crime, partidos políticos”, a cujos
integrantes “cabia dar sustentação à nomeação e à permanência nos
cargos da Petrobrás dos referidos Diretores”, sendo de destacar-se
que “entre as empreiteiras, os Diretores da Petrobras e os agentes
políticos, atuavam terceiros encarregados do repasse das vantagens
indevidas e da lavagem de dinheiro, os chamados operadores”.
A partir daí, consignou que “[e]sse esquema
criminoso mais amplo foi revelado inicialmente por Paulo Roberto
4
Costa e Alberto Youssef perante este Juízo, em depoimentos prestados
no curso da ação penal 5026212-82.2014.404.7000 (evento 1101), após
terem celebrado acordo de colaboração premiada com o Ministério
Público Federal”, tendo ambos se referido “especificamente aos
dirigentes da Odebrecht e da Andrade Gutierrez como participantes do
cartel e como responsáveis pelo pagamento de propinas, indicando as
pessoas nas empresas responsáveis pelos crimes”. Assim, “[n]a
Odebrecht, Paulo Roberto Costa, reportou-se a Márcio Faria da Silva
e a Rogério Santos de Araújo, Diretores da Odebrecht, já Alberto
Youssef, especificamente a Márcio Faria”.
Nessa esteira, acresceu a autoridade coatora que “o
esquema criminoso também foi admitido por Pedro José Barusco Filho,
ex-Gerente Executivo da Petrobras, após acordo de colaboração
premiada (5075916-64.2014.404.7000), com referência específica à
Odebrecht e à Andrade Gutierrez”, quando também informou “que o
esquema criminoso foi reproduzido na empresa SeteBrasil, contratada
pela Petrobras para o fornecimento de sondas para exploração do pré-
sal”.
Acresceu ainda que, da mesma forma, “Augusto Ribeiro
de Mendonça Neto, dirigente da Setal Óleo e Gás S/A (SOG), uma das
empreiteiras envolvidas no esquema criminoso” teria admitido “a
existência do cartel, os ajustes para frustrar as licitações e o
pagamento de propinas a agentes da Petrobrás (processo 5073441-
38.2014.4.04.7000)”, confirmando “a participação no cartel da
Odebrecht e da Andrade Gutierrez, que eram representadas no cartel
por Márcio Faria e por Elton Negrão de Azevedo Júnior, este último
Diretor da Andrade Gutierrez”.
No que pertine ao “pagamento sistemático de propinas
pelas empreiteiras aos dirigentes da Petrobras”, pontuou a decisão
ora impugnada que “Júlio Gerin de Almeida Camargo”, apontado como
suposto “intermediador de propinas em vários contratos das
empreiteiras com a Petrobras”, também admitiu a sua ocorrência
(processo 5073441-38.2014.4.04.7000), merecendo destaque, a
propósito, duas recentes declarações prestadas pelos coinvestigados
Dalton dos Santos Avancini e Gérson de Mello Almada, que admitiram a
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existência de cartel envolvendo, entre outras empresas, a Odebrecht
e a Andrade Gutierrez.
Segundo a decisão sub examine, Dalton dos Santos
Avancini, Presidente da empreiteira Camargo Corrêa, teria prestado
suas declarações em acordo de colaboração premiada com o Ministério
Público Federal (processo 5013949-81.2015.4.04.7000, evento 1, anexo
7), quando “confirmou que a Odebrecht e a Andrade Gutierrez
participavam do cartel, citando especificamente Marcio Faria e Elton
Negrão, respectivamente”, enquanto Gérson de Mello Almada,
“acionista e dirigente da Engevix Engenharia, confessou, mesmo sem
acordo de colaboração premiada (ação penal 5083351-89.2014.404.7000,
eventos 430 e 473), a existência do cartel”, admitindo “o pagamento
de vantagem indevida” a dirigentes da Petrobras e confirmando “ainda
que a Odebrecht e a Andrade Gutierrez participavam do cartel,
apontando Márcio Faria e Paulo Dalmazzo como representantes”.
Logo a seguir, a decisão ora questionada pondera que
resta “evidente, porém, que todos os depoentes [delatores] também
estão envolvidos nos crimes, com o que a sua credibilidade é
passível de questionamento, máxime porque vários confessaram
buscando obter benefícios em decorrência da colaboração com o
Ministério Público Federal”, razão por que se imporia verificar,
“para além da prova oral”, se existiria “prova de corroboração do
esquema criminoso”. E ainda segundo a decisão, os elementos colhidos
nas investigações consubstanciam provas de corroboração da palavra
dos coinvestigados, delatores ou não.
Nesse sentido, consignou que “a identificação de que
pelo menos quatro dirigentes da Petrobras, o Diretor Paulo Costa, o
Diretor Renato Duque, o Diretor Nestor Cerveró, e o gerente
executivo Pedro Barusco mantinham contas secretas no exterior, a
maioria com valores milionários, constitui prova significativa do
esquema de corrupção e lavagem na Petrobras”, cabendo destacar “que
a maior parte dos extratos dessas contas no exterior já vieram (sic)
até este Juízo, confirmando o recebimento de depósitos em
circunstancias suspeitas, especialmente de contas off-shores cujos
controladores estão sendo progressivamente identificados”.
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Ocorre que, “antes mesmo disso”, segundo a decisão
em comento, “já havia sido colhida prova documental do repasse de
valores milionários por diversas empreiteiras”, entre as quais não
se incluíam Odebrecht e Andrade Gutierrez, “para contas controladas
por Alberto Youssef, que atuava como intermediador do pagamento de
propinas para a Diretoria de Abastecimento, em nome das empresas MO
Consultoria e GDF Investimentos” conforme descrição contida “na
decisão de 10/11/2014 (evento 10) do processo 5073475-
13.2014.404.7000”. E, quanto “ao afirmado repasse de valores do
esquema criminoso na Petrobras a agentes políticos”, apesar da
“maior parte desta investigação” encontrar-se “em trâmite no Supremo
Tribunal Federal”, alguma prova de corroboração já foi colhida.
No tocante a “elementos probatórios de corroboração
relativos à própria existência do cartel de empresas”, ainda segundo
a decisão, as investigações revelaram que, “[e]ntre as empreiteiras
identificadas, encontram-se a Odebrecht, identificada pela sigla
‘CO’ (Construtora Norberto Odebrecht), e a Andrade Gutierrez,
identificada pela sigla ‘AG’”, conforme “documentos apresentados por
Augusto Mendonça, dirigente da Setal Óleo e Gás S/A (SOG),
produzidos nas reuniões de ajuste prévio entre as empreiteiras da
distribuição das obras da Petrobras entre elas” e consoante ainda
“[d]ocumentos similares apreendidos na sede da empresa Engevix
Engenharia e que foram juntados originariamente no evento 38,
apreensão 9, do inquérito 5053845-68.20144047000”, constando, entre
as empreiteiras neles mencionadas, “a Odebrecht, identificada desta
feita pela sigla ‘CN’ (Construtora Norberto Odebrecht), e a Andrade
Gutierrez, identificada pela sigla ‘AG’”.
Daí decorreria, para a decisão em comento, não só
“prova oral da existência do cartel e da fixação prévia das
licitações entre as empreiteiras, com a participação da Odebrecht e
da Andrade Gutierrez, mas igualmente prova documental consistente
nessas tabelas, regulamentos e mensagens eletrônicas”,
consubstanciados nos documentos acima referidos, em ordem a
demonstrar que aquelas duas empreiteiras (Construtora Norberto
Odebrecht e Construtora Andrade Gutierrez), reiteradamente referidas
na decisão apenas como Odebrecht e Andrade Gutierrez, através de
7
determinados representantes até aqui nominados (Márcio Faria e
Rogério Araújo, pela primeira, e Elton Negrão, pela segunda),
estariam envolvidas nos crimes investigados (“esquema criminoso de
cartel, fraude, corrupção e lavagem de dinheiro no âmbito da empresa
Petróleo Brasileiro S/A – Petrobras”).
Na sequência, registra a decisão que a autoridade
policial, em sua representação (evento 01 do anexo 02), indicou “as
obras da Petrobras, na RNEST e no COMPERJ, em relação às quais
haveria elementos probatórios de que teriam tido suas licitações ou
contratos fraudados pelo cartel de empreiteiras, especialmente pela
correspondência do resultado como verificado nas tabelas
apresentadas por Augusto Mendonça ou nas apreendidas na Engevix”.
Entre essas obras, destacou que “a licitação para a implantação da
Unidade de Destilação Atmosférica – UDA na Refinaria Abreu e Lima
foi vencida pelo consórcio RNEST/CONEST, que reunia a Odebrecht e a
OAS”, bem como “a licitação para a implantação das UHDTs e UGHs na
Refinaria Abreu e Lima também foi vencida pelo Consórcio
RNEST/CONEST”, que também “reunia a Odebrecht e a OAS”. E
acrescentou que, “para ambas as obras (UDA e UHDT na RNEST)”, as
tabelas apresentadas, “notadamente as apreendidas na Engevix (‘Lista
novos negócios – RNEST’, fl. 12 do relatório, evento 1, anexo 4)
apontavam a preferência, entre as empreiteiras, da Odebrecht e da
OAS (pelas siglas ‘CN’ e ‘AO’, respectivamente)”.
Para a decisão, teria havido irregularidade também
na “licitação para a implantação da Unidade U-61000 no COMPERJ”
vencida “pelo Consórcio Pipe Rack, que reunia a Odebrecht, a UTC e a
Mendes Jr.”, acrescentando que, “além dessas obras, há diversas
outras contratadas pela Petrobras nas quais participaram as empresas
Odebrecht e Andrade Gutierrez, mas que não foram objeto de análise
mais detida na representação policial”.
Em nenhum momento se citou o nome de Marcelo Bahia
Odebrecht, muito menos relacionando-o aos supostos crimes de
formação de cartel e de fraude a licitações, sendo certo, ademais,
que nesse suposto contexto criminoso também não se incluiu qualquer
outra empresa do grupo Odebrecht, muito embora impropriamente se
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tenha consignado na autuação e no registro do Pedido de Busca e
Apreensão Criminal 5024251-72.2015.4.04.7000 (Processo Eletrônico –
E-Proc V2-PR), em que proferida a decisão em comento, que a
“Odebrecht S/A” seria “interessado” no procedimento, ao lado da
Petróleo Brasileiro S/A – Petrobras, ostentando a mesma condição,
sendo “acusado” a Construtora Norberto Odebrecht S/A, e relacionados
a esta última, Marcelo Bahia Odebrecht, Alexandrino de Sales Ramos
de Alencar, César Ramos Rocha, Márcio Faria da Silva e Rogério
Santos Araújo aparecem inexplicavelmente como “acusados”.
Em seguida, veja-se que o MM. Juiz Federal da 13ª
Vara Federal de Curitiba/PR, Seção Judiciária do Paraná, ao concluir
o item 3 e iniciar o item 4 daquela decisão, consignou que, já
havendo em cognição sumária “suficiente prova da participação da
Odebrecht e da Andrade Gutierrez no cartel das empreiteiras e no
ajuste dos resultados das licitações”, cumpriria demonstrar a
existência de “prova do pagamento por elas de vantagens indevidas
aos dirigentes da Petrobras”. E isto ele se propôs a fazer no item
4, em que começou por dizer que, “pelas provas até o momento
colhidas, a Odebrecht pagaria propina de maneira geral de forma mais
sofisticada do que as demais empreiteiras, especialmente mediante
depósitos em contas secretas no exterior”.
Nesse específico aspecto, registrou que “o modus
operandi foi revelado pelos próprios beneficiários da propina, Paulo
Roberto Costa e Pedro Barusco, e também pelo intermediador Alberto
Youssef”. Assim, “Paulo Roberto Costa, em depoimentos no acordo de
colaboração, afirmou que quase todos os valores recebidos nas contas
off-shores que mantinha na Suíça seriam provenientes da Odebrecht”,
explicitando que “a propina teria sido paga por Rogério Araújo,
Diretor da Odebrecht, e intermediada por Bernardo Schiller
Freiburghaus, este exercendo papel equivalente ao de Alberto
Youssef, de operador de propinas e de lavagem de dinheiro para a
Odebrecht”, no período “de 2008 ou 2009 até 2013”. Ainda segundo
Paulo Roberto, “parte da propina depositada nas contas Suíça pela
Odebrecht decorreria de negociações envolvendo a Petrobrás e a
Odebrecht na Brasken (sic)”.
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Registrou ainda a decisão que “os extratos das
contas secretas de Paulo Roberto Costa já vieram da Suíça, em
decorrência da quebra de sigilo bancário do processo 5031505-
33.2014.404.7000 (decisão de 03/07/2014, evento 25, daquele
processo) e do próprio acordo de delação”, verificando-se que, “em
várias das contas, Bernardo Freiburghaus figura como procurador”, o
que corroboraria “este ponto do depoimento de Paulo Roberto Costa”.
Anotou, em adição, que “Bernardo Freiburghaus também
consta como procurador em contas mantidas na Suíça por Pedro Barusco
(v.g. Canyon View Assets e Ibiko Consulting), o que indica o seu
envolvimento e da Odebrecht no pagamento de propinas também para o
ex-gerente executivo”. Ocorre que, nos termos da decisão sub
examine, “o referido operador, no curso das investigações e logo
após a prisão cautelar de Paulo Roberto Costa, deixou o Brasil e
refugiou-se na Suíça, sendo de se destacar que é nacional suíço,
embora residisse de forma permanente no Brasil” -– de onde saiu
definitivamente em 29/10/2014, quando “apresentou declaração de
saída definitiva do Brasil junto à Receita Federal”.
Sempre em tom só compatível com juízo condenatório,
apressou-se em dizer que “a fuga do intermediador de propinas e de
lavagem de dinheiro que prestava serviços para a Odebrecht
prejudicou as investigações em relação à referida empreiteira”. E
completou o seu juízo antecipado de convicção afirmando que, “além
do depoimento do criminoso colaborador, da repatriação dos milhões
de dólares constantes nas contas”, haveria “também prova material da
existência das contas na Suíça controladas por Paulo Roberto Costa e
dos depósitos nela efetuados, provenientes quase todos de contas
off-shore por determinação, conforme declarado por ele, da
Odebrecht”, com destaque para os relacionados à “Constructora
Internacional Del Sur, off-shore constituída no Panamá”.
Nessa linha, a decisão averbou que “Pedro Barusco,
além de confirmar, como adiantado, o esquema criminoso e declarar
que a Odebrecht também pagou propina nos contratos para a construção
de seis sondas para a Petrobras explorar o pré-sal por intermédio da
Sete Brasil, revelou que recebeu pagamentos em contas na Suíça por
10
parte da empreiteira”, figurando “Rogério Araújo, da Odebrecht” como
“o responsável específico pelos pagamentos”. Averbou, ainda, que,
“segundo as informações do criminoso colaborador constantes em
tabela por ele fornecida às autoridades (evento 6, out6), a
Odebrecht teria pago propinas à Diretoria de Serviços e Engenharia”
em vários contratos que se encontram por ele relacionados.
A esta altura, a decisão objurgada salienta que se
encontrariam “ainda disponíveis nos autos os comprovantes de
depósitos efetuados na conta Pexo Corporation, controlada por Pedro
Barusco, e que seriam provenientes de contas controladas pela
Odebrecht (fls. 42-50 do aludido Relatório de Análise de Material nº
154, evento 1, anexo 22)”, tendo “como origem ... apontadas contas
off-shore da Constructora Internacional Del Sur”. Haveria ainda “em
conta de outra off-shore, controlada por Pedro Barusco, a Canyon
View Assets no Royal Bank do Canadá, também identificado outro
depósito, desta feita nele consignado que o responsável seria a
própria Odebrecht (fls. 51 do aludido Relatório de Análise de
Material nº. 154, evento 1, anexo 22)”.
Mais uma vez extrapolando os limites de uma
manifestação produzida em cognição sumária, fora do contexto da
insuplantável garantia do contraditório, a decisão ora combatida
assevera que, “também em relação a Pedro Barusco, além do depoimento
dele e da repatriação dos milhões de dólares constantes nas contas
que mantinha na Suíça, há também prova material da existência das
contas na Suíça por ele controladas e dos depósitos nela efetuados,
provenientes em parte da Odebrecht”, merecendo destaque “os
provenientes da Constructora Internacional Del Sur, off-shore
constituída no Panamá, e aquele no qual o próprio nome da Odebrecht
está identificado”.
Para a decisão, Alberto Youssef também teria
confirmado “todo o esquema criminoso e a participação nele da
Odebrecht (processo 5002400-74.2015.4.04.7000), declarou que a
empreiteira realizou pagamentos de propinas no exterior”, em uma
conta de José Janene e em contas de Leonardo Meirelles, encontrando-
se este processado perante o Juízo da 13ª Vara Federal de Curitiba
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(ação penal 5025699-17.2014.404.7000), já tendo sido condenado por
lavagem de dinheiro na ação penal 5026212-82.2014.404.7000, onde
confessou ser “uma espécie de operador do mercado negro de câmbio e
que teria prestado serviços a Alberto Youssef, inclusive a ele
disponibilizado contas no exterior para recebimento de depósitos de
terceiros”.
Acresce a decisão que, em um de seus mais recentes
depoimentos, Alberto Youssef teria detalhado os pagamentos de
propina efetuados pela Odebrecht, confirmando que a empresa
“efetuava os pagamentos em contas no exterior que eram controladas
por Leonardo Meirelles” e que “teria tratado do assunto com Márcio
Faria e com César Ramos Rocha (Diretor Financeiro da Odebrecht).”
Mesmo se tratando de versão apresentada por delator,
ainda não submetida ao crivo do contraditório e da ampla defesa, uma
vez mais a decisão impugnada lhe dá crédito absoluto ao dizer que
“também quanto à parte dos depósitos recebidos no exterior por
Alberto Youssef da Odebrecht, há não só o depoimento do criminoso
colaborador, mas também prova documental”. Ora, até aqui, afora a
palavra do delator, nenhuma prova efetiva se produziu em ordem a
evidenciar que os depósitos atribuídos à Odebrecht teriam sido
efetivamente por ela realizados.
Logo, como se vê, a afirmação peremptória, contida
na decisão impugnada, de que haveria prova de depósitos no exterior
realizados pela Odebrecht, leia-se, pela Construtora Norberto
Odebrecht S/A, não passa de um inaceitável pré-julgamento. Mas essa
é a tônica da decisão, seja com relação à suposta prova da
existência de crimes, seja no tocante à pretensa existência de
indícios de participação dos executivos da Construtora Norberto
Odebrecht nominados pelos delatores como envolvidos nas infrações
penais investigadas (Rogério Santos de Araújo, Márcio Faria da Silva
e César Ramos Rocha, este último referido uma única vez em
declarações de Alberto Youssef).
Prova de que o alegado acima não passou de esforço
retórico para caracterizar como prova de crime meras conjecturas, a
12
decisão impugnada logo se agita em destacar que, em meio a esse
turbilhão de especulações, haveria sim pelo menos uma prova de
depósito feito pela Odebrecht em uma conta no exterior supostamente
vinculada ao pagamento de propinas do pretenso esquema criminoso
noticiado. Assim, registra que haveria “pelo menos um comprovante de
depósito de USD 300.000,00 em 30/09/2013 na conta da off-shore
Canyon View Assets S/A controlada por Pedro Barusco e no qual consta
expresso o nome da Odebrecht como responsável pela transação (fls.
51 do aludido Relatório de Análise de Material nº. 154, evento 1,
anexo 22)”. Esse registro, contudo, foi posteriormente corrigido
pelo próprio Juízo Federal por não corresponder à verdade, pois não
se tratava de depósito realizado pela “Odebrecht”, mas de aquisição
de títulos da Odebrecht por uma off-shore controlada por Pedro
Barusco.
Para a decisão, além desses elementos probatórios,
teriam sido colhidos outros dados que, “embora não relacionados
diretamente ao pagamento de propinas”, corroborariam “os depoimentos
dos criminosos colaboradores quanto às suas ligações com a Odebrecht
ou acerca do envolvimento desta na prática de crimes relacionados à
Petrobras”. Nesse sentido, na fase inicial da investigação, a
interceptação telemática de Alberto Youssef revelou contatos dele
“com Alexandrino de Salles Ramos de Alencar, então Diretor da
Petrobras” (na realidade, ele nunca foi Diretor da Petrobras), com
quem Alberto Youssef, em seu termo de colaboração premiada, afirmou
“ter negociado as propinas no caso Odebrecht/Braskem, juntamente com
Paulo Roberto Costa”.
Complementa a decisão dizendo que, no relatório
policial sob a rubrica “Informação 018/2015/Delefin (evento 1, anexo
20)”, constaria “a identificação de outro executivo da Odebrecht que
mantinha contato com Alberto Youssef”, no caso, “César Ramos Rocha,
Diretor Financeiro da Odebrecht”, que “tratava do pagamento das
propinas no exterior e que referida pessoa tinha o apelido de
‘Naruto’”. A propósito, “no relatório dos contatos de Alberto
Youssef no BlackBerry Messenger foi de fato identificado um
‘Naruto’, que utilizava o pin number 28644958 e se encontra
13
vinculado ao telefone 11 96191-0293 e ao endereço eletrônico
[email protected]”.
Para o MM. Juiz Federal da 13ª Vara Federal de
Curitiba “tais provas corroboram materialmente o depoimento de
Alberto Youssef em relação aos seus afirmados contatos com
executivos da Odebrecht”, mas, “do material apreendido na sede da
Odebrecht quando das buscas autorizadas pela decisão judicial de
10/11/2014 (evento 10 do processo 5073475-13.2014.404.7000), chama a
atenção a identificação de mensagem eletrônica enviada por Roberto
Prisco Ramos (da Braskem) a executivos da Odebrecht, Marcelo Bahia
Odebrecht, Fernando Barbosa, Márcio Faria da Silva e Rogério Araújo
no qual se faz referência à colocação de um sobrepreço de ordem de
vinte e cinco mil dólares por dia no contrato de operação de sondas,
o que remete aos contratos da empresa com a Petrobras (fl. 10 do
laudo 0777/2015, evento 1, anexo 10)”. O e-mail está datado de
21/03/2011.
A conclusão que a decisão impugnada extrai desse e-
mail datado de mais de 04 (quatro) anos atrás é espantosa e
surpreendente: “[e]mbora o fato necessite ser investigado mais
profundamente, essa mensagem eletrônica também corrobora as
declarações dos criminosos colaboradores quanto à prática de crimes
na relação entre a Odebrecht e a Petrobras”. Vale dizer, a dúvida
confessada do magistrado quanto ao significado do teor do e-mail se
convola automaticamente em convicção da existência de crime na
relação entre as empresas mencionadas. Dictu mirabile! A propósito,
registre-se que as conjecturas desenvolvidas sobre os e-mails sondas
foram posteriormente infirmadas pelas declarações do delator PEDRO
BARUSCO perante a CGU e pelo depoimento de ROBERTO PRISCO RAMOS nos
autos da Ação Penal 5036528-23.2015.4.04.7000/PR (anexos 03 e 04).
Sempre e sempre se pautando por um posicionamento
marcadamente condenatório, na linguagem e no raciocínio
desenvolvido, entremeado por duvidosas manifestações sobre a
ausência de juízo pré-concebido ou de pré-julgamento sobre as
matérias abordadas, o MM. Juiz Federal da 13ª Vara Federal de
Curitiba/PR concluiu o exame da representação da autoridade policial
14
e da manifestação do MPF que a referendou, agregando requerimentos
próprios, dizendo com relação à Construtora Norberto Odebrecht S/A
que, “[c]om base em todos elementos (sic), ressalvando que aqui não
se fez análise exaustiva da prova, mas apenas exame em cognição
sumária, forçoso concluir pela presença também de prova suficiente
do pagamento de propina pela Odebrecht a dirigentes da Petrobras,
principalmente através de contas no exterior”.
A partir desse quadro fático e após haver examinado
a situação da Construtora Andrade Gutierrez, afirmou Sua Excelência
que se poderia concluir, “em cognição sumária, pelo envolvimento de
dirigentes da Odebrecht e da Andrade Gutierrez no esquema criminoso
de cartel, fraude à licitação e pagamento de propinas em contratos e
obras da PETROBRAS”, passando então a nominá-los:
“Na Odebrecht, os principais executivos envolvidos
seriam Rogério Santos de Araújo, Márcio Faria da Silva, César
Ramos Rocha, Alexandrino de Salles Ramos de Alencar e Marcelo
Bahia Odebrecht.
Na Andrade Gutierrez, os principais executivos
envolvidos seriam Elton Negrão de Azevedo Júnior, Paulo Roberto
Dalmazzo, Antônio Pedro Campello de Souza e Otávio Marques de
Azevedo.”
O que se seguiu não passou de desabrida conjectura
do MM. Juiz Federal da 13ª Vara Federal de Curitiba/SP, desenvolvida
a título de demonstração da ocorrência dos pressupostos para a
decretação da prisão preventiva de todas aquelas pessoas apontadas
pelo Juízo como envolvidas nas infrações penais investigadas:
“Considerando a duração do esquema criminoso, pelo
menos desde 2004, a dimensão bilionária dos contratos obtidos
com os crimes junto à Petrobras e o valor milionário das
propinas pagas aos dirigentes da Petrobras, parece inviável que
ele fosse desconhecido dos Presidentes das duas empreiteiras,
Marcelo Bahia Odebrecht e Otávio Marques de Azevedo.
Além disso, há provas e fatos específicos que os
relacionam aos crimes, como a aludida mensagem eletrônica
enviada a Marcelo Bahia Odebrecht sobre sobrepreços em
contratos de sonda e a ligação entre Otávio Marques de Azevedo
e Fernando Soares, um dos operadores do pagamento de propinas.”
15
Com efeito, depois de fazer outras considerações
sobre pretensos requisitos (risco à ordem pública e conveniência da
instrução criminal) para a imposição da medida cautelar de
segregação da liberdade dos investigados, Sua Excelência estimou
necessária a adoção dessa medida extrema, muito embora todas as suas
considerações não passassem de conjecturas e presunções em torno dos
fatos que deram origem às investigações.
No capítulo que interessa ao desate do presente
mandado de segurança, o MM. Juiz Federal da 13ª Vara Federal de
Curitiba/PR consignou que a autoridade policial pleiteou
“autorização para busca e apreensão de provas nos endereços dos
investigados e de suas entidades ou empresas, tendo o Ministério
Público Federal se manifestado favoravelmente à medida”.
Com efeito, após registrar que “o quadro probatório
acima apontado é mais do que suficiente para caracterizar causa
provável a justificar a realização de busca e apreensão nos
endereços apontados”, sem qualquer consideração adicional,
determinou fossem expedidos, “observado o artigo 243 do CPP,
mandados de busca e apreensão, a serem cumpridos durante o dia nos
endereços dos investigados e entidades e empresas envolvidas,
especificamente aqueles relacionados na representação da autoridade
policial: 1. Sede da empresa ODEBRECHT ÓLEO E GÁS S/A E ODEBRECHT;
2. Sede da empresa ODEBRECHT PLANTAS INDUSTRIAIS E PARTICIPAÇÕES
S.A.; 3. Sede da CONSTRUTORA NORBERTO ODEBRECHT S/A; 4. Sede da
ODEBRECHT PARTICIPAÇÕES E ENGENHARIA S.A; 5. Sede da empresa BRASKEM
S/A; (...); 14. ROGÉRIO SANTOS DE ARAÚJO; 15. ALEXANDRINO DE SALLES
RAMOS DE ALENCAR; 16. MARCIO FARIA DA SILVA; 17. CESAR RAMOS ROCHA;
18. MARCELO BAHIA ODEBRECHT; (...)”.
Deflagrada pela Polícia Federal a 14ª Fase da
Operação Lava Jato, denominada Erga Omnes, em 19/06/2015, com o
objetivo de executar a decisão com que o MM. Juiz Federal da 13ª
Vara Federal de Curitiba/PR decretara, em 15/06/2015, a prisão
preventiva de vários investigados e a busca e apreensão em empresas
e entidades a eles correlacionadas, aquele Juízo Federal, a pedido
do Delegado de Polícia Federal incumbido da operação, conforme
pedido complementar datado de 16/06/2015, autorizou, sem justa
16
causa, na mesma data, a extensão de buscas e apreensões a todas as
empresas do grupo Odebrecht (“18 empresas”) que funcionam no
complexo situado à Rua Lemos Monteiro, 120, Edifício Odebrecht,
Butantã, São Paulo/SP -- o que veio a ocorrer na data da deflagração
daquela fase da Operação Lava Jato, 19/06/2015.
Entre essas empresas atingidas pela extensão das
buscas e apreensões ilegalmente autorizadas pelo MM. JUIZ
FEDERAL DA 13ª VARA FEDERAL DE CURITIBA – SEÇÃO JUDICIÁRIA DO PARANÁ
nos autos do Pedido de Busca e Apreensão Criminal nº. 5024251-
72.2015.4.04.7000 (Processo Eletrônico – E-Proc V2-PR – anexo 02 –
cópia integral) estavam as impetrantes ODEBRECHT S/A., localizada na
Rua Lemos Monteiro, 120, 15º andar, Edifício Odebrecht, Butantã, São
Paulo/SP, e ODEBRECHT ENGENHARIA DE PROJETOS LTDA., localizada na
Rua Lemos Monteiro, 120, 12º andar, parte “G”, Edifício Odebrecht,
Butantã, São Paulo/SP.
A SITUAÇÃO DAS IMPETRANTES NO CONTEXTO DAS BUSCAS E APREENSÕES
A ODEBRECHT S/A é a holding do grupo Odebrecht, não
exercendo funções operacionais, mas atuando apenas como gestora de
investimentos, incumbindo às empresas que compõem o grupo as funções
operacionais. Já a ODEBRECHT ENGENHARIA DE PROJETOS LTDA constitui
uma das empresas autônomas e independentes dentro da estrutura do
grupo, não se confundindo obviamente com a ODEBRECHT S/A.
Nesse contexto, a ODEBRECHT S/A é administrada pelo
modelo de gestão baseada em princípios de confiança nas pessoas,
delegação planejada e descentralização, base da cultura ODEBRECHT. É
holding de quinze áreas de Negócios distintas (empresas), com
lideranças (diretorias) claramente definidas e governanças próprias
(autonomia), sistemas de conformidade consolidados e fluxos de caixa
segregados. O grupo Odebrecht, pois, pode ser definido como uma
confederação de empresas.
No contexto das investigações da denominada
“Operação Lava Jato”, as empresas impetrantes não foram alcançadas
pela decisão com que, em data de 15/06/2015, o MM. JUIZ FEDERAL DA
13ª VARA FEDERAL DE CURITIBA – SEÇÃO JUDICIÁRIA DO PARANÁ decretou a
17
realização de busca e apreensão nos escritórios de algumas das
empresas do grupo Odebrecht, nomeadamente sede da ODEBRECHT ÓLEO E
GÁS S/A, sede da ODEBRECHT PLANTAS INDUSTRIAIS PARTICIPAÇÕES S/A,
sede da CONSTRUTORA NORBERTO ODEBRECHT S/A, sede da ODEBRECHT
PARTICIPAÇÕES E ENGENHARIA S/A e sede da BRASKEM S/A.
O pressuposto da aludida decisão proferida em
15/06/2015 foi que essas empresas se relacionariam aos executivos do
grupo Odebrecht investigados pelo suposto cometimento de crimes
utilizando-se da estrutura organizacional daquelas pessoas
jurídicas. Ocorre que, a par dos graves equívocos cometidos com
relação ao envolvimento daquelas empresas e de seus executivos com
as investigações, as empresas ora impetrantes ODEBRECHT S/A e
ODEBRECHT ENGENHARIA DE PROJETOS LTDA, holding e integrante do grupo
Odebrecht, respectivamente, não foram nem são relacionadas às
investigações, por isso que a decisão acima referida não encontrou
“causa provável” que justificasse a sua inclusão no rol das empresas
que deveriam ser submetidas às medidas extraordinárias de busca e
apreensão domiciliar.
Pois bem. Os mandados de busca e apreensão foram
expedidos em desfavor das cinco empresas do grupo Odebrecht
expressamente relacionadas na decisão com que o MM. JUIZ FEDERAL DA
13ª VARA FEDERAL DE CURITIBA – SEÇÃO JUDICIÁRIA DO PARANÁ, em data
de 15/06/2015, estimou imprescindível a adoção de medidas
extraordinárias de investigação de afastamento da garantia da
inviolabilidade domiciliar de pessoas jurídicas diretamente
relacionadas a supostas infrações penais cometidas por executivos
investigados no âmbito da multicitada “Operação Lava Jato”. Por
óbvio, os nomes das ora impetrantes não constaram dos aludidos
mandados que, aliás, foram expedidos com inaceitável amplitude e
abrangência quanto ao objeto das diligências restritivas, em
decorrência de comando ilegal emanado da decisão judicial em
comento.
Ocorre que, consoante o evento 11 do anexo 02 dos
autos do Pedido de Busca e Apreensão Criminal nº. 5024251-
72.2015.4.04.7000 (Processo Eletrônico – E-Proc V2-PR), o Delegado
Federal incumbido da execução das buscas e apreensões requereu a
18
extensão das buscas e apreensões para a empresa ODEBRECHT LATIN
FINANCE e para todos os locais do prédio onde fossem localizadas
evidências relevantes da operação, mormente porque no complexo
situado na Rua Lemos Monteiro, 120, Butantã, São Paulo/SP
funcionariam dezoito empresas do grupo Odebrecht “sendo que,
malgrado nem todas sejam objeto de busca nominalmente, os
respectivos andares podem guardar informações conexas a
investigação”. Entre essas empresas que não estavam sendo objeto de
busca, encontravam-se as ora impetrantes ODEBRECHT S/A e ODEBRECHT
ENGENHARIA DE PROJETOS LTDA, localizadas, respectivamente, no 15º e
12º andares.
Com efeito, na decisão consubstanciada no evento 51
dos autos do Pedido de Busca e Apreensão nº 50242517220154047000, o
MM. JUIZ FEDERAL DA 13ª VARA FEDERAL DE CURITIBA – SEÇÃO JUDICIÁRIA
DO PARANÁ deferiu o pedido, mesmo ciente de que as dezoito empresas
relacionadas pela Polícia Federal, embora integrantes do grupo
Odebrecht, não eram alvo das buscas e apreensões, porque também não
foram alcançadas pela decisão de 15/06/2015 que as determinara. E
por isso mesmo também não constaram dos mandados de busca e
apreensão. Nada obstante tudo isso, e a despeito da gravidade do
ato, Sua Excelência proclamou:
“Observo ainda que as divisões corporativas do Grupo
Odebrecht não são relevantes para oposição ao cumprimento do
mandado, devendo ser colhidos os elementos probatórios que
constituem o objeto dos mandados em qualquer local em que for
encontrados no prédio do grupo na Rua Lemos Monteiro, 120, em
São Paulo/SP, como já constou no mandado”.
Nos mandados específicos para as empresas contra as
quais se decretara buscas e apreensões consignou-se que havia
“autorização para a busca e apreensão em qualquer andar ou sala do
estabelecimento predial”, nos termos da decisão contida no evento 08
do anexo 02. Vale dizer, com o esclarecimento feito acima, Sua
Excelência autorizou a Polícia Federal a realizar buscas e
apreensões em qualquer andar ou sala do edifício em relação a todas
as dezoito empresas indicadas pela Polícia Federal no pedido contido
no evento 11 do anexo 02, a pretexto de cumprir os mandados
19
expedidos especificamente contra outras cinco empresas do grupo
Odebrecht.
Enquanto o Delegado de Polícia Federal alertava para
a existência de outras dezoito empresas no prédio do Edifício
Odebrecht na Rua Lemos Monteiro, 120, Butantã, São Paulo/SP,
distintas das cinco empresas que não eram alvo das buscas e
apreensões, o MM. Juiz Federal da 13ª Vara de Curitiba ignorou essa
realidade e, reduzindo dezoito pessoas jurídicas autônomas à
condição de “meras divisões corporativas do grupo Odebrecht”,
autorizou que as graves medidas restritivas fossem a elas
estendidas.
A partir daí, como se pode verificar da leitura do
amplo e espantoso relatório feito pelo ilustre Delegado incumbido da
execução das buscas e apreensões (evento 93 do anexo 02), ocorreu
verdadeira devassa nas dependências de todas as empresas
estabelecidas no Edifício Odebrecht, localizado na Rua Lemos
Monteiro, 120, Butantã, São Paulo/SP, com a apreensão generalizada e
indiscriminada de documentos, mídias, equipamentos e extração de
dados de computadores, abrangendo, inclusive, mensagens eletrônicas,
encontrados nos escritórios das empresas, nas estações de trabalho
de funcionários, além da base de dados contidas em servidores
localizados no exterior (v. Parecer do Instituto Brasileiro de
Peritos – Parecer IBP15101 – anexo 05).
E mais: nem os advogados das empresas do grupo
Odebrecht como EDUARDO DE OLIVEIRA GEDEON, MARTA PINTO LIMA PACHECO
e GUILHERME PACHECO DE BRITTO foram poupados da devassa que então se
empreendeu, à guisa de extensão, por conv2eniência da diligência,
das buscas e apreensões que se realizavam com relação a cinco
empresas especificas relacionadas na decisão de 15/06/2015 e
nominadas nos específicos mandados que se expediram a respeito. E
com base nesses cinco mandados, a Polícia Federal, cumprindo
determinação do MM. JUIZ FEDERAL DA 13ª VARA FEDERAL DE CURITIBA –
SEÇÃO JUDICIÁRIA DO PARANÁ, realizou verdadeiro arrastão cautelar
nos dezesseis andares dos escritórios localizados no Edifício
Odebrecht e nas dezoito empresas mencionadas na informação policial
contida no evento 18, pág. 48, do anexo 02.
20
A propósito, é muito importante destacar que, com
relação a violação das prerrogativas dos advogados, já que
documentos físicos, e-mails e arquivos digitais de suas estações de
trabalho profissional-advocatício foram ilegalmente apreendidos, a
Ordem dos Advogados do Brasil, através da Seccional da OAB/SP,
manifestou-se nos autos protestando contra a iniquidade do ato e se
insurgindo contra a iminente violação do sigilo profissional
daqueles advogados, na incindível relação juridicamente protegida
“cliente/advogado” (Attorney/Client Privilege), caso as informações
sigilosas sejam abertas ou acessadas pelos investigadores.
No mesmo sentido, empresa do grupo Odebrecht
atingida pela violação em comento ingressou nos autos do Pedido de
Busca e Apreensão em análise, através de advogado constituído, para
requerer a preservação do sigilo contido nos elementos ilegalmente
apreendidos (material de trabalho dos advogados), tendo o MM. JUIZ
FEDERAL DA 13ª VARA FEDERAL DE CURITIBA – SEÇÃO JUDICIÁRIA DO PARANÁ
marcado o próximo dia 27/10/2015 para a abertura dos arquivos pela
Polícia Federal -- sob o protesto da OAB, da empresa acima referida
e dos advogados, nos termos da documentação já contida no anexo 02 e
consubstanciada nos correlatos autos registrados como Petição nº.
5036125-54.2015.4.04.7000/PR, contendo, inclusive, laudo pericial e
parecer técnico que atestam já haver sido violado o material
sigiloso apreendido (v. Parecer do Instituto Brasileiro de Peritos –
Parecer IBP15060A e parecer do escritório Ópice Blum).
Por curioso que pareça, esse quadro de violência
está muito bem registrado e documentado pelo ilustre Delegado
Federal na representação consubstanciada no evento 93 do anexo 02
constante do Pedido de Busca e Apreensão Criminal nº. 5024251-
72.2015.4.04.7000, em que ele relata como conseguiu junto ao MM.
JUIZ FEDERAL DA 13ª VARA FEDERAL DE CURITIBA – SEÇÃO JUDICIÁRIA DO
PARANÁ a façanha de obter autorização judicial para realizar a
devassa aqui noticiada e denunciada. É conferir:
“Senhor Juiz,
O Delegado de Polícia Federal que esta
representação subscreve, no uso de suas atribuições
21
constitucionais e legais, comparece perante esse r. Juízo
a fim de promover a juntada da documentação referente as
buscas e prisões efetuadas em data de 19/06/2015 e com
base nas decisões proferidas por esse r. Juízo e
apresentar novos requerimentos.
I) Do cumprimento dos mandados de busca
Foram inicialmente expedidos mandados de busca
por esse Juízo para os seguintes locais:
1. Sede da empresa ODEBRECHT ÓLEO E GÁS S/A;
2. Sede da empresa ODEBRECHT PLANTAS INDUSTRIAIS
E PARTICIPAÇÕES S.A.;
3. Sede da CONSTRUTORA NORBERTO ODEBRECHT SI A;
4. Sede da ODEBRECHT PARTICIPACOES E ENGENHARIA
S.A;
5. Sede da empresa BRASKEM S/ A;
6. Sede da empresa ANDRADE GUTIERREZ;
7. Sede da HAYLEY DO BRASIL EMPREENDIMENTOS E
PARTICIPAÇÕES LTDA;
8. Sede da J R F CONSULTORIA EMPRESARIAL LIDA-
EPP (escritório Filpi);
9. Sede da JAB CONSULTORIA & PARTICIPAÇÕES LIDA-
EPP (end comercial declarado de JOÃO ANTONIO BERNARD I
FILHO);
10. Sede da SAIPEM DO BRASIL SERVIÇOS DE
PETROLEO
LTDA (apenas a sala de JOÃO ANTONIO BERNARD!
FILHO);
11. Sede da E&P SERVIÇOS DE ENGENHARIA;
12. Sede da FREITAS FILHO CONSTRUÇÕES LIDA;
13. Sede da HOCHTIEF DO BRASIL S.A (apenas nas
salas de EDUARDO KANZIAN e MARIA CRISTINA PONCHON DA
SILVA);
14. ROGERIO SANTOS DE ARAUJO;
15. ALEXANDRINO DE SALLES RAMOS DE ALENCAR;
16. MARCIO FARIA DA SILVA;
17. CESAR RAMOS ROCHA;
18. MARCELO BAHIA ODEBRECHT;
19. JOÃO ANTONIO BERNARD! FILHO;
20. ANTONIO CARLOS BRIGANTI BERNARD!;
21. JOSE REGINALDO DA COSTA FILPI;
22. CHRISTINA MARIA DA SILVA JORGE;
23. MARL Y ESTEVES;
24. ROBERTO GARCIA DE CARVALHO;
25. FLAVIO LUCI O MAGALHAES;
26. ANTONIO PEDRO CAMPELLO DE SOUZA;
27. PAULO ROBERTO DALMAZZO;
28. ELTON NEGRAO DE AZEVEDO JUNIOR;
29. OTÁVIO MARQUES DE AZEVEDO;
30. ROGERIO NORA DE SA;
31. EDUARDO DE OLIVEIRA FREITAS FILHO;
22
32. PAULO KAZUO TAMURA AMEMIY A;
33. EDUARDO KANZIAN;
34. MARIA CRISTINA PONCHON DA SILVA; e
35. CELSO ARARIPE DE OLIVEIRA.
Conforme constou do EV11, pleiteamos a extensão
do mandado para a empresa ODEBRECHT LATIN FINANCE e para
todos os locais do prédio onde fossem localizadas
evidências relevantes a operação, mormente porque no
complexo situado a Rua Lemos Monteiro, 120, Butantã, São
Paulo/SP funcionariam 18 empresas do Grupo ODEBRECHT
“sendo que, malgrado nem todas sejam objeto de busca
nominalmente, os respectivos andares podem guardar
informações conexas a investigação”.
Na mesma peça, pleiteamos a decretação da prisão
temporária e pela expedição de MBA para a residência de
BEATRIZ GEMMA GEIGER SARMENTO PIMENTEL, bem assim pela
reconsideração do Juízo quanto a prisão preventiva do
executivo ALEXANDRINO ALENCAR, eis que em oitiva realizada
em 12/05/2015 perante a Equipe Lavajato/STF (ANEXO I) o
mesmo não apenas referiu ser executivo do GRUPO ODEBRECHT,
como também reconheceu ter mantido encontros com JOSE
JANENE, PAULO ROBERTO COSTA e ALBERTO YOUSSEF, bem assim
ter recebido visitas de RAFAEL ÂNGULO LOPES na sede da
multinacional, embora sob circunstancias diversas do que
se infere a partir das apurações realizadas.
Em decisão carreada ao EV13 este Juízo assim
manifestou-se:
Deferi, na decisão de 15/06/2015, a pedido da
autoridade policial e do MPF prisões cautelares, buscas e
apreensões e sequestros (evento 8).
Realiza a autoridade policial pleitos
complementares (evento 11).
Deferi na busca e apreensão que ela tivesse por
objeto inclusive arquivos eletrônicos relevantes para a
investigação.
Defiro o requerido pela autoridade policial,
para tornar explícito que a autorização abrange:
- mensagens ou arquivos eletrônicos armazenados
em computadores pessoais ou nos servidores de mensagens
(emails) das próprias empresas, especialmente mensagens
eletrônicas enviadas ou recebidas pelos investigados ou
mensagens eletrônicas dos empregados envolvidos nas
equipes de custo e orçamentação (Odebrecht e Andrade
Gutierrez);
23
- documentos ou arquivos eletrônicos
relacionados a custos e orçamentação de obras e projetos
de obras junto à Petrobrás ou outras entidades públicas ou
estatais.
Consigne-se nos mandados que essa apreensão pode
ser feita no próprio local por extração eletrônica e, se
não for possível, pela apreensão física do dispositivo.
A providência justifica-se diante das provas, em
cognição sumária, da prática de crimes conforme exposto na
decisão referida.
O sigilo sobre comunicações eletrônicas
armazenadas cede diante de causa provável para as buscas.
Inclua a Secretaria os dois itens de acréscimo
nos mandados de busca relativos às empreiteiras e seus
dirigentes. Autorizo ainda a busca e apreensão no endereço
da Odebrecht Latin Finance. Expeça-se mandado, nele também
consignando os acréscimos acima referidos.
Considerando a indicação de que Beatriz Gemma
Geiger Sarmento Pimentel seria secretária de confiança de
Rogério Santos de Araújo, um dos principais executivos da
Odebrecht envolvidos nos crimes, defiro a realização da
diligência de busca e apreensão em sua residência nos
mesmos termos da decisão do evento.
Expeça-se mandado, nele também consignando os
acréscimos acima referidos. Indefiro a decretação da
prisão temporária dela, ausentes provas mais claras de sua
participação consciente nos crimes.
Relativamente ao requerimento de reconsideração
para prisão preventiva de Alexandrino de Salles Ramos de
Alencar, observo que este Juízo indeferiu a preventiva,
mas decretou a prisão temporária dele. Em vista da
atualidade do vínculo dele com a Odebrecht, decidirei
novamente a questão após a oitiva do MPF.
Durante o cumprimento das buscas na sede do
complexo da ODEBRECHT na Rua Lemos Monteiro, 120,
constatamos a existência de equivoco quanto ao endereço da
empresa ODEBRECHT PLANTAS INDUSTRIAIS E PARTICIPAÇOES, bem
assim presentes divergências acerca da extensão do mandado
de busca e quanto a diretores das empresas investigadas
que exercessem a advocacia. Peticionou-se ao Juízo nesses
termos:
A partir das investigações realizadas foi
solicitada a expedição de mandados de buscas para as sedes
das seguintes empresas do Grupo Odebrecht: ODEBRECHT
24
PARTICIPACOES E ENGENHARIA, ODEBRECHT PLANTAS INDUSTRIAIS
E PARTICIPACOES, BRASKEM e ODEBRECHT LATIN FINANCE, as
quais estariam sediadas na Rua Lemos Monteiro, 120, Sao
Paulo, com exceção da ODEBRECHT PLANTAS IND E
PARTICIPACOES.
Durante as buscas, todavia, apurou-se que a
ODEBRECHT PLANTAS IND E PARTICIPACOES teria mudado para o
mesmo endereço das demais, motivo pelo qual solicita-se a
retificação quanto ao ponto. Ainda durante os trabalhos,
decidiu a equipe por proceder a extração de dados junto ao
servidor da empresa com relação a determinados dirigentes
e funcionários os quais poderiam estar conectados a
atividades ilícitas imputadas ao GRUPO ODEBRECHT. Todavia
a medida passou a ser alvo de questionamento por parte dos
advogados presentes.
O primeiro aspecto prende-se ao fato de que
alguns dados considerados de interesse a investigação
poderiam estar ligados a outras empresas que funcionam nas
mesmas instalações e em relação as quais não haveria
mandado explícito. O segundo ponto seria que os sócios ou
representantes GUILHERME PACHECO DE BRITO (ODEBRECHT
PLANTAS IND E PART), MARTA PACHECO KRAMER (ODEBRECHT
PARTICIPACOES E ENGENHARIA) e EDUARDO GEDEON OLIVEIRA
(ODEBRECHT LATIN FINANCE) também atuariam como advogados
da empresa, motivo pelo qual não poderiam tanto os emails
como os dados relacionados aos mesmos serem extraídos ou
copiados do servidor da ODEBRECHT.
No tocante ao primeiro aspecto, entende-se
relevante, a fim de evitar a protelação da diligencia, que
ocorra a extensão do mandado a toda e qualquer empresa
sediada no endereço da Rua Lemos Monteiro, 120. Em relação
ao segundo aspecto, ponderou-se não ser possível neste
momento realizar o exame minucioso do que seriam contatos
entre cliente/advogado ou estratégias processuais, de
eventuais atos de gestão dos sócios ou representantes,
sendo certo que isso seria feito durante a análise do
material, o que todavia não foi aceito.
Nessa linha submete-se a questão ao r. Juízo com
a nossa solicitação de que:
a) proceda-se a retificação quanto ao endereço
da empresa ODEBRECHT PLANTAS INDUSTRIAIS E PARTICIPACOES;
b) proceda-se a extensão do mandado para as
demais empresas do Grupo ODEBRECHT sediadas no mesmo
complexo, vez que (há) casos de um mesmo funcionário podem
conter alusão a diversas empresas;
25
c) manifeste-se o juízo quanto a apreensão de
dados de sócios ou representantes de empresas do grupo
ODEBRECHT que tenham porventura atuado também como
advogados.
Os defensores da empresa peticionaram (EV47)
alegando que MARTA PINTO LIMA PACHECO e EDUARDO OLIVEIRA
GEDEON seriam advogados devidamente inscritos na OAB e que
seriam os advogados do Grupo ODEBRECHT com quem os
subscritores da petição (AUGUSTO DE ARRUDA BOTELHO, RAFAEL
TUCHERMAN e AIRTON MARTINS DA COSTA) tratariam dos
interesses da empresa na Operação Lava Jato e em outros
procedimentos de caráter penal. Alegaram ainda que este
Delegado teria sido alertado dessa circunstancia e que
ainda sim teria decidido por violar as prerrogativas dos
mencionados profissionais.
Por outro lado, ainda segundo os peticionantes,
o fato de MARTA PINTO LIMA PACHECO e EDUARDO OLIVEIRA
GEDEON figurarem como diretores de empresas nominadas nos
mandados de busca não os tornaria investigados.
Em resposta esse Juízo assim manifestou-se
(EV51):
Deferi, na decisão de 15/06/2015, a pedido da
autoridade policial e do MPF, prisões cautelares, buscas e
apreensões e sequestros (eventos 8 e 13).
Informa a autoridade policial no evento 46 que a
empresa Odebrecht Plantas Ind e Participações estaria,
assim como as demais do Grupo Odebrecht, sediada na Rua
Lemos Monteiro, 120, em São Paulo/SP, e não no endereço
apontado no mandado.
Pleiteia autorização para cumprir o mandado
pertinente no endereço certo.
Tratando-se apenas de retificação do endereço,
remanescendo a causa provável e objeto do mandado, defiro
autorizando que o cumprimento do mandado relativo à
empresa Odebrecht Plantas Ind e Participações ocorra na
Rua Lemos Monteiro, 120, em São Paulo.
Observo ainda que as divisões corporativas do
Grupo Odebrecht não são relevantes para oposição ao
cumprimento do mandado, devendo ser colhidos os elementos
probatórios que constituem o objeto dos mandados em
qualquer local que forem encontrados no prédio do grupo na
Rua Lemos Monteiro, 120, em São Paulo/SP, como já constou
no mandado.
26
Relata a autoridade policial dificuldades para o
cumprimento da busca e apreensão pois alguns sócios das
empresas investigadas seriam também investigados e
estariam opondo o sigilo profissional.
Petição nesse sentido foi também apresentada a
este Juízo (evento 47), com afirmação de que Marta Pinto
Lima e Eduardo Oliveira Gedeon seriam sócios, mas também
advogados, que tratariam da defesa da empresa junto aos
advogados constituídos.
Ora, autorizei na busca e apreensões que fossem
igualmente colhidos em dispositivos eletrônicos:
- mensagens ou arquivos eletrônicos armazenados
em computadores pessoais ou nos servidores de mensagens
(emails) das próprias empresas, especialmente mensagens
eletrônicas enviadas ou recebidas pelos investigados ou
mensagens eletrônicas dos empregados envolvidos nas
equipes de custo e orçamentação (Odebrecht e Andrade
Gutierrez);
- documentos ou arquivos eletrônicos
relacionados a custos e orçamentação de obras e projetos
de obras junto à Petrobrás ou outras entidades públicas ou
estatais.
Evidentemente a ordem abrange os representantes
e sócios das empresas, já que há causa provável de que as
empresas adotavam políticas corporativas corrompidas.
Consignei nos mandados que essa apreensão pode
ser feita no próprio local por extração eletrônica e, se
não for possível, pela apreensão física do dispositivo.
Relativamente aos sócios ou representantes que
são também advogados, supostamente Marta Pinto Lima
Pacheco e Eduardo Oliveira Gedeon (a autoridade também
mencionou Guilherme Pacheco de Brito), é evidente que a
busca e apreensão tem por objeto a colheita de provas
relativas à prática de crimes de cartel, ajuste, corrupção
e lavagem praticados na gestão da empresa e não pela
atuação dos sócios como advogados. Não pode o gestor/sócio
pretender imunidade à busca só porque, além da referida
condição, é também advogado.
A prerrogativa profissional dirige-se à proteção
do sigilo na relação cliente/advogado e não a atos
estranhos à advocacia como a prática de crimes na gestão
de empresas.
Então fica também autorizada a colheita de
mensagens e arquivos dos investigados ou dos aludidos
27
representantes das empresas investigadas, inclusive dos
especificamente nominados no evento 46, desde que
relativas à prática de crimes de cartel, ajuste, corrupção
e lavagem praticados na gestão da empresa ou relacionados
a custos e orçamentação de obras e projetos de obras junto
à Petrobrás ou outras entidades públicas ou estatais.
Desautorizo a apreensão de eventuais mensagens e
arquivos dos gestores advogados quando pertinentes à
relação cliente/advogado, no âmbito do direito de defesa.
Para realizar essa tarefa, deve a autoridade policial
realizar a extração dos dados no local, com o filtro
necessário.
Observo que para evitar a apreensão de material
protegido pelo sigilo podem ser excluídos, na extração,
mensagens direcionadas pelos investigados aos advogados
constituídos pela Odebrecht, cabendo a esta fazer a
discriminação.
Caso filtro nesse sentido seja impossível,
deverá o Juízo ser informado para nova deliberação.
Em todo e qualquer caso, se, inadvertidamente,
no procedimento, forem extraídos arquivos ou mensagens
estranhas ao objeto da investigação e dos mandados, esse
material será devolvido e não será utilizado ou valorado
de qualquer forma no processo, inclusive o que
eventualmente envolva algum sigilo profissional relativo
ao direito de defesa. O que não é viável é inviabilizar a
diligência por dificuldades com o filtro ou por motivos
técnicos.
Então defiro nos termos ora exposto o requerido
no evento 46. Se necessário, aguardei nova provocação da
autoridade policial.
Desnecessários novos mandados, servindo esta
decisão como tal.
Derradeira manifestação quanto ao ponto por
parte desta Policia Federal, EV67:
Considerando os parâmetros da determinação
estabelecida por Vossa Excelência na manifestação contida
no Evento 51, a equipe de policiais federais que cumpre o
mandado de busca e apreensão emitido para o endereço
situado a Rua Lemos Monteiro, 120, Butantã, São Paulo/SP
se deparou com dificuldades para cumprimento da medida nos
termos propostos.
Na oportunidade Vossa Excelência estabeleceu que
em não sendo possível a extração de dados com os filtros
28
necessários para se evitar o acesso a eventuais
comunicações eletrônicas oriundas da atividade de
advocacia de alguns dos investigados com seus clientes,
este juízo deveria ser informado para nova deliberação.
Em que pese a busca na sede da empresa tenha se
iniciado na manhã de hoje (06:00 horas) e todos os
esforços tenham sido no sentido de dar cumprimento à ordem
judicial nos termos estabelecido, a medida se tornou
tecnicamente inviável na medida em que se deparou com uma
quantidade incalculável de mensagens e correspondências
eletrônicas, não sendo possível estabelecer filtros
automáticos e muito menos uma análise manual e
individualizada dos arquivos a serem selecionado para
extração.
Vale ressaltar que não se trata de uma
solicitação que inclua todos os emails da empresa e seus
funcionários, mas tão somente dos investigados e empresas
relacionadas nos termos da manifestação desta autoridade
nestes autos.
A partir do que restou consignado na decisão
constante do evento 51, informamos que o volume aproximado
de dados de e-mail de GUILHERME PACHECO DE BRITO
(ODEBRECHT PLANTAS IND E PART), MARTA PACHECO KRAMER
(ODEBRECHT PARTICIPAÇÕES E ENGENHARIA) e EDUARDO GEDEON
OLIVEIRA (ODEBRECHT LATIN FINANCE) foi de cerca de 6,4 GB,
o que torna inviável o seu exame neste local.
Sugere-se seja aplicado o procedimento já
adotado por diversas vezes, com o exame do material pelos
analistas da Operação Lava Jato, desprezando-se como de
praxe, quaisquer referências a mensagens envolvendo a
atuação profissional de advogados, em sendo o caso.
Assevera-se ainda que a equipe irá aguardar na
sede da ODEBRECHT, onde se encontra desde as 06:00 horas
da manhã, a decisão desse r. Juízo.
Ato continuo, foi lançada a seguinte decisão
(EV69):
Informa a autoridade policial que a equipe
policial está ainda realizando a extração de dados e
pleiteia que a seleção, com o descarte de eventual
conteúdo protegido, seja feito na Polícia Federal. Aqui,
deve-se ser razoável, já que a equipe policial está
realizando a diligência desde as 0600 horas da manhã,
sendo agora 20:00, restando óbvia a impossibilidade de
selecionar ou filtrar as mensagens no local. Além disso,
não se pode afirmar de antemão, em relação aos
gestores/advogados Marta Pinto Lima Pacheco, Eduardo
29
Oliveira Gedeon e Guilherme Pacheco de Brito que todo o
material ou a maior parte dele ou alguma parte dele é de
fato protegida, já que para tanto necessário o exame.
Assim, determino a autoridade policial:
- manter as mensagens e arquivos de Rogério
Santos de Araújo, Márcio Fária da Silva, Cesar Ramos
Rocha, Marcelo Bahia Odebrecht e Alexandrino de Salles
Ramos de Alencar, já extraídas e em relação aos quais o
problema do sigilo legal não se coloca, copiadas em
separado das dos demais;
- manter as mensagens e arquivos dos empregados
envolvidos nas equipes de custo e orçamentação, já
extraídas e em relação aos quais o problema do sigilo
legal não se coloca em separado das dos demais;
- copiar as mensagens e arquivos dos
gestores/advogados Marta Pinto Lima Pacheco, Eduardo
Oliveira Gedeon e Guilherme Pacheco de Brito, mantendo o
material lacrado até nova deliberação do Juízo quanto a
melhor forma de seleção das mensagens relevantes e não
protegidas pelo sigilo legal.
Em nenhuma hipótese, eventuais mensagens
protegidas pelo sigilo profissional poderão ser utilizadas
no processo.
Ciência com urgência à autoridade policial.
Curitiba, 19 de junho de 2015, as 20:00’.
Os demais mandados de busca foram cumpridos sem
maiores percalços, salvo alteração pontual de endereço.
Observamos que sempre nos pareceu obvio que o
mandado contemplava as empresas investigadas e seus
diretores, sendo certo que a decisão lançada no EV51 deixa
claro que o mandado tanto seria extensível a todo o
complexo da Rua Lemos Monteiro, 120, como abrangeria os
respectivos dirigentes.
Malgrado se reconheça o esforço e a competência
dos ilustres advogados que oficiam nos autos, bem como não
seja em absoluto intenção da Policia Federal violar
prerrogativas de quaisquer profissionais ou mesmo devassar
o sigilo advogado-cliente, temos por dever de oficio de
considerar o que existe de fato e o que existe apenas no
plano retórico.
Inicialmente verifica-se que as buscas
abrangeram diretores das empresas investigadas, dentre
eles GUILHERME PACHECO DE BRITO, da ODEBRECHT PLANTAS IND
30
E PARTICIPAÇÕES, MARTA PACHECO KRAMER, da ODEBRECHT
PARTICIPACOES E ENGENHARIA e EDUARDO GEDEON OLIVEIRA, da
ODEBRECHT LATIN FINANCE. Durante as diligências surgiu a
alegação de que seriam os principais interlocutores com os
advogados que peticionam junto aos processos criminais
envolvendo a ODEBRECHT e seus dirigentes, todavia a única
evidencia nesse sentido é a palavra dos ilustres advogados
que não querem que sequer se examine o conteúdo das
mensagens.
Um breve parêntese. Durante as buscas na sala da
MARTA PACHECO KREMER havia gavetas que estavam fechadas
(não trancadas). Caso a diretora dissesse aos policiais
que ali havia apenas documentos relacionados a contatos
com outros advogados a gaveta não deveria ser aberta? Ou
deveria ser aberta e examinados os documentos? Justamente
a segunda linha foi adotada, sendo que – saindo de nosso
exemplo hipotético - de vários documentos selecionados
pelos agentes apenas alguns poucos foram considerados de
cunho advocatício, ainda que de forma indireta, e
devolvidos a Dra. MARTA PACHECO KREMER. Buscam agora os
advogados que gavetas - ou caixas de e-mail em analogia -
de diretores da empresa que alegadamente teriam atuado
como interlocutores de advogados permaneçam fechadas sem
que se possa examinar o seu conteúdo e realizar o filtro
adequado. O exame criterioso e reservado de tais
mensagens, como de praxe vem ocorrendo e como já exposto
anteriormente, iria salvaguardar tanto o interesse público
na apuração da verdade como dos advogados em terem as suas
comunicações reservadas protegidas, em sendo o caso”.
Não há duvida possível: a autorização para a
realização de devassa nas duas empresas ora impetrantes e nas outras
dezesseis empresas integrantes do grupo Odebrecht, incluindo os seus
respectivos dirigentes, que não figuravam nem figuram nas
investigações e que não foram abrangidos pelos mandados de busca e
apreensão nem pela decisão de 15/06/2015 que determinou a
constrição, caracteriza inequivocamente manifesta ilegalidade e
inconstitucionalidade, concessa maxima venia, comprometendo a
validade não só do que coligido ilegitimamente nos escritórios das
empresas varejadas sem justa causa, mas a própria higidez da busca e
apreensão que se realizou em todo o complexo do Edifício Odebrecht,
localizado na Rua Lemos Monteiro, 120, Butantã, São Paulo/SP,
abrangendo obviamente a apreensão do material protegido por sigilo
em posse dos advogados EDUARDO DE OLIVEIRA GEDEON, MARTA PINTO LIMA
PACHECO e GUILHERME PACHECO DE BRITTO.
31
Como então se conceber pudessem todas aquelas
empresas (inclusive as ora impetrantes), pessoas jurídicas autônomas
e independentes na estrutura do grupo Odebrecht, estranhas à
investigação, sofrer buscas e apreensões, com o afastamento da
garantia constitucional da inviolabilidade domiciliar? A pergunta é,
obviamente, retórica, porquanto o que aí se tem é ilegalidade e
inconstitucionalidade manifestas, consubstanciadoras de verdadeira e
inaceitável devassa ou mesmo de incrível arrastão cautelar.
Afinal, as buscas e apreensões ocorreram no âmbito
de investigação criminal e sob a alegação da existência de “causa
provável” (probable cause), ou seja, de “fundadas razões” para o
afastamento da garantia constitucional da inviolabilidade domiciliar
das empresas atingidas mediante o estabelecimento de correlação
entre prováveis condutas delituosas praticadas pelos seus
representantes através das mesmas. Mas ocorre que, pelos próprios
termos da decisão de 15/06/2015, isso só se aplicaria às cinco
empresas mencionadas nos mandados de busca e apreensão (ODEBRECHT
ÓLEO E GÁS S/A, sede da ODEBRECHT PLANTAS INDUSTRIAIS PARTICIPAÇÕES
S/A, sede da CONSTRUTORA NORBERTO ODEBRECHT S/A, sede da ODEBRECHT
PARTICIPAÇÕES E ENGENHARIA S/A e sede da BRASKEM S/A).
Não é demais lembrar que, na jurisprudência do
Supremo Tribunal Federal, mesmo quando presentes razões que
justifiquem uma investigação criminal, a adoção de medidas
extraordinárias de investigação, como, v.g., buscas e apreensões,
não é admissível nos casos de suspeita de cometimento de crimes,
vale dizer, nos casos em que não se vislumbra a existência de causa
provável ou de fundadas razões para tanto. Vale dizer, para a adoção
de medidas extraordinárias de investigação exige-se a observância do
concurso de vários requisitos assim resumidos em um dos mais
importantes precedentes da Suprema Corte envolvendo caso de
afastamento de direito fundamental:
“(...) o princípio da objetividade material (que
exige o início de prova quanto à existência de um delito e de
sua autoria); o princípio da pertinente adequação (que supõe
relação lógica entre o objeto penal investigado e os documentos
pretendidos); o princípio da proibição de excesso (que exige a
demonstração da imprescindibilidade da prova para o êxito da
32
investigação e a inexistência de outros meios menos danosos ou
limitativos)” -- Questão de Ordem na Petição nº 577-5/170-DF,
de que foi relator o Min. CARLOS VELLOSO (RTJ 148/366).
Como é do nosso sistema, a pessoa jurídica não
delinque (societas delinquere non potest2), salvo nos casos de crimes
ambientais, sendo certo que somente os seus integrantes (gerentes,
administradores, diretores ou funcionários) podem ser
responsabilizados se a utilizam como instrumento para a prática de
crimes. Neste caso, demonstrando-se que integrante de uma empresa
utilizou-se da estrutura organizacional da mesma para a prática da
infração, realizadas as medidas ordinárias de investigação sem
sucesso para a elucidação dos fatos apurados, só então se viabiliza
a eventual adoção de certas medidas constritivas com relação à
pessoa física investigada e/ou à pessoa jurídica correlacionada à
investigação. Mas sempre mediante decisão cumpridamente
fundamentada.
Fora disso, atingir-se a esfera dos direitos e
garantias de uma empresa por conta de supostas infrações cometidas
por quem com ela não se relaciona constitui rematada arbitrariedade.
E desenganadamente este é o caso das impetrantes ODEBRECHT S/A e
ODEBRECHT ENGENHARIA DE PROJETOS LTDA), que sequer foram mencionadas
nas investigações e na decisão com que se decretaram as buscas e
apreensões. Não houve expedição de mandados de busca e apreensão
contra elas nem antes nem depois da autorização para que pudessem
2 A respeito de tal princípio cfr. Bitencourt, Reflexões sobre a
responsabilidade penal da pessoa jurídica in Gomes (coord.),
Responsabilidade Penal da Pessoa Jurídica, São Paulo, 1999, págs. 51 e ss.;
Luisi, Notas sobre a responsabilidade penal das pessoas jurídicas in Regis
Prado (coord.), Responsabilidade penal da pessoa jurídica. Em defesa do
princípio da imputação penal subjetiva, São Paulo, 2001, págs. 79 e ss.;
Prado, Responsabilidade penal da pessoa jurídica: fundamentos e implicações
in Responsabilidade penal da pessoa jurídica, págs. 101 e ss.; Dotti, A
incapacidade criminal da pessoa jurídica (uma perspectiva do Direito
brasileiro) in Responsabilidade penal da pessoa jurídica, págs. 141 e ss.;
Cirino dos Santos, Direito Penal. Parte Geral, 3ª ed., Curitiba, 2008,
págs. 432 e ss. Também na Alemanha, por exemplo, vige a máxima Societas
delinquere non potest. Cfr., Achenbach, Ahndende Sanktionen gegen
Unternehmen und die für sie handelnden Personen im deutschen Recht in
Schünemann/Figueiredo Dias, Bausteine des europäischen Strafrechts:
Coimbra-Symposium für Claus Roxin, Köln, 1995, págs. 283 e ss. Mais
recentemente, Kelker, Die Strafbarkeit juristischer Personen unter
europäischem Konvergenzdruck in Amelung/Günther/Kühne, Festschrift für
Volker Krey, Stuttgart, 2010, págs. 221 e ss.; Schünemann, Die aktuelle
Forderung eines Verbandsstrafrechts – Ein kriminalpolitischer Zombie in ZIS
1, 2014, págs 1 e ss.
33
ser varejadas no curso das investigações, a critério da autoridade
policial.
Sobremais, mesmo com relação às empresas ODEBRECHT
ÓLEO E GÁS S/A, ODEBRECHT PLANTAS INDUSTRIAIS PARTICIPAÇÕES S/A,
CONSTRUTORA NORBERTO ODEBRECHT S/A, ODEBRECHT PARTICIPAÇÕES E
ENGENHARIA S/A e BRASKEM S/A, únicas empresas apontadas na decisão
de 15/06/2015 como relacionadas às investigações, a busca e
apreensão foi determinada e realizada fora dos limites estabelecidos
pela lei e pela Constituição já que os mandados foram expedidos com
amplitude e generalidade inadmissíveis.
A leitura desses mandados impressiona pela incrível
abrangência e indefinição do objeto das buscas e apreensões. Só para
ter uma ideia dessa ilegalidade incontornável, veja-se o item em que
se determinou a apreensão de “documentos ou arquivos eletrônicos
relacionados a custos e orçamentos de obras e projetos de obras
junto à Petrobras ou outras entidades públicas ou estatais”. E mais,
relembre-se: na sede de qualquer empresa estabelecida no mesmo
endereço, não importando se abrangida ou não pelas buscas e
apreensões. Dictu mirabile! Afinal, essa orientação constituiu
inadmissível “ampliação irrestrita da constrição”, para usar a
expressão com que a eg. 8ª Turma do TRF/4ª Região repeliu decisão
idêntica à impugnada nesta impetração.
A propósito, colhe-se da decisão que determinou as
medidas constritivas e que gerou os referidos mandados a existência
de “autorização para a busca em qualquer andar ou sala do
estabelecimento predial”, o que foi entendido pela autoridade
policial executora da decisão como inclusiva do espaço de qualquer
empresa do grupo Odebrecht contida no mesmo edifício, abrangida ou
não pelas investigações e pelas próprias medidas constritivas
(evento 93 dos autos do Pedido de Busca e Apreensão Criminal nº.
5024251-72.2015.4.04.7000/PR). E isto veio a ser confirmado pelo MM.
JUIZ FEDERAL DA 13ª VARA FEDERAL DE CURITIBA – SEÇÃO JUDICIÁRIA DO
PARANÁ na decisão com que mandou ignorar “as divisões corporativas
do grupo Odebrecht”.
34
Como se vê, sem margem a dúvida, as buscas e
apreensões realizadas nos escritórios das empresas impetrantes em
data de 19/06/2015 foram determinadas por decisões judiciais
desprovidas de fundamentação pertinente (“probable cause”, na
expressão do direito norte americano, e “fundadas razões”, na
expressão do direito brasileiro) para afastar a garantia
constitucional da inviolabilidade domiciliar, compreensiva de
estabelecimentos empresariais, na linha de numerosos precedentes do
STJ e do STF, e sem a expedição dos competentes mandados.
Não há dúvida possível: no caso concreto desta
impetração, o ato coator praticado em 19/06/2015 (execução das
buscas e apreensões) fundou-se em decisão que não estabeleceu
qualquer linha de fundamentação que justificasse o afastamento da
garantia constitucional da inviolabilidade domiciliar das empresas
impetrantes, tendo se realizado, ademais, com a feição de devassa,
incidindo em violação dos arts. 5º, XI e LV, e 93, IX, da
Constituição Federal, 240, § 1º, e 243, I e II, do CPP,
qualificando-se juridicamente como inadmissíveis os elementos de
prova coligidos em razão do ato ora impugnado (arts. 5º, LVI, da CF
e 157 do CPP).
OS LIMITES PROCESSUAIS CONSTITUCIONAIS DO DIREITO À PROVA
A investigação criminal e a produção da prova devem
se desenvolver dentro dos limites legais. A verdade material não é
uma verdade que se possa obter contra legem e contra constitutionem.
A verdade a ser buscada e estabelecida no processo,
para ser validamente considerada, deve respeitar os limites impostos
pelo ordenamento jurídico aos poderes investigatórios e aos poderes
persecutórios do Estado. Desta forma, a atividade de reconstrução
histórica dos fatos no processo haverá de se desenvolver de forma
processual e constitucionalmente válida, sob pena de incidir-se na
vedação da utilização de provas obtidas por meio ilícito (arts. 5º,
LVI, da CF e 157 do CPP).
Com efeito, toda a prova resultante dessas
interceptações ilegais, inconstitucionais e abusivas qualifica-se
35
como prova ilícita e, pois, inadmissível no processo, a teor dos
arts. 5º, LVI, da CF, e 157 do CPP, projetando consequências
inexoráveis sobre as investigações e os procedimentos e processos
dela decorrentes, mediante a aplicação do preceito consubstanciador
da ilicitude por derivação, como vem reiteradamente proclamando o
Supremo Tribunal Federal.
Assim, v.g., no julgamento da histórica Ação Penal
nº. 307-3/DF pelo seu Plenário, o Ministro CELSO DE MELLO fez
notável balanço das razões pelas quais a Suprema Corte brasileira
tem repudiado -- e repudiado sempre -- a prova ilícita, “por mais
relevantes que sejam os fatos por ela apurados, uma vez que se
subsume ela ao conceito de inconstitucionalidade”. Confira-se, a
propósito, excerto do voto que então proferiu:
“A cláusula constitucional do due process of law --
que se destina a garantir a pessoa do acusado contra ações
eventualmente abusivas do Poder Público -- tem, no dogma da
inadmissibilidade das provas ilícitas, uma de suas projeções
concretizadoras mais expressivas, na medida em que o réu tem o
impostergável direito de não ser denunciado, de não ser julgado
e de não ser condenado com apoio em elementos instrutórios
obtidos ou produzidos de forma incompatível com os limites
impostos, pelo ordenamento jurídico, ao poder persecutório e ao
poder investigatório do Estado.
A absoluta invalidade da prova ilícita infirma-lhe,
de modo radical, a eficácia demonstrativa dos fatos e eventos
cuja realidade material ela pretende evidenciar. Trata-se de
conseqüência que deriva, necessariamente, da garantia
constitucional que tutela a situação jurídica dos acusados em
juízo penal e que exclui, de modo peremptório, a possibilidade
de uso, em sede processual, da prova -- de qualquer prova --
cuja ilicitude vem a ser reconhecida pelo Poder Judiciário.
A prova ilícita é prova inidônea. Mais do que isso,
prova ilícita é prova imprestável. Não se reveste, por essa
explícita razão, de qualquer aptidão jurídico-material. Prova
ilícita, sendo providência instrutória eivada de
inconstitucionalidade, apresenta-se destituída de qualquer grau, por
mínimo que seja de eficácia jurídica” (RTJ 162/245 e 246).
Mas não é só. A ilicitude da prova produzida com
violação da garantia constitucional em comento há de se estender,
necessariamente, a todos os elementos que direta ou indiretamente
dela decorram. É que a doutrina da prova ilícita por derivação
(doutrina da proscrição dos fruits of the poisonous tree do direito
36
norte-americano) mereceu acolhida na jurisprudência do Supremo
Tribunal Federal (HC nº 75.545, DJ de 09.04.99; HC nº 69.912, RTJ
155/508; HC nº 70.277, RTJ 154/58; HC nº 73.351, DJ de 19.03.99; HC
nº 72.588, DJ de 18/06/96, e HC nº 73.510, DJ de 12.12.97).
Nesse sentido, ressalte-se que o Ministro SEPÚLVEDA
PERTENCE, ao relatar o HC nº 75.545/SP, promoveu acurado exame da
jurisprudência da Suprema Corte a respeito do assunto, para
consignar, a teor dos vários precedentes que indicou:
“A doutrina da proscrição dos fruits of the
poisonous tree, é não apenas a orientação capaz de dar eficácia
à proibição constitucional da admissão da prova ilícita, mas,
também, a única que realiza o princípio de que, no Estado de
Direito, não é possível sobrepor o interesse na apuração da
verdade real à salvaguarda dos direitos, garantias e liberdades
fundamentais, que tem seu pressuposto na exigência da
legitimidade jurídica da ação de toda a autoridade pública” (DJ
de 09.04.99).
Nesse contexto, não se poderia sequer apelar ao
princípio da proporcionalidade para conferir validade aos dados
ilegalmente acessados, por inadmissível na espécie, como decidido
pela Suprema Corte no julgamento do HC nº 80.949-RJ (DJ de
14.12.2001), de que foi Relator o em. Min. SEPÚLVEDA PERTENCE. É
conferir:
“‘Da explícita proscrição da prova ilícita, sem
distinções quanto ao crime objeto do processo (CF, art. 5º,
LVI), resulta a prevalência da garantia nela estabelecida sobre
o interesse na busca, a qualquer custo, da verdade real no
processo: conseqüente impertinência de apelar-se ao princípio
da proporcionalidade - à luz de teorias estrangeiras
inadequadas à ordem constitucional brasileira - para sobrepor,
à vedação constitucional da admissão da prova ilícita,
considerações sobre a gravidade da infração penal objeto da
investigação ou da imputação”.
Nessa perspectiva, pode-se afirmar com segurança que
o fim do processo não é apenas a busca da verdade, mas a verdade
obtida segundo a legalidade do procedimento probatório, pois, como
ressalta ILLUMINATI3: “non esiste contraposizioni tra verità formale
3 GIULIO ILLUMINATI, in “Il nuovo dibattimento: l’assunzione direte delle
prove” Foro Italiano, 1988, 5, c., p. 365.
37
e verità materialle: la verittà giudiziale è quella che emergi da un
procedimento di ricerca in contraddittorio basato necessariamente su
criteri di ammissione e di esclusione” 4.
NATUREZA E REQUISITOS DA BUSCA E APREENSÃO
Como ressabido, a busca e apreensão é um meio de
obtenção de prova como o conceituam os diplomas processuais mais
modernos. Por isso mesmo, pode-se dizer que a busca e a apreensão em
si nada provam. Os elementos de prova obtidos pela busca, quando
positiva, e posteriormente apreendidos, estes sim, serão
posteriormente valorados para a formação do convencimento judicial.
A propósito, embora o Código de Processo Penal
brasileiro, com manifesto equívoco, defina a busca e apreensão entre
os meios de prova, em verdade, cuida-se de meio de obtenção de prova
e não propriamente de meio de prova, como já o reconhecem as
legislações mais modernas, como o Código de Processo Penal Português
(arts. 174 a 177, quanto às buscas, e 178 a 186, quanto aos “meios
de obtenção de provas”) e o Código de Processo Penal Italiano (arts.
247 a 252, quanto às perquisizioni, e arts. 253 a 265, quanto aos
mezzi di ricerca della prove).
Trata-se de medida de caráter coercitivo, cuja
finalidade é a procura e o eventual apossamento de elementos
materiais que interessem à prova da infração penal e de sua autoria.
Para a produção desse meio de obtenção de prova há
um “procedimento probatório” estabelecido em lei, fixados os
requisitos, os sujeitos, o momento, o procedimento, enfim, a
legalidade do procedimento probatório.
Cumpre destacar que, como tanto a busca quanto a
apreensão implicam, por via de regra, a restrição de direitos
fundamentais, como a propriedade, a intimidade e, especialmente, a
4 Em tradução livre: “não existe contraposição entre verdade formal e
verdade material: a verdade judicial é aquela que emerge de um procedimento
de investigação em contraditório fundado necessariamente em critérios de
admissão e de exclusão”.
38
inviolabilidade domiciliar, a preocupação com a natureza e o grau
dos fundamentos capazes de autorizar tais medidas coercitivas é,
aliás, uma constante nos ordenamentos jurídicos modernos.
A Constituição Federal estabelece que “a casa é
asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem
consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou
desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por
determinação judicial” (art. 5º, XI).
O Código de Processo Penal, por sua vez, exige, para
a busca domiciliar, que haja “fundadas razões”. Mais precisamente,
dispõe o art. 240:
“Art. 240. A busca será domiciliar ou pessoal.
§ 1o Proceder-se-á à busca domiciliar, quando
fundadas razões a autorizarem, para:
(...)”.
E o art. 243, incisos I e II, do mesmo diploma
processual, disciplina com rigor, até como expressão das garantias
constitucionais, relevantes requisitos do mandado de busca e
apreensão, dizendo:
“Art. 243. O mandado de busca deverá:
I - indicar, o mais precisamente possível, a casa em
que será realizada a diligência e o nome do respectivo
proprietário ou morador; ou, no caso de busca pessoal, o nome
da pessoa que terá de sofrê-la ou os sinais que a identifiquem;
II - mencionar o motivo e os fins da diligência;
(...)”.
O que se verifica do texto expresso da lei é que,
para que as garantias da inviolabilidade do domicílio e da vida
privada não sejam abusivamente afastadas, deve haver, concretamente,
a indicação de que, naquele local constitucionalmente protegido, há
elementos de prova relevantes para a persecução penal. E se exige
39
precisa delimitação não só do objeto da busca e apreensão, mas do
local em que a grave medida constritiva deve ser realizada.
No caso concreto da impetração, nem houve decisão
com fundamentação pertinente para o afastamento da garantia da
inviolabilidade domiciliar das empresas impetrantes, mesmo porque
elas não estão relacionadas a infrações cogitadas nas investigações,
nem houve expedição de mandados específicos providos dos requisitos
estabelecidos na legislação processual.
Cabe assinalar, ainda, que nos Estados Unidos da
América o tema é objeto de previsão na IV Emenda à Constituição, que
assegura: “The right of the people to be secure in their persons,
houses, papers, and effects, against unreasonable searches and
seizures, shall not be violated, and no Warrants shall issue, but
upon probable cause, supported by Oath or affirmation, and
particularly describing the place to be searched, and the persons or
things to be seized.”
A propósito, restou assentado pela Suprema Corte
Norte Americana, no caso Brinegar, julgado em 1949, que a exigência
de probable cause para as buscas e apreensões constitui o melhor
compromisso para equilibrar os interesses opostos da privacidade e
da aplicação da lei; e o grau de probabilidade exigido para
autorizar essas medidas extremas, embora não possa ser evidentemente
quantificado com exatidão, deve ser “more than bare suspicion”.
A razão de tal exigência é evidente: se não houvesse
a necessidade de demonstração das fundadas razões de que a pessoa ou
coisa se encontra no domicílio a ser objeto da busca e apreensão, vã
seria a garantia da inviolabilidade do domicílio. Em outras
palavras, a exigência de “causa provável”, na expressão do direito
norte americano, ou de “fundadas razões”, na expressão do direito
brasileiro, para a busca e apreensão é que evita violações
desproporcionais e irrazoáveis dos domicílios, pessoais e
profissionais.
Foi justamente por essa razão que o legislador
alemão estabeleceu no § 102 do Strafprozessordnung (Código de
40
Processo Penal) daquele país que a busca e apreensão no domicílio de
um suspeito de cometer um crime somente é admissível naqueles casos
em que se possa presumir que a medida levará à descoberta da
evidência. A propósito disso, a Corte Constitucional Alemã
(Bundesverfassungsgericht) já decidiu que não basta uma simples ou
vaga presunção, fazendo-se imprescindível que a medida tome por base
dados seguros da experiência5. Além do mais, proclamou em outra
oportunidade aquele Tribunal, deve existir uma suspeita concreta
contra o sujeito, não bastando considerações abstratas para a
decretação de tal medida6.
Mas não é só: a Corte Constitucional Alemã também já
teve a oportunidade de assinalar categoricamente que o princípio da
proporcionalidade cumpre um papel fundamental no âmbito das buscas e
apreensões domiciliares. Portanto, para que uma busca e apreensão se
legitime é preciso que ela seja proporcional lato sensu, mostrando-
se inequivocamente como: (I) idônea, (II) necessária e (III)
proporcional estricto sensu. (I) a busca e apreensão será idônea se
ela puder efetivamente alcançar o fim por ela perseguido, é dizer,
se ela puder levar à descoberta de evidências de um fato punível;
(II) ela será necessária se não houver meios alternativos menos
gravosos que também possam cumprir a mesma finalidade (princípio da
extrema ratio); e por fim, mas não menos importante, a busca e
apreensão será proporcional stricto sensu se o benefício por ela
alcançado for maior do que o custo que resultará da intromissão em
Direitos e Garantias Fundamentais dos cidadãos7.
Essa orientação também prevalece na jurisprudência
dos Tribunais brasileiros, como se colhe do aresto proferido pelo
Plenário do Supremo Tribunal Federal no julgamento do Mandado de
Segurança nº. 23.454/DF, de que foi Relator o eminente Ministro
MARCO AURÉLIO, em cuja ementa se consignou que “os limites objetivos
e subjetivos da busca e apreensão hão de estar no ato que a
determine, discrepando, a mais não poder, da ordem jurídica em vigor
delegar a extensão à autoridade policial” (DJ de 23/04/2004).
5 BVerfG NJW 2003, 2669, 2670; NJW 2004, 3171, 3172.
6 BVerfG StV 2010, 665; 2013, 609.
7 Sobre todas essas questões cfr. Roxin/Schünemann, Strafverfahrensrecht,
28ª ed., München, 2014, § 35/4 e ss.
41
Nesse notável julgamento prevaleceu o voto condutor
do eminente Ministro MARCO AURÉLIO, cujo teor dá a exata dimensão da
relevância da matéria e da ilegalidade em que incidiu o ato coator
na presente impetração ao não ter fundamentado o afastamento da
garantia constitucional da inviolabilidade domiciliar da impetrante,
a par de ter autorizado por extensão uma busca generalizada com a
feição de verdadeiro “arrastão” cautelar:
“... tem-se não só a respaldar a concessão da ordem,
da segurança, a falta de balizas a serem observadas pela
autoridade policial, no que se determinou a busca e apreensão
com a cláusula ‘em qualquer empresa, escritório, depósito ou
local do trabalho das pessoas naturais mencionadas, bem como
dos sócios do banco Marka – e vem a extensão da medida – ‘onde
a critério da autoridade policial, haja indícios de que possa
ser localizados documentos relativos às atividades
profissionais, financeiras, contábeis ou comerciais dessas
pessoas físicas ou jurídicas’ – como também a falta de
fundamentação do ato.”
Em outro notável precedente, a 2ª Turma do Supremo
Tribunal Federal, ao julgar o HC nº. 106.566/SP, sendo Relator o
eminente Ministro GILMAR MENDES, proferiu aresto unânime em que
reafirmou a exigência incontornável de prolação de decisão
cumpridamente fundamentada para o afastamento da garantia
constitucional da inviolabilidade domiciliar, com a consequente
expedição de mandado circunstanciado específico para o varejamento
determinado, sob pena de nulidade do ato, com a consequente
“inutilização das provas”, porque obtidas por meio ilícito.
Eis o teor da ementa do aludido aresto:
“Habeas corpus. 2. Inviolabilidade de domicílio (art.
5º, IX, CF). Busca e apreensão em estabelecimento empresarial.
Estabelecimentos empresariais estão sujeitos à proteção contra
o ingresso não consentido. 3. Não verificação das hipóteses que
dispensam o consentimento. 4. Mandado de busca e apreensão
perfeitamente delimitado. Diligência estendida para endereço
ulterior sem nova autorização judicial. Ilicitude do resultado
da diligência. 5. Ordem concedida, para determinar a
inutilização das provas.”
No voto com que concorreu para o aresto unânime
então proferido, o eminente Ministro CELSO DE MELLO, decano do
42
Tribunal, fez um balanço da orientação doutrinária e jurisprudencial
sobre o tema em ordem a demonstrar que, em casos como o da presente
impetração, a realização de busca e apreensão em estabelecimento
desvinculado das investigações mediante decisão desprovida, ademais,
de fundamentação ou de fundamentação pertinente consubstancia
ilegalidade e abuso de poder, com a consequente nulidade do ato e
exclusão da prova dele decorrente por consubstanciadora de
ilicitude:
“A Constituição da República, em norma revestida de
conteúdo vedatório (CF, art. 5º, LVI), desautoriza, por
incompatível com os postulados que regem uma sociedade fundada
em bases democráticas (CF, art. 1º), qualquer prova cuja
obtenção, pelo Poder Público, derive de transgressão a
cláusulas de ordem constitucional, repelindo, por isso mesmo,
quaisquer elementos probatórios que resultem da violação de
direito material (ou, até mesmo, de direito processual), não
prevalecendo, em consequência, no ordenamento normativo
brasileiro, em matéria de atividade probatória, a fórmula
autoritária do ‘male captum, bene retentum’.
Os procedimentos dos agentes da Polícia Judiciária
que contrariem os postulados consagrados pela Constituição da
República revelam-se inaceitáveis e não podem ser corroborados
pelo Supremo Tribunal Federal, sob pena de inadmissível
subversão dos princípios constitucionais que definem, de modo
estrito, os limites – inultrapassáveis – que restringem os
poderes do Estado em suas relações com os cidadãos, notadamente
com aqueles que sofrem a persecução penal instaurada pelos
organismos estatais.
Daí a clara diretriz jurisprudencial desta Corte
Suprema no sentido de que ninguém pode ser investigado,
denunciado e, muito menos, condenado com base, unicamente, em
provas ilícitas, quer se trate de ilicitude originária, quer se
cuide de ilicitude por derivação. Qualquer novo dado
probatório, ainda que produzido, de modo válido, em momento
subsequente, não pode apoiar-se, não pode ter fundamento causal
nem derivar de prova comprometida pela mácula da ilicitude
originária.
A exclusão da prova originariamente ilícita – ou
daquela afetada pelo vício da ilicitude por derivação –
representa um dos meios mais expressivos destinados a conferir
efetividade à garantia do ‘due process of law’ e a tornar mais
intensa, pelo banimento da prova ilicitamente obtida, a tutela
constitucional que preserva os direitos e prerrogativas que
assistem a qualquer acusado em sede processual penal.
A doutrina da ilicitude por derivação (teoria dos
‘frutos da árvore venenosa’) repudia, por constitucionalmente
inadmissíveis, os meios probatórios que, não obstante
produzidos, validamente, em momento ulterior, acham-se
43
afetados, no entanto, pelo vício (gravíssimo) da ilicitude
originária, que a eles se transmite, contaminando-os, por
efeito de repercussão causal.
O eminente Relator bem demonstrou que, no caso, a
prova penal ora questionada resultou de ato impregnado de
ilicitude material, pois a execução do mandado judicial de
busca e apreensão ocorreu ‘ultra vires’, eis que essa medida
restritiva de direitos foi indevidamente estendida para novo
endereço, sem a necessária e prévia autorização judicial por
escrito.
Todos sabemos que as buscas domiciliares qualificam-
se como matérias postas sob reserva constitucional de
jurisdição, eis que a casa é asilo inviolável do indivíduo,
ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador,
salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar
socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial” (CF,
art. 5º, inciso XI).
Não constitui demasia relembrar, no entanto, que,
para os fins da proteção jurídica a que se refere o art. 5º,
XI, da Constituição da República, o conceito normativo de
‘casa’ revela-se abrangente (CPP, art. 246) e, por estender-se
a qualquer compartimento privado não aberto ao público, onde
alguém exerce profissão ou atividade (CP, art. 150, § 4º, III),
compreende, observada essa específica limitação espacial (área
interna não acessível ao público), os escritórios profissionais
(HC 93.050/RJ, Rel. Min. CELSO DE MELLO), embora sem conexão
com a casa de moradia propriamente dita’ (NELSON HUNGRIA).
Sem que ocorra qualquer das situações excepcionais
taxativamente previstas no texto constitucional (art. 5º, XI),
nenhum agente público, ainda que vinculado aos organismos
estatais de persecução criminal, poderá, contra a vontade de
quem de direito (‘invito domino’), ingressar, durante o dia,
sem mandado judicial, em espaço privado não aberto ao público,
onde alguém exerce sua atividade profissional, sob pena de a
prova resultante da diligência de busca e apreensão assim
executada reputar-se inadmissível, porque impregnada de
ilicitude material (RHC 90.376/RJ, Rel. Min. CELSO DE MELLO,
v.g.).
Cabe advertir, por necessário, que a busca e
apreensão domiciliar constitui medida de índole cautelar
destinada a viabilizar a obtenção de dados probatórios,
revestindo-se, em razão de sua própria natureza, de caráter
excepcional, tanto que dependente de ordem judicial escrita e
fundamentada, a significar que o magistrado, ao deferir tal
providência, deverá fazê-lo apenas se existentes “fundadas
razões” (CPP, art. 240, § 1º), sob pena de invalidade não só da
própria decisão que a defere, mas, igualmente, dos elementos de
informação que por seu intermédio vierem a ser obtidos.
Daí a procedente observação de EUGÊNIO PACELLI DE
OLIVEIRA e de DOUGLAS FISCHER (‘Comentários ao Código de
44
Processo Penal e sua Jurisprudência’, p. 432, item n. 240.5, 3ª
ed., 2011, Lumen Juris):
‘(...) o art. 246, CPP, amplia justificadamente
o conceito, para abranger o compartimento habitado ou o
aposento ocupado de habitação coletiva ou o compartimento
não aberto ao público, onde alguém exercer profissão ou
atividade. Todos são considerados domicílios, fechando-
se, por isso mesmo, às regras da inviolabilidade
domiciliar.
De início, tem-se a imprescindibilidade de
ordem judicial para a busca e apreensão domiciliares. E a
inviolabilidade do domicílio, como ainda veremos, inclui-
se nas chamadas ‘reservas de jurisdição’, segundo e pelas
quais somente a autoridade judiciária poderia determinar
o afastamento de determinadas ‘franquias’
(inviolabilidades) pessoais (...).
A extensão do domicílio ao compartimento
habitado e outras moradias, além de locais não abertos ao
público no qual exerce a pessoa sua profissão ou
atividade, há que ser entendida como um reforço de
proteção à intimidade e à privacidade, igualmente
exercitadas e merecedoras de tutela em locais não
incluídos no rígido conceito de ‘residência’ e domicílio.
Observe-se que as providências reclamadas e
assim justificadoras da busca e da apreensão domiciliar
são mais amplas que a busca pessoal.’ (grifei)
Na realidade, o mandado judicial de busca e
apreensão domiciliar que não observar os requisitos mínimos,
intrínsecos e extrínsecos, impostos pelo ordenamento positivo
constituirá ato estatal desprovido de validade e de consequente
eficácia no plano jurídico, cabendo rememorar, bem por isso, as
exigências estabelecidas pelo art. 243 do CPP, cujo inciso I
foi claramente transgredido na espécie, pois o mandado de busca
domiciliar, ao ser executado no local em que efetivamente se
deu a apreensão, não indicava, como ordena a legislação, “o
mais precisamente possível”, o espaço privado em que deveria
ter sido realizada a diligência.
No caso ora em exame, como bem o demonstrou a
impetração e destacou o eminente Relator, a diligência policial
efetivou-se com evidente desrespeito aos estritos limites que
delineiam os atos fundados em referida operação de coleta de
provas, ainda mais se considerada a gravíssima ausência de
ordem judicial escrita autorizadora do ingresso em espaço
privado sequer indicado no mandado judicial em questão.
Concluo o meu voto, Senhor Presidente. E, por
tratar-se de provas que foram ilicitamente incorporadas aos
autos da persecução penal, entendo que se impõe, para além da
proclamação da sua absoluta desvalia jurídica, a aplicação do
que determina o § 3º do art. 157 do CPP, na redação dada pela
45
Lei nº 11.690/2008, que assim dispõe: ‘Preclusa a decisão de
desentranhamento da prova declarada inadmissível, esta será
inutilizada por decisão judicial, facultado às partes
acompanhar o incidente’ (grifei)”.
Como não poderia deixar de ser, esse eg. TRF da 4ª
Região também vem sufragando a orientação consolidada na
jurisprudência da Suprema Corte, como se pode ler no expressivo
acórdão com que a sua 8ª Turma, no mesmo contexto das investigações
consubstanciadas na “Operação Lava Jato”, proveu a Apelação Criminal
nº. 5081686-38.2014.4.04.7000/PR, sendo Relator o eminente
Desembargador Federal JOÃO PEDRO GEBRAN NETO, em cujo voto condutor
da decisão unânime então proferida se proclamou que:
“2. O artigo 5º da Constituição Federal estabelece
que:
XI - a casa é asilo inviolável do indivíduo,
ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do
morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre,
ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por
determinação judicial.
O conceito normativo de 'casa', no entanto, é mais
abrangente. De acordo com o artigo 246 do Código de Processo
Penal, o disposto em relação às buscas domiciliares também se
aplica quando se tiver de proceder a busca em compartimento
habitado ou em aposento ocupado de habitação coletiva ou em
compartimento não aberto ao público, onde alguém exerce
profissão ou atividade.
A busca e apreensão é medida de natureza cautelar,
excepcional, destinada a viabilizar a obtenção de dados
probatórios e deverá ser determinada somente quando fundadas
razões a autorizarem (artigo 240 do CPP).
O Estatuto Processual estabelece os requisitos do
mandado:
Art. 243. O mandado de busca deverá:
I - indicar, o mais precisamente possível, a
casa em que será realizada a diligência e o nome do
respectivo proprietário ou morador; ou, no caso de busca
pessoal, o nome da pessoa que terá de sofrê-la ou os
sinais que a identifiquem;
II - mencionar o motivo e os fins da
diligência;
III - ser subscrito pelo escrivão e assinado
pela autoridade que o fizer expedir. (destaquei)
46
3. Na hipótese, o mandado nº 8834596 determinou a
realização de busca e apreensão na Rua Gomes de Carvalho, 1510
- Itaim Bibi, São Paulo/SP, endereço da SEDE DA EMPRESA GALVÃO
ENGENHARIA, CNPJ 01.340.937/0001-79, tendo por objeto a coleta
e provas relativas à prática pelos investigados dos crimes de
cartel ou de frustração de licitação, crimes de lavagem de
dinheiro, de corrupção e de falsidade, além dos crimes
antecedentes à lavagem de dinheiro (...). Restou consignado no
mandado que a autorização judicial abrange busca e apreensão em
qualquer andar ou sala dos edifícios sede da empresa que for
pertinente segundo avaliação da autoridade policial, inclusive
o respectivo setor jurídico, limitado neste caso a busca e
apreensão a elemento que constitui o corpo de delito.
No caso, ainda que a decisão transcrita pelo Juízo a
quo e o mandado tenham consignado que a medida não ficasse
restrita a um andar, não há dúvidas de que a possibilidade de
busca e apreensão em qualquer andar ou sala do edifício, se
assim entendesse pertinente a autoridade policial, só poderia
se dar em relação à empresa GALVÃO ENGENHARIA S/A, sob pena de
ampliação irrestrita da constrição.
Como já mencionado, são exigidas fundadas razões
para a determinação de busca e apreensão, não se podendo
acolher o mandado genérico, franqueando amplo acesso a qualquer
lugar. Tratando-se de decorrência natural dos princípios
constitucionais que protegem tanto o domicílio, quanto a vida
privada e a intimidade do indivíduo, torna-se indispensável que
o magistrado expeça mandados de busca e apreensão com objetivo
certo e contra pessoa determinada. Não é possível admitir-se
ordem judicial genérica, conferindo ao agente da autoridade
liberdade de escolha e de opções a respeito dos locais a serem
invadidos e vasculhados (NUCCI, Guilherme de Souza. Código de
Processo Penal Comentado. 14 ed. Rio de Janeiro: Forense, 2015,
pp. 601/602).
No caso, os documentos anexados à inicial pela
requerente deixam claro que se trata de pessoas jurídicas
diferentes, com CNPJ e endereço distintos e estatuto social
próprios, ainda que pertencentes ao mesmo grupo econômico:
(a) Galvão Engenharia S/A: CNPJ nº 01.340.937/0001-
79, com sede na Rua Gomes de Carvalho, nº 1510, 2º andar,
conjuntos 21 e 22 (OUT3);
(b) Galvão Participações S/A: CNPJ nº
11.284.210/0001-75, com sede na Rua Gomes de Carvalho, nº 1510,
19º andar, conjunto 192, sala 23 (OUT4).
Cumpre salientar que a representação da autoridade
policial aponta especificamente a sede da empresa Galvão
Engenharia S/A e a decisão que deferiu o pedido nada menciona
sobre a requerente (Galvão Participações S/A).
Depreende-se das manifestações que antecederam a
busca, que a autoridade policial e o órgão ministerial não
conheciam, ou menos não mencionaram, qualquer elemento que
47
justificasse a realização da busca e apreensão na sede da
Galvão Participações S/A.
A possibilidade de não haver autonomia absoluta
entre as empresas ou mesmo de envolvimento dos acionistas da
holding nos delitos investigados deveriam ser objeto de
requerimento e apreciação próprios, não tendo aptidão para
legitimar a medida que excedeu seus limites.”
Em síntese, a busca e apreensão é um meio de
obtenção de prova, cuja produção implica restrição das garantias
legais e constitucionais da privacidade, da intimidade e da
inviolabilidade do domicílio. Justamente por isso devem ser
realizadas dentro dos estritos e precisos limites legais, sob pena
de os elementos de prova por meio delas obtidos serem considerados
prova ilícita e portanto inadmissível no processo (arts. 5º, LVI, da
CF e 157 do CPP), como ocorre no caso concreto desta impetração, em
que as impetrantes foram atingidas pelas medidas constritivas de
busca e apreensão, sem qualquer fundamentação pertinente, como
demonstrado exaustivamente ao longo das razões do writ.
Ademais, com relação às empresas impetrantes,
verificou-se grave violação do art. 243, II e II, do CPP, porquanto
as buscas e apreensões foram determinadas por extensão e executadas
sem mandados judiciais específicos contra pessoas jurídicas e
pessoas físicas (seus respectivos dirigentes) não relacionados às
investigações e com inadmissível generalidade e abrangência,
incidindo na censura veiculada pelos notáveis precedentes do Supremo
Tribunal Federal e da 8ª Turma do TRF/4ª Região, retro invocados e
transcritos. Afinal, a orientação que presidiu a decisão e a
execução das buscas e apreensões equivale a “delegar a extensão [da
busca e apreensão] à autoridade policial”, o que discrepa, “a mais
não poder, da ordem jurídica em vigor” (STF, MS nº. 23.454/DF) ou
constituiu inadmissível “ampliação irrestrita da constrição”, para
usar a expressão com que a eg. 8ª Turma do TRF/4ª Região repeliu
decisão idêntica à impugnada nesta impetração.
CONCLUSÕES E PEDIDO
Ante o exposto, sendo certo que as especulativas
buscas e apreensões ora impugnadas foram autorizadas em 19/06/2015 e
executadas em 19/06/2015 contra as impetrantes ODEBRECHT S/A e
48
ODEBRECHT ENGENHARIA DE PROJETOS LTDA, bem como contra seus
respectivos dirigentes, sem a indispensável fundamentação e sem o
indispensável mandado exigidos pelos arts. 5º, XI, e 93, IX, da
Constituição Federal, 240, § 1º, e 243, incisos I e II, do CPP, a
par de as mesmas impetrantes e seus respectivos dirigentes não terem
sido correlacionados às investigações na decisão de 15/06/2015 nos
autos do Pedido de Busca e Apreensão Criminal 5024251-
72.2015.4.04.7000 (Processo Eletrônico – E-Proc V2-PR), requerem a
esse eg. Tribunal:
a) que se conceda medida liminar, a teor do art. 7º,
III da Lei nº 12.016/2009, para suspenderem-se os efeitos do ato
coator (ilegais e inconstitucionais buscas e apreensões realizadas
no dia 19/06/2015 nos endereços das impetrantes) no que pertine ao
exame e à utilização dos elementos (documentos, equipamentos e
mídias) nelas coligidos, até o julgamento final do mandamus,
considerando, inclusive, não apenas o fumus boni iuris demonstrado
nas razões da impetração, mas o periculum in mora consubstanciado na
utilização do produto da ilicitude em processo penal;
b) que se notifique a autoridade coatora, no caso o
MM. Juiz Federal da 13ª Vara Federal de Curitiba – Seção Judiciária
do Paraná, a teor do art. 7º, I, da Lei nº. 12.016/09, do conteúdo
da inicial da impetração, enviando-lhe pela via eletrônica cópia
dela e dos documentos que a instruem, a fim de que, no prazo de 10
(dez) dias, preste as informações que lhe aprouver acerca da
impetração;
c) que se dê ciência do feito ao órgão do Ministério
Público Federal vinculado à investigação que deu origem à busca e
apreensão, enviando-lhe cópia da inicial sem documentos, para que,
querendo, ingresse no feito como interessado (art. 7º, II, da Lei
nº. 12.016/09);
d) que seja ouvido o Ministério Público Federal,
através da d. Procuradoria Regional da República oficiante perante
esse eg. Tribunal Regional Federal da 4ª Região, para que opine
sobre os termos da impetração, dentro do prazo improrrogável de 10
(dez) dias;
49
e) que se conceda, finalmente, o mandado de
segurança para declarar-se a nulidade ou cassarem-se as ilegais e
inconstitucionais buscas e apreensões ora impugnadas, reconhecendo-
se e declarando-se, com efeito, a ilicitude e a inadmissibilidade de
todos os elementos de prova delas decorrentes, com a devolução às
impetrantes dos documentos, mídias e equipamentos indevidamente
apreendidos.
Requerem, por fim, a juntada das anexas guias de
recolhimento de custas judiciais, ressalvando que se trata de causa
de valor inestimável.
Pedem deferimento.
De Brasília para Porto Alegre, 15 de outubro de 2015.
A. Nabor A. Bulhões José Carlos Porciúncula
OAB/DF 1.465-A OAB/DF 28.971
50